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segunda-feira, 11 de abril de 2016

A Menina que Nunca Chorava. Torey Hayden. «Com um QI que depressa descobrimos ser superior a 180, Sheila era totalmente eléctrica. Na verdade, tinha uma energia mais parecida com a atómica»

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«(…) Eu adorava as minhas crianças, mas a verdade é que não eram muito inteligentes. Na sua maioria, as crianças com problemas emocionais despendem tanta energia para os superar que lhes sobra pouca para a aprendizagem. Além disso, é frequente ocorrerem outras síndromas aliadas aos problemas psicológicos, ora contribuindo para eles, ora resultantes dos mesmos. Por exemplo, duas das minhas crianças sofriam de síndroma de alcoolismo fetal e uma outra tinha um problema neurológico que lhe causava uma lenta deterioração do sistema nervoso central. Como consequência, nenhuma delas correspondia ao padrão etário a que pertencia, apesar de algumas possuírem uma inteligência normal. Por isso, foi para mim uma surpresa descobrir, durante os primeiros dias de permanência de Sheila entre nós, que ela sabia efectuar correctamente operações de somar e de subtrair, uma vez que só tinha frequentado três meses do primeiro ano de escolaridade. Tive uma surpresa ainda maior alguns dias mais tarde, quando descobri que sabia os significados de palavras pouco comuns. Uma delas era chattel (escravo ou escrava).
[…]
Com um QI que depressa descobrimos ser superior a 180, Sheila era totalmente eléctrica. Na verdade, tinha uma energia mais parecida com a atómica. Descobrir que Sheila era uma criança com elevados dotes intelectuais em nada contribuía para alterar a sua pobreza opressiva, os seus antecedentes de violência ou a continuação do seu comportamento permanentemente insólito. Sem saber exactamente por onde começar, quando era necessário melhorar tantos aspectos, comecei pelas coisas mais simples, aquelas que sabia estarem ao meu alcance. A higiene de Sheila era consternadora. Literalmente, tinha apenas uma muda de roupa: uma T-shirt desbotada às riscas castanhas e um par de jardineiras coçadas e demasiado pequenas. A condizer, calçava um par de sapatilhas vermelhas e brancas esburacadas nos dedos. Usava roupa interior, mas não tinha meias. Se alguma destas peças de roupa já rinha sido lavada, era algo difícil de provar. Era óbvio que Sheila não era lavada. A sujidade estava entranhada nas suas mãos, nos cotovelos e à volta dos tornozelos, ao ponto de se terem formado linhas escuras na pele, nessas zonas do corpo. Para piorar a situação, fazia muitas vezes chichi nas calças. O cheiro pestilento de urina entranhava-se em qualquer parte da sala de aula por onde Sheila passasse. Quando a inquiri acerca das suas instalações sanitárias, fiquei a saber que não tinham água corrente. Parecia ser o melhor ponto de partida. A sua proximidade era tão desagradável que provocava em qualquer de nós uma sensação de repulsa; assim, muni-me de toalhas, sabonete e champô e comecei a dar banho a Sheila no grande lava-louça que havia ao fundo da sala de aula.
Estava a lavá-la quando, pela primeira vez, reparei nas cicatrizes. Eram pequenas, redondas e numerosas, especialmente ao longo dos braços e no interior dos antebraços. As cicatrizes eram velhas e tinham sarado há muito tempo, mas reconheci-as pela sua natureza: eram marcas deixadas por um cigarro em contacto com a pele. É o teu pai quem te faz estas coisas?, perguntei, tentando o mais possível manter um tom de voz natural e informal. O meu papá não fazer isso! Não me fazer mal, respondeu, num tom irado. Ele gostar muito de mim. Percebi que ela sabia o que eu estava a perguntar. Fiz um gesto afirmativo com a cabeça e retirei-a da água para a secar. Durante alguns momentos, Sheila manteve-se calada, mas subitamente, voltou-se para me fitar nos olhos. Mas sabes o que a minha mamã fazer, um dia? Não. O que foi? Levantou uma perna e virou-a para que eu visse. Na parte posterior, mesmo acima do tornozelo, havia uma enorme cicatriz branca com cerca de cinco centímetros de comprimento. A minha mamã empurrar-me para fora do carro e eu cair e uma pedra cortar-me a perna... mesmo aqui. Estás a ver? Debrucei-me para examinar a perna. O meu papá gosta muito de mim. Não abandonar-me em nenhuma estrada. Não se fazer isso com crianças pequenas. Pois não, não se deve fazer isso». In Torey Hayden, 1995, A Menina que Nunca Chorava, tradução de Fernando Antunes, Editorial Presença, 2007, 2012, Lisboa, ISBN 978-972-233-804-2.

Cortesia de EPresença/JDACT

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A Menina que Nunca Chorava. Torey Hayden. «Estava sob rigorosa vigilância, o que significava que teria de ser provisoriamente mantida na escola, dada a especificidade da lei; mas não tinha de me sentir obrigada a ensiná-la»

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«(…) Mas no Inverno ficavam superpovoados por aqueles que não conseguiam arranjar algo melhor para viver. Era aí que Sheila vivia com o pai. Toxicómano e com problemas de alcoolismo, o pai de Sheila vivera na prisão a maior parte da curta vida da menina. Não tinha emprego. Estando naquela altura em liberdade condicional, seguia um programa de reabilitação contra excesso de álcool e pouco mais fazia. A mãe de Sheila tinha apenas catorze anos de idade quando, após ter fugido de casa, conheceu o pai de Sheila e engravidou. A criança nascera dois dias antes de a mãe completar quinze anos. Dezanove meses depois, dava à luz o segundo filho, um rapaz. A ficha não continha muito mais informações acerca da mãe, mas não era difícil ler nas entrelinhas uma história de drogas, álcool e violência doméstica.
Por qualquer razão, deve ter ficado farta, já que abandonou a família quando Sheila tinha quatro anos de idade. Segundo o breve relatório, aparentemente, tencionara levar com ela os dois filhos, mas Sheila foi posteriormente encontrada abandonada num troço de auto-estrada, cerca de cinquenta quilómetros a sul da cidade. Da mãe de Sheila e do seu irmão Jimmie nunca mais se ouviu falar. A maior parte do dossiê relatava em pormenor o comportamento de Sheila. Em casa, o pai parecia não ter qualquer controlo sobre ela. Por diversas vezes , fora encontrada a deambular pelo recinto do campo a altas horas da noite. Já tinha um cadastro por fogos postos e, por três ocasiões, fora indiciada pela polícia por atitudes criminosas, o que constituía um feito para uma criança de seis anos de idade. Na escola, Sheila recusava-se frequentemente a falar e, por conseguinte, a ficha não continha qualquer informação sobre o que pudesse ter aprendido.
Frequentara o infantário e o primeiro ano da escola primária que ficava perto do campo de imigrantes, até se dar o incidente com o rapazinho, mas não havia relatórios de avaliação. Em vez dos habituais resultados dos testes e dos relatórios da aprendizagem, havia um rol de episódios de terror que descreviam ao pormenor o comportamento destrutivo e frequentemente violento de Sheila. No final da ficha havia um breve relatório do incidente com o rapazinho. O juiz concluiu que Sheila estava fora do controlo dos pais e que o mais aconselhável seria colocá-la numa unidade segura que melhor satisfizesse as suas necessidades. Neste caso, referia-se à unidade de cuidados infantis do hospital psiquiátrico estadual. Infelizmente, este encontrava-se cheio aquando da audiência, e Sheila teria de aguardar por uma vaga. Posteriormente, fora apensa ao relatório uma anotação que salientava a necessidade de lhe ser proporcionado algum tipo de educação, em virtude da sua idade e dos requisitos legais, mas ninguém se incomodara a propor uma solução.
Estava sob rigorosa vigilância, o que significava que teria de ser provisoriamente mantida na escola, dada a especificidade da lei; mas não tinha de me sentir obrigada a ensiná-la. Com a chegada de Sheila, a minha sala de aula transformou-se num redil. Naquela fase da minha carreira, a juventude era o meu dom mais valioso. Inflamada de idealismo, tinha a forte convicção de que não havia crianças problemáticas, mas tão-só uma sociedade problemática. A minha relutância inicial em aceitar Sheila devera-se ao facto de ter a sala repleta e os recursos esgotados; nada tinha que ver com a criança propriamente dita. Assim, uma vez que fiquei com ela, considerei-a como minha; e a minha aula não era um redil! Tinha uma firme convicção na integridade humana e que esta era um direito inalienável de cada uma das minhas crianças.
Bem, quase. Logo à partida, Sheila provocara um forte abalo nas minhas convicções, e começara nesse mesmo dia. À hora do almoço, enquanto estava reunida com Anton no gabinete principal, examinando a ficha de Sheila, ela semeava o pânico na nossa sala de aula, entretendo-se a retirar os peixes dourados do aquário e a extrair-lhes os olhos. Sheila era a prova de que o caos viera para se instalar, vestido com jardineiras de ganga e uma T-shirt desbotada. Falava sempre com uma voz esganiçada. Tudo em que tocava ficava quebrado, amolgado, esmagado ou desfigurado. E toda a gente, incluindo eu, era vista como O Inimigo. Ela agia de um modo que Anton denominou de modelo animal. Não havia muito de modelo de criança, nos primeiros dias. Sheila interpretava o mais ligeiro movimento inesperado como um ataque. Os olhos ficavam sombrios, o rosto corava, o corpo ganhava uma rigidez de alerta e, a partir daquele momento, a questão a ponderar era se ela iria lutar, entrar em pânico ou fugir. Quando estava sintonizada no modelo animal, os nossos métodos aproximavam-se muito mais da domesticação do que do ensino. Ainda assim... Sheila era diferente. Havia algo de eléctrico nela, nos seus olhos, na precisão dos seus movimentos, que se impunha a tudo, mesmo nos seus momentos mais agitados. Eu não conseguia distinguir o que era, mas pressentia-o». In Torey Hayden, 1995, A Menina que Nunca Chorava, tradução de Fernando Antunes, Editorial Presença, 2007, 2012, Lisboa, ISBN 978-972-233-804-2.

Cortesia de EPresença/JDACT