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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A Costureira. Kate Alcott. «O seu patrão lhe paga? Não pelos vestidos. Mas sou boa, e mereço ser paga. Talvez isso fosse arrogante demais. Ela respirou fundo e lançou todas as fichas. Quero trabalhar com a senhora. É a melhor estilista do mundo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cherbourg, França. 10 de Abril de 1912
«(…) Referências? Posso pedir que sejam enviadas pelo correio. Qualquer coisa que a senhora quiser. Lá no meio do Atlântico? Sempre há um marconigrama. Tess havia lido sobre eles e esperava que estivesse dizendo a coisa certa. Lucile de repente se cansou daquele vaivém. Lamento, não sei nada a seu respeito, disse. Não será possível. Ela se virou para conversar com Cosmo. Desesperada, Tess teve uma ideia. Olhe, por favor, olhe, pediu, abrindo a gola do vestido. Eu fiz isso. Tentei copiar a gola de um dos seus vestidos que vi no jornal. É uma cópia ruim, claro, mas... Nada mau, murmurou Elinor, observando a gola. Estava primorosamente virada, um linho firme desenhado para ser usado tanto aberto como fechado, requerendo pontos cuidadosos. Um trabalho bastante complexo. Incomum para uma servente. Lucile lançou um olhar interessado na direcção de Tess, depois inspecionou a gola com os dedos. Era um de seus melhores projectos. A garota havia cortado a gola em proporção perfeita com o seu vestido e costurado à mão. Não havia uma só ruga no tecido. Você está dizendo que fez isso?, inquiriu ela. Sim, fiz. Quem a ensinou a costurar? Minha mãe, que é muito habilidosa. Tess se empertigou com orgulho. Sou conhecida no condado. E corto os meus próprios modelos. Todo mundo corta, minha querida. Isso só requer tesoura. Está querendo dizer que desenha, presumo eu. Lucile estendeu a mão sem cerimónia e ergueu a manga do vestido de Tess, notando a habilidade do trabalho de montagem da garota. Sim. Desenho e costuro. Faço tudo. O seu patrão lhe paga? Não pelos vestidos. Mas sou boa, e mereço ser paga. Talvez isso fosse arrogante demais. Ela respirou fundo e lançou todas as fichas. Quero trabalhar com a senhora. É a melhor estilista do mundo, e não posso acreditar na sorte que tive de encontrá-la. Os seus vestidos são uma inspiração... Quem é capaz de desenhar como a senhora? Por favor, me dê uma oportunidade. A senhora não se vai arrepender.
Lucile encarou a menina, com expressão indecifrável. Algo passou por seus olhos enquanto os espectadores ao redor caíam em silêncio, esperando o que viria em seguida. Ela provavelmente é independente demais para você, disse Elinor baixinho, de lado. Nunca se sabe. Ela talvez não seja bem o que diz ser. A expressão de Lucile não mudou, embora um pequenino sorriso tenha curvado os seus lábios. Talvez. Mas eu poderia manter minhas joias trancadas no cofre do navio, não é? Ela se dirigiu a Tess. Sente-se satisfeita em ser uma empregada? Não estou oferecendo nada mais do que isso. Farei o que a senhora quiser. Só quero uma oportunidade de provar o meu valor e trabalhar para a senhora. Sim, sim, ela faria qualquer coisa. Não sonharia acordada nem faria montinhos com os cantos dos lençóis, trabalharia, aprenderia e mudaria tudo. Tess estava respirando com dificuldade. Sentiu as dobradiças do destino rangerem, uma porta se abrir..., ou será que se estava fechando? Que ela goste de mim, rezou ela.  Qualquer coisa? Tess se empertigou. Qualquer coisa respeitável, nada mais, disse.
Lucile avaliou com o olhar a silhueta da garota, observando o cabelo escuro emaranhado, as maçãs do rosto altas e rosadas e o queixo altivo, as botas desgastadas com um cadarço partido. Vamos embarcar em breve. Está preparada para partir daqui a uma hora, mais ou menos?, inquiriu ela. Sim, posso partir imediatamente. Tess emprestou um tom duro e rígido às suas palavras. Só uma oportunidade, pensou ela, não estrague tudo. O grupinho ao redor de Lucile parecia estar contendo a respiração colectivamente. Ela hesitou mais um segundo. Certo, está contratada, disse no final. Como empregada, apenas. Elinor lançou-lhe um olhar surpreso. Isso não é um pouco impulsivo, Lucy? A irmã não respondeu, simplesmente continuou olhando para Tess como se focasse o vazio, à distância. Obrigada, a senhora não se vai arrepender, disse Tess, trémula, tentando não esmorecer diante do olhar incessante de Lucile. Você precisa se vestir adequadamente para o trabalho, quer seja uma pessoa instruída ou não. Lucile estava pisando em terreno firme novamente. Deve-me chamar de madame. E precisa de uma touca. Ela fez um sinal para Cosmo. Meu marido, Sir Cosmo, cuidará dos detalhes. Tess sorriu gentilmente para o homem alto e magro de bigode grande e bem cuidado que deu um passo à frente para falar com ela. Depois de lhe fazer algumas perguntas, teve uma conversa sussurrada com um funcionário da White Star Line. Era, claro, uma passagem para uma servente, portanto não era necessário passaporte. Não haveria problemas? Eles terminaram a conversa com um aperto de mão firme. Tess expirou o ar com tanta intensidade que sentiu tontura. Sim, a porta estava-se abrindo.
Ela segurou no corrimão, descendo atrás de lady Duff Gordon por degraus escorregadios até um escaler com aparência encardida e meio frágil. Um oficial de uniforme da White Star dissera a todos os passageiros que o navio era grande demais para o porto raso de Cherbourg, portanto todos tinham de ir utilizando o escaler. Quão grande seria o navio, para ter provocado o rompimento do cabo de ancoragem de outra embarcação a caminho de Southampton? Tess procurou enxergar através da neblina cinzenta e fina, ansiosa para vislumbrá-lo. A névoa levantou. E lá estava ele, assomando tão altivo, tão orgulhoso e distinto, que parecia governar os mares, e não o contrário. Quatro chaminés enormes se erguiam graciosamente em direcção ao céu. Nove deques, e Tess sentiu o pescoço doer no esforço de contá-los. Não era de admirar que se chamasse Titanic. As pessoas que se amontoavam para prender o escaler ao navio estavam fora de proporção em relação a ele, mais pareciam formigas atarefadas.
Um marinheiro estendeu a mão para Tess, chamando-a para subir na prancha de embarque. Ela obedeceu, concentrando-se agora em colocar um pé atrás do outro. Estava acontecendo, não tinha mais volta. Adeus, Sussex; adeus, patroa de rosto enrugado e filho tarado; adeus, todos. Até ao seu lar, à sua mãe, aos irmãos e irmãs, a quem talvez ela jamais voltasse a ver novamente. O seu coração tremeu. E ela deu o passo seguinte com firmeza. Estava no topo. Um casal à frente, um homem com um queixo belamente esculpido e uma mulher com um casaco de pele branca, deu um passo para dentro do navio e parou para um abraço. Que bonito, que espontâneo. O homem, cujas mãos cheias de veias denunciavam que ele não era tão jovem quanto tinha parecido à primeira vista, de repente rodopiou a mulher num movimento preciso que terminou por fazê-la girar, rindo, para se aninhar nos braços dele. Os dois saltitaram com leveza, afastando-se, diante de aplausos aqui e ali. Seriam artistas?
Bem à frente dela estava um homem com rosto belo e inquieto dominado por um queixo forte e bem modelado e um nariz aquilino delgado. As suas mãos estavam enfiadas nos bolsos de um casaco de cashmere marrom imaculado. Seus olhos pareciam nublados. De tristeza? O cabelo estava ficando grisalho nas têmporas; provavelmente tinha uns quarenta anos, adivinhou ela. Um homem de negócios, que olhava constantemente o relógio de pulso. Parecia envolvido pela névoa, e não reagiu ao pequeno show à sua frente, apenas parou um instante para observar o casal alegre com o que ela supôs ser uma certa melancolia». In Kate Alcott, A Costureira, Geração Editora, tradução de Ana Mesquita, 2012/2013, ISBN 978-858-130-131-0.

Cortesia de Geração E./JDACT

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A Costureira. Kate Alcott. «Acha que ela está fugindo de alguém? Talvez da polícia? De um homem? Não tenho como saber, mas com certeza tu vais tecer uma bela história com isso, disse Lucy, acenando para Cosmo, que se aproximava…»

jdact

Cherbourg, França. 10 de Abril de 1912
«(…) As docas estavam escorregadias por causa das algas. Com o coração acelerado, ela encolheu-se entre o burburinho e o caos ao seu redor e inspirou o ar penetrante e salgado que vinha do mar. Mas onde estavam as placas anunciando os empregos? Ela abordou um homem metido num uniforme com grandes botões de metal e perguntou num francês hesitante, e depois num inglês urgente, quem estava encarregado de contratar funcionários para a limpeza e a cozinha daquele novo e grande navio. Chegou tarde, minha jovem, os serviçais já foram todos contratados e os passageiros logo estarão embarcando. Má sorte a sua, receio. Ele deu-lhe as costas. Não importava quanto ela sorrisse, seu plano estava ruindo. Que idiota... ,ela deveria ter ido antes. E agora? Engoliu o sentimento vazio de não saber o que viria a seguir e tentou pensar. Encontre famílias; procure crianças pequenas. Ela daria uma boa ama. Então ter sete irmãos e irmãs menores não contava como experiência? Ela estava pronta para isso, sem problema nenhum; só precisava encontrar a pessoa certa e dizer as coisas certas para conseguir o que queria. Ela não iria desistir, não seria mesmo. Iria embora de qualquer jeito. Mas ninguém lhe deu a mínima. Um casal inglês de idosos recuou quando ela perguntou se eles precisavam de companhia para a viagem. Quando se aproximou de uma família com crianças e ofereceu seus serviços, eles a olharam com desconfiança, sacudiram a cabeça com educação e se afastaram. O que ela esperava? Ela devia estar parecendo desesperada, com os cabelos desgrenhados e tudo o mais. Lucy, olha aquela garota ali. Elinor apontou um dedo delicado e bem cuidado para a frenética Tess. Ela é uma beldade. Linda, de olhos grandes. Olha só ela correndo para falar com as pessoas. Creio que está tentando entrar no navio. Acha que ela está fugindo de alguém? Talvez da polícia? De um homem? Não tenho como saber, mas com certeza tu vais tecer uma bela história com isso, disse Lucy, acenando para Cosmo, que se aproximava. Ele parecia, como sempre, meio alheio ao ambiente. Olhos frios, expressão calma; sempre no comando. Seguindo-o, vinha um mensageiro tímido. Lucile, houve um problema... Cosmo iniciou. Eu sabia, interrompeu Lucile, enrijecendo a mandíbula. Foi Hetty, não é? Ela disse que não pode vir. A mãe está doente, informou o mensageiro. Ele inclinou-se para a frente, quase numa reverência nervosa, o melhor que pôde, porque Lucile agora estava furiosa. Diga a essa garota que ela não pode desistir na hora de partirmos! Quem ela pensa que é? Se não embarcar connosco, está despedida! Você lhe disse isso? Ela olhou carrancuda para o homem. Sim, madame, ele arriscou-se a responder.
Tess ouviu a confusão e parou, atraída pela visão das duas mulheres. Seria possível? Sim, uma delas usava o mesmo chapéu grandioso com a belíssima fita verde que ela vira da janela; e estava bem ali, distraidamente dando leves batidas no chão com a ponta daquela mesma sombrinha. A voz aguda da outra mulher captou a sua atenção. Que desculpa miserável!, vociferou ela. Alguém não tinha aparecido para a viagem, alguma espécie de empregado, e aquela ‘pessoa’ de cabelo ruivo vivo e batom cor de carmesim estava furiosa. Que aparência formidável tinha ela. O rosto de ossos marcantes, imóvel, não admitia concessões, e os seus olhos arregalados pareciam capazes de mudar de suaves para duros numa questão de segundos. Naquele momento, não havia nenhuma suavidade neles. Quem é ela?, perguntou Tess a um rapaz que se juntara ao grupo. A sua voz tremia. Nada estava certo. Tu não sabes? Ela olhou de novo para a mulher e notou como as pessoas diminuíam os passos ao se aproximar, sussurrando, lançando-lhe olhares de admiração. Sim, havia algo familiar. Não acredito..., disse ela num fio de voz. É Lucile Gordon.
Óbvio. Couture, você sabe. E a outra mulher é a irmã dela, Elinor Glyn. Ela é de Hollywood, escreve romances. Alguns bastante escandalosos, na verdade.  Tess mal ouviu o que ele dizia. Aquela personagem irada era a estilista mais famosa do mundo, alguém cujos lindos vestidos ela havia visto nos jornais, e agora estava a poucos metros de distância. Era a sua chance, era a sua chance. Lady Duff Gordon, não acredito no que estou vendo!, irrompeu Tess, abrindo caminho. Eu a admiro tanto! A senhora é tão talentosa. Já vi fotos dos seus vestidos que me fizeram sonhar. Ela estava matraqueando, mas não se importava. A única coisa que queria era a atenção de Lucile. A estilista a ignorou. Eu adoraria trabalhar para a senhora, implorou. Conheço o ramo. Sou costureira, faço trabalhos muito bons, poderia ser de grande ajuda para a senhora. Ela pensou, enlouquecida: e agora, o que dizer?  Sou óptima com casas de botões, qualquer coisa que a senhora necessite. Por favor... Ela está desesperada, murmurou Elinor com um risinho enquanto endireitava o seu chapéu elaborado. Lucile virou-se na direcção de Tess. Você sabe de que trabalho se trata?, inquiriu ela. Tess hesitou. É para ser minha empregada pessoal. E agora, continua interessada? Tudo bem. Qualquer coisa, qualquer coisa para entrar nesse navio. Trabalhar com lady Lucile seria uma oportunidade inacreditável. Onde trabalha? O que faz? Eu..., trabalho numa casa em Cherbourg. E faço vestidos. Tenho clientes muito satisfeitos. Uma servente, nenhuma surpresa, murmurou Elinor. Lucile a ignorou. O seu nome? Tess Collins. Tessie. Ah, sei. Não. Tess. Que seja. Sabe ler e escrever? Mas é claro!, Tess estava indignada. Os olhos de lady Duff Gordon reviraram-se com admiração diante daquele arroubo». In Kate Alcott, A Costureira, Geração Editora, tradução de Ana Mesquita, 2012/2013, ISBN 978-858-130-131-0.

Cortesia de GeraçãoE/JDACT

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A Costureira. Kate Alcott. «No alto da encosta, longe do ancoradouro, no meio das casas de tijolo que se espalhavam nos penhascos da costa da Normandia, Tess descia a escada até à sala de estar. À sua espera estava a patroa, uma inglesa empertigada com lábios tão finos…»

jdact e wikipedia

Cherbourg, França. 10 de Abril de 1912
«Tess puxou os cantos dos lençóis que acabara de recolher do estendal, tentou enfiá-los por baixo do colchão bem esticados e recuou para verificar o seu trabalho. Ainda meio malfeito e amarfanhado. O supervisor que administrava a casa com certeza inspecionaria aquilo e torceria o nariz, mas isso já não importava mais. Ela olhou pela janela. Uma mulher passava por ali, usando um chapéu esplêndido encimado por uma fita verde-escura brilhante e girando uma sombrinha vermelha, com uma expressão radiante e determinada. Tess tentou se imaginar andando assim com tanta confiança, sem ninguém para acusá-la de agir como se pertencesse a uma classe superior à sua. Quase podia sentir os seus dedos em redor do cabo macio e polido daquele guarda-chuva. Aonde estaria indo aquela mulher? Olhou para trás, para a cama feita pela metade. Chega de fantasias, nem mais um minuto. Caminhou para fora do quarto e parou, contida pela visão do próprio reflexo no espelho dourado de corpo inteiro do final ao corredor. Os seus longos cabelos escuros, como sempre, tinham escapado do desalinhado, embora a curvatura de seu queixo, que normalmente lhe conferia um ar de arrogância, continuasse intocada. Mas não havia como negar o vergonhoso ponto crucial: o que ela viu foi uma jovem magricela com um vestido preto e um avental branco, carregando uma pilha de roupa suja e que usava um chapéu idiota de servente bem no alto da cabeça. Uma imagem de servidão. Arrancou o chapéu e atirou-o em direcção ao vidro. Ela não era servente nenhuma. Era uma costureira, e das boas, e seria paga pelo seu trabalho. Tinha-se equivocado ao aceitar aquele emprego.  Tess enfiou as roupas sujas pelo alçapão da lavandaria e subiu a escada para o seu quarto no terceiro andar, desamarrando o avental pelo caminho. É agora. Chega de hesitação. Havia empregos disponíveis, disseram os estivadores, naquele navio gigantesco que estava zarpando para Nova Iorque. Ela correu os olhos pelo quartinho. Nada de malas: a patroa não a deixaria chegar à porta caso soubesse que ela estava indo embora. O retrato da sua mãe, sim. O dinheiro. Seu portfólio, com todas as suas criações. Tirou o uniforme, colocou o seu melhor vestido e enfiou algumas roupas de baixo, meias e o seu único outro vestido num saco de lona. Olhou para o vestido de baile inacabado que estava na máquina de costura, para os minúsculos lacinhos de veludo branco que ela havia prendido à mão com tanto esforço na seda azul enfunada. Outra pessoa teria de terminá-lo, alguém que fosse pago para isso. O que mais? Nada. Respirou fundo, tentando resistir ao eco da voz do seu pai na sua cabeça: Não seja metida, repreendia ele. Tu és uma garota do campo, faz o teu trabalho, mantém sempre a cabeça baixa. Recebe ordenado decente e suficiente; melhor não arruinar a vida com tanta ousadia. Não vou arruinar a minha vida, sussurrou. Vou transformá-la para melhor. Enquanto saía do seu quarto pela última vez, ela quase podia ouvir a voz dele acompanhando-a, rouca e raivosa como sempre: Cuidado, garota boba. As botas de salto de Lucile prendiam nas tábuas de madeira apodrecidas sob os seus pés enquanto ela abria caminho pela multidão no porto de Cherbourg. Ajeitou a estola de pele de raposa em redor do pescoço, deliciando-se com a maciez felpuda do pelo espesso, e empertigou a cabeça, atraindo muitos olhares, alguns motivados pela visão de seus cabelos ruivos de tom vivo, outros por saberem quem ela era. Olhou para a irmã, que andava rapidamente na sua direcção, cantarolando alguma canção nova e girando uma sombrinha vermelha. Tu gostas mesmo de bancar a jovial, não é?, disse. Tento de ser uma pessoa agradável, murmurou a irmã. Não preciso competir. Tu podes ficar com todas as atenções, disse Lucile com o seu tom mais áspero e altivo. Ah, para com isso, Lucy. Nenhuma de nós é deficiente nesse quesito. Tu andas rabugenta ultimamente. Se fosses apresentar uma colecção de Primavera em Nova Iorque dentro de poucas semanas, também estaria rabugenta. Tenho muito com que me preocupar com toda essa conversa de mulheres suspendendo as saias e achatando os seios. Tu, por outro lado, só precisas de escrever mais um romance sobre elas. As duas começaram o ziguezague entre as dúzias de malas e baús, cujas dobradiças de metal cintilavam à luz que caía, enquanto as suas saias de lã fina arrastavam camadas de poeira húmida. É verdade, as ferramentas da minha profissão são muito mais portáteis do que as tuas, disse Elinor, distraída. Com certeza que são. Sou obrigada a fazer esta travessia porque não tenho ninguém competente o bastante para cuidar do desfile, portanto eu mesma terei de estar presente. Então, por favor, não sejas frívola. Elinor fechou a sombrinha com um estalo e encarou a irmã, arqueando uma de suas sobrancelhas perfeitas. Lucy, tu és incapaz de ter senso de humor? Só vim aqui para te desejar bon voyage e acenar quando o navio partir. Devo ir embora agora? Lucile suspirou e tomou fôlego, inspirando profundamente. Não, por favor, disse ela. Gostaria tanto que viesses comigo. Vou sentir a tua falta. Adoraria ir, mas o meu editor quer aquelas provas de impressão revistas até o fim desta semana. A voz de Elinor tornou-se radiante mais uma vez. Mas tu tens o Cosmo, que é um doce, embora ele não goste de poesia. Um defeito mínimo. Ele é um querido, o melhor presente que te deu foi um livro. Fui grosseira? Mas a verdade é que ele não tem nenhum gosto literário. Elinor suspirou. E sabe como ser aborrecido. Tolice. Tu sabes disso tão bem quanto eu. Onde ele está? Lucile corria os olhos pela multidão, procurando a silhueta alta e angulosa de Sir Cosmo Duff Gordon. Esse atraso é de enlouquecer. Se tem alguém que consegue fazer as coisas funcionarem com eficiência, e na hora, é Cosmo. Claro. É o trabalho dele. Lucile lançou um olhar furioso para Elinor, mas a irmã já estava olhando para outra direcção, com uma expressão inocente.
No alto da encosta, longe do ancoradouro, no meio das casas de tijolo que se espalhavam nos penhascos da costa da Normandia, Tess descia a escada até à sala de estar. À sua espera estava a patroa, uma inglesa empertigada com lábios tão finos que pareciam ter sido costurados. Quero o meu pagamento, por favor, disse Tess, escondendo o saco de lona nas dobras da sua saia. Ela viu o envelope que aguardava por ela na mesinha de canto perto da porta e começou a se inclinar naquela direcção. Ainda não terminou o vestido para a festa, Tess, disse a mulher num tom mais autoritário que o normal. O meu filho mal conseguiu encontrar uma toalha no armário do corredor hoje de manhã. Agora ele irá encontra-lo. Ela não voltaria lá em cima. Nunca mais se deixaria encurralar naquele armário de roupas de cama, mesa e banho, desvencilhando-se dos dedos magros e ansiosos do filho adolescente dela. Aquele envelope era seu; ela pôde ver o seu nome escrito nele, e não estava disposta a ficar ali ouvindo as reclamações costumeiras antes de ele lhe ser entregue. Aproximou-se da mesa. Já disse isso antes. Vou lá em cima agora mesmo para testar. A mulher parou quando viu a garota estendendo a mão para apanhar o envelope. Tess, eu ainda não o entreguei! Talvez não, mas eu já fiz por merecê-lo, disse Tess com cuidado. A má-criação não é nada admirável, Tess. Tem andado muito misteriosa ultimamente. Se apanhar isso antes de lho entregar, terá ultrapassado os limites comigo. Tess respirou fundo e, sentindo-se ligeiramente tonta, apanhou o envelope e segurou-o contra o corpo, como se ele pudesse ser arrancado de suas mãos. Então já ultrapassei, disse ela. Sem esperar resposta, abriu a porta de entrada, ricamente ornada, que ela jamais teria de polir de novo e rumou para a saída. Depois de tanto sonho e reflexão, tinha chegado a hora». In Kate Alcott, A Costureira, Geração Editora, tradução de Ana Mesquita, 2012/2013, ISBN 978-858-130-131-0.

Cortesia de Geração E./JDACT

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Prooemium Galeatum. Rol de Cor… Camilo Cela. «… quando sai da cabeça e estabelece contacto com os espíritos que flutuam no éter. Paracelso, ao estudar o síndroma de Raymond que atingira a sua calosa tia Engrácia, observou que os…»

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Galeatus designava, em latim, o soldado armado de capacete
«No Lothus-Matra, livro sagrado dos sidónios que, regra geral, tem sido lido e interpretado de péssima forma, afirma-se que os cor… nascem no homem quando ele comete o pecado de pensar. Não penses, e não serás corn… (salmo ccxxiii), pois a substância dos pensamentos solidifica em forma de cor… quando sai da cabeça e estabelece contacto com os espíritos que flutuam no éter. Paracelso, ao estudar o síndroma de Raymond que atingira a sua calosa tia Engrácia, observou que os cor… produzem os antídotos necessários à luta contra os transtornos de carácter e memória, a amnésia topográfica, as anomalias de comportamento e a falta de coordenação das ideias, pois actuam como pára-raios precipitando o corisco nos abismos.
[…]

Rol de corn…
Corn… à aerosol. Aquele a quem as raízes e outras ramificações dos chavelhos podem causar transtornos nas vias respiratórias superiores, que só se poderão curar graças a uma terapêutica de inalações subtis e penetrantes. É espécie apreensiva, que sofre de rouquidão todas as manhãs ao levantar-se.
Corn… abaixo de cão. É aquilo a que vulgarmente se chama uma m… de corn…, espécie que nem sei como posso tratar dela; o melhor seria moê-la bem moída num moinho, ou, à falta deste, espremê-la num lagar.
Corn… agrícola. Aquele que enfeita o cor… com as espigas dos cereais. É espécie galhofeira, brincalhona e amiga da água clara do manancial. Os tratadistas consideram duas subespécies, a saber: A, corn…agrícola de Cervantes. Ou da terra de cervos e imaginário país da cornadaria que assim se chama; não se sabe ao certo onde fica mas, de qualquer modo, é topónimo muito usado. É mencionado na Comedia Florinea, e mestre Correas não chama assim à paisagem, mas sim ao paisano. B, corn… agrícola da Cornualha. Ou do imaginário país da cornudagem assim chamado; é região situada no extremo sudoeste da Grã-Bretanha e dela se fala na Carajicomedia, Copla. Ccxv, de juan de mena e assim como segue. lxxxv:

Na campina dos cor… evidentes
infindas variantes se mostravam;
Cornualha se chama; canaviais
as pessoas julgavam avistar.
Mas uns se distinguiam refulgentes
acima dos demais; fui perguntar,
delicado e prudente, a uma velha
que mistério seria; e ela em verso.

Também é mencionado na Comedia Florinea, Cena xi: Por esse caminho, acabarás por ser vizinho da Cornualha e obterás uma propriedade conhecida em Cervantes, onde andarás à caça de cucos. Mestre Correas, Vokabulario de Refranes i Frases proverbiales não o chama à comarca, mas ao comarcão: Kornualla. Kuklillo. Zervantes. Nome kon ke se moteja de korn…, komo kon cervo e kab…
Corn… badameco. Ou monte-de-m… Corn… modelo baixinho; costuma ter pretensões heráldicas e numismáticas. É espécie a que se tiram as peneiras com uma infusão daquela erva chamada ceragalho.
Corn… bajulador. Aquele que, a troco dum par de cor…, dá a galinha até ao próprio pai. É espécie que sabe muitos contos de sogras, curas, boticários, papagaios e outras pragas, calamidades e maldições».
[…]

In Camilo José Cela, Rol de Cornudos, Colecção Autores, Edições Afrodite, 1978.

Cortesia de Afrodite/JDACT

quarta-feira, 20 de março de 2013

Poesia. Francisco Rodrigues Lobo. «Os desencontros do barroco procedem à sucessão vertiginosa das interrogações. Real, só o encantamento dos vislumbres do desejo, as figurações do “muito imaginar”, como diz Camões»

Cortesia de wikipedia

Que Amor Sigo? Que Busco? Que Desejo?
Que amor sigo? Que busco? Que desejo?
Que enleio é este vão da fantasia?
Que tive? Que perdi? Quem me queria?
Quem me faz guerra? Contra quem pelejo?

Foi por encantamento o meu desejo,
e por sombra passou minha alegria;
mostrou-me Amor, dormindo, o que não via,
e eu ceguei do que vi, pois já não vejo.

Fez à sua medida o pensamento
aquela estranha e nova fermosura
e aquele parecer quase divino.

Ou imaginação, sombra ou figura,
é certo e verdadeiro meu tormento:
eu morro do que vi, do que imagino.

Soneto de Francisco Rodrigues Lobo, ‘Leiria

JDACT

domingo, 1 de julho de 2012

Folclore. Guilherme Nuno. «Morrer é o fim de cada um de nós. Morrer desastradamente como o Guilherme Nuno é uma injustiça. Ele merecia muitos anos de vida. Nós todos precisávamos dele»



jdact

NOTA: Ao arrumar uns livros na minha biblioteca, encontrei na letra F uma revista solta. Era uma homenagem a Guilherme Nuno, após o brutal acidente de viação que o vitimou, juntamente com sua esposa. Foi em 19 de Julho de 1971.

Pinharanda Gomes. Perda dolorosa e irreparável.
«Constituiu para mim um terrível choque a leitura do jornal de hoje, quando, desprevenidamente, me encontrei a ler a notícia da inesperada morte do bom amigo e grande folclorista português Guilherme Nuno, cuja dedicação à cultura popular, e cuja capacidade de trabalho, aliadas a uma notável sensibilidade de artista, faziam dele uma das grandes esperanças portuguesas por um folclore verdadeiro em Portugal.
Devia-lhe muitas atenções, uma das quais e não a menor, terá sido a de me ter querido entre os colaboradores da ‘Revista’, e de como tal me ter considerado, muito embora, nem sempre, e agora o lamento, eu tenha correspondido com a mesma generosidade do Guilherme Nuno.
Morrer é o fim de cada um de nós. Morrer desastradamente como o Guilherme Nuno é uma injustiça. Ele merecia muitos anos de vida. Nós todos precisávamos dele.
Aceite,  as minhas sinceras mágoas por uma perda tão dolorosa e irreparável como esta. E faço votos para que a dedicação, o espírito e o exemplo do Guilherme Nuno sejam pontos cardiais de futura acção de “Folcore”. Que Deus o tenha na Sua mão direita». In Pinharanda Gomes, Revista Folclore, nº 20, Agosto/Outubro, Ano III, 1971.

Cortesia de Folclore/JDACT

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A Bela Poesia. Sebastião da Gama. «Pecado, Amor? Pecado fôra apenas não fazer do pecado a força que nos ligue e nos obrigue a lutar lado a lado»


jdact

Somos de Barro

Somos de barro. Iguais aos mais.
Ó alegria de sabê-lo!
(Correi, felizes lágrimas,
por sobre o seu cabelo!)

Depois de mais aquela confissão,
impuros nos achamos;
nos descobrimos
frutos do mesmo chão.

Pecado, Amor? Pecado fôra apenas
não fazer do pecado
a força que nos ligue e nos obrigue
a lutar lado a lado.

O meu orgulho assim é que nos quer.
Há de ser sempre nosso o pão, ser nossa a água.
Mas vencidas os ganham, vencedores,
nossa vergonha e nossa mágoa.

O nosso Amor, que história sem beleza,
se não fôra ascensão e queda e teimosia,
conquista... (E novamente queda e novamente
luta, ascensão... ) Ó meu amor, tão fria,

se nascêramos puros, nossa história!

Chora sobre o meu ombro. Confessamos.
E mais certos de nós, mais um do outro,
mais impuros, mais puros, nós ficamos. 

Poema de Sebastião da Gama, in 'Pelo sonho é que vamos'

JDACT

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Festas do Povo, das Flores 2011. Campo Maior: «Passados sete anos, Campo Maior volta a realizar a sua maior tradição, o seu cartão de visita para Portugal e para o mundo entre 27 de Agosto e 4 de Setembro.



Cortesia de afdopovo



Sete anos depois da última edição, as Festas do Povo de Campo Maior voltam a realizar-se este ano, entre 27 de Agosto e 4 de Setembro.
«Estamos muito satisfeitos por esta manifestação e vontade em realizar as festas por parte dos habitantes da vila», disse o presidente da Associação das Festas do Povo de Campo Maior, recordando que o evento não se realiza desde 2004. De acordo com João Rosinha, “as festas são uma tradição secular do nosso povo e não podemos nem queremos perder esta manifestação da nossa identidade”. As Festas do Povo, são um evento tradicional único, contemplam a ornamentação das ruas de Campo Maior, sobretudo do centro histórico, com milhares de flores em papel, feitas pela própria população.


Cortesia de afdopovo



Estamos confiantes que conseguimos chegar até às 90 ruas inscritas. A maior parte delas, entre 85% a 90%, localizam-se no centro histórico da vila, salientou. Em tempos de crise, a organização pretende estimular a economia da vila e da região. No decorrer das festas, são esperados mais de um milhão de visitantes de todo o país e também turistas provenientes de várias partes do mundo, sobretudo da vizinha Espanha. «A realização das festas é bastante importante para a dinamização da economia da vila, da região e até da vizinha Extremadura espanhola, num raio de 120 quilómetros. Todos ficamos a ganhar», garantiu o presidente da associação. São muitas toneladas de papel, madeira, arame, esferovite e cola para a população iniciar os trabalhos, observou João Rosinha.



Cortesia de afdopovo



A Associação das Festas do Povo de Campo Maior pretende igualmente candidatar o evento cultural a Património da Humanidade, pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura). «Assim que passar a azáfama da organização dos trabalhos, vamos pensar, de uma forma mais séria, na candidatura a Património da Humanidade», esclareceu.
As Festas do Povo de Campo Maior consistem na decoração das ruas da vila, sobretudo no centro histórico, com flores de papel e outros objectos em cartão e papel, feitos pelos habitantes de cada uma das ruas. O trabalho desenvolvido em cada rua fica em segredo, mesmo para amigos e familiares dos moradores, e só é dado a conhecer na noite da «enramação», que antecede o início da celebração». In Café de Portugal, Associação das Festas do Povo, Câmara Municipal de Campo Maior.

A Amizade do amigo e colega CDT.
Cortesia do Café de Portugal/JDACT