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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Festas do Foral de Salvaterra de Magos. Dos Toiros e Fandango: «Festeja anualmente no mês de Junho de cada ano o seu Foral. As Largadas de Toiros, os Espectáculos, o Folclore assim como as actividades desportivas fazem desta festa um acontecimento com características nacionais»

Cortesia da comissaodefestas

«Salvaterra de Magos, como está comprovado pela sua história, festeja anualmente no mês de Junho de cada ano o seu Foral. As Largadas de Toiros, os Espectáculos, o Folclore assim como as actividades desportivas fazem desta festa um acontecimento com características nacionais.
Assim, a Associação de FESTAS DO FORAL DOS TOIROS E DO FANDANGO tem o prazer de Convidar o cidadão comum para uma visita de de 4 a 12 de Junho de 2011». In Comissão de Festas

http://www.festasdesalvaterra.org/index.php?view=article&id=1:4-a-12-junho-de-2011&format=phocapdf
http://www.carlindanet.com/festasdesalvaterra.org/download/programa.pdf

«A vila de Salvaterra de Magos está em contagem decrescente para a chegada das suas festas anuais, que vão decorrer entre 4 e 12 de Junho. Durante as Festas do Foral, dos Toiros e do Fandango, Salvaterra de Magos mostra aos seus milhares de visitantes as suas tradições de imponente vila ribatejana.
De 04 a 12 de Junho, as Festas do Foral, dos Toiros e do Fandango terão um programa muito diversificado e variado, com muita música, dança, desporto, fado, sevilhanas, tasquinhas e naturalmente as suas tão próprias e características entradas e largadas de toiros na avenida.
A programação deste ano inclui também homenagens a figuras da terra, nomeadamente a cavaleira Ana Batista, ao forcado António Lapa e ao Clube de Trampolins de Salvaterra». In CM de Salvaterra de Magos.

Cortesia da comissaodefestas

JDACT

quinta-feira, 10 de março de 2011

Salvaterra de Magos. Em torno do Foral. A Génese dum Concelho. Parte II. «Remetida à posse do rei, o Paul de Magos cedo veio o ser objecto da preocupação régia no sentido de se efectuar a secagem das suas terras e um posterior aproveitamento, tal como o foral de 1295 demonstra»


Cortesia de salvaterramagos

Com a devida vénia a Hermínia V. Vilar

Apenas em 1294 a posse do Paul passou a ser de D. Dinis.
«Esta outorga constituiu, assim, apenas um momento no processo de alienação de terras, até aí detidos pelo concelho escalabitano em favor, regra geral, do património régio, e contribuiu, para a consolidação duma política de incentivo ao povoamento e exploração dessas terras, cuja rentabilização implicava obras de alguma envergadura.
Remetida à posse do rei, o Paul de Magos cedo veio o ser objecto da preocupação régia no sentido de se efectuar a secagem das suas terras e um posterior aproveitamento, tal como o foral de 1295 demonstra.

De contornos indefinidos e com uma extensão hoje impossível de conhecer, esta zona do Paul parece ter coexistido, em termos de exploração com o chamado Campo de Sacarabotão, hoje também de difícil localização, mas que se estendia entre Salvaterra e Benavente. Esta ligação é atestada, pelo menos desde 1294, data em que um grupo de «herdadores», que exploravam algumas parcelas no Campo de Sacarabotão, alegavam ter direito ao uso de parte do Paul de Magos, pelo qual «deviam ir adiante até acima» afim de explorarem o que lhes pertencia. Este conflito terminará com a outorga da parte compreendida entre «a aberta velha a fundo contra Tejo» aos referidos «herdadores».

Também em 1383, na sequência de um pedido feito ao rei pelo concelho de Salvaterra, sobre os produtos incluídos no pagamento de «jugada», o rei refere segundo o argumento pelos queixosos, que devido ao termo da vila ser bastante pequeno, os moradores de Salvaterra sempre tinham lavrado no Campo de Sacarabotão, junto à povoação, embora este pertencesse ao termo de Santarém.

Cortesia de ribatejo
Aliás, este campo, que poderá ter constituído um suporte económico coadjuvante da povoação nascente, no final do século XIII foi, também ele, objecto duma partilha entre diversos proprietários, que até aí estenderam os seus interesses. Assim ocorreu, por exemplo com João Viegas, cavaleiro e vizinho de Santarém, que efectuou cerca de 30 aquisições de parcelas, entre 1240 e 1290, formando, com estes contratos, um património de considerável envergadura. Mas também Alcobaça possuía aí terra, cuja posse o rei questionou em 1307, argumentando serem os herdamentos do mosteiro, lezírias, pelo que a sua posse caberia ao rei. Resolvida e satisfeita a dúvida, D. Dinis estabeleceu o fim do conflito e confirmou ao mosteiro a posse dessas propriedades.

Mas se a sua localização exacto nos é desconhecida, a análise das confrontações das parcelas de terra, aí localizadas e sujeitas a contratos de compra e vendo, na segunda metade de Duzentos, possibilita-nos o entrever dos elementos estruturantes da paisagem desta zona, onde Salvaterra cresceu e se desenvolveu, de modo a melhor compreender o espaço envolvente e condicionante desta comunidade.
Paúis, charnecas, esteiros e, invariavelmente, o Tejo constituíam os marcos identificadores desta paisagem, onde as parcelas arroteadas e cultivadas não deviam ainda ocupar a maior parte da superfície disponível. Com efeito, a sua exploração implicava um conjunto de obras que, embora não estranho aos séculos medievais, representavam e implicavam investimentos que pequenas comunidades camponesas dificilmente poderiam suportar». In Hermínia V. Vilar, o concelho de Salvaterra de Magos da Pré-História ao século XVIII, edição da CM de Salvaterra de Magos.

Continua.
Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT

quarta-feira, 9 de março de 2011

Salvaterra de Magos. As Cheias no rio Tejo: «Em 1876, decorreu aquela que é conhecida como a maior cheia no Tejo de que há memória. Na escala hidrométrica de Vila Velha de Ródão, a cheia de 1876 registou 25,40 m. No séc. XX, as maiores cheias do Tejo ocorreram em 1936, 1940, 1941,1942 1969,1970, 1978 e, a 11 e 12 de Fevereiro de 1979, aconteceu a maior cheia»


Cortesia de dasmargensdorio

Breve historial sobre as cheias no Tejo.
«Perdem-se nos alvores dos tempos as inundações do rio Tejo. A partir do neolítico, com a sedentarização do Homem e a «descoberta» da agricultura, verificamos que os locais onde a presença humana mais se acentua são precisamente junto do Tejo ou dos seus afluentes, por serem os locais que possuem os terrenos mais férteis. Esta fertilidade ocorre sempre após as cheias.
No período romano, a ocupação agrícola é também feita junto do Tejo. Abundam várias estações arqueológicas, que denotam o uso agrícola dos locais em questão.
Ao longo dos tempos sempre houve cheias, infelizmente os registos não abundam, para que possamos compreender e analisar estas intempéries e os seus efeitos nas povoações ribeirinhas.
Jorge Custódio refere que em meados do séc. XVIII, o memorial de Santa Iria (Ribeira de Santarém), datado de 1644, como um local que, para além da função devocional, possui uma outra função que é medir as cheias e que em Benavente se comprou um farol que era utilizado em tempos de cheias «conhecer as cheias para as controlar e poder usá-las ao serviço da agricultura parece ser um desiderato essencial nos tempos antigos». 



Cortesia de portugal21 
O memorial de Santa Iria garantia uma função suplementar: a medição das cheias. A vara era utilizada com frequência para medir a altura das cheias no porto de Tancos no séc. XVIII. Anunciar a cheia, quando começava e quando acabava deveria ser uma das funções dos municípios em articulação com os responsáveis das Lezírias e Pauis. Em Benavente comprou-se um farol para o tempo de cheia, invernada e tempestade de escuro, no qual se deveria manter acesso em luz de azeite durante a época, para se saber e comunicar.
Em meados do séc. XIX, existem referências das medidas de protecção das povoações ribeirinhas afectadas pelas cheias, que para o efeito construíam diques, canais e fossas de drenagem, de modo a regularizar o leito do rio Tejo. Eram trabalhos feitos pelos valadores que consistiam na abertura e consertos de valas de contenção das terras para manter a prática agrícola.
As condições de trabalho dos valadores eram penosas. com o auxílio de uma pá curta e estreita, retiravam a lama das valas abertas até ao cimo do valado, onde enchiam cestas de madeira ou de verga, transportando-as para locais que necessitassem desta terra.

Cortesia de dasmargensdorio
É a partir do séc. XIX que começam a surgir com maior frequência os relatos/documentos sobre as cheias do Tejo e as catástrofes a elas associadas.
Em 1876, decorreu aquela que é conhecida como a maior cheia no Tejo de que há memória. Na escala hidrométrica de Vila Velha de Ródão, a cheia de 1876 registou 25,40 m e atingiu 10 000 m3 de água em Tancos. Inúmeras povoações ficaram isoladas, os campos alagados durante semanas, sendo incalculáveis as mortes e prejuízos em várias regiões.
No séc. XX, as maiores cheias do Tejo ocorreram em 1936, 1940, 1941,1942 1969,1970, 1978 e, a 11 e 12 de Fevereiro de 1979, aconteceu a maior cheia do séc. XX.

Existem algumas descrições das cheias e dos prejuízos que causaram no Ribatejo. A cheia de 1936 provocou «uma invasão tumultuosa das águas na Lezíria Grande, onde toda a terra foi alagada. Na estrada do Cabo - Porto Alto a água chegou a atingir 1 m de altura».
No que respeita à cheia de 1941 «foi o ano do Ciclone, o vendaval de 15 Fevereiro transformou a Lezíria em leitos do Tejo e Sorraia com o cortejo de estragos que foi o maior de que há memória desde a fundação da Companhia das Lezírias».
Em 1979, a água no caudal do Tejo tomou proporções nunca vistas, inundou os campos e isolou povoações durante semanas». In As Cheias em Salvaterra de Magos, CM de Salvaterra de Magos, Março de 2010.

Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Salvaterra de Magos. Em torno do Foral: A Génese dum Concelho. «Apenas em 1294, o concelho de Santarém concedeu a posse e propriedade do Paul de Magos a D. Dinis, doação à qual se seguiu a renúncia de algumas lezírias, até aí na posse do concelho»

Cortesia de tomaracidade

Com a devida vénia a Hermínia V. Vilar e o concelho de Salvaterra de Magos da Pré-História ao século XVIII.

A ocupação e rentabilização do espaço
«A região onde Salvaterra de Magos se veio a implantar e a desenvolver, principalmente, a partir de finais do século XIII, constituía já, nas décadas anteriores, um espaço privilegiado de ocupação humana e de produção cerealífera. Ao longo das margens irrigadas do Tejo, nas vários campos e parcelas que se estendiam em paralelo ao leito, ciclicamente transbordável, deste curso fluvìal, cultivavam-se os cereais, tão profusamente consumidos no período medieval.
Nessa zona polarizada em torno do Tejo, enquanto eixo vivificador do rentabilidade das suas margens e eixo de comunicação, por excelência, intra e inter-regional, cedo se estruturou um pólo, que procurou, em paralelo, catalizar a actividade económica e assumir-se como o centro político duma região.

D. Dinis
Cortesia de flickr
Na verdade, Santarém apresentou-se no decurso destes séculos, como o principal centro urbano desta zona, aonde afluíam muitos dos produtos produzidos na região que lhe ficava a montante e a jusante, muitas vezes sob o aspecto de foros cobrados pelas instìtuições religiosas e pelos membros da nobreza ou da oligarquia locol que aí residiam, e que detinham terras nos campos em redor.
Como seria de esperar, a rentabilidade desta região provocou um retalhar da sua superfície em propriedades detidas pelas mais diversos entidades. Aí coexistia o rei proprietário, através dos seus numerosos reguengos, com o nobre de corte como Estevão Eanes ou João Peres de Aboim, e com o mercador ou cavaleiro sediado em Santarém, sem esquecer as numerosas instituições religiosas que aí detinham bens, num
eixo que compreendia e que se estendia ao longo do curso do Teio, regra geral, até aos campos da Golegã. Com efeito, de entre as igrejas e conventos que aí possuíam uma ou mais parcelas, dois grupos se parecem poder destacar, de ocordo com um critério de localização:
  • as instituições sediadas em Lisboa, como o mosteiro de Chelas e o de S. Vicente de Fora, entre outras,
  • as instaladas em Santarém, com realce para os conventos de Sta. Clara e de S. Domingos, além das diversas colegiadas da vila.
No fundo, rivalizavam por uma zona que os dois núcleos urbanos também disputavam, numa luta de contornos administrativos e económicos, concretizada nas pequenas disputas territoriais que, invariavelmente, se colocavam.

Paul de Magos
Cortesia de flickr
Contudo, a luta não compreendia apenas o enfrentamento entre proprietários e interesses. A outra frente de conflito colocava-se ao nível da luta contra o elemento natural, representado pela entrada da água do Tejo nos terrenos e consequente alagamento, que impedia o seu cultivo. O aumento da área cultivada nesta região implicou grandes obras de drenagem das zonas mais alagadiças e que, entre os finais do século XIII e o decurso do XIV, foram enxutas e exploradas.
Especificamente, ao Paul de Magos, base onomástica do povoação de Salvaterra, este pertencia, no início de Duzentos, ao concelho de Santarém. A par de outros paúis, charnecas e lezírias, como as de Alcoelha, Atalaia e e Freceira, o concelho de Santarém explorava também o Paul de Magos, localizado na margem oposta do Tejo, acima de Benavente.
Apenas em 1294, este concelho concedeu a posse e propriedade deste Paul a D. Dinis, doação à qual se seguiu a renúncia de algumas lezírias, até aí na posse do concelho». In Hermínia V. Vilar, o concelho de Salvaterra de Magos da Pré-História ao século XVIII, edição da CM de Salvaterra de Magos.

Continua.
Cortesia e Hermínia Vilar/CMSalvaterra de Magos/JDACT

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

«Arrais» Vicente Francisco: Cantos do Tejo. «Águas correntes, águas já passadas da boa viagem todos querem parte, nem que seja ao rebolão ou que seja por má arte»

Cortesia de cantosdotejo 

Poesia em Verso
Saudades dos tempos vividos
Que já passaram, já lá vão
Com amores bem sentidos
Gravados no coração

Águas correntes, águas já passadas
Da boa viagem todos querem parte
Nem que seja ao rebolão
Ou que seja por má arte

Já tíve, agora não tenho
Por muitas era estimado
Acabou-se a minha mocidade
Já vou sendo desprezado

Dirão-me um dia a despedida
Meus amigos afastar
Já eu não podia acompanhar
A boa amizade me obriga
Mas eu a todos desejo a vida
Com meu coração já cansado

Mas enquanto eu andar podia
Por todos era estimado
O meu amigo mais antigo
A vida dele acabou

Eu depois dele nascido
Dia e noite, no mundo estou
Vivendo, sofrendo e aprendendo
Comendo o pão de cada dia

Mas enquanto habalhar podia
Nunca ninguém me ralhou
Se muito tens, muito vales
Se nada tens, nada vales

O melhor vinho e o amigo
É sempre, sempre o mais antigo
Chegando a hora, vaza a maré
Fica a praia descoberta
Acaba a mocidade, vem a velhice
Não há palavra mais certa
«Arrais» Vicente Francisco

Cortesia de Arrais Vicente

Salvaterra de Magos. As Cheias no rio Tejo: «Um dos maiores paradoxos da vida do Ribatejo. O Tejo leva e traz o maná para as eiras, escoadas as águas, ao fim de alguns dias, a terra fica prenha e reverdejará na Primavera seguinte»

Cortesia de meteoribatejohostzi

As cheias no rio Tejo
«As inundações do Tejo são quase tão antigas quanto o próprio rio Tejo.
Nos Invernos chuvosos uma invasão de águas do Tejo arrasa tudo à sua volta e durante dias o rio parece revoltar-se contra o Homem, inundando os campos, modificando por completo a lezíria ribatejana.

«E o rio parece assombrado! E parece que homens e animais não podem fazer outra coisa que não seja esperar. Esperar pela segunda fase do Inverno Ribatejano, a fase das enormes e catastróficas cheias do Ribatejo. Essa altura em que o rio incha como o ventre de uma grávida e paralisa tudo definitivamente, invadindo toda a campina, transbordando para as estradas, tornando o Ribatejo um túmulo aquático, suspenso no tempo» (O Inverno no Ribatejo).

As cheias são um dos maiores paradoxos da vida do Ribatejo: são boas porque fertilizam as terras e lavam os campos e são más porque destroem bens e espalham o pânico nas povoações ribeirinhas.

Cortesia desortidofino
Nos dias de cheias, o rio Tejo faz-se mar, que se estende de horizonte a horizonte, com os campos alagados, culturas destruídas, estradas cortadas, o desespero e ira dos Homens que se sentem diminutos perante esta adversidade das cheias:
  • «A água vai baixando. Deixou de chover há uns dias. Na lezíria já não há emposta mais chegada onde não tenha ido. A medida que a cheia desce, a desolação aumenta. Os troncos das árvores, a vegetação das abertas, os barracões, os paus da vedação, tudo o que as águas tocaram, envolvem-se numa cinta de barro viscoso, quase castanho, como se mãos humanas as tivessem marcado de maldição. Aluíram palheiros e arribanas. Vêem-se a boiar coelhos e galinhas das capoeiras arrombadas; e dezenas de lebres que não puderam escapar à morte da corrida com a cheia; e pássaros. Anda no ar um cheiro acre. E ameaça de mais fome. Os milhafres planam sobre um festim de miséria. Mergulham lá do alto, agarram as presas e abalam. Perdem-se no horizonte pardo» (Alves Redol Os Avieiros).
Durante dias ou semanas, as povoações ribeirinhas cobrem-se de água, mágoas e inquietações. Contudo, estas cheias possuíam um dom para fertilizar as terras destes campos, em cada cheia os solos agrícolas eram renovados e dotados de fecundidade para as colheitas:

Cortesia de cinemasapo
«O Tejo leva e traz o maná para as eiras, escoadas as águas, ao fim de alguns dias, a terra fica prenha e reverdejará na Primavera seguinte». (Micaela Soares, Cheias).
Na primeira metade do séc. XX, as cheias com maior ou menor intensidade aconteciam todos invernos e as populações da borda d'água habituaram-se a viver com elas.
A partir desta data, com a construção de barragens no rio Tejo e afluentes, as cheias ficaram mais espaçadas, mas em contrapartida tornaram-se mais violentas e destruidoras.

Salvaterra de Magos é uma vila ribeirinha que sofreu durante anos a revolta das águas do Tejo e soube adaptar-se a estes ciclos de cheias, criando para estes temporais uma espécie de «vida anfíbia», de forma a resistir e a sobreviver a estas intempéries». In As Cheias em Salvaterra de Magos, CM de Salvaterra de Magos, Março de 2010.

Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Infante D. Luís: Deste infante, diz-se que só faltou ser rei, dadas as suas qualidades. Pai de D. António, prior do Crato

(1506-1555)
Abrantes
Cortesia de wikipédia

D. Luís de Portugal  foi filho de D. Manuel I e da infanta espanhola Maria de Aragão, 5.º duque de Beja, Condestável do Reino e prior da Ordem Militar de S. João de Jerusalém, com sede portuguesa no Crato. Afirmou ter casado em segredo com Violante Gomes tendo um filho, D. António, Prior do Crato, o que garante a Legitimidade de D. António, que não é socialmente aceite, e que mais tarde viria a ser aclamado rei de Portugal e lutado contra o domínio Filipino.

Do Infante D. Luís, diz-se que só faltou ser rei, dadas as suas qualidades.


Soneto à música
Do número nasce a proporção;
da proporção se segue a consonância;
a consonância causa deleitação;
a nenhum sentido apraz a dissonância.

Unidade, igualdade e semelhança
são princípios do contentamento.
Em todos os sentidos o exprimento;
a alma em unidade glória alcança.

Em todas cantidades a igualdade
é perfeição remota ou mais chegada,
seguindo a natural autoridade.

E assi está nas qualidades assentada,
da mesma maneira, a semelhança,
dina de ser sentida e contemplada.
Infante D. Luís (1506-1555)

Cortesia de wikipédia

Soneto (Cancioneiro de Fernandes Tomás)
Mal que de tempo em tempo vai crescendo,
quemde algum bem te visse acompanhado
desta vida passara descansado,
a morte, confiado, não temendo.

Se os vãos desejos fosse convertendo
em sospiros que vem de outro cuidado,
oh, quão prudente e bem afortunado!,
que capela de louro iria tecendo!

Tempo é de trastornar os fundamentos
passados co'a esperança que passou:
triunfem já os novos pensamentos,

e a fe que n'alma viva me ficou
dê fim aos mundanos sentimentos
em que o viver passado a condenou.
Infante D. Luís (1506-1555)


HALP 19/2001
JDACT

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Salvaterra de Magos: Parte V (B). A Falcoaria. A caça, desde sempre ocupação de monarcas, foi o principal atractivo para à deslocação da Família Real a Salvaterra, aproveitando a época propícia, de Novembro ao «Entrudo»

JDACT

Com a devida vénia a Joaquim Manuel S. Correia e Natália Brito C. Guedes, «O Paço Real de Salvaterra de Magos», Livros Horizonte, 1989, ISBN 972-24-0723-6, publico algumas palavras.

No reinado de D. Sebastião, em 1569, é aprovado o «Regimento da coutada de Salvaterra». Documento da maior importância para o concelho, determina as «demarcações e da pena que haverão os que caçarem perdizes, lebres, coelhos ou montearem porcos, veados ou qualquer outra veação ou não cumprirem e fizerem o contrario do que nele se contem nos tempos defezos». A coutada confrontava a Sul com o termo da vila de Benavente, a Norte com os termos das vilas de Santarém e de Muge e do Levante com o termo da vila de Coruche.

JDACT
No início do século XVII de novo a coutada de Salvaterra é referida no «Regimento do Monteiro-mor» onde se determina não ser permitido «viver Fidalgo algum, nem residir por mais tempo que o de passagem, salvo se tivessem fazendinha de raiz mas não casa, nesses lugares».
Diz-nos João Baptista de Castro que as reais coutadas de Salvaterra e de Almeirim eram «férteis de veados, porcos e toda a espécie de caça; cómodas para as montarias de cavalo, fáceis para as caçadas de lança e de espingarda, abundantes nas voltarias, dispostas para o entretenimento das damas com tal comodidade que dos fizemos coches vêem alancear os veados, correr as lebres, apanhar os coelhos e voar as aves tão suavemente e sem fadiga que na maior distância se escusa todo o desvio, porque a fecundidade do sítio facilita os exercício a quem os vê e a quem os segue».
Caçadas que iriam motivar o aparecimento de uma literatura específica, «o romance em verso», que encontrou vários autores em Salvaterra na transição do século XVII para XVIII - Caetano Manuel Martins de Barros, Pe. Martinho Pereira, Thomas Pinto Brandão e, a darmos crédito a uma nota à margem de um manuscrito da Biblioteca Nacional, o próprio Pe. António Vieira.


JDACT
Na Idade Média dois tipos de caça eram preferidos - a montaria ou caça de perseguição utilizando armas ou armadilhas, a animais como o urso, o javali, o lobo, o cervo; e a etraria ou caça através de aves de rapina domesticadas (falcões, açores, gaviões, etc.). Encontramos na Crónica de El-Rei D. Fernando uma das mais vivas descrições de uma caçada medieval com falcão «... Era ainda el-rei D. Fernando muito caçador e monteiro, em guisa que nenhum tempo asado para ele deixara que o não uzasse. A ordenança como ele partia o ano em tais desenfadamentos, juntado tudo pelo miúdo, seria longo de ouvir, cá ele mandava chamar todos seus monteiros, no tempo para ele pertencente e não se partiam de sua casa até que os falcões saiam da muda e então, desembargados, iam-se para onde viviam e vinham os falcoeiros e outros que de fazer aves tinham cuidado. Ele trazia quarenta e cinco falcoeiros de besta, afora outros de pé e moços de caça e dizia que não havia de folgar até que povoasse em Santarém uma rua em que houvesse cem falcoeiros. Quando mandava fora da terra por aves, não lhe traziam menos de cinquenta, entre açores e falcões nevris e gerifalcos, todos primas. Com ele andavam mouros que apresavam garças e outras aves e estes nadavam os pegos e pauis se os falcões caíam neles.


Acessórios para caçar com falcão. Séc. XVII-XVIII
JDACT
«Quando el-rei ia à caça, todas as maneiras de aves e cães que se cuidar podem para tal desenfadamento todas iam em sua companhia, em guisa que nenhuma ave grande nem Pequena se levantar podia, posto que fosse grou e betarda, até o pardal e pequena folosa, que antes que suas ligeiras penas a podessem pôr em salvo primeiro era presa do seu contrário; nem as simples pombas, que a venham fazer impedimento, em semelhante caso, não eram isentas de seus inimigos. Para raposas, coelhos e lebres e outras semelhantes selvagens montezes, levava el-rei tantos cães de seguir suas pegadas e cheiro, que nenhuma arte nem multidão de covas lhes prestar podia que logo não fossem tomadas. E porém nunca el-rei ia vez nenhuma alguma à caça que sempre nela não houvesse grande sabor e desenfadamento».
Os ascendentes Hohenstaufen e Castela explicam bem esta atracção de D. Fernando pela cetrarias. Os tratados de alveitaria e cetraria de Mestre Giraldes, físico de D. Dinis, o Tratado Falcoaria de Pero Menino, falcoeiro de D. Fernando, seriam os compêndios da época, citados internacionalmente.

Afirma Diogo Fernandes Ferreira «o infante D. Luís, filho de el rei D. Manuel, irmão d'el rei D. João III, príncipe de altos pensamentos, foi um grande caçador de falcão e teve em seu serviço, oitenta caçadores assalariados, muitos deles estrangeiros, mui práticos nesta arte; e ele no paço, casa donde estava, tinha falcões e os dava em cuidado aos seus moços da câmara, dos quais eu conheci alguns muito nobres e cada caçador tinha à sua conta dois e três falcões».
«Meu Pai, Pero Ferreira (que também o servia de seu moço da câmara) foi excelente nesta arte e depois da morte deste príncipe, serviu ao Senhor D. António, prior do Crato, filho natural deste príncipe, o qual seguindo as pisadas e pensamentos do Pai teve mui redonda caça de falcões, garceiros e milhaneiros e altaneiros e Gaviões e Açores". Sobretudo a cetraria era a modalidade mais apreciada no Ribatejo: - Salvaterra tal como Muge, Almeirim, Santarém, possuíam coutadas onde a caçada com falcão era preferida, informam-nos numerosos documentos coevos. O rei encomendou com todo o empenho 20 falcões da Noruega ao feitor da Flandres.


Cruzado de prata de D. António I (Prior do Crato), 18º Monarca
JDACT
É muito provável que a seguir a Alcácer Quibir se tenha verificado um afrouxamento nas actividades de altanaria, mas por certo de curta duração. Efectivamente, na obra publicada em 1616, Diogo Fernandes Ferreira diz: «Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles». Mas, logo a seguir, acrescenta: «e por não faltarem hoje senhores desejosos de renovarem a caça e carecerem de homens que nela os soubessem servir, me Pareceu ter obrigação, assim à arte como à nobreza deste reino, fazer este trabalho»... Parece, pois, que o interesse pela arte não tinha morrido, antes se mantinha tão vivo que estimulou a obra de Diogo Ferreira.

A iconografia é única em cenas de caça com falcão, o caçador nobre do «Missal Antigo do Lorvão», os falcoeiros representados «no baixo-relevo do túmulo de Afonso Sanches e na iluminura do mês de Maio do "Livro de Horas de D. Manuel», são alguns exemplos, que reproduzimos, escolhidos de entre colecções Portuguesas.




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O falcoeiro-mor era o caçador de confiança do rei, dele dependendo directamente, a quem era concedida a mercê de terras, casas e herdades; foram reconhecidos os altos préstimos, em tempos medievos, aos falcoeiros Vicente Pires (de Torres Vedras), Rui Pires (de Arronches), João Garcia, Pedro Esteves, Luís Eanes, Geraldo Fernandes e João Gonçalves (de Santarém). 

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Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT

Salvaterra de Magos: Parte V (A). A Falcoaria. A caça, desde sempre ocupação de monarcas, foi o principal atractivo para à deslocação da Família Real a Salvaterra, aproveitando a época propícia, de Novembro ao «Entrudo»

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Com a devida vénia a Joaquim Manuel S. Correia e Natália Brito C. Guedes, «O Paço Real de Salvaterra de Magos», Livros Horizonte, 1989, ISBN 972-24-0723-6, publico algumas palavras.

A caça, desde sempre ocupação de monarcas, foi o principal atractivo para à deslocação da Família Real a Salvaterra, aproveitando a época propícia, de Novembro ao «Entrudo», ou, se o tempo o permitia, até Abril; raramente o fazendo nos meses de Verão. Reuniam-se naquela vila condições especiais para a exercer, justificando a determinação de terra «coutada», ou reserva venatória.

As grandes montarias (aos lobos, raposas, veados, cervos e javalis) iniciavam-se de manhã, partindo a comitiva com «tendas de campanha e apoio de mesas, servidas magnificamente»; só num dia, a 28 de Setembro de 1730 mataram 90 veados e javalis. O excedente era «mandado distribuir pelos Ministros estrangeiros e Senhores da Corte»; a altanaria era especialmente preferida, provindo os falcões de faustosos presentes oferecidos anualmente ao monarca pelo Grão-Mestre da Ordem de Malta ou pelo rei da Dinamarca.


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Na sua «Casa Real de Campo» S. Majestade «sem embargo do divertimento das montarias não deixava de se aplicar ao despacho dos negócios» esclarece-nos a Gazeta de Lisboa.
Tal como todas as coutadas reais, a de Salvaterra estava sob a jurisdição do Monteiro-mor do Reino, responsável por fazer cumprir as determinações régias de âmbito cinegético e florestal. No «Regimento» de 1605 (de novo referimos a época de Filipe II que à administração dos Paços Reais e coutadas régias Portuguesas dedicou especial atenção) estipulava-se a hierarquia subalterna ao Monteiro-mor, serviços de justiça, locais e períodos autorizados para caça, género de espécies a proteger ou abater, penas por infracção ao «Regimento» (que poderiam ir até ao açoite na praça pública ou degredo, sem remissão).

Com o Monteiro-mor do Reino colaboravam os Monteiros-mores das Comarcas, Monteiros de Cavalo e Moços do Monte: Se inicialmente grande percentagem do território português era coutado, a pouco e pouco essas prerrogativas foram sendo extintas «pelo manifesto prejuízo causado nas sementeiras». D. João II e D. Manuel, ouvindo as cortes reduziram drasticamente as terras reais coutadas. Com Filipe II, em 1594, apenas pertenciam à coroa as coutadas de Lisboa (Alcântara e Belém), Sintra, Colares, Almeirim, Salvaterra e as montarias de Santarém.
No termo de Salvaterra vastas propriedades rústicas foram pertença durante os séculos XVII e XVIII de diversas entidades - Ordem de Avis, Monteiro-mor do Reino, Manuel do Quental Lobo (Capitão-mor da Vila de Santarém), Francisco Cotta Falcão, Conde de Unhão, etc.

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A Casa Real era no entanto a maior detentora, especialmente de matas e coutadas; por mercê do Cardeal D. João Esteves, confirmada pelo rei D. João I, igualmente pagavam dízimos ao Convento de Sta Joana, de Lisboa, uma vasta área, registada em escritura pública em 1614 e demarcada por grandes blocos de pedra-lioz, alguns ainda hoje existentes; iniciava-se junto à vala real,.no sítio chamado Boca da Goiva, seguia pela "Pichota", "Casas da Falcoaria", "Gatinheiras", "Coutadinha del'Rei", "Feteira", "Lagoa do Donzel", "Garrocheira", "Arneiro", "Bilrete", "Vale do Pereiro", "Morite das Figueiras", "Monte do Colmeeiro", "Monte da Misericórdia", "Paul", "Monte do Colmeirinho", "Serra da Galega", "Pego da Caldeira"' "Moinho de Magos", "Arneiro do Marco", "Vale da Sardinha ', "Estrada de N.' Sra da Gloria", "Torjaes da Sardinha", "Arneiro da Alpifeita", "Escaroupim”.

O Infante D. Luís «costumava passar alguma parte do Inverno na sua vila de Salvaterra pelo grande divertimento de caça de que é abundante a perdiz e a cujo exercício era sumamente inclinado».
Foram seus Monteiros-mores Simão Freire, Fernão Martins Freire; como Caçadores-mores D. Brás Henriques e seu filho D. Jorge Henriques; oito Trombetas, cinco moços de caça completavam a equipagem do Infante para a caça. D. Sebastião «ajuntou também o gosto de todo o género de caça e montaria no qual se ocupava e gastava a maior parte do tempo nas suas coutadas de Almeirim e Salvaterra; no Inverno». Este monarca na «Lei sobre a caça e pescaria» de 19 de Dezembro de 1560, ao estabelecer o defeso nos meses de Março, Abril e Maio, refere-se além de outras e até em primeiro lugar à caça «… com aves, de qualquer qualidade que sejam», o que, provavelmente, não faria se só ou pequeno número a praticasse, como arte e sem prejuízo apreciável para a conservação das espécies. Filipe II na viagem triunfante que fez a Portugal, passou por Salvaterra; diz-nos o cronista João Baptista Lavanha «... saiu Sua Majestade a montaria, servindo neste exercício o Monteiro-mor Francisco de Melo e os monteiros portugueses; mataram-se alguns porcos montezes».

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A tradição da escolha de Salvaterra para as caçadas reais mantém-se com D. Afonso VI António de Sousa de Macedo, seu biógrafo, recorda uma jornada de 19 de Janeiro de 1663 às duas horas da madrugada, partiu El-Rei e o Infante para Salvaterra. El-Rei se embarcou em um bergantim que não era o Real e o Infante com outro de Henrique Henriques. Foi El-Rei deitado na cama, em sua companhia o Conde de Castelo Melhor e o Marquês de Fontes. Acompanhavam-no Oficiais da Casa em várias embarcações. Convidou para a mesma jornada os fidalgos seguintes: o Conde de Unhão, o Conde de Aveiras, Lourenço de Mendonça, Bernardo de Miranda, Jorge Furtado, Luís Lobo, Diogo Luís, Henrique Henriques, D. Luís de Lencastre, Cristóvão de Almada, o Conde de Sarzedas, o Conde de Serém, Jorge Furtado de Mendonça, António Cavide e o Conde de Mesquitela». A 2 de Fevereiro do ano seguinte «... o Infante levou seus criados à parte. Divertiram-se S. Majestade e Altezas em Salvaterra nos costumados exercícios de caça touros e campo até 25 de Fevereiro, embarcando-se cada um em sua falua e os criados e alguns fidalgos que se não tinham vindo diante do bergantim. Aportou no cais do carvão pelas dez horas e a cavalo veio jantar ao Paço».

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Salvaterra de Magos: Parte IV. O Teatro. A Ópera. De 1753 a 1792, foram representadas em Salvaterra 64 produções operáticas e ali actuaram os mesmos artistas dos restantes teatros régios


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O Teatro

Com a devida vénia a Joaquim Manuel S. Correia e Natália Brito C. Guedes, «O Paço Real de Salvaterra de Magos», Livros Horizonte, 1989, ISBN 972-24-0723-6, publico algumas palavras.

«Sobressai a toda esta vila a eminência da Casa da Opera de Sua Majestade e adjunto a esta o Palácio Real» observava o P. Miguel Cerqueira nas «Memórias Paroquiais» que redigiu em 1758.

«O Real teatro de Salvaterra de Magos foi inaugurado em 2I de Janeiro de 1753 com a Opera «Didone Abandonata» (composição de Metastásio e música de David Perez) tendo-se representado também no Carnaval desse ano e talvez no mesmo dia o «intermezzo» a duas vozes «La Fantesca, de Adolfo Hasse». Diversas representações, dramas, sérios ou jocosos, «intermezzos», se lhe sucedem com grande êxito cénico e musical sempre que no Inverno a Familia Real permanecia em Salvaterra.

Um ilustre viajante francês que ali se deslocou, no Carnaval, em 1765 registou, nas suas «Memórias»: «À noite assistimos à Ópera composta por oitenta músicos italianos, não só instrumentistas mas também cantores; como a Rainha não gosta de actrizes, os papéis femininos são executados por jovens castrados que têm vozes encantadoras, tão bem vestidos e representando com tanta perfeição que quem não estiver prevenido, enganar-se-á .. Tocava-se «Demetrius, de Metastásio, em que a música do Sr. Perez é de grande beleza, quer em frases quer em acompanhamento, e os instrumentos estão tão bem ligados às vozes que se pode dizer que é uma das melhores óperas que existe na Europa.

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«Esta Ópera de «Demetrius» custou ao rei 200 mil cruzados. O guarda-roupa, bordado a ouro e prata finos, é riquissimo, bordado em Milão. As decorações são pintadas pelos melhores pintores. O rei, a rainha, a princesa do Brasil e as princesas suas irmãs, são grandes músicos e cantam bem (...).

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«A sala de espectáculos de Salvaterra tem uma lotação de 500 pessoas; tem três filas de camarotes de primeira (três camarotes de cada lado); ao fundo um anfiteatro com uma galeria que prolonga de cada lado os primeiros camarotes. Este anfiteatro está coberto com um reposteiro franjado, apoiado em pilares como uma tenda; neste se situa o lugar do Rei que se senta num cadeirão, ao meio, tendo à sua direita o Infante D. Pedro, seu irmão e seu genro e à sua esquerda a Rainha, a Princesa do Brasil e as três outras princesas e ao longo da galeria, à esquerda, as damas de honor. O outro lado, à direita da galeria, fica vazio há oito segundos e oito terceiros camarotes que são ocupados por portugueses aos quais se oferecem bilhetes. Os Ministros do Rei estão sentados na plateia com os fidalgos, sem distinção de categoria. A orquestra tem cerca de 25 a 30 instrumentos. O teatro é bastante grande, ocupando todo o comprimento da sala; o espectáculo começa logo que o Rei entra, vulgarmente cerca das seis e meia, sete horas. A ópera dura 4 horas; verificando-se o maior silêncio. O bailado do 1º «acto do «Demetrius» representa a sala de um mecânico ou maquinista que mostra a um curioso ou estrangeiro um autómato, em que premindo uma mola faz executar diferentes danças e bailados. Primeiro assiste-se a uma entrada de «Pierrots» em seguida a uma de «Espanhóis», de «Arlequins» e «Columbinas» às «mosqueteiros», etc., em que os passos são executados pelos dançarinos como se fossem comandados por molas. Vêm comunicar ao Maquinista que alguém o chama; este sai e o curioso aproveita a sua ausência para examinar os autómatos e observa a máquina, pressiona a mola e os autómatos recomeçam a dançar; como pretende mudar rapidamente a dança anima-se, embaraça-se e por fim escangalha-se a mola; a máquina desafina-se e os autómatos caem de cabeça para baixo, pés para cima, cada um com uma atitude diferente do que resulta um espectáculo divertido; com o barulho o Maquinista chega espantado ao ver as máquinas viradas; tenta recuperá-las e percebe que os fios ou molas estão partidos. Precipita-se sobre elas desesperado e corre atrás do curioso; este foge, atravessando os acessos em que tinham descido os autómatos. «Este bailado é muito bem desenhado e de agradável invenção. O bailado do2º acto é Pantomina. Vê-se ao longe uma ilha sobre o mar e um Príncipe que nela naufraga esta ilha é ocupada por uma feiticeira que quando se apaixona transforma os seus companheiros em estátuas».

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Ela apressa-se em fazer amizade com o Príncipe mas este está ocupado em procurar os seus companheiros; logo que os descobre fica furioso. A feiticeira toca-lhe com a sua varinha, adormecendo-o, e ele cai sobre uma cama de relva; algumas ninfas vêm com flores e saem de repente. Ele acorda e parece envergonhado por se encontrar prisioneiro; a feiticeira finge em ter pressa de o libertar. Ele aparenta querer agradecer-lhe beijando-lhe a mão, mas este era o pretexto para lhe apanhar a varinha. Com a varinha, toca a feiticeira que é arrastada por um carro puxado por dragões. Ele reanima os seus companheiros e imediatamente embarca para fugirem desta ilha.
...«No dia seguinte o Rei voltou da caça às 5 horas. Depois do jantar foi à Ópera ouvir um pequeno «intermezzo» italiano, intitulado «La Cacina».

Alguns cartazes da época
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O gosto pela música era timbre da Família Bragança, atraindo-os em especial a ópera; foi aliás no Paço Ducal de Vila Viçosa que o duque D. João, futuro rei, promovera os primeiros espectáculos pré-operáticos. Os tradicionais «vilancicos» cantados nas noites de Natal e dos Reis, «tragicomédias», «zarzuelas» (memorável a de 1704 «Hazer de cuenta sin ia huéspede» a que assistiu D. Pedro II) prepararam a boa aceitação, em Setecentos, da nova expressão teatral em moda, de influência italiana, a ópera. Se até final do século XVII eram preferidas as composições espanholas, com o início do reinado de D. João V será a Itália que se vão buscar os libretos dos «intermezzi» de Il D. Chisciotte della Mancia (1728), «La Pazienza dì Socrate» (1733), «La finta Pazza» (1731) e «La Spinalba» (I739) representadas num palco improvisado do Paço da Ribeira.

O primeiro teatro de ópera italiana em Portugal será organizado pelo violinista da Capela Real de Lisboa, Alessandro Paghetti, na Academia da Praça da Trindade; a este se sucedem o Teatro Novo da Rua dos Condes, onde se representava «ópera séria» de compositores italianos e o Teatro do Bairro Alto, em que desde 1733 se representavam «óperas Portuguesas» de António José da Silva.
Em Março de 1755 inaugura-se o Teatro junto ao Paço da Ribeira, a «Opera do Tejo», segundo projecto do Arquitecto italiano Giovanni Carlo Bibiena, que o terramoto, sete meses depois, reduziria a cinzas.

Alguns cenários 
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Os teatros do Paço de Queluz, da «Quinta de Cima» da Ajuda e o do Paço de Salvaterra passam então a ser frequentados com maior assiduidade pela corte. Sobretudo o de Salvaterra não interrompe a sua actividade; no período conturbado que se seguiu à grande catástrofe, a corte acompanhando a Família Real manteve as deslocações àquela vila, no início de cada ano.
«Demetrius» teria custado ao Rei, em 1765, duzentos mil cruzados, diz-nos o citado viajante francês, sem comentários. Soma diminuta para o seu País, habituado há quase um século a espectáculos musicais que envolviam grande aparato, mas para o erário português era considerável dispêndio; Por este motivo o Rei determinava saíssem do seu «Bolsinho Particular» grandes reforços, permitindo que à ópera assistissem desde «os simples burgueses», diz-nos o viajante francês, «ao mais alto Senhor» que, obedecendo à pragmática, trajava comummente de «saragossa castanha»; "O Conde de Oeiras, o Duque de Cadaval e outros, não trazem outras casacas"...

As despesas com as óperas de Salvaterra estão detalhadamente documentadas no «Arquivo da Casa Real» oscilando o total, na década de 70, entre 20 a 25.000$000 anuais; as parcelas mais elevadas eram sempre a iluminação, as comedorias, o guarda-roupa e as ajudas de custo.
Duzentas e noventa moedas de ouro de quatro mil e oitocentos réis cada, foi o "cachet" do casal de artistas italianos Vitalba, em 1754, tendo direito ainda a viagens pagas e «casa armada» em Lisboa.

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Nas últimas décadas do século XVIII o guarda-roupa Para as principais óperas era executado em Milão, encomendado por intermédio de João Piaggio, cônsul de Portugal em Génova; os materiais para decoração da cena e adorno dos artistas são minuciosamente descritos na correspondência que acompanhava as «guias de remessa». De 1753 a 1792, foram representadas em Salvaterra 64 produções operáticas e ali actuaram os mesmos artistas dos restantes teatros régios.

Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT