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domingo, 31 de agosto de 2014

The Best Of no 31. Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa. «Que vento atravessa a fortaleza? Perto (muito perto) a gruta, sem vento, acolhe poeira, vestígios de ouro e de sangue, por entre o lixo e os musgos enegrecidos»

jdact


«Do meio desta Serra derramando
a saudosa vista nas salgadas
águas humildes, quando e quando inchadas,
conforme o vário vento vai soprando,
estou comigo só considerando,
donde foram passar coisas passadas,
e donde irão presentes mal fundadas,
pois pelos mesmos passos vão passando.
Oh qual se representa nesta parte
aquela derradeira hora de vida
tão devida, tão certa e tão incerta!
Em quantas tristes partes se reparte,
dentro nest’alma minha entristecida,
a dor, que em tais extremos me desperta!»


JDACT

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Concerto; Piano. Poesia de Ramos Rosa. «De escadas insubmissas de fechaduras alerta de chaves submersas e roucos subterrâneos onde a esperança enlouqueceu de notas dissonantes dum grito de loucura de toda a matéria escura sufocada e contraída nasce o grito claro»

jdact e wikipedia


«Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas.

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio.

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação.
Não posso adiar o coração».


JDACT

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Música. Pensamento. Verdi. «Sou porque sei. Cresci já que parei. E tudo é assim para que sem remédio as trevas o silêncio e o nada sejam dentro de mim»

jdact


«Chamo poesia à imaginação; for a da imaginação não sei o que seja poesia. A imaginação é tanto mais forte quanto se aproxima do inimaginável. Só essa imaginação, assim impossível, traz consigo a percepção de um outro mundo, virgem, original, desconhecido». In António C. Franco, ‘Estâncias Reunidas

JDACT

sábado, 14 de junho de 2014

Violino. Viviane Hagner. «Que espaços de noite ainda restam. Quantas madrugadas para ainda acordar. Quantos comprimidos, remédios adiam a dor e os olhos abertos».

jdact e cortesia de joaochichorro


«Sofres. Um hospital – é sempre longe.
É sempre o fim do mundo,
um mundo frio outro mundo
e como por momentos posso esquecer
que tão longe estás, isto está acontecendo.
Que espaços de noite ainda restam.
Quantas madrugadas para ainda acordar.
Quantos comprimidos, remédios adiam a dor e os olhos abertos».

JDACT

terça-feira, 3 de junho de 2014

Violoncelo. Poesia. A Arte. Jacqueline du Pré. «Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação. E tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora, deliberadamente à mesma hora... Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico»

jdact

A Frescura
Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,
faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
fiquei esperando a vontade de ir para lá, que'eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
E tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.
Poema de Álvaro de Campos, in "Poemas"
(Heterónimo de Fernando Pessoa)


JDACT

sexta-feira, 30 de maio de 2014

A Arte da Voz. Música. «Pássaro breve rompendo a chuva caída na minha melancolia. Ave voando na chuva que vai caindo em mim sem cair no dia. Pássaro leve cantando o sol que amanhece na noite que me entristece»

jdact

«Leve es la parte de la vida
que como dioses rescatan los poetas.
El odio y destrucción perduran siempre
sordamente en la entraña
toda hiel sempiterna del español terrible,
que acecha lo cimero
con su piedra en la mano»


JDACT

sábado, 1 de março de 2014

Música. Maria João Pires. «Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, pelas aves que voam no olhar de uma criança, pela limpeza do vento, pelos actos de pureza, pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança, pela branda melodia do rumor dos regatos»

jdact

De Amor nada Mais Resta que um Outubro
«De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem».
Soneto de Natália Correia, in Poesia Completa


JDACT

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Música Clássica. Marina Zoege von Manteuffel. «Partiste e foi contigo a juventude. Ficou o silêncio adulto, pensativo e pródigo, e o terror de não ser minha estátua jacente sobre o túmulo frio onde as cinzas da infância desmentem, palpitar de traiçoeira fénix! Que só do amor ou só da terra haja saudade. Em longes praias, outras nuvens, outras vozes…»

jdact


«Passado o mar, passado o mundo, em longes praias,
de areia e ténues vagas, como esta
em que haverá de nossos passos a memória
embora soterrada pela areia nova,
e em que sobre as muralhas quanta sombra
na pedra carcomida guarda que passámos,
em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas esta, ó meu amigo?
Aqui passeámos tanta vez, por entre os corpos
da alheia juventude, impudica ou severa,
esplêndida ou sem graça, à venda ou pronta a dar-se,
ido na brisa o sol às mais sombrias curvas;
e o meu e o teu olhar guiando-se leais,
de nós um para o outro conquistando
em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas, diz, ó meu amigo?
Também aqui relembro as ruas tenebrosas,
de vulto em vulto percorridas, lado a lado,
numa nudez sem espírito, confiança
tranquila e áspera, animal e tácita,
já menos que amizade, mas diversa
da suspeição do amor, tão cauta e delicada
em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda as recordas, diz, ó meu amigo?
Também aqui, sorrindo em branda mágoa,
desfiámos, sem palavras castamente cruas,
não já sequer os íntimos segredos
que o próprio amor, porque ama, não confessa,
nem a vaidade humana dos sentidos, mas
subtis fraquezas vis, ingénuas e secretas
em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas, diz, ó amigo?»

JDACT

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Música Clássica. Sinfonia Espanhola. Edouard Lalo. «Jamás ha dominado en mi alma la esperanza de la gloria, ni he soñado nunca con laureles que oprimiesen mi frente. Sólo cantos de independencia y libertad han balbucido mis labios, aunque alrededor hubiese sentido, desde la cuna ya, el ruido de las cadenas que debían aprisionarme para sempre…»

jdact

«Será tu piel el cielo
que nunca podré tocar...
o serán mis manos
arena..viento..brea..mar..
o seré orilla y mi ternura
será la espuma que te cubra…
y estarás allí eterna..visible siempre 
siempre para mí en mis ojos y en mi piel..
que sienten la sal de un encuentro ..
que alcanza tus poros
que se meten en los míos
con el calor de miles de veranos..
que nos verán unidos
en el horizonte de los sueños..
donde seremos el día
que cabalga en el bruñido de las naves..
en las alas de los albatros..
en los reflejos del pez que quiere volar…
en aquella caracola que desafía
con su colores la eternidad…
o en la roca que los tiempos
deshoja como la última flor..
y volveremos.. a ser arena
cuando nada quede y todo sea desierto…
allí estará el reflejo de tu piel
encandilando mis ojos..aún con amor…»
Poemas del Alma, Prudencio,Tu piel en la orilla del Universo


JDACT

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Música Clássica. Várias. Poesia. «No meu país dardejado de sol e da caca dos gaios só há estâncias (de veraneio) na poesia. Nossos lábios a um metro e sessenta e tal do chão amarelecido dos símbolos abrem para fora por dois gomos de frio. Nossos lábios outonais, digo, outonais doze meses. No entanto à flor da possível geografia um frémito cinde as estações do ano»

jdact


«Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos»
Poema de Sebastião Alba, in 'A Noite Dividida’

JDACT

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Música. Gioacchino Rossini. «… nada, sem dúvida, consegue dissipar melhor a ilusão contemporânea de que a liberdade não suporta entraves e de que a educação, a vida social, a arte requerem para desabrochar um acto de fé na omnipotência da espontaneidade»

Cortesia de wikipedia


«… existe entre as sociedades humanas um certo óptimo de diversidade além do qual elas não conseguiram prosseguir, mas abaixo do qual tampouco podem descer sem perigo, deve-se reconhecer que essa diversidade resulta em grande parte do desejo de cada cultura de se opor às que a cercam, de distinguir-se delas, em suma, de serem elas mesmas; não se ignoram, imitam-se ocasionalmente, mas, para não perecerem, é necessário que, sob outros aspectos, persista entre elas uma certa impermeabilidade»



JDACT

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Música. Brasil. Alberto Nepomuceno. «Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo…»

Cortesia de wikipedia


«E enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo, cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida».

«Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, flagelos e delícias, desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, húmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana».



A amizade de MMN
JDACT

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O Prazer da Música. Vivaldi. «O que é preciso é que a alma vá e venha; e ouça a notícia do tempo, e entre os assombros da vida e da morte, estenda suas diáfanas asas, isenta por igual. De desejo e de desespero»

Henrique Medina e jdact


Hoje o dia é um dia chuvoso e triste
amortalhado
Naquela monotonia doente dos grandes dias.

Hoje o dia...
(a pena caiu-me das mãos)

Acabou-se o poema no papel.
Cá por dentro
Continua...

Oh! este marulhar das almas no silêncio!

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O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga
que leva os mortos.

O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.

O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,
e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vá e venha;
e ouça a notícia do tempo,
e. entre os assombros da vida e da morte,
estenda suas diáfanas asas,
isenta por igual.
de desejo e de desespero.


JDACT

sábado, 3 de agosto de 2013

Música. A Arte. «Os intelectuais fazem a teoria, as massas a economia. Finalmente, os intelectuais utilizam as massas e através deles a teoria utiliza a economia. Por isso é-lhes necessário manter o estado de sítio e a servidão económica»

Cortesia de wikipedia


Atravesso as pontes mas
(o que é incompreensível)
não atravesso os rios,
preso como uma seta
nos efeitos precários da vontade.
Apenas tenho esta contemplação
das copas das árvores
e dos seus prenúncios celestes,
mas não chego a desfazer
as flores brancas e amarelas
que se desprendem.
As estações não se conhecem,
como lhes fora ordenado,
mas tecem o duplo império
do amor e da obscuridade.



JDACT

domingo, 21 de julho de 2013

Há dias assim... Música. Robert Schumann. «O que há de mais belo na nossa vida é o sentimento do mistério. É este o sentimento fundamental que se detém junto ao berço da verdadeira arte e da ciência. Quem nunca o experimentou nem sabe já admirar-se ou espantar-se. Pode considerar-se como morto, sem luz, totalmente cego!»

Cortesia de wikipedia


O meu sentimento é cinza
da minha imaginação,
e eu deixo cair a cinza
no cinzeiro da Razão.

Já estou tranquilo. Já não espero nada.
Já sobre meu vazio coração
desceu a inconsciência abençoada
de nem querer uma ilusão.

Desce a névoa da montanha,
desce ou nasce ou não sei quê…
Minha alma é a tudo estranha,
quando vê, vê que não vê.
Mais vale a névoa que a vida…
Desce, ou sobe: enfim, existe.
E eu não sei em que consiste
ter a emoção por vivida,
e, sem querer, estou triste.

Poema de Fernando Pessoa, in ‘Novas Poesias Inéditas


JDACT

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Música Clássica. Astor Piazzolla. As Quatro Estações. Buenos Aires. «Dia a dia mudamos para quem amanhã não veremos. Hora a hora nosso diverso e sucessivo alguém desce uma vasta escadaria agora. O que sinto que sou? Quem quero ser mora, distante, onde meu ser esqueço, parte remoto, para me não ter»

Cortesia de wikipedia


É uma multidão que desce sem
que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
e, inúmero, prolixo, vou descendo
até passar por todos e perder-me.


JDACT