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quinta-feira, 21 de março de 2019

Poesia. Os Fabulosos. «Este vinho tem valor põe a cabeça contente dá pé leve ao prior…»

jdact

Moda do sr. Prior
«Ai tento, amor não caias
Repara tens pouca escolha
Um anda atrás da saia
Outro descalça a bota
A moça em tudo encalha
Elas têm pouca roda.

Este percebe da poda
Já provou este licor
Dão saias que andam na moda
Ela é de senhor prior
A moça em tudo encalha
Mas não ficou ao dispôr.

Este vinho tem valor
Põe a cabeça contente
Dá pé leve ao prior
Quer bailar com toda a gente.

Escapou-se-lhe o amor
Por entre os dentes de um pente»
In Vitorino

In Os Fabulosos Tais Quais, Edição Sony Music Portugal,

Cortesia de SMPortugal/JDACT

quarta-feira, 13 de março de 2019

Poesia. Os Fabulosos. «Apanhei o cabelo com tranças de teares assim só podes vê-lo se mo desenleares»

jdact

Enxoval
«Passei o meu vestido
Para o meu namorado
Já estava prometido
Mas andava guardado.

Dá-me pelo joelho
Pode ser mais ousado
Nuns dias é vermelho
Nos outros, encarnado.

Passei o meu vestido
Para o meu namorado

Apanhei o cabelo
Com tranças de teares
Assim só podes vê-lo
Se mo desenleares.

Os teus dedos da mão
Travessa que ele quer
Dá-lhe as ondas que são
As modas de uma mulher.

Não há quem não sinta o que a gente
Sente
Não há quem não cante o que a gente
Canta.

Dizem que sou vaidosa
De ti, mas afinal
Até a simples rosa
Nasceu com este enxoval».
In João Monge

In Os Fabulosos Tais Quais, Edição Sony Music Portugal,

Cortesia de SMPortugal/JDACT

sábado, 9 de março de 2019

Poesia. Os Fabulosos. «Tenho vontade de ver-te mas não sei como acertar. Passeias onde eu não ando, andas sem eu encontrar»

jdact

Moda das Flores
«Os teus olhos são violetas
São violetas estão em flor
Quem me dera que os meus olhos
Fossem flores para o meu amor.

O cravo que tu me deste
Era de papel rosado
Mas mais bonito era ainda
O amor que me foi negado.

Olha lá vai a florista
Olha lá vai o meu bem
Não há olhar que resista
Ao olhar que o amor tem.

Tens uma rosa na mão
Não sei de é para me dar
As rosas que tens na cara
Essas sabes tu guardar.

Olha lá vai a florista
Olha lá vai o meu bem
Não há olhar que resista
Ao olhar que o amor tem.

Tenho vontade de ver-te
Mas não sei como acertar
Passeias onde eu não ando
Andas sem eu encontrar.

Olha lá vai a florista
Olha lá vai o meu bem
Não há olhar que resista
Ao olhar que o amor tem.
In Fernando Pessoa

In Os Fabulosos Tais Quais, Edição Sony Music Portugal,

Cortesia de SMPortugal/JDACT

Poesia. Os Fabulosos. «Oh mulher onde é que tu andas preenche este meu vazio. No meu coração tu é que mandas dá sentido ao desvario»

jdact

Mês de Agosto
«Já lá vai o mês de Agosto
Vai-se o tempo do calor
Já lá vai de quem eu gosto
Deus te leve meu amor.

Deus te leve e traga um dia
Com as chuvas que hão-de vir
Até a rosa bravia
Um dia volta a florir.

As rolas quando se casam
Fazem juras à tardinha
Se uma tiver que abalar
A outra canta sozinha.

Já sinto o frio de Janeiro
Já fiz o lume de chão
Este amor é o primeiro
Que me aquece o coração.

Já lá vem o rosmaninho
Dar à luz a Primavera
Se eu morrer de amor sozinho
Canto só à tua espera».
In João Monge


Mulher Fantasma
«Desde o nascer ao pôr do sol
Que não me sais da cabeça
Trago a minha vida presa
Na sombra de um desamor.

Passas sempre fugidia
Nem a cor do misterioso olhar
Algum dia cheguei a sentir
Quando a medo te vou espreitar.

Oh mulher onde é que tu andas
Preenche este meu vazio
No meu coração tu é que mandas
Dá sentido ao desvario.

Na verdade não sei se existe
Ou se é coisa inventada
Tenho a vida encalhada
Nas noites em que vivo triste.

Passas sempre fugidia
Nem a cor do misterioso olhar
Algum dia cheguei a sentir
Quando a medo te vou espreitar.

Oh mulher onde é que tu andas
Preenche este meu vazio
No meu coração tu é que mandas
Dá sentido ao desvario.
In Vitorino

In Os Fabulosos Tais Quais, Edição Sony Music Portugal,

Cortesia de SMPortugal/JDACT

quarta-feira, 6 de março de 2019

Poesia. Os Fabulosos. «Não tenho nada que valha meia dúzia de tostões mas guarda tudo o que eu sei na algibeira dos calções»

jdact

Algibeira
«Quando eu for grande vou ter
Barba branca até ao peito
P´ra contar o que eu cá sei
Das mil noites que passei
E outras coisas a respeito.

Hás-de saber onde nasce
O coração das pessoas
A terra onde começaste
E aquela que tu sonhaste
Onde só há coisas boas.

Quando eu for grande vou ter
A calma das oliveiras
P’ra te contar de onde vem
A lua que a Terra tem
E outras coisas verdadeiras

Lá vai no alto uma estrela
Quem sabe onde vai cair
Anda, pede-lhe um desejo
E não te esqueças de um beijo
Que são horas de dormir

Não tenho nada que valha
Meia dúzia de tostões
Mas guarda tudo o que eu sei
Na algibeira dos calções».
In Os Fabulosos Tais Quais, letra de João Monge

In Os Fabulosos Tais Quais, Edição Sony Music Portugal,

Cortesia de SMPortugal/JDACT

Poesia. Os Fabulosos. «Dos meus já cansados olhos correm rios ao luar uma fonte de saudade…»

jdact

Moda da Passarada
«Tais quais, oliveiras, olivais
Pintassilgos, rouxinóis,
Caracóis, bichos móis,
Morcegos, pássaros negros,
Tarambolas, galinholas,
Perdizes e codornizes,
Cartaxos e pardais,
Cucos, milharucos,
Cada vez há mais.

Já chegaram os Tais Quais,
Trazem cantigas no peito
Rapazes e rapariga
Cantam modas a seu jeito».
In Tradicional Tais Quais

Limoeiro
«Tenho no quintal um limoeiro
Junto ao canteiro da hortelã
Ele dá limões o ano inteiro
Eu em troca rego todas as manhãs

Eu em troca rego todas as manhãs
Isto é, se não chover primeiro
Junto ao canteiro da hortelã
Tenho no quintal um limoeiro.

Este limoeiro dá-me sombra
Ouve-me as preces e lamentos
Ai amor o que eu daria
Para te ter nestes momentos

Dos meus já cansados olhos
Correm rios ao luar
Uma fonte de saudade
Meu amor por ti a bailar».
In Tradicional Celina Piedade e Alex Gaspar

In Os Fabulosos Tais Quais, Edição Sony Music Portugal,

Cortesia de SMPortugal/JDACT

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Letras e Composições. Carlos Ramos. Frederico Brito. Francisco Viana. Moniz Pereira. «Valeu a pena ter vivido o que vivi, valeu a pena ter sofrido o que sofri, valeu a pena ter amado quem amei, ter beijado quem beijei»



Cortesia de wikipedia e jdact


Recordações do Passado

«Concordo que se falem da Severa
Pois no seu tempo já era mais que rainha do fado
E entendo, que é bom lembrarmo-nos mais
Desses nomes imortais, dos fadistas do passado

Tecer a glória duma Cesária fadista
E da Maria Vitória, ou duma Júlia Florista
Dum Armandinho, fadistas duma só crença
Marceneiro e Machadinho, Joaquim Campos e Proença

Dos poucos nomes que eu disse
Não devo, mesmo que eu queira
Esquecer a Maria Alice
Nem a Emília Ferreira
E então nesta hora incerta
Lembrar-me a Ercília Costa
Amália, Hermínia e Berta
Das quais tanto o povo gosta

Agora quando os mais novos acordam
São os velhos que recordam como em tempos era o fado
E os de hoje, de vida alegre e louçã
Hão-de chorar amanhã com saudades do passado

Ninguém entende, nessa aparência bizarra
Como é que a gente se prende ás cordas duma guitarra
Ninguém maldiga do fado que nos encanta
Que a vida é uma cantiga que nem toda a gente canta

Mas quando eu já for velhinho
Hei-de entreter-me, bem sei
Ensinando ao meu netinho
Os fados que já cantei
Talvez os velhos lhe apontem
As minhas noites de agrado
Que lhe digam, que lhe contem
Que eu também cantava o fado»
Compositor: Frederico de Brito e Francisco Viana


Valeu a Pena

«Com voz serena
perguntaram-me ao ouvido
Valeu a pena
vir ao mundo e ter nascido?

Com lealdade, vou responder, mas primeiro
Consultei meu travesseiro, sobre a verdade

Tive porém, que lembrar o meu passado
Horas boas do meu fado, e as más também

Valeu a pena
Ter vivido o que vivi
Valeu a pena
Ter sofrido o que sofri
Valeu a pena
Ter amado quem amei
Ter beijado quem beijei
Valeu a pena

Valeu a pena, ter sonhado o que sonhei
Valeu a pena, ter passado o que passei

Valeu a pena, conhecer, quem conheci
Ter sentido o que senti, valeu a pena

Valeu a pena, ter cantado o que cantei
Ter chorado o que chorei, valeu a pena»
Compositor: Moniz Pereira

Cortesia de Wikipedia

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Escutar a Literatura. Vieira Carvalho. «Há casos em que só alguns é que tocam, cantam e dançam, e outros casos em que a comunicação musical é generalizada. Mas todos os procedimentos estão organicamente estruturados»

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Universos Sonoros da Escrita. Música e dialéctica da escuta
«(…) Nas condições correntes de fala, no quotidiano, raramente as alterações do médium acústico são (consideradas em si mesmas) objecto de representação ou de descodificação. Por exemplo, num concurso para locutor radiofónico, é testada a voz dos candidatos, e, portanto, o que conta são os estados do medium e não a mensagem ou os signos linguísticos veiculados. Mas fora de situações deste tipo, os níveis que prevalecem na comunicação falada são o terceiro, o da representação por substituição ou signo convencional, e o segundo, representação do todo pela parte. Já na música se dá, e desde tempos ancestrais, uma verdadeira inversão da hierarquia. A representação por transformação e a descodificação de sintomas de transformação ganha aí enorme importância sociológica: determinam se o instrumento que se pretende vender ou adquirir tem ou não a sonoridade adequada, se a voz é adequada à admissão num coro e qual é a sua tessitura, se o músico entoou com exactidão a altura dos sons que lhe competem numa prática mágica ou se merece a morte imediata por ter falhado e desse modo suscitado a ira dos deuses (dado que qualquer desvio de uma fórmula já consolidada na prática liquidava o seu efeito mágico e podia suscitar a ira dos poderes sobrenaturais, a rigorosa fixação dos padrões das alturas tornava-se no sentido do termo uma questão vital, e cantar mal um crime a ser expiado, não raro castigado com a morte imediata do culpado, e daí a extraordinária força conferida aos intervalos estereotipados mal entram por qualquer razão canonizados) Em A Tragédia da Rua das Flores, de Eça de Queirós, num serão em casa de Madame de Molineux, em que se canta ópera e um dos convidados é um primo uomo do S. Carlos, a anfitriã é cumulada de elogios, quando ela própria faz demonstração dos seus dotes vocais: tem uma fortuna na garganta!, comenta um dos presentes.
É uma situação típica de descodificação de sintomas de transformação. A lisonja significava que a amadora burguesa tinha voz para fazer carreira profissional como prima donna. A história da música está cheia de casos reais similares, de Farinelli a Pavarotti. Tudo começou para eles com a matéria-prima vocal, isto é, a representação e a descodificação de sintomas de transformação. Coisa que, por contraste, não tem obviamente qualquer relevância para o maior ou menor êxito noutras profissões. Originariamente a música nasce ligada ao mundo vivido, não está separada deste nem organizada num sistema autónomo independente das funções mais imediatas do quotidiano. Cantar e tanger instrumentos, normalmente em associação com a dança, são, por exemplo, práticas comuns em cerimoniais mágicos ou de culto, largamente documentadas na iconografia e noutros testemunhos histórico-arqueológicos ou, ainda hoje, pela observação directa de estudiosos de culturas tradicionais europeias ou extraeuropeias. Em tais situações, ou noutras equiparáveis, rituais fúnebres, festivos, etc., a que poderíamos chamar, por comodidade, situações etnográficas, o modelo de comunicação musical é fundamentalmente o da representação do todo pela parte (do lado do produtor) e da descodificação de sintomas contextuais (do lado do receptor). Estamos em cheio no já referido segundo nível de comunicação.
Neste caso, e como bem acentua Kaden, há uma ligação orgânica de ambos, tanto do produtor como do receptor, ao todo representado no processo musical. Os elementos da comunidade são todos simultaneamente emissores e receptores, pois todos estão envolvidos activamente no ritual. Há casos em que só alguns é que tocam, cantam e dançam, e outros casos em que a comunicação musical é generalizada. Mas todos os procedimentos estão organicamente estruturados, quer os especificamente musicais, quer os não musicais, e remetem uns para os outros numa rede de rectroações que mutuamente se condicionam (estrutura de comunicação coloquial). Se nos concentrarmos nos eventos sonoros a que chamamos música, então qualquer elemento envolvido na comunicação, ao fazer música, está a apontar de uma forma implícita para o contexto a que ela se encontra organicamente ligada». In Mário Vieira Carvalho, Escutar a Literatura, Universos Sonoros da Escrita, Edições Colibri, Universidade Nova de Lisboa, CESEM, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-427-6.

Cortesia EColibri/JDACT

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Requiem em Terezín Josef Bor. «Mãos à obra, ouve-se de todos os lados para encorajar os artistas. Estes sorriem e, com um leve aceno de cabeça, prometem que a coisa sairá…»

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«No recreio da antiga escola de Terezín, diante da porta fechada do amplo ginásio, uma grande multidão encontra-se pacientemente reunida. Aguarda-se a chegada dos artistas, os quais devem ter prioridade de entrar no salão, já que mais tarde dificilmente o conseguiriam. Ei-los que se aproximam, enfim, Rafael Schaechter e todo o conjunto, calorosamente saudados pela multidão, sem qualquer espécie de cerimónia, como se costumam cumprimentar bons amigos que se encontram diariamente na rua. Não existe entre eles a distância do espectador ao artista, todos são prisioneiros do mesmo lager. Olá, Rafinho, gritam-lhe daqui e dali, hoje queremos assistir a qualquer coisa de especial. Aqui ninguém usa outro nome para ele; é assim que todo o gueto conhece este moço de óculos, um tanto baixote. Mãos à obra, ouve-se de todos os lados para encorajar os artistas. Estes sorriem e, com um leve aceno de cabeça, prometem que a coisa sairá de primeira, não haverá decepção. Schaechter abre a porta, os artistas vão entrando e encaminham-se directamente para os seus lugares. Não há palco, vendo-se apenas, em frente da estante do regente, um caixote virado. É o estrado do maestro. Schaechter  sobre para ele e fica a olhar para o público que vai ocupando a sala.
Entram adultos e crianças, pois até estas, já que a morte, no campo, a todos ronda, hão-de compreender a música desta noite. Muita gente idosa. Gente magra, recurvada, envergando velhas roupas remendadas. Autênticos mendigos. Porém, são justamente estes que, através da pose e da atitude, tentam expressar o cunho solene da estreia de hoje, nem que seja por meio de uma tirinha de pano no lugar da gravata. Não há ninguém para encaminhar os convidados; todos sabem perfeitamente para onde se devem dirigir. Às crianças ficou reservado o lugar no chão mais perto da orquestra, os velhos vão-se acomodando, muito apertados, em compridos bancos de madeira e os adultos mais novos ajeitam-se o melhor que podem, junto às paredes e nas coxias. Será que ainda há lugar para mais alguém? A sala está apinhada, parecendo não comportar mais ninguém. No entanto, Schaechter espera, pacientemente, enquanto outros e mais outros vêm entrando. É incrível, como a massa humana se pode comprimir daquela maneira!
Bom público de estreia!, pensa o regente. Poderia encontrar, no meio dele, às dúzias, músicos e críticos notáveis! Até dava para organizar o corpo docente de um conservatório de música! De facto, um público desse nível, com tanta cultura musical, não se encontra em qualquer parte. E, certamente, em lugar algum os ouvintes aguardam com tanta ansiedade os primeiros acordes de uma estreia. Cessou o movimento junto à porta, não vem mais ninguém. A porta, porém, fica aberta, não só porque é impossível fechá-la mas também para dar aos que não conseguiram entrar uma oportunidade de ouvirem. Pode-se começar». In Josef Bor, Requiem em Terezín, 1963, colecção os livros das três abelhas, Publicações Europa-América, 1966, edição 2085-1286.

Cortesia PEAmérica/JDACT

domingo, 13 de setembro de 2015

A Música Grega entre a Europa e a Ásia. Aires R. Pereira. «… a grande ‘kithara’ de concerto. A kithara tomou a sua forma, no tempo de Cepion, discípulo de Terpandro. Foi designada kithara Asiática, por ser usada pelos músicos de Lesbos que viviam perto da Ásia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Ao abordarmos os principais problemas que se levantam em torno da música, na cultura grega, verificámos que existe uma longa discussão acerca dos conceitos musicais, ditos como património helénico e outros, que passaram a integrá-lo. Esta integração, chamada helenização, é geralmente acompanhada por longas polémicas que se centram, no caso da música, sobre os ritmos, harmonias, instrumentos e conceitos estéticos. Este tema ocorreu-nos como resultado das investigações que realizámos acerca da Mousiké nas tragédias e de posteriores estudos sobre o sentido do tema nos teóricos musicais do período helenístico. Uma abordagem como esta da cultura grega, tem necessariamente que pressupor como metodologia científica, a interdisciplinariedade entre diversas áreas, como sejam, as ciências musicais, a história, a filologia clássica, a arqueologia, a fonética e a filosofia.
Como nota prévia, devemos desde já deixar claro que os gregos concebiam o mundo dividido em duas partes: a Europa e a Ásia. Hecateu, um historiógrafo, fez mesmo um mapa, no qual dividia o mundo nestas mesmas partes, e Heródoto discute essa divisão, propondo uma outra tripartida: Europa, Ásia e Egipto, na qual a Europa tem a mesma extensão em latitude que a Ásia. Mas o topónimo Europa, surge pela primeira vez no Hino Homérico α Apolo, situada no norte da Grécia por oposição ao Peloponeso. Este Hino é datado, com algumas reservas, do século VI a. C., facto que o coloca como anterior a qualquer outro documento onde se refere a Europa. A partir dele, dá-se um fenómeno semelhante ao conceito de Hélade, que inicialmente estava circunscrita ao Norte e depois, foi alargada ao peloponeso, como se pode ler na IV Nemeia de Píndaro (473 a. C.), na qual se fala da Europa como um território que se foi alargando segundo conceitos culturais, os quais levaram os gregos a diferenciar, por exemplo, entre a cultura dos Persas, na peça homónima de Esquilo e a cultura grega Desta diferenciação faz parte a música, que espelha o pensamento helénico no seu âmago.
Entre as fontes a partir das quais podemos conhecer a música, ressaltam as representações iconográficas em vasos e as alusões em textos literários, além dos estados dos filósofos e dos teóricos musicais. Um dos autores gregos que mais contribuiu para o estudo da música, e, em concreto das inter-relações entre a cultura grega e outras culturas, foi Plutarco. Ε entre os objectos do seu estudo figuram os instrumentos, que são por ele caracterizados pelos materiais que os constituem, pelo som que produzem, pelas funções que desempenham, pela integração no seu contexto próprio, e pela impressão auditiva causada.
É deste modo que se apresenta a grande kithara de concerto. A kithara tomou a sua forma, no tempo de Cepion, discípulo de Terpandro. Foi designada kithara Asiática, por ser usada pelos músicos de Lesbos que viviam perto da Ásia. Este epíteto de Asiático estava de tal forma enraizado na cultura grega, que Estrabão afirma: … toda a música nasceu na Ásia ou na Trácia. Estes epítetos tinham uma grande importância no domínio da música, se considerarmos que a memória e o ouvido estavam por detrás de quase toda a formação musical, de tal modo que era possível referir um instrumento e associar-lhe algumas melodias. Por exemplo, as melodias auléticas não eram executadas por todos os géneros de aulos, mas apenas por alguns. Deste modo, cada melodia estava ligada a um instrumento especificamente, dependendo da sua tessitura e timbre. Os epítetos tinham desde os Poemas Homéricos um fundamento musical, na medida em que ajudavam à identificação, quanto à origem e carácter, de melodias que se repetiam noutros contextos diferentes daqueles de onde eram originárias. A este propósito é significativa a obra de Lord, na qual se enuncia a teoria, de que as frases musicais assentavam em fórmulas que variavam e eram desenvolvidas da tradição oral para a escrita. Assim, a recepção de um poema envolvia alguma transformação mantendo, no entanto, fixo o tema.
Além da kithara, considerada um dos intrumentos paradigmáticos da cultura grega, também teria uma origem não helénica. A variante de lyra com braços longos, produzindo sons graves, é um instrumento dos mais arcaicos, tendo sido Ateneu quem melhor traçou a sua história. Os testimonia, afirmam que Terpandro teria sido o seu inventor. No entanto, Lesky põe justificadas reservas a esta tradição antiga, referindo que recentemente foram descobertas, na sequência de escavações arqueológicas, pinturas micénicas no Sarcófago de Hagia Tríada, do segundo milénio, onde já se pode ver representado o instrumento. Deste modo, e de acordo com Lesky, Terpandro não foi o primeiro inventor. Mas isto não significa que o uso do instrumento se continuasse a verificar após o declínio da cultura micénica. Neste sentido, o testemunho de Estrabão que atribui a Terpandro o aumento do número de cordas, levanta a dúvida se teriam já os gregos conhecimento deste instrumento ou se efectuaram a sua reinvenção. Rocha Pereira considera viável uma nova invenção por parte de Terpandro. Alguns testemunhos antigos também atribuíam a invenção a Anacreonte». In Aires Rodeia Pereira, A Música Grega entre a Europa e a Ásia, Revista Humanitas, volume XLIX, 1997, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

domingo, 24 de maio de 2015

Escutar a Literatura. Vieira Carvalho. «O nível da transformação do ‘medium’ acústico; o nível da ‘representação do todo pela parte’ através das transformações operadas no ‘medium’; o nível da ‘representação por substituição’…»

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Universos Sonoros da Escrita. Música e dialéctica da escuta
«(…) . É a recursividade da comunicação humana, já enfatizada por Grice (citado por Tomasello), que transforma tudo:
  • transforma ajuda e partilha em expectativas mútuas ou até normas de cooperação; 
  • transforma a compreensão de objectivos e intenções em objectivos e intenções da comunicação (Grice); 
  • transforma o raciocínio prático em raciocínio cooperativo; 
  • transforma sinais imitados em convenções bidireccionais partilhadas.
O valor acrescentado tanto no apontar como no mimar vem da referida infraestrutura psicológica oculta na comunicação humana: a infraestrutura de intencionalidade partilhada, isto é, o modelo cooperativo de comunicação. Eis o ponto em que insiste Tomasello. Outros primatas não estruturam a sua comunicação da mesma forma com intenções conjuntas, atenção conjunta, motivos cooperativos mutuamente assumidos e convenções comunicativas. Antes se limitam a tentar predizer ou manipular directamente objectivos, percepções e acções individuais dos outros. Mas já as crianças começam a estruturar a sua comunicação gestual cooperativamente mesmo antes da linguagem, e fazem-no em sincronia evolvente (evolucionária) com a emergência das suas faculdades mais gerais de intencionalidade partilhada, tal como esta se manifesta noutras actividades colaborativas. Em suma: a aquisição de convenções linguísticas depende crucialmente de faculdades e motivações sociocognitivas desenvolvidas originariamente na comunicação gestual (gestos de apontar e icónicos). O propósito da minha indagação é reflectir sobre a comunicação musical a partir destes resultados a que chegou Tomasello, seguindo um percurso crítico que passa pelos modelos tipificados por Christian Kaden na sua Musiksoziologie (Sociologia da Música), publicada em 1984. Kaden identificou três níveis relevantes respectivamente de representação e de descodificação na comunicação musical:
  • o nível da transformação do medium acústico; 
  • o nível da representação do todo pela parte através das transformações operadas no medium; 
  • o nível da representação por substituição, isto é, o nível da convencialização dessas transformações do medium, conferindo-lhes a função de signos acústicos.
Estes três níveis coexistem na comunicação falada:
  • sem alterações do medium acústico produzidas e percebidas pelos interlocutores, as palavras não são pronunciadas nem ouvidas (primeiro nível); 
  • as palavras, elas próprias, são signos acústicos convencionais, que representam por substituição as coisas que designam (terceiro nível); 
  • finalmente, o código linguístico assenta numa infraestrutura não linguística de compreensão intencional e de terreno conceptual comum que é, de facto, logicamente primário, e isso leva-nos também ao segundo nível, o da representação do todo pela parte, na medida em que a fala dos interlocutores é indissociável dos seus próprios comportamentos expressivos e do contexto pressuposto (terreno comum) da comunicação.
No entanto, e como Kaden já pôs em evidência, a hierarquia da relevância destes três níveis entre si é muito diferente respectivamente na comunicação falada e na comunicação musical». In Mário Vieira Carvalho, Escutar a Literatura, Universos Sonoros da Escrita, Edições Colibri, Universidade Nova de Lisboa, CESEM, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-427-6.

Cortesia EColibri/JDACT

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Música. Poesia. António Zambujo. «Um velho deitado na palha molhada, molhada da chuva e ele também molhado, do sumo da uva. Ele não tem mais nada, do que a saudade daquele trem, o pobre velhinho»

jdact

«Da manhã cedinho
eu salto do ninho e vou p’rá paragem
de bandolete à espera do 7
mas não p’la viagem.

Eu bem que não queria
mas um certo dia vi-o passar
e o meu peito céptico
por um pica de eléctrico voltou a sonhar.

A cada repique
que soa do clique d’aquele alicate
num modo frenético
o peito céptico toca a rebate.

Se o trem descarrila
o povo refila e eu fico num sino
pois um mero trajecto
no meu caso concreto é já o destino.

Ninguém acredita no estado em que fica o meu coração
quando o 7 me apanha
até acho que a senha me salta da mão
pois na carreira desta vida vã
mais nada me dá a pica que o pica do 7 me dá.


Que triste fadário que itinerário tão infeliz
cruzar meu horário com o de um funcionário de um trem da
Carris
se eu lhe perguntasse se tem livre passe para o peito
de alguém
vá-se lá saber talvez eu lhe oblitere o peito também».
Poema de Miguel Araújo, in ‘Rua da Emenda

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