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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

No 31. Poesia. «A mulher que eu amo tem a pele morena. É, bonita é pequena e me ama também; teriam sido capazes de constituir cultura por tudo que a vida ensina e mais do que livro dura…»

Cortesia de wikipedia

A Mulher que Eu Amo

«A mulher que eu amo

Tem a pele morena

É, bonita é pequena

E me ama também.

A mulher que eu amo tem tudo que eu quero

E até mais do que espero encontrar em alguém

A mulher que eu amo tem um lindo sorriso

É tudo que eu preciso pra minha alegria

A mulher que eu amo tem nos olhos a calma

Ilumina minha alma, é o sol do meu dia

Tem a luz das estrelas e a beleza da flor

Ela é minha vida, ela é o meu amor.

A mulher que eu amo é o ar que eu respiro

E nela eu me inspiro p’ra falar de amor

Quando vem p’ra mim é suave como a brisa

E o chão que ela pisa se enche de flor.

A mulher que eu amo enfeita minha vida

Meu sonhos realiza, me faz tanto bem

Seu amor é pra mim o que há de mais lindo

Se ela está sorrindo eu sorrio também.

Tudo nela é bonito, tudo nela é verdade

E com ela eu acredito na felicidade.

Tudo nela é bonito, tudo nela é verdade

E com ela eu acredito na felicidade»

In PaulinhoLevi eLuis Levi, Editora Musical Amigos, Musixmatch.


Queria que…

«Queria que os portugueses

tivessem senso de humor

e não vissem como génio

todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio

que se afirma como tal

só porque sabendo ler

o que lê entende mal

todos os que são formados

deviam ter que fazer

exame de analfabeto

para provar que sem ler

teriam sido capazes

de constituir cultura

por tudo que a vida ensina

e mais do que livro dura

e tem certeza de sol

mesmo que a noite se instale

visto que ser-se o que se é

muito mais que saber vale

até para aproveitar-se

das dúvidas da razão

que a si própria se devia

olhar pura opinião

(…)

se a nação analfabeta

derrubou filosofia

e no jeito aristotélico

o que certo parecia

deixem-na ser o que seja

em todo o tempo futuro

talvez encontre sozinha

o mais além que procuro».

Poema de Agostinho da Silva, in Poemas

Poesia, Agostinho da Silva, Cultura, Filosofia, Roberto Carlos, Paulinho Levi, Luis Levi, Amor,

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Agostinho da Silva. Poema. «… teriam sido capazes de constituir cultura por tudo que a vida ensina e mais do que livro dura…»

jdact

Queria que…

«Queria que os portugueses

tivessem senso de humor

e não vissem como génio

todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio

que se afirma como tal

só porque sabendo ler

o que lê entende mal

todos os que são formados

deviam ter que fazer

exame de analfabeto

para provar que sem ler

 

teriam sido capazes

de constituir cultura

por tudo que a vida ensina

e mais do que livro dura

e tem certeza de sol

mesmo que a noite se instale

visto que ser-se o que se é

muito mais que saber vale

até para aproveitar-se

das dúvidas da razão

que a si própria se devia

olhar pura opinião

(…)

se a nação analfabeta

derrubou filosofia

e no jeito aristotélico

o que certo parecia

deixem-na ser o que seja

em todo o tempo futuro

talvez encontre sozinha

o mais além que procuro».

Poema de Agostinho da Silva, in Poemas

Poesia, Agostinho da Silva, Cultura, Filosofia, 

terça-feira, 20 de agosto de 2019

A Cal para Caiar o Universo. Ruy Ventura. «Do que é certo desconfia do duvidar te enamora é bom não saber de Deus quem de dentro a Deus adora»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cartas e quadras de Agostinho da Silva
«(…) Em todas estas quadras de Agostinho da Silva há uma grande reflexão sobre a existência de Deus ou sobre o que ele pensava ser a íntima essência da divindade. Sem fazer comentários (cada um deverá fazer os seus comentários interiores), apresento-vos algumas das quadras que publicou sobre essa temática:

Se não sabes o caminho
e a sorte nenhum prefere
toma então pelo mais duro
é esse o que Deus te quer.

Acho que Deus não escreve
e também que Deus não fala
e que nos sustenta vivos
a vida que nele cala.

Dizendo que é só amor
fazes Deus menor que Deus
cercas o ilimitado
dos limites que são teus.

E venha filosofia
teologia que farte
o que se pense de Deus
é só de Deus uma parte.

Mais que a teu Deus sê fiel
ao que tu sejas de Fé
talvez o Deus que te crias
oculte o Deus que Deus é.

O mais simples alicerce
traz logo a casa traçada
se eu quiser chegar a Deus
começarei por ser nada.

Posso dizer-lhes de Deus
quanto queiram mas calado
aprovarão se há silêncio
mas se me escutam cuidado.

Se Deus quisesse ocupar
lugar a si mesmo igual
preenchia todo o nada
e o deixava tal e qual.

Sobre o Espírito Santo, cujo culto Agostinho considerava ser a essência da cultura portuguesa, tem uma quadra sintética e bem demonstrativa da sua posição:

Do que é o Espírito Santo
só diga quem fique mudo
que palavra há que me leve
àquele nada que é tudo.

Há sempre uma grande aceitação tanto do mundo transcendente quanto do mundo concreto, imanente, em que todos nós vivemos. Embora acredite na crença, esta tem sempre base na desconfiança, na dúvida. Só com o vencimento das dúvidas, das desconfianças, é que se chega à crença, sendo no entanto sempre uma crença imperfeita. Refere:

Do que é certo desconfia
do duvidar te enamora
é bom não saber de Deus
quem de dentro a Deus adora.

E o mesmo diz do mistério. Ao longo da História, por motivos naturais e aceitáveis, o ser humano tem tentado constantemente vencer os mistérios e os segredos. Andamos sempre em demanda de uma revelação dos segredos».
In Ruy Ventura, A Cal para Caiar o Universo, www.arquivors.com/ruy_acal.pdf, 2007, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia. Agostinho da Silva. Luís Carlos R. Santos. «Pérsio, poeta satírico da Roma Antiga, adepto do Estoicismo, escola filosófica grega fundada em Atenas no século III, antes da era comum, punha da defesa do estoicismo e no combate dos vícios de Roma…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia a Luís Carlos R. Santos

As Primeiras Obras (1906-1944)
«(…) Para sustentar as suas críticas a Spengler, Agostinho vai abordar um conjunto de temas sobre as civilizações clássicas que caracterizarão as suas principais obras, neste, por assim dizer, primeiro período de produção literária e científica. A comparação entre estruturas políticas das civilizações clássicas do Egipto, Grécia e Roma, a história da arte greco-latina, a tragédia grega, a evolução científica com referências ao pensamento de Anaximandro, Xenófanes e Eratóstenes, entre outros, e, por fim, um conjunto de referências às características religiosas da antiguidade clássica, a partir das quais se centrará no estudo pormenorizado da religião grega, constituem alguns dos principais temas que desenvolve neste período. Enquanto vai realizando estudos superiores, entre 1926 e 1929, o jovem Agostinho participa em A Águia, Revista da Renascença Portuguesa, onde estavam ilustres pensadores portugueses como Teixeira Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, Fernando Pessoa, António Sérgio, entre outros. Por ruptura ideológica interna Agostinho acaba por sair do Movimento, já depois de terem saído António Sérgio, Jaime Cortesão e Raul Proença.
Mas já neste período, a sua actividade de articulista é muito abundante e para lá da participação na A Águia podem encontrar-se um alargado número de artigos, de temas muito variados, em vários jornais e revistas, como são o caso do Jornal Monárquico Acção Académica, no Porto, entre o período de 1925-1926; O Comércio do Porto, entre 1925-1930; Porto Académico, jornal da Academia portuense do qual foi diretor, entre 1926-1927; A Ide’a Nacional, semanário monárquico integralista, sediado em Lisboa, em 1927; Diónysos, Revista do Porto, em 1928. Depois de ter deixado de colaborar com A Águia, Agostinho da Silva vai participar durante alguns anos com a revista Seara Nova, entre 1929 e 1938, mas sem que, durante esse período, deixasse de continuar a publicar inúmeros textos noutros jornais e revistas espalhados por vários lugares do país como Aveiro, Leiria, Figueira da Foz, Coimbra.
Com a chegada ao fim do doutoramento, a especialização obtida nos estudos sobre as civilizações clássicas e os conhecimentos aí conquistados fizeram com que Agostinho da Silva publicasse vários textos que daí advieram, desde logo das suas teses de licenciatura e de doutoramento, onde entre eles encontramos Um Breve Ensaio sobre Pérsio, em 1929, e A Religião Grega, em 1930, textos em que analisa o pensamento religioso grego e latino.
Pérsio, poeta satírico da Roma Antiga, adepto do Estoicismo, escola filosófica grega fundada em Atenas no século III, antes da era comum, punha da defesa do estoicismo e no combate dos vícios de Roma uma minuciosidade e uma veemência que não permitem falar do poeta como dum simples glosador.
Neste estudo sobre Pérsio o que se releva é como o choque entre diferentes culturas e religiões como a romana e a grega, ambas aglutinadas pelo vasto Império, põem na sua pena uma valorização da cultura grega face à cultura romana. Se militarmente os gregos foram assimilados pelos romanos, de certa forma, os romanos foram conquistados pelas ideias gregas, sobretudo por particularidades ligadas ao seu pensamento religioso, mas também como consequência do avanço que a filosofia e a ciência tiveram na cultura helénica. Ao passo que a religião romana tinha um carácter particular, nacional, era a religião do povo que pela sua vontade, pelo sóbrio viver, pelo patriotismo, passara da cidade ao império (…) as religiões estrangeiras eram essencialmente universalistas e isso explica cabalmente o êxito que obtiveram. Os romanos já mostravam tendências para o universal, acolhendo os deuses das cidades vencidas e tratando com tolerância as regiões conquistadas; desde que se tornou senhor do Império este começou formando um corpo único, solidamente ligado a Roma, o particularismo e o culto religioso que o exprimia não tinham mais razão de ser; a tendência universalista desenvolve-se de dia para dia e procura uma nova fórmula que a satisfaça. Na vastidão do Império a religião grega vai-se sobrepondo à religião romana». In Luís Carlos R. Santos, Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia, Agostinho da Silva, U de Lisboa, F de Letras, D de Filosofia, Tese de Doutoramento, 2014, Wikipedia.

Cortesia de ULisboa/FLetras/DFilosofia/JDACT

segunda-feira, 29 de julho de 2019

A Cal para Caiar o Universo. Ruy Ventura. «É só bem dentro de nós que o projecto se anuncia se retoma se reforma e se solta à luz do dia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cartas e quadras de Agostinho da Silva
«(…) Há uma antevisão do que é a polissemia de quem escreve. Quem escreve tem de admitir que pode não ser entendido, que pode ser lido de outra forma. Existe quase uma visão anárquica do pensamento, pois as peças não têm que estar coerentes, dado que a coerência é atribuída pelo leitor. Ainda em relação à questão de Deus como Poeta, o início de um poema seu sobre Fernando Pessoa é muito claro nas suas ideias:

O mito é o nada que é tudo
tem por mãe a poesia
e o grande poeta é Deus
o resto filosofia

mas Deus poeta e poema
em Pessoa se encarnou
profeta de Portugal
Lisboa o crucificou

Em toda a poesia de Agostinho, embora, como já referi, eu não seja um conhecedor de todos os meandros da sua obra, penso que existe uma grande valorização do imaginar, da criação de imagens, imagens essas que não têm de estar ligadas ao mundo concreto, mas são sobretudo fruto do pensamento humano, da racionalidade. Afirma:

A face oculta da lua
só banha de seu luar
aqueles que não o vendo
o sabem imaginar.

A realidade está para além do visível e do concreto, está sobretudo no imaginável. Quando o ser humano tenta tornar concreto aquilo que por natureza não o é, a realidade foge. Tem por exemplo uma quadra em que diz:

Em mim tenho o mundo inteiro
e mais que tudo as estrelas
é procurá-las no céu
o que me impede de vê-las.

É só bem dentro de nós
que o projecto se anuncia
se retoma se reforma
e se solta à luz do dia.

Procurar ver as estrelas é sinal de que elas fogem, pois são parte sobretudo do domínio da imaginação».

In Ruy Ventura, A Cal para Caiar o Universo, www.arquivors.com/ruy_acal.pdf, 2007, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Agostinho Neto e Agostinho da Silva. Gilson Brandão O. Junior. «Os diálogos entre Brasil e Angola são longevos. As conexões entre as margens do Atlântico Sul construíram-se paulatinamente, mediante um colonialismo secular…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia de Gilson Brandão Oliveira Junior

Exílios. Encontros e desencontros entre intelectuais no Atlântico Sul
«Recebe esta mensagem como saudação fraternal ó negro-qualquer das ruas e das senzalas do mato sangue do mesmo sangue valor humano na amálgama da Vida meu irmão a quem saúdo!» In Agostinho Neto

«Eu não quero ter poder mas apenas liberdade de falar aos do poder do que entenda ser verdade». In Agostinho da Silva

«A pesquisa analisou o intercâmbio ocorrido entre intelectuais e instituições angolanas, portuguesas e brasileiras no período compreendido entre 1944 e 1961, avaliando as suas condições, trocas e influências recíprocas, por meio do estudo das trajectórias dos intelectuais elencados protagonistas: Agostinho Neto, importante poeta da geração da Mensagem, migrou de Angola para Portugal em 1947 para estudar medicina em Coimbra e acabou por envolver-se nas actividades políticas da Casa dos Estudantes do Império em Lisboa, mediante as quais ocupou papel decisivo na luta anticolonial, tornando-se o primeiro presidente de Angola em 1975; Agostinho da Silva, intelectual português que se autoexilou no Brasil em 1944 devido às perseguições políticas do salazarismo, actuou em distintas instituições culturais e académicas neste país, sendo o responsável pela reinauguração das suas relações institucionais com os países africanos diante da criação e direcção do Centro de Estudos Afro-Orientais no final dos anos 1950. Assim, a pesquisa enfocou o processo de construção das suas principais concepções políticas e culturais, demonstrando que a concomitância da sua vivência e a similaridade das suas trajectórias, mesmo que alicerçadas em contextos e experiências diversas, geraram interpretações opostas ao discurso hegemónico colonial, ainda que partissem de temáticas semelhantes. Tal investigação interpretou as afinidades, particularidades e distinções existentes entre eles, e deles com relação a outros intelectuais pertencentes às suas respectivas gerações, demonstrando como os contextos em que cada um actuou, embora substancialmente díspares, também dialogaram entre si. O trabalho fornece subsídios para as reflexões sobre o processo de recuperação dessas ideias no presente».

«Apresentaremos o caminho interpretativo desta pesquisa que versa sobre a pluralidade e a circulação das ideias de intelectuais subalternos actuantes entre as margens meridionais do Atlântico, desde o imediato após-segunda-guerra, até ao início do conflito armado promovido pelos países colonizados contra Portugal. Diferentemente do que poderia sugerir a usual ênfase dos estudos sobre a escravidão, a aproximação entre essas margens perdurou muito além do fim do período escravagista, reconfigurando-se ao longo do século XX com influências e consequências recíprocas e profundas. Entretanto, as representações desse passado compartilhado eram temas constantemente debatidos por esses intelectuais, sobretudo diante da persistência do salazarismo e do colonialismo, pois buscavam repensar as combalidas ideias de nação vigentes até então. Constantemente obliteradas pela historiografia tradicional, as mensagens promulgadas pelos intelectuais subalternos são demasiadamente importantes por trazerem leituras alternativas às narrativas hegemónicas, principalmente quando se trata de momentos como este, eivado de agudas incertezas. Por isso, os aspectos teórico-metodológicos da pesquisa estão ajustados a este objectivo e serão descritos adiante. A análise dos exílios e dos diversos fluxos e deslocamentos a que foram submetidos, sejam os intelectuais e/ou as suas ideias, serão interpretados como catalisadores da aproximação entre as margens, instigadores de profícuos encontros e desencontros.
Os diálogos entre Brasil e Angola são longevos. As conexões entre as margens do Atlântico Sul construíram-se paulatinamente, mediante um colonialismo secular e cumulativo no qual a escravização de africanos deu a tónica das relações, desde o século XV até o XIX. Sintoma deste forte vínculo foram os protestos que circularam em Luanda quando da emancipação do Brasil, ressoando na aspiração em aderir à sua causa, ensejo que resultou na exigência, por parte da coroa portuguesa, da assinatura de uma declaração na qual os representantes do novo Estado se comprometeriam a não anexar qualquer colónia sua em troca do reconhecimento da independência. De qualquer forma, tal proibição não ameaçou romper as consistentes afinidades nutridas entre as margens meridionais do Atlântico: mesmo com a severa política de controle imposta por Portugal nos seus domínios africanos após a perda do Brasil e do latente senso de decadência dela decorrente (MATOS, 1998), tais contatos foram mantidos diante da extinção oficial do comércio de escravizados (1850) por meio do trato clandestino – o mesmo se pode dizer dos demais tipos de relações, já que elas nunca se resumiram aos empreendimentos esclavagistas.
Não obstante, a segunda metade do século XIX assistiu a alterações substanciais. O sistema classificatório ocidental, emergente desde a época moderna, recebia a sua mais acabada versão com as teorias racialitas oitocentistas (em verdade, seu fundamento manifestava-se desde períodos muito anteriores, pois, apesar da tentativa de justificar (cientificamente) as clivagens entre grupos humanos utilizando as noções homogeneizantes atinentes ao conceito raça ser oriunda dos séculos XVIII e XIX, Carlos Moore (2007) argumenta que ela apenas legitimou distinções precedentes, pautadas por critérios fenotípicos; argumento similar já havia sido defendido e constatado por Lévi-Strauss (1970); já Wallerstein (2007) argumenta que a clivagem entre o mundo ocidental e os demais foi inaugurada no século XVI diante do debate entre Juan Sepúlveda e Bartolomé de Las Casas sobre o direito de intervir (ou não) na vida dos indígenas americanos recém-conquistados, mas que se manteve incólume pelos séculos subsequentes. Nesse sentido, a emergência da moderna filosofia política ocidental estaria atrelada às práticas coloniais, pois o objectivo de legitimar as suas acções intervencionistas coaduna a manutenção do seu poderio pela detração figurativa do Outro, através de representações (morais) antagónicas: cristãos versus pagãos no século XVI, civilizados versus bárbaros no XIX)». In Gilson Brandão O. Junior, Agostinho Neto e Agostinho da Silva, Exílios. Encontros e desencontros entre intelectuais no Atlântico Sul, Tese de Doutoramento em História, Universidade de Brasília, Instituto de Ciências Humanas, 2017.

Cortesia de UBrasília/ICHumanas/JDACT

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Em Torno do Pensar Poetizante de Agostinho da Silva. Lúcia Helena A. Sá. «A partir dos anos da década de 1930, em decorrência da ditadura de António Salazar, intelectuais portugueses estabeleceram-se no Brasil, formando o que António Cândido (2003) designou por missão portuguesa»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Neste nosso trabalho, fazemos apenas o estudo da biografia Vida de Francisco de Assis (1944), pois Agostinho da Silva usou da postura do homem Giovanni Bernardone para aludir à emergência do espiritual no mundo a fim de que vigore o universo de coisas e pessoas confraternizadas entre si, ancoradas forte e exclusivamente no amor socialmente difundido. O biógrafo apresenta-nos um modelo de vida exemplar que renunciou os prazeres mundanos por ter desencoberto a Graça. Ensina-nos a compreender que de nada vale a nossa existência se não soubermos servir, cuidando, voluntariamente, do outro com boa vontade e com agrado. Isso significa que devemos agir em caridade, respeitando as altercações. Foi isso que Agostinho da Silva procurou viver e praticar e declarar literariamente ou em textos pedagógicos e filosóficos.

A diáspora intelectual
A partir dos anos da década de 1930, em decorrência da ditadura de António Salazar, intelectuais portugueses estabeleceram-se no Brasil, formando o que António Cândido (2003) designou por missão portuguesa. Esta se iniciou, por certo, em 1927, com a vinda de Sarmento Pimentel, conhecido como O Capitão, o chefe dos portugueses no exílio em nosso país. Era ele quem dava toda a assistência aos seus compatriotas que chegavam a São Paulo. Os emigro-exilados como, a título de exemplo, Eudoro Sousa, Adolfo Casais Monteiro, Jorge de Sena, Sidónio Muralha e Joaquim Barradas Carvalho, todos da área de Letras, contribuíram para o aperfeiçoamento académico brasileiro. A essa missão portuguesa junta-se a presença do professor Agostinho da Silva que esteve impossibilitado de continuar a realizar os seus projectos culturais e pedagógicos no ambiente político opressor de Portugal à época de Salazar, apesar de já ter deixado nesse território de língua portuguesa a marca de sua intelectualidade provocadora. Mas antes de fincar moradia definitiva no Brasil quando aqui aportou em 1944, auto-exila-se na Argentina no ano de 1945, leccionando a disciplina Pedagogia Moderna na Escola de Estudos Superiores de Buenos Aires e realiza trabalhos no domínio da Histologia. Em 1946, esteve a ensinar nos Colégios Livres na capital do Uruguai.
Essa diáspora de Agostinho da Silva deu-lhe o que Portugal lhe negava, a liberdade nitidamente intelectual que se caracterizava por certo abandono a Portugal no sentido de um Estado-Território, a favor de um Portugal que é a língua portuguesa, substrato unificador poderoso que, hoje, já se tornou código linguístico abrangente, reunindo oito nações em quatro continentes que, mesmo constituindo-se em espaços geograficamente descontínuos, são irmanadas por uma herança histórica, pelo idioma comum e por uma visão compartilhada na defesa da democracia, na promoção do desenvolvimento e na criação de um ambiente internacional mais equilibrado e pacífico. Exemplifica essa complementariedade histórica as realizações agostinianas nesse território de língua portuguesa, notadamente o Brasil, país no qual permaneceu por 25 anos. Instalou-se, a partir de 1947, numa casa alugada dentro de uma fazenda de imigrantes filandeses na Serra de Itatiaia, em Penedo (Estado do Rio de Janeiro). Aí formou uma comunidade alternativa, melhor dizer, de cariz monástico e ecuménico integrada, por exemplo, por Vicente Ferreira Silva e sua esposa, Dora. Essa casa foi frequentada por Cecília Meireles, Mário Andrade, Miguel Reale, Murilo Mendes (foi casado com Saudade Cortesão cuja irmã, Judite Cortesão, era esposa de Agostinho da Silva; as duas eram filhas do intelectual português Jaime Cortesão) e outros intelectuais.
No período em que morou em Itatiaia, investigava a História do século XVIII, ministrava aulas de Filosofia da Educação na Universidade Federal Fluminense e trabalhava no Instituto Oswaldo Cruz como entomólogo. Do Instituto ele levou para a casa um microscópio com a intenção de oportunizar aos jovens e adultos da fazenda o saber científico de modo a integrar o conhecimento popular e o da academia. Também montou uma exposição de arte com trabalhos de crianças para aproximar os colonos finlandeses da gente brasileira. Em 1952, ausenta-se do Rio de Janeiro e vai para o Estado da Paraíba para leccionar em universidade. Já por volta de 1959, quando se naturalizou brasileiro, era notabilizado no universo da cultura portuguesa e, durante a sua estada no Brasil, conseguiu realizar viagens pelo que ele considerava o mundo português. Além disso, deixou-se até mesmo envolver-se pela língua, cultura e encantos do Oriente; proferiu conferências especialmente no Japão, nação que muito lhe interessava dadas às relações com Portugal verificadas nos séculos XVI e XVII, importantes e esquecidas actualmente. Neste país, instigou a constituição de Centros de Estudos do Oriente em Nagasaki, ideia que se estendeu à China». In Lúcia Helena Alves Sá, Em Torno do Pensar Poetizante de Agostinho da Silva, Tese apresentada ao Curso de Doutorado em Literatura do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília, como obtenção do título de Doutor em Literatura, Teoria do Texto Literário, Brasília, 2013, Wikipedia.

Cortesia da UBrasília/TLLiterário/Wikipedia/JDACT

segunda-feira, 22 de julho de 2019

A Cal para Caiar o Universo. Ruy Ventura. «Falou-se aqui em franciscanismo; também está presente nalgumas das quadras do livro em questão. Mas atenção. O fundamento que surge em todos estes textos é sempre a humildade»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cartas e quadras de Agostinho da Silva
«(…) Com este enquadramento, a minha leitura dos textos dele (confesso que não sou um conhecedor muito profundo da obra do professor Agostinho da Silva..., mas considero-me um leitor, que nos últimos catorze-quinze anos tem procurado sempre nunca o perder de vista) acabou por ser aclarada.

Tinha eu dezasseis anos, um dos primeiros livros do professor que comprei foi um volume de quadras inéditas. Coisa que eu, na altura, com a minha ingenuidade natural de dezasseis anos, achei estranha, num pensador que eu já conhecia de uma conferência sua na escola secundária onde eu era aluno. Considerava estranho uma pessoa como ele dedicar-se a escrever quadras. Pensava eu, na altura, que as quadras serviam apenas como veículo natural para os poetas da minha aldeia e arredores, poetas orais que usavam e usam as formas fixas facilmente memorizáveis porque não têm outro meio para se exprimirem. A pouco e pouco, a partir do momento em que comecei a ler essas quadras, cheguei a uma conclusão, conclusão essa que esqueci relativamente e, quando me foi lançado o repto para falar convosco, tentei relembrar e aprofundar. E a conclusão-convicção é esta: quando um autor escolhe um veículo estilístico, não o faz por acaso. E tem um propósito. Sendo o professor Agostinho da Silva um autor, um filósofo, que gostava de insubordinar, que gostava de inquietar e de surpreender, querendo evangelizar os outros com os seus pensamentos e ideias, com as suas contradições (que as tinha), precisava de encontrar instrumentos válidos para esse objectivo. As suas metas, segundo me parece, não eram de elitismo. Ele tinha, na minha opinião, como objectivo divulgar o seu pensamento entre todas as camadas da sociedade. Só assim poderia educar Portugal. Agostinho da Silva deve ter tido consciência de que, ao usar um meio tão simples quanto as quadras (que o povo, as populações menos instruídas, reconhece facilmente também como seu), seria mais fácil levar as pessoas a entenderem melhor ou a aderirem melhor ao seu pensamento. Isto vai ao encontro de uma realidade apontada por uma grande estudiosa da literatura tradicional, Ana Paula Guimarães: por debaixo de vestimentas muito simples podem transmitir-se assuntos muito sérios.
Nesse livro, Quadras Inéditas, vários temas são focados. Passam pela sua autofiguração como poeta, vão ao entendimento da vida como poema, visionam Deus como um poeta, valorizam a imaginação, a interioridade, o mistério como elemento essencial de uma vida integral, reflectem sobre a relação entre o serviço e a autoridade, entre a aprendizagem e os mestres, sobre despojamento material, o estoicismo e a humildade. Falou-se aqui em franciscanismo; também está presente nalgumas das quadras do livro em questão. Mas atenção. O fundamento que surge em todos estes textos é sempre a humildade, humildade que não é apenas falsa modéstia (não a tinha), mas a procura do húmus, daquilo que é mais verdadeiro e mais fértil no ser humano. Essa humildade levava-o, por exemplo, a dizer que não era poeta. Abre esse livro de quadras inéditas com esta estrofe:

Se estas quadrinhas não prestam
com certeza as compus eu
mas se boas foi poeta
além de mim que mas deu.

Refere, depois, quem é o Poeta para ele:

O mundo é só o poema
em que Deus se transformou
Ele existe e não existe
tal a pessoa que sou.

A vida, para Agostinho, está toda edificada enquanto poema, isto é, enquanto harmonia entre o conteúdo e a forma.

Tudo o que faço na vida
é só linha de poema
que cada um ordenará
conforme for seu esquema».

In Ruy Ventura, A Cal para Caiar o Universo, www.arquivors.com/ruy_acal.pdf, 2007, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

A Cal para Caiar o Universo. Ruy Ventura. «O fundamental é que não acabemos por dentro, e o que temos que estabelecer é como vamos viver num mundo tão complicado»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cartas e quadras de Agostinho da Silva
«Contactei com Agostinho da Silva relativamente jovem. Não pessoalmente. Nunca o conheci pessoalmente. Mantivemos, apesar disso, um curto intercâmbio epistolar. Tudo partiu de uma iniciativa do poeta Nicolau Saião que, tendo lido um artigo que escrevi e li numa rádio em Portalegre sobre José Régio, achou conveniente e não despropositado eu enviar cópia desse texto a alguns amigos ainda vivos do autor de Fado, um dos quais Agostinho da Silva e a outra Matilde Rosa Araújo. Esse texto foi enviado. Esperava eu não ter feedback (como agora se diz...). Não pensava que o professor Agostinho da Silva fosse uma pessoa indelicada, mas considerava que uma pessoa mergulhada em pensamentos, muito mais importantes do que os de um jovem alentejano a escrever sobre José Régio, não teria tempo para responder. O facto é que obtive resposta. E durante cerca de um ano, um ano e meio, até pouco tempo antes de ele falecer, houve alguma troca de correspondência, troca essa que me enriqueceu bastante, porque não eram cartas meramente circunstanciais, mas cartas ou pequenos bilhetes que de uma forma concentrada e quase aforística transportavam sínteses e confirmações das leituras que eu fazia da obra do professor Agostinho da Silva.
Sobre vários assuntos comunicava nas cartas. Às vezes aproveitando o pretexto de alguma coisa que eu havia escrito nas minhas. Posso partilhar alguns extractos convosco. Sobre a questão das comunidades linguísticas, das comunidades económicas e da integração europeia, a dada altura, em 1993, escreveu-me:

A comunidade certa para Portugal tem agora início da parte do Brasil, que aqui delegou no Embaixador José Aparecido Oliveira, e que é ainda imaginação dos do culto [do] Espírito que passaram às Américas no [século] XVI. Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. Um dia iremos mais em frente e seremos uma Comunidade Mundial dos Povos de Línguas Ibéricas. Pense só na extensão disto. Veja só quanto mundo. Das Baleares a Timor, apesar de qualquer sentença contra Xanana. Capital? Cada um a tenha dentro de si, e, no mapa, a adore como lhe for próprio em todos os aspectos do concreto e do transcendente.

De uma maneira muito resumida, concentra-se aqui todo um pensamento sobre as comunidades linguísticas e sobre a importância da língua como pátria. Sobre a vivência interior e exterior, um problema que deveria mobilizar o pensamento de todos os humanos, em determinado momento, perante uma certa desilusão que se notava nas cartas relativa ao seu apostolado (chega a dizer: em Portugal, já se escreveu bastante. Falta agir), usa uma máxima que passou a ser para mim, em conjunto com outras, quase uma regra de vida:

O fundamental é que não acabemos por dentro, e o que temos que estabelecer é como vamos viver num mundo tão complicado. Temos que viver plenamente por dentro e daí tirar a cal para caiar o universo.

Passou a ser quase uma máxima de vida para mim. Tirar da vivência do dia a dia a cal para caiar o universo... A relação entre o individual e o universal... O professor Agostinho, nesse ano e meio de intercâmbio, tinha grandes manifestações de humanidade. Uma pessoa que dedicava a sua vida à especulação filosófica, preocupava-se ainda com o facto de eu ter o meu pai internado no Hospital de São José, em Lisboa. E teve o cuidado, numa carta, de me perguntar com evoluía o estado de saúde dele, quando a minha referência ao facto havia sido meramente marginal. Ainda sobre o pensamento dele e esses quase aforismos que escrevia, e que eu tive o privilégio de receber, vinha frequentemente à colação a religião, que era fundamental nele, aliás. Não só o culto do Espírito Santo, mas toda uma maneira própria de ver esses assuntos. A dada altura escreveu:

Toda a religião que vale é apenas a crença que se pode ter seguido que não é demonstrável por matemática, e que é, quanto a mim, a Credibilidade Absoluta, aquilo que é totalmente o de que nós todos temos uma centelha, o sermos todos criadores, mais ou menos apreciados, o que não importa; seja como for, criemos. E para o enjoo que tanta vez o diário traz, o mesmo remédio que se usa a tudo [?]: Olhar o horizonte e escutar o grito da chegada, mesmo que o não haja». In Ruy Ventura, A Cal para Caiar o Universo, arquivors.com/ruy_acal.pdf, 2007, wikipedia.

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