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domingo, 7 de julho de 2019

A Favorita do rei Dinis. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Olá, princesa Vataça. Como tem passado? Bem, Alteza Rea1, respondeu Vataça enquanto fazia a vénia dobrando os joelhos e baixando a cabeça. Continuais linda, princesa»

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«(…) Tudo pronto para receber el-rei Dinis I que não demorou a entrar pela cidade adentro, com os seus cavaleiros e com as bandeiras e estandartes do reino português, à frente, assinalando a real comitiva. Às portas do palácio de Alcazar, o rei de Castela Fernando e sua esposa dona Constança e inúmeros nobres e aias da corte castelhana. Dinis apeou-se do cavalo e abraçou o seu genro com carinho e amizade. Depois voltou-se para sua filha Constança, estendeu-lhe os braços e esperou que a jovem rainha se atirasse ao seu pescoço e o beijasse efusivamente. Deixou-se ficar com a filha nos braços e sentiu, de novo, com emoção, esse sentimento paternal que pensava já o ter abandonado, porque sua filha já estava em Castela havia mais de dois anos. Depois de receber cumprimentos dos mais altos dignitários da igreja e da nobreza de Castela, Dinis percorreu com o olhar as aias da rainha e descobriu Vataça Lascaris, a quem se dirigiu de imediato.
Olá, princesa Vataça. Como tem passado? Bem, Alteza Rea1, respondeu Vataça enquanto fazia a vénia dobrando os joelhos e baixando a cabeça. Continuais linda, princesa. Vataça já não respondeu e enquanto sentia o rubor nas suas faces, el-rei Dinis afastou-se e caminhava já ao lado de Fernando de Castela e de sua filha Constança dirigindo-se para o interior do palácio toledano com ambas as comitivas reais. À noite ao jantar no sa1ão principal de Alcazar, a Corte castelhana preparava-se para ofertar um opíparo jantar aos seus convidados portugueses. Naquela enorme mesa nada faltava. Os melhores vinhos e os melhores manjares enchiam o centro da mesa de uma ponta à outra. Javalis e leitões assados no espeto, faisões e patos, castanhos-escuros brilhantes das assaduras em fornos de lenha especiais, salmões e trutas do rio Tejo, frutas de todas as variedades ibéricas e algumas do norte de África. O rei de Castela deu o mote, após umas breves palavras de boas-vindas ao rei português, agarrou uma das facas que tinha à sua beira, cortou uma perna do faisão e levou-a à boca, com apetite devorador, cravando-lhe os dentes na tenra carne.
Estava divinal, acrescentava, enquanto mastigava com prazer. E todas as largas dezenas de comensais seguiram o seu exemplo, atirando-se literalmente às travessas repletas de iguarias. Dinis, que se havia sentado no outro topo da mesa, de frente para Fernando de Castela, chamara para o seu lado a princesa Vataça Lascaris, com quem falava alrgremente e de vez em quando elevava a caneca de vinho e saudava o seu genro e rei de toda a Corte de Castela. Vataça perguntara como estava a rainha Isabel, a quem ligavam profundos sentimentos de amizade e respeito. Lá continua muito atarefada, dizia Dinis, com as suas devoções e com os seus auxílios aos pobres e desprotegidos de Portugal. Todas as manhãs são as matinas e os louvores a Deus. À tarde reza as vésperas e faz as leituras canónicas da Santa Igreja. Nos períodos de maior fervor religioso, como na Quaresma ou no Advento, faz os seus jejuns. Tem períodos que chama ao palácio todos os pobres e lava-os, veste-os e alimenta-os. Por vezes tenho que chamar a guarda para colocar alguma disciplina nesses desgraçados que vêm aos milhares de todo o país e até de Castela. Sabem que a Senhora é um coração de ouro e não hesitam em chegar-se até ela. E continua a fundar conventos e casas de acolhimento por todo o Portugal?, perguntou Vataça Lascaris». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Coisa extraordinária aquela porque pouco depois perguntava ao seu rei se também havia avistado a tal cruz prateada. Mas nada, ninguém a vira…»

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«(…) A jovem rainha Constança de Aragão, que já estava com 14 anos, recebeu Vataça Lascaris de braços abertos, que as saudades já eram muitas e quis saber como estavam sua mãe e seus irmãos e como tinha sido a viagem a Barcelona. Vataça nada escondeu a Constança e pediu à rainha que se pudesse ausentar de novo da Corte de Castela, mal chegassem novidades de Barcelona, sobre a viagem de Ulisses Patrai a Constantinopla e a Niceia. Os dias passaram descontraidamente e amiúde vinha-lhe à lembrança a viagem que fizera com sua mãe até Zaragoça e a dúvida que alimentara o seu desassossego sobra a débil saúde de sua mãe. Ainda continuaria enferma ou já se sentiria melhor? Apenas nessas alturas lhe vinha à memória também o tesouro dos Lascaris, ou melhor, o tesouro de Niceia. E dizia para si própria que jamais desiludiria sue mãe e que tudo faria para corresponder aos seus desejos.
Certo dia, tendo ido a uma caçada com el-rei e com a rainha Constança, quando os arqueiros perseguiam um veado a toda a corrida dos cavalos, e Vataça se aproximava do veado com o arco em riste e a seta apontada ao coração do animal, um enorme clarão cegou-a por instantes e o cervo escapou. Vataça estacou o seu cavalo e olhando para o céu viu de relance uma enorme cruz prateada, que tal como surgira de imediato, desaparecera. Coisa extraordinária aquela porque pouco depois perguntava ao seu rei se também havia avistado a tal cruz prateada. Mas nada, ninguém a vira e Vataça Lascaris ainda seria objecto de chacota por ter deixado fugir a caça, coisa em que era exímia e sempre que vestia bragas como homem e se equipava de caçadora era seguro que algum cervo ou algum javali ficaria para a ceia. Já não esqueceria aquele episódio e relacionava-o com sua mãe e com a Cruz do Santo Lenho.
Corria ainda o ano do Senhor de 1304. Havia chegado o Verão e calotes abrasadores se faziam sentir por terras de Castela. Temperaturas altíssimas aconselhavam à permanência dentro das paredes do palácio, muito mais frescas e convidativas ao repouso e à sesta. Corriam rumores pelos corredores da corte, de que se preparava uma cimeira entre Castela e Aragão, para pôr fim às constantes lutas entre os dois reinos, pela posse do reino de Múrcia. E tais rumores também referiam a presença do rei de Portugal, nessa cimeira, entre os mais altos responsáveis do poder político da Ibéria. Vataça Lascaris não cabia em si de contente e a ansiedade que sentia, apenas pela possibilidade de rever o seu amado rei, quase a sufocava. Mas de facto fazia todo o sentido a presença do monarca Dinis I. Primeiro, porque era casado com Isabel de Aragão, filha de Pedro III, rei de Aragão, Valência, Maiorca, Sardenha, Sicília e conde de Barcelona, e depois porque também era pai de Constança, rainha e esposa do rei Fernando IV de Castela. Logo, os diferendos entre Castela e Aragão tinham tudo a ver com Dinis I de Portugal. Por isso, Toledo preparou-se para receber o rei de Portugal e decorou as suas ruas e praças com os mais belos enfeites, os seus artesãos e artistas prepararam as suas melhores obras para venda aos milhares de pessoas que viriam até à capital de Castela. Enormes tapetes árabes pendurados nas janelas e varandas emprestaram à cidade o ambiente da grandiosidade da romaria e do arraial, apenas visto quando das comemorações religiosas ou reais, mas desta vez muito mais espectacular. As mais belas espadas, cimitarras, adagas, punhais e facas de todos os feitios, autênticas obras dessa arte especial de Toledo, enchiam enormes bancas de madeira, em exposição, aos olhares e às bolsas de locais e visitantes. O próprio palácio de Alcazar era objecto de embelezamentos interiores e exteriores, que ainda o faziam sobressair mais, de forma mais imponente, do casario da cidade. Até as rochas que o sustentavam foram limpas de ervas e plantas daninhas e cobertas de heras e chorões vermelhos». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Um suave sorriso de adeus deu-lhe um ar infantil de harmonia angelical. Era como se estivesse feliz por ter já transportado para os seus filhos os problemas, que de há muito a incomodavam».

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«(…) E de facto tudo aconteceria como havia sido dito e no dia seguinte a galé do grego Ulisses Patrai âncorava em Barcelona e à sua chegada lá tinha o jovem cavaleiro Manolo Ratia pedindo-lhe que se dirigisse ao palácio de Beatriz Lascaris onde, sua amiga de infância Eudóxia Lascaris, que se encontrava doente, queria e muito falar com ele. Ulisses era um homem enorme com mais de um metro e noventa de altura e seguramente com mais de cento e vinte quilos de peso. Apesar da idade continuava enxuto, sem ponta de gordura, apenas e só osso e músculo. Havia quem lhe chamasse desde muito jovem o novo Hércules, lá para os lados do mar Egeu, pela força descomunal que que era portador. Prontamente acedeu ao pedido do jovem mensageiro e seguiram de imediato para o palácio de Beatriz Lascaris. Para Ulisses andar no meio da confusão da actividade portuária era simples porque não precisava de se desviar de ninguém. Quem com ele chocasse, estivesse o que estivesse a transportar, era queda certa e se apenas ficasse a bandear o próprio Ulisses se encarregava de o afastar do seu caminho com um ligeiro empurrão, como se uma mão das suas, quando tocasse alguém, fosse apenas um pequeno empurrão. Quem gozava com todo o aparato da situação era o jovem Manolo que com a sua magrra figura pedia com alguma arrogância que o deixassem passar e quando não lhe ligavam nenhuma logo se esquivava e deixava que surgisse Ulisses e abrisse o caminho.
Pouco depois Ulisses encontrava-se com Eudóxia e para ele foi um grande choque ver a situação de doença e de definhamento em que a sua amiga se encontrava. O próprio sorriso dela que trazia na memória, outrora branco e alegre, não passava agora de algo acinzentado e amarelo quase sem expressão. Ficou deveras combalido mas tentou não o demonstrar e como quase sempre, quando os amigos se encontram, as saudações são sempre de aspecto reluzente, quando não existe brilho, ou de votos de muita saúde, quando esta já não abunda. Ulisses ouviu atentamente a história que Eudóxia lhe contou e colocou-se de imediato ao seu serviço e logo que chegasse a Constantinopla, dentro de alguns meses, tentaria saber o que teria acontecido ao tesouro dos Lascaris, à Cruz do Santo Lenho e à Cabeça-Relicário de S. Fabiano e principalmente, a João Lascaris, irmão de Eudóxia. Estava prometido, ele e seu filho Diógenes, se encarregariam de trazer tais informações a Barcelona dentro de uns cinco meses ou talvez menos. Portanto, dizia Ulisses Patrai para Eudóxia, tens de te pôr bem, porque dentro desse intervalo de tempo, quando regressar, quero ver-te com saúde e com alegria. E assim dito, logo se foi, após beijar suavemente a face de Eudóxia e de se ter despedido de todos os seus filhos.
No dia seguinte, Eudóxia Lascaris partia com as suas aias mais chegadas e com sua filha Vataça para Zaragoça, contra a vontade de todos os seus filhos que lhe haviam insistentemente sugerido, que ficasse mais uns dias em casa de Beatriz e mais tarde, quando se sentisse melhor, logo partiria para Zaragoça. Mas não. Eudóxia queria assim e não havia nada a fazer. Com muito cuidado e carinho fizeram uma espécie de cama num dos bancos do coche do rei de Castela, onde deitaram Eudóxia, e Vataça seguia mesmo na sua frente, cuidando que os solavancos dos caminhos a não incomodassem muito. Chegadas a Zaragoça. depois de uma viagem bem cansativa que causou muitas apreensões e receios a Vataça, chegaram a casa de Eudóxia. Com todos os cuidados os criados ajudaram a sua senhora a descer do coche e a deslocar-se até à sua câmara, onde a deitaram e cobriram delicadamente. Antes de adormecer beijou sua filha e com um leve acenar despediu-se de Vataça. Um suave sorriso de adeus deu-lhe um ar infantil de harmonia angelical. Era como se estivesse feliz por ter já transportado para os seus filhos os problemas, que de há muito a incomodavam». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Um suave sorriso de adeus deu-lhe um ar infantil de harmonia angelical. Era como se estivesse feliz por ter já transportado para os seus filhos os problemas, que de há muito a incomodavam».

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«(…) E de facto tudo aconteceria como havia sido dito e no dia seguinte a galé do grego Ulisses Patrai âncorava em Barcelona e à sua chegada lá tinha o jovem cavaleiro Manolo Ratia pedindo-lhe que se dirigisse ao palácio de Beatriz Lascaris onde, sua amiga de infância Eudóxia Lascaris, que se encontrava doente, queria e muito falar com ele. Ulisses era um homem enorme com mais de um metro e noventa de altura e seguramente com mais de cento e vinte quilos de peso. Apesar da idade continuava enxuto, sem ponta de gordura, apenas e só osso e músculo. Havia quem lhe chamasse desde muito jovem o novo Hércules, lá para os lados do mar Egeu, pela força descomunal que que era portador. Prontamente acedeu ao pedido do jovem mensageiro e seguiram de imediato para o palácio de Beatriz Lascaris. Para Ulisses andar no meio da confusão da actividade portuária era simples porque não precisava de se desviar de ninguém. Quem com ele chocasse, estivesse o que estivesse a transportar, era queda certa e se apenas ficasse a bandear o próprio Ulisses se encarregava de o afastar do seu caminho com um ligeiro empurrão, como se uma mão das suas, quando tocasse alguém, fosse apenas um pequeno empurrão. Quem gozava com todo o aparato da situação era o jovem Manolo que com a sua magrra figura pedia com alguma arrogância que o deixassem passar e quando não lhe ligavam nenhuma logo se esquivava e deixava que surgisse Ulisses e abrisse o caminho.
Pouco depois Ulisses encontrava-se com Eudóxia e para ele foi um grande choque ver a situação de doença e de definhamento em que a sua amiga se encontrava. O próprio sorriso dela que trazia na memória, outrora branco e alegre, não passava agora de algo acinzentado e amarelo quase sem expressão. Ficou deveras combalido mas tentou não o demonstrar e como quase sempre, quando os amigos se encontram, as saudações são sempre de aspecto reluzente, quando não existe brilho, ou de votos de muita saúde, quando esta já não abunda. Ulisses ouviu atentamente a história que Eudóxia lhe contou e colocou-se de imediato ao seu serviço e logo que chegasse a Constantinopla, dentro de alguns meses, tentaria saber o que teria acontecido ao tesouro dos Lascaris, à Cruz do Santo Lenho e à Cabeça-Relicário de S. Fabiano e principalmente, a João Lascaris, irmão de Eudóxia. Estava prometido, ele e seu filho Diógenes, se encarregariam de trazer tais informações a Barcelona dentro de uns cinco meses ou talvez menos. Portanto, dizia Ulisses Patrai para Eudóxia, tens de te pôr bem, porque dentro desse intervalo de tempo, quando regressar, quero ver-te com saúde e com alegria. E assim dito, logo se foi, após beijar suavemente a face de Eudóxia e de se ter despedido de todos os seus filhos.
No dia seguinte, Eudóxia Lascaris partia com as suas aias mais chegadas e com sua filha Vataça para Zaragoça, contra a vontade de todos os seus filhos que lhe haviam insistentemente sugerido, que ficasse mais uns dias em casa de Beatriz e mais tarde, quando se sentisse melhor, logo partiria para Zaragoça. Mas não. Eudóxia queria assim e não havia nada a fazer. Com muito cuidado e carinho fizeram uma espécie de cama num dos bancos do coche do rei de Castela, onde deitaram Eudóxia, e Vataça seguia mesmo na sua frente, cuidando que os solavancos dos caminhos a não incomodassem muito. Chegadas a Zaragoça. depois de uma viagem bem cansativa que causou muitas apreensões e receios a Vataça, chegaram a casa de Eudóxia. Com todos os cuidados os criados ajudaram a sua senhora a descer do coche e a deslocar-se até à sua câmara, onde a deitaram e cobriram delicadamente. Antes de adormecer beijou sua filha e com um leve acenar despediu-se de Vataça. Um suave sorriso de adeus deu-lhe um ar infantil de harmonia angelical. Era como se estivesse feliz por ter já transportado para os seus filhos os problemas, que de há muito a incomodavam». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

domingo, 7 de agosto de 2016

Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Por entre a azáfama da actividade portuária de Barcelona, Manolo e Juan Lascaris procuraram a nau de Ulisses Patrai. Homens com enormes fardos às costas, barris aos ombros cheios de vinho ou de mel»

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«(…) Fechou a porta do quarto levemente e deixou que sua mãe descansasse por mais um pouco. Juntou-se a seus irmãos que conferenciavam no salão principal e questionou-os sobre o pedido da mãe. Havia várias opiniões mas todas elas não passavam pela ida de qualquer dos Lascaris a Constantinopla ou a Niceia. Para uns, a questão não tinha razão de ser, porque os objectos sagrados deveriam estar na posse da igreja de Constantinopla, quando o tal imperador usurpador Miguel Paleólogo tomou conta do império e acabou com o estado de Niceia. Para o irmão mais ve1ho, Juan, seria ajuizado, dizia ele, enviar uns emissários à procura do tio em Niceia e saber se este ainda viveria ou não, e onde parariam os objectos que a mãe dizia estarem escondidos, em local que apenas seria do conhecimento do seu irmão João Lascaris. E mais tarde, caso as respostas sobre a existência do tio João fossem positivas, decidiriam então quem, como e quando, para Constantinopla se deslocariam. Pareceu ajustada e prudente a sugestão de seu irmão e decidiram trabalhar melhor a ideia. À noite, à ceia, sua mãe decidira levantar-se e sentar-se à mesa grande do salão e com algum custo partilhar a refeição com os seus filhos. Não que fosse a sua última refeição, mas porque tinha resolvido voltar para sua casa em Zaragoça e por lá ficar durante uns tempos, até que Deus quisesse. Ninguém apoiou tal ideia mas Eudóxia era obstinada nas suas decisões e não valia a pena contrariá-la. Vataça iria com sua mãe até Zaragoça, quando fizesse a viagem de regresso e depois seguiria para Toledo de Castela, onde aguardaria informações sobre os resultados da tal deslocação dos emissários a Niceia.
Quando ouviu a proposta dos filhos, sobre o envio de emissários a Constantinopla e a Niceia, Eudóxia concordou com algum entusiasmo e logo de seguida sugeriu, que ainda nessa tarde e no dia seguinte, pela manhãzinha, alguém fosse com Manolo Ratia ao porto de Barcelona. Aí procurariam a nau do grego Ulisses Patrai, mercador, que percorria há anos todo o mar Mediterrâneo e o mar de Mármara, desde Constantinopla a Barcelona. E também todo o norte de África, de Argel a Alexandria, além de algumas incursões que por vezes fazia para além das colunas de Hércules, Para o grande oceano Atlântico, até terras de Portugal. Além disso, desse seu imenso conhecimento náutico, Ulisses tinha sido seu companheiro de brincadeiras, enquanto jovens, em Niceia, pois seu pai fora instrutor-chefe da guarda do palácio real e viveram e brincaram então, conjuntamente, no palácio de Niceia. E, ele, Ulisses, seria a pessoa indicada para tal tarefa.
Por entre a azáfama da actividade portuária de Barcelona, Manolo e Juan Lascaris procuraram a nau de Ulisses Patrai. Homens com enormes fardos às costas, barris aos ombros cheios de vinho ou de mel, caixotes e barricas cheias de sal ou de cereais, percorriam apressadamente os caminhos entre as grandes barcaças e as carroças que os levariam aos mercados de muitas vilas e cidades de Aragão. Percorreram todas as embarcações que se encontravam acostadas ao cais, perguntaram a muitos mercadores e a outros tantos descarregadores se o grego Ulisses, o Grande, como era conhecido nas lides portuárias, estaria no porto. Depois até questionaram os donos dos pequenos botes que percorriam as distâncias entre as naus ancoradas mais longe e o cais, trazendo pessoal das tripulações para terra ou levando-os de volta às naus, se o tinham visto em águas de Barcelona. Mas nada. Apenas souberam por outro mercador que o havia encontrado, cerca de um mês atrás, em Veneza, mas que deveria estar a chegar a Barcelona, dentro de um ou dois dias. Essa a notícia que levariam para casa. Mais valia então esperar algum tempo, encontrar o grego e depois face àquilo que ele dissesse, decidir o que fazer». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Vataça estava uma mulher linda, nos seus catorze anos e o decote do seu vestido deixava mostrar, francamente, todo o esplendor dos seus formosos seios»

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«(…) A Trancoso acorreram nobres, religiosos e muita gente de todas as terras e lugares da região, para celebrarem o casamento do rei, acontecimento que ficou seguramente na memória de todos aqueles que o viveram e daqueles que o ouviram contar, durante muitos anos. Nos largos e praças da vila assaram se bezerros, cabritos e javalis. O vinho correu das pipas, montadas em cima de carroças e foi servido à discrição aos que quiseram celebrar aquele dia de alegria para todos e em especial para o rei e para a nova rainha de Portugal. A música dos trovadores e jograis inundava as ruas e praças e o povo dançava e cantava de contentamento. Nos dias que se seguiram continuaram os folguedos, testemunhando a alegria do rei Dinis e tiveram lugar vários torneios e justas a cavalo e duelos apeados, à lança e à espada e também, concursos de tiro ao alvo, com arco e flecha, a que Vataça Lascaris também quis concorrer, após autorização de el-rei. E por muito pouco a jovem aia da rainha não ganhou a competição, para descanso de todos os homens que viram de soslaio a presença de uma mulher na disputa. As cavalhadas eram as mais populares, porque dentro das bilhas de barro e das alcanzias estavam apetitosos bolos de mel e sempre que algum cavaleiro, com a sua lança, partia um desses objectos e espalhava pelo chão o seu rico recheio, a criançada e os jovens e alguns mais velhos também acorriam rapidamente e a guerreia que se seguia no meio daquela poeirada forçava a paragem da competição até que tudo estivesse rapado.
Á noite, no castelo, Dinis fazia alarde da sua veia poética e cantava os seus poemas e cantigas de amor e de amigo e ainda, para divertimento de todos, algumas cantigas de escárnio e maldizer. Isabel e Vataça estavam deslumbradas com o seu rei, que ouviam deliciosamente e olhavam embevecidamente. Já tarde, na noite, Isabel foi fazer as suas preces e recolheu aos seus aposentos, deixando Dinis continuar os festejos e folguedos, com toda a sua Corte, em grande animação. Isabel ainda era uma criança, a quem não tinha ainda chegado o baptismo menstrual.
Não era hábito Isabel fazer as suas orações tão fora de horas, pensou Vataça. Talvez fosse a forma de fugir do esposo, enquanto não se sentisse plenamente mulher. Ensinamentos de sua mãe, porventura. Vataça Lascaris continuou no salão com o seu rei. Não se cansava de o ouvir dizer os seus poemas de amor e pedia quase sempre que os repetisse. Dinis prestava-lhe cada vez mais atenção, à medida que a noite avançava e os vapores do vinho o excitavam. Vataça estava uma mulher linda, nos seus catorze anos e o decote do seu vestido deixava mostrar, francamente, todo o esplendor dos seus formosos seios.
A medida que o rei dedicava mais atenção à jovem princesa bizantina, todos os elementos da sua Corte se iam retirando, mansamente, após cumprimentarem respeitosamente sua Alteza Real com as vénias da praxe e desejando ao seu rei todas as felicidades, para si, para a sua jovem esposa e para o reino. Naquela noite Dinis e Vataça ficariam sós, situação que se iria repetir, por muitas noites, ao longo dos anos vindouros. Vataça nunca esqueceu as cantigas e os poemas de Dinis. Quase que era capaz de os dizer de cor, tantas foram as vezes que os ouviu, ao longo dos vinte anos que permaneceu ligada à Corte de Portugal. E como gostava de recordar especialmente aqueles poemas que lhe foram sentimentalmente dedicados! Já haviam passado vinte e dois anos ..., suspirou Vataça Lascaris». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

terça-feira, 31 de maio de 2016

A Favorita no 31. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «E o casório presencial consumou-se com a graça de Deus, corria o ano do Senhor de 1282, aos 26 do mês de Junho, tinha dona Isabel de Aragão 12 anos e o seu rei e esposo, Dinis, já caminhando pelos 20 anos adentro»


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«(…) Quando partiu com a mãe e os irmãos, de Ventimiglia para Zaragoça de Aragão, Vataça teria pouco mais de doze anos e foi então que conheceu a infanta Isabel, ainda sua parente afastada, filha do rei de Aragão, Pedro III e da rainha Constança da Sicília, e neta de Jaime I. Não ficou muito tempo na corte de Aragão, porque dona Isabel casara por procuração com o rei de Portugal, Dinis I, como já estava previsto entre as duas coroas, desde 1280. No ano seguinte, o rei de Portugal enviava a Barcelona três emissários, tendo por sua vez o rei de Aragão enviado também uma embaixada a Portugal e assim ficava resolvida a questão das arras, isto é, dos bens que ficariam para a rainha, caso ela sobrevivesse ao rei. Nessa carta de doacção, o monarca Dinis concedia à noiva, as vilas de Óbidos, Abrantes e Porto de Mós. Foi já em 1282 que a rainha dona Isabel e sua comitiva, onde se encontrava Vataça Lascaris, entraram em Portugal por Bragança e se dirigiram para Trancoso, onde o rei e esposo a aguardava para que se consumasse a boda real e lhe concedesse o senhorio da vila.
Viagem inesquecível, pensava Vataça. De um momento para o outro deixara a sua casa e os seus amigos em Ventimiglia e partira para Saragoça de Aragão. Pouco depois fazia caminho para Portugal, com dona Isabel de Aragão, que ia ser rainha desse reino, de que pouco tinha ouvido falar até então. Mas tal viagem jamais sairia de sua memória. E recordou o casamento de dona Isabel com o rei Dinis I, que quase não pode ser celebrado, religiosamente, em Trancoso nem em qualquer outra terra de Portugal, porque as igrejas se mantinham todas fechadas e sem cerimónias de culto, por interdição do papa, desde o reinado de Afonso III. Tudo porque aquele rei de Portugal estava excomungado, sob a acusação de ofensas à liberdade da igreja. Apesar das várias tentativas, no fina1 do reinado do rei bolonhês para terminar o conflito com Roma, só em 1289, já em pleno reinado de Dinis, o papa Nicolau IV colocou um ponto final a tão prolongado litígio. Para que não se agravassem as relações com o papado Dinis I mandou que as bênçãos eclesiásticas se fizessem com os prelados aragoneses que acompanhavam dona Isabel. E o casório presencial consumou-se com a graça de Deus, corria o ano do Senhor de 1282, aos 26 do mês de Junho, tinha dona Isabel de Aragão 12 anos e o seu rei e esposo, Dinis, já caminhando pelos 20 anos adentro, pois a 9 do Outubro seguinte, completaria a bonita idade de vinte e um anos. Começavam então os folguedos, grandiosos. que os casamentos reais sempre proporcionam aos povos, quaisquer que eles sejam e onde quer que se encontrem». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

domingo, 17 de abril de 2016

A Favorita do rei Dinis. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Terás que te contentar com os filhos dos meus irmãos e meus sobrinhos. Deus também não quis que tivesse filhos de Dinis. Mas minha adorada mãe…»

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«(…) De facto, Vataça casaria aos dezassete anos com Martim Anes Soverosa em 1285, um fidalgo que já passara o meio século de vida. Coisas da política e de um poder régio mais ou menos absoluto. Tudo começara com a morte do rei de Castela, Afonso X, no ano de 1284. Queria Afonso de Castela que o seu sucessor fosse o seu primeiro filho, Fernando de la Cerda, mas face ao falecimento deste e não querendo que o seu segundo filho, Sancho, ocupasse o trono, determinou que seu neto, Afonso de la Cerda, lhe sucederia. Puro engano. Seu segundo filho, Sancho, com uma forte coligação de nobres, deserdou o sobrinho e fez-se coroar rei em Toledo nesse mesmo ano. Os tempos que se lhe seguiram foram terríveis para todos aqueles que se lhe haviam oposto. Mandou matar milhares de castelhanos de todas as classes sociais, criando em Castela e Leão um clima de terror nunca antes visto. Muitos nobres pediram auxílio a el-rei Dinis I e este, com receio de represálias pela parte de Sancho IV, encetou contactos com Aragão no sentido de se ajudarem mutuamente em caso de agressão. Mas o monarca Dinis quis ir mais longe e iniciou contactos com vários nobres da Galiza mesmo sabendo da ligação destes a Castela. A verdade é que a Galiza sempre gozara de um estatuto de grande autonomia em relação a Leão e Castela e essa autonomia poderia ser útil a Portugal. Logo, nada melhor para tais objectivos que ter um nobre português, dos mais credenciados junto da nobreza galega, para consolidar uma política de boa vizinhança e ajuda mútua. E tal nobre só podia ser Martim Anes Soverosa cuja família estivera fortemente ligada à Galiza e aos primeiros reis de Portugal desde Afonso Henriques. Martim Anes gozava de enorme prestígio junto dos nobres galegos e poderia conseguir perfeitamente os propósitos do rei de Portugal. Mandou por consequência Dinis I a Vataça Lascaris, que o desposasse e garantisse que os fins pelos quais o casamento se iria realizar seriam alcançados.
Pala além desta iniciativa diplomática junto da Galiza, Dinis I ainda conseguia resolver um outro problema. Afastava dona Vataça Lascaris da Corte, onde os zunzuns da sua relação com a princesa bizantina soavam cada vez mais alto, apesar da Rainha dona Isabel ser insensível ao ciúme. E encontros com Vataça em Soverosa, que ficava a sete ou oito léguas a leste do Porto ou a dez léguas ao su1 de Braga, seriam frequentes. mas muito mais seguros. Bastaria levar a Corte ou parte dela ao norte para saber como estavam as relações com a nobreza galega e visitar o palácio dos Soverosa e reencontrar a sua concubina favorita. Mas pouco adiantou para Portugal aquele casamento, pois Sancho IV de Castela acabana por invadir Portugal e a guerra entre os dois reinos só terminaria com a sua morte, em 1295, por acaso o mesmo ano do falecimento de Martim Anes Soverosa. Depois o Tratado de Alcanizes resolveria todos os diferendos entre os dois reinos.
Mas não me deste nenhum neto até agora, filha! Disse Eudóxia com tristeza. Pois não, mãe. Terás que te contentar com os filhos dos meus irmãos e meus sobrinhos. Deus também não quis que tivesse filhos de Dinis. Mas minha adorada mãe e desculparás esta minha pergunta, tens de me dizer o que se passou entre ti e o meu pai para que tivéssemos de sair de Ventimiglia. Fomos expulsos como deste a entender ontem à tarde? Nem eu sei ao certo o que se passou. Tudo aconteceu já depois da morte de teu pai. Foi então que me comunicaram que tínhamos sido deserdados e que deveríamos abandonar Ventimiglia. Falaram-me que por detrás dessa terrível decisão política estaria a mão de Miguel Paleólogo, de Constantinopla, e que a principal razão teriam sido as minhas tentativas de angariar apoios para que os Lascaris regressassem ao império bizantino, como era seu direito. Comecei então os contactos com Jaime I de Aragão, ainda nosso familiar, para que pudéssemos ser acolhidos em Zaragoça, tal como veio a acontecer». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Vataça. A Favorita do rei Dinis. Francisco do Ó Pacheco. «… ao longo dos seus anos de criança e de jovem uma espécie de Maria-rapaz que adorava os jogos de espada, atirava ao arco como o mais certeiro atirador»

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«(…) E o papa chamou o mais conceituado dos ourives de Roma e encarregou-o de construir um elmo em prata, artisticamente trabalhada, que cobrisse toda a calote craniana e lhe reconstituísse as formas da face. Assim foi feito e a Cabeça do papa Fabiano passou a fazer parte dos tesouros da igreja de Cristo. Por outro lado, a Cruz de prata dourada do Santo Lenho não é uma peça muito grande. Tem apenas cerca de sessenta centímetros de comprimento e trinta de largura e assenta numa base decorada com querubins, em relevo. Dizia tua avó que era lindíssima. Pronto mãe, pára. Descansa um pouco, disse Vataça. Toma um pouco de água e mais tarde continuarás. Vamos irmãos, deixemos nossa mãe descansar. Logo regressaremos.
Ficavam mais claros para todos os interesses religiosos, políticos e económicos que haviam envolvido a 4ª cruzada quando os cruzados francos, apoiados pela poderosa cidade-estado de Veneza, atacaram Constantinopla em 1204 e forçaram o imperador bizantino Alexis V Murtzouphlos a fugir. Provocaram a divisão do império romano do oriente, fundaram, sob o beneplácito de Veneza, o império Latino e coroaram como imperador o conde Balduíno I da Flandres. Até que um outro papa, com o apoio de uma outra potência económica, a cidade de Génova, e com Miguel Paleólogo como executante, voltou a atacar Constantinopla em 1261 e a repor o império bizantino na sua plenitude.
Vataça era a única dos filhos de Eudóxia Lascaris que tratava a mãe por tu. Era assim desde criança e Eudóxia sorria, com esse atrevimento, enquanto fechava os olhos para descansar mais um pouco. Recordou-se ainda dos tempos de menina quando quer ela, quer o pai, Guillermo Pedro, teria ela então entre dez a doze anos, tentaram arranjar-lhe um noivo. Vieram vários rapazes, todos de famílias nobres, da alta nobreza Liguriana e genovesa, mas a todos Vataça despachou em alta velocidade como se fossem ainda crianças de mama. Um houve, um Fábio qualquer coisa, que até mereceu as simpatias de Eudóxia, mas que foi muito maltratado por Vataça, ao ponto de o correr do quarto, a pontapé, chamando-lhe alto e bom som, medricas e cagarola. Vataça tinha sido ao longo dos seus anos de criança e de jovem uma espécie de Maria-rapaz que adorava os jogos de espada, atirava ao arco como o mais certeiro atirador e fazia corridas de cavalo com os mais velhos, fossem nobres ou plebeus. Claro que também aprendeu as coisas das mulheres, a administração do palácio e dos criados, as rendas e bordados, a poesia, a música, a teologia e os cânones da igreja e da corte. Mas do que ela mais gostava todos sabiam e logo que podia, saía de casa e brincava com os filhos e as filhas dos criados, aos torneios simulados em cima de cavalos de cana e jogava a espada, chamando-se a si própria de cavaleira bizantina combatendo os infiéis e libertando a terra santa. Corria Vataça os cortinados das enormes janelas, para que a luz do dia não incomodasse o descanso de sua mãe, quando ouviu a sua voz, muito baixinha, que perguntava: já foste de novo desposada, filha? Não, mãe, continuo só e viúva. Estou com 36 anos e isso já não me preocupa, respondeu Vataça Lascaris secamente denotando na voz alguma amargura. Aquele por quem me apaixonei não me podia ter por esposa, porque estava casado com a minha melhor amiga. Depois mandou que me casasse com um velho nobre que tinha mais de três vezes a minha idade». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

Vataça. A Favorita do rei Dinis. Francisco do Ó Pacheco. «Mas ouvi muitas histórias em Niceia e em Constantinopla, aos meus pais e aos meus avós, desde muito pequena, sobre esses tesouros da igreja»

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«(…) O primeiro imperador de Niceia foi Teodoro I Lascaris, que viria a conquistar durante o seu reinado uma boa parte da Anatólia. O império de Niceia apenas duraria 57 anos, até 1261, altura em que foi dissolvido em consequência da tomada de Constantinopla, em 1260, por Miguel VIII Paleólogo, em aliança com a cidade de Génova, rival visceral de Veneza. Fora este mesmo Miguel Paleólogo, que retirara o trono ao tio de Vataça, João IV Lascaris, e que depois de tal usurpação o mandara cegar e o fizera prisioneiro. Para se libertar de todos os Lascaris e evitar conflitos com a sucessão ao trono, Miguel Paleólogo, depois de prender João Lascaris, ordenara o casamento das três irmãs, Eudóxia, Irene e Maria, com estrangeiros, para as afastar do império. Por isso Eudóxia havia casado, aos nove anos, em Constantinopla com Guillermo Pedro de Tende, conde de Ventimiglia e havia partido para a Ligúria, junto aos Alpes marítimos, próximo de Génova, onde mais tarde nasceriam os seus cinco filhos. Chegou a ver esses objectos religiosos, minha mãe? Perguntou Beatriz. Não minha filha, nunca os vi. Mas ouvi muitas histórias em Niceia e em Constantinopla, aos meus pais e aos meus avós, desde muito pequena, sobre esses tesouros da igreja. Por isso habituei-me a respeitá-los e também e venerá-los ao longo da minha vida.
A história da Cabeça-Relicário de S. Fabiano, que foi o vigésimo papa depois de S. Pedro, é assaz curiosa. S. Fabiano foi eleito bispo de Roma, o que significava ser, nesse tempo, o sumo pontífice da igreja cristã, corria o ano de 236 e a sua eleição para o cargo ficou na memória de todos, pela sua natureza peculiar, embora também se tenha dito sobrenatural e divina. Diz a história que estavam os cristãos em assembleia, em Roma, discutindo sobre quem sucederia ao papa Antero. Mas estavam tão divididos em relação à escolha do novo papa que parecia impossível tal decisão. É então, nessa babilónia de argumentação e contra-argumentação, que uma pomba branca descendo dos céus, pousou em cima de cabeça de Fabiano. Aleluias terão gritado, interpretando como vontade de Deus a escolha de Fabiano, para próximo papa de Roma. O que é certo, minhas filhas, é que todos votaram por unanimidade a eleição de Fabiano. Mas Fabiano teve azar, porque foi encontrar Décio como imperador romano e Décio tinha uma forte aversão e inimizade aos cristãos.
Para além de novamente os reprimir e perseguir, voltou a promover a construção de templos pagãos e reforçou os cultos e sacrifícios do passado em todo o império. Esta severa perseguição aos seguidores de Cristo, levada a cabo pelo imperador de Roma, culminou com a decapitação de muitos cristãos, entre eles também do papa Fabiano, o que o transformou em mártir da igreja. Fabiano seria depois enterrado nas catacumbas de Calisto, na via Ápia, em Roma onde já se encontravam sepultados todos os papas desde S. Pedro. Muitos anos depois, cerca de seiscentos anos depois, e após a reconstrução e a decoração da Basílica de S. Silvestre e S. Martinho aos Montes pelos papas Sérgio II e Leão IV, no ano de 855, foram trasladados para essa basílica os corpos dos papas que se encontravam nas catacumbas, já decorria a segunda metade do século IX. E foi nesta altura, quando alguém encontrou no túmulo da via Ápia a cabeça de S. Fabiano, descolada do corpo e ainda com os miolos intactos, que a igreja decidiu perpetuar a sua memória. Afinal a lenda sobre a eleição de Fabiano para papa de Roma, através da pomba enviada por Deus que lhe pousou na cabeça naquela longínqua assembleia de cristãos do ano 236, bem merecia que se perpetuasse a sua cabeça para todo o sempre». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Favorita do rei Dinis. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «O controlo de Balduíno sobre o império bizantino era muito reduzido e a oposição que sofreu não tardou a gerar o surgimento de vários outros estados imperiais que dominaram durante muitos anos toda a Anatólia e a parte norte da Grécia»

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«(…) Eudóxia, sua mãe, havia explicado o que eram esses símbolos da cristandade e a sua importância. A Cruz do Santo Lenho era uma cruz de prata dourada de elevada decoração artística, que guardava no espaço interior do cruzamento dos dois braços, um pequeno bocado, ensanguentado, da madeira da cruz onde Jesus Cristo fora crucificado. Da cruz original, onde Jesus Cristo falecera, que fora descoberta no Monte do Calvário, em Jerusalém, no século IV por Santa Helena, mãe do imperador romano Constantino I. Essa cruz de madeira tinha sido repartida entre o oriente e o ocidente e distribuída ao longo dos séculos em pequeníssimos fragmentos por toda a cristandade. A Cruz do Santo Lenho, das mais antigas da cristandade, deveria estar ainda na posse de João IV Lascaris. A Cabeça-Relicário de S. Fabiano era uma cabeça antropomórfica em prata, de tamanho natural, que diziam conter no seu interior um crânio humano, que afirmavam ser do papa mártir S. Fabiano.
Estes objectos sagrados teriam ido de Roma para Constantinopla no ano de 974, levados pelo anti-papa Bonifácio VII, quando foi expulso de Roma pelo imperador Otão II, do Sacro-Império Romano-Germânico, que havia escolhido Bento VII para papa. Quando da divisão do império do oriente, em 1204, parte desses tesouros sagrados tinham ficado na posse dos imperadores de Niceia e o primeiro dos imperadores tinha sido Teodoro Lascaris. E desde essa altura os Lascaris tinham sido os fiéis depositários e guardadores de vários desses objectos sagrados. Coisas que à partida pareciam demasiado importantes para uma simples princesa bizantina, dama de companhia e aia das rainhas dona Isabel de Portugal e dona Constança de Castela. Mas seria que seu tio ainda as guardaria? E a expulsão de sua mãe, por seu pai, de Ventimiglia, a que se deveria? Com muitas dúvidas e muitas interrogações no pensamento Vataça Lascaris deixava-se dormir, já tarde, nessa noite, em Barcelona..., com o pensamento em sua mãe, que tinha feito um esforço enorme para lhes contar todas estas coisas que tanto a atormentavam. Até parecia que não queria morrer enquanto as não tivesse contado a seus filhos..., coitada..., estava tão fraquinha... No dia seguinte, já mais animada Eudóxia Lascaris continuou a contar a todos a história da família. Tudo começara com a quarta cruzada à Terra Santa, convocada em 1202 pelo papa Inocêncio III, com o apoio económico e financeiro da cidade de Veneza, que em vez de se dirigir a Jerusalém, como era suposto, se dirigiu a Constantinopla onde desferiu um ataque selvático à cidade. Disse-se então que esse ataque à capital do império romano do oriente fora em larga medida um correctivo às tendências independentistas e hereges dos clérigos do império do oriente, cuja ortodoxia vinha de há muito incomodando Roma. Em consequência, o imperador bizantino Alexius V fugiu de Constantinopla e os cruzados, que eram comandados pelo rei Balduíno da Flandres, criaram aquilo a que chamaram o novo Império Latino e instalaram-se na cidade.
O controlo de Balduíno sobre o império bizantino era muito reduzido e a oposição que sofreu não tardou a gerar o surgimento de vários outros estados imperiais que dominaram durante muitos anos toda a Anatólia e a parte norte da Grécia. Foram criados os novos estados do Epiro, no território junto ao mar Adriático, em terras gregas e albanesas. O estado de Trebizonda, no território mais oriental a sul do mar Negro e o estado de Niceia, na Bitínia, cuja cidade do mesmo nome, ficava na longitude de Constantinopla, no território ao su1 do mar de Mármara. Destes vários estados, Niceia era o que estava em melhores condições para o restabelecimento do poderoso império bizantino. E assim aconteceria». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A Favorita do rei Dinis. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Viajar a Constantinopla e a Niceia ao encontro de seu tio João Lascaris em busca de um tesouro, da tal Cruz do Santo Lenho e da Cabeça-Relicário de S. Fabiano era algo assustador…»

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«(…) Era seu dever, enquanto descendentes dos Lascaris, trazer de novo aqueles objectos sagrados para o seio da família. Um ror de histórias contou Eudóxia a seus filhos, algumas misturadas com muitas e comoventes lágrimas, que escorreram lentamente nas suas faces enrugadas. Parecia que já não lhe restava muito tempo e que queria despejar de supetão toda a sua vida e todas as suas aflições para cima deles. Falou-lhes Eudóxia de seu avô, o imperador Teodoro II Ducas Lascaris de Niceia, que dirigiu o império de 1254 a 1258. Do fim do império de Niceia em 1261, e do seu casamento em Constantinopla, em 1263, por ordem do imperador Miguel VIII Paleólogo, com Guillermo Pedro de Tende, 1º conde de Ventimiglia, na Ligúria, região de Génova, ainda não tinha 10 anos de idade. Três anos depois nasceria Juan e depois todas as raparigas Vataça, Lucrécia, Beatriz e Violante. Mas o seu casamento com o conde Guillermo Pedro correra mal e Eudóxia seria obrigada a abandonar Ventimiglia com seus cinco filhos, tendo sido acolhida, cerca de 1280 / 1281, não se recordava bem, na corte de Pedro III de Aragão, ele próprio seu familiar, casado com Constança, filha de Constança de Hohenstaufen, antiga imperatriz de Niceia. Vataça estava atónita com as palavras de sua mãe e principalmente com as últimas afirmações em relação à expulsão de todos da casa de seu pai. A versão que lhe havia sido contada, quanto à partida de Ventimiglia para Aragão, tivera como principais razões a luta entre a França e a Inglaterra pelo controlo dos territórios da Ligúria e do condado de Anjou. O permanente estado de guerra daqueles territórios teria levado, aprendera ela, Guillermo Pedro, seu pai, por receio e precaução em relação à segurança da sua família, primeiro a preparar e depois a obrigar sua mulher e seus cinco jovens filhos a partirem para Aragão, para ficarem protegidos na Corte de Jaime I.
Era mulher de Jaime I, Maria de Montpellier, filha de Eudóxia Komenos, princesa de Constantinopla e familiar muito chegada dos Lascaris. Mas afinal não tinha sido assim. Tinham sido repudiadas por seu pai. Porquê? Valeu-lhes na ocasião o rei Pedro III de Aragão, filho de Jaime I, que os acolheu na corte e outorgou a Eudóxia Lascaris algumas rendas no reino de Valência e no Call ou bairro judeu de Barcelona. Eudóxia tinha residência em Játiva mas também passava muito do seu tempo em Castellon, em Zaragoça e também em Barcelona. Mais tarde Jaime II de Aragáo, segundo filho de Pedro III, encarregou-a de várias missões diplomáticas ao serviço da coroa aragonesa. Na corte de Aragão encontraram então a infanta e princesa Isabel, que viria a ser rainha de Portugal, filha do rei de Aragão Pedro III e de Constança da Sicília. Mas todas elas, Isabel, Vataça, as suas irmãs e seu irmão de há muito ligadas por laços familiares. Eram primos em sétimo grau. Todas pequenas princesas lindas e um pequeno príncipe, também lindo, dizia Eudóxia com a emoção estampada no rosto. Eram o encanto da corte e a alegria de todos. Já Vataça, ainda que assaz humilde, tinha aquela postura de liderança, de quem sabia o que queria e exercia sobre as suas amigas e irmãs uma preponderância indisfarçável. Eudóxia permitia então que um ligeiro e tímido sorriso aflorasse aos seus lábios, enquanto deixava discorrer a sua imaginação...
Do cansaço e da emoção das recordações da vida, Eudóxia adormeceu. Vataça recolheu aos seus aposentos. Estava cansada da viagem, a saúde de sua mãe e as histórias que atentamente ouvira tinham exercido uma enorme pressão sobre a sua mente. Levou tudo consigo para a cama. Durante várias horas pensou demoradamente nas palavras de sua mãe e não conseguiu dormir. Viajar a Constantinopla e a Niceia ao encontro de seu tio João Lascaris em busca de um tesouro, da tal Cruz do Santo Lenho e da Cabeça-Relicário de S. Fabiano era algo assustador e questionava-se se estaria preparada para responder a tal desafio. Medo era coisa que nunca sentira, era mais a significação misteriosa desses objectos sagrados que lhe faziam alguma confusão. Sabia lá se seu tio João, que não conhecera em tempo algum, seria vivo ou morto ou sequer onde se encontraria? E que objectos sagrados eram essesIn Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

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sexta-feira, 24 de abril de 2015

A Favorita do rei Dinis. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Além disso quer uma fonte que jorrava água pela boca de uma sereia, em cima de uma onda com mais de uma vara de altura, quer o miradouro que contemplava o mar, eram circundados por colunas brancas de mármore»

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«(…) O palácio de Beatriz Lascaris, irmã mais nova, que havia casado com Guilherme de Montcada, senestral ou chefe da nobreza local de Barcelona, e antigo bispo de Lérida, ficava admiravelmente frente ao mar Mediterrâneo. Havia sido uma antiga vila romana e a presença de inúmeras colunas de pedra com bases e capitéis, trabalhados artisticamente, à volta do edifício principal, era disso bem demonstrativo e sintomático. Além disso quer uma fonte que jorrava água pela boca de uma sereia, em cima de uma onda com mais de uma vara de altura, quer o miradouro que contemplava o mar, eram circundados por colunas brancas de mármore, mais finas e elegantes, que sobressaíam dos verdes dos arbustos e dos tons variados das flores, de forma quase paradisíaca. Entrou na câmara de sua mãe onde já se encontravam todos os seus oito irmãos. Quatro do casamento de Eudóxia Lascaris com o conde Guillermo Pedro de Ventimiglia, de Ligúria, outros quatro do segundo casamento com Arnauld Roger de Comminges. Dois homens apenas, Juan Lascaris de Ventimiglia e Arnauld de Comminges e sete mulheres, Lucrécia, Beatriz, Vataça e Violante Lascaris e Sibila, Beatriz e Violante de Comminges. Com uma alegria contida, Vataça, cumprimentou todos os seus irmãos e depois dirigiu-se ao leito onde sua mãe descansava. Os reposteiros das janelas de cor púrpura estavam corridos para que a luz do dia não incomodasse a enferma. As cortinas do leito, brancas de seda, estavam levantadas de ambos os lados permitindo que Eudóxia visse a porta de entrada.
O vulto de seu corpo quase não se percebia por debaixo das mantas e dos lençóis. Logo que viu sua filha Vataça, Eudóxia levantou os braços vagarosamente na sua direcção. Caminhando para eles com passadas largas, Vataça segurou as mãos frias de sua mãe, que apertou suavemente. Depois beijou-lhe as faces longamente e não evitou algumas lágrimas sentidas. Com todos os filhos à volta da cama Eudóxia não parava de contemplar as suas meninas e os seus meninos, que fazia tanto tempo, alguns, já não via. Choraram muito de alegria e agora também de preocupação com o estado de saúde de sua mãe que conversava muito tremulamente e por vezes atabalhoadamente, como se quisesse tudo dizer, no mais curto espaço de tempo. A sua voz sumia-se de emoção de vez em quando e Eudóxia parava e fechava os olhos para recuperar forças. Enquanto a mãe descansava, Vataç aproximava-se das vidraças donde se avistava o movimento do porto e as várias galés ou galeras de dois e três mastros que aguardavam por acesso ao cais para descarga das mercadorias que enchiam os seus porões. Alguns galeões, de quatro mastros e velame amarrado e recolhido nas vergas, estavam ancorados um pouco mais ao largo. Várias dezenas de naus e muitas centenas de pessoas enchiam então o porto de Barcelona que se assumia como um dos mais importantes pólos da economia mediterrânica.
A certa altura da sua conversa Eudóxia Lascaris franziu o semblante e foi assertiva nas palavras que proferiu. Vataça e seus irmãos, algo surpreendidos, prestaram a maior atenção. Pretendia ela que algum ou alguns de seus filhos se deslocassem a Niceia ao encontro de seu tio João IV Lascaris. Este tinha sido o último imperador de Niceia, quarenta e três anos atrás, em 1261. Ainda muito novo, com apenas 11 anos de idade, João Lascaris vira o trono ser-lhe usurpado por Miguel VIII Paleólogo, a que se seguiu o fim do império de Niceia e a reconstituição do império bizantino, de novo com capital em Constantinopla. Tinham que ir a Niceia, dizia Eudóxia com a veemência possível, fixando o olhar em Vataça. Alguém tinha que regressar ao império Bizantino e encontrar o tesouro dos Lascaris, especialmente a Cruz do Santo Lenho e a Cabeça-Relicário de S. Fabiano que deveriam estar na posse do tio João Lascaris. Porque ela, Eudóxia, com a idade avançada que já tinha, estava com 50 anos e com uma grave doença que a martirizava, já sentindo o fim aproximar-se, jamais o poderia fazer. Seus filhos e suas filhas, sim». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

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segunda-feira, 6 de abril de 2015

A Favorita do rei Dinis. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «… a princesa bizantina aia da rainha dona Constança na corte de Castela, recebia no palácio real de Toledo um mensageiro desconhecido, vindo de Barcelona, enviado por sua irmã Beatriz»

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«(…) Das tais guerras que começam sem se saber bem porquê, mas que acabam quase sempre bem mal para os contendores. Alguns anos antes, Sancho IV de Castela mandara invadir o Algarve e outros lugares de Portugal, na raia da Beira. Pequenas acções de guerrilha em zonas de fronteira, coisas de pouca monta e para as quais o rei de Portugal já estava avisado. Mas a atitude militar mais grave, pela parte de Sancho, fora o envio de uma esquadra a partir de Sevilha, que penetrando na foz do rio Tejo apresou várias naus portuguesas, no ancoradouro do Restelo. Essa foi uma provocação e uma agressão intoleráveis para o rei português. A resposta de Dinis I foi a invasão do território de Castela, de Cidade Rodrigo a Valadolid e a Medina del Campo. Em resposta, os castelhanos invadiram o Alentejo e Dinis voltou a novas e mais violentas agressões contra Castela. Até que, depois de longos meses de guerra e de muitas e graves destruições em ambos os reinos, a paz foi assinada em Alcanizes. Desse acordo, para o qual muito contribuiu a influência da rainha dona Isabel de Aragão, resultou a troca de muitas terras entre os dois reinos, tendo Castela recebido Arronches no Alentejo e Valença do Minho e ainda Aiamonte no Algarve. Portugal recebeu então, por força do tratado assinado em Alcanizes, Monforte, Olivença e Campo Maior e nas Beiras, Almeida, Castelo Rodrigo e Castelo Melhor. Além disso, o tratado de Alcanizes determinou ainda os casamentos de Afonso de Portugal, filho de Dinis I e de don Isabel, com Beatriz de Castela e de Fernando IV de Castela com Constança, filha dos reis de Portugal.
No rigoroso Inverno de 1304, em ventoso dia do mês de Fevereiro, Vataça Lascaris, a princesa bizantina aia da rainha dona Constança na corte de Castela, recebia no palácio real de Toledo um mensageiro desconhecido, vindo de Barcelona, enviado por sua irmã Beatriz. O jovem cavaleiro catalão, Manolo Ratia de seu nome, comunicou-lhe a enfermidade muito grave de sua mãe e entregou-lhe uma carta em que esta pedia que se deslocasse urgentemente a Barcelona pois era, dizia sua mãe, absolutamente imperioso que falasse com suas filhas e seus filhos antes de se finar se porventura fosse essa a vontade de Deus. Vataça Lascaris ficou aflitíssima. Sentiu um ligeiro estremeção no corpo, que a assustou por nunca o haver sentido anteriormente e de imediato pôs dona Constança ao corrente do sucedido. Não havia tempo a perder. Logo mais Fernando de Castela colocou à sua disposição uma guarda especial de uma dezena de homens e um dos coches reais e no dia seguinte Vataça Lascaris encetava a viagem para Barcelona de Aragão e Marca Hispânica, onde sua mãe se encontrava enferma, em casa de sua irmã Beatriz Lascaris. Alguns dias depois o coche que transportava Vataça escoltado pela guarda do rei de Castela, denunciando a presença de gente de estirpe real no seu interior, atravessava os portões das muralhas que rodeavam a cidade de Barcelona e com o cavaleiro Manolo Ratia como guia percorreram rapidamente as ruas e praças que os conduziram ao palácio onde se encontrava sua mãe, Eudóxia Lascaris. Após a praça enorme onde centenas de artesãos, pedreiros, canteiros e muitos trabalhadores braçais procedia à construção da catedral gótica de Santa Eulália ou de Santa Cruz e onde pululava um pequeno mercado de feirantes e agricultores, com as suas criações de aves a voarem por debaixo das patas dos cavalos, Manolo Ratia entrou no terreiro do palácio indicando aos soldados os estábulos para os animais e as casas onde iriam permanecer, enquanto ficassem por Barcelona. Vataça e suas aias entraram no palácio». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

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sábado, 28 de março de 2015

A Favorita do rei Dinis. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «O prestígio dos Lascaris nas cortes europeias irá servir ao rei para estabelecer várias relações diplomáticas. Mas a importância de Vataça no reino de Portugal e, particularmente, junto do rei Dinis não se ficou por aqui…»

Túmulo de dona Vataça, em Coimbra 
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«(…) Diógenes Patrai entrou no castelo da popa onde um pequeno candeeiro de azeite, balançando como um qualquer insecto tresloucado à volta da luz, iluminava palidamente um grupo de quatro damas, aninhadas a um canto e agarradas com unhas e dentes à mesa e às cadeiras pregadas no chão de madeira. Uma delas, parecendo a mais velha, lívida mas altiva e determinada, paramentada como uma princesa, elevou-se a custo e perguntou: Qual a nossa situação, capitão? Estamos perdidos, Senhora, disse o intrépido comandante. Estamos em pleno mar Atlântico no reino de Portugal algures entre a ponte das Águas Férreas e o cabo de Sinis. Há fragas adiante e a tempestade está a arrastar-nos contra elas. Seria melhor que tomásseis um bote com vossas aias e alguns homens e tentásseis a vossa sorte pois existem também vastos areais nestas costas. Quanto à nau, receio que esteja perdida mais hora menos hora. Estamos nas mãos de Deus. Acaso pensais que vos abandonaria? Respondeu Vataça Lascaris, com firmeza. Haveis-nos conduzido na derradeira parte desta empresa a este local inóspito, depois de há vários anos termos navegado por todo o mar Mediterrâneo e se nosso destino for de morrer nos braços das vagas, então façamo-lo com a dignidade da nossa estirpe e conforme a vontade de Deus. E Vataça Lascaris continuou: Capitão Diógenes trazei a Cruz do Santo Lenho e a Cabeça-Relicátio do papa S. Fabiano e levai-me ao convés ao encontro da fúria dos rudes elementos da natureza. Agarradas umas às outras, com o comandante à frente, Vataça Lascaris, com a Cruz do Santo Lenho na mão, e Diógenes Patrai levando a Cabeça-Relicário do papa S. Fabiano saíram para o tombadilho do castelo da popa e juntamente com o timoneiro seguraram-se à cana-do-leme da nau. A escuridão, a força dos ventos, a chuva nas faces era aterradora. Vataça Lascaris levantou a Cruz de prata ao céu enquanto Diógenes fazia o mesmo gesto com o Relicário do santo papa e gritou: Senhora minha mãe, mãe de Jesus Cristo que morreu na cruz para salvar os homens e cujo lenho que trago comigo e que agora te mostro é pedaço dessa cruz que o crucificou até à morte. Vem em nosso auxílio. E se existir terra para além destes escolhos negros que eu vejo e se essa terra for terra de Deus, Senhora minha mãe leva-nos até porto seguro. Se tal fizerdes prometo-vos que vos honrarei para sempre e outros vos honrarão até ao fim dos tempos. E nesse templo que erigirei em Vosso louvor serás sempre recordada como protectora e salvadora de quem estiver em aflição entre as ondas do imenso mar. E se permitires que sejamos salvas desta horrenda tempestade, a capela que te erigiremos nestas paragens será para todos os navegantes a capela das Salvas, de Nossa Senhora das Salvas. Quando Vataça baixou o braço que segurava o Santo Lenho, o vento serenou e as ondas do mar acalmaram.
Os primeiros clarões da madrugada já se faziam ver no horizonte. O mar ganhava um tom mais azul e os escolhos já não eram negros, eram sim as rochas amarelas do cabo de Sinis. Lá em cima, na falésia que rodeava a baía algumas casas eram avistadas. Com os mastros partidos e as velas desfeitas, Diógenes mandou que a tripulação agarrasse os remos e dirigisse a nau para as areias que surgiam a sul. Mas depressa reparou que antes do areal e depois de um enorme rochedo surgia uma pequena calheta com várias embarcações amarradas a enormes pedregulhos, em terra firme. Isso significava a existência de pescadores, de gentes do mar que o ajudariam certamente a consertar a sua nau. Se gente solidária existe essa é a do mar que nunca deixa de ajudar aqueles da mesma condição marinheira. Para aí se dirigiram e entraram na pequena enseada até que a embarcação encontrou o areal e estacionou o enorme bojo de madeira sobre a areia.
Milagre, milagre, gritaram todos de contentamento e logo se ajoelharam assim que saltaram em terra. Corria o ano do Senhor de 1314 e Vataça Lascaris regressava a Portugal, com suas damas de companhia, na galé do grego Diógenes Patrai proveniente de Castela e de Barcelona de Aragão. Vataça havia permanecido em Castela e várias vezes em Aragão durante os últimos doze anos, mais precisamente desde 1302, quando acompanhou a infanta dona Constança, filha do rei de Portugal Dinis I e da rainha dona Isabel de Aragão. A infanta portuguesa fora nesse ano desposar, em Toledo, o rei de Castela, Fernando IV e Vataça Lascaris ficara desde então na corte castelhana como aia de dona Constança. Esta princesa lusitana tinha sido uma espécie de selo de garantia para duradoura paz, dado por Dinis, por ocasião da assinatura do tratado de Alcanizes em 1297, o qual pusera um ponto final na guerra entre Portugal e Castela». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

quinta-feira, 19 de março de 2015

A Favorita do rei Dinis. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Tornou-se amiga íntima de dona Isabel, que acompanhará para Portugal quando da consumação do casamento de dona Isabel com o rei Dinis, em 1282»

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NOTA:
[…]
«Às vezes as explicações para as coisas que parecem complexas à partida são bem mais simples. Tal como refere a Visitação de dom Jorge de Lencastre, em 1517 existiam no local duas capelas. A que mandara construir dona Betaça.ou dona Vataça Lascaris e a que mandara fazer o almirante das Índias, Vasco da Gama, após a sua épica viagem. E em ambos os locais de culto se venerava a padroeira dos homens do mar. Parece que o almirante pretendia que a capela de dona Vataça ruísse de uma vez por todas e apenas ficasse a nova capela, por si mandada construir. Mas o Mestre da Ordem de Santiago não estava pelos ajustes e na tentativa de impedir que Vasco da Gama construísse o seu palácio em Sines, cujas obras já havia iniciado sem autorização da Ordem, mandou que se reconstruísse a velha capela da princesa grega. O que dá a ideia que a imagem da Santa Padroeira possa ter circulado entre as salas das duas capelas, em função das circunstâncias. Se o almirante ou algum familiar estivesse por perto, as imagens e as devoções seriam na capela nova. Se por perto estivesse o Mestre da Ordem de Santiago ou quem o representasse, o culto far-se-ia na capela velha. E daí a denominação popular de Senhora das Salas, por simplesmente ser uma Santa com liturgias nas duas salas.
Esta terá sido mais uma das guerras pessoais entre Jorge de Lencastre e Vasco da Gama por causa do Senhorio de Sines, uma vez que Vasco da Gama exigia ao rei Manuel I que o fizesse o mais importante fidalgo de Sines, como lhe fora prometido antes da viagem à Índia, enquanto o Mestre da Ordem de Santiago e seu sobrinho o não permitia. Esta disputa pessoal terminaria com a expulsão do Gama de Sines e com o embargo da construção do palácio que o navegador já havia mandado construir. Mas essa é outra história interessantíssima. Certo parece ser a origem do nome da capela, que reside inequivocamente no iminente naufrágio, no desembarque e no salvamento da princesa grega de toda a tripulação da nau em que navegava, perto de Sines, naquele Outono de 1314. Chamemos-lhe pois ermida ou capela de Nossa Senhora das Salvas, a meu ver seu nome original. Aguçada a curiosidade e aceitando o desafio da procura da verdade possível sobre dona Betaça, ou melhor, dona Vataça Lascaris, fui descobrir coisas maravilhosas sobre esta mulher e princesa». In Francisco do Ó Pacheco

«Noite medonha. O astro mudo mal se distinguia por entre rajadas de vento e chuva que pulverizavam a atmosfera com brutalidade indomável. Por todo o lado só existia água como se subitamente os vastos céus se quisessem unir de novo à terra para reiniciar o caos original tal como era antes de Anaxágoras, o filósofo grego do século V a.C. que descobriu o Nous ou a inteligência a que chamou o intelecto motriz que formou o mundo e lhe deu ordem. Como uma pequena folha à deriva, a embarcação que fora apanhada pela tempestade em plenas águas atlânticas era um joguete daquelas forças colossais que ora se levantavam como negras montanhas, que pareciam querer espetar os céus, ora se fechavam em vales aterrorizantes que pareciam tudo querer engolir. Há uma reverência em todos os homens, lobos-do-mar em particular face à majestade da mãe natureza, sobre oceanos e mares, que é uma espécie de êxtase, que vai do puro medo ao deslumbramento e à adoração. Era isso que acontecia ao capitão e à tripulação daquela nau, nessa noite. Perscrutavam a bruma que chicoteava os seus rostos impiedosamente tentando descobrir algum sinal de terra por mais ténue que se manifestasse. Sabiam que tudo estava praticamente perdido e à mercê do pavoroso mar. Esse mar, feroz e traidor, indiferente e sábio, que o experiente capitão grego Diógenes Patrai tinha heroicamente cavalgado toda a sua existência numa ligação promíscua de amor e ódio». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

Vataça. A Favorita do rei Dinis. Francisco do Ó Pacheco. «Vataça Lascaris, a que a História de Portugal chamou rainha e princesa da Grécia, nasceu perto de Génova. Quando o pai expulsa toda a família de Ventimiglia, é acolhida, juntamente com a mãe e os irmãos, na corte de Pedro III de Aragão»

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«Da vossa gran fremusura
ond' eu, senhora, atendia
gran ben e grand' alegria
mi vem gran mal sem mesura
e pois ei coita sobeja
praza-vos já que vos veja
no ano ua vez d' un dia».
Poema de Dinis I, rei de Portugal

«(da formosura dela de que esperava (atendia) tantos bens e tantas alegrias (gran bem e grand' alegria), só lhe veio gran mal sem mesura (grandes males sem medida) .E já que de penas de amor (coita) tem o que sobeja, que ela se disponha a permitir-lhe que ele ao menos a veja uma vez por ano)».

NOTA:
«Tudo começou nos anos oitenta do século XX quando o professor Arnaldo Soledade me pediu que atribuísse ao fontanário existente junto à capela de Nossa Senhora das Salvas, na cidade de Sines, o nome de Fonte de Dona Betaça, juntamente com algumas datas marcantes (1282, ano de sua chegada a Portugal; 1755, ano do terramoto que terá feito ruir definitivamente a original capela; 1989, ano da colocação da placa azulejar alusiva). Alguns anos mais tarde enviava-me Arnaldo Soledade um trabalho extraordinário. Nada menos que cópia de parte de um código, que pesquisara e analisara com sangue, suor e lágrimas, como gostava de chamar àqueles dias e noites intermináveis, passados nas poeiras dos arquivos e no meio das velharias literárias. Para os Amigos do Saber, como o velho professor gostava de chamar a quem se interessava pelas coisas do conhecimento histórico e não só, o código a que entusiasticamente se referia estava e está guardado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, no códice nº 164 da Ordem de Santiago de Espada. Tratava-se do texto da Visitação de D. Jorge de Lencastre a Sines em 1517, ou seja, a descrição dos bens régios, clericais e particulares existentes e inspeccionados no concelho, àquela data. Uma espécie de inventário geral concelhio, realizado pelos homens da poderosa Ordem de Santiago de Espada, reflectindo as realidades económicas, sociais e humanas de Sines em 1517. Um texto importantíssimo que li avidamente e onde fui reencontrar, uma outra referência a dona Betaça. Diz a Visitação de D. Jorge de Lencastre, filho bastardo do rei João II e Mestre da Ordem de Santiago de Espada, sobre a ermida de Nossa Senhora das Salas: … porque esta ermida de Nossa Senhora das Sallas foi edificada no tempo em que a rainha dona Betaça da Grécia aqui desembarcou, e foi ela que fez a dita ermida, onde Nosso Senhor tem feitos e faz muitos milagres, e será sem razão e coisa escandalosa ver-se desfazer a dita casa do lugar em que está. Por isso e por esta Visitação ordenamos e mandamos que a dita casa fique para sempre onde está e não se mude dali. E mandamos aos mordomos e confrades da dita casa que a façam mais comprida, assim como era dantes, e alevantem e rasguem uma janela de fronte ao mar obra que agora encomendamos e rogamos para que o façam o mais cedo que poderem, por ser casa de muita devoção... e dentro da dita ermida está uma fonte de água (no texto fomte daguoa nudjuel). Não muito tempo antes do acima referido o incansável professor Soledade trouxera-me outra marcante revelação: Descobrira uma segunda Carta de Foral de Sines anterior ao foral de Manuel I de 1512, que se encontrava guardado no cofre da Tesouraria Municipal. E ele tinha-a em seu poder. Era de 1362, mais concretamente de 24 de Novembro desse ano, e estava assinada por el-rei Pedro I, neto de Dinis I e filho de Afonso IV. Ora Pedro havia nascido em Coimbra em 1320 e certamente tinha sido recebido com enorme alegria por toda a corte e especialmente pelos seus avós, Dinis e Isabel, e pela princesa favorita Vataça Lascaris. Pedro só seria rei de Portugal após a morte de seu pai Afonso IV, em 1357, e muito certamente, terá visitado, após a morte do avô Dinis em 1325, por várias vezes, o Paço de sua avó em Coimbra, no Convento de Santa Clara, e juntamente com a antiga rainha, o Paço de S. Romão de Panóias de Vataça Lascaris e o castelo de Santiago do Cacém, sede da comenda. E nestas suas deslocações com sua avó Isabel a Santiago do Cacém não custa acreditar que se tenha deslocado a Sines onde visitava a capela de Nossa Senhora das Salvas e passeava de barco com os pescadores locais. Era portanto seguro que dona Betaça ou Vataça Lascaris estivera em Sines no primeiro quartel do século XIV e mandara construir a primitiva capela em honra de Nossa Senhora das Salvas, a qual, dois séculos depois, em 1517, era conhecida por capela de Nossa Senhora das Salas. Porquê? Que razões terão presidido a esta alteração de Salvas para Salas? O mistério permanece porque nenhum historiador até ao presente deu cabal explicação. Incluindo aquele que mais aprofundadamente estudou o concelho de Sines e sobre ele escreveu, o
próprio Arnaldo Soledade». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT