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segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Todas as Almas. Javier Marías. «.. de 1930 o tinha acordado sem um tostão no bolso e com os olhos cautelosos e tímidos de quem tem de pedir emprestado e ainda não decidiu a quem»

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«Havia dias em que, mais do que acreditar que estava, na verdade estava em 1947, ou em 1914, ou em 1935, ou em 1960, ou em 1926, ou em qualquer um dos anos da sua longuíssima vida. Às vezes era possível intuir se Will se encontrava instalado num ano mau mediante uma leve expressão de temor (era um ser demasiado puro para que nele houvesse espaço para a preocupação, pois carecia absolutamente da visão de futuro sempre associada a tal sentimento) que, no entanto, nunca chegava a assombrar o seu olhar confiante e ufano.

Podíamos suspeitar que uma manhã de 1940 estava para ele dominada pelo medo dos bombardeamentos da noite anterior ou da seguinte, e que uma manhã de 1916 o podia encontrar um pouco abatido com as más notícias procedentes da ofensiva do Somme, e que uma de 1930 o tinha acordado sem um tostão no bolso e com os olhos cautelosos e tímidos de quem tem de pedir emprestado e ainda não decidiu a quem.

Noutros dias, o ligeiríssimo apagamento do seu imenso sorriso ou do brilho do seu olhar tão afectuoso era de todo indecifrável, nem sequer objecto de fabulação, porque, sem dúvida, devia-se a pesares e sensaborias da sua vida pessoal, que nunca interessou a um professor ou aluno. Nessa viagem contínua pela sua existência, quase tudo era insondável para os demais (tal como os retratos de séculos passados ou uma fotografia tirada anteontem). Como podíamos saber em que aflitiva jornada dos seus inúmeros dias se encontrava Will quando o víamos cumprimentar apenas com um meio sorriso, em vez Marías, Literatura, Espanha,

Como saber que troço melancólico do seu infindável trajecto estava a percorrer quando não erguia a mão naquele seu gesto infantil enquanto dava os bons-dias? Aquela mão verticalmente erguida, que nos fazia ter a convicção de que naquela cidade inóspita alguém ficava realmente alegre por nos ver, embora esse alguém não soubesse quem éramos ou, melhor dizendo, nos visse todas as manhãs como alguém diferente do dia anterior. Só por uma vez soube, graças a Cromer-Blake, em que momento exacto daquela sua vida sem sobressaltos, passada durante tantas horas atrás dos vidros da sua cabina, se encontrava Will. Cromer-Blake esperou por mim à porta do edifício e avisou-me: Diz algo ao Will, umas palavras de conforto.

Aparentemente, hoje está a viver no dia em que lhe morreu a mulher, em 1962, e ficaria muito magoado se um de nós não se apercebesse do sucedido ao entrar. Está muito triste, mas o seu bom humor natural permite-lhe usufruir do seu protagonismo de hoje apenas na medida certa para não perder de todo o sorriso. De modo que, até certo ponto, também está satisfeitíssimo. E, já sem olhar para mim,  fazer as suas deslocações sempre a correr para darem a impressão de um perpétuo sufoco e ocupação extrema nos intervalos entre uma e outra aula, as quais, no entanto, decorreram ou teriam de decorrer no mais absoluto sossego e despreocupação, como parte que eram do estar e não do fazer e nem sequer do fingir. Era o caso de Cromer-Blake e também do Inquisidor, também conhecido por Carniceiro ou Estripador, e cujo nome verdadeiro era Alec Dewar.» In Javier Marías, Todas as Almas, Editora Martins Fontes, 1998, Alfaguara, 2019, ISBN 978-989-665-914-4.

Cortesia de EMFontes/EAlfaguara/JDACT

 JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha,

domingo, 13 de outubro de 2024

Todas as Almas. Javier Marías. «Aquele que aqui conta o que viu e o que lhe aconteceu não é aquele que o viu e a quem aconteceu, nem o seu prolongamento nem a sua sombra nem o seu herdeiro nem o seu usurpador»

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«Dois dos três morreram desde que saí de Oxford, e isso faz-me pensar, supersticiosamente, que talvez tenham estado à espera de que eu chegasse e esgotasse o meu tempo ali para me darem a oportunidade de os conhecer e poder agora falar deles. É possível, portanto, e sempre supersticiosamente, que seja obrigado a falar deles. Não morreram senão quando deixámos de nos dar.

Pensamento não é apenas supersticioso, é também vaidoso. Mas para falar deles tenho de falar também de mim e da minha estada na cidade de Oxford. Mesmo que aquele que fala não seja o mesmo que lá esteve. Parece, mas não é o mesmo. Se a mim próprio me chamo eu ou se utilizo um nome que me tem acompanhado desde que nasci e pelo qual alguns me hão-de lembrar ou se conto coisas que coincidem com coisas que outros me atribuíram ou se chamo minha casa à casa que antes e depois foi ocupada por outros, mas que habitei durante dois anos, é só porque prefiro falar na primeira pessoa, não porque acredite que a faculdade da memória é suficiente para continuar a ser o mesmo em diferentes tempos e em diferentes espaços.

Aquele que aqui conta o que viu e o que lhe aconteceu não é aquele que o viu e a quem aconteceu, nem o seu prolongamento nem a sua sombra nem o seu herdeiro nem o seu usurpador. A minha casa tinha três andares e forma piramidal e nela passava muito tempo, dado que as minhas obrigações na cidade de Oxford eram praticamente nulas ou inexistentes. Com efeito, Oxford é, sem dúvida, uma das cidades do mundo onde menos se trabalha, e nela o facto de se estar revela-se muito mais decisivo que o de fazer ou até mesmo o de fingir.

Estar exige ali tanta concentração e paciência, e tanto esforço para lutar contra a letargia natural do espírito, que seria uma exigência desmesurada pretender que, além disso, os seus habitantes ainda se mostrassem activos, principalmente em público, apesar de alguns colegas costumarem fazer as suas deslocações sempre a correr para darem a impressão de um perpétuo sufoco e ocupação extrema nos intervalos entre uma e outra aula, as quais, no entanto, decorreram ou teriam de decorrer no mais absoluto sossego e despreocupação, como parte que eram do estar e não do fazer e nem sequer do fingir.

Era o caso de Cromer-Blake e também do Inquisidor, também conhecido por Carniceiro ou Estripador, e cujo nome verdadeiro era Alec Dewar. Mas quem negava todos os simulacros de agitação e dava corpo e verbo ao estatismo ou estabilidade do lugar era Will, o velho porteiro do edifício (a Institutio Tayloriana, assim chamada com pompa e em latim) onde eu costumava trabalhar em sossego e sem preocupações. Nunca vi um olhar tão limpo (certamente não na minha cidade, Madrid, onde não existem olhares limpos) quanto o daquele homem de quase noventa anos, pequeno e polido, invariavelmente vestido com uma espécie de macacão azul, a quem era permitido permanecer muitas manhãs na sua cabina envidraçada a dar os bons-dias aos professores à medida que iam entrando. Will não sabia, literalmente, em que dia vivia, e assim, sem que ninguém pudesse prever a data que escolhera e menos ainda saber o que determinava a sua escolha, passava todas as manhãs em anos diferentes, a viajar para trás e para a frente no tempo de acordo com a sua vontade ou, melhor dizendo, provavelmente à margem da sua vontade». In Javier Marías, Todas as Almas, Editora Martins Fontes, 1998, Alfaguara, 2019, ISBN 978-989-665-914-4.

 Cortesia de EMFontes/EAlfaguara/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha,,

domingo, 24 de março de 2024

Coração Tão Branco. Javier Marías. «… ou em sussurros imperceptíveis, ainda que seja melhor eu não compreender e o que se diz não seja dito para que eu ouça, ou mesmo seja dito justamente para que eu não capte»

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«Assim, o que vemos e ouvimos acaba se assemelhando e até se igualando ao que não vimos nem ouvimos, é apenas uma questão de tempo, ou de que desapareçamos. E apesar de tudo não podemos deixar de encaminhar nossas vidas para o ouvir e o ver e o presenciar e o saber, com a convicção de que essas nossas vidas dependem de estarmos juntos um dia

ou de atendermos um telefonema, ou de nos atrevermos, ou de cometermos um crime ou causarmos uma morte e sabermos que foi assim. Às vezes tenho a sensação de que nada do que acontece acontece, porque nada acontece sem interrupção, nada perdura nem persevera nem se recorda incessantemente, e até a mais monótona e rotineira das existências vai se anulando e negando a si mesma em sua aparente repetição até que nada seja nada e ninguém seja ninguém que tenham sido antes, e a frágil roda do mundo é empurrada por desmemoriados que ouvem e vêem e sabem o que não se diz nem sucede nem é cognoscível nem comprovável. O que ocorre é idêntico ao que não ocorre, o que descartamos ou deixamos passar idêntico ao que pegamos e agarramos, o que experimentamos idêntico ao que não provamos, e no entanto vai-nos a vida e vai-se-nos a vida em escolher, rejeitar e selecionar, em traçar uma linha que separe essas coisas que são idênticas e faça de nossa história uma história única que recordemos e possa ser contada. Dirigimos toda a nossa inteligência, os nossos sentidos e o nosso afã à tarefa de discernir o que será nivelado, ou já está, e por isso estamos cheios de arrependimentos e de ocasiões perdidas, de confirmações e reafirmações e ocasiões aproveitadas, quando o certo é que nada se afirma e tudo se vai perdendo. Ou talvez que nunca tenha havido nada.

Talvez não tenha havido uma só palavra entre Miriam e o homem durante todo o instante em que acreditei as estar perdendo. Talvez tenham apenas se olhado, ou se abraçado de pé, calados, ou se aproximado da cama para se despirem, ou talvez ela tenha se limitado a descalçar-se, mostrando ao homem seus pés que teria lavado tão conscienciosamente antes de sair de casa e agora estariam cansados e doloridos (a planta de um deles suja pelo calçamento da rua). Não devem ter-se esbofeteado nem se engalfinhado numa briga nem nada do género (quero dizer num corpo-a-corpo), porque depois se arqueja fortemente e se grita ao fazê-lo, ou então logo antes, senão depois. Talvez, como eu (mas eu o fazia por Luísa, e entrava e saía), Miriam tenha ido ao banheiro e se trancado nele durante aqueles minutos sem dizer nada, para se olhar no espelho, se arrumar e tentar apagar do rosto as expressões acumuladas de ira, cansaço, decepção e alívio, perguntando-se que outra seria mais adequada e benéfica para por fim encarar aquele homem canhoto de braços peludos que teria achado engraçado ou divertido ela ter esperado gratuitamente e ter me confundido com ele. Talvez o tenha feito esperar um pouco, a porta fechada do banheiro, ou talvez sua intenção não fosse essa, mas sim chorar às escondidas e contidamente sobre a tampa da privada ou sobre o rebordo da banheira com as lentes de contacto tiradas, se é que as usava, enxugando-se e ocultando-se a seus próprios olhos com uma toalha até conseguir se acalmar, lavar o rosto, pintar-se e estar em condições de sair de novo, dissimulando.

Eu tinha pressa de poder ouvir e, para tanto, necessitava que Luísa voltasse a dormir, que deixasse de ser corpórea e contínua para relegar-se e fazer-se distante, e necessitava estar quieto para escutar através da parede do espelho ou pela sacada aberta, ou estereofonicamente através de ambos. Falo, entendo e leio quatro línguas contando a minha, por isso, suponho, me dediquei parcialmente a ser tradutor e intérprete em congressos, reuniões e encontros, sobretudo políticos e às vezes o mais alto nível (em duas oportunidades servi de intérprete a chefes de Estado; bem, um só era chefe de governo). Suponho que por isso tenho a tendência (como tem Luísa, que se dedica à mesma coisa, só que não compartilhamos exatamente as mesmas línguas e ela está menos profissionalizada ou se dedica menos e, portanto, não a tem tão acentuada) de querer compreender tudo o que se diz e que chega a meus ouvidos, tanto no trabalho como fora dele, ainda que à distância, ainda que num dos inúmeros idiomas que desconheço, ainda que em murmúrios indistinguíveis ou em sussurros imperceptíveis, ainda que seja melhor eu não compreender e o que se diz não seja dito para que eu ouça, ou mesmo seja dito justamente para que eu não capte». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

 JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa, 

quinta-feira, 21 de março de 2024

Coração Tão Branco. Javier Marías. «O dia em que não estivemos juntos já não teremos estado juntos, ou o que nos iam dizer por telefone quando nos ligaram e não respondemos nunca será dito, nunca a mesma coisa nem com o mesmo espírito…»

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«Com quem você estava falando antes?, perguntou-me outra vez. Não vi motivo para não lhe dizer a verdade, no entanto tive a sensação de não o fazer ao fazê-lo. Nesse momento eu tinha na mão uma toalha com a ponta húmida e me dispunha a refrescar-lhe o rosto, o pescoço, a nuca (seu cabelo comprido e em desalinho tinha se grudado, e alguns fios soltos lhe atravessavam a testa como se fossem finas rugas vindas do futuro para ensombrecê-la um instante).

Com ninguém, com uma mulher que me confundiu. Confundiu nossa sacada com a do lado. Devia ter vista ruim, só quando chegou bem perto viu que eu não era o homem com quem marcara encontro. Ali. E apontei para a parede que agora nos separava de Miriam e do homem. Nessa parede havia uma mesa e em cima dela um espelho no qual, conforme nos mexêssemos ou nos erguêssemos, podíamos nos ver da cama.

Mas por que gritava? Pareceu-me que gritava muito. Ou não sei se sonhei. Estou com muito calor. Deixei a toalha ao pé da cama e acariciei-lhe várias vezes a face e o queixo arredondado. Seus grandes olhos escuros fitavam ainda nebulosos. Se tivera febre, esta já havia baixado. Não posso saber, porque na realidade não era comigo que gritava, mas com o outro por quem me tomou. Sabe lá o que se terão feito um ao outro. Enquanto me ocupava de Luísa eu tinha ouvido (mas sem prestar atenção, porque atendia Luísa e estava fazendo ao mesmo tempo várias coisas e indo do quarto ao banheiro e do banheiro ao quarto) como os saltos chegavam até a porta ao lado e esta se abria sem que batessem nela, e a partir do leve rangido (foi rápido) e da suave batida ao se fechar de novo (que foi muito lenta) apenas um murmúrio indistinto, sussurros de palavras que não podiam se distinguir apesar de pronunciadas em minha língua e de, segundo o som de pouco antes, a sacada deles ter ficado entreaberta e eu não ter fechado a nossa. À preocupação com meu indevido atraso somou-se outra, minha preocupação com a sensação de pressa. Senti que tinha pressa não apenas para tranquilizar Luísa, esticar-lhe os lençóis e paliar na medida do possível os efeitos de sua doença efêmera, mas também para que não me fizesse mais perguntas e dormisse de novo, pois não havia tempo para fazê-la participar de minha curiosidade nem ela estava em condições de se interessar por nada exterior a seu corpo e, enquanto trocávamos algumas palavras e eu ia ao banheiro molhar a ponta de uma toalha, dava-lhe de beber e acariciava seu queixo que eu apreciava muito, os pequenos ruídos que eu mesmo ia fazendo e nossas próprias frases curtas e descontínuas me impediam de prestar atenção e apurar o ouvido procurando distinguir o murmúrio contíguo, que eu tinha pressa de decifrar.

E a pressa vinha porque eu tinha consciência de que o que não ouvisse agora não ia ouvir mais; não ia haver repetição, como quando você ouve uma fita cassete ou assiste a um vídeo e pode retroceder, mas cada sussurro não captado nem compreendido se perderia para sempre. É o que há de ruim no que nos acontece e não é gravado, ou, pior ainda, nem mesmo sabido nem visto nem ouvido, porque depois não há forma de recuperá-lo.

O dia em que não estivemos juntos já não teremos estado juntos, ou o que nos iam dizer por telefone quando nos ligaram e não respondemos nunca será dito, nunca a mesma coisa nem com o mesmo espírito; e tudo será levemente diferente ou totalmente diferente por nossa falta de atrevimento que nos dissuadiu de falar. Mas mesmo se naquele dia estivemos juntos, ou se estávamos em casa quando nos telefonaram, ou se nos atrevemos a falar vencendo o temor e esquecendo o risco, mesmo assim nada disso voltará a se repetir, por conseguinte chegará um momento em que ter estado juntos será como não ter estado, e ter atendido o telefone será como não o ter feito, e ter-nos atrevido a nos falar será como ter calado. Até as coisas mais indeléveis têm uma duração, como as que não deixam vestígio ou nem mesmo acontecem, e se estivermos prevenidos e as anotarmos ou gravarmos ou filmarmos, se nos enchermos de recordações e chegarmos até a substituir o acontecido pela mera constância, registo e arquivamento do que aconteceu, de modo que o que na verdade ocorra desde o princípio seja nossa anotação ou nossa gravação ou nossa filmagem, apenas isso, mesmo nesse aperfeiçoamento infinito da repetição teremos perdido o tempo em que as coisas de facto aconteceram (embora seja o tempo da anotação); e enquanto procuramos revivê-lo ou reproduzi-lo e fazê-lo voltar e impedir que seja passado, outro tempo diferente estará acontecendo, e nele, sem dúvida, não estaremos juntos nem atenderemos nenhum telefonema, nem nos atreveremos a nada, nem poderemos evitar nenhum crime e nenhuma morte (embora tampouco venhamos a cometê-los ou a causá-los), porque o estaremos deixando passar como se não fosse nosso em nossa intenção doentia de que o que já aconteceu não acabe e retorne». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa, 

Coração Tão Branco. Javier Marías. «… secado o suor da testa e dos ombros e desabotoado o soutien para que não a incomodasse, deixando que fosse ela quem decidisse mantê-lo posto, embora solto, ou tirá-lo»

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«A mulata não usava relógio nem anéis. Pensei que a figura daquele indivíduo devia ter-lhe sido só um pouco visível durante todos aqueles minutos, ao contrário da minha, inteiramente visível por assomar e estar apoiada na balaustrada imóvel. Agora era o inverso, a minha se apagara de repente e era invisível, em compensação era o homem que eu não via, como tampouco.

Luisa, continuava dando-lhe as costas. Talvez aquele sujeito tivesse ido para trás e para a frente, sempre sem abrir a janela da sacada, conforme se visse ou não focalizado pelos olhos cor de limão da mulher da rua, por seu olhar míope e inofensivo. Estivera brincando com a vantagem de se deixar ver e se esconder, nenhuma das duas coisas, e ela tinha razão portanto, a pessoa com quem marcara encontro já havia subido ao hotel sem se incomodar em avisá-la, para vê-la esperar em frente e na distância, para contemplá-la em seus breves e doridos passeios de um lado para o outro, depois em seu trôpego avanço e em sua queda, calçar-se, como também eu tivera a oportunidade de observá-la.

O curioso foi que a reacção de Miriam não teve nada a ver com a que dedicara a mim ao tomar-me por outro, por aquele homem de braços fortes, peludos, compridos e relógio e aliança de canhoto. Ao vê-lo já com certeza, ao ver quem estivera esperando tanto e ouvi-lo chamá-la, não fez nenhum gesto nem gritou nada. Não o insultou nem o ameaçou nem lhe disse Vou te apanhar ou Eu te mato com o braço nu e os dedos rápidos, talvez porque, ao contrário de mim enquanto fui ele para ela, ele falara com ela ou dissera seu nome. A expressão da mulher mudou: foi de alívio, por um instante, e com prontidão, quase com um agradecimento sem destinatário, com mais graça em seus passos do que até então mostrara (como se de repente caminhasse descalça e suas pernas não fossem tão encorpadas), acabou de percorrer o trecho que a separava do hotel e entrou nele com sua grande bolsa preta agora mais leve, desaparecendo assim de meu campo visual sem me dizer mais palavras, reconciliada com o mundo durante aqueles passos. A janela da sacada à minha esquerda tornou a se fechar e logo tornou a se abrir para ficar entreaberta, como se o vento a tivesse empurrado ou o homem tivesse pensado melhor um segundo depois de fechá-la (pois não ventava) e não soubesse bem como ia querer mantê-la quando a mulher já estivesse com ele em cima, em breve (a mulher devia estar subindo a escada). Então eu, finalmente (mas passara muito pouco tempo, de modo que Luísa ainda devia sentir-se recém-acordada), abandonei meu posto, acendi o abajour do criado-mudo e me aproximei solícito da cabeceira de nossa cama, solícito mas atrasado.

Esse atraso é para mim inexplicável e já então o lamentei muito, não porque tivesse qualquer consequência, mas pelo que pensei que podia significar, num excesso de escrúpulo e zelo. E, embora seja certo que eu tenha associado de imediato esse atraso marital ao primeiro mal-estar de que falei e ao facto de que desde nosso casamento me fosse mais difícil pensar em Luísa (quanto mais corpórea e contínua, mais relegada e remota), o aparecimento do segundo mal-estar que também mencionei não se deveu à minha contemplação lacônica da mulata e à minha brevíssima negligência, mas antes ao que veio depois, isto é, ao que aconteceu quando eu já havia atendido Luísa, secado o suor da testa e dos ombros e desabotoado o soutien para que não a incomodasse, deixando que fosse ela quem decidisse mantê-lo posto, embora solto, ou tirá-lo. Com a luz, Luísa reanimou-se um pouco, quis beber água e, ao beber um pouco, sentiu-se melhor e, ao sentir-se um pouco melhor, dispôs-se a falar um pouco e, quando se acalmou e sentiu os lençóis menos pegajosos e se viu mais composta com a cama em ordem, e sobretudo compreendeu e se acostumou à ideia de que já era noite, de que, quisesse ou não, o dia terminara para ela sem possibilidade de continuar a fazer o que quer que fosse e de que só lhe restava tentar não fazer caso de sua doença e sepultá-la no sono até a manhã seguinte, quando presumivelmente tudo voltaria à normalidade algo anómala de nossa viagem de recém-casados e seu corpo estaria em ordem e seria outra vez corpóreo, então lembrou-se do meu descuido que seguramente ela não havia percebido como tal, ou o que recordou foi que eu tinha dito Não se preocupe a uma pessoa desconhecida que estava na rua e que de lá haviam subido vozes e gritos ouvidos no sono ou em seu torpor, que a tinham despertado e talvez assustado». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa, 

terça-feira, 5 de março de 2024

Coração Tão Branco. Javier Marías. «Senti-me culpado para com ela, pela espera, por sua queda e por meu silêncio, e também culpado para com Luísa, minha mulher recém-contraída que estava precisando de mim pela primeira vez desde a cerimónia…»

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«Mas eu não conhecia ninguém em Havana, mais ainda, era a primeira vez que estava em Havana, em minha viagem de lua-de-mel com minha mulher tão recente. Virei-me por fim e vi Luísa erguida na cama, com os olhos fixos em mim mas sem ainda me conhecer nem reconhecer onde estava, aqueles olhos febris do doente que acorda assustado e sem ter recebido aviso prévio de seu despertar no sono. Estava levantada, e o sutiã saíra do lugar enquanto dormia, ou então no movimento brusco que acabava de fazer ao erguer-se: estava torcido, tinha descoberto um ombro e quase um seio, com certeza a estava incomodando, devia tê-lo prendido com seu próprio corpo esquecido no mal-estar e no adormecimento. Que está acontecendo?, perguntou apreensiva. Nada, respondi. Volte a dormir.

Mas não me atrevi a achegar-me e acariciar seus cabelos para tranquilizá-la de verdade e para que voltasse ao torpor, como teria feito em qualquer outra circunstância, porque naquele instante eu não me atrevia a abandonar meu lugar na sacada, nem a desviar os olhos por pouco que fosse daquela mulher que estava convencida de ter estado comigo, nem a evitar por mais tempo o diálogo abrupto que da rua se impunha a mim. Era uma pena que falássemos a mesma língua e eu a compreendesse, porque o que ainda não era diálogo já se tornava violento, talvez porque não o fosse, não fosse diálogo. Eu te mato, filho-da-pu…! Juro que eu te mato aqui mesmo!, gritava a mulher da rua.

Gritava aquilo do chão e sem poder me encarar, porque, justo no momento em que eu me virara para dizer a Luísa quatro palavras, um sapato tinha saído do pé da mulata e ela caíra, sem se machucar mas sujando na hora a saia branca. Gritava isto, Eu te mato, e ia se levantando, um tombo, a bolsa sempre pendurada no braço, não a soltara, aquela bolsa ela não soltaria nem que a esfolassem, tentava sacudir-se ou limpar a saia com a mão e estava com um pé descalço, erguido no ar, como se não quisesse de maneira nenhuma pousá-lo e sujar também sua planta, nem as pontas dos dedos sequer, o pé que poderia ver o homem que ela tinha encontrado, vê-lo de perto, em cima, e tocá-lo, mais tarde.

Senti-me culpado para com ela, pela espera, por sua queda e por meu silêncio, e também culpado para com Luísa, minha mulher recém-contraída que estava precisando de mim pela primeira vez desde a cerimónia, ainda que apenas um segundo, o necessário para secar o suor que lhe empapava a testa e os ombros e para ajustar ou tirar o soutien para que não a incomodasse e fazê-la regressar com palavras ao sono que a curaria. Aquele segundo eu não podia dar-lhe naquele momento, como era possível, notava com força as duas presenças que quase me paralisavam e emudeciam, uma fora e outra dentro, diante de meus olhos e diante das minhas costas, como era possível, sentia-me obrigado para com ambas, tinha de haver um erro ali, eu não podia me sentir culpado para com minha mulher por nada, por uma demora mínima na hora de atendê-la e acalmá-la, e menos ainda para com uma desconhecida ultrajada, por mais que ela acreditasse que me conhecia e que era eu quem a ultrajava.

Ela estava fazendo malabarismos para voltar a pôr o sapato sem pisar no chão com o pé descalço. A saia era um pouco apertada para realizar essa operação com êxito, seus pés de ossos demasiado compridos, e enquanto tentou não gritou, mas resmungava, não podemos estar muito atentos aos outros enquanto tratamos de recompor a aparência. Não teve outro remédio que apoiar o pé, que se sujou no acto. Voltou a levantá-lo como se o chão a houvesse contaminado ou queimado, sacudiu a poeira como Luísa sacudia a areia seca nas praias justo antes de abandoná-las, às vezes ao cair da noite; enfiou os dedos do pé no sapato, a parte da frente; depois, com o indicador (da mão livre da bolsa), ajustou a tira do calcanhar que sobressaía sob aquela tira (a tira do soutien de Luísa devia continuar caída, mas eu não a via agora). Suas pernas robustas pisaram outra vez com firmeza, batendo no pavimento como se fossem cascos. Deu mais três passos sem erguer ainda a vista e, quando a ergueu, quando abria a boca para me insultar ou me ameaçar e iniciava pela enésima vez o gesto preênsil, garra de leão, aquele que agarrava e significava Você não vai se livrar de mim ou Vai comigo para o inferno, suspendeu-o no ar, e o braço nu ficou congelado no alto, como o de um atleta». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5

Cortesia do RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa,

Coração Tão Branco. Javier Marías. «Você é meu ou Eu te mato. Você está abobalhado ou o que foi? Inda por cima ficou mudo? Mas por que você não me responde? Já estava bem perto, avançara pela esplanada uns dez ou doze passos, suficientes para que agora sua voz estridente não só se ouvisse…»

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«Ao dar mais passos do que os que dera repetidamente durante sua espera vi que andava com dificuldade e lentidão, como se não estivesse acostumada com os saltos, ou suas pernas robustas não fossem feitas para eles, ou a bolsa a desequilibrasse ou estivesse enjoada. Caminhava um pouco como Luísa tinha caminhado depois de sentir-se mal, ao entrar no quarto para deixar-se cair na cama, onde eu lhe tirara parte da roupa e a introduzira nos lençóis (eu a cobrira apesar do calor). Mas naquele andar desajeitado também se adivinhava a graça, perdida naquele momento: quando estivesse descalça a mulher mulata caminharia com graça, a saia ondularia, quebrando-se ritmicamente contra as coxas. Meu quarto estava às escuras, ninguém acendera a luz ao cair a noite, Luísa dormia indisposta, eu não me mexera daquela sacada, olhava os havaneses e depois aquela mulher que continuava se aproximando com passo trôpego e continuava gritando para mim o que agora já ouvia: Ei! Você o que faz aí? Tive um sobressalto ao entender o que estava dizendo, não tanto porque o dissesse para mim quanto pelo modo de fazê-lo, cheio de confiança, furioso, como de quem se dispõe a acertar as contas com a pessoa mais próxima ou a quem está amando, que a irrita continuamente. Não era que se tivesse sentido observada por um desconhecido de uma sacada de um hotel para estrangeiros e viesse reclamar de minha contemplação impune de sua figura e de sua humilhante espera, mas sim que reconhecera de repente em mim, ao levantar a vista, a pessoa que estava esperando sabe lá havia quanto tempo, sem dúvida desde muito antes de eu a notar. Ainda estava à distância, atravessara a rua evitando os poucos carros sem procurar um semáforo e se achava no começo da esplanada, onde parara, talvez para descansar os pés e as pernas tão salientes ou para alisar outra vez a saia, agora com maior afinco, já que por fim se encontrava diante de quem devia julgar ou apreciar sua queda, a da saia.

Continuava me fitando e desviando um pouco a vista, como se tivesse algum problema de estrabismo, seus olhos escapavam momentaneamente para minha esquerda. Talvez tivesse parado e ficado longe para mostrar sua irritação e que não estava disposta a deixar o encontro se consumar assim sem mais nem menos uma vez que me avistara, como se ela não tivesse sofrido ou não tivesse sido destratada até dois minutos antes. Então disse outras frases, todas elas acompanhadas do gesto inicial do braço e dos dedos móveis, o gesto de segurar, como se com ele dissesse Venha cá ou Você é meu.

Mas com a voz dizia, uma voz vibrante, empostada e desagradável, como de apresentador de tevê, político num discurso ou professor dando aula (mas parecia iletrada): Você o que faz aí? Não me viu que o estava esperando faz uma hora? Por que não me disse que você já tinha subido? Creio que dizia assim, com essa leve alteração na ordem das palavras e abuso dos pronomes em comparação com o que eu teria dito, ou qualquer pessoa de meu país, suponho. Embora eu continuasse sobressaltado, e além disso comecei a temer que os gritos daquela mulata acordassem Luísa às minhas costas, pude observar melhor o rosto, que de facto era de uma mulata bem clara, talvez tivesse uma quarta parte de negra, mais visível nos lábios grossos e no nariz um tanto achatado do que na cor, não muito distinta da cor de Luísa na cama, que passara vários dias bronzeando-se nas praias para recém-casados.

Os olhos piscantes da mulher me pareceram claros, cinzentos ou verdes, pelo menos cor de limão, mas talvez, pensei, tenha ganhado de presente umas lentes de contato coloridas, causa de sua visão deficiente. Tinha narinas veementes, alargadas pela ira (tinha cara de velocidade portanto), e mexia a boca em excesso (agora eu teria lido sem dificuldade em seus lábios, se precisasse), com esgares parecidos com os das mulheres de meu país, isto é, de substancial desprezo. Continuou se aproximando, cada vez mais indignada por não receber resposta, sempre repetindo o mesmo gesto do braço, como se não tivesse outro recurso expressivo além desse, um longo braço nu que dava um golpe seco no ar, os dedos dançando simultaneamente por um instante como para agarrar-me e depois arrastar-me, uma garra.

Você é meu ou Eu te mato. Você está abobalhado ou o que foi? Inda por cima ficou mudo? Mas por que você não me responde? Já estava bem perto, avançara pela esplanada uns dez ou doze passos, suficientes para que agora sua voz estridente não só se ouvisse, mas começasse a troar no quarto; suficientes também, achei, para que me visse sem incerteza por mais míope que fosse, portanto parecia indubitável que eu era a pessoa com quem marcara um encontro importante, que a angustiara com meu atraso e a ofendera da sacada com minha vigilância calada que continuava ofendendo-a». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5

Cortesia do RelógioD’Água/JDACT

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Todas as Almas. Javier Marías. «… quando não erguia a mão naquele seu gesto infantil enquanto dava os bons-dias? Aquela mão verticalmente erguida, que nos fazia ter a convicção de que naquela cidade inóspita alguém ficava realmente alegre…»

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«Como saber que troço melancólico do seu infindável trajecto estava a percorrer quando não erguia a mão naquele seu gesto infantil enquanto dava os bons-dias? Aquela mão verticalmente erguida, que nos fazia ter a convicção de que naquela cidade inóspita alguém ficava realmente alegre por nos ver, embora esse alguém não soubesse quem éramos ou, melhor dizendo, nos visse todas as manhãs como alguém diferente do dia anterior. Só por uma vez soube, graças a Cromer-Blake, em que momento exacto daquela sua vida sem sobressaltos, passada durante tantas horas atrás dos vidros da sua cabina, se encontrava Will. Cromer-Blake esperou por mim à porta do edifício e avisou-me: Diz algo ao Will, umas palavras de conforto.

Aparentemente, hoje está a viver no dia em que lhe morreu a mulher, em 1962, e ficaria muito magoado se um de nós não se apercebesse do sucedido ao entrar. Está muito triste, mas o seu bom humor natural permite-lhe usufruir do seu protagonismo de hoje apenas na medida certa para não perder de todo o sorriso. De modo que, até certo ponto, também está satisfeitíssimo. E, já sem olhar para mim,  fazer as suas deslocações sempre a correr para darem a impressão de um perpétuo sufoco e ocupação extrema nos intervalos entre uma e outra aula, as quais, no entanto, decorreram ou teriam de decorrer no mais absoluto sossego e despreocupação, como parte que eram do estar e não do fazer e nem sequer do fingir. Era o caso de Cromer-Blake e também do Inquisidor, também conhecido por Carniceiro ou Estripador, e cujo nome verdadeiro era Alec Dewar.

Mas quem negava todos os simulacros de agitação e dava corpo e verbo ao estatismo ou estabilidade do lugar era Will, o velho porteiro do edifício (a Institutio Tayloriana, assim chamada com pompa e em latim) onde eu costumava trabalhar em sossego e sem preocupações. Nunca vi um olhar tão limpo (certamente não na minha cidade, Madrid, onde não existem olhares limpos) quanto o daquele homem de quase noventa anos, pequeno e polido, invariavelmente vestido com uma espécie de macacão azul, a quem era permitido permanecer muitas manhãs na sua cabina envidraçada a dar os bons-dias aos professores à medida que iam entrando. Will não sabia, literalmente, em que dia vivia, e assim, sem que ninguém pudesse prever a data que escolhera e menos ainda saber o que determinava a sua escolha, passava todas as manhãs em anos diferentes, a viajar para trás e para a frente no tempo de acordo com a sua vontade ou, melhor dizendo, provavelmente à margem da sua vontade. Havia dias em que, mais do que acreditar que estava, na verdade estava em 1947, ou em 1914, ou em 1935, ou em 1960, ou em 1926, ou em qualquer um dos anos da sua longuíssima vida. Às vezes era possível intuir se Will se encontrava instalado num ano mau mediante uma leve expressão de temor (era um ser demasiado puro para que nele houvesse espaço para a preocupação, pois carecia absolutamente da visão de futuro sempre associada a tal sentimento) que, no entanto, nunca chegava a assombrar o seu olhar confiante e ufano.

Podíamos suspeitar que uma manhã de 1940 estava para ele dominada pelo medo dos bombardeamentos da noite anterior ou da manhã de 1916 o podia encontrar um pouco abatido com as más notícias procedentes da ofensiva do Somme, e que uma de 1930 o tinha acordado sem um tostão no bolso e com os olhos cautelosos e tímidos de quem tem de pedir emprestado e ainda não decidiu a quem. Noutros dias, o ligeiríssimo apagamento do seu imenso sorriso ou do brilho do seu olhar tão afectuoso era de todo indecifrável, nem sequer objecto de fabulação, porque, sem dúvida, devia-se a pesares e sensaborias da sua vida pessoal, que nunca interessou a um professor ou aluno». In Javier Marías, Todas as Almas, Editora Martins Fontes, 1998, Alfaguara, 2019, ISBN 978-989-665-914-4.

Cortesia de EMFontes/EAlfaguara/JDACT

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terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Coração Tão Branco. Javier Marías. «… só que eu já a usava na esquerda, fazia duas semanas, pouco tempo, não me acostumara. Também o relógio, preto e grande, aquele homem usava no pulso do mesmo braço e eu, em compensação, no do outro. Devia ser canhoto»

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« Aquele segundo eu não podia dar-lhe naquele momento, como era possível, notava com força as duas presenças que quase me paralisavam e emudeciam, uma fora e outra dentro, diante de meus olhos e diante das minhas costas, como era possível, sentia-me obrigado para com ambas, tinha de haver um erro ali, eu não podia me sentir culpado para com minha mulher por nada, por uma demora mínima na hora de atendê-la e acalmá-la, e menos ainda para com uma desconhecida ultrajada, por mais que ela acreditasse que me conhecia e que era eu quem a ultrajava. Ela estava fazendo malabarismos para voltar a pôr o sapato sem pisar no chão com o pé descalço. A saia era um pouco apertada para realizar essa operação com êxito, seus pés de ossos demasiado compridos, e enquanto tentou não gritou, mas resmungava, não podemos estar muito atentos aos outros enquanto tratamos de recompor a aparência. Não teve outro remédio que apoiar o pé, que se sujou no acto. Voltou a levantá-lo como se o chão a houvesse contaminado ou queimado, sacudiu a poeira como Luísa sacudia a areia seca nas praias justo antes de abandoná-las, às vezes ao cair da noite; enfiou os dedos do pé no sapato, a parte da frente; depois, com o indicador (da mão livre da bolsa), ajustou a tira do calcanhar que sobressaía sob aquela tira (a tira do soutien de Luísa devia continuar caída, mas eu não a via agora). Suas pernas robustas pisaram outra vez com firmeza, batendo no pavimento como se fossem cascos. Deu mais três passos sem erguer ainda a vista e, quando a ergueu, quando abria a boca para me insultar ou me ameaçar e iniciava pela enésima vez o gesto preênsil, garra de leão, aquele que agarrava e significava Você não vai se livrar de mim ou Vai comigo para o inferno, suspendeu-o no ar, e o braço nu ficou congelado no alto, como o de um atleta.

Vi sua axila recém-raspada, tinha se aprontado toda para o encontro. Olhou uma vez mais à minha esquerda e olhou para mim e olhou à minha esquerda e para mim. Mas o que está acontecendo?, voltou a perguntar Luísa de sua cama. Sua voz era temerosa, expressava um temor misto, interior e exterior, tinha medo do que estava acontecendo em seu corpo, tão longe de casa, e do que não sabia que estava acontecendo, ali na sacada e na rua, ou que estava acontecendo comigo e não com ela, os casais logo se acostumam a que tudo aconteça com ambos. Era de noite e nosso quarto continuava às escuras, devia sentir-se tão ofuscada que nem acendia o abajur da mesinha-de-cabeceira a seu lado. Estávamos numa ilha.

A mulher da rua ficou com a boca aberta sem dizer nada e levou a mão ao rosto, a mão que foi deslizando decepcionada, envergonhada e mansa para baixo desde cima. Já não havia mal-entendido. Ai, desculpe, disse-me ao cabo de uns segundos. Confundi o senhor com outra pessoa. Num instante toda a fumaça tinha-se dissipado e ela havia compreendido, isso era o mais grave, que tinha de continuar esperando, talvez onde estivera de início, não mais sob as sacadas, teria de voltar ao ponto escolhido originalmente, ao outro lado da rua além da esplanada, para lá arrastar com celeridade e ódio seu salto afilado após seus dois ou três passos, três machadadas e espora, ou espora depois dos machados. Era uma pessoa repentinamente desarmada, dócil, perdera toda a sua cólera e suas energias, e creio que não lhe importava tanto o que eu pudesse pensar de seu engano e de seu mau génio, afinal era eu um desconhecido a seus olhos verdes, quanto se dar conta de que seu encontro ainda corria o risco de não acontecer.

Fitava-me com seu olhar cinzento de repente absorto, com um pouco de desculpa e um pouco de indiferença, de desculpa o justo necessário, pois era a amargura que prevalecia. Ir embora ou esperar de novo, depois de ter concluído a espera. Não se preocupe, disse eu. Com quem está falando?, perguntou-me Luísa, que sem minha assistência ia saindo de seu estupor, embora não das trevas (a voz era um pouco menos rouca e sua pergunta mais concreta; talvez não estivesse entendendo que era noite).

Mas ainda não respondi nem me aproximei da cama para sossegá-la e arrumar os lençóis para ela, porque nesse momento abriram ruidosamente as portas da sacada à minha esquerda e vi aparecerem dois braços de homem que se apoiaram na balaustrada de ferro, ou a seguraram como se fosse uma barra móvel, e chamaram: Miriam!

A mulata, indecisa e confusa, tornou a olhar para cima, agora já sem dúvida à minha esquerda, sem dúvida para a sacada que se abrira e para os braços fortes que eram tudo o que eu via, os braços compridos do homem em mangas de camisa, as mangas arregaçadas, brancas, os braços peludos, tanto ou mais do que os meus. Eu havia deixado de existir, desaparecera, também estava de mangas arregaçadas, tinha levantado as mangas ao sair à sacada para debruçar-me, fazia pouco, mas agora eu havia desaparecido por ser eu outra vez, isto é, por ser para ela ninguém. No anular da sua mão direita o homem trazia uma aliança como a minha, só que eu já a usava na esquerda, fazia duas semanas, pouco tempo, não me acostumara. Também o relógio, preto e grande, aquele homem usava no pulso do mesmo braço e eu, em compensação, no do outro. Devia ser canhoto». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

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domingo, 28 de janeiro de 2024

Coração Tão Branco. Javier Marías. «Senti-me culpado para com ela, pela espera, por sua queda e por meu silêncio, e também culpado para com Luísa, minha mulher recém-contraída que estava precisando de mim pela primeira vez desde a cerimónia…»

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«Embora eu continuasse sobressaltado, e além disso comecei a temer que os gritos daquela mulata acordassem Luísa às minhas costas, pude observar melhor o rosto, que de facto era de uma mulata bem clara, talvez tivesse uma quarta parte de negra, mais visível nos lábios grossos e no nariz um tanto achatado do que na cor, não muito distinta da cor de Luísa na cama, que passara vários dias bronzeando-se nas praias para recém-casados. Os olhos piscantes da mulher me pareceram claros, cinzentos ou verdes, pelo menos cor de limão, mas talvez, pensei, tenha ganhado de presente umas lentes de contato coloridas, causa de sua visão deficiente. Tinha narinas veementes, alargadas pela ira (tinha cara de velocidade portanto), e mexia a boca em excesso (agora eu teria lido sem dificuldade em seus lábios, se precisasse), com esgares parecidos com os das mulheres de meu país, isto é, de substancial desprezo.

Continuou se aproximando, cada vez mais indignada por não receber resposta, sempre repetindo o mesmo gesto do braço, como se não tivesse outro recurso expressivo além desse, um longo braço nu que dava um golpe seco no ar, os dedos dançando simultaneamente por um instante como para agarrar-me e depois arrastar-me, uma garra. Você é meu ou Eu te mato. Você está abobalhado ou o que foi? Inda por cima ficou mudo? Mas por que você não me responde? Já estava bem perto, avançara pela esplanada uns dez ou doze passos, suficientes para que agora sua voz estridente não só se ouvisse, mas começasse a troar no quarto; suficientes também, achei, para que me visse sem incerteza por mais míope que fosse, portanto parecia indubitável que eu era a pessoa com quem marcara um encontro importante, que a angustiara com meu atraso e a ofendera da sacada com minha vigilância calada que continuava ofendendo-a. Mas eu não conhecia ninguém em Havana, mais ainda, era a primeira vez que estava em Havana, em minha viagem de lua-de-mel com minha mulher tão recente.

Virei-me por fim e vi Luísa erguida na cama, com os olhos fixos em mim mas sem ainda me conhecer nem reconhecer onde estava, aqueles olhos febris do doente que acorda assustado e sem ter recebido aviso prévio de seu despertar no sono. Estava levantada, e o soutien saíra do lugar enquanto dormia, ou então no movimento brusco que acabava de fazer ao erguer-se: estava torcido, tinha descoberto um ombro e quase um seio, com certeza a estava incomodando, devia tê-lo prendido com seu próprio corpo esquecido no mal-estar e no adormecimento.

Que está acontecendo?, perguntou apreensiva. Nada, respondi. Volte a dormir. Mas não me atrevi a achegar-me e acariciar seus cabelos para tranquilizá-la de verdade e para que voltasse ao torpor, como teria feito em qualquer outra circunstância, porque naquele instante eu não me atrevia a abandonar meu lugar na sacada, nem a desviar os olhos por pouco que fosse daquela mulher que estava convencida de ter estado comigo, nem a evitar por mais tempo o diálogo abrupto que da rua se impunha a mim.

Era uma pena que falássemos a mesma língua e eu a compreendesse, porque o que ainda não era diálogo já se tornava violento, talvez porque não o fosse, não fosse diálogo. Eu te mato, filho-da-pu…! Juro que eu te mato aqui mesmo!, gritava a mulher da rua. Gritava aquilo do chão e sem poder me encarar, porque, justo no momento em que eu me virara para dizer a Luísa quatro palavras, um sapato tinha saído do pé da mulata e ela caíra, sem se machucar mas sujando na hora a saia branca. Gritava isto, Eu te mato, e ia se levantando, um tombo, a bolsa sempre pendurada no braço, não a soltara, aquela bolsa ela não soltaria nem que a esfolassem, tentava sacudir-se ou limpar a saia com a mão e estava com um pé descalço, erguido no ar, como se não quisesse de maneira nenhuma pousá-lo e sujar também sua planta, nem as pontas dos dedos sequer, o pé que poderia ver o homem que ela tinha encontrado, vê-lo de perto, em cima, e tocá-lo, mais tarde.

Senti-me culpado para com ela, pela espera, por sua queda e por meu silêncio, e também culpado para com Luísa, minha mulher recém-contraída que estava precisando de mim pela primeira vez desde a cerimónia, ainda que apenas um segundo, o necessário para secar o suor que lhe empapava a testa e os ombros e para ajustar ou tirar o soutien para que não a incomodasse e fazê-la regressar com palavras ao sono que a curaria». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

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Coração Tão Branco. Javier Marías. «Ainda estava à distância, atravessara a rua evitando os poucos carros sem procurar um semáforo e se achava no começo da esplanada, onde parara, talvez para descansar os pés e as pernas tão salientes…»

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«Ao dar mais passos do que os que dera repetidamente durante sua espera vi que andava com dificuldade e lentidão, como se não estivesse acostumada com os saltos, ou suas pernas robustas não fossem feitas para eles, ou a bolsa a desequilibrasse ou estivesse enjoada. Caminhava um pouco como Luísa tinha caminhado depois de sentir-se mal, ao entrar no quarto para deixar-se cair na cama, onde eu lhe tirara parte da roupa e a introduzira nos lençóis (eu a cobrira apesar do calor). Mas naquele andar desajeitado também se adivinhava a graça, perdida naquele momento: quando estivesse descalça a mulher mulata caminharia com graça, a saia ondularia, quebrando-se ritmicamente contra as coxas. Meu quarto estava às escuras, ninguém acendera a luz ao cair a noite, Luísa dormia indisposta, eu não me mexera daquela sacada, olhava os havaneses e depois aquela mulher que continuava se aproximando com passo trôpego e continuava gritando para mim o que agora já ouvia: Ei! Você o que faz aí?

Tive um sobressalto ao entender o que estava dizendo, não tanto porque o dissesse para mim quanto pelo modo de fazê-lo, cheio de confiança, furioso, como de quem se dispõe a acertar as contas com a pessoa mais próxima ou a quem está amando, que a irrita continuamente. Não era que se tivesse sentido observada por um desconhecido de uma sacada de um hotel para estrangeiros e viesse reclamar de minha contemplação impune de sua figura e de sua humilhante espera, mas sim que reconhecera de repente em mim, ao levantar a vista, a pessoa que estava esperando sabe lá havia quanto tempo, sem dúvida desde muito antes de eu a notar.

Ainda estava à distância, atravessara a rua evitando os poucos carros sem procurar um semáforo e se achava no começo da esplanada, onde parara, talvez para descansar os pés e as pernas tão salientes ou para alisar outra vez a saia, agora com maior afinco, já que por fim se encontrava diante de quem devia julgar ou apreciar sua queda, a da saia. Continuava fitando-me e desviando um pouco a vista, como se tivesse algum problema de estrabismo, seus olhos escapavam momentaneamente para minha esquerda.

Talvez tivesse parado e ficado longe para mostrar sua irritação e que não estava disposta a deixar o encontro se consumar assim sem mais nem menos uma vez que me avistara, como se ela não tivesse sofrido ou não tivesse sido destratada até dois minutos antes. Então disse outras frases, todas elas acompanhadas do gesto inicial do braço e dos dedos móveis, o gesto de segurar, como se com ele dissesse Venha cá ou Você é meu. Mas com a voz dizia, uma voz vibrante, importada e desagradável, como de apresentador de tevê, político num discurso ou professor dando aula (mas parecia iletrada):

Você o que faz aí? Não me viu que o estava esperando faz uma hora? Por que não me disse que você já tinha subido? Creio que dizia assim, com essa leve alteração na ordem das palavras e abuso dos pronomes em comparação com o que eu teria dito, ou qualquer pessoa de meu país, suponho». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Assim Começa o Mal. Javier Marías. «… o preâmbulo de um abandono amoroso que você acabará consumando, mas que ainda não consegue sequer imaginar: essas ondas de frieza e irritação e saciedade dirigidas a um ser…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Acostume-se a me ver aqui, porque daqui não se pode ir mais para baixo, o que é uma vantagem na hora de tomar decisões, deveríamos tomá-las a partir das piores hipóteses, se é que não do desespero e sua acompanhante habitual, a vileza, assim não amoleceríamos nem reconheceríamos um equívoco.

Não se preocupe e sente-se, vou ditar-te uma coisa ou duas. E deixe de lado de uma vez por todas o dom, não é a primeira vez que digo. Eduardo, imitou minha voz, e era um grande imitador, me envelhece e me soa a Galdós, que não suporto com duas excepções, e isso numa obra tão abusiva o converte num déspota. Vamos, anote. Vai ditar-me daí? Daí de baixo? Sim, daqui, qual o problema? Por acaso minha voz não chega até você? Não me diga que tenho de te levar ao otorrino, seria um péssimo indício na sua idade. Quantos anos acha que tem? Quinze?. Também era dado a gozações e ao exagero.

Vinte e três. Sim, claro que sua voz chega até mim. É potente e viril, como o senhor sabe. Eu não as iniciava apenas: toda a vez que Muriel me fazia uma piada, eu a devolvia, ou pelo menos lhe respondia no mesmo tom de troça. Tornou a sorrir sem querer, mais com o olho do que com os lábios. Mas não verei o seu rosto se eu me sentar no meu lugar. Ficarei de costas para o senhor, uma descortesia, não? Eu costumava ocupar uma poltrona em frente à dele quando despachávamos, com sua mesa de trabalho setecentista de permeio, e ele estava estendido perto do limiar do salão, mais além dessa minha poltrona.

Pois vire a poltrona, coloque-a voltada para mim. Grande coisa, que problema! Nem se estivesse aparafusada no chão. Ele tinha razão, assim fiz. Agora ele ficava literalmente a meus pés, em sentido perpendicular a eles; como composição era excêntrica, o chefe horizontal no chão e o secretário, ou o que quer que eu fosse, a um palmo de lhe dar um pontapé ao menor movimento involuntário e brusco ou mal medido de suas pernas, nas costelas ou nos quadris. Me preparei para escrever na minha caderneta (depois passava as cartas numa máquina velha que ele me tinha emprestado, ainda funcionava bem, e lhe dava para rever e assinar).

Mas Muriel não começou de imediato. Sua expressão de pouco antes, mais para o afável, dissimuladamente risonha, havia sido substituída por uma de abstração ou de elucidação, ou por uma dessas coisas pesadas que você vai adiando porque não deseja enfrentá-las nem mergulhar nelas e que, portanto, sempre voltam, recorrentes e, a cada investida, são mais profundas por não terem desaparecido durante o período em que você as manteve sob controle ou afastadas do pensamento, mas porque, por assim dizer, cresceram em ausência e não pararam de espreitar o ânimo, sub-reptícia ou subterraneamente, como se fossem o preâmbulo de um abandono amoroso que você acabará consumando, mas que ainda não consegue sequer imaginar: essas ondas de frieza e irritação e saciedade dirigidas a um ser muito querido que vêm, se entretêm um pouco e se vão, e toda vez que se vão você deseja crer que sua visita foi uma fantasmagoria, produto do mal-estar consigo mesmo, ou de um descontentamento geral, ou mesmo das contrariedades ou do calor, e que não voltarão mais.

Só para descobrir na próxima vez que cada nova onda é mais pegajosa e traz consigo uma duração maior e envenena e abruma o espírito e o faz duvidar e se amaldiçoar um pouco mais. Demora a se perfilar esse sentimento de desafeição, e ainda mais a se formular na mente (acho que não a aguento mais, vou fechar a porta para ela, tem de ser assim), e quando a consciência por fim o assume, ainda lhe resta um bom caminho a percorrer antes de ser verbalizado e exposto à pessoa que sofrerá o abandono e que não suspeita dele nem o prefigura, porque tampouco nós, os abandonadores, o fazemos, enganosos, covardes, dilatórios, morosos, pretendemos coisas impossíveis: eludir a culpa, evitar o dano, e a quem caberá enlanguescer incredulamente por ele e quem sabe morrer em sua palidez». In Javier Marías, Assim Começa o Mal, 2015, Afaguara, ISBN 978-989-665-008-7.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

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Assim Começa o Mal. Javier Marías. «E o que faz estirado no chão, se é que posso saber? Não é que o reprove, Deus me livre, mas fiquei curioso. Só quero entender seus costumes. Caso isso seja um costume»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Que asneira, me respondeu do chão, sem esboçar a menor intenção de se endireitar nem se envergonhar com a minha presença; olhou para as minhas mãos salvadoras como se fossem duas moscas que esvoaçavam e o perturbavam. Não vê que estou fumando tranquilo? Eia! E brandiu no alto, diante de mim, um cachimbo bem agarrado pelo fornilho. Fumava principalmente cigarro, e esses só fora de casa, mas nela os alternava com cachimbo, como se quisesse completar um quadro que de resto poucos de nós víamos (tampouco o exibia nas festas ocasionais que dava, à maioria improvisadas), devia querer completá-lo para si mesmo: tapa-olho, cachimbo, bigode fino, colete às vezes, era como se, inconscientemente, tivesse ficado colado à imagem dos galãs de sua infância e adolescência, nos anos 30 e 40, não só à de Errol Flynn (por antonomásia e com quem compartilhava o sorriso fulgente), mas à de actores muito mais nebulosos, como Ronald Colman, Robert Donat, Basil Rathbone, e mesmo David Niven e Robert Taylor, que duraram mais tempo, tinha um ar de todos eles, apesar de entre si serem diferentes. E, como era espanhol, em certos momentos recordava os mais morenos, embora mais diferenciados e exóticos Gilbert Roland e César Romero, principalmente o primeiro, cujo nariz era grande e sem curva, como o seu.

E o que faz estirado no chão, se é que posso saber? Não é que o reprove, Deus me livre, mas fiquei curioso. Só quero entender seus costumes. Caso isso seja um costume. Fez um resignado gesto de impaciência, como se minha estranheza lhe fosse sabida e já tivesse dado as mesmas explicações anteriormente a outros.

Não é nada demais. Faço isso sempre. Não há nada a ser compreendido e, sim, é um costume meu. Será que a gente não pode ficar estirado sem ter acontecido nada, só por gosto? E por conveniência.

Claro que sim, Eduardo, só faltava essa, o senhor pode fazer equilibrismos se lhe der na veneta. Até com pratos chineses. Enfiei esse comentário com aleivosia, para deixar claro que sua postura não era tão normal quanto ele pretendia, não num homem maduro, e pai de família ainda por cima, pois andar pelo chão é próprio de crianças e bebés, e ele tinha três em casa. Também não tinha certeza de que aquilo que me veio à mente se chamava pratos chineses, giram vários ao mesmo tempo na ponta de diversas varas flexíveis, compridas e finas, cada uma apoiada na polpa de um dedo, creio, não tenho a menor ideia de como se consegue nem com que propósito. Deve ter-me entendido, em todo caso.

Mas o senhor tem aqui dois sofás, acrescentei, e apontei para trás, para o salão, ele estava caído no escritório. Não teria me alarmado nem um pouco se o encontrasse num deles, inclusive dormindo ou em transe. Mas no chão, com toda a poeira… Não é o que se espera, desculpe.

Em transe? Eu, em transe? Como em transe?, Isso parece tê-lo ofendido, mas lhe despontou meio sorriso, como se também houvesse achado graça. É, bem, era uma forma de falar. Matutando. Em meditação. Ou hipnotizado. Eu, hipnotizado? Por quem? Como hipnotizado? E agora não pôde reprimir um fugaz sorriso aberto. Quer dizer auto-hipnotizado? Eu, a mim mesmo? De manhã? À quoi bon?, arrematou em francês, não eram raras as breves incursões nessa língua entre os membros instruídos da sua geração e das precedentes, a segunda que haviam aprendido, em geral. Sim, desde bem cedo me dei conta de que as minhas gozações não eram mal recebidas, quase nunca ele as cortava de pronto, mas tendia a acompanhá-las um pouco, se não se demorava mais não era por falta de vontade, mas só para que eu não tomasse liberdades muito rapidamente com ele, uma cautela desnecessária, eu o admirava e respeitava demais. Parou depois do francesismo. Levantou o cachimbo húmido de novo para dar ênfase às suas palavras: O chão é o lugar mais estável, firme e modesto que existe, com melhor perspectiva do céu ou do tecto e onde melhor se pensa. E neste não há sinal de poeira, pontuou». In Javier Marías, Assim Começa o Mal, 2015, Afaguara, ISBN 978-989-665-008-7.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

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terça-feira, 31 de outubro de 2023

No 31. Coração Tão Branco. Javier Marías. «Não se encostava na parede, como costumam fazer os que esperam para não atrapalhar os que não esperam e passam; mantinha-se no meio da calçada, sem se mexer além de seus três passos medidos…»

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«No entanto, ao cabo de uns minutos de olhar sem ver, notei uma pessoa. Notei-a porque, ao contrário das demais, durante todos aqueles minutos não se movera nem passara ou desaparecera de meu campo visual, mas permanecera parada no mesmo lugar, uma mulher de uns trinta anos vista de longe, com uma blusa amarela de decote arredondado, uma saia branca e sapatos de salto alto também brancos, levando no braço uma grande bolsa preta, como as que as mulheres usavam em Madrid na minha infância, bolsas grandes penduradas no braço e não no ombro, como agora. Estava esperando alguém, sua atitude era de espera inequívoca, porque de vez em quando dava dois ou três passos para um lado ou outro, e no último passo arrastava ligeiramente e com celeridade o salto no chão, um gesto de contida impaciência.

Não se encostava na parede, como costumam fazer os que esperam para não atrapalhar os que não esperam e passam; mantinha-se no meio da calçada, sem se mexer além de seus três passos medidos que a levavam de volta sempre ao mesmo lugar, e por isso tinha problemas para se esquivar dos transeuntes, um lhe disse alguma coisa e ela respondeu com raiva e ameaçou-o com a volumosa bolsa. De vez em quando olhava para trás flexionando uma perna e com a mão alisava a saia justa, como se temesse que alguma prega lhe enfeasse a nádega, ou talvez ajustasse a calcinha insubmissa através do tecido que a cobria.

Não olhava para o relógio, não usava relógio, talvez se orientasse pelo do hotel, que estaria acima da minha cabeça, invisível para mim, com rápidas olhadas que eu não percebia. Pode ser que o hotel não tivesse relógio dando para a rua e ela nunca soubesse a hora. Pareceu-me mulata, mas eu não podia garantir de onde me encontrava.

De repente a noite caiu, quase sem aviso, como acontece nos trópicos, e, embora o número de passantes não tenha diminuído de imediato, a perda da luz me fez vê-la mais solitária, mais isolada e mais condenada a esperar em vão. Quem ela esperava não chegaria. Com os braços cruzados, apoiava os cotovelos nas mãos, como se a cada segundo que passava aqueles braços pesassem mais, ou talvez fosse a bolsa que aumentasse de peso. Tinha pernas robustas, adequadas para a espera, que se cravavam no pavimento com seus saltos muito finos e altos ou agulha, mas as pernas eram tão fortes e atraentes que assimilavam aqueles saltos e eram elas que se cravavam solidamente, como faca em madeira molhada, cada vez que tornavam a se deter no ponto escolhido após o mínimo deslocamento para a direita ou para a esquerda.

Os calcanhares sobressaíam dos sapatos. Ouvi um leve murmúrio, ou era um gemido, procedente da cama às minhas costas, de Luisa doente, de minha mulher recém-contraída que tanto me interessava, era minha incumbência. Mas não virei a cabeça porque era um gemido que vinha do sono, aprende-se a distinguir logo o som adormecido da pessoa com quem se dorme. Nesse momento a mulher da rua ergueu os olhos para o terceiro andar em que eu me encontrava e acreditei que fixava sua vista em mim pela primeira vez. Espiou como se fosse míope ou estivesse com lentes de contacto sujas e olhou desconcertada, fixando a vista em mim e desviando-a um pouco e piscando os olhos para ver melhor e de novo fixando-a e desviando-a. Então levantou um braço, o braço livre da bolsa, num gesto que não era de saudação nem de aproximação, quero dizer de aproximação a um estranho, mas de apropriação e reconhecimento, coroado por um remoinho veloz dos dedos: era como se com aquele gesto do braço e o volteio dos dedos rápidos quisesse segurar-me, mais segurar-me do que atrair-me até ela.

Gritou algo que eu não podia ouvir devido à distância e tive a certeza de que gritava para mim. Pelo movimento dos lábios apenas adivinhados pude entender a primeira palavra, e essa palavra era Ei!, pronunciada com indignação, como o resto da frase que não chegava a mim. Enquanto falava pôs-se a andar; para se aproximar, tinha de atravessar a rua e percorrer a ampla esplanada que de nosso lado separava o hotel da rua, afastando-o e salvaguardando-o assim um pouco do trânsito». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5

Cortesia do RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa, 

sábado, 28 de outubro de 2023

Todas as Almas. Javier Marías. «Aquele que aqui conta o que viu e o que lhe aconteceu não é aquele que o viu e a quem aconteceu, nem o seu prolongamento nem a sua sombra nem o seu herdeiro nem o seu usurpador»

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«Dois dos três morreram desde que saí de Oxford, e isso faz-me pensar, supersticiosamente, que talvez tenham estado à espera de que eu chegasse e esgotasse o meu tempo ali para me darem a oportunidade de os conhecer e poder agora falar deles. É possível, portanto, e sempre supersticiosamente, que seja obrigado a falar deles. Não morreram senão quando deixámos de nos dar.

Se tivesse continuado nas suas vidas, e em Oxford (se tivesse continuado nas suas vidas quotidianamente), talvez ainda estivessem vivos. Este pensamento não é apenas supersticioso, é também vaidoso. Mas para falar deles tenho de falar também de mim e da minha estada na cidade de Oxford. Mesmo que aquele que fala não seja o mesmo que lá esteve. Parece, mas não é o mesmo. Se a mim próprio me chamo eu ou se utilizo um nome que me tem acompanhado desde que nasci e pelo qual alguns me hão-de lembrar ou se conto coisas que coincidem com coisas que outros me atribuíram ou se chamo minha casa à casa que antes e depois foi ocupada por outros, mas que habitei durante dois anos, é só porque prefiro falar na primeira pessoa, não porque acredite que a faculdade da memória é suficiente para continuar a ser o mesmo em diferentes tempos e em diferentes espaços.

Aquele que aqui conta o que viu e o que lhe aconteceu não é aquele que o viu e a quem aconteceu, nem o seu prolongamento nem a sua sombra nem o seu herdeiro nem o seu usurpador.

A minha casa tinha três andares e forma piramidal e nela passava muito tempo, dado que as minhas obrigações na cidade de Oxford eram praticamente nulas ou inexistentes. Com efeito, Oxford é, sem dúvida, uma das cidades do mundo onde menos se trabalha, e nela o facto de se estar revela-se muito mais decisivo que o de fazer ou até mesmo o de fingir.

Estar exige ali tanta concentração e paciência, e tanto esforço para lutar contra a letargia natural do espírito, que seria uma exigência desmesurada pretender que, além disso, os seus habitantes ainda se mostrassem activos, principalmente em público, apesar de alguns colegas costumarem fazer as suas deslocações sempre a correr para darem a impressão de um perpétuo sufoco e ocupação extrema nos intervalos entre uma e outra aula, as quais, no entanto, decorreram ou teriam de decorrer no mais absoluto sossego e despreocupação, como parte que eram do estar e não do fazer e nem sequer do fingir.

Era o caso de Cromer-Blake e também do Inquisidor, também conhecido por Carniceiro ou Estripador, e cujo nome verdadeiro era Alec Dewar. Mas quem negava todos os simulacros de agitação e dava corpo e verbo ao estatismo ou estabilidade do lugar era Will, o velho porteiro do edifício (a Institutio Tayloriana, assim chamada com pompa e em latim) onde eu costumava trabalhar em sossego e sem preocupações. Nunca vi um olhar tão limpo (certamente não na minha cidade, Madrid, onde não existem olhares limpos) quanto o daquele homem de quase noventa anos, pequeno e polido, invariavelmente vestido com uma espécie de macacão azul, a quem era permitido permanecer muitas manhãs na sua cabina envidraçada a dar os bons-dias aos professores à medida que iam entrando. Will não sabia, literalmente, em que dia vivia, e assim, sem que ninguém pudesse prever a data que escolhera e menos ainda saber o que determinava a sua escolha, passava todas as manhãs em anos diferentes, a viajar para trás e para a frente no tempo de acordo com a sua vontade ou, melhor dizendo, provavelmente à margem da sua vontade.

Havia dias em que, mais do que acreditar que estava, na verdade estava em 1947, ou em 1914, ou em 1935, ou em 1960, ou em 1926, ou em qualquer um dos anos da sua longuíssima vida. Às vezes era possível intuir se Will se encontrava instalado num ano mau mediante uma leve expressão de temor (era um ser demasiado puro para que nele houvesse espaço para a preocupação, pois carecia absolutamente da visão de futuro sempre associada a tal sentimento) que, no entanto, nunca chegava a assombrar o seu olhar confiante e ufano.

Podíamos suspeitar que uma manhã de 1940 estava para ele dominada pelo medo dos bombardeamentos da noite anterior ou da seguinte, e que uma manhã de 1916 o podia encontrar um pouco abatido com as más notícias procedentes da ofensiva do Somme, e que uma de 1930 o tinha acordado sem um tostão no bolso e com os olhos cautelosos e tímidos de quem tem de pedir emprestado e ainda não decidiu a quem.

Noutros dias, o ligeiríssimo apagamento do seu imenso sorriso ou do brilho do seu olhar tão afectuoso era de todo indecifrável, nem sequer objecto de fabulação, porque, sem dúvida, devia-se a pesares e sensaborias da sua vida pessoal, que nunca interessou a um professor ou aluno. Nessa viagem contínua pela sua existência, quase tudo era insondável para os demais (tal como os retratos de séculos passados ou uma fotografia tirada anteontem). Como podíamos saber em que aflitiva jornada dos seus inúmeros dias se encontrava Will quando o víamos cumprimentar apenas com um meio sorriso, em vez do gesto entusiasmado das datas joviais ou mesmo neutras?» In Javier Marías, Todas as Almas, Editora Martins Fontes, 1998, Alfaguara, 2019, ISBN 978-989-665-914-4.

Cortesia de EMFontes/EAlfaguara/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha,