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sábado, 2 de abril de 2016

Nostalgia na Minha Idade. Poesia. A Voz de Adriano. «Coimbra, a república independente em que a ousadia, a rebeldia e a inventiva… se deram as mãos na luta por uma academia livre…»

jdact

Fado da promessa
«Trago a minha vida presa
às promessas que morreram
naquele adeus derradeiro
que os teus olhos me disseram.

Quando a morte me levar
se eu não tiver mais ninguém
basta que chorem por mim
os olhos de minha mãe».

Trova do amor lusíada
«Meu amor é marinheiro
meu amor mora no mar
meu amor disse que eu tinha
na boca um gosto a saudade
e uns cabelos onde nascem
os ventos e a liberdade.

Meu amor é marinheiro
meu amor mora no mar
seus braços são como o vento
ninguém os pode amarrar.

Meu amor é marinheiro
meu amor mora no mar».

Pensamento
«Meu pensamento
partiu no vento
podem prendê-lo
matá-lo não.

Meu pensamento
quebrou amarras
partiu no vento
deixa guitarras.

Meu pensamento
por onde passas
estátua de vento
em cada praça.

Foi à conquista
do novo mundo
foi vagabundo
contrabandista.

Foi marinheiro
maltês ganhão
foi prisioneiro
mas servo não.

E os reis mandaram
fazer muralhas
tecer as malhas
de negras leis.

Homens morreram
chamas ao vento
por ti morreram
meu pensamento».
Poemas de Manuel Alegre, in ‘Trovas do vento que passa


ISBN 978-989-619-121-7
JDACT

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O Mundo Perdido de Calaári. Laurens van der Post. «Tens em troca órfãos e órfãs tens campos de solidão. Tens mães que não têm filhos, filhos que não têm pai. Coração que tens e sofre longas ausências mortais. Viúvas de vivos mortos que ninguém consolará»

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O Povo Desaparecido
«(…) O meu piedoso avô explicava que esta pele solta e plástica era uma sábia concessão de Providência Toda-poderosa para lhe permitir comer mais num só festim do que jamais algum homem tinha comido na história da humanidade. A sua vida de caçador tornava de vital importância que ele pudesse armazenar no corpo grandes reservas de alimento. O resultado era que o estômago, depois de ter comido até os limites da sua capacidade, dava-a qualquer homem o aspecto duma mulher grávida. Numa boa época de caça, a sua silhueta era como a dum Cupido de Rubens, rotunda à frente e mais ainda atrás. Sim, era essa mais uma das características únicas desse pequeno e original corpo bochimane. O seu traseiro era aquilo que a corcova é para o camelo! Assim a natureza lhe permitia armazenar uma reserva de valiosas gorduras e hidratos de carbono, contra os momentos de fome e de sede. Creio que o primeiro termo científico que jamais aprendi foi o nome que os anatomistas deram a este fenómeno do corpo bochimane: esteatopigia. Lembro-me de uma noite, junto do lume, ouvir dizer ao meu avô e à mais velha das minhas tias que, em época de penúria, o traseiro do Bochimane encolhia até se parecer muito com qualquer outro, excepto pelas pregas acetinadas que apresentava no sítio onde as nádegas se juntavam às pernas ágeis. Durante uma boa estação de caça, porém, esticava tanto, que se podia pôr-lhe em cirna uma garrafa de conhaque e um copo! Todos ríamos disto, não por troça, mas com afectuoso orgulho e espanto por a nossa terra natal ter produzido um corpo humano tão excepcional.
Seja como for, o meu coração e a minha imaginação preocupavam-se fortemente com este assunto da forma do Bochimane. Os Hotentotes, que se pareciam muito com ele, não conseguiam, por muito que eu gostasse deles, excitar o meu espírito da mesma forma. Eram demasiado grandes. O Bochimane era como devia ser. Havia magia na sua constituição. Sempre que a minha mãe nos lia uma história de fadas em que um homem baixo realizava maravilhas, logo a minha imaginação o transformava num bochimane. Talvez que esta nossa vida, que começa com a procura do homem pela criança e acaba como uma viagem feita pelo homem para redescobrir a criança, precise duma imagem clara de algum homem-criança, como o Bochimane, em que os dois estão firme e encantadoramente ligados, para que os nossos corações confusos possam permanecer no centro da sua breve rota de partida e regresso». In Laurens van der Post, The lost world of the Kalahari, O Mundo Perdido de Calaári, edição Livros do Brasil, Lisboa.


Cortesia de LdoBrasil/JDACT

O Têpluquê. Outras Histórias. Manuel A Pina. «Eu canto para ti um mês de giestas um mês de morte e crescimento ó meu amigo como um cristal partindo-se plangente no fundo da memória perturbada. Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa e um coração poisado sobre a tua ausência […] os mortos amados batem à porta do poema»

BárbaraAssisPacheco
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A Revolução das Letras. A ordem alfabética (Tanto Fazia…)
«(…) Desde pequenas que ensinavam às letras a Ordem Alfabética. Quando elas perguntavam às letras grandes porque é que os ás haviam de ser sempre os primeiros e os zês sempre os últimos, e não outros (por exemplo, os pês os primeiros e os tês os últimos, ou os ésses, ou os jotas, ou outros quaisquer), as letras grandes diziam-lhes que tanto fazia. Na verdade, tanto fazia. Mas o facto é que os ás é que eram sempre os primeiros e os zês sempre os últimos…

As Contas das Letras
Mas havia mais: havia duas espécies de letras, as vogais por um lado, que eram só cinco, e as consoantes, a chamada esmagadora maioria, do outro lado. As privilegiadas eram as vogais. Na palavra privilegiado: por exemplo (isto eram as contas que as letras faziam), só os is apareciam três vezes e o a uma e o e e o o também uma cada um; e embora a palavra privilegiado tivesse na sua Constituição seis vogais e outras seis consoantes, das vogais só ficava de fora o u (uma semivogal!), ao passo que das consoantes ficavam de fora, ao todo, 13! Já na palavra trabalhar era o contrário; havia seis consoantes e só uma vogal, o a, que andava de uma sílaba para a outra para parecer que havia lá, muitas vogais a trabalhar...

O SCRTRD
A certa altura, com o auxílio dos amigos números, todas as letras começaram a fazer destas contas à vida delas. As vogais podiam entrar em toda a parte, quer dizer, em todas as palavras, e até tinham palavras só para elas, e as consoantes não; algumas consoantes, praticamente, nem entravam em palavras nenhumas, como o xis ou o quê. (E com as palavras sucedia o mesmo, porque havia palavras que nem sequer havia, como a palavra migol ou a palavra epipabaquígrafo, e outras que só havia lá fora, no estrangeiro, como a palavra pouce ou as palavras Winston Churchill). A televisão e os jornais começaram a fazer reportagens e a ouvir as queixas das letras. Ao mesmo tempo, as consoantes começaram a organizar-se, constituindo-se em scrtrd, que é um secretariado só constituído por consoantes. Os jornais descobriram dramas terríveis em algumas frases. Numa frase havia um cê de cedilha e um muito amigos e que não podiam encontrar-se para conversar senão às escondidas, porque se metia sempre uma vogal no meio deles, como, por exemplo, o i, que se metia sempre no meio deles na palavra metediço. (Por causa do formato de pau do i e da pintinha de cabelo em cima e por se estar sempre a meter no meio tinham posto ao i a alcunha de pau de cabeleira!). Aliás, as vogais tinham tanto medo das consoantes, que eram muitas mais, que só muito raramente as deixavam andar juntas, e só às de mais confiança como o agá, que era meio vogal...»


In Manuel António Pina, O Têpluquê e Outras Histórias, Ilustrações de Bárbara Assis Pacheco, Assírio e Alvim, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-37-1157-8.

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT

História da Vida Privada em Portugal José Mattoso. «Para que quero eu olhos senhora Santa Luzia. Para que quero eu olhos senhora Santa Luzia. Se eu não vejo o meu amor nem de noite, nem de dia, senhora Santa Luzia»

jdact

A época contemporânea. Introdução
A redefinição do público e do privado (1820-1950)
«(…) A noção burguesa de vida privada está ainda associada, no imaginário oitocentista, à expressão dos sentimentos, fundamento da coesão familiar, sendo entendida como o lugar por excelência da materialização dos afectos, base da felicidade individual, enquanto se considera a vida pública controlada pela razão. A literatura romântica saberá explorar sabiamente esse filão e alimentar sonhos cor-de-rosa de amor e de felicidade eternas, deixando-nos nos romances, e em tantas obras de qualidade discutível, episódios que identificam, quase invariavelmente, amor com casamento e intimidade com felicidade. A cena de interior descrita por Carlos Moura Cabral contém todos esses ingredientes e, provavelmente, terá tanto de verídico como de utopia prospectiva. A simplicidade estilística de que se socorre o autor, próxima da linguagem cinematográfica, confere à narrativa autenticidade, como se retratasse uma cena do quotidiano, retirada da realidade social, sem ter em linha de conta o estatuto de representação simbólica do texto literário. Ora, história e literatura não se confundem nem identificam e, embora sejam duas expressões narrativas próximas, a ficção literária traduz a capacidade criativa e o imaginário do seu autor a partir de um dado contexto social e cultural. Ao historiador compete ler criticamente o romancista com o rigor dos métodos científicos da pesquisa e da análise documental, e utilizar a literatura como um registo ficcionado de aproximação ao conhecimento da realidade sociológica que se oculta por entre o emaranhado das intrigas passionais e da crítica de costumes. Vêm estas palavras a propósito da tentação de reconstruir a história da vida privada de 1820 a 1950 a partir das fontes literárias, aparentemente tão credíveis em testemunhos de época, contrastando em absoluto com a desesperante pobreza das fontes históricas, escritas ou iconográficas. As dificuldades práticas da pesquisa prendem-se com a insuficiência dos documentos quando o objecto de investigação está para além dos discursos e dos modelos culturais que transparecem através das instituições e dos comportamentos. Como captar o silêncio, o íntimo, as nuances dos afectos, o que não se diz e permanece oculto? Como aceder aos monólogos interiores, às orações, aos medos, aos desejos e aos sonhos de vida futura? Que documentos interrogar? Os arquivos privados são raros e socialmente bem determinados. Os arquivos públicos e, em particular, as tradicionais fontes políticas ou administrativas, são omissas ou lacunares sobre o tema, excepto no que concerne ao debate ideológico sobre a instituição da família, considerada o epicentro da vida privada e a unidade primária da vida social e afectiva. Quanto aos arquivos judiciais que nos elucidam sobre o lado sombrio das relações humanas e a sua conflitualidade interna, continuam, no nosso país, a ser pouco explorados, em termos históricos, permanecendo, em grande parte, como um continente por desbravar.
Nestas circunstâncias, o historiador deve socorrer-se de todas as fontes possíveis ao seu alcance: interrogar minuciosamente as estatísticas e relatórios disponíveis; explorar os textos religiosos, normativos, científicos ou literários; utilizar documentos gráficos como a publicidade, a fotografia, a iconografia, ou tão-só, os objectos materiais do quotidiano dispersos por museus e demais instituições museológicas... Compete-lhe, ainda, prestar atenção às pequenas coisas que tanto fascínio exerciam sobre os homens e as mulheres de oitocentos, muitas das quais chegaram até nós religiosamente guardadas por familiares ou integradas em colecções particulares, como se de relíquias se tratasse, sejam cartas amarelecidas Pelo tempo, sejam postais ilustrados, jóias, estampas, cartões de felicitação ou tantas outras pequeninas minudências. Discretamente, com a prudência que a pesquisa histórica aconselha, entremos no círculo estreito da vida privada, essa fortaleza forrada a rendas, como a qualifica Michelle Perrot, solidamente resguardada da intrusão alheia…» In JoséMattoso, História da Vida Privada em Portugal, A Época Contemporânea, coordenação de Irene Vaquinhas, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2011, ISBN 978-989-644-149-4.


Cortesia de Temas e Debates/JDACT

As Cidades Invisíveis. Italo Calvino. «Ai rosa clara algum dia Rosa clara te deixei ai rosa clara algum dia te amarei. Ai amor amores tenho mais de um cento bonecas primores cabeças de vento cabeças de vento não as quero não ai amor amores do meu coração»

jdact e cortesia de sofiaborges

As cidades e os olhos. Y
«(…) Passando o rio a vau, atravessando a passagem, o homem encontra-se de repente diante da cidade de Moriana, com as portas de alabastro transparentes à luz do sol, as colunas de coral que sustêm os frontões incrustados em serpentina, os palácios todos de vidro como aquários onde nadam as sombras das bailarinas de escamas prateadas sob os candelabros em forma de medusa. Se não for a sua primeira viagem o homem sabe já que as cidades como esta têm um reverso: basta percorrer um semicírculo e ter-se-á à vista a face oculta de Moriana, uma extensão de chapa enferrujada, sarapilheira, tábuas cheias de pregos, canos negros de fuligem, montões de latas, muros cobertos com escritas meio apagadas, fundos de cadeira desempalhadas, cordas que só servem para alguém se enforcar numa trave apodrecida. De uma parte à outra a cidade parece que continua em perspectiva multiplicando o seu repertório de imagens: afinal não tem espessura, consiste apenas num direito e num avesso, como uma folha de papel, com uma figura de cá e outra de lá, que não se podem arrancar nem guardar.

As cidades e o nome. X
Clarice, cidade gloriosa, tem uma história atribulada. Várias vezes decaiu e refloresceu, tendo sempre a primeira Clarice como modelo inigualável de todo o esplendor, em comparação com o qual o estado presente da cidade não deixa de suscitar novos suspiros a cada volver das estrelas. Nos séculos de degradação, a cidade, esvaziada das pestilências, baixando de estatura devido aos desmoronamentos de travejamentos e cornijas e aos aluimentos de terras, enferrujada e entupida por incúria ou falta dos responsáveis pela manutenção, repovoava-se lentamente ao reemergirem das caves e tocas hordas de sobreviventes que como ratos pululavam movidos pela ânsia de vasculhar e roer, e até de rebuscar e remendar, como pássaros que fazem ninho. Agarravam-se a tudo o que se pudesse retirar donde estava e pôr noutro lugar para servir para outro uso: os cortinados de brocado acabavam a fazer de lençóis; nas urnas cinerárias de mármore plantavam manjericos; as grelhas de ferro forjado arrancadas das janelas dos gineceus serviam para grelhar carne de gato sobre fogueiras de lenha talhada. Montada com as peças da Clarice imprestável, tomava forma uma Clarice da sobrevivência, toda tugúrios e pardieiros, esgotos infectos, coelheiras. No entanto, do antigo esplendor de Clarice não se perdera quase nada, estava tudo ali, simplesmente disposto numa ordem diferente mas não menos apropriada do que outrora às exigências dos habitantes». In Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, 1990, Editorial Teorema, Lisboa, 2003, ISBN 972-695-374-X.


Cortesia de ETeorema/JDACT

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Homenagem. Adriano Correia de Oliveira. As minhas Barbas. Óscar Lopes. «… um “poeta em acção”, um poeta que tende para o homem responsável e total. A sua canção tem o seu ponto de partida mais reconhecível no fado estudantil coimbrão, lírico, com uma linha melódica apoiada na guitarra e/ou viola»

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«Uma das feições mais salientes da nossa vida artística dos anos 60 é o regresso da poesia de grande publico à sua relação conjugal com a música. Essa reconciliação entre a música e a poesia de intervenção cívica integra-se então numa voga internacional de balada democrática e, entre nós, está em estreita relação com os movimentos estudantis que marcaram o início e o final desse decénio de 60. É certo que a tradição de poetar directamente para o violão vinha já de João de Deus e até do árcade de origem brasiIeira Caldas Barbosa, que se auto-alcunhou de Calda de Açucár. É certo que Augusto Gil e António Nobre escreveram quadras vocacionadas para o canto; e, quer o fado lisboeta, quer o fado coimbrão estão ligados a uma vária autoria poética a que conferem, por vezes, uma espécie de consagração pelo anonimato. Mas a poesia de resistência dos anos 60 deriva mais directamente daquela que, pela mão por exemplo de Carlos de Oliveira e Gomes Ferreira, assinalou o primeiro alento de luta política democrática do final da II Guerra Mundial. Mais tarde, após o 25 de Abril, surgirão realizações de uma poesia não apenas unida à música vocal e instrumental, mas ainda ao teatro, ao espectáculo em geral, e, em suma, àquilo que poderíamos chamar a arte total em acção.
Permita-se-me lembrar que a palavra de étimo grego drama designava, na origem, precisamente isto, poesia em acção, e que a palavra de étimo latino actor equivale originariamente a agente, pois as peças de teatro eram, em latim, concebidas de início como res gerendae, o que também se pode traduzir por poesia em acção. Adriano Correia de Oliveira é um poeta em acção, um poeta que tende para o homem responsável e total. A sua canção tem, sem duvida, o seu ponto de partida mais reconhecível no fado estudantil coimbrão, lírico, predominantemente elegíaco, com uma linha melódica apoiada na harmonização à guitarra e/ou viola, e um páthos tipicamente romântico nos portamentos que prolongam ad libitum as sílabas tónicas das palavras de efeito. Mas os dois grandes temas da juventude académica de então eram as guerras injustas e dementadas contra os povos colonizados e aquele conjunto de aspirações que se exprime pela bela palavra liberdade. O soldado que vai à guerra e volta num caixão de pinho é a projecção de um destino provável para esses jovens que, em termos cantados pelo nosso trovador, fazem da capa negra a bandeira da liberdade. Para alguns, essa liberdade cingia-se às tradições liberais e à oposição a uma guerra que, no nosso tempo, parecia já, evidentemente injusta, por uma razão que os antigos liberais, paradoxalmente, ainda não eram capazes de ver. Mas Adriano Correia de Oliveira esteve desde cedo e até à morte com aqueles para quem a liberdade se concretiza em metas como a abolição da exploração pela mais-valia, como a libertação da terra latifundiária, como a realização programática e até constitucional das melhores virtualidades humanas, individuais e colectivas, e como a autêntica autodeterminação nacional, na economia e também na cultura.
E é para cantar todas estas liberdades, formais e reais, que Adriano mobiliza símbolos que vêm de toda a tradição poética portuguesa: são as barcas que já para a guerra levavam, à amiga, o amigo das cantigas trovadorescas de Martim Codax; são as águas, que constituem o arquétipo das almas apaixonadamente livres da Menína e Moça de Bernardim; e é o vento, símbolo romântico, e, entre nós, herculaniano, da paixão e da revolta. E nos poemas cantados por Adriano são ainda bem legíveis as tradições trágico-marítimas de cinco séculos, são-no traços satíricos populares da Restauração antifilipina, contra a integração de Portugal na grande Europa reaccionária de então dos Habsburgos, são-no legíveis motes dos liberais cercados no Porto em 1832, da insurreição patuleia e da propaganda republicana. E, para além destas vozes históricas, há timbres vocais específicos que assinalam regiões várias da nossa sensibilidade popular». In Óscar Lopes, Homenagem a Adriano Correia de Oliveira, Uma Arte de Música e Outros Ensaios, Oficina Musical, Porto, 1986.

Cortesia de OMusical/JDACT

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Adriano Correia de Oliveira: Uma das vozes mais límpidas da nossa terra. Um «espelho» para a juventude

Cortesia de pedroturner
(1942-1982)
Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira foi um músico português, intérprete do Fado de Coimbra e elemento da geração de cantores da resistência ao Estado Novo, conhecida como música de intervenção. Foi militante do PCP a partir da década de 1960, envolvendo-se nas greves académicas de 1962. Concorreu à Direcção da Associação Académica de Coimbra  numa lista apoiada pelo MUD.



Em 1963 editou o primeiro disco, «Fados de Coimbra», acompanhado por António Portugal e Rui Pato. Este disco continha o poema «Trova do vento que passa» de Manuel Alegre. Uma balada que o acompanhou ao longo da vida. Adriano foi um «modelo» onde nós nos revíamos, inclusivé com a minha barba «passa-piolho». Foi um «espelho» para a massa estudantil da minha época. 
Cortesia de José Santos Silva
Trocou a cidade do «bazófias», Coimbra,  pela cidade de Lisboa, onde trabalhou como produtor da Editora Orfeu. Em 1969, editou «O Canto e as Armas» com poemas de Manuel Alegre. Nesse mesmo ano ganhou o Prémio Pozal Domingues.
Em 1971 é editado o disco «Gente d'Aqui e de Agora», que marca o primeiro arranjo do maestro José Calvário. José Niza foi o principal compositor neste disco.
Em 1975 lançou «Que Nunca Mais», com direcção musical de Fausto e textos de Manuel da Fonseca. Este álbum levou a revista inglesa Music Week a elegê-lo como Artista do Ano.
Foi co-fundador da Cooperativa Cantabril. O seu último álbum, «Cantigas Portuguesas» foi editado em 1980.
Morre aos 40 anos de idade na sua terra natal de Avintes.

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