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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Bonuns Rex ou Rex Inutilis. As Periferias e o Centro. Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248). José Varandas. «O primeiro documento onde dona Urraca figura como mulher de Afonso II é de Fevereiro de 1209. Como o último instrumento régio, sem aparecer referência à rainha é de Novembro de 1228…»

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Sancho II de Portugal. Alexandre Herculano (1847)
«(…) Com a morte de Afonso II, Herculano introduz uma questão no seio das preocupações da historiografia portuguesa: a menoridade de Sancho II. Este tema já tinha sido apontado por António Brandão, embora com incorrecções no que diz respeito a datas. Herculano retoma-o, de forma crítica, construindo sobre a idade insuficiente do rei a ideia de que aí estava o início de alguns dos problemas que diminuíram a governação de Sancho, em especial aqueles que foram condicionados pela personalidade, vista como inconstante, do monarca. Com efeito, é com Alexandre Herculano, que esta questão ganha substância e assume personalidade própria na historiografia portuguesa. Torna-se numa questão fundamental e incontornável na abordagem ao estudo deste reinado pela historiografia portuguesa posterior a este autor. Quer seguindo-lhe linearmente as interpretações, quer intervindo criticamente sobre as suas afirmações menos consistentes, ninguém mais se eximiu, ao falar deste reinado, a colocar a questão da menoridade de Sancho.
A maioria dos autores que precederam Alexandre Herculano mostram-se incertos quanto à idade com que Sancho II herda a coroa, embora na generalidade atribuam ao novo monarca a idade de vinte e três anos. Herculano reconsidera a data precisa do nascimento do príncipe, afirmando que nunca poderia ter antecedido os meses finais do ano de 1209 e que certamente as datas dos documentos teriam sido mal lidas, pois considera erradas as leituras de fr. António Brandão, em especial a contida no instrumento de doação de dona Estevaínha Soares ao mosteiro de Tarouca, onde teria sido lida a data de 1241, em vez da era de 1251 (1213), lida por Viterbo. Alexandre Herculano considera verosímil este casamento para o final de 1208 ou princípio de 1209, indicando que o nome da rainha dona Urraca passa a figurar ao lado do marido e do sogro, pelo menos a partir de Fevereiro de 1209. Recorda, na sua nota XIV, uma passagem de Espada Sagrada, onde se refere que uma das causas directas que provocaram o conflito entre Sancho I e o bispo do Porto, Martinho Rodrigues, teria sido a maneira como o prelado portuense teria tratado os noivos ao entrarem naquela cidade. A utilização crítica de diversos documentos permite precisar melhor a idade do rei. Considera determinante o facto de na famosa composição com as tias a dizer que o príncipe ainda não tinha atingido os catorze anos de idade; ou as expressões papais contidas na bula Grandi non immerito que se referem ao infante como tendo herdado a coroa paterna na idade da puerícia (período da vida compreendido entre a infância e a adolescência).
Posteriormente, a publicação sistemática da documentação de Sancho I vem balizar com precisão a data daquele casamento, confirmando a opinião de Herculano. O primeiro documento onde dona Urraca figura como mulher de Afonso II é de Fevereiro de 1209. Como o último instrumento régio, sem aparecer referência à rainha é de Novembro de 1228, o casamento terá ocorrido entre aquelas duas datas. A menoridade de Sancho serve de pretexto a Alexandre Herculano para acrescentar uma nova dimensão às tensões existentes entre os partidários do modelo centralizador e os seus opositores. A clarividência de Afonso II ao prever o seu desaparecimento precoce, já que era provável que tivesse consciência de que a morte se aproximava, também admitia que todo o seu labor em prol do fortalecimento do poder régio poderia ser posto em causa pela transmissão do poder para as mãos de uma criança. Os testamentos do rei definem claramente que o príncipe herdeiro, caso seja menor, deve ser aconselhado pelos seus validos, homens de confiança e a regência confiada a dona Urraca. No último testamento, posterior à morte da rainha, determina que essa regência passe aos ricos-homens que exerciam os mais altos cargos do estado que passarão a reger
os destinos do reino em nome do príncipe». In José Varandas, Bonuns Rex ou Rex Inutilis, As Periferias e o Centro, Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248), U. de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, Tese de Doutoramento em História Medieval, 2003.

Cortesia da FLUP/JDACT

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Bonuns Rex ou Rex Inutilis. As Periferias e o Centro. Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248). José Varandas. «… coexistem dois historiadores: o da parte social da história de Portugal, da história dos bens da Coroa [...] e o da parte narrativa, dos acontecimentos da História de Portugal...»

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Sancho II de Portugal. Fr. António Brandão (1632)
«(…) O resto é a guerra. Sancho II tenta por todos os meios impedir que o seu irmão ocupe o governo do reino. Afonso, desembarca em Lisboa em 1245, nomeado curador do reino e pouco tempo depois, a pedido do rei de Portugal, uma hoste de cavaleiros castelhanos, às ordens do futuro Afonso X, atravessa as fronteiras do Côa e juntam-se às forças de Sancho. Enquanto o conde de Bolonha andava em Portugal, vencendo na guerra as dificuldades que ocorriam e tratando de dar satisfação na paz às esperanças que dele se tinham, el-rei Sancho, em Toledo, livre já dos encargos do reino e bem desenganado do pouco caso que se pode fazer das cousas da vida, passava o tempo com quietação e repouso… O rei preparava-se para morrer naquela cidade e à sua morte, António Brandão, escreve sobre o último enigma daquele reinado, os dois testamentos e sobre o que eles contêm, e mais uma vez, o seu espírito arguto detecta inconsistências e incoerências, que hão-de acompanhar a historiografia portuguesa. Às vezes cronista, armado com a pena do patriotismo, faz descrições perturbantes das qualidades de um rei que foi deposto; outras vezes, sereno, frio, isento, abandona com desprezo as antigas crónicas, monumentos incompletos e mergulha nos pergaminhos dos mosteiros, das igrejas, das chancelarias régias e, neles descobre, outras verdades sobre aquele rei, sobre Sancho II que morreu em Toledo no princípio do ano de 1248. Do que leu e depois escreveu, não mais a história portuguesa se esqueceu, e da vida, feitos e desventuras daquele rei, nenhuma história se pode fazer sem parar nestas páginas que, na primeira metade do século XVII um monge de Cister, mandou imprimir.

Sancho II de Portugal. Alexandre Herculano (1847)
Ainda hoje a História de Portugal de Alexandre Herculano pode ser considerada como o grande monumento historiográfico português do século XIX. Profundamente influenciado por uma exigente e moderna historiografia europeia estava convicto de que a história só podia ser feita a partir de documentos autênticos. A necessidade de uma grande exigência crítica ao nível das fontes, requisito fundamental para uma verdadeira reconstrução dos acontecimentos, levava-o a demarcar-se dos modelos historiográficos que o precederam e que não contemplavam a necessidade da crítica histórica, ou daqueles que se limitavam a produzir histórias genealógicas, biográficas ou narrativas de feitos heróicos onde os objectivos eram bem claros e pouco tinham a ver com a verdade histórica. Nesta obra valoriza os aspectos político-militares dos reinados de Sancho I, Afonso II e Sancho II onde o modelo de análise político-institucional predomina e é muitas vezes acrescentado com outras perspectivas. Os fenómenos económicos, culturais e mentais, transparecem em muitos dos seus parágrafos e a observação sistemática dos acontecimentos passados durante a governação de Sancho II é prenhe desta conexão entre o modelo institucional e os outros contextos. Vale a pena recordar a observação de Vitorino Magalhães Godinho de que em Herculano: coexistem dois historiadores: o da parte social da história de Portugal, da história dos bens da Coroa [...] e o da parte narrativa, dos acontecimentos da História de Portugal... Lutava Herculano pela neutralidade do historiador em relação à época passada que queria estudar, mas ele próprio não ficou imune aos condicionalismos e tentações do seu tempo. Era inevitável que a história passasse a ser cada vez mais entendida (e produzida) como uma ciência aplicável, que explicava o presente de forma pedagógica a partir da reconstituição do passado.
Historiador liberal, acreditava na observação objectiva do passado como modelo explicativo do presente e antecipador do futuro. O seu projecto historiográfico assentava na crítica das fontes disponíveis, aproveitando os esforços que nesse sentido os monges beneditinos do século XVIII tinham desenvolvido, e desvalorizava os modelos tradicionais que punham em evidência as vidas singulares dos monarcas e das suas famílias, em detrimento da reconstituição das mudanças sociais e políticas, como por exemplo, a evolução dos sistemas jurídicos, económicos e culturais. Lançava, desta forma o anátema contra a história dos reis e das genealogias. O seu projecto almejava a reconstituição da sociedade e não a história dos indivíduos, embora lhe fosse difícil negar a importância do indivíduo na história. É o que se passa com os dois filhos de Afonso II, que entre 1245 e 1248 disputam o trono de Portugal. Carregada e melancólica rompia a aurora do reinado de Sancho II. A chegada ao poder do novo rei acontece num clima de grande perturbação em torno da coroa e do sistema político vigente». In José Varandas, Bonuns Rex ou Rex Inutilis, As Periferias e o Centro, Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248), U. de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, Tese de Doutoramento em História Medieval, 2003.

Cortesia da FLUP/JDACT

sábado, 30 de setembro de 2017

Bonuns Rex ou Rex Inutilis. As Periferias e o Centro. Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248). José Varandas. «Mal se pode desculpar el-rei Sancho, nem nós o queremos livrar, nem ainda podemos, pois anda incerta no corpo do direito canónico a bula de sua deposição»

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Sancho II de Portugal. Fr. António Brandão (1632)
«(…) Outro aspecto, a que recorrentemente, a historiografia portuguesa volta, quando aborda o reinado de Sancho II, é o que diz respeito às notícias de agravos e desmandos que o rei de Portugal, por intermédio dos seus oficiais e validos, fazia às liberdades eclesiásticas. Como muitas outras, também estas informações já encontram lugar na narrativa de António Brandão. Contudo, a sua perspectiva volta-se para o facto de os desmandos de que a Igreja se queixava serem perpetrados por elementos ligados à coroa, mas sem conhecimento ou autorização do rei. As reacções da hierarquia eclesiástica são abordadas e indicadas as várias bulas papais com que o clero admoestava o rei português, procurando com isso levá-lo a tomar uma atitude mais firme sobre os seus homens. Responde o monge de Cister com o relato de obras pias, fundações de casas religiosas e generosas dotações fundiárias a ordens militares, bispados e abadias, um pouco por todo o país, o que contrastava abundantemente com as informações suspiradas pelas crónicas do passado, que davam conta apenas da incapacidade e insensibilidade do rei para com as coisas do clero. Por exemplo, podemos citar: mando se dê para as obras dos frades pregadores de Santarém trezentos maravedis e se reparta com eles da minha madeira de Lisboa e de outros lugares meus, a que lhes for necessária. Aliás, Franciscanos e Dominicanos foram largamente apoiados e financiados por Sancho, e Brandão não se cansa de dar exemplos dessa intensa ligação entre o soberano e aquelas ordens. Vastas páginas tratam da questão da deposição do rei em 1245, e como a ela recorreremos incessantemente, aqui deixamos o que nos parecem ser as principais opiniões de fr. António Brandão: não há dúvida que foram mui urgentes as causas que obrigaram ao Sumo Pontífice privar a el-rei Sancho do governo do reino, e a mandar em seu lugar o infante Afonso. Mal se pode desculpar el-rei Sancho, nem nós o queremos livrar, nem ainda podemos, pois anda incerta no corpo do direito canónico a bula de sua deposição em que vêem apontadas as cousas que moveram ao papa a fazer um extremo tão grande, como foi excluir a um rei do governo e administração de seu reino.
Resume, desta forma, o facto incontestável de que o rei foi deposto. Cita as diversas queixas formuladas junto da Santa Sé e a inevitabilidade política dessa mesma deposição. Curiosamente cita dois governantes de grande poder na Europa daquele tempo, e que estarão para sempre ligados, de maneiras diferentes, à deposição do seu congénere português. São eles, Frederico II, o imperador deposto no Concílio de Lyon, uma semana antes de Sancho e Luís IX, rei de França, patrono de Afonso de Bolonha e protector do papado. Voltaremos a falar deles. Lá estão, em Lyon, em plena actividade conciliar, os prelados portugueses mais envolvidos do que nunca na conjura para deporem o seu rei. Nomeia-os a todos: João, o arcebispo de Braga, Pedro, o bispo do Porto, Tibúrcio, bispo de Coimbra e junta-lhes laicos. Estes são nobres e vêem de Portugal, supostamente como embaixadores nomeados pelo rei, atitude que Brandão considera cínica. São eles Rui Gomes de Briteiros, infanção e mais tarde rico-homem do rei Afonso III e Gomes Viegas [Portocarreiro]. Importante é para Brandão o entendimento que o Bolonhês estabelece com aqueles prelados portugueses no coração do reino francês. Em Paris, e sob os auspícios do rei de França, Afonso de Bolonha, jura perante diversas testemunhas e pelos Evangelhos, o seguinte, que Brandão não resistiu em transcrever: eu, Afonso, conde de Bolonha, filho de Afonso de ilustre memória, rei de Portugal, prometo e juro sobre estes Santos Evangelhos de Deus, que por qualquer título que alcançar o reino de Portugal, guardarei e farei guardar a todas as comunidades, conselhos, cavaleiros e aos povos, aos religiosos e clero do dito reino todos os bons costumes e foros escritos e não escritos que tiveram em tempo de meu avô e de meu bisavô; e farei que se tirem todos os maus costumes e abusos introduzidos por qualquer ocasião ou por qualquer pessoa, em tempo de meu pai e irmão, e particularmente, quando se cometer homicídio, que se não leve dinheiro aos vizinhos do morto, mormente quando é manifesto quem foi o matador…» In José Varandas, Bonuns Rex ou Rex Inutilis, As Periferias e o Centro, Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248), U. de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, Tese de Doutoramento em História Medieval, 2003.

Cortesia da FLUP/JDACT

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Sancho II. Da Deposição à Composição das Fontes Literárias dos séculos XIII e XIV. Herlânder Gonçalves Santos. «… subjacentes à elaboração do seu discurso, que parece ter vindo arrebatar, a Sancho II, a legitimação governativa que outrora a bula “Manifestis Probatum” dera a Afonso Henriques»

Cortesia de wikipedia

A Bula. Grandi non immerito (fr. António Brandão)
«Uma semana após o encerramento do décimo terceiro Concílio Ecuménico, célebre por nele se ter pronunciado a deposição do imperador Frederico II da Alemanha e desobrigado seus vassalos ao juramento de fidelidade, Inocêncio IV expedia, a 24 de Julho de 1245, a bula Grandi non immerito, determinando a entrega da administração do reino português ao irmão de Sancho II, o conde de Bolonha. Da matéria do texto inferimos, em linhas gerais, que esta bula procurou justificar a deposição do monarca pelo caos generalizado em que caíra o reino, circunstanciando-se agravos a igrejas, mosteiros e clérigos, denunciando-se desleixo governativo e enfatizando-se resistências de el-rei Sancho II em acolher as recomendações que a Cúria Romana lhe fizera até então. Deste modo, perante as infrutíferas tentativas de chamar o rei à razão no sentido de se manter a ordem e a justiça, e perante a sua reiterada negligência, o Sumo Pontífice ordena que se receba e acolha Afonso, conde de Bolonha, como governador e curador a fim de se organizar o reino e velar pelo bem do rei. Pela importância que veio assumir este documento no devir dos tempos na historiografia e literatura portuguesas, afigura-se-nos pertinente a sua leitura analítica no sentido de contribuir para o entendimento de alguns pressupostos retóricos e conceptuais, subjacentes à elaboração do seu discurso, que parece ter vindo arrebatar, a Sancho II, a legitimação governativa que outrora a bula Manifestis Probatum dera a Afonso Henriques. A peça retórica começa por dirigir-se nos preceitos habituais aos seus destinatários, neste caso, aos barões e comunidades, concelhos de cidades e castelos, cavaleiros e povo do reino de Portugal, exultando todos os reinos da fé cristã onde, para além do culto e o serviço de Deus, reina a paz, a prosperidade e a tranquilidade por aí se observar a ordem e a justiça: com razão exultamos no Senhor com grande alegria, visto que os reinos da fé cristã estão em situação vantajosa, e a Igreja e outras coisas destinadas ao culto e serviço de Deus, as pessoas eclesiásticas e os outros fiéis, que nesses reinos habitam, se alegram com a tranquilidade da paz; nesses reinos a fé católica de cada vez toma maior vigor, observa-se aí a justiça e a todos se impele ali a audácia de se tornarem culpados.
Em contrapartida, revela ser a mágoa grande quando esses reinos se dividem em discórdias, permitindo-se, pelo afrouxamento da devoção e desprezo da justiça, actos ilícitos e reprováveis aos seus concidadãos: não obstante sentimo-nos imensamente magoados quando esses reinos (...) se dividam em discórdias e, afrouxando o ardor da devoção, esfriam no culto da fé, desprezam a justiça e permitem aos seus habitantes praticar coisas ilícitas. Dos segmentos textuais retirados ao preâmbulo, sobressai a importância da justiça e a relação de causa e efeito entre esta e a ordem. Na sequência desse pressuposto, o nexo inverso é naturalmente apresentado como válido, ou seja, o desprezo de justiça, ou a falta dela, tem como efeito a desordem. É neste enfoque de sentidos de causalidade que se prepara e justifica a sentença seguinte: os reinos em situação próspera devem continuar os modos da sua governação; os que se afundam na desordem devem ser corrigidos. Por isso com grande cuidado e maior empenho achamos dever desejar que os reinos cristãos, que estão em situação próspera, continuem a ser nesse estado governados e aqueles que se vêem a afundar-se perigosamente sejam reformados com louvável renovação. Estava lançada a estratégia retórica em torno do primeiro silogismo argumentativo: os reinos com justiça prosperam e vivem em paz; os que a desprezam, vivem em desordem; os que prosperam, devem continuar; logo, os que vivem em desordem, devem ser reformados. Percebe-se para onde o discurso nos quer direccionar.
Nesse sentido, o texto desenvolve-se focalizando agora o caso particular de Sancho II e o seu reino. Enumeram-se queixas, ultrajes, deliberações régias tidas como ofensivas e vexatórias a igrejas e mosteiros, assim como o rol de advertências, excomunhões e sentenças de interdito, epístolas e provisões eclesiásticas que embora pontualmente cumpridas não repararam as ofensas de acordo com as pretensões da Igreja, por ser teimoso o rei e tardo em fazer justiça: na verdade tendo o nosso caríssimo filho em Cristo, ... tomado conta do governo ... oprimiu desmedidamente as igrejas e mosteiros existentes no reino com variados impostos e vexames tanto por si próprio como por intermédio da sua gente e permitiu de bom grado que por outros fossem vexados conforme à vontade destes. (...) E quanto a resgatar a insolvência dos seus crimes, este rei mostra-se tão indiferente que, no seu reino, os bens, tanto eclesiásticos como de leigos, por fraqueza da justiça popular, são roubados à vista de toda a gente por ladrões, espoliadores, usurpadores, incendiários, profanadores públicos e abomináveis homicidas de padres, como superiores de conventos e outros religiosos, clérigos e seculares e até leigos». In Herlânder Gonçalves Santos, D. Sanco II, Da Deposição à Composição das Fontes Literárias dos séculos XIII e XIV, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Dissertação de mestrado em Estudos Literários, Culturais e Interartes, orientação de José Carlos Miranda, Porto, 2009.

Cortesia de FLUPorto/JDACT

O Infante Fernando de Portugal. Senhor de Serpa (1218-1246). Armando S. Pereira. «Um atrito entre o infante Fernando e mestre Vicente, bispo da Guarda, levou-o a provocar uma série de tumultos na diocese egitaniense em 1236 ou 1237»

Cortesia de wikipedia

História da vida e da morte de um Cavaleiro Andante
«(…) O seu comportamento aparece, neste contexto, como o reflexo das profundas mutações sociais e políticas da primeira metade do século XIII, que atingem o seu ponto crítico no reinado de Sancho II, levando, inclusivé, ao seu afastamento do governo, porque leyxou de fazer justiça, e a uma guerra civil que divide os grandes do país (uma interpretação da crise do reinado de Sancho II, que ultrapassa o domínio redutor do factor político para assentar, sobretudo, em aspectos de ordem económica e social). Sobre a intervenção do infante neste processo, os informes que nos chegaram provêm exclusivamente do olhar da Igreja, particularmente lesada pelas violências que contra ela foram exercidas: são as numerosas bulas que Ugolino de Óstia, o papa Gregório IX, emitiu, em curto espaço de tempo, sobre o assunto, umas dirigidas aos prelados portugueses e peninsulares, outras ao próprio infante, através das quais podemos tentar delinear os seus projectos e ambições, os seus apoios e as consequências da sua actuação. Apesar de ser um único ponto de vista apenas, o clerical.
Um atrito entre o infante Fernando e mestre Vicente, bispo da Guarda, levou-o a provocar uma série de tumultos na diocese egitaniense em 1236 ou 1237. É deste último ano, de 29 de Abril, a bula Laerimabilem siquidem Venerabilis fralris, que Gregório IX envia ao arcebispo de Toledo e ao bispo de Leão, incumbindo-os de excomungarem o infante e os seus cúmplices e de lançarem o interdito eclesiástico em todos os lugares onde eles estacionarem, devido às atrocidades que, com audacia delinquendi, cometeram contra as igrejas e prelados de Portugal, dissipando os bens que o bispo e família possuíam em Lisboa e na Guarda e matando vários clérigos em Santarém, entre os quais se contavam alguns que eram scriptores Régis. Os atentados perpetrados pelo infante Fernando contra a igreja e os seus membros foram bem mais graves: além das sanguinolentas perseguições movidas contra a parentela de João Rolis, deão da Sé de Lisboa, teria ainda roubado aos seus familiares, entre outros bens, grandes porções de trigo, cevada e vinho e executado destruições várias, actos em que se teriam envolvido também, grande sacrilégio, alguns muçulmanos a soldo do infante. Não se fica por aqui. Acometido de audacia et potentiam e com manus uiolentas, é responsável por muitos outros crimes contra a clerezia de diversas igrejas e mosteiros. Tudo isto consta da bula Ad instantiam, que em 20 de Dezembro de 1239 Gregório IX envia ao bispo de Osma a dar-lhe conhecimento das pesadas penitências impostas ao infante por tão graves violências cometidas. Mas já uma outra bula do ano anterior, a Tjrannidem quam, dirigida em 6 de Maio ao arcebispo de Toledo a acusar de tirania o rei de Portugal, revelava as depradações que o seu irmão Fernando exerceu contra João Rolis, roubando bens e destruindo igrejas, nas quais se teria servido também dos valiosos préstimos dos muçulmanos para destruir e profanar o interior de uma igreja. Portanto, as lamentáveis façanhas aqui arroladas devem ter sido cometidas no decurso de 1237 e princípios de 1238, e estão directamente relacionadas com a problemática questão das eleições para o bispado de Lisboa. Uma Sé vacante, uni cabido comprometido e dividido, um rei indeciso. E uma situação que parece insolúvel e promete arrastar-se. Assim, a instâncias do papa, é nomeado bispo o deão da Sé, João Rolis, antigo capelão pontifício, ao que se opõem violentamente alguns cónegos, o chanceler e o rei, em conflito com ele desde 1223, no intuito de o substituírem por Estevão Gomes. O que é curioso é que ainda há bem pouco tempo também este tinha sido alvo da ira régia. Acontecimentos que. no seu conjunto, levam o rei a ser excomungado e o Reino interditado, durante alguns meses do ano de 1238.
Foi nesta complexa trama de relações que Fernando se envolveu activamente. Tentemos perceber porquê. Agressividade gratuita, aproveitando a fraqueza de um poder central incapaz de sustentar a ordem pública, simples actos de banditismo com o único fito de saquear bens ou perseguição política relacionada com o problema da vacância da Sé lisboeta, tendo em conta a localização precisa dos conflitos? Talvez a situação de caos e permissividade em que se encontrava o Reino possibilitasse a confluência de todas estas motivações que, actuando em conjunto, deram origem a um quadro dramático, composto de violências de toda a espécie. E o infante não era o único. Parece que também em 1237 o seu tio bastardo, Rodrigo Sanches, teria cometido violências semelhantes na diocese do Porto. Disso se queixou ao rei o respectivo bispo, Pedro Salvadores». In Armando Sousa Pereira, O Infante Fernando de Portugal, Senhor de Serpa (1218-1246), História da vida e da morte de um Cavaleiro Andante, Estudo apresentado em Setembro de 1997, Seminário “A nobreza medieval portuguesa: parentesco, identidade e poder”, dirigido por Bernardo Vasconcelos Sousa, revista Lusitânia Sacha, 2ª série, 10, 1998.

Cortesia de LSacha/JDACT

Bonuns Rex ou Rex Inutilis. As Periferias e o Centro. Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248). José Varandas. «… celebrada em Castela, no ano de 1257, e na qual dona Mécia se nomeia rainha, porque uma cousa é ter-se ela por rainha, e nomear-se por tal (…) outra é sê-lo de feito»

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Sancho II de Portugal. Fr. António Brandão (1632)
«(…) O cognome do rei parece ser outra preocupação de fr. António Brandão, que defendia a utilização daquela peça de vestuário por parte do rei como uma espécie de pagamento de promessa por causa de enfermidades que teria tido enquanto criança. Corroborava esta afirmação com a idade adulta do rei, os 20 anos, altura em que o monarca poderia vestir o hábito dos monges de S. Francisco, já que na sua infância esta ordem menorita ainda não se tinha implantado na terra portuguesa. A concórdia com Estêvão Soares Silva e com as suas três tias são também futuros clássicos tratados pela pena do cisterciense. As causas e as disposições de ambas as concordatas, bem como a sua existência, não são postas em causa por Brandão, embora desconfie que os textos chegados até ele, e que perduraram, muito dificilmente corresponderiam, cláusula por cláusula, ao espírito dos dois textos assinados naquele ano de 1223 (também aqui Herculano levanta algumas questões e reforça a desconfiança de fr. António Brandão ao referir que a importância daquelas duas composições não deveria ter passado despercebida à hierarquia eclesiástica e que, pelo menos, deveriam ter sido referidas em bulas de confirmação).
Outra dimensão aberta pela obra de António Brandão sobre as incertezas em torno de Sancho II é a da participação do monarca nas empresas militares contra o Islão. Alicerçado por bulas de cruzada e de incentivo despachadas pelos papas para terra portuguesa e destinadas a dinamizar no rei o espírito da investida contra as tropas de Mafoma, além de citar outros autores que reafirmam essas existências, Brandão valoriza a participação do rei português que, segundo ele, estaria já em 1225 em plena campanha contra aquelas forças inimigas. A crítica a Brandão não aceita alguma documentação por aquele citada, como verdadeira. Muitos consideram que documentos referidos como existentes na Torre do Tombo, mas nunca lidos pelo cisterciense, seriam de reinados anteriores e teriam sido confundidos com apelos à guerra e com descrições sobre a participação de outros reis portugueses na guerra contra os Sarracenos, como Afonso Henriques ou Sancho I.
E, sob o ponto de vista militar, é António Brandão que, pela primeira vez na historiografia portuguesa, introduz a problemática da conquista de Elvas, directamente pelo rei de Portugal e da conquista de outras praças-fortes bem no interior do limes islâmico do Gharb. Achava Brandão que a conquista se reportava ao ano de 1226, embora mais tarde as fontes viessem a confirmar antes a data de 1230, quase na mesma altura em que a fortaleza de Mérida cai nas mãos dos cristãos. Foi, Alexandre Herculano, quem mais tarde deu algum sentido à disparidade de informação entre as crónicas portuguesas e as estrangeiras acerca das datas em que Elvas caiu nas mãos dos guerreiros portugueses. A cidade teria sido tomada em 1226 numa primeira investida mas o contingente que a conquistou não a conseguiu manter, ou então, optou por destruir os seus muros e infra-estruturas mais importantes e depois abandonou-a. A ameaça cristã de novo assalto fez com que os seus habitantes e respectiva guarnição fossem forçados a abandoná-la definitivamente. É desta forma que as forças de Sancho II ocupam esta praça em 1230.
Inevitável, incontornável, e sem qualquer espécie de dúvida, encarado como um problema importante está o polémico casamento de Sancho II com dona Mécia Lopes de Haro. Citando A. de Magalhães Basto (A. H. apresenta argumentos que, pelo menos, coloquem a dúvida sobre a hipótese de o casamento ter existido; acaba mesmo por contribuir para invalidar a argumentação de Brandão, referindo dois documentos provenientes de arquivos espanhóis e que provavam a existência do casamento servia-se das descrições do Nobiliário para provar que o rapto da rainha tinha sido realizado) no comentário crítico que faz àquele episódio, os principais argumentos de Brandão resumir-se-iam da seguinte forma: 1. Conhecendo ele, Brandão, escrituras de doação de quasi todos os anos do reinado de Sancho, em nenhuma aparece nomeada dona Mécia, ou qualquer outra, como mulher do rei; mas a este respeito adverte, poderá haver alguma (escritura) que eu não visse em que se lhe dê este título, mas é dificultoso, porque vi muitas. 2. As bulas que há para el-rei não tocam cousa alguma em seu casamento. 3. Não fala do casamento o arcebispo Rodrigo Ximenes, tendo, aliás, acabado a sua História em 1243. 4. Nem tampouco de tal casamento faz cargo a Sancho II o papa Inocêncio IV na bula de deposição, de 24 de Julho de 1245, na qual, no entanto, este Pontifice aponta todos os defeitos e acções indecentes do rei. 5. Não prova o casamento a escritura publicada por Gudiel, celebrada em Castela, no ano de 1257, e na qual dona Mécia se nomeia rainha, porque uma cousa é ter-se ela por rainha, e nomear-se por tal (…) outra é sê-lo de feito.
Neste contexto, de que não teria havido casamento, Brandão coloca a hipótese de dona Mécia ter sido chamada a Portugal com esse engodo, ou eventual vontade do rei. Não sendo esposa de Sancho II a tradição do seu rapto e prisão no castelo de Ourém não colocava grandes problemas a fr. António Brandão. Não estando casada o ser arrancada à força ao rei de Portugal não parecia tão dramático, como se o fosse. Um dos problemas que o conde de Bolonha teria de enfrentar ao desembarcar em Portugal, além da hoste de guerra do seu irmão, seria o da aceitação da sua autoridade no reino. Fr. António Brandão acompanha algumas das narrativas e delas retira a ideia de que um conjunto apreciável de terras e lugares do reino se opôs à entrada de Afonso, como curador da terra portuguesa. Desses exemplos de lealdade põe em destaque a resistência de vilas como Óbidos (uma carta retirada da chancelaria de Afonso III, data de 1252 e integrada no maço dos forais da Torre do Tombo), Celorico e Coimbra, respeitando desta forma o quadro da tradição cronística que refere para esses locais, em especial para os dois últimos, momentos épicos de resistência ao vitorioso exército de Afonso, conde de Bolonha. Não deixa, no entanto, de referir, por comparação aqueles que muito cedo traíram o rei legítimo, como as acções vis dos familiares de Soeiro Bezerra ou a traição do alcaide de Leiria, e cuja descrição encontrou no Nobiliário do conde Pedro de Barcelos (indica que Coimbra nunca terá sido cercada, já que as forças do conde de Bolonha não se teriam aproximado daquela cidade, que à época, deveria estar bem guarnecida de defensores)». In José Varandas, Bonuns Rex ou Rex Inutilis, As Periferias e o Centro, Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248), U. de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, Tese de Doutoramento em História Medieval, 2003.

Cortesia da FLUP/JDACT

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Infante Fernando de Portugal. Senhor de Serpa (1218-1246). Armando S. Pereira. «É assim que, por sua própria iniciativa ou por alguém que o impele a isso, “Fernando” começa a intervir, de uma forma especialmente brutal, na então conflituosa vida política do Reino»

Cortesia de wikipedia

História da vida e da morte de um Cavaleiro Andante
«(…) Esta é uma das muitas bulas relativas à questão do infante de Serpa, todas publicadas por Domingos Sousa Costa, Mestre Silvestre e Mestre Vicente, juristas da contenda entre Afonso II e suas irmãs. Braga. 1963. Na verdade, o testamento paterno estabelecia que os infantes só recebessem a sua respectiva parte quando habeant roboram. Fernando atinge os 14 anos em 1232, ano da conquista de Serpa, exige o que lhe é devido e é então que o seu irmão estabelece tal acordo: concede-lhe o senhorio daquela terra a par de uma certa quantia em dinheiro, em troca da renúncia àqueles bens.
Homem muito activo mas com fraca capacidade de gestão, pouca atenção parece ter dado à sua terra. Estabelecida aqui a sua residência, é provável que nos primeiros anos daqui tenha partido com a sua mesnada em correrias contra os muçulmanos, podendo até ter participado nas tomadas de Beja, Aljustrel e Alvito, entre 1232-1234. É também verdade que mostra alguma preocupação em se enquadrar nas redes de poder que se iam tecendo na região: em 1235 envia uma carta ao seu homónimo Fernando, bispo de Évora, submetendo à sua jurisdição o castelhum meum de Serpa, e declarando o mesmo bispo patri meo spirituali fidelis filius, entregando-se à sua vassalidade. Mas a estabilidade que as tarefas de gestão patrimonial exigiam, sobretudo numa região tão instável e pobre como era a de fronteira, era avessa a um protagonismo político que desde cedo começa a afirmar. Por volta dos anos de 1236-1237 já se encontra envolvido em graves conflitos que ocorreram em algumas regiões do país, depois as viagens a Roma e Castela, que são os percursos de um atribulado itinerário que termina em deambulações e guerrilhas lá para as terras altas da Beira. Talvez, e em parte como consequência de tudo isto, numa carta de 16 de Outubro de 1273 Afonso III ordenava ao alcaide, juízes e tabelião de Évora que inquirissem sobre as presúrias que tinham sido realizadas desque Serpa fora filhada a Mouros aca ordenando que, a partir daquela data, passem a ser os sesmeiros indigitados pelo concelho a organizar e controlar essas acções populares conducentes à repartição e amanho das terras. Parece, portanto, que o infante, com outros objectivos em mente, pouco cuidado pôs no ordenamento jurídico e administrativo daquele espaço que era o seu, deixando-o à livre iniciativa dos presores. Perdeu, porém, a oportunidade de criar um poderoso senhorio, enquanto espaço politicamente definido e autónomo, tendo em conta a favorável posição geográfica em que se encontrava, um enclave duplamente fronteiriço, com Castela e com o Islão, o que lhe permitiria ter estabelecido pactos e alianças, o que lhe teria dado a possibilidade de participar directamente na Reconquista e engrandecer-se com os réditos, territoriais e móveis, que daí poderia ter usufruído. Tal como o senhorio que, mais tarde, o infante Afonso, segundo filho de Afonso III, tentou criar na zona de Portalegre, em 1271 (sobre as circunstâncias da política portuguesa e peninsular subjacentes à formação deste senhorio, cf. Bernardo Sá Nogueira, a constituição do senhorio fronteiriço de Marvão, Portalegre e Arronches em 1271. Antecedentes regionais e significado político, in A cidade. Revista cultural de Portalegre, nova série, Portalegre. 1991).
Mas as suas preocupações eram, decerto, outras, os seus olhos de homem da guerra viravam-se para outros horizontes. Horizontes políticos, não espaciais, pois na verdade a estratégica posição de fronteira em que se encontrava proporcionava-lhe muito espaço de actuação, se fosse essa a sua vontade. Ao mesmo tempo que limitava a sua ambição, pois aí estava reduzido a pequeno senhor rodeado de outros maiores, quer fossem os bispos das dioceses quer fossem mestres e comendatários das ordens militares (limitado pela fronteira natural que era o próprio Guadiana, o infante teria as suas possíveis pretensões de expansão controladas, a Norte pelos domínios da Ordem de Avis e a sudoeste pela forte presença da Ordem de Santiago. Para Oriente defrontava-se com o avanço reconquistador castelhano-leonês, e se de facto era seu desejo a participação na guerra, era aí que teria maiores e mais fecundas oportunidades de o fazer). É assim que, por sua própria iniciativa ou por alguém que o impele a isso, Fernando começa a intervir, de uma forma especialmente brutal, na então conflituosa vida política do Reino». In Armando Sousa Pereira, O Infante Fernando de Portugal, Senhor de Serpa (1218-1246), História da vida e da morte de um Cavaleiro Andante, Estudo apresentado em Setembro de 1997, Seminário “A nobreza medieval portuguesa: parentesco, identidade e poder”, dirigido por Bernardo Vasconcelos Sousa, revista Lusitânia Sacha, 2ª série, 10, 1998.

Cortesia de LSacha/JDACT

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Bonuns Rex ou Rex Inutilis. As Periferias e o Centro. Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248). José Varandas. «António Brandão não deixa de apontar a “má consciência” dos que para valorizarem, e legitimarem, a subida ao trono de Afonso III, distorceram a verdade e enganaram a razão ao humilharem com todos os defeitos o príncipe deposto»

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Sancho II de Portugal. Fr. António Brandão (1632)
«(…) É comum ao referir-se a códices existentes na Torre do Tombo reclamar da sua veracidade, apontando-os como cópias e indicando quais os erros contidos. Entre muitos exemplos que podemos dar da sua perícia e da sua prudência podemos apontar o que dizia sobre os feitos militares do famoso Paio Peres Correia, um dos maiores capitães do tempo de Sancho II. Afirmava que queria seguir o que os antigos tinham escrito, mas adverte os seus leitores que irá discordar de muitas informações que aqueles apresentam, pois os tempos são outros. Exemplo desta interessante postura crítica pode ser o que afirma sobre a veracidade do episódio de Trancoso, quando Sancho II se prepara para abandonar o país. Considera verdadeiras as reclamações de lealdade dalguns cavaleiros para com o seu senhor. Diz que não crê em tudo, nem dúvida de tudo. O escrúpulo pela verdade parece predominar neste autor. É, o último dos cronistas, e o primeiro dos historiadores portugueses. E, talvez, por este facto, seja apreciável, de todas as obras que escreveu, observar como no Livro IV recupera a memória de Sancho II, afirmando peremptoriamente de que este foi um rei injustiçado e muitas das estórias que se contavam não faziam jus aos feitos daquele monarca. Duarte Nunes Leão, Rui de Pina, Fernão Lopes, todos referiam, até à exaustão, as poucas qualidades de soberano que Sancho II apresentava. Era para eles um ser inútil, incapaz e incapaz. Prejudicial para o reino e para os povos que governava e responsável por todas as violências e crimes, grandes e pequenos, que assolavam o reino.
Todas aquelas crónicas seguiam um caminho pré-determinado: o da deposição do rei. Todos os assuntos, todos os acontecimentos, toda a lógica de construção da narrativa se dirigia para a necessidade que o país tinha de se ver livre daquele monarca, marcando-o como um soberano desprezível, que nem aos mouros sabia fazer a guerra. E, bastou um documento exarado nos gabinetes da Santa Sé, por um papa da Cristandade, para a infelicidade de Sancho ser completa e ficar marcado, definitivamente, para a história. Nenhuma crónica se atreve a elogiar, mesmo depois da sua morte, as suas virtudes, os seus feitos, as suas acções em prol da paz e do bem comum; nenhuma se esforçava por diminuir algum dos vergonhosos epítetos que de todo o lado surgiam e tombavam sobre a memória do rei. Queria-se odiosa para o país, como exemplo do que não deve ser um governante.
E Brandão? O que achava aquele monge cisterciense? A visão sob o reinado de Sancho II é bastante crítica. Crítica, para já, em relação aos que narravam vituperando o rei, mas crítica também, porque apesar de valorizar os feitos do soberano que lhe pareciam ser indiscutíveis e que estavam sustentados em documentos bastante verosímeis, discutia e criticava algumas opções de governo menos felizes por parte do monarca. No entanto, e apesar desta tentativa de distanciamento sobre as provas, característica de uma forte consciência historiográfica, António Brandão não deixa de apontar a má consciência dos que para valorizarem, e legitimarem, a subida ao trono de Afonso III, distorceram a verdade e enganaram a razão ao humilharem com todos os defeitos o príncipe deposto. Apesar de escrita no século XVII esta narrativa do reinado de Sancho II não passou despercebida à historiografia romântica do século XIX e, Alexandre Herculano recupera muitas das afirmações daquele autor seiscentista, como verídicas e bem fundamentadas. O recurso à confrontação com os documentos, embora não tão desenvolvida como no tempo de Herculano, não deixava de ser apreciada por este historiador que não desprezou muitas das informações sugeridas por Brandão.
Parece ser Brandão o primeiro a sugerir alguns dos problemas que mais tarde irão tornar-se incontornáveis, de uma forma ou de outra, para todos os que tentaram estudar com maior profundidade aquele reinado. E o primeiro, como não podia deixar de ser, é a apresentação da menoridade do rei na subida ao trono. A posição de António Brandão não é muito clara, já que ao longo do seu trabalho entra em contradição em relação à idade que o príncipe teria e que Herculano perspicazmente criticou. Se a data de casamento de Afonso II parece não apresentar controvérsia. Todos os historiadores depois de Herculano a aceitam como verdadeira, a afirmação de que o jovem rei teria já vinte anos em 1223 é muito mais difícil de aceitar e, provavelmente, um erro de leitura sobre a Era em que o documento foi produzido (Brandão, trocou a Era de 1251 pela de 1241) e que à primeira vista lhe parecia argumento suficiente para apresentar o monarca como adulto quando subiu ao trono». In José Varandas, Bonuns Rex ou Rex Inutilis, As Periferias e o Centro, Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248), U. de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, Tese de Doutoramento em História Medieval, 2003.

Cortesia da FLUP/JDACT

Bonuns Rex ou Rex Inutilis. As Periferias e o Centro. Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248). José Varandas. «… recupera a memória de Sancho II, afirmando perentoriamente de que este foi um ‘rei injustiçado’ e muitas das estórias que se contavam não faziam jus aos feitos daquele monarca»

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Sancho II de Portugal. Um conspecto historiográfico
«(…) A maior parte das obras consultadas são obras de continuação, compilações ou meros resumos de outras, que as antecederam, e que pela sua forma e objectivos das obras de formação erudita. A opção por integrar, ambos os modelos, num processo de observação cronológico, também possibilita, pensamos, a percepção dos processos que levaram à sua elaboração. Afinal, repetida até à exaustão, ou observada com os métodos críticos disponíveis no momento, a construção da imagem de Sancho II corresponde a objectivos bem determinados. Se, à partida, possa parecer relevante a opção por aquelas obras que marcaram viragens historiográficas, ou seja, neste caso concreto, aqueles trabalhos que trouxeram novidades ao estudo da história do reinado de Sancho II, também nos pareceu interessante observarmos o acumular dos processos repetitivos reproduzidos, cronologicamente, em muitas histórias com carácter eminentemente divulgativo. Estas obras que não utilizam como suporte investigações originais, antes resultam do trabalho de recompilação, de síntese de memórias anteriores, ou de reescrita, sem sentido crítico, pareceram-nos ocupar um lugar próprio no que diz respeito à forma como a memória deste rei, o que foi deposto, foi construída e depois, ensinada e divulgada, desde os inícios do século XIX até aos nossos dias. E, é por isso que ao lado de obras de perfil marcadamente erudito e pautadas pela dinâmica das fontes e da sua interminável crítica, desfilam algumas dessas obras repetitivas e constantemente reescritas com as mesmas passagens. Se, por um lado, garantimos a apresentação de um estado da questão historiográfico, que evoluiu cronologicamente, por outro, associamos-lhe outra realidade, também inegavelmente de sentido cronológico, e que está representada por esta historiografia divulgativa.

As Histórias Gerais
Todos os compêndios de história geral de Portugal apresentam um capítulo, de dimensão variada, descritivo da figura e dos feitos de Sancho II. Estes primeiros trabalhos desenvolvem essencialmente quadros de observação influenciados pela tradição cronística e onde o tratamento de fontes documentais é quase ignorado. São histórias que narram os sucessos militares, civis, eclesiásticos, etc., e limitam-se a isso mesmo, a produzir narrativas sobre acontecimentos de diversa índole. São obras que na maior parte das vezes têm perante si objectivos de índole pedagógica e divulgativa. No fundo particularizam uma escrita muito própria, virada para as massas que pretendem educar, e onde os feitos, os acontecimentos, são narrados, muitas vezes de forma romanceada, e sem recurso à utilização de métodos críticos ou de verificação do que comentam. O tratamento dado aos acontecimentos do reinado de Sancho II é, por isso superficial, e geralmente repetitivo de modelos anteriores onde, as personagens, se apresentam sobre a forma de estereótipos, sendo avaliados sempre da mesma maneira e com o sentido de produzir um sentimento de continuidade histórica, pouco problematizada, e centrada apenas na evolução da realidade interna. O modelo do rei incapaz, porque frágil, doente, pouco enérgico, influenciável por um conjunto de personagens sinistras, que tantas vezes é referido na cronística, vale como um desses modelos simplificados.
A problemática das fontes é geralmente subalternizada, quando não esquecida, por estes divulgadores, que deixam de fora outros aspectos da história, mais comum a versões eruditas, como o estudo da genealogia, o processo de investigação, ou a aplicação da hermenêutica. Neste sentido, estas histórias gerais, de fundo divulgativo, são especializadas também em aprofundar os silêncios sobre determinados factos, verdadeiros ou lendários, e sobre figuras cujo percurso apresenta algumas dificuldades de apresentação. Não as acusando individualmente todas esta obras padecem de um conjunto de omissões, claramente assumidas, em função do período em que são produzidas e do público a que se destinam e, no caso de Sancho II, colocam o leitor perante a imagem do anti-herói, do rei que a nação não pode homenagear, mas que se apresenta de forma longínqua e cujo fim é redentor da nação. As histórias gerais sobre Portugal conhecem outro período de grande desenvolvimento com o Estado Novo, onde a importância da coesão nacional dirigida para um propósito muito bem definido, produz modelos patrióticos e heróicos, onde figuras como a de Sancho II encontram pouca simpatia. Nem mesmo a vertente, assumida por historiadores como António Brandão e Alexandre Herculano, de que este rei é responsável por um dos momentos de maior expansão territorial no reino, é utilizada para valorizar a sua imagem. A posição tradicional assumida por muitos destes historiadores, sobre a participação militar deste rei, é a da sua desvalorização, já que a versão oficial assenta a dinâmica da conquista nas campanhas dirigidas pelos mestres das ordens militares.

Fr. António Brandão (1632)
(Quarta parte da Monarchia Lusitana que conthem a Historia do reyno de Portugal, desde o tempo delRey D. Sancho I, até o reynado delRey D. Affonso III. Lisboa, ed. por Pedro Crasbeek, 1632)
Escrita há trezentos e oitenta e um anos (JDACT) a Quarta Parte da Monarquia Lusitana…, marca o nascimento da historiografia portuguesa. Apesar de aparecer em jeito de crónica caracteriza-se já por apresentar um notável espírito crítico em relação às informações que reproduz. No caso particular do reinado que nos interessa é comum produzir juízos de valor sobre a forma que as crónicas antigas do reino trataram a memória daquele rei, apontando incoerências, contradições, impossibilidades e mentiras, chegando mesmo a corrigir, utilizando processos comparativos, ou verificando se são verdadeiros ou falsos, documentos notariais, bulas papais e instrumentos particulares. E, neste aspecto, está uma das novidades, a utilização crítica de fontes documentais ao lado da interpretação rigorosa e desconfiada das informações que crónicas e livros de linhagens fizeram chegar ao século XVII, altura em que o distinto cisterciense escreveu». In José Varandas, Bonuns Rex ou Rex Inutilis, As Periferias e o Centro, Redes de Poder no reinado de Sancho II (1223-1248), U. de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, Tese de Doutoramento em História Medieval, 2003.

Cortesia da FLUP/JDACT

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Infante Fernando de Portugal. Senhor de Serpa (1218-1246). Armando S. Pereira. «A atribuição que lhe é feita do senhorio da terra de Serpa, na fronteira mais meridional com o Islão, surge quase como um prémio ou reconhecimento da sua maioridade, e aí podia exercitar amplamente as suas virtudes guerreiras»

Cortesia de wikipedia

História da vida e da morte de um Cavaleiro Andante
«(…) Livro que invoca e reactualiza a memória dos mortos, confinada ao espaço sacralizado do templo. Os outros, os livros da vida, mergulham-no no esquecimento. Incompreensivelmente. De facto, nobiliários e crónicas não podiam ser mais lacónicos a seu respeito, mencionando-o apenas na linha de descendência de Afonso II, sem qualquer menção de relevo. Desaparecido o seu corpo, perdido o nome entre as episódicas e vagas anotações dos pergaminhos, esquecido o personagem nos densos textos pontifícios que, ora com violência ora com compaixão, o evocam, assim tem permanecido olvidada a sua memória.

NOTA: O infante D. Fernando aparece muitas vezes citado por Alexandre Herculano a propósito da sua intervenção na crise do reinado de Sancho II, em particular sobre os seus conflitos com a Igreja; cf. História de Portugal. Desde o começo da monarquia até o fim do reinado de Afonso III. Lisboa, 1980, ed. Crítica de José Mattoso; e é nesta perspectiva que tem sido evocado o seu nome nas histórias gerais de Portugal, de que basta citara mais recente, de José Mattoso, História de Portugal. Lisboa, 1992, vol. II; a figura do infante mereceu um esboço biográfico mais detalhado ao conde de Ficalho; o infante D. Peruando de Serpa, in Notas históricas acerca de Serpa, Lisboa, 1979 (a 1ª ed. é de 1904), pp. 99-107. Depois da pequena nota biográfica da Grande enciclopédia portuguesa e brasileira, Lisboa-Rio de Janeiro, s/d, vol. XI, o Dicionário de História de Portugal (dir. Joel SERRÃO), Porto. 1984. vol. II, reduze-o a algumas poucas palavras. Os elementos prosopográficos da sua vida foram actualizados por Leontina Ventura, A nobreza da corte de Afonso III, Coimbra. 1992, vol. II tese de doutoramento policopiada.
Sobre Afonso II e o significado da conquista de Alcácer no contexto do seu reinado, cf. Luís R US; Afonso II. D. (I 185-1223); in Dicionário ilustrado da História de Portugal, Lisboa, 1985, vol. I; um estudo muito minucioso, com recurso a fontes coevas, encontra-se em Maria Teresa Lopes Pereira; Memória cruzadística do feito da tomada de Alcácer (1217), segundo o Carmen de Gosuíno; in 2º Congresso histórico de Guimarães, D. Afonso Henriques e a sua época; Actas, Guimarães, 1997.

Quando o infante Fernando nasceu, o seu pai devia comemorar ainda com júbilo a vitória sobre Alcácer do Sal, conseguida alguns meses antes, em Outubro do ano de 1217; apesar de aí não ter participado directamente, atacado pela doença e envolvido que andava na administração do Reino, trata-se do único grande triunfo sobre o Islão durante o seu reinado. Já desde 1212 que o poderio almóada declinava na Península, e o Andaluz era uma faixa de terra cada vez mais estreita em acelerada regressão para o Mediterrâneo, mas será sobretudo a partir dos últimos anos da década de vinte do século XIII, quando surgem as terceiras taifas, que a grande Reconquista avança em todas as frentes: catalães e aragoneses ocupam as Baleares em 1229 e o Reino de Valência a partir de 1232; depois das conquistas de Cáceres, em 1227, e Badajoz, em 1230, castelhanos e leoneses, unidos em Fernando III, lançam-se à conquista das praças da Estremadura e avançam sobre o vale do Guadalquivir durante a década de trinta, em direcção às vastas, ricas e urbanizadas planícies do Sul. É também por estes anos que os portugueses ocupam o vale do Baixo Guadiana: após o fracasso de Elvas em 1226, a ocupação do Alentejo e do Algarve é relativamente rápida, pelo abandono de algumas praças por um Islão fragmentado e dividido, pela simultaneidade da reconquista castelhana, pela participação dos profissionais da guerra que eram os cavaleiros das ordens militares e ainda com o auxílio das milícias concelhias, mais do que por uma suposta actuação e iniciativa de um rei de infrutífera belicosidade. É neste panorama que tem lugar a conquista de Serpa, conseguida pela acção de Afonso Peres Farinha, prior do Hospital, Ordem que passa a controlar as principais praças da margem esquerda do Guadiana .
Corria o ano de 1232 e o infante Fernando, agora com 14 anos, a mesma idade com que o seu bisavô se armou cavaleiro na catedral de Zamora, já se podia orgulhar de também ele ser cavaleiro, uma vez alcançada a idade de rebora, entrando assim no mundo dos adultos, um mundo de guerreiros e aventura, onde o prestígio se alcança pela qualidade das façanhas realizadas. Foi nesta ambiência que cresceu e se fez homem, entre as armas, a violência, o sangue e as histórias das proezas, mais ou menos fantasiosas, que ouvia contar. Não se sabe quem foi o responsável pela sua educação, ou quem o acompanhou de perto nesta primeira fase da sua vida, mas se quiseram fazer dele um homem de guerra, conseguiram-no perfeitamente.

NOTA: Sobre as representações mentais que modelam e dão consistência ao grupo nobre, e o comportamento social daí resultante, marcado pela guerra, pela violência e pelo culto da força física, veiculadas e cristalizadas num determinado modelo educativo cf. José Mattoso, Identificação de um país. Ensaio sobre as origens de Portugal (1096-1325), 5ª ed. Lisboa. 1995. Para uma interpretação do papel da agressividade no contexto das estruturas sociais da Idade Média, La civilisation des moeurs. Paris. 1995.

A atribuição que lhe é feita do senhorio da terra de Serpa, na fronteira mais meridional com o Islão, surge quase como um prémio ou reconhecimento desta sua maioridade, e como terra de fronteira que era, aí podia exercitar amplamente as suas virtudes guerreiras. Não são claras as circunstâncias em que este senhorio lhe foi atribuído, na ausência de documento que o confirme, mas é prova concludente o facto de assim sempre se intitular e ser denominado. Mesmo assim, vejamos, em hipótese, como isto se processou. No seu último testamento, de Novembro de 1221, Afonso II deixava parte dos seus bens móveis aos filij mei et filia me a quos habeo de Regina doitina Vrraca et inter ipsos equaliter dividantur. Avancemos um pouco no tempo. Em 22 de Dezembro de 1239, na bula Constitutus in presentia nostra. Gregório IX ordenava ao bispo de Osma e ao abade de Valladolid que anulassem o contrato feito entre o infante e o rei Sancho, seu irmão, no qual o primeiro renunciava aos bens a que tinha direito pelo testamento paterno e àqueles que lhe eram devidos pela morte de sua irmã Leonor em 1231; provavelmente teria sido a pedido seu ao queixar-se ao papa do facto de naquela altura ainda ser minor, e por isso ter ficado lesado em tal acordo». In Armando Sousa Pereira, O Infante Fernando de Portugal, Senhor de Serpa (1218-1246), História da vida e da morte de um Cavaleiro Andante, Estudo apresentado em Setembro de 1997, Seminário “A nobreza medieval portuguesa: parentesco, identidade e poder”, dirigido por Bernardo Vasconcelos Sousa, revista Lusitânia Sacha, 2ª série, 10, 1998.

Cortesia de LSacha/JDACT

O Infante Fernando de Portugal. Senhor de Serpa (1218-1246). Armando S. Pereira. «Uma morte tão jovem, sobretudo quando nos apercebemos da imensa vitalidade, ‘o infante rufia’, que demonstrou. “Seriam estas as causas da sua morte?” É possível que sim, ‘que tenha tido uma morte violenta’»

Cortesia de wikipedia

História da vida e da morte de um Cavaleiro Andante
«Edificada sobre uma religião de recordação, a Igreja medieval integra desde cedo nos seus rituais as orações pelos mortos, desenvolvendo-se em paralelo os chamados libri memoriales, listas nominais, organizadas em forma de calendário, que registam os óbitos dos benfeitores das igrejas, geralmente os seus próprios membros, personagens ilustres ou outros particulares, e as respectivas doações para por eles se celebrarem missas de aniversário (sobre a memória dos mortos, e a forma como era ritualizada durante a Idade Média; além dos necrológios, há um outro tipo de literatura conexa, os martirológios, que associam os mortos aos mártires fixados e celebrados pelo calendário litúrgico). A Sé de Lamego possui um desses livros, um Obituário composto no fim do século XIII por volta de 1293, onde fomos encontrar, naquele incógnito emaranhado de muitos nomes, a seguinte ocorrência: Obijt domnis domnus Jnfans fernandus de Serpa. E.ª M.ª CC.ª Lxxx.ª iiij.ª2. Trata-se do registo da morte do infante Fernando de Serpa, neutro e despojado de qualquer adjectivação que nos informe sobre a natureza do seu passamento, não mencionando sequer os supostos bens que seria normal deixar para aniversário. Dificilmente ultrapassaria o anonimato das palavras que aquele livro da morte encerra, não fosse a especificidade vocabular que o identifica e qualifica perante os demais: na qualidade de senhor, possuidor de potestas, territorializada no nome da sua terra; depois, na sua pertença à mais importante linhagem nobiliárquica, a da realeza. Ascendência régia evocada no título infans que antecede o seu nome, com o qual eram designados os filhos e filhas de reis, sobretudo a partir do início do século XIII.
A morte surpreendeu-o no dia 19 de Janeiro de 1246, a ter como certo o registo do referido Obituário. Nascido, com toda a probabilidade, em Santarém no mês de Março de 1218, cidade que o seu pai escolheu para estacionar durante todo o Inverno, de Dezembro de 1217 a Abril do ano seguinte (um documento datado de Março de 1218, passado em Santarém, ainda não inclui Fernando entre os filhos de Afonso II, enquanto que num outro do mesmo mês ele já aí consta como fazendo parte da sua filiação), teria 28 anos à data da sua morte. Filho do consórcio do rei Afonso II, neto de Afonso Henriques, e da rainha D. Urraca, filha de Afonso VIII de Castela, o que venceo a batalha das Naves de Tollosa, era o terceiro filho varão, irmão mais novo dos infantes Sancho, o herdeiro da coroa, e Afonso, aquele que irá ter grande protagonismo ocupando o trono na sequência da guerra civil de 1245-1248, e da infanta D. Leonor, efémera Rainha, a que casou em 1229 com o rei Waldemar III da Dinamarca.
Uma morte jovem, prematura até. Pelo menos assim o entendemos hoje; porém, a realidade daqueles tempos tão longínquos é outra, de mais difícil apreensão. Então, a esperança média de vida podia não ultrapassar os 32 anos, a chamada maioridade atingia-se bem mais cedo e o turbulento período da sua juvenilitas já tinha passado havia muito. O tempo apenas, porque as turbulências, essas permanecem como o traço mais marcante da sua personalidade, ou pelo menos o mais evidente. De qualquer modo, uma morte tão jovem não pode deixar de nos impressionar, sobretudo quando nos apercebemos da imensa vitalidade, o dito infante rufia, que demonstrou. Seriam estas as causas da sua morte? É possível que sim, que tenha tido uma morte violenta. Na verdade, o seu testamento, a ter existido, não se conhece, e quanto ao paradeiro do seu túmulo nada se sabe, apesar de se levantar a hipótese de a sua sepultura se encontrar na igreja catedral de Burgos, da qual sua mulher foi generosa benfeitora e com a qual transacionou algumas propriedades. Ou talvez em Lamego, que o regista no seu livro de óbitos (para reforçar a hipótese de Lamego, devemos acrescentar que Fernando de Serpa manifestou um grande interesse por esta região na última fase do seu percurso político; seria, portanto, muito natural, que tivesse tomado algumas diligências para aí ficar sepultado aquando da sua morte)». In Armando Sousa Pereira, O Infante Fernando de Portugal, Senhor de Serpa (1218-1246), História da vida e da morte de um Cavaleiro Andante, Estudo apresentado em Setembro de 1997, Seminário “A nobreza medieval portuguesa: parentesco, identidade e poder”, dirigido por Bernardo Vasconcelos Sousa, revista Lusitânia Sacha, 2ª série, 10, 1998.

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