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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A Maior Flor do Mundo. José Saramago. «Ó que feliz ia o menino! Andou, andou, foram rareando as árvores, e agora havia uma charneca rasa, de mato ralo e seco, e no meio dela uma inclinada colina redonda como uma tigela voltada»

Cortesia de joaocaetano e jdact

«As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples…Quem me dera saber escrever essas histórias…» In José Saramago

«Se eu tivesse aquelas qualidades, poderia contar, com pormenores, uma linda história que um dia inventei…, …seria a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas…, … havia uma aldeia. …e um menino.
… sai o menino pelos fundos do quintal, e, de árvore em árvore, como um pintassilgo, desce o rio e depois por ele abaixo… Em certa altura, chegou ao limite das terras até onde se aventurara sozinho. Dali para diante começava o “planeta Marte”. Dali para diante, para o nosso menino, será só uma pergunta: «Vou ou não vou?» E foi. O rio fazia um desvio grande, afastava-se, e de rio ele estava já um pouco farto, tanto que o via desde que nascera. Resolveu cortar a direito pelos campos, entre extensos olivais, ladeando misteriosas sebes cobertas de campainhas brancas, e outras vezes metendo pelos bosques de altas árvores onde havia clareiras macias sem rasto de gente ou bicho, e ao redor um silêncio que zumbia, e também um calor vegetal, um cheiro de caule fresco.
Ó que feliz ia o menino! Andou, andou, foram rareando as árvores, e agora havia uma charneca rasa, de mato ralo e seco, e no meio dela uma inclinada colina redonda como uma tigela voltada.
Deu-se o menino ao trabalho de subir a encosta, e quando chegou lá acima, que viu ele? Nem a sorte nem a morte, nem as tábuas do destino… Era só uma flor. Mas tão caída, tão murcha, que o menino se achegou, de cansado. E como este menino era especial de história, achou que tinha de salvar a flor. Mas que é da água? Ali, no alto, nem pinga. Cá por baixo, só no rio, e esse que longe estava!...
Não importa.
Desce o menino a montanha, atravessa o mundo todo, chega ao grande rio, com as mãos recolhe quanta de água lá cabia, volta o mundo atravessar, pelo monte se arrasta, três gotas que lá chegaram, bebeu-as a flor com sede. Vinte vezes cá e lá…
Mas a flor aprumada já dava cheiro no ar, e como se fosse uma grande árvore deitava sombra no chão.
O menino adormeceu debaixo da flor. Passaram as horas, e os pais, como é costume nestes casos, começaram a afligir-se muito. Saiu toda a família e mais vizinhos à busca do menino perdido. E não o acharam. Correram tudo, já em lágrimas tantas, e era quase sol-pôr quando levantaram os olhos e viram ao longe uma flor enorme que ninguém se lembrava que estivesse ali.
Foram todos de carreira, subiram a colina e deram com o menino adormecido. Sobre ele, resguardando-o do fresco da tarde, estava uma grande pétala perfumada… Este menino foi levado para casa, rodeado de todo o respeito, como obra de milagre.
Quando depois passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos.


Este era o conto que eu queria contar. Tenho muita pena de não saber escrever histórias para crianças. Mas ao menos ficaram sabendo como a história seria, e poderão contá-la doutra maneira, com palavras mais simples do que as minhas, e talvez mais tarde venham a saber escrever histórias para crianças… Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?...» In José Saramago, A Maior Flor do Mundo, Adaptação, Ilustrações de João Caetano, Editorial Caminho, 2001, ISBN 978-972-211-437-0.


Cortesia de Caminho/JDACT

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Maria Ana Themudo. O Burrinho do Presépio. Natal. «Sim, porque naquele tempo não havia aquecimento eléctrico! Pois bem, eu sou descendente desse burro! Já vêem que também tenho alguma importância»

Cortesia de tomasallen

O burrinho do Presépio
Dizem que sou burro.
Está certo. E o meu nome.
Sou burro, mas não sou estúpido.
Tenho carácter e forte personalidade.
Lembram-se do burro que viu nascer o menino Jesus? E que o aqueceu com o seu bafo quentinho e ternurento?
Sim, porque naquele tempo não havia aquecimento eléctrico! Pois bem, eu sou descendente desse burro! Já vêem que também tenho alguma importância.
Mas, verdadeiramente, o que me interessava era ter sido eu a viver essa felicidade imensa de ter conhecido Jesus.
E a verdade é que o meu avô, acho que lhe posso chamar assim, ficou muito espantado com tudo o que aconteceu naquela noite.
Já era tarde, estava uma noite fria, mas tão cheia de estrelas que dava gosto olhar para o céu.

Cortesia de tomasallen

Mas à força de olhar para as estrelas, os olhos começaram a picar e deu-lhe um sono... que resolveu deitar-se na palha e dormir uma boa soneca.
Nesse mesmo estábulo havia uma vaca, mas ele não lhe dava muita confiança.
Quando já dormia há um bom bocado, foi acordado por vozes que falavam baixo, mas pelo menos pareceram-lhe um bocadinho aflitas.
Abriu uma nesga de um procurando acolher-se e que por ali abundavam.
Voltou a fechar os olhos e não ligou importância.
Afinal, qualquer um podia abrigar-se do frio da noite naquele estábulo.
Não tinha porta e espaço era o que não faltava.
Mas passado algum tempo voltou a acordar e qual não foi o seu espanto quando viu, deitado num berço feito de palha, o Menino mais lindo que alguma vez, na sua vida de burro, lhe tinha sido dado ver! Mas tinha tão pouca roupa que a mãe, cansada e aflita, tentava cobri-lo com o Seu manto. E foi então que o meu avô acordou a vaca e propôs-lhe aquecerem com os seus bafos quentinhos o doce e lindo bebé.

Cortesia de tomasallen

Como gostava de ter sido eu!
Mas sei que posso fazer alguma coisa para me tornar útil.
Vou oferecer as minhas costas para ajudar alguém que esteja muito cansado a levar o seu fardo.
E, assim, acho que o menino Jesus há-de gostar de mim!». In Maria Ana Allen Themudo, E se Eles contassem Histórias?, ilustrações de Tomás Allen, 1997.

Cortesia de Ana Themudo/JDACT

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Luísa Dacosta: «Devo aos alunos o não me ter afastado do sonho e começar a escrever para eles à volta desse sonho…»

Cortesia de feup

Maria Luísa Saraiva Pinto dos Santos, mais conhecida por Luísa Dacosta é uma escritora portuguesa.

Luísa Dacosta, transmontana de nascimento, formou-se na Faculdade de Letras de Lisboa, em Histórico-Filosóficas. Mas as suas «Universidades» foram as mulheres de A-Ver-O-Mar, que murcham aos trinta anos, vivem e morrem na resignação de ter filhos e de os perder, na rotina de um trabalho escravo, sem remuneração, espancadas como animais de carga - «Ele não me bate muito, só o preciso» - e que, mesmo afeitas, num treino de gerações, às vezes não aguentam e se suicidam. Oh! Senhora das Neves! E tu permites!

Cortesia de cm-pvarzim
Depois de um parto, quando o mundo recomeça num vagido de criança! Às mulheres de A-Ver-O-Mar «Deve» a língua ao rés do coloquial. Foi professora do ciclo preparatório e alguma coisa deve também aos alunos: o ter ficado do lado do sonho. Isso a tem motivado a escrever para crianças.  

http://www.casadaleitura.org/portalbeta/bo/documentos/biblio_luisa_dacosta_a.pdf
http://paginas.fe.up.pt/porto-ol/aaf/primeirapagina.html
http://paginas.fe.up.pt/porto-ol/aaf/segundapagina.html
http://paginas.fe.up.pt/porto-ol/aaf/terceirapagina.html
http://paginas.fe.up.pt/porto-ol/aaf/fotobiografia.html

Cortesia de torrinhasnetianos5c
Escreveu:
  • Província;
  • Aspectos do Burguesismo Literário;
  • Notas de Leituras;
  • Vóvó Ana,Bisavó Filomena e Eu;
  • De Mãos Dadas Estrada Fora...I;
  • O Príncipe que Guardava Ovelhas;
  • O Valor Pedagógicao da Sessão de Leitura;
  • De Mãos Dadas Estrada Fora...II;
  • O Elefante Cor-de-Rosa;
  • Teatrinho do Romão;
  • A Menina Coração de Pássaro;
  • De Mãos Dadas Estrada Fora...III;
  • A-Ver-O-Mar;
  • Nos Jardins do Mar;
  • Prefácio a Raul Brandão;
  • Corpo Recusado;
  • A Batalha de Aljubarrota;
  • História com Recadinho;
  • ( ... )
  • Sonhos Na Palma da Mão;
  • Na Água do Tempo;
  • Lá Vai Uma... Lá Vão Duas... .

Cortesia de camelecocacola

Cortesia da Faculdade de Engenharia da U. do Porto/JDACT

sábado, 14 de agosto de 2010

Matilde Rosa Araújo: «Eu devia ter uma pena de Luz para contar esta história. E não tenho. Mas os olhos dos meninos são luz e quem lê há-de emprestar luz às minhas palavras». «Ser delicado é uma maneira de ser bom. É como se déssemos flores»

Cortesia de culturanorte

História do Sr. Mar
Deixa contar...
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda...
Com muita onda...
E depois?
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
E depois...
A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe...
Matilde Rosa Araújo, in «O Livro da Tila»

O Berlinde
Era uma vez uma pomba
Sem um ninho, sem um pombal,
Era branca como a Lua
E os seus olhos de cristal.

Era uma vez uma pomba
Que não sabia chorar:
O seu choro trrru… trrru…
Era um modo de cantar.

Era uma vez uma pomba
Que noite e dia voava:
Fosse noite, fosse dia,
Nunca a pomba descansava.

Era uma vez uma pomba
Que nos céus, longe, voava,
Seu coração um berlinde
Grande segredo guardava.

Era uma pomba tão estranha
Que voava noite e dia:
Quanto mais alto voava
Mais da terra ela se via.

Era uma vez uma pomba
Com penas de seda real:
Era uma pomba do Mundo
Com seus olhos de cristal.

Seu coração um berlinde
De vidros de sete cores,
Que do sol tinha o brilhar,
Um espelhinho de mil flores.

Um dia longe nos céus,
Viu um menino a chorar
Sentadinho sobre um monte,
Numa noite de nevar.

Não era branco nem negro
Assim na neve o menino,
Seu chorar era triste,
Tornava-o mais pequenino.

E a pomba logo o viu
Com seus olhos de cristal:
Logo desceu para o monte
– Era aquele o seu pombal.

Poisou nas mãos do menino
Com seu corpo, seu calor:
Mãos por debaixo da neve,
Ninguém lhes sabia a cor.

Dorme, dorme, meu menino…
Branco ou negro tanto faz:
Meu coração é um berlinde,
Tem o segredo da Paz.

E o menino já ria,
Podia dormir sem medo,
Sonhava com o berlinde,
Coração feito brinquedo.

Há quem diga que uma estrela
Fugiu do céu a correr,
Atravessou todo o mundo
Para o segredo dizer.

Escutaram-na os meninos,
Têm um berlinde na mão:
Seja noite de Natal,
Seja noite de S.João.
Matilde Rosa Araújo