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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Poesia e Drama. Ensaio sobre a Poesia de Bernardim Ribeiro. António José Saraiva. «Cristóvão Falcão foi, na verdade, um herói da aventura que lhe atribui o primeiro editor da Menina e Moça; e toda a corte se interessou pela triste sorte do fidalguinho infeliz»

jdact

«(…) E, quanto a datas. algarismos, etc., haverá alguma coisa que impeça Bernardim Ribeiro de ser o autor do Crisfal? Carolina, fiada no famoso documento judicial de 1642, sustentava a impossibilidade cronológica. Mas já vimos, no primeiro parágrafo desta Introdução, o que devemos pensar da valia desse e de outros documentos. É impossível, portanto, argumentar com algarismos; e as razões que tenho estado a expor são bastante poderosas para os dispensar. Que resultado final se obtém de tudo isto? Vou apresentar ao Leitor urna hipótese que enfiará num colar as contas dispersas e desarticuladas que lhe venho apresentando. Cristóvão Falcão foi, na verdade, um herói da aventura que lhe atribui o primeiro editor da Menina e Moça; e toda a corte se interessou pela triste sorte do fidalguinho infeliz, namorado e preso. Bernardim Ribeiro, conhecedor da carta em verso que ele dirigira a Maria e que, possivelmente, correra de mão em mão, escreveu a Écloga pondo em cena o próprio Cristóvão Falcão sob o disfarce transparente do nome de Crisfal, formado das sílabas iniciais do nome dele. A Écloga correu anónima porque Bernardim Ribeiro, por qualquer razão, se não quis assinar como autor dela; e, por um processo naturalíssimo, pois Cristóvão Falcão era o herói da aventura e o autor da Carta, foi atribuída a este pela bisbilhotice palaciana. Daqui facilmente o boato chegaria aos ouvidos dos Usques, que o reproduziram com todas as cautelas, e, por intermédio deles, até nós. Bem sei que é esta uma hipótese como qualquer outra; mas tem sobre a hipótese de Delfim Guimarães e a hipótese tradicional a superioridade, pelo menos, de não ser inverosímil.
E passemos a outra meada.
A novela que conhecemos pelo nome de Menina e Moça aparece separada, na edição de Évora (1557), em duas partes muito diferentes entre si, tanto pelo carácter literário como pelo desenvolvimento do enredo: ao passo que a Primeira Parte é idílica e se desenvolve a partir de um ponto, num movimento contínuo, sem quebras, a Segunda Parte é uma série de histórias de cavalaria, sem unidade de desenvolvimento, contíguas, que se interrompem para dar passagem umas às outras.
Esta diversidade deu origem a uma hipótese segundo a qual a segunda parte da Menina e Moça seria escrita por um continuador com o fito de declarar, isto é, dar acabamento à história começada e evidentemente incompleta. Não seria caso desusado; e a hipótese era fortalecida pelas enormes contradições existentes entre as duas partes. Mas a edição de Ferrara (1554) vem destruir esta hipótese porque dá Bernardim Ribeiro como autor de dezassete capítulos da Segunda Parte; e aceite a autenticidade destes dezassete capítulos, ficamos autorizados a aceitar a de todos os restantes, porque os editores de Ferrara utilizaram um traslado evidentemente incompleto ou truncado. António Salgado Júnior acaba de propor a autenticidade dos sete capítulos que se seguem ao capítulo final da edição de Ferrara, com argumentos que não é fácil rebater». In António José Saraiva, Poesia e Drama, Estudos sobre Bernardim Ribeiro, Gradiva Publicações, Lisboa, 1996, ISBN 972-662-477-0.

Cortesia de Gradiva/JDACT

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Poesia e Drama. Ensaio sobre a Poesia de Bernardim Ribeiro. António José Saraiva. «… a mesma separação da amada, o mesmo sofrimento da ausência, a mesma intromissão dos fados inimigos»

jdact

«(…) Já citámos dois temas comuns às duas: o tema Amor e Riqueza e o tema da fidelidade até à morte, que se reflecte no Crisfal com a imagem da sombra. Lembraremos ainda que ambas as composições abrem pela descrição do sofrimento da ausência; que certos versos da Écloga se explicam por outros da Carta; assim, este pensamento da Carta:

que a vida é de uma hora,
este bem será eterno (a ser verdadeira a lição de 1619)

foi erguido pelo autor da Écloga às alturas da poesia e serviu de ponto de apoio para um belo voo sobre os mistérios de além-túmulo:

o amor a alma acompanha.

Mais do que isso, o drama completo do Crisfal esboça-se na Carta, onde adivinhamos o debate da heroína entre os conselhos da parentela e o seu próprio sentimento e onde podemos prever a vitória final deste último, como a prevê o próprio autor ao afirmar a sua confiança na fidelidade dela. Ainda mais: o sonho do Crisfal com a cena das lágrimas pode-o ter sugerido este passo da Carta:

[….] lembranças tão mortais
traz à minha fantesia,
que basta uma de um dia
para me os meus tirar:
nele vos vi eu chorar
e nele chorei também.

Convertendo a lembrança em sonho e fundindo a cena das lágrimas, passada e por isso sonhada, com a preocupação presente da pressão da parentela e da preocupação do dinheiro, poderia o Poeta ter criado a Écloga partindo da Carta. E isto explicaria o sentido oculto daquelas palavras:

Eu o treladei dali

Perguntará alguém se um poeta tão profundamente subjectivo e tão consumido pela própria tragédia interior, como era Bernardim Ribeiro, teria disposição e feitio para contar mágoas alheias. Eu lembrarei que o dom dos poetas, sobretudo dos poetas profundamente subjectivos, e nós já veremos em que sentido esta palavra se pode aplicar a Bernardim Ribeiro, é precisamente sentir como suas as mágoas alheias, saber captar para o seu mundo interior as vibrações perdidas no espaço. E neste caso particular há a observar que Bernardim poderia ter encontrado na história do Crisfal um caso muito semelhante ao seu: a mesma separação da amada, o mesmo sofrimento da ausência, a mesma intromissão dos fados inimigos. Parece-me isto suficiente. Mas, para tirar as dúvidas a algum leitor mais escrupuloso em pôr os pontos nos ii, 1embrarei ainda os seguintes factos:

a) que o ambiente do Cancioneiro Geral em que viveu o nosso Poeta era extremamente propício aos brinquedos poéticos, ou, por palavras menos simples, ao exercício da poesia como actividade lúdica;
b) que, pelo menos a cantiga ou solau Pensando-vos estou filha e o Romance de Avalor, na Menina e Moça, são composições feitas ad hoc, para ilustrar histórias imaginadas pelo Poeta e, portanto, alheias a ele, objectivas;
c) que a cantiga Não sam casado, Senhora, segundo a hipótese de Carolina Michaëlis, a única com alguma verosimilhança, é um exercício poético de natureza desportiva ou lúdica».

In António José Saraiva, Poesia e Drama, Estudos sobre Bernardim Ribeiro, Gradiva Publicações, Lisboa, 1996, ISBN 972-662-477-0.

Cortesia de Gradiva/JDACT

Poesia e Drama. Ensaio sobre a Poesia de Bernardim Ribeiro. António José Saraiva. «A carta apresenta vários pensamentos que se encontram na écloga e expressos por modo semelhante. Assim que parece-nos lícito ver na carta…»

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«(…) Temos, pois, que Raul Soares nos demonstrou duas coisas: que no Crisfal se narra uma história que não é a mesma que Bernardim nos conta nas suas Éclogas e na sua novela; que o Crisfal pertence a um género literário diferente do das cinco éclogas do mesmo Bernardim. Para demonstrar que Bernardim Ribeiro não é o autor do Crisfal seria preciso provar a diversidade daquilo que um escritor tem de mais inconfundível e de mais intransmissível, daquilo que, segundo uma frase célebre de Buffon, é a marca do homem: o estilo. E essa ficou por demonstrar. Qual será, portanto, a única conclusão admissível a tirar destes factos? Esta: Bernardim Ribeiro escreveu uma écloga contando a história de um amor que não era o seu e num género literário que, talvez por isso mesmo, não era também o das outras suas éclogas.
Agora note o Leitor: admitida esta explicação, tudo o que no Crisfal nos parece insólito e desusado em relação às Éclogas se explica sem esforço. O aparecimento de motes e cantigas alheias e de versos castelhanos, três ao todo..., porque o próprio género da écloga dramática exigira a caracterização das personagens; a localização geográfica, o amor correspondido, a cena dos beijos, porque tudo isso estava na história que o Poeta recontava; a objectividade, a nitidez, a serenidade, porque, diante de um caso alheio, ele estaria naturalmente num estado de espírito muito diverso daquele com que lamentaria as suas mágoas.
Mas não desenrolei ainda todo o processo aos olhos do Leitor. Já lhe falei naquele donairoso acabamento da Écloga; e vou transcrever as duas estrofes a fim de que o Leitor as releia pesando bem o sentido e a intenção das suas palavras:

Isto que Crisfal dezia,
assi como o contava,
uma ninfa o escrevia
num álemo que ali estava,
que inda então crescia.
Dizem que foi seu intento
de escrevê-lo em tal lugar
pera por tempo se alçar
onde baixo pensamento
lhe não pudesse chegar.
Eu o treladei dali,
donde mais estava escrito
que aqui não escrevi,
porque mal tão infinito
não se lhe pode dar fim.
O que se fez de Crisfal
não o sabe certo ninguém:
muitos por morto o tem,
mas quem vive em tanto mal
nunca vê tamanho bem.

Só um autor que em relação à história que nos conta estivesse na situação de simples narrador poderia ter escrito estes versos. Ele próprio se inculca como tal, gentilmente: eu o treladei dali. Além disso, só com certo esforço de imaginação poderíamos supor o ingénuo e desajeitado autor da Carta a dizer de si próprio: o que se fez de Crisfal / não o sabe certo ninguém / muitos por morto o tem. O que há aqui, com certeza, é uma referência aos zunzuns, aos dizem que em certa sociedade correriam com respeito ao herói da aventura, do mesmo modo que naqueles versos anteriores, onde parece que o autor procura defender o Crisfal da maledicência do mundo: [...] alçar esta história / onde baixo pensamento / não lhe pudesse chegar. O sentido das estrofes citadas é talvez esclarecido por esta observação: o Crisfal parece supor o conhecimento da Carta, porque os temas daquele existem quase todos embrionários nesta. Já o notou Epifânio Dias:

A carta apresenta vários pensamentos que se encontram na écloga e expressos por modo semelhante. Assim que parece-nos lícito ver na carta um como que prelúdio da écloga, tendo o poeta desenvolvido na écloga as ideias que constituem o argumento da carta».

In António José Saraiva, Poesia e Drama, Estudos sobre Bernardim Ribeiro, Gradiva Publicações, Lisboa, 1996, ISBN 972-662-477-0.

Cortesia de Gradiva/JDACT

terça-feira, 31 de maio de 2016

Drama no 31. Canção do Cuco. Frances Hardinge. «Era mais velho, tinha uma mecha de cabelo sem cor penteada curva um centímetro acima da pele rosada, e sobrancelhas grisalhas espalhadas. As veias das mãos tinham o aspecto inchado que evidenciava idade avançada»

jdact e wikipedia

«A cabeça doía. Um som moía a sua mente, um raspar sem melodia, como o farfalhar de papel. Alguém dera uma risada, amassara-a numa grande bola irregular e usara para rechear o crânio dela. Sete dias, dizia rindo. Sete dias. Pára, resmungou. E parou. O som desvaneceu, até que mesmo as palavras que ela pensava ter ouvido sumiram da sua mente feito vapor no vidro. Triss? Ouviu outra voz, que soou muito mais alta e próxima do que a dela, a voz de uma mulher. Ah, Triss, meu amor, está tudo bem. Eu estou aqui. Acontecia alguma coisa. Duas mãos quentinhas envolveram-na, como um ninho. Não deixe que se riam de mim, sussurrou. Engoliu saliva e sentiu a garganta seca e rugosa. Não tem ninguém rindo, querida, disse a mulher, a sua voz tão sussurrada e gentil que era mais um suspiro. Ouviu murmúrios de preocupação um pouco mais distantes. As vozes de dois homens. Ela continua delirando? Doutor, pensei que você tinha dito que… Só um sonho interrompido, acho. Veremos como está Theresa quando ela acordar de vez.
Theresa. O meu nome é Theresa. Sim, ela sabia, mas era como uma palavra comum. Ela não parecia saber o que significava. Meu nome é Triss. Esse soava um pouco mais natural, como um livro aberto numa página familiar. A garota conseguiu abrir um pouco os olhos; ardeu de leve por causa da luz. Estava numa cama, apoiada num monte de travesseiros. Sentiu como se fosse muito ampla, coberta de rochas pesadas, e foi uma surpresa ver-se esticada no seu tamanho normal sob a colcha e a coberta. A mulher sentada ao seu lado segurava a sua mão com carinho. Os seus cabelos negros eram curtos e ajustados à cabeça, moldados em ondas firmes, brilhantes. Um floreado subtil de pó cobria as suas faces, abafando as linhas cansadas dos cantos dos olhos. As contas azuis de vidro do colar da mulher captavam a luz que atravessava a janela, cintilando pequenos diamantes na pele branca do pescoço e por baixo do queixo. Cada centímetro daquela mulher era dolorosamente familiar e, entretanto, desconhecido, como um mapa para o lar já quase esquecido. Uma palavra desceu, vagando de algum lugar, e a mente entorpecida de Triss conseguiu capturá-la. Ma…, começou. Isso mesmo, a mãe está aqui, Triss. Mãe. Mãe. Ma…, ma… Só conseguiu verter um resmungo. Eu…, não… Triss perdeu a frase, incapaz. Não sabia o que não, mas receava a intensidade desse não.
Tudo bem, filhinha. A mãe apertou-lhe de leve a mão e sorriu gentilmente. Você andou doente de novo, só isso. Teve febre, então é normal sentir-se cansada e meio confusa. Lembra-se do que aconteceu ontem? Não. O dia anterior era um imenso buraco negro, e Triss sentiu um assomo de pânico. Será que conseguiria lembrar-se de alguma coisa? Você chegou em casa encharcada. Lembra-se disso? A cama rangeu quando um homem se sentou do outro lado. Tinha um rosto comprido, forte, com rugas entre as sobrancelhas, como se sempre se concentrasse em tudo com muito afinco, e os cabelos eram loiros-claros. A voz era gentil, no entanto, e Triss sabia que partia dele um olhar todo especial, o qual apenas ela recebia. Pai. Achamos que você caiu no Grimmer. A palavra Grimmer fez Theresa sentir-se fria e trémula, como se alguém houvesse esfregado pele de sapo no seu pescoço. Eu…, não me lembro. Ela queria mesmo era fugir desse pensamento. Não a pressione. Havia outro homem em pé, aos pés da cama. Era mais velho, tinha uma mecha de cabelo sem cor penteada curva um centímetro acima da pele rosada, e sobrancelhas grisalhas espalhadas. As veias das mãos tinham o aspecto inchado que evidenciava idade avançada.
As crianças brincam perto da água; sempre fazem isso. Deus sabe que eu vivia perto dos riachos quando era pequena. Agora, menina, você deixou os seus pais muito preocupados, passou a noite toda com febre alta, não sabia quem eles eram. Suponho que agora já saiba muito bem quem eles são. Triss hesitou e fez que sim com a cabeça pesada. Reconhecia o cheiro. Cinza de cachimbo e pó de arroz. O médico assentiu sabiamente, e tamborilou os dedos na beira da cama. Como se chama o rei?, disparou, ávido. Triss deu um pulo, e ficou exasperada por um instante. Então lembranças das cantigas escolares infantis nadaram obedientes para dentro de sua mente. Um senhor é rei, um rei é George, um George é Quinto… George Quinto, respondeu. Muito bem. Onde estamos agora? Na antiga casa de pedra, em Lower Bentling, Triss respondeu, com crescente confiança. Perto do lago de pesca do rei. Reconheceu o cheiro do lugar: paredes húmidas, mais o perfume delicado de três gerações de gatos velhos e doentes. Estamos aqui de férias. Nós…, nós vimos aqui todos os anos. Quantos anos tem? Onze. E onde mora? The Beeches, Praça Luther, Ellchester. Muito bem. Melhorou bastante. O homem abriu um sorriso amplo, caloroso, como se tivesse genuíno orgulho dela. Veja, andou bastante doente, por isso imagino que está sentindo a cabeça como se estivesse cheia de algodão, não está? Bom, fique tranquila. Ao longo dos próximos dias, seu bom humor vai voltar para casa, digamos, com o rabinho entre as pernas. Já está sentindo-se melhor, não está?» In Frances Hardinge, Canção do Cuco, 2014, Novo Século Editora, Le Livros, 2015, EISBN 978-854-280-633-5.

Cortesia LeLivros/NSéculoE/JDACT

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Grandes Reportagens de Outros Tempos. Amador Patrício. «Estava, pois, assim o monarca ao facto de tudo quanto se preparava contra ele. Mas convinha esperar o momento asado para infligir o castigo; era preciso obter mais provas e apanhar toda a rede dos conspiradores»

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João II e o duque de Viseu
Setúbal, 28 de Agosto de 1484
«(…) Teve depois el-rei mais precisas informações do que contra sua vida se tecia na sombra, por denúncia de Vasco Coutinho, irmão de Guterrez, que, como se disse, conhecia o segredo da conspiração. Como vasco estivesse para sair do reino, por agravos que dizia ter recebido de el-rei, foi a Sesimbra despedir-se de seu irmão, que ali se achava residindo. Procurou Guterrez dissuadi-lo de tal propósito, dando-lhe a entender que dentro em breve sucederiam coisas que lhe permitiriam ficar vantajosamente em Portugal. Insistiu Vasco na sua; e então Guterrez Coutinho, para o resolver a não partir, revelou-lhe todo o plano da conjura. Não foi preciso mais para que aquele, como bom e leal fidalgo que é, logo procurasse Antão Faria e por ele obtivesse audiência de S. Alteza. Vasco Coutinho pôs el-rei ao corrente do que o seu irmão lhe contara, não sem primeiro implorado para este o perdão da pena de morte. O rei seria morto com ferro e o príncipe Afonso levado para Sesimbra por mar e aí levantado por rei, mas só enquanto o duque de Viseu quisesse.
Estava, pois, assim o monarca ao facto de tudo quanto se preparava contra ele. Mas convinha esperar o momento asado para infligir o castigo; era preciso obter mais provas e apanhar toda a rede dos conspiradores. Por isso el-rei dissimula, não lhes dando a perceber que está prevenido do perigo que o cerca. Anda mui recatado, sempre armado de espada e punhal, e a cavalo, nunca em mula, para ter mais ágeis os movimentos. Segundo há pouco alguém me contou, a primeira vez que tentaram assassinar el-rei foi um dia em que andava a cavalo no Troino. Mas, apercebebdo-se S. Alteza, ou pelos gestos dos fidalgos, ou pela expressão dos rostos, ou ainda por segredos que entre eles trocassem, de que procuravam ocasião propícia para o ferir, colocou-se de costas para a igreja de NSª da Anunciada, e dali não se arredou até que chegasse o capitão das guardas, Fernão Martins Mascarenhas, com os seus ginetes». In Amador Patrício, Grandes Reportagens de Outros Tempos, ilustração de Martins Barata, prefácio de Caetano Beirão, Empreza Nacional de Publicidade, Minerva, 1938.

Cortesia de Minerva/JDACT

Outros Tempos. Grandes Reportagens. Amador Patrício. «Muitos choravam de o ver vivo. Ah, porque matastes o traidor do conde e não matastes também logo a aleivosa! Oh, aleivosa! Oh, aleivosa! E matavam-na se conseguissem ir lá acima»

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Uma Revolução em Lisboa. Lisboa, 7 de Dezembro de 1383
«(…) No Paço espalhou-se um pavor tal que João Gonçalves e os outros escrivães largaram de súbito o livro dos vassalos e puseram-se a fugir, cada um por sua banda. Os outros criados da rainha não procuraram as portas, mas as janelas, para se verem fora dali. Alguns saltaram para os telhados. Perante esta debandada, Lourenço Martins foi-se à cozinha e de lá trouxe uma soma de prata que apresentou ao Mestre: já aqui tendes, Senhor, para a despesa de hoje! Mas ele retorquiu-lhe asperamente que fosse repor a prata donde a tirara, pois não fora para isso que voltara a Lisboa. Os fidalgos partidários do conde não tornaram a aparecer, porque, quando voltavam para o paço, foram informados do que se passara, e, perante os magotes de gente que já corriam pelas ruas, recearam ser chacinados e trataram de se pôr a salvo. A partida estava ganha...
O pajem percorria a cidade aos gritos de: matam o Mestre! Matam o Mestre! Acorrei que o matam! Tudo saía à rua a ver o que sucedera e, começando a falar uns com os outros, exaltavam-se e corriam a tomar armas, cada um como podia. Era a revolução. Então, Álvaro Pais, que já estava a postos e armado, com sua coifa na cabeça, montou a cavalo, o que há muitos anos não fazia, e conduziu aquele povo miúdo, dizendo: acudamos ao Mestre, amigos, que é filho de El-Rei Pedro I! Chegaram em frente do Paço e a gente que o seguia era já tanta que nem cabia nas ruas. A indignação cada vez maior porque todo o povo estava com o Mestre e contra a rainha. Ao verem as portas cerradas quiseram arrombá-las à pedrada e houve muitos que juntavam lenha e pediam lume para pôr fogo ao palácio e queimarem o trèdor e a aleivosa. Outros queriam escadas para subir acima e ver onde estava o Mestre. O barulho era ensurdecedor e já ninguém se entendia. O Mestre! O Mestre!
Das janelas bradavam que o Mestre era vivo e João Fernandes morto; mas ninguém queria crer que assim fosse. Pois se ele é vivo, mostrai-no-lo! O alvoroço tornou-se tamanho que o Mestre João resolveu aparecer a uma grande janela que dá para a rua. Foi então alvo de grandes aclamações. Muitos choravam de o ver vivo. Ah, porque matastes o traidor do conde e não matastes também logo a aleivosa! Oh, aleivosa! Oh, aleivosa! E matavam-na se conseguissem ir lá acima. O Mestre, para apaziguar aquela gente, é que desceu à rua e, montando a cavalo, dirigiu-se, acompanhado de todos os seus, para os paços do almirante, ao Rossio. Coisa maravilhosa era de ver o povoléu que o seguia, aos brados: Que nos mandais fazer, Senhor? Que quereis que façamos? Ao que ele respondia que por enquanto de mais nada havia mister; e, às janelas, as donas da cidade, a saudarem-no em altas vozes: mantenha-vos Deus, Senhor! Bento seja Deus, que vos guardou de tamanha traição! Era já quase alçarem-no por Rei.
Enquanto o conde de Barcelos vinha ao encontro do Mestre e, depois de o abraçar, o conduzia a seus paços para lhe dar de comer, o povo amotinado, concentrava-se em volta da Sé, indignado, porque, ao contrário do que sucedera em S. Martinho e noutras igrejas, o bispo não mandara repicar as campanas. Que repicassem! Que repicassem! Mas o bispo Martinho, ou por não saber do que se tratava, ou como era castelhano, por ser partidário da rainha e do conde, mandou cerrar todas as portas e recolheu-se a uma das torres acompanhado do prior de Guimarães e dum tabelião de Silves, que tinham vindo visitá-lo». In Amador Patrício, Grandes Reportagens de Outros Tempos, ilustração de Martins Barata, prefácio de Caetano Beirão, Empreza Nacional de Publicidade, Minerva, 1938.

Cortesia de Minerva/JDACT

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Flores na Tempestade Laura Kinsale. «Soltou-o, mas a sensação de formigueiro aumentou e teve a sensação de que era atingido por uma vertigem, como se a escada debaixo dele ondulasse sem se mover. Abriu e fechou a mão para a desentorpecer»

wikipedia e jdact

«Ele gostava de política radical e tinha um fraco por chocolate. Cinco anos antes, a honorável miss Lacy-Grey quase desmaiara quando num baile, perante testemunhas, ele a convidara para uma contradança, um exemplo do tipo de incidentes que os amigos achavam intensamente divertidos e gostavam de recordar ad nauseam enquanto bebiam. Circulava o rumor que uma proposta de casamento teria deixado a pobre rapariga maculada para o resto da vida, e um convite de um género inferior tê-la-ia matado de imediato. Christian encontrava-se naquele momento com a cabeça pousada na curva suave das costas dela, os dedos a deslizarem indolentes entre a meia e a pele macia mesmo acima da liga azul e amarela, e pensou que os amigos tinham sido um pouco exagerados nas suas previsões. Parecia viva e bem viva. Os tornozelos estavam belamente cruzados, e sacudiam-se com suavidade para cima e para baixo no ar acima dele. Christian pousou a palma da mão em cima da nádega dela, beijou o sinal no fundo das costas e endireitou-se, apoiado no cotovelo. Quando é que Sutherland regressa a casa? Em princípio, só daqui a duas semanas. A ex-miss Lacy-Grey rolou para o lado, sorriu, expôs os seios que se tinham tornado mais pesados, e a cintura ligeiramente mais gorda e inchada. Eram amantes há cerca de três meses. Christian passou os olhos pelas alterações subtis ergueu as pestanas, sem falar. Quem me dera que nunca mais voltasse, disse ela, e entrelaçou mãos acima da cabeça. Tem sido maravilhoso. Melhor do que chocolate, disse ele. A sério? Ele olhou em volta, ao lembrar-se. A cafeteira alta esperava-o, a chaleira a fervilhar suavemente no fogão. Desculpa. Levantou-se da cama. Seu homem odioso. Christian fez uma vénia rasgada e piscou-lhe o olho. Pegou na chaleira, deitou água quente sobre o leite frio, exactamente metade de cada, raspou algumas lascas de chocolate para dentro da cafeteira e agarrou manípulo do moinho. Sentia o tapete frio e acetinado sob os pés nus. Rodou o alto manípulo do moinho vigorosamente, aquilo deveria ter sido feito sobre o lume, não na cafeteira, mas as condições a altas horas a noite nos aposentos de outro homem nem sempre eram as ideais, serviu-se de uma chávena da mistura espumosa. Que consigas beber isso sem um único grão de açúcar é um desafio para a imaginação, observou ela. O açúcar és tu que lho dás, doçura, respondeu ele de imediato bebeu outra golada, nu junto da mesa. Como poderia ser de outro modo? Ela tentou fazer uma expressão aborrecida, mas acabou por lhe sorrir. Voltou a esticar os braços com um suspiro e, provocadora, arqueou o corpo ao mesmo tempo que fazia deslizar os pés enfiados nas meias, uma e outra vez, sobre os lençóis. A sério! Gostaria que Sutherland nunca mais regressasse a casa. Era melhor que desejasses que ele voltasse depressa para que se deitasse contigo, minha menina, e quanto mais depressa melhor. Ela levantou o olhar pousado nas mãos e de seguida voltou a baixá-las. Franziu de novo os lábios com aquela expressão tão atraente. Ele não se vai importar. Tenho a certeza que não, replicou Christian num tom cínico. Ela pousou a palma da mão no ventre inchado e observou-o pelo canto do olho. Christian pousou a chávena e inclinou-se sobre ela. Beijou-lhe o peito, enquanto lhe passava os dedos por entre o cabelo e lhe beijava o pescoço. Valeu a pena?, murmurou-lhe ao ouvido. Ela levantou os braços até lhe rodear os ombros e apertou-o com força. A suavidade daquela pele voltou a despertar o desejo em Christian, e, enquanto a jovem se agarrava a ele como se se estivesse a afogar, aproveitou o momento para lhe voltar a manchar a honra. Ela pareceu desfrutar o momento. Deus era testemunha disso. Na base da escadaria, cintilava a chama de uma única vela, que iluminava o braço esquerdo e as roupagens de uma reprodução em mármore de uma estátua de Ceres cujo olhar, num excesso de sentimentalismo, repousava num feixe de trigo que tinha aos pés. Christian desceu as escadas discretamente, mas não às escondidas, já que uma semana antes chegara a um acordo com o mordomo e passara a deixar junto do candelabro um impecável montículo formado por três moedas de ouro de cada vez que saía da casa. Estava à procura das moedas no bolso quando ouviu o som de passos mais em baixo. Deteve-se no patamar, a mão apoiada no corrimão. Edith?, perguntou do fundo das escadas uma voz masculina, que ecoou ligeiramente pelo vestíbulo. Que o diabo me carregue. Christian deteve-se, completamente imóvel. Na base da escada, surgiu Leslie Sutherland, a despir o casaco. Eydie?, voltou a chamar, e alisou as patilhas ruivas enquanto olhava para cima. No vestíbulo ouvia-se o tiquetaque de um relógio. Christian nunca se apercebera da sua presença, mas naquele instante de silêncio soou como um augúrio cristalino e irrevogável. Um... dois... três... quatro... Ao chegar a quatro, aconteceu. O meio sorriso desapareceu do rosto de Sutherland. Os lábios entreabriram-se-lhe. Christian não esperou que pronunciassem qualquer palavra e não o fizeram. Apenas silêncio e o rosto de Sutherland a tornar-se cada vez mais pálido, até a boca se fechar e a cor lhe invadir todo o rosto, com excepção dos vincos profundos junto ao nariz e em volta dos lábios. Seis... sete... oito... Christian pensou em diversas coisas para dizer, todas elas falsas e dirigidas a si mesmo, excepto a frase clássica: Voltaste mais cedo, não voltaste? Conteve-se. Sutherland ainda parecia presa de um profundo choque. Uma dormência incómoda na mão direita fez com que Christian se apercebesse da força com que agarrava o corrimão através da luva. Soltou-o, mas a sensação de formigueiro aumentou e teve a sensação de que era atingido por uma vertigem, como se a escada debaixo dele ondulasse sem se mover. Abriu e fechou a mão para a desentorpecer. O gesto pareceu despertar Sutherland. Olhou fixamente para a mão de Christian. Jervaulx, disse, num tom incongruentemente suave, vou matar-te por causa disto. Nem sequer pronunciou bem o nome, soou desajeitado. Demasiada ênfase no J e no X. Num momento arrepiante como aquele, a mente de Christian teve uma reacção absurda e repetiu a pronúncia exacta do seu título: Shervoh - Sbervoh - Sbervoh... Não proferiu palavra, estendeu a mão e voltou a dobrar os dedos até os transformar num punho, algo que lhe pareceu difícil de fazer. Sentia o braço pesado, como se adormecido, e um formigueiro percorria o interior dos ossos dos dedos. Os nomes dos teus padrinhos, disse Sutherland num tom mais elevado e com maior agressividade. Quero os nomes deles. Durham. E o coronel Fane. Era inevitável. Mas surpreendeu-se por se sentir tão estranho. Enquanto se olhavam, o relógio marcou mais dez segundos. Canalha. Fora da minha casa!» In Laura Kinsale, Flowers from the Storm, Flores na Tempestade, 2008, ISBN 978-989-626-121-4.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

sábado, 21 de setembro de 2013

Outros Tempos. Grandes Reportagens. Amador Patrício. «Chegados ao Paço, desceram de seus cavalos, subiram a escada e foram até a câmara onde estava a rainha. O porteiro, logo que entrou o Mestre, quis cerrar a porta, para que não passasse mais nenhum. Mas o Mestre João fê-los entrar a todos e dirigiu-se logo ao estrado onde estava a cunhada»

jdact

Uma Revolução em Lisboa. Lisboa, 7 de Dezembro de 1383
«Grande alvoroço vai por esta cidade de Lisboa! Assuadas, tumultos, mortes, prenúncios de mais graves acontecimentos. Iminência de nova guerra com Castela? Mas também uma fé viva, no coração do povo, e o desejo ardente de, todos os bons portugueses em volta do Mestre, defenderem a independência de Portugal. O Mestre! Anda seu nome aclamado pelas ruas da cidade, desde que ontem tornou a ela.
Foi assim: Era já o sol nado, quando a Lisboa voltou mestre João, Mestre de Aviz, acompanhado dos seus, o comendador de Juromenha, Fernão de Álvares, Lourenço Martins de Leiria, Vasco Lourenço Meirinho, Lopo Vasques e outros. Eram vinte, com cotas, braçais e espadas cintas, como homens caminheiros. Chegados ao Paço, desceram de seus cavalos, subiram a escada e foram até a câmara onde estava a rainha. O porteiro, logo que entrou o Mestre, quis cerrar a porta, para que não passasse mais nenhum. Mas o Mestre João fê-los entrar a todos e dirigiu-se logo ao estrado onde estava a cunhada, para a saudar. A Rainha, rodeada de algumas das suas donas e acompanhada do conde de Barcelos, do conde Álvaro Peres, de Fernão Afonso de Samora e de outros fidalgos, ouvia o conde João Fernandes que, de joelhos,
lhe falava baixinho. Ao ver o Mestre, levantou-se e perguntou-lhe: - Irmão, que é isso? A que tornastes de vosso caminho? - Porque João partira na véspera, com ordem da Rainha, acordada em conselho para levantar as terras do Mestrado e algumas vilas e castelos em redor, em defesa da fronteira ameaçada pelo rei de Castela, que dá mostras de querer entrar em Portugal. Justificou-se o Mestre de Aviz dizendo que voltara a Lisboa porque, para a defesa das terras de entre Tejo e Guadiana, que lhe fora confiada, era insuficiente a gente de que dispunha, e que portanto lhe desse a Rainha mais vassalos, para que ele a pudesse bem servir, como cumpria a sua honra e ao serviço real. Achou a Rainha razoável o pedido e mandou chamar João Gonçalves, seu escrivão da puridade, para que indicasse quem poderia servir com o Mestre. Enquanto João Gonçalves e os seus escrivães consultavam o livro de vassalos daquela comarca e preparavam as convocações, começaram os condes a convidar o Mestre de Aviz a comer com eles, inclusive o de Andeiro, mas de todos ele se escusou dizendo que já tinha mandado preparar o jantar. Consta que pôs logo o conde de Barcelos ao corrente das suas intenções e que, pretendendo este acompanhá-lo na temerária empresa, João insistiu por que partisse, pois, tanto que tudo fosse feito, iria ter com ele.
Desconfiou o conde João Fernandes daquele retorno precipitado do Mestre, pelo que ordenou à sua gente que se fosse armar. Esta a razão por que nenhum dos seus estava presente quando o mataram, o que evitou, sem dúvida, que as coisas se passassem mui diferentemente, ou, pelo menos, que houvesse maior efusão de sangue.

Chegada a hora de comer, insistiu novamente João Fernandes para que o Infante jantasse com ele. Seria talvez a maneira de o ter mais vigiado. O Mestre manteve a sua recusa; mas como o conde teimasse e fizesse menção de ir mandar preparar rapidamente a comida, atalhou aquele: - Não vades, que eu vos hei-de falar duma coisa, antes que me vá, e logo me quero ir porque são horas de comer. Despediu-se da rainha, tomou o conde pela mão e conduziu-o a uma grande sala contígua à câmara em que estavam. Seguiram-nos os companheiros do Mestre, que já sabiam o que se ia passar, e, mais cerca, Rui Pereira e Lourenço Martins. Uma vez ali, o Mestre João levou o conde de Andeiro para junto duma janela e falou-lhe tão baixo que ninguém conseguiu ouvir o que lhe dizia; todavia, afirma-se que as frases trocadas foram estas: - Conde, eu me maravilho muito de serdes pessoa que eu estimava e trabalhardes vós de minha deshonra e morte! - Eu, Senhor?! - replicou ele. - Quem vos tal coisa disse mentiu-vos mui grão mentira.
O Mestre, que mais vontade tinha de o matar que de se travar de razões, tirou logo um cutelo comprido e mandou-lhe um golpe à cabeça. Não seria a ferida mortal, pois que o conde ainda tentou acolher-se à câmara da rainha. Os outros, porém, logo que isto viram, rodearam-no, desembainharam as espadas, e foi Rui Pereira quem, duma estocada, o matou de pronto. Quiseram outros feri-lo também, mas o Mestre mandou-os estar quedos e nenhum se moveu. A seguir, mandou a Fernão Álvares e Lourenço Martins que fossem fechar as portas do palácio para que ninguém entrasse, e dissessem ao seu pajem que corresse pelas ruas bradando que queriam matar o Mestre. Era o sinal combinado com Álvaro Pais para o levantamento.
Entretanto a rainha, que tinha ouvido o ruído daquela cena, mandou ver o que se passava; ao ser informada do sucedido, rompeu em lamentações pela morte do seu amado conde, mas, cheia de temor, não ousava condenar os matadores. Ordenou apenas que preguntassem ao Mestre se ela ia morrer também. - Dizei lá à rainha, minha Senhora, - respondeu ele - que esteja sossegada em sua câmara, porque não tem que temer. Eu vim unicamente para fazer isto a este homem, que bem mo havia merecido».

In Amador Patrício, Grandes Reportagens de Outros Tempos, ilustração de Martins Barata, prefácio de Caetano Beirão, Empreza Nacional de Publicidade, Minerva, 1938.

Cortesia de Minerva/JDACT

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Poesia e Drama. Ensaio sobre a Poesia de Bernardim Ribeiro. António José Saraiva. «Se Bernardim Ribeiro cultivou, entre outros géneros, novela, romance, cantiga, sextina, etc., a pastoral lírica, quem nos impede de supor que cultivasse também a écloga dramática?»

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«(…) No Crisfal, pelo contrário, o tema Amor e Riqueza é um tema de meditação poética e filosófica, um problema de ordem geral que o Autor exemplifica com vários casos particulares: primeiro, o caso dos pastores:

[…] vi muitos pastores
andar guardando seus gados,
[…]
não querendo mais haveres,
nem querendo mais riqueza,
porque amor tudo despreza.
Est. 34.

depois, o caso da triste Helena, que chora:

Troquei amor por riqueza
porque me o trocar fizeram;
mas bem pago esta crueza,
que, em que cem contos me deram,
descontaram-se em tristeza:
meu esposo aborreço,
quando me a lembrança vem
do primeiro querer bem:
ninguém venda amor por preço,
pois ele preço não tem.
Est. 44.

e, enfim, o caso do próprio Crisfal, que tira as últimas conclusões desta doutrina geral:

cá fica o haver na Terra,
o amor a alma acompanha.
Est. 85.

e que se ergue a um ponto de vista mais amplamente filosófico:

Nus neste mundo nascemos
e nus sairemos dele;
neste meio que vivemos
só o rico é aquele
que ser contente sabemos.
Est. 86.

Por estas razões, não hesito em concluir que o autor da Carta - Cristóvão Falcão, como no-lo garante o editor, não pode ser ao mesmo tempo o autor do Crisfal; e assim se confirmam plenamente as dúvidas e reservas com que Abraam Usque acompanhou a atribuição da Écloga famosa ao autor da Carta. E, não sendo Cristóvão Falcão, poderá sê-lo Bernardim Ribeiro, com cujas obras a identidade de estilo é unanimemente reconhecida?
É aqui o lugar de examinar as diversidades que Raul Soares notou entre as éclogas bernardinianas e o Crisfal. De toda a sua argumentação ficaram de pé duas afirmações, uma quanto ao conteúdo da Écloga, outra quanto à sua realização artística: segundo a primeira, a história narrada no Crisfal não coincide com a história que serve de tema às Éclogas e à Menina e Moça; segundo a outra, ao passo que as Éclogas são monocórdios, lamentações que fluem sempre no mesmo tom, como as águas de um rio, e terminam por um corte abrupto, o Crisfal é um drama trovado, com esqueleto, princípio, meio e fim; e, por isso mesmo, com uma serenidade, objectividade, nitidez e precisão que as éclogas bernardinianas não têm.

NOTA: Pelo que toca aos restantes argumentos de Raul Soares, poucas palavras mostrarão a sua fragilidade. Refere-se um deles ao sentimento da natureza que, segundo o nosso autor, mal aparece na Écloga; a verdade é que toda ela é uma confidência à natureza; às árvores saudosas, às águas dos ribeiros, companheiros de seu mal, à noite calada, de ventos muda, quando chovia água miúda por cima da verde folha, e o escritor brasileiro poderia ter-se lembrado de que é sobre um álamo que fica escrita a história de Crisfal. Outro argumento de Raul Soares apoia-se na análise comparativa da adjectivação nas Éclogas e no Crisfal: ficamos sabendo que, numas e noutro, nem sempre os mesmos substantivos são acompanhados dos mesmos adjectivos. Seria preciso demonstrar, para chegar a qualquer conclusão, que os adjectivos não variam em Bernardim de écloga para écloga. Além de que as diversidades coleccionadas por Raul Soares são meramente acidentais, porque, na essência, revelam o mesmo estado de espírito, a mesma visão e o mesmo processo artístico. Finalmente, quanto à métrica, mais perfeita no Crisfal, qual foi o poeta que não variou e aperfeiçoou a sua métrica, principalmente se, como este, acompanhou a moda literária do seu tempo? A isto acrescentou Michaëlis que os arcaísmos são menos frequentes no Crisfal que nas Éclogas: diferença de quantidade apenas, e por isso improbativa; e que ideias heréticas não as encontro em Bernardim, mas sim na estrofe 99, em que Crisfal diz: não sei que a Deus custara...

Resultam destes dois factos, no Crisfal, aspectos insólitos ou desusados nas Éclogas: a cena dos beijos, o amor correspondido e viril, a localização geográfica precisa, a utilização de motes e cantigas alheias e até de versos castelhanos, e, enfim, aquele acabamento tão donairoso. Notemos, porém, duas coisas em réplica aos dois argumentos de Raul Soares: quanto ao facto de a história narrada no Crisfal não ser idêntica à história das Éclogas e da Menina e Moço, ele não é suficiente para nos obrigar a concluir que o autor daquele não seja o autor destas, porque o mesmo autor poderia ter tratado temas diversos, ter-se inspirado em casos diversos. E, quanto à diferença de estrutura, de realização artística, ela mostra que o Crisfal e as cinco Éclogas não pertencem ao mesmo género literário: de facto, já Menendez y Pelayo distinguia entre a pastoral lírica e a écloga dramática, a primeira tendendo a confundir-se com o puro lirismo, a segunda  a assimilar-se ao teatro. Nesta última categoria se classificará o Crisfal, a que alguém chamou já um drama trovado; e, se Bernardim Ribeiro cultivou, entre outros géneros, novela, romance, cantiga, sextina, etc., a pastoral lírica, quem nos impede de supor que cultivasse também a écloga dramática?

In António José Saraiva, Poesia e Drama, Estudos sobre Bernardim Ribeiro, Gradiva Publicações, Lisboa, 1996, ISBN 972-662-477-0.

Cortesia de Gradiva/JDACT

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Poesia e Drama. Ensaio sobre a Poesia de Bernardim Ribeiro. António José Saraiva. « O Autor só considera aqui o seu caso particular, pessoal: ele, ela, outrem. Só vê interesses pessoais em jogo. O aspecto geral e filosófico do problema interessa-lhe acessoriamente...»

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«(…) Sem falar já na diferença que há entre os dois textos quanto ao ritmo, à simetria da frase, à fluência da linguagem e à energia do conceito, chamo a atenção para a ideia final de ambos eles: o termo da vida. Para o autor da Carta isso representa única e secamente um prazo:

em quanto eu vivo for.

Para um artista como Bernardim, essa ideia foi um recurso admiravelmente aproveitado, uma fuga, para prolongar e dar uma energia inesperada ao sentimento de um amor avassalante:

té de todo me acabar
vós e vossa saudade.

Enfim, uma última observação, que é estranho ninguém tenha feito até hoje: Delfim Guimarães não conseguiu encontrar na Carta um único verso ou passo igual ou semelhante a qualquer verso ou passo da obra de Bernardim Ribeiro. E o Crisfal? Com esse o caso muda de figura:
  • Há no Crisfal uns sete versos iguais a outros de Bernardim e trinta e três passos parecidos. Há em ambos os autores antíteses como mal e bem, prazer e pesar; trocadilhos, conceitos, fórmulas derivativas como vejo e verei ou amo e amarei; repetições como minhas mágoas derradeiras-minhas derradeiras mágoas, que como estribilhos musicais dão certa graça ingénua às ideias. As construções gramaticais são paralelas.
Por outro lado, revelam-se no Crisfal precisamente as qualidades que faltam na Carta: dialéctica amorosa, poder de análise psicológica, capacidade de elevação do particular ao geral, antíteses, imagens, ritmo. Veja-se, por exemplo, como a ideia da constância do amor, tão canhestramente expressa no passo atrás citado da Carta, se reflecte numa imagem impressionante da Écloga:

Pois, por mal que se guarde,
sempre será meu amor
como a sombra, em quanto eu for:
quanto vai sendo mais tarde
tanto vai sendo maior.
Est. 83.

Outro exemplo. Tanto na Carta como na Écloga é versado o tema Amor e Riqueza. Eis o que se lê na Carta:

Cuidai quanto nos quisemos,
e não vos possa mudar
dizer que vos podem dar
outrem que tenha mais que eu.
Pode ser, não nego eu;
mas bem vos posso afirmar
que não podereis achar
outrem que tanto vos queira.
Olhai que, à derradeira,
riqueza não tira dor:
pois antre ela e o amor
qual é mais pera estimar
deve ser bem de julgar.

O Autor só considera aqui o seu caso particular, pessoal: ele, ela, outrem. Só vê interesses pessoais em jogo. O aspecto geral e filosófico do problema interessa-lhe acessoriamente, num único verso:

riqueza não tira dor.

In António José Saraiva, Poesia e Drama, Estudos sobre Bernardim Ribeiro, Gradiva Publicações, Lisboa, 1996, ISBN 972-662-477-0.

Cortesia de Gradiva/JDACT

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Grandes Reportagens de Outros Tempos. Amador Patrício. «Saía ocultamente, pelo postigo junto às casas onde habitava, e ia procurar o duque para lhe instilar, no espírito vaidoso e inconsiderado, a peçonha da sua maldade. Cativou-o fazendo-lhe entrever que, uma vez morto el-rei João, ele, duque, seria alçado a governar»

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João II e o duque de Viseu
Setúbal, 28 de Agosto de 1484
«Esta pacífica vila vive horas de terror e espanto! As portas estão cerradas e mui bem guardadas, lêem-se grandes e temerosos pregões na praça pública, os ginetes da guarda de el-rei andam a percorrer os caminhos em várias diligências, e há ordem de prisão contra muitas pessoas da primeira nobreza do reino. É que foi descoberta nova conjura contra a vida do rei nosso Senhor, da qual eram cabeças Garcia Menezes, bispo de Évora, e o senhor Diogo, duque de Viseu. Daí as buscas e prisões ordenadas e a justiça que esta noite foi feita na pessoa do jovem e desventurado irmão da rainha D. Leonor. Narremos o que, sobre estes tristes factos, conseguimos apurar.
A sentença, que em Évora se executou, degolando Fernando, duque de Bragança, parece que devia ser servido de aviso a todos os fidalgos irrequietos e ambiciosos que guardassem ainda qualquer animadversão contra o seu rei. Foi, nessa ocasião, paternalmente admoestado o duque de Viseu, a quem Sua Alteza tanto queria, e contra quem não procedeu com mais rigor pelo amor e respeito que dedica à rainha sua esposa. Mas nem o temor do cutelo nem a suavidade dos conselhos desarmaram completamente aqueles maus portugueses, que continuaram a alimentar abominável sanha contra el-rei e a congeminar o crime horroroso de lhe tirar a vida. Começou a ser planeada a nova conjura quando a corte se trasladou a Santarém.
Instalou-se o duque de Viseu na casa do arcebispo de Lisboa, junto ao mosteiro de S. Domingos das Donas, já fora da cerca da cidade. O bispo de Évora, Garcia, poisou nas casas de um tal Afonso Caldeira, junto ao postigo de Santo Estêvão. Este prelado, que, por suas letras, fidalguia e haveres, deveria ser o primeiro a dar o exemplo de vassalo obediente, concebeu tal rancor contra el-rei que foi ele o instigador e mau conselheiro de toda esta negra trama. Saía ocultamente, pelo postigo junto às casas onde habitava, e ia procurar o duque para lhe instilar, no espírito vaidoso e inconsiderado, a peçonha da sua maldade. Cativou-o fazendo-lhe entrever que, uma vez morto el-rei João, ele, duque, seria alçado a governar. A ambição de ser rei turvou completamente o coração do duque de Viseu, e assim é que dentro em pouco, aos dois conspiradores se juntavam Fernando Meneses, irmão do bispo, Fernão Silveira, escrivão da puridade de el-rei e filho do barão de Alvito, Guterrez Coutinho, filho do marechal, a quem el-rei havia dado a comenda de Sesimbra, Álvaro Ataíde, irmão do conde de Atouguia e do prior do Crato, e seu filho Pedro Ataíde, o conde de Penamacor, Lopo Albuquerque e Pero Albuquerque, seu irmão, alcaide-mor do Sabugal, e outros fidalgos.
Como se vê, era vasta a conspiração e abrangia pessoas da mais alta hierarquia. Apesar disso andava tão bem urdida que só tarde Sua Alteza o rei veio a tomar conhecimento dela. Soube-o, segundo aqui se afirma, por denúncia de Diogo Tinoco, irmão de Margarida Tinoco, manceba do bispo de Évora, a quem este, pelo visto, confiava os seus maiores segredos. Tinoco foi, primeiro, dar parte da conjura a Antão Faria, para que informasse o monarca do que se passava; mas, depois, procurou avistar-se com el-rei e falou-lhe directamente, no convento de S. Francisco, desta vila, porém, vestido de frade, para maior dissimulação. Parece que Sua Alteza lhe agradeceu muito o recado e lhe mandou dar 5000 cruzados em ouro e uma renda vitalícia, paga de tão grande serviço». In Amador Patrício, Grandes Reportagens de Outros Tempos, ilustração de Martins Barata, prefácio de Caetano Beirão, Empreza Nacional de Publicidade, Minerva, 1938.

Cortesia de Minerva/JDACT

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Grandes Reportagens de Outros Tempos. Amador Patrício. «A sanha da populaça era cada vez maior, e, como não visse sua vontade satisfeita, foram alguns buscar uma escada e entraram na Sé por uma fresta. Bradava-se que se visse porque não repicavam os sinos e, se fosse por determinação do bispo, que o deitassem abaixo»

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(Continuação)

Uma Revolução em Lisboa
Lisboa, 7 de Dezembro de 1383
«Enquanto o conde de Barcelos vinha ao encontro do Mestre e, depois de o abraçar, o conduzia a seus paços para lhe dar de comer, o povo, amotinado, concentrava-se em volta da Sé, indignado, porque, ao contrário do que sucedera em S. Martinho e noutras igrejas, o bispo não mandara repicar as campanas. - Que repicassem! Que repicassem!
Mas o bispo Martinho, ou por não saber do que se tratava, ou, como era castelhano, por ser partidário da rainha e do conde, mandou cerrar todas as portas e recolheu-se a uma das torres acompanhado do prior de Guimarães e dum tabelião de Silves, que tinham vindo visitá-lo.
A sanha da populaça era cada vez maior, e, como não visse sua vontade satisfeita, foram alguns buscar uma escada e entraram na Sé por uma fresta. Bradava-se que se visse porque não repicavam os sinos e, se fosse por determinação do bispo, que o deitassem abaixo. Um dos que subiram foi Silvestre Esteves, que é procurador da cidade e alcaide pequeno dela. Homem honrado, ouviu as razões do bispo e deu-se por satisfeito. Mas a turba enfurecida e que não queria saber de razões e já clamava que, se o bispo Martinho não era atirado abaixo, iriam lá acima também e então seriam atirados com ele todos os que lá estavam.
As ameaças e o furor chegaram a tal ponto que os que tinham subido se viram obrigados a matar o bispo, com feridas, e a lançar seu corpo à rua. Um escudeiro, inimigo do prior de Guimarães, aproveitou aquela ocasião para se vingar e atirou-o também da torre. E o mesmo sucedeu ao coitado do tabelião, cujo delito não era outro que ter ido visitar o bispo Martinho. Este foi despojado de toda a vestidura, roubado, espezinhado e, nu, arrastado, com um baraço nas pernas, pelas ruas até o Rossio, onde o deixaram para ser comido pelos cães. Há sempre destes excessos em alvoroços populares, e, embora muitas pessoas os reprovem, ninguém ousa, em tais ocasiões, impedi-los ou criticá-los.


Depois dos factos que acabamos de narrar, tornou o Mestre ao Paço, parece que a pedir perdão à Rainha, não de ter morto o conde, mas de o ter feito em casa dela. A Rainha, já, mais senhora de si, não só não lhe deu o perdão, como o admoestou por o que fizera. Saíram o Mestre, os condes e os outros fidalgos que o acompanhavam pouco satisfeitos da visita. Aproveitou a Rainha a noite para mandar enterrar o seu conde, o mais escondidamente que foi possível, na igreja de S. Martinho, que fica mui cerca de seus paços. Soubemos isto por confidência dum criado de D. Leonor. O povo continua amotinado, e, à hora de fecharmos o jornal, fala-se num assalto à Judiaria para matar Judas, David Negro e outros judeus ricos e entregar seu dinheiro ao Mestre para sua honra e defensão. Porque ninguém se convence de que El-Rei de Castela não passe, com seus exércitos, a fronteira, para tentar assenhorear-se de Portugal.
Mas todos põem sua esperança no Mestre de Avis, a quem querem eleger por Regedor e Defensor do Reino. Deus o proteja para que ele, com sua espada e o esforço de todos, possa bem defender a nossa terra de cair em mãos de castelhanos!» In Amador Patrício, Grandes Reportagens de Outros Tempos, ilustração de Martins Barata, prefácio de Caetano Beirão, Empreza Nacional de Publicidade, Minerva, 1938.

Cortesia de Minerva/JDACT

quinta-feira, 7 de março de 2013

Grandes Reportagens de Outros Tempos. Amador Patrício. «Ao verem as portas cerradas quiseram arrombá-las à pedrada e houve muitos que juntavam lenha e pediam lume para pôr fogo ao palácio e queimarem o “trèdor” e a “aleivosa”. Outros queriam escadas para subir acima e ver onde estava o Mestre»


jdact

(Continuação)

Uma Revolução em Lisboa
Lisboa, 7 de Dezembro de 1383
«A seguir, mandou a Fernão de Álvares e Lourenço Martins que fossem fechar as portas do palácio para que ninguém entrasse, e dissessem ao seu pajem que corresse pelas bradando que queriam matar o Mestre. Era o sinal combinado com Álvaro Pais para o levantamento. Entretanto a Rainha, que tinha ouvido o ruído daquela cena, mandou ver o que se passava; ao ser informada do sucedido, rompeu em lamentações pela morte do seu amado conde, mas, cheia de temor, não ousava condenar os matadores. Ordenou apenas que preguntassem ao Mestre se ela ia morrer também. - Dizei lá à Rainha, minha Senhora, - respondeu ele - que esteja sossegada em sua câmara, porque não tem que temer. Eu vim unicamente para fazer isto a este homem, que bem mo havia merecido.
No Paço espalhou-se um pavor tal que João Gonçalves e os outros escrivães largaram de súbito o livro dos vassalos e puseram-se a fugir, cada um por sua banda. Os outros criados da Rainha não procuraram as portas, mas as janelas, para se verem fora dali. Alguns saltaram para os telhados. Perante esta debandada, Lourenço Martins foi-se à cozinha e de lá trouxe uma soma de prata que apresentou ao Mestre: - Já aqui tendes, Senhor, para a despesa de hoje! Mas ele retorquiu-lhe asperamente que fosse repor a prata donde a tirara, pois não fora para isso que voltara a Lisboa.
Os fidalgos partidários do conde não tornaram a aparecer, porque, quando voltavam para o Paço, foram informados do que se passara, e, perante os magotes de gente que já corriam pelas ruas, recearam ser chacinados e trataram de se pôr a salvo. A partida estava ganha...

O pajem percorria a cidade aos gritos de:
  • Matam o Mestre! Matam o Mestre! Acorrei que o matam!
Tudo saía à rua a ver o que sucedera e, começando a falar uns com os outros, exaltavam-se e corriam a tomar armas, cada um como podia. Era a revolução.
Então, Álvaro Pais, que já estava a postos e armado, com sua coifa na cabeça, montou a cavalo, o que há muitos anos não fazia, e conduziu aquele povo miúdo, dizendo:
  • Acudamos ao Mestre, amigos, que e filho de El-Rei Pedro I!
Chegaram em frente do Paço e a gente que o seguia era já tanta que nem cabia nas ruas. A indignação cada vez maior porque todo o povo estava com o Mestre e contra a Rainha. Ao verem as portas cerradas quiseram arrombá-las à pedrada e houve muitos que juntavam lenha e pediam lume para pôr fogo ao palácio e queimarem o trèdor e a aleivosa. Outros queriam escadas para subir acima e ver onde estava o Mestre. O barulho era ensurdecedor e já ninguém se entendia. - O Mestre! O Mestre!
Das janelas bradavam que o Mestre era vivo e João Fernandes morto; mas ninguém queria crer que assim fosse.
  • Pois se ele é vivo, mostrai-no-lo!
O alvoroço tornou-se tamanho que o Mestre João resolveu aparecer a uma grande janela que dá para a rua. Foi então alvo de grandes aclamações. Muitos choravam de o ver vivo. - Ah, porque matastes o traidor do conde e não matastes também logo a aleivosa! oh, aleivosa! Oh, aleivosa! E matavam-na se conseguissem ir lá acima.
O Mestre, para apaziguar aquela gente, é que desceu à rua e, montando a cavalo, dirigiu-se, acompanhado de todos os seus, para os paços do almirante, ao Rossio. Coisa maravilhosa era de ver o povoléu que o seguia, aos brados: - Que nos mandais fazer, Senhor? Que quereis que façamos? Ao que ele respondia que por enquanto de mais nada havia mister; e, às janelas, as donas da cidade, a saudarem-no em altas vozes:
  •  - Mantenha-vos Deus, Senhor! Bento seja Deus, que vos guardou de tamanha traição!
Era já quase alçarem-no por Rei.

In Amador Patrício, Grandes Reportagens de Outros Tempos, ilustração de Martins Barata, prefácio de Caetano Beirão, Empreza Nacional de Publicidade, Minerva, 1938.

continua
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Grandes Reportagens de Outros Tempos. Amador Patrício. «Justificou-se o Mestre de Avis dizendo que voltara a Lisboa porque, para a defesa das terras de entre Tejo e Guadiana, que lhe fora confiada, era insuficiente a gente de que dispunha, e que portanto lhe desse a Rainha mais vassalos»


jdact

Uma Revolução em Lisboa
Lisboa, 7 de Dezembro de 1383
«Grande alvoroço vai por esta cidade de Lisboa! Assuadas, tumultos, mortes, prenúncios de mais graves acontecimentos. Iminência de nova guerra com Castela? Mas também uma fé viva, no coração do povo, e o desejo ardente de, todos os bons portugueses em volta do Mestre, defenderem a independência de Portugal. O Mestre! Anda seu nome aclamado pelas ruas da cidade, desde que ontem tornou a ela.
Foi assim: Era já o sol nado, quando a Lisboa voltou mestre João, Mestre de Aviz, acompanhado dos seus, o comendador de Juromenha, Fernão de Álvares, Lourenço Martins de Leiria, Vasco Lourenço Meirinho, Lopo Vasques e outros. Eram vinte, com cotas, braçais e espadas cintas, como homens caminheiros. Chegados ao Paço, desceram de seus cavalos, subiram a escada e foram até a câmara onde estava a Rainha. O porteiro, logo que entrou o Mestre, quis cerrar a porta, para que não passasse mais nenhum. Mas o Mestre João fê-los entrar a todos e dirigiu-se logo ao estrado onde estava a cunhada, para a saudar. A Rainha, rodeada de algumas das suas donas e acompanhada do conde de Barcelos, do conde Álvaro Peres, de Fernão Afonso de Samora e de outros fidalgos, ouvia o conde João Fernandes que, de joelhos,
lhe falava baixinho. Ao ver o Mestre, levantou-se e perguntou-lhe: 
  •  - Irmão, que é isso? A que tornastes de vosso caminho? - Porque João partira na véspera, com ordem da Rainha, acordada em conselho para levantar as terras do Mestrado e algumas vilas e castelos em redor, em defesa da fronteira ameaçada pelo rei de Castela, que dá mostras de querer entrar em Portugal.
Justificou-se o Mestre de Avis dizendo que voltara a Lisboa porque, para a defesa das terras de entre Tejo e Guadiana, que lhe fora confiada, era insuficiente a gente de que dispunha, e que portanto lhe desse a Rainha mais vassalos, para que ele a pudesse bem servir, como cumpria a sua honra e ao serviço real. Achou a Rainha razoável o pedido e mandou chamar João Gonçalves, seu escrivão da puridade, para que indicasse quem poderia servir com o Mestre. Enquanto João -Gonçalves e os seus escrivães consultavam o livro de vassalos daquela comarca e preparavam as convocações, começaram os condes a convidar o Mestre de Avis a comer com eles, inclusive o de Andeiro, mas de todos ele se escusou dizendo que já tinha mandado preparar o jantar.
Consta que pôs logo o conde de Barcelos ao corrente das suas intenções e que, pretendendo este acompanhá-lo na temerária empresa, o Mestre insistiu por que partisse, pois, tanto que tudo fosse feito, iria ter com ele. Desconfiou o conde João Fernandes daquele retorno precipitado do Mestre, pelo que ordenou à sua gente que se fosse armar. Esta a razão por que nenhum dos seus estava presente quando o mataram, o que evitou, sem dúvida, que as coisas se passassem mui diferentemente, ou, pelo menos, que houvesse maior efusão de sangue.
Chegada a hora de comer, insistiu novamente João Fernandes para que o Infante jantasse com ele. Seria talvez a maneira de o ter mais vigiado. O Mestre manteve a sua recusa; mas como o conde teimasse e fizesse menção de ir mandar preparar rapidamente a comida, atalhou aquele:
  •  - Não vades, que eu vos hei-de falar duma coisa, antes que me vá, e logo me quero ir porque são horas de comer.
Despediu-se da Rainha, tomou o conde pela mão e conduziu-o a uma grande sala contígua à câmara em que estavam. Seguiram-nos os companheiros do Mestre, que já sabiam o que se ia passar, e, mais cerca, Rui Pereira e Lourenço Martins. Uma vez ali, João levou o conde de Andeiro para junto duma janela e falou-lhe tão baixo que ninguém conseguiu ouvir o que lhe dizia; todavia, afirma-se que as frases trocadas foram estas:
  •  - Conde, eu me maravilho muito de serdes pessoa que eu estimava e trabalhardes vós de minha deshonra e morte! – Eu, Senhor?! - Replicou ele. - Quem vos tal coisa disse mentiu-vos mui grão mentira.
O Mestre, que mais vontade tinha de o matar que de se travar de razões, tirou logo um cutelo comprido e mandou-lhe um golpe à cabeça. Não seria a ferida mortal, pois que o conde ainda tentou acolher-se à câmara da Rainha. Os outros, porém, logo que isto viram, rodearam-no, desembainharam as espadas, e foi Rui Pereira quem, duma estocada, o matou de pronto. Quiseram outros feri-lo também, mas o Mestre mandou-os estar quedos e nenhum se moveu». In Amador Patrício, Grandes Reportagens de Outros Tempos, ilustração de Martins Barata, prefácio de Caetano Beirão, Empreza Nacional de Publicidade, Minerva, 1938.

continua
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