Mostrar mensagens com a etiqueta Guerra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guerra. Mostrar todas as mensagens

domingo, 14 de novembro de 2021

A Bailarina de Auschwitz. Edith Eva Eger. «Quando falo de vítimas e sobreviventes, não estou culpando as vítimas, muitas jamais tiveram chance de se defender»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Minha própria busca pela liberdade e meus anos de experiência como psicóloga clínica me ensinaram que o sofrimento é universal, mas que o complexo de vítima é opcional. Existe uma diferença entre ser vítima e assumir o papel de vítima. Somos todos susceptíveis a nos tornar vítimas de alguma maneira. Todos sofreremos algum tipo de aflição, desgraça ou abuso causado por pessoas ou circunstâncias sobre as quais não temos controle. Isso é ser vítima. É algo que vem de fora. É o valentão da escola, o chefe furioso, a esposa que agride, o amante que trai, a lei que discrimina, o acidente que o leva para o hospital. Em contrapartida, o complexo de vítima vem de dentro. Ninguém pode fazer sentir-se inferior, a não ser você mesmo. Nós nos tornamos vítimas não pelo que acontece connosco, mas quando escolhemos nos agarrar ao sofrimento. Desenvolvemos uma forma de pensar e de agir que é rígida, culpada, pessimista, presa ao passado, rancorosa, punitiva e sem limites saudáveis. Nós nos tornamos nossos próprios carcereiros quando escolhemos ficar confinados ao papel de vítima.

Quero deixar uma coisa bem clara. Quando falo de vítimas e sobreviventes, não estou culpando as vítimas, muitas jamais tiveram chance de se defender. Nunca poderia culpar aqueles que foram enviados para as câmaras de gás, que morreram de fome ou mesmo os que correram na direcção da cerca eléctrica de arame farpado. Sofro por todas as pessoas que são condenadas à violência e à destruição todos os dias. E vivo para orientar os outros a se fortalecerem diante das adversidades da vida. Também quero dizer que não existe uma hierarquia do sofrimento. Não há nada que torne a minha dor maior ou menor que a sua, nenhum gráfico no qual possamos registar a importância relativa de uma dor sobre a outra. As pessoas me dizem As coisas na minha vida estão muito difíceis agora, mas não tenho o direito de reclamar, não é Auschwitz. Esse tipo de comparação pode nos levar a minimizar ou depreciar nosso sofrimento. Ser um sobrevivente exige aceitação total do que aconteceu. Menosprezar sua dor ou se punir porque se sente perdido, isolado ou assustado com os desafios da vida, por mais insignificantes que esses desafios pareçam para os outros, também é escolher bancar a vítima. Ao fazer isso, não estamos vendo nossas opções. Estamos nos julgando. Não quero que leia minha história e diga Meu sofrimento é menos importante. Quero que afirme Se pode fazer isso, eu também posso!.

Certa manhã eu atendi a duas pacientes, uma logo depois da outra. As duas eram mães na faixa dos 40 anos. A primeira tinha uma filha hemofílica que estava morrendo. Ela passou a maior parte da consulta chorando e perguntando como Deus poderia tirar a vida da sua menina. Sinto muito por aquela mulher que se dedicou totalmente a cuidar da filha e estava arrasada com a perda iminente. Ela sentia raiva, sofria e não sabia se conseguiria sobreviver àquela dor». In Edith Eva Eger, A Bailarina de Auschwitz, 2017, Editora Desassossego, 2018, ISBN 978-989-889-218-8.

Cortesia de EDesassossego/JDACT

JDACT, Edith Eva Eger, Guerra, Literatura, Conhecimento, 

domingo, 24 de outubro de 2021

A Bailarina de Auschwitz. Edith Eva Eger. «Fome de aprovação, de atenção, de afeição. Temos fome de liberdade para aceitar a vida e para realmente nos conhecermos e sermos nós mesmos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Logo eu descobriria a origem do trauma de Jason e ele descobriria que, apesar de nossas óbvias diferenças, tínhamos muita coisa em comum. Ambos conhecíamos a violência. E ambos sabíamos como era ficar paralisado. Eu também carregava uma ferida dentro de mim, uma tristeza tão profunda que por muitos anos não fora capaz de falar a respeito com ninguém. O passado ainda me assombrava: uma sensação de atordoamento e ansiedade sempre surgia quando eu ouvia sirenes, passos pesados ou homens gritando. Isso, eu aprendera, é o trauma. A sensação quase permanente no estômago de que alguma coisa está errada, ou de que algo terrível está para acontecer, faz as respostas automáticas do medo em meu corpo me dizerem para fugir, me proteger, me esconder do perigo que está em toda parte. Meu trauma pode ainda aparecer em situações prosaicas. Uma visão súbita ou um cheiro específico têm o poder de me transportar de volta para o passado. No dia em que conheci o capitão Fuller, fazia mais de trinta anos que eu tinha sido libertada dos campos de concentração do Holocausto. Hoje, mais de setenta anos se passaram. O que aconteceu não pode ser esquecido, muito menos mudado. Porém, ao longo do tempo, aprendi que posso escolher como reagir ao passado. Posso sentir-me triste ou esperançosa, posso ficar deprimida ou feliz. Sempre temos essa escolha, essa oportunidade de controle. Estou aqui, isso é agora, aprendi a repetir para mim mesma, sem parar, até o pânico começar a diminuir. O senso comum diz que se uma coisa incomoda ou provoca ansiedade, simplesmente não deve olhar para ela. Não deve encará-la. Portanto, temos o hábito de fugir dos traumas do passado, das dificuldades, dos conflitos e dos desconfortos. Durante grande parte da minha vida adulta eu achei que minha sobrevivência no presente dependia de manter afastados o passado e o sofrimento que ele provocava. Nos meus primeiros anos como imigrante em Baltimore, nos Estados Unidos nos anos 1950, eu nem sequer sabia como pronunciar Auschwitz em inglês. Não que eu quisesse contar que estive lá. Eu não queria que ninguém sentisse pena de mim. Não queria que ninguém soubesse. Eu queria falar inglês sem sotaque e me esconder do passado. Na ânsia de me integrar e com medo de ser engolida pelos meus traumas, me esforcei bastante para manter minha dor em segredo. Eu ainda não tinha percebido que meu silêncio e meu desejo de aceitação, ambos baseados no medo, eram maneiras de fugir de mim mesma. Nem que ao escolher não enfrentar directamente a mim ou ao passado, eu ainda escolhia não ser livre, mesmo décadas depois de meu encarceramento. Eu tinha um segredo que me aprisionava. O capitão do Exército catatónico, sentado imóvel no meu sofá, me lembrou de algo que eu descobrira com o tempo: que quando obrigamos nossas verdades e histórias a se esconderem, os segredos podem se tornar o próprio trauma, a própria prisão. Longe de diminuir a dor, o que nos recusamos a aceitar se torna tão intransponível quanto as paredes de tijolos e barras de aço. Quando não nos permitimos sofrer por nossas perdas, feridas e decepções, estamos condenados a revivê-las. A liberdade está em aprender a aceitar o que aconteceu. Liberdade significa reunir coragem para desmantelar a prisão, tijolo por tijolo.

Coisas ruins acontecem em todo o universo. Não podemos mudar isso. Se olharmos para a nossa certidão de nascimento, por acaso lá está escrito que a vida será fácil? Não, mas muitas pessoas permanecem presas num trauma ou dor, incapazes de viver de maneira plena. Isso, no entanto, é possível mudar. Recentemente, no Aeroporto de Nova York, enquanto esperava meu voo de volta para casa em San Diego, fiquei sentada analisando os rostos de cada estranho que passava. O que vi me emocionou profundamente. Vi tédio, fúria, tensão, preocupação, confusão, desânimo, decepção, tristeza e, o mais preocupante, vazio. Fiquei muito triste ao notar tão pouca alegria naqueles rostos. Mesmo os momentos mais maçantes da vida são oportunidades para sentir esperança, leveza, felicidade. A rotina faz parte da vida, assim como o sofrimento e o stress. Por que algumas vezes nos esforçamos para nos sentirmos vivos e outras nos distanciamos da sensação de viver plenamente? Porque é tão desafiador trazer vida para a vida? Se me perguntasse qual é o diagnóstico mais comum entre as pessoas que atendo, eu não diria depressão ou transtorno de stress pós-traumático, embora essas doenças sejam bastante recorrentes entre aqueles que conheço, amo e oriento para a liberdade. Eu diria que é a fome. Temos fome. Fome de aprovação, de atenção, de afeição. Temos fome de liberdade para aceitar a vida e para realmente nos conhecermos e sermos nós mesmos». In Edith Eva Eger, A Bailarina de Auschwitz, 2017, Editora Desassossego, 2018, ISBN 978-989-889-218-8.

 Cortesia de EDesassossego/JDACT

JDACT, Edith Eva Eger, Guerra, Literatura, Conhecimento,

A Bailarina de Auschwitz. Edith Eva Eger. «Conte-me porque está aqui, tentei novamente. Ele continuou mudo. Senti meu corpo ficar tenso e ser tomado por uma onda de incerteza…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ele não respondeu. Nem sequer piscou. Ele me lembrava um personagem que havia sido transformado em pedra. Que feitiço poderia libertá-lo? Porquê agora?, perguntei. Essa era a minha arma secreta. A pergunta que sempre faço a meus pacientes na primeira visita. Preciso saber por que eles estão motivados a mudar. Porque hoje, entre todos os dias, eles querem começar a trabalhar comigo? Porque hoje é diferente de ontem, da semana passada ou do ano passado? Porque é diferente de amanhã? Às vezes, a dor nos empurra e às vezes, a esperança nos puxa. Perguntar Porquê agora? não é apenas fazer uma pergunta, é perguntar tudo. Um dos olhos dele se fechou momentaneamente, mas ele não disse nada. Conte-me porque está aqui, tentei novamente. Ele continuou mudo. Senti meu corpo ficar tenso e ser tomado por uma onda de incerteza e pela consciência das ténues e decisivas encruzilhadas onde nos encontrávamos: dois seres humanos cara a cara, ambos vulneráveis, ambos correndo riscos enquanto nos esforçávamos para dar nome à angústia e descobrir sua cura. Jason não havia chegado com uma indicação oficial. Aparentemente viera ao meu consultório por conta própria. Mas eu sabia, por experiência pessoal e clínica, que mesmo quando a pessoa decide se curar, pode permanecer travada durante anos.

Considerando a gravidade dos sintomas que ele exibia, se eu não fosse capaz de fazê-lo falar, minha única alternativa seria recomendá-lo a meu colega, o psiquiatra chefe do Centro Médico do Exército William Beaumont, onde fiz o meu doutoramento. O Dr. Harold Kolmer diagnosticaria a catatonia de Jason, o internaria e provavelmente receitaria um medicamento antipsicótico, como o Haldol. Imaginei Jason numa camisola de hospital, os olhos ainda vidrados e o corpo, naquele momento tão tenso, retorcendo-se em convulsões devido aos espasmos musculares muitas vezes provocados pelos remédios prescritos para controlar a psicose. Confio totalmente no conhecimento de meus colegas psiquiatras e sou grata aos medicamentos que salvam vidas, mas não gosto de pular directo para o internamento se houver qualquer chance de sucesso com uma intervenção terapêutica. Eu temia que, se recomendasse internamento e medicação para Jason sem primeiro explorar outras opções, ele trocaria um tipo de entorpecimento por outro. Os membros paralisados ganhariam movimentos involuntários da discinesia, uma espécie de dança descoordenada de tiques e movimentos repetitivos que acontece quando o sistema nervoso envia o sinal para o corpo se mover sem a permissão da mente. O sofrimento dele, não importava a causa, poderia ser silenciado, mas não resolvido, pelas drogas. Talvez ele viesse a sentir-se melhor, ou sentir menos, o que muitas vezes confundimos com a sensação de melhorar, mas não ficaria curado.

E agora? Eu pensava enquanto os minutos se arrastavam pesados e Jason continuava sentado estático em meu sofá. Ele estava ali porque queria, mas ainda assim permanecia aprisionado. Eu tinha apenas uma hora. Uma oportunidade. Conseguiria fazê-lo se abrir? Conseguiria ajudá-lo a anular o potencial violento que eu sentia tão vividamente como o vento do ar condicionado na minha pele? Conseguiria mostrar para ele que, quaisquer que fossem seu problema e sua dor, ele já possuía a chave para a própria liberdade? Na época, eu não tinha como saber que, se fracassasse em fazer Jason falar naquele dia, um destino bem pior do que um quarto de hospital o aguardava: uma vida numa prisão de verdade, provavelmente no corredor da morte. Na época, eu só sabia que precisava tentar. Enquanto analisava Jason, entendi que para alcançá-lo não poderia apelar para os sentimentos. Devia usar uma linguagem mais confortável e familiar para alguém das Forças Armadas. Eu devia dar ordens. Minha única esperança de destravá-lo era fazer com que o sangue circulasse pelo seu corpo. Vamos dar uma caminhada, falei. Não perguntei. Dei a ordem. Capitão, vamos levar Tess ao parque. Agora. Jason pareceu entrar em pânico por um momento. Lá estava uma mulher, uma estranha, falando com um pesado sotaque húngaro e dizendo a ele o que fazer. Vi que ele olhou ao redor, como se estivesse pensando Como faço para sair daqui?. Mas ele era um bom soldado. Ficou de pé. Sim, senhora, respondeu. Sim, senhora». In Edith Eva Eger, A Bailarina de Auschwitz, 2017, Editora Desassossego, 2018, ISBN 978-989-889-218-8.

Cortesia de EDesassossego/JDACT

JDACT, Edith Eva Eger, Guerra, Literatura, Conhecimento, 

quarta-feira, 31 de março de 2021

No 31. A Bailarina de Auschwitz. Edith Eva Eger. «Ela é capaz de ajudar outras pessoas a se recuperar porque conseguiu passar sozinha do trauma à vitória. Ela descobriu como usar sua experiência com a crueldade humana para levar aos outros…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Numa Primavera, a convite do psiquiatra-chefe da Marinha dos Estados Unidos, a dra. Edith Eva Eger embarcou num avião de combate sem janelas para um dos maiores navios de guerra do mundo, o porta-aviões USS Nimitz, fundeado ao largo da costa da Califórnia. O avião desceu em direcção a uma pista curta de 150 metros e aterrsou com o solavanco do gancho de retenção da cauda, encaixando no cabo de travamento, que o impediu de cair no oceano. Única mulher a bordo, a dra. Eger foi acomodada na cabine do capitão. Qual era a sua missão? Ela estava lá para ensinar cinco mil jovens marinheiros a lidar com a adversidade, o trauma e o caos da guerra. Em incontáveis ocasiões, a dra. Eger foi a especialista clínica designada para tratar dos soldados, incluindo os das Forças de Operações Especiais, que sofriam de transtorno de stress pós-traumático e lesões cerebrais. Antes de conhecer a dra. Eger pessoalmente, telefonei para convidá-la a fazer uma palestra no curso de Psicologia do Controle da Mente ministrado por mim em Stanford. Sua idade e o seu tom de voz me levaram a imaginar uma vovozinha do Velho Mundo com um lenço amarrado na cabeça por um laçarote por baixo do queixo. Quando ela se dirigiu aos meus alunos, percebi seu poder de cura. Com um sorriso radiante, brincos brilhantes, cabelos dourados, vestindo Chanel da cabeça aos pés (conforme minha esposa me contou depois), ela descreveu tenebrosas e angustiantes histórias de sobrevivência nos campos de extermínio nazistas de maneira bem-humorada, exalando uma presença que só consigo descrever como pura luz.

A vida da dra. Eger foi pontuada por tragédias. Ela foi presa em Auschwitz quando era apenas uma adolescente. Apesar da tortura, da fome e da constante ameaça de morte, conservou a liberdade mental e espiritual. Não se deixou abater pelos horrores que sofreu e saiu fortalecida pela experiência. Na realidade, a sua sabedoria é resultado dos episódios mais traumáticos que viveu.

Ela é capaz de ajudar outras pessoas a se recuperar porque conseguiu passar sozinha do trauma à vitória. Ela descobriu como usar sua experiência com a crueldade humana para levar aos outros a chance de encontrar a própria luz. Seus ensinamentos já ajudaram militares (como aqueles a bordo do USS Nimitz), casais tentando reencontrar a intimidade, pessoas que foram negligenciadas, agredidas, que são viciadas ou doentes, que perderam entes queridos ou simplesmente a esperança. E podem ajudar a todos nós que enfrentamos diariamente as decepções e os desafios da vida. Sua mensagem nos inspira a fazer as nossas próprias escolhas e a nos libertar do sofrimento. No fim da palestra, todos os meus trezentos alunos se levantaram espontaneamente para aplaudir. Depois, pelo menos cem jovens lotaram o pequeno palco, esperando sua vez para agradecer e abraçar essa mulher extraordinária. Em todas as minhas décadas como professor, nunca vi um grupo de estudantes tão entusiasmado.

Ao longo dos vinte anos em que eu e Edie trabalhamos e viajamos juntos, essa é a reacção que me acostumei a testemunhar de cada público ao qual ela se dirige. Desde um encontro motivacional numa cidade de Michigan, nos Estados Unidos, quando conversamos com um grupo de jovens que enfrenta pobreza, desemprego e um conflito racial crescente, até Budapeste, na Hungria, local em que muitos dos seus parentes morreram e onde ela falou para centenas de pessoas que tentavam recuperar-se de um passado doloroso, eu vi isso acontecer repetidas vezes: as pessoas se transformam na presença de Edie. […]

Prisão. Eu tinha um segredo que me aprisionava

Eu não sabia da arma carregada escondida sob a camisa, mas, no momento em que o capitão Jason Fuller entrou no meu consultório, em El Paso, num dia de Verão de 1980, senti um aperto no estômago e uma fisgada na nuca. A guerra tinha-me ensinado a perceber o perigo antes mesmo que eu fosse capaz de explicar porque estava com medo. Jason era alto, tinha o físico magro de um atleta, mas o seu corpo era tão rígido que ele mais parecia um pedaço de madeira do que um ser humano. Seus olhos azuis eram distantes, o queixo era duro e ele não falava, ou não conseguia falar. Eu o encaminhei para o sofá branco, onde ele se sentou recto, com as mãos nos joelhos. Eu não conhecia Jason e não tinha ideia do que havia desencadeado o seu estado catatónico. Seu corpo estava próximo o suficiente para ser tocado, e sua angústia era quase palpável, mas ele estava longe, perdido. Nem parecia notar Tess, minha cachorrinha poodle cinza, que continuava parada, atenta, perto da mesa, como uma segunda estátua viva na sala.

Respirei fundo e procurei uma maneira de começar. Às vezes, começo a primeira sessão com o paciente me apresentando e contando um pouco da minha história e da abordagem que utilizo. Às vezes, pulo directo para a parte de identificar e investigar os sentimentos que trouxeram o paciente ao meu consultório. Com Jason, parecia essencial não pressionar com informações demais ou pedir que ficasse vulnerável. Ele estava completamente travado. Eu precisava encontrar uma maneira de lhe oferecer a segurança de que ele precisava para arriscar-se a me mostrar o que mantinha tão fortemente guardado. Eu precisava prestar atenção ao sistema de alerta do meu corpo sem deixar meu senso de perigo encobrir a obrigação de perguntar: como posso ser útil?» In Edith Eva Eger, A Bailarina de Auschwitz, 2017, Editora Desassossego, 2018, ISBN 978-989-889-218-8.

Cortesia de EDesassossego/JDACT

JDACT, Edith Eva Eger, Guerra, Literatura, Conhecimento,

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

O Mágico de Auschwitz.. «… política de apaziguamento em relação às novas exigências alemãs sobre a Polónia, dizendo que à luz destes acontecimentos a minoria alemã em Danzig poderá ser tentada a seguir o exemplo dos alemães dos Sudetas e...»

jdact e cortesia de wikipedia

Prólogo

«(…) Bertie!, chamou Gerda. Olha as notícias! Depois do frenesim dos apelos à calma na véspera, a telefonia passara toda essa manhã de 16 de Março de 1939 a emitir música clássica, decerto requiems pelo país que acabava de morrer. Mas pelos vistos o defunto ainda mexia porque havia novidades. Ou então era a oração fúnebre. Abandonando a janela, Levin encaminhou-se apressadamente para o quarto da costura, onde a mulher preparava os trajes especiais para os espectáculos de magia. Gerda terminava o vestido dourado da princesa Karnac, um número espectacular que ele andava a planear para a nova temporada. Sentou-se ao lado dela, junto a um enorme aparelho de rádio de cujos altifalantes jorrava a voz de um locutor checo. O casal, que só começara a aprender a língua quando para ali fora viver, tinha de se concentrar para compreender o que era dito. ... depois de o presidente Hácha ter assinado em Berlim um documento a solicitar ao exército alemão que ponha o destino do país e do povo checo nas mãos do Führer, noticiou o locutor no tom monocórdico de quem não se queria comprometer com nada. O senhor Hi… prepara-se para anunciar a transformação do nosso país num protectorado da Alemanha, o Protectorado da Boémia e da Morávia. O primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, reagiu em Londres para sublinhar que não houve nenhuma agressão alemã, uma vez que a invasão teve a aquiescência da Checo-Eslováquia. No entanto, o senhor Chamberlain observou que pela primeira vez a Alemanha ocupa o território de uma população que não é germânica. Vários membros do Parlamento britânico perguntaram ao governo do senhor Chamberlain se manterá a política de apaziguamento em relação às novas exigências alemãs sobre a Polónia, dizendo que à luz destes acontecimentos a minoria alemã em Danzig poderá ser tentada a seguir o exemplo dos alemães dos Sudetas e... Os Levin seguiam as notícias e os comentários sobre as ramificações geoestratégicas dos acontecimentos, mas o que verdadeiramente os preocupava eram as implicações para as suas vidas. Sendo judeus, não ignoravam as ideias dos nacional-socialistas. Fora por isso que tinham saído de Berlim e ido viver para o único país democrático da Europa Central. E agora aquela mesma gente seguira-os até ali. Tentavam convencer-se a si mesmos de que a perseguição aos judeus aconteceria só na Alemanha; nos outros países não haveria problemas pois os nazis apenas não queriam os judeus na Alemanha. O que lhes importava que houvesse judeus na Checo-Eslováquia ou em qualquer outra terra? Decerto tudo iria correr bem.

Depois de pentear o filho com um pente molhado, Levin vestiu-lhe o casaco e olhou para o relógio; eram dez e meia da manhã. Passara duas horas no Hokus-Pokus, a loja de ilusionismo que abrira anos antes, mas o movimento nesses dias era lento. Tudo por causa da guerra. Havia já alguns meses que os alemães tinham entrado em Praga e ali estavam eles outra vez ao ataque. Dessa feita o alvo fora a Polónia, invadida havia dois dias. Ansioso com as novidades, fora buscar Peter para um passeio que o pusesse na rota das notícias. Onde vamos, papá? Queres ir ao Reino dos Comboios? O menino arregalou os olhos, como se lhe prometessem um chocolate. Que’o, que’o! Levin sorriu. Não havia melhor sítio em Praga para entreter uma criança que o grande parque temático da cidade. Abotoou o casaco ao filho e pegou-lhe ao colo. Quando se dirigia para a saída passou pela cozinha e espreitou para o interior. A mulher estava de avental à roda dos tachos a preparar o almoço. Vamos dar uma voltinha, anunciou. Voltamos daqui a pouco, está bem? Tenham, tenham cuidado. Apesar de ainda ser Setembro, soprava uma brisa fresca pelo bairro de Holešovice. Dando a mão ao filho, encaminhou-se para a Veletržní mas lembrou-se que as autoridades tinham acabado de interditar a circulação de judeus por essa rua. O melhor seria seguir pela bem mais discreta Šimáčková. Que soubesse, ainda podia caminhar por ali. Teria era de ser cuidadoso quando cruzasse a rua, porque de um dia para o outro os alemães haviam mudado o sentido da condução e os carros vinham da direcção contrária; da esquerda, a condução passara para a direita. Quando viraram para a Šimáčková cruzaram uma pastelaria com pastéis na montra; viam-se cestos de trdelník, medovník, koláče e outras iguarias, e sabiam que no interior havia ainda strudel e crepes palačinky. Que’o um bouo. O olhar de Levin desviou-se para a tabuleta na porta a  dizer Juden verboten. Os judeus estavam proibidos de entrar. Aquilo  era outra novidade trazida pelas forças de proteção. Então também já não se podia entrar nas pastelarias? Em boa verdade, as primeiras iniciativas contra os judeus tinham surgido ainda antes de os alemães marcharem sobre o país. No meio da crise, o governo democrático de Edvard Beneš demitira-se e fora substituído por um executivo autoritário que estabelecera a censura e afastara os judeus da função pública e do quadro médico dos hospitais. Novas medidas surgiram dois dias depois da entrada dos alemães em Praga, quando o governo checo, já tutelado pelos nazis, limitara a actividade de advogados e gestores judeus». In José Rodrigues dos Santos, O Mágico de Auschwitz, 2020, Edições Gradiva, 2020, ISBN 978-989-616-884-1.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, Guerra, Nazismo, Literatura,

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

O Mágico de Auschwitz. José Rodrigues dos Santos. «Tudo o que se passa no mundo onde vivemos é em nós que se passa. Tudo o que cessa no que vemos é em nós que cessa»

jdact e cortesia de wikipedia

«O Mágico de Auschwitz revela-nos a Shoah como nunca foi mostrada. Baseando-se em acontecimentos verídicos e em personagens reais, José Rodrigues dos Santos transporta-nos ao coração do maior dos campos da morte nazis e revela-nos episódios desconhecidos do Holocausto, incluindo o papel que o misticismo e o esoterismo desempenharam na Solução Final. Uma das mais importantes obras da literatura portuguesa contemporânea». In Resumo

«Tudo o que se passa no mundo onde vivemos é em nós que se passa. Tudo o que cessa no que vemos é em nós que cessa». Fernando Pessoa.

Prólogo

«O som cadenciado das botas no alcatrão dava a impressão de que o mar chegara a Praga. E que mar! As passadas pareciam ondas, tão insistentes e furiosas que se diria fustigarem rochas. Herbert Levin decidira não ver. Recusava-se a dar importância ao que acontecia lá fora; não aceitava aquele rumo da história. Queria acreditar que se nada visse o mundo se manteria como sempre fora e não aquilo em que se estava a transformar. Mas a realidade não se inclinava aos seus desejos. Abeirou-se da janela a contragosto e do segundo andar espreitou a rua com o despeito de um espectador contrariado. Lá em baixo, ignorando os flocos de neve que salpicavam o ar de branco, os soldados marchavam em formação. Um rectângulo perfeito, sete homens de um lado ao outro da rua, vinte de frente para trás, um espaço, outro rectângulo de soldados, outro espaço, outro rectângulo de soldados. Pernas estendidas como se não tivessem joelhos, para cima e para baixo, a marcha compassada como um relógio, para cima e para baixo, os movimentos sincronizados, botas para cima, botas para baixo, a neve a cair, o branco a amontoar-se. Neve branca e corações negros. Capacetes de aço, baionetas nas espingardas, reflexos no metal, as espingardas fixas nas costas. Apenas as pernas e as botas se moviam, para cima e para baixo, para cima e para baixo; não eram homens mas máquinas, rectângulos atrás de rectângulos, uma marcha de autómatos. Não queriam saber da elegância, o que importava era a eficácia, a imponência, a ordem. A força. Aí estava então a famosa Wehrmacht. Eram aqueles os soldados que no ano anterior haviam ocupado a Áustria e os Sudetas. Nesse momento marchavam sobre o que restava da terra dos checos. O exército que aterrorizava a Europa e pusera a Inglaterra em sentido aparecera enfim, as ameaças feitas actos, para esmagar o único estado democrático da região. O que a Levin pareceu assustador naqueles soldados que se anunciavam como o futuro da humanidade é que não eram homens; diziam-se a raça superior mas pareciam-lhe os robôs de Karel Čapek, o escritor checo que morrera a tempo de ser poupado ao funeral da sua pátria. Bertie!, chamou Gerda, que se fechara na sala da costura para não ver. Tem cuidado. Não respondeu. Observava os soldados, hipnotizado; dir-se-ia que se recusava a acreditar. As formações lá em baixo não tinham fim; atrás de um rectângulo vinha sempre outro e depois outro. Era assim, havia uma hora. A Alemanha inteira parecia marchar diante do apartamento só para lhe mostrar, a si e à sua família, o imenso poder às ordens do senhor Hitler. Que’o o papá! Bertie, ajuda-me aqui com o Peter! Papá! O Pete que b inca à boua! Um lençol vermelho, com um círculo branco e a suástica no meio, foi hasteado no prédio em frente e os soldados, como um só, estenderam os braços direitos em saudação mas sem nunca pararem de marchar. Marchavam de braço estendido, as pernas alongadas como os braços, botas para cima e botas para baixo, os tacões a embaterem no asfalto sempre ao mesmo ritmo. Troavam em uníssono como se fossem os tacões a decidir a cadência, os tacões e não os soldados. Sentiu algo agarrar-se à sua perna esquerda e, como se despertasse de um transe, estremeceu e olhou para baixo. Era Peter, com o ar bonacheirão das crianças de quatro anos, que lhe puxava as calças. Papá, vamos joga à boua... Afagou-lhe distraidamente os caracóis do cabelo. Agora não, Peter. O papá está ocupado, não pode jogar à bola. Eu que o joga à boua! Lançou um olhar à porta da cozinha, à procura de ajuda. Ivanka! A empregada checa veio à porta, o avental vestido, numa mão uma faca e na outra um recipiente cheio de batatas, algumas já descascadas. Sim, senhor Levin? Será que pode contar uma história ao Peter? Uh..., está bem, senhor Levin. Ó Bertie, a Ivanka não pode tratar do menino, atirou Gerda da salinha da costura. Ela está a cozinhar! O avental, a faca e o recipiente com as batatas confirmavam o que a dona da casa acabara de dizer. Voltou-se para o filho. Queres um biscoito? Peter arregalou os olhos. Que’o! Ó Ivanka, leve o menino para a cozinha e dê-lhe um biscoito. A empregada pegou na criança ao colo e levou-a. De novo à vontade, Levin regressou à janela. A multidão agitava-se nos passeios e enchia as varandas. Havia cada vez mais gente e viam-se mais bandeiras alemãs. Muitas pessoas reagiam aos braços estendidos dos soldados com saudações: H… […] Dir-se-ia um exército de libertadores. Seria possível que os checos estivessem contentes? Não podia ser. Desde que a crise com a Alemanha rebentara, no ano anterior, a ansiedade e a consternação eram gerais. Aquela multidão só podia ser de alemães da Checo-Eslováquia, eles que tanto suspiravam por integrar o Reich. De olhar fixo no exército que entrava na cidade, Levin sentia-se estupefacto com a rapidez com que tantas mudanças radicais se haviam processado. Em 1933 ainda vivia na Alemanha. Com a subida de Hitler ao poder, fora despedido da Bolsa de Berlim e viera para Praga. Mas a Alemanha não parara. No  ano anterior os Acordos de Munique tinham começado a desmembrar o país dos checos e dos eslovacos e nesse momento os alemães completavam o trabalho. Haviam cruzado a fronteira na véspera e a rádio de Praga passara o dia a emitir de meia em meia hora apelos à população para que mantivesse a calma. Os checos tinham mantido a calma; tinham-na mantido a tal ponto que viam nesse momento os soldados alemães entrar triunfantes em Praga. Tanta calma para dar naquilo. Áustria, Sudetas, Boémia e Morávia conquistadas em menos de um ano sem que este exército disparasse um único tiro. Era obra» In José Rodrigues dos Santos, O Mágico de Auschwitz, 2020, Edições Gradiva, 2020, ISBN 978-989-616-884-1.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, Guerra, Nazismo, Literatura,

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A 25ª Hora. Virgil Gheorghiu.«O padre lhe desejou boa sorte. Lamentava sua partida. Iohann Moritz era jovem, bom trabalhador. Apesar de pobre, era generoso e honesto»

jdact

«(…) Iohann Moritz despejou água nas mãos do padre. Observava os dedos daquelas mãos, compridos e fusiformes, dedos de mulher de pele branca. Observava com prazer o velho fazer espuma na barba, no pescoço, na testa. De tanto admirá-lo, esquecia-se de despejar a água. O padre aguardava, estendendo as mãos cobertas de espuma. E Moritz sentia-se culpado e ruborizava. O padre Koruga era o pope da aldeia. Tinha apenas cinquenta anos, mas a sua barba e cabelo já eram brancos feito prata. Seu corpo comprido, esguio, descarnado, lembrava o dos santos que vemos nos ícones das igrejas ortodoxas. Um autêntico corpo de ancião. Porém, encontrando seu olhar, ouvindo-o falar, percebia-se que era um homem mais jovem. Assim que acabou de se lavar, o padre enxugou o rosto e o pescoço numa toalha grossa. Moritz continuava em pé, com a cumbuca na mão, à sua frente. Eu gostaria de conversar com o senhor, meu padre, disse ele. Espere eu me vestir, respondeu o padre. E, pegando de volta a cumbuca das mãos de Iohann Moritz, entrou em casa. À soleira da porta, virou-se. Também tenho um assunto para conversar consigo, disse, sorrindo. Vai gostar. Enquanto isso, coloque os cestos na carroça e atrele.

A manhã inteira, Iohann Moritz e o padre Koruga colheram maçãs e encheram cestos. Trabalhavam em silêncio. Quando o sol dardejou seus ombros, o padre parou e estendeu os braços, cansado. Descansemos um pouco! Descansemos, concordou Moritz. Dirigiram-se até os sacos cheios de maçãs e sentaram-se em cima deles. Mantinham-se calados. O padre procurou nos bolsos o maço de cigarros que sempre levava para os dois e o estendeu para Moritz. Queria conversar?, inquiriu o padre. Sim, queria. Moritz acendeu o cigarro. Jogou o fósforo na relva e observou-o apagar-se. Era difícil para ele comunicar sua partida ao padre. Preferiria esperar um pouco mais. Primeiro, quero lhe dar a minha notícia, disse o padre. Moritz ficou contente por não ter de falar primeiro.

O quartinho junto à cozinha está vago, informou o padre, e me perguntei se não gostaria de se mudar para lá. Minha mulher acabou de caiar e colocou cortinas nas janelas e roupa de cama limpa. Sua casa é muito apertada. Você e seus pais possuem apenas um quarto. Amanhã, quando vier trabalhar, traga suas coisas. Não virei amanhã. Então, depois de amanhã, disse o padre. A partir de hoje o quarto é seu. Não virei nunca mais, disse Moritz. Amanhã viajo para os Estados Unidos. Amanhã?, O padre esbugalhou os olhos. Amanhã bem cedo. A voz de Moritz era firme, embora velada pelo remorso. Recebi uma carta, o navio está em Constança, só tenho três dias. O padre sabia perfeitamente que Moritz queria ir para os Estados Unidos. Muitos jovens camponeses partiam para lá e, dois, três anos depois voltavam com dinheiro e compravam terras e as casas mais bonitas da aldeia. O padre estava contente por Moritz. Em poucos anos, ele também teria belas terras. Mas surpreendia-se com a premência da viagem. Moritz jamais tocara no assunto com ele, e eles haviam trabalhado o tempo todo lado a lado, diariamente. Só ontem recebi a carta, disse Moritz. Vai sozinho? Com Ghitza Ion. No navio, trabalharemos como operários. Trabalharemos nas caldeiras, assim não precisaremos pagar quinhentos lei por pessoa. Ghitza tem um amigo em Constança que trabalha no porto e providenciou tudo.

O padre lhe desejou boa sorte. Lamentava sua partida. Iohann Moritz era jovem, bom trabalhador. Apesar de pobre, era generoso e honesto. Não possuía um alqueire de terra. Os dois homens trabalhavam de sol a sol. O velho falava dos Estados Unidos. Moritz escutava. Em diversas ocasiões, suspirou. Agora estava quase arrependido de sua decisão. À noite, depois de receber seu salário, Moritz permaneceu de olhos baixos diante do padre. Conservou-se assim ainda por um momento. Não tinha forças para ir embora. O velho deu-lhe um conforto no ombro. Escreva-me assim que chegar, pediu. Amanhã de manhã, passe para pegar o farnel que prometi. Terá o que comer durante a viagem. Ainda lhe deu cinco cédulas de cem lei e prosseguiu: chegue bem cedo. Bata discretamente na janela. É preferível que minha mulher não ouça; mulheres costumam ser avarentas, você sabe. Deixarei tudo preparado hoje à noite. Quando pretende partir? Devo encontrar Ghitza Ion na saída da aldeia, ao amanhecer. Justo o tempo de passar lá em casa. Caso contrário, eu lhe diria para vir esta noite. Prefiro amanhã, disse Iohann Moritz. Imaginava que Suzanna o esperaria naquela noite. Em seguida, partiu». In Virgil Gheorghiu, A 25ª Hora, 1949, Bertrand Editora, ISBN 000 […] W16.

Cortesia  de BertrandE/JDACT

JDACT, Virgil Gheorghiu, Grécia, Guerra, 

Virgil Gheorghiu. A 25ª Hora. «Pensou então na mulher que acabava de deixar. Pensou em Suzanna. Arrependeu-se de não ter sorrido para ela. Suas histórias de estrelas...»

jdact

«Não posso acreditar que esteja de partida!, disse Suzanna a Iohann Moritz, abraçando-o. Levou as mãos à cabeça do homem e acariciou-lhe os cabelos pretos. Ele deu um passo para trás. Porque não acredita?, respondeu ele, num tom de voz seco. Partirei depois de amanhã, ao amanhecer. Eu sei!, murmurou ela. Permaneciam de pé, junto à sebe. Fazia frio. Passara da meia-noite. Iohann tomou as mãos da mulher, deixou-as cair e disse: então, até logo! Fique um pouco mais!, suplicava ela. Porque deseja que eu fique? Sua voz era firme, decidida. Está tarde. Amanhã tenho que trabalhar. Ela não respondeu, mas o apertou ainda mais nos braços. Entreabrindo a camisa do homem, ela pousou a face no seu peito e ergueu os olhos. As estrelas são lindas!, disse. Ele, por sua vez, esperava algo importante. Acreditava que ela o retivera por isso. E ela vinha falar de estrelas.

Desvencilhou-se, quis ir embora. Mas se lembrou da sua partida iminente e de que ficaria ausente no mínimo três anos. Então, para agradá-la, também contemplou as estrelas. É verdade que todo homem tem a sua estrela no céu? É verdade que ela vira uma estrela cadente quando ele morre? E eu lá sei?, respondeu ele. Agora estava decidido a partir. Até logo! Será que também temos estrelas lá no alto?, perguntou ela. Como todo o mundo, respondeu Moritz. Lá no alto ou dentro de nós. Pegou a cabeça da mulher entre as mãos e afastou-a do seu peito. Em seguida, partiu. Ela o acompanhou até ao caminho, segurando-lhe a mão. Olhava para as estrelas, depois para ele. Espero-o amanhã à noite!, disse ela. Se não chover.

Suzanna gostaria de não deixá-lo ainda, de suplicar que ele viesse, mesmo se chovesse. Mas ele se afastava a passos largos. Desapareceu na curva do caminho, atrás do jardim. A mulher permaneceu por um momento no mesmo lugar. Alisou o vestido na altura do quadril, para retirar os carrapichos agarrados ao tecido. Antes de voltar ao quintal, observou o capim amassado sob a nogueira, onde se haviam deitado um perto do outro. Ainda sentia nas narinas o cheiro do corpo de Moritz, um cheiro de capim amassado, tabaco e caroço de cereja. Assobiando, Iohann Moritz atravessou o campo e tomou a direcção de casa. Usava compridas calças pretas de soldado e uma camisa branca com o colarinho aberto. Estava descalço. Às vezes parava de assobiar para bocejar. Pensou então na mulher que acabava de deixar. Pensou em Suzanna. Arrependeu-se de não ter sorrido para ela. Suas histórias de estrelas...

Mulheres são iguais a crianças. Fazem um monte de perguntas inúteis, ruminou. Pensou então na viagem que ia fazer dali a dois dias. Pensou na América. Depois não pensou em mais nada. Voltou a assobiar. Tinha sono. Queria já estar em casa, dormindo. Devia acordar bem cedo. Era o seu último dia de trabalho. E estava prestes a amanhecer. Dali a poucas horas, o dia teria nascido. Iohann Moritz apertou o passo.

Raiava o dia quando Iohann Moritz parou diante da fonte da aldeia e, abrindo amplamente a camisa, pegou a água com as mãos e esfregou-a no rosto e no pescoço. Foi então até ao meio da rua e secou as mãos, passando-as no cabelo. Ajeitou o colarinho da camisa sem fechá-lo e observou a aldeia. A cerração leitosa se dissipava. Era a aldeia de Fântâna, na Roménia. Iohann Moritz nascera ali, vinte e oito anos atrás. E agora, enquanto contemplava aquela aldeia, com as suas pequenas casas e os três campanários das suas três igrejas, a ortodoxa, a católica e a protestante, lembrou-se de que, na véspera, Suzanna lhe perguntara se ele não iria morrer de saudades dali. Na hora, ele rira, achando graça da pergunta, e respondera que era um homem. Apenas as mulheres podiam sentir saudades. Mas agora sentia como se um vago arrependimento o invadisse. Voltou a assobiar e desviou os olhos.

A casa do padre Alexandru Koruga ficava na beira da estrada, não longe da igreja ortodoxa. A porta estava fechada. Iohann debruçou-se e pegou a chave escondida sob o capacho para que pudesse entrar de manhã, quando chegasse para trabalhar. Abriu a pesada porta de carvalho, sem pressa, e adentrou o quintal. Os cães correram ao seu encontro, pulando à sua volta. Conheciam-no bem, pois já fazia seis anos que Iohann Moritz trabalhava para o padre Alexandru Koruga; todos os dias dos últimos seis anos: lá, sentia-se em casa. Mas aquele era seu último dia de trabalho. Passaria o dia colhendo maçãs. Depois receberia o que lhe era devido e comunicaria a sua partida. O padre ainda não sabia de nada. Iohann Moritz entrou no celeiro, pegou os cestos e os acomodou na carroça. O padre apareceu na sacada. Vestia apenas uma camisa de linho branco e calças compridas. Acabara de se levantar. Moritz, sorrindo, cumprimentou-o. Colocou o cesto no chão, esfregou as mãos, subiu até à sacada e tomou das mãos do ancião a cumbuca cheia d’água. Espere, vou despejar». In Virgil Gheorghiu, A 25ª Hora, 1949, Bertrand Editora, ISBN 000 […] W16.

Cortesia  de BertrandE/JDACT

JDACT, Virgil Gheorghiu, Grécia, Guerra, 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A Batalha de Moscovo. Andrew Nagorski. «É provável que a Batalha de Moscovo tenha sido a mais importante da Segunda Guerra Mundial e, indiscutivelmente a maior entre dois exércitos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«No Outono de 1941, dois exércitos gigantescos lutaram ferozmente nas estradas do norte, sul e oeste que levavam a Moscovo. De ambos os lados do campo de batalha, o comando não estava com os generais, mas com os tiranos Adolf Hitler e Joseph Stalin, que davam ordens sem hesitar em mandar milhões para a morte, fosse em combate, fosse nas prisões e nos campos de concentração. Os dois demonstraram uma determinação implacável e, por vezes, tácticas brilhantes, mas tiveram também momentos de miopia estratégica em escala colossal. Hitler enviou os seus exércitos para a Rússia sem fardas de frio, pois estava convencido de que triunfariam muito antes das primeiras neves do Inverno. Stalin mandou muitos dos seus soldados sem armas para a batalha, pois não tinha preparado o país para a invasão nazista. Isso selou o destino de milhares de alemães condenados à morte pelo frio no primeiro Inverno da campanha russa e de incontáveis milhares de soldados do Exército Vermelho condenados à morte instantânea por não terem tempo suficiente para pegar alguma arma que encontrassem entre os mortos e agonizantes.
A Batalha de Moscovo, que oficialmente durou de 30 de Setembro de 1941 até 20 de Abril de 1942, mas que na realidade cobriu um período maior que esses, 203 dias de ininterrupto assassinato em massa, marcou o primeiro fracasso da táctica de Blitzkrieg dos exércitos de Hitler. Quando esmagaram a Polónia, França e grande parte do restante da Europa com uma velocidade de tirar o fôlego, aqueles exércitos pareciam impossíveis de serem detidos. Essa derrota, entretanto, foi mais que apenas outra batalha perdida, lembrou nas suas memórias Fabian von Schlabrendorff, um dos oficiais que mais tarde participariam da conspiração contra Hitler. Com ela se perdeu o mito da invencibilidade do soldado alemão. Foi o começo do fim. O exército alemão nunca se recuperou completamente daquela derrota. É verdade, mas as forças alemãs continuariam a lutar com incrível tenacidade e a derrota final só viria muito tempo depois, e por isso esses julgamentos só foram possíveis com o benefício da avaliação retrospectiva.
É provável que a Batalha de Moscovo tenha sido a mais importante da Segunda Guerra Mundial e, indiscutivelmente a maior entre dois exércitos. Combinando os totais dos dois lados, aproximadamente sete milhões de soldados se envolveram nalgum episódio dessa batalha. Desses, 2,5 milhões morreram, foram feitos prisioneiros, desapareceram em acção, ou se feriram com gravidade suficiente para exigir hospitalização, sendo muito maiores as baixas no lado soviético do que no alemão. De acordo com os registos militares russos, 958 mil soldados soviéticos pereceram, número que inclui mortos, desaparecidos e prisioneiros. Considerando o tratamento que receberam dos seus captores, a maioria dos prisioneiros de guerra russos foi efectivamente condenada à morte. Outros 938.500 foram hospitalizados, totalizando em 1.896.500 as perdas soviéticas. O número correspondente de soldados alemães chegou a 615 mil.
Por comparação, as baixas em outras batalhas épicas, apesar de aterrorizantes, nunca chegaram perto desses números. Na imaginação popular, a Batalha de Stalingrado, de Julho de 1942 até Fevereiro de 1943, é geralmente considerada a mais sangrenta dessas lutas. Ela também foi enorme, mas ainda assim muito distante do tamanho da Batalha de Moscovo. Em Stalingrado, tomaram parte 3,6 milhões de soldados, e as perdas dos dois lados chegaram a 912 mil soldados, bem inferior aos 2,5 milhões na Batalha de Moscovo. Nenhuma das mais importantes batalhas da Primeira e da Segunda Guerra Mundial se aproximou dos números de Moscovo. Na Batalha de Gallipoli, por exemplo, as baixas dos soldados turcos e aliados foram de cerca de 500 mil; na Batalha do Somme, de Julho a Outubro de 1916, as baixas alemãs, inglesas e francesas somaram cerca de 1,1 milhão. E apenas em termos do número de soldados envolvidos na luta, muitas outras batalhas lendárias da Segunda Guerra Mundial nem chegaram a pertencer à mesma classe da Batalha de Moscovo. Na Batalha de El Alamein, durante a campanha do Norte da África, por exemplo, os exércitos antagonistas totalizaram 310 mil soldados.
Essa foi também uma batalha que se desenrolou diante de uma plateia global, quando Estados Unidos, Inglaterra, França, Japão e outros tomavam decisões com base na avaliação do seu resultado provável. Não há dúvida de que, se os alemães não tivessem sido rechaçados nos arredores de Moscovo, as suas repercussões teriam sido sentidas em todo o mundo. Ainda assim, a Batalha de Moscovo está hoje bastante esquecida. Os historiadores têm dado muito mais atenção às batalhas de Stalingrado e do saliente de Kursk, que representaram vitórias claras contra as forças de Hitler, e ao pavoroso drama humano do cerco de Leningrado. Por outro lado, o início da Batalha de Moscovo, marcado pelo número excessivo de erros de Stalin, apesar de ter levantado muitas perguntas perturbadoras, não teve o mesmo nível de atenção. O resultado foi ter sido tantas vezes discutida apressadamente nos livros de História e nunca ter atingido o mesmo tipo de status mitológico das vitórias posteriores. Mas é precisamente por causa de seu papel crucial no período inicial da Segunda Guerra Mundial, e do que ela revelou sobre a natureza dos gigantes totalitários que se enfrentaram, que a Batalha de Moscovo deve finalmente ser contada e colocada no lugar que merece na História da guerra». In Andrew Nagorski, A Batalha de Moscovo, 2007, Editora Contexto, 2013, ISBN 978-857-244-797-3.

Cortesia de EContexto/JDACT

terça-feira, 15 de outubro de 2019

A Chave para Rebecca. Ken Follett. «Finalmente, o sol começou a pôr-se. O homem contemplou a carga que o camelo levava, perguntando-se quanto poderia carregar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Tobruk
«O último camelo desabou ao meio-dia. Era o macho branco de cinco anos comprado em Gialo, a mais jovem e forte das três bestas e que não tinha tão mau génio. Gostava do animal tanto quanto um homem pode gostar de um camelo, o que equivale a dizer que só o odiava um pouco. Subiram a sotavento uma colina pequena, marcando, homem e camelo, grandes e lerdas pisadas na areia instável. No cume se detiveram. Olharam adiante e só viram outra colina, e depois dessa, mil mais. Foi como se o camelo houvesse perdido a esperança. Em primeiro lugar as suas patas dianteiras se dobraram; depois baixou os quartos traseiros, e assim ficou, no alto da colina, como um monumento olhando fixamente para o deserto vazio com a indiferença dos moribundos. O homem tirou a rédea. A cabeça do camelo adiantou-se e o pescoço se estirou, mas o animal não se levantou. O homem se aproximou dele pelas costas e, com todas as suas forças, deu-lhe três ou quatro pontapés nas ancas. Finalmente, pegou numa faca de beduíno, curva e de ponta aguda, afiada como uma navalha, e com ela lhe feriu na anca. O sangue fluiu, porém o camelo nem sequer olhou para trás.
O homem compreendeu o que ocorria. Os músculos do animal, privados de alimento, simplesmente haviam deixado de funcionar, como uma máquina sem combustível. Havia visto camelos desabarem como este, nos arredores de um oásis, rodeados de uma folhagem vivificante da qual não ligavam, carentes de energia para comer. Podia ter tentado mais dois truques. Um era verter água no nariz do animal, até que começasse a se afogar. O outro consistia em acender fogo debaixo dos seus quartos traseiros. Porém, não podia desperdiçar água para o primeiro, nem lenha para o segundo, e, por outro lado, nenhum dos dois métodos oferecia grandes possibilidades de êxito. De qualquer maneira, era hora de parar. O sol estava alto e ardia. Logo começaria o longo Verão do Saara e a temperatura chegaria, ao meio-dia, a quarenta e três graus à sombra.
Sem descarregar o camelo, o homem abriu uma das suas bolsas e tirou a sua tenda. Olhou de novo ao redor, mecanicamente: não havia sombra nem abrigo à vista; nenhum lugar era pior que qualquer outro. Montou a tenda junto ao camelo moribundo, ali, no cume da colina. O homem sentou-se com as pernas cruzadas na entrada da tenda, para preparar o chá. Alisou a areia num quadrado pequeno, colocou uns poucos e preciosos galhinhos secos em forma de pirâmide e acendeu o fogo. Quando a água da pequena chaleira ferveu, preparou o chá ao estilo nómada, passando-o da chaleira à xícara, agregando-lhe açúcar, logo voltando a jogá-lo na chaleira, e assim várias vezes. A infusão resultante, muito forte e bastante melosa, era a bebida mais tonificante do mundo. Mastigou algumas tâmaras e contemplou a morte do camelo enquanto esperava que o sol começasse a declinar. A sua calma era fruto da experiência. Havia feito uma longa viagem por aquele deserto, mais de mil e seiscentos quilómetros. Dois meses antes havia partido do Ágela, sobre a costa mediterrânea da Líbia, e viajado rumo ao sul percorrendo oitocentos quilómetros, via Gialo e Kufra, para o vazio coração do Saara. Depois havia virado para o leste, cruzando a fronteira do Egipto, sem ser visto por homem ou animal algum. Havia atravessado o páramo rochoso do deserto Ocidental e seguido rumo norte, perto de Kharga; já não estava longe do seu destino. Conhecia o deserto mas o temia. Todo o homem inteligente o temia, inclusive os nómadas, que passavam ali toda a sua vida. Contudo nunca permitiu que o medo o dominasse e o fizesse cair presa do pânico, que esgotava as energias do sistema nervoso. Sempre havia catástrofes: erros de orientação que desviavam o rumo dois ou três quilómetros e impediam de encontrar um poço de água; cantis que gotejavam ou arrebentavam; camelos aparentemente saudáveis que adoeciam depois de alguns dias de caminho. O único remédio era dizer Inshallah: é a vontade de Deus.
Finalmente, o sol começou a pôr-se. O homem contemplou a carga que o camelo levava, perguntando-se quanto poderia carregar. Havia três pequenas maletas europeias, duas pesadas e uma leve, todas importantes; um saco pequeno com roupas, um sextante, os mapas, a comida e o cantil. Era muito: teria que abandonar a tenda, o jogo de chá, a panela, o almanaque e a sela. Fez um pacote com as três maletas e por cima atou a roupa, a comida e o sextante prendendo tudo com um pedaço de tecido. Pôde passar os braços debaixo das faixas de pano e colocar o pacote nas costas como uma mochila. Pendurou o cantil de pele de cabra no pescoço, e diante dele». In Ken Follett, A Chave Para Rebecca, 1980, Bertrand Editora, 2010, ISBN 978-972-252-097-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Poesia. Heinrich Heine. «Jazem por terra as bandeiras dos que há pouco ali folgavam e ao som das marchas…»


Cortesia de wikipedia

O campo da batalha

«Brilhava a lua impassível
sobre o campo da batalha,
envolto da luta horrível
na ensanguentada mortalha.

Jazem por terra as bandeiras
dos que há pouco ali folgavam
e ao som das marchas guerreiras
em mil tropéis se cruzavam.

Passaram do sono à morte
em fero, nocturno assalto,
e a vencedora corte
seguiu de pendões ao alto.

Centenas de moribundos
vasquejam de espaço a espaço,
enviando aos sidéreos mundos
o olhar merencório e baço.

E a lua brilha impassível
sobre o campo da batalha,
envolta da luta horrível
na ensanguentada mortalha...»

In Heinrich Heine, poema ‘O campo da batalha’
Tradução de Freitas Costa

JDACT

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A Arte da Guerra. Sun Tzu. «Sabem quando lutar e quando não; sabem discernir quando utilizar muitas ou poucas tropas; possuem tropas cujas categorias superiores e inferiores tem o mesmo objectivo; enfrentam com preparativos os inimigos desprevenidos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sobre as proposições da vitória e a derrota
«(…) É imprescindível lutar contra todas as facções inimigas para obter uma vitória completa, de maneira que o seu exército não fique aquartelado e o beneficio seja total. Esta é a lei do assédio estratégico. A vitória completa produz-se quando o exército não luta, a cidade não é assediada, a destruição não se prolonga durante muito tempo, e em cada caso o inimigo é vencido pelo emprego da estratégia. Assim, pois, a regra da utilização da força é a seguinte: se as tuas forças são dez vezes superiores às do adversário, cerca-o; se são cinco vezes superiores, ataque-o; se forem duas vezes superiores, divide-o. Se as tuas forças são iguais em número, luta se te é possível. Se as tuas forças são inferiores, mantem-te continuamente em guarda, pois a menor falha te acarretará as piores consequências. Trata de manter-te ao abrigo e evita o quanto possível um enfrentamento aberto com ele; a prudência e a firmeza de um pequeno número de pessoas podem chegar a cansar e a dominar inclusive numerosos exércitos. Este conselho aplica-se nos casos em que todos os factores são equivalentes. Se as tuas forças estão em ordem enquanto que as do inimigo estão imersas no caos, se tu e as tuas forças estão com ânimo e eles desmoralizados, então, mesmo que sejam mais numerosos, podes entrar em batalha. Se os teus soldados, as tuas forças, a tua estratégia e o teu valor são menores que as de teu adversário, então deves retirar-te e buscar uma saída. Em consequência, se o bando menor é obstinado, cai prisioneiro do bando maior. Isto quer dizer que se um pequeno exército não faz uma valoração adequada do seu poder e se atreve a tornar-se inimigo de uma grande potência, por muito que a sua defesa seja firme, inevitavelmente se converterá em conquistado. Se não podes ser forte, porém tampouco sabes ser débil, serás derrotado. Os generais são servidores do Povo. Quando o eu serviço é completo, o Povo é forte. Quando o seu serviço é defeituoso, o Povo é débil. Assim, pois, existem três maneiras pelas quais um Príncipe leva o exército ao desastre. Quando um Príncipe, ignorando as acções, ordena avançar os seus exércitos ou retirar-se quando não devem fazê-lo; a isto chama-se imobilizar o exército. Quando um Príncipe ignora os assuntos militares, porém compartilha em pé de igualdade o mando do exército, os soldados acabam confusos. Quando o Príncipe ignora como levar a cabo as manobras militares, porém compartilha por igual a sua direcção, os soldados estão vacilantes. Uma vez que os exércitos estão confusos e vacilantes, iniciam os problemas procedentes dos adversários. A isto se chama perder a vitória por transtornar o aspecto militar. Se tentas utilizar os métodos de um governo civil para dirigir uma operação militar, a operação será confusa. Triunfam aqueles que:
  • Sabem quando lutar e quando não;
  • Sabem discernir quando utilizar muitas ou poucas tropas;
  • Possuem tropas cujas categorias superiores e inferiores tem o mesmo objectivo;
  • Enfrentam com preparativos os inimigos desprevenidos;
  • Tem generais competentes e não limitados por seus governos civis;
  • Estas cinco são as maneiras de conhecer o futuro vencedor. Falar que o Príncipe seja o que dá as ordens em tudo é como o general solicitar permissão ao Príncipe para poder apagar um fogo: quando for autorizado, já não restam senão cinzas. Se conheceres os demais e te conheces a ti mesmo, nem em cem batalhas correrás perigo; se não conheces os demais, porém te conheces a ti mesmo, perderás uma batalha e ganharás outra; se não conheces a os demais nem te conheces a ti mesmo, correrás perigo em cada batalha. 

Sobre a medida na disposição dos meios
Antigamente, os guerreiros especialistas se faziam a si mesmos invencíveis em primeiro lugar, e depois aguardavam para descobrir a vulnerabilidade dos seus adversários. Fazer-te invencível significa conhecer-te a ti mesmo; aguardar para descobrir a vulnerabilidade do adversário significa conhecer os demais. A invencibilidade está em ti mesmo, a vulnerabilidade no adversário. Por isto, os guerreiros especialistas podem ser invencíveis, porém não podem fazer que os seus adversários sejam vulneráveis. Se os adversários não têm ordem de batalha sobre o que informar-se, nem negligências ou falhas das quais aproveitar-se, como podes vencê-los ainda que estejam bem providos? Por isto é pelo que se disse que a vitória pode ser percebida, porém não fabricada. A invencibilidade é uma questão de defesa, a vulnerabilidade, uma questão de ataque». In Sun Tzu, A Arte da Guerra, século IV A. C., tradução de Caio Abreu e Miriam Paglia, 1995, Editora Jardim dos Livros, 2006, ISBN 978-856-001-800-0.

Cortesia de Wikipedia e EJLivros/JDACT

domingo, 20 de dezembro de 2015

A Arte da Guerra. Sun Tzu. «A pior táctica é atacar uma cidade. Assediar, encurralar uma cidade só se leva a cabo como último recurso. Emprega não menos de três meses em preparar os teus artefactos e outros três para coordenar os recursos para o teu assédio»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sobre o princípio das acções
«(…) Se ao invés de tomar os mantimentos e armas do teu próprio país, retirares do teu inimigo, estarás bem abastecido de armas e provisões. Quando um país empobrece por causa das operações militares, isso deve-se ao transporte de provisões de um lugar distante. Se as transportas de um lugar distante, o povo empobrecerá. Os que habitam próximo de onde está o exército podem vender as suas colheitas a preços elevados, porém acaba-se deste modo o bem-estar da maioria da população. Quando se transportam as provisões muito longe, ocorre a ruína por causa do alto custo. Nos mercados próximos do exército, os preços das mercadorias aumentam. Portanto, as longas campanhas militares constituem uma ferida para o país. Quando se esgotam os recursos, os impostos arrecadam-se sob pressão. Quando o poder e os recursos se tenham esgotado, arruína-se o próprio país. O povo é privado de grande parte dos seus produtos, enquanto os gastos do governo para armamentos se elevam. Os habitantes constituem a base de um país, os alimentos são a felicidade do povo. O príncipe deve respeitar este facto e ser sóbrio e austero nos seus gastos públicos. Em consequência, um general inteligente luta por desprover o inimigo dos seus alimentos. Cada porção de alimentos tomados ao inimigo equivale a vinte que te forneces a si mesmo. Assim, pois, o que arrasa o inimigo é a imprudência e a motivação dos teus em fazer desaparecer os benefícios dos adversários.
Quando recompensas os teus homens com os benefícios que ostentavam os adversários eles lutarão com iniciativa própria, e assim poderás tomar o poder e a influência que tinha o inimigo. É por isto que se diz que onde há grandes recompensas há homens valentes. Por conseguinte, em batalha de carros, recompensa primeiro o que tomar ao menos dez carros. Se recompensares todos os guerreiros, não haverá suficiente para todos; assim, pois, oferece uma recompensa a um soldado para animar todos os demais. Troca as suas cores (dos soldados inimigos feitos prisioneiros), utiliza-os misturados aos teus. Trata bem os soldados e presta-lhes atenção. Os soldados prisioneiros devem ser bem tratados, para conseguir que no futuro lutem para ti. A isto se chama vencer o adversário e incrementar por acréscimo nas tuas próprias forças. Quando recompensas os teus homens com os benefícios que ostentavam os adversários eles lutarão com iniciativa própria, e assim poderás tomar o poder e a influência que tinha o inimigo. É por isto que se diz que onde há grandes recompensas há homens valentes.
Por conseguinte, em batalha de carros, recompensa primeiro os que tomam ao menos dez carros. Se recompensares a todo mundo, não haverá suficiente para todos; assim, pois, oferece uma recompensa a um soldado para animar a todos os demais. Troca suas cores (dos soldados inimigos feitos prisioneiros), utilize-os misturados aos teus. Trata bem os soldados e presta-lhes atenção. Os soldados prisioneiros devem ser bem tratados, para conseguir que no futuro lutem para ti. A isto se chama vencer o adversário e incrementar por acréscimo em tuas próprias forças. Se utilizares o inimigo para derrotar o inimigo, serás poderoso em qualquer lugar aonde fores. Assim, pois, o mais importante em uma operação militar é a vitória e não a persistência. Esta última não é benéfica. Um exército é como o fogo: se não o apagas, se consumirá por si mesmo. Portanto, sabemos que o que está à cabeça do exército está a cargo das vidas dos habitantes e da segurança da nação.

Sobre as proposições da vitória e a derrota
Como regra geral, é melhor conservar um inimigo intacto que destruí-lo. Captura os seus soldados para conquistá-los e dominas os seus chefes. Um general dizia: pratica as artes marciais, calcula a força dos teus adversários, faz que percam o seu ânimo e direcção, de maneira que ainda estando intacto o exército inimigo, fique imprestável: isto é ganhar sem violência. Se destruíres o exército inimigo e matares os seus generais, assaltas as suas defesas disparando, reúnes uma multidão e usurpas um território, tudo isto é ganhar pela força. Por isto, os que ganham todas as batalhas não são realmente profissionais; os que conseguem que se rendam impotentes os exércitos alheios sem lutar, são os melhores mestres da Arte da Guerra. Os guerreiros superiores atacam enquanto os inimigos estão projectando os seus planos. Logo desfazem as suas alianças. Por isso, um grande imperador dizia: o que luta pela vitória frente a espadas nuas não é um bom general.
A pior táctica é atacar uma cidade. Assediar, encurralar uma cidade só se leva a cabo como último recurso. Emprega não menos de três meses em preparar os teus artefactos e outros três para coordenar os recursos para o teu assédio. Nunca se deve atacar por cólera e com pressa. É aconselhável tomar-se tempo na planificação e coordenação do plano. Portanto, um verdadeiro mestre das artes marciais vence outras forças inimigas sem batalha, conquista outras cidades sem assediá-las e destrói outros exércitos sem empregar muito tempo. Um mestre experiente nas artes marciais desfaz os planos dos inimigos, estropia as suas relações e alianças, corta os mantimentos ou bloqueia o seu caminho, vencendo mediante estas tácticas sem necessidade de lutar». In Sun Tzu, A Arte da Guerra, século IV A. C., tradução de Caio Abreu e Miriam Paglia, 1995, Editora Jardim dos Livros, 2006, ISBN 978-856-001-800-0.

Cortesia de Wikipedia e EJLivros/JDACT