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terça-feira, 1 de setembro de 2015

A Saudade Portuguesa. Carolina Michaelis Vasconcelos. «Já outros autores supuseram influxo de saude em saudade. Mas não disseram como se realizaria o fenómeno, surpreendente realmente, visto que entre ‘salus salutatis’ e seus derivados, e a doentia ‘soidade’»

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O que é a Saudade, linguisticamente
«(…) No primeiro trecho, saudade é positivamente emenda de saúde, segundo a reprodução sau[da]de do próprio Klob. E saúde dava sentido nela. Mas não o dá no segundo passo, onde Klob imprime saudade, como se realmente assim estivesse no original. Nele só serve saudade-tristeza. E não saudade-salvação de saude nem salutate. Seja como for, certo é que saudade de soidade ou suidade não é evolução fónica. O ditongo oi, como equivalente de ou, e representante de au originário, é normal. Coisa cousa provêm de causa; oiro ouro de auru; loiro louro de lauru., etc. Anormal é o oposto: au de oi. De mais a mais, num período em que todos pronunciavam ainda so-i-dade.
Temos de recorrer, repito-o à analogia, à associação de ideias, ou à etimologia popular, isto é a processos psicológicos, para encontrarmos a chave do enigma e explicar a substituição esporádica de o-i por au, que, aumentando a sonoridade melancólica do vocábulo, aumentou ao mesmo tempo sua significação: o conteúdo, o espírito, a alma. O influxo que houve, pode ou deve provir de palavras que principiavam com saud... Distingo dois grupos, diversos, conquanto aparentados. Primeiro, o verbo saudar de salutare com o substantivo saude- salute, populares e muito usados. Segundo: o sustantivo culto, mas bíblico, e por isso até certo ponto popularizado que acabo de citar: saudade de saludade o qual significava salvação (heil), e substituía às vezes (em Espanha) o adj. lat. salutaris (heilsan). Na boca do vulgo saludade devia forçosamente passar a saudade.
Já outros autores supuseram influxo de saude em saudade. Mas não disseram como se realizaria o fenómeno, surpreendente realmente, visto que entre salus salutatis e seus derivados, e a doentia soidade, e mais derivados de solus há um abismo, que nem mesmo com ajuda de saludad na acepção de salvação se transpõe a contento. Eis o que penso e como combino suidade com saúde e com saludade, e solus com salutaris. Ainda nos nossos dias, no século XX, os populares, e não só eles, principiam as suas produções epistolográficas, tão curiosas e instrutivas, desejando saúde a quem está longe, em terras estranhas, ou pelo menos afastado deles corporal ou espiritualmente. E fecham-nas saudando esse ente, ou enviando-lhe saudações mil, assim como aos demais parentes, amigos, conhecidos que por acaso estejam na companhia dele. Estimo que ao receberes esta (ou: desta) estejas de perfeita, em companhia de quem mais desejas, pois a minha, ao fazer desta é boa, graças a Deus. Em primeiro lugar o que desejo a V. Ex.ª é saúde e mil felicidades.
Nas fórmulas finais as saudações obrigatórias são hoje substituídas em regra por visitas e recomendações, banais (o bien des choses dos franceses). Continua contudo a haver quem mande muitas saudades, pois as minhas só ao ver-te é que terão fim. Claro que outrora, nos tempos de Ceuta, Arzila, Safim, Mazagão, da Índia, e do Brasil, muitos diriam suidades, e essas seriam realmente sentidas e significativas. Não sempre, porque a natureza humana é má desde Adão e Eva. Não tenho presente exemplo algum em que, a par de Suidades se enviassem também desejos de salvação, sinceramente religiosa, não faltaria quem assim procedesse, empregando saudade no sentido de salvação. Pelo contrário, disponho de diversas cartas em que saúde e saudade andam de mãos dadas». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, A Saudade Portuguesa, Colecção Filosofia & Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1996, ISBN 972-665-397-5.

Cortesia de GuimarãesE./JDACT

segunda-feira, 31 de março de 2014

História no 31. A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577). As suas Damas. Carolina Michaëlis. «Não existe quem mais lamente os desgostos da Rainha ou quem mais regozije com a sua prosperidade. As cartas d'ella proporcionam-lhe prazer tal que as agasalha no seio, as acaricia e repete sempre de novo a leitura»

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NOTA: Texto na versão original.

A Infanta D. Maria
«(…) Posteriormente aceitou a homenagem de diversos escriptores de Portugal, Hespanha e França, em latim e vernaculo. Que maravilha se ambicionava illustrar tambem sua filhinha, segundo o gosto e as exigencias da epoca, de modo que sem desdouro do nome português e castelhano, podesse luzir em qualquer throno da Europa? Que maravilha se, velando de longe pela sua felicidade, desejou vestir-lhe ricamente a alma, augurando- que no convivio com as musas encontraria uma consolação ideal ás mil decepções moraes que a vida não poupa a ninguém, nem mesmo ás princesas? Na fé de que ao cabo de breve prazo a Infanta viria, como esposa do Dauphin, residir na côrte culta e galante de Francisco I onde brilhava Margarida de Navarra, não só pediu e aconselhou, mas ordenou repetidas vezes que aprendesse o latim, e tentasse afeiçoar-se ás letras.
Assim o lemos numa carta que D. Maria escreveu á mãe, quando vencidas as longas agruras da iniciação, começava a avaliar com lucidez o serviço que lhe haviam prestado, occupando-a, interessando-a, ampliando o seu horizonte, acostumando-a a raciocinar e a trabalhar. A principio o estudo lhe fôra penoso. –Frequentemente havia desanimado, em briga com os rudimentos enfadonhos da grammatica, necque laboriosa illa grammaticae fastidia aequo animo ferre non poteram. Mas pouco a pouco, o santo desejo de saber invadiu-a. Conseguiu deleitar-se de veras no trato dos livros, realizando assim a predicção de D. Leonor quod ea res maximam olim mihi voluptatis esset allatura et ornamenti non parum. Se á mãe parecesse bem o estylo da missivazinha, a ella, só a ella, eram devidos louvores. Se, porém, descobrisse defeitos, a Infanta diligenciaria aperfeiçoar-se mais e mais no conhecimento do idioma classico. O estylo é juvenil, de graciosa simplicidade e elegancia. Tentando adivinhar aproximadamente a data de que carece na obra de onde, á falta do original, a copio, calculo, seria escripta entre 1535 e 1537, quando a Infanta contava quinze annos.
Além d'essa amostra conheço apenas mais uma da sua dicção latina, curiosa sob mais de um aspecto. É dirigida a uma soberana estrangeira, cujo perfil já desenhei: Maria Tudor, a bloody Mary, flagello da Inglaterra protestante. A filha de Henrique VIII, subindo ao throno (6 de Julho de 1553), tivera de suffocar uma revolta a favor de Jane Grey, e mandára dggolar o duque de Northumberland que a capitaneava. Felicitando a sua parenta e amiga por ter sahido incolume d'este attentado contra os seus direitos, a Infanta emprega expressões exuberantes de amizade. Não existe quem mais lamente os desgostos da Rainha ou quem mais regozije com a sua prosperidade. As cartas d'ella proporcionam-lhe prazer tal que as agasalha no seio, as acaricia e repete sempre de novo a leitura. Pede resposta rapida, pela qual anceia». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, (1851-1925), Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas, edição fac-similada, Enclave de Reabilitação Profissional da Biblioteca Nacional, Lisboa, 1994, ISBN 972-565-198-7.

Cortesia de BNacional/JDACT

sábado, 29 de março de 2014

A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577). As suas Damas. Carolina Michaëlis. «Fez estudar as Infantas suas filhas. Instituiu o posto de mestra latina, a favor de D. Beatriz Galindo. Em harmonia com o aphorismo então lançado por um dos cortesãos: “jugaba El-rey, eram todos tahures; estudia la reina, somos ahora estudantes”»

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NOTA: Texto na versão original.

A Infanta D. Maria
«(…) Pela minha parte, creio que o ponto de partida para o endoutrinamento da Infanta e seu primeiro norte, francamente liberal, inculcou-lhe um ideal philosophico superior, mas que posteriormente abalada pelos acontecimentos particulares que aniquilaram as suas aspirações mundanas, e coincidiram com a reacção jesuitica a sua mentalidade tomou evolução mais theologica. A materia dos livros que lhe foram dedicados, nos primeiros decennios e nos ultimos, confirmam que houve scissão. De 1520 a 1550 estava-se em pleno renascimento. A cultura classica, o amor á antiguidade, que de modo muito imperfeito havia penetrado na côrte de João II e Manoel I, expandia-se impetuosamente por todo o reino. Quanto á vitalidade intellectual, ao fervor artistico, á energia litteraria, nunca houve em Portugal periodo que se possa comparar aos decennios em que recahe a mocidade da Infanta.
João III, convencido de assim cumprir uma missão civilisadora, tratava muito a serio da reforma da educação nacional. Chamou humanistas estrangeiros e humanistas indigenas, instruidos em Salamanca, Paris e Florença. Uns foram para Coimbra, Evora, Braga; outros para o ensino no paço. Foram secretários del Rei e mestres dos infantes seus irmãos, e de seus proprios filhos, vultos como Aires Barbosa, André de Resende Nicolau Clenardo, João Vaseu, Pedro Nunes, Lourenço de Caceres, Jorge Coelho, Diogo Sigeu, Ignacio Moraes, Pedro Sanches, Jeronymo Cardoso, Pedro Margalho. Em casa dos duques de Bragança, barões de Alvito, condes do Vimioso, de Linhares e outros magnates encontramos os mesmos, e para ensino da lingua patria a João de Barros, Fernam Oliveira, Francisco Moraes, e Luiz de Camões, se o seu ultimo biographo descobriu a verdade. Na capital, installaram-se aulas de latim para os moços-fidalgos. E comquanto nem todos aproveitassem e alguns maldizessem a sorte que os fizera nascer em sino de latim (conforme com muita graça confessou um dos mais antigos letrados palacianos), a medida do saber foi subindo consideravelmente entre os aristocratas privilegiados, aos quaes o reformador da poesia havia dirigido pouco antes uns conhecidos aphorismos,

Dizem dos nossos passados
que os mais não sabiam ler:
eram bons, eram ousados…
eu não louvo o não saber,
como alguns ás graças dados…

Quanto á educação feminina, reformistas eminentes como Luis Vives, haviam-na classificado como indicio seguro da civilisação alcançada por um povo. Persuadidos que só de mulheres solidamente instruidas nas artes liberaes, iniciadas directamente no puro gosto da antiguidade, havia de nascer uma geração de entes superoires, de caracter, energia e intelligencia privilegiada, exigiam que as humanidades formassem parte integrante tambem da cultura do sexo fragil.
A grande em tudo rainha Isabel a Catholica já havia aceite o alvitre com enthusiasmo. Em idade madura venceu as difficuldades da lingua de Lacio. Fez estudar as Infantas suas filhas. Instituiu na sua aula o posto de mestra latina, a favor de D. Beatriz Galindo, sua preceptora. Em harmonia com o aphorismo então lançado por um dos cortesãos: jugaba El-rey, eram todos tahures; estudia la reina, somos ahora estudantes, a aristocracia do sangue imitou-a. Quanto á aristocracia das letras, é evidente que, dando o impulso, dera tambem o exemplo.
Em Portugal a evolução foi a mesma, posto que mais tardia, vagarosa e incompleta. As duas filhas da rainha Catholica que occuparam o throno português de 1495 a 1519 não eram de modo algum hospedas nas letras, como não o haviam sido a esposa de João II nem a de Affonso V. Mas ainda assim, não implantaram nos paços da Ribeira a moda erasmiana nem a sua transformação italo-castelhana. A neta, isto é a mãe da Infanta e irman da rainha D. Catharina, pertence o impulso. D. Leonor era boa latina como a avó e a progenitora, porque mesmo a pobre D. Juana contestava de improviso em latim aos discursos gratulatorios das cidades de Flandres. Logo no primeiro anno da sua assistencia em Portugal, a esposa de Manoel conseguiu que lhe representassem na côrte uma engraçada comedia latina, escripta por um estudante em ferias, emquanto Salamanca ardia em febre». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, (1851-1925), Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas, edição fac-similada, Enclave de Reabilitação Profissional da Biblioteca Nacional, Lisboa, 1994, ISBN 972-565-198-7.

Cortesia de BNacional/JDACT

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Pedro, Inês e a Fonte dos Amores. Carolina Michaelis de Vasconcelos. «Quanto a Luís de Camões, o primeiro que pôs em arte a história de Portugal com admirável veracidade, ninguém ignora, que no afamado episódio é o rei Afonso quem levanta a espada fina contra Inês, mas, os brutos assassinos são os ministros que banham as espadas, no seio e no colo de alabastro da vítima inocente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Pedro, Inês e a Fonte dos Amores
«(…) Ambas as expressões, põe-nas na boca dela o benemérito Garcia de Resende nas ingenuamente eloquentes Trovas a modo de romance, tão elogiadas desde que Menendez Pelayo as classificou (e bem) como a composição mais verdadeiramente e expressamente nacional do Cancioneiro Geral, em que o editor reuniu o que na Corte Portuguesa se poetou de 1450 a 1515. Garcia de Resende parece ser, além disso, o primeiro trovador que deduziu das cenas de vingança contadas por Rui de Pina a ideia de os três áulicos ministros de el-rei, esquecidos das leis da cavalaria, haverem atravessado com as suas próprias espadas o peito da mansa cordeira cujo sacrifício no altar da razão de estado a braveza natural e medieval de Afonso IV havia ordenado, cedendo aos conselhos dos que temiam o poder castelhano. Seguiu-lhe o exemplo de António Ferreira, em cuja Castro os matadores são dois: Pero Coelho e Diogo Lopes Pacheco.

Mas aqueles
cruéis ministros seus e conselheiros
arrancando às espadas se vão a ela
traspassando lh'os os peitos cruelmente.

Seguiu-lho também o suave Diogo Bernardes, no soneto encomiástico que dirigiu ao amigo e mestre, dizendo-lhe que Inês se teria partido leda deste terrestre mundo, se previsse a sua apoteose,

inda que de mais duros golpes vira
o seu tão brando peito traspassado.

Também seguiu-lhe de perto o exemplo o galego-castelhano frei Jerónimo Bermudez, com nome civil António da Silva, na sua Nise Lastimosa, essa tragédia que, embora seja apenas tradução livre da Castro de Ferreira, passa por original, em virtude das ideias laxas sobre propriedade literária, vigentes tanto na Idade Média como na época da Renascença. Com relação à gente de armas que formava o séquito de el-rei, ele verte as palavras de Ferreira dizendo:

Mas aquelles malditos alevosos...
desnudas las espadas van-se a ella,
los pechos le traspasan crudamente.

Do mesmo modo procederam Mexia Lacerda na sua Ines Reina (1612) e Luís Velez Guevara, que condensou artisticamente num belo drama (1652) a Nise Lastimosa de Bermudez e a Nise Laureada, isto é, coroada. Segunda parte na qual o inventivo e retórico frade parafraseou os versos concisos do autor d'Os Lusíadas,

aquele que depois a fez rainha,

e a

que despois de ser morta foi rainha.

Mesmo aqueles dramaturgos que se ocuparam exclusivamente de Pedro como rei justiceiro, elogiando as suas sentenças e sanhas vingadoras como dignas de um Sábio Salomão, repetem nas suas alusões a Inês a concepção geralmente aceite. Assim o pensativo Alarcão em siernpre ayuda la verdade onde Pedro para explicar a sua severa tristeza alude à morte da querida cujo peito pasó cobarde espada. Assim também o seu imitador Matos Fragoso em Ver y crer, conquanto fale mais do sedento nobre furor de Pedro e do raro e novo artifício da sua vingança do que da injusta tirania de Afonso IV.
Quanto a Luís de Camões, o primeiro que pôs em arte a história de Portugal com admirável veracidade, crente todavia na tese horaciana, ninguém ignora, que no afamado episódio é o rei Afonso quem levanta a espada fina contra Inês, mas, como nos poetas menores, os brutos assassinos são os ministros que banham as espadas, no seio e no colo de alabastro da vítima inocente, como se o poeta houvesse tido o empenho de conciliar as duas figurações: da degolação (de-coll-atione) e a da matança apaixonada. A razão da preferência dada ao peito trespassado parece-me evidente. A morte pela espada é mais nobre, mais estética do que a execução pelo cutelo. Ao peito parece também referir-se a pena de talião executada nos supostos matadores». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, Artigo publicado na Revista Lusitânia, volume II, compilado em Dispersos, Originais Portugueses, I Vária (1º volume), Lisboa, Edições Ocidente, 1969.

Cortesia de E. Ocidente/JDACT

A Saudade Portuguesa. Divagações filológicas e Literar-Históricas em volta de Inês de Castro e do Cantar Velho. Carolina Michaelis de Vasconcelos. «… ‘E entom disse Leomites: meu senhor e meu amigo Amaro, grande saudade ora me leixades. … E Vellijdes lhes disse: Ay amigas, nom choredes ante ell, que auerà gram coyta e gram saudade’»

Cortesia de wikipedia e jdact

O que é a Saudade, linguisticamente
«(…) Soedade soìdade suïdade sempre contaram na poesia arcaica por quatro sílabas, correspondentes às do latim solitates, de que saíram, por evoluções fonéticas normais: queda do l intervocálico; redução das outras duas consoantes mediais, de dentais fortes a brandas; redução de i átono a e surdo; finalmente pronúncia de o-e como o-i e redução a u-i que, pela tendência do português a formar ditongos decrescentes se deviam fundir necessariamente num úi. A forma primitiva so-e-dade perdurou na Galiza até o século XV. Podem verificá-lo nos textos bilingues do Cancioneiro Galego-Castelhano, que abrange as poesias líricas da idade de transição do primeiro ao segundo período (1350 a 1450), incluindo as de Macias, o Namorado. Há mesmo poetas de hoje que a empregam, p. ex. Rosalia de Castro, e Curros Enriquez nos Aires de minha terra. A par dela, já se encontra contudo, em compositores do século XIII, a segunda forma so-i-dade segundo as provas contidas nas Cantigas de Santa Maria. A terceira, suidade, é hoje a mais viva na boca do vulgo galiziano, usada também por poetas ilustrados que se esforçam em erguer a linguagem literária os dialectos ancestrais.
Em Portugal tivemos igualmente, após o pré-histórico so-e-dade (de que eu não posso indicar exemplo), o arcaico so-i-dade, documentado nas Cantigas del-rei D. Dinis. O ulterior su-i-dade ficou sendo a forma preferida dos escritores clássicos até 1580, acompanhado do adjectivo suidoso de que, parece, não se fazia uso fora das fronteiras. Preferida. De modo algum exclusiva. Saudade e saudoso primitivamente portuguesas, foram subindo, pouco a pouco, da boca de semi-cultos, às camadas sociais superiores, dos verdadeiramente letrados. Venceram todavia em toda a linha só depois de Alcácer-Quibir, nos sessenta anos em que a união ensinou a convertidos e não-convertidos a distinguir, a amar, e a cultivar com especial carinho tudo quanto era fundamentalmente português, e também a chorar em Babel-Espanha por Zião-Lisboa. Luís de Camões, que pessoalmente teve tanta ocasião de sentir saudades, no Ribatejo, em Ceuta, na Índia, na China, em Moçambique, Luís de Camões empregava ainda, sem diferença de sentido, ora soidade e soidosa, ora saudade e saudoso.
Por isso, por soidade ser usadíssimo até 1580, surpreende, e muito, que saudade, forma evolutiva, alterada em virtude de processos analógicos, se encontre isolada, num códice com prosas do século XIV, anteriores a Ceuta e às empresas marítimas patrocinadas pelo Infante Henrique, para logo desaparecer de novo, não tornando a surgir senão no século XVI. Na segunda metade do século XV, nos textos versificados do Cancioneiro de Resende, é que eu procurei, e continuarei a procurar, as auroras da forma nacional. Seria bom por isso que algum romanista de Lisboa, ou algum experto da Torre do Tombo ou Biblioteca Nacional, examinasse de novo o precioso códice alcobacense n.º 266, que já nos trouxe tanta noção importante acerca da linguagem arcaica, com o intuito de fixar se a letra dele é realmente do século XV; e principalmente, se a fª 116 se lê, na Vida de Santo Amaro, o trecho seguinte: E entom disse Leomites: meu senhor e meu amigo Amaro, grande saudade ora me leixades. E novamente a fª 119: E Vellijdes lhes disse: Ay amigas, nom choredes ante ell, que auerà gram coyta e gram saudade.
Se não houver emenda de segunda mão nesse passo, nem tão pouco erro de leitura ou escrita da parte do editor do texto OttooKlob, em geral muito cuidadoso, e se a letra for realmente do século XIV então teremos de aceitar como provada a existência de saudade, com o significado de hoje, no tempo de Pedro e Inês, de pouco uso embora». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, A Saudade Portuguesa. Divagações filológicas e Literar-Históricas em volta de Inês de Castro e do Cantar Velho, “Saudade minha – quanto te veria?”, Colecção Filosofia & Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1996, ISBN 972-665-397-5.

Cortesia de Guimarães E./JDACT

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Pedro, Inês e a Fonte dos Amores. Carolina Michaelis de Vasconcelos. «Agora (1924) a interpretação histórica da rosácea e da legenda Até a fim do Mundo foi substituída por outra simbólica por Reinaldo dos Santos no interessante estudo (a Iconografia dos Túmulos de Alcobaça) que publicou na ‘Lusitânia’»

Cortesia de wikipedia e jdact

Pedro, Inês e a Fonte dos Amores
«(…) Na penúltima, reproduzida na obra de Vieira Natividade, e que é precedida de outras três cenas de luta violenta entre a sacrificada e o assassino (ou os assassinos) vê-se um homem que violentamente puxa para trás a cabeça dela, caída de joelhos. E segurando-a pelos cabelos a destronca ou antes já acabou de a decapitar, visto que a cabeça está separada no chão. Lá é sem cepo portanto, mas por um algoz que se realiza o acto. O sagaz e engenhoso intérprete dos túmulos considera essas representações todas, e as que constituem a orla superior do sarcófago de Pedro, como executadas entre 1356 e 1367 e inspiradas ou impostas ao escultor pela vontade suprema daquele que é autor principal dessa tragédia de amor. Por isso mesmo como documento histórico fidedigno. E embora eu pense em geral que a mão do artista nunca se cinge aos factos materiais com rigor absoluto (a arte é livre; estiliza e idealiza, eliminando o desnecessário, concentrando e aproximando o essencial, tanto no tempo como no espaço, afim de enfatizar assim), nem tão-pouco a do historiador, e em particular não possa esquecer que Pedro era muito capaz de sacros-perjúrios, concordo quanto à eloquência realista dessa cena sangrenta, na fé de que o reinante não a teria admitido se não fosse verídica na essência.
Agora (1924) a interpretação histórica da rosácea e da legenda Até a fim do Mundo foi substituída por outra simbólica por Reinaldo dos Santos no interessante estudo (a Iconografia dos Túmulos de Alcobaça) que publicou na Lusitânia. Lendo AE Fim do Mundo e tomando A por princípio, refere essa híbrida e improbabilíssima fórmula de A e Fim ao ciclo da vida na terra ou à instabilidade das coisas na terra, ilustrada por episódios do Grande Desvairo. Hipótese que não me parece provável. É tudo? Sim, tudo quanto de verdadeiramente documental e do século XIV está por ora patente aos nossos olhos. Talvez existam contudo pormenores inéditos na Crónica Geral do tempo de João I que pertence à Academia das Ciências de Lisboa ou na redacção diversa da mesma que existe na Biblioteca Nacional de Paris, e outrora fazia parte da livraria do Condestável Pedro, filho do Regente. Possível é mesmo que no texto castelhano, também inédito, que é original de ambos e representa uma refundição da Cronica General de España que fora aumentada em 1344, já figure a Estorea de Enês tal qual os antigos logo a escreveram e Fernão Lopes a aproveitou na sua Crónica de Afonso IV, desaparecida, quer propositadamente, quer por descuido.

NOTA: Quanto às Crónicas portuguesas, consulte-se o utilíssimo estudo de Jaime Cortesão, Do Sigilo Nacional sobre os descobrimentos, publicado na Lusitânia, I. Em todas as suas obras Fernão Lopes refere-se amiúde àquilo que os antigos notaram em escrito.

Estorea que, mutatis mutantis, literariamente emparelharia com a de NunÁlvares, a do Infante Santo e até certo ponto com a Lenda de Santa Isabel. Mas, conforme já deixei expresso na Saudade Portuguesa, aquelas Crónicas estão por explorar. O Romance castelhano da Degolada, inspirado pela lenda de Inês, que hoje principia Donde vas, el caballero? Onde vas triste de ti? Tão vivo na memória dos Castelhanos que, modificado, o aplicaram em 1878 ao amor profundo do rei Afonso XVII pela Rainha D. Mercedes, romance que no século XVII Velez Guevara introduzira no seu drama inesiano Reinar después de morir, e por isso tratado sem hesitar de Romance de Inês de Castro por diversos estrangeiros, claro que não o devemos contar entre os documentos conquanto seja antigo e tradicional. Escuso de acrescentar que investigadores conscienciosos da história de Inês, como Ribeiro Vasconcelos e Sanchez Moguel, acreditam na Degolação. Poetas cultos que se lembraram de Pedro e Inês, esses imitaram a cortesia e discrição dos historiadores. Só vaga e impessoalmente assentaram que deram a morte a Inês, ou que a mataram cruamente». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, Artigo publicado na Revista Lusitânia, volume II, compilado em Dispersos, Originais Portugueses, I Vária (1º volume), Lisboa, Edições Ocidente, 1969.

Cortesia de E. Ocidente/JDACT

Pedro, Inês e a Fonte dos Amores. Carolina Michaelis de Vasconcelos. «Um texto concebido no âmbito da Renascença Portuguesa. O resultado é uma interpretação comparada da ideia de Saudade com outras análogas variantes das línguas europeias…»

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Pedro, Inês e a Fonte dos Amores
«Notas críticas soltas, sobre esse assunto, já quase exaustivamente tratado por penas primorosas, eis o que vai constituir a minha contribuição ao monumento literário erigido pelos melhores Camonistas de hoje, a fim de celebrar o … Centenário de Luís de Camões. Notas críticas sobre a tragédia de amor, suave e feroz, pela qual melhor do que por nenhuma outra se documenta perante o mundo inteiro, o temperamento, a psique da nação de apaixonados que, segundo fama várias vezes secular, se mantém de amor, morre de amor, ou mata delirando amorosamente. Notas críticas soltas que eu, de mais a mais, já anteriormente espalhei em escritos meus. Mas como não fossem aproveitadas nos trechos de história postos em arte por Antero de Figueiredo no Grande Desvairo nem na Iconografia dos Túmulos de Alcobaça, de M. Vieira Natividade, nem tão pouco no belo estudo que Reinaldo Santos publicou na Lusitânia sobre o mesmo tema, reúno-as num feixe para, com ele na mão, me incorporar no cortejo organizado em honra do excelso Poeta que fez da Vida, da Morte, e da Memória de Inês de Castro o episódio mais terno e delicado d'Os Lusíadas tornando lendárias e mundiais as histórias da Fonte das Lágrimas e da Degolação.

NOTA: Os Lusíadas, III, oitavas 118-135. As palavras do Poeta que afirma que os matadores banharam as espadas no colo de Inês e no seu seio, as brancas flores que ela dos olhos seus regadas tinha, deram margem, de resto, a controvérsias. Sem cepo. Antero de Figueiredo é o único escritor que fala dum cepo armado ad hoc no pátio do Paço de Santa Clara.

Mas seria realmente degolada Inês? Ou foi apunhalada? Foi o algoz como executor oficial das Justiças de el-rei que com o seu cutelo separou do colo de alabastro a linda cabeça de cabelos ruivos e olhos verdes? Ou foi o peito de Inês trespassado pelas espadas (estoques) dos três ministros e privados de Afonso o Bravo, cujos bárbaros corações o vingador apontou e castigou também barbaramente, alguns anos depois, à moda da Idade Média como verdadeiros matadores da amada? A lenda, a poesia portanto, que de há tanto tornou internacional de nacional o caso triste e digno de memória assenta o segundo processo. A historiografia coeva, pelo contrário, simples relatadora de factos ainda não feitos arte ou estilizados, atesta o segundo (em lugar de espadadas alguns autores tardios empregam estocadas). Rui de Pina, o cronista oficial e o compilador Acenheiro, algo posterior, empregam exclusivamente termos vagos e gerais como morte e matar. Mataram-na. O rei mandou matá-la.
A Crónica de D. Afonso IV fonte de ambos, perdeu-se. Há todavia partes do relato dela no Capítulo 27 da Crónica de D. Pedro: Como el-rei Pedro de Portugal disse por D. Enes que fôra sua mulher. - Aí diz: … já tendes ouvido compridamente onde falamos da morte de D. Enes a razão porque a el-rei Afonso matou e o grande desvairo que entre ela e este rei Pedro, sendo então infante, ouve por este aso.
Restam também, na Crónica de D. João I, os importantes capítulos relativos àquelas Cortes em que João das Regras expôs a sua nenhuma fé no juramento e no casamento de Pedro com Inês. Neles não se encontram senão os mesmos termos vagos (matar e morte). Nos dizeres latinos do Breve Cronicon Alcobacense, corresponde igualmente a matou o sinónimo occidit (matar não provém de mactare, como rematar e arrematar provém do árabe mate morto, usado sobretudo no jogo do xadrez. Xeque mate significa o rei está morto): Era N.º CCC.o LWX.a III.o, VII dies Januari occidit rex alfonsus dominam agnetem Colimbrie. Nos antigos Livros de Linhagens, acrescentados até o fim da primeira dinastia, Inês não surge senão como a que matou el Rei Affonso. A mesma fórmula emprega o Castelhano Pero Lopez Ayala (1332-1407) na sua Cronica de Pedro el Cruel, falando verdade, mas não a dizendo toda, encobrindo-a pelo contrário com estilização ou idealização discreta.
Dois depoimentos de testemunhos há todavia, quase coevos dos factos e independentes um do outro, em que às claras se fala de degolação. E segundo a sentença proverbial, dois testemunhos são suficientes para autenticar qualquer facto. Durch Zweier Zeugen Mund alle Wahrheit kund. Um desses testemunhos foi lavrado, como de costume, pela pena de um cronista; o outro pelo escopro de um estatuário. O primeiro está num pergaminho de Santa Cruz de Coimbra: no chamado Livro da Noa, em cujos registos sucessivos e assaz desordenados, figura no fim a nótula seguinte: … era MCCC nonagesima tertia VII dies januarii decolata fuit Dona Ines per mandatum domini, Afonsi IIII. A arte plástica confirma este veredicto, pelo menos na leitura comum. É no calcário fino dos túmulos alcobacenses, essa maior maravilha de arte que em Portugal se produziu no século XIV e ainda hoje encanta olhos que sabem ver, apesar de corroída pela acção do tempo e destroçada pelo vandalismo da soldadesca do general Erlon em 1810, é nesse calcário fino de um dos túmulos alcobacenses que se lê como numa Bíblia Pauperum a cena da degolação. Onde? Numa das pétalas da rosácea que (fora do comum em todos os sentidos) guarnece o lado da cabeceira no sarcófago de Pedro. Fora do comum, porque em dezoito quadrinhos profanos, seis no círculo interior, doze no exterior, o artista tentou representar cenas íntimas da vida real e da morte de Inês». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, Artigo publicado na Revista Lusitânia, volume II, compilado em Dispersos, Originais Portugueses, I Vária (1º volume), Lisboa, Edições Ocidente, 1969.

Cortesia de E. Ocidente/JDACT

domingo, 14 de abril de 2013

A Saudade Portuguesa. Divagações filológicas e Literar-Históricas em volta de Inês de Castro e do Cantar Velho. Carolina Michaelis de Vasconcelos. «… o vocábulo herdado "so-e-dade", passando por 'soïdade', que deu 'suïdade' ("ssuydade"), chegou a ser "saúdade", em tempos relativamente modernos…»

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E porem me parece este nome de ssuydade tam proprio que o latym nem outra linguagem... nom he pera tal sentido semelhante. In rei Duarte, no Leal Conselheiro, Cap. XXV.

«Comparando-as... Ai de nós! Não com as autênticas poesias dos cancioneiros, como devia, mas sim com fábulas e novelas, contadas por outros fabulistas, pseudo-historiadores. Esta subtil definição é de Afonso Lopes Vieira. Foi enunciada na sua linda conferência sobre O Povo e os Poetas Portugueses, Lisboa, 1910. Faço-a minha, mas não com relação às Cartas de Egas Moniz. A respeito dessas eu disse-lhe com franqueza que continuava a repeti-las com falsas, artificiosas, amaneiradas, um grande desvairo de palavras.
Vou tentar o exame linguístico dos vocábulo saudade e saudoso. Não que eu queira, ou possa, renovar-lhes a base. Todos os que, entre nacionais e estrangeiros, dissertaram a respeito das saudades reconheceram como étimo evidentíssimo o plural latino e feminino solitates. Os antigos indicam-no sem entrar em pormenores. No século XV o rei-filósofo Duarte que, no Leal Conselheiro, compara a ssuydade com outros vocábulos quase sinónimos.

NOTA: E no muito citado capítulo XXV do Leal Conselheiro, do nojo, pesar desprazer, avorrecimento e suydade, que se lêm as seguintes reflexões sensatas. E a suydade... he huum sentido do coraçom que vem da sensualidade (hoje diríamos sensação) e nom da rrazon e faz sentir aas vezes os sentidos da tristeza e do nojo. ... Se algua pessoa por meu serviço e mandado de mim se parte, e della tenho suydade, certo he que de tal partyda nom ey sanha, nojo, pezar, desprazer nem avorrecymento, ca prazme de sseer e pesarmya se nom fosse; e por se partir, alguas vezes vem tal suydade que faz chorar e sospirar como se fosse de nojo... E quando nos vem algua lembrança dalguum tempo em que muyto folgamos, nom geeral mas que traga ryjo sentydo, e por conhecermos o estado em que somos seer tanto melhor, nom desejamos tornar a el por leixar o que possuymos, tal lembramento nos faz prazer, e a myngua do desejo per juyzo determinado da rrazom nos tira tanto aquel sentydo que faz a suydade que mai sentymos a folgança por nos nenbrar o que passamos que a pena da myngua do tempo ou pessoa... E aquesta suydade he sentida com prazer mais que com nojo nem tristeza... Quando aquella triste lembrança faz sentir grande desejo... com esta suydade vem nojo ou tristeza mais que prazer. O resto não é menos interessante. Bom seria que muitos o lessem.

No século XVII, o quarto conde de Portalegre (Silva e Menezes) na carta espirituosa a Magdalena de Bovadilla, sobre os mistérios da saudade portuguesa e a conformidade ou diferença dela e da soledad castelhana, a que já aludi. Igualmente, Manuel de Faria Sousa, no seu judicioso comentário aos saudosos campos do Mondego, mencionados no episódio de Inês de Castro. Francisco Manoel na Epanáfora terceira, não traz nota alguma etimológica.

NOTA: Lusíadas Comentados, (1639), vol. II. Eis como o Comentador explica os saudosos campos do Mondego. En dos maneras deveys entender aqui el Saudosos. Una, regalados, i que de puro bellos combidan a ser logrados con soledad; otra que aun oy estan llenos de soledad i dolor de la ausencia de Inês, i del modo della: porque saudosos es derivacion de saudade: i aunque a algunos parece que en castellano falta voz equivalente a esta, no ay duda que lo es Soledad: Advirtiendose que saudade en português no es otra cosa que soidade, derivado de soidam, que derechamente es soledad, i el dezir saudade es corrupcion: pero vino a ser corrupcion como la del vino quando se buelve finissimo vinagre que siendo tal es mas saludable i un apetito regalado i oloroso: assi la corrupcion de Soidade en Saudade para el oydo português vino a parar en voz regalada i mas significativa, que la verdadera, del desseo, pena i dolor ternissimo del bien ausente; i significacion que no se ajusta en otra lingua.

Os modernos, claro que se viram obrigados a demonstrar a etimologia. P. ex. o erudito Milá y Fontanals, predecessor de Menêndez y Pelayo, ao tratar da poesia popular da Galiza, e também nos Trovadores em Espanha. Sobretudo, o nosso Gonçalves Viana, e o ilustre catedrático de New-Haven, a quem devemos não só a primeira edição do Cancioneiro de D. Dinis, e o Cancioneiro (de transição) Galego-castelhano, mas também numerosos tratados especiais sobre fenómenos linguísticos e literários, peninsulares.
Nova é somente a minha maneira de historiar mais minuciosamente as evoluções de forma e de significado; e a tentativa de explicar de que modo, por influxos psicológicos, associação de ideias e etimologia popular, o vocábulo herdado so-e-dade, passando por soïdade, que deu suïdade (ssuydade), chegou a ser saúdade, em tempos relativamente modernos, mas que por ora não se podem fixar com exactidão. Do quinto estádio sàudade já se passou na boca do vulgo, a um sexto, pelo menos em Lisboa, onde pronunciam sódade por soudade. Mas é de crer que, por afecto à fama já universal da palavra, a parte culta da nação não deixe generalizar-se essa vulgarização e continue a pronunciar sàudade».

In Carolina Michaelis de Vasconcelos, A Saudade Portuguesa. Divagações filológicas e Literar-Históricas em volta de Inês de Castro e do Cantar Velho, “Saudade minha – quanto te veria?”, Colecção Filosofia & Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1996, ISBN 972-665-397-5.

Cortesia de Guimarães E./JDACT

sábado, 29 de dezembro de 2012

A Saudade Portuguesa. Divagações filológicas e Literar-Históricas em volta de Inês de Castro e do Cantar Velho. Carolina Michaelis de Vasconcelos. «Eles encontram lá... O que lá procuram. O claro-escuro especial do amor à portuguesa. Dentro do amor um elemento terno, um sentido tímido e profundo, todo apaixonado, mas sem violência; todo sensual…»

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«A de Sancho I e a de Pay Soares Taveirós são flores silvestres de poucas pétalas, despretensiosas, mas cheias de graça e aroma; para mim, muito mais humanas e belas do que aquelas flores hieráticas de garrido papel que é costume tratar de Relíquias venerandas. Compreendo que tais relíquias de altar enganassem os seiscentistas, e mesmo os investigadores do século XIX, anteriores à publicação do Cancioneiro da Vaticana, do Cancioneiro Colocci-Brancuti, do Cancioneiro da Ajuda e das Cantigas de Santa Maria, anteriores sobretudo à edição crítica do Cancioneiro de D. Dinis! Compreendo que Almeida Garrett em 1850 e mesmo T. Braga em 1868 não pudessem nem quisessem perceber a fraude; e que as razões de J. P. Ribeiro não os convencessem. Então a nobre ciência da linguagem ainda não se aclimara em Portugal.
Mas como explicar que ainda hoje os intérpretes da alma lusíada, desdenhem tanto do saber linguístico? Como explicar que espíritos cultos como Bruno, Afonso Lopes Vieira, Tomás Borba, não se persuadam de que a língua é base, e é a mais genial, a mais original e nacional obra de arte que cada nação cria e desenvolve? Tento explicar o estranho anacronismo pelo que há de saudosismo ostensivo naquelas falsificações. Sim, ostensivo! Os impostores eram bons patriotas: tanto frei Bernardo de Brito, frei Manoel dos Santos, frei Rafael de Jesus como Miguel Leitão Andrade, e Manuel Faria Sousa, apesar da pecha de espião que lhe foi lançada, e apesar das recriminações contra o uso que fez da língua castelhana. Só falsificavam ad majorem Portugaliolae gloriam, como já fizera o humanista André de Resende. Viviam na era funesta em que a união de Espanha e Portugal lhes havia despertado a ambição de apresentarem documentos históricos e literários, portugueses, mais arcaicos do que os de Castela. Viviam na era que revelara a sagazes observadores e espíritos criadores como Cervantes, Lope de Vega, Calderon, Tirso de Molina, Quevedo, e também a talentos de segunda ordem como Vélez de Guevara, os contrastes evidentes que há entre a alma castelhana, épica, e a lírica da nação portuguesa, com a sua afectuosidade, sua mágoa saudosa e o seu morrer de amor.
Ao ouro fulgente de paixão amorosa que as cartas exalam nem mesmo fez dano o pechisbeque do estilo:
  • aquele corpo de oiro, aquele arcaboiço de feição, aquelas grenhas despelhar e aquela lúzia cara; nem tão pouco a frase rude ós socos bos finca morto o coração! Nem a expressão carulhos me fagam cégo! Nem os demais contrasensos linguísticos do Traga-Mouros e do Rouço da Cava.
Eles encontram lá... O que lá procuram. O claro-escuro especial do amor à portuguesa. Dentro do amor um elemento terno, um sentido tímido e profundo, todo apaixonado, mas sem violência; todo sensual, mas sem brutalidade... A mulher amada... Senhora do culto supremo... Não fantasioso, etéreo, irrealizável, para além da vida... Mas religiosamente amada sobre a terra, na sua alma e no seu corpo. Se de ela houver de se apartar, no seu coração tê-la-há sempre presente pelo poder evocatório e magia lírica da saudade.

Cortesia de costapinheiro e jdact

É um poeta, amador do povo e compreendedor de outros poetas, que viu tudo isso, e muito mais... Nas cartas apócrifas de Egas Moniz, e tenta por isso estribá-las, interpretá-las... Comparando-as... Ai de nós! Não com as autênticas poesias dos cancioneiros, como devia, mas sim com fábulas e novelas, contadas por outros fabulistas, pseudo-historiadores». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, A Saudade Portuguesa. Divagações filológicas e Literar-Históricas em volta de Inês de Castro e do Cantar Velho, “Saudade minha – quanto te veria?”, Colecção Filosofia & Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1996, ISBN 972-665-397-5.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

domingo, 5 de agosto de 2012

A Saudade Portuguesa. Divagações filológicas e Literar-Históricas em volta de Inês de Castro e do Cantar Velho. Carolina Michaelis de Vasconcelos. « Tão inaceitáveis que foi preciso serem reescritas, refeitas com arte e engenho, mas também com suprema liberdade interpretante, por um excelso poeta lírico como Almeida Garrett, não para serem adoptadas…»


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«Abro parêntese, ou abro um capítulo novo, a fim de explicar porque me servi do epíteto ‘autêntico’, com relação à cantiga de Sancho I e à do seu coevo Pay Soares Taveirós, modelos em que podemos aprender como é que namorados portugueses suspiravam antes de 1200, e até 1350.
Ninguém que esteja familiarizado com a verdadeira poesia arcaica, galego-portuguesa, isto é, com as dezassete centenas de cantigas profanas do Cancioneiro Geral do primeiro período da literatura portuguesa, e também com as quatrocentas e tantas composições sacras de Afonso, o Sábio: hinos encantadores, e ingénuas narrativas de milagres de Nossa Senhora; ninguém que conheça os assuntos, o espírito, as formas métricas e a linguagem dessas primitivas cantigas de amor, singelas, sinceras e comedidas como as duas amostras que apresentei: de sintaxe um tanto complicada, talvez, mas sempre típica, e quanto à exteriorização das ideias, sem requintes e circunlóquios retóricos e sem figuras audazes; pobres mesmo de ideias, visto que em regra cada composição só contém um único pensamento que é repetido, levemente variado, em três ou quatro estrofes cantáveis. Ninguém, repito, que conheça a fundo esses monumentos poderá aceitar como legítimos produtos da musa lusitana aqueles artefactos complexos, forgicados num idioma pseudo-arcaico, que se chamam ‘Cartas de Egas Moniz Coelho’, primo do mais afamado, que foi protótipo da lealdade portuguesa.
Nem por um minuto. Há-de repeli-los instintivamente, como falsificações; e depois, reflectidamente se os analisar com ciência e consciência. Nem lhes há-de valer a conjectura que antes de 1200 haveria, como houve sempre- e há depois de 1900, estilistas e pensadores muito individualistas, ‘sui generis’.
Tudo, absolutamente tudo prova a falta de autenticidade das ‘Cartas’. A não-existência de pergaminhos ou papeis vetustos, com letra paleograficamente aceitável, que contenham essas ‘Cartas’. A nefasta época em que surgiram: entre 1580 e 1640, era de triste decair do sentimento nacional. O pouco crédito dos autores que os propagaram.
O facto que anteriormente não houvera nem a mais leve alusão aos amores desse Egas. A falta p. ex. de uma parca fórmula que nos ‘Livros de Linhagens’ o nomeie e caracterize quer como amante infeliz, o que morreu de amor, quer como poeta, o que foi bom trovador. A falta aí mesmo de notícias a respeito da infiel Ouroana, concentradas em algum dos epítetos usuais com que os linhagistas punham no pelourinho ‘aquelas que foram más’.
Quanto à linguagem, as ‘Cartas’ são simplesmente monstruosas. Uma bárbara mixórdia incoerente, anti-histórica e anti-estética, de termos cultos ‘desusados’ de termos dialectais, só usados nas camadas baixas da Galiza, e de formações completamente arbitrárias inventadas ‘ad hoc’ e nunca documentadas.
Quanto à prosódia e à métrica, as cartas são posteriores de muito à época de Afonso Henriques em que os impostores e os crédulos as colocam! ‘São modernas, seiscentistas, quanto à concatenação de ideias, em dez e em treze coplas sucessivas’. Refalsadas sobretudo quanto ao modo de dizer, ao estilo artificiosamente rude e grosseiro.
Tão inaceitáveis que foi preciso serem reescritas, refeitas com arte e engenho, mas também com suprema liberdade interpretante, por um excelso poeta lírico como Almeida Garrett, não para serem adoptadas e consagradas pelo génio popular, ‘isso é e será sempre impossível’, mas para que os historiadores, os críticos, os psicólogos e intérpretes musicais do coração português, os elogiassem, e contrastassem com o seu voto, ao passo que as cantigas realmente autênticas, adulteradas embora por copistas estrangeiros, são, na maior parte, ‘compreensíveis, fáceis mesmo’, e promovem comoção estética, sem que seja preciso modernizá-las.


A de Sancho I e a de Pay Soares Taveirós são flores silvestres de poucas pétalas, despretensiosas, mas cheias de graça e aroma; para mim, muito mais humanas e belas do que aquelas flores hieráticas de garrido papel que é costume tratar de ‘Relíquias venerandas’». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, A Saudade Portuguesa. Divagações filológicas e Literar-Históricas em volta de Inês de Castro e do Cantar Velho, “Saudade minha – quanto te veria?”, Colecção Filosofia & Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1996, ISBN 972-665-397-5.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A Saudade Portuguesa. Divagações filológicas e Literar-Históricas em volta de Inês de Castro e do Cantar Velho. Carolina Michaelis de Vasconcelos. « Depois do falecimento de Sancho I, a Ribeirinha foi raptada, mas casou com outro adorador, é preciso sabê-lo para compreender a última quadra»



jdact e costapinheiro

«Escuso de notar, pois já houve quem notasse, a deliciosa cadência rítmica desses versos de amigo, "tão musical que a gente julga estar vendo a garbosa flexura do corpo de D. Maria Paes Ribeiro, acompanhando-se na cítara quando ensaiava, na presença do rei, a... comédia das saudades".
“Comédia?” nesse caso, porventura! Drama íntimo provavelmente em outro primor de lirismo ancestral, em que um coevo de Sancho I, parente e adorador da mesma inspiradora Ribeirinha, e na minha opinião, o mais velho dos trovadores portugueses de que possuímos versos “autênticos” exala a sua própria mágoa, seu pesar, seu lento morrer de amor, sua saudade cuidosa:

Como morreu quen nnuca ben
ouve da ren que mais amou,
e quen viu quanto receou
dela, e foi morto por ên:
‘Ai mia senhor, assi moir’eu!’
Como morreu quen foi amar
quen lhe nunca quis ben fazer,
e de quen lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar:
‘Ai mia senhor, assi moir'eu!’

Com' ome que ensandeceu,
senhor, con gran pesar que viu,
e non foi ledo nen dormiu
depois, mia senhor, e morreu:
‘Ai mia senhor, assi moir'eu!’
Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valia, nen a val:
‘Ai mia senhor, assi moir'eu!’

Depois do falecimento de Sancho I, a Ribeirinha foi raptada, mas casou com outro adorador, é preciso sabê-lo para compreender a última quadra.
Verdade é que nesses tempos arcaicos, os trovadores ainda não conglobavam sempre clara e definitivamente os sentimentos todos que hoje constituem a saudade nesse mesmo e só nesse vocábulo.
A formas primitivas “so-e-dade so-i-dade su-i-dade” ainda não se haviam cristalizado na mais melodiosa de “saudade”.
Mais melodiosa, e também mais expressiva e repleta, por ter havido fusão inconsciente com a ideia da “sa(l)udade” ou “salvação” e redenção da alma. Ainda se referiam essencialmente ao estado de “solidão” e abandono do que está triste.
Mas as qualidades ternas, suaves, submissas, resignadas da paixão portuguesa, já lá estão, com certeza. “Lá” quer dizer: nos dois exemplos que aleguei, e em dúzias de exemplos paralelos.
Alguns trovadores já tinham chegado mesmo a ligar a “soidade”, o significado de ’sensação de “soidão” ou “solidão” e de abandono que inspiram o amor e a ausência’. Nostalgia portanto». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, A Saudade Portuguesa. Divagações filológicas e Literar-Históricas em volta de Inês de Castro e do Cantar Velho, “Saudade minha – quanto te veria?”, Colecção Filosofia & Ensaios, Guimarães Editores, Lisboa, 1996, ISBN 972-665-397-5.

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT