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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Aqueduto das Águas Livres: Lisboa. Parte II. «Actualmente, debaixo destes arcos passam diversas vias de comunicação. Sob o Arco Grande passa a Av. Calouste Gulbenkian com 6 vias de trânsito. Em 1887 foi inaugurada a linha de caminho-de-ferro, que ligava a estações de Campolide e Rossio, passando por de baixo de um dos arcos e depois entrando no Túnel do Rossio»

Cortesia de arqnet
Depois de ter entrado em funcionamento, em 1748, toda uma nova rede de chafarizes e fontes foi construída na cidade, alimentados por gravidade, como por exemplo o Chafariz da Esperança. Desde logo, também, a capacidade do aqueduto foi aumentada devido às crescentes necessidades de água potenciadas pelo crescimento demográfico da cidade. Os sucessivos aumentos do aqueduto, principalmente a montante, com o objectivo de fazer chegar até ele mais água, totalizaram um comprimento de 58 135 metros de galerias subterrâneas e também elevadas.
O caminho público por cima do aqueduto, esteve fechado desde 1853, em parte devido aos crimes praticados por Diogo Alves, o Pancadas, um criminoso que lançava as suas vítimas do alto dos arcos depois de as roubar, simulando um suicídio, e que foi o último decapitado da História de Portugal.
Em 1880, a importância do aqueduto diminuiu bastante devido ao início da exploração das águas do Alviela, através do Aqueduto do Alviela que levava a água até ao reservatório dos Barbadinhos onde a água era elevada com máquinas a vapor, alimentando Lisboa de água potável. O aqueduto manteve-se porém em funcionamento até 1968, tendo sido definitivamente desactivado pela EPAL em 1967.

Cortesia de papagaio

Cortesia de catedralwe
O Aqueduto das Águas Livres tem início na Mãe d'Água Velha, que recolhia a água da nascente da Água Livre, em Belas, e termina no Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras após um percurso de 14 174 metros. A extensão da rede de captação foi crescendo até atingir um total de 47 quilómetros, recolhendo água de 58 nascentes, boa parte delas na zona da serra da Carregueira. Se ainda se considerarem os 11 quilómetros da rede de distribuição dentro da cidade, o sistema atinge uma extensão total de 58 quilómetros.
Na primeira fase de funcionamento do aqueduto, a captação de águas era feita apenas na nascente das Águas Livres e algumas outras perto do local. O escoamento recolhido era enviado para a Mãe d'Água Velha de onde partia o aqueduto principal. Contudo, devido à crescente necessidade de água da capital a rede de aquedutos tributários do principal alargou-se progressivamente. Esse crescimento verificou-se no aparecimento de novos aquedutos que ligavam ao principal, aos quais estavam ligados uma série de outros aquedutos mais pequenos. De entre os aquedutos que alimentaram o das Águas Livres destacam-se:
  • Aqueduto do Caneiro,
  • Aqueduto da Mata,
  • Aqueduto das Galegas,
  • Aqueduto das Francesas.
Situada em Caneças, a Mãe d'Água Velha recolhia a água que provinha da nascente das Águas Livres. É um edifício cilíndrico de 6 metros de diâmetro no qual era armazenada a água antes de ser lançada para o aqueduto. A Mãe d'Água Nova apareceu aquando da expansão da rede de captação de águas do aqueduto principal. Este servia para armazenar as águas provenientes do aqueduto do Carneiro com o aqueduto da Quintã. A partir deste reservatório parte uma galeria que se junta, 425 m abaixo, ao aqueduto das Águas Livres.

Cortesia de olhares 
Cortesia de purl
Com um total de 127 arcos, o troço mais conhecido, e mais visível, do aqueduto das Águas Livres é o que passa sobre o Vale de AlcântaraTem 941 metros de comprimento e é constituído por 21 arcos de volta perfeita e 14 arcos centrais em ogiva.
Lanternim no aqueduto de Alcântara
Cortesia de wikipedia

Carlos Mardel, quando projectou o aqueduto, que viria a ser terminado em 1744, pensou em incluir na estrutura uma passagem que permitisse que os habitantes da cidade podessem atravessar o vale de Alcântara desde Lisboa até Monsanto. Para tal, serviu-se dos 3,5 metros de espessura da estrutura para nela inserir dois caminhos de 66 centímetros de largo, dividido pela galeria que transporta a água. De forma a ligar os dois caminhos existem alguns lanternins que permitem que se passe de um lado para o outro da galeria. Os lanternins têm também uma função arquitetónica bem definida, que é a de cortar um pouco da monotonia visual provocada pela grande e pesada arcaria, dando-lhe um toque de elegância e beleza.
Para além dessas duas funções tem ainda outra, que, no que diz respeito à sua verdadeira funcionalidade, é a mais importante:
  • Respiradouro. Por forma a oxigenar as águas que passam na galeria, o contacto com a atmosfera, que os lanternins permitem, é fundamental para a qualidade da água transportada.
A opção dos arcos em ogiva foi a solução construtiva mais indicada a escolher devido aos grandes vãos a vencer e também devido à grande altura da estrutura. Portanto, depois de começada a descida em direcção ao fundo do vale de Alcântara, feita através de dezoito arcos de volta redonda, ainda em Monsanto, a arcaria passa a ser em ogiva. Na encosta de Campolide, o aqueduto termina com 3 arcos de volta perfeita. A não opção de arcos em ogiva deveu-se a Custódio Vieiraque afirmou que altura do aqueduto nesse troço não justificava arcos em ogiva, que eram de execução mais difícil.
De todos os 14 arcos em ogiva destaca-se um, o Arco Grande. O maior arco da imponente arcaria foi a parte de mais difícil execução neste troço, e talvez de toda a obra. Mede 65 metros de altura e dista 29 metros entre pegões, sendo o maior arco ogival do mundo. Teve de assim ser concebido devido à passagem da ribeira de Alcântara entre os seus pegões. De cada um dos lados do passeio existem duas placas iguais com a seguinte inscrição: Arco Grande/Altura do rio ao passeio/Em palmos: 296,75 - Em metros:65,29/Largura entre Pegões/Em palmos: 131 - Em metros: 28,86.

Cortesia de catedralwe
Actualmente, debaixo destes arcos passam diversas vias de comunicação. Sob o Arco Grande passa a Av. Calouste Gulbenkian com 6 vias de trânsito. Em 1887 foi inaugurada a linha de caminho-de-ferro, que ligava a estações de Campolide e Rossio, passando por de baixo de um dos arcos e depois entrando no Túnel do Rossio. A distribuição das águas provenientes do aqueduto era feita através de chafarizes. Na extremidade jusante do aqueduto, a Mãe d'Água das Amoreiras recebia e distribuía as águas por galerias e encanamentos que as encaminhavam para uma rede de chafarizes públicos. Antes ainda de chegar ao centro de Lisboa, o aqueduto alimentava alguns locais, tais como a Falagueira (Amadora), Benfica e São Domingos de Benfica. O facto de entrar em Lisboa pelo lado ocidental, a uma cota de 95 metros, permitiu a criação de uma extensa rede de chafarizes em toda essa zona da cidade.



Cortesia de wikipedia
Eram quatro as galerias que distribuíam a água na zona da cidade de Lisboa compreendida entre os vales de Arroios e de Alcântara:
  • Galeria das Necessidades,
  • Galeria da Esperança,
  • Galeria do Loreto,
  • Galeria de Santana.
As três primeiras seguiam a partir do Reservatório das Amoreiras, enquanto que a última partia do arco do Carvalhão. O chafariz do Rato e o chafariz da Cruz das Almas eram abastecidos directamente do aqueduto, sem que necessitassem de galerias que transportassem a água até eles.

Cortesia de wikipedia/JDACT

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Aqueduto das Águas Livres: Lisboa. Parte I. «Em 1731, o Alvará Régio do rei D. João V ditou o início do projecto. O sistema iria terminar num enorme "cálice" a partir do qual sairiam várias condutas que ligariam aos muitos chafarizes espalhados por Lisboa. Optou-se por um aqueduto forte mas não magnífico, fazendo contudo um castelo monumental já dentro da cidade...»

Cortesia de arqnet 

O Aqueduto das Águas Livres é um complexo sistema de captação, e distribuição de água à cidade de Lisboa, em Portugal, e que tem como obra mais emblemática a grandiosa arcaria em cantaria que se ergue sobre o vale de Alcântara, um dos bilhetes postais de Lisboa.
O Aqueduto foi construído durante o reinado de D. João V, com origem na nascente das Águas Livres, em Belas, e foi sendo progressivamente reforçado e ampliado ao longo do século XIX. Resistiu incólume ao terramoto de 1755.

Desde que as populações se começaram a instalar na região de Lisboa, que a escassez de água potável foi uma constante. Apesar da existência de um rio no local, o Tejo, a sua água é imprópria para consumo, pois a ampla foz do rio faz com que a água seja contaminada pelo mar, tendo por isso níveis de salinidade inadequados. A única área de Lisboa com nascentes de água era o bairro de Alfama. Com o crescimento da cidade para fora das cercas medievais foi-se instalando uma situação de défice crónico no abastecimento de água. Foi ganhando então força a ideia de aproveitar as águas do vale da ribeira de Carenque, na região de Belas. Estas águas foram primeiramente utilizadas pelos romanos, que aí haviam construído uma barragem e um aqueduto.

Cortesia de papagaio 
Em 1571, Francisco de Holanda propõe a D. Sebastião na sua obra «da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa» que estabelecesse uma rede de abastecimento de água que servisse a cidade de Lisboa, rede essa que tinha já sido iniciada pelos romanos. Os vestígios do aqueduto romano eram ainda suficientes para que tivessem sido considerados, em 1620, para a passagem das Águas Livres de Lisboa. Anos mais tarde, D. Filipe II instituiu o «real da água», um imposto sobre a carne e vinho que tinha como objectivo principal o financiamento das obras de construção do sistema de abastecimento de água para a capital. Porém, o projecto não foi sequer iniciado, tendo o dinheiro angariado por esse imposto sido utilizado para ajudar pobres e doentes, e também para financiar a guerra no Brasil e na Índia.

Cortesia de olhares
Preocupado com a falta de água na cidade, o «Procurador da Cidade», em 1728, estabeleceu, à semelhança de D. Filipe II, uma taxa sobre a carne, vinho, azeite e outros produtos alimentares com o intuito de arranjar financiamento para a construção do aqueduto. Um ano depois, em 1729, foram nomeados três homens para a elaboração do plano de construção do sistema que incluiria a construção de um troço monumental do aqueduto sobre o vale de Alcântara. Esses três homens:
  • António Canevari, arquitecto italiano,
  • Cor. Eng. Manuel da Maia, 
  • João Frederico Ludovice, arquitecto alemão, responsável pelo Convento de Mafra.
Em 1731, o Alvará Régio do rei D. João V ditou o início do projecto. Um ano depois, Canevari é afastado da direcção do empreendimento, tendo sido substituído por Manuel da Maia. Este orientou o traçado que o aqueduto deveria seguir desde a nascente até à cidade. O sistema iria terminar num enorme «cálice» a partir do qual sairiam várias condutas que ligariam aos muitos chafarizes espalhados por Lisboa. Optou-se por um aqueduto «forte mas não magnífico», fazendo contudo um «castelo monumental» já dentro da cidade onde chegaria a água, edifício o qual a população poderia melhor apreciar devido à sua proximidade.

Cortesia de suggia

Passados 5 anos do Alvará Régio, e as obras ainda não tinham sequer sido iniciadas. Manuel da Maia, então responsável pelo projecto, foi substituído por Custódio Vieira. As obras começaram muito lentamente devido a atritos com os mais altos responsáveis pela obra, tal como prior de S. Nicolau. Em 1740 começou a ser construído o troço mais conhecido e mais visível do aqueduto. Quatro anos depois, em 1744, é finalizado o Arco Grande, e morre Custódio Vieira. A obra passou a ser dirigida pelo húngaro Carlos Mardel, que haveria de ter, após o grande terramoto de 1755, um papel crucial na reconstrução da «Baixa Pombalina». Foi ele que decidiu instalar a Mãe d'Água perto do Rato, nas Amoreiras, ao invés da proposta inicial de se localizar em S. Pedro de Alcântara. A solução foi muito questionada e criticada, sobretudo por Ludovice, que queria que o «cálice» fosse construído onde inicialmente tinha sido pensado, mas mesmo assim a obra continuou. Em 1748, com a finalização dos 12 arcos de volta perfeita das Amoreiras, o aqueduto ficou terminado, transportando diariamente cerca de 1300 m³ de água, três vezes mais que a oferta original.
Cortesia de wikipedia/JDACT

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Salvaterra de Magos: Parte III. O Paço Real nos séculos XVII a XIX

JDACT

Com a devida vénia a Joaquim Manuel S. Correia e Natália Brito C. Guedes, «O Paço Real de Salvaterra de Magos», Livros Horizonte, 1989, ISBN 972-24-0723-6, publico algumas palavras.

Sob a coroa filipina o Paço de Salvaterra foi reconhecido como um bom aposento régio; a nomeação de um dos melhores arquitectos de então para dirigir as obras, Baltazar Álvares, arquitecto dos Mosteiros de S. Vicente de Fora, de S. Bento da Saúde e de S. Antão de Lisboa, assim o comprova.

Discretamente, seis meses antes de se fazer aclamar rei de Portugal, nas Cortes de Tomar, Filipe I no fim do ano de 1580 pediu ao duque de Alba informações concretas sobre os paços reais portugueses. Filipe Tercio (o Arquitecto e Engenheiro italiano que viera para Portugal ao serviço do Cardeal D. Henrique) lhe entregara os planos pretendidos, esclarecendo o duque, em cartas datadas de 13 e 18 de Novembro: «las
del Rusio y la Marina saco el, y la del castillo saco Joan Bautista Antonelli. Tambien lleva la de Salvatierra; la de Almeirin no la ha podido llevar, porque aquel mozo de camara del Rey D. Sebastian, que envie a sacar esta de Salvatierra se ha detenido tanto que no ha tenido tiempo de ir a Almeirin»

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Filipe I fará jornada por Salvaterra em Junho do ano seguinte, quando se deslocou a Lisboa. Para o arcanio dos jardins do Paço, cujos primeiros trabalhos são datáveis da época do Infante D. Luís, candidata-se em 1581 o jardineiro Rodrigo Alvarez, de origem portuguesa, que durante 15 anos servira na Casa de Campo de Madrid, às ordens do conhecido jardineiro real Jerónimo de Algora e dos arquitectos Gaspar de Vega e Juan de Herrera, garantindo que o recuperaria e punha «en la ordem e perfeição que estão os da Casa de Campo e os de Aranjuez», dos mais afamados da Península.

Dois regimentos, o de 1589 e o de 1595, estipulavam as verbas a dispender na «fábrica do Paço». Filipe II atribuiu como orçamento anual para conservação e ampliação do edifício, oitenta mil réis, verba razoável se a compararmos à que se dispendia com a «fábrica dos Paços de Lisboa, duzentos mil réis; aquele monarca, por alvará de 28 de Janeiro de 1616, nomeia João Rodrigues "Mestre das obras de Pedraria».
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Em 1626 o arquitecto espanhol Juan Gomez de Mora, de novo faz um relatório das «casas que tiene el Rey de Espana», em que inclui Salvaterra «Dista de Lisboa doce léguas», diz-nos, «doce léguas de Santarém que por ser tierra de caça el Rey don Sebastian acudia mucho ay un palácio de los Reys capas para aposentar toda su casa, está a un lado del Rio Tajo».
O interesse da coroa espanhola por Salvaterra está bem explícito nos cuidados de conservação dos imóveis de propriedade régia e da Igreja Matriz.

A princesa Margarida, viúva do duque de Mântua (a quem o conde-duque de Olivares confiara em 1634 o governo de Portugal) em carta datada de 6 de Janeiro de 1640 determina que lhe sejam dadas expressas informações sobre as obras naquela Igreja que já duravam «há mais de sessenta anos». Aos campos de Salvaterra «com tempo austero, frio e húmido» irá por diversas vezes caçar, nos meses de Inverno, D. João IV.

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As obras do Paço prosseguem no reinado de D. Pedro II. Sob a orientação de Mateus do Couto, em 1681, foram pintados de têmpera os tectos dos Paços Reais de Salvaterra, «trabalho feito por Francisco Ferreira de Araújo de parceria com Miguel Mateus de Cardenas, pintor de óleo e João da Costa pintor de têmpera». A 15 de Dezembro de 1689 é nomeado o arquitecto Manuel do Couto como «Mestre das Obras» proporcionando no ano seguinte a promoção de Diogo Tinoco da Silva a aprendiz de arquitecto.

Pela leitura dos «Livros de Mercês» do Cartório da Casa de Bragança, conhecemos a generosidade do monarca que anualmente subsidiava a «Irmandade do Santíssimo Sacramento de Salvaterra« e o Convento de Nossa Senhora da Piedade de Jericó; atribui-se-lhe na «Corografia Portuguesa», o «acrescentamento de mais casa e jardins» ao Paço primitivo, tal como foi sua preocupação o repovoamento florestal do Paul de Magos e reforço do estatuto dos «oficiais da Câmara», «em razão da dita vila ser uma das mais autorizadas do Reino, assim pela assistência que eu e as mais Pessoas Reais nella faziam,como por ser muito populosa».

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De 1734 a 1747 a obra do Paço foi dirigida pelo arquitecto Custódio Vieira, nomeado vitaliciamente, tal como vinha a ser praticado com os arquitectos seus antecessores, «Arquitecto das Obras nos Paços reais de Sintra, Almeirim, Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na vila da Batalha e da Província do Alentejo»; à sua morte, em 1747, é Carlos Mardel que lhe sucede naquelas funções.

A época áurea do Paço decorre em pleno reinado de D. José, nos primeiros anos da década de cinquenta, em que um vasto plano de remodelação e ampliação se inicia, incluindo a construção de uma «nova e sumptuosa Casa da Ópera». «Palacete, Palácio, Palácio e Barraca de acomodação de Sua Majestade» (tal como era conhecida a instalação régia provisória em Nossa Senhora da Ajuda, improvisada após o terramoto de Lisboa de 1755), são expressões empregues para designar o mesmo conjunto de edifícios em Salvaterra; seria na realidade uma boa e ampla residência, casa de campo, com jardim e horta, ocupando uma área de cerca de 1500 m2 (área de implantação), compreendendo aposentos nobres para a Família Real e comitiva - aposentos das damas, casas de Secretário, quartos dos guarda-roupas, sala dos Tudescos, quarto do estribeiro-mor, residência do almoxarife e respectivos serviços, como a casa do padeiro, telheiro das galinhas, duas cozinhas, uxaria, cavalariças, cocheiras, casas da falcoaria.

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O tremor de terra de I755 viria a provocar consideráveis estragos no Paço; no ano imediato e durante quatro anos nele decorreram obras de profundo restauro, dirigidas por José Joaquim Ludovice e Carlos Mardeldois nomes ligados a grandes empreendimentos arquitectónicos de responsabilidade na Lisboa pombalina.

Não só o «Paço novo» (ampliação do Paço do Infante D. Luís) seria restaurado, mas igualmente as casas do Secretário, a casa do Sargento-mor Pedro Teixeira e a de António Pedro Virgolino, a casa do Almoxarife José dos Santos Freire (nomeado em 1750), e a do Cirurgião-mor Antonio Soares Brandão, o Teatro e a falcoarìa. Construiu-se uma nova cavalariça e reparou-se a ponte do desembarque «feita quasi toda de novo que a cheia a levou». Em carta dirigida ao «senhor tenente coronel Carlos Mardel», o arquitecto João Pedro Ludovice determina, por indicação de S. Majestade, que se «faça o acrescentamento da Casa que pretende o Secretário de Estado Sebastião Jozé de Carvalho e Mello».

Igualmente a Casa Real manda proceder a obras na Igreja Paroquial, ermida de S. Sebastião e Misericórdia. Segundo uma descrição pormenorizada feita em 1758 pelo vigário Miguel Francisco Cerqueira, na Vila, que pertencia à Província da Estremadura, Arcebispado de Lisboa e Comarca de Santarém, residiam 453 visinhos" (o.t fogos), compreendendo um total de 1562 habitantes, dos quais 1351 pessoas maiores na vila, 48 nas aldeias, 157 pessoas menores na vila e 6 nas aldeias; refere-se às aldeias de Cumieiro, Misericórdia, Coelhos, Cabides, Figueiras e Bilrete de Cima.
Existiam nessa época «sete ruas principais - Rua de S. António, a qual parte de Norte para o Sul e vai dar em a Capela Real, em cuja Capela está um altar de S. António do qual tomou o nome esta rua; Para a parte do Poente, ao pé desta se acha a Rua Direita, a qual também parte do Norte Para a Sul, ficando desta parte a praça desta vila; junto a esta se acha a Rua de S. Paulo a qual também parte de Norte a Sul e desta parte dá em o lado direito da freguesia desta vila da qual freguesia tomou esta rua o nome; adjunta a esta se vê a Rua do Pinheiro a qual também parte do Norte a Sul e desta parte antigamente se via um pinheiro e ainda as ruas da Água, do Calvário e do Arneiro». Menciona como construções de algum interesse, a Santa Casa da Misericórdia, o Hospital, as ermidas de S. Sebastião e de S. António e o Paço Real. O censo da população é realizado com maior rigor em 1788, sendo mencionados 2145 habitantes de diversas profissões especialmente dedicados à lavoura e à manutenção da coutada e Paços reais; em pormenor se menciona o estado, número de filhos e respectiva idade de cada habitante, remetendo para um mapa anexo o local de residência de cada agregado familiar.
Da vila se dominava vasto panorama onde se podiam distinguir «o lugar do Escaroupim, vila de Valada, o lugar das Virtudes, a vila de Azambuja e o Convento dos frades de Jericó».

( ... )
JDACT
As diversas deslocações da Família Real a Salvaterra durante toda a segunda metade do século XVIII são-nos descritas pela Gazeta de Lisboa. «Partia do Cais de Belém subindo o Tejo em falua, escaler ou majestosos bergantins com quarenta e oito remeiros, aportando primeiro em Vila Nova da Rainha e seguindo de carruagem, por terra; raramente embarcavam na Ribeira das Naus, seguindo até ao Montijo e dali por terra até Salvaterra; para maior comodidade a rainha seguia por vezes de carruagem até Vila Franca, onde pernoitava, e daí era conduzida em cadeira de mãos, de tela carmezim com franjões de ouro até à falua onde se abrigava sob o toldo rodeado de vidraças cristalinas».

Grande movimentação de pessoal que exigia igualmente a deslocação de «trastes» dos paços de Lisboa, tapeçarias, luminárias, móveis, baixela, para melhor conforto e decoração do Paço de Salvaterra; tarefa de que eram incumbidos os armadores, tal como sucedia em jornadas para outros Paços Reais. Instrumentos musicais e arreios faziam igualmente parte da bagagem, assim como mantimentos para toda a estadia.

A via de comunicação mais utilizada para atingir a vila era fluvial, «sangria ou vala real», que nascia na «ameixoeira», desaguando no leito o Paul e mais ribeiras; percorrido por barcos de vela latina, com capacidade para quarenta moios de pão, ou por «bateiras da mesma sorte armadas, carregando catorze moios de pão», a vala tinha capacidade para receber sessenta embarcações. Pela vala eram transportados os abastecimentos de cereais, linho, madeiras, louças, mobiliário, frutas (Descrição de 1758).

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Em 1775 um novo Picadeiro é construído junto do Paço, sob a orientação de Petronio Mazoni, constando da «relação da despeza geral (orçada em 1.995$986) madeiras de Flandres e da terra, vigamentos de Riga e casquinha, decorações de interiores com veludos e galão carmesim de ltália».

No final do século XVIII ainda se mantinha a conservação periódica do Paço, sentindo-se, embora, um apagar lento da vida que durante décadas lhe imprimira a Corte. O órgão da Capela foi afinado em 1783 por Bento Fontanes Máqueira; uma «banqueta de seis castiçais e seus pertences» é executada em 1791 pelo entalhador Manuel Antunes; Pedro António Fidié, Mestre Armador, executa em 1805 uma armação de dossel e espaldar, também para a Capela.
Com a ausência da Família Real, no Brasil, o Paço perde o seu esplendor. Uma sucessão de incêndios (o de 1817 daria origem a graves acusações contra o Almoxarife, só ilibado dois anos depois) e, tremores de terra (1534, 1755, 1909) , ajudariam a intensificar a agonia.

JDACT
Desde 1819, insistentes pedidos de obras são dirigidos pelo Almoxarife do Paço e outros administradores. «Manda Sua Alteza», escrevia, em 1827, o visconde de Santarém a José Francisco Brancamp de Almeida Castelo Branco, «em nome de El Rei, que V. Senhoria dê as ordens e providências necessárias, compatíveis com os meios disponíveis para se acorrer a maior ruína procedendo-se aos concertos indispensáveis para a conservação do edifício».

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Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT