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quarta-feira, 20 de março de 2024

A Varanda do Frangipani. Mia Couto. «… éramos criaturas amamentadas a cacimbo. O halakavuma tinha também suas gratidões com o frangipani. Apontou a varanda e disse: Aqui é onde os deuses vêm rezar»

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Moçambique: essa imensa varanda sobre o Índico... In Eduardo Lourenço, 1995

«(…) Era a primeira vez que eu iria sair da morte. Por estreada vez iria escutar, sem o filtro da terra, as humanas vozes do asilo. Ouvir os velhos sem que eles nunca me sentissem. Uma dúvida me enrugava. E se eu acabasse gostando de ser um passa-noite? E se, no momento de morrer por segunda vez, me tivesse apaixonado pela outra margem? Afinal, eu era um morto solitário. Nunca tinha passado de um pré-antepassado. O que surpreendia era eu não ter lembrança do tempo que vivi. Recordava somente certos momentos mas sempre exteriores a mim. Recordava, sobretudo, o perfume da terra quando chovia. Vendo a chuva escorrendo por Janeiro, me perguntava: como sabemos que este cheiro é da terra e não do céu? Mas não lembrava, no entanto, nenhuma intimidade do meu viver. Será sempre assim?

Os restantes mortos teriam perdido a privada memória? Não sei. Em meu caso, contudo, eu aspirava ganhar acesso às minhas privadas vivências. O que queria lembrar, muito-muito, eram as mulheres que amei. Confessei   esse desejo ao pangolim. Ele me sugeriu, então: Você mal chegue à vida queime umas sementes de abóbora. Para quê? Não sabe? Queimar pevides faz lembrar amantes esquecidos.

No dia seguinte, porém, eu repensei a minha viagem à vida. Esse pangolim já estava demasiado gasto. Poderia eu confiar em seus poderes? Seu corpo rangia que nem curva. Seu cansaço derivava do peso de sua carapaça. O pangolim é como o cágado, caminha junto com a casa. Daí seus extremos cansaços.

Chamei o halakavuma e lhe disse da minha recusa em me transferir para o lado da vida. Ele que entendesse: a força do crocodilo é a água. Minha força era estar longe dos viventes. Eu nunca soube viver, mesmo quando era vivo. Agora, mergulhado em carne alheia, eu seria roído por minhas próprias unhas. Ora, Ermelindo: você vá, o tempo lá está bonito, molhado a boas chuvinhas.

Eu que fosse e agasalhasse a alma de verde. Quem sabe eu encontrasse uma mulher e tropeçasse em paixão? O pangolim vaselinavam a conversa e engrossava a vista. Ele sabia que não era assim fácil. Eu tinha medo, o mesmo medo que os vivos sentem quando se imaginam morrer. O pangolim me assegurava futuros mais-que-perfeitos. Tudo se passaria ali, na mesmíssima varanda, no debaixo da árvore onde eu estava enterrado.

Olhei o frangipani e senti saudade antecedida dele. Eu e a árvore nos semelhávamos. Quem, alguma vez, tinha regado as nossas raízes? Ambos éramos criaturas amamentadas a cacimbo. O halakavuma tinha também suas gratidões com o frangipani. Apontou a varanda e disse: Aqui é onde os deuses vêm rezar». In Mia Couto, A Varanda do Frangipani, 1996, Editorial Caminho, colecção Outras Margens, 2000, ISBN 978-972-211-050-1.

Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, Mia Couto, Moçambique, O Saber, 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

E se Obama fosse Africano. Mia Couto. «O episódio da estação hidrométrica passou a ser um dos alimentos do meu sentimento de esperança»

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O guardador de rios
«Depois da Independência, um programa de controlo dos caudais dos rios foi instalado em Moçambique. Formulários foram distribuídos pelas estações hidrológicas espalhadas pelo país e um programa de registo foi iniciado para os mais importantes cursos fluviais. A guerra de desestabilização eclodiu e esse projecto, como tantos outros, foi interrompido por mais de uma dúzia de anos. Quando a Paz se reinstalou, em 1992, as autoridades relançaram o projecto acreditando que, em todo o lado, era necessário recomeçar do zero. Contudo, uma surpresa esperava a brigada que visitou uma isolada estação hidrométrica no interior da Zambézia. O velho guarda tinha-se mantido activo e cumprira, com zelo diário, a sua missão durante todos aqueles anos. Esgotados os formulários, ele passou a usar as paredes da estação para grafar, a carvão, os dados hidrológicos que era necessário registar. No interior e exterior, as paredes estavam cobertas de anotações e a velha casa parecia um imenso livro de pedra. Orgulhoso, o guarda recebeu os visitantes à entrada e apontou para a madeira da porta: começa-se a ler por aqui, para ir habituando os olhos ao escuro. A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassínio espectacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder crença no futuro.
O episódio da estação hidrométrica passou a ser um dos alimentos do meu sentimento de esperança. Como se me lembrasse que devo dialogar com invisíveis rios e tudo em meu redor podem ser paredes onde eu nego a tentação do desalento.
Tal como o anterior Pensatempos, este não é um livro de ficção. Os textos que aqui se reúnem cumprem a missão de intervenção social que a mim mesmo me incumbo como cidadão e como escritor. Com a excepção do artigo sobre a eleição de Obama, todos os restantes textos foram concebidos para alocuções a serem proferidas em encontros e colóquios dentro e fora de Moçambique. Conservei o mais possível a forma coloquial e deixei intencionalmente escapar, aqui e ali, pequenas repetições e improvisações.
Alguns destes textos foram concebidos para o contexto de Moçambique e, eventualmente, pecarão por essa especificidade para o leitor não moçambicano. Acredito, porém, que os rios que percorrem o imaginário do meu país cruzam territórios universais e desembocam na alma do mundo. E nas margens de todos esses rios há gente teimosamente inscrevendo na pedra os minúsculos sinais da esperança. In Mia Couto.

Mia Couto, E se Obama fosse Africano, Edições Caminho, colecção Outras Margens, 2009, ISBN 978-972-212-023-4.

Cortesia ECaminho/JDACT

terça-feira, 28 de junho de 2016

A Varanda do Frangipani. Mia Couto. «Depois me deitavam terra com suavidade de quem veste um filho. Não usavam pás. Apenas serviço de mãos. Paravam quando a areia me chegava aos olhos»

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Moçambique: essa imensa varanda sobre o Índico... In Eduardo Lourenço, 1995

«(…) Lembrei o caso do camaleão. Todos sabem a lenda: Deus enviou o camaleão como mensageiro da eternidade. O bicho demorou-se a entregar aos homens o segredo da vida eterna. Demorou-se tanto que deu tempo a que Deus, entretanto, se arrependesse e enviasse um outro mensageiro com o recado contrário. Pois eu sou um mensageiro às avessas: levo recado dos homens para os deuses. Me estou demorando com a mensagem. Quando chegar ao lugar dos divinos já eles terão recebido a contrapalavra de outrem.
Certo era que eu não tinha apetência para herói póstumo. A condecoração devia ser evitada, custasse os olhos e a cara. Que poderia eu fazer, fantasma sem lei nem respeito? Ainda pensei reaparecer no meu corpo de quando eu era vivo, moço e felizão. Me retroverteria pelo umbigo e surgiria, do outro lado, fantasma palpável, com voz entre os mortais. Mas um xipoco que reocupa o seu antigo corpo arrisca perigos muito mortais: tocar ou ser tocado basta para descambalhotar corações e semear fatalidades. Consultei o pangolim, meu animal de estimação. Há alguém que desconheça os poderes deste bicho de escamas, o nosso halakavuma? Pois este mamífero mora com os falecidos. Desce dos céus aquando das chuvadas. Tomba na terra para entregar novidades ao mundo, as proveniências do porvir. Eu tenho um pangolim comigo, como em vida tive um cão. Ele se enrosca a meus pés e faço-lhe uso como almofada. Perguntei ao meu halakavuma o que devia fazer. Não quer ser herói? Mas herói de quê, amado por quem? Agora, que o país era uma machamba de ruínas, me chamavam a mim, pequenito carpinteiro!? O pangolim se intrigou: não lhe apetece ficar vivo, outra vez? Não. Como está a minha terra, não me apetece. O pangolim rodou sobre si próprio. Perseguia a extremidade do corpo ou afinava a voz para que eu lhe entendesse? Porque não é com qualquer que o bicho fala. Ergueu-se sobre as patas traseiras, nesse jeito de gente que tremexia comigo. Apontou o pátio da fortaleza e disse: veja à sua volta, Ermelindo. Mesmo no meio destes destroços nasceram flores silvestres. Não quero regressar para lá. É que aquele será, para sempre, o teu jardim: entre pedra ferida e flor selvagem.
Me irritavam aquelas vagueações do escamudo. Lhe lembrei que eu queria era conselho, uma saída. O halakavuma ganhou as gravidades e disse: você, Ermelindo, você deve remorrer. Voltar a falecer? Se nem foi fácil deixar a vida da primeira vez! Seguindo a tradição de minha família não deveria ser sequer tarefa fazível. Meu avô, por exemplo, durou infinidades. Com certeza, não morreu ainda. O velho deixava a perna de fora do corpo, dormia junto de perigosas folhagens. Oferecia-se, desse modo, à mordedura das cobras. O veneno, em doses, nos dá mais vivência. Falava assim. E parecia a vida lhe dava razão: cada vez ele ficava mais cheio de feitio e forma. O halakavuma se parecia com meu avô, teimoso como um pêndulo. O bicho insistia-me: escolha um que esteja próximo para acabar. O lugar mais seguro não é no ninho da cobra-mamba? Eu devia emigrar em corpo que estivesse mais perto de morrer. Apanhar boleia dessa outra morte e dissolver-me nessa findação. Não parecia difícil. No asilo não faltaria quem estivesse para morrer. Quer dizer que eu vou ter que fantasmear-me por um alguém? Você irá exercer-se como um xipoco. Deixe-me pensar, disse eu. No fundo, a decisão já tinha sido tomada. Eu fingia apenas ser dono da minha vontade. Nessa mesma noite, eu estava transitando para xipoco. Pelas outras palavras, me transformava num passa-noite, viajando em aparência de um outro alguém. Caso reocupasse meu próprio corpo eu só seria visível do lado da frente. Visto por detrás não passaria de oco de buraco. Um vazio desocupado. Mas eu iria residir em corpo alheio. Da prisão da cova eu transitava para a prisão do corpo. Eu estava interdito de tocar a vida, receber directamente o sopro dos ventos. De meu recanto eu veria o mundo translucidar, ilúcido. Minha única vantagem seria o tempo. Para os mortos, o tempo está pisando nas pegadas da véspera. Para eles nunca há surpresa. No princípio, ainda depositei dúvida: esse hala-kavuma dizia a verdade? Ou inventava, de tanto estar longe do mundo? Há anos que ele não descia ao solo, suas unhas já cresciam a redondear umas tantas voltas. Se mesmo as patas dele tinham saudade do chão, por que motivo sua cabeça não fantasiava loucuras? Mas, depois, eu me fui deixando ocupar pela antecipação da viagem ao mundo dos vivos.
Me enchi tanto desta vontade que até sonhei sem chuva nem noite. O que sonhei? Sonhei que me enterravam devidamente, como mandam nossas crenças. Eu falecia sentado, queixo na varanda dos joelhos. Descia à terra nessa posição, meu corpo assentava sobre areia que haviam retirado de um morro de muchém. Areia viva, povoada de andanças. Depois me deitavam terra com suavidade de quem veste um filho. Não usavam pás. Apenas serviço de mãos. Paravam quando a areia me chegava aos olhos. Então, espetavam à minha volta paus de acácias. Tudo em aptidão de ser flor. E para convocar a chuva me cobriam de terra molhada. Assim eu me aprendia: um vivo pisa o chão, um morto é pisado pelo chão. E sonhei ainda mais: após a minha morte, todas as mulheres do mundo dormiam ao relento. Não era apenas a viúva que estava interdita a abrigar-se, como é hábito da nossa crença. Não. Era como se todas as mulheres tivessem, em mim, perdido o esposo. Todas estavam sujas por minha morte. O luto se estendia por todas as aldeias como um cacimbo espesso. As lamparinas iluminavam o milho, mãos trémulas passavam com o cadinho do fogo entre os espigueirais. Limpavam-se os campos dos maus-olhados. No dia seguinte, mal acordei me pus a abanar o halakavuma. Queria saber quem era a pessoa que ia ocupar. É um que está para vir. Um? Qual? É um de fora. Vai chegar amanhã. Depois, acrescentou: foi pena não me ter lembrado antes. Uma semana antes e tudo estaria já resolvido. Há uns poucochinhos dias mataram um grande, lá no asilo. Que grande? O director do asilo. Foi morto ao tiro. Por motivo desse assassinato vinha da capital um agente da polícia. Eu que me instalasse no corpo desse inspector e seria certo que morreria. Você vai entrar nesse polícia. Deixe o resto por minhas contas. Quanto tempo vou ficar lá, na vida? Seis dias. É o tempo do polícia ser morto». In Mia Couto, A Varanda do Frangipani, 1996, Editorial Caminho, colecção Outras Margens, 2000, ISBN 978-972-211-050-1.

Cortesia de ECaminho/JDACT

A Varanda do Frangipani. Mia Couto. «Agora queriam os meus restos mortais. Ou melhor, os meus restos imortais. Precisavam de um herói mas não um qualquer. Careciam de um da minha raça»

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Moçambique: essa imensa varanda sobre o Índico... In Eduardo Lourenço, 1995

«Sou o morto. Se eu tivesse cruz ou mármore neles estaria escrito: Ermelindo Mucanga. Mas eu faleci junto com meu nome faz quase duas décadas. Durante anos fui um vivo de patente, gente de autorizada raça. Se vivi com direiteza, desglorifiquei-me foi no falecimento. Me faltou cerimónia e tradição quando me enterraram. Não tive sequer quem me dobrasse os joelhos. A pessoa deve sair do mundo tal igual como nasceu, enrolada em poupança de tamanho. Os mortos devem ter a discrição de ocupar pouca terra. Mas eu não ganhei acesso a cova pequena. Minha campa estendeu-se por minha inteira dimensão, do extremo à extremidade. Ninguém me abriu as mãos quando meu corpo ainda esfriava. Transitei-me com os punhos fechados, chamando maldição sobre os viventes. E ainda mais: não me viraram o rosto a encarar os montes Nkuluvumba. Nós, os Mucangas, temos obrigações para com os antigamentes. Nossos mortos olham o lugar onde a primeira mulher saltou a lua, arredondada de ventre e alma. Não foi só o devido funeral que me faltou. Os desleixos foram mais longe: como eu não tivesse outros bens me sepultaram com minha serra e o martelo. Não o deviam ter feito. Nunca se deixa entrar em tumba nenhuns metais. Os ferros demoram mais a apodrecer que os ossos do falecido. E ainda pior: coisa que brilha é chamatriz da maldição. Com tais inutensílios, me arrisco a ser um desses defuntos estragadores do mundo. Todas estas atropelias sucederam porque morri fora do meu lugar. Trabalhava longe da minha vila natal. Carpinteirava em obras de restauro na fortaleza dos portugueses, em São Nicolau. Deixei o mundo quando era a véspera da libertação da minha terra. Fazia a piada: meu país nascia, em roupas de bandeira, e eu descia ao chão, exilado da luz. Quem sabe foi bom, assim evitado de assistir a guerras e desgraças.
Como não me apropriaram funeral fiquei em estado de xipoco, essas almas que vagueiam de paradeiro em desparadeiro. Sem ter sido cerimoniado acabei um morto desencontrado da sua morte. Não ascenderei nunca ao estado de xicuembo, que são os defuntos definitivos, com direito a serem chamados e amados pelos vivos. Sou desses mortos a quem não cortaram o cordão desumbilical. Faço parte daqueles que não são lembrados. Mas não ando por aí, pandemoniando os vivos. Aceitei a prisão da cova, me guardei no sossego que compete aos falecidos. Me ajudou o ter ficado junto a uma árvore. Na minha terra escolhem um canhoeiro. Ou uma mafurreira. Mas aqui, nos arredores deste forte, não há senão uma magrita frangipaneira. Enterraram-me junto a essa árvore. Sobre mim tombam as perfumosas flores do frangipani. Tanto e tantas que eu já cheiro a pétala. Vale a pena me adoçar assim? Porque agora só o vento me cheira. No resto, ninguém me cuida. Disso eu já me resignei. Mesmo esses que rondam, pontuais, os cemitérios, que sabem eles dos mortos? Medos, sombras e escuros. Até eu, falecido veterano, conto sabedoria pelos dedos. Os mortos não sonham, isso vos digo. Os defuntos só sonham em noites de chuva. No resto, eles são sonhados. Eu que nunca tive quem me deitasse lembrança, eu sou sonhado por quem? Pela árvore. Só o frangipani me dedica nocturnos pensamentos.
A árvore do frangipani ocupa uma varanda de uma fortaleza colonial. Aquela varanda já assistiu a muita história. Por aquele terraço escoaram escravos, marfins e panos. Naquela pedra deflagraram canhões lusitanos sobre navios holandeses. Nos fins do tempo colonial, se entendeu construir uma prisão para encerrar os revolucionários que combatiam contra os portugueses. Depois da Independência ali se improvisou um asilo para velhos. Com os terceiro-idosos, o lugar definhou. Veio a guerra, abrindo pastos para mortes. Mas os tiros ficaram longe do forte. Terminada a guerra, o asilo restava como herança de ninguém. Ali se descoloriam os tempos, tudo engomado a silêncios e ausências. Nesse destempero, como sombra de serpente, eu me ajeitava a impossível antepassado. Até que, um dia, fui acordado por golpes e estremecimentos. Estavam a mexer na minha tumba. Ainda pensei na minha vizinha, a toupeira, essa que ficou cega para poder olhar as trevas. Mas não era o bicho escavadeiro. Pás e enxadas desrespeitavam o sagrado. O que esgravatava aquela gente, avivando assim a minha morte? Espreitei entre as vozes e entendi: os governantes me queriam transformar num herói nacional. Me embrulhavam em glória. Já tinham posto a correr que eu morrera em combate contra o ocupante colonial. Agora queriam os meus restos mortais. Ou melhor, os meus restos imortais. Precisavam de um herói mas não um qualquer. Careciam de um da minha raça, tribo e região. Para contentar discórdias, equilibrar as descontentações. Queriam pôr em montra a etnia, queriam raspar a casca para exibir o fruto. A nação carecia de encenação. Ou seria o vice-versa? De necessitado eu passava a necessário. Por isso me covavam o cemitério, bem fundo no quintal da fortaleza. Quando percebi, até fiquei atrapalhaço. Nunca fui homem de ideias mas também não sou morto de enrolar língua. Eu tinha que desfazer aquele engano. Caso senão eu nunca mais teria sossego. Se faleci foi para ficar sombra sozinha. Não era para festas, arrombas e tambores. Além disso, um herói é como o santo. Ninguém lhe ama de verdade. Se lembram dele em urgências pessoais e aflições nacionais. Não fui amado enquanto vivo. Dispensava, agora, essa intrujice». In Mia Couto, A Varanda do Frangipani, 1996, Editorial Caminho, colecção Outras Margens, 2000, ISBN 978-972-211-050-1.

Cortesia de ECaminho/JDACT

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A Vida Breve. Memória. «A Lembrança está demasiado fresca para sobre ela dizer mais; acabei agora mesmo de fechar os olhos e de voltar costas à tela. Vou respirar fundo, dar uma volta, mirar as estrelas…»

Cortesia de wikipedia

As minhas asas
Eu tinha umas asas brancas,
asas que um anjo me deu
que, em me cansando da Terra,
bati-as, voava ao Céu.

Porque as minhas asas brancas,
asas que um anjo me deu,
para a terra me pesavam
já não se erguiam ao Céu.

E as minhas asas brancas,
asas que um anjo me deu,
pena a pena ma caíram
nunca mais voei ao Céu.

Poema de Almeida Garrett, voz de Luís Góis


JDACT

A Vida Breve. Memória. «Hoje será como todos os dias: lhe falarei, junto ao leito, mas ele não me escutará. Não será essa a diferença. Ele vivia noutro mundo. Diferença está na marmita que adormecerá, sem préstimo, na sua cabeceira. Ele devorava os meus preparados…»

Cortesia de wikipedia

Para a D. Flora e Filhas

Companheiros
Quero escrever-me de homens
quero calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho.

E quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados.

Deixo-vos
a paciência dos rios
a idade dos livros que não se desfolham.

Mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me às vezes viver.

Hei-de inventar
um verso que vos faça justiça.

Por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho.

Basta-me saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros.

Poema de Mia Couto, Moçambique, África, 1984.

JDACT

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Etnografia de Os Lusíadas. Alfredo Reis Borges. «As estrofes que se seguem denotam a curiosidade dos nossos marinheiros em face de estranhos povos contactados em regiões distintas, verificando-se também idêntica reacção por parte dos respectivos indígenas»

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Breve questionário etnográfico
«Não se trata rigorosamente de um questionário, isto é, de uma compilação metódica de perguntas como interessa a este tipo de método de investigação etnográfica. É, pois, um interrogatório oral baseado no método de inquérito directo, bastante empírico sob o aspecto etnográfico e de reduzidos requisitos. As estrofes que se seguem denotam a curiosidade dos nossos marinheiros em face de estranhos povos contactados em regiões distintas, verificando-se também idêntica reacção por parte dos respectivos indígenas.
Quando da chegada à ilha de Moçambique apareceram uns pequenos batéis e os marinheiros interrogavam- se:

Que gente será esta? (em si deziam)
Que costumes, que Lei, que Rei teriam?
(I,45)

E antes de completamente ancorados já subiam os negros pelas cordas da nau capitania onde foram bem recebidos pelo capitão (Vasco da Gama) e

Comendo alegremente, perguntavam,
pela Arábica língua, donde vinham,
quem eram, de que terra, que buscavam,
ou que partes do mar corrido tinham.
……………………………
(I,50)

Por via do intérprete Fernão Martins foi dada a seguinte resposta:

……………………………………….
Os Portugueses somos do Ocidente,
imos buscando as terras do Oriente.
(I,50)

Do mar temos corrido e navegado
toda a parte do Antárctico e Calisto,
toda a costa Africana rodeado,
diversos céus e terras temos visto.
……………………………..
(I,51)

.....................buscando andamos
a terra Oriental que o Indo rega;
………………………………
(I,52)

E depois destas respostas disseram:

…………………………
Mas já razão parece que saibamos
(se entre vós a verdade não se nega)
Quem sois, que terra é esta que habitais?
……………………………………
(I,52)

Responderam:

Somos (um dos das Ilhas lhe tornou)
estrangeiros na terra, Lei e nação;
que os próprios são aqueles que criou
a Natura, sem Lei e sem Razão.
Nós temos a Lei certa que insinou
o claro descendente de Abraão,
que agora tem do Mundo o senhorio,
a mãe Hebreia teve e o Pai Gentio.
(I,53)

Esta Ilha pequena que habitamos
É em toda esta terra certa escala
de todos os que as ondas navegamos,
de Quíloa, de Mombaça e de Sofala.
E, por ser necessária, procuramos,
como próprios da terra, de habitá-la;
e, por que tudo enfim vos notifique,
chama-se a pequena Ilha: Moçambique'.
(I,54)

E até ao dia seguinte, enquanto aguardavam a visita do sultão,

…………………………………….
Qualquer então consigo cuida e nota
na gente e na maneira desusada,
…………………………………….
(I,57)

Recebe o Capitão alegremente
 Mouro e toda a sua companhia:
………………………………..
(I,61)

Os marinheiros curiosos,

……………………………………
Notando o estrangeiro modo e uso
e a linguagem tão bárbara e enleada.
Também o Mouro astuto está confuso,
olhando a cor, o trajo e a forte armada;
e, perguntando tudo, lhe dezia
se porventura vinham de Turquia.
(I,62)

E mais lhe diz, também, que ver deseja
os livros de sua Lei, preceito ou fé,
pera ver se conforme à sua seja,
ou se são dos de Cristo, como crê;
e, por que tudo note e tudo veja,
ao Capitão pedia que lhe dê
mostras das fortes armas de que usavam,
Quando cos inimigos pelejavam.
(I,63)

Responde o valeroso Capitão,
por um que a língua escura bem sabia:
…………………………………
(I,64)

A Lei tenho d'Aquele a cujo império
obedece o visibil e invisibil,
aquele que criou todo o Hemisfério,
tudo o que sente e todo o insensibil;
que padeceu desonra e virtupério,
sofrendo morte injusta e insofribil,
e que do Céu à Terra, enfim, deceu,
por subir os mortais da Terra ao Céu.
(I,65)

Deste Deus-Homem, alto e infinito,
os Livros que tu pedes não trazia,
que bem posso escusar trazer escrito
em papel o que na alma andar devia.
Se as armas queres ver, como tens dito,
comprido esse desejo te seria,
como amigo as verás, porque eu me obrigo
que nunca as queiras ver como inimigo.
(I,66)
[…]

As estrofes aqui reunidas revelam bem a curiosidade inata que leva os Portugueses a interrogar-se a respeito das gentes que viam de costumes tão estranhos. Pela sua clareza não nos deteremos muito sobre as suas análises, fazendo apenas breves referências julgadas necessárias a algumas delas. Na ilha de Moçambique formulam o seguinte questionário oral, por quererem saber toda a verdade:
  • 1. Quem sois?
  • 2. Que terra é esta que habitais?
  • 3. Qual é a vossa Lei (religião)?
  • 4. Que Rei (organização social e política)?
In Alfredo Reis Borges, Etnografia de Os Lusíadas, Sociedade de Geografia de Lisboa, 1996.

continua
Cortesia de SG de Lisboa/JDACT

domingo, 24 de abril de 2011

João Maria Tudela: Um amigo, um cantor de charme.

(1929-2011)
Lourenço Marques, actual Maputo
Cortesia de jcmaximinofotos

Recordo a nossa última conversa no ano passado! Que a sua «viagem» seja tão «confortável» como foi a sua carreira. A amizade irá continuar!

João Maria Tudela nasce em Moçambique. Anos mais tarde, vem para a cidade do conhecimento, Coimbra, como estudante, mas aqui irá acentuar ainda mais a sua tendência artística. Junta-se aos grupos académicos, mas os estudos... dão lugar ao talento artístico.
Tudela tinha a música dentro de si. É bom lembrar que tocava piano, guitarra, viola e «brincava» com a harmónica vocal, sem saber uma nota musical.
Nunca deixou de cantar, dum modo particular o fado de Coimbra, e este gosto especial leva-o a descobrir o encanto da música africana. Em 1959, Tudela surge com a canção «Kanimambo», o primeiro e maior êxito. Uma carreira «recheada» com muitos prémios:
  • Prémio da Crítica,
  • Melhor da TV, em 1962.
Em 1968, por motivo de «Cama 4, Sala 5» de Ary dos Santos e Nuno Nazareth Fernandes, Tudela é afastado da RTP. Os seus últimos anos de intervenção artística são marcados por uma aproximação aos autores mais críticos do regime.

NOTA: Em Moçambique também foi considerado um «talentoso do ténis».


Cortesia de jn 
Principais êxitos:
  • Kanimambo,
  • Hambanine,
  • O Meu Chapéu,
  • Diz que Gostas de Mim,
  • Menina das Tranças,
  • No País do Sol,
  • Soldado Português,
  • Moçambique,
  • Liberdade,
  • Fuzilaram um Homem num País Distante.


 
JDACT

sábado, 8 de janeiro de 2011

Malangatana: Nos últimos 50 anos foi muito mais do que pintor. Fez cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura. Fez experiências com areia, conchas, pedras e raízes. Foi poeta, actor, dançarino, músico, dinamizador cultural, organizador de festivais, filantropo e até deputado

(1936-2011)
Matalana, Moçambique
Cortesia de obitpatrol

Malangatana Valente Nguenha foi um dos pintores moçambicanos mais conhecidos em todo o mundo. Em 1997 foi nomeado pela UNESCO «Artista pela Paz».

Trabalhou em vários ofícios humildes, tendo entrado no Núcleo de Arte da então cidade de Lourenço Marques, actualmente Maputo.

Cortesia de pelmama

Nos últimos 50 anos foi muito mais do que pintor. Fez cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura. Fez experiências com areia, conchas, pedras e raízes. Foi poeta, actor, dançarino, músico, dinamizador cultural, organizador de festivais, filantropo e até deputado da FRELIMO.
  
Malangatana viveu parte da sua adolescência junto dos colonos portugueses, os mesmos que o iniciaram na pintura, primeiro o artista plástico e biólogo Augusto Cabral e depois o arquitecto Pancho Guedes.

Cortesia de geopedrados
O pintor iria «nascer» quando Malangatana foi a casa de Augusto Cabral e o viu a pintar um painel. Ensine-me a pintar, pediu e ele deu-lhe tintas, pincéis e placas de contraplacado. Agora pinta, disse ao jovem, ao que este perguntou:
  • pinto o quê?”
  • O que está dentro da tua cabeça, respondeu Augusto Cabral.
O jovem viria a ter também o apoio de outro português, o arquitecto Pancho Guedes, que lhe disponibilizou um espaço na garagem de sua casa de Maputo e lhe comprava dois quadros por mês, a preços inflacionados. Em poucos meses Malangatana quis fazer uma exposição e foi, para espanto confesso de Augusto Cabral, um enorme sucesso.

Cortesia de brownedu
Fica-lhe no pincel, a opressão colonial, a guerra civil. A paz reflecte-se numa pintura mais optimista e nos últimos anos foi um carácter mais sensual que a caracterizou.
Usava sempre o quotidiano. «Há sempre um manancial de temas a abordar. São os acontecimentos do mundo, às vezes tristes, outras alegres, e eu não fico indiferente. Seja em Moçambique, ou noutra parte do mundo, a dor humana é a mesma», disse numa entrevista à Agência Lusa.

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Já homem, com a pintura como profissão, confessou ao jornalista Machado da Graça que sentia grande aproximação com os artistas portugueses desde os anos 70, quando foi pela primeira a Portugal, como bolseiro da Gulbenkian.

Foi um dos criadores do Museu Nacional de Arte de Moçambique, dinamizador do Núcleo de Arte, colaborador da Unicef e arquitecto de um sonho antigo, que levou para a frente, a criação de um Centro Cultural na «sua Matalana». Fez inúmeras exposições e tem murais em Maputo e na Beira, na África do Sul e na Suazilândia, e também na Suécia e na Colômbia.

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Foi nomeado Artista pela Paz (UNESCO), recebeu o prémio Príncipe Claus, e de Portugal levou também a medalha da Ordem do Infante D.Henrique.
Em Portugal morreu o pastor, mainato e pintor. Malangatana. Valente.

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