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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

V. O. T. de S. Francisco. Guimarães. Agenda Franciscana: «Como é sabido, os painéis de azulejos da capela-mor da igreja conventual não estão assinados nem datados, mas a generalidade dos especialistas consideram-nos da primeira metade do século XVIII»


Cortesia de votguimaraes

Milagre do Ladrão. Ponto da Situação
Passou mais um aniversário do “Milagre do Ladrão”, efeméride que era celebrada outrora com missa cantada em honra de Santo António. Já por diversas vezes abordamos nesta "Agenda" a história do "Milagre do Ladrão". As investigações levadas recentemente a efeito forneceram-nos novos elementos, alguns deles de inegável interesse, pelo que conviria fazer agora o ponto da situação.

A mais antiga narração do “milagre”
A primeira narrativa do “Milagre do Ladrão” consta da Novena para “os treze dias do preclaríssimo e sempre piedoso Santo António de Lisboa”, de Frei Fernando da Soledade, publicada em Lisboa no ano de 1711, poucos meses depois do acontecimento. A notícia do milagre correu como rastilho pelo país fora dando origem a uma romaria muito concorrida ao altar de Santo António existente neste convento.

A narrativa do “milagre” segundo a “História Seráfica”
O mesmo Frei Fernando da Soledade, no V tomo da sua “Historia Serafica chonologica da Ordem de S. Francisco na provincia de Portugal”, impressa em Lisboa em 1721; escreveu a págs. 1136 e seguintes que:
  • " ... naõ bastou porèm este exemplo para que os ladrões lhe guardasse [à imagem de Santo António] o respeyto devido, porq' no anno de 1710, em a madrugada de huma terça feyra vinte & nove de Abril, manifestou a luz da Aurora o castigo de outro ladraõ, que pretendia profanar o sagrado da sua Capella ou fosse para roubarlhe o que tinha, ou para despojar a Igreja do precioso, como se presume. Chamava-se Manoel Dias, & os da sua idade já passavão do numero de setenta annos, tempo mais próprio para ajustar as contas da consciência, do que para obrigalla cõ hum excesso taõ grave a mayores dividas. Porem o semblante, que ordinariamente he o mostrador das inclinações, naõ prometia nas suas menores temeridades, porq' infundia pavor. Era natural do Bispado de Coimbra na vida mëdigo, & naõ satisfeyto com as caridades dos fieis, appetecendo por ventura opulências, & abundâncias, se expoz a esta empreza com taõ adversa fortuna, que logo no primeyro encontro se vio prostrado.


Cortesia de votguimarães

  • Está plantada a Igreja do dito Convento [de S. Francisco de Guimarães] de modo que para a banda do Norte fique sepultada na terra em bastante altura, & por essa razaõ a fresta da Capella de Santo Antonio, que existe da mesma parte, não dista do chaõ mais do que seis palmos. Pareceo ao ladraõ fácil por esta fresta a envestidura, e porque os ferros della eraõ delgados, & consumidos da sua muyta antiguidade; E dando mãos ao empenho despregou a rede que defendia a vidraça; porèm naõ proseguio, porque a mesma rede, concorrendo superior impulso que o lançou por terra, o pescou. Por espaço de três varas se foy arrastando debayxo della, & naõ pode mais, porque tinha hüa perna fora de seu lugar, cujas dores o atormentavaõ com grande excesso em competência dos assombros da sua própria confusaõ, vendo que o seu peccado seria brevemente manifesto a todo o mundo. As primeyras creaturas que o achráraõ foraõ certas mulheres, as quaes persuadidas, que algu deste homem o havia posto naquelle estado, tangeraõ o sino da portaria chamando aos Religiosos para que o confessassem. Vendo porèm a rede, & logo hum martelo, & juntamente hum bordaõ ferrado, que por sua grandeza mais parecia instromëto de insultos, do que arrimo de membros debilitados, entenderaõ que era differente o motivo da sua moléstia, a qual o próprio ladraõ lhes insinuou, declarando, q' estava castigado por Santo Antonio. Com muyta piedade o recolhèraõ os Religiosos, & examinando-o com varias perguntas, nunca foy possível ouvir da sua boca mais que as sobreditas palavras, & que queria confessarse. Chamáraõ Cirurgiões para verlhe a perna, os quaes a acharaõ deslocada na coyxa, & a nòs desta recolhida para a parte de dentro, cuja circunstãcia tiveraõ por maravilha.

Cortesia de votguimaraes

  • Parecendo aos Padres que por estar contrito o facinoroso, se compadeceria delle o milagroso Santo, depois de confessado o leváraõ ao seu Altar; porèm como já neste tempo era copioso o concurso da gente, o recolheraõ na Capella mòr; e como nem aqui o podiaõ defender do pezo da multidaõ, o transferiraõ, & puzaraõ no pulpito, para que todos, sem algum lhe tocar o vissem, & também ouvissem este prègador de desenganos os que fossem parecidos com elle nos costumes. Aqui tinha de fronte a sagrada Imagem de Santo Antonio para pedirlhe perdaõ da offensa, & remédio á sua desgraça; porèm o Céo devia estar muyto irado contra a protervia, porque a sagrada Effigie deo a entender que tambë Santo Antonio o estava, sahindo do seu braço direyto tal corrente de agua, que molhando todas petições, & fitas que as prendiaõ ao cordaõ, ensopou grande parte da toalha do Altar, & mais adiante corrèra, se logo a devoçaõ naõ tratara de aproveytar nos lenços, & outras prendas estes milagrosos orvalhos, cujas relíquias obráraõ prodígios. O Juiz de fora que com os seus Officiaes estava presente mandou fazer hum auto para justificaçaõ perpetua da verdade deste portento, o qual continuou atè depois do meyo dia em que se foy deminuindo atè ficarë somente no pulso duas lágrimas que perseveràraõ largo espaço. Toda a Villa festejou no dia seguinte o successo com luminarias; & na quinta feyra alguns devotos com huma plausível solemnidade na mesma Igreja, estando o Senhor exposto ás attençoens Catholicas, as quaes ouviraõ explanar do púlpito as maravilhas mëcionadas com erudiçaõ elegante. Nos três dias seguintes continuáraõ na Villa os festejos de cavallaria, & touros, como proemio da grandiosa celebridade que se havia de tributar, & com effeyto se dedicou ao mesmo Santo no mez de Junho. Só as tristezas ficáraõ para o ladraõ, que os nosso Padres de noyte entregráraõ á Misericórdia para curarlhe o corpo, porèm naõ deyxaraõ de assistirlhe com o remédio d'alma nos dous mezes que viveo; & ultimamente a seu rogo lhe deraõ sepultura no adro da Igreja defronte da porta principal”

O quadro do “Milagre do Ladrão”
Cortesia de votguimaraes

No Arquivo da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, encontra-se, entre outras peças de arte, uma tela do século XVIII onde se encontram representados, tal como nos azulejos da capela-mor da igreja, os dois episódios do “milagre do Ladrão”: à esquerda, o ladrão coberto com a grade; à direita, o ladrão, o Juiz de Fora e seus oficiais, e os religiosos, recolhendo a água que corre da imagem do Santo. No rodapé do quadro, lê-se:
  • “Retrato de Manoel dias natural de Coimbra; este quis Roubar a Capella de Sto Antº e tendo tirado a Rede da Vidraça cahio com ella e desconjuntou huma perna com que não pode fugir athe pela manhã chegarão humas molheres chamarão a dous Religiosos que o vierão alevantar // Levando á igreja diante de Santo Anftº chegou a elle o doutor Juis de fora e lhe quis fazer algumas preguntas, e neste tempo suou o Santo pelo rosto e mãos, que molhou mta somma de lenços das pessoas que estavão prezentes, em29 de Abril de 1710”.



Datação do painel de azulejos que representa o “Milagre do Ladrão”
Como é sabido, os painéis de azulejos da capela-mor da igreja conventual não estão assinados nem datados, mas a generalidade dos especialistas consideram-nos da primeira metade do século XVIII.
Santos Simões (Azulejaria em Portugal no século XVIII, 1979) integra estes azulejos no ciclo dos Oliveira Bernardes e afirma que teriam sido executados entre 1720 e 1730, enquanto José Meco ("O Azulejo em Portugal”, Edições Alfa, 1989) atribui estes painéis, com reservas, a Teotónio dos Santos, embora admita certas semelhanças com a obra de Manuel dos Santos.
Sendo assim, os painéis teriam sido executados antes de 1726. Se a estes dado acrescentarmos o facto de nestes painéis estar representado o "Milagre do Ladrão" ocorrido em 29 de Abril de 1710, poderíamos concluir que estes azulejos foram executados entre 1710 e 1726.

Cortesia de votguimaraes

Uma análise mais aprofundada do livro de Craesbeeck poderá suscitar algumas dúvidas acerca deste raciocínio. Com efeito, diz o monografo; “a capella-mor desta igreja he muito grave e magestosa e clarissima pellas muitas luses de vidraças, que tem nas paredes das ilhargas, e toda cuberta de rico azolejo. O retabulo he muito bem dourado e a tribuna magestoza; e no arco tem sua grade de pao santo, com que se fecha a dita capella, pella entrada do dito arco; dentro, logo ao pée das grades, tem duas portas, huma de cada banda: a da parte do evangelho vai para a capella da [...]; a da oarte da epistola vai pra a capella do Santo Christo”.
Deste texto podemos concluir que, em 1726 (data da escrita do livro), toda a capela-mor estava coberta de ricos azulejos e que nela estavam rasgadas duas portas, uma das quais (a da parte do evangelho) dava acesso a uma capela que o autor não identifica, mas que só pode ser a capela dos Almadas, no absidíolo norte. Ota, se havia uma porta de acesso a essa capela, não havia o painel de azulejos com o "Milagre do Ladrão”. Daí se concluiria que este painel teria sido executado mais tarde, depois de ter sido eliminada a porta de acesso ao absidíolo do lado do evangelho, o que teria ocorrido depois de 1726, porque, segundo Craesbeeck nessa altura essa porta ainda existia... a menos que Craesbeeck se tenha enganado acerca da existência dessa porta, o que é pouco provável.

Cortesia de votguimaraes

Parece mais plausível que Craesbeeck de facto, tenha visto as duas portas antes da execução dos azulejos, e tenha visto mais tarde a capela-mor "toda cuberta de rico azolejo”, quando essa porta já havia sido eliminada deixando um largo espaço preenchido com representação azulejar do "Milagre do Ladrão”». In Fernando José Teixeira, Belmiro Jordão, Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães, Agenda Franciscana, Ano III, 4, Abril de 2004.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

V. O. T. de S. Francisco. Guimarães. Agenda Franciscana: «… chamando a atenção para o facto de as torres-sineiras raras vezes aparecerem nas igrejas franciscanas medievais, por terem sido proibidas em 1260 nas constituições do Capítulo de Narbonne, por razões de austeridade»

A Senhora e o Menino
De João Glama Stroberle, séc. XVIII
Cortesia de vot

Devoção de S. Francisco de Assis pelo Natal
As mais antigas fontes biográficas de S. Francisco revelam a extraordinária devoção que ele nutria pela festividade do Natal. Nelas encontramos estes textos:
  • "Mais do que nenhuma outra festividade, ele celebrava com inefável alegria o nascimentodo Menino Jesus e chamava festa das festas ao dia em que Deus, feito menino, se amamentava como todos os filhos dos homens. Beijava mentalmente, com esfomeada avidez, as imagens do Menino que o espírito lhe construía, e, d'Ele entranhadamente compadecido, balbuciava palavras de ternura, à maneira das crianças. E o seu nome era para ele como um favo de mel na boca".
Um dia, estando os irmãos a discutir se poderiam ou não comer carne, dado que o Natal, esse ano, caía à sexta-feira (veneredi, em italiano), respondeu Francisco a frei Morico:
  • "Irmão, é um pecado chamar Veneredi, dia de Vénus, ao dia em que nasceu para nós o Menino. Desejaria - acrescentou ele - que em semelhante dia até as paredes comessem carne, mas, como não é possível, sejam ao menos untadas com gordura".
Não conseguia reprimir as lágrimas ao pensar na extrema pobreza que padeceu nesse dia a Virgem Senhora pobrezinha ("la Poverella") [Literalmente: a querida Virgem pobrezinha. Para S. Francisco, Nossa Senhora era a “Poverella”, o que dá à sua devoção um colorido bem original]. Uma vez, estando sentado à mesa a comer, e tendo um irmão recordado a pobreza da bem-aventurada Virgem e de seu Filho no dia de Natal, imediatamente se levantou a chorar, e, com o rosto banhado em lágrimas, comeu o resto do pão sobre a terra nua. E como os irmãos lhe tivessem perguntado um dia, em capítulo, que virtude tornaria alguém mais amigo de Cristo, respondeu como quem confia um segredo do coração:
  • "Sabei, irmãos, que a pobreza é um caminho privilegiado para a salvação. As suas vantagens são inumeráveis, mas muito poucos as conhecem”.
O bem-aventurado Francisco festejava com mais solenidade o Natal do que as outras festas do Senhor, porque, dizia, embora nas outras solenidades o Senhor tenha operado a nossa salvação, no dia em que Ele nasceu tivemos a certeza de que íamos ser salvos. Por isso, queria que no dia de Natal todos os cristãos exultassem no Senhor; por amor d'Aquele que se deu por nós, todo o homem devia dar com generosidade do que lhe pertence, não só aos pobres, como também aos animais e às aves do céu.

Cortesia de vot

“Nós que vivemos com São Francisco e escrevemos sobre estes acontecimentos, testemunhamos que muitas vezes o ouvimos dizer: «Se eu puder falar ao Imperador, suplicar-lhe-ei e tentarei convencê-lo a que, por amor de Deus, e de mim, publique uma lei especial, decretando que nenhum homem capture ou mate as nossas irmãs cotovias ou lhes faça algum mal. Igualmente, que todas as autoridades das cidades e das aldeias e os senhores dos castelos obriguem, em cada ano, no dia do Natal do Senhor, os homens a espalhar trigo e outros grãos pelos caminhos, para que as irmãs cotovias e mesmo outras aves tenham de comer em tal Solenidade. E, por respeito para com o Filho de Deus que nesta noite a Santíssima Virgem Maria colocou na manjedoura entre um boi e um burro, quem tiver destes animais deverá provê-los abundantemente da melhor forragem, nessa noite. Do mesmo modo, no dia de Natal, os ricos deveriam saciar os pobres com ricos e saborosos manjares”.

Um Oratório que desapareceu
Na rua dos Terceiros, com frente para o terreiro das Carvalhas Houve em tempos o “Oratório do Senhor dos Aflitos”, cuja cruz, de mármore branco, foi benzida ao meio-dia de 9 de Novembro de 1867, numa cerimónia que foi festejada com música, foguetes e arraial nocturno. Contam-nos Albano Bellino ("Archeologia christã', pág, 263) e João Lopes de Faria ("Efemérides vimaranenses", IV, fl. 142v) que foi erguido com o produto de uma subscrição aberta por Jerónimo José 'de Abreu e sua mulher. Ignora-se quando foi retirado, mas deve ter ocorrido ainda no século XIX pois não o vemos em fotografias mais recentes.

Cortesia de vot

A Torre da Igreja
Num ensaio que dedicou a esta igreja, Maria Dolores Fraga Sampedro fez uma breve mas esclarecedora referência à torre desta igreja, chamando a atenção para o facto de as torres-sineiras raras vezes aparecerem nas igrejas franciscanas medievais, por terem sido proibidas em 1260 nas constituições do Capítulo de Narbonne, por razões de austeridade. No entanto, discretamente, elas foram aparecendo aqui e além, integradas no paramento lateral das igrejas ou formando um corpo independente embora ligado à igreja. Por alturas da construção da igreja franciscana de Guimarães, as torres sineiras eram bem mais frequentes e erguidas com o beneplácito papal, tanto assim que; em 6 de Abril de 1391, alguns frades menores da Galiza e Astúrias obtiveram de Bonifácio IX autorização para se instalar em Portugal e aí construir a sua casa com "oratório, torre sineira, refeitório e outras divisões necessárias".

Na igreja franciscana de Guimarães deparamos com a torre no lado sul da fachada, de planta quadrangular, subindo, primeiro, até uma cornija, que, com excepção da face virada para sul, se encontra ornada com modilhões semelhantes aos da igreja e do claustro. Sobre essa cornija está o segundo corpo, com as faces ornadas de pilastras, onde se apoiam arcos de volta inteira com um sino. Em cima, sobre nova cornija, com pirâmides e gárgulas em cada canto, está a estrutura superior terminando em agulha, esta repetidas vezes restaurada, Temos notícia de um restauro efectuado em 1749, O último, muito recente, fez-se em 2005. No arquivo da Ordem Terceira aparecem aqui e ali referências aos seus sinos. Nos fins do século XVIII, a 1 de Janeiro de 1784, os irmãos terceiros resolveram encomendar um sino para a torre (Arquivo, Livro no 90, fl, 78v); a 20 de Fevereiro de 1828 - quarta feira de cinzas - um raio caiu na torre da igreja de S, Francisco mas pouco a danificou (Efemérides de João Lopes de Faria, l, fl, I76v); dano maior ocorreu em 29 de Março de 1885 quando quebrou o sino grande da torre, Lá ficou, sem serventia, durante um ano, até que foi tirado aos pedaços para baixo da torre, para dar lugar a um sino novo que lá foi colocado no dia 1 de Julho de 1886 (Efemérides de João Lopes de Faria, I, fl. 312).

Cortesia de vot

Na base da torre podemos ver uma placa de bronze com a tabela das badaladas a dar em caso de incêndio. Essa tabela foi aprovada pela Câmara a 27 de Janeiro de 1858, dividindo a cidade em sete zonas ou estações, sendo 10 o número de badaladas para a primeira estação, 11 para a segunda, e assim sucessivamente. Essas badaladas eram dadas depois do toque a rebate. Anteriormente, estipulava o Código de Posturas do Município que "havendo algum incêndio, deverá na torre mais próxima a este tocar-se a fogo sem interrupção. Este toque será repetido por todas as outras torres da vila sem excepção alguma, mas com intervalos". Esta doutrina foi relembrada numa carta da Câmara de 1de Maio de 1843, existente no Arquivo da Ordem Terceira (Livro nº 243), recordando que o sineiro que não tocasse a fogo pronta e devidamente pagaria de multa 2$000 reis". Para acorrer a qualquer incêndio, mandou a Câmara em 20 de Julho de 1835 que todos os vendeiros fossem obrigados a ter um caneco sempre cheio de água para acudir quando fosse preciso (Alberto Vieira Braga - Curiosidades de Guimarães, XVIII, pág. 11). In Fernando José Teixeira, Belmiro Jordão, Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães, Agenda Franciscana, Ano V, 12, Dezembro de 2006.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

V. O. T. de S. Francisco. Guimarães. Agenda Franciscana: «“um anonymo d'esta cidade offerece à Venerável Ordem Terceira de S. Francisco uma imagem do Santíssimo Coração de Maria para ser collocada na nossa capella com a condição única de a Meza ceder ao devoto offerecente a imagem do Santíssimo Coração de Maria que actualmente ali existe, ficando a nova imagem sendo propriedade da Ordem” »

Cortesia de votguimaraes

Soares dos Reis
Imagem do Sagrado Coração de Maria
«No dia 26 de Agosto de 1836, sem aparato, uma imagem do Sagrado Coração de Maria foi conduzida para a Capela dos Terceiros e aí colocada à veneração dos fiéis. Passaram-se anos e, por razõesmque se desconhecem, um grupo de devotos que incluía o Comissário da Ordem Terceira, Padre António Joaquim Teixeira, e a família Ferreira de Abreu (Maria de Belém, José e Padre António) decidiu adquirir outra imagem, executada pelo escultor, hoje famoso, Soares dos Reis.
Notícias dessa escultura não foram encontradas no grande espólio documental existente no Arquivo desta Venerável Ordem Terceira, mas sim entre os apontamentos de João Lopes de FARIA guardados na Sociedade Martins Sarmento. Lê-se nas suas “Efemérides Vimaranenses” que no dia 1 de Junho de 1877 foi benzida uma imagem do Sagrado Coração de Maria, executada pelo famoso escultor portuense António Soares dos Reis, seguindo-se uma festividade em sua honra.

Parece que essa imagem não satisfez o Zé-Povinho “parecia uma estátua de cemitério”, comentavam. Por isso, cinco anos depois, lê-se na acta da sessão da Mesa Administrativa de 22 de Setembro de 1882:
  • “um anonymo d'esta cidade offerece à Venerável Ordem Terceira de S. Francisco uma imagem do Santíssimo Coração de Maria para ser collocada na nossa capella com a condição única de a Meza ceder ao devoto offerecente a imagem do Santíssimo Coração de Maria que actualmente ali existe, ficando a nova imagem sendo propriedade da Ordem”.
Essa oferta foi feita por intermédio do Padre António Joaquim Teixeira, Comissário da Ordem Terceira, que, como vimos atrás, tinha tido importante papel na doação da imagem esculpida por Soares dos Reis. Este anónimo, veio a saber-se depois, era o Comendador Francisco José da Costa Guimarães, figura proeminente da Ordem Terceira de que foi Vice-Ministro em 1858, 1859 e 1860, e Ministro em 1867 e 1868. Já antes, em 23 de Agosto de 1863, enriquecera o espólio da Instituição oferecendo um rico vestido e manto, bordados a ouro, para a imagem de Nossa Senhora da Conceição, com a condição de nunca servirem noutras imagens. A Ordem Terceira mostrou-se sensível a essas benemerências e, em 24 de Julho de 1864, deliberou encarregar o pintor José Alberto Nunes de tirar o retrato desse benfeitor :
  • “em atenção dos muitos e relevantes serviços por elle prestados a esta Venerável Ordem e por diversas vezes dando esmolas e alfaias para o augmento da nossa Ordem e do Culto Divino”.

Cortesia de votguimaraes

A nova imagem, esculpida em Roma pelo grande escultor Giuseppe Berardi, que já a dera por concluída a 9 de Agosto desse ano, pois foi nessa data benzida e indulgenciada pelo Papa Leão XIII, foi recebida na noite do dia 23 de Setembro de 1882 e exposta festivamente no dia seguinte. As “Efemérides” de João Lopes de Faria registaram também essa festa e nelas se reitera que essa imagem havia sido oferecida à Ordem Terceira por um anónimo “em substituição d'outra imagem da mesma invocação (que o anonymo levou para sua casa) feita pelo esculptor portuense Soares dos Reis pouco tempo antes, mas que não agradara ao povinho”.

No dia 8 de Dezembro de 1882, a imagem de Soares dos Reis estava em casa do Comendador Francisco José da Costa Guimarães e a imagem de Berardi era solenemente entronizada na Capela dos Terceiros, recentemente restaurada pelo Ministro da Ordem, o comendador Cristóvão José Fernandes e Silva (o Cidade) que a ter mandou estucar, azulejin e dourar, “adaptando os dois altares para receberem duas novas imagens: a Virgem das Dores e o Coração de Maria, oferecidas ambas à "Ordem”. A imagem Berardi ainda hoje existe: encontra-se na Capela dos Terceiros no altar lateral do lado da Epístola.

Cortesia de votguimaraes

Voltemos a falar da imagem esculpida por Soares dos Reis.
Custódio José de Freitas, Síndico da Repartição da Testamentaria e Escolas da Ordem, usando da palavra na sessão da Mesa de 6 de Abril de 1889, depois de revelar a identidade do anónimo doador da imagem de Berardi, afirmou que o Comendador Francisco José da Costa Guimarães, já então falecido, tinha intenção de vender a imagem que levou por troca e com o seu produto oferecer uma lâmpada para ser colocada no altar do Sagrado Coração de Maria. Para esse efeito, pedira-lhe para diligenciar com vista à sua venda no Porto. Contudo, o Síndico não encontrou comprador a não ser por um preço extremamente baixo.
Assim, porque o Comendador tinha falecido e já se passara muito tempo sem que se ultimasse essa negociação, propôs que fosse a Mesa a encarregar-se dela: caso contrário (com a concordância da viúva, claro), venderia a imagem por qualquer preço. Entendeu a Mesa que seria melhor que o Senhor Custódio de Freitas continuasse com o negócio.
Novamente se faz silêncio, até que voltamos a ouvir falar dessa imagem quando D. Maria Emília Teixeira da Costa e Freitas, viúva do doador, em carta que foi lida na sessão da Mesa de 20 de Abril de 1893, “declara offerecer a esta Venerável Ordem a antiga Imagem do Sagrado Coração de Maria” que em troca seu marido recebera da Ordem Terceira, acrescentando que era sua intenção vender a referida imagem e com o seu produto comprar um adorno qualquer para o seu altar.

A partir daqui perdeu-se o rasto desta imagem. Não existe na Ordem Terceira, nem se encontrou qualquer registo que comprove a sua venda. Para a História fica que Soares dos Reis esculpiu duas imagens que foram aqui veneradas:
  • “Nossa Senhora das Dores”, que admiramos no seu altar no transepto da igreja do mosteiro, “Sagrado Coração de Maria", mal apreciada pela nossa gente, que desapareceu sem deixar vestígios.
In Fernando José Teixeira, Belmiro Jordão, Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães, Agenda Franciscana, Ano III, 2, Fevereiro de 2004.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

V. O. T. de S. Francisco. Guimarães. Agenda Franciscana: «Em outras reformas foram já descobertas as abóbadas das capellas lateraes, que são bellas, conservando-se porém ainda coberta com uma pintura differente da que tinham estas, mas já um pouco apagada, a famosa abóbada da capella-mor, que, como diz o Padre Torquato d'Azevedo, é uma das melhores do reino»

Cortesia de votguimaraes

Temas de História da Arte
Os Frescos da abside da Igreja
«Entre os administradores desta Venerável Ordem Terceira houve sempre alguém que se preocupasse com a preservação das suas preciosidades artísticas. Prova disso encontra-se num documento que acaba de ser inventariado, datado de22 de Janeiro de 1887.
Em 27 de Dezembro do ano anterior, o secretário da Mesa desta Ordem escreveu à Real Associação dos Architetos e Archeologos Porfuguezes expondo que:
  • “a Mesa resolveu mandar escodar toda a cantaria da sua igreja por se achar parte coberta com cal e tintas que não deixavam conhecer o bom granito de que eram feitas, achando-se já os trabalhos muito adiantados. Em outras reformas foram já descobertas as abóbadas das capellas lateraes, que são bellas, conservando-se porém ainda coberta com uma pintura differente da que tinham estas, mas já um pouco apagada, a famosa abóbada da capella-mor, que, como diz o Padre Torquato d'Azevedo, é uma das melhores do reino. Era intenção da meza mandal-a também limpar, pondo o granito a descoberto, por assim, no estado em que está se destacar bastante do resto do interior do edificio. Entretanto, como há opiniões de que, embora não esteja agradavel á vista, se deve conservar como está, a meza, para declinar a responsabilidade de proceder sem consultar os homens da sciencia, vem respeitosamente pedir que V. Exas. em conselho emittam a sua opinião sobre tal assumpto, o qual se dignarão fazer communicar com a possível brevidade, por isso que ficam os trabalhos suspensos e dependentes da decisão de V. Exas.”

Cortesia de votguimaraes

A Real Associação dos Arquitectos e Archeólogos Portuguezes respondeu no dia 22 de Janeiro de 1887 nos termos seguintes:
  • “Tomando esta Sociedade na devida consideração o desejo que a Veneranda Confraria de S. Francisco da Cidade de Guimarães tem, em saber se se deverão conservar as pinturas a fresco que foram ultimamente descobertas na abside da sua igreja, foi a mesma Associação unanime em concordar que religiosamente devem ser conservadas, pela raridade de descobertas semelhantes, por serem um authentico titulo da antiguidade d'esse edificio religioso, para servirem de comparação com trabalhos identicos de outras epocas, e para engrandecimento do edificio que pode patentear mais um exemplar artistico de tam remota era. Tam . superior consideração merecem essas pinturas, apesar de não estarem já completas, que ousa pedir esta Associação uma copia fiel e colorida conforme o original (em pequena escala) para ser publicada no seu Boletim, agradecendo desde já este obsequio que espera alcançar de tam esclarecida corporação”.

Painel do trono da igreja conventual.
S. Francisco recebendo os Estigmas no Monte Alverne
Cortesia de votguimaraes

Esta consulta deve ter sido da iniciativa do Secretário da Mesa, Francisco Joaquim da Costa Magalhães, que subscreveu o oficio, pois não consta do respectivo Livro de Termos qualquer deliberação e este respeito». In Fernando José Teixeira, Belmiro Jordão, Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães, Agenda Franciscana, Ano III, 2, Fevereiro de 2004.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

V. O. T. de S. Francisco. Guimarães. Agenda Franciscana: « O mestre era chamado «Doutor», não pelo grau de sciência, mas por razão do offício que tinha de ensinar; e deste nome usou Fernando Afonso Correa, quando no fim do seu testamento de 1405, a 9 do mês de Maio, elegeu executor da capela que tinha instituído. Nomeou em primeiro lugar a mestre Afonso, freire do dito mosteiro, e depois de sua morte a qualquer, "que nelle fosse doutor"»

N. S. da Conceição, sculo XVIII

Cortesia de votguimaraes

Os milagres de Santo António
«Consta das actas do congresso internacional celebrado por ocasião do 8º centenário do nascimento de Santo António, que teve lugar entre 25 e 30 de Setembro de 1995, uma comunicação de António de Sousa Araújo sob a epígrafe: "Milagres de Santo António nos tempos modernos". Infelizmente, ainda não pude adquirir essas actas e ler, na íntegra, essa comunicação; mas tive acesso a um resumo que apareceu na Internet que nos oferece dados novos sobre a matéria e, sobretudo, sobre a repercussão que teve no nosso meio o chamado "Milagre do Ladrão".

Diz o autor nesse resumo que sempre se fizeram registos de milagres de Santo António, e deles por vezes encontramos vestígios em livros paroquiais, como aconteceu com S. Paio de Eira Vedra, em Vieira do Minho, cujo pároco registou o "milagre que fez Santo António na vila de Guimarães em 29 de Abril de 1710". Trata-se da tentativa de furto então ocorrida na igreja do convento de S. Francisco, episódio conhecido pelo nome de "Milagre do Ladrão".
Constatou o autor que, compulsando as crónicas dos franciscanos Manuel da Esperança e Fernando da Soledade, se observou que, apesar de nesse convento sempre ter existido o culto a Santo António, foram os furtos de 1704 e de 1710, registados pelos citados cronistas, que deram origem ao espectacular incremento da romagem popular à imagem daquele santo venerada nessa igreja conventual, imagem que passou desde então a ser conhecida pelo nome de "Santo António dos Milagres".
Contaram-se por centenas as graças ou milagres conseguidos no curto intervalo de 1710-1715, e registados no "Livro dos Milagres", e deles Frei Fernando da Soledade seleccionou e transcreveu setenta para servir de amostra. Por esse motivo, concluiu o referido cronista, tornou-se o convento de S. Francisco de Guimarães o maior centro de romagem antoniana então existente em Portugal.

Esse afluxo de romeiros, proporcionou ao convento e à irmandade de Santo António um considerável acréscimo de receitas, sem as quais não teria sido possível o azulejamento da capela-mor e paredes anexas do transepto, decoradas com cenas da vida do nosso Santo.

Cortesia de votguimaraes

O Ensino no Convento
A”História Seráfica”, em 1656, dá-nos uma ideia do nível do ensino que havia nos séculos XV, XVI e XVII no convento de S. Francisco de Guimarães.
Diz o cronista Frei Manuel da Esperança:
  • "Mais de duas centúrias de annos tivemos escolas públicas, nas quaes se lia Gramática e casos de consciência sem ordenado, estipêndio, ou prémio, senão só o proveito dos discípulos. Eram aulas nesse tempo neste terceiro convento humas casas com porta para o adro, em que hoje se vê a enfermaria, e delas falava a escritura do anno de 1553, pela qual hum guardião, sendo ainda claustral, emprazou a Gonçalo Freire «hüa leira de chão que estaua ó longo do estudo». O mestre era chamado «Doutor», não pelo grau de sciência, mas por razão do offício que tinha de ensinar; e deste nome usou Fernando Afonso Correa, quando no fim do seu testamento de 1405, a 9 do mês de Maio, elegeu executor da capela que tinha instituído. Nomeou em primeiro lugar a mestre Afonso, freire do dito mosteiro, e depois de sua morte a qualquer, "que nelle fosse doutor".

Iconografia - A Sereia
Na Idade Média, houve um género literário que influenciou profundamente a mentalidade dos cristãos. Refiro-me aos «Bestiários», livros escritos em latim ou francês com intenções moralizantes, onde é inculcada a ideia de que o homem pode recolher ensinamentos úteis para a sua salvação em todos os animais que existem na natureza. Esses bestiários descreviam inúmeros animais, muitas vezes exóticos ou fabulosos, de cujas interpretações eram tiradas conclusões morais. Neles se baseiam inúmeras alegorias e simbolismos existentes na arte medieval. Os religiosos que decoravam com iluminuras os livros, tinham assim à sua frente a riqueza e a diversidade da criação divina. Um dos animais fabulosos representados nos «bestiários é a Sereia».
Trata-se de um monstro híbrido com cabeça e busto de mulher que se mostravam inicialmente com corpo de ave. Eram as sereias de tradição grega, uma imagem oriunda do Egipto onde este estranho animal representava a alma separada do corpo. Na Grécia antiga podemos vê-las representadas em inscrições tumulares.

Cortesia de votguimaraes

Nos bestiários franceses, aproveitando uma tradição que já vinha do século VI, aparece a sereia com rabo de peixe, mas não é raro depararmo-nos, lado a lado, os dois tipos de sereias. No imaginário medieval a sereia com rabo de peixe tem uma conotação negativa, simbolizando a sedução feminina, a luxúria e o prazer sexual ilegítimo, o pecado, em suma.
Todas estas considerações vêm a propósito do facto de encontrarmos na igreja do convento de S. Francisco o busto de três sereias. Está representado nos capitéis dos mainéis dos janelões dos paramentos laterais da capela-mor e do transepto. Por serem figuras tão diminutas e colocadas muito acima dos nossos olhos passaram durante muito tempo desapercebidas, até que para elas foi chamada a atenção pela historiadora de arte Maria Dolores Fraga Sampedro que delas tratou em ensaio publicado na Revista de Guimarães. Representam bustos de sereias com cauda de peixe?... é esse o entendimento da autora ao dizer tratar-se de "figuras de las sirenas de cuerpo escamoso". Analisando uma fotografia ampliada, não ficamos tão seguros dessa identificação: o artista tanto pode ter representado o peito das sereias coberto de escamas como coberto de penas, como aparece no capitel de Saint-Benoit-sur-Loíre que Émile Male publicou "L'art religieux du XIIe siècle en France", Paris, 1922.
As Imagens de Roca
Chama-se "imagem de roca" à imagem onde apenas era esculpido o rosto, as mãos e os pés, sendo o resto do corpo constituído por uma armação de madeira que o vestuário cobria. Esta informação vem a propósito de se encontrar presentemente numa das capelas do claustro do convento de S. Francisco um grupo dessas estátuas, estando a ser estudadas para eventuais trabalhos de limpeza, desinfestação e restauro.
Pertencem, segundo se julga, a um grupo de imagens que a partir do século XVII integravam a estatutária «Procissão das Cinzas», de que dispomos de numerosas e interessantes notícias. Não se encontram identificadas, dispondo apenas de uma etiqueta com o número de inventário que nada esclarece, Uma delas é facilmente identificável: trata-se de S. Francisco de Assis, sem calçado, reconhecível pela tonsura monacal e pelas feridas dos estigmas nas mãos e nos pés. Foi produzida por uma bom escultor que conseguiu dar à figura uma expressão simples e piedosa como convém ao Santo Patriarca. Notável é também o tratamento das mãos e dos pés onde se vêem perfeitamente desenhados os vasos sanguíneos». In Fernando José Teixeira, Belmiro Jordão, Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães, Agenda Franciscana, Ano V, 6, Junho de 2006.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

sábado, 20 de agosto de 2011

V. O. T. de S. Francisco. Guimarães: As Portas da Igreja. «… o levantamento de uma capela no sítio «onde existia a porta travessa», entre a capela de S. Gualter e o altar da irmandade do Cordão, encarregando-se o dito Simão Dias Pimenta e a sua tia de «mandar abrir outra porta travessa em lugar d'esta abaixo do arco grande que está abaixo do coro novo que ora se fez no dito mosteiro...»

Cortesia de votsfrancisco

As Portas da igreja de S. Francisco.
A porta de acesso às «Carvalhas» de S. Francisco.
«À esquerda, para quem entra pela porta principal, de fronte para a anterior, existe a porta que dava acesso ao «terreiro de S. Francisco», ou «Carvalhas de S. Francisco», porta que hoje não tem serventia, tendo sido tapada no exterior a meados do século XX. Essa porta não existia no tempo de Craesbeeck e do Padre António Carvalho da Costa. Essa porta foi aberta em consequência de um contrato celebrado em 26 de Março de 1629 entre os frades e Maria Peixota, viúva de António Dias Pimenta, e seu sobrinho, Simão Dias Pimenta. Nesse contrato foi decidido o levantamento de uma capela no sítio «onde existia a porta travessa», entre a capela de S. Gualter e o altar da irmandade do Cordão, encarregando-se o dito Simão Dias Pimenta e a sua tia de «mandar abrir outra porta travessa em lugar d'esta abaixo do arco grande que está abaixo do coro novo que ora se fez no dito mosteiro...» (João Lopes de Faria, «Escripturas públicas vimaranenses, fl. 275».
Cortesia de votsfrancisco

Havia, assim, uma porta travessa a meio da nave, do lado do Evangelho, que foi tapada pela capela dos Pimentas, «capela da Porciúncula», abrindo-se na altura outra porta debaixo do coro alto que então se fizera, porta ainda hoje visível do interior da igreja.
Por contrato de 24 de Setembro de 1733, o síndico do convento de S. Francisco contratou por 150$000 reis com Jerónimo Lopes de Mesquita, carpinteiro da rua das Molianas, para executar «o forro por baixo do coro da igreja, o qual forro tem dois arco, um da parte da escada que vai para o claustro e outro, correspondente, da parte da porta travessa» (Nota do tabelião José da Costa, em João Lopes de Faria, Extractos das notas..., fls. 45v-46).

Em «Guimarães do Passado e do Presente», essa porta ainda existia entre 1865 e 1870. Na primeira metade do século XX, o restauro da parede norte da igreja conventual incompreensivelmente veio escondeu a antiga porta travessa e a porta que a substituiu; todavia, graças às fotografias existentes no arquivo da VOT de S. Francisco, podemos ver o seu aspecto e localização.

Porta de acesso à Ante-Sacristia
Inicialmente, o acesso à sacristia da igreja fazia-se por uma porta estreita que existia (e ainda hoje existe) na parede do lado sul do absidíolo ocupado com o altar de Santa Ana. Essa porta, baixa e estreita, é encimada por um arco de volta inteira, mas que sai em ogiva, abria caminho para a ante-sacristia antes das obras que alteraram a fisionomia deste espaço. Hoje, é usada para aceder a um aposento de arrumos.

Cortesia de votsfrancisco

Em data desconhecida, mas anterior a 1692, o acesso da igreja à ante-sacristia passou a ser feito pela porta que actualmente liga o transepto àquela dependência, o que se fez com autorização do administrador da capela dos Mártires de Marrocos que se erguia, segundo se supõe, ao centro dessa parede. Com efeito:
  • «Em 1692, o Padre Torquato Peixoto de Azevedo escreveu nas suas «Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães», pág.342, que na parede da igreja da parte do sul estava a capela dos Santos Mártires de Marrocos, instituída por Francisca da Silva, «e esta se mudou com licença do seu administrador Antonio Corrêa de Sousà Montarroyo para se abrir ali a porta da sachrisfia».
Esta mudança causou danos nas sepulturas adjacentes, como se deduz do «Livro das Sepulturas da Igreja de S, Francisco de Guimarães», que mandou fazer o Reverendo Padre Mestre Frei Bento da Luz no ano de 1775, sendo Guardião deste Convento, manuscrito existente no Arquivo desta Venerável Ordem Terceira. Nele se lê a dado passo:
  • «no Altar dos Santos Mártyres de Marrocos que levantou Sylvia Francisca, e hoje administraõ os Senhores Montes negros, e fica ao sahir da sacristia para o Cruzeiro da Igreja por baixo do ultimo degrao da escada de pedra está hum fojo, que mais era para semiterio de aguas que para sepultura de corpos por ser estreyto. Com tudo assim ficou no mesmo lugar coberto de parte a parte com hum degrao novo que se lhe poz (...). Ficou como estava, só se innovou o escallaõ que a cobria e estava todo quebrado».
As informações recolhidas permitem concluir que a Capela dos Santos Mártires de Marrocos foi instituída por Sílvia Francisca na parede sul do transepto, fronteira ao Altar da Senhora das Dores; em data que se ignora, mas anterior a 1692, essa capela foi mudada de lugar para se abrir ali uma porta para a ante-sacristia, mudança que consistiu em deslocar a capela uns dois metros para a direita, colocando-a em simetria com o janelão gótico que se abre nessa parede.
Teria sido nessa altura que foi retirado (por se ter danificado?) o retábulo dos Mártires de Marrocos existente na capela, hoje colocado no absidíolo norte da igreja, sendo substituído pela pintura do Senhor da Paciência». In Francisco José Teixeira, Belmiro Jordão, V.O. T. de S. Francisco de Guimarães, Agenda Franciscana, Ano V, 1, 2006.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

V. O. T. de S. Francisco. Guimarães: As Portas da Igreja. «Ladeada pelos dois contrafortes chanfrados que substituíram os pilares adoçados sacrificados pelo restauro dos anos 40 do século findo, está a porta principal da igreja, de estilo gótico joanino, sem tímpano. O extradorso do seu arco é guarnecido de três arquivoltas apoiadas em colunas de base ática…»

Cortesia de votsfrancisco

As Portas da igreja de S. Francisco.
«As pessoas que visitam esta igreja apenas reparam na sua porta principal que dá para o largo de S. Francisco, outrora chamado «Carvalhas de S. Francisco». Talvez valha a pena dedicar esta «Agenda» a essa porta e a todas as outras que se abrem na igreja conventual.

Porta Principal.
Ladeada pelos dois contrafortes chanfrados que substituíram os pilares adoçados sacrificados pelo restauro dos anos 40 do século findo, está a porta principal da igreja, de estilo gótico joanino, sem tímpano. O extradorso do seu arco é guarnecido de três arquivoltas apoiadas em colunas de base ática, capitéis decorados e ábaco destacado, a que se soma um novo par de colunas que, no interior, emoldura a porta. Das arquivoltas, apenas a primeira e a segunda se apresentam ornamentadas:
  • a mais ampla com uma fiada de grânulos, sobrevivência do românico, o que reforça a ideia de que pertenceu ao convento mandado demolir em 1322 por D. Dinis, ideia que António Lino subscreve, ao salientar as suas características mais antigas que as do corpo gótico,
  • a segunda com uma franja de flores-de-lis.

Cortesia de votsfrancisco

No que se refere aos capitéis, diz Pedro Dias em «Á Arquitectura gótica portuguesa», que são toscos, de colunelos muito grossos, podendo ver-se ainda a série de meias-esferas a debruar toda a obra, numa clara manifestação da persistência do arco românico, o que parece confirma a teoria da sua antiguidade acima expressa.
A ornamentação dos capitéis é do maior interesse:
  • quatro deles apresentam motivos vegetais, estilizados,
  • outros dois são de difícil interpretação, vendo-se um, à direita, representando uma cabeça humana envolta em folhagem (?) e outro, à esquerda, mostrando, afrontados, dois monstros híbridos, com cabeça de símio e corpo de leão.
Os capitéis das colunas mais avançadas são historiados e representam, segundo se julga, cenas da vida de S. Francisco:
  • à direita, o Santo apresenta-se pregando aos passarinhos, tendo ao pé uma ovelha, animal que o Santo Patriarca amava pela sua docilidade;
  • à esquerda, o Santo cuida de um enfermo, talvez de um leproso, dada a importância que teve para a sua conversão o encontro com um destes doentes.
Os capitéis do portal foram estudados em profundidade por Maria Dolores Fraga Sampedro, em ensaio publicado na «Revista de Guimarães, vol. 104».


Cortesia de votsfrancisco

Ao fundo da Nave.
À direita, encontramos uma porta, habitualmente encerrada, que dá acesso através de uma escada para piso inferior do claustro. A mais antiga referência a esta porta data de 1692 e foi escrita pelo Padre Torquato Peixoto de Azevedo nas suas «Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães». Nelas se lê, a páginas 344, que, por baixo do coro tem «uma porta que vae para o claustro». Umas décadas depois, em 1726, o bacharel Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, que foi corregedor desta comarca, deixou escritas as suas «Memórias ressuscitadas da província de Entre-Douro-e-Minho», mas nelas nada acrescenta, limitando-se a dizer que, debaixo do coro, fronteira a uma porta que dava para uma devesa, estava outra, que vai para o claustro. «A Corografia Portugueza», do Padre António Carvalho da Costa, 1706, também se lhe refere mas nada adianta.

Mais elucidativo é o testemunho do Padre António José Ferreira Caldas, em «Guimarães: apontamentos para a sua história, 1881», Testemunha que havia o altar de S. Marcos, «que à entrada da porta principal ocupava à direita o vão dum antigo túmulo, que em 1501 pertencia a Lopo Vaz, ouvidor geral Entre Douro e Minho, e que está fechado ao nível da parede, forrada de azulejo, pág.319». In Francisco José Teixeira, Belmiro Jordão, V.O. T. de S. Francisco de Guimarães, Agenda Franciscana, Ano V, 1, 2006.

(Continua)
Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT