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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Cartas a Ninguém. Ilustração de Ingrid Martins. Lisa Flores. «Um amor antigo que ganhou raízes profundas e me dá Paz nas horas de desespero»

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Na brisa da tarde a gaivota voa sobre o mar cintilante. Paz.

«Sinto o caminhar mais leve, mais sereno, porque do brilho nos teus olhos saem esmeraldas cintilantes. O bater dos passos confunde-se com a voz das ondas e o meu corpo eleva-se com a força da maré. E porque és uma dádiva de Deus, és o mais belo de todos. Vestes-te de verde, hoje de azul, e, quando estás triste, de cinzento.
Encontramo-nos tantas vezes, e falamos sempre de outros tempos. Sei quando estás zangado, porque a tua força me domina. Aproximo-me mais e deixo os meus pés fincados na areia, porque não posso entrar dentro de ti.


Quantas lágrimas desfiz, molhando o rosto com o teu bálsamo salgado, e este encontro de hoje, contigo, ultrapassa as palavras de todos os amigos.
Um amor antigo que ganhou raízes profundas e me dá Paz nas horas de desespero. O desfile das gaivotas, voando sobre a minha cabeça, compõe o cenário de uma tarde primaveril neste Inverno cantado à beira-mar!» In Lisa Flores, Ericeira, 1993.

In Lisa Flores, 1999, Cartas a Ninguém, ilustração de Ingrid B. Martins, colecção Outras Obras, Nova Vega, 2004, ISBN 972-699-785-2.

Cortesia de Nova Vega/JDACT

domingo, 14 de abril de 2013

Cartas a Ninguém. Ilustração de Ingrid Martins. Lisa Flores. «Escolhi um modelo enorme, linha grossa para não se desfiar ao mais pequeno tombo. Depois pu-lo dentro de um cesto de vime. Valerá a pena plantar árvores e flores, quando a maldade as destrói?»

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Na areia fina o singelo traço de dois destinos num caminho. In Joana Ruas

«Para lá deste olhar profundo, há outro espaço, outro mundo, que não sei dizer. Unicamente sinto e pressinto a realeza de estar vivo quando pardais soltos voam sobre mim e espalham liberdade em meu redor, num chilrear constante e melodioso que transforma pensamentos em palavras e enche páginas brancas do meu Eu. Mas muito mais do que palavras, paira no ar o silêncio de horas gastas, que adia respostas, porque perguntas não há que resistam ao fugitivo, sempre em viagem de sonhos.
Não preciso sequer de tentar compreender a distância que separa a Vida da Morte. O tempo não é o que escolhi, mas sim o espaço onde mora o meu corpo, rodeado de outros corpos inquietos, indecisos e desesperados, à procura de coisas exteriores que não alimentam o sentido da vida. E tantas vezes obrigada a não ser livre no mundo dos outros, escolho a solidão num canto do jardim, onde fecho a porta à hipocrisia e ao egoísmo, em defesa do castelo que construí. Lá dentro, sim, tenho tudo aquilo que enche a alma de ar puro e fresco, porque num espaço sem gente, a força da razão e do amor suplanta a nostalgia de estar só.
Neste lado de cá, encontro-me mais dificilmente e cada vez mais raramente, porque o vazio inunda a alma das gentes, tão perdidas num labirinto de materialismo e malabarismo. Nesta sociedade que brilha simplesmente à custa do sol, sobressai a pequenez do Ser, mirrado de inveja e vaidade.
Consumindo e consumido, o homem e/ou mulher transborda de agressividade, denunciando-se a si próprio. Espectadora das muralhas do meu castelo, enxergo as dores das crianças. Esses olhos inocentes e profundamente tristes, que nada entendem da crueldade do cidadão(ã). Muitas lágrimas, que então ensopam o rosto do meu Eu, descem à terra seca para que as flores voltem a nascer!» In Lisa Flores, 1999, Cartas a Ninguém, ilustração de Ingrid B. Martins, colecção Outras Obras, Nova Vega, 2004, ISBN 972-699-785-2.

Cortesia de Nova Vega/JDACT

sábado, 13 de abril de 2013

Cartas a Ninguém. Ilustração de Ingrid Martins. Lisa Flores. «Esse clamor é uma sede de perfeição, harmonia e paz. É a luz que ilumina a viagem interior de um poeta. O poeta não necessita de nomear as coisas. As suas palavras são árvores, nuvens, mar, pássaros...»

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«A paisagem não exposta à vista, a essência da Natureza simbolizada pelas flores na arte lkebana e o valor da síntese na poesia haiku fundem-se, revelando-se intimamente ligados às estações do ano. Representam uma semente, ou fonte que liberta um mundo de emoções, sons, cheiros e cores.

Se às vezes digo que as flores sorriem
e se eu disser que os rios cantam,
não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
e cantos no correr dos rios…
(...)

Não concordo comigo mas absolvo-me,
porque só sou essa coisa séria, um intérprete .da Natureza,
porque há homens que não percebem a sua linguagem,
por ela não ser linguagem nenhuma.

(...) Se falo naNatureza não é porque saiba o que ela é,
mas porque a amo, e amo-a por isso (…)

In Alberto Caeiro, 1888-1935

O poeta não necessita de nomear as coisas. As suas palavras são árvores, nuvens, mar, pássaros... Não pássaros que vemos, mas pássaros que o poeta descreve com imagens, ritmos, símbolos e comparações. Como poeta que vive num presente intemporal, Caeiro é rudo o que Pessoa não é, e, além disso, é tudo o que poucos poetas contemporâneos podem ser: o Homem reconciliado com a Natureza. A obra de Lisa reflecte esta mesma íntima ligação entre imagem e escrita de rara intemporalidade, onde a atitude do homem no mundo é puramente contemplativa, perdendo assim a sua individualidade ao dissolver-se no anonimato do universo. Reflecte a essência do pensamento e atinge o conceito de universalidade, em nome da paz do Homem e da sua mais profunda razão de viver, que é afinal a própria Vida.
As Cartas a Ninguém são verdadeiros testemunhos do soluçar da alma. As palavras têm uma beleza que transcende tempo e espaço. Dizemos que um poeta pinta com palavras. Lisa Flores é também pintora, mas nesta obra é a sua pena que dá brilho e cores prodigiosas a descrições admiráveis. E não só. Ela chama pelo ninguém em cada um de nós e escuta o silêncio da solidão.

Silêncio redondo:
a música da cigarra
penetra na rocha
Bashô

Esse clamor é uma sede de perfeição, harmonia e paz. É a luz que ilumina a viagem interior de um poeta. Para Rilke, era a única viagem possível e uma experiência acumulada e oferecida aos homens do futuro para que pudessem ter o prazer de uma vida plena. Um dia há-de alguém escrever a Lisa!»

In Lisa Flores, Cartas a Ninguém, ilustração de Ingrid B. Martins, colecção Outras Obras, Nova Vega, 2004, ISBN 972-699-785-2.

Cortesia de Nova Vega/JDACT

sábado, 12 de janeiro de 2013

Cartas a Ninguém. Ilustração de Ingrid Martins. Lisa flores. « Uma borboleta que esvoaça, ou uma brisa ligeira que sacode uma folha de bambu, pode ser o elemento que cala a solidão e reclama a alegria. “Ah este caminho que já ninguém percorre a não ser o crepúsculo”»

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«Se captarmos as mudas palavras das plantas e os seus silenciosos movimentos, estaremos a intensificar as nossas impressões através do equilíbrio da forma no espaço. As plantas colhidas da Natureza são arranjadas de forma a conterem uma nova beleza, quando colocadas num ambiente diferente. A ikebana não é uma mera reprodução daquilo que a planta e a flor representavam na Natureza. É uma criação artística com ramos, folhas e flores, marcada pelo sentimento da ikebanista. Como um poema ou uma pintura tecida de flores, estes arranjos florais expressam tanto a beleza intrínseca das flores como a busca do belo nos nossos corações.
Para o japonês, a simetria é uma forma muito estreita, sem espaço para as ideias, onde se insere, por exemplo, um bouquet clássico barroco, em que a vista salta de flor em flor. Mas numa forma com espaços livres e assimétricos, a atenção do artista é chamada a seguir o movimento da dinâmica da vida e a beleza individual de cada flor. É isso que a ikebana nos oferece. Uma flor é a Primavera; uma folha caída encerra em si todo o Outono.

Por entre o pássaro e a borboleta
surge uma flor desmaiada:
céu de Outono
Bashô (1644-1694)

Matsuo Bashô, o maior poeta japonês, reflecte aqui o jogo de inconstância que encontramos na pintura Sumi-e, a tinta da China, onde plantas e flores são desenhadas com poucos e sugestivos traços. Cabe ao observador completar a imagem, transformando e aprofundando o objecto da sua contemplação. Bashô escreve num dos seus diários:
  • Estou só e escrevo para minha alegria.
Uma borboleta que esvoaça, ou uma brisa ligeira que sacode uma folha de bambu, pode ser o elemento que cala a solidão e reclama a alegria. Amado por inúmeras e sucessivas gerações, dentro e fora do seu país, Bashô é contemporâneo pela intemporalidade da sua obra.

Ah este caminho
que já ninguém percorre
a não ser o crepúsculo
Bashô

Este haiku é um poema tão breve que nos parece insignificante, mas tem, de facto, uma dimensão cósmica. Há um caminho que ninguém pisa, nem mesmo aquele que diz que ninguém por ele segue. É o eu que reconhece o caminho de ninguém. Sabe que essa é a única via possível para nos explicar a fatalidade do destino de que nos fala o haiku. Ao descobrirmos o quão pequenos somos diante da Natureza, aprendemos a esvaziar o ego para atingirmos a harmonia, aquilo a que os japoneses chamam coração universal. É uma virtude indispensável para a compreensão das manifestações artísticas. Será oportuno referir aqui que, até hoje, poucos ocidentais tiveram a coragem de aprofundar o complexo mundo espiritual da essência do budismo zen. Pois zen é algo que não pode ser definido por palavras. Como disse um velho mestre:
  • É apanhar a lua reflectida num límpido regato.
Os mais familiarizados com esta filosofia compreendem melhor o conceito da Natureza na poesia japonesa: imaginemos, por exemplo, uma pintura paisagística, onde a figura humana surge somente esboçada e perdida no vasto cenário, tal como uma pedra ou uma árvore. Apenas algumas pinceladas, descontraidamente aplicadas, bastam para sugerir um mundo rico de beleza e em harmonia com os espaços livres.


Neste sentido, a arte japonesa é sem moldura, ou seja, um quadro não é limitado por uma moldura nem física nem espiritualmente. É possível descobrir uma montanha numa simples pedra, ou vislumbrar o mar imenso numa pequena gota de água». In Lisa Flores, Cartas a Ninguém, ilustração de Ingrid B. Martins, colecção Outras Obras, Nova Vega, 2004, ISBN 972-699-785-2.

Cortesia de Nova Vega/JDACT

sábado, 1 de dezembro de 2012

Cartas a Ninguém, ilustração de Ingrid Martins. Lisa flores. «As cartas que vos deixo nasceram no silêncio de mim para ninguém. Um ninguém que o tempo queria que fosse diferente, que fosse pessoa. Pessoa que sentisse a magia das palavras e as fransformasse em flores. Num percurso do sonho, o tempo marcou encontro com a Natureza e fez brotar a essência da Vida»

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O meu coração é como um espelho
 - está nele o mundo inteiro reflectido.
Escrevo tal como vejo,
e parecerá acaso raro,
e mesmo louco,
pois penso em coisas bem estranhamente diversas.
Yoshida Kenko, 1283-1350

«Há tempos, cruzaram-se os meus caminhos com os de Lisa. Dotada de uma grande sensibilidade, é através da sua pintura "natif" que ela nos revela o seu extremo gosto pelo belo, por tudo quanto é puro e simples. E é com essa sua sensibilidade e esse seu gosto que eu me identifico. Tal como um poema haiku, a sua arte não tem fronteiras. Leio e releio as suas cartas com crescente admiração. Deslumbrada pela magia das suas palavras e pela fragrância das suas flores, aceitei colaborar neste livro.
Lisa Flores é uma escritora de linguagem poética e de miragens que nos mostra a Natureza na sua forma mais singular. Enquanto poetisa, é um ser receptivo ao permanente renascimento do mundo. Nas suas Cartas a Ninguém, Lisa vê o mundo com novos olhos, como se o contemplasse pela primeira vez, e toca o eterno. Revela-nos emoções fortes e simples, tanto do universo exterior como do universo mais íntimo da sua alma. Esta pintora-poetisa vive no coração da saudade, entregue aos anseios do seu Eu mais profundo.
Na sua caminhada poética, desvenda-nos, de forma renovada, a riqueza de pequenas maravilhas que se escondem numa simples pedra, numa árvore, numa nuvem, nas ondas do mar, no chilrear dos pássaros, na sombra dos malmequeres silvestres, verdadeiros paraísos onde o homem comum, esquecido do real valor da origem, só vê o valor representativo do interesse.

As flores são as mais bonitas
palavras e hieróglifos da Natureza.
Assim ela se insinua em nós
porque nos tem amor.
Coethe, 1749-1832

No Japão, as artes foram sempre entendidas como um caminho, Do, que abraça toda a espiritualidade de uma cultura. É um caminho para a perfeição, que, através da beleza, ajuda o homem a reencontrar as suas origens e os encantos primitivos da terra. Todo o caminho tem uma magia – Kado é o caminho das flores; Cha-do, a arte do chá; e Sho-do, a arte da caligrafia, ou a beleza na escrita da palavra.
Cada manifestação artística japonesa possui o seu próprio caminho. Um caminho vem de algum lugar e leva a algum lugar, mantendo um vínculo inquebrável entre passado, presente e futuro.
No Kado insere-se a minha arte, a Ikebana, que ocupa um lugar de destaque na vida japonesa. É assim que se designa a decoração floral, que data dos primórdios da civilização. As culturas mais antigas, como a egípcia, mostram-nos claramente que as flores sempre foram fonte de inspiração para adornos e outras expressões artísticas. A palavra ikebana resulta da fusão do antigo verbo "acordar", ikeru, e de bana, que significa "flor". Assim, ikebana é acordar as flores para a vida, é dar vida à beleza das flores que têm a valiosa função de ligar os corações dos homens.
Amamos as flores desde sempre. Há muito percebemos que elas não são apenas belas. As flores podem reflectir o passar do tempo e sentimentos humanos. A ikebana procura harmonizar as suas linhas, de elevado refinamento estético, com a Natureza que elas majestosamente representam. Podemos até comparar esta arte com a música:
  • uma simples sequência de notas forma uma bela melodia;
  • mas elas, notas, enquanto sons de vários instrumentos sincronizados, são capazes de dar origem a uma expressão muito mais rica do que uma melodia isolada».
In Lisa Flores, Cartas a Ninguém, ilustração de Ingrid B. Martins, colecção Outras Obras, Nova Vega, 2004, ISBN 972-699-785-2.

Na brisa da tarde
a gaivota voa
sobre o mar cintilante.
Paz.

Cortesia de Nova Vega/JDACT