quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O Livro Negro. Hilary Mantel. «Há quem diga que foi tudo graças ao falecido cardeal Wolsey, seu patrono; ‘Cromwell’ gozava da sua confiança e fê-lo ganhar dinheiro e conhecia os seus segredos. Outros dizem que cultiva a companhia de feiticeiros»

Cortesia de wikipedia e jdact

Falcões. Wiltshire, Setembro de 1535
«(…) O Rei deixara Whitehall na semana da morte de Thomas More, uma lúgubre e chuvosa semana de Julho, as pegadas dos cascos da comitiva real marcadas bem fundo na lama do caminho que percorriam na travessia para Windsor. Desde então, a progressão incluiu um bom troço dos condados ocidentais; os ajudantes de Cromwell, tendo concluído os assuntos da Coroa a tratar em Londres, encontraram-se com o séquito real em meados de Agosto. O rei e os seus companheiros dormem o sono dos justos em casas novas de tijolo rosado, em casas velhas cujas fortificações ruíram com o tempo ou foram demolidas e em castelos de fantasia que parecem brinquedos, castelos nunca susceptíveis de fortificação, com paredes que uma bala de canhão meteria dentro como se fossem de papel. A Inglaterra vem desfrutando cinquenta anos de paz. É este o pacto dos Tudor; a paz é o que eles oferecem. Todas as famílias se esforçam por apresentar ao Rei as suas melhores galas e, nestas últimas semanas, temos assistido a algumas operações de reboco acometidas em pânico, a alguns urgentes trabalhos de alvenaria, pois os seus anfitriões afadigam-se para exibir a rosa dos Tudor ao lado das suas próprias insígnias. Procuram e obliteram qualquer rasto de Catarina, rainha que foi, esmigalhando com martelos as romãs de Aragão, os seus fragmentos rachados e as suas sementes esmagadas que voam. Em seu lugar, se não há tempo para esculpir, o falcão de Anne Boleyn é pintado grosseiramente em painéis improvisados.
Hans juntou-se a eles no caminho e fez um retrato da rainha Anne, mas não lhe agradou; como se lhe agrada por estes dias? Desenhou também Rafe Sadler, com a sua barbicha bem aparada e a sua boca determinada, de chapéu à última moda, um disco de plumas precariamente equilibrado na sua cabeça rapada. - Fez-me o nariz muito achatado, mestre Holbein – reclama Rafe. - E terei eu poderes, senhor, para consertar o vosso nariz? - retorque Hans. - Partiu-o quando era pequeno – diz, a correr na pista. Eu próprio o tirei de baixo das patas do cavalo e era um bem triste espectáculo, a chorar pela mãe. - Apertou o ombro do rapaz. -Vá lá, Rafe, animai-vos. Acho que ficastes muito bonito. Lembrai-vos do que Hans me fez.
Thomas Cromwell tem agora perto de cinquenta anos. Tem um corpo de trabalhador, entroncado, útil, começa a engordar. Tem cabelo preto, que está agora a ficar grisalho, e por causa da sua pele pálida impermeável, que parece feita para resistir tanto à chuva como ao sol, as pessoas regougam que o pai era irlandês, embora na realidade fosse um cervejeiro e ferreiro de Putney, um tosquiador também, um homem dos sete ofícios, belicoso e arruaceiro, um bêbado e um abusador, um homem muitas vezes levado perante os juízes por espancar alguém, por vigarizar alguém. Como o filho de um tal homem alcançou a sua presente eminência é uma pergunta que toda a Europa faz. Dizem uns que subiu com os Boleyn, a família da rainha. Há quem diga que foi tudo graças ao falecido cardeal Wolsey, seu patrono; Cromwell gozava da sua confiança e fê-lo ganhar dinheiro e conhecia os seus segredos. Outros dizem que cultiva a companhia de feiticeiros. Esteve fora do Reino desde rapaz, mercenário, comerciante de lã, banqueiro. Ninguém sabe ao certo onde esteve e quem conheceu e ele não tem pressa em contar a história.
Nunca se poupa ao serviço do Rei, tem consciência do seu valor e dos seus méritos e assegura-se de que são recompensados: lugares, privilégios e títulos de propriedade, casas senhoriais e quintas. Tem um modo de conseguir o que quer, tem um método; é capaz de seduzir os homens ou suborná-los, persuadi-los ou ameaçá-los, capaz de lhes explicar onde residem os seus verdadeiros interesses e revelará a esses mesmos homens aspectos deles próprios que desconheciam. Todos os dias, o secretário-mor lida com nobres que, se pudessem, o destruiriam com uma palmada vingativa, como se fosse uma mosca. Sabendo isto, distingue-se pela sua cortesia, a sua calma e a sua infatigável atenção aos negócios de Inglaterra. Não tem o hábito de se explicar. Não tem o hábito de falar dos seus êxitos. Mas sempre que a sorte lhe bateu à porta, lá estava, plantado na ombreira, pronto a abrir a porta de par em par ao mais tímido raspar na madeira». In Hilary Mantel, Bring Up the Bodies, 2012, O Livro Negro, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-26-3594-3.

Cortesia de Civilização/JDACT