quarta-feira, 29 de julho de 2015

O Cavaleiro de Olivença João Paulo O Costa. «Procissão fúnebre terminara e o caixão da rainha repousava nas Carmelitas. No paço, encerrava-se uma época. Alguns criados circulavam pelo pátio exterior e o portão abriu-se, para que saíssem os soldados que faziam a guarda…»

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«(…) A rainha Joana morreu como viveu a maior parte da sua vida. Só, rodeada apenas por seus servidores, sem aparato, mas também sem a assistência que tantas vezes fazia do falecimento de um soberano um espectáculo mórbido. Morto, aquele corpo que tanto viajara nos primeiros trinta anos de vida, e que tinha estado encerrado .dentro daquela pequena vila durante quarenta e seis anos, tinha uma pequeníssima viagem pela frente. Ia ser levado para o mosteiro de Santa Clara, que ficava a uns duzentos passos do palácio e onde repousava o corpo de seu marido, Filipe, o Belo, a grande paixão da sua vida, e aí ficaram os dois a aguardar o que seus descendentes decidiriam sobre a derradeira morada do casal real.
Quem mais teria Joana amado? Quem merecera o afecto da pobre rainha? Os seus filhos decerto, sobretudo Catarina. a infanta nascida com a mãe já viúva e que permanecera junto dela, mesmo na clausura de Tordesilhas, até seu irmão a enviar para Portugal, onde ainda então era rainha. Voltara Joana a apaixonar-se depois da morte de Filipe? Tivera no se seu íntimo outros amigos? Com o falecimento de Joana todos os seus sentimentos e recordações também morriam. Vidas antigas, que haviam convivido consigo noutros tempos apagavam-se mais um pouco, ou desapareciam de vez, com a extinção da memória da rainha. Mas de seus amigos nada ficou registado, à excepção do amor apaixonadíssimo por Filipe…, e talvez nada mais houvesse, de facto, para registar. Por isso, termina aqui a História e começa o romance.

O amigo da rainha
Procissão fúnebre terminara e o caixão da rainha repousava nas Carmelitas. No paço, encerrava-se uma época. Alguns criados circulavam pelo pátio exterior e o portão abriu-se, para que saíssem os soldados que faziam a guarda da rainha e que acabavam de ser desmobilizados. No pátio interior, duas costureiras discutiam, por causa de um lençol que não chegara a ser inventariado. Numa das câmaras do andar superior, a velha Aldonça viu o portão a fechar-se outra vez e suspirou com melancolia; depois foi espreitar na janela do lado oposto, pois a discussão das costureiras descambara em gritaria. Entretanto, ouviu Dolores a chamá-la e percorreu o corredor até este se cruzar com outro perpendicular, cujas portas estavam abertas, proporcionando o desfrute de uma vista bonita sobre o Douro. Virou à direita e foi até aos antigos aposentos da rainha.
Passada meia hora de relógio, as duas camareiras continuavam a arrumar o fato da falecida. Os vestidos haviam sido guardados em arcas; noutras tinham depositado lençóis e cobertas. A maior parte da roupa que era acondicionada pertencera à velhinha que fora sendo esquecida pelo mundo e que não tinha uma corte para impressionar, mas ao remexerem os pertences de sua senhora, Aldonça e Dolores encontraram vestidos antigos que tinham as cores garridas da época em que Joana estava no centro do poder e daí deslumbrava a sua corte e irradiava uma força indómita». In João Paulo Oliveira Costa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, 978-989-644-184-5.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT