sábado, 16 de março de 2019

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Em fins de Agosto, a esperança foi regressando. Começaram-lhes a surgir fugitivos, que se escapavam da cidade para se lhes oferecer como criados, a troco de comida»

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«(…) Que diabo, soltou Gunther. Os mouros atacam-nos sem descanso! Konrad também se admirava com isso, pois os besteiros precisavam de um certo tempo para carregarem as suas armas e fazerem pontaria. Os mouros, porém, pareciam incansáveis, apesar de se encontrarem sob o ataque dos pedregulhos. As suas setas espetavam-se nas paliçadas e uma ou outra encontrava mesmo o seu caminho por cima destas, provocando baixas entre os cruzados. Esperemos que os ingleses alcancem depressa as muralhas com a sua torre, disse Hadwig. Que saltem lá para dentro e acabem com o diabo dos besteiros! Pois ainda não há sinal deles por sobre o adarve, retorquiu Konrad. Preparavam-se para lançar mais um pedregulho, quando ouviram os gritos dos seus companheiros que operavam outro dos cinco trabucos. Depressa descobriram o motivo de tal arraial: a paliçada deles ardia! Mas que raio..., começou Gunther, quando um dos homens gritou: os mouros disparam setas incendiárias! Abrigai-vos!,berrou Konrad, ao ver várias dessas setas virem na direcção deles.
Todos se baixaram. A maioria dos projécteis espetou-se na paliçada, mas um deles atingiu o trabuco, pegando-lhe o fogo. Dão-nos cabo dos engenhos, lamentou Johann. Água, depressa, gritaram vários. Logo muitos se dirigiram com os seus cantis ao rio, mas, como estes eram pequenos, alguns prontificaram-se a ir buscar barris ao acampamento. E foi aqui que começou a verdadeira desgraça. Ao terem que deixar os seus abrigos, os homens ficavam, mais do que nunca, à mercê das setas mouras. E os fogos consumiam-lhes as fundas baleares num abrir e fechar de olhos. Temos que fugir daqui, gritou Konrad. Nada podemos fazer para salvar os engenhos e ainda morremos queimados. Os mouros, animados pelo êxito e livres do arremesso dos pedregulhos, cada vez disparavam mais. Os cruzados fugiam debaixo da chuva de setas. Konrad era dos mais rápidos, mas Johann ia ficando para trás. Mais depressa rapaz, mexe-te! À sua volta caíam companheiros atingidos. Os feridos gemiam, suplicavam ajuda, mas quem se atrevia a parar? Ao ver que Johann perdia as forças, Konrad recuou e agarrou-o pela mão. Chegaram esgotados ao acampamento, mas vivos.
À medida que o mês de Agosto avançava, o moral dos cruzados ia baixando. A derrota do primeiro ataque era difícil de digerir, pois provava que os mouros, ao abrigo dos seus merlões, eram capazes de provocar o caos entre eles. As máquinas de guerra, que tanto trabalho tinham dado a construir, arderam totalmente, incluindo a torre dos ingleses, que nunca chegara às muralhas. O terreno junto ao porto não permitia o rolamento de tão grande e pesada construção. A torre atolara-se na areia e ali ardera. Pensara-se assim que as minas seriam a melhor solução. Pelo menos, debaixo da terra, os homens estariam ao abrigo das setas. Entre alemães, flamengos e ingleses, foram construídos três túneis..., em vão! Os sitiados, adivinhando a direcção que as escavações tomavam, construíam as chamadas contra-minas: novas galerias que iam de encontro às dos cristãos, atacando os invasores lá dentro, ou fazendo ruir os túneis, ao remover o travejamento.
Os cruzados estavam perplexos com as baixas que o inimigo já provocara entre eles. Alemães e flamengos organizaram um cemitério perto do acampamento e o mesmo fizeram franceses e ingleses, no lado oeste. Também os portugueses não tinham sorte junto à alcáçova. Ainda tentaram escalar os muros com a ajuda de escadas, mas também este perigoso empreendimento falhou. Os soldados atingiam o cimo dos muros individualmente e o inimigo logo os trespassava com as suas armas, além de que provocava a queda das escadas através de forquilhas, fazendo com que um bom número de homens rolasse desamparado pela encosta rochosa e abrupta, de quase trezentos pés de altura. Os portugueses achavam agora que talvez compensasse tentar abrir a porta que ligava a alcáçova ao exterior e que se situava perto da torre da cisterna do castelo, no pano norte da muralha. Antes disso, porém, os muçulmanos teriam que estar famintos e desmoralizados. Mas como conseguir isso, se os verdadeiros desmoralizados eram os cristãos?
Em fins de Agosto, a esperança foi regressando. Começaram-lhes a surgir fugitivos, que se escapavam da cidade para se lhes oferecer como criados, a troco de comida. Diziam já haver fome em Lusbuna, as gentes sem recursos tinham começado a comer cães e gatos. Os cruzados mais ferozes, porém, em vez de aceitarem a rendição e os serviços dos coitados, decepavam-lhes pés e mãos e devolviam-nos à cidade, a fim de desmoralizarem a população. E já se faziam novos planos: escavariam novos túneis, ingleses e franceses construiriam uma nova torre, mais pequena, para não ser tão pesada, e novas fundas baleares. Se era verdade que os sitiados já sentiam dificuldades em guarnecer as suas mesas, não se passava fome nos acampamentos. O rio estava cheio de peixe, as reservas das matamorras e dos alfolis ainda duravam e as mulheres moíam os grãos e faziam pão nas aldeias. Os habitantes moçárabes que não tinham procurado protecção entre as muralhas não se importavam que se usassem os seus moinhos e fornos». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT