domingo, 17 de março de 2019

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Ela gemeu e mexeu-se. Ian olhou-a do banco onde estava sentado a comer uma das empadas. Ela estava deitada na enxerga…»

Cortesia de wikipedia e jdact

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«(…) Apócrifos, corrigiu ela absurdamente, com uma voz que parecia vir de muito longe. Não é da Bíblia convencional. É dos evangelhos apócrifos. Que me importa se Deus deu a história a Moisés em pessoa, sua cab… Ele agarrou-lhe no cabelo e pôs-se em pé, obrigando-a a colocar-se de joelhos. Arrastou-a até ao mastro central e atou-a com os braços esticados acima da cabeça. Foi até às peles. Ela tinha a certeza de que ele ia buscar o punhal para lhe cortar o pescoço. O seu coração batia-lhe no peito com uma pulsação de chumbo. Ele regressou com a garrafa de vidro e encostou-a aos lábios dela. Bebei, ordenou.

Ela gemeu e mexeu-se. Ian olhou-a do banco onde estava sentado a comer uma das empadas. Ela estava deitada na enxerga, de braços e pernas afastados e amarrados aos cantos. Ele tinha ponderado tirar-lhe a roupa mas acabara por decidir que poderia ser de mais. Ele queria-a assustada e vulnerável, não paralisada de terror. A luta deles rasgara-lhe o vestido, quase expondo um pequeno e mimoso seio. A saia subira-lhe pelas pernas bem torneadas. Ela tinha um corpo muito bonito, mesmo que algo magro de mais. Pequeno e curvilíneo e compacto e bem-feito como o de Elizabeth era, só que mais jovem. Quando a vira pela primeira vez, em pé à luz ténue, formidável e determinada, com aquele cabelo claro e liso a dar-lhe pelas ancas, pensara por um instante que ela era Elizabeth. Mas o rosto, ainda que bastante belo, nada tinha da perfeição precisa de Elizabeth, e era mais caloroso e expressivo. E o cabelo não era branco como o de Elizabeth, mas de um louro-claro raiado de madeixas prateadas, e a sua pele possuía um agradável brilho rosado. Elizabeth fora branca como a neve. Esta mulher parecia o primeiro sol da madrugada.
Vinte e tais, foi o seu palpite. Adorável e corajosa. Pena ter de a destruir. O seu escudeiro, John, transpôs a entrada da tenda, trazendo consigo um prato de guisado. O jovem tinha tomado o seu tempo para servir a ceia, trazendo uma coisa de cada vez, o que lhe proporcionava uma desculpa para olhar cobiçosamente para a mulher. Os seus olhos voluptuosos examinaram as pernas desnudadas. Era melhor clarificar as coisas agora. Mantém as calças bem apertadas, rapaz. Ela não é para ti. John corou e pousou o guisado. Ian recebeu a pasta sensaborona com uma careta. Felizmente, tinha enchido a barriga com as deliciosas empadas de carne de Melissa. Pegando na última, atirou-a ao escudeiro quando ele saiu. Uma consolação. O prazer que se tira de toda a mulher é muito parecido. O mesmo não se pode dizer da comida. Ela voltou a mexer-se. As suas pálpebras ergueram-se suavemente. Ficou alerta à medida que compreendia a posição em que estava. Deu puxões às cordas que a amarravam, e o movimento fê-la gemer novamente. Então, que tal?, perguntou ele. Nunca ouvi falar de uma poção para dormir que depois não nos desfizesse a cabeça.
O olhar encoberto dela deslizou para o sítio onde ele estava sentado. Por um momento, antes de se recompor, mostrou uma centelha de pânico. Óptimo. Sorte a vossa que não era veneno, acrescentou ele. Eu não tinha uma receita de veneno. Ele resistiu à vontade de rir. Quanta vivacidade. Que pena. Ela conseguiu encolher um pouco os ombros. Já que é óbvio que nunca bebestes uma gota, não teria feito diferença nenhuma. Ela voltou a passar os olhos pelo seu corpo vulnerável. O que ides fazer? Tentou parecer corajosa e imperturbável. Ele sentiu alguma pena dela. Tenho estado a pensar nisso durante estas últimas horas. Estava a postos para vos enforcar quando vós acordastes. Enforcar-me! Sim. Por assassínio. Mas eu não… Tentastes. Não foi bem assim. Perdi a coragem. Tenho um corte no braço que diz que sim. Só porque me atacastes. Se tivésseis ficado a dormir como era devido…» In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, Edições ASA, 2012, ISBN-978-989-231-672-7.

Cortesia EASA/JDACT