quinta-feira, 20 de abril de 2023

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent, Richard Leigh, e Henry Lincolin. «Os dois pergaminhos do tempo de Bigou eram textos virtuosos em latim, extraídos do Novo Testamento. Pelo menos, aparentavam isso. Num deles, no entanto, as palavras se seguiam de forma incoerente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 O Mistério

«No princípio de nossa pesquisa não sabíamos exactamente o que estávamos procurando ou, naquele contexto, o que estávamos vendo. Não tínhamos teorias ou hipóteses. Começamos sem a intenção de provar coisa alguma. Pelo contrário, estávamos simplesmente tentando encontrar uma explicação para um pequeno e curioso enigma do século XIX. As conclusões a que posteriormente chegámos não foram previamente postuladas. Fomos conduzidos a elas, etapa por etapa, como se as evidências que havíamos acumulado possuíssem vida própria, como se elas nos estivessem dirigindo de acordo com seus próprios desígnios.

No início acreditamos que se tratasse de um mistério local intrigante, sem dúvida, mas de significado essencialmente confinado a uma cidadezinha do interior da França. Um mistério de interesse puramente académico, embora envolvesse factos históricos fascinantes. Pensávamos que nossa investigação pudesse iluminar certos aspectos da história do Ocidente, mas de forma alguma imaginávamos que ela implicaria reescrevê-la. Imaginávamos ainda menos que qualquer descoberta que fizéssemos pudesse ter relevância para o mundo contemporâneo, e de forma explosiva.

Nossa busca, porque era realmente uma busca, começou com um enredo mais ou menos banal, à primeira vista não muito diferente de inúmeras outras histórias de tesouros ou mistérios não desvendados, que abundam na história e no folclore de quase todas as regiões rurais. Uma versão dela havia sido publicada na França, onde atraíra um interesse considerável, mas, até onde pudemos saber, nenhuma consequência maior lhe fora atribuída. Mais tarde soubemos que essa versão continha uma série de erros. Para começar, entretanto, devemos recontar a fábula tal qual ela foi publicada nos anos 60, com as informações de que dispúnhamos então.

Rennes-le-Chateau e Berenger Saunière

Uma minúscula cidadezinha francesa, Rennes-le-Château, recebeu no dia primeiro de Julho de 1885 um novo pároco: Berenger Saunière, um homem de 33 anos, robusto, atraente, energético e brilhante. No seminário, parecia estar destinado a uma carreira eclesiástica promissora. Certamente, almejava algo mais importante que uma cidadezinha remota no topo de uma colina ao leste dos Pirinéus, mas em algum momento ele deve ter caído no desagrado de seus superiores. Se fez alguma coisa para merecer isso não sabemos, mas o facto é que perdeu todas as chances de promoção. Talvez para se livrarem dele, o enviaram a Rennes-le-Château.

Naquele tempo Rennes-Ie-Château abrigava apenas duzentas pessoas. Era um pequeno povoado pendurado no topo da serra a 40km de Carcassonne. O lugar teria significado o exílio para um outro homem, uma condenação perpétua a viver num fim-de-mundo, longe das amenidades urbanas da época, longe de qualquer estímulo para uma mentalidade vigorosa e questionadora. A ambição de Saunière sem dúvida sofreu um golpe. Entretanto, houve compensações. Saunière era originário da região, pois nascera e crescera perto dali, na cidade de Montagels. Apesar de tudo, Rennesle-Château deve ter-lhe proporcionado o conforto da familiaridade, do sentimento de estar em casa.

O salário de Saunière, entre 1885 e 1891, foi, em francos, o equivalente a seis libras esterlinas por ano, longe de significar opulência, mas muito mais do que se esperaria para um pároco rural na França do final do século XIX. Somado às gratuidades oferecidas pelos habitantes da paróquia, tais rendimentos seriam suficientes para viver bem, sem extravagâncias. Saunière levou uma vida agradável e plácida durante seis anos, caçando e pescando nas montanhas e rios de sua infância. Leu vorazmente, aperfeiçoou seu latim, aprendeu grego e embarcou no estudo do hebraico. Uma camponesa de dezoito anos chamada Marie Denarnaud, sua servente e governanta, foi para ele companhia e confidente durante toda a vida. Ele visitava com frequência seu amigo Henry Boudet, pároco da vizinha cidade de Rennes-le-Bains, sob a tutela do qual mergulhou na turbulenta história da região, uma história cujos resíduos se apresentavam constantemente ao seu redor.

A poucos quilómetros a sudoeste de Rennes-le-Château surgia outro pico, chamado Bézu, coberto pelas ruínas de uma fortaleza medieval, antiga morada de templários. Sobre um terceiro pico, a cerca de 2km de Rennes-le-Château, se erguiam as ruínas do castelo de Blanchefort, lar ancestral de Bertrand de Blanchefort, quarto grão-mestre dos templários, que presidiu a famosa ordem em meados do século XII. Rennes-Ie-Château se situava numa antiga rota de peregrinação que ia do nordeste da Europa até Santiago de Compostela, na Espanha. A região era mergulhada em lendas evocativas, em ecos de um passado dramático, frequentemente embebido em sangue.

Saunière vinha querendo havia já algum tempo restaurar a igreja local. O edifício, consagrado a Madalena em 1059, repousava sobre fundações de uma estrutura visigótica ainda mais velha, datada do século VI. Não se admira então que estivesse em péssimo estado de conservação.

Encorajado por seu amigo Boudet, Saunière iniciou em 1891 uma restauração modesta, utilizando uma pequena soma emprestada dos fundos municipais. Durante os trabalhos, removeu o altar-mor, uma pedra que repousava sobre duas antigas colunas visigóticas. Uma dessas colunas revelou-se oca. Dentro dela havia quatro pergaminhos guardados em tubos de madeira selados. Dois desses pergaminhos continham genealogias, uma datada de 1244 e outra de 1644. Os dois documentos restantes haviam sido compostos, aparentemente, nos idos de 1780, por Antoine Bigou, um dos predecessores de Saunière em Rennes-le-Château. Bigou havia sido também capelão pessoal da família nobre Blanchefort, que no início da Revolução Francesa ainda era uma das mais importantes donas de terras da região.

Os dois pergaminhos do tempo de Bigou eram textos virtuosos em latim, extraídos do Novo Testamento. Pelo menos, aparentavam isso. Num deles, no entanto, as palavras se seguiam de forma incoerente, sem espaço entre elas. Várias letras supérfluas haviam sido inscritas. No segundo pergaminho as linhas eram truncadas de forma indiscriminada e irregular, algumas no meio de uma palavra, enquanto certas letras estavam evidentemente levantadas acima das outras. Na realidade, os pergaminhos continham uma sequência de códigos e cifras, alguns deles fantasticamente complexos e imprevisíveis. Sem a chave certa, eram indecifráveis. A seguinte decodificação surgiu em trabalhos franceses dedicados a Rennes-Ie-Château, e em dois de nossos filmes sobre o assunto, realizados para a BBC.

Bergere pas de tentation que poussin teniers Gardent la clef pax dclxxxi par la croix et ce cheval de dieu j'acheve ce daemon de gardien a midi pommes bleues. [Pastor, nenhuma tentação. Que Poussin, Teniers possuem a chave. Paz DCLXXXI (681). Pela cruz e seu cavalo de Deus, eu completo (ou destruo) este demónio do guardião ao meio-dia. Maçãs azuis]». In Michael Baigent, Richard Leigh, e Henry Lincolin, Nova Fronteira, 2015, ISBN 978-852-090-474-9.

Cortesia de ENFronteira/JDACT

 JDACT, Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, Literatura, Religião, Conhecimento,