sexta-feira, 29 de maio de 2015

Naufrágio da Frota de Xerxes. Zurcher Margollé. «A armada persa, tendo acostado nas margens da Magnésia, situada entre a cidade de Castânia e a costa de Sépias, fez alinhar os primeiros navios em direcção a terra e os restantes lançaram a âncora…»

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«(…) O exército era composto por um total de cento e dezassete mil homens, organizados da seguinte forma: juntou-se, num mesmo espaço, dez mil fazendo-se com que se apertassem tanto quanto pudessem, traçou-se, depois, um círculo em redor. Fez-se, então, sair as tropas e rodeou-se este círculo de uma muralha até à altura da cintura. Finalizada a obra, fez-se entrar outras tropas no recinto e depois outras até que estavam todas contabilizadas. Terminada a contagem, foram agrupados por nação. O número de barcos era de 1207. Os Persas, os Medos e os Sardos combatiam todos nestes barcos, sendo os melhores veleiros fenícios, principalmente os de Sídon.
Enquanto os Gregos partiram com rapidez em auxílio dos lugares em perigo, os habitantes de Delfos, preocupados com eles e com os Gregos, consultaram os deuses. A Pítia disse-lhes para dirigirem as suas orações aos ventos, que seriam os poderosos defensores da Grécia. Mal receberam esta resposta, deram-na a conhecer a todos aqueles que, entre os Gregos, eram amantes zelosos da liberdade, e, dado que temiam bastante o rei Xerxes, obtiveram pelos seus feitos o reconhecimento imortal. Os habitantes de Delfos erigiram, em seguida, um altar em honra dos ventos, em Tuia, no local consagrado a Tuia, filha do deus-rio Cefiso, que deu o nome a esta província, e ofereceram-lhe sacrifícios.
A armada persa, tendo acostado nas margens da Magnésia, situada entre a cidade de Castânia e a costa de Sépias, fez alinhar os primeiros navios em direcção a terra e os restantes lançaram a âncora, perto destes. Como a margem não era, com efeito, suficientemente grande para uma frota tão numerosa, colocaram-se ao lado uns dos outros, com a proa voltada para o mar. E assim passaram a noite. No dia seguinte, mal o Sol nasceu, e depois de um tempo sereno e de grande calmaria, o mar agitou-se levantou-se uma violenta tempestade, com um vento de nordeste que os habitantes das costas vizinhas chamavam de Helospontia (vento de Helosponto). Aqueles que se aperceberam de que o vento aumentava de intensidade e cujos navios estavam ancorados previram a tempestade e salvaram-se, bem como o seus barcos, levando-os para terra. Quanto àqueles que o vento surpreendeu em alto mar foram atirados contra as encostas do monte Pindo, chamado de Ipnes (Fornos); outros contra as margens, alguns despedaçaram-se no promontório de Sépias, outros foram arrastados para a cidade de Melibeia, outros até Castânia, de tal forma a tempestade foi violenta.
Diz-se que um oráculo informara os atenienses para pedirem a ajuda do seu genro. Obedecendo a esta ordem, dirigiram as suas orações a Bóreas, que, segundo a tradição grega, casou com uma ateniense de nome Oritia filha do rei Erecteu. Foi esta aliança, diz-se, que levou os atenienses a concluírem que Bóreas era seu genro. Assim, enquanto estavam com os seus barcos a observar o inimigo em Eubeia, logo que se aperceberam de que a tempestade aumentaria, ou, mesmo antes disso, fizeram sacrifícios em honra de Bóreas e de Oritia e suplicaram-lhes com insistência a sua ajuda e a destruição dos barcos bárbaros, tal como já ocorrera antes perto do monte Atos. Se foi em atenção às suas súplicas que Bóreas atingiu com violência a frota dos bárbaros, isso não posso dizer mas os atenienses afirmavam que Bóreas, que já antes os havia socorrido, veio de novo em seu auxílio naquela ocasião. Assim, logo que chegaram ao seu país, ergueram em sua honra uma capela nas margens do Ilisso.
Afundaram-se nesta tempestade quatrocentos barcos, segundo a estimativa mais baixa. Perdeu-se, também, um número incontável de homens com riquezas imensas. Os comandantes da frota, temendo que os habitantes de Tessália se aproveitassem deste desastre para os atacarem, fortificaram-se dentro de uma alta paliçada feita com os restos dos barcos, já que a tempestade durou três dias. Por fim, os sacerdotes conseguiram apaziguá-la ao quarto dia, imolando vítimas ao vento, com cerimónias mágicas em sua honra, ou através de sacrifícios em honra de Tétis e das Nereidas, ou talvez ela se tenha acalmado a si própria». In Zurcher Margollé, Naufrágio da Frota de Xerxes, 1997, tradução de Sara Travassos, Editorial Inquérito, 2003, ISBN 972-670-398-0.

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