terça-feira, 27 de novembro de 2012

Henrique, o Infante. Memória Histórica. Alfredo Alves. Parte XII. «Lá do seu solar viera Ayres Gonçalves Figueiredo, com noventa anos… - Bern vindo sejaes; - dissera-lhe o infante Henrique - mas homem de vossa edade melhor fôra filhar repouso. … a custo reprimiria um gesto de desdém para responder ao filho de João I mas, embarcou…»


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A Tomada de Ceuta
«E havia sempre quem explicasse: - Foi promessa de el-rei, nosso senhor.
E assim nessa meada de conjecturas ninguém podia achar o fio que o conduziria à descoberta da verdade. Judá Negro, um jogral-astrólogo, da casa da Rainha, em uma trova dirigida a Martim Affonso de Atouguia, revelava que El-Rei ia filhar Ceuta e que tal soubera pela Astrolomia. Isto foi espalhado e todos se riram do néscio…
Fora de Portugal soubera-se já o afanoso preparativo de guerra, extraordinário, que se estendia em todo o reino; e houve receios. O Bispo de Ávila, em Palência, mostrou-se desassossegado e, apesar das razões tranquilizadoras do Adeantado de Cacorla, induzira D. Catarina e o Infante Fernando a que mandassem à presença de João I, como embaixadores, o bispo de Mondonêdo e Diaz Sanches de Benevides, a fim de se confirmarem as pazes com Castela. João I despediu-os com as maiores honras, tranquilizando-os. Nada era com Castella.
Os genoveses que viviam em Sevilha recebiam cartas dos de Lisboa revelando-lhes que a armada ia sobre aquela cidade. O rei de Aragão em disputa com o Conde de Urgel, pedira também carta de segurança. Deu-lha o rei João com o melhor agrado. O Mouro de Granada tremeu também e induziu a favorita Riccaforra a que mandasse mensagem a rainha de Portugal, pedindo paz e oferecendo-lhe um enxoval precioso para o casamento da filha, D. Isabel. Respondeu-lhe, serenamente, a rainha que não se intrometia nos negócios de Estado.
Acorriam também os auxiliares; lá da Alemanha um certo duque e um barão vieram para ir a empresa. O duque pretendeu saber o destino da expedição; não lhe disse o rei e por isso ele retirou-se para o seu ducado. Vieram mais às aventuras três nobres franceses: Mosen Arredenton, Pierre Sonure e Gilles Botaller.
No Porto, o Infante Henrique recebia, todos os dias, apesar da peste, auxiliares em grande número. Lá do seu solar viera Ayres Gonçalves Figueiredo, com noventa anos, branco como a neve, quase um espectro, cercado de escudeiros e peões, apresentar a Henrique a sua espada. O Infante assim que o viu, pasmou; pareceu-lhe ter diante de si a personificação de todo o passado aguerrido de Portugal, luzente de armas, erecto e audaz, apesar de quase um seculo de existência.
 - Bern vindo sejaes; - dissera-lhe o infante Henrique - mas homem de vossa edade melhor fôra filhar repouso.
Ayres Goncalves a custo reprimiria um gesto de desdém para responder ao filho de João I, que não sabia se o corpo lhe enfraquecera, mas que o ânimo era tanto como os trabalhos que passara com el-rei seu pae. Embarcou, portanto. Dois baioneses que haviam visto Aljubarrota, já velhos, trementes, apresentaram-se também no Amazem ao infante Henrique. Dissera-lhes este: - Já não tenho armas para vós. - Ainda conservamos as nossas, senhor! - responderam-lhe os dois. Embarcaram também.
Era quase prestes a partir a armada, do Porto. Com a primavera pareceu diminuir um tanto a peste e por isso era mister não perder tempo para a expedição, demorando-a. No começo de Julho, Affonso Annes, por mandado do Infante Henrique, partiu do Porto, em uma fusta, e foi participar ao rei João I que a armada ia velejar para Lisboa. Tudo se achava a postos para a partida. Sob o sol fuzilante de Julho, cortando as águas do Douro, por onde parecia rastejar um reptil de escamas de topázios, a armada começou, de manso e ordenadamente, a sair». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Typografia do Commercio do Porto, 1894G 286, H5A53, Porto.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT