O
estatuto das amantes dos reis de Portugal: entre o proibido e o legitimado
«Junte-se,
que nada existe de escandaloso, pois
que a rainha plural casada com o monarca
era a soberana do Estado, a única legitimada de direito para dar um herdeiro
varão ao rei, mas que para sobreviver ao seu casamento, fruto de alianças
matrimoniais entre Estados, reinos e países, impunha uma regulamentação
normativa e um enquadramento jurídico que salvaguardasse a integridade moral e
material da consorte em caso de viuvez, de incapacidade de conceber filhos, de
assumir a regência do reino sozinha ou em colaboração com os seus filhos. De
facto, como vários autores têm vindo a sublinhar, tratando-se os casamentos
dinásticos de matrimónios de Estado, os afectos secundarizavam-se face às
estratégias políticas régias. Isso não significa que entre alguns consortes
régios, no período em estudo, não se tenham criado laços de amizade, mútuo
respeito e alguma empatia quase amorosa. Todavia, para a maior parte, e
sobretudo para as rainhas, o casamento constituiu um pesado fardo, em especial
se o filho varão não nascia ou se após várias gravidezes mal sucedidas a função
primordial da rainha, procriar, continuava por cumprir. É precisamente
neste campo que o estatuto da rainha e o das amantes régias assumem funções
diferentes, mas complementares. Se uma é a imagem modelar de comportamento,
associada muitas das vezes à Virgem Maria, símbolo da paz e da concórdia, possuindo
direito às mesmas cerimónias públicas do rei, não tendo sido nenhuma rainha
viúva, repudiada do reino, já a amante, e ainda que o seu filho seja, em regra,
legitimado, vive no limbo entre o ideal de esposa, porque é (quando é)
amada, e a esposa do desejo. Ora, nas cortes da época moderna, em que
verdadeiros esquadrões de belas damas, muitas delas pertencendo à própria Casa
das rainhas, se insinuavam em câmaras e antecâmaras e, acima de tudo, nos
momentos de festividade que reuniam homens e mulheres, era natural que o rei, cristão mas polígamo,
tivesse oportunidade para galantear as mais esbeltas dessas senhoras. À rainha,
com escassas excepções, estava reservado um lugar perpétuo, excepto em caso de
morte, de traição ou de incapacidade de procriar. Por sua vez, prostitutas,
barregãs e favoritas viviam num sobressalto constante, sabendo, sobretudo estas
últimas, que poderiam coabitar com a rainha no palácio régio, como é exemplo
paradigmático o Palácio de Versalhes, o que nunca sucedeu em Portugal, mas que caindo em desgraça nos gostos do monarca
eram afastadas dos mimos, das mercês e dos favores do rei. Exemplar, a
todos os níveis, a história da monarquia francesa está repleta de amantes que,
não raras vezes, alcançaram mais protagonismo na corte do que a própria rainha.
Se o Rei-Sol ficou conhecido pelos
seus célebres amores com Louise de La Vallière, com Athénaïs de Montespan ou
com madame de Maintenon, o seu
sucessor, Luís XV, terá um a relação com aquela que é considerada a mais famosa
das amantes da História, a marquesa de Pompadour. De seu nome Jeanne-Antoinette
e oriunda de uma família burguesa, a influência que exerceu junto do monarca
foi elevada. Pompadour conhecia bem os segredos das intrigas cortesãs e fez
parte ela própria das estratégias das facções de poder de Versalhes. Confidente
e companheira de Luís XIV, só a morte da Favorita
a separou do rei. Daí que esta expressão aparentemente agressiva de mulheres do rei, engloba, afinal, todos
os estratos socais com os quais os monarcas portugueses tiveram relacionamentos
amorosos, desde escravas, negras, barregãs, prostitutas, senhoras de baixa
condição social até membros da alta aristocracia. De destacar que, a partir da
Restauração, as amantes de estrato nobilitado passam a ter um maior protagonismo
social. Sem que as de rua, continuem
a ter muito sucesso. Mas a ópera, os bailes e as cantoras líricas alargaram a
oferta num quotidiano em que a sociabilidade de corte esmorecia e os grandes
espaços cénicos permitiam o flirt, o óculo discreto em direcção ao bem-amado.
A etiqueta e a civilização de corte são deveras tributárias do requinte e da
disciplina imposta pela presença feminina. Rodeado de mulheres desde a nascença,
a aia, a mãe, a esposa, as irmãs, as servidoras, as damas, as anfitriãs, era
difícil o monarca não ser seduzido pelos encantos femininos que domesticaram
pela etiqueta e pelo bom gosto um espaço dominado, na maioria das vezes, pelo rude
trato masculino». In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos
Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN
978-989-626-136-8.
Cortesia
ELivros/JDACT