«(…) São inúmeras as passagens em que Antero confessa a sua
dúvida acerca da missão titânica ou mesmo demoníaca que se impusera: criar uma
filosofia num deserto filosófico como o nosso era, fora do eco de alheias correntes,
às quais, naturalmente, a sua própria reflexão não escapou. Não consolará Antero
saber que a Filosofia já não pretende hoje ser aquele discurso do Absoluto
que a transformava, para os que assim a concebiam, numa sinistra cabeça de Medusa.
Teria talvez gostado de ouvir da boca de Michel Serres definir a Filosofia
como imaginação de discursos possíveis ou
plausíveis sobre a caoticidade inexpugnável da aparência. Na realidade, a questão
de Antero
e da Filosofia não é de conteúdo mas de forma, num sentido um pouco
diverso do magistral mente descrito por Joaquim Carvalho: Antero possuiu em alto grau a vivência total da inquietude filosófica, não
propriamente no sentido inquiridor da problematização mas na largueza de vistas
e na compreensividade superadora, apesar da escassa cultura científica; sentiu,
no entanto, intimamente, a falta de dotes estritamente lógicos, graças aos
quais o pensamento adquire feição demonstrativa. Na forma mentis nunca
deixou de ser homem de letras, de cuja pena saíam, fácil e perfeitamente,
exposições, apelos, exortações e reprimendas, mas sempre na linguagem da
persuasão, não na da demonstração. Tudo isto é exacto, e eu mesmo me referi
em tempos ao texto capital das Tendências como a uma encenação especulativa
sob o modo da aspiração, não da assumida afirmação. Em suma, como a um texto
aspirado por uma exigência especulativa que é menos a de uma coerência sem
sujeito, como uma página de Espinosa, de Kant ou mesmo de Kierkegaard
ou Nietzsche, que a expressão subjectiva de uma alma que desejaria que a
evolução do Universo tivesse como finalidade o Bem. Esse Bem,
de platónica evocação, lá está no admirável texto, mas não como conceito realmente deduzido e pensado.
Está lá, como um dique e como uma luz, ao mesmo tempo como duplo de um Deus
ausente e irmão gémeo da Morte silenciosa e consoladora onde se desvanecem as torrentes de Dor que nunca param,
do soneto famoso.
Não é só a arquitectura dos Sonetos que é de dupla face. A da
prosa também, e isso a dramatiza como a nenhuma outra antes da sua. Antero
pertenceu a um século que se caracterizou pela inversão dos signos, o século de
que Hegel é o supremo representante. Um século que, com as excepções de
Schopenhauer, Kierkegaard e Nietzsche, conservou o que ultrapassou,
racionalismo clássico, materialismo, filosofia crítica. Por ser do país que
era, Antero
de Quental viveu menos o seu século como inversão de signos do que como
ruptura e revolução. Ao menos, como intenção. Ele fez mesmo desse mito
específico do século XIX, a Revolução,
uma espécie de religião. Foi como ruptura que o pensamento mais significativo
do século o tocou e com tal violência que ele assumiu, desde logo entre nós,
uma espécie de investidura insólita da História, a qual o seu génio de poeta e
o seu temperamento de místico conferiram foros de missão, de desafio e, para
acabar, de Destino. Nunca se respeitou como se devia que Antero foi o primeiro escritor
de ideias em Portugal, que assim mesmo se atribuiu uma genealogia, na
carta a Wilhelm Storck. O excesso do choque com o pensamento contemporâneo, que
segundo a sua própria mitologia o deixou instalado num espaço de dúvida absoluta
em relação aos valores e crenças do mundo tradicional, impôs-lhe, num primeiro
momento, a necessidade de compensar essa dúvida com a certeza dos valores
opostos aos da ordem abalada. Nesse primeiro momento, foi Proudhon e as
suas certezas excessivas, na ordem da ideologia, da religião, da crítica social,
da própria arte, que lhe serviram de escudo. Mas num segundo momento, o do
encontro adulto consigo mesmo, Antero vai empenhar-se na
restauração, por conta própria, através de um diálogo inquieto e tumultuoso com
o pensamento do século, da antiga túnica dilacerada. Tecer uma nova estava
fora do seu alcance. Foi um combate muito desigual, o seu, com sistemas tão
estruturados e complexos como o de Hegel, e até, de Proudhon,
construções de que dá sempre a impressão de ter saído antes de lá ter realmente
entrado. Esta situação, comparável à de D.
Quixote com os seus fantasmas, predispô-lo a pensar o mais, antes de ter
tempo de pensar o menos. A ideia de Sistema, verdadeira obsessão do século,
de Hegel a Comte, também a isso incitava aqueles que a vertigem
filosófica aflorava». In Eduardo Lourenço, Antero ou a Noite
Intacta, Gradiva, 2007, ISBN 978-989-616-181-1.
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