«Molero aqui sorri. Hã?, fez mister Deluxe. Molero diz
aqui, explicou Austin, que sorriu ao passar os dedos pelo elo da cadeia, que
tudo se conjuga, bate certo. Austin acendeu outro cigarro. Temos aqui uma
anotação, na margem da página catorze, uma anotação feita a lápis, disse ele. Diz:
coração, bússola doida. Literário, disse mister Deluxe, e, além de literário,
devia ser para apagar porque está escrito a lápis. Austin acenou com a cabeça.
Está a lápis, insistiu mister Deluxe. É óbvio, disse Austin, sem saber bem porquê.
Chegaram as andorinhas, -disse mister DeLuxe, está uma no parapeito da janela.
Austin sorriu. Se estivéssemos no dia de ontem, se mister Deluxe não tivesse
mudado a folha do calendário, esta andorinha teria vinte e quatro horas de
atraso, disse ele. De avanço, Austin, de avanço. Quantas páginas tem o relatório?
Trezentas e doze, disse Austin, relatório propriamente dito, extremamente
envolvido naquilo a que mister Deluxe chama idiossincrasias de Molero, transcrições
verbais e escritas, gráficos, folhas amarelas para os inventários e alguns espaços
em branco para meditação.
Quarenta páginas são dedicadas a Paris, disse Austin, Molero esteve lá
por causa da tal história relacionada com La Petite Mireille, a candidata ao
elenco da Comédie Française. É verdade, isso, disse mister Deluxe, havia isso. Ela
não chegou a entrar para Comédie, continuou Austin, o que, de resto, é secundário,
apenas deu oportunidade a Moleto para tecer considerações de vária ordem sobre
algumas facetas da sua personalidade. Dela?, perguntou mister Deluxe. Mais dele
do que dela, informou Austin, solícito. As fontes de informação, se excluirmos
aquilo a que Molero chama, com ambiguidade resvaladiça, o oásis pantanoso da
infância, eram muito dispersas, continuou Austin, e ele teve necessidade de
seleccionar, daí ter escolhido La Petite Mireille, havia a ligação, foram amantes,
a tendência artística mútua aproximou-os, ela propunha-se fazer um estudo sobre
Matisse, o pintor, ele andava a coligir elementos sobre outro pintor, Miró, ele viu uma vez uma tela de Miró e foi devastado pela tão manipulada
inocência da paleta, encontraram-se no Museu do Louvre. Quem?, perguntou mister
Deluxe. Bem, disse Austin, tinham vindo do Museu de Arte Moderna, onde viram os
seus Matisse e os seus Miró,
acabaram por encontrar-se no Louvre, diante de um quadro neutro, talvez a
inevitável Gioconda, Molero diz que vastas multidões de peregrinos solitários
se encontram, a dois, diante da tela da Gioconda, cedendo ao apelo publicitário
do mais enigmático de todos os sorrisos, bem, conheceram-se no Louvre. Percebo,
disse mister Deluxe, Não esquecer, insistiu Austin a tendência artística mútua,
daí o Louvre. Óbvio, disse mister DeLuxe». In Dinis Machado, O Que Diz Molero, Livraria
Bertrand, Amadora, 1977.
Cortesia de Bertrand/JDACT