Um amor que confunde palácios e governos
«(…) Constança sorriu: - Certamente. E assim o espero. Estais perto de
fazer vinte anos e é justo que também encontreis marido. Porém, a ser como
dizeis, por que razão vos empenhais em acicatar-me e não procurais melhor aparato para vós? Antes que Inês reagisse,
Constança
já conhecia a resposta. A amiga não precisava de adornos. Alta, esbelta e ágil
de movimentos, Inês possuía uma frescura especial que não necessitava de artifícios.
Conservava os caracóis doirados dos seus tempos de criança e evitava os
toucados que os pudessem esconder. Perspicaz, costumava vestir-se de tons de
azul, sabendo que essa cor fazia ressaltar a profundidade dos olhos esverdeados.
Em comparação com ela, Constança não era apoucada. Tinha
feições correctas, os seus grandes olhos escuros eram prova sobeja da sua
grandeza de alma e a esmerada educação recebida proporcionara-lhe maneiras de
se tornar sedutora. Mas, sabia-o bem, carecia da beleza admirável de Inês
e, ao ver-se já vestida e engalanada, confirmou o que pensava. O vestido de
damasco granate, a capa de veludo, o toucado borgonhês enfeitado e os escarpins
de seda conferiam-lhe a dignidade própria da rainha que um dia viria a ser, mas
não lhe davam a elegância de Inês que, vestida de veludo
azul-escuro e com o cabelo preso numa redinha de prata, estava deslumbrante.
Perdida em tais reflexões, Constança foi surpreendida pelo
bater dos cascos de vários cavalos. Trocou um olhar expectante com Inês
e, sem dizerem nada, ambas saíram para o exterior. Minutos depois de pedir
passagem , apareceu um pajem a avisar da chegada da embaixada real. Qual não
seria a decepção de Constança por ver que o príncipe Pedro não se encontrava entre
os recém-chegados. Em seu lugar, tomou a palavra o capitão comandante do pequeno
destacamento militar que, pedindo desculpa, alegou que um negócio importante
não permitira que o príncipe viesse ao seu encontro. Acrescentou que o infante
Pedro lhe apresentava as suas desculpas e ficara à espera dela no castelo de S.
Jorge, residência lisboeta dos reis portugueses, ansioso por conhecer a futura
esposa. Portanto, os viajantes não tiveram outro remédio: alteraram os planos e
continuaram a viagem até Lisboa.
Empoleirada no alto de um monte, a residência real parecia inatingível.
A comitiva atravessou um labirinto de fachadas brancas, telhados vermelhos e
redes estendidas ao sol, que assinalavam inequivocamente o carácter marítimo da
cidade. Do mar só sabiam o que tinham aprendido nos livros e as recém-chegadas
julgavam-se num reino de fantasia. No entanto, o odor a iodo e a sal incomodava-as
e estranhavam o ar que, húmido e salobro, se adensava, ameaçador, sobre as
pessoas. Porém, o ranger dos sinos da Sé, os cantares populares e o júbilo com
que nobres e vilãos saudavam a chegada da que, um dia, seria sua rainha,
fizeram-nas esquecer daqueles inconvenientes que, a princípio, as apoquentaram.
Tudo aquilo fez recordar a Inês a sua chegada a Peñafiel. Voltaram-lhe
à memória a colina, o mar de nuvens em que navegava o castelo e o silêncio. E
reviveu também a sensação de ser invisível para aqueles que deviam acolhê-la, a
ignorância do povo em relação à sua chegada e a desorientação perante um meio
que lhe era desconhecido. O mesmo meio que a obrigara a conduzir-se com
prudência, de que lhe ficara uma certa reserva que nem sequer agora, dez anos
depois e ainda com a certeza de poder contar com o carinho da família Manuel,
conseguia evitar.
Mal tinham avistado a enorme porta que dava acesso ao castelo quando um
ginete passou por eles a galope, ultrapassando o séquito. O cavaleiro era um
homem jovem e bem-parecido. Vestia roupas de caça e ia acompanhado de um
escudeiro. Saudou os viajantes com um aceno amável e Inês ficou fascinada por
um olhar tão azul quanto o seu. Sem que o pudesse evitar, assomou à janela da
liteira para vê-lo afastar-se, mas rapidamente se recolheu ao ver-se
surpreendida pelo cavaleiro que, como ela, quis verificar a fugaz aparição que
tinha entrevisto na sua carreira». In Inês de Castro, María Pilar Queralt de
Hierro, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-23-3081-7.
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