O comum da terra
«Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem,
vento areias mastros lábios, tudo ardia».
Poema de Eugénio de
Andrade, ‘Póvoa de Atalaia, 1923’
Cinzas
«A Poesia tem pés de terra.
Quando a atiramos para o céu
fica só e transida
no meio das estrelas
a chorar com saudades dos homens
e da morte.
Que bom não saber como um poema acaba!
(... nem que sol segrega
o fio de baba
dos bichos-da-seda.)
Apenas palavras que se buscam no papel
com astros dentro famintas de encontrar
o ilógico da Outra Voz que por acaso revele
o avesso da sombra a fingir de luar.
Ah!, ir contigo outra vez pelos bosques azuis
a dependurar luas mortas nas árvores
e inventar flores,
estendido a teu lado na clareira!
E depois, de novo no princípio do mundo,
acender no teu corpo
a Primeira Fogueira.
Hoje para mim o Sonho e a Realidade
confundem-se no mesmo fel lascivo
de subterrâneo sujo...
Mentira?... Verdade?...
Sei lá se sonho ou vivo!
(Fujo.)»
Poema de José Gomes
Ferreira, ‘Porto, 1900-1985’
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