Texto Crítico do Manuscrito. Livro Dois
«(…) Daí que esse pobre
moço, embora tivesse escolhido castidade e em castidade quisesse manter-se,
porém por falsa tentação do Diabo se via muito tentado da tentação da carne. À
noite, enquanto dormia, o Diabo, que nunca dorme, vinha tentá-lo em seu sono
com grandes fantasias. Uma noite viu em sonho, em pé diante dele, aquela mulher
Osanne que já uma vez vira deitada nua com sir Roger num leito de relva, misturados
juntos como animais; e pareceu-lhe, em sua visão, que ela agora vinha ao
encontro dele, com os dentes sorrindo, e junto à cama despia a camisa e
mostrava-lhe o corpo em pêlo, branco como geada, e a negra flor felpuda entre as
pernas, que o velho peregrino chamara de bainha do Diabo; e ali à sua frente
dedilhava aquela coisa com os dedos como um alaúde, e soltava um profundo
suspiro melodioso e estendia para ele a mão. Bem que Roger sabia que, se desse a
mão àquela mulher, seria esposo do pecado para sempre. Sentiu-se fendido em
dois: uma parte de si mesmo queria esquivar-se àquela criatura, a outra parte
demovia-o a abraçá-la e a provar do veneno de seus beijos para então
encerrar-se na jaula de seu corpo e consumir-se no fogo mortal de sua luxúria;
mas, no exacto momento em que imaginou que não pudesse escapar, teve uma
polução, e com isso despertou do sono e a visão se desfez no ar; aí caiu de
joelhos e começou a rogar a Deus que o amparasse, pois sem seu amparo estaria
sempre com medo e nunca seguro, e que o ajudasse, pois sem sua ajuda nunca poderia
destruir o inimigo que jazia emboscado dentro de si; e ficou rezando até que
sentiu grande sabor de doçura no coração, como sinal da presença de Cristo ali
dentro. Aí, reconfortado, voltou outra vez a dormir. Ora, se ele se via tentado
desse jeito durante o sono, que direi das tentações que o assombravam à luz do
dia? Dizem bem os que dizem que oculus est inimicus cordis, o olho é
inimigo do coração: por causa disso Terculiano arrancou os próprios olhos, pois
não podia ver mulher sem sentir concupiscência. Também Amidieu, a menos que
fosse cego, não podia ver mulher, de que Malemort andava muito povoada delas
naquele tempo, sem perigo para sua castidade. Se passavam diante da presença de
seus olhos, a visão de lábios e línguas, de ombros e braços, de nucas e peitos,
de ventres e coxas, de pernas e pés, vinha feri-lo de grandes desejos da carne;
se olhavam para ele, o olhar de seus olhos faiscantes semeava-lhe na mente
pensamentos de pecado; se as ouvia garrulando, rindo ou sussurrando entre si, o
seu linguajar e a melodia de suas vozes despertavam-lhe na carne estranhos espasmos;
se se punham junto dele, tremiam-lhe as narinas ao sorver o tenro cheiro de
fêmea; se porventura as tocava ou era por elas tocado, inflamava-se de fogo de
luxúria, pois bem se sabe que tactus mulieris movet carnem viri, que
significa, o toque da mulher atiça a carne do homem. Assim, ele vendo, ouvindo,
cheirando ou tocando qualquer dessas mulheres, cada um de seus sentidos
corporais gritava-lhe que fosse até elas saborear os deleites do sexo feminino.
Em certos dias sentia-se forte o bastante para resistir à tentação e manter a
carne submissa, e aí dizia dentro de si. Tudo isso é delírio e tentação do
demo, pois por dentro essas mulheres são horríveis em imundície e em pecado, e
lançam fluxos de sangue, e Deus ajudando jamais cairei em fornicação com elas:
então virava-lhes as costas e benzia-se, e assim afastava de si a tentação. Em
outros dias, porém, achando-se mais frágil, a tentação caía sobre ele e já não
queria mais ir embora: aí restava-lhe seguir o que ensina o sábio, que ensina
no livro Eclesiastes que a dor faz mitigar a luxúria. Então entrava no rio, metia-se
na água fria até os ombros, e depois de algum tempo saía dali e deixava as
vestes congelarem sobre a pele; e o frio tanto lhe picava e roía o corpo que
toda a luxúria dentro dele era amansada. Ou senão corria à capela e punha-se de
joelhos a rezar e rezava a Deus que lhe fosse escudo contra o demónio que
continuamente trabalhava para matar Jesus Cristo em seu coração; Oh, Deus,
dizia ele, com multidão de lágrimas, fere-me, eu te rogo, com alguma
enfermidade ou dano ou tormento ou má ventura, se vires que por outra maneira
não possa guardar minha virtude e pôr-me pronto para ser salvo. Aí, ao sair da capela,
via-se renovado em pureza e castidade e por algum tempo os espíritos malignos
deixavam-no em paz». In Alan
Dorsey Stevenson, O Manuscrito Alfield, A Folha de Hera, Jazzseen, Julho
de 2012, Vitória Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, Biblioteca
Pública do Espírito Santo, 2011.
Cortesia de
Jazzseen/JDACT