A
Mulher que Amou Jesus
«(…) Bem-vinda, disse o
pai de Quezia. Não era muito diferente do pai de Maria, nem na idade, nem na
estatura, mas usava vários anéis de ouro nos dedos e a sua túnica era mais
colorida do que aquelas que Natã preferia. Um garotinho de cara redonda, um
pouquinho mais novo que Quezia, arrastou-se até á mesa e, apoiando-se nela,
disse: Olá. Esse é o Onri, disse a mulher. Onri, não sabe sorrir? Disse olá,
mas não parece muito contente... Tá bom, suspirou Onri. Fez uma careta, como se
fosse um sorriso, acrescentando um Bem-vinda exagerado. Onri, você é
terrível!, criticou Quezia. Eu sei disso, disse, orgulhoso. E
estatelou-se na almofada, sorrindo. Maria sentou-se, cuidadosamente. Era tão
diferente da sua casa. Esforçava-se por não fazer algo errado na frente
daquelas pessoas. Mas nunca tinha comido numa mesa de mármore, e ainda com
empregados. Ou será que eram escravos? Lançou um olhar à mulher que trazia os
pratos. Não pareciam escravos: não eram estrangeiros e quando falavam
percebia-se que não tinham sotaque. Devem ser pessoas daqui mesmo, pensou,
contratadas para trabalho doméstico. Isso a fez sentir-se um pouco mais
confiante. Não conhecia a comida de vários dos pratos servidos. Havia uma
tigela com uma espécie de queijo branco, com listras vermelhas, e uma outra com
umas verduras verde-escuras e salgadas e uma fruta que ela não conhecia. Seriam...,
sujos? Será que ela podia comer? Bem, pensou, se essa gente foi a Jerusalém,
então devem observar a Lei.
Quezia disse-nos que seu pai é
Natã, da peixaria à beira do lago, disse o pai da menina a Maria. Já comprei
peixe dele e devo dizer que a sua honestidade e a qualidade do peixe são raros
nesse tipo de comércio. Conheço vários peixeiros cujo carácter é meio
escorregadio, como os peixes que vendem, receio bem. Muito obrigada, senhor,
disse Maria. Pensar no pai preocupou-a. E se ele a estivesse procurando? E
se a exposição de tecelagem tivesse terminado mais cedo? Meu pai é ourives!,
exclamou Quezia, orgulhosa. Tem uma oficina bem grande e um monte de artesãos
trabalham para ele. Olhe só os anéis dele! São da nossa loja. Então, era por
isso que ele usava tantos. Agora não parecia vaidade. Ele simplesmente gostava
de mostrar às pessoas o seu talento de artesão fora da sua loja. Não queria
encontrar coisas dignas de crítica naquela família, e esperava que, se não
encontrasse, os seus pais também nada encontrariam.
Já foi alguma vez à nossa loja?,
perguntou o pai de Quezia. Fica do outro lado da praça do mercado central. Maria
achava que não, mas não tinha certeza. Os seus pais não compravam jóias de ouro,
portanto não teriam um motivo para ir lá. Vamos lá juntas, hoje à tarde, disse
Quezia. O senhor vai voltar para lá, não vai, pai? Sim, mais tarde vou estar lá,
respondeu ele. Posso mostrar-lhe a oficina, onde os ferreiros martelam as
folhas de ouro puro e onde são fabricadas as filigranas. Essa tarde não dava
para ela, não ia poder. Se demorasse muito para chegar em casa, certamente
seria descoberta. Hoje..., hoje à tarde, eu não posso, murmurou. Como
odiava ter de dizê-lo! E como queria conhecer a oficina! Bom, deixa para outra
vez, então, disse o pai de Quezia, dando de ombros. Esta foi a primeira
vez que sua família foi a Jerusalém?
Foi, respondeu Maria. E o
que acharam? Correspondeu às expectativas que tinham?, perguntou a mãe de
Quezia. Não sei dizer, confessou. Não tenho certeza do que esperavam. E
você? O que é que você esperava? E a mãe de Quezia aproximou-se, como se
estivesse realmente interessada na sua opinião. Eu esperava uma coisa de outro
mundo, disse, por fim.
Imaginava que as pedras fossem
resplandecentes, como espelhos, que as ruas fossem cobertas de ouro, ou
safiras, e pensava que iria desmaiar quando visse o Templo. Mas as ruas são calçadas
com pedras mesmo, e o Templo nada tem de mágico, apesar de ser enorme. Você
esperava encontrar a cidade que o profeta Ezequiel descreveu na sua visão, disse
o pai de Quezia. Mas isso era uma promessa do que ainda poderá vir a ser. É
isso que são as visões, promessas de Deus. Visões! Seria como ter sonhos nítidos?
As pessoas ainda têm visões?. perguntou. Talvez tenham, respondeu
ele. Não podemos imaginar o que se passa em cada casa. Os nossos amigos romanos
estavam bem visíveis, em Jerusalém, disse a mãe de Quezia. E acho que não
havia romanos na visão de Ezequiel. Amigos?, Maria escandalizou-se ao
ouvir chamar os romanos de amigos. Ela disse de brincadeira!, disse
Onri. É o contrário do que ela pensa. E cruzou os braços, com autoridade» In
Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições
Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
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