A Poesia Galaico-Portuguesa
«Há na linguagem de D. Dinis, um retomar de muitas fórmulas e lugares-comuns
da poesia medieval. Tal facto não deve surpreender, já que o conceito de
originalidade é algo que não faz parte desta literatura. Não quer isto dizer
que não possamos reconhecer elementos próprios e originais, nomeadamente a
afirmação da sua arte poética assim como o reflexo da sua condição real no modo
como desenvolve alguns aspectos das cantigas
de amor: uma certa ironia no tratamento da soror, quando lhe diz érades bõa pera rei, (Amor,15); e a referência
religiosa, em que se pode ver talvez uma influência de seu avô, ao pedir a
protecção de Santa Maria, mas também nas referências a Nostro Senhor, a Deus e
até no jogo com o terceiro dia da Ressurreição de Cristo (Amigo, 6), quando diz
que a coita do amigo é um forte que a donzela já não o poderá guarir.
A sua poética encontra-se, por outro lado, no modo como se define em relação
com a tradição provençal. É na Cantiga Proençaes
soem bem troban, (Esdmio, l) que a sinceridade é posta acima de qualquer outra
qualidade na expressão lírica. É curioso, aqui, a relação que estabelece entre
o lema e o ciclo natural, ao censurar os que só escrevem poesia no tempo futuro.
Para ele, pelo contrário, a poesia é algo próprio do tempo humano, que não
obedece a esses ciclos naturais mas apenas ao Amor.
O facto de ser rei, por outro lado, não o inibe de entrar nos jogos de
mal dizer que na maior parte dos poetas dos Cancioneiros, atinge uma violência
que não hesita perante a linguagem desbragada e a denúncia de situações em que
ninguém é poupado. Também aqui, as cantigas em que o monarca entra neste campo,
constituem uma excepção pela ausência quer de palavras demasiado grosseiras
quer de referências demasiado explícitas ao campo sexual. É certo que existe
alguma ambiguidade no vocabulário relativo a Joam Bolo, que poderá ser
interpretado como alusivo à sua homossexualidade (como notou Elsa Gonçalves).
No entanto, os poemas podem ser lidos à letra, formando um sentido
completamente lógico sem que seja necessário encontrar outras interpretações,
embora elas sejam plausíveis. Admitir-se-á, neste caso, que o não ir até ao ponto
da denúncia crua que encontramos na generalidade dos poetas resultará da
distância que o rei deve guardar em relação aos súbditos. O que ele censura,
então, são comportamentos que se afastam dos códigos cortesãos, como o de
Meliom Garcia que veste mal e maltrata as
duas meninas que trago, o de D. Foam que fala interminavelmente sem perceber que o rei está com sono e quer que
ele parta; ou refere aspectos do quotidiano como a doença (a praga) que, como aquele que passava a vida a rogar pragas,
ou o desespero de Joam Simiom que perdeu
três dos seus animais porque comeram azeitonas.
Por tudo isto, Dinis I é sem dúvida um poeta com uma voz própria, e
este facto terá levado a que a sua extensa produção tivesse, presumivelmente,
sido recolhida em volume próprio, que terá feito parte da Biblioteca do rei Duarte,
onde se encontra referenciado. Morreu em Santarém, em 1325, mas a sua fama não
morreu com ele, sendo a sua qualidade de poeta referida, entre outros, por
Camões e António Ferreira, no século XVI; mas já antes deles, Dante e o Marquês
de Santilhana o colocam entre outros nomes de relevo na poesia medieval». In D.
Dinis, Cancioneiro, colecção dirigida por Vasco Graça Moura, organização,
prefácio e notas de Nuno Júdice, Editorial Teorema e Nuno Júdice, 1997, ISBN
972-747-684-8.
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