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Quem
sou? 24 de Março de 1897
«(…) Entre o quinto e o sexto arrondissements há ao menos sessenta, mas em toda a Paris
são ao menos duzentas, e todas estão abertas até aos muito jovens. Primeiro, os
rapazes entram por curiosidade, depois por vício, e por fim contraem gonorreia,
quando têm sorte. Se a cervejaria for perto de uma escola, na saída os
estudantes vão espiar as moças através da porta. Eu vou para beber. E para
espiar lá de dentro através da porta os estudantes que espiam através da porta.
E não só os estudantes. Aprendem-se muitas coisas sobre usos e frequentações
dos adultos, e sempre podem ser úteis. A coisa que mais me diverte é identificar
nas mesas a natureza dos vários cafetões em espera; alguns são maridos que
sobrevivem à custa das graças da mulher, e esses ficam juntos, bem vestidos,
fumando e jogando às cartas, e o dono ou as moças falam deles como sendo a mesa
dos cornos; mas no Quartier Latin
muitos são ex-estudantes falidos, sempre tensos no temor de que alguém lhes
afane a sua renda e com frequência puxam uma faca. Os mais tranquilos são os
ladrões e os assassinos, que vão e vêm porque devem tratar dos seus golpes e
sabem que as moças não irão traí-los, porque no dia seguinte estariam boiando
no Bièvre. Há também uns invertidos, que se ocupam de capturar depravados ou
depravadas para os serviços mais imundos. Conseguem os clientes no Palais-Royal
ou nos Champs-Élysées e os atraem com sinais convencionados. Muitas vezes fazem
chegar ao quarto os seus cúmplices disfarçados de policiais, que ameaçam
prender o cliente de cuecas; esse começa a implorar piedade e puxa um punhado
de moedas. Quando entro nesses lupanares, faço-o com prudência, pois sei
o que me poderia acontecer. Se o cliente parece ter dinheiro, o proprietário
acena, uma moça se aproxima e aos poucos convence esse freguês a convidar à
mesa todas as outras e passa a consumir as coisas mais caras (elas, porém, para
não se embriagarem, bebem anisette superfine ou cassis fin, água colorida que o cliente paga a preço alto). Depois
procuram fazê-lo jogar; naturalmente trocam sinais, você perde e precisa pagar
o jantar de todas, o do proprietário e o da mulher dele. E, se você tenta
parar, então propõem-lhe jogar não por dinheiro, mas a cada mão que vencer uma
das moças tira uma peça de roupa... E a cada rendinha que cai, aparecem aquelas
repelentes carnes brancas, aqueles seios túrgidos, aquelas axilas escuras de um
azedume que o deixa tonto...
Nunca subi ao andar superior. Alguém já
disse que as mulheres não passam de um sucedâneo do vício solitário, apenas é
necessário mais fantasia. Então, volto para casa e as imagino à noite; afinal
não sou de ferro, e também foram elas que me provocaram. Li o doutor Tissot;
sei que as mulheres fazem mal até de longe. Não sabemos se os espíritos animais
e o líquido genital são a mesma coisa, mas é certo que esses dois fluidos têm
uma certa analogia, e depois de longas poluções nocturnas não somente se perdem
as forças, mas também o corpo emagrece, o rosto fica pálido, a memória desfaz-se,
a vista enevoa-se, a voz fica rouca, o sono é perturbado por sonhos
irrequietos, sentem-se dores nos olhos e aparecem manchas vermelhas na face;
alguns cospem matérias calcinadas, sentem palpitações, sufocações, desmaios,
outros reclamam de prisão de ventre ou de emissões cada vez mais fétidas. Por
fim, a cegueira. Talvez sejam exageros; quando jovem eu tinha o rosto
pustuloso, mas, ao que parece, era típico da idade, ou talvez todos os rapazes
se proporcionem a esses prazeres, alguns de modo excessivo, tocando-se dia e
noite. Agora, porém, sei dosear-me. Só tenho sonos ansiosos quando volto de uma
noitada na cervejaria, e não me acontece, como a muitos, ter erecções só de ver
na rua um rabo de saia. O trabalho modera-me o relaxamento dos costumes. Mas,
porque fazer filosofia em vez de reconstituir os eventos?
Talvez porque eu precise saber não apenas
o que fiz anteontem mas também como sou por dentro. Supondo-se que exista um
dentro. Dizem que a alma é somente aquilo que se faz, mas, se eu odeio alguém e
cultivo esse rancor, santo Deus, isso significa que existe um dentro! Como
dizia o filósofo? Odi ergo sum. Há
pouco tocaram a campainha lá em baixo. Temi que fosse alguém tão insensato a
ponto de querer comprar alguma coisa, mas o sujeito logo me disse ter sido
mandado por Tissot, afinal, porque escolhi essa senha? Queria um testamento
hológrafo, firmado por um certo Bonnefoy a favor de um certo Guillot
(certamente era ele). Trazia o papel de carta que esse Bonnefoy usa ou usava e
um exemplo da sua caligrafia. Introduzi Guillot ao escritório, escolhi uma pena
e tinta adequadas e, sem sequer fazer um rascunho, construí o documento.
Perfeito. Como se conhecesse as tarifas,
Guillot estendeu-me um pagamento proporcional à herança». In Umberto Eco, O Cemitério de
Praga, 2010, tradução de Joana Angélica Melo, ePUBr, Biblioteca Digital
Brasileira, Editora Record, Rio de Janeiro, 2011, ISBN 978-850-109-284-7.
Noites calmas e serenas!
Cortesia de ERecord/JDACT
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