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«O solstício de Verão, com a entrada do Sol na constelação
do caranguejo, é como uma noite de lua-cheia. E dia claro em todo o lado e
pode-se peregrinar pelos caminhos à noite como se houvesse sol. Foi a 21 de
Junho de 1335 que a rainha Isabel com o seu rajo de peregrina, o seu bordão de
romeira e o seu fardel de pedinte deixou Coimbra a pé, apenas acompanhada de
duas noviças de Santa Clara e dum irmão da Confraria do Espírito Santo de
Alenquer, que tinha a seu cargo o zelo do hospital e da albergaria da mesma
vila. A tenacidade e a austeridade desta mulher não deixam de espantar, ainda
que no contexto do franciscanismo da altura, muito influente na Catalunha
devido à proximidade desta com o Sul de França e o Norte de Itália, este desejo
de pobreza fosse fácil de entender. A viagem era distribuída por várias etapas,
pernoitava-se ao ar livre ou pedia-se hospício a casas religiosas ou civis.
Essas quarenta léguas que separavam Coimbra de Santiago eram assim percorridas
no anonimato duma peregrinação, que se abrigava da publicidade ou do ruído dos
solares mais nobres. A rainha e o seu pequeno séquito viviam de esmolas e
repetiam pela segunda vez uma peregrinação que muitos, em Portugal, não se
lembravam de ter realizado uma única vez.
O objectivo da viagem era poder atingir no período que
medeia entre a lua nova e o quarto crescente de Julho a cidade de Compostela. A
25 de Julho a cidade celebra a sua festa, lembrando o irmão do evangelista
João, que parece ter peregrinado nos primeiros anos do Cristianismo em direcção
do Ocidente, provavelmente nas embarcações fenícias que na altura partiam de
Sidon ou de Tiro. O Sol está na constelação do Leão, onde acabou de entrar, e
com os campos já segados a festa tem qualquer coisa de pagão ou de céltico como
se em vez de adoração dum túmulo cristão se adorasse a memória do Sol vivo nos
espigueiros de pedra. A luz que jorra nesses dias é impiedosa e pede
sacrifícios.
O som executa um itinerário que o leva do Oriente ao
Ocidente, repetindo também ele o caminho dos homens que demandam Compostela. A
cidade está a pouco mais de três ou quatro léguas dum cabo que os romanos,
depois dos celtas, que são porventura o fundo étnico mais original de toda a
região, apelidaram de Finisterra. É Verdade que o caminho que leva o homem
português a Santiago é diferente do caminho que leva o homem europeu à mesma
cidade. Este último percurso na terra a mesma rota que o sol percorre no céu,
deslocando-se de Oriente para Ocidente, enquanto que o homem português se
desloca de Sul para Norte, relembrando mais um centro perdido que ele próprio,
conhecedor desse centro, foi desmultiplicando, do que um centro desconhecido
que era preciso procurar. O homem português é já em relação a Santiago futuro,
enquanto que o homem europeu é em relação a essa mesma cidade passado.
Desde Aveiro, primeiro ponto litoral que o grupo de
peregrinos tocou, que esta dualidade aparecia clara aos olhos de Isabel. O
próprio aragonês participa ainda desse esforço que coloca Compostela como o
ponto mais ocidental de toda a Europa e por isso ponto onde se venerava o Sol
ao venerar-se Cristo. A rota do catalão passava ainda pelos Pirenéus e por
Jaca. A rota das constelações estelares era completamente outra e só o eixo
Norte-Sul criava uma dicotomia inovadora, em que se escolhia entre a Ursa Polar
e Oríon. Há em torno do polo um eixo de constelações que se movem lentamente e
que parece evocar um centro fixo que tem por paradigma maior a Estrela Polar. É
uma coroa muito bela que engloba constelações como a Cassiopeia, o Dragão,
Cefeus e que está certamente na origem de múltiplas procuras. Mas todas as
constelações que estão viradas ao Hemisfério Sul e que tocam a linha do
horizonte exercem um fascínio desmultiplicador, que tem mais de dádiva do que
de procura. É por isso que Isabel ao vir a Santiago de Compostela, nos
primeiros dias de Setembro, tinha o pressentimento de realizar o próprio
percurso do português. Em vez de deixar o finisterra regressando ao meio da
terra, o mediterrâneo, ela avançava em direcção ao mar, acrescentando novas
marcas ao fim da terra».
In António Cândido
Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.
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