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«Nós dizemos, das bases aos cimos, qual a edificação que propomos,
forte para o futuro, e salvadora para este momento. Abraços, união íntima com
todas as nações livres, queremo-la decerto, quando essa união for tal, que
ninguém possa esmagar abraçando.
Contra uma união com a monarquia espanhola, que nem a História nem a
opinião justificam, contra a união feita para a vaidade de dois ambiciosos e
para o amparo do Império francês, levantamos nós o nosso grito e levantaremos
amanhã um partido inteiro. É junto a nós o lugar dos verdadeiros portugueses,
que desde este momento não podem deixar de ser verdadeiros republicanos».
Conclusão do artigo publicado in “A República”, 1870, nº 6.
VI
«Os homens que fazem duma nação o instrumento do seu interesse particular
e das suas ambições encontraram ultimamente, para se desculpar, uma teoria que
se funda na ignorância e na imbecilidade de todo um povo, no meio do qual eles
se dão a atitude do último iluminado e consciente.
O César ou o ditador faz à força a felicidade do seu país sem o
consultar, sem o lisonjear, sem que se importe, ao colocá-lo no lugar mais adiantado,
das vistas saudosas que ele lança para a sua antiga situação. O povo é criança,
e precisa de um tutor que pense por ele: o ditador afasta-o francamente para os
seus brinquedos, para o proverbial ‘pan y toros’, e governa só.
Muitas vezes, quase sempre, o homem que se supôs mais inteligente e
hábil que toda a sua nação, é apenas um ambicioso e um aventureiro: o que ele,
porém, precisa ter é a coragem e a forte iniciativa, que muitas vezes fazem, na
História, com que essas figuras de déspotas se imponham à imaginação e à
poesia.
Há, porém, mais abaixo, muito mais abaixo, os pequenos ditadores que,
julgando a nação tão idiota como os antecedentes, a temem todavia. Estes lisonjeiam
as massas, adulam o povo: os cortesãos precisam ter uma genuflexão para o rei;
estes áulicos do povo precisam fazer alguns milhões delas. Depois, à nação, onde
as grandes palavras são tão queridas como as grandes instituições, atira-se-lhe
com uma lei que fala na reunião livre (porque se supõe o povo tão néscio e tão
mentecapto que tome por um presente do poder o que ele há muito possuía nos
costumes e de facto), e com uma outra, que torne o ‘ensino livre’, prometendo ‘todavia
regulamentá-lo’.
Havia uma liberdade realmente a conquistar; mas essa, porque não era
uma adulação ao povo, porque era um benefício real, não aparece nem aparecerá
nos decretos falazes do duque de Saldanha:
- É a liberdade de consciência, a liberdade dos cultos.
O povo tem nas leis licença para se reunir, para ensinar, mas ao povo é
proibido crer. Para o não católico, a Carta Constitucional é uma inquisição,
que não tira a vida do homem, mas que diminui, porque corta direitos, a vida do
cidadão. A formação do ministério da Instrução Pública poderia ser uma
instituição realmente democrática, se não fosse apenas, estamos autorizados a
supô-lo, a criação aperfeiçoada de um mais segundo ócio (236)».
Início do artigo publicado in “A República”, 1870, nº 6.
In J. Oliveira
Martins, Páginas Desconhecidas, O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870 e a
Ditadura de Saldanha, Seara Nova 1948, Lisboa.
continua
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