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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Poesia. Inês Lourenço. «Neste simulacro de horizonte onde principiam e finalizam os meus dias, para além da barra de inox e dos tubos de vermelho…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…)
Ephebo
«Sim à harmoniosa proporção,
à linha do pescoço na teia
esvoaçante dos cabelos, ao dorso
flexível, no ímpeto animal dos passos.
Sim ao desafio fascinado dos olhos,
na incerteza nocturna do horizonte».

Pentagrama
«Uma estrela é um corpo
em estado de brilho, a cinco
mil graus de temperatura. O brilho
do núcleo (um fluído ou um plasma?)
protege-se até chegar à superfície.
Que parte dele fica aprisionada»

A Cama Voadora de Frida Kahlo
«Neste simulacro de horizonte
onde principiam
e finalizam os meus dias,
para além da barra de inox
e dos tubos de vermelho
sanguíneo que atravessam
o azul mais intenso
da penugem de uma ave exótica.
Este cheiro forte das tintas
encobre o do meu corpo,
que deixou de me pertencer
para entrar no espelho cortante
do tecto, que fito
no umbral do quadro
onde provoco o negro
das minhas sobrancelhas
e a espessura dos matizes.
Os meus seios
que ficaram incólumes
no atrito das chapas,
transformaram-se em dálias
enormes, da cor do leite
e os monstros recuam inertes
por entre vestidos brancos
e rosa, e as flores do México
acesas nos meus olhos»

In Cidália Dinis, Corpo Refectido, Inês Lourenço, Revista da Faculdade de Letras, Línguas e Literaturas, II Série, Volume XXIII, Porto, 2006, [2008], Wikipedia.

Cortesia de RFLPorto/JDACT

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Poesia. Inês Lourenço. «Do fundo da cisterna a tua voz eleva-se e nenhuma masmorra abafa este ardor por ela aceso, no derradeiro véu, a minha pele. Nem as proféticas maldições…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…)
Liturgia
Intensamente te leio e reconheço
o esplendor que me religa
para sempre aos teus olhos, adâmicos,
e indemnes à usura
das palavras do mundo. Nessa nudez
celebras a fuga
de um corcel travestido de cinzas
no rito do poema nascido»

Janus
«A névoa de Janeiro
contagia os olhos, os pés hesitam
nos degraus molhados. Uma
lancinante incerteza desfaz o abrigo
que levantamos junto ao
coração, e os braços, último
dique deixamos ruir
ao longo da pátria assolada
do corpo»

I Will Kiss Thy Mouth
«Do fundo da cisterna
a tua voz eleva-se e nenhuma
masmorra abafa este ardor
por ela aceso, no derradeiro véu,
a minha pele. Nem as proféticas
maldições, nem o teu repúdio,
nem a luxúria do tetrarca
me impedem de cumprir
o mandamento primeiro
da paixão: a colheita
da tua face».

Animais Arrancados em Redor
«Para enterrar um corpo
quantas pequenas ervas
e escondidas larvas
são aniquiladas. O golpe
seco da pá desentranha os
mínimos seres, com
o rumor de um barco vazio
que ainda singra
contra a falésia».

Ephebo
«Sim à harmoniosa proporção,
à linha do pescoço na teia
esvoaçante dos cabelos, ao dorso
flexível, no ímpeto animal dos passos.
Sim ao desafio fascinado dos olhos,
na incerteza nocturna do horizonte».

In Cidália Dinis, Corpo Refectido, Inês Lourenço, Revista da Faculdade de Letras, Línguas e Literaturas, II Série, Volume XXIII, Porto, 2006, [2008], Wikipedia.

Cortesia de RFLPorto/JDACT

domingo, 13 de novembro de 2016

Corpo Reflectido. Cidália Dinis. «Os meus seios que ficaram incólumes no atrito das chapas, transformaram-se em dálias enormes, da cor do leite…»


Cortesia de wikipedia e jdact 

«(…) E se num primeiro momento a poeta parece entrar no espelho cortante do tecto, contemplando o quadro, agora parece querer sair desse quadro e, num acto fatal, voraz, volta a desenhar as palavras com uma mescla de vermelho sanguíneo, com o azul mais intenso para encobrir o seu Corpo que outrora deixara de lhe pertencer. O mundo exterior é então reduzido ao essencial e uma sequência de acontecimentos é condensada num clímax poderoso, onde saindo do espelho cortante do tecto, a poeta fita no umbral do quadro os monstros que recuam inertes/ por entre vestidos brancos/ e rosa, e as flores do México se acendem nos seus olhos.
Nesse simulacro de horizonte há uma espécie branca/ de paixão, que nasce com/ o poema, com o cuidado/ implacável de negar as palavras/ à mudez do instante. Este cuidado está inscrito e jorra do sangue da poeta, na arte de acumular na pele, os sentidos, milhões de impulsos verbais. Aí a poeta enraíza a palavra, constrói um verso e no fremir imperceptível de uma ave, na rasura da penumbra, descobre o rosto amado, que ao inclinar-se na janela do olhar/ encostado ao corpo da cidade/ que nos habita vai ficar/ para além de nós, nessa descida/ até à margem de um rio/ onde só o poema/ consegue transgredir/ as inexoráveis águas (Uma Arte da Paixão).
Voando nas asas do silêncio, na crescente mancha dos espelhos, as palavras revestem-se de intemporalidade e o poema esse pronuncia-se voraz e fatalmente, como quem anseia possuir o ar. Nesse voo fatal, poder-se-ia dizer, parafraseando Jorge de Sena, que Um só Poema basta para atingir a Terra. 
A Cama Voadora de Frida Kahlo
«Neste simulacro de horizonte
onde principiam
e finalizam os meus dias,
para além da barra de inox
e dos tubos de vermelho
sanguíneo que atravessam
o azul mais intenso
da penugem de uma ave exótica.

Este cheiro forte das tintas
encobre o do meu corpo,
que deixou de me pertencer
para entrar no espelho cortante
do tecto, que fito
no umbral do quadro
onde provoco o negro
das minhas sobrancelhas
e a espessura dos matizes.

Os meus seios
que ficaram incólumes
no atrito das chapas,
transformaram-se em dálias
enormes, da cor do leite
e os monstros recuam inertes
por entre vestidos brancos
e rosa, e as flores do México
acesas nos meus olhos».
In Inês Lourenço 
In Cidália Dinis, Corpo Reflectido, Trabalho apresentado no seminário Caminhos da Poesia Portuguesa Contemporânea, do Modernismo ao Pós-modernismo, Revista da Faculdade de Letras, Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXIII, Porto, 2006 [2008], Wikipedia.
 Cortesia de RFLPorto/JDACT

Corpo Reflectido. Cidália Dinis. «O modelo anatómico da parte de baixo de um corpo, de cor salmão, que está por cima dos pés da cama, assim como o modelo de osso em baixo, à direita, indica-nos a causa do aborto»

Cortesia de wikipedia e jdact
«(…) Fernando Pinto Amaral e João Barrento, entre outros, analisando a poesia portuguesa da pós-modernidade, diagnosticaram-lhe um generalizado e difuso sentimento de melancolia. Ora, em Inês Lourenço não encontramos propriamente um fio condutor impregnado de melancolia, mas sim um turbilhão de sensações, resultantes de um jogo de espelhos que reflectem a realidade, o quotidiano, o corpo, o sangue seiva da vida, a herança indecifrável de respirar. Engana-se o leitor que pensa encontrar na sua obra uma poética mais ligada ao instinto carnal, voltada para uma recondução do indivíduo às suas raízes, à sua animalidade. Nela, encontramos antes o Corpo como imagem, como espelho cortante, numa ligação umbilical com o Cosmos. Neste simulacro de horizonte, a tónica recai no universo feminino, no ar, na liberdade, no vermelho sanguíneo, no corpo reflectido, onde, como refere Sophia Andresen, os espelhos acendem o seu segundo brilho (Geografia), brilho que extravasa o corpo feminino, a realidade, a circunstância, num despertar de sentidos (sugeridos, por exemplo, pelo título Carpe Diem). A Cama Voadora de Frida Kahlo, não será antes o consubstanciar de uma poesia que mais do que minimalista (como referiu Fernando Guimarães, entre outros) é o fruto desse laço umbilical com que se pinta a relação Corpo/Cosmos? É precisamente nesta relação que, entrando no espelho cortante, parecem misturar-se as tintas da tela com a tinta que escorre da última gota da pena da poeta. Se na tela do poema Inês Lourenço escolhe os tons de vermelho sanguíneo, num claro contraste com o azul intenso para encobrir o corpo, procurando entrar no espelho cortante do tecto, numa tentativa de provocar a espessura das matizes; também Frida Kahlo cobre o seu quadro de tintas representativas da condição feminina, da sua relação com o Corpo. De facto, o quadro mostra-nos a artista toda nua, deitada numa cama de hospital, que é demasiado grande em relação ao seu corpo. O lençol branco por debaixo do seu baixo-ventre está ensopado de sangue. Por cima da barriga estão três fitas vermelhas, como se fossem artérias, que ela segura com a mão esquerda, e que têm seis objectos atados às suas pontas – símbolos da sua sexualidade e da gravidez falhada. A fita que está por cima da poça de sangue à volta da pélvis transforma-se num cordão umbilical e leva-nos até um feto masculino de tamanho invulgar em posição embrionária. Por cima da cabeceira da cama, à direita, vê-se um caracol a flutuar, símbolo não só da interrupção da gravidez, como também da vitalidade e sexualidade, uma vez que a sua casca protectora não é mais do que símbolo da concepção da gravidez e do nascimento. Ao sair e ao esconder-se na casca, relaciona-se com as fases crescente e minguante da Lua, que por sua vez representa o ciclo feminino e, consequentemente, a própria sexualidade (amplamente retratados por Inês Lourenço neste seu percurso de vinte anos). O modelo anatómico da parte de baixo de um corpo, de cor salmão, que está por cima dos pés da cama, assim como o modelo de osso em baixo, à direita, indica-nos a causa do aborto: o dano da coluna e da pélvis, no fundo, o que impossibilitou Frida Kahlo de ter um filho. O maquinismo que vemos em baixo, à esquerda, também deve ser entendido neste contexto. Representa, provavelmente, uma parte de um esterilizador a vapor, como os que se utilizavam nos hospitais naquele tempo. A orquídea que está ao centro, por baixo da cama, é também ela símbolo de sexualidade e de emoções. Neste cenário pintado por tintas sanguíneas, a pequena figura da artista parece evocar a solidão e a vulnerabilidade perante uma vasta planície, que é simultaneamente reflexo dos próprios sentimentos de Frida Kahlo, mas também símbolo de progresso tecnológico, onde imperam barras de inox e tubos, num nítido contraste com o destino humano da artista». In Cidália Dinis, Corpo Reflectido, Trabalho apresentado no seminário Caminhos da Poesia Portuguesa Contemporânea, do Modernismo ao Pós-modernismo, Revista da Faculdade de Letras, Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXIII, Porto, 2006 [2008], Wikipedia.
Cortesia de RFLPorto/JDACT

sábado, 12 de novembro de 2016

Corpo Reflectido. Cidália Dinis. «Uma lancinante incerteza desfaz o abrigo que levantamos junto ao coração, e os braços, último dique deixamos ruir ao longo da pátria assolada do corpo»

Cortesia de wikipedia e jdact
«(…) Daqui, resultará uma certa familiaridade com Eugénio de Andrade, visível na arquitectura extremamente clara e cristalina que os seus poemas reflectem, na preferência pelas palavras nuas e limpas, numa viva comunicação das necessidades primeiras do Corpo e da Alma. É desta forma que Inês Lourenço, no livro Aproximações a Eugénio de Andrade, se revê:

Liturgia
Intensamente te leio e reconheço
o esplendor que me religa
para sempre aos teus olhos, adâmicos,
e indemnes à usura
das palavras do mundo. Nessa nudez
celebras a fuga
de um corcel travestido de cinzas
no rito do poema nascido.

Contudo, Inês Lourenço, impõe-se num outro sentido, deixa transparecer uma escrita dúctil e elegante, perpassada por uma voz acutilante, sobretudo quando no seu mundo encontramos personagens da erudição como Gould, Suggia, Wenders, ou quando se refere a um deus ou semideus da galeria greco-romana:
Janus
A névoa de Janeiro
contagia os olhos, os pés hesitam
nos degraus molhados. Uma
lancinante incerteza desfaz o abrigo
que levantamos junto ao
coração, e os braços, último
dique deixamos ruir
ao longo da pátria assolada
do corpo.

É nesta capacidade de conferir ao discurso um sopro renovador e uma sensibilidade única, veemente, que a sua poesia se reveste de originalidade, bem ao gosto de Nuno Júdice, outro poeta cuja obra espelha o equilíbrio entre a matéria do poema e as múltiplas referências eruditas que vão brotando da sua pena. No entanto, Inês Lourenço manterá, numa diferença nítida, a sua obra imbuída de profundidade, espelhando um enunciado mais afectivo e pessoal na reconstrução do lugar e do Corpo do que o daquele poeta:
I Will Kiss Thy Mouth
Do fundo da cisterna
a tua voz eleva-se e nenhuma
masmorra abafa este ardor
por ela aceso, no derradeiro véu,
a minha pele. Nem as proféticas
maldições, nem o teu repúdio,
nem a luxúria do tetrarca
me impedem de cumprir
o mandamento primeiro
da paixão: a colheita
da tua face.

N’A Enganosa Respiração da Manhã, mais do que uma atenta observação da realidade que a rodeia, realidade que é corpo, sangue, luz, ar, mundo subtil entre o céu e a terra, o leitor é confrontado não só com questões, como também com poéticas soluções que vão sendo desenhadas e que estão bem patentes nos poemas que se seguem:
Animais Arrancados em Redor
Para enterrar um corpo
quantas pequenas ervas
e escondidas larvas
são aniquiladas. O golpe
seco da pá desentranha os
mínimos seres, com
o rumor de um barco vazio
que ainda singra
contra a falésia.

Pentagrama
Uma estrela é um corpo
em estado de brilho, a cinco
mil graus de temperatura. O brilho
do núcleo (um fluído ou um plasma?)
protege-se até chegar à superfície.
Que parte dele fica aprisionada?

Pedra angular da sua obra é também o pacto que a sua poesia estabelece com a música, onde, numa espécie de construção orquestral, corporal, o ruído sibilante do tráfego se confunde e funde nos sentidos, na inocência feroz do olhar, na procura da primeira personagem, Orpheu». In Cidália Dinis, Corpo Reflectido, Trabalho apresentado no seminário Caminhos da Poesia Portuguesa Contemporânea, do Modernismo ao Pós-modernismo, Revista da Faculdade de Letras, Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXIII, Porto, 2006 [2008], Wikipedia.
Cortesia de RFLPorto/JDACT

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Corpo Reflectido. Cidália Dinis. «É do encontro com a cidade, o espaço, com o quotidiano e a circunstância que a sua poesia espelha temporalidade, encanta incautos…»

Cortesia de wikipedia
A Enganosa Respiração da Manhã. Inês Lourenço
«(…) Na transição para o segundo momento, é com Os Solistas que Inês Lourenço estabelece um pacto entre poesia e música, deixando transparecer uma relação fundada em laços de grande cumplicidade e espiritualidade, como podemos inferir desde logo a partir dos títulos, convocadores de um universo umbilicalmente ligado com a música – Os Solistas, Glenn Gould, Execução, onde pinta a sua relação com a cidade, o quotidiano, como em Litania para um limoeiro urbano:
«Para mover o céu e os alicerces, partir
velhos caixilhos e cantarias, chega o último
dos morados. Cumprido o tempo das
polpas douradas, o estio das crianças ficará
ainda algum tempo nos retratos
sépia, com hidrângeas e bicicletas, expulso
para sempre o cio dos gatos e o impudor
dos ramos nas florações precoces».
Mas, se esta relação com a cidade, o quotidiano vinha já sendo esboçada desde o seu primeiro momento, com Cicatriz 100%, é agora num terceiro momento, com Teoria da Imunidade e Um Quarto com Cidades ao Fundo, este último antologia de poesia reunida, que a poesia de Inês Lourenço ganha contornos mais nítidos e encontra na cidade o Corpus do quotidiano e da realidade que pretende fotografar, onde o comum da vida não é mais do que o sopro da vitalidade, da temporalidade. Destes três momentos ressalta, segundo Isabel Allegro Magalhães, um universo de sensações que são o lugar de arrebatamento, com o desejo e a imaginação a convocá-las, uma epistemologia dos sentidos, que constrói o erotismo e a sensualidade na relação com os seres, os acontecimentos, a corporeidade da existência. No seio dessa fixação com o comum da vida, onde são fotografados pequenos nadas, constantes do presente ou da decantação na memória, o ritmo da cidade é ouvido como um sopro, ritmo da circularidade bio-cultural feminina. Desse sopro purificador, veículo de vida e de regenerescência esboça-se A Enganosa Respiração da Manhã, livro feito de uma enganosa simplicidade, onde no dizer de Valter Hugo Mãe reina a aparente facilidade, em que o mais que se diz está na subtileza como se lida com conceitos e referências de cariz erudito; onde a expiração e inspiração simbolizam a produção e a reabsorção do universo, num tempo em que a manhã é simultaneamente pureza e promessa, sem qualquer mácula de perversão.A Enganosa Respiração da Manhã é, pois, o reflexo de uma voz que num percurso de vinte anos se foi delineando, num progressivo e contínuo amadurecimento, assente simultaneamente numa poética da sabedoria e da emoção concebida pela razão. Desde sempre, e segundo Valter Hugo Mãe, que a escrita desta autora se faz desse estar acima parecendo levar o chão nos pés, ou vir ao chão suportando o céu nas mãos. É do encontro com a cidade, o espaço, com o quotidiano e a circunstância que a sua poesia espelha temporalidade, encanta incautos:
Poesia Toda
«Abro e folheio
o grosso volume da última
Poesia Toda, a encantar
incautos, a palavra toda
enche-nos a boca, pronuncia-se
voraz e fatalmente, como
quem anseia possuir o ar».
Mais do que uma recolha de contida e rigorosa escrita, esta obra, marcada por uma alternância entre poemas curtos e longos, reflecte toda uma lógica assente numa sequencialidade orgânica e vincadamente serial, isto é, compõe-se de poemas claramente entrelaçados, numa límpida construção que prende e envolve de forma poderosa o leitor numa visão que se quer articulada. Inês Lourenço é, desde logo, criadora de ponderado verso, como verso calibrado por metrónomo, cortado por mão segura. Como uma faca. Sem paradas inúteis. Vertiginosamente, em que tudo é dito de forma lapidar e cristalina:
Ephebo
«Sim à harmoniosa proporção,
à linha do pescoço na teia
esvoaçante dos cabelos, ao dorso
flexível, no ímpeto animal dos passos.
Sim ao desafio fascinado dos olhos,
na incerteza nocturna do horizonte».
Oscilando entre uma escrita marcada por um universo feminino, sem ser feminista, e uma apurada sensibilidade do mundo e da grande cultura, os seus textos são o reflexo da condição feminina, em clara articulação com os excelentes pintores, músicos». In Cidália Dinis, Corpo Reflectido, Trabalho apresentado no seminário Caminhos da Poesia Portuguesa Contemporânea, do Modernismo ao Pós-modernismo, Revista da Faculdade de Letras, Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXIII, Porto, 2006 [2008], Wikipedia.
Cortesia de RFLPorto/JDACT

Corpo Reflectido. Cidália Dinis. «… a poeta dá corpo a sucessivos jogos de espelhos que não visam mais do que reflectir a problemática do eterno feminino e da voz feminina/feminista…»

Cortesia de wikipedia
A Enganosa Respiração da Manhã. Inês Lourenço
Faz-me frio este Outono
«Faz-me frio este Outono,
a boiar sobre o corpo,
a poesia sem ancas,
a música passada
por ovo e pão ralado, faz-me
frio este fender castanho
este horizonte ao espelho,
faz-me frio o esmalte descascado
a tapar o interior
revelho»
Inês Lourenço, in ‘Cicatriz 100%
«Uma das características que melhor define a poesia da década de 80 em Portugal é, sem dúvida, a sutura de tendências das décadas anteriores que, partindo do caule, se vão ramificando em diversas direcções e que vão marcando, no entender de Nuno Júdice, quer um novo realismo ligado à revalorização do quotidiano, quer um acentuar da tradição pela recuperação de linguagens e modelos do passado; quer ainda por uma espécie de novo romantismo característico de alguns poetas que se estrearam na década de 70 (Viagem por um Século de Literatura Portuguesa, 1997), mas que continuam, com o seu cunho pessoal, a definir e a determinar as décadas posteriores, como é o caso de José Agostinho Baptista.  São poetas que evidenciam uma disforia compreensível em relação a quaisquer uniões que pudessem querer estabelecer entre si (Valter Hugo Mãe, Inês Lourenço e José Emílio-Nelson, a poesia de 80 em dois exemplos, Esquina do Mundo, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2003). Esta disforia perante agrupamentos não deve ser entendida como uma quebra de intentos de participação, mas antes como uma operação cirúrgica, visando uma intervenção atenta e cuidada na diferenciação, inovação ou mesmo criação da poesia. Na realidade, uma das características mais interessantes, dos poetas de 80, segundo Valter Hugo Mãe, terá que ver com a convicção de que ainda é possível escrever poesia com novidade e diferença avançando sem receios para espaços poéticos dotados de uma rara criatividade, onde é visível uma participação na abertura de um tempo em que os criadores se dividiram, um a um, por textos e contextos extremamente autónomos: Inês Lourenço, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, José Emílio-Nelson, Adília Lopes, terão pouco que ver uns com os outros, sobretudo quando no universo literário de cada um confluem vivências e situações multifacetadas que marcam um percurso dotado de inspiração e de rara criatividade. É precisamente neste cenário de tendências tão opostas ou mesmo contraditórias que, ainda que votada a uma discrição imerecida, Inês Lourenço surge como poeta representativa dos anos 80. De facto, a sua progressão textual faz-se no sentido de uma mais alta definição da voz poética, passando por experiências de dicção em que se podem distinguir essencialmente três momentos (Daniela Braga (et al.), Inês Lourenço, Um Quarto com Cidades ao Fundo, Apeadeiro, revista de atitudes literárias, 2001) cruciais: uma primeira fase, marcadamente engagée, feminista e contestária, a que correspondem Cicatriz 100% e Retinografias; uma segunda fase, da qual fazem parte Os Solistas, onde assume uma atitude mais distante, descomprometida e mais irónica, sarcástica, em que esboça os vectores axiais da sua poética; e um terceiro momento, que se inicia com Teoria da Imunidade e se estende por Um Quarto com Cidades ao Fundo, no qual Inês Lourenço opta por uma poesia mais próxima da realidade, comprometida com o quotidiano, o minimalismo, sempre com a acidez cortante de uma ironia iconoclasta. É com Cicatriz 100% e com Retinografias que, num primeiro momento, a poeta dá corpo a sucessivos jogos de espelhos que não visam mais do que reflectir a problemática do eterno feminino e da voz feminina/feminista, em torno de uma poesia comprometida, empenhada numa renovação social, espelho de uma época em evidente luta pela emancipação da mulher. A mulher é, pois, o Corpus deste momento poético de Inês Lourenço. Quase sempre anónima ou ocultada, velada pelos morfemas de género que deixam entrever, nitidamente, um eu poético feminino, a mulher reveste-se, assim, ora de mitos bíblicos, ora da antiguidade greco-latina, como forma de desmistificar os estigmas ancestrais que a perseguem. É numa tentativa de regeneração da sua feminilidade resplandecente que Madalena vai sendo pintada com tintas apolíneas:
Madalena
«Tranças de gerânios deslaçados
sopro da flauta de lódão,
benzido sémen nácar
pela tua boca
néctar».
Inconstante é também a relação da autora de Retinografias não só com o amor, mas também com o sexo oposto, oscilando entre a solidão, a saudade do festim ininterrupto dos teus olhos e uma sensualidade e um erotismo sugeridos:
Mural
«A glande macia do pincel molhando o flanco
do doce cimo longe da lonjura,
os olhos e as narinas como asas
do mais belo rosa húmido da vulva,
seios da generalidade
da geometria láctea das fontes
e a chuva escorrendo da boca
com os líquenes da permanência».
In Cidália Dinis, Corpo Reflectido, Trabalho apresentado no seminário Caminhos da Poesia Portuguesa Contemporânea, do Modernismo ao Pós-modernismo, Revista da Faculdade de Letras, Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXIII, Porto, 2006 [2008], Wikipedia. 
Cortesia de RFLPorto/JDACT

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Francisco de Vasconcelos Coutinho. Poeta (1665-1723): «Filho de uma época de profundas metamorfoses, é o exemplo da criatividade portuguesa do período barroco»

Cortesia de auladeliteraturaportuguesa

Soneto

Falando com o Mondego estando saudoso
Como é, Mondego, igual ao nascimento
O meu choro ao que a ti te desempenha;
Pois se o teu pranto nasce duma penha,
De um penhasco se causa o meu lamento.

Tu do mal, que padeço, estás isento,
Porque abrandas chorado a tosca brenha,
Mas Fillis mais que serra me desdenha,
Quando as ruas correntes acrescento.

Se pois a serra dura tanto zela
O teu chorar, que o áspero desterra,
E o meu pranto endurece a Fillis bela;

Por teres mais alivio, ou menos guerra
Chora tu, pois na serra tens estrela,
Eu não, que sem estrela amo uma serra.

Temas caros ao barroco, como a “fragilidade da vida humana”, comparecem igualmente na obra do poeta madeirense. Lembremos o poema «Esse baixel nas Praias derrotado», talvez o mais conhecido por figurar em diversas antologias.

Soneto

À fragilidade da vida humana
Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse estio em vesúvios encendido
Foi Zéfiro suave em doce agrado.

Se a nau, o sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego imortal, e considera
Que és rosa, primavera, sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

Trata-se de um dos exemplos mais perfeitos da “reinvenção” barroca, quer pelo seu virtuosismo verbal, pela sua construção simbólica, uma vez que «a nau, o sol, a rosa, a Primavera» correspondem aos quatro elementos «a água, o fogo, a terra, o ar»; quer pelo espírito da Contra--Reforma aqui bem patente». In Cidália Dinis, Fundação Calouste Gulbenkian, Notas e Comentários, Colóquio Letras, 178, ISBN 010-1451.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT