quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «Entretanto, tivestes um trabalho inútil, o que é muito para sentir, dada a importância da vossa missão. Mas não falemos mais disso…. Viestes para vos confessardes?»

Cortesia de wikipedia

O reverendo padre Lefèvre
«(….) Tinha agora a fonte mais escampada, por lhe rarearem os cabelos, e isso fazia com que ela parecesse mais vasta, dando à figura do ex-estudante saboreando uma expressão de severa majestade, que incutia respeito. Lefèvre saudou Diana com uma ligeira inclinação quando esta ao entrar se curvou profundamente. Perdoai-me, meu padre, disse a viúva, se não vim tão depressa como desejava; mas uma visita de cerimónia… Não foi por causa dessa visita de cerimónia que perdestes tanto tempo, minha filha, disse o padre, que com um olhar rápido tinha observado o vestido de Diana. Perdestes também alguns instantes para enganar o vosso pai espiritual. Eu!, exclamou Diana, cheia de confusão. Sim, vós…, receastes que eu achasse demasiado mundano o vestuário com que recebestes o príncipe Henrique, e mudastes de vestido… como se a vista de um sacerdote pudesse ser perturbada pelo que desperta a admiração e os desejos dos outros homens. Noutra qualquer ocasião a senhora de Brezé ficaria maravilhada por ver que um estranho assim adivinhava os seus mais íntimos pensamentos; mas o padre Lefèvre já por vezes lhe dera tais provas da sua onisciência, que a condessa já de nada se espantava. Inclinou a fronte, que passado um momento, ergueu. Então cometi um pecado?, perguntou ela. Pecado? Não; além de que, bem sabeis, minha filha, que nós procedemos com brandura e circunspecção, antes de considerarmos pecaminoso um acto qualquer. Entretanto, tivestes um trabalho inútil, o que é muito para sentir, dada a importância da vossa missão. Mas não falemos mais disso…. Viestes para vos confessardes?
Sim, meu padre, disse Diana. Preciso de encontrar nas palavras e nos conselhos de Vossa Paternidade um conforto às dúvidas, que me amarguram a vida. Supliquei-vos que fosseis o meu director espiritual, porque a vossa fama de piedade, de saber, de austeridade… Obrigado, minha filha. A Companhia de Jesus foi instituída há poucos anos, mas o Senhor abençoou os nossos esforços, e hoje já dirigimos a consciência dos mais ilustres personagens católicos. De resto, os pecados que tendes confiado ao tribunal da penitência têm sido sempre tão leves, que na verdade, mesmo para um pobre padre ignorante como eu, e o frade inclinou-se com orgulhosa modéstia, não é difícil tarefa manter-vos sempre no caminho da salvação. Diana parecia hesitar.
Meu padre, disse ela afinal, tenho de fazer-vos confissão de algumas faltas mais graves; mas primeiro desejava saber…, se é certo…, como se diz... Eu concluo a vossa frase, filha. Desejais saber se é certo, como se diz, que os padres da Companhia de Jesus têm para com os pecadores uma indulgência muito superior à que costumam ter os outros confessores; se é verdade que eles têm os meios de diminuir aos olhos dos pecadores a gravidade das suas faltas, e de reconciliar com Deus, sem sacrifícios. É isto que desejais saber minha filha? É, meu padre..., ou pelo menos alguma coisa parecida. Pois bem, ficai então sabendo que esta nossa indulgência que os descrentes nos censuram como uma culpa gravíssima, é verdadeira. Diana fez um gesto de espanto. Oh! entendamo-nos!, disse com o seu frio sorriso o padre Lefèvre, nós somos tão severos como os outros, quando trata de culpas cometidas com pura maldade e só com a intenção de fazer mal; mas, quando julgamos os pecados, sabemos distinguir o elemento mau da intenção, das circunstâncias e dos impulsos exteriores; e quanto mais fortes são estes, tanto mais benévolos nós somos em perdoar a queda.
Não vos compreendo bem, meu padre, disse a jovem viúva, tornando-se pensativa. Eu vos apresento um exemplo, disse o jesuíta, envolvendo num olhar perscrutador toda a pessoa da condessa. Suponhamos que uma jovem, vendo passar um príncipe belo, valoroso galante, lhe corre ao encontro e se lhe lança aos pés, oferecendo-se o corpo; essa tal seria uma mulher perdida, uma cortesã dissoluta, uma condenada às penas eternas, que sofrem os que pecam por luxúria. E então?..., perguntou Diana em grande ânsia. Mas suponhamos agora que aquele príncipe, tanto mais pronto a irar-se, quanto mais poderoso, tinha resolvido fazer morrer o pai daquela jovem. Suponhamos que ela resgatou, à custa da própria honra, a vida de seu pai, e nesse caso converteu-se ela numa Judite, transformou-se numa heroína.
Padre! Padre!, que dizeis!, exclamou a condessa. Porventura conheceríeis vós alguma jovem, alguma mulher que se achasse nestas circunstâncias?, perguntou com absoluta tranquilidade o padre Lefèvre. Diana, completamente abatida, deixou pender os braços. Eles sabem tudo; murmurou, sabem tudo, e eu, como louca, quero competir com eles… Com estes aliados serei tudo, sem eles não serei nada… Oh! É preciso que eu me decida! E resolutamente, voltando-se para o jesuíta, disse-lhe: meu padre, tende a bondade de me ouvir de confissão. Estou pronto, minha filha, respondeu o jesuíta, disfarçando um sorriso de triunfo, que lhe despontava nos lábios». In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «A notícia do nascimento do herdeiro deve ter chegado aos ouvidos do papa em finais de 1171, a quem deve ter parecido um desafio às regras…»

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Infanta dona Urraca (1150?-1222?). Filha de Leão; filha de Afonso Henriques de Portugal; mulher do rei Fernando II de Leão; mãe do rei Afonso IX de Leão
«(…) Em Fevereiro, de regresso de Compostela, e sintomaticamente, o rei premiou os bons serviços prestados pelo seu fiel servidor Guido na Cúria romana, sem dúvida o assunto da dispensa dos reis. Tinham passado cinco anos desde o casamento, um tempo extraordinariamente longo, tratando-se de jovens e que tinham como objectivo principal da sua união conceberem um herdeiro. Terá a demora alguma coisa a ver com a consecução da dispensa? Nesse mesmo mês de Fevereiro os reis estão de novo em Leão, fazendo uma doação não menos significativa do que a anterior, se bem que desta vez o destinatário fosse uma ordem militar, que iria fazer história em toda a península. Ao conceder certos privilégios ao magistrum fratrum Cáceres, o primeiro mestre da activa e poderosa Ordem de Santiago, nascida em finais do ano anterior, os reis leoneses pretendiam favorecer o mais importante objectivo a que se tinha dedicado um grupo de cavaleiros cristãos, 1utar contra o infiel em defesa da cruz e amparar a religião, em particular os peregrinos que se deslocavam a Santiago.
Não parece que a já segura gravidez da rainha tenha feito diminuir o ritmo de movimento da corte. Durante os dois primeiros meses, os reis foram a Oviedo, depois a Lugo, e mais tarde desceram a ribeira do Tormes, fazendo as habituais doações a mosteiros e vassalos. Passada a primeira metade de Julho, contudo, a corte pára em Zamota, pois a rainha tinha chegado ao último mês da gravidez. E foi em Zamora que, a 15 de Agosto de 1171, Urraca deu à luz o seu primogénito, pelo que podemos deduzir que em Fevereiro de 1171, quando o rei fez a doação a mestre Guido, seu servidor para as questões pontifícias, a gravidez da rainha andaria pelo terceiro mês. O infante foi baptizado na igreja-mor, perto do alcácer, e recebeu o nome Afonso. Isso favorecia a diplomacia entre as famílias de ambos os cônjuges, pois era esse o nome, tanto do avô paterno, o defunto rei Afonso VII de Castela e Leão, como do materno, o rei Afonso Henriques de Portugal.
Não tinha ainda decorrido um mês sobre o feliz nascimento, quando a corte partiu para Castroverde, na fronteira com Castela, onde os reis leones se encontrariam com a família real castelhana. Partiram rumo a Leáo. Os reis, que desta vez levaram o filho, fizeram novas doações ao mestre da ordem de Santiago e aos cavaleiros da sua nova milícia, que sob a invocação do citado apóstolo prometeram lutar sempre contra os inimigos da Cruz. A notícia do nascimento do herdeiro deve ter chegado aos ouvidos do papa em finais de 1171, a quem deve ter parecido um desafio às regras em matéria matrimonial que estava a tentar impor. Foi então que, provavelmente, decidiu enviar à Península o cardeal Justino, para tentar resolver a questão. O cardeal acabaria por encontrar-se a sós com o rei, como se referiu, em Leão, em Maio de 1172. Se até então os reis não estivessem tranquilos a respeito do tema da dispensa, com a segurança que lhes tinha dado mestre Guido, dificilmente o teriam premiado em Fevereiro do ano anterior, quando se confirmou a notícia da gravidez da rainha.
Quando o rei tomou conhecimento do que o cardeal tinha a dizer-lhe da parte do Papa, terá talvez pensado, pela primeira vez, que não tinha sido correctamente informado pelo cardeal sobre a verdadeira forma de ser de Alexandre III: o primeiro Papa munido de uma completa formação jurídica. Nos seus doze anos de pontificado, tinha dado provas de um carácter resoluto e independente, e não tinha tido dúvidas em defrontar o próprio poder imperial. Inteirado o rei de Leão de que o Papa não parecia estar disposto a conceder a dispensa, como provavelmente lhe teria dito mestre Guido, talvez tivesse visto partir o cardeal Jacinto rumo a Portugal, depois de superada uma breve enfermidade, com uma sensação de alívio momentâneo. O rei lusitano também não podia exercer demasiada pressão neste tema, estando, como estava, dependente de uma resposta positiva do Papa a um assunto mais vital para o seu reino, o reconhecimento de vassalagem». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «Tê-lo-á acompanhado à sua terra de origem e lá terá permanecido até à recuperação do pai? Tê-lo-á feito com o acordo do marido?»

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Infanta dona Urraca (1150?-1222?). Filha de Leão; filha de Afonso Henriques de Portugal; mulher do rei Fernando II de Leão; mãe do rei Afonso IX de Leão
«(…) A 6 de Dezembro, o casal estava de novo em Salamanca. Ali celebraram, pela primeira vez juntos, os rituais da Natividade. Segundo os registos, estariam naquela cidade até 31 de Dezembro de 1165. É inútil tentar procurar nos documentos a notícia que mais poderia interessar, o anúncio da gravidez de Urraca, pois é assunto que as fontes medievais raramente referiam. A rainha estava já em idade de procriar e a qualquer momento podia ser dada a feliz nova. Em Abril de 1166, a vitória do marido sobre uma das jóias da coroa castelhana, Toledo, permitia-lhe, tão legítima como brevemente, intitular-se rainha, dessa cidade. Em 1167, vão de Compostela para Zamora, e dali de novo para Salamanca. Mas não há notícias de um herdeiro. No início de 1168, os esposos visitam de novo Compostela, onde fazem doação de cem maravedis ao mestre Mateus, que se ocupava das obras da catedral, dedicada ao apóstolo. Estavam prestes a cumprir-se os três anos obrigatórios de coabitação que a Igreja exigia aos cônjuges para que se pudesse dar início aos trâmites de anulação no caso de não haver descendência, prática a maioria das vezes solicitada pelos reis, pois quase sempre se considerava que era a mulher a responsável.
Seguramente, esta ausência de um filho, que garantia definitivamente a paz entre os reinos, preocupava Afonso Henriques. Entretanto, o rei de Portugal não tinha ficado de braços cruzados. Desde o ano da boda de Urraca, 1165, até já bem entrado o ano de 1168, Geraldo sem Pavor tinha-se ocupado, por conta do seu rei, da tomada aos muçulmanos de algumas praças da fronteira sul, como Évora, Trujillo e Serpa. Em 1169, dispôs-se a conquistar Badajoz, considerada a mais importante e estratégica, enquanto capital de um reino muçulmano. Geraldo conseguiu entrar em Badajoz no dia 8 de Maio. A notícia chegou rapidamente à corte leonesa. Os sarracenos derrotados pediam auxílio ao marido de Urraca, oferecendo em troca um pacto de vassalagem. O rei de Leão reuniu as suas tropas e partiu para Badajoz, com o objectivo de expulsar os portugueses. Em determinado momento da batalha, para evitar cair em mãos leonesas, que já cantavam vitória, o pai de Urraca fugiu a galope, mas com tão pouca sorte que, ao passar por uma porta da muralha, embateu num ferrolho e ficou ferido numa perna. Foi então feito prisioneiro.
Segundo a maioria dos cronistas leoneses, Afonso Henriques confessou a sua falta perante o genro e ofereceu o seu reino em troca da sua libertação. O marido de Urraca respondeu-lhe que bastava que lhe devolvesse o que era dele, isto é, Badajoz. Os actuais historiadores portugueses não deixam de assinalar a escassez de fontes lusitanas da época a respeito do que então se denominou o infortúnio de Badajoz. Segundo a documentação lusitana de então, o rei Afonso Henriques passou os meses de Setembro a Dezembro seguintes nas termas de Lafões, (actual termas de S. Pedro do Sul??) a recuperar de ferimentos que lhe deixariam sequelas físicas e morais para o resto da vida. Essas fontes referem Urraca, pela primeira vez desde o seu matrimónio com Fernando, como subscritora de documentos assinados pelo pai em Portugal. Tê-lo-á acompanhado à sua terra de origem e lá terá permanecido até à recuperação do pai? Tê-lo-á feito com o acordo do marido?
O amor filial das rainhas medievais não era incompatível com uma mais que realista compreensão dos conflitos, que não só se produziam contra os infiéis como muitas vezes colocavam frente a frente parentes muito chegados. Em duas actas sucessivas elaboradas em 1169, a rainha surge-nos na documentação junto do marido. Mas voltamos a encontrá-la, em Dezembro desse ano, em Ciudad Rodrigo, ao lado de Fernando. Teria ido passar o Natal com ele? A julgar pelas notícias que chegaram ao reino leonês da fronteira sul, o pai de Urraca tinha recuperado rapidamente. É possível que Afonso Henriques não voltasse a ser o mesmo depois do infortúnio, mas com a ajuda de Geraldo sem Pavor tinha voltado a pensar na reconquista de Badajoz, agora em mãos dos almóadas, se bem que como tributários de Leão. Os portugueses, liderados por Geraldo, conseguiram apoderar-se de novo da cidade, mas uma vez mais foi uma posse fugaz, pois o rei leonês voltou a ir em defesa dos muçulmanos. Em troca, o califa enviou-lhe uma série de presentes, entre os quais um valiosíssimo manto púrpura recamado a pedras preciosas. O rei leonês partiu para Ciudad Rodrigo, a caminho de Alcântara. Ali, o casal real voltou a encontrar-se, provavelmente para assistirem juntos às celebrações do Ano Novo. A rainha deu então ao marido um presente mais desejado que o dos infiéis: a notícia de que estava grávida». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «Sugeriu-se que naquela posição os reis pedem misericórdia a Cristo pelos seus pecados. Poderá considerar-se uma expressão pública de expiação pelo facto de terem casado sem dispensa papal?»

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Infanta dona Urraca (1150?-1222?). Filha de Leão; filha de Afonso Henriques de Portugal; mulher do rei Fernando II de Leão; mãe do rei Afonso IX de Leão
«(…) Fernando II de Leão deu-se então conta de que não estava em condições de combater em duas frentes simultaneamente, por um lado Castela e por outro as terras galegas. O resultado foi concertar um novo encontro com o rei português. A 30 de Abril de 1165, Fernando e Afonso reuniram-se sobre o Lérez na Ponte Velha [actual Pontevedra] e ambos se mostraram dispostos a acordar numa verdadeira e mútua paz entre eles e os seus reinos. É então que a infanta Urraca deixa de ser pela primeira vez apenas um nome nos documentos, e se converte em parte essencial de um facto histórico de importância transcendente, pois por meio da aliança de Pontevedra o pai concerta de forma clara o seu matrimónio com o rei de Leão. A infanta andaria então pelos seus quinze anos, enquanto o seu futuro marido andaria pelos vinte e oito. A descrição que é feita do casal no momento do casamento é um tanto hagiográfica. O rei, forte e guerreiro, excelente cavaleiro, generoso. A rainha, pacífica e piedosa. Mas o tópico não tem necessariamente de ser falso.
Quanto às características do monarca, talvez seja interessante assinalar que Fernando era conhecido pelos chefes muçulmanos por o baboso. Seja como for, não é essa a questão mais importante em relação aos reis, mas outra: por que casaram sem disporem antes da dispensa papal? Devemos recordar que a proibição de contrair matrimónio entre parentes ia na altura até ao sétimo grau, portanto era obrigatório que houvesse uma dispensa papal para que fosse válido. Que razão levou a que essa dispensa não fosse solicitada de antemão? Fica a impressão de que a boda de Urraca foi celebrada com demasiada celeridade, provavelmente devido à necessidade política de ambas as partes, o monarca de Portugal e o de Leão. Conseguir a paz entre os reinos terá parecido a ambos ser mais urgente do que garantir um trâmite que supostamente não apresentaria qualquer dificuldade.
Curiosamente, o tema que poderia ser motivo de discussão entre as partes do matrimónio, o do dote, parece ter-se resolvido sem problemas. O rei outorgava à infanta várias vilas como arras, entre as quais se destacava a de Gema, perto de Zamora, e a citada Castro Toraf. A partir da sua boda com Fernando, e nos seis anos seguintes, os únicos dados certos sobre Urraca são os que se retiram dos registos que têm o seu nome a seguir ao do rei, nos sucessivos actos de doação de bens e privilégios que a coroa ia outorgando a diversos mosteiros, ordens religiosas ou particulares. Segundo esses diplomas, a primeira vila em que se encontra o casal já unido pelo matrimónio é Valdeorras, então chamada Jardim do Poente, onde estavam a 16 de Junho de 1165.
Naquela época, as cortes peninsulares eram sempre itinerantes, e uma rainha tinha de se acostumar a movimentar-se de um local para outro, levando consigo os poucos elementos de comodidade que compunham o seu enxoval. Os limites da cidade de Leão estavam a expandir-se paru lá da robusta e maltratada muralha romana. Como cristã e piedosa rainha que era, segundo a tradição uma das primeiras visitas que terá feito foi ao Hospital de São Marcos, que se dedicava principalmente a dar hospedagem a peregrinos. Sendo assim, terá orado na vizinha igreja de Santo Isidoro, que continha uma forte torre e um antigo e venerável cemitério real, e cujas abóbadas Fernando mandaria mais tarde decorar com frescos. Numa delas, aparecem os monarcas de joelhos, em oração, sob uma cruz, segundo o esquema tradicional utilizado pelos artistas para dar testemunho dos patronos da obra. Na sua execução primitiva, a pintura comove pelo seu realismo. Sugeriu-se que naquela posição os reis pedem misericórdia a Cristo pelos seus pecados. Poderá considerar-se uma expressão pública de expiação pelo facto de terem casado sem dispensa papal?
Durante a ausência do monarca para as bodas, os Lara, linhagem nobiliárquica que detinha então o domínio sobre o rei-menino de Castela, aproveitaram para atacar várias povoações da fronteira leonesa. Devido a isso, Fernando esteve pouco tempo em Leão, e viu-se obrigado a penetrar no reino do sobrinho e assediar Medina del Río Seco. Não se sabe se a rainha o acompanhou nesta missão». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

Infantas de Portugal. Rainhas em Espanha. Marsilio Cassotti. «… chamada palavras de futuro, isto é, os esponsais, era válida a partir dos sete anos; só para a segunda, ou palavras de presente…»

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Infanta dona Urraca (1150?-1222?). Filha de Leão; filha de Afonso Henriques de Portugal; mulher do rei Fernando II de Leão; mãe do rei Afonso IX de Leão
«(…) Em 1143, Afonso Henriques firmara com o agora defunto monarca um acordo, por meio do qual ele o reconhecia como rei de Portugal. Inteirado da sua decisão, fez uma visita ao novo soberano leonês. Segundo os historiadores, o motivo principal foi falar das fronteiras, em especial a galega de Toroño, sobre as quais o monarca português tinha alguma jurisdição. Terá sido então adiantado nessas conversações o nome de Urraca como possível mulher do jovem rei? Fernando acabara de fazer vinte anos, e parece que até ao momento não se falara do seu casamento. Agora convertido em soberano, e numa idade mais do que respeitável para contrair matrimónio, por que não haveria o rei de Portugal de tentar a possibilidade de casar a sua filha primogénita? É certo que na altura Urraca tinha apenas sete anos, mas isso não constituía impedimento da realização de negociações para o seu futuro matrimónio. Segundo as regras da época, o matrimónio católico constava de duas partes; a primeira, chamada palavras de futuro, isto é, os esponsais, era válida a partir dos sete anos; só para a segunda, ou palavras de presente era necessário que a esposa tivesse cumprido doze anos.
Fosse como fosse, poucos meses depois do encontro, ou seja, em Maio de 1158, Fernando reuniu-se em Sahagún com o seu irmão, Sancho, rei de Castela, para tentar acabar com as pretensões reais daquele que viria a ser seu sogro. E ali assinaram um tratado que tornava letra morta os de 1143 de Afonso Henriques com Afonso VII de Castela e Leão, que mencionámos antes. A má nova não tardou a chegar à corte em Coimbra. Contudo, a morte prematura de Sancho de Castela pareceu reduzir o perigo. Os interesses de Fernando II de Leão a respeito de Portugal sofreram necessariamente uma demora, não só porque lhe faltou o seu irmão e principal aliado, mas também porque a instabilidade do reino castelhano, devido a que o novo rei não atingira ainda a maioridade, lhe abria perspectivas de ingerência mais apetecíveis. A conjuntura foi rapidamente aproveitada pelo oportuno monarca português para atacar a parte mais vulnerável da fronteira com o reino leonês, isto é, a Galiza e ocupar a região de Toroño, sobre a qual podia fazer valer certos direitos.
A demonstração de força por parte dos portugueses obrigou Fernando a deixar de momento a meseta castelhana, onde se encontrava, e a dirigir-se para norte. O bispo de Braga, tradicional aliado do rei português, serviu como mediador para que os diplomatas fernandinos começassem a preparar conversações com Afonso Henriques. Essas conversações entre os dois soberanos tiveram lugar em Cabrera, em Novembro de 1158. Escreveu-se que apenas assentaram num diferimento das questões suscitadas e numa delimitação provisória das fronteiras. O rei de Portugal aproveitou a ocasião para iniciar negociações com o conde de Barcelona, ali presente, com a ideia de casar a sua filha Mafalda com o herdeiro do catalão. De qualquer forma, essa aliança só seria selada a 30 de Janeiro de 1160. Afonso Henriques pretendia, com esse matrimónio, garantir o apoio de fora da órbita castelhano-leonesa. A partir de então, Fernando de Leão desencadeou uma reacção aos planos matrimoniais do monarca português, que deu lugar a uma verdadeira estratégia de tensão.
A primeira provocação, leonesa consistiu no repovoamento, em 1161, da então aldeia de Ciudad Rodrigo, situada num ponto estratégico do caminho que ia da leonesa Salamanca à portuguesa Coimbra. Afonso Henriques respondeu tomando Salamanca em l163, onde chegou a contar com a ajuda dos seus habitantes. Mas a posse foi efêmera, ao contrário do que sucedeu com os seus ataques com êxito à região galega, que iriam pressagiar a conquista de Compostela». In Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas de Espanha, tradução de Francisco Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-396-6.

Cortesia ELivros/JDACT

Emma. Jane Austen. «Certa manhã, enquanto estava sentada pensando exactamente que hoje seria uma destas noites, chegou um bilhete de Mrs. Goddard, solicitando permissão…»

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«(…) Houve um estranho rumor em Highbury, dizendo que todos os filhos dos Perrys foram vistos com um pedaço do bolo de casamento de Mrs. Weston nas mãos: mas Mr.  Woodhouse jamais acreditou nisso.

Mr. Woodhouse apreciava a sociedade à sua própria maneira. Gostava muito que os amigos viessem vê-lo; e devido a vários factores, desde sua longa residência em Hartfield e sua natureza afável, e também por sua fortuna, sua casa e sua filha, podia comandar em grande parte as visitas de seu pequeno círculo de amigos conforme seus desejos. Não tinha muito contacto com nenhuma família fora deste círculo. Seu horror às horas tardias e aos grandes jantares festivos, tornava-o inadequado para qualquer conhecido que não pudesse visitá-lo nos seus próprios termos. Para sua felicidade, Highbury compreendia muitas propriedades, incluindo Randalls na mesma paróquia e Donwell Abbey na paróquia vizinha, a casa de Mr. Knightley. Várias vezes, devido à persuasão de Emma, ele convidava alguns dos melhores amigos para jantar, mas preferia mesmo as festas nocturnas. E, a menos que estivesse indisposto para receber visitas, era raro haver uma noite na semana em que Emma não organizasse uma mesa de jogos para ele. Mr. Knightley e os Westons o visitavam devido à sua verdadeira afeição e ao conhecimento de longa data. Quanto a Mr. Elton, um jovem que vivia sozinho sem apreciar isso, não corria o risco de ser mantido longe do privilégio de trocar qualquer noite livre da sua vazia solidão pela elegância e sociabilidade da sala de estar de Mr. Woodhouse, e os sorrisos da sua encantadora filha. Depois deste, vinha um segundo grupo. Entre os mais assíduos estavam Mrs. e Miss Bates e também Mrs. Goddard, três senhoras quase sempre à disposição para um convite de Hartfield, e que eram buscadas e levadas em casa com tanta frequência, que Mr. Woodhouse não considerava isso uma inconveniência, nem para James, nem para os cavalos. Se isso acontecesse apenas uma vez por ano seria motivo de queixa.
Mrs. Bates, a viúva de um antigo vigário de Highbury, era uma senhora bastante idosa, que já deixara quase tudo para trás, menos o chá e quadrilha. Vivia de forma bastante modesta, com sua única filha solteira, e era tratada com todo o respeito e consideração que merecia uma velha e inofensiva dama vivendo em condições tão desfavoráveis. Sua filha desfrutava do mais incomum grau de popularidade para uma mulher que não era nem jovem, nem bonita, nem rica e nem casada. Miss Bates se encontrava na pior situação do mundo para obter a boa vontade das pessoas; não possuía nenhuma superioridade intelectual para compensar, nem para intimidar aqueles que poderiam odiá-la, fazendo com que a respeitassem. Nunca ostentara nem beleza nem inteligência. Sua juventude se passou sem distinção alguma, e na meia idade devotava-se ao cuidado de uma mãe doente, e ao esforço de fazer com que o seu pequeno rendimento durasse o mais possível. E, no entanto, era uma pessoa feliz, alguém que todos mencionavam com palavras gentis. Era sua universal boa vontade e temperamento alegre que produziam tais maravilhas. Ela gostava de todos, interessava-se pela felicidade de todos, percebia logo os méritos das pessoas; considerava-se a mais afortunada das criaturas, e rodeada de bênçãos por ter uma mãe excelente, tantos bons amigos e vizinhos, e um lar onde nada faltava. Sua natureza simples e alegre, seu temperamento contente e grato era uma recomendação para todo mundo e uma fonte de alegria para ela mesma. Era óptima para conversar sobre assuntos banais, falava sempre sobre trivialidades e mexericos inofensivos, o que agradava bastante a Mr. Woodhouse.
Mrs. Goddard era a professora de uma escola, não de um seminário, ou de um estabelecimento, ou qualquer lugar que fosse denominado por longas e refinadas frases sem sentido, para combinar conhecimentos liberais com elegante moralismo, em novos princípios e novos métodos, e onde jovens ricas podiam ser despojadas de sua saúde em tributo à vaidade, mas um verdadeiro, honesto e antiquado internato, onde uma quantidade razoável de conhecimentos era vendida a preço razoável, e onde as meninas podiam ser mandadas para ficar fora do caminho dos pais, e se depararem com uma educação moderada, sem nenhum perigo de se tornarem prodígios. A escola de Mrs. Goddard tinha uma elevada reputação, e bastante merecida; para Highbury era considerado um lugar particularmente saudável: possuía uma casa e jardins amplos, fornecia comida saudável às crianças, deixava-as correr bastante ao ar livre durante o verão, e no inverno curava suas frieiras com as próprias mãos. Não era de se estranhar que uma fila de vinte jovens casais caminhasse atrás dela para a igreja. Era uma mulher do tipo simples e maternal, que trabalhara duro na juventude, e acreditava ter direito a uma folga ocasional para uma visita na hora do chá. Devia muito à bondade de Mr. Woodhouse anos atrás, portanto, sempre que podia, atendia ao seu chamado, deixando sua organizada sala de sala de estar e seus trabalhos de agulha para ganhar ou perder algumas poucas moedas de meio xelim diante da sua lareira em Hartfield.
Estas eram as damas que Emma podia reunir com frequência, e sentia-se feliz por agradar ao pai, apesar de que, no que lhe dizia respeito, não havia remédio para a ausência de Mrs. Weston. Ficava contente por ver o pai tranquilo e bastante satisfeita por planear as coisas tão bem. A pacata conversa das três senhoras, no entanto, antecipava uma daquelas longas noites sem atractivos que ela tanto temia.
Certa manhã, enquanto estava sentada pensando exactamente que hoje seria uma destas noites, chegou um bilhete de Mrs. Goddard, solicitando permissão, nos termos mais respeitosos, para trazer consigo Miss Smith. Era um pedido bem-vindo, pois Miss Smith era uma moça de dezassete anos, a quem Emma conhecia muito bem de vista, e que há muito tinha interesse em conhecer pessoalmente, por conta de sua beleza. Um gracioso convite foi enviado, e a bela dona da mansão deixou de temer o serão daquela noite. Harriet Smith era a filha natural de alguém. Alguém a colocara, vários anos atrás, na escola de Mrs. Goddard, e esse alguém mais tarde elevou-a da condição de estudante mantida por uma bolsa de estudos à de pensionista, vivendo com a directora da escola. Isso era tudo que se sabia da história dela. Não tinha amigos conhecidos, a não ser os que fizera em Highbury, e agora acabava de retornar de uma longa visita ao campo, como hóspede de algumas jovens damas que foram suas colegas na escola.
Era uma moça muito bonita, de uma beleza que Emma admirava particularmente. Era pequena, roliça e de tez clara, com uma pele viçosa, olhos azuis, cabelos loiros, feições regulares e um ar de grande doçura. Antes de a noite terminar Emma estava tão contente com seus modos quanto com sua aparência, e bastante determinada a continuar a amizade». In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Emma. Jane Austen. «… mais do que satisfação, sua prazerosa alegria, era tão aparente que Emma, apesar de conhecer bem o pai, às vezes era tomada de surpresa por ele ser ainda capaz de lamentar…»

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«(…) Mr. Weston nunca fora um homem infeliz, seu próprio temperamento evitara isso, mesmo durante o seu primeiro casamento. Mas o segundo iria demonstrar-lhe como podia ser prazeroso ter uma companheira de bom senso e verdadeiramente amável, e dar-lhe a mais agradável prova de que era melhor escolher do que ser escolhido, despertar gratidão do que senti-la. Sua escolha devia agradar apenas a ele mesmo, pois tinha a sua própria fortuna. Quanto a Frank, havia sido tacitamente criado como herdeiro do tio, e tornou-se tão natural sua adopção a ponto dele assumir o sobrenome Churchill quando atingiu a maioridade. Era bastante provável que nunca precisasse do auxílio financeiro do pai, o qual estava bastante tranquilo quanto a isso. A tia era uma mulher caprichosa e governava o marido totalmente. Mas não era da natureza de Mr. Weston acreditar que um capricho qualquer pudesse afectar alguém tão querido e, como pensava, tão merecedor do afecto que lhe dedicavam. Via o filho uma vez por ano, em Londres, e tinha orgulho dele; e sua afectuosa descrição do filho como sendo um belo rapaz fez com que Highbury sentisse certo orgulho dele também. Era considerado como pertencente à comunidade, a ponto de seus méritos e perspectivas serem alvo do interesse comum.
Mr. Frank Churchill era um dos orgulhos de Highbury, e todos tinham grande curiosidade em conhecê-lo, embora a recíproca não fosse verdadeira, pois ele nunca estivera lá em toda a sua vida. Falava-se muito que ele viria visitar o pai, mas isso nunca acontecera. Agora, com o casamento do pai, era em geral aceita que, como demonstração de atenção, a visita deveria acontecer. Não havia uma só voz discordante, nem quando Mrs. Perry tomou chá com Mrs. e Miss Bates, nem quando Mrs. e Miss Bates retribuíram a visita de Mrs. Perry. Agora já era tempo de Mr. Frank Churchill estar entre eles; e as esperanças se renovaram quando se soube que ele escrevera uma carta para a madrasta cumprimentando pelo casamento. Durante alguns dias, cada visita matinal em Highbury incluía alguma menção à bela carta que Mrs. Weston tinha recebido. Suponho que tenha ouvido falar da bela carta que Mr. Frank Churchill escreveu para Mrs. Weston. Dizem que é uma carta belíssima, de facto. Foi Mr. Woodhouse que me contou. Mr. Woodhouse viu a carta, e diz que nunca viu uma carta tão bonita em toda a sua vida.
A carta foi bastante apreciada, na verdade. Mrs. Weston, é claro, havia formado uma impressão muito favorável do jovem; e tão agradável gentileza era uma prova irresistível de seu grande bom senso e a mais bem vinda adição a todas as congratulações que já havia recebido pelo casamento. Sentiu-se como a mais afortunada das mulheres, e vivera o bastante para saber quão afortunada devia se considerar. Seu único pesar era a separação parcial de seus amigos, cuja amizade para com ela nunca esfriara, e que suportavam mal sua partida.
Sabia que de vez em quando sentiriam a sua falta, e não podia pensar sem tristeza em Emma perdendo um simples prazer, ou tendo algum aborrecimento por falta da sua companhia. Mas Emma não era fraca de carácter, e estava à altura da situação muito mais do que a maioria das moças estaria; além disso, tinha bom senso, energia e ânimo, que deviam ajudá-la a suportar bem e felizmente suas pequenas dificuldades e privações. E depois, havia o conforto da pequena distância entre Randalls e Hartfield, uma caminhada conveniente para mulheres sozinhas, e da disposição e condições de Mr. Weston, que não haveria nenhum obstáculo para que passassem metade das noites da semana juntos na estação que se aproximava. A situação de Mrs. Weston era, de forma geral, motivo para muitas horas de gratidão ao marido e poucos momentos de pesar. Sua satisfação, mais do que satisfação, sua prazerosa alegria, era tão aparente que Emma, apesar de conhecer bem o pai, às vezes era tomada de surpresa por ele ser ainda capaz de lamentar a pobre Miss Taylor quando a deixavam em Randalls, cercada de todos os confortos domésticos, ou quando a via partir à noite, assistida pelo atencioso marido, na sua própria carruagem. Mas ela nunca partiu sem que Mr. Woodhouse desse um pequeno suspiro e dissesse Ah, pobre Miss Taylor! Ela gostaria tanto de ficar!
Não havia como recuperar Miss Taylor, nem era provável que Mr. Woodhouse parasse de lamentá-la, mas poucas semanas mais lhe trouxeram algum alívio. Os cumprimentos dos vizinhos haviam cessado e ele não era mais obrigado a receber felicitações por um evento tão triste; e o bolo de casamento, que havia sido motivo de grande angústia para ele, fora totalmente comido. Seu estômago não podia suportar alimentos pesados, e ele não podia acreditar que as outras pessoas fossem diferentes dele. O que era prejudicial para ele era considerado impróprio para todo mundo, e ele havia seriamente tentado dissuadi-los de fazer o bolo de casamento; e quando não obteve sucesso, tentou seriamente impedir todo mundo de comê-lo. Deu-se ao trabalho de consultar Mr. Perry, o farmacêutico, sobre o assunto. Mr. Perry era um homem inteligente e cavalheiresco, cujas frequentes visitas eram um dos consolos da vida de Mr. Woodhouse; quando consultado, só pode reconhecer (apesar de parecer um tanto contra a opinião geral) que bolo de casamento poderia com certeza fazer mal a muitos, talvez à maioria das pessoas, a menos que fosse consumido moderadamente. Com tal opinião, que confirmava a sua, Mr. Woodhouse tentava influenciar cada visitante dos recém-casados, mas mesmo assim o bolo foi comido; e não houve descanso para os seus nervos benevolentes até que todo o bolo acabasse». In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

Marquesa de Alorna. Maria João Lopo de Carvalho. «Sim, minha senhora, a cozinha está de pé, e a despensa também. Vamos, menina Leonor, vamos menina Maria, deixem a mãezinha sossegar, vamos!»

Cortesia de wikipedia e jdact

Palácio do Limoeiro. Lisboa, 1 de Novembro de 1755
«(…) Senhora dona Leonor, nem sei como o dizer a Vossa Excelência, começou Vicente, gaguejando e torcendo o chapéu entre as mãos. Dá-se que…, acabou um almocreve de aqui passar, dizendo que, na Paróquia dos Mártires, ruiu o Convento de São Francisco e que o palácio do marquês de Marialva e o de Sua Excelência o marquês de Távora tiveram a mesma triste sorte…Todas as casas da Rua da Boa Viagem até aos Mártires e para diante ruíram… Minha senhora, há notícia de que desapareceram os palácios do duque de Lafões, do duque de Aveiro, dos condes do Vimieiro…, e o dos senhores condes de Atouguia… De minha irmã Mariana? De meus queridos pais? Deus Nosso Senhor nos acuda! Vicente confirmou, acenando com a cabeça e pedindo para se retirar. Vicente!, suplicou dona Leonor, transtornada, preciso de saber de minha mãe e de minha irmã! Manda alguém! Vai, vai já, traz-me novas depressa! Pois sim, Senhora dona Leonor, mas não há modo de passar para lá…, ruiu tudo aqui à volta, não há caminhos, nem lugares, tem de se subir pelos montes de escombros e voltar a descer, há fumo por todo o lado, há labaredas acesas… Vai! Aparelha um cavalo e vai! Sem mais demoras!, gritou dona Leonor, desfeita em lágrimas. Não me digas se é fácil ou difícil, quero saber de minha mãe… Faz o que te digo!
Ao ver Vicente retirar-se com o medo estampado no olhar, dona Leonor entregou Pedro à ama, ajoelhou-se no genuflexório e, escondendo a cara entre as mãos, chorou de mágoa, de angústia, de desespero. Leonor sentou-se à sua beira, fingindo-se entretida com a cauda do saiote, e, sem dizer uma só palavra, ali ficou, cuidando poder aliviar-lhe a dor. Talvez que a sua proximidade trouxesse à mãe alguma esperança, lhe desse algum conforto. Dona Leonor!, interrompeu Feliciana, abeirando-se da sua senhora, chegou notícia de que o Paço da Ribeira está a arder…, mas El-Rei José I e Sua Alteza Sereníssima, a Rainha dona Mariana Vitória, estão de saúde, pela graça de Deus, posto que desde ontem se encontravam no Paço de Belém, com toda a família real. Diz que os animais que estavam por lá, no parque dos jardins reais, fugiram: pássaros de além-mar, macacos, pumas, leões! As jaulas cederam, foi o que nos chegou. Leonor levantou-se de um pulo e exclamou com os olhos a brilhar: foi o que a mana ouviu, um leão a rugir! Não foi, Maria? Onde é que ele está, Feliciana? Ora, menina Leonor, lá está a menina com a sua imaginação! Descanse que os criados de El-Rei já mandaram matar as feras que escaparam! Leonor não se deixou convencer pelas palavras de Feliciana; se Maria tinha ouvido um leão a rugir, era porque um deles andava por ali a rondar. Agarrou-se com força à boneca Perpétua. Sabia-se protegida pela mãe e pelos criados, no entanto, esforçou-se por não adormecer: as feras tinham por costume atacar à noite… E quem lhe garantia que não vinha aí outra onda gigante? Pela graça de Deus, não me digas mais nada, Feliciana!, pediu dona Leonor. Dá a ceia às meninas, e a ama que cuide de Pedro, que eu fico aqui a rezar até que o Senhor dom João regresse e até que volte o Vicente com novas de minha mãe e de minha irmã Mariana.
Sim, minha senhora, a cozinha está de pé, e a despensa também. Vamos, menina Leonor, vamos menina Maria, deixem a mãezinha sossegar, vamos! As duas crianças seguiram Feliciana pelo pátio do palácio, dando a mão uma à outra. Leonor lembrou-se da boneca, que tinha ficado esquecida junto ao genuflexório, deu uma corrida, apanhou-a e voltou a segurar na mão de Maria. Ao sair da capela, olhou para trás, por cima do ombro: a mãe, ajoelhada e julgando-se sozinha, deixava agora que os violentos soluços que calara lhe sacudissem o corpo todo.

Já a noite ia alta quando dom João e Francisco José Castro chegaram ao que restava do Palácio do Limoeiro. Encontraram a família e os criados reunidos na capela. Dona Leonor segurava no terço. Tinha o rosto transfigurado pelas lágrimas e pela angústia daquele rosário de horas a que já perdera a conta. João! Senhor meu marido, diz-me, diz-me depressa! Faz tempo que Vicente saiu daqui e ainda não voltou! Nada sei de minha irmã Mariana, nem de meus pais…, suplicou, levantando-se e segurando as mãos do marido. Conta-me a verdade, não me escondas nada… João estreitou a mulher num abraço comovido: sossega, Leonor, estão todos de saúde, com a graça de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo. Dormem?, perguntou, olhando para as filhas, que repousavam em mantas, no chão, com a cabeça apoiada no colo das criadas. Dormem, sim. A Leonorzita estava muito inquieta, não parava de fazer perguntas. O que lhe respondo? O que dizer de toda esta tragédia? Não é tempo de respostas, senhora minha esposa, não é tempo de respostas… Deixando-se cair num dos bancos da capela, dom João sacudiu a fuligem das botas e da casaca. Depois, recuperando forças, desabafou: acabei de ver a maior desgraça que em vida me foi dado presenciar. Por todo o lado há mortos, feridos aos milhares, Leonor. Lisboa era aqui mas já não há mais Lisboa, acredita! Lisboa desabou…, só me traz à memória o dia do Juízo Final!» In Maria Lopo de Carvalho, Marquesa de Alorna, Oficina do Livro, 2011, ISBN 978-989-555-554-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Marquesa de Alorna. Maria João Lopo de Carvalho. «Não foi uma, foram três ondas gigantes!, emendou Vicente, erguendo três dedos sujos frente aos olhos de dona Leonor. As pessoas estavam à espera do barco e…»

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Leonor. 1755-1770
«(…) Ruiu a prisão, ruiu a Prisão do Limoeiro!, exclamou um dos criados. Leonor escondeu a cara no regaço da mãe, sobressaltada com aquele fim de tudo o que conhecia. Chorava convulsivamente, com medo de não voltar a ver o pai. O espectáculo a que todos assistiram naquela manhã soalheira de 1 de Novembro de 1755, no dia seguinte ao quinto aniversário de Leonor, fora a maior catástrofe que Portugal jamais vivera. Gente sem pernas, gemendo de dor por baixo dos destroços das casas, pais à procura dos filhos, filhos sem pais, gritos de agonia, pedidos de socorro e de clemência divina. Lisboa reduzida a escombros.
Nota: no século XVIII, o almoço era ao acordar; o jantar entre o meio-dia e as 15 horas; a merenda a meio da tarde; e a ceia entre as 19 horas e as 23 horas.

Palácio do Limoeiro. Lisboa, 1 de Novembro de 1755
Refugiados na capela do palácio, que por milagre resistira à catástrofe, Leonor, Maria e Pedro tremiam de medo e de cansaço. Dona Leonor, Feliciana e as outras criadas tentavam acalmá-los, no meio da azáfama de gente que entrava e saía da capela, trazendo notícias da cidade devastada e da impotência humana perante a ira divina que se abatia sobre Lisboa. Veio uma onda do rio com mais de vinte pés, Senhora Dona Leonor!, contava o criado Vicente, desesperado, coberto de caliça. Devastou tudo por onde passou, minha senhora, uma parede de água que engoliu casas, carruagens, animais, gente, árvores… Diz que até há barcos no Rossio, interrompeu o moço Manuel João. Foi uma onda, uma onda que trouxe a morte com ela, e quando o rio a voltou a engolir, a água ia escura de lama e de cadáveres! Não foi uma, foram três ondas gigantes!, emendou Vicente, erguendo três dedos sujos frente aos olhos de dona Leonor. As pessoas estavam à espera do barco e…, desapareceram todas, sorvidas pela maré… Dizem que do Cais de Pedra, nem vestígio… E fogo, fogo por todo o lado, minha senhora, fogo que o vento empurra, Lisboa está a arder!
Quis Deus mandar-nos três catástrofes por sermos pecadores: o terramoto, o maremoto e o fogo! Isto nos disse o senhor abade que passava além…, e disse mais! Disse que o Hospital Real de Todos os Santos estava em chamas. A Igreja de São Vicente de Fora, a Patriarcal, a Igreja de São Nicolau, de São Paulo, o Palácio da Inquisição… parece que, por ora, só a Sé escapou! Pára, Vicente, por favor, pára! Não quero saber! interrompeu dona Leonor, tapando os ouvidos com as mãos. Não queria que as filhas o ouvissem, nem que entendessem a dimensão da tragédia, da inexplicável catástrofe que assolava Lisboa. Por que razão não os poupava Deus a tão triste destino? E os santos, que naquele dia se comemoravam, por que não olhavam por eles? Onde estava Santa Leonor? São Pedro, que fazia? E Maria, Virgem Santísssima? E São João Evangelista, que anunciara a luz nas trevas? Com um aceno, pediu à ama que se aproximasse e, pegando em Pedro ao colo, rezou. Rezou tal como naquele mesmo local rezara, havia pouco mais de um ano, no dia do baptizado do rapaz. Rezou, embalando o filho, numa súplica repetida, para que o pesadelo terminasse, para que o marido voltasse, para que a Senhora dos Aflitos lhe perpetuasse a companhia dos filhos, de seus amados pais, de seus queridos irmãos… De olhos esbugalhados, Leonor e Maria não julgavam possível que uma onda do mar, daquele mar povoado de piratas e de estrelas e de cavalos-marinhos de que Vicente tantas vezes lhes falara, pudesse ter chegado ao Rossio. E muito menos que tivesse devorado a cidade toda. Uma onda, minha mãe?, perguntou Leonor, a arder em espanto. Uma onda! Está a ver, mana? Uma onda gigante!!! E com gestos simulava o que, no seu entender, significava uma onda gigante.
Nunca tal tinha ouvido, Leonorzita!, respondeu-lhe a mãe. Mas não se inquietem, o pai deve estar a chegar… Isto, isto…, vai já passar, minhas queridas filhas, vamos rezar, vamos continuar a rezar para que Deus Nosso Senhor e Santa Leonor tenham piedade de nós. Sempre com o filho ao colo, como que a querer protegê-lo do futuro, dona Leonor voltou-se para Vicente: novas de minha mãe, alguém mas traz?» In Maria Lopo de Carvalho, Marquesa de Alorna, Oficina do Livro, 2011, ISBN 978-989-555-554-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Marquesa de Alorna. Maria João Lopo de Carvalho. «Correram apavoradas para debaixo da cama, gritando por alguém que lhes acudisse. Passado um instante, que lhes pareceu eterno, o pai e um criado entraram no quarto…»

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Leonor. 1755-1770
«(…) Foi nesse preciso momento que um estranho rugido vindo da terra tomou conta de tudo. Maria largou a chávena que tinha nas mãos, e o bule e a leiteira, parecendo dotados de vida própria, caíram de repente do toucador, desfazendo-se em cacos no chão. Que foi, mana? O que é isto?! O serviço partiu-se! Que barulho faz a carruagem de nosso pai! Ou será El-Rei em mil coches?, gritou Leonor, já aterrorizada e sem perceber o que se estava a passar. Mãe…, Feliciana! Tenho medo!, gritou Maria, escondendo-se atrás da porta. Enquanto Leonor hesitava entre salvar o resto do serviço e acudir à irmã, o toucador tombou inteiro à sua frente e o espelho estilhaçou-se estrondosamente no chão. A pequena deu um pulo para trás e começou a chorar. Leões!, gritou Maria, são leões, estão zangados, a rugir! Quero a mãe! Abraçadas uma à outra, Leonor e Maria sentiram o chão a tremer, sacudindo os móveis de um lado para o outro. Correram apavoradas para debaixo da cama, gritando por alguém que lhes acudisse. Passado um instante, que lhes pareceu eterno, o pai e um criado entraram no quarto, esforçando-se por manter o equilíbrio. Com movimentos vigorosos e rápidos conseguiram, por fim, arrancá-las do abrigo improvisado. O que foi, meu pai, o que foi?, perguntaram em coro, entre lágrimas de pânico e gritos descontrolados. Sem tempo para lhes responder, o pai João pegou em Leonor, que salvara a boneca Perpétua, enquanto Francisco José Castro, o mais antigo empregado da Casa de Alorna, agarrava em Maria. Vamos daqui, depressa! disse o pai João. Lá para fora! Aos tropeções pela escada abaixo, alcançaram a custo o pátio do palácio.
Pousando Leonor no chão, dom João exclamou a salvo!, e correu noutra direcção. Leonor tremia e Maria soluçava sem parar, agarrada à irmã. Tinham passado quatro longos minutos mas os brutais soluços da terra, que ora abrandavam ora se reavivavam, pareciam não querer parar de arremessar as coisas de um lado para o outro com uma intensidade alucinante. Os escudeiros, os lacaios, os cocheiros e os outros criados da Casa de Alorna já se encontravam no pátio. João contou-os: trinta e quatro, não faltava ninguém. Misericórdia! Misericórdia! Que Deus tenha piedade de nós!, gritava a ama, por entre o clamor geral, segurando Pedro junto ao peito. Estava aterrorizada. Dona Leonor apareceu finalmente por uma das portas laterais do palácio, vinha desarranjada, sem cabeleira e apenas de saiote por cima da camisa, correu a abraçar as filhas, tentando em vão acalmá-las. Já passou, Leonor, já passou, Leonorzita… Vamos, Maria, querida, rezem as duas para que Deus tenha piedade de nós! As duas meninas ajoelharam-se no chão do pátio e, unindo as mãos, rezaram com fervor. Leonor pedia a intercessão de sua madrinha, Nossa Senhora das Mercês, soluçando convulsivamente e suplicando-lhe que, de lá de cima, obrigasse Deus Pai a parar com aquele rugido medonho, vindo da terra, vindo do céu … assim na Terra como no Céu, repetia.
Descalça, agarrada à boneca, Leonor não entendia nada do que se estava a passar e sentia-se sufocar de medo. Onde há poucos minutos se erguiam as cocheiras do palácio, via agora crescer uma enorme nuvem de caliça. A fachada lateral desaparecera no pó, tal qual nas batalhas das praças da Índia, onde o avô Alorna fora vice-rei. Nem os tenebrosos rugidos da terra conseguiam abafar os gritos de dor e de súplica que se ouviam. E o pior estava para vir: ao relinchar nervoso dos cavalos e ao estardalhaço da carruagem que tombara no meio do pátio, seguiu-se um estrondo monumental: ruíra a ala norte do Palácio do Limoeiro. Minha mãe! Não quero mais, não quero mais!, gritava Leonor, refugiando-se no saiote da mãe e tapando a cara com as mãos. Estamos salvos!, clamou dom João. Não se afastem, o pátio é suficientemente amplo. Aqui ficam em segurança. E voltando-se para dois dos criados: vou chamar meu pai e partir para prestar auxílio a quem precise. Vocês vêm comigo, os outros ficam.
Ainda dom João não acabara de falar, já o chão recomeçara a tremer. O edifício da frente, que a derrocada do palácio tornara visível, balançava de um lado para o outro como o mastro de um navio, até que, com um estrondo colossal, se desfez numa imensa nuvem de terra». In Maria Lopo de Carvalho, Marquesa de Alorna, Oficina do Livro, 2011, ISBN 978-989-555-554-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «A boca dela, redonda como argola de guardanapo, exibia ao fundo a lágrima trémula da úvula balouçando como um pêndulo ao ritmo dos seus berros…»

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«(…) Quando é que eu me fo…?, perguntou-se o psiquiatra enquanto a Charlotte Bronte prosseguia impassível o seu discurso de Lewis Carroll grandioso. Como quem enfia sem pensar a mão no bolso à procura da gorjeta de uma resposta mergulhou o braço na gaveta da infância, bricabraque inesgotável de surpresas, tema sobre o qual a sua existência posterior decalcava variações de uma monotonia baça, e trouxe à tona ao acaso, nítido na concha da palma, ele miúdo acocorado no bacio diante do espelho do guarda-fato em que as mangas dos casacos pendurados de perfil como as pinturas egípcias proliferavam na abundância de lianas moles dos príncipes de gales do seu pai. Um puto loiro que alternadamente se espreme e observa, pensou concedendo um soslaio aos anos devolutos, eis um razoável resumo dos capítulos anteriores: costumavam deixá-lo assim horas seguidas na sua chávena de Sèvres de esmalte onde o chichi pianolava escalas tímidas de harpa, a conversar consigo mesmo as quatro ou cinco palavras de um vocabulário monossilábico completado de onomatopeias e guinchos de saguim abandonado, ao mesmo tempo que no andar de baixo a tromba de papa-formigas do aspirador sugava carnivoramente as franjas comestíveis das carpetes manejada pela mulher do caseiro a quem o incómodo das pedras da vesícula acentuava o aspecto outonal. Quando é que eu me fo…?, inquiriu o médico ao garoto que a pouco e pouco se dissolvia com a sua gaguez e o seu espelho para ceder lugar a um adolescente tímido, de dedos manchados de tinta, encostado a uma esquina propícia a fim de assistir à passagem indiferente e risonha das raparigas do liceu cujos soquetes o abalavam de desejos confusos mas veementes afogados em chás de limão solitários na pastelaria vizinha, ruminando num caderno sonetos à Bocage policiados pela censura estrita do catecismo de bons costumes das tias. Entre esses dois estádios de larva incipiente plantavam-se, como numa galeria de bustos de gesso, manhãs de domingo em museus desertos balizados de retratos a óleo de homens feios e de escarradores fedorentos onde as tosses e as vozes ecoavam como em garagens à noite, chuvosos verões de termas imersos em nevoeiros irreais de que nasciam a custo silhuetas de eucaliptos feridos, e sobretudo as árias de ópera da rádio escutadas da sua cama de garoto, duetos de insultos agudos entre um soprano de pulmão de varina e um tenor que incapaz de lhe fazer frente acabava por a enforcar à traição no nó corredio de um dó de peito interminável, conferindo ao medo do escuro a dimensão do Capuchinho Vermelho escrito por um lápis de violoncelos. As pessoas crescidas possuíam nessa altura uma autoridade indesmentida avalizada pelos seus cigarros e pelos seus achaques, inquietantes damas e valetes de um baralho terrível cujos lugares na mesa se reconheciam através da localização das embalagens de remédios: separado delas pela subtil manobra política de me darem banho a mim enquanto eu nunca os via nus a eles, o psiquiatra conformava-se com o papel de quase figurante que lhe distribuíam, sentado no chão da sala às voltas com os jogos de cubos que se consentem como divertimento dos vassalos, ansiando pela gripe providencial que desviasse do jornal para si a atenção cósmica daqueles titãs, transformada de súbito num desvelo de termómetros e de injecções. O pai, precedido pelo odor de brilhantina e de tabaco de cachimbo cuja combinação representou para ele durante muitos anos o símbolo mágico de uma virilidade segura, entrava no quarto de seringa em riste e depois de lhe arrefecer as nádegas com o pincel de barba húmido do algodão introduzia-lhe na carne uma espécie de dor líquida que solidificava num seixo lancinante: recompensavam-no com os frasquinhos de penicilina vazios de que se evolava um rastro de perfume terapêutico, tal como dos sótãos fechados surde, pelas frinchas da porta, o aroma de bolor e alfazema dos passados defuntos.
Mas ele, ele, Ele quando é que se lixara? Folheou rapidamente a meninice desde o Setembro remoto do fórceps que o expulsara da paz de aquário uterina à laia de quem arranca um dente são da comodidade da gengiva, demorou-se nos longos meses da Beira iluminados pelo roupão de ramagens da avó, crepúsculos na varanda sobre a serra a escutar o lume brando da febre monótona dos ralos, campos em declive marcados pelas linhas dos caminhos-de-ferro idênticas a veias salientes em costas de mão, saltou as aborrecidas páginas sem diálogo de algumas mortes de primas idosas que o reumático empenara de vénias de ferradura, tocando com os fiapos dos cabelos brancos os tofos de gota dos joelhos, e preparava-se para explorar de lupa psicanalítica em punho as angustiosas vicissitudes da sua estreia sexual entre uma garrafa de permanganato e uma colcha duvidosa que conservava viva, junto da almofada, a pegada de yeti da sola do cliente anterior, demasiado apressado para se preocupar com o detalhe insignificante dos sapatos ou suficientemente púdico para manter as peúgas naquele altar de blenorragias a taxímetro, quando a Charlotte Bronte o despertou para a realidade presente da manhã hospitalar sacudindo-lhe a mãos ambas as dobras do casaco ao mesmo tempo que entrelaçava o grosso fio de lã libertária da Marselhesa no crochet bairrista do fado Alexandrino com as agulhas destras de um contralto inesperado. A boca dela, redonda como argola de guardanapo, exibia ao fundo a lágrima trémula da úvula balouçando como um pêndulo ao ritmo dos seus berros, as pálpebras tombavam sobre as pupilas perspicazes à laia de cortinas de teatro que tivessem descido por engano a meio de um Brecht sabiamente irónico». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1973,1983, Publicações dom Quixoye, Bis, Grupo Leya,1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «Havia alturas em que lhe parecia injusto tocá-la, como se o contacto dos seus dedos despertasse nela um sofrimento sem razão»

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«(…) Vendemos bichos amestrados a estátuas, reformados barbudos de pedra para repuxos, soldados desconhecidos a domicílio. O homem cessara de a ouvir: o corpo dele mantinha a curva obsequiosa de ponto de interrogação na aparência atento de terceiro oficial a despacho, a testa, para onde todos os acidentes geográficos do seu rosto convergiam como passantes para um epiléptico a lagartixar na calçada, amarrotava-se de asséptico interesse profissional, a esferográfica aguardava a ordem estúpida de um diagnóstico definitivo, mas no palco dos miolos sucediam-se as imagens vertiginosas e confusas em que o sono se prolonga manhã fora, combatido pelo sabor do dentífrico na língua e a falsa frescura publicitária da loção de barbear, sinais inequívocos de se esbracejar já, instintivamente, na realidade do quotidiano, sem espaço para a cambalhota de um capricho: os seus projectos imaginários de Zorro dissolviam-se sempre, antes de começarem, no Pinóquio melancólico que o habitava, a exibir a hesitação do sorriso pintado sob a linha resignada da sua boca autêntica. O porteiro que todos os dias o acordava a golpes teimosos de campainha afigurava-se-lhe um são bernardo de barril ao pescoço a salvá-lo in extremis do nevão de um pesadelo. E a água do chuveiro, ao descer-lhe pelos ombros, levava-lhe da pele o suor de angústia de uma desesperança tenaz. Desde que se separara da mulher cinco meses antes que o médico morava sozinho num apartamento decorado de um colchão e de um despertador mudo imobilizado de nascença nas sete da tarde, malformação congénita do seu agrado por detestar os relógios em cujo interior de metal palpita a mola taquicárdica de um coraçãozinho ansioso. A varanda pulava directamente para o Atlântico por sobre as roletas do casino, em que se multiplicavam americanas idosas cansadas de fotografarem túmulos barrocos de reis, exibindo as sardas esqueléticas dos decotes numa arrepiante audácia de quakers renegadas. Estendido nos lençóis sem descer a persiana o psiquiatra sentia os pés tocarem o escuro do mar, diferente do escuro da terra pela inquietação ritmada que o agita. As fábricas do Barreiro introduziam no lilás da aurora o fumo musculoso das chaminés distantes. Gaivotas sem bússola esbarravam, estupefactas, com os pardais dos plátanos e as andorinhas de loiça das fachadas. Uma garrafa de aguardente iluminava a cozinha vazia da lâmpada votiva de uma felicidade de cirrose. De roupa espalhada no soalho o médico aprendia que a solidão possui o gosto azedo do álcool sem amigos, bebido pelo gargalo, encostado ao zinco do lava-loiças. E acabava por concluir, ao repor a rolha com uma palmada, assemelhar-se ao camelo recheando a sua bossa antes da travessia de uma longa paisagem de dunas, que teria preferido nunca conhecer.
Era em momentos desses, quando a vida se torna obsoleta e frágil como os bibelots que as tias-avós distribuem por saletas impregnadas do odor misto de urina de gato e de xarope reconstituinte, e a partir dos quais refazem a minúscula monumentalidade do passado familiar à maneira de Cuvier criando pavorosos dinossauros de lascas insignificantes de falangetas, que a recordação das filhas lhe tornava à memória na insistência de um estribilho de que se não lograva desembaraçar, agarrado a ele como um adesivo ao dedo, e lhe produzia no ventre o tumulto intestinal de guinadas de tripas em que a saudade encontra o escape esquisito de uma mensagem de gases. As filhas e o remorso de se ter escapado uma noite, de maleta na mão, ao descer as escadas da casa que durante tanto tempo habitara, tomando consciência degrau a degrau de que abandonava muito mais do que uma mulher, duas crianças e uma complicada teia de sentimentos tempestuosos mas agradáveis, pacientemente segregados. O divórcio substitui na era de hoje o rito iniciático da primeira comunhão: a certeza de amanhecer no dia seguinte sem a cumplicidade das torradas do pequeno-almoço partilhado (para ti o miolo para mim a côdea) aterrorizou-o no vestíbulo. Os olhos desolados da mulher perseguiam-no pelos degraus abaixo: afastavam-se um do outro como se haviam aproximado, treze anos antes, num desses agostos de praia feitos de aspirações confusas e de beijos aflitos, no mesmo turbilhonante e ardente refluxo de maré. O corpo dela permanecia jovem e leve apesar dos partos, e o rosto mantinha intactos a pureza dos malares e o nariz perfeito de uma adolescência triunfal: junto dessa beleza esguia de Giacometti maquilhado achava-se sempre desajeitado e tosco no seu invólucro que começava a amarelecer de um Outono sem graça. Havia alturas em que lhe parecia injusto tocá-la, como se o contacto dos seus dedos despertasse nela um sofrimento sem razão. E perdia-se entre os seus joelhos, afogado de amor, a gaguejar as palavras de ternura de um dialecto inventado». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1973,1983, Publicações dom Quixoye, Bis, Grupo Leya,1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O Arquipélago da Insónia. António Lobo Antunes. «Não me deixes agora que só o meu irmão e eu continuamos na cozinha um diante do outro, à espera, com o cavalo na argola e as luzes da vila…»

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«(…) O padre a mirar a pistola saída sem pressa do bolso e a culatra que deslizou para trás e aceitou uma bala, a buscar auxílio mas nem vozes nem pessoas, deu-lhe ideia que um rafeiro e todavia nenhum bicho nas travessas, só ecos, o dos ramos das nogueiras, um banquito que deslocaram para o ver melhor e os retratos O padre sem que o feitor os notasse, a lagoa fervia como sempre em Março com os girinos novos e abelhas incompletas a aprenderem a ser, o padre para o feitor Para que queres a pistola? e o feitor a persignar-se depois de lhe pedir a confissão Para o ajudar a partir senhor cura não exaltado, respeitoso que o Inferno assusta, quase nenhum olmo vibrou com o primeiro tiro esmagado na cancela, o feitor a ajudar a pontaria com a outra mão Já me absolveu não já? e a disparar de olhos fechados, sentiu o padre de joelhos, ganhou força para abrir um dos olhos, viu-o de cara na terra e como estava absolvido abriu a navalha e cortou-lhe o pescoço até à resistência das vértebras, pensou melhor e trocou os sapatos com os do morto apesar do pé esquerdo difícil de entrar e agora as doninhas e os texugos que o comam, o meu avô zangado Vai entregar os sapatos ao homem para andar como quiser pela vida o meu avô zangado Nunca impeças um defunto de passear onde lhe der na gana e o feitor sob as nogueiras a lutar com os sapatos sem dar com as árvores sequer conforme lhe sucedeu pisar o padre que se sumia na terra e uma mulher de alguidar, mais mulheres, um velhote num monte de lama a fazer corpo com ela, ficaram as pálpebras de fora a seguirem-no iguais às fotografias com enfeites de metal, rosinhas, lírios, de meninas falecidas de mal do peito vibrando a harpa dos pulmões, Celeste, Leonora, Angelina a recortar estrelinhas de papel tossindo sem uma queixa, sepultavam-nas em caixõezitos de cetim branco e os milhafres por cima nas suas voltas quietas, em que travessa da vila te escondes a fitar-me, Maria Adelaide, sem pedir nada, te queixares de nada, a boca duas rendas que tremiam Sinto-me bem levaram-me a visitar-te no hospital e não me lembro da enfermaria, lembro-me do jardineiro a regar canteiros com o polegar na extremidade da mangueira a distribuir a água, de uma pessoa a assoar-se trazendo os biscoitos e as maçãs de volta num cartucho e o jardineiro sem atentar nela ocupado com um caule, Maria Adelaide com tranças para a frente do peito e eu apaixonado pelas tranças, depois do funeral a mãe guardou-as na gaveta e o cabelo seco arrepiava enquanto o feitor, com as nogueiras a estalarem, pensava não haver criatura mais difícil de descalçar que um padre, teve de lutar com os tornozelos para os erguer do chão a fim de que não entrasse numa moldura a culpá-lo Gatuno necessitando de mais tempo para habituar-se à morte Finei-me ao dar conta dos torrões de que a pele era feita e de como os paramentos empalideciam devagar, uma coruja raspou-lhe a nuca e desvaneceu-se numa chaminé a que faltavam bocados, num tom parecido com o do meu pai Não me deixes agora que só o meu irmão e eu continuamos na cozinha um diante do outro, à espera, com o cavalo na argola e as luzes da vila que partem e regressam de acordo com as nuvens mostrando um telheiro, dois telheiros, o recreio da escola onde o vento brincava com um papelinho, agora ponho-te aqui, agora ponho-te ali e o papel de roldão com as folhas coitado, o papel vendo bem uma folha igualmente, de onde virão as folhas que quase não há arbustos digam-me, no pátio cactozitos a crescerem das lajes, uma raposa no pombal numa leveza de mindinhos e o meu pai com o seu Cristo de feira no topo das escadas e o cavalo aguardando-o, dei pelo meu irmão a observar-me consoante se observava a si mesmo no poço, na maleta do padre os instrumentos da missa e uma carta de mulher com flores dentro (que mulher?) os sapatos principiaram a gastar-se na terra, não tardaria nada uma moldura entre as restantes molduras a denunciar o feitor, a chávena sobre o pires, uma empregada a recolher ovos num cabaz e no entanto o meu irmão e eu sozinhos na casa que se alterou permanecendo igual, um pedido às sombras da vila Não me matem se calhar de um camponês que se perdeu no caminho, na carta da bagagem do padre um perfume parecido com o dos baús e no entanto nunca dei pela minha mãe na igreja deserta (o meu avô para o feitor O padre fala contra nós não pode ser) porque não há ninguém tirando o meu irmão e eu e esses bichos da noite de que se desconhece o nome, talvez ginetos ou cachorros selvagens, o meu pai vinha espreitar-me ao recreio da escola como espreitou a minha mãe no cemitério, puxando a cabeça do cavalo que bandeava não na direcção da herdade, da vila onde o meu avô nunca ia, mirava-a de longe de vergasta ao alto para se proteger dos defuntos na voz de há muitos anos Vocês os mortos não me fazem mais mal os olhos embrulhados um no outro num nozinho de pálpebras a recordarem desconfortos e medos, uma criança descalça a desejar um mulo para se sumir na fronteira, a mãe que não perfumava baús, se instalava junto à porta à espera (de quê?) a Filomena doente e ele da rua…» In António Lobo Antunes, O Arquipélago da Insónia, Publicações dom Quixote, LeYa, 2008, ISBN 978-972-203-694-8.
                    
Cortesia dePdQuixote/LeYa/JDACT

As Naus. António Lobo Antunes. «Se já tens o papel para Lixboa vai-te embora, chiou o meu compadre dos cobertores onde se dissolvia em madeixas alagadas…»

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«(…) Entrega o bilhete ao homem, Lurdes, disse o meu compadre do seu fosso de agonias, e a branca enfiou o cotovelo num pote, remexeu sons de chaves, e avançou para mim no andar de bicho sem raça com que pela primeira vez a vi, caminhando dos coentros do quintal para o prefabricado do pai, alta, loira, forte, uma égua grande e dócil que trepou dois degraus furtados a uma escadaria de galé, uma cabrona de cesta na dobra do braço a sumir-se em casa sem me olhar e que deixou uma espécie de gás de aquário a ferver-me nos ossos, um aturdimento, mãezinha, como o de agora, ao estender-me a passagem, embrulhada naquilo que de perto reparava ser uma toalha tal como reparava no corpo nu por baixo, no peito largo, na barriga lisa, na espuma arruivada dos pelos. Um pato invadiu o compartimento e tentou alçar-se sem êxito, tombando sempre, para uma cadeirita de lona esfarrapada, com tiras de ráfia nos apoios dos braços. Se já tens o papel para Lixboa vai-te embora, chiou o meu compadre dos cobertores onde se dissolvia em madeixas alagadas, ainda mais magro e mais escaveirado que o costume, e eu pensei, sem parar de admirá-la, a avaliar-lhe a musculosa serenidade dos ombros e do púbis, Quero voltar atrás com o negócio, que coisa, quero agarrá-la pelas crinas e levá-la comigo. Magiquei melhor, disse ao doente, quem fica a perder com esta troca sou eu, e o meu compadre sentou-se nos lençóis, danado, com um pacho a escorregar-lhe da bochecha, espetando em mim os olhos irrevogáveis, vermelhos e miúdos, baços da aflição da malária e dos incontáveis anos que tinha, esquelético, frágil e inesperadamente enorme na inconcebível pequenez dos seus membros, Entrega ao teu marido o que se combinou e chega aqui, e a minha esposa poisou o bilhete numa ponta da mesa e aproximou-se fascinada por aquela voz sem quebras de pardal altivo até quase encostar os quadris à orelha do homem. O pato grasnava em pânico, com uma das asas entalada na lona, saltitando de bico aberto sem lograr libertar-se. Havia sapatos, cafeteiras amolgadas e caroços de manga pelo chão, cuecas de renda, varetas de leque, caixas de botões. Tens que apresentar-te no aeroporto esta noite, avisou o meu compadre a abanar-se de tosse, já conferiste por acaso a hora do embarque? E ela, a parva, a compor-lhe as almofadas, a acender os bicos avariados do fogão, a preparar-lhe um chazinho de ervanária, a mover-se através de dunas de detritos numa familiaridade conjugal que me expulsava. O pato conseguiu livrar-se das correias da cadeira e escapou-se para debaixo da cama num menear ofendido. A chuva pingava nos cobertores, pingava na minha cabeça, pingava na rapariga e no velho e no pato que me fixavam em uníssono com a mesma hostilidade ou indiferença, e alcancei o avião (chovia sempre) no momento da última chamada, Por esta porta aqui, fazem favor. Segui a pé, de sombrinha aberta, na direcção das escadas que os relâmpagos mostravam para tudo recair depois numa noite triste e enervada. O aparelho correu ao longo da pista quase sem luzes e ergueu-se acima da nódoa opaca do mar. Quer dizer: não se topava o que quer que fosse salvo o reflexo de nós próprios nas janelas mas eu sabia que era o mar, e recordei-me de quantas vezes, em pequeno, olhei aquelas ondas a lembrar-me de Goa». In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT