domingo, 18 de agosto de 2019

Sociedades Secretas. Philip Gardiner. «Muitas das evidências, podem ser consideradas de várias maneiras; cada ponto de vista alternativo, quando nos era conhecido, foi abordado. Quando outros pontos de vista se fizeram necessários…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Devemos começar observando as nossas origens. A origem da vida sempre foi uma parte fundamental da religião. A era do esclarecimento, de Darwin e seus contemporâneos, alterou de forma drástica o ponto de vista religioso do mundo. Se olharmos para a verdade por trás da origem da humanidade, veremos que Darwin apenas descobriu o que já se sabia: que essa era de esclarecimento fora planeada e que deveria acontecer para que as mudanças exigidas ocorressem. Veremos como o homem antigo e suas crenças religiosas eram um perfeito paralelo de nossas crenças científicas actuais; a diferença está apenas nos termos usados. Observe o padrão que segue, que foi simplificado, mas é comum à maioria das religiões do mundo:

1. Apenas o Deus existe. Ele é supremo e está só;
2. Os céus e a terra não têm forma. Tudo é escuridão e/ou está coberto pelas águas primevas;
3. Então, surge a luz;
4. O céu e a terra são separados;
5. A terra é separada das águas. O dia e a noite são criados com o novo sol;
6. A terra dá à luz a vegetação e, por fim, as criaturas;
7. Os pássaros e os animais são criados;
8. Surge o homem.

Como perceberá, esse padrão é compartilhado também pelas teorias actuais a respeito da origem das espécies, sem a aceitação da existência de Deus. Está em completa harmonia com a teoria do big bang e, ainda assim, parece ter surgido há milhares de anos. Esses padrões podiam ser notados, em especial, no Egipto Antigo, um dos misteriosos precursores das religiões e crenças do mundo. No passado, a religião era responsável por nos esclarecer sobre as nossas origens. Agora os cientistas nos dizem para procurar factos a respeito das nossas origens em vez de filosofar sobre elas, enquanto eles, ao mesmo tempo, criam novas teorias que são, por vezes, preconceituosas e que não levam em conta todo o nosso conhecimento.
Factos novos vêm à luz todos os dias. Novas ideias com relação a equações matemáticas das leis da física estão provando que algumas teorias são realidade. Precisamos entender esses factos e teorias e não podemos ter medo de modificar o nosso ponto de vista pessoal quando tais factos novos emergem. Nossas verdades pessoais precisam mudar ou corremos o risco de nos tornarmos fanáticos religiosos inertes e obsoletos. É lamentável que o fervor religioso em todas as disciplinas (inclusive a ciência) possa nos impedir de ver essas maravilhosas descobertas, de seguir adiante e mesmo de evoluir. Tantos factos estão ocultos para nós por gerações de preconceito e intolerância que alguns deles serão surpreendentes. Ninguém permanecerá ileso às evidências apresentadas aqui. Qualquer pessoa, que leia, terá o seu próprio sistema de crenças ou os seus preconceitos pessoais desafiados e não estará disposta a aceitar tudo como realidade.
Muitas das evidências, podem ser consideradas de várias maneiras; cada ponto de vista alternativo, quando nos era conhecido, foi abordado. Quando outros pontos de vista se fizeram necessários, foram buscados em fontes originais. Eu incluo nisso todas as facções religiosas, sejam elas classificadas como cultos ou seitas, facções ocultas ou reconhecidas. Na nossa busca pela verdade, examinaremos tudo o que poderia caber num livro. Começaremos com Adão e Eva e seguiremos até à ciência moderna. Prosseguiremos, então, analisando como os nossos sistemas de crença começaram e onde se originaram algumas das explicações mais paranormais». In Philip Gardiner, Sociedades Secretas, colecção Millenium, Publicações Europa América, 2008, ISBN 978-972-105-876-7.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

sábado, 17 de agosto de 2019

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Vá, Arménio… Cuidado com a língua! Não viste que até os elementos lhe obedecem… Do que estás a falar é de outra coisa, meu caro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Enquanto Flaviano e Arménio esperavam à entrada do templo, maldizendo as condições climatéricas e garantindo a segurança das mulheres que trouxeram até Iria Flavia, Priscila dobrou o umbral da porta, com muito custo, devido ao cansaço da viagem e à indisfarçável debilidade. Mas isso não a impedia de prosseguir de cabeça erguida e pose seráfica, a par do sacerdote, que a protegia da chuva, e já inteirado da razão da imprevista visita. Valéria seguia atrás, transportando o que precisava para o culto. O resto seria ali comprado, pois que também era necessário contribuir para o sustento do sacerdote e do próprio santuário, que os tempos iam difíceis. Chegada ao altar, depois de um prolongado momento de reflexão, Priscila ergueu os braços aos céus e, de pé, murmurou a ladainha que lhe saiu do coração:

Ó Senhora, tu que vês e atendes a quem te invoca com toda a boa-fé,
A fé dos nossos antepassados e dos vindouros,
Dos que no teu colo encontraram a cura para todos os males,
Consolo para todas as tristezas,
E que assim será para todo o sempre!
Acode-me e protege-me nesta hora!

Ó deusa da simplicidade, ó protectora dos mortos,
Ó deusa das crianças de quem todos os começos surgiram,
Ó Senhora dos eventos mágicos e da natureza!
Tu que deste origem ao Céu e à Terra,
Que conheces o órfão e a viúva,
Que providencias justiça aos pobres
E que dás abrigo aos frágeis!
Rainha dos Céus,
Acode-me e protege-me nesta hora!

Mãe dos deuses,
Que resplandeces em mil caras,
Em quem habitam todos os nomes,
Esposa que choras a morte do teu próprio esposo,
Senhora das culturas verdejantes,
Senhora da Casa que dá a Vida,
Doadora da Luz do Céu,
Em ti confio a vida e a saúde daquele que gerei!

Em pungente silêncio, acendeu uma lâmpada de azeite e colocou-a delicadamente sobre o altar, derramando uma pitada de incenso junto a uma vela que se consumia em chamas de eternidade. Deitou uma moeda no poço que se abria sobre o lado esquerdo e voltou ao silêncio das orações. O sacerdote, retirado para um compartimento do santuário, atrás do altar, aproximou-se de Priscila e murmurou-lhe ao ouvido: está tudo pronto! As duas mulheres seguiram o homem de túnica verde, muito coçada pelo uso, para a dependência de onde saíra. Nos quatro recantos, ardiam velas e queimavam-se as essências orientais apropriadas ao culto. Ali se consumaria a oblação final, a que ninguém mais poderia assistir.
Valéria tirou do saco um robusto galo negro nascido e engordado na villa, com o bico bem amarrado por fios de fiteira. O sacerdote cortou-os, com delicadeza. O bicho cacarejou, aliviado. Mas foi por tempo curto, pois, num único golpe, uma lâmina sacrificial atravessou-lhe o pescoço, dando apenas tempo a alguns rápidos espasmos do corpo sem cabeça que o comandasse. O sangue encheu de vermelho o bacio preparado para a imolação. Talvez o súbito desaparecimento das mulheres tivesse inquietado os homens que as protegiam, pois Valéria entreviu os olhos dos acompanhantes a surgirem e logo desaparecerem na porta da entrada do compartimento. E quando os dois homens regressaram à luz do dia certamente ter-se-ão espantado com o milagre que acabara de suceder: a chuva parara, depois de dias a fio de tormenta. O vento que soprava do tenebroso mar, fronteira da terra que ali acabava, desvaneceu-se como que por encanto divino. Parece que a velha deusa continua poderosa! Cala-te, Flaviano! São superstições, idolatria, que tanto mal fazem a Deus…
Vá, Arménio… Cuidado com a língua! Não viste que até os elementos lhe obedecem… Do que estás a falar é de outra coisa, meu caro… De outra coisa?! Arménio virou a face para o sul, para onde as nuvens negras corriam para tão cedo não voltarem. Apenas faziam verter dentro de si bátegas de raiva. Foi magia… A poderosa magia negra fez o que acabaste de assistir! Flaviano olhou para todos os lados e encostou o indicador em riste ao nariz, antes de pronunciar as últimas palavras, pois os três vultos saíam, aliviados e sorridentes, do templo de pedra. Cala-te com essa conversa! Senão, serei eu a tomar as medidas…» In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

As 100 Melhores Histórias da Mitologia. AS Franchini e Carmen Seganfredo. «Tão logo os filhos da desgraçada Cibele iam saindo do cálido ventre da mãe, eram imediatamente metidos na cova tétrica do estômago do pai»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nascimento e glória de Júpiter
«(…) A praga que seu pai lhe lançara no dia em que o mutilara com a foice diamantina ainda ecoava nos seus ouvidos: ai de V, rebento infame... Do mesmo modo que usurpou o mando supremo, irá também um dia perdê-lo... Nada de filhos, exclamou, por fim, a velha divindade. Cibele, venha já até mim! A sua esposa surgiu, um tanto intimidada. Quando nasce esta criatura que você está carregando? Vamos, diga!, bradou Saturno. Nos próximos dias, Saturno querido... Assim que nascer, traga-a imediatamente até mim. Assim será, meu esposo. Cibele, correndo os dedos pelas madeixas, sorria candidamente. Alguns dias depois, com efeito, nasceu o primeiro bebé: era Juno, uma menina encantadora, porém de poucos sorrisos. Deixe-me vê-la, sussurrou Saturno. Veja, não é linda?, disse Cibele, a imprudente. Encantadora!, respondeu o deus, com um sorriso equívoco. Vamos, dê-lhe um beijo!, disse Cibele, a louca.
O velho deus tomou, então, a criança, envolta nos panos, e aproximou-a de seu imenso rosto. Dá mesmo vontade de engoli-la inteira, exclamou, arreganhando os dentes. Cibele chorou de ternura. Num segundo Saturno abriu de par em par a bocarra, como duas portas que dão para um abismo, e engoliu a pobre criança, que não deu um único pio. Cibele chorou de horror. Sem descer a explicações, Saturno tomou a cabeça da esposa nas suas mãos e exclamou: e nada de choros, hein? Nada de vinganças. Depois, despediu-a, não sem antes adverti-la: e já sabe, nascendo outro, quero-o logo aqui. Saturno dava tapinhas na sua barriga cheia, como que felicitando-se pelo engenhoso estratagema. Depois retomou o seu eterno estribilho, agora com renovado prazer: e V aí dentro, já sabe: aqui é assim, mando eu e ninguém mais. O tempo passou e foram nascendo os rebentos. Tão logo os filhos da desgraçada Cibele iam saindo do cálido ventre da mãe, eram imediatamente metidos na cova tétrica do estômago do pai. Passaram, assim, por este odioso portão, além da já citada Juno, os infelizes Plutão, Neptuno, Vesta e Ceres. Quando chegou, porém, a vez do quinto bebé, Cibele, farta de tanta sujeição, revoltou-se afinal: não, este não..., pensava, e o seu laconismo dava bem a medida da sua determinação. Passando, então, das palavras à acção, correu até a mais distante caverna do mundo, a caverna de Dicte, e lá gemeu e gritou, até dar à luz Júpiter, seu último e mais esperado filho.
Depois de entregar o garoto aos cuidados das ninfas da floresta, Cibele retornou às pressas para o palácio de Saturno. Uma vez nos seus aposentos, envolveu uma pedra nos lençóis e começou a gritar, como quem está em trabalho de parto. Temos nova peste, exclamou Saturno, rumando celeremente para o quarto. Tão logo enxergou a sua esposa segurando algo envolto nos panos, tomou-lhe o embrulho das mãos e engoliu-o, imaginando ser o quinto bebé. É o último, hein...?, disse o deus, limpando a boca com as costas da mão e desaparecendo em seguida pela porta. Mas Cibele chorou, como das outras vezes. Tudo agora parecia em paz, pensava Saturno, enquanto gozava do silêncio, refestelado no seu trono dourado. De vez em quando, porém, repetia bem alto o seu amado estribilho, pois o silêncio absoluto enchia-o de vagas apreensões. Bom mesmo é minha voz retumbando: aqui é assim, mando eu e ninguém mais, gritava ele, acalmando-se.
E isto era bom, também, para o jovem Júpiter, que permanecia oculto nas grutas distantes, podendo chorar à vontade. Quando chorava alto demais, as ninfas que dele cuidavam ordenavam que alguns guerreiros, chamados curetes, reverberassem seus escudos com toda a força, para abafar os sons infantis. Para acalmá-lo, havia uma doce cabra, chamada Amaltéia, que o amamentava e lhe servia de distracção, distracção que também lhe era trazida por uma bola estriada de ouro, que o garoto recebera de presente de uma das ninfas, a qual ao subir e cair deixava no céu, como um fulgente meteoro, um belo rastro dourado. Por fim, havia ainda uma águia encantada que todos os dias vinha de todas as partes do mundo contar novidades e instruir o jovem deus nas coisas da vida. Júpiter, grande deus, disse-lhe um dia a águia, quando o garoto já estava crescido, já é hora de saber sobre o terrível perigo que V corre. A ave, então, narrou ao deus todo o drama que dera origem à sua existência». In AS Franchini e Carmen Seganfredo, As 100 Melhores Histórias da Mitologia, Deuses, Heróis, Monstros, Guerras da tradição Greco-Romana, L&PM, 2003, 2007, ISBN 852-541-316-X.

Cortesia de L&PM/JDACT

A Fugitiva. Anais Nin. «A seguir, ofereceu-se para consolá-lo, quase como se fosse um marido traído. O basco disse que esperaria»

Cortesia de wikipedia e jdact

(…) Foi assim que o basco encontrou Bijou. Ao chegar à casa certo dia, foi recebido por uma Maman derretida que lhe disse que Viviane estava ocupada. A seguir, ofereceu-se para consolá-lo, quase como se fosse um marido traído. O basco disse que esperaria. Maman continuou com as provocações e carícias. Então, o basco disse: posso espiar? Todos os quartos eram arranjados de modo que os curiosos pudessem assistir por meio de uma abertura secreta. De vez em quando, o basco gostava de ver como Viviane se comportava com osseus visitantes. Então, Maman levou-o ao compartimento, onde o escondeu atrás de uma cortina e o deixou olhar. Havia quatro pessoas no quarto: um homem e uma mulher estrangeiros, trajados com discreta elegância, observando duas mulheres na cama grande. Viviane, a grandona de pele escura, jazia esparramada na cama. De quatro em cima dela estava uma mulher magnífica de pele cor de marfim, olhos verdes e cabelo negro comprido e espesso. Os seios eram empinados, a cintura afinava-se em adelgaçamento extremo e expandia-se de novo para uma farta exibição de quadris. Ela tinha um formato que parecia ter sido modelado num espartilho. O corpo tinha a lisura firme do mármore. Não havia nada de flácido ou solto nela, mas um vigor escondido, como o vigor de um puma, e uma extravagância e veemência nos gestos que lembravam os das espanholas. Aquela era Bijou. As duas mulheres combinavam lindamente, sem receios ou sentimentalismo. Mulheres de acção, ambas portavam um sorriso irónico e uma expressão corrupta. O basco não saberia dizer se estavam fingindo ou de facto desfrutando uma da outra, de tão perfeitos que eram os gestos. Os estrangeiros devem ter pedido para ver um homem e uma mulher juntos, e aquela tinha sido a solução de Maman. Bijou havia amarrado um … de borracha, que tinha a vantagem de nunca definhar. Portanto, não importava o que ela fizesse, aquele … projectava-se do seu monte de pelos femininos como se espetado ali numa erecção permanente. Agachada, Bijou deslizava a falsa virilidade não dentro, mas entre as pernas de Viviane, como se estivesse batendo leite, e Viviane contraía as pernas como se estivesse tantalizada por um homem de verdade. Mas Bijou recém começara a provocá-la. Parecia decidida a fazer Viviane sentir o … apenas do lado de fora. Segurava-o como uma aldraba, batendo gentilmente contra a barriga e a virilha de Viviane, cutucando os pelos gentilmente, depois a ponta do clitóris. Neste último, Viviane deu um pulinho, e por isso Bijou repetiu, e Viviane pulou de novo. A mulher estrangeira então inclinou-se para perto, como se fosse míope, para flagrar o segredo daquela sensibilidade. Viviane rolou impaciente e ofereceu o sexo a Bijou. Atrás da cortina, o basco sorria com o excelente desempenho de Viviane. O homem e a mulher estavam fascinados. Estavam parados bem perto da cama, de olhos arregalados. Bijou disse a eles: querem ver como fazemos amor quando estamos com preguiça? Vire-se, ordenou a Viviane. Viviane virou-se para o lado direito. Bijou deitou-se ao lado dela, entrelaçando os pés. Viviane fechou os olhos. Então Bijou abriu espaço para a entrada com as mãos, afastando a carne moreno-escura das nádegas de Viviane de modo que pudesse deslizar o … para dentro, e começou a meter. Viviane não se mexeu. Deixou Bijou empurrar, meter. Então, inesperadamente, deu um pinote, como um coice de cavalo. Bijou, como que para puni-la, recuou». In Anais Nin, A Fugitiva, L&PM Pocket, Brasil, 2012, ISBN 978-852-542-654-3.

Cortesia de L&PM/JDACT

A Princesa Determinada. Catarina de Aragão. Philippa Gregory. «Ele não é o que eu esperava, este rei que lutou para chegar ao trono e apanhou a coroa do meio da lama, num campo de batalha. Esperava que fosse mais como um defensor…»

jdact

«(…) Passou do prazer de a observar para uma sensação de irritação, ao pensar que esta peça sofisticada ia ser colocada na cama fria de Artur. Não conseguia ver aquele rapaz sensato e estudioso a brincar e a provocar a paixão nesta rapariga, prestes a tornar-se mulher. Imaginava que Artur seria desajeitado e que talvez a magoasse, e ela cerraria os dentes e cumpriria o seu dever como mulher e rainha, e mais provável seria ela morrer ao dar à luz; e todo aquele esforço de encontrar uma noiva para Artur teria de ser repetido sem benefícios para si próprio, excepto este desejo irritado e frustrado que ela parecia inspirar-lhe. Era bom que ela fosse desejável uma vez que iria ser um ornamento na sua corte; mas era uma perturbação o facto de ser tão desejável aos seus próprios olhos. Henrique afastou os olhos da dança e consolou-se com a ideia do seu dote, que lhe traria grandes e duradouros benefícios e lhe seria entregue directamente, ao contrário desta noiva que parecia decidida a perturbá-lo, e teria de ir, por muito que isso fosse errado, para o seu filho. Assim que estivessem casados, o seu tesoureiro entregaria o primeiro pagamento do dote: em ouro sólido. Um ano depois, entregaria a segunda parte em ouro e com as suas pratas e jóias. Tendo lutado para chegar ao trono com pouco dinheiro e crédito incerto, Henrique acreditava mais no poder do dinheiro do que em qualquer outra coisa na vida; ainda mais do que no trono, porque sabia que podia comprar um trono com dinheiro, e ainda mais do que nas mulheres, porque essas compram-se facilmente; e mais, bastante mais do que na alegria do sorriso de uma princesa virgem, que interrompera a sua dança, lhe fizera uma reverência e se dirigia a ele sorrindo. Agradei-vos?, perguntou corada e ligeiramente ofegante. O suficiente, respondeu, determinado em que ela nunca soubesse o quanto. Mas agora é tarde e devíeis voltar à vossa cama. Cavalgaremos um pouco convosco de manhã, antes de partirmos para Londres. Ficou surpreendida pela brusquidão da resposta. Voltou a olhar para Artur como se ele pudesse contrariar os planos do pai; talvez ficar junto dela durante o resto da viagem, uma vez que o pai se gabara da sua informalidade. Mas o rapaz nada disse. Como desejardes, Vossa Graça, respondeu polidamente.
O rei assentiu com a cabeça e levantou-se. A corte mergulhou em reverências e vénias profundas, enquanto ela passava diante deles, dirigindo-se ao quarto. Não é assim tão informal, pensava Catalina ao observar o Rei da Inglaterra a circular pela corte, de cabeça erguida. Pode gabar-se de ser um soldado com os modos de um acampamento, mas insiste na obediência e na exibição da deferência. Tal como devia, acrescentou a filha de Isabel para si mesma. Artur seguiu o pai com um rápido Boa noite dirigido à princesa ao sair. Num instante, todos os homens do seu séquito tinham saído, e a princesa estava sozinha com as aias. Que homem extraordinário, observou para a sua preferida, Maria Salinas. Ele gostou de vós, afirmou a jovem. Olhava-vos muito. E porque não gostaria?, perguntou com a arrogância instintiva de uma rapariga nascida no maior reino da Europa. E mesmo que não gostasse, já está acordado, e não pode haver alterações. Esteve acordado durante a minha vida inteira.

Ele não é o que eu esperava, este rei que lutou para chegar ao trono e apanhou a coroa do meio da lama, num campo de batalha. Esperava que fosse mais como um defensor, um grande soldado, talvez como o meu pai. Ao invés, tem um olhar de mercador, um homem que procura o lucro dentro de casa, não um homem que conquistou o reino e a mulher na ponta da espada. Creio que esperava encontrar um homem como Don Hernán, um herói a quem pudesse admirar, um homem a quem teria orgulho em chamar pai. Mas este rei é magro e pálido como um clérigo, em nada semelhante aos cavaleiros dos romances. Pensava que a sua corte fosse mais grandiosa, esperava um grande desfile e um encontro formal com longas apresentações e discursos elegantes, como teríamos feito no Alhambra. Mas ele é abrupto; na minha opinião, é mal-educado. Terei de me habituar a estes modos do Norte, esta pressa em fazer as coisas, estas ordens bruscas. Não posso esperar que sejam bem-feitas ou correctas. Terei de ignorar muita coisa até ser rainha e poder mudá-las. Mas, de qualquer forma, pouco me importa se gosto do rei ou se ele gosta de mim. Ele assinou este tratado com o meu pai e eu fui prometida ao filho. Pouco interessa o que penso dele, ou o que pensa de mim. Não é que tenhamos de tratar de muitas questões em comum. Eu viverei e governarei Gales e ele viverá e governará a Inglaterra, e quando morrer, será o meu marido a ocupar o trono, o meu filho será o próximo Príncipe de Gales, e eu serei rainha. Quanto ao meu futuro marido, deixou-me uma primeira impressão diferente. É tão bonito! Não esperava que fosse tão bonito! É tão louro e pequeno, é como, é como um pajem dos romances antigos. Consigo imaginá-lo acordado a noite inteira, em vigília, ou cantando para uma janela do castelo. Tem uma pele pálida, quase prateada, cabelo dourado e fino, e no entanto, é mais alto do que eu, magro e forte como um rapaz prestes a tornar-se homem. Tem um sorriso invulgar, que surge relutantemente e depois se abre. E é simpático. Isso é muito importante num marido. Foi simpático quando aceitou o copo de vinho que lhe estendi, percebeu que estava a tremer, e tentou confortar-me. O que pensará de mim? Gostava tanto de saber o que pensa de mim». In Philippa Gregory, Catarina de Aragão, A Princesa Determinada, Livraria Civilização Editora, 2006, ISBN 978-972-262-455-8.
                                                                                      
Cortesia CivilizaçãoE/JDACT

As 100 Melhores Histórias da Mitologia. AS Franchini e Carmen Seganfredo. « O jovem e ambicioso Titã sentiu um frémito percorrer as suas entranhas. Diga, minha mãe, o que devo fazer para livrá-la de tamanha dor!»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nascimento e glória de Saturno
«Numa era muito antiga, tão antiga que antes dela só havia o caos, o mundo era governado pelo Céu, filho da Terra. Um dia, este, unindo-se à própria mãe, gerou uma raça de seres prodigiosos, chamados Titãs. Ocorre que o Céu, deus poderoso e nem um pouco clemente, irritou-se, certa feita, com as afrontas que imaginava receber dos seus filhos. Por isto, decidiu encerrá-los nas profundezas do ventre da própria esposa, à medida que eles iam nascendo. Aí ficarão para sempre, no ventre da Terra, para que nunca mais ousem desafiar a minha autoridade!, exclamou, colericamente, o deus soberano. A Terra, subjugada, teve de segurar nas suas entranhas, durante muitas eras, aquelas turbulentas criaturas e suportar, ao mesmo tempo, o assédio insaciável e ininterrupto do marido. Um dia, porém, farta de tanta tirania, decidiu a mãe do mundo que um de seus filhos deveria libertá-la deste tormento. Para tanto, escolheu Saturno, o mais jovem dos seus rebentos. Saturno, meu filho, disse a Terra, lavada em pranto, somente V. poderá libertar-me da tirania de seu pai e conquistar para si o mando supremo do Universo!
O jovem e ambicioso Titã sentiu um frémito percorrer as suas entranhas. Diga, minha mãe, o que devo fazer para livrá-la de tamanha dor!, disse Saturno, disposto a tudo para chegar logo à segunda parte do plano. A Terra, erguendo uma enorme foice de diamante, entregou-a ao filho. Tome e use-a da melhor maneira que puder!, disseram seus olhos, onde errava um misto de vergonha e esperança. Saturno apanhou a foice e não hesitou um instante: dirigiu-se logo para o local onde o seu velho pai descansava. Ao chegar no azulado palácio erguido nos céus, encontrou-o ressonando sobre um grande leito acolchoado de nuvens. Dorme, o tirano..., sussurrou baixinho. Saturno, depois de examinar por algum tempo o rosto do impiedoso deus, empunhou a foice e pensou consigo mesmo: realmente..., demasiado soturno. E fez descer o terrível gume, logo abaixo da cintura do pobre Céu. Um grito terrível, como jamais se ouvira em todo o Universo, ecoou na abóbada celestial, despertando toda a criação. Quem ousou levantar mão ímpia contra o soberano do mundo?, gritou o Céu, com as mãos postas sobre a ensanguentada virilha. Isto é pelos tormentos que infligiu à minha mãe, bem como a mim e a meus irmãos, respondeu Saturno, ainda a brandir a foice manchada de sangue.
Os testículos do Céu, arrancados pelo golpe certeiro da foice, voaram longe e foram cair no oceano, com um baque tremendo. Em seguida, o deus ferido caiu, exangue, sobre seu leito acolchoado, sem poder dizer mais nada. As nuvens que lhe serviam de leito tingiram-se de um vermelho tal que durante o dia inteiro houve como que um infinito e escarlate crepúsculo. Saturno, eufórico, foi logo contar a proeza à sua mãe. Isto é que é filho, disse a Terra, abraçada ao jovem parricida. Imediatamente foram soltos todos os outros Titãs, irmãos de Saturno. Este, por sua vez, recebeu a sua recompensa: era agora o senhor inconteste de todo o Universo. Quando a noite caiu, entretanto, escutou-se uma voz espectral descer da grande cúpula côncava dos céus: ai de você, rebento infame, que manchou a mão no sangue do seu próprio pai! Do mesmo modo que usurpou o mando supremo, irá também um dia perdê-lo... Saturno assustou-se a princípio, mas em seguida ordenou aos seus pares que recomeçassem os festejos.
Ora, ameaçazinhas... Deus morto, deus posto!, exclamou, com um riso talhado no rosto. Mas aquela profecia, irritante como um mosquito, ficara ecoando na sua mente, até que Saturno, por fim, reconheceu-se também meio soturno: será que uma vitória, neste mundo, não pode ser nunca completa?

Nascimento e glória de Júpiter
Saturno, após destronar sangrentamente o próprio pai, era agora senhor de todo o Universo. Aqui é assim: mando eu e ninguém mais, dizia o tempo todo, a ponto de suas palavras reverberarem noite e dia pelos céus. Certa dia, sua esposa, Cibele, que também era sua irmã, chegou-se a ele e disse: abrace-me, querido Saturno, pois serei mãe! O velho Saturno, encanecido no mando, esboçou apenas um sorriso. Muito bonito, resmungou o deus. Mas e daí? Ora, e daí que V., meu esposo, será pai!, disse ela, tentando animá-lo. Esta palavra, no entanto, despertou a fúria de Saturno. Pondo-se em pé, com os olhos acesos, esbravejou: não quero ouvir falar mais nesta palavra aqui no céu. Imediatamente ordenou que a pobre Cibele saísse da sua frente, para que pudesse reorganizar os seus pensamentos». In AS Franchini e Carmen Seganfredo, As 100 Melhores Histórias da Mitologia, Deuses, Heróis, Monstros, Guerras da tradição Greco-Romana, L&PM, 2003, 2007, ISBN 852-541-316-X.

Cortesia de L&PM/JDACT

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Mariana apalpou a bolsa de cintura. Sentiu o volume dos papéis com as contas feitas por Tenório. Desistiu de mostrá-los ao primo; era melhor ser roubada pelo amanuense»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Contrato da Carne
«(…) Isso é vida de freira. Uma luz forte entrava através das gelosias por onde se avistavam mastros de navios e o trapiche, roupas de cores vivas penduradas ao sol, sacadas e rótulas de treliças. Ouviam-se cavalos passando, gente gritando, crianças. Mariana animou-se com os ruídos da rua e as luzes que invadiam aquele aposento com cheiro de mofo. Sobre uma almofada, viu o caixote com letras douradas. Chegou na frota, não? Fernando abriu a caixa e retirou o pano, exibindo o retrato com veneração. Nosso rei! Mariana flexionou os joelhos, em cumprimento. Majestade. O rei!, em efígie. É como se estivesse presente entre nós. Mariana curvou-se de novo, agora com muito mais reverência. Os olhos do governador brilhavam. Sabeis o que significa a presença do rei no Rio de Janeiro?, disse Fernando, sem desviar a sua atenção do retrato. A graça real. O poder divino e humano, senhor da vida e da morte dos homens. Os únicos limites do rei são o próprio rei. Ele tem mesmo as sobrancelhas arqueadas. Dona Maria Clara o viu pessoalmente. Significa tenças, empregos, privilégios, benefícios, honra. Poder. Ele é tão jovem, disse Mariana.
Fernando cobriu o retrato. Sobre a mesa do governador havia papéis, tinteiro, areeiro e pena, lacre, um rolo de fita de veludo, relíquias, uma pequena escultura dourada de nereidas nuas entre serpentes marinhas. Quereis tomar algo? Porto? Não, disse Mariana. O governador fez sinal para que o mordomo se retirasse. Ficaram a sós. Como vai vossa mulher? Como sempre, ocupada com costuras ou bilros. E os mancebinhos? Estão todos bem. E vós? Tenho andado bastantemente cansado. É muito mais difícil governar o Rio de Janeiro que Pernambuco. Aqui há problemas imensos, serão mais dois anos de lutas sem tréguas. Fernando tinha que governar as armas e presidir às juntas da Justiça e da Fazenda, com inspecção sobre o estado político, conforme regimentos aprovados pelo rei. Mas como fazer isso se os provedores, ouvidores, tesoureiros, procuradores, escrivães se engalfinhavam?
Além das questões internas o governador devia enfrentar piratas que atacavam em Cabo Frio, franceses rondando e planeando assaltos pelo mar, espiões europeus, soldados que desertavam, o descaminho do ouro, rusgas, desinteligências, antagonismos, paixões, devassidão. Cruzei com o bispo no corredor. Fingiu não me ver. Não creio, prima. Devia estar mesmo cego. Depara-se com problemas terríveis, no momento. Está sem catedral. Espera esmolas do povo a fim de construir a nova Sé, pois o rei não lhe enviou o dinheiro de que precisa. Não podeis dar uns dez mil cruzados de esmola? Vou mandar o senhor Tenório verificar.
Mariana apalpou a bolsa de cintura. Sentiu o volume dos papéis com as contas feitas por Tenório. Desistiu de mostrá-los ao primo; era melhor ser roubada pelo amanuense. Uma dama, dizia sua mãe, não devia revelar nem a si mesma as suas fraquezas. Dona Mariana, soube que andastes vendendo propriedades. Estais com problemas de fazenda? Ah, Deus, não tendes nada que investigar a minha vida. Não vou dar a ninguém o prazer de saber-me arruinada. Uma chusma começou a berrar na rua. Um cortejo fúnebre, ao passar diante do Carmo, estava sendo dissolvido pelos padres que brandiam paus no ar, golpeando os acompanhantes do enterro que vingavam com murros, pontapés, pedradas. Os carmelitas não se conformam com o privilégio da Misericórdia de realizar funerais, disse Fernando. Sabeis quanto se lucra com um enterro? Porque estais sempre contra os padres?» In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ES/CdasLetras/JDACT

A Casa do Pó. Fernando Campos. «Descemos rapidamente a vertente, observando o manso rio a deslizar rumorejante entre choupos esguios, hortas viçosas, suculentos pomares e jardins floridos que a ponte romana, fulva, galgava com leveza»

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A Letra Pitagórica
«(…) Sabes o que diz o melro, Diogo perguntava-me. Que é? E eu muito depressa, acentuando as vogais, a voz ora em flauta ora em assobio: cereja bical, cá pró meu papo real! Cereja negrita, esforrica, esforrica, esforrica!... Diogo ria: onde aprendeste isso? Era do povo. Algures o ouvira, quando era pequeno, mas não sabia onde... Saltava-nos aos pés um coelho, uma lebre fugia disparada à nossa frente pelo brejo fora, ou um bando de perdizes afastava-se lesto caminhando solidárias pelo mato. Um simples escaravelho, empurrando vagarosamente a sua enorme bola de esterco, nos fazia parar, ou um formigueiro escavado na vereda ou a borboleta variegada que pousava perto de nós. A meio caminho, na encosta da serra, sentamo-nos à sombra de uma mimosa e, enquanto olhávamos ao longe, na fímbria do mar, o lugar de Portimão, fazíamos as honras ao farnel que os bons dos frades em Lagos nos tinham dado para a jornada. Em seguida retomámos a caminhada, apenas interrompida quando, ante um fio de água que brotava das rochas, saciávamos a sede. Anda que anda na contemplação das maravilhas de Deus caía o dia sem quase darmos conta e sem cansaço. Quando chegámos ao alto de um monte dos muitos que compõem a serra de Monchique e começamos a dobrar a encosta, avistamos a velha cidade, o violeta crepuscular das colinas a coroarem o castelo, muralhas de pedra avermelhada, polida, faiscante sob os raios de sol que abrasavam, cingindo de fogo a brancura do casario baixo. Era uma jóia de ouro e prata engastada na púrpura dos montes em anfiteatro.
Descemos rapidamente a vertente, observando o manso rio a deslizar rumorejante entre choupos esguios, hortas viçosas, suculentos pomares e jardins floridos que a ponte romana, fulva, galgava com leveza. Silves, a moura encantada!... Tinha lido alguma coisa do seu passado e sabia que antes desta Silves outra existira, nostálgico paraíso de árabes, cantada por dúlcidos poetas, que o tempo, os terremotos, as guerras, a depredação dos homens haviam feito quase totalmente desaparecer. Seguimos na correnteza do canal que abastece de água a cidade e chegámos junto de um lindo cruzeiro lavrado em pedra calcária, brancura realçada pelo verde-negro aprumado dos ciprestes em roda. De um lado apresentava a imagem de Cristo crucificado, na outra face depois de descido da cruz, nos braços de sua Mãe. Atravessada a ponte sobre o rio Arade, passamos pela Ermida da Senhora dos Mártires, que era do tempo de Sancho I, e admiramos então toda a imponência das muralhas, com suas torres e adarves, a guarnição das ameias, a torre de menagem e, na praça de armas, a lendária cisterna da moura.
Caminhamos pelas ruas já desertas e a grande mole da sé catedral, com a sua formosa ábside de estranhas gárgulas, as suas frestas estreitas, os seus botaréus quadrados, a sua portada de arquivolta, em ogiva, pesava sobre nós como a noite que vinha caindo. Urgia tomarmos pousada, o que não foi coisa difícil. Os nossos irmãos franciscanos encontram-se espalhados por toda a parte. Outra vez de lombada na manhã seguinte a caminho de Tavira. Como a distância era muito grande, fizemos uma paragem em Loulé, que era condado desde o tempo de el-rei Afonso V, mas havia recentemente voltado ao senhorio da coroa. A gente da vila estava ainda fortemente emocionada com os acontecimentos que ocasionaram tal facto. Não falava noutra coisa quando encontrava algum forasteiro, como nós, que ainda não estivesse a par de tão extraordinário sucesso. Foi assim que ouvimos, em mais de uma versão, a estranha história do casamento do infante Fernando, filho mais novo de el-rei Manuel I, com a condessa de Marialva e de Loulé, dona Guiomar Coutinho.
Não devia ter casado!, dizia uma mulherzinha que lavava roupa num tanque, à sombra de uma frondosa figueira, onde tínhamos parado a matar a sede. Pudera!, dizia outra, sem deixar de esfregar uma saia ensaboada. Ela já tinha casado com outro!... Aquilo era a puxar conversa, a ver se nós arrebitávamos a orelha da curiosidade, se perguntávamos alguma coisa, que o que elas queriam era dar à língua. Mas nós, fiúzas, moita! Elas continuavam: ó mulher, eu ainda tremo toda só de pensar!... Deus não perdoou! Não, que o pecado era de alto lá com ele! Cruzes canhoto! Eu quanto a mim foi castigo de mais. Morrerem assim os filhos, marido e mulher no espaço de um mês!... Era um coito danado! ...Sabe-se lá se ela não falou verdade e era o outro que estava a mentir dizendo que tinha casado com ela a furto? A mentir o senhor marquês de Torres Novas? Um senhor daqueles, neto de rei? Ora! Não me venhas com essa, mulher! Eu seja ceguinha se o que ele disse não é verdade... E vede como ele anda! Afastou-se da corte e os anos vão passando e ele não há meio de receber mulher... Lá isso é verdade!
Aquilo é paixão assolapada que lhe rói o peito... A mim ninguém me tira da cabeça que ela era aleivosa, dizia a primeira, torcendo com gana uma camisa como se tivesse nas mãos o pescoço da infeliz». In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

A Casa do Pó. Fernando Campos. «No dia seguinte, muito cedo, pela fresca, metemo-nos a caminho em direcção a Silves, que eram bem seis léguas andadas de Lagos. A lonjura da jornada não amedronta franciscanos…»

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A Letra Pitagórica
«(…) Vales, furnas, grutas, os ecos do vento e do mar, planícies escorridas, os caminhos da alma e da vida!... Lanço atrás um olhar, à estrada, como a querer com os olhos retroceder e recordar todas as vias percorridas nestas últimas semanas. E quantas foram!... Tínhamos descido, em nosso vagar, por Ferreira, Odemira, Algezur e, deixando a orla marítima e atravessando a serra do Espinhaço, atingíramos a vila de Lagos, cujo casario muito branco, a brilhar ao sol, já extravasava das velhas muralhas torreadas, de pedra tisnada, de tal maneira que o seu alcaide, Diogo Silva, andava empenhado no levantamento de uma segunda cerca que envolvesse toda a povoação e a protegesse. Depois de passarmos pela Ermida da Senhora dos Aflitos e, mais perto das primeiras casas, pela de São João Baptista, metemos pelo emaranhado das ruelas estreitas, seguimos pela gafaria, com o seu hospital e a Ermida de São Lázaro, chegamos à Ribeira dos Touros, junto às muralhas, onde se haviam edificado as casas da Misericórdia, os Paços do Concelho, a Vedoria, a Portagem e se erguia o pelourinho, e pela Porta da Vila entramos a cerca, atingimos a Igreja de Santa Maria, onde por algum tempo se encontrou o túmulo do infante Henrique, antes de ser trasladado para Santa Maria da Vitória, caminhamos colados à frontaria do Convento de São João de Deus, de irmãos hospitalares, ao pé da Ermidinha de Nossa Senhora da Graça e da de São Pedro, onde os mareantes têm a sua irmandade do Corpo Santo, e chegamos finalmente ao Convento de São Francisco, dos nossos irmãos capuchos, fundado em 1518 pelo bispo Fernando Coutinho. Aí, apresentadas as nossas obediências por irmão Diogo, fomos acolhidos com grande alegria e mostras de cristão acatamento e repousamos essa noite. Na manhã seguinte, depois de rezarmos as matinas, saímos a visitar a vila mais de espaço. Chegados ao Palácio dos Governantes, saímos pela Porta do Mar e fomos dar à Ribeira das Naus. Formosa coisa de ver a baía toda engalanada de embarcações, algumas das quais de Milão, de Génova, de Veneza, e a grande azáfama que, mais adiante, fervia com o afadigado trabalho dos pescadores que chegavam do mar, os barcos carregados de pescaria. Ao correr da ribeira, a seguir à lota, estendia-se o mercado com as suas tendas das mais variadas mercadorias, os pregões dos vendedores, na sua maioria judeus. Meti conversa com alguns que nos disseram do seu receio das perseguições, de que a todo o passo eram vítimas. Mal pudessem sairiam do reino em busca de terras mais seguras para as suas vidas e haveres, judeus como estes e também queixosos e receosos, sobretudo depois da notícia que tiveram da matança dos seus irmãos em Lisboa, em tempo de el-rei Manuel I, e de outros sinais de ódio e perseguição aos cristãos-novos, encontramos nós muitos noutras terras que visitamos. Além das igrejas, ermidas e casas que havíamos avistado de raspão na tarde anterior quando chegáramos à vila e que agora percorríamos com demora, admiramos ainda a vetusta Ermida de Santo Amaro, a de Santa Bárbara e a da Senhora da Conceição, e o edifício do Convento dos Carmelitas. Os mareantes genoveses e milaneses haviam mandado construir três ermidas da sua devoção: a de São Brás, a de São Roque e a de Porto Salvo, mostrando bem com isso quanto ficavam gratos à divina Providência sempre que chegavam àquele porto seguro.
No dia seguinte, muito cedo, pela fresca, metemo-nos a caminho em direcção a Silves, que eram bem seis léguas andadas de Lagos. A lonjura da jornada não amedronta franciscanos e a mim muito menos, que qualquer trecho de paisagem, recorte de árvore, canto de ave, colorido de flor ou rescendência de arbusto é quanto baste para cair em êxtase quase místico. Por vezes era a branda encosta escorrendo até ao vale a neve das amendoeiras. Outras vezes caminhávamos por um chão de tojo, de sargaço e rosmaninho, de serpão, arruda, morrião e tomilho, entre espinheiros agrestes e estevas ostentando nas flores a sépia das cinco chagas. Seguíamos pela sombra das alfarrobeiras e das figueiras, cortávamos caminho por sob um laranjal onde cantavam melros». In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

Prior do Crato. António I. Manuel Amaral. «E então fora rei de direito, entre o fatídico 4 de Agosto de 1578 até à aclamação de seu tio Henrique, a 28 desse mesmo mês»

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«(…) Dom António nasceu em Lisboa, em 1531, tendo falecido em Paris, a 26 de Agosto de 1595, tendo sido enterrado no Convento de S. Francisco da mesma cidade. Era filho natural ou legitimado do infante Luís e de Violante Gomes, mulher plebeia. Foi rei de Portugal desde 19 de Junho de 1580, data da sua aclamação em Santarém, até à derrota de Alcântara, a 25 de Agosto seguinte. Nunca resignou aos seus direitos e, embora exilado em França a na Inglaterra, manteve luta armada contra Filipe II, nos Açores (1582‑1583) a em Lisboa (1589). De várias mulheres teve 10 filhos, sendo os mais conhecidos:

Manuel de Portugal (n. em Lisboa, 1568; f. em Bruxelas, a 22 de Junho de 1638), acompanhando seu pai no exílio e vivendo em França, na Inglaterra a na Flandres. Casou em 1597 com Emília de Nassau, princesa de Orange, dela se separando em 1625 por motivos de ordem religiosa;
Cristóvão de Portugal (n. em Tânger, em Abril de 1573; f. em Paris, a 3 de Junho de 1638). Viveu também no estrangeiro, sustentando a causa paterna e, após a morte de António I, manteve vivo o mesmo ideal.

A Legitimidade de Dom António, prior do Crato
Diz Vaz São Payo que não podemos crer que o cura da Sé chamasse sogro ao pai da manceba do Príncipe, mesmo que com ele vivesse maritalmente Também refere que este assento fornece o nome, que não vimos mencionado em nenhuma outra fonte, do pai de Violante Gomes. Justiça seja feita, já em 1917 o visconde de Faria, na 3ª edição da Descendance de D. Antonio, Prieur de Crato nomeava o pai da Bela Pelicana como Pedro Gomes, não hesitando também em afirmar que D. António era filho do casamento secreto de Luís, duque de Beja, com Violante Gomes, filha de Pedro Gomes. Não menciona a fonte em que se baseia. Mas poderá ser a mesma que está guardada no Arquivo de Évora. Já antes de Alcácer Quibir, e com grande acuidade depois, a questão é recorrente e nunca mais foi encerrada. A comprová-lo está o tópico recente no Fórum do Genea Portugal Dom António I, 18.º Rei de Portugal?!... O tema, que também nos apaixona, levou a que o reestudássemos. E os resultados são surpreendentes. A todos passou despercebido o estudo recente de Luis Mello Vaz São Payo, D. António Prior do Crato e outros cavaleiros da Ordem do Hospital de São João (1997). Neste trabalho, tão discreto como fundamental, vem reproduzido um assento da Sé de Évora de 15 de Junho de 1544, descoberto pelo autor, no qual um baptizando é filho de uma escrava de Pero Gomes sogro do Infante Dom Luis.

Sustenta Faria que o casamento fora secreto por morganático, mas que a família real reconhecia António como um dos seus membros, vistos os cargos e prerrogativas que seus tios João III e que o cardeal Henrique lhe concederam. Quanto à sua mãe Violante Gomes, não era judia como com alguma conveniência se disse. Pertenceria à pequena nobreza, católica, tendo abandonado o mundo, com o consentimento de seu marido, e professado na Ordem de São Bernardo, morrendo ainda jovem no Mosteiro de Almoster. Poderá concluir-se assim que António I sucedeu a Sebastião I, por preceder na linha sucessória ao cardeal. E então fora rei de direito, entre o fatídico 4 de Agosto de 1578 até à aclamação de seu tio Henrique, a 28 desse mesmo mês. Enredado nos interesses imperiais dos Áustrias, o cardeal Henrique pressionou o papa a pronunciar-se pela ilegitimidade do sobrinho. Mas o próprio Gregório XIII veio a revogar aquela sua declaração». In Manuel Amaral, Portal da História, Arqnet, Portugal, 2000-2015, Wikipédia

Cortesia de PdaHistória/JDACT

As Mulheres de Lesbos nas Mãos de Catulo. Zilma G. Nunes. «Safo é singular, não há referência a outra mulher na sua época que na arte tenha-se igualado a ela»

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«Vieste, e fizeste bem. Eu esperava,
queimando de amor; tu me trazes a paz».
Safo

«(…) A lírica eólica de Safo é pura expressão do sentimento, inspirada na vida circundante e direccionada a um determinado círculo de pessoas. A conexão viva da poesia de Safo, especialmente nas canções nupciais e amorosas, com os anseios das jovens companheiras que se agrupavam em torno dela adquire uma importante significação. Refere Jaeger que tudo se passa como se o espírito grego precisasse de Safo para dar o último passo no mundo da intimidade e do sentimento subjectivo. Os gregos deviam ter sentido isso como algo de muito significativo quando, no dizer de Platão, honraram Safo como a décima musa. Safo é singular, não há referência a outra mulher na sua época que na arte tenha-se igualado a ela. É comum nos versos de Safo a descrição de experiências íntimas com vivo realismo. Exemplo disso encontramos numa canção composta por ocasião das bodas de uma de suas discípulas:

Basta-me ver-te e ficam mudos os meus lábios, ata-se a minha língua, um fogo subtil corre sob a minha pele, tudo escurece ante o meu olhar, zunem-me os ouvidos, escorre por mim o suor, acometem-me tremores e fico mais pálida que a palha; dir-se-ia que estou morta.

Safo, por meio de uma linguagem pessoal, confere sentimento profundo aos versos e consegue expressar uma forte individualidade através da grande força do amor:

Alguns dizem que o que há de mais belo na Terra é um esquadrão de cavalaria; outros, um exército de guerreiros apeados; outros ainda, uma esquadra de navios; mas o mais belo é ser amado por quem o coração suspira.

Essa linguagem viva de Safo é geradora de linguagem. A partir da ideia de que Safo mantinha uma sociedade feminina para as moças de Lesbos surge o emprego actual da palavra lésbica, utilizada pela primeira vez em língua inglesa em 1890. André Lardinois em artigo publicado por Bremmer na obra citada intitulado Safo lésbica e Safo de Lesbos explica que o substantivo lesbianismo, relativo a homossexualismo de mulheres é ligeiramente mais antigo. Nesse contexto, diz o pesquisador, que o termo é utilizado com letra maiúscula para marcar o vínculo com a ilha de Lesbos. As enciclopédias, de modo geral, registram o verbete lesbianismo conforme se pode exemplificar com a reprodução do texto da Encyclopaedia Britannica do Brasil homossexualismo feminino. O mesmo que safismo, pois tem origem no nome de Safo, poetisa grega que liderava um grupo de mulheres que adoravam as musas e Afrodite na ilha de Lesbos (Grécia). Essa Encyclopaedia remete ainda ao verbete Safo e explica (século VII a. C.). Poetisa grega da ilha de Lesbos. De suas preferências sexuais vêm as expressões lesbianismo e amor lésbico.
Afirma Lardinois que as evidências são muito escassas para se atribuir de forma taxativa um comportamento homossexual a Safo. Passa, o autor, a analisar alguns dados relativos aos poemas de Safo que teriam dado margem a essa definição. Escolhe os cantos sobre as jovens garotas, já que foi principalmente por causa deles que surgiu a suposição de que Safo era lésbica. A poeta era respeitada na sua comunidade, escrevia cantos nupciais que eram cantados pelas amigas da noiva. Também faz referências, na sua poesia, a diversas garotas em diferentes situações: aquelas que abandonavam a sociedade para se casarem, ou qualquer outra que ainda permanecia no grupo em situações diversas. Afirma o investigador, que nos versos estudados, não se encontram claras indicações de práticas homossexuais. Há, contudo, que se analisar o facto de que não necessariamente, se ela fosse homossexual, deixaria indícios relatados na sua poesia. A descrição que apresenta das jovens como atraentes, até mesmo a seus olhos, pode ser lida como um elogio justificável e necessário num canto nupcial.
Safo desenvolve nos poemas uma visão cultural da mulher com a valorização do corpo feminino, na qual se diferencia numa ordem prática do que é exposto pela sociedade masculina, no que corresponde aos atributos idealizados, afirma José Roberto Paiva Gomes. Continua o autor:

Vemos surgir, portanto, com a narrativa de Safo, a mulher falando sobre o seu próprio universo e relacionando a experiência do sujeito feminino. Os poemas representam uma excepção, ao representar o quotidiano das mulheres e a sua relação com a sociedade e a natureza. Desta forma, Safo narra e observa de uma maneira distinta as relações sociais quando comparadas com as preocupações masculinas que foram priorizadas numa perspectiva do colectivo e onde a família e a sociedade dos homens são os temas principais».
In Zilma G. Nunes, As Mulheres de Lesbos nas Mãos de Catulo, Prelúdio de uma voz oculta, 2002, UFSC, Wikipedia.

Cortesia de UFSC/JDACT

Prior do Crato. António I. Manuel Amaral. «O prior do Crato baseava a sua candidatura na situação de filho legitimado do infante Luís, segundo filho do rei Manuel I»

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«Nasceu em Lisboa, filho de uma mulher do povo e do infante Luís. Seu pai desejava que ele seguisse a vida eclesiástica e a sua educação processou-se em sucessivos mosteiros e colégios religiosos, tendo tido por mestres o grande humanista frei. Diogo Murça, o padre Simão Rodrigues Azevedo, o teólogo Pedro Margalho a frei Bartolomeu dos Mártires. Com a morte de seu pai decide romper com a carreira que lhe tinha sido imposta. Já prior do Crato e com as ordens de diácono, recusa a ordenação de presbítero e comporta-se como pessoa secular. Por esse motivo, seu tio o cardeal Henrique manifesta-lhe um ódio declarado, o que o leva a exilar-se em Castela, em várias ocasiões, durante a menoridade de Sebastião. Com a subida ao trono deste monarca e gozando da sua estima, António desempenha o cargo de governador de Tânger.
Obtém, então, dispensa do papel das ordens de diácono. Toma parte na batalha de Alcácer-Quibir e é feito prisioneiro. Resgatado, regressa a Lisboa para chefiar um dos partidos nacionais que se opunham à candidatura de Filipe II ao trono português. O prior do Crato baseava a sua candidatura na situação de filho legitimado do infante Luís, segundo filho do rei Manuel I, uma vez que não havia descendentes directos de João III. Era necessário, todavia, provar o matrimónio secreto dos seus pais. Organiza-se um processo a António, obtém uma sentença favorável, mas a actuação pessoal do cardeal-rei, que contesta aquela decisão, culmina numa nova sentença desfavorável.
Com a morte do cardeal, as tropas filipinas entram em Portugal. Os partidários do prior do Crato aclamam-no rei em Santarém; Lisboa e Setúbal recebem-no vibrantemente e, em breve, quase todos os burgos do reino alinham a seu lado. Mas, não dispondo de exército organizado, nem de recursos, é derrotado na batalha de Alcântara pelo exército castelhano. Consegue fugir com dificuldade para o estrangeiro onde, nas cortes de França a de Inglaterra, procura obter auxílio para lutar contra Filipe II.

Nasceu em Lisboa, filho de uma mulher do povo e do infante D. Luís. 
Seu pai desejava que ele seguisse a vida eclesiástica e a sua educação processou-se em sucessivos mosteiros e colégios religiosos, tendo tido por mestres o grande humanista Fr. Diogo de Murça, o padre Simão Rodrigues de Azevedo, o teólogo Pedro MargaIho a D. Frei Bartolomeu dos Mártires. 
Com a morte de seu pai decide romper com a carreira que lhe tinha sido imposta. Já prior do Crato e com as ordens de diácono, recusa a ordenação de presbítero e comporta-se como pessoa secular. Por esse motivo, seu tio o cardeal D. Henrique manifesta-lhe um ódio declarado, o que o leva a exilar-se em Castela, em várias ocasiões, durante a menoridade de D. Sebastião. Com a subida ao trono deste monarca e gozando da sua estima, D. António desempenha o cargo de governador de Tânger. 
Obtém, então, dispensa do papel das ordens de diácono. Toma parte na batalha de Alcácer-Quibir e é feito prisioneiro. Resgatado, regressa a Lisboa para chefiar um dos partidos nacionais que se opunham à candidatura de Filipe II ao trono português. O prior do Crato baseava a sua candidatura na situação de filho legitimado do infante D. Luís, segundo filho de D. Manuel, uma vez que não havia descendentes directos de D. João III. Era necessário, todavia, provar o matrimónio secreto de seus pais. Organiza-se um processo a D. António obtém uma sentença favorável, mas a actuação pessoal do cardeal-rei, que contesta aquela decisão, culmina numa nova sentença desfavorável. Com a morte do cardeal, as tropas filipinas entram em Portugal. Os partidários do prior do Crato aclamam-no rei em Santarém; Lisboa e Setúbal recebem-no vibrantemente e, em breve, quase todos os burgos do reino alinham a seu lado. Mas, não dispondo de exército organizado, nem de recursos, é derrotado na batalha de Alcântara pelo exército castelhano. Consegue fugir com dificuldade para o estrangeiro onde, nas cortes de França a de Inglaterra, procura obter auxílio para lutar contra Filipe II.
Duas esquadras francesas enviadas à Ilha Terceira são derrotadas sucessivamente pelos castelhanos. A Terceira perde-se, como último bastião de António. Vivendo miseravelmente em França, a expensas de Catarina Médicis resolve passar à corte de Isabel I pedindo novo auxilio. Os ingleses como represália contra o ataque da Invencível Armada, resolvem enviar a Portugal uma esquadra, comandada por Drake. António I desembarca em Peniche mas sofre novo desaire. Regressa a França e, depois de ter conseguido um novo auxílio de Henrique IV, morre em Paris de uma crise de uremia, sem realizar o projecto por que tanto lutou». In Manuel Amaral, Portal da História, Arqnet, Portugal, 2000-2015, Wikipédia.

Cortesia de PdaHistória/JDACT