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segunda-feira, 29 de julho de 2013

Há dias assim… A Luta pela Liberdade. Viriato. Maurício Pastor Muñoz. «Em linhas gerais, a ‘guerra de guerrilha’ é a guerra ibérica ou hispânica levada a cabo pelas tribos da Meseta ou do litoral. O seu objectivo político-militar era a independência da sua pátria em relação a ... Roma»

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Estratégia
«(…) Relativamente à estratégia de combate que adoptou, podemos dizer que Viriato foi o representante típico (e o mais representante da antiguidade) da guerra de guerrilha, ou seja, da táctica militar que convinha aos habitantes da Península Ibérica e que foi usada com muito sucesso no seu território. Os romanos chamavam a este tipo de guerra bellum, e também latrocinium, para sublinhar que não era uma guerra organizada, ou seja, desprezava e violava as regras da guerra convencional, e que era protagonizada por latrones, ou seja, bandidos ou bandoleiros. No entanto, de acordo com a tradição que nos chegou através de Lívio, as lutas contra Viriato são exclusivamente designadas por bellum. E Roma talvez se lhes referisse da mesma maneira, mas não há certezas a este respeito.
Em linhas gerais, a guerra de guerrilha é a guerra ibérica ou hispânica levada a cabo pelas tribos da Meseta ou do litoral. Mas graças a Viriato esta forma de luta, que até aí fora usada unicamente como táctica defensiva, torna-se numa arma terrível que paralisa e destrói os exércitos romanos, uns atrás dos outros. E é, precisamente, este novo uso da táctica de guerrilha, caracterizado por um arrojado espírito de ofensiva, que Schulten identifica como aquilo que distingue a guerra de Viriato de outras guerras populares. Até, aí, a guerra de guerrilha era uma estratégia defensiva, como foi o caso da guerra celtibérica de Numância. Pelo contrário, a característica essencial da estratégia de Viriato era o ataque. O seu objectivo político-militar era a independência da sua pátria em relação a Roma, a expansão da sua influência e poder às ricas comarcas meridionais (Betúria, Carpetânia e Bética) e a garantia de que esses factos seriam reconhecidos por Roma. Viriato levou a guerra para território romano, e, segundo Apiano, foi aí que foi investido chefe militar, ou caudilho, das tropas lusitanas. Na prática, o seu desígnio era a ofensiva estratégica. Na verdade, nunca conseguiu que a posse do território conquistado fosse duradoura, mas o aumento dos bens materiais através dos saques era o suficiente e já o satisfazia.
Para uma ocupação definitiva precisava de homens, de meios materiais e, sobretudo, de uma capacidade organizativa e administrativa de que não dispunha. Quando falamos da sua estratégia, há que sublinhar que se tratava de uma estratégia de desgaste, de uma estratégia dilatória, que, em certos casos podia igualmente conduzir a investidas tácticas letais. A táctica militar usada por Viriato variava de acordo com as circunstâncias. Umas vezes tinha como objectivo cansar o adversário, o que conseguia provocando o nervosismo ao impedir que se reabastecesse, outras vezes eliminava-o pela surpresa da emboscada ou de uma fuga aparente. Só muito excepcionalmente combatia com o exército em formação. Isto explica-se, por um lado, porque as suas tropas eram menos numerosas, pela inferioridade das armas dos seus soldados em relação às dos legionários romanos, e porque algumas das armas dos lusitanos eram fornecidas pelos próprios romanos sendo, com certeza, de fraca qualidade. A grande mobilidade que caracterizava as tropas lusitanas possibilitava o tipo de combate que lhes era mais vantajoso: o combate disperso em que resultavam em cheio os ataques de surpresa, seguidos de fuga rápida e de um contra-ataque repentino. Por isso, as armas de arremesso eram mais importantes do que a espada. Ora, precisamente, Viriato era muito hábil a manejar a lança de arremesso.
Por outro lado, o objectivo último de Viriato não era a conquista permanente do país inimigo, mas o saque sistemático do território. Logo, a rapidez e a surpresa eram essenciais neste tipo de gurra. Viriato desorientava e aniquilava os romanos através do ataque disperso levado a cabo tanto por soldados de infantaria como de cavalaria. Os romanos chamavam a esta técnica concursare, o temível concursare ibérico, o constante atacar, retirar e contra- atacar a que tantas vezes se referem os historiadores romanos. Este tipo de ataque também foi usado por outros povos, como os berberes africanos ou os partos, que partilhavam a mesma arte bélica, e até mesmo pelos próprios romanos, como sucedeu na guerra dos pompeianos contra César.


Uma das tácticas mais usadas por Viriato era a emboscada, em que rapidez e surpresa se aliam para atacar e derrotar o inimigo. Normalmente, armavam-se emboscadas em desfiladeiros que obrigavam os soldados romanos a marchar numa longa e estreita fila, sendo, portanto, um magnífico alvo para os atacantes. Viriato era mestre na arte de atair o inimigo para a emboscada, tão depressa fugindo como atacando. Com as emboscadas destrói o inimigo com toda a segurança: a falsa retirada induz o inimigo a persegui-lo precipitada e desordenadamente, e nessa altura rapidamente se volta contra ele e passa ao ataque, provocando ainda maior desordem nas tropas inimigas.
As caravanas de abastecimento e os soldados forrageadores eram particularmente vulneráveis aos ataques de Viriato. Os últimos por terem de se dispersar por amplas regiões para conseguirem pasto suficiente para os animais, e aquelas por terem de percorrer caminhos conhecidos sendo, portanto, fáceis de localizar e atacar. Quando Viriato queria despistar o inimigo recorria à seguinte táctica:
  • escolhia um pequeno grupo de soldados e atacava inesperadamente, permitindo assim que o grosso do seu exército tivesse tempo para fugir e para se esconder. Se, por outro lado, queria livrar o seu exército de um ataque desvantajoso, dispersava-o em pequenos grupos para depois voltar a reuni-lo em local combinado. Sertório também usou estas estratégias na sua luta contra Roma. Viriato não costumava ficar muito tempo no mesmo sítio, pois a sua estratégia era essencialmente movimento, mas nalgumas ocasiões ocupava uma fortaleza, uma cidade ou um monte, a partir dos quais se lançava ao ataque juntamente com as suas tropas, como fez na cidade de Tucci (Martos) ou no Mons Venerís (Monte de Vénus).
In Maurício Pastor Muñoz, Viriato La Lucha por La Liberdad, Viriato, A Luta pela Liberdade, Alderabán, Ediciones,SL, 2000, Ésquilo, Lisboa, 2003, ISBN 972-8605-23-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 21 de julho de 2013

Há dias assim... A Luta pela Liberdade. Viriato. Maurício Pastor Muñoz. «… era superior ao seu povo em talento político e sentimento patriótico, pois, ao contrário dos seus compatriotas, não agia movido por interesses materiais. Com a sua morte, comprovou-se a verdadeira dimensão do seu poder e carisma»

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Personalidade
«(…) Assim, Apiano estima que foi chefe militar (caudilho) das tropas lusitanas durante 8 anos (147-139 a. C.), Justino durante 10 anos, Diodoro durante 11 anosd, Lívio e os seus comentadores Floro, Orósio e Eutrópio durante 14 anos, Veleio Patérculo durante 20 anos. Esta disparidade decorre do facto de considerarem que se tornou chefe ou desde o início da guerra (153 a. C.) ou desde o massacre de Galba (150 a.C.).Mas quer se tenha mantido à frente do exército durante 8 anos ou durante 20, o certo é que não o teria conseguido se não possuísse os traços de personalidade que o caracterizavam. A razão fundamental para a sua longa permanência à frente dos lusitanos é a sua extraordinária personalidade. A sua rapidez de pensamento, compreensão e acção, assim como a sua capacidade de organização, não se restringiam à actividade militar, mas afectavam outros aspectos da sua vida, como a justiça que demonstrava na divisão dos despojos, a simplicidade do seu vestuário, a sobriedade da sua alimentação, o desprezo pela riqueza e pelo luxo, a sua atitude perante o perigo e as condições atmosféricas adversas, etc.
Com as obras de Schulten e os estudos recentes sobre as fontes determinou-se, com absoluta certeza, que foi caudilho, ou seja, chefe militar, de 147 a 139 a.C., de modo que a posição de Apiano (que sustentava que o seu comando durara 8 anos) é confirmada pela investigação moderna. Durante este período, a sua estratégia será fundamentalmente a mesma. Viriato soube assegurar o entusiasmo e o apoio dos seus compatriotas graças à sua generosidade, imparcialidade e equanimidade, qualidades tão elogiadas nas fontes, e que no fundo não revelam mais do que prudência e conhecimento dos homens, do seu povo. Por exemplo, só lhe cabia uma parte dos despojos, igual à dos outros, e imediatamente a distribuía, como prémio, pelos que se haviam distinguido na batalha. Com hábil diplomacia e rigorosa autodisciplina, conseguiu encontrar o ponto de equilíbrio entre o exercício da autoridade e a observância da máxima igualdade exigida pelos seus compatriotas.
Viriato nunca ostentou o seu poder e, como os outros lusitanos, continuou a usar o seu antigo traje de pastor. Assim, como disse Dião Cássio, equiparando-se aos mais humildes do seu povo, era superior a todos. Este autor também refere que possuía a capacidade, indispensável na guerra, de atenuar as derrotas. Também conseguiu que o seu povo acreditasse que possuía a arte de prever o futuro, conquistando assim o respeito e a confiança da sua gente, que era muitíssimo supersticiosa. Viriato era superior ao seu povo em talento político e sentimento patriótico, pois, ao contrário dos seus compatriotas, não agia movido por interesses materiais. Segundo Apiano, encontramos em Viriato a obstinação e o orgulho ibéricos que caracterizavam os outros ibéricos ou lusitanos, visto que desprezava os celtiberos, aos quais só pediu auxílio em caso de extrema necessidade. Com a sua morte, comprovou-se a verdadeira dimensão do seu poder e carisma, pois a chama da liberdade lusitana que com ele se acendera e inflamara, com ele se apagou.
Algumas histórias sobre o que se passou na sua vida e sobre o que dizia, recolhidas pelos historiadores antigos, permitem-nos completar o perfil desta personagem tão singular. O seu discurso era moderado e preciso e usava com frequência parábolas, alegorias ou exemplos ilustrativos que facilitavam a persuasão dos rudes povos a quem se dirigia. Em certa ocasião, falando aos cidadãos de Tucci (Martos), que num dia estavam do seu lado e no outro do lado dos romanos, referiu o exemplo do homem que tinha duas mulheres, uma velha e outra jovem: a velha arrancava-lhe os cabelos pretos e a jovem os brancos, de modo que acabou por ficar completamente calvo. Acontecer-lhes-ia o mesmo, se não decidissem, de vez, de que lado estavam: ficariam sem nada. Uns seriam mortos por Viriato, outros pelos romanos. No dia do seu casamento, perguntou ao seu sogro Astolpas por que é que os romanos lhe tinham permitido ficar com os tesouros que orgulhosamente exibia no banquete.
Astolpas respondeu-lhe que os romanos os tinham visto muitas vezes mas que não lhes tinham tocado. Viriato afirmou, então, que sentia grande admiração pelo rico Astolpas preferir a perigosa aliança com ele à amizade de Roma e à tranquila posse das suas riquezas, dando a entender que até para Astolpas era mais valioso um homem como ele do que todo o ouro e prata do mundo. Este orgulho ainda mais se evidencia se o imaginarmos encostado à sua lança, no meio da sumptuosa festa, dizendo que, em última instância, quem tivesse armas é que seria o dono de todas aquelas riquezas e que o rico Astolpas dependia muito mais dele que nada tinha, do que ele de Astolpas. Nestas irónicas palavras manifesta-se o feroz orgulho do homem seguro de si e das suas armas. Pouco depois, Viriato viu-se obrigado a sacrificar o seu sogro em nome das condições de paz exigidas pelos romanos e pelo bem do seu povo, à semelhança do que Bruto fez aos seus filhos. Por ser politicamente necessária, teve de tomar essa terrível decisão, mas deve ter-lhe sido muito difícil, sobretudo a ele, duro e fero, um filho genuíno da dura terra ibérica.
Viriato era de uma grande ingenuidade e majestade natural que rareavam entre os romanos. Por isso, era também um homem introvertido e solitário. Os lusitanos não só lhe obedeciam, como o respeitavam e, em geral, eram-lhe absolutamente fiéis, excepto os seus assassinos, evidentemente, mas esses só confirmam a regra. Ficou provado que durante o seu comando não houve quaisquer motins ou conflitos que provocassem crises internas. Compreende-se, portanto, que um homem como ele não fosse amado somente pelas qualidades militares e pelas vitórias que obtinha. A influência da sua personalidade devia ser irresistível.

In Maurício Pastor Muñoz, Viriato La Lucha por La Liberdad, Viriato, A Luta pela Liberdade, Alderabán, Ediciones,SL, 2000, Ésquilo, Lisboa, 2003, ISBN 972-8605-23-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A Luta pela Liberdade. Viriato. Maurício Pastor Muñoz. «Viriato aparece na História dotado de uma personalidade forte e fascinante. Graças a esta personalidade, conseguiu manter-se durante mais de oito anos à frente dos lusitanos, que tanto amavam a liberdade»

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«Muito ilustrativo e demonstrando o seu entusiasmo pela personagem é o texto que Schulten escreve sobre a juventude de Viriato, antes de começar o que ele designa por Guerra de Independência de Viriato. Diz o seguinte:
  • Física e espiritualmente, Viriato era um genuíno filho da montanha. O seu corpo, vigoroso por nascimento, foi fortalecido, desde a mais tenra idade, pela rude vida de pastor, sem casa, nem lar, sob o céu imenso. Em constante luta, como pastor; caçador e bandoleiro, contra o vento e o mau tempo, contra as feras dos bosques e contra inimigos furiosos, tinha conseguido alcançar o perfeito domínio sobre corpo e espírito. Competia com qualquer um em força, rapidez e perspicácia, precisava apenas de uma pequena quantidade de alimento e de sono, e suportava facilmente a fome, a sede, o calor e o frio. Só sentia desprezo pela vida farta e deleitosa. No seu casamento com a filha do rico Astolpas, este exibiu, com grande ostentação, vasilhas de ouro e trajes caros, mas Viriato, apoiado na sua lança, contemplou calado e com ironia o sumptuoso banquete, recusou-se a participar pegou apenas num pouco de pão e carne para a sua gente, fez o sacrifício aos deuses, e por fim, saltou para o cavalo com sua esposa e embrenhou-se pela montanha selvagem, o seu mundo.
Viriato possuía igualmente um apurado poder de observação, que se revelava em especial no conhecimento topográfico do terreno, muito desenvolvido entre caçadores e pastores. Viriato conhecia perfeitamente as montanhas lusitanas, conhecia cada recanto do seu território, por mais perdido e recôndito que fosse. Mas também se orientava perfeitamente em terreno desconhecido, escolhendo, em cada local, a melhor estratégia a seguir. Sabia escolher os caminhos mais seguros para fugir ou para atacar. Estrabão atribui aos lusitanos destreza na emboscada e na espionagem, engenho e habilidade para se livrarem do perigo, que são quase as mesmas capacidades com que Justino qualifica Viriato:
  • ciência da astúcia, perícia para evitar os perigos.
No início da sua maturidade, em 150 a. C., é mencionado pela primeira vez nas fontes escritas. Por essa altura os romanos tinham atacado os lusitanos. O pretor da província Ulterior, Sérvio Sulpício Galba, e o da Citerior, Lúcio Licínio Lúculo atacaram juntos. Os lusitanos, perante a superioridade das forças romanas, renderam-se, e assinaram um pacto. Galba não respeitou o pacto e mandou passar a fio de espada todos os lusitanos que tinha conseguido juntar com a ardilosa promessa de uma distribuição de lotes de terras. De acordo com as fontes, um dos poucos que conseguiu escapar ao massacre foi Viriato. Depois do massacre, refugiou-se entre os seus congéneres tribais que tinham invadido a Hispânia Ulterior. Já tinha, com certeza, algum poder de chefia, embora fosse como lugar-tenente ou chefe subalterno das tropas lusitanas. Tinha conseguido escapar graças à sua excelente capacidade física e à sua rapidez de decisão. Qualidades que mais tarde lhe permitiram assumir o comando das guerras lusitanas.
Desconhecemos que papel desempenhou Viriato nos anos que imediatamente antecederam a guerra, embora seja provável que, a partir de 150 a. C., tenha estado à frente das tropas lusitanas que corajosamente se batiam contra os romanos. Nos três anos que vão de 150 a 147 a.C., Viriato deve ter estado a preparar o seu exército para a grande insurreição contra Roma. A partir daí, encontrá-lo-emos completamente imerso nos eventos bélicos que tão bem conhecemos pelas fontes clássicas. Mas antes, debrucemo-nos sobre mais alguns aspectos da vida da nossa personagem.

Personalidade
Tal como outros chefes militares, como Aníbal ou Sertório, Viriato aparece na História dotado de uma personalidade forte e fascinante. Graças a esta personalidade, conseguiu manter-se durante mais de oito anos à frente dos lusitanos, que tanto amavam a liberdade. Só em raras ocasiões este povo aceitou submeter-se ao comando de um homem. Mas Viriato, graças à sua irresistível personalidade, manteve-se no poder durante todo este tempo, não só como chefe, mas também como rei, e como tal é reconhecido pelo Senado romano. Foi a sua personalidade carismática que o manteve tanto tempo à frente do povo lusitano, como mais tarde sucedeu com Sertório. É muito difícil saber com exactidão quantos anos permaneceu à frente dos lusitanos, visto haver grande discrepância entre os dados que nos facultam os autores clássicos». In Maurício Pastor Muñoz, Viriato La Lucha por La Liberdad, Viriato, A Luta pela Liberdade, Alderabán, Ediciones,SL, 2000, Ésquilo, Lisboa, 2003, ISBN 972-8605-23-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A Luta pela Liberdade. Viriato. Maurício Pastor Muñoz. «Segundo fontes coevas era extraordinariamente forte, rápido e ágil, e também muito parcimonioso na comida e no sono. Diodoro salienta que estava tão endurecido desde a juventude que era insensível à fome, à sede, ao calor e ao frio»

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«De acordo com os costumes lusitanos, o primogénito era o único herdeiro dos bens familiares, e por isso, Viriato, como terceiro filho, o segundo era uma rapariga, tinha-se visto obrigado, como muitos outros jovens, a adoptar a rude vida dos bandos que saqueavam as terras do sul. Também se conta que se destacou muito cedo pelas suas qualidades; seu pai, Comínio, antes de partir para a guerra, deixou-o, com cinco anos, juntamente com a mãe e os irmãos sob protecção dos igeditanos. O pai terá morrido em combate e Viriato teria crescido entre os guerreiros de Igedium com os quais se treinou nas artes da guerra. Contam também que viveu muito tempo nas montanhas como pastor, e que aos dezasseis anos era já um homem feito e destro, curtido pelo vento e pelo ar livre, de enorme resistência física e possuindo uma admirável capacidade de comando, ao ponto de o primeiro bando que integrou o ter eleito chefe. Mas tudo isto não passa de pura ficção, ou pelo menos, de parte da lenda. Nada é mencionado a este respeito nas fontes literárias, e esta circunstância vem confirmar a hipótese da sua origem humilde. Também nada sabemos dos primeiros anos da sua infância que deve ter passado tranquilamente a correr pelas montanhas que o viram nascer e crescer.
Há algumas referências à sua juventude em Apiano, Diodoro e Dião Cássio que no-lo apresentam primeiro como pastor e caçador e depois como salteador e chefe de quadrilhas de bandoleiros, muito comuns na Lusitânia, e que viam na rica comarca andaluza da Bética, pelo menos temporariamente, o seu objectivo natural; e, finalmente, é-nos apresentado como caudilho e chefe dos lusitanos. Portanto, Viriato passou a sua juventude nas montanhas apascentando gado e em seguida, como muitos pastores lusitanos e montanheses, tornou-se bandido. Mas pelas suas qualidades pessoais é escolhido para chefiar as incursões pelas terras férteis da Bética e, por fim, torna-se no chefe dos lusitanos na luta contra Roma.
Ainda muito jovem esteve, com certeza, entre os lusitanos que iniciaram a guerra contra Roma nos anos 154-153, como sabemos por Lívio, Diodoro, Floro, Orósio, Eutrópio e Dião Cássio, participando nas pilhagens atribuídas aos lusitanos. Na juventude, Viriato foi moldado espiritual e fisicamente pela vida rude das montanhas. Além disso, adquiriu a vigorosa compleição que se lhe atribui nas fontes pela luta constante contra os elementos, contra animais selvagens, e ainda em tenra idade, contra homens. Segundo estas mesmas fontes era extraordinariamente forte, rápido e ágil, e também muito parcimonioso na comida e no sono. Diodoro salienta que estava tão endurecido desde a juventude que era insensível à fome, à sede, ao calor e ao frio.
Já na sua juventude, Viriato revelou um talento militar inato. Neste sentido, Estrabão atribui-lhe em especial a habilidade dos lusitanos como espiões, ao armarem emboscadas e conseguirem escapar, evitando perigos e situações adversas. Viriato reunia todas as capacidades que posteriormente o converterão num mestre da guerra de guerrilha que tantas dores de cabeça deu aos romanos, durante estas guerras». In Maurício Pastor Muñoz, Viriato La Lucha por La Liberdad, Viriato, A Luta pela Liberdade, Alderabán, Ediciones,SL, 2000, Ésquilo, Lisboa, 2003, ISBN 972-8605-23-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Viriato. A Luta pela Liberdade. Maurício Pastor Muñoz. «Viriato não deixava de possuir uma sabedoria natural extremamente útil na tomada de decisões; de facto, o seu raciocínio era sensato, prudente e certeiro correspondendo a uma natureza que não fora deformada nem educada por nenhum mestre»

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«[…] Em suma, não empreendia a guerra nem por ganância, nem por amor ao poder, nem movido pela cólera, mas fazia-a por ela mesma, e é sobretudo por isto que foi temido como guerreiro ardente e conhecedor da arte bélica”.

O retrato de Viriato que nos oferece Dião Cássio é muito semelhante, pois baseia-se obviamente no de Posidónio:
  • “Viriato foi um lusitano de origem obscura, segundo alguns, que alcançou grande renome pelas suas façanhas, já que de pastor chegou a ladrão e mais tarde a general. Dotado de uma boa condição física por natureza, também se treinava para ser muito ágil tanto na perseguição como na fuga e tinha uma grande resistência no combate directo. Contentava-se com qualquer comida e qualquer bebida o satisfazia; passou a maior parte da sua vida ao relento e ficava satisfeito com o que a natureza lhe oferecia. Consequentemente, era indiferente ao calor e ao frio, e nunca ninguém o viu incomodado pela fome ou por qualquer outra privação; pois satisfazia todas as suas necessidades com qualquer coisa que estivesse à mão, como se fosse a melhor Além de possuir um corpo possante, efeito da natureza e do treino, as suas capacidades mentais eram ainda melhores. Era rápido a planear e realizar o que fosse necessário, pois não só sabia o que tinha de se fazer como tinha a perspicácia de identificar qual o momento mais oportuno para o fazer; e também era inteligente quando fingia ignorar os factos mais óbvios e conhecer os segredos mais ocultos (...). Em resumo, levava a guerra adiante não pela busca de riquezas, ou de poder ou movido pela ira, mas sim pelo prazer das façanhas da guerra em si mesmas, pois considerava-se simultaneamente um amante da guerra e um senhor da guerra”.
Em ambas as passagens, Viriato é-nos apresentado como um homem de uma força e de uma virtude resultantes da circunstância de ter vivido a sua juventude em estado de Natureza. Viver num meio hostil, na montanha, entre penhascos e ágeis veados, irá dotá-lo de uma grande capacidade de resistir ao sofrimento e de extraordinária agilidade física que se manifestam numa auto-suficiência radical que despreza as riquezas e os luxos da vida civilizada. Quando se tornou chefe e general dos lusitanos, Viriato caracterizou-se pela justiça com que lidava com os seus companheiros, partilhando sempre com eles todos os bens com igualdade. E apesar de não ter tido uma educação convencional, Viriato não deixava por isso de possuir uma sabedoria natural extremamente útil na tomada de decisões; de facto, o seu raciocínio era sensato, prudente e certeiro correspondendo a uma natureza que não fora deformada nem educada por nenhum mestre. Ora bem, não sabemos em que medida tudo isto correspondia à realidade. Não o sabemos, mas há dados extraordinariamente reveladores.
Noutra passagem de Diodoro encontramos Viriato expondo a sua opinião ao Conselho sob a forma de parábola ou diatribe. A esse respeito é muito conhecida a famosa história que Viriato contou aos habitantes de Martos (Tucci) para lhes mostrar como era absurdo o seu comportamento inconstante, tão depressa aliados dos romanos como dele. A famosa história do homem com duas amantes reflecte, praticamente na íntegra, a filosofia cínica.
Assim, se para poder ser apresentado como o selvagem perfeito acostumado a passar privações e a competir com as bestas selvagens na simplicidade da vida e na agilidade, Posidónio imaginou um Viriato de berço humilde e pastor na infância, Schulten, seguindo um raciocínio semelhante, indicou a serra mais pobre e agreste de Portugal-Lusitânia, a Serra da Estrela, como seu local de nascimento.


Ascendência, juventude e primeiros anos de maturidade
Não sabemos quem foram os pais de Viriato. Algumas obras em que a vida de Viriato é romanceada, referem-se ao seu pai chamando-lhe Comínio, um pequeno chefe tribal do vale do Guadalquivir. De acordo com os costumes lusitanos, o primogénito era o único herdeiro dos bens familiares, e por isso, Viriato, como terceiro filho, o segundo era uma rapariga, tinha-se visto obrigado, como muitos outros jovens, a adoptar a rude vida dos bandos que saqueavam as terras do sul». In Maurício Pastor Muñoz, Viriato La Lucha por La Liberdad, Viriato, A Luta pela Liberdade, Alderabán, Ediciones,SL, 2000, Ésquilo, Lisboa, 2003, ISBN 972-8605-23-4.

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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Viriato. A Luta pela Liberdade. Maurício Pastor Muñoz. «… era superior a todo o tipo de cansaços e inclemências, nunca sofreu com a fome, não se lamentava perante nenhuma contrariedade, sabendo tirar partido de todas as circunstâncias desfavoráveis»

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«Na realidade, todas as fontes antigas aceitam o carácter lusitano de Viriato. Mas nem todos admitiam que Viriato fosse de origem lusitana. Alguns historiadores tentaram provar que era originário de outras regiões e inspirados por ideais nacionalistas, reivindicavam para a sua pátria a figura do herói. Assim, em 1900, o historiador Arenas López sustentava que Viriato não era português, mas celtibero e, recentemente, em 1988, García Moreno, tendo analisado todos os topónimos mencionados nas fontes clássicas, defende que Viriato era de origem bética na obra Infância, juventude e primeiras aventuras de Viriato, caudilho lusitano. Afirma que todos os dados analisados

Situam indubitavelmente o foco do poder de Viriato no sopé das serras localizadas na junção da Submeseta Meridional com a Depressão Bética e que tornam muito plausível a hipótese de ser essa a região onde nasceu o famoso caudilho lusitano’.

Este autor indica a cidade de Arsa, na Baeturia céltica, como o principal centro de poder de Viriato, pelo menos na época do seu apogeu e que, consequentemente, se esta cidade não fora o lugar de nascimento de Viriato, fora, sem dúvida, a sua segunda pátria.
Para García Moreno, Schulten teria inventado que a pátria de Viriato era a Serra da Estrela, já que o Mons Herminius, no caso de se localizar nessa serra portuguesa, não é mencionado uma única vez nas fontes antigas que se referem aos feitos de Viriato. Para este autor, só os preconceitos e uma análise insuficiente dos textos antigos poderão ter levado Schulten e os seus seguidores, principalmente hispânicos, a considerar que Viriato teria nascido na selvagem e agreste Serra da Estrela.
Mas, apesar disto, tudo indica que Viriato era originário da Lusitânia, algures na Serra da Estrela, entre o Tejo e o Douro, como se conclui a partir da análise dos textos antigos que se referem às várias campanhas de Viriato, todas elas ocorrendo, de preferência, em território lusitano. Por outro lado, não é assim tão importante saber com exactidão o sítio onde nasceu. Também ignoramos em que ano nasceu Viriato, mas podemos fazer algumas suposições. Se aceitarmos que tinha vinte anos quando aparece pela primeira vez na História e que se determinou que tal sucedeu em 150 a.C., então deverá ter nascido por volta de 170 a.C., embora seja provável que tenhamos de recuar até datas anteriores, até a 190 a. C. no máximo, visto que as fontes referem que tivera uma vida repleta de peripécias que certamente não caberiam em apenas vinte anos de vida.
Mas apesar de desconhecermos a data e o local exactos do seu nascimento, sabemos que era de origem humilde como é reiteradamente afirmado nas fontes antigas. No entanto, também não podemos estar absolutamente certos deste facto, visto que pode tratar-se de uma figura de retórica muito disseminada, que pretenderia enfatizar a ascensão de um homem desde o anonimato até a uma posição de chefia, apenas por mérito pessoal. Tratar-se-ia então da imagem de Viriato adaptada ao ideal do herói da filosofia cínica do homem natural, cujo carácter teria sido moldado, na primeira infância e juventude, pelas exigências do meio ambiente em que crescera, obedecendo, portanto, às regras da conhecida Antropologia e Etnografia de Posidónio.
O texto deixado por Posidónio e recolhido por Diodoro Sículo é o seguinte:
  • “O lusitano Viriato, de humilde linhagem, segundo alguns, mas famosíssimo pelas suas façanhas, já que de pastor se tornou bandoleiro e depois general, era naturalmente e pelos exercícios que fazia, extremamente rápido na perseguição e na fuga e exímio na luta a pé. A comida simples e uma bebida sem refinamentos eram o que tomava com maior prazer: passou a maior parte da sua vida ao ar livre, e sempre se satisfez com os leitos que a natureza lhe ofereceu. Por isso era superior a todo o tipo de cansaços e inclemências, nunca sofreu com a fome, não se lamentava perante nenhuma contrariedade, sabendo tirar partido de todas as circunstâncias desfavoráveis. Dotado tanto pela natureza como pela sua preocupação em manter essas qualidades físicas, destacava-se ainda mais pelas suas qualidades de espírito. Era rápido a compreender e a executar o necessário, vendo ao mesmo tempo o que tinha de ser feito e a oportunidade óptima para o realizar, e era também capaz de fingir que conhecia o mais obscuro e que desconhecia o mais evidente. Mantinha-se sempre igual a si próprio tanto no comando como na obediência, nem modesto nem altivo: e pela humildade da sua origem e prestígio do seu poder conseguiu não ser inferior nem superior a ninguém. Em suma, não empreendia a guerra nem por ganância, nem por amor ao poder, nem movido pela cólera, mas fazia-a por ela mesma, e é sobretudo por isto que foi temido como guerreiro ardente e conhecedor da arte bélica”». 
In Maurício Pastor Muñoz, Viriato La Lucha por La Liberdad, Viriato, A Luta pela Liberdade, Alderabán, Ediciones,SL, 2000, Ésquilo, Lisboa, 2003, ISBN 972-8605-23-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Viriato. A Luta pela Liberdade. Maurício Pastor Muñoz. «A acção de Viriato, tanto militar como diplomática, fez com que todos os povos vizinhos se mobilizassem contra Roma. Durante oito anos duraram as suas campanhas e não houve nenhum caso de indisciplina entre as tropas»

Estátua em Viseu
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As Fontes
«A fonte fundamental para o estudo de Viriato é Apiano, que nasceu em Alexandria mas viveu em Roma no século II d.C. A sua obra baseia-se na de Políbio, historiador contemporâneo e ligado à casa dos Cipiões por laços de amizade. Políbio é um bom conhecedor de assuntos militares e portanto revela grande objectividade ao falar da guerra lusitana, salientando a má condução da mesma por parte de Roma, e a grande coragem e habilidade militar e guerreira de Viriato.
Outra fonte fundamental é Diodoro de Sicília, que embora se baseie em Posidónio, que certamente usou Políbio, segue, contudo, uma outra via relativamente aos detalhes da descrição das matérias em questão, nomeadamente pela análise minuciosa e reflexão acerca da culpabilidade política. Posidónio adultera a exposição dos factos para favorecer as suas amizades: por exemplo, quando atribui a culpa do assassinato de Viriato não a Cepião mas aos seus assassinos materiais.
Ambas as descrições se apoiam no conhecimento directo e são especialmente relevantes. A descrição de Políbio conserva-se em Estrabão, e a de Posidónio em Diodoro.
Temos acesso à versão oficial romana da guerra pelos Annales de Tito Lívio, dos quais, infelizmente, apenas se conservam resumos e algumas referências nos seus comentadores Floro e Orósio. Para além de dados isolados que podemos encontrar em alguns autores clássicos, como Justino, Eutrópio, Veleio Patérculo, Cícero, Aurélio Vítor, Frontino ou Sílio Itálico, temos acesso a uma versão independente em Dião Cássio, que escreveu em grego no século II da nossa era.
Consequentemente, para o estudo de Viriato apenas podemos recorrer a fontes da parte dos romanos, ou seja, dos seus inimigos políticos. Na tradição oral ibérico-lusitana, ou nalguma escrita desconhecida, não há nada sobre a sua pessoa e se alguma coisa houvesse, teria sido, certamente, modificada e manipulada pelos romanos.

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Nome e Origem
Habitualmente, o nome Viriato escreve-se apenas com um t, embora também apareça com th, Viriatho, grafia derivada do nome em grego Oúriathos, de que se encontram múltiplas variantes; variantes da versão latina, pelo contrário, são raríssimas e devem-se, sobretudo, a corrupções.
O nome Viriato deriva do ibérico viria, que significa pulseira, uma abreviatura do celta viriola. Nada tem a ver com o termo latino vireshomem’, ‘varão’, como alguns gramáticos sustentaram, e a derivação a partir desse termo latino é pura ficção. Viriato corresponde, portanto, ao termo latino Torquatus, que teria o mesmo significado. O nome é mais céltico do que ibérico como provam os topónimos e inscrições que foram encontrados nas províncias do Danúbio, da Gália Cisalpina e na Provença, e é frequente na Lusitânia Setentrional e Meridional, onde havia população celta. Segundo Estrabão e Diodoro, os celtas gostavam muito de pulseiras de ouro e de prata. As estátuas dos guerreiros galaico-lusitanos aparecem com estes adornos. Em Portugal, também foram encontradas, com frequência, esculturas de figuras com pulseiras.
No que se refere ao seu local de nascimento, ou seja, à sua pátria, devemos partir do que nos é dito por Schulten, igualmente adoptado pela historiografia posterior. Schulten escreveu o seguinte:
  • Viriato é originário da Lusitânia Ocidental que confina com o Oceano, e mais precisamente da montanha. A sua pátria parece ter sido a Serra da Estrela, que domina a região situada entre o Tejo e o Douro. A Lusitânia propriamente dita, o Mons Herminius, era desde há muito o local onde se concentrava a guerrilha lusitana que nestes desfiladeiros selvagens continuava a resistir a César Ainda hoje vive nesta região uma raça livre e selvagem com as suas ovelhas e cabras, no meio da solidão e das privações’.
Schulten fundamenta as suas afirmações em Diodoro de Sicília que atribui a Viriato uma origem lusitana, mais concretamente, que nascera na parte ocidental do território, perto do Oceano. Na realidade, todas as fontes antigas aceitam o carácter lusitano de Viriato. Mas nem todos admitiam que Viriato fosse de origem lusitana». In Maurício Pastor Muñoz, Viriato La Lucha por La Liberdad, Viriato, A Luta pela Liberdade, Alderabán, Ediciones,SL, 2000, Ésquilo, Lisboa, 2003, ISBN 972-8605-23-4.

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Cortesia de Ésquilo/JDACT