terça-feira, 30 de abril de 2019

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Viu-se no meio da loja movimentada do pai, que lhe dizia: precisas de tecidos? Escolhe o que quiseres, minha filha! A frescura das sedas deslizava-lhe por entre os dedos...»

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«(…) Além disso, acrescentou Tomé, Afonso Henriques é de opinião que este pedido de ajuda só prova que os mouros aqui de Lisbona estão desesperados. Se calhar, até já se regateiam os preços das ratazanas lá no mercado deles, o tal suq! Riram-se todos, menos Konrad, que continuava a reflectir sobre o episódio da carta. Acabou por dizer: a questão é o que esse Ibn Wazir de Évora considera ser mais importante: manter a paz com Ibn Qasi, ou vir ajudar os seus irmãos de fé? Ninguém pode com toda a certeza responder a essa pergunta, admitiu Julião. Mas podemos rezar. E el-rei está confiante, o que nos sossega. A voz de Afonso Henriques é a voz de Deus, completou Tomé.

Aischa sabia que não conseguiria adormecer. Esperou que as outras mulheres se deitassem para se escapulir para o jardim. Agachou-se a um canto junto ao repuxo, que nestes tempos não era posto a funcionar, e deixou correr as lágrimas. Este dia de início de Setembro tinha sido um dos mais difíceis, desde que o cerco começara. Não que os cruzados tivessem levado a cabo algum ataque mais forte, mas Abdalah morrera, sem parar de balbuciar que o fim do mundo estava próximo. Passara as últimas duas semanas em casa de Malik Ibn Danaf, a pedido de Aischa, para que se pudesse tratar melhor dele. O que em princípio seria tarefa das criadas e escravas, mas Aischa fizera-o muitas vezes pessoalmente, quanto mais não fosse, para ter com que se ocupar. E gostava sinceramente do ancião, que tantas vezes a encantara com as suas histórias, considerava-o quase como um avô. Abdalah morrera na certeza que se reencontraria com o seu pai e que, no Paraíso de Alá, reviveria o esplendor do califado de al-Andalus. Mas Aischa arrepiava-se, ao pensar que o cadáver seria devorado pelo fogo, sem lhe fazerem o funeral. Esta era, no entanto, a melhor solução, pois o almocavar estava inalcançável.
Mas não se dava tal destino a todos os cadáveres. Morria tanta gente, que era impossível queimá-los todos e havia, além disso, o medo de incêndios. Assim se iam os cadáveres empilhando pelas ruas, lançando o seu odor pestilento. Doenças iam-se espalhando, o número de feridos em combate aumentava de dia para dia e houvera necessidade de improvisar um hospital na mesquita aljama, pois todos os outros já rebentavam pelas costuras. Agora, havia quem dissesse que seria melhor levar para lá também os cadáveres, a fim de evitar a propagação de mais doenças. Aischa, porém, atormentava-se com a ideia de que se chegasse ao ponto em que ninguém se prontificaria a ir lá tratar dos doentes, devido ao cheiro, deixando-os para lá a agonizar. Também ela e a sua família se arriscavam a morrer de fome. As refeições eram cada vez mais parcas. O pai dela possuía burros de carga e dois cavalos, mas nenhuns animais de criação. Sempre comprara a carne de cabrito, a mais apreciada entre os mouros, aos aldeões das redondezas. Muitos desses pastores haviam procurado protecção entre as muralhas, trazendo alguns animais, mas já quase não havia nenhum. Também as galinhas desapareceriam antes de começar o Inverno e os pescadores não podiam sair para deitar as suas redes ao rio. Ainda se poderiam alimentar dos burros ou dos cavalos, em último caso de cães e gatos. Já havia quem o fizesse e o estômago de Aischa revoltava-se perante tal pensamento. Felizmente, eles ainda tinham alguns grãos de trigo, frutos secos e azeite na cave, mas já eram racionados, o que não causava apenas problemas na alimentação. Os candis que antigamente se encontravam por toda a casa em nichos nas paredes, iluminando os quartos, corredores e até o jardim, limitavam-se agora às divisões onde estivessem pessoas.
Os dias iam ficando mais pequenos e a escuridão, a tristeza e a pestilência apoderavam-se de Lusbuna, outrora a cidade-luz. Aischa lembrou-se ainda daqueles que se rendiam aos cruzados, na esperança de ficarem ao seu serviço, a troco de comida. Mas alguns majus eram tão cruéis, que lhes decepavam pés e mãos e os devolviam à cidade. Os coitados acabavam por morrer junto às muralhas, apedrejados pelos próprios concidadãos, que os apelidavam de traidores. Aischa chorou até não ter mais lágrimas. Se não fosse tão tarde, iria buscar o seu alaúde e cantaria a melancolia que lhe atormentava a alma. Assim, fechou os olhos e começou a compor em silêncio uma cantiga sobre a Lusbuna que desaparecia: a multidão a regatear preços no suq, à sombra das coberturas de pano ou das esteiras de esparto, que se estendiam entre as casas, protegendo as ruelas do sol abrasador; o aroma da canela e dos cominhos, vindos de outras terras do Islão, através do Mar Mediterrâneo; o peixe prateado nos cestos dos pescadores; as lojas dos prateiros e dos ourives, das sedas e brocados, junto à bâb al-hammã...
Viu-se no meio da loja movimentada do pai, que lhe dizia: precisas de tecidos? Escolhe o que quiseres, minha filha! A frescura das sedas deslizava-lhe por entre os dedos... Um sopro de vento fez-lhe chegar um remoto odor pestilento às narinas, um gemido de dor fez-se ouvir ao longe, trazendo a moça de volta à realidade, ao seu canto escuro. Lusbuna nunca mais será a mesma, pensou, e eu não tornarei a ser feliz. Mais valia morrer antes que os cruzados tomassem a cidade e começassem a saquear, a matar os homens, a violar as mulheres... Ouviu passos e afligiu-se. Se Abu a descobrisse aqui, a esta hora... Mas não era o irmão mais velho que se aproximava dela, viu os olhos esverdeados de Rashid a luzir na escuridão. Aischa, que estás aqui a fazer ao frio? Ainda apanhas alguma febre. E qual era o mal? Ora, não chegues ao ponto de desejar a morte. Já não aguento mais, Rashid. Não é só toda esta miséria que me oprime. Tu, o pai e Abu correis grande perigo todos os dias. Que faríamos sem vós? Rashid suspirou: desde que o rei de Évora recusou a sua ajuda, pouca esperança haverá de... Como é que esse Ibn Wazír pode assistir impávido à miséria dos seus irmãos de fé?, inquiriu furiosa. Não quer melindrar o rei português? Esse Ibn Errik deve ter um pacto com o diabo! Não uses linguagem dessa, Aischa! Ainda tens esperança Rashid? Onde a vais buscar? Haverá maneira de nos salvarmos?» In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Os mouros pediram ajuda aos do Gharb, os territórios a sul do Tejo, começou Julião. Konrad e os outros trocaram olhares assustados. As nossas sentinelas descobriram um pequeno barco…»

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«(…) Ainda assim, geravam-se conflitos, alguns graves, que resultavam em mortes, quando os cruzados se apoderavam de galinhas, porcos ou cabras, saqueavam pomares e hortas e, muitas vezes, violavam mulheres. Num fim de tarde, Konrad, Johann e os seus dois amigos foram até ao rio, onde se lavaram e pescaram. Konrad observava o irmão e deu-se consigo a pensar que, pelo menos para o rapaz, já a viagem compensara. O moço perdera a palidez e os seus ombros tinham alargado. Para não falar do fim do seu celibato. Por outro lado, Johann estava cada vez mais ligado a Ausenda, o que não agradava ao mais velho. Chegaram ao acampamento cheios de peixe para fritar e onde Ausenda já os esperava com pão fresco. No fim da refeição, deleitavam-se com uvas-passas à luz das fogueiras, quando Julião e Tomé se lhes juntaram. Os quatro alemães estavam ansiosos por falar com estes dois, pois tinham ouvido dizer que as tropas portuguesas, que controlavam a margem sul, haviam, na noite anterior, atacado um pequeno barco mouro. Os comandantes Arnulf Aarschot e Christian Gistell sabiam talvez pormenores sobre o acontecimento, mas não transmitiam grandes informações aos soldados, o que os deixava desconfiados. Os quatro esperavam, porém, que os dois portugueses, com quem tinham travado amizade, os pusessem ao correr da situação. Konrad logo lhes perguntou: o que está por detrás dessa história do barco mouro? Também ele já se ia expressando na língua latina, aprendia muito nas suas conversas com Julião, no fundo, mais depressa do que ele imaginara. Johann até dizia que os dois deveriam ter herdado uma certa habilidade para aprender idiomas estrangeiros. E ao saber que Julião trabalhara igualmente numa ferraria, Konrad perdia serões com ele. Tomé, por seu lado, aprendera a cozinhar na taberna onde trabalhara e, não raro, presenteava-os com sopas e guisados.
Os mouros pediram ajuda aos do Gharb, os territórios a sul do Tejo, começou Julião. Konrad e os outros trocaram olhares assustados. As nossas sentinelas descobriram um pequeno barco que tentava alcançar a margem sul ao abrigo da escuridão. Atacaram-no e os mouros saltaram logo para a água. Os nossos puxaram o barco para terra e encontraram lá uma carta. Johann precisava, ainda assim, de traduzir parte da informação, principalmente a Gunther que sentia dificuldades em entender os portugueses. Julião acrescentou depois: na carta, os daqui pediam ajuda ao rei de Évora, de seu nome Abu Muhammad Ibn Wazir. Johann desabafou: Deus nos valha! Esse Ibn Wazir é poderoso? Para quê a preocupação?, retorquiu Gunther, antes que Julião pudesse responder. Os portugueses não apanharam a carta? El-rei e os seus fidalgos, replicou Tomé, pensam que os mouros enviaram várias cópias, para terem a certeza de que pelo menos uma atingiria o seu destino. Naturalmente, concordou Konrad. É esse o procedimento habitual em situações semelhantes. Temos que contar que esse rei de Évora receba o pedido de ajuda. Então, o melhor é fugirmos enquanto é tempo, opinou Hadwig.
Calma, retorquiu Julião. Lisbona já pertenceu ao reino mouro de uma cidade que fica a alguns dias de marcha, para nascente, chamada Batalós, ou coisa parecida. Mas há muitos anos que se tornou independente. Não há portanto grandes amizades entre o alcaide e esse Ibn Wazir ou qualquer outro rei infiel. Mas os infiéis não se quererão ajudar mutuamente?, inquiriu Hadwig. Provavelmente não, respondeu Tomé. El-rei Afonso selou amizade com um tal de Ibn Qasi, um muladi. E o que vem a ser isso de muladi?, quis saber Gunther. Assim se chama um cristão convertido ao Islão. Aqui nesta terra há traidores desses?, admirou-se o ruivo. Que haja, retorquiu Julião, encolhendo os ombros. Estes moçárabes podem ser cristãos, mas não são como nós, mais parecem mouros, até a linguagem deles entendem. E esse Ibn Qasi é uma espécie de chefe religioso, que mantém o Gharb sob a sua influência. Diz-se que o rei de Évora é seu discípulo». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Obra Poética Reunida (1950-1996). Hilda Hilst. «Ilharga, osso, algumas vezes é tudo o que se tem. Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso. E pensas maravilha quando pensas anca»


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Cantares do Sem-nome e de Partidas (1995)
«[…]
Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo vêem aquela.

Aquela que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.

Pertencente é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, ESSE
Que bem me sabe inteira pertencida.

Ilharga, osso, algumas vezes é tudo o que se tem.
Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso.
E pensas maravilha quando pensas anca
Quando pensas virilha pensas gozo.
Mas tudo mais falece quando pensas tardança
E te despedes.
E quando pensas breve
Teu balbucio tréulo, teu texto-desengano
Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha.
E quando pensas vida que esmorece. E retomas
Luta, ascese, e as mós do tempo vão triturando

Tua esmaltada garganta... Mas assim mesmo
Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas...
Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade
A esperança».
[…]

Hilda Hilst, Obra Poética Reunida (1950-1996), 1998, organização Costa Duarte, Literatura brasileira século XX, Wikipédia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

Obra Poética Reunida (1950-1996). Hilda Hilst. «Tem nome veemente. O Nunca Mais tem fome. De formosura, desgosto, ri e chora. Um tigre passeia o Nunca Mais…»

Catarina
Cortesia de wikipedia e jdact

Cantares do Sem-nome e de Partidas (1995)
«[…]
E por que, também não doloso e penitente?
Dolo pode ser punhal. E astúcia, logro.
E isso sem nome, o despedir-se sempre
Tem muito de sedução, armadilhas, minúcias
Isso sem nome fere e faz feridas.
Penitente e algoz:
Como se só na morte abraçasses a vida.

É pomposo e pungente. Com ares de santidade
Odores de cortesã, pode ser carmelita
Ou Catarina, ser menina ou malsã.

Penitente e doloso
Pode ser o sumo de um instante.
Pode ser tu-outro pretendido, teu adeus, tua sorte.
Fêmea-rapaz, ISSO sem nome pode ser um todo
Que só se ajusta ao Nunca. Ao Nunca Mais.

O Nunca Mais não é verdade.
Há ilusões e assomos, há repentes
De perpetuar a Duração.
O Nunca Mais é só meia-verdade:
Como se visses a ave entre a folhagem
E ao mesmo tampo não
(E antevisses
Contentamento e morte na paisagem).

O Nunca Mais é de planícies e fendas.
É de abismos e arroios.
É de perpetuidade no que pensas efémero
E breve e pequenino
No que sentes eterno.

Nem é corvo ou poema o Nunca Mais.

Tem nome veemente. O Nunca Mais tem fome.
De formosura, desgosto, ri
E chora. Um tigre passeia o Nunca Mais
Sobre as paredes do gozo. Um tigre te persegue.

E perseguido és novo, devastado e outro.
Pensas comicidade no que é breve: paixão?
Há de se diluir. Molhaduras, lençóis
E de fartar-se,
O nojo. Mas não. Atado à tua própria envoltura
Manchado de quimeras, passeias teu costado.

O Nunca Mais é a fera».
[…]

Hilda Hilst, Obra Poética Reunida (1950-1996), 1998, organização Costa Duarte, Literatura brasileira século XX, Wikipédia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Obra Poética Reunida (1950-1996). Hilda Hilst. «No não merecimento das conquistas. De pé. Nas plataformas, nas escadas ou através de umas janelas baças…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cantares do Sem-nome e de Partidas (1995)
«Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

E só me veja

No não merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias.
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos

Eu-alguém travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).

Dorsos de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.

E que jamais perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.

Isso de mim que anseia desepedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.

Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isto? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
[…]

Hilda Hilst, Obra Poética Reunida (1950-1996), 1998, organização Costa Duarte, Literatura brasileira século XX, Wikipédia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

O Erotismo. Georges Bataille. «A morte era o signo da violência introduzida num mundo que ela podia destruir. Imóvel, o morto participava da violência…»

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O interdito ligado à morte
O horror do cadáver enquanto signo da violência e ameaça de contágio da violência
«(…) Digamos, sem mais demora, que a violência, e a morte que a representa, têm um duplo sentido: de um lado o horror nos afasta, ligado ao apego que inspira a vida; do outro, um elemento solene, ao mesmo tempo assustador, nos fascina, introduzindo uma inquietação suprema. Voltarei a essa ambiguidade. Não posso em primeiro lugar senão indicar o aspecto essencial de um movimento de recuo diante da violência que traduz o interdito da morte. O cadáver deve ter sido sempre o objecto de interesse por parte daqueles de quem ele era, quando vivo, companheiro, e nós devemos pensar que, vítima da violência, seus parentes tiveram o cuidado de preservá-lo de novas violências. A inumação significou, sem dúvida, desde os primeiros tempos, da parte daqueles que o sepultaram, o desejo que eles tinham de preservar os mortos da voracidade dos animais. Mas, mesmo que esse desejo tenha sido determinante na instauração do costume, não podemos associá-lo sobretudo a isso: por muito tempo o horror dos mortos dominou provavelmente de longe os sentimentos que a civilização domesticada desenvolveu. A morte era o signo da violência introduzida num mundo que ela podia destruir. Imóvel, o morto participava da violência que o tinha ferido: o que estava em contacto com ele estava ameaçado pela destruição à que ele sucumbira. A morte originava-se de uma esfera tão alheia ao mundo familiar que só podia ser pensada de uma maneira oposta a que comanda o trabalho. O pensamento simbólico, ou mítico, que erroneamente Lévy-Bruhl chamou de primitivo, responde só a uma violência cujo princípio mesmo é transbordar o pensamento racional implicado pelo trabalho. Nesse modo de pensar, a violência que interrompeu o curso estabelecido das coisas não deixa de ser perigosa, visto que ela atingiu o morto. Ela constitui mesmo um perigo mágico, susceptível de agir a partir do morto pelo contágio. O morto é um perigo para aqueles que ficam. Se eles devem enterrá-lo, é menos para coloca-lo ao abrigo, que para se porem eles próprios ao abrigo desse contágio. Frequentemente a ideia de contágio liga-se à decomposição do cadáver, onde se vê uma força temível, agressiva. A desordem que é biologicamente a putrefacção futura, que como o cadáver presente é imagem do destino, carrega em si mesma uma ameaça. Nós não acreditamos mais na magia contagiosa, mas quem dentre nós poderia dizer que, diante de um cadáver cheio de vermes, não empalideceria? Os povos arcaicos vêem nos ossos que secam a prova de que a ameaça da violência, introduzida no instante da morte, já acabou. Com frequência, o próprio morto, aos olhos dos que ficam, participa da desordem da violência ao ser arrastado por ela, e os seus ossos limpos mostram, enfim, que tudo se acalmou.

O interdito do assassínio
O interdito, no caso do cadáver, não parece sempre inteligível. Em Totem e Tabu, Freud, em razão de seu conhecimento superficial dos dados, aliás menos informes hoje, da etnografia, admitia que, geralmente, o interdito (o tabu) opunha-se ao desejo de tocar. O desejo de tocar os mortos não era, sem dúvida, antigamente, maior do que hoje. O interdito não anula necessariamente o desejo: diante do cadáver, o horror é imediato, infalível, e é, por assim dizer, impossível de lhe resistir. A violência que a morte manifesta não induz à tentação senão num sentido, quando se trata de encarná-la em nós contra um vivo, quando se apodera de nós o desejo de matar. O interdito do assassínio é um aspecto particular do interdito global da violência. Aos olhos do homem arcaico, a violência é sempre a causa da morte: ela pode agir por efeito mágico, mas há sempre um responsável, há sempre assassínio. Estes dois aspectos do interdito são corolários. Devemos fugir da morte e colocar-nos ao abrigo das forças indomáveis que a habitam. Não devemos deixar se desencadear em nós outras forças análogas àquelas de que o morto foi vítima, que o possuem naquele instante. Em princípio, a comunidade, constituída pelo trabalho, considera-se distante, em sua essência, da violência implicada na morte de um dos seus. Diante daquela morte, a colectividade tem o sentimento do interdito. Mas isto só é verdade para os membros de uma comunidade. O interdito age plenamente no interior do grupo. Fora, em relação aos estrangeiros, o interdito é ainda sentido. Mas ele pode ser transgredido. A comunidade que o trabalho afasta da violência está com efeito longe dela no tempo do trabalho, e próxima daqueles que estão unidos pelo trabalho comum. Fora desse tempo determinado, fora de seus limites, a comunidade pode voltar à violência, pode se entregar ao assassínio na guerra que a opõe a uma outra comunidade». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972-608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT

O Erotismo. Georges Bataille. «A representação da violência, que devemos atribuir particularmente aos homens primitivos, é entendida necessariamente em oposição ao movimento do trabalho…»

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O interdito ligado à morte
Os dados pré-históricos do interdito ligado à morte
«(…) A prática da sepultura é o testemunho de um interdito semelhante ao nosso que concerne aos mortos, e à morte. Pelo menos, de uma forma vaga, a origem desse interdito é logicamente anterior a essa prática. Podemos mesmo admitir, num certo sentido e de forma superficial, que ele nasceu ao mesmo tempo que o trabalho, de maneira que nenhuma prova pôde subsistir e seu surgimento escapou mesmo aos que o viveram. Trata-se essencialmente de uma diferença feita entre o cadáver do homem e os outros objectos, como as pedras. Hoje essa diferença caracteriza ainda um ser humano em relação ao animal: o que chamamos de morte é em primeiro lugar a consciência que temos dela. Percebemos a passagem da vida à morte, isto é, ao objecto angustiante que é para o homem o cadáver de um outro homem. Para cada um daqueles que ele fascina, o cadáver é uma imagem de seu destino. Ele é testemunho de uma violência que não só destrói um homem, mas que destruirá todos os homens. O interdito que se apodera dos outros diante do cadáver é uma forma de rejeitara violência, de se separar da violência. A representação da violência, que devemos atribuir particularmente aos homens primitivos, é entendida necessariamente em oposição ao movimento do trabalho que é regulado por uma operação racional. É, há muito tempo, reconhecido o erro de Lévy-Bruhl, que recusava ao primitivo um modo de pensar racional, atribuindo-lhe apenas os deslizamentos e as representações indiferenciadas da participação: o trabalho não é evidentemente menos antigo que o homem, e se bem que o animal não seja sempre estranho ao trabalho, o trabalho humano, distinto do animal, nunca é estranho à razão. O homem acha que existe uma identidade fundamental entre ele e o objecto trabalhado e uma diferença, resultante do trabalho, entre a sua matéria e o instrumento fabricado. Da mesma forma, ele tem a consciência da utilidade do instrumento, da série de causas e efeitos que o envolve. As leis que presidem às operações conscientes de onde provêm ou às quais serviram os instrumentos são desde o início as leis da razão. Estas leis dirigem as mudanças que o trabalho concebe e realiza. Sem dúvida, um primitivo não poderia tê-las articulado numa linguagem que lhe daria a consciência dos objectos designados, nem a da designação, nem a da própria linguagem.
A maior parte do tempo o operário moderno não estaria também apto a formulá-las: entretanto, ele as observa fielmente. O primitivo pôde, em certos casos, pensar como Lévy-Bruhl o representou, de uma maneira insensata, pensar que uma coisa é, mas ao mesmo tempo não é, ou que ela pode num mesmo tempo ser o que ela é e outra coisa. A razão não dominava todo o seu pensamento, mas o dominava na operação do trabalho, de modo que um primitivo pôde conceber, sem formular, um mundo do trabalho ou da razão, a que o mundo da violência se opunha. Certamente a morte difere, como se fosse uma desordem, da organização do trabalho: o primitivo podia sentir que a ordenação do trabalho lhe pertencia, enquanto a desordem da morte o ultrapassava, fazendo de seus esforços um contra-senso. O movimento do trabalho, a operação da razão, lhe servia, enquanto a desordem, o movimento da violência, arruinava o ser mesmo que está no fim das obras úteis. O homem, identificando-se com a ordenação que operava o trabalho, separou-se nessas condições da violência, que agia em sentido contrário». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972-608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT

Pensar é Transgredir. Lya Luft. «Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta»

Cortesia de wikipedia e jdact

Agendar a Vida
«(…) Ou: quinze minutos para se recostar para trás na cadeira (pode ser do escritório mesmo) e espiar o céu fora da janela; ir até a sala, esticar-se no sofá com as pernas sobre o braço do próprio, e ouvir música, ver televisão, ler, ler, ler..., ou simplesmente não fazer nada. O ócio é uma possibilidade infinita a ser explorada. Não falo da inércia, do desânimo, do vazio melancólico. Jamais falarei de ficar de robe-velho e pantufas (vi numa vitrine algumas com cara de cachorro e até orelhas!) pela casa até ao meio da tarde. Falo de viver. Parar, olhar, escutar, dizia um aviso nos trilhos do trem quando havia trem entre a minha cidade e Porto Alegre. A gente passava de carro sobre o trilho, e eu imaginava o horror de alguém infringir isso e ser explodido pelo monstro de ferro e fumaça. A vida há de rolar por cima da gente, reduzindo a poeirinha inútil quem se esquecer de às vezes parar p’ra pensar..., mas sem se desmontar; olhar em torno ou para dentro: paisagens belas, ou áridas (sempre dá pra plantar um capim) ou quem sabe coloridas (a alma pode brincar de esconde-esconde entre as folhas). E escutar: a música do universo, o canto do sabiá (que tem começado às 3 da madrugada fria, atarantado neste clima estranho); a risada da criança no andar de cima; enfim, o chamado da vida que nos convoca de mil formas: anda, sai do marasmo, viveeeeeeeeeee!! Que nossas agendas (também as interiores) nos permitam muitas vezes a plenitude do nada sorvido como um gole de champanhe, celebrando tudo. Sem culpa.

Canção das Mulheres
Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais. Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta. Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com a minha solicitude, e se ela for excessiva saiba-me dizer isso com delicadeza ou bom humor. Que o outro perceba a minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso. Que se eu faço uma asneira o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes. Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais. Que o outro sinta quanto me dói a ideia da perda, e ouse ficar comigo um pouco, em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade mas talvez seu medo ou sua culpa. Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais. Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo olha que estou tendo muita paciência com V.! Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a diminua, nem me chame de ingénua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça». In LyaLuft, Pensar é Transgredir, 2004, Rio de Janeiro, Editora Record, 2009, 2011, ISBN 978-850-109-376-9.

Cortesia de ERecord/JDACT

domingo, 28 de abril de 2019

Pensar é Transgredir. Lya Luft. «Abro uma página da minha agenda para demarcar mais uma vez o território de minha liberdade e o dos meus deveres, que é onde ela começa a perder pé»

Cortesia de wikipedia e jdact

Laços e Punhais
«Certa vez errei uma tecla do computador, e em lugar de perdas saiu peras. Eu ia corrigir mas li de novo, achei muito mais bonito e deixei assim. Ninguém reclamou, nem os revisores. Quem sabe um dos que estudam a minha obra, preparando com a maior gravidade a sua dissertação ou tese, pare, pense, morda a ponta da caneta ou fique olhando o computador, perplexo. Para depois discorrer filosoficamente sobre aquelas frutas perdidas num texto que nada tinha a ver com elas. Dessa maneira acontecem mal-entendidos: amizades se perturbam, amores se rompem, pessoas se desencontram e magoam. Mas V. tinha dito peras! Não, eu falei perdas! Peras... Perdas... Perdeu-se nesse jogo inconsistente um pedaço de vida, um brilho de entendimento se apagou. Eu ia dizer que V. me faz muita falta, mas V. entendeu V. está em falta... comigo, com a vida, consigo mesmo. E passamos meia hora evitando nos olhar de frente, nesses momentos o universo esteve em desconserto, e nós desconcertados. Quando eu era menina, certo dia num almoço fiquei observando a família à mesa, e aquelas pessoas tão conhecidas me pareceram umas enormes salsichas com tufos de pêlos no alto, bolinhas se mexendo (chamadas olhos, ansiosos, tranquilos, amorosos ou hostis) e aquele furo no centro que se abria e fechava emitindo sons. A boca do beijo, do silêncio ou do insulto. As outras salsichas também olhavam com os seus botõezinhos de vidro brilhante, viravam-se para os lados, agitavam mãos ou abriam e fechavam os seus furinhos-boca respondendo. Palavras esvoaçavam sobre a mesa como bilhetes, sinais de fumaça ou borboletas perdidas. Um falava, outro compreendia e devolvia sinais sonoros. Mas de repente alguém não ouviu direito: os olhinhos ficaram duros, os sons da boca estridentes, ou baixos mas furiosos. Agitação na sala de jantar. Briga em família. Então nem sempre que alguém dizia flor o outro pensava flor? E podia entender pedra? Em lugar de enviar sobre a mesa palavras-borboleta, jogavam palavras-pedra? Nada era simples. O mundo se desarrumava um pouco por causa desses mal-entendidos. Até ali, para mim palavras eram objectos mágicos: agora via que podiam ser traiçoeiros. Belos de olhar, mas duros, com arestas cortantes; caramelos de vários sabores que eu deixava rolar na boca com delícia, porém a gente podia engasgar-se, até morrer. Não era só prazer a linguagem: peras, perdas, fazer falta, estar em falta ou sentir falta. Desacordo, desconserto. Ambivalentes como nós, palavras preparam armadilhas ou abrem portas de sedução. Embalam ou derrubam, enredam em doces laços, ou nos matam dolorosamente, como punhais.

Agendar a Vida
Abro uma página da minha agenda para demarcar mais uma vez o território de minha liberdade e o dos meus deveres, que é onde ela começa a perder pé. A fantasia não pede licença para se desenrolar: logo vejo uma infinidade de mesas e escrivaninhas, cada uma com a sua agenda, nela a floresta dos compromissos, mal sobrando alguma trilha estreita para andar e respirar. (Nas folhas desta minha actual quero abrir entrelinhas para contemplar a árvore em flor diante da minha janela, ou pegar nos braços uma das crianças que povoam esta casa). Vejo também agendas quase vazias onde se procura melancolicamente algo para quebrar o sem-sentido da vida: nem uma visita, uma data de aniversário, nenhum afecto nomeado, nem ao menos um pagamento nesses dias que parecem um deserto sem contornos. Nem uma miragem ao longe? Pessoalmente não vivo sem uma agenda, aquelas de bloco, ao lado do computador. Às vezes olhar a folhinha me dá alegria: um encontro bom, ou um dia inteiro só pra mim. Noutras folhas, um engarrafamento de garatujas (a minha letra, horror das professoras desde os primeiros anos de escola) com mais compromissos do que meu fundamental desejo de liberdade quereria. Agenda pode ser tormento e prisão. Mas pode ser liberdade, se a gente inventar brechas: em plena tarde da semana, caminhar na calçada; sentar ao sol na varanda do apartamento; deitar na relva do parque ou jardim, por menor que ele seja, e como criança olhar as nuvens, interpretando as suas formas: camelo, coelho, árvore ou anjo». In LyaLuft, Pensar é Transgredir, 2004, Rio de Janeiro, Editora Record, 2009, 2011, ISBN 978-850-109-376-9.

Cortesia de ERecord/JDACT

sábado, 27 de abril de 2019

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. «Alheio a tudo o que o rodeava, o dono dessa mão, nos seus vinte anos, parecia aplicar a arte da docência a alunos inexistentes, em vez de tramar um impossível plano de fuga»

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2 de Maio de 1519
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«(…) Majestade, não perdi contra a dificuldade dos desafios. Perdi apenas contra o tempo..., disse Leonardo, retirando importância às notícias de Chambord. Maître, prefiro que me chameis Francesco, respondeu o rei num acto de humildade que Leonardo soube agradecer com o mais caloroso dos olhares. Assim seja, querido Francesco, assim seja. E fechou os olhos. Kekko..., aproximai-vos... O ajudante aproximou-se, veloz. Nesse breve período, Francesco Melzi esqueceu a presença do rei de França, e o próprio Francisco I passou por cima dessa falta de formalidade. Dizei, mestre... O que desejais?, perguntou, como se o tempo parasse apenas para agradar ao tutor. Apenas um abraço, meu amigo. Apenas um abraço, respondeu Leonardo com um delicado tom de voz. Quando Melzi se abalançou serenamente sobre o corpo do mentor, criou-se tal fusão que qualquer casal de amantes teria hesitado. Mas, longe de qualquer libido, ali respirava-se carinho, respeito, admiração e dor, muita dor. Kekko, meu amigo. Não estejas tão triste. Leonardo tentou apaziguar o incondicional e jovem assistente com belas palavras. Viverei sempre que falarem de mim. Lembra-te de mim. E terminou piscando-lhe um olho carregado de cumplicidade.
Leonardo inspirou de tal maneira que os ali presentes souberam que não veria um novo amanhecer. Que a vida lhe fugia. Após tanto sofrimento e tanta perseguição. E tanta mensagem em código e tanta pincelada para a história. Leonardo da Vinci chegava ao fim. Francesco..., amigos..., chegou a hora... Simultaneamente venerável e vulnerável, Leonardo estava preparado para partir…, de percorrerem o caminho sem mim. Mestre!, gritou Melzi sem reprimir um soluço. MaîtreMon père... As palavras do rei afogaram-se não só no seu próprio mar de lágrimas, mas no oceano onde se fundiam com as lágrimas dos outros. Chegou a hora..., de voar...
E voou. Mais alto e mais longe do que nunca. Um voo de ida, apenas. Um voo que, mais cedo ou mais tarde, todos faremos. Um silêncio sepulcral invadiu a sala. François Desmoulins, como se de um fantasma se tratasse, deu meia volta e, sigilosamente, transpôs a porta que, acto contínuo, fechou com extrema precaução. Mathurina encharcou de lágrimas o pano, que já não enxugava líquido algum. Francisco I manteve-se em silêncio. Um silêncio cortês e admirável. Um silêncio que dizia tudo. Francesco Melzi, Kekko, caiu no chão, junto à cama, com o piscar de olhos cúmplice a pairar-lhe na memória. Leonardo da Vinci conquistara o céu ancorado ao chão.

Florença. 29 de Maio de 1476. Calabouços subterrâneos do Palazzo del Podestà
No ano de 1476 de Nosso Senhor, uma mão trabalhava com esforço sobre a fria e húmida parede de pedra que fechava uma das celas da prisão, nas divisões inferiores do Palazzo del Podestà, futuro Palazzo del Bargello, situado a pouco mais de quatrocentos metros do centro nevrálgico de Florença. Um edifício bastante reconhecível ao longe, pois a sua torre de menagem era das mais altas da cidade. Ali residia o magistrado governador da urbe, um estrangeiro eleito com o propósito de representar a objectividade no exercício da justiça. Na fachada, uma inscrição alertava para o poder de Florença:

Florença está repleta de inimagináveis riquezas.
Proclama-se vencedora contra os seus inimigos, tanto na guerra como nas lutas civis.
Goza do favor da Fortuna e tem uma população poderosa.
Com sucesso, fortifica e conquista castelos.
Reina sobre os mares e as terras e sobre o mundo inteiro.
Sob o seu comando, toda a Toscana transborda de felicidade.
Tal como Roma, Florença triunfa sempre.

A mão rasgava uma e outra vez no mesmo sentido, para que a gravura ficasse nítida e se pudesse desenvolver a ideia seguinte. Alheio a tudo o que o rodeava, o dono dessa mão, nos seus vinte anos, parecia aplicar a arte da docência a alunos inexistentes, em vez de tramar um impossível plano de fuga. As linhas horizontais terminavam numa bifurcação, e cada opção transformava-se em nova linha que voltava a concluir-se irremediavelmente numa nova divergência. Uma ramificação pedregosa com uma única intenção. Os companheiros de cela não sabiam distinguir o que o dominava, a sua obstinada teimosia ou a genialidade que pouco a pouco lhe ressumava dos poros da pele. Baccino, dias antes alfaiate e hoje também prisioneiro, não se atreveu a perguntar. Sabia perfeitamente a resposta do homem que tinha diante de si, a escassos metros. O silêncio. Tal era a sua concentração. Embora também não fosse necessário pronunciar palavra alguma para descodificar o mistério que aos poucos se espalhava pela cela de pedra. Estava a calcular probabilidades; a calcular possíveis futuros, ter-lhe-ia respondido o companheiro. Sabia-o bem». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Biblioteca Secreta de Leonardo. Francesco Fioretti. «É um sinal celeste, o corte da mão é a pena clássica dos ladrões. Esta é a mão direita, por isso, o seu dono deverá ter roubado algo muito precioso»

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Milão. Corte Vecchia. 7 de Fevereiro de 1496
«(…) Pelo canto do olho, Leonardo seguia preocupado os movimentos de Gian Giacomo, o seu aprendiz de 15 anos, a quem, contudo, chamava Salai, nome de um diabo do Morgante de Pulci. Notara que o rapaz voltara com um cartucho sujo e um tanto húmido na mão, que depositara sobre a mesa junto ao livro de Luca Pacioli. Depois fora-se sentar no banco atrás de si, e tornara-se impossível continuar a espiá-lo disfarçadamente. Até breve, mestre Leonardo!, despediu-se Cardano. O artista acompanhou-o à porta, no piso térreo: até breve. Depois voltou ao piso de cima. Salai continuava ali, encolhido no banco, de rosto pálido como se, pelo caminho, tivesse encontrado Belzebu em pessoa. Tremia, até. Leonardo correu para o cartucho ensanguentado depositado sobre a mesa pelo seu assistente. Abriu-o, viu o que estava lá dentro e deu um salto para trás, enojado. Uma mão humana, cortada com um golpe preciso à altura do pulso. E o sangue era fresco.
Enlouqueceste?, gritou, dirigindo-se a Salai, que levantou para ele um olhar que parecia implorar piedade. Sei que és ladrão e reincidente, mas que te dê agora para roubar ao próximo até pedaços de membros... Desde o dia em que o pai, um pobre operário da Brianza, lho oferecera, digamos assim, cinco anos antes, que Gian Giacomo revelara este defeito: era um ladrão inveterado. Não por necessidade, porque Leonardo gostava dele como de um filho e gastava mais com ele do que consigo mesmo, mas por uma espécie de doença. Roubava dinheiro, jóias, objectos mais ou menos preciosos de todo o tipo, até os caríssimos pigmentos de azul-ultramar, oito ducados a onça, a renda de um ano no Borghetto. Era mais forte do que ele, não conseguia refrear-se, era como se tivesse de compensar o facto de ter sido abandonado pelos pais aos 10 anos, como se a própria natureza estivesse em dívida para com ele e todos os outros seres humanos, sem distinção de classe, sexo ou idade, não fossem mais do que os titulares daquela dívida imensa. Leonardo afeiçoara-se a ele até de mais: no rapazito, que considerava lindíssimo, revia-se a si próprio adolescente, os mesmos caracóis dourados, o mesmo olhar atrevido e impertinente de quando ele, mais ou menos com a mesma idade, posara para o David do seu mestre florentino, Verrocchio, e fora imortalizado naquela estátua em toda a sua inconsciente, e melancólica, desfaçatez de então. Por outro lado, até isto tinham em comum, o terem sofrido um abandono precoce. Mas, isto é certo, haviam desenvolvido modos opostos de se compensarem: Gian Giacomo roubava tudo o que podia, já Leonardo tudo o que gostaria de roubar à mãe natureza eram os seus infinitos segredos. Então? Ficaste mudo?
Salai começou a balbuciar imprecações no dialecto da Brianza. Quando o seu elóquio se fez compreensível, a Leonardo pareceu-lhe perceber o que se segue: que o rapaz, ao anoitecer, ia a passar pela catedral debaixo do zimbório de construção recente, aquele para o qual também Leonardo apresentara um projecto que, contudo, fora chumbado; debaixo dos andaimes ainda montados daquela parte da igreja em construção ouvira um grito aterrador que vinha do alto; os operários já deviam ter saído, por isso, já não deveria estar ali ninguém; parara a olhar para cima, mas na penumbra do crepúsculo não conseguira distinguir silhuetas humanas; logo a seguir, à sua frente, vira a coisa cair, ouvira um baque, inclinara-se sobre o objecto acabado de chover do alto: era a mão decepada; apanhara-a, embrulhara-a em papel, enfiara-a na bolsa e desatara a correr como um louco na direcção da Corte Vecchia. E era tudo. Que não lhe perguntasse porque se comportara daquela forma, que não parara para pensar, simplesmente fora um gesto espontâneo, o embrulhar a mão e levá-la para casa. Lava-a!, intimou-o o mestre. Como?
É um sinal celeste, o corte da mão é a pena clássica dos ladrões. Esta é a mão direita, por isso, o seu dono deverá ter roubado algo muito precioso. Aconteceu-te para que saibas qual é o teu destino se não deixares de roubar a torto-e-a-direito. Estás à espera de quê? Eu disse-te para a lavares». In Francesco Fioretti, A Biblioteca Secreta de Leonardo, 2018, Marcador Editora, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-989-754-394-4.

Cortesia de MarcadorE/EPresença/JDACT