quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O Assassin de Lisboa (1142-1143). Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Abraçada por ele e encantada com tais palavras, a minha cunhada sentiu-se subitamente eufórica. Afinal, com Lisboa e uma lança sagrada…»

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O Assassin de Lisboa 1142-1143
Lisboa, Abril de 1142
«(…) Já podeis descer, estais salvas!, disse. Com desenvoltura, fez um gesto com a mão, convidando-as a deixar o veículo em segurança, coisa que as três raparigas não fizeram, pois Ília comentou com as irmãs que ele, apesar de dotado com o punhal, não passava de um rapazola. Com uma careta brincalhona, insinuou: se tivesse mais uns anitos... Sem esmorecer, Pêro Pais sorriu e recuou uns passos, o que levou Chamoa a comentar com Mem: vai longe, este meu filho. De seguida, o almocreve anunciou o desejo de ir falar com Afonso Henriques, e os outros acederam. O grupo atravessou a porta da cidade de Coimbra e dirigiu-se ao castelo, onde só o almocreve e a minha cunhada entraram, aparecendo de rompante na sala onde eu estava, junto ao príncipe de Portugal. Mem!, exclamei.
Espantado mas contente, abracei o almocreve. Gostava genuinamente dele. E também Afonso Henriques o estimava, desvanecido um certo ciúme que sentira, pois aquele era o único homem que, primeiro do que ele, tinha filhado Chamoa e Zaida. A princesa propõe-vos um pacto com Ibn Qasi, anunciou ele. Mem contou que Zaida casara com o emir de Silves e esperava já um filho, novidade que levou Afonso Henriques a suspirar: podia ser meu... Irritada, Chamoa enxofrou-se: não vos chega o filho que me haveis feito? O meu melhor amigo pacificou-a, amava-a só a ela. Mas Zaida era especial. Piscando o olho à minha cunhada, acrescentou: minha amiga e vossa!
Enciumada primeiro, Chamoa encolheu os ombros, mas depois, para equilibrar a situação, sorriu ao almocreve e disse: que bom que estais cá, Mem querido... Afonso Henriques incomodou-se e, por conhecer bem a mulher com quem dormia, regressou ao tema inicial, afirmando que uma aliança com Ibn Qasi seria desnecessária. Numa missiva chegada dias antes, Bernardo de Claraval, abade de Cluny e patrono dos templários, informara-o de que estava a caminho uma frota de cruzados, a qual, antes de seguir para Jerusalém, iria ajudar os portucalenses a conquistarem Lisboa. Sabeis o que lá vi?, alvoroçou-se Mem. - A Lança de Cristo, nas mãos de Orimar, o chefe dos sinistros Mantos Vermelhos! Estais certo disso?, perguntei.
Ainda me sentia responsável pela perda da sagrada relíquia em Ourique e por isso impus aquela confirmação. Quando o almocreve o garantiu, um também entusiasmado Afonso Henriques rejubilou, pois, se conquistasse Lisboa e recuperasse a relíquia sagrada, o Papa seria obrigado a reconhecê-lo rei de Portugal! Os seus olhos brilhavam de alegria quando proclamou: primeiro, Lisboa, depois, Chamoa! Se conquistar a cidade, o Papa far-me-á rei, e eu vos farei rainha!
Abraçada por ele e encantada com tais palavras, a minha cunhada sentiu-se subitamente eufórica. Afinal, com Lisboa e uma lança sagrada, ele seria rei e ela rainha, as sombras do futuro iam desaparecer! Não seria necessário revelar a infame intriga de Compostela. Chamoa queria ser rainha e, no momento em que isso voltava a ser possível, não ia arruinar estupidamente aquela caminhada empolgante e épica em direcção ao trono de Portugal.
Primeiro, Lisboa, depois, Chamoa». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.
                                                                                                    
Cortesia da CasadasLetras/JDACT

O Assassin de Lisboa (1142-1143). Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Mas, de repente, viu Chamoa levantar-se num pulo, olhando para o embarcadouro onde atracava uma barcaça, enquanto exclamava: por Santiago, não posso crer!»

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O Assassin de Lisboa 1142-1143
Lisboa, Abril de 1142
«(…) A seu lado, Gualdim Pais aprovou a declaração de fidelidade do príncipe de Portugal com um aceno de cabeça, mas Chamoa perguntou se não tinham dúvidas, depois do que haviam ouvido sobre a intriga de Compostela. Ora, ora, isso é uma tolice leonesa!, indignou-se o filho. Quem vai acreditar numa patranha tão tosca? Chamoa lembrou que já dona Urraca e o arcebispo Gelmires haviam duvidado do príncipe aleijado, tal como agora fazia o imperador. Mãe!, interrompeu-a Pêro Pais. Esse diria qualquer coisa, todos sabem que vos quer filhar! A minha cunhada ficou tão surpreendida com as palavras dele que soltou uma gargalhada. Pêro, que dizeis? Sou vossa mãe! Com uma óbvia admiração, o filho ripostou-lhe: sei bem o quão bela sois e o quanto os homens vos desejam! Ela franziu a testa, lisonjeada como mulher, mas também ligeiramente preocupada como mãe. Dizem que sois um atrevido com as senhoras. É assim, Gualdim?
O amigo do filho corou, dividido entre o respeito que devia a Chamoa, que impunha uma confirmação do rumor, e a lealdade fraternal ao amigo, que exigia uma defesa da honra deste. Sobre isso ele nada sabe, antecipou-se Pêro Pais. O Gualdim defende a castidade, quer entregar-se a Deus. Disse-o sem maldade, não considerava um erro a escolha do amigo, mas deixou claro que era diferente. Orgulhosa, Chamoa aprovou-o: tendes a quem sair. Vosso pai e eu sempre fomos muito soltos! O filho sorriu, cúmplice e agradado. Mas, de repente, viu Chamoa levantar-se num pulo, olhando para o embarcadouro onde atracava uma barcaça, enquanto exclamava: por Santiago, não posso crer! A minha cunhada desatou a correr para o rio e Pêro e Gualdim seguiram-na, surpreendidos, até ela estacar à frente de uma carroça com dois jumentos, onde vinham um homem de cabelos claros e três raparigas morenas. Mem!, gritou Chamoa.
O almocreve saltou para o chão e ela abraçou-o demoradamente, com enorme carinho. Não contente com isso, colocou as mãos na cara dele e deu-lhe um beijo rápido na boca, o que espantou Pêro, Gualdim e as três raparigas. Mem!, repetiu Chamoa. Que saudades! O almocreve sorria, um pouco atarantado, enquanto ela o cobria de perguntas. Donde vinha? Por onde andara? E Zaida, onde estava? E quem eram aquelas raparigas? Tivemos de fugir de Lisboa, contou Mem. A grande cidade onde o Tejo desaguava estava nas mãos de um bando de facínoras, que matava cristãos e moçárabes. Por isso, trouxera com ele as três irmãs, Ália, Élia e Ília, órfãs de pai e mãe, cuja vida corria perigo. Os Mantos Vermelhos chegaram a atacá-las, justificou-se Mem. Chamoa, que o conhecia muito bem, comentou: sempre um bom pastor das ovelhinhas... O almocreve sorriu, mas logo perguntou: e vós? Sei que haveis tido um filho de Afonso Henriques! A minha cunhada suspirou, desalentada: sou feliz no presente, mas não no futuro.
Nesse momento, uma das raparigas moçárabes deu um pequeno grito, apontando para o chão e gritando cobra!, e logo Pêro Pais puxou de um punhal que trazia ao cinto. Pegando-lhe pelo cabo, atirou-o com a mão direita, num movimento rápido e preciso que atingiu a cabeça da pequena víbora, a qual ficou a estremecer, moribunda, enquanto as três irmãs aplaudiam. Que moço tão hábil!, gabou Ália. Que destreza de mãos!, apreciou Élia. Por fim, Ília, que descobrira o réptil, exclamou: e que belo rapaz!
Chamoa observou a forma firme e rápida como o filho recuperou o punhal. Era a arma que Gonçalo Sousa lhe devolvera em Arcos de Valdevez, depois de humilhar Fernão Peres Trava. Dera-a ao filho, pois fora do pai dele, Paio Soares. O rapaz limpou a lâmina e mirou a carroça, onde se multiplicavam os risinhos». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Em Nome D’El Rei. Luís Barriga. «Era uma obra grandiosa, profusamente ilustrada, reunindo o saber cartográfico existente nas diversas capitais da Europa. Há muito que o infante recorria à erudição estrangeira…»

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Início de uma vida épica
Lisboa. Maio de 1459
«(…) Aproveitando uma sombra, uma comitiva a cavalo procurava evitar a calmaria e pôr a conversa em dia. O chefe do grupo interrompeu o rol de preocupações devido às alterações que se antecipavam na vida da capital, ao vislumbrar o estrangeiro que, naquele momento, estava estático em pleno porto, rodeado de malas e criados. Dando ordens aos que o acompanhavam, aproximaram-se do sujeito com os cavalos pelas rédeas, apresentando-se e dialogando em véneto, a língua da Sereníssima República de Veneza. O diálogo foi rápido, as bagagens carregadas e, a cavalo, o distinto senhor foi conduzido pelas ruas empoeiradas da cidade. O Paço Real da Alcáçova, resguardado pelos muros do castelo, aguardava o visitante, não por ele propriamente, mas pela encomenda de que era portador. Stefano Travisan transpôs a porta de acesso à sala e deparou-se com um aposento ricamente decorado, de duas naves apartadas por arcos em ogiva com arestas em bisel, apoiados em colunas oitavadas. Aguardava-o uma figura trajada de negro, aspecto envelhecido, sentado numa confortável cadeira de encosto, rodeado dos seus homens. O veneziano sentiu um baque no coração por, finalmente, estar perante tão grandiosa personagem, de quem muito ouvira falar. O infante Henrique, duque de Viseu e grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo, herdeira da Ordem do Templo, por iniciativa d'el-rei Dinis I, criada, a 14 de Março de 1319, pela bula pontifícia Ad ea ex-quibus do papa João XXII, aguardava-o impacientemente, manifestando na expressão o anseio que o corroía.
Stefano Travisan vergou-se perante o seu anfitrião, estendendo a missiva que acompanhava a encomenda, dirigida ao grande Infante Henrique. O tio d’el-rei Afonso V recebeu e desenrolou o pergaminho com alguma dificuldade, a respiração acelerada, eventualmente pela excitação ou pelo cansaço físico. A leitura da carta trouxe-lhe alguns esgares, que pareceram sorrisos. A epístola encorajava o infante a não desistir das viagens de exploração, prestando um enorme serviço à cristandade. O silêncio era ensurdecedor, as moscas enchiam o ar de um zumbido incomodativo, só perturbado pela respiração pesada de Henrique, que se erguia a custo. O mensageiro de Fra Mauro terminava aqui a sua tarefa, sendo dispensado pelo infante, depois que recebeu o último pagamento respeitante à encomenda.
O enorme mapa-mundo foi desenrolado sobre a mesa que dominava o centro da sala, arrancando aos presentes expressões de espanto. Um sopro de admiração varreu o ar em volta do planisfério, atingindo Alvise Cadamosto, Diogo Gomes, António Noli, magníficos navegadores ao serviço do infante. A tábula rectangular, agora colorida por mares nunca navegados, prendia a atenção destes bravos marinheiros. O planisfério representava os continentes cercados de água, o topo do mapa correspondia ao sul, ali mesmo onde terminava a África e se pressagiava a passagem do oceano Atlântico para o Índico. O infante Henrique buscou as respostas às demandas que há muito o assaltavam e os seus olhos pousaram sobre as distantes terras das especiarias. As respostas vinham nas legendas que Fra Mauro colocara sobre os locais de interesse, sobre os quais havia algumas notícias.
Era uma obra grandiosa, profusamente ilustrada, reunindo o saber cartográfico existente nas diversas capitais da Europa. Há muito que o infante recorria à erudição estrangeira, sobretudo veneziana, florentina e genovesa, para aprofundar os seus conhecimentos de cosmografia. Pôde assim somar à perícia portuguesa a experiência de navegadores estrangeiros e, em conjunto, demandar a costa de África. A latitude das ilhas de Cabo Verde era, até este momento, o ponto mais a sul conhecido e alcançado pelos navegadores ao serviço do infante Henrique. As lágrimas marejaram os olhos do velho infante, a emoção avassalou-lhe o espírito e a voz saiu-lhe embargada: meus senhores..., estamos perante um excelso trabalho, que já reflecte o conhecimento adquirido pelos nossos mareantes. Vamos entrar numa nova fase!, afirmou, olhando nos olhos dos presentes, enquanto tentava esconder o contentamento. As descobertas encaminham-se agora para a derradeira etapa, atingir a Índia, resgatando o comércio das especiarias das mãos dos infiéis. Apontou para o ponto do mapa onde estava representada a passagem do oceano Atlântico para o oceano Índico». In Luís Barriga, Em Nome D’El Rey, Clube do Autor, Lisboa, ISBN 978-989-724-448-3.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

Em Nome D’El Rei. Luís Barriga. «Estava a iniciar o ano de 1471 e a história de Portugal ia-lhe sendo revelada, ministrada pacientemente pelo professor, e essa era a parte mais entusiasmante das aulas…»

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Início de uma vida épica
Sertã. Maio de 1465
«(…) Toda a preparação a que Lopo Barriga era submetido, apesar da sua tenra idade, tinha uma forte razão de ser: advinha de ter chegado o momento de ser entregue como pajem a um senhor nobre. O pai já lhe traçara o destino, o de se tornar Cavaleiro como ele. Por isso, cedo iniciara o treino do filho, para que este não o envergonhasse e adquirisse os valores da Cavalaria. Havia feito sete anos no início do ano. Antes de atingir os catorze anos não subiria à condição de escudeiro; daí até à maioridade, continuaria as aulas de técnicas de combate, manuseio de armas, preparação física, assim como de leitura e escrita, O desejo paterno tornara-se o seu próprio anseio, pois ambicionava um dia obter tantas ou mais distinções que o progenitor, para que o Cavaleiro Pedro Barriga, finalmente, o olhasse com orgulho. Não tardaria que o senhor seu pai o fizesse transportar aos domínios de um grande senhor, para iniciar aí a sua caminhada e se transformar num grande combatente, ascendendo ao grau de Cavaleiro.
Com esse objectivo em mente, naquele dia, Pedro Barriga mandou aprontar os cavalos, dois magníficos exemplares de cavalos ibéricos. Lopo Barriga e seu pai partiram numa manhã luminosa de Primavera; as despedidas foram curtas, mas sentidas. As irmãs e a mãe vieram despedir-se, sobretudo de Lopo, pedindo a Deus para o voltarem a ver de saúde, pois sabiam que dificilmente se encontrariam nos próximos tempos. As lágrimas da criada Gertrudes fizeram as emoções invadir a garganta do jovem, mas, como sempre aprendera, um homem não chora; engolindo a comoção, montou apressadamente. As esporas fustigaram os cavalos, dando início à primeira grande aventura da sua vida. Ainda olhou para trás, procurando guardar na memória o lugar que o vira nascer, enquanto os cavalos seguiam o trilho ladeado de um manto verde.
A viagem foi cheia de peripécias e de paisagens diversas, em tudo diferentes das que se habituara a ver, mas completamente ultrapassadas pelo choque da chegada aos domínios do conde de Monsanto, Álvaro Castro; foi aos seus cuidados que o pai o deixou. Ali se versou nas incumbências adstritas ao dia-a-dia de pajem, servindo o senhor conde. O luxo de que se viu rodeado, as soberbas instalações, as magníficas cavalariças, a bem equipada armaria, tudo o impressionara. Só o treino físico a que foi submetido lhe parecia ligeiro, e isso devia-o ao senhor seu pai. No que dizia respeito aos livros, eram horas de grande martírio, espreitando, sempre que podia, a liberdade nas copas das árvores que se avistavam, ou no voo estonteante dos pássaros. A armadura e as armas de seu senhor deixaram de ter segredos; arrear o cavalo, preparando-o para os treinos, passou a ser uma tarefa simples e banal. Inúmeras vezes, no recato do espaço reservado aos equipamentos e armas de guerra do conde, envergou a sua armadura reluzente e, com esforço, esboçou movimentos de esgrima, sob o peso esmagador de toda aquela parafernália.
As idas e vindas ao Paço Real, no Castelo de São Jorge, com o seu mentor, passaram a ser comuns, assim como as longas permanências na capital do reino. O assombro de que foi acometido à primeira chegada a Lisboa foi sendo apaziguado pela frequência das visitas, proporcionando habituação ao frenesim lisboeta. Foi numa dessas incursões que conheceu o príncipe João, pouco mais velho que ele, também entregue à aprendizagem das artes da guerra. Nas permanências mais duradouras, acabou mesmo por ser integrado nos treinos dos jovens que estavam a ser educados na Corte. Aqui encarou com muitas das figuras proeminentes de quem seu pai contava histórias de aventura e heroísmo. À medida que o tempo passava e que o seu corpo se preparava para a guerra, Lopo ansiava também por saber mais sobre o mundo e a sua história. Estava a iniciar o ano de 1471 e a história de Portugal ia-lhe sendo revelada, ministrada pacientemente pelo professor, e essa era a parte mais entusiasmante das aulas, onde a escrita e os livros eram as únicas armas.

Lisboa. Maio de 1459
Um calor infernal abafava a cidade onde tudo era passível de acontecer, nesta metrópole onde arribava gente vinda de todas as proveniências. A soalheira impedia que se usufruísse da brisa marinha e dificultava as normais actividades portuárias. Foi assim que se sentiu um senhor de aparência nobre ataviado, secundado por alguns serviçais. Desembarcou aos ombros de um dos possantes marinheiros, não fosse a areia lamacenta da praia conspurcar o digníssimo calçado que ostentava. Já, com os pés em terra firme, limpava o suor que lhe escorria pela face, sob o sol a pique. Apondo a mão em jeito de pala, protegendo os olhos, perscrutou a azáfama do ancoradouro, procurando algo. Assombrou-se com a riqueza das mercadorias comercializadas no porto de Lisboa e percebeu que já atracavam à capital portuguesa muitas das riquezas de África, entre elas, os escravos negros». In Luís Barriga, Em Nome D’El Rey, Clube do Autor, Lisboa, ISBN 978-989-724-448-3.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

Em Nome D’El Rei. Luís Barriga. «As forças comandadas por el-rei Afonso V eram constituídas por uma frota de duzentas e vinte embarcações e um exército de vinte cinco mil homens»

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Início de uma vida épica
Sertã. Maio de 1465
«(…) Teria sido na sequência da bravura patenteada perante os mouros, no assalto a Alcácer-Ceguer, que Pedro Barriga ascendeu à condição de Cavaleiro do reino. Estava, agora, de volta das frustradas tentativas em 1463 e 1464 para a tomada de Tânger, praça-forte do sultão de Fez, Abd al-Haqq II. Este mesmo sultão prendera o infante Fernando, em 1437, e mantivera-o cativo até à sua morte, ao não ter visto satisfeita a exigência imposta a Portugal: a entrega de Ceuta. As pesadas derrotas que a armada e o exército português haviam sofrido deixaram feridas no corpo e, sobretudo, no coração orgulhoso de seu pai. Este, agora, só pensava na carreira do filho e em como orientá-lo para o que o porvir lhe traria.
As aulas de equitação duravam horas. No volteio, o pai obrigava-o a constantes exercícios de perícia e força, deixando-lhe o corpo completamente destroçado. As aulas de esgrima, com espada de madeira, deixavam-lhe marcas que o pai lhe infligia, ao mesmo tempo que exigia valentia. A tenacidade que Pedro Barriga impunha ao filho era a mesma que exibira aos olhos do rei nas empresas de conquista das praças do Norte de África e que, um dia, queria ver ostentada pelo seu descendente. Contava-lhe o pai, nos intervalos do intenso treino a que o sujeitava, que em consequência da política de expansão ultramarina portuguesa e do necessário alargamento da Fé Cristã, fora atacada Alcácer-Ceguer. Foram dois dias de intensos combates, em 23 e 24 de Outubro de 1458, em que o exército português, comandado pelo magnífico rei Afonso V, saiu, finalmente, vitorioso.
Alcácer-Ceguer ficava localizada no estreito de Gibraltar, entre Tânger e Ceuta. Dificilmente acessível por mar, era dominada pela elevação de Seinal, povoação subjugada por vários povos ao longo dos tempos. Para os romanos era conhecida como Lissa, ou Exilissa, tendo sido conquistada pelos árabes, por volta do ano de 708, aquando da ocupação muçulmana do Magrebe. Durante o califado almóada, foi um importante porto de embarque de tropas para a Península Ibérica; entretanto, convertera-se num reduto de corsários.
Nas ocasiões em que o senhor seu pai se decidia a elucidá-lo sobre o que era ser um Cavaleiro em acção no campo de batalha, ombreando com os grandes nomes do reino, parava o treino, permitindo algum descanso. Assim, aprendeu a estimular esses relatos. Numa dessas ocasiões, o pai falou-lhe da constituição e comando da armada que abordou Alcácer-Ceguer. Lopo Barriga ficou a saber que, nessa aventura, participaram o infante Henrique, o infante Fernando, o marquês de Valença, o marquês de Vila Viçosa, entre outros. As forças comandadas por el-rei Afonso V eram constituídas por uma frota de duzentas e vinte embarcações e um exército de vinte cinco mil homens. Depois de reunida em Lagos, a armada partiu a 17 de Outubro de 1458. Dois dias depois foi empurrada pelos ventos para perto de Tânger; ali fundeou, cogitando-se sobre um possível ataque à cidade, até então inexpugnável; no entanto, apelando à razão, o infante Henrique decidiu manter o plano inicial.
O sultão foi notificado da presença da frota portuguesa nas proximidades de Tânger. Enquanto preparava um ataque a Tlemcen, decidiu deslocar as suas forças para defender Tânger. A conquista de Alcácer-Ceguer só foi viável devido à combinação de duas causas: a supremacia da artilharia portuguesa e o erro de estratégia do sultão de Fez. Contava o Cavaleiro Pedro Barriga que, a determinada altura, se viu rodeado de mouros. Pelejando com quanta força tinha, foi trucidando infiéis; a salvação foi que, ao recuar, esbarrou costas com costas com um cavaleiro cristão e os dois degolaram e sangraram um montão de ímpios. Cobertos de sangue e suor, selaram uma forte amizade, mas, infelizmente, depois que terminou a campanha, nunca mais se voltaram a encontrar. Chamava-se aquele Lourenço Rodrigues, um algarvio de Estoi, uma aldeia nas proximidades da vila de Faro, recordava Pedro Barriga. Alcácer-Ceguer acabou por se render, os habitantes abandonaram a povoação com tudo o que puderam transportar. Afonso V seguido pela sua gente, foi em procissão até à mesquita benzida e convertida em igreja de Nossa Senhora da Conceição.
De acordo com o que lhe contava o senhor seu pai, a desforra islâmica não se fez esperar. El-rei Afonso V ainda se encontrava em Ceuta quando foi avisado de que Abd al-Haqq II se preparava para reconquistar Alcácer-Ceguer. Ceuta já era praça portuguesa desde 1415, conquistada aos mouros por el-rei João I, o fundador da casa de Avis. Essa conquista foi uma mistura de cruzada com a necessidade de controlar a navegação à saída do mar Mediterrâneo, impedindo a insistente investida moura às costas portuguesas. Afonso V de imediato, decidiu acorrer em defesa da praça ameaçada. A esquadra portuguesa aportou ao largo de Alcácer-Ceguer, mas não foi possível fazer chegar qualquer tipo de ajuda aos sitiados, e os sitiantes não se amedrontaram ao avistar a frota. Os portugueses, resistindo ao cerco, sob o comando de Duarte Menezes, lutaram durante cinquenta e três dias, impondo perdas importantes ao inimigo. A 2 de Janeiro de 1459, os mouros acabaram por desistir». In Luís Barriga, Em Nome D’El Rey, Clube do Autor, Lisboa, ISBN 978-989-724-448-3.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. « Temos de desviar tudo isto, pois o meu pai escondeu a entrada até poder assentar lajes de pedra novas. Quando acabámos de afastar tudo, o suor escorria-me em bica pela cara»

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Castelo de Montmerle. Região da Borgonha. 25 de Julho de 1094
«(…) Já nas imediações do mosteiro, tentámos ocultar a nossa presença contornando a zona de maior densidade do bosque para chegarmos à igreja de S. Tiago, cerca de meia légua afastada das obras. Os homens trabalhavam no claustro e havia grande azáfama de pedreiros, serventes, canteiros, carpinteiros e gente dos restantes ofícios. Ouvia-se, como ruído de fundo, o barulho próprio da construção, mas os trabalhadores estavam demasiado longe para conseguirem ver-nos. Além disso, a maior parte deles estava concentrada nas suas tarefas ou encontrava-se na parte de dentro dos muros do claustro. O pai de Ernaud trabalhava nas colunas que sustentavam o tecto abobadado da sala do capítulo, pelo que não corríamos o risco de que nos visse. Não deixaria as suas tarefas antes do entardecer, altura em que iria trabalhar para a capela à qual nos dirigíamos, o que nos deixava tempo suficiente para a nossa aventura particular. Vimos o oratório de pedra encimado por uma cobertura de madeira e tinha seis janelas, três em cada parede, por onde entrava apenas uma nesga de luz. A portada era o que estava em pior estado de conservação e Gerverto Aurillac tinha colocado umas tábuas para que ninguém entrasse.
Depois de nos assegurarmos de que não estava ninguém por perto, corremos para a entrada da capela, retirámos uma das pranchas e entrámos. Deixámo-nos ficar calados por alguns instantes, ofegantes por causa da corrida e da preocupação que nos descobrissem. Aquilo era tão emocionante como perigoso e eu sabia que o castigo poderia ser exemplar! Dei graças a Deus pelo ar fresco que se conservava no interior devido às paredes de pedra e à escuridão. Pelas janelas passava apenas um pouco de luz sob a forma de feixes fugazes que trespassavam o duro alabastro, desaparecendo em seguida, engolidos pela escuridão. A igreja tinha três naves estreitas, com colunas recuperadas de construções anteriores. O pequeno presbitério, de forma semicircular, ficava à parte, separado por três arcos em que se colocavam cortinados para ocultar o oficiante dos olhos dos fiéis durante as liturgias, embora ninguém celebrasse missa naquele altar havia muito tempo. Ernaud encaminhou-se para a direita. Junto à entrada encontrava-se todo o arsenal de pedras meio aparelhadas, pranchas, ferramentas de trabalho e areia.
Temos de desviar tudo isto, pois o meu pai escondeu a entrada até poder assentar lajes de pedra novas. Quando acabámos de afastar tudo, o suor escorria-me em bica pela cara. Tratava-se de um alçapão estreito, feito de três pranchas presas umas às outras com apoios de ferro, com duas argolas a servirem de maçanetas. Ernaud rodou a da direita e, naquele momento, ouviu-se o ruído áspero de um ferrolho a abrir-se. Depois, agarrou as duas argolas e puxou com força, mas o alçapão não se moveu nem um milímetro! Preciso da tua ajuda. Não consigo levantar isto sozinho; é demasiado pesado.
Fu pouca força tinha, mas esforcei-me ao máximo e puxei juntamente com ele. Demorámos um bom bocado a conseguir que o alçapão se erguesse. Porém conseguimo-lo, ainda que muito lentamente, e encostámo-lo ao muro, libertando assim a entrada. Fitámos ambos o buraco escuro que se abria aos nossos pés. Apenas se viam uns degraus toscos, que se perdiam nas entranhas da terra. Ernaud abriu a bolsa de pano que levava a tiracolo e retirou de lá uma pedra, um pouco de palha e uma grossa vela de sebo. Em seguida, bateu com a pedra até as faíscas acenderem o pavio da vela. Por fim, olhou-me e sorriu, nervoso. Vou à frente. Tem cuidado, não escorregues». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

Cortesia SEmergência/JDACT

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Santa Teresa de Jesus. Poesia. «Mas se pelas minhas obras não esperas, porque esperas, clementíssimo Senhor meu? Porque tardas? Porque, se, enfim…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Oração da alma enamorada
«Senhor Deus, amado meu!
Se ainda Te recordas dos meus pecados,
para não fazeres o que ando pedindo,
faz neles, Deus meu, a tua vontade,
pois é o que mais quero,
e exerce neles a tua bondade e misericórdia
e serás neles conhecido.
E, se esperas por obras minhas,
para, por meio delas, me concederes o que te rogo,
dá-as Tu, e opera-as Tu por mim,
assim como as penas que quiseres aceitar
e faça-se.
Mas se pelas minhas obras não esperas,
porque esperas, clementíssimo Senhor meu?
Porque tardas?
Porque, se, enfim,
há-de ser graça e misericórdia
o que em teu Filho te peço,
toma a minha insignificância,
pois a queres,
e dá-me este bem,
pois que Tu também o queres.
Quem se poderá libertar dos modos
e termos baixos
se não o levantas Tu a Ti em pureza de amor,
Deus meu?
Como se levantará a Ti o homem
gerado e criado em baixezas,
se não o levantas Tu, Senhor,
com a mão com que o fizeste?
Não me tirarás, Deus meu,
o que uma vez me deste
em teu único Filho Jesus Cristo,
em quem me deste tudo quanto quero.
Por isso folgarei pois não tardarás,
se eu espero.
Com que dilações esperas,
pois, se desde já podes amar a Deus
em teu coração?
Meus são os céus e minha é a terra;
minhas são as gentes,
os justos são meus, e meus os pecadores;
os anjos são meus
e a Mãe de Deus
e todas as coisas são minhas;
e o mesmo Deus é meu e para mim,
porque Cristo é meu e todo para mim.
Que pedes pois e buscas, alma minha?
Tudo isto é teu e tudo para ti.
Não te rebaixes
nem repares nas migalhas
que caem da mesa de teu Pai.
Sai para fora de ti e gloria-te da tua glória,
esconde-te nela e goza,
e alcançarás as petições do teu coração».
In Santa Teresa de Jesus (Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada)
S. João da Cruz. As mais belas páginas de S. João da Cruz. Ditos de Luz I, 25-27

Feliz o que ama a deus
«Ditoso o coração enamorado
Que só em Deus coloca o pensamento;
Por Ele renuncia a todo o criado,
Nele acha glória, paz, contentamento.
Vive até de si mesmo descuidado,
Pois no seu Deus traz todo o seu intento.
E assim transpõe sereno e jubiloso
As ondas deste mar tempestuoso».
In Obras Completas Santa Teresa de Jesus (Edições Loyola, 2002).

Cortesia de Carmelo São José. Cruz Alta.

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Santa Teresa de Jesus. Poesia. «Que me escolheu para Si; quando o coração Lhe dei com terno amor lhe gravei: que morro porque não morro»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nada te turbe
«Nada te turbe. Nada te espante. Tudo passa. Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta!»
In Santa Teresa de Jesus

Morro por que não morro
«Vivo sem viver em mim,
E tão alta vida espero,
Que morro porque não morro.
Vivo já fora de mim,
Desde que morro d’Amor
Porque vivo no Senhor
Que me escolheu para Si;
Quando o coração Lhe dei
Com terno amor lhe gravei:
Que morro porque não morro.
Esta divina prisão
Do grande amor em que vivo,
Fez a Deus ser meu cativo,
E livre o meu coração;
E causa em mim tal paixão
Ser eu de Deus a prisão,
Que morro porque não morro.
Ai que longa é esta vida!
Que duros estes desterros!
Este cárcere, estes ferros
Onde a alma está metida.
Só de esperar a saída
Me causa dor tão sentida,
Que morro porque não morro.
Ai, que vida tão amarga
Por não gozar o Senhor!
Pois sendo doce o amor,
Não o é, a espera larga;
Tira-me, ó Deus, este fardo
Tão pesado e tão amargo,
Que morro porque não morro.
Só com esta confiança
Vivo porque hei-de morrer.
Porque morrendo, o viver
Me assegura a esperança;
Morte do viver s’alcança;
Vem depressa em meu socorro,
Que morro porque não morro.
Olha que o amor é forte;
Vida, não sejas molesta,
Olha que apenas te resta
Para ganhar-te o perder-te;
Vem depressa doce morte
Acolhe-me em teu socorro
Que morro porque não morro.
Do alto, aquela vida
Que é a vida prometida,
Até que seja perdida
Não se tem, estando viva;
Morte não sejas esquiva;
Vem depressa em meu socorro,
Que morro porque não morro.
Vida, que possa eu dar
A meu Deus que vive em mim,
Se não é perder-te enfim,
Para melhor O gozar?
Morrendo O quero alcançar,
Pois nele está meu socorro
Que morro porque não morro».
In Santa Teresa de Jesus (Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada)

Cortesia de Carmelo São José. Cruz Alta.

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A Intriga de Compostela. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «De seguida, chamou Pêro Pais e pediu-lhe que lutasse ferozmente nas próximas batalhas. Fazei-o por mim, meu filho. Se Afonso Henriques vencesse, o futuro de Portugal passaria pelos seus rebentos…»

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A intriga de Compostela 1140-1142
Guimarães. Outubro de 1140
«(…) Ele desaprovava a união da minha cunhada a Afonso Henriques. Um devaneio pecaminoso, dizia-me, além de me relembrar a existência de conversas com a casa da Sabóia. Contudo, sempre que lhe falavam no tema e mesmo na ausência de Chamoa, Afonso Henriques enxofrava-se. Para casar com alguém de fora, mais valia tê-lo feito com a Zaida!. Pelo menos, essa entregava-me a Andaluzia! Que me pode dar uma princesa da Sabóia? São terras longínquas, de nada me servem! Meu pai não o contestou, mas o sibilino arcebispo de Braga, também presente, notou mais uma vez que as preferências femininas do príncipe não se recomendavam. Uma normanda, uma moura e Chamoa? Nenhuma delas pode ser rainha!, resmungou João Peculiar. Embora estes argumentos fossem compreensíveis, meu pai e o arcebispo subestimavam o sentimento geral dos portucalenses, em cujos corações se mantinha vivo o ódio aos Trava. Naquela sala, havia poucos que não tivessem um motivo de rancor à notável família galega. Os ajustes de contas encontravam-se por fazer.
João Peculiar e Egas Moniz estavam, pois, isolados, não porque os restantes portucalenses não quisessem combater os mouros, mas porque julgavam prioritário regressar à Galiza. E foi isso que ficou decidido naquele Outono. Unidos à volta de Afonso Henriques, juntaríamos tropas e faríamos a guerra a norte do rio Minho, mostrando ao Trava e ao imperador que não iríamos parar antes de ver reconhecidos os direitos antigos do nosso príncipe.
Quando reportei a Maria e a Chamoa as decisões tomadas naquela reunião magna, a minha cunhada mostrou-se agradada, sobretudo porque seu pai seria finalmente colocado sob a protecção de Afonso Henriques. Porém, notei nela um obscuro, mas silencioso, tormento, que só tempos depois identifiquei. A pérfida intriga que Afonso VII lançara em Tui punha em causa Egas Moniz, que era também um dos principais opositores à união de Chamoa com o príncipe de Portugal. Havia, portanto, uma luta escrita nas estrelas, o meu pai contra Chamoa. Mas, se esta falasse na intriga de Compostela, a sua união com Afonso Henriques poderia não resistir ao embate com os conselheiros do rei.
Egas e Peculiar querem-me fora da corte…
Ou Afonso Henriques derrotava em definitivo Fernão Peres Trava e Afonso VII, tornando-se o rei de Portugal e da Baixa Galiza e obrigando os portucalenses a aceitarem Chamoa como rainha, ou ela sofreria uma perda dolorosa, talvez irreparável. Preocupada, retirou-se para o quarto e embalou o recém-nascido Fernando Afonso.
Sereis rei, meu menino?
De seguida, chamou Pêro Pais e pediu-lhe que lutasse ferozmente nas próximas batalhas. Fazei-o por mim, meu filho. Se Afonso Henriques vencesse, o futuro de Portugal passaria pelos seus rebentos, foi a conclusão da bela Chamoa, que desde criança sonhava ser rainha! E se perdermos?, perguntou-lhe Pêro Pais. A minha cunhada engoliu em seco. Não queria expandir a terrível intriga de Compostela, por isso rezou com fervor.
Apóstolo Santiago, dai-me uma grande vitória!
Queridos filhos e netos, que pena tenho de que também Chamoa não tenha confiado em mim, confessando-me as suas angústias desagradáveis, as noites sem dormir provocadas por aquela historieta velhaca! Eu estimava-a e teria sido um empenhado aliado em proteger a reputação do nosso amado Afonso Henriques, mesmo sabendo que isso implicaria um provável conflito com Egas Moniz. Um rei está acima do nosso pai. É duro, mas é assim». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

A Intriga de Compostela. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «A melhor estratégia era avançar no Sul, lutando contra os mouros, ajudando assim a investida paralela do imperador na Andaluzia e caindo nas boas graças do papa»

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A intriga de Compostela 1140-1142
Guimarães. Outubro de 1140
«(…) Perto do altar estavam também os restantes quatro rapazes da minha cunhada, com Pêro Pais à cabeça, bem como os dois rebentos com que Maria me brindara; e ainda a filha e os filhos de Teresa de Celanova e meu pai, Egas Moniz. No final da longa celebração, o barulho que o bando de crianças fazia à porta da capela era intenso e, por isso, Afonso Henriques as convocou, para distribuir guloseimas e bolos, afastando-as dos adultos. Cercado de meninos e meninas, já com três descendentes, apaixonado por Chamoa, orgulhoso dos seus novos castelos no Sul, como Penela ou Pombal, Afonso Henriques parecia feliz, mas eu sabia que ainda lhe faltava o reconhecimento final a que aspirava. Por mais que o arcebispo de Braga, João Peculiar, escrevesse ao papa Inocêncio II propagandeando a estrondosa vitória obtida em Ourique sobre os muçulmanos, o pontífice não aceitara reconhecer o príncipe como rei, tal como acontecia com Afonso VII.
Seja como for, os últimos tempos haviam sido pacíficos e só quando Gomes Nunes chegou atrasado para o baptizado de mais um neto pressenti o fim do remanso. O meu sogro vinha afogueado, mas solitário, pois Elvira Peres Trava recusara-se a comparecer, alegando que a família Trava jamais iria pacificar as suas querelas com o Condado Portucalense. Contudo, bem mais preocupantes do que os amuos de minha sogra eram as notícias que o seu marido nos trazia: Virgem Santíssima, o Trava quer a guerra!, contou Gomes Nunes. E Afonso VII quer banir-me e tirar-me Toronho! Ao ouvir tais palavras, Afonso Henriques exclamou: esses territórios são meus, não de meu primo! O velho sonho de dominar a Baixa Galiza, que nascera com o conde Henrique e com sua mãe, voltava a contagiá-lo e, surpreendentemente, também à sua amada. Agora que já dera um menino ao príncipe de Portugal, Chamoa Gomes aspirava a mais. Sendo também uma Trava, tinha um pé na Galiza e outro em Portugal e podia reinar em ambos os territórios, ajudando de caminho o seu pai, Gomes Nunes, a permanecer na posse de Toronho. O imperador não nos pode tirar Tui!, protestou ela.
A seu lado, o embevecido príncipe de Portugal concordou, declarando que assim se fundiam dois desejos antigos: o dele, de reinar na Baixa Galiza, e o dela, de ser rainha desde Compostela até Leiria. Agradada, Chamoa saiu, pacificada, da sala do castelo, acompanhada pela minha Maria, por Teresa Celanova e pelo grupo de crianças. Porém, mal estas se deixaram de ouvir levantou-se uma voz opositora de tantos devaneios. Era Egas Moniz. Tendes ambição a mais! Meu pai assistira à longa guerra que consumia a Galiza, trespassada por conflitos sangrentos entre o arcebispo Gelmires, os Trava, dona Teresa e sua irmã, a louca rainha Urraca, mãe de Afonso VII. Reeditar tais desgraças afigurava-se intolerável para um pacificador nato, que abominava lutas entre cristãos e sempre defendera que o Sul era o nosso sublime desígnio. Conquistai antes Santarém e Lisboa, pois só assim o papa e o imperador vos farão rei!, afirmou Egas Moniz.
O atribulado dilema que atravessara a nossa última década persistia. Qual a prioridade portucalense? O Sul, a luta contra os mouros? Ou o Norte, a união com a Galiza? O pacto de Tui fora cristalino, a faixa galega a norte do rio Minho não pertencia a Afonso Henriques, mas o príncipe de Portugal moía cada vez mais a irritação de ter assinado tal compromisso num momento de fragilidade. Já meu pai, embora defendesse que Afonso Henriques tinha direito a reinar no Condado Portucalense e na Baixa Galiza, considerou que ele devia apresentar essas justas pretensões de forma pacífica, procurando a aprovação do primo. A melhor estratégia era avançar no Sul, lutando contra os mouros, ajudando assim a investida paralela do imperador na Andaluzia e caindo nas boas graças do papa. Além disso..., murmurou Egas Moniz, olhando para a porta por onde há pouco saíra Chamoa. Tendes de pensar numa esposa real!» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Assim Nasceu Portugal. A Intriga de Compostela. Domingos Amaral. «… a normanda Elvira Gualter, a antiga amante de Afonso Henriques, cuja presença em Guimarães incomodava deveras Chamoa, uma mulher sempre muito ciumenta»

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A intriga de Compostela 1140-1142
Tui. Maio de 1140
«(…) Depois, para exibir o seu poder imperial, e com o mesmo tom agradável, Afonso VII terminou proferindo uma ameaça séria. Um imperador tudo pode. Se Chamoa não agisse e Gomes Nunes persistisse naquela recusa desonrosa, a punição imperial seria drástica: o conde de Toronho seria banido do Castelo de Tui e destituído do seu título! O quê?, exclamou Pêro Pais, enfurecido. O visado angustiou-se em silêncio e até Elvira não teve alma para reagir. O primeiro a falar foi o Trava, que subitamente animado e já cavalgando aquela horrível fantasia, olhou com desdém para o jovem Pêro Pais e o ofendeu: pior do que vosso pai ter sido morto por Afonso Henriques era tê-lo sido por um embusteiro! Para evitar que o impetuoso rapaz puxasse do punhal, o seu amigo Gualdim pousou-lhe a mão no braço, sentindo-o enrijecer de raiva. Pêro Pais há muito que sabia que seu pai, Paio Soares, fora morto por Afonso Henriques. Ciúme fatal, por causa do amor que ambos tinham a Chamoa. Mas uma coisa era perdoar ao pai, ao príncipe e à mãe essa distante tragédia amorosa; outra, bem diferente, era ouvir gozações insultuosas na boca do principal responsável por Paio Soares e Afonso Henriques se terem tornado inimigos. Havereis de engolir essas palavras!, rosnou Pêro. O Trava riu-se, bem como a avó Elvira, que perorou: ameaças de um petiz, nem chegam ao nariz. Quem não se riu foi Gomes Nunes, porque a partir daquela data tinha a cabeça a prémio. Coçou o pescoço com a mão, já lhe doía. Ou esclarecia com Chamoa aquela antiga trama, ou perdia Toronho para sempre...
Queridos filhos e netos: hoje, quando vos conto isto, no meu coração encontro ainda um lamento magoado, por meu sogro não me ter descrito este desagradável encontro em Tui. Gomes Nunes era um bom homem. Dávamo-nos bem, conversávamos muito quando eu e Maria Gomes o íamos visitar a Tui ou ele vinha a Guimarães, havia entre nós respeito mútuo suficiente para ele ter confiado em mim, revelando-me a desagradável malícia que Afonso VII e o Trava espalhavam. Se o tivesse feito, muita confusão se evitaria, mas a verdade é que se calou, impossibilitando-me de investigar a intriga de Compostela à nascença. A trombeta do Diabo começara a soar.

Guimarães. Outubro de 1140
Nesse Verão, Gomes Nunes deve ter contado à filha a intriga de Compostela, mas esta não a partilhou com ninguém, por razões mais do que óbvias. Chamoa estava grávida de Afonso Henriques, teria a criança no Outono, era impensável a mãe lançar dúvidas sobre a identidade do pai do rebento antes de este nascer.
Sou tola, mas não sou estúpida.
Além disso, depois da promessa que o príncipe lhe havia feito, de que não casaria com outra mulher, Chamoa convencera-se de que um dia seria rainha de Portugal, sonho que alimentava desde criança. A vil intriga do imperador foi, pois, provisoriamente enterrada e a minha cunhada deu à luz o primeiro filho de Afonso Henriques.
Este é dele, não há dúvidas.
O menino recebeu o nome de Fernando Afonso e quem levou as velas à pia baptismal foram as filhas de dona Teresa e Fernão Peres, Sanchinha e Teresa Trava, logo seguidas pelas primeiras filhas do meu melhor amigo, Urraca e Teresa, tremendamente loiras como sua mãe, a normanda Elvira Gualter, a antiga amante de Afonso Henriques, cuja presença em Guimarães incomodava deveras Chamoa, uma mulher sempre muito ciumenta.
Porque a convidou o Afonso? Quer filhá-la?» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «Entretanto, o Verão de 1096 estava em pleno vigor, e nos reinos flamengos e ducados franceses, incluindo a Borgonha, reuniam-se exércitos, colocando as selas…»

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140 A. C., numa terra do oeste da Ibéria chamada Lusitânia...
«(…) As instruções de Afonso aos cavaleiros Henrique e Raimundo eram simples: reconquistar as partes da Galiza e de Portucale roubadas pelos mouros. O que fariam admiravelmente, com os dois borgonheses a granjear grande reputação pelos serviços prestados durante oito anos, reconquistando território a sul até ao rio Tejo, incluindo a cidade de Lisboa. Como prova do seu apreço por Raimundo, Afonso, o Bravo, ofereceu-lhe a mão da sua filha Urraca em casamento e concedeu-lhe o governo da Galiza como feudo pessoal. O igualmente corajoso Henrique, descendente dos reis francos pela linha masculina, bisneto do rei Roberto I, filho do duque Henrique de Borgonha e sobrinho da segunda mulher de Afonso, recebeu em casamento a mão da filha ilegítima de Afonso, dona Tareja, juntamente com um dote de terras em Castela. Em qualquer outra era, isto teria parecido um acordo simples, mas sendo o século XI, nem na própria família se podia confiar, e mal Raimundo se juntara a Urraca em matrimónio, o sogro descobriu a sua ambição de expandir o seu recém-adquirido território galego. Assim Afonso, o Bravo, concebeu um plano astuto para o impedir, atribuindo a Henrique e Tareja uma fatia do território contíguo,  o condado de Portucale, que, naquele momento, estava sob a suserania de Raimundo. Essencialmente, Afonso enfraqueceria as pretensões do genro mais ambicioso fazendo de Raimundo um vizinho imediato do seu primo Henrique, ao mesmo tempo que estabelecia os territórios de ambos como dependências do seu reino de Castela e Leão. E, finalmente, algum sentido de ordem tem efeito sobre a região. Pelo menos por agora.
Entretanto, o Verão de 1096 estava em pleno vigor, e nos reinos flamengos e ducados franceses, incluindo a Borgonha, reuniam-se exércitos, colocando as selas e partindo para leste na árdua Cruzada à Terra Santa. Quando a notícia deste mais nobre empreendimento chegou a Afonso VI, o rei espanhol jurou incondicionalmente dar um contributo pessoal, mas com os mouros a fazer constantes incursões no seu reino, retomando até Lisboa, Afonso estava demasiado ocupado com as próprias campanhas em casa para se aventurar no estrangeiro. Em vez disso, enviaria ajuda à Primeira Cruzada através do seu confiável genro Henrique, que agiria em seu nome. Aqui, as relações familiares funcionaram a favor de Henrique (a segunda esposa de Afonso também era borgonhesa), para não falar da sua educação na iluminada Casa de Borgonha. Nesta época, o ducado da Borgonha era o epicentro de um renascimento, a encruzilhada comercial e intelectual da Europa, e dado que Henrique e Afonso eram antigos alunos deste círculo liberal, ambos partilhavam, sem dúvida, laços intelectuais, bem como uma visão comum do mundo. Em troca do seu compromisso de navegar os quatro mil quilómetros até Jerusalém, e em parte para manter o primo Raimundo sob controlo, o recém-sogro de Henrique concedeu-lhe ainda o governo da cidade portuária de Porto Cale e do território circundante.
Para um homem que nascera o filho mais novo, e portanto esperava alcançar pouca riqueza ou herança por título, Henrique de Borgonha saiu-se bem. Após receber a antiga terra dos lusitanos, foi-lhe atribuído o título de conde e retirou-se, entusiasmado, para a sua nova propriedade de montanhas, charneca, costa e florestas, adoptando os costumes locais, aprendendo a língua portuguesa, mudando o seu nome para conde dom Henrique, em sinal de respeito. Em vez de ficar na cidade de Porto Cale, optou pelas colinas verdejantes e pela interior cidade de Guimarães, já venerada no seu tempo como local de peregrinação, após o que concedeu um foral à cidade e estabeleceu ali a capital do condado de Portucale.
Com os assuntos do Estado em ordem, dom Henrique parou brevemente para desfrutar da sua nova e maravilhosa vida, antes dos preparativos para embarcar na longa viagem até à Palestina, com o objectivo de libertar a Igreja do Santo Sepulcro. Mal sabia ele que a sua decisão marcaria um momento crucial na história de Portucale, pois as pessoas que conheceria em Jerusalém moldariam o destino deste território. Henrique partiu de Porto Cale rumo a Génova, na costa norte de Itália, e juntou forças com um dos exércitos cruzados, provavelmente o liderado pelo filho do rei francês, depois prosseguiu com a frota até ao antigo porto de Jafa, desembarcando cinquenta e três quilómetros a oeste dos portões de Jerusalém. O seu sentido de oportunidade não podia ter sido melhor, coincidindo com a chegada dos cruzados que desciam sobre a cidade vindos do Norte, empoeirados pelos meses de marcha laboriosa pelo Levante». In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de AlmadosLivros/JDACT