sexta-feira, 30 de outubro de 2020

O Último Segredo. Lynn Sholes e Joe Moore. «Ele me deu o sinal positivo. Veja bem o que parece, Cotten..., e lembre-se de que, por causa disso, está disposta a enfrentar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Fósseis de Gilley

Vale dos Dinossauros, Texas

«(…) Estou absolutamente segura de que a peça vale isso. Se a emissora não a comprasse, ela seria vendida por um preço muito mais alto no mercado negro. E outra pessoa teria ficado com a história..., e com a glória. Verifiquei tudo, Ted. Os especialistas dizem que foi um bom negócio. Verificar um artefacto e confirmar a sua autenticidade são duas coisas bem diferentes, moça. E ninguém melhor do que para saber disso. Ele fez uma pausa. Só não quero que faça papel de boba. Consegui que um paleontólogo examinasse o fóssil. Ele me deu o sinal positivo. Veja bem o que parece, Cotten..., e lembre-se de que, por causa disso, está disposta a enfrentar o que der e vier. O bom e velho Gilley..., esse é o nome do comerciante, certo? Deus, será que todo o mundo no Texas se chama Gilley? Não, existem alguns Georges W. e Lyndons. Mas, sinceramente, esse foi o nome que ele deu quando se apresentou..., Gilley.

Melhor do que Garganta Profunda, acho... Ted se referia à principal fonte jornalística do caso Watergate, que culminou com a renúncia do presidente Nixon. De qualquer modo... Gilley, o texano, filho de um colecionador de bugigangas, com uma pilha de ossos de dinossauro, encontra esse fóssil no porão do pai, numa caixa com um punhado de outros fragmentos de ossos. Ele telefona para você, tudo isso sigilosamente, oferecendo-lhe a grande reportagem por um preço razoável..., ou então ele venderia a coisa no mercado negro por uma pequena fortuna. Mas tudo pela boa vontade dele, sem interesse nenhum... Não, não foi pela boa vontade dele, nem sem interesse nenhum. Ele acha que, por causa da publicidade que vamos dar-lhe com a cobertura da história, a lojinha de fósseis dele vai fazer rios de dinheiro. Ele ainda pode escrever um livro, dar entrevistas e ter os seus quinze minutos de fama. Outra opção seria vender no mercado negro, e ele receberia a mesma quantia em dinheiro, mas não a popularidade. Ele disse que, para ele, tanto faz. Mas que ainda prefere ser uma celebridade. E quanto ao paleontólogo? De onde surgiu? Ora, vamos, Ted, dá um tempo. Não me pode dar um pouco de sossego?

É quase uma filha para mim. Eu me preocupo com o que está fazendo. Não quero que seja enganada com toda essa fama. Cotten relaxou o corpo no assento e olhou para o velocímetro. Estava correndo a mais de cem por hora num trecho de estrada em que não podia passar dos oitenta, então tirou o pé do acelerador. Ted realmente se preocupava com ela. O nome dele é Waterman. Mas é Waterman com P-H-D no final. Eu o conheci numa festa que o Museu Nacional de História ofereceu à imprensa uns dois meses atrás. Foi mais do que perfeito. Ele se ofereceu para vir até o Texas. É claro que precisou assinar um termo de sigilo enquanto não levássemos a matéria ao ar. E deu algum trabalho para convencer o Gilley a deixar o Waterman dar uma olhada. Só estão sabendo do assunto os chefões da NBC, Waterman, Gilley, eu..., e agora você. E eu seria demitida se descobrissem que estou tendo esta conversa com a concorrência. Waterman, repetiu Ted. Sabe o primeiro nome? Henry..., não, Harry, corrigiu-se Cotten. Harry Waterman. Porquê? Só estou curioso. Talvez possa descobrir alguma coisinha a mais sobre ele. Ele escreveu uma carta à emissora dando a sua opinião de que o artefacto é autêntico. Não fosse por isso, acho que eles não teriam liberado a verba». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Último Segredo, 1995, Editora Pensamento, 2015, ISBN 978-853-151-778-5.

Cortesia de EPensamento/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério,

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Os Templários e a Arca da Aliança. Graham Phillips. «O historiador judeu Josephus, fazendo seu trabalho por volta de 90 d.C, dá os detalhes da estrondosa magnitude do projecto»

Cortesia de wikipedia e jdact

Segredos do Templo

«(…) Quando Salomão morreu, por volta de 925 a.C., a maioria das tribos israelitas, a tribo de Judá, separou-se das demais tribos e fundou seu próprio reino independente, escolhendo Jerusalém como sua capital. Grosso modo, circundando a área que hoje é o sul de Israel, esse reino era conhecido como Judá, mais tarde vindo a ser chamado de Judeia pelos romanos, e seu povo ficou conhecido como os judeus. Foi o povo de Judá que desenvolveu os primeiros preceitos da religião hebraica, que viria a ser o Judaísmo, e transformou o Templo de Jerusalém no santuário mais sagrado da religião judia por mais de trezentos anos, até que a cidade foi invadida pelos babilónios. Na época, milhares de judeus foram escravizados e guiados para o exílio na cidade da Babilónia (próximo à moderna Bagdad), e em 597 a.C. o rei babilónio, Nabucodonosor, ordenou que o Templo fosse saqueado e destruído. Entretanto, em 539 a.C, quando os persas, do que hoje é o Irão, derrotaram os babilónios, foi que os judeus tiveram permissão para voltar a Jerusalém. Logo depois, o Templo foi reconstruído em uma escala menor, mas quando os romanos tomaram a cidade em 63 a.C, o santuário estava num estado avançado de ruínas. Paradoxalmente, a ocupação romana de Judá, na verdade,

trouxe grande prosperidade para a região; algo muito maior do que vivera durante séculos de existência. Quando o judeu aristocrata Herodes foi empossado pelos romanos como um rei fantoche, ele usou a sua nova riqueza para reerguer o Templo numa escala ainda maior do que a original. O trabalho foi iniciado por volta de 19 a.C, e quando o concluíram em 64 d.C, o novo Templo era uma das maiores e mais impressionantes estruturas em todo o Império Romano, e conferiu a seu patrono o título de Herodes, o Grande.

O historiador judeu Josephus, fazendo seu trabalho por volta de 90 d.C, dá os detalhes da estrondosa magnitude do projecto. As dimensões das paredes externas mediam aproximadamente 250 por 1.000 metros, criando um perímetro externo inacreditável de quase dois quilómetros e meio. As paredes tinham quase 30 metros de altura e eram feitas de pedras, muitas delas com peso de quase cinquenta toneladas. Na entrada principal da ala sul do complexo que parecia uma cidade, largas escadarias conduziam as pessoas até aos portões do Pórtico Real, um grande corredor com colunas, que dava acesso ao amplo pátio externo. De acordo com Josephus, os pilares sólidos que sustentavam o telhado do pórtico eram tão grandes que eram necessários quatro homens com os braços esticados para circundá-los. O pátio externo era grande o suficiente para abrigar o equivalente a treze campos de futebol moderno e era cercado de todos os lados por colunatas.

Em baixo dessas passagens cobertas, que proporcionavam uma sombra do sol escaldante, os visitantes podiam se reunir, e professores e alunos podiam se sentar para debater questões religiosas. Brilhando no meio do pátio ficava o complexo do Templo interno, construído na parte de cima de uma plataforma de pedra gigantesca com aproximadamente 1 metro de altura. Suas paredes mediam algo em torno de 150 a 300 metros e tinham cerca de 30 metros de altura, com pequenas torres de defesa em pontos estratégicos. Em diversos degraus intercalados havia estruturas que se elevavam até à plataforma dando acesso a oito portas enormes revestidas com placas de ouro e prata. A metros de altura, suas portas duplas de bronze eram tão pesadas, eram tão pesadas que, de acordo com Josephus, vinte homens eram precisos para fechá-las.

Qualquer pessoa podia entrar no Pórtico Real e o no pátio externo, mas somente os judeus tinham permissão para entrar no complexo central. Placas de aviso escritas em grego e latim diziam a todos os não judeus para não entrarem, sob pena de morte. Pelo Portão Coríntio, adoradores entravam num pátio externo, com cerca de 70 metros quadrados, também cercados por passagens cobertas. Esse pátio era conhecido como o Pátio das Mulheres, porque além desse lugar, as mulheres não tinham permissão para entrar em lugar nenhum. Somente os homens podiam subir um lance de escadas a mais e passar por um último portão para frequentar num pátio interno anterior ao Templo em si, uma reconstrução exacta do Templo original de Salomão, conforme relatado nas escrituras antigas.

O Templo de Salomão tinha cerca de 50 metros de altura e algo em torno de 300 metros quadrados. Suas paredes eram sustentadas por colunas e o telhado cercado por estacas douradas para impedir que os pássaros se empoleirassem ao longo de suas guarnições. Dentro do Templo, havia um santuário externo, onde ficavam braseiros para os sacrifícios de animais, exigidos pela lei religiosa contemporânea, e o altar superior, que dava base para o menorah, o candelabro de sete velas que simbolizava a presença de Deus. Finalmente, além dele, ficava o santuário mais secreto chamado de Sagrado dos Sagrados: uma câmara escura, sem janelas, construída para guardar a relíquia sagrada que todo o Templo foi erguido para abrigar, a Arca da Aliança». In Graham Phillips, Os Templários e a Arca da Aliança, 2004, Madras Editora, 2005, ISBN 978-857-374-965-6.

Cortesia de MadrasE/JDACT

JDACT, Graham Phillips, Israel, Religião, Conhecimento, Literatura,

Mago Mestre. Raymond Feist. «Na penumbra, ouviu passos que se aproximavam, parando aos pés de seu catre. Ao seu lado, ouviu uma súbita inspiração e soube que o menestrel também estava acordado»

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«(…) Fez sinal aos escravos com os machados para que libertassem Pug, que, pouco depois, encontrava-se a salvo. Laurie levou-o até ao lugar onde estava o jovem soldado. Pug tossiu o que restava de água nos pulmões e disse, ofegante: agradeço ao meu amo pela minha vida. O homem nada disse, mas, quando o capataz se aproximou, dirigiu-lhe algumas observações: o escravo tinha razão e você não. A árvore estava podre. Não é certo castigá-lo por sua falta de discernimento e seu mau humor. Devia mandar espancá-lo, mas não vou perder tempo com isso. O trabalho avança devagar e o meu pai está descontente. Nogamu abaixou a cabeça. Sinto-me humilhado com o que meu senhor pensa de mim. Tenho permissão para tirar a minha própria vida? Não. Seria honra demais. Volte ao trabalho. O rosto do capataz enrubesceu de raiva e vergonha silenciosas. Erguendo o chicote, apontou para Laurie e Pug. Vocês dois, voltem ao trabalho. Laurie levantou-se e Pug tentou. Tinha os joelhos pouco firmes, pois quase se afogara, mas conseguiu ficar de pé após várias tentativas. Estes dois estão dispensados pelo resto do dia, disse o jovem lorde. Este aqui, apontou para Pug, não tem grande utilidade. O outro tem de tratar os cortes que você lhe fez ou irão infectar. Virou-se para o guarda. Leve-os de volta ao acampamento para que cuidem deles.

Pug sentiu-se grato, não tanto por ele, mas por Laurie. Com algum descanso, Pug poderia ter retomado o trabalho; no entanto, uma ferida aberta num pântano significava, na maioria das vezes, uma sentença de morte. As infecções eram rápidas naquele lugar quente e sujo, e havia poucos tratamentos disponíveis. Seguiram o guarda. Enquanto se afastavam, Pug percebeu que o feitor os fitava com ódio indisfarçado no olhar.

O assoalho rangeu e Pug acordou na mesma hora. A cautela nascida e desenvolvida pela escravidão advertiu-o de que aquele som não se encaixava no interior da cabana, no meio da noite.

Na penumbra, ouviu passos que se aproximavam, parando aos pés de seu catre. Ao seu lado, ouviu uma súbita inspiração e soube que o menestrel também estava acordado. Provavelmente, metade dos escravos tinha acordado com o intruso. O desconhecido pareceu hesitar e Pug esperou, tenso com a incerteza. Ouviu-se um grunhido e, sem esperar, Pug rolou para fora do catre. Escutou algo pesado batendo no chão, e o ruído surdo de uma adaga atingindo o lugar onde o seu peito estivera momentos antes. De repente, o alojamento explodiu num frenesi. Os escravos gritavam e corriam para a porta. Pug sentiu mãos agarrando-o na escuridão e logo uma dor aguda explodiu-lhe no peito. Tentou alcançar o agressor às cegas, brigando pela posse da lâmina. Outro golpe fez-lhe um corte na palma da mão direita. Subitamente, o atacante parou de se mexer e Pug percebeu que havia uma terceira pessoa em cima do pretenso assassino. Soldados entraram correndo na cabana, com lanternas nas mãos. Pug viu Laurie caído por cima do corpo imóvel de Nogamu. O Urso ainda respirava, mas, considerando a forma como a adaga saía de sua caixa torácica, não seria por muito tempo. O jovem soldado que salvara as vidas de Pug e Laurie entrou e os outros abriram caminho para que passasse. Parou perto dos três combatentes e simplesmente perguntou: está morto? O capataz abriu os olhos e, num sussurro fraco, conseguiu dizer: estou vivo, senhor. Mas morro pela espada. Um sorriso leve e desafiador apareceu no rosto suado. A expressão do jovem soldado não revelou qualquer emoção, embora seus olhos parecessem em chamas. Não creio, disse calmamente. Virou-se para os dois soldados: levem-no já para fora e enforquem-no. Não haverá honra alguma para ser cantada pelo seu clã. Deixem o corpo para os insectos. Servirá como aviso para que não me desobedeçam. Vão.

O rosto do moribundo empalideceu e os seus lábios tremeram: não, meu amo. Eu imploro, deixe-me morrer pela espada. São só mais uns minutos. Uma espuma avermelhada surgiu nos cantos da boca do homem. Dois rudes soldados agarraram Nogamu e, sem se importarem com o seu sofrimento, arrastaram-no para fora. Ele gritou por todo o percurso. A força que permanecia na sua voz era surpreendente, como se o medo da forca despertasse uma reserva profunda. Ficaram parados como em um quadro até o som terminar num grito sufocado. Nesse momento, o jovem oficial virou-se para Pug e Laurie. Pug estava sentado com sangue escorrendo do corte comprido e superficial no peito. Segurava a mão ferida com a outra. Este corte era fundo e os dedos não se mexiam». In Raymond Feist, Mago Mestre, 1982, 1992, Saída de Emergência, 2014/2015, ISBN 978-989-637-767-0.

 

Cortesia de SdeEmergência/JDACT


JDACT, Raymond Feist, Literatura, 

Sedução Fatal. LS Ferreira. «Ele controlava a importação de insumos diversos, bens de consumo, equipamentos eletrónicos e automóveis de luxo. Recebia elevadas propinas para deixar passar ilegalmente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Cleyde dormia de dorso sobre o enxergão do catre. Estremunhada por um impulso inconsciente, abriu os olhos. Nódoas cinzentas, que se disseminavam no tecto e nas paredes do quarto pequeno, amorteciam mais a claridade matinal que atravessava o vidro empoeirado de uma clarabóia. A esperança de uma vida nova foi também quebrantada pelo desânimo que estava consumindo sua alma desde o acometimento que a infelicitara no seu último emprego. Lembrou-se da casa do dr. Waldomiro. Às cinco da manhã já estava de pé, movida pelos repetidos gritos de dona Creuza, que a chamava para preparar o pequeno-almoço. Acorda, menina! Dormes muito! É por isso que estás preguiçosa! Cleyde se levantava e banhava o rosto no pequeno lavatório. Olhava-se no espelho. Seus olhos, recobertos pelas pálpebras intumescidas, tinham a cor das águas-marinhas; ela se orgulhava deles. Depois de fazer o asseio pessoal e a simples maquiagem, colocava o avental branco para iniciar a rotina dos afazeres enfadonhos. Sua mente estava limitada por essas actividades. Para ela, a manhãs eram as mesmas dos dias passados. Bom dia, dona Creuza, estava indisposta, por isso não lavei a louça; mas é pra já! Ela resmungava para si: ah, a minha patroa é muito exigente! Lembrou-se que certa noite, o dr. Waldomiro, encontrando-a casualmente dentro de casa, inesperadamente a puxara pelo braço, e disse: depois que ela morrer, vou casar contigo! O dr. Waldomiro era funcionário aposentado da Alfândega.

Ele controlava a importação de insumos diversos, bens de consumo, equipamentos eletrónicos e automóveis de luxo. Recebia elevadas propinas para deixar passar ilegalmente muitos desses produtos valiosos. Nos leilões, os carros contrabandeados eram vistos sem uma das portas, sendo arrematados por um preço muito aquém do valor real por alguém aparentemente desinteressado nessa falta. Depois do leilão, o dono do carro recebia a porta, que era colocada em alguma oficina. A compensação pecuniária para o dr. Waldomiro vinha breve. Assim, ele enriquecia à vista de todos com a conivência das autoridades superiores entre as quais estava o representante do Governo, que, segundo diziam, era um sibarita impudente e corrupto. Depois de aprontar o lauto pequeno-almoço, Cleyde continuava na preparação do almoço.

O dr. Waldomiro chegava a casa por volta do meio-dia. Cleyde, arruma a mesa!, gritava Creuza. Depois do banho, ele vinha sentar-se à mesa, ocupando a cabeceira desta. À sua direita ficava Creuza; ao lado desta, a jovem Zoraia. E à sua esquerda, o Ricardo, sempre atirado quando via Cleyde. Creuza segurava um pequeno sino de prata e, com um gesto calculado, dobrava o mesmo, avisando a Cleyde que já deveria trazer o almoço. Às vezes, quando ela virava a cabeça para falar com a filha, o dr. Waldomiro aproveitava a oportunidade para acariciar a coxa de Cleyde, que permitia essa licenciosidade com medo de perder o emprego, ou, talvez, porque se lembrava da promessa do velho desbriado.

Após o almoço, ela continuava a rotina diária com a limpeza dos três carros contrabandeados, mas já legalizados, que ocupavam uma garagem do tamanho de uma casa média. Após o jantar, continuava em actividade na preparação da ceia. Quase todas as noites o dr. Waldomiro recebia visitas, o que prolongava o trabalho dela até alta hora da noite. Depois, já extenuada, só lhe restava ir para a cama na qual repousava o seu belo corpo de mulher já feita. Como vivia em casa de família, só tinha folga parcialmente aos domingos. Cleyde tinha dezoito anos. Ela nascera de uma família de empregadas domésticas, dessa espécie de família que abunda neste vasto país, indolente pela própria natureza, mas cheio de esperteza marota; esse tipo de família da qual a prole fecunda vem da pobreza que lhe permite de graça, entre os poucos prazeres, o pequeno espaço de uma cama. Novas gerações vêm com a mesma sina, sujeitas, quem sabe, ao inexorável jogo da competição. Hoje, eu vou procurar um novo emprego, ou aceito a proposta daquela mulher?, pensou ela, ainda com os olhos fixos no tecto do quarto. Não tenho coragem para fazer isso! Mas eu também poderia ir à casa do dr. Waldomiro e exigir meus direitos. Aquele canalha do filho dele ainda vai-me pagar! Preciso ter coragem! Ele precisa reparar isso!

Cleyde era, de certo modo, uma excepção entre a maioria das pessoas da sua classe. Observe o leitor o seu nome próprio. Seus pais lhe deram esse nome, talvez, tirando-o de algum almanaque, ou, talvez, tomando-o das personagens de novelas ou filmes. A mesma coisa se poderia dizer da sua fala. O dr. Waldomiro se admirava das expressões quase correctas dessa moça que, provavelmente, viera de uma família sem a necessária escolaridade. Escuta, Cleyde! Algum dia ainda vou-te amparar. Você é tão bonita! Minha mulher é uma megera!, sussurrava ele ao ouvido dela, ocasionalmente. Talvez ele fosse sincero com ela. Suas trapaças eram extradomésticas e, sobretudo, ligadas ao contrabando». In LS Ferreira, Sedução Fatal, CDD 869.93, Paka-Tatu, 2005, ISBN 85-8-794-572-6.

Cortesia de PakaTatu/JDACT

JDACT, LS Ferreira, Literatura, Crónica,

O rei que esmorece e a rainha sanhuda: a crise dinástica de 1383-1385 através das emoções nas crónicas de Fernão Lopes. Inês Olaia. «Numa crónica em que as referências ao coração se multiplicam, o de Leonor Teles surge definido como grande…»

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Problemas e Conceitos

«(…) Enfim, a expressão desta emoção faz claramente parte da discursividade política. É mesmo considerada a emoção régia por excelência, da mesma forma que divina, e surge em consequência de um qualquer acto que desafia a potestas. No final da Idade Média, a ira encontra inclusivamente diversos graus de expressão consoante o que a expressa. Em sentido estrito, responde a uma ofensa, uma desvalorização, em público e injusta, relacionando-se de forma próxima com a honra. Importa, no entanto, sempre, medir a sua expressão, que não seja exagerada. A ira, por sua vez, inspira medo. Mas medo, temor e receio são três palavras que designam variações do mesmo tema, ou assim parecem, e articulam-se estreitamente com a legitimidade do governo. De facto, parece certo na historiografia que faz parte do governo (rulership) a necessidade de se fazer respeitar e amedrontar (to be feared), incutindo terror no que lhe está subordinado. A ira régia, de que falávamos acima, tem precisamente essa como uma das suas funções.

O medo e a sua relação com a figura régia na Castela do século XIV foi já alvo de estudo e dele partiremos para tentar aduzir algumas ideias que nos podem ser úteis. As Partidas de Alfonso X surgem-nos como ponto de partida. É aí que se encontra a noção fundamental da diferença entre temor e medo. O temor tem a raiz no amor: teme-se, portanto, a quem se deve amar, Deus e o soberano. O medo como tal radica no espanto. E aqui encontramos problemáticas delicadas de tradução e interpretação tanto da bibliografia como das fontes. O medo, com raiz latina em metus e de que deriva o verbo amedrontar, e o temor, com origem em timor e de que deriva o verbo temer, são coisas muito diferentes, embora tendamos a usá-las quase da mesma forma. Por vezes, o medo está relacionado com a protecção da integridade física e da honra daquele que o sofre. Nas crónicas castelhanas, o medo parece funcionar como meio de legitimar e encenar rupturas para depois restabelecer a normalidade a partir de fora, variando na prática com o momento político. É o mesmo artigo de François Foronda que nos chama a atenção para a polarização clássica do poder régio medieval: o polo positivo como rei/amor/temor e o polo negativo tirano/espanto/medo. O uso de qualquer um destes termos pelo cronista Fernão Lopes é delicado: muitas vezes misturam-se e sobrepõem-se. Para complicar, a língua portuguesa junta um terceiro termo a estes dois polos: o receio, que se parece com uma variante mais suave do medo.

A estes dados, podemos ainda juntar um outro: e como é que as mulheres e os homens se distinguem neste campo? Havia uma diferença na percepção e na expressão de emoções entre os dois géneros? A resposta curta é: sim. Quando há mulheres em patamares de poder, estas têm à disposição o mesmo tipo de instrumento de comunicação que qualquer homem. No entanto, parece que a cronística tende a mostrar desagrado quando isso acontece, preferindo reservar-lhes os papéis ditos tradicionais. Em si mesmas, no entanto, as emoções políticas não têm género, mesmo que as mulheres da aristocracia tenham acesso a uma paleta de emoções muito mais restrita. O facto é curioso, tendo em conta que a sociedade medieval faz, das mulheres, seres mais emotivos por natureza.

A sanha, o amor e o desequilíbrio: Leonor e Fernando

No final da Idade Média, a teorização política apresenta-se muito ligada à metáfora do corpo: transpõe a visão teológica da Igreja como corpo místico de Cristo, ligando assim o rei ao reino como Cristo à Igreja. A concpção orgânica e pessoal do governo coloca a compleição e o temperamento do monarca sob escrutínio, tal como a sua relação com o corpo que é o reino. Ao coração dá-se um particular destaque, definindo-se pelo lugar das emoções o próprio monarca. Foi aí, no coração, que a medicina florescente nos séculos XII-XIII localizou as emoções. Na verdade, chega mesmo a considerar-se que as emoções são os movimentos da alma, que se manifestam somaticamente no coração. À luz do tempo, portanto, todas as emoções sem excepção por lá passam. E que dizer do tamanho do coração de um grande senhor? Numa crónica em que as referências ao coração se multiplicam, o de Leonor Teles surge definido como grande, justificando as suas acções/emoções fora do comum, e caracterizado como vingador. Em qualquer uma das crónicas que falamos, as emoções da rainha parecem muitas vezes excessivas, desregradas ou mal ritualizadas. Mas se assim é, aquelas que o rei Fernando expressa por ela estão em patamar similar.

Por tudo o que expusemos, é lógico que a ira seja uma das emoções mais amplamente expressas na generalidade. A surpresa surge quando, analisando a Crónica de D. João I, é a rainha Leonor Teles que domina as referências à sanha em toda a Primeira Parte, quer seja porque a emoção é sentida e expressa por ela, quer esteja apenas no seu entorno directo. Sofre-a e a ela ninguém podia fazer nojo, porque sofreria rapidamente a sua sanha. Esta consideração de Fernão Lopes obriga-nos a retomar a necessidade de a ira régia ser moderada. O desregramento que aponta a Leonor Teles é mais um factor que contribui para justificar a sua queda. Notemos que Fernão Lopes equipara, na primeira ocasião que citámos, o ódio que pede vingança ao amor que não descansa enquanto não alcança quem quer. Em ambos a rainha se viu ou vê enredada. A ira implica, directamente, a emoção seguinte que aqui abordamos na relação com Leonor Teles: o medo». In Inês Olaia, O rei que esmorece e a rainha sanhuda: a crise dinástica de 1383-1385 através das emoções nas crónicas de Fernão Lopes, Revista Medievalista nº 27, Janeiro-Junho 2020, ISSN 1646-740X.

http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA27/olaia2701.html,

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Inês Olaia, História, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Literatura, 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O rei que esmorece e a rainha sanhuda: a crise dinástica de 1383-1385 através das emoções nas crónicas de Fernão Lopes. Inês Olaia. «O problema da ira régia exige, no entanto, um aprofundamento um pouco diferente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Problemas e Conceitos

«(…) É igualmente no espaço emocional que se jogam as relações entre o vício e a virtude, e o modelo do rei deve ser exemplar nesse âmbito, em simultâneo um homem comum e extraordinário. O ponto essencial é sempre o do equilíbrio. Se a emoção do príncipe for orientada para a virtude, então a decisão consequente será positiva. Caso contrário, o resultado pode ser catastrófico. As emoções são a expressão tangível da persuasão e da acção política, interfaces entre a acção verbal, a acção corporal e a passagem ao acto. Veículo de comunicação, entre pessoas de poder, elas marcam as descontinuidades e os eventos políticos; a emoção principesca revela a iminência de um determinado acto.

A nossa análise revelará que, entre os mecanismos que justificam a transição para uma nova dinastia, nas crónicas de Fernão Lopes, contam-se as emoções como a sanha e o medo. O problema da ira régia exige, no entanto, um aprofundamento um pouco diferente. Foi alvo de um número mais amplo de estudos e a sua evolução deu origem inclusive a visões que parecem colidir. O monarca pode expressar a sua mercê e a sua graça através de uma multiplicidade de meios; a ira encontra os mesmos canais ou similares e faz parte da prática de governo (enquanto rulership, definido por Gerd Althoff nos termos de mecanismo pessoal de regulação, baseado num conjunto de leis não escritas). A ira também faz, no entanto, parte dos catálogos de pecados medievais, sendo mesmo um pecado mortal. A sua expressão está intrinsecamente ligada ao exercício do poder, porquanto este precisa do terror, do medo, para ser efectivo. Os usos da ira régia mostram, ainda para Althoff, como o ideal cristão de governante coincide ou não com a prática de governo. A paciência, a moderação e a capacidade de perdoar são definidas nos finais da Idade Média como características da própria natureza régia. A ira fornecerá, por fim, um meio de caracterizar monarcas injustos, funcionando como demonstrador da sua incapacidade para governar. Pode ainda ser diametralmente oposta à justiça, o que agrava a caracterização do monarca em causa. Com o correr dos séculos, a ira ganha uma outra conotação, cada vez mais frequente: a ira justa, ou seja, aplicar a ira para alcançar a justiça. A aplicação é possível porque a própria justiça se sobrepõe, em determinados contextos, à clemência. A mudança de paradigma consagra que, no final da Idade Média, a ira régia seja um tópico cada vez mais complexo, porque depende essencialmente do contexto em que é aplicada.

Por sua vez, para Stephen D. White, a ira, nas crónicas, tanto pode ser expressa verbalmente como indicada ou explicitamente mostrada através de acções físicas. É igualmente expressa de forma clara, pública e ritual, codificada para ser compreendida por todos os que a ela assistem. Não se trata, quando lidamos com estas emoções, de uma emoção expressa na intimidade ou vivida com o indivíduo, essa concepção seria um anacronismo. A expressão pública da ira é, normalmente, masculina e feita por aqueles que têm estatuto para tal: reis, nobres… Faz, da mesma forma, parte da acção política e tanto pode ser sua percursora quanto sua consequência; funciona como reconhecimento legal de determinada acção como reprovável ou injuriosa e aponta os seus autores. Da mesma maneira, a forma como a ira é atenuada tem uma conotação similar». In Inês Olaia, O rei que esmorece e a rainha sanhuda: a crise dinástica de 1383-1385 através das emoções nas crónicas de Fernão Lopes, Revista Medievalista nº  27, http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA27/olaia2701.htmlJaneiro-Junho 2020, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Inês Olaia, História, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Literatura,

Uma Terra de Fogo. Morgan Rice. «Ela vasculha o mar diante dela, procurando, esperançosa, por qualquer sinal de Ralibar e torcendo para encontrá-lo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ouve-se um grande chiado, e nuvens de vapor se erguem quando as águas do mar apagam o fogo. Gwen observa ansiosa, torcendo para que ele esteja bem, e momentos depois, Ralibar ressurge, sozinho. O outro dragão logo aparece, mas o seu corpo está inerte, boiando nas ondas, morto. Sem hesitar, Ralibar dispara para o céu, rumo às dezenas de outros dragões que mergulham na direcção dele. Ao mesmo tempo em que eles descem, com as suas grandes mandíbulas abertas com a intenção de mordê-lo, Ralibar parte para o ataque: ele estica as suas imensas garras, inclinando-se para trás, abre suas asas e agarra dois deles ao mesmo tempo em que gira e os empurra para dentro do mar. Ralibar os segura dentro da água, mas ao fazer isso, dezenas de dragões atacam as suas costas expostas. O grupo inteiro mergulha para dentro do mar, levando Ralibar junto com eles. Ralibar, por mais destemidamente que esteja lutando, está simplesmente em grande desvantagem, e é levado para o fundo do mar debatendo-se, preso por dezenas de dragões que gritam enfurecidos.

Gwen suspira, seu coração aos pedaços ao ver Ralibar lutando com tanta coragem por todos eles, enfrentando sozinho todos aqueles dragões; tudo o que ela mais quer é poder ajudá-lo. Ela vasculha o mar diante dela, procurando, esperançosa, por qualquer sinal de Ralibar e torcendo para encontrá-lo. Mas para sua tristeza, ele não aparece. Os outros dragões ressurgem, voando para o céu e se reagrupando, e voltam as suas atenções para as Ilhas Superiores. Eles parecem olhar directamente para Gwendolyn ao darem um grande rugido ao mesmo tempo em que estendem suas asas. Gwen sente seu coração partir. Seu grande amigo Ralibar, a última esperança do seu povo, sua última forma de resistência, havia morrido. Gwen vira-se para os seus homens, que observam paralisados pelo choque. Eles sabem o que viria a seguir: uma inevitável onda de destruição. Gwen se sente pesada; ela abre a boca, mas as palavras ficam presas na sua garganta. Soem os alarmes, ela diz finalmente com a voz rouca. Todas as pessoas aqui em cima precisam descer, agora. Levem-nos para cavernas, porões, qualquer lugar, menos aqui. Levem-nos, agora!

Soem os alarmes! Steffen grita, correndo para a entrada do forte e gritando para os soldados no pátio. Logo, os sinos tocam por toda a praça. Centenas do seus súbditos, sobreviventes do Anel, começam a fugir, correndo para se esconderem, indo para cavernas nos arredores da cidade ou descendo para os porões e adegas no subsolo, preparando-se contra a inevitável onda de fogo que certamente viria. Minha rainha, Srog diz, voltando-se para ela, talvez possamos todos nos refugiar no forte. Afinal de contas, ele é feito de pedras. Gwen balança a cabeça. Você não conhece a fúria dos dragões, ela diz; Nada que estiver na superfície estará seguro. Absolutamente nada. Mas minha senhora, talvez nós fiquemos mais seguros dentro do forte, ele insiste. Ele resistiu ao teste do tempo. As paredes de pedras têm quase um metro de espessura. Não seria melhor ficarmos aqui do que por baixo da terra? Gwen balança a cabeça. Há um rugido, e ela olha para o horizonte e pode ver que os dragões se aproximam. Seu coração se sobressalta ao ver, à distância, os dragões assoprando uma parede de fogo na sua frota, que continua atracada no porto ao sul das ilhas. Ela assiste horrorizada quando os seus preciosos navios, a sua única forma de escapar daquelas ilhas, navios belíssimos cuja construção tinha levado anos, são reduzidos a nada além de brasas. Ela fica satisfeita por ter previsto aquilo, e feliz por ter escondido alguns navios no outro lado da ilha». In Morgan Rice, Uma Terra de Fogo, 2014, colecção Anel do Feiticeiro, Stockcom, Frentusha, 2015, ISBN 123-000-053-563-2.

Cortesia de Stockco/Frentusha/JDACT

JDACT, Morgan Rice, Literatura, Fantasia,

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «E eu não podia vingar-me, mas agora chegou minha vez. Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé»

Cortesia de wikipedia e jdact

Um jornalista levado dos diabos

«Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar».

Carta I

«(…) A geração é de covardes e cada ano que passa está mais corrupto o mundo. Ah, não ter eu muito que dar a este pequeno miserável que me bate agora à porta, para que ele me chame o mais vil que o sol cobre, o mais canalha de todos, o mais indigno, o mais bandido! Ele não se engana. Lá tem o seu raciocínio que não falha nunca. Dei-lhe tudo o que tinha e todavia vai a resmungar baixinho que um dia, um dia que virá cedo, me virá bater à porta com uma coronha e me há de fuzilar a mim, o maior dos patifes que o socorri.

Vai-se embora a pensar que se fosse rico, havia de azorragar toda essa ralé que pede esmola e toda aquela que dá tudo o que tem. E cisma em ser um dia o maior dos Neros que o mundo tem visto; em ter um chicote com que possa de uma só vez azorragar a Terra, ele, cujo corpo deveria ser balançado no candeeiro ali defronte.

De trinta mendigos a quem dei esmola hão-de nascer noventa patifes para me apedrejar. Abençoada esmola! Mas explica-se. É que a minha esmola, esmola-humana, fecunda lá dentro todo o meu cinismo e toda a minha canalhice. Deste-me esmola? Muito bem, odeio-te. Odeio-te porque não posso também dar esmola e porque me curvei a ti. Toda a vida tu me fizeste bem, socorreste-me, agasalhaste-me. Um dia, eu mau como sou, estou por cima. Então eu havia de perder a ocasião de me vingar de tudo o que tu me fizeste? Chegou o meu dia. Agora, meu velho, eu sou maior, ouves? Eu dobrei-me e tu socorreste-me, mas eu dobrei-me. Eu era um faminto e tu sentaste-me à tua mesa, mas eu dobrei-me. Tive fome tu encheste-me, tive frio tu agasalhaste-me. Irritante Tu, sempre Tu.

E eu não podia vingar-me, mas agora chegou minha vez. Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé. Logo no primeiro dia em que não temam desconjuntar a bota quando o fizerem, percebes?

Escutaste? Vem, se te sentes com forças. Demais és pobre. Então para ti a vida é tudo isto e tudo o mais que tu tiveres coragem de inventar. O pobre será odioso até ao seu parente mais chegado (Provérbios), que não merece carinhos quem não tem para caldo (Silva Pinto), ouves? Tu virás e triunfarás. Tu serás mau e cínico e traidor. A Vida? Seria loucura, na verdade, conservarmos alguns sentimentos compassivos quando vivemos em semelhantes cavernas. A Vida é uma canalhice, uma farsa, uma luta brutal , como diz Tourgueneff». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

JDACT, Albino Forjaz Sampaio, Cartas, Crónicas, A Arte,

O Perfume. Patrick Suskind. «No século XVIII viveu em França um homem que se inseriu entre as personagens mais geniais e mais abomináveis desta época que, porém, não escasseou em personagens geniais e abomináveis»

Cortesia de wikipedia e jdact

A história de um assassino

«Esta estranha história passa-se no século XVIII e é fruto de um extraordinário trabalho de reconstituição histórica que consegue captar plenamente os ambientes da época tal como as mentalidades. O protagonista é um artesão especializado no ofício de perfumista, e essa arte constitui para ele, nascido no meio dos nauseabundos odores de um mercado de rua, uma alquímica busca do Absoluto. O perfume supremo será para ele uma forma de alcançar o Belo e, nessa demanda nada o detém, nem mesmo os crimes mais hediondos, que fazem dele um ser monstruoso aos nossos olhos. Jean-Baptiste Grenouille possui no entanto uma incorrupta pureza que exerce um forte fascínio sobre o leitor. O Perfume, publicado em 1985, de um autor então quase desconhecido, foi considerado um dos mais importantes romances da década e nunca mais deixou de ser reeditado desde então, totalizando os 4 milhões de exemplares vendi dos, só na Alemanha, e 15 milhões em países estrangeiros. Foi traduzido em 42 línguas. Este fenómeno transformou-o num dos mais importantes livros de culto de sempre». In Sinopse

«No século XVIII viveu em França um homem que se inseriu entre as personagens mais geniais e mais abomináveis desta época que, porém, não escasseou em personagens geniais e abomináveis. É a sua história que será contada nestas páginas. Chamava-se Jean-Baptiste Grenouille e se o seu nome, contrariamente aos de outros grandes facínoras de génio, como, por exemplo, Sade, Saint-Juste, Fouché, Bonaparte, etc., caiu hoje em dia no esquecimento, tal não se deve por certo a que Grenouille fosse menos arrogante, menos inimigo da Humanidade, menos imoral, em resumo, menos perverso do que os patifes mais famosos, mas ao facto de o seu génio e a sua única ambição se cingirem a um domínio que não deixa traços na História: ao reino fugaz dos odores. Na época a que nos referimos dominava nas cidades um fedor dificilmente imaginável para o homem dos tempos modernos. As ruas fediam a lixo, os saguões fediam a urina, as escadas das casas fediam a madeira bolorenta e a caganitas de rato e as cozinhas a couve podre e a gordura de carneiro; as divisões mal arejadas fediam a mofo, os quartos de dormir fediam a reposteiros gordurosos, a colchas bafientas e ao cheiro acre dos bacios. As chaminés cuspiam fedor a enxofre, as fábricas de curtumes cuspiam o fedor dos seus banhos corrosivos e os matadouros o fedor a sangue coalhado. As pessoas fediam a suor e a roupa por lavar; as bocas fediam a dentes podres, os estômagos fediam a cebola e os corpos, ao perderem a juventude, fediam a queijo rançoso, leite azedo e tumores em evolução. Os rios fediam, as praças fediam, as igrejas fediam e o mesmo acontecia debaixo das pontes e nos palácios. O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza fedia em todas as suas camadas, o próprio rei cheirava tão mal como um animal selvagem e a rainha como uma cabra velha, quer de Verão quer de Inverno. Isto porque neste século XVIII a actividade destrutiva das bactérias ainda não encontrara fronteiras e não existia, assim, qualquer actividade humana, quer fosse construtiva ou destrutiva, qualquer manifestação da vida em germe ou em declínio, que estivesse isenta da companhia do fedor. E era, naturalmente, em Paris, que o fedor atingia o índice mais elevado, na medida em que Paris era a maior cidade da França. E no seio da capital existia um lugar onde o fedor reinava de uma forma particularmente infernal, entre a Rua aux Fers e a Rua de la Ferronerie, na realidade, o Cemitério dos Inocentes. Durante oitocentos anos, tinham-se transportado para lá os mortos do Hotel Dieu e os das paróquias vizinhas; durante oitocentos anos havia-se trazido até ali, dia após dia, em carroças, os cadáveres que eram atirados às dúzias para fundas valas; durante oitocentos anos, havia-se acumulado camadas sucessivas de ossos nas carneiras e ossuários. E foi só mais tarde, em vésperas da Revolução Francesa, quando algumas destas valas comuns se abateram perigosamente e o fedor deste cemitério a abarrotar desencadeou entre os habitantes das margens do rio não apenas protestos mas verdadeiros motins, que acabaram por encerrá-lo e esvaziá-lo, tendo sido os milhões de ossos e crânios empurrados à pá na direcção das catacumbas de Montmartre e construído um mercado, em sua substituição, neste local. Aqui, no sítio mais fedorento de todo o reino, nasceu Jean-Baptiste Grenouille, a 17 de Julho de 1738. Foi um dos dias mais quentes do ano. O calor pesava como chumbo sobre o cemitério, projectando nas ruelas vizinhas o seu bafo pestilento, onde se misturava o cheiro a melões apodrecidos e a trigo queimado. Quando começou com as dores de parto, a mãe de Grenouille encontrava-se de pé, atrás de uma banca, na Rua aux Fers, a escamar as carpas que acabava de estripar. Os peixes, supostamente pescados no Sena nessa mesma manhã, já cheiravam pior do que um cadáver. A mãe de Grenouille não distinguia, no entanto, entre o cheiro a peixe e o de um cadáver, na medida em que o seu olfacto era extraordinariamente insensível aos cheiros, e, além disso, a dor que lhe apunhalava o ventre eliminava toda a sensibilidade às sensações exteriores. Apenas desejava que a dor parasse; desejava pôr termo o mais rapidamente possível a este repugnante parto. Era o seu quinto. Todos os outros se haviam verificado atrás desta banca de peixe e sempre se tratara de nados-mortos, ou quase, porque a carne sanguinolenta que dela se escapava não se diferençava grandemente das miudezas de peixe que juncavam o solo, e também não possuía, além disso, muito tempo de vida; à noite, tudo era varrido a trouxe-mouxe e levado nas carroças, em direcção ao cemitério ou ao rio. Era o que deveria passar-se, uma vez mais, naquele dia e a mãe de Grenouille, que ainda era jovem, vinte e cinco anos feitos, que ainda era bonita, que conservava quase todos os dentes e tinha ainda cabelos e que, independentemente da gota, da sífilis, e de uma leve tuberculose não sofria de qualquer doença grave, que esperava viver ainda muito tempo, talvez cinco ou dez anos, e talvez até mesmo casar um dia e ter verdadeiros filhos na qualidade de respeitável esposa de um artesão viúvo (por exemplo)..., a mãe de Grenouille desejava que tudo já tivesse acabado. E quando as dores de parto se fixaram, agachou-se, deu à luz debaixo da sua banca de peixe tal como das vezes anteriores e cortou com a faca de peixe o cordão umbilical do recém-nascido. Em seguida, porém, e devido ao calor e ao mau cheiro que ela não apercebia como tal mas como algo de insuportável e estonteante, um campo de lírios ou uma divisão demasiado pequena a transbordar de junquilhos, desmaiou e caiu para o lado e rolou debaixo da banca até ao meio da rua, onde ficou estiraçada com a faca na mão. Gritos, correrias, a multidão de basbaques à roda e alguém que vai chamar a Polícia». In Patrick Suskind, O Perfume, A história de um assassino, 1985/1986, Editorial Presença, 2013, ISBN-978-972-231-448-0.

Cortesia de EPresença/JDACT

JDACT, Patrick Suskind, Mistério, Crime,

Guerras Climáticas. Harald Welzer. «… eles fossem sacrificados pela natureza da sua própria terra. O deserto sem água de Omaheke completou o que as armas alemãs haviam iniciado: a aniquilação da tribo dos Hereros»

Cortesia de wikipedia e jdact

Porque mataremos e seremos mortos no século XXI

«(…) Na verdade, foram os Hereros que iniciaram a guerra contra a administração colonial alemã, durante a noite de 11 para 12 de Janeiro de 1904, começando por destruir uma linha de caminho-de-ferro e derrubar grande quantidade de postes telegráficos e continuando pelo massacre de surpresa de 123 trabalhadores alemães ainda adormecidos nas fazendas. Após algumas tentativas inúteis de apaziguamento da luta, o governo real de Berlim enviou o general-de-divisão Lothar von Trotha para comandar as tropas coloniais alemãs. Von Trotha adoptou desde o início o conceito de uma guerra de extermínio, de acordo com o qual ele não procurou simplesmente vencer os Hereros por meios militares, mas os impeliu para o extermínio no deserto de Omaheke, onde ocupou todas as nascentes de água, provocando pura e simplesmente a morte de seus adversários pela sede. Esta estratégia foi tão bem-sucedida quanto fora cruel; foi relatado que os sedentos cortavam as gargantas de seus animais para beber-lhes o sangue e que finalmente esmagavam osseus intestinos para deles retirar os últimos restos de humidade. Não obstante, acabaram morrendo. Mas a guerra prosseguiu, mesmo depois de os Hereros terem sido aniquilados; determinou-se que os Namas, uma outra etnia, deveriam ser desarmados e subjugados enquanto as tropas alemãs ainda se encontrassem no território. Diferentemente dos Hereros, os Namas não ofereceram combate aberto, mas se limitaram a um combate de guerrilhas, que se tornou um grave problema para as tropas coloniais, que adoptaram, por sua vez, uma estratégia diferente, a qual logo seria imitada com frequência ao longo do mortífero século XX: para retirar dos guerreiros os recursos sobre os quais se apoiavam, os alemães assassinaram as mulheres e filhos dos Namas ou os encerraram em campos de concentração.

A violência foi realizada sob a pressão das circunstâncias e produziu as suas consequências. Estas permaneceram, originaram novos meios de aplicação da violência, que se foram tornando tanto mais amplos quanto mais eficientes se demonstravam. Isto porque a violência é inovadora: ela gera novos meios e encontra novas proporções. As tropas coloniais alemãs, não obstante, tiveram de combater os Namas durante mais de três anos. Além disso, nem todos os campos de concentração permaneceram sob controle do governo; também empresários privados, como a empresa de linhas marítimas Woermann, estabeleceram os seus próprios campos de trabalhos forçados. Esta guerra de extermínio não foi somente um exemplo da impiedade da violência colonial, como um modelo para os genocídios futuros, por meio de seu propósito de total eliminação, cumprido pelo internamento nos campos estabelecidos, que significavam uma estratégia de extermínio por meio dos trabalhos forçados. Todos já ouvimos contar a história das suas consequências; o Departamento I dos escritórios do Estado-Maior, encarregado de redigir a história da guerra, escreveu orgulhosamente, em 1907, que nenhum esforço, nenhuma privação foram poupados para que os inimigos fossem privados dos últimos vestígios de sua capacidade de resistência, pois metade deles foi morta nas regiões desérticas pela captura progressiva de todos os poços de água, até que, finalmente, sem mais energia, eles fossem sacrificados pela natureza da sua própria terra. O deserto sem água de Omaheke completou o que as armas alemãs haviam iniciado: a aniquilação da tribo dos Hereros.

Isto se passou há cem anos; desde então, as formas de violência se modificaram, nem tanto na sua forma e aspecto, mas na maneira segundo a qual são referidas. O Ocidente não costuma mais, salvo em casos excepcionais, empregar violência directa contra outros estados; as guerras são hoje empreendimentos realizados por longas cadeias de acção e numerosos actores, por meio dos quais a violência é delegada e se torna informe e invisível. As guerras do século XXI são pós-heróicas e apresentadas como sendo conduzidas de má vontade pelas nações que as empreendem. E no que se refere ao orgulho nacional por ter sido alcançada a aniquilação de tribos selvagens..., isto é coisa que, desde o holocausto dos judeus, se tornou impossível mencionar». In Harald Welzer, Guerras Climáticas, Porque mataremos e seremos mortos no século XXI, LeLivros, Geração Editorial, 2010, Wikipedia.

Cortesia de LLivros/GeraçãoE/JDACT

Harald Welzer, JDACT, Clima, Conhecimento,

Guerras Climáticas. Harald Welzer. «Durante esta guerra genocida, travada no princípio do século XX, uma boa parte da população indígena da África do Sudoeste não foi exterminada; foi conduzida a campos de concentração…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Porque mataremos e seremos mortos no século XXI

«Um leve tinir atrás de mim fez com que virasse a cabeça. Seis negros caminhavam em fila, percorrendo penosamente a senda estreita, Eles avançavam erectos e devagar, balançando pequenos cestos cheios de terra nas cabeças, e o ruído acompanhava cada um de seus passos, (...) Eu podia contar-lhes as costelas, as articulações de seus membros lembravam os nós de uma corda; cada um deles trazia uma golilha, um anel de ferro soldado ao redor do pescoço, todos interligados por uma corrente frouxa, cujos elos excedentes pendiam entre eles: era o seu avanço compassado que fazia com que os elos tilintassem num ritmo regular, Esta cena, descrita por Joseph Conrad no seu romance Intitulado O Coração das Trevas, descrevia a época de maior florescência do colonialismo europeu, distando dos dias de hoje pouco mais de cem anos.

A brutalidade impiedosa, com a qual os primeiros países industrializados buscavam satisfazer sua fome de matérias-primas, de terras e de poder, e que deixou as suas marcas sobre os demais continentes, não é mais aceite pelas condições vigentes nos países ocidentais. A memória da exploração, da escravidão e do extermínio tornou-se a vítima de uma amnésia democrática de que estão afectados todos os estados do Ocidente, que não querem recordar que a sua riqueza, do mesmo modo que o seu poderio e progresso, foram construídos ao longo de uma história mortífera. Em vez disso, o que se encontra é um orgulho pela descoberta, observância e defesa dos direitos humanos, pela prática do politicamente correcto, pela participação em actividades humanitárias, sempre que nalgum lugar da África ou da Ásia uma guerra civil, uma inundação ou uma seca compromete as necessidades fundamentais de sobrevivência dos povos. Determinam-se intervenções militares para ampliar os domínios da democracia, esquecendo que a maioria das democracias ocidentais foi edificada sobre uma história de guerras de fronteiras, limpeza étnica e genocídios.

Enquanto se reescrevia a história assimétrica dos séculos XIX e XX dentro das condições de vida confortáveis e mesmo luxuosas das sociedades ocidentais, muitos habitantes de países do segundo e do terceiro-mundo mal suportam ouvir falar em tal história, porque foram dominados violentamente através dela: poucos dos países pós-coloniais foram conduzidos a uma soberania estável, muito menos a condições de bem-estar social; em muitas dessas nações, a história da espoliação continua a ser escrita sob diferentes disfarces e, em numerosas sociedades frágeis, não se encontram hoje sinais de progresso, mas sim de maior regressão.

O aquecimento progressivo do clima, um produto da fome inextinguível por mais energia fóssil dominante nas terras que primeiro se industrializaram, prejudica com maior rigor as regiões mais pobres do mundo; uma amarga ironia, que escarnece toda a esperança de que a vida se possa tornar algum dia mais justa. A capa deste livro mostra o vapor Eduard Bohlen, antigamente encarregado de serviços postais, cujos destroços permanecem há quase cem anos recobertos pela areia do deserto da Namíbia. Ele desempenhou um pequeno papel na história das grandes injustiças. A 5 de Setembro de 1909, no meio do nevoeiro, o barco encalhou diante da costa do território que na época se denominava África do Sudoeste Alemão. Hoje em dia, os restos do navio se encontram duzentos metros terra adentro; durante o século transcorrido, o deserto se ampliou oceano adentro. O Eduard Bohlen, que percorria desde 1891 a linha comercial oceânica da companhia Woermann, sediada em Hamburgo, regularmente transportava correspondência para a África do Sudoeste Alemão. Durante a guerra de extermínio travada pela administração colonial alemã contra as tribos Hereros e Namas, serviu ocasionalmente como navio negreiro.

Durante esta guerra genocida, travada no princípio do século XX, uma boa parte da população indígena da África do Sudoeste não foi exterminada; foi conduzida a campos de concentração ou levada para campos de trabalhos forçados, em que os prisioneiros de guerra eram vendidos como trabalhadores escravos. Bem no começo da guerra, a administração colonial alemã enviou a um comerciante sul-africano chamado Hewitt 282 prisioneiros, que foram alojados precariamente nos porões do Eduard Bohlen, sem que lhes encontrassem melhores possibilidades de acomodação, e com os quais não se sabia exactamente o que fazer, enquanto os Hereros não fossem completamente derrotados. Hewitt ficou entusiasmado com essa possibilidade e barganhou para que o preço fosse reduzido para 20 marcos por cabeça, com o argumento, considerado justo, de que os homens já estavam embarcados e ele não estava preparado para pagar pelas mercadorias despachadas ao preço normal, além dos direitos alfandegários correspondentes. Ele obteve os prisioneiros em condições mais favoráveis e o Eduard Bohlen partiu do porto de Swakopmund, a 20 de Janeiro de 1904, em direcção à Cidade do Cabo, na África do Sul, de onde os homens foram enviados para trabalhar nas minas». In Harald Welzer, Guerras Climáticas, Porque mataremos e seremos mortos no século XXI, LeLivros, Geração Editorial, 2010, Wikipedia.

Cortesia de LLivros/GeraçãoE/JDACT

Harald Welzer, JDACT, Clima, Conhecimento,

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Poesia. António Borges Coelho. «Nos passos da minha vida ela sobe cresce cresce da roseira é roseiral»

Cortesia de wikipedia e jdact

Roseira Verde

«Tenho uma roseira verde
que dá rosas todo o ano.
A cada rosa que nasce
o meu rosto sofre dano.
No canto da minha cela
tenho uma roseira verde.

E sou eu próprio que rego
essa roseira mortal.
Nos passos da minha vida
ela sobe cresce cresce
da roseira é roseiral.

À medida que ela sobe
sou eu que me vou murchando.
Primeiro contava as rosas
de lindas rosas vermelhas
ia o meu corpo enfeitando.

Agora passo por elas
fujo ao seu aroma forte.
E se às vezes rio brinco
outras diviso entre as rosas
a própria face da morte.

Roseira Dona Roseira
não me contes os meus anos.
A cada rosa que nasce
brotam pétalas de esperança
murcham os meus desenganos».

Poema de António Borges Coelho. Escrito em 1962. No mar Oceano,

Lisboa, Editorial Caminho, 1981.

Poesia, António Borges Coelho, JDACT, Cultura, 

Lynn Sholes e Joe Moore. O Projecto Hades. «É só a Internet? Até agora, sim. Qual a procedência dos ataques?, indagou Mace. A maioria vem da China..., uma parte da Malásia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A descida ao Hades é a mesma a partir de todos os lugares». In Anaxágoras, filósofo grego, 500-428 a.C.

«(…) Enfiou a mão no bolso da calça e tirou o telefone móvel do modo vibratório. A mensagem de texto que recebera durante a cerimónia forçara-o a apressar o ritual antigo. Não gostaria de ter que explicar a ninguém o que o mantivera ocupado. Em pé na calçada, olhou de relance à direita para a leoa de granito em posição de esfinge guardando a entrada. A cabeça de mulher sobressaía acima de uma cobra enroscada no pescoço. A irmã gêmea idêntica mantinha a guarda à esquerda. A sua limusine o esperava junto ao meio-fio, um agente do FBI segurando a porta aberta. Um furgão preto com uma floresta de antenas sobre o tecto posicionava-se como um lobo cinzento à frente da limusine. Duas viaturas da polícia, uma à frente da pequena caravana, outra atrás, estavam de prontidão, as luzes piscantes azuis e vermelhas lançando um brilho hipnótico sobre a alta entrada de bronze do templo atrás dele.

Mace acomodou-se no banco traseiro da limusine e a pesada porta blindada fechou-se com um baque surdo como a porta de um cofre. O cortejo partiu imediatamente, as sirenes ligadas, os motores em alto giro. A aceleração pressionou-o contra o profundo encosto de couro enquanto ele consultava o relógio de pulso. Passavam alguns minutos das 11 da noite. O que temos?, indagou Mace ao seu assessor, sentado à sua frente. Há cerca de uma hora, recebemos a notícia de um aumento significativo de invasões em computadores no mundo todo. Regiões da Ásia e da África ficaram sem Internet, e o mesmo efeito está se espalhando por toda a Europa. Três quartos das nossas estações de monitoramento em todo o mundo estão sofrendo ataques simultâneos, e mais de 400 mil servidores foram infectados e fecharam.

É só a Internet? Até agora, sim. Qual a procedência dos ataques?, indagou Mace. A maioria vem da China..., uma parte da Malásia. São alvos aleatórios ou um ataque concentrado? Parecem aleatórios. Mas em grande escala. Alguém já informou o POTUS?, perguntou Mace. Ainda não. Faça a ligação. Mace esfregou o rosto. Ainda sentia o cheiro da fumaça das tochas e o gosto levemente adocicado do vinho nos lábios. Vou recomendar que, para algumas infraestruturas específicas, o nível de ameaça suba para laranja. Não há motivo para alarmar a população em geral.

Concordo, senhor. O assessor pegou um dos telefones do console de comunicações e pressionou um número de rápida intitulado POTUS. Num instante informava: O secretário de Segurança Nacional quer falar com o presidente.

Cotten Stone admirou as colunas imponentes no interior da Catedral da Assunpção e maravilhou-se com os murais sagrados que rodeavam cada uma delas. A igreja era uma das mais antigas construções dentro das muralhas do Kremlin. Nada é por acaso numa catedral russa, senhorita Stone, disse o presidente da Federação Russa num inglês formal. As colunas sustentam o tecto e os santos sustentam a igreja. É por isso que os santos estão pintados nas colunas, prosseguiu ele, apontando para os soberbos nichos no alto. É maravilhoso, senhor presidente, comentou Cotten, erguendo os olhos para o esplendor das obras de arte centenárias. Acompanhando Cotten e o presidente seguia uma pequena equipa de cinegrafistas, com câmera de filmagem e microfone elevado, da Satellite News Network, além de um punhado de agentes do Serviço de Segurança Presidencial. Banhados pelo brilho dos reflectores de filmagem, os dois caminhavam pelo edifício, cada passo e cada palavra ecoando até perder-se nas sombras demarcadas pela iluminação artificial. O horário de visitas se encerrara e já não havia turistas na Catedral da Assunpção». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Projecto Hades, 2007, Publicações Europa-América, 2008, ISBN 978-972-105-888-0.

Cortesia de EPEuropa-América/JDACT

Lynn Sholes, Joe Moore, JDACT, Mistério, Conhecimento,

Lynn Sholes e Joe Moore. O Projecto Hades. «Ante a invocação, as tochas se avivaram. Eu invoco a Luz do Ar, o Filho do Amanhecer. Filho do Amanhecer, repetiram as crianças»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A descida ao Hades é a mesma a partir de todos os lugares». In Anaxágoras, filósofo grego, 500-428 a.C.

«(…) Rizben Mace estava de pé no centro do pentagrama entalhado no piso de pedra, as cinco pontas se projectando como lâminas de uma arma antiga. Seis crianças com túnicas pretas estavam ajoelhadas à sua frente, os rostos escondidos por baixo dos capuzes. Trajando uma túnica vermelho-rubi, Mace segurava um cálice dourado numa das mãos e uma adaga incrustada de pedras preciosas na outra. Eu invoco Samael, o Guardião do Portal, disse. Samael, as crianças entoaram em uníssono. Em resposta ao encantamento, um dedo de nuvens densas de vapor flutuou diante da Lua, que brilhava como um pálido holofote. As velas tremeluziam no ar nocturno, as chamas protegidas pelos muros altos, envolvendo o ritual com uma névoa alaranjada. Figuras escuras, vestidas de preto e segurando tochas, circundavam o grande pátio. Eu invoco Azazel, o Guardião da Chama, disse Mace, a Centelha no Olho das Grandes Trevas. De novo, as vozes infantis ecoaram: azazel. Ante a invocação, as tochas se avivaram. Eu invoco a Luz do Ar, o Filho do Amanhecer. Filho do Amanhecer, repetiram as crianças. Uma rajada de vento quente agitou e envolveu as túnicas sobre as formas dos personagens nas sombras. Mace manteve a adaga e o cálice dourado com os braços estendidos. As chamas reflectiram-se no metal polido fazendo parecer que um fogo ardia no seu interior. Ele levou o cálice aos lábios e sorveu um gole. O vinho o aqueceu. Tinha aguardado ansiosamente o momento da cerimônia, a iniciação, a apresentação oficial dos jovens guerreiros a Lúcifer, o Filho do Amanhecer. Eles eram os descendentes dos Anjos Caídos, os mais recentes soldados Nephilim alistados nas fileiras do Exército Rubi, reunidos em torno dos preparativos para o Conflito Final. Uma onda de orgulho correu pelas suas veias enquanto elevava o cálice para que todos vissem. Em nome da vossa espada poderosa e da essência vital abundante que vos confere o poder da conquista, penetrai as mentes, os corações e as almas destes jovens guerreiros e enchei-os da vossa força terrível e esmagadora.

Mace ergueu bem alto os braços e as crianças se levantaram, formando uma fila única. Uma a uma, beijaram a lâmina da adaga e beberam um gole do cálice. Depois que todas foram servidas, elas voltaram para os seus lugares e puxaram os capuzes para trás, revelando os rostos juvenis. Mace abriu os braços num gesto majestoso. Ó grandioso Filho do Amanhecer, contemple os mais novos soldados do vosso triunfante Exército Rubi. Mace saiu do edifício e desceu os três níveis de degraus estreitos até à calçada. Era sempre uma transição desagradável, pensou ele, passar do salão medieval escondido no subsolo central do edifício para a claridade ofuscante da iluminação das ruas de Washington, e da sua túnica cerimonial de volta para o casaco e gravata». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Projecto Hades, 2007, Publicações Europa-América, 2008, ISBN 978-972-105-888-0.

Cortesia de EPEuropa-América/JDACT

Lynn Sholes, Joe Moore, JDACT, Mistério, Conhecimento, 

domingo, 25 de outubro de 2020

O Mistério de Marte. Grahan Hancock, Robert Bauval e John Grigsby. «O diâmetro médio das estruturas piramidais na base é de aproximadamente três quilómetros, e o diâmetro médio das estruturas poligonais…»

jdact e cortesia de wikipedia

O Planeta Assassinado

«(…) Um outro resultado positivo produzido num experimento de emissão marcada estava ausente numa amostra de controle que tinha ressecado quando submetida a alta temperatura, precisamente como se poderia esperar se a reacção original tivesse sido causada por um agente biológico. Assim, restam as observações em órbita. Em fotos enviadas pela Mariner 9 e pela Viking I, podem ser vistos objectos estranhamente familiares que têm sido interpretados por alguns cientistas não apenas como sinais de vida, mas como evidência de que uma vida inteligente avançada, alguma vez, deve ter estado presente em Marte...

As Pirâmides de Elysium

As imagens anómalas iniciais foram obtidas em 1972 e mostram uma área de Marte conhecida como Quadrângulo de Elysium. No começo, pouca atenção foi dada a essas imagens. Então, em 1974, uma breve notícia apareceu na publicação científica Icarus. Escrito por Mack Gipson Jr. e Victor K. Ablordeppy, o artigo relatava que:

Estruturas triangulares e piramidais têm sido observadas na superfície de Marte. Localizadas na porção central leste do Quadrângulo de Elysium, essas características são visíveis nas fotografias da Mariner, os fotogramas tipo B MTVS 4205-3 DAS 07794853 e MTVS 4296-24 DAS 12985882. As estruturas projectam sombras triangulares e poligonais. Cones vulcânicos de lados íngremes e crateras de impacto ocorrem somente a uns poucos quilómetros de distância. O diâmetro médio das estruturas piramidais na base é de aproximadamente três quilómetros, e o diâmetro médio das estruturas poligonais é de aproximadamente seis quilómetros.

Uma outra fotografia da Mariner, foto número 4205-78, mostra nitidamente quatro enormes pirâmides de três lados. Elas foram comentadas em 1977 pelo astrónomo Carl Sagan, da Universidade Cornell. As maiores, ele escreveu, têm três quilómetros de comprimento de um lado a outro na base e um quilómetro de altura, maiores que as pirâmides da Suméria, do Egipto ou do México, na Terra. Elas parecem estar erodidas e envelhecidas e são, talvez, apenas pequenas montanhas moldadas pela areia por séculos. Mas elas exigem, penso eu, uma análise cuidadosa. O que é particularmente notável quanto às quatro estruturas captadas nesta última fotografia, é que parecem ter sido dispostas na superfície de Marte num alinhamento ou padrão definido muito semelhante ao das pirâmides da Terra. Nesse aspecto elas também têm muito em comum com outras pirâmides marcianas que se situam numa região conhecida como Cydonia, à aproximadamente 40 graus de latitude norte, quase a metade de uma volta no planeta a partir do Eliseu.

As Pirâmides e a Face de Cydonia

As pirâmides de Cydonia foram fotografadas em 1976 pelo orbitador Viking 1 a uma altitude de cerca de 1.500 quilómetros, e foram inicialmente identificadas na foto 35A72 da Viking pelo dr. Tobias Owen (agora professor de astronomia na Universidade do Havaí). A mesma foto, cobrindo aproximadamente 55 por 50 quilómetros, quase o tamanho da Grande Londres, também mostra muitas outras características que poderiam ser artificiais. Uma olhada rápida revela somente uma miscelânea de colinas, crateras e escarpas. Gradualmente, no entanto, como se um véu estivesse sendo levantado, a cena embaçada começa a dar a sensação de estar organizada e estruturada, muito inteligente para ser o resultado de processos naturais aleatórios. Embora a escala seja maior, ela realmente se apresenta da mesma forma que os sítios arqueológicos na Terra deveriam se apresentar se fotografados a partir de 1.500 quilómetros de altura. Quanto mais próximo você examina a estrutura, mais fica aparente que ela realmente poderia ser um conjunto de enormes monumentos em ruínas na superfície de Marte». In Grahan Hancock, Robert Bauval e John Grigsby, O Mistério de Marte, 1998, Editora Aleph, 2004, ISBN 978-858-588-796-4.

 Cortesia de Aleph/JDACT

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