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domingo, 28 de janeiro de 2018

A Bibliotecária. Logan Belle. «Tratava-se mais de que estava dolorosamente consciente de que cada festa que ia era uma noite que perdia de estudo, e cada rapaz que gostava, ameaçava-a…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Despertou com um barulho que a fez pensar que alguém estava arrombando o apartamento. Ao menos, isso lhe pareceu. Logo se deu conta de que só era a cabeceira da cama de Carly batendo contra a parede. O ruído chegava acompanhado de uns gemidos da sua colega e sem dúvida desnecessário grito de: fo…-me! Mais gemidos, dessa vez masculinos. O ruído da cabeceira se fez mais forte e mais rápido e o tom das vozes pareceu de repente mais indicativo de violência do que prazer. Logo silêncio. Regina respirou com dificuldade, embora ela não sabia se devia ao sobressalto ou à natureza do que tinha ouvido. Era perturbador e excitante ao mesmo tempo e isso a preocupou mais do que o facto de que a vida sexual da sua companheira de apartamento estivesse roubando as suas horas de sono. Sabia que estava muito desactualizada em todo o tema de sexo; ser virgem na sua idade era impensável para a maioria das pessoas. Mas era a sua realidade, uma realidade que a preocupava desde que se mudou para Nova Iorque e se deu conta de que era a última a chegar na festa. Não é que pensasse não praticar sexo. Não tinha feito voto de castidade, muito pelo contrário. Era porque não tinha aparecido oportunidade. As suas amigas diziam que passou pela vida sem perceber que os rapazes sempre se fixavam nela e que lhe pediriam para sair mais frequentemente e se esforçasse mais por relacionar-se e fazer as coisas. É sempre tão séria..., diziam-lhe.
Não é que não queria divertir-se. Tratava-se mais de que estava dolorosamente consciente de que cada festa que ia era uma noite que perdia de estudo, e cada rapaz que gostava, ameaçava-a, desviar a sua atenção do que era importante para ela: aprender, trabalhar duro, conquistar um futuro. Determinação. Era o pensamento da mãe, que não demorou em prevenir Regina de que os rapazes não eram nada mais do que uma distracção, um modo muito eficaz de impedir o seu futuro. Tinha-lhe passado, advertiu-lhe com tom solene. Regina tinha ouvido a história dezenas de vezes, mas a sua mãe sempre lhe contava como havia tinha renunciado aos seus sonhos para apoiar o pai de Regina, enquanto este estudava arquitectura e logo nos primeiros anos de luta... E mais tarde veio a sua gravidez. Depois o pai morreu e deixou-me com toda a responsabilidade. Ninguém pensa em imprevistos, Regina. Olhou o relógio. Eram duas da manhã. Faltavam cinco horas para que soasse o despertador. Ouviu risadas e outro gemido de Carly.
Deitou–se de barriga para cima, desesperada para dormir de novo. A camisola, um objecto folgado de algodão cinza da marca OldNavy, enroscou-se na cintura. Regina soltou-o, mas a deixou por cima dos quadris. Acariciou o estômago tentando relaxar para recuperar o sono. E então, como se movesse por vontade própria, a sua mão desceu até a borda da cueca. Deteve-se. Do quarto ao lado só chegava silêncio. Colocou a mão por debaixo da roupa íntima e acariciou-se levemente com os dedos entre as pernas. Pensar que havia um homem a poucos metros de distância, do outro lado da parede, excitou-a e a distraiu ao mesmo tempo. Fazia muito tempo que um rapaz não a tocava e as poucas experiências que tinha tido até ao momento, tinham sido vergonhosas e não valia a pena recordar. Agora resultava-lhe impossível imaginar a mão de outra pessoa naquele lugar íntimo e sensível, alguém que a acariciasse até que se humedecesse e logo entrasse e saísse de seu corpo do modo adequado para provocar aquela potente libertação. Moveu a mão depressa, as paredes de sua vagina palpitaram contra o seu dedo, e quadris balançaram-se ao mesmo ritmo. Experimentou a familiar onda de prazer e logo ficou quieta sob o enrugado edredom. O coração pulsava com força. Como seria ter alguém com ela nesse momento de clímax? Começava a perguntar-se se algum dia saberia». In Logan Belle, A Bibliotecária, tradução de Bruh Santos, Editorial Planeta, 2013, ISBN 978-989-657-440-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

A Bibliotecária. Logan Belle. «Os rapazes da biblioteca estão comportando-se?, brincou. Estava sentada no sofá, com as pernas cruzadas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) É obvio, Regina procurou no Google Mark Ronak e descobriu que o pai de Carly era o fundador da gravadora de hip-hop mais importante do país. Esse pequeno detalhe serviu para aumentar ainda mais a distância que já havia entre as duas. Era impossível imaginar seu pai ou sua mãe escutando hip hop, ou qualquer música pop. O pai de Regina rondava os trinta e cinco anos quando ela nasceu e morreu oito anos depois. Era arquitecto e a única música que escutava era ópera. A mãe de Regina era uma violoncelista que só gostava de música clássica e insistia que na sua casa só se ouvisse esse tipo de música. Enquanto Alice Finch estava em causa, as únicas formas de música, pintura e literatura aceitáveis eram os clássicos, por isso Regina tinha crescido sem música pop, arte moderna, nem ficção barata. Como foi o seu primeiro dia?, perguntou-lhe Carly, levantando a vista da revista W. Os rapazes da biblioteca estão comportando-se?, brincou. Estava sentada no sofá, com as pernas cruzadas. Vestia uma calça jeans perfeitamente descolorida e queimados, um pulôver de caxemira que lhe chegava logo abaixo do peito e prendeu o cabelo loiro dourado num descuidado coque. A sala cheirava ao seu perfume, Chanel Allure.
Muito bem. Obrigada!, respondeu Regina, enquanto deixava a sua pesada bolsa no chão e ia à cozinha pegar uma Coca-Cola. Nunca sabia se Carly estava realmente interessada em falar com ela ou era só um gesto automático por ser ela a única pessoa que havia ali. Regina sabia que a garota não compreendia que pôr livros em estantes, segundo as suas próprias palavras, pudesse ser o sonho da vida de alguém. Mas isso era exactamente para Regina. Desde que tinha seis anos e seu pai tinha começado a levá-la à biblioteca todos os sábado à tarde, embora não fosse a de Nova Iorque, e sim a pequena biblioteca no Gladwynne, Pensilvânia, Regina sabia que esse era seu lugar. Nunca passou por uma fase em que queria ser professora, veterinária ou bailarina. Para ela o seu sonho tinha sido sempre tornar-se uma bibliotecária. Desejava trabalhar rodeada pelo cheiro dos livros, ser responsável por fileiras e mais fileiras de ordenadas prateleiras, e de uma meticulosa catalogação e de ajudar às pessoas a descobrir um grande romance, ou o livro que os ajudaria no projecto de uma pesquisa com o qual obteriam o seu título ou solucionariam um enigma intelectual.
Sabia desde que era pequena, e nunca tinha perdido de vista o seu objectivo. E agora o seu sonho virou realidade, por muito insignificante e ridículo que pudesse parecer para alguém como Carly Ronak. Fico feliz, comentou. Vou receber a visita de um amigo. Espero que não a incomodemos. O que realmente lhe estava a dizer era que esperava que ficasse no seu quarto e não incomodasse. Não se preocupe. Tenho muito que ler. Ah e sua mãe ligou. Duas vezes, comentou Carly, dando-lhe uma nota com a mensagem ilegível rabiscada com marcador permanente. Para reduzir despesas na sua mudança para Nova Iorque, Regina tinha excluído o telefone móvel da sua vida. Isso foi óptimo já que ficou impossível para sua mãe contactá-la as vinte e quatro horas do dia, mas, infelizmente, qualquer pessoa que tivesse um relacionamento com Regina e possuísse uma linha fixa pagava o preço. Dobrou a nota e meteu-a no bolso». In Logan Belle, A Bibliotecária, tradução de Bruh Santos, Editorial Planeta, 2013, ISBN 978-989-657-440-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

terça-feira, 9 de maio de 2017

A Bibliotecária. Logan Belle. «Regina desejou dizer-lhe que se especializou em Arquivos e Conservação, mas não queria que parecesse que estava competindo com ela»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A sala era impressionante; só com o seu tamanho conseguia deslumbrá-la. O tecto tinha uns quinze metros de altura, só três metros menos alto que os típicos edifícios de pedra calcária de Manhattan. A sala media vinte e quatro metros de largura e noventa de comprimento, aproximadamente a longitude de todo um bloco de prédios. Pelas enormes janelas em arco entrava a luz do sol. E logo estava o tecto, uma pintura de um céu com nuvens do Yohannes Aynalem, rodeada por ornamentadas talhas douradas de madeira de querubins, golfinhos e volutas. Mas a sua parte favorita daquela sala eram os lustres de quatro fileiras, de madeira escura e latão, com máscaras de sátiros esculpidas entre as lâmpadas.
Sloan deteve-se frente ao balcão de empréstimos que presidia a sala. Era mais que um balcão: ornamentada, a peça de madeira escura abrangia a metade do comprido da sala e era, basicamente, o centro de comando. Estava dividido em onze espaços com um guiché em arco cada um, separados por colunas dóricas romanas. Sloan inclinou-se sobre um dos ocos. Aqui está, o seu novo lar, anunciou. Regina sentiu-se confusa. Vou trabalhar no balcão de empréstimos? Sim, respondeu Sloan. Mas... Especializei-me em Arquivos e Conservação. A sua chefe dirigiu-lhe um olhar de desaprovação, com uma mão de unhas perfeitamente arrumadas sobre o quadril.
Não se precipite. É inteligente, como o foram todos os candidatos para este posto. Poderá abrir caminho como aos demais. Por outro lado, a biblioteca tem os arquivos cuidados por Margaret. Teve oportunidade de conhecer Margaret? Ela mesma está muito bem conservada. Acredito que trabalhe aqui desde que se colocou a primeira pedra. Regina sentiu uma sensação de vazio no estômago. Trabalhar no balcão de empréstimos não era um trabalho muito estimulante. A única coisa que faria seria sentar-se no seu posto, receber os pedidos e inseri-lo no computador e aguardar que alguém trouxesse os livros das diversas salas e espaços para poder entregar ao visitante, que aguardaria sentado numa mesa com uma senha. Tentou não se deixar levar pelo pânico. Todos tinham que começar em algum lugar, disse a si mesma. E poderia ser pior: poderiam colocá-la no balcão de devoluções. O importante era que se encontrava ali. No final era bibliotecária. E demonstraria que era digna desse trabalho.
Regina pegou o saco de papel marrom em que levava o almoço e sentou-se lá fora, no alto da escada da biblioteca. Abriu a garrafa térmica de leite e contemplou a Quinta Avenida. É a nova bibliotecária?, perguntou-lhe uma senhora que se deteve a seu lado antes de descer a escada. Sim, sou Regina, respondeu ela, enquanto mastigava tapando a boca com a mão. Bem-vinda. Sou Margaret Saddle. Incomodava por estar sentada enquanto a mulher permanecia em pé, Regina levantou-se e alisou a saia vincada de algodão que vestia. Ah, sim. Trabalha na Sala de Arquivos, não é? A senhora Saddle assentiu. Há cinquenta anos. Verdade, é... Impressionante.
Margaret tinha o cabelo branco e o usava meio preso, estilo anos 60, e os olhos eram de um azul muito claro. Além de blush no rosto, não usava maquilhagem. Estava com um colar de pérolas de várias voltas e, se Regina tivesse que apostar, diria que eram autênticas. A mulher voltou o olhar para o edifício. Este é um lugar que vale a pena dedicar toda uma vida profissional, afirmou. Embora tudo foi de mal a pior desde que perdemos o Brooke Astor. Bom, prazer em conhecê-la. Venha-me visitar no quarto andar quando quiser. Provavelmente terá dúvidas e Deus sabe que nenhum outro se apressará em respondê-las, se é que sabem a resposta. Bom, desfrute do sol.
Regina desejou dizer-lhe que se especializou em Arquivos e Conservação, mas não queria que parecesse que estava competindo com ela. Entretanto, tinha a certeza que preferia trabalhar com a Margaret Saddle do que com a Sloan Caldwell. A mulher afastou-se e Regina sentou-se novamente no degrau, esquecendo que tinha deixado a garrafa térmica com leite aberta. Derrubou-a, o leite derramou pela escada e a pesada tampa caiu ricocheteando como uma bola». In Logan Belle, A Bibliotecária, tradução de Bruh Santos, Editorial Planeta, 2013, ISBN 978-989-657-440-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

quinta-feira, 17 de março de 2016

A Bibliotecária. Logan Belle. «A sua única finalidade é permitir que os visitantes procurem os livros que necessitam, os números de referência e demais informações, para logo solicitá-los…»

Cortesia de wikipedia

«Regina Finch deteve-se na esquina da Quinta Avenida com a Rua Quarenta e dois. As pessoas empurravam para a esquerda e para a direita na sua pressa por passar. Os peões moviam-se como ondas rompendo contra uma rocha. Depois de um mês em Nova Iorque, ainda não se tinha acostumado ao horário de ponta. Mesmo assim, não permitiu que as pessoas a distraíssem. Era o seu primeiro dia no trabalho dos seus sonhos e ia saborear cada minuto. Um mês depois de finalizar uma pós-graduação em Bibliotecas e Informática na Universidade do Drexel, dirigia-se à biblioteca mais magnífica de todo o país. Elevou a vista para o formoso edifício, uma assombrosa obra de arquitectura em pedra calcária branca e mármore. Regina não podia imaginar que existisse um lugar mais perfeito que a Biblioteca Pública de Nova Iorque. Está olhando os gémeos?, perguntou-lhe uma senhora. Tinha o cabelo tão branco que parecia quase rosa e vestia um traje azul esverdeado com uns brilhantes botões dourados. Estava com um colar de cristais incrustados, o qual pendia um cachorrinho branco. Perdão?, disse Regina. Os leões, esclareceu a mulher. Ah, os leões. Em cada lado da ampla escada de pedra que subia até a biblioteca havia a estátua de um leão de mármore branco. Eram umas criaturas de aspecto real, que, sentadas sobre uns pilares de pedra, pareciam guardar o conhecimento que habitava o edifício. Eu gosto dos leões, afirmou Regina. A sua colega de quarto tinha advertido muito séria que não devia responder a todos os pirados que lhe falassem na rua. Mas Regina era da Pensilvânia e sentia-se incapaz de ser mal-educada.
Paciência e Integridade, respondeu a mulher. Esses são seus nomes. De verdade?, exclamou Regina. Não sabia. Paciência e Integridade, repetiu a mulher e partiu. Regina não soube como dizer à sua nova chefe, Sloan Caldwell, que não necessitava de uma visita guiada pela biblioteca, porque tinha ido ali com frequência desde que era menina. Mas Sloan, uma loira alta e fria do Upper East Side, tinha-lhe parecido intimidadora durante a entrevista e, de algum modo, o parecia ainda mais agora que tinha conseguido o trabalho. Não quer tomar notas enquanto caminhamos?, perguntou-lhe Sloan. Regina abriu a bolsa e procurou um papel e um lápis. Seguiu a mulher pelo grande vestíbulo de mármore, cujo estilo Belas Artes sempre lhe recordava as fotografias dos grandes edifícios da Europa. Mas o seu pai havia-lhe dito muitas vezes que não tinha sentido comparar a sede central da Biblioteca Pública de Nova Iorque com nada, já que, como obra de arquitectura, era única. E esta é a Sala do Catálogo Público, anunciou Sloan. A magnífica sala, oficialmente chamada Sala do Catálogo Público Bill Blass, e composta por mesas baixas de madeira escura, providas de abajures de bronze distintivas da biblioteca, com telas de metal rematadas em bronze escuro. Os computadores pareciam estar fora de lugar, já que os móveis lembravam o início do século XX. Estes computadores não têm acesso à Internet, comentou Sloan, claramente aborrecida pela explicação que, sem dúvida, teria dado infinitas vezes. A sua única finalidade é permitir que os visitantes procurem os livros que necessitam, os números de referência e demais informações, para logo solicitá-los em empréstimo. É óbvio, Regina conhecia esse sistema melhor que tudo na vida.
Ela adorava era um bom sistema. Para ela, a ordem estava acima de tudo. Depois de procurar os livros, os visitantes escreviam os títulos e os números de referência num papel com os pequenos lápis que tinham ao seu dispor nos boxes de ambos os lados das largas mesas. Para Regina era reconfortante o facto de que nessa época, em que tudo se fazia pelo SMS ou correio eletrónico, a Biblioteca Pública de Nova Iorque era o único lugar onde os leitores ainda tivessem que usar papel e lápis. Sloan continuou andando e os saltos de sua Ankle Boot ressoaram no chão de mármore. Usava o cabelo liso preso num delicado coque baixo e estava vestida da cabeça aos pés de Ralph Lauren. Igual à companheira de apartamento de Regina, Sloan Caldwell, a olhou de cima a baixo e disfarçou o seu veredicto: ruim! Muito ruim!. Regina se perguntou se em Manhattan haveria algum código secreto para se vestir, e que todo o mundo conhecia menos ela. Desde que mudou para a cidade, sentia-se como um dos extraterrestres da invasão dos ladrões de corpos; quase parecia uma nova-iorquina, mas quem a olhasse com mais atenção via que não era bem assim. E aqui temos o coração da biblioteca, a Sala Principal de Leitura. O pai da Regina ia com frequência à Nova Iorque por negócios e a levava com ele. Viajavam de comboio, comiam no Serendipity e visitavam a sede central da Biblioteca Pública de Nova Iorque, na Quinta Avenida; um ritual para estreitar laços afectivos. O leve aroma de fechado, da Sala Principal de Leitura, recordava o seu pai de um modo tão vívido e intenso que sempre necessitava de um momento para se recuperar. Deteve-se para ler a inscrição que havia sobre a porta, um protesto contra acensura de 1644 do Areopagítica de Milton: um bom livro é a preciosa seiva para um espírito magistral, embalsamado e entesourado com o propósito de dar vida além da vida». In Logan Belle, A Bibliotecária, tradução de Bruh Santos, Editorial Planeta, 2013, ISBN 978-989-657-440-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT