domingo, 23 de julho de 2017

Marcas do Quotidiano nos Monumentos Funerários. A Representação de Animais na Tumulária Medieval do Entre-Douro-e-Minho. Pedro Chambel. «… a Idade Média, visto a penetração do epitáfio nos meios não nobilitados ou privilegiados da sociedade do Entre-Douro-e-Minho, ser um acontecimento tardio, que só se verifica no século XIV»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A elaboração dos monumentos funerários, enquanto fruto das preocupações dos vivos acerca do seu incerto futuro, envolvia a existência de condições materiais que os tornassem possíveis. Eram, assim, os grandes senhores eclesiásticos e leigos quem detinha os meios necessários à sua construção, visto ela exigir uma mão-de-obra especializada que era preciso pagar. Contudo, também eram eles os supostos protagonistas do mundo terreno: reis, nobres e eclesiásticos consideravam-se como os zeladores da ordem terrena, pelo que consideravam dever ser a sua memória, verdadeira ou idealizada, que merecia ser perpetuada. No fundo, era a eles que se dedicavam os livros de linhagens, as crónicas e os relatos da vida dos santos ou dos proeminentes eclesiásticos. É, portanto, neste contexto que pretendemos reflectir sobre as marcas do quotidiano inscritas nos monumentos funerários. O nosso objectivo é a análise do monumento tumular enquanto documento que apela à decifração do que nele se quis transmitir ao mundo dos vivos e à Sociedade Celeste. Restringiremos o nosso estudo às imagens de animais presentes na tumularia, pretendendo indagar como o seu simbolismo se liga à idealização das representações de uma vida que merecia uma morte santa e exemplar. O âmbito geográfico do nosso inquérito é o da região de Entre-Douro-e-Minho, a área onde o mundo senhorial português encontrava raízes mais profundas e onde a riqueza e o poder se encontravam essencialmente ligados à ruralidade.
Interessa-nos, assim, perceber até que ponto os notáveis desta região se interessaram por manifestar nos monumentos funerários que para eles mandaram construir, entre os séculos XIII a XV, a representação da Natureza, em particular os animais, como forma de explicitarem um quotidiano marcado por uma forte ligação à terra e aos seus valores. Para tal, começaremos por realçar as manifestações de personalização da morte que se encontram na generalidade dos túmulos. Segundo Mário Jorge Barroca, a personalização do sepulcro no Entre-Douro-e-Minho encontra as suas raízes no século XI, acrescentando o autor que, no entanto, ela só se viria a impor no segundo quartel da centúria seguinte. A primeira forma de personalização dos túmulos manifesta-se na sua decoração. Inicialmente titubeante, com decorações figurativas incipientes constituiu, desde logo, um marco distintivo dos sepulcros. Encontramo-los, assim, decorados com elementos que procuravam transmitir a condição social do defunto em vida, como as representações de espadas e cavalos que remetem para a classe dos homens-de-armas. Outras figurações, como a da tampa tumular da igreja do antigo mosteiro de Paço de Sousa, onde se representa um abade, são mais elucidativas, visto nela se associar directamente ao defunto um báculo abacial.
Convirá referir que estes primeiros esboços de imagens de uma morte personalizada se apresentam associados à existência de Obituários, onde se registava, conjuntamente com o nome do defunto, a notícia descritiva da decoração do seu túmulo, permitindo conservar a sua identificação e a perpetuação da memória do defunto, ao mesmo tempo que se garantiam as celebrações rituais prescritas por este em vida. Como veremos, a ornamentação dos túmulos foi-se tornando cada vez mais elaborada, encontrando-se na arte funerária do Entre-Douro-e-Minho alguns dos monumentos escultórios mais notáveis da nossa medievalidade. Outra forma de personalização dos sepulcros encontra-se nas epígrafes que constituíram uma das formas mais directas e eficazes de o efectuar. Segundo Mário Jorge Barroca, foi durante os séculos XII e XIII, quando a personalização dos monumentos funerários se afirma de forma decisiva, que surge um grande número de epígrafes. No entanto, o uso do epitáfio já se vinha afirmando desde o século XI, restringindo-se, numa primeira fase, aos nobres e, alargando-se, posteriormente, aos clérigos, tornando-se estes dois grupos sociais os detentores exclusivos das epígrafes durante quase toda a Idade Média, visto a penetração do epitáfio nos meios não nobilitados ou privilegiados da sociedade do Entre-Douro-e-Minho, ser um acontecimento tardio, que só se verifica no século XIV.
Convirá referir que estes primeiros esboços de imagens de uma morte personalizada se apresentam associados à existência de Obituários, onde se registava, conjuntamente com o nome do defunto, a notícia descritiva da decoração do seu túmulo, permitindo conservar a sua identificação e a perpetuação da memória do defunto, ao mesmo tempo que se garantiam as celebrações rituais prescritas por este em vida. Como veremos, a ornamentação dos túmulos foi-se tornando cada vez mais elaborada, encontrando-se na arte funerária do Entre-Douro-e-Minho alguns dos monumentos escultórios mais notáveis da nossa medievalidade. Outra forma de personalização dos sepulcros encontra-se nas epígrafes que constituíram uma das formas mais directas e eficazes de o efectuar. Segundo Mário Jorge Barroca, foi durante os séculos XII e XIII, quando a personalização dos monumentos funerários se afirma de forma decisiva, que surge um grande número de epígrafes. No entanto, o uso do epitáfio já se vinha afirmando desde o século XI, restringindo-se, numa primeira fase, aos nobres e, alargando-se, posteriormente, aos clérigos, tornando-se estes dois grupos sociais os detentores exclusivos das epígrafes durante quase toda a Idade Média, visto a penetração do epitáfio nos meios não nobilitados ou privilegiados da sociedade do Entre-Douro-e-Minho, ser um acontecimento tardio, que só se verifica no século XIV». In Pedro Chambel, Marcas do Quotidiano nos Monumentos Funerários. A Representação de Animais na Tumulária Medieval do Entre-Douro-e-Minho, Instituto de Estudos Medievais, IEM, Ano 1, N º 1, 2005, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Marcas do Quotidiano nos Monumentos Funerários. A Representação de Animais na Tumulária Medieval do Entre-Douro-e-Minho. Pedro Chambel. «Nada devia ser deixado ao arbítrio, visto assim o exigir a segurança da vida eterna»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O Ocidente medieval cristão conheceu profundas mutações durante os séculos XII e XIII. Se as manifestações desse processo se deram de forma mais explícita a nível das condições de vida material das populações, também se assistiu, paralelamente, a uma predisposição mental que, subterraneamente, impulsionou e acompanhou as dinâmicas sócio-económicas ligadas ao renascimento urbano, iniciado ainda durante o século XI, e que se afirmou nas duas seguintes centúrias. Uma nova concepção do mundo acompanhou as transformações das condições materiais do homem medieval, influenciando-as, e por elas sendo influenciada. As alterações na forma de conceber o mundo do invisível e das relações entre mortos e vivos acompanharam este processo. Fruto de um fenómeno de longa duração, emergiu uma nova concepção da morte, baseada na consciencialização de que ela era um acto individualizado, com que os homens se confrontavam no momento de passagem do mundo terreno para o do Além, mediante um julgamento que iria determinar o seu futuro post-mortem.
Para tal, muito contribuiu a aceitação, por parte da hierarquia religiosa, da concepção teológica da existência do Purgatório durante o século XII, levando ao estabelecimento de uma verdadeira geografia do Além, segundo um processo estudado por Jacques Le Goff em relação ao conjunto da Cristandade, e por José Mattoso em relação ao Ocidente hispânico cristão. Contudo, se as novas concepções do mundo invisível não surgiram de forma sincrónica para todo o Ocidente medieval, elas foram-se, progressivamente, uniformizando. Neste sentido, no livro sinodal de Alba, elaborado em 1410 e estudado por Maria do Rosário Bastos, encontram-se já plenamente sistematizados os lugares de destino reservados às almas dos mortos, ou sejam: o Paraíso, o limbo dos Padres (encerrado após a vinda de Cristo), o limbo das crianças, o Purgatório e o Inferno.
A visão do mundo post-mortem reflectiu-se na vida do homem medieval. O momento decisivo do julgamento divino após a morte, associado, agora, ao Julgamento Final da Humanidade, levou ao surgimento de um conjunto de práticas, que proporcionassem aos homens a segurança da protecção das potências do Além. Assiste-se, assim, ao emergir de rituais preparatórios do momento da morte. Era necessário que esta fosse exemplar e que todos estivessem preparados para o incerto momento da passagem para o mundo do invisível. Nos testamentos surgem, então, especificados os actos que deveriam ser efectuados pelos vivos, a fim de garantir a salvação da alma do morto ou o apaziguamento das suas penas. A visão do mundo post-mortem reflectiu-se na vida do homem medieval. O momento decisivo do julgamento divino após a morte, associado, agora, ao Julgamento Final da Humanidade, levou ao surgimento de um conjunto de práticas, que proporcionassem aos homens a segurança da protecção das potências do Além. Assiste-se, assim, ao emergir de rituais preparatórios do momento da morte. Era necessário que esta fosse exemplar e que todos estivessem preparados para o incerto momento da passagem para o mundo do invisível. Nos testamentos surgem, então, especificados os actos que deveriam ser efectuados pelos vivos, a fim de garantir a salvação da alma do morto ou o apaziguamento das suas penas.
Neste sentido, tudo é cuidadosamente pensado quanto ao processo de elaboração da última morada dos restos corpóreos. Monumento, simultaneamente, retrospectivo e prospectivo, nele se pretende representar a imagem que cada homem quer transmitir acerca do que foi a sua vida, e sobre o local desejado para o repouso da alma, a Corte Celestial destinada aos eleitos. O monumento funerário integra-se, assim, progressivamente, na acepção do que Jacques Le Goff denominou de monumento/documento. Importante, não era, porém, apenas o túmulo, mas também o lugar onde ele iria permanecer. Dentro ou adscrito a uma igreja, um mosteiro, ou, mais tardiamente, a uma catedral, e, nestes templos, em espaços destinados ao apaziguamento das preocupações dos vivos, procurando os locais eleitos pelos santos homens que deveriam proteger o indivíduo e encaminhá-lo para o reino dos venturosos. Nas instituições religiosas constroem-se, então, arcossólios e abrem-se capelas, com decorações murais e escultórias, onde os túmulos eram depositados segundo um plano minuciosamente escolhido. Nada devia ser deixado ao arbítrio, visto assim o exigir a segurança da vida eterna». In Pedro Chambel, Marcas do Quotidiano nos Monumentos Funerários. A Representação de Animais na Tumulária Medieval do Entre-Douro-e-Minho, Instituto de Estudos Medievais, IEM, Ano 1, N º 1, 2005, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

sábado, 22 de julho de 2017

Os cavaleiros de Carneiro e a herança da cavalaria vilã na Estremadura. Os casos de Arruda e de Alcanede. Luís Filipe Oliveira. «De acordo com a notícia dos visitadores de 1488, era isso que ocorria no dia consagrado a Santiago, quando se agarrochava o animal oferecido pelos rendeiros da Ordem»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A permanência desta cavalaria nas vilas de Arruda e de Alcanede permite sugerir, por outro lado, que as comunidades respectivas não se tinham dissociado, por completo, das élites de cavaleiros e que estavam dispostas a lutar pela defesa dos costumes e dos privilégios que as caracterizavam. As notícias não são muito esclarecedoras, nem mesmo na Arruda, onde aqueles costumes tiveram maior continuidade. Não é impossível, contudo, que os rituais de entrada em cavalaria se fizessem acompanhar de algumas celebrações festivas, onde se comemorasse a renovação da força colectiva e se regenerassem os sentimentos de pertença e de partilha entre toda a comunidade. Nas duas vilas, essas cerimónias faziam parte dos rituais de entrada na vida adulta, associando-se, em Alcanede, a gestos que celebravam a riqueza e a abundância, recorde-se a alusão à boda e à quebra de vasilhas de vinho, ou a exibições de perícia equestre, no caso de Arruda. Nesta última vila, nem sempre os novos cavaleiros se limitariam, por certo, a mostrar os seus dotes equestres perante as autoridades locais, não sendo improvável que essas exibições evoluíssem para alguns jogos do agrado de todos. O momento convidava, aliás, a uma reavaliação lúdica dos méritos de todos e do lugar de cada um na hierarquia do grupo, de modo a sanar as perturbações criadas pela recepção dos neófitos. Talvez se organizassem então algumas carreiras e se mimasse um combate, ou se corresse um touro pelas ruas da vila. De acordo com a notícia dos visitadores de 1488, era isso que ocorria no dia consagrado a Santiago, quando se agarrochava o animal oferecido pelos rendeiros da Ordem, vendendo-se a pele e distribuindo-se a carne pelos pobres.

A associação destes eventos lúdicos aos rituais de entrada em cavalaria, que aqui se sugeriu a partir do pouco que se conhece, poderia documentar, de igual modo, uma tradição concelhia de jogos equestres, independente das justas e dos torneios da Corte. A avaliar pelo caso da Arruda, essa tradição mais popular ter-se-á mantido para lá de finais da época medieval, estando apta a adquirir novas características e a adaptar-se a outras solicitações. Nessa perspectiva, ela poderia oferecer uma explicação diferente para o desenvolvimento das festas conhecidas como as Cavalhadas, que se tornaram frequentes desde meados do século XVI e que chegaram aos Açores e ao Brasil, sem necessidade de as olhar como uma paródia dos jogos equestres da aristocracia. No actual território brasileiro, onde as cavalhadas tinham muitas vezes lugar durante as festividades do Espírito Santo, vindo a ganhar um sabor aristocrático no decurso do século XVIII, um dos mais antigos testemunhos continuava a fazê-las coincidir com os dias faustos das bodas e dos casamentos. Mas essa é já uma outra história, por muito que nela ecoem alguns dos costumes herdados da antiga cavalaria vilã». In Luís Filipe Oliveira, Os cavaleiros de Carneiro e a herança da cavalaria vilã na Estremadura. Os casos de Arruda e de Alcanede, Instituto de Estudos Medievais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Revista Medievalista, ano 1, número 1, 2015, ISSN 1646-740X.


Cortesia de RMedievalista/JDACT

Os cavaleiros de Carneiro e a herança da cavalaria vilã na Estremadura. Os casos de Arruda e de Alcanede. Luís Filipe Oliveira. «Nas vilas de Arruda e de Alcanede, a execução das cartas de Agosto de 1390 e de Novembro de 1424 também conheceu diversas contrariedades»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A sobrevivência destes cavaleiros até finais da Idade Média mostra que nem toda a cavalaria vilã se diluiu no sistema dos aquantiados, ao contrário do que defendeu Gama Barros. Nalgumas vilas da Estremadura, pelo menos, os antigos cavaleiros vilãos souberam manter muito daquilo que os distinguia dos peões e os afirmava como cavaleiros no espaço dos concelhos respectivos. Como se viu, essa resistência não se fez sem algumas concessões, nem sem alguma degradação de estatuto, mas não é fácil explicar, com os dados disponíveis, o que determinou o sucesso destas comunidades na defesa dos seus costumes, enquanto outras se rendiam ao sistema das quantias e aos critérios de hierarquização social que daí decorriam. Ainda que a história dessa resistência esteja em boa parte por fazer, é provável que ela tenha sido favorecida pela integração dessas comunidades em concelhos de senhorio particular, onde a acção da Coroa se fazia sentir, por certo, com maior dificuldade. De resto, não é de todo impossível que a sua luta tenha contado com a conivência, ou com o silêncio, pelo menos, dos alcaides nomeados pelos senhorios, os quais tinham algo a perder com a generalização do sistema das quantias. Além de abdicarem das ofertas regulares de alguns frangões, ou de uns quantos tarraços de vinho, também prescindiriam do seu anterior protagonismo na recepção dos novos cavaleiros, que lhes dava um ascendente decisivo sobre a milícia do concelho.
A interferência da Coroa no recrutamento dos cavaleiros dos concelhos, de modo a controlar o processo e a restringir a isenção fiscal aos que tivessem cavalo e armas para o serviço do rei, é muito anterior às disposições de Afonso IV, que ficaram citadas na carta que derrogou os privilégios dos cavaleiros de carneiro em Alcanede. Na realidade, desde Maio de 1305 que Dinis I tinha reservado para a Coroa o direito de conferir a honra de cavalaria aos vizinhos das cidades e de os privilegiar, por essa via, com a isenção de direitos régios e concelhios. Contra essa novidade protestou o concelho de Lisboa, em Setembro desse mesmo ano, lembrando que cabia ao alcaide o costume de fazer os cavaleiros da cidade durante o mês de Maio, os quais eram aceites como tais pelos monarcas anteriores. Não teve, contudo, grande sucesso. Por volta de 1317, já o monarca tinha chamado a si a condução de todo o processo, estabelecendo o novo sistema de quantias, mandey que tevesedes cavalos aqueles que as contias avyades segundo era conteudo nas cartas que vos sobre esto mandey, como recordou numa carta dirigida ao concelho de Lisboa. Nessa mesma ocasião, por entender que poys avedes de teer cavalos que me compre muyto de teerdes com eles armas, fixou o equipamento militar doravante exigido aos cavaleiros de diversas quantias, tendo responsabilizado o concelho pela escolha de veedores pera fazer teer os cavalos e para verificar a posse das armas respectivas. Mais esclarecia que assim o decidira, porque em outra guisa nom mi poderiades servir como devyades de sy seeria a vos perigoo.
O novo sistema estava, portanto, montado e a Coroa não deixará de insistir na necessidade de articular as isenções fiscais com a posse de cavalo e de armas. Os funcionários régios cedo começaram a exigir jugada aos cavaleiros que utilizavam as suas montadas em trabalhos agrícolas, ou em feitos de almocreveria, tal como ocorreu em Penacova, em Setembro de 1317, embora esse fosse um costume aceite em muitas vilas da Estremadura. Nas Cortes de Santarém de 1331, fez-se ouvir o protesto de alguns concelhos contra o facto de se exigirem montadas de certa quantia a quem estava dispensado de jugada, quando o seu próprio foro isentava desse tributo aqueles que tivessem um cavalo. A resposta de Afonso IV foi breve, mas desfez todos os equívocos, lembrando que isso seria strago da terra e mingua e uergonça, porque a jugada não lhes fôra quitada por teerem tal caualo com que nom podesen seruir nem defender a terra. Nem sempre estas disposições da Coroa seriam postas em prática com muita facilidade. Em muitos casos, não era fácil distinguir os cavaleiros de carneiro dos de quantia, sobretudo quando aqueles possuíam uma boa montada e alguns apetrechos militares. Talvez fosse essa a situação descrita em Tomar, em Abril de 1385, como já atrás se indicou. Noutras localidades, as dificuldades podiam nascer de um uso diverso das montadas, como o monarca autorizara que se fizesse em Penacova, por sentença de Setembro de 1317. De acordo com o protesto levado às Cortes de 1331, ocorria algo de semelhante em Santarém, onde os cavaleiros eram penhorados pela jugada por andarem em bestas muares, embora dissessem servir o rei com cavalo e armas. Apesar dos esforços da Coroa, o carácter híbrido destas situações acabava por favorecer, afinal, a defesa dos antigos costumes, como que justificando as referências aos cavaleiros de carneiro que se lêem nalguns capítulos de Cortes do reinado de Fernando I e que se rastreiam, ainda, noutros textos de épocas mais tardias.
Nas vilas de Arruda e de Alcanede, a execução das cartas de Agosto de 1390 e de Novembro de 1424 também conheceu diversas contrariedades. Em Alcanede, a oposição do concelho obrigou o mestre de Avis a ganhar uma nova carta régia, em Setembro de 1390, sem que isso o dispensasse de assegurar a posse de treslados fiéis desses documentos, talvez devido aos entraves postos pelo concelho em diversas ocasiões. A reacção dos vizinhos de Arruda foi ainda mais decidida na defesa da honra e dos privilégios fiscais dos seus cavaleiros. Os dados disponíveis não permitem reconstituir os meandros desse confronto, nem conhecer os meios a que o concelho recorreu para obstar à aplicação da carta de 1424, mas é provável que esta nunca tenha sido cumprida. A suspeita de João I tinha, portanto, algum fundamento, quando ressalvou a existência de um pacto particular na carta que outorgara ao Infante.
O recuo da Ordem foi reconhecido por um alvará do Infante João, passado em Alcácer, a 15 de Fevereiro de 1434. Dirigido aos juízes da vila, cometia-lhes a tarefa de elaborarem um registo dos costumes locais, feito na presença do escrivão do almoxarifado, de modo a inventariar os direitos da Ordem e a esclarecer, dizia, alguuas duujdas que se recreçerom. Como se isso não lhe dissesse respeito, o Infante omitiu a natureza dessas dúvidas, embora todos soubessem o que estava em jogo na passagem a escrito dos costumes da vila. Na única versão conhecida desses costumes, a que foi copiada, em Março de 1488,  para a acta da visitação à vila, a maior parte das verbas diz respeito ao foro e às liberdades dos cavaleiros locais, a que se juntou uma regulamentação do relego e do oitavo pago pelos outros moradores da vila. De resto, a própria realização deste treslado, que se fez preceder pela cópia do alvará do Infante, revela como as prioridades da Ordem se tinham alterado, já que ele terá sido motivado pelo reconhecimento do valor das cavalarias no conjunto das rendas cobradas na vila. Segundo o testemunho dos visitadores de 1488, as libras pagas durante o mês de Maio ascendiam então a cerca de 15 % dos rendimentos da milícia, certamente porque muitos proprietários se faziam cavaleiros de costume, como então ficou anotado». In Luís Filipe Oliveira, Os cavaleiros de Carneiro e a herança da cavalaria vilã na Estremadura. Os casos de Arruda e de Alcanede, Instituto de Estudos Medievais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Revista Medievalista, ano 1, número 1, 2015, ISSN 1646-740X.


Cortesia de RMedievalista/JDACT

Os cavaleiros de Carneiro e a herança da cavalaria vilã na Estremadura. Os casos de Arruda e de Alcanede. Luís Filipe Oliveira. «Ignora-se como o alcaide conduzia aqui o ritual de recepção de um novo cavaleiro, ou se também seria agraciado por quem não era filho de cavaleiro»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) As informações são mais completas para os cavaleiros de Arruda, graças a um documento com os Costumes da Vila, que foi elaborado pelos juízes da terra, em obediência a um alvará do Infante João datado de Alcácer, a 15 de Fevereiro de 1434. A cavalaria de costume apresentava aí um carácter voluntário, à qual todos podiam aceder, embora o filho de cavaleiro fosse dispensado de presentear o alcaide com dois frangões, caso quisesse ser feito cavaleiro por ocasião do seu casamento. A cerimónia de entrada tinha lugar em Maio e desenrolava-se num espaço público, devendo o candidato caualgar em çima de hüu cauallo e hijr peramte os Juizes e vereadores procurador e homeens boons E o alcaide que he posto por o senhorio E o que quiser ser caualleiro ha de dizer assy aos dictos Juizes e homeens boons Eu quero ouyr e gouuyr dos vsos e foros e boons costumes e quero sser caualleiro E emtam diram os homeens boons e alcaide que ho am por caualleiro. Ao contrário dos fidalgos de linhagem e dos cavaleiros de espora dourada, que dela estavam isentos, o cavaleiro de costume pagava a cavalaria durante o mês de Maio, no valor de 3 libras antigas, mas comunicava a honra à mulher e aos filhos menores. Em rigor, era a satisfação desta taxa recognitiva que lhe garantia o foro de cavaleiro e a isenção fiscal, acarretando o incumprimento dessa obrigação a devassa da sua honra, com o porteiro da Ordem a lamçar hüa porta do que assy non quiser pagar fora do conçe[lho] e lamça lla em terra. Mau grado as diferenças que entre eles se detectam, em boa parte devidas à natureza da informação disponível, os cavaleiros de Arruda e de Alcanede não deixam de partilhar diversas características comuns. Nas duas vilas, o estatuto de cavaleiro está claramente associado à isenção fiscal e à satisfação de uma taxa fixa, embora se desconheça quando eram devidos os alqueires de trigo pagos pelos cavaleiros de Alcanede. Mais evidente no caso de Arruda, onde se exigia a presença do alcaide e de toda a governação, nem por isso se perdera, em Alcanede, a publicidade necessária ao ritual de entrada em cavalaria. Nesta localidade, a cavalaria podia ser conferida pelo progenitor do candidato, mas a cerimónia não decorria longe dos olhares de todos, pois continuava a coincidir com o dia da boda, que marcava a entrada na vida adulta, e a ser caracterizada por gestos que ostentavam a riqueza possuída. Ignora-se como o alcaide conduzia aqui o ritual de recepção de um novo cavaleiro, ou se também seria agraciado por quem não era filho de cavaleiro, como ocorria na Arruda, mas talvez lhe estivesse destinado o tarraço de vinho que outros britavam contra uma parede.
As cerimónias descritas nestas vilas da Estremadura parecem corresponder, portanto, aos vestígios de um antigo ritual de entrada em cavalaria. A realização da cerimónia no mês de Maio, durante o qual se satisfaziam, por outro lado, as três libras da cavalaria, não deixa de recordar, com efeito, a época escolhida para os alardos concelhios e para o pagamento da antiga taxa de substituição do fossado, o morabitino de Maio. O carácter voluntário desta cavalaria de carneiro, muito evidente nos costumes de Arruda, também guarda alguma relação com a situação documentada na Estremadura durante os séculos XII e XIII, onde a cavalaria não tinha uma base censitária e o peão podia ascender de categoria, caso adquirisse um cavalo. A mesma homologia revela-se, ainda, na tradição de reservar ao alcaide um papel decisivo na recepção dos novos cavaleiros, tal como então se verificava nos concelhos de Lisboa e de Santarém. Segundo os costumes de Santarém comunicados ao Alvito, também cabia ao alcaide o direito a ser honrado pelo peão que queria ser arrolado entre os cavaleiros, embora o filho de cavaleiro estivesse dispensado de tal oferta, como sucedia na Arruda, e, quiçá, em Alcanede.
Talvez se possa aproximar destes testemunhos o ritual documentado em Tomar, a 3 de Abril de 1385, embora não seja certo que se tratem de cavaleiros de carneiro, quer pela ausência desta designação degradante, quer pelo facto de eles possuírem, pelo menos, uma arma ofensiva. Neste caso, a cerimónia tinha lugar por ocasião da boda do candidato a cavaleiro, o qual deveria então montar um cauallo cum hüa lança na maão e leuaua hüu alqueire de pam amasado e hüu cantaro de vinho e chegaua aa porta do castello da dicta villa e ferya com a lança em ella e dizia caualleiro quero eu seer E emtam leuaua o que hi staua por alcaide o dicto pam e vinho E se esto nom fizese auja ho alcaide de leuar delle a oytaua dos seus beens e se esto fizese nom auja delle de leuar nada. Quase todas as características atrás descritas se encontram aqui presentes, desde a isenção fiscal ao carácter público e voluntário da cerimónia, sem esquecer a data desta e as ofertas ao alcaide. Por tudo isso, não é de todo seguro que uma simples lança fosse capaz de os distinguir dos cavaleiros de carneiro, ou que pudesse identificá-los com os cavaleiros de quantia. De acordo com um artigo das Cortes de Elvas de 1361, estes últimos deviam possuir um equipamento militar bem mais caro e diverso, onde entravam diversas protecções do corpo e da cabeça, pelo que os cavaleiros de Tomar só com dificuldade se incluiriam entre os mais recentes cavaleiros de quantia.
Os cavaleiros de carneiro e de costume parecem ser, portanto, os herdeiros remotos da antiga cavalaria vilã da Estremadura. Mas essa herança também se alterara, entretanto. Em termos gerais, perdera-se a memória da prestação de um serviço militar e a honra do cavaleiro dependia agora do pagamento de uma taxa de substituição. A degradação do estatuto fôra ainda maior em Alcanede, onde aquela taxa se satisfazia em géneros e mal se distinguia dos outros foros, enquanto o ritual de entrada em cavalaria perdera boa parte da sua dimensão pública, sem que se transformasse, contudo, numa cerimónia doméstica e familiar. Nas suas vilas de origem, os cavaleiros guardavam intacta a honra e a isenção fiscal, mas a sua cavalaria dizia-se agora de carneiro, de tarraço, ou de costume, vendo-se qualificada com termos um pouco enigmáticos e degradantes, talvez porque se perdera o costume de entregar um carneiro em substituição do fossado, como em tempos acontecia nalgumas vilas castelhanas dos séculos XI e XII. De qualquer modo, essas designações pouco prestigiantes da sua cavalaria não deixavam de reflectir, afinal, a degradação do seu estatuto pessoal, para lá dos limites da vila onde viviam e moravam». In Luís Filipe Oliveira, Os cavaleiros de Carneiro e a herança da cavalaria vilã na Estremadura. Os casos de Arruda e de Alcanede, Instituto de Estudos Medievais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Revista Medievalista, ano 1, número 1, 2015, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Os cavaleiros de Carneiro e a herança da cavalaria vilã na Estremadura. Os casos de Arruda e de Alcanede. Luís Filipe Oliveira. «Os cavaleiros de carneiro e de costume, que se documentavam na Arruda e em Alcanede, não se confundiam, portanto, com os cavaleiros de quantia, que se generalizaram a partir de inícios do século XIV»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Talvez motivado pelas recentes iniciativas da Coroa, que promovera, no ano anterior, um maior controle sobre as jugadas pagas no termo de Coimbra, o mestre de Avis, Fernão Rodrigues, apresentou ao monarca, em Agosto de 1390, o diferendo que o opunha aos moradores de Alcanede, devido à isenção invocada pelos cavaleiros de carneiro daquela vila. Na ausência de um foral, diziam estes ser costume que quallquer caualeyro de carneyro que fosse fecto pollo alcayde ou per seu padre que o fezesse caualeyro ao dia da sua uoda que taaes caualeyros como estes asi fectos nom pagasem mais por Jugada e oitauo que quatro alqueires de trijgo E que de todo o all que pagam os peõoes fossem scusados. Para o mestre, era evidente a nulidade de tal privilégio, que não decorria da posse de cavalo e de armas para o serviço do rei e que não respeitava anteriores disposições de Afonso IV e de Fernando I. De resto, foi o respeito por tais ordenações que moveu João I a dirigir-se aos juízes de Alcanede e a decretar que taaes caualeyros de carneyro asi fectos nom escusasem de pagar oitaua saluo se teuessem cauallo e armas pera seruiço d el Rey e defenssom da terra.
A intervenção régia não encerrou, porém, a contenda. Mal passara um mês e já o mestre se via obrigado a solicitar nova carta, porque o chanceler da Casa do Cível, Vasco Esteves, avocara o feito e permitira que o concelho embargasse, perante os juizes locais, a execução da carta régia anterior. Como deliberara com os do Conselho, em Relação, que taaes caualeiros de carneiro pagassem todauja jugada e oitauo, o monarca proibiu o chanceler de ouvir as partes e de prosseguir o caso, porque entendia confirmar a carta que fôra dada ao mestre. Para João I, que não tardaria a legislar sobre o pagamento de jugadas, a derrogação dos privilégios de isenção dos cavaleiros de carneiro era um assunto encerrado. O usufruto das rendas de Alcanede, que ele detinha, em tença, desde Maio de 1386, foi talvez o que levou o mestre a tresladar em Avis, a 18 de Agosto de 1403, a citada carta de Setembro de 1390. Dispor de várias cópias dessa carta, era uma forma de salvaguardar os seus direitos, obstando a que alguém se eximisse ao pagamento de jugada. A precaução podia ocultar, porém, algumas dificuldades na cobrança do tributo aos antigos cavaleiros de carneiro. Em rigor, nada indica que assim tenha sido, mas aquela carta régia foi de novo copiada a 1 de Fevereiro de 1425, quando corria outra demanda entre a Ordem e o concelho de Alcanede, a propósito da jurisdição da vila. Dois anos depois, também se tresladaria a carta régia de Agosto de 1390, a pedido do ouvidor do mestre, Álvaro Afonso, que a apresentou ao juiz dos feitos do rei, sem que o facto guardasse, contudo, relação visível com qualquer problema na cobrança das jugadas em Alcanede.
O usufruto das rendas de Alcanede, que ele detinha, em tença, desde Maio de 1386, foi talvez o que levou o mestre a tresladar em Avis, a 18 de Agosto de 1403, a citada carta de Setembro de 1390. Dispor de várias cópias dessa carta, era uma forma de salvaguardar os seus direitos, obstando a que alguém se eximisse ao pagamento de jugada. A precaução podia ocultar, porém, algumas dificuldades na cobrança do tributo aos antigos cavaleiros de carneiro. Em rigor, nada indica que assim tenha sido, mas aquela carta régia foi de novo copiada a 1 de Fevereiro de 1425, quando corria outra demanda entre a Ordem e o concelho de Alcanede, a propósito da jurisdição da vila. Dois anos depois, também se tresladaria a carta régia de Agosto de 1390, a pedido do ouvidor do mestre, Álvaro Afonso, que a apresentou ao juiz dos feitos do rei, sem que o facto guardasse, contudo, relação visível com qualquer problema na cobrança das jugadas em Alcanede.
Mais do que o fracasso destas comunidades na defesa dos seus costumes, em particular quando se opunham à Coroa e aos senhores locais, importa sublinhar a existência de um tipo particular de cavalaria naquelas duas vilas da Estremadura, do qual pouco se tem falado e pouco se conhece. Designada de formas diversas, mas pouco prestigiadas, e apenas descrita quando foi condenada à extinção, aquela cavalaria peculiar não se limitava, contudo, às vilas de Arruda e de Alcande. De facto, em Junho de 1392, quando se dirigiu ao concelho de Coimbra, esclarecera o monarca que os cavaleiros ditos de foro ou de vara ou de carneiro ou de rocim de XXX libras da moeda antiiga que se soyam a fazer per os alcaides das villas não beneficiariam de qualquer isenção fiscal, norma que seria integrada, pouco depois, nas ordenações sobre o pagamento de jugadas. Nas Cortes de Lisboa de 1371, a propósito da isenção de jugada, já Fernando I distinguira os cavaleiros de quantia daqueles que os conçelhos fazem de seu foro”, perguntando a quais se referiam os procuradores concelhios. O esclarecimento veio nas Cortes do Porto do ano seguinte, quando se precisou que estavam em causa os cavaleiros de quantia e não os de foro, ou de carneiro.
Os cavaleiros de carneiro e de costume, que se documentavam na Arruda e em Alcanede, não se confundiam, portanto, com os cavaleiros de quantia, que se generalizaram a partir de inícios do século XIV e que estavam obrigados a possuir cavalo e armas, desde que o valor dos seus bens ultrapassasse um determinado montante, variável de localidade para localidade. Tal como eles, distinguiam-se dos peões pela isenção fiscal, embora não estivessem sujeitos à avaliação dos seus bens pelos coudéis, nem possuíssem os cavalos e as armas exigidas pela Coroa. No fundo, a sua honra de cavaleiro provinha de um costume imemorial, aceite por todos, que pouco tinha a ver com as novidades que a monarquia introduzira, ao longo do século XIV, no recrutamento dos cavaleiros dos concelhos. Os dados recolhidos permitem caracterizar, um pouco melhor, esta singular cavalaria de carneiro. Em Alcanede, a cavalaria podia ser conferida pelo alcaide, ou pelo progenitor do candidato em dia de sua uoda britando hüu taraço cheo de vinho na parede. Posto que o cavaleiro assim feito não possuísse cavalo e armas com que servisse o rei, como então se reconheceu, entendia-se que essa cavalaria escusava-os dos foros pagos pelos peões e que lhes dava o privilégio de não solver mais que 4 alqueires de trigo, por todos os bens que detivessem. Em termos locais, isso era, talvez, quanto bastava para os distinguir do comum das gentes». In Luís Filipe Oliveira, Os cavaleiros de Carneiro e a herança da cavalaria vilã na Estremadura. Os casos de Arruda e de Alcanede, Instituto de Estudos Medievais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Revista Medievalista, ano 1, número 1, 2015, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Madre Paula. Patrícia Muller. «Vou mostrar-te onde te podes refrescar e trocar de roupa. O hábito que vais usar é antigo. Não temos dinheiro para um novo»

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«(…) Não sabia que recebíamos mendigas no convento, abadessa. Mariana Castilho fingiu não ter ouvido a indelicadeza de Madalena Máxima Miranda, uma monja que muito tinha pago ao entrar para Odivelas. Com um gato persa ao colo, acariciava o pêlo do bicho como se fosse o peito de um amante. Interroguei-me se tinha fugido de um casamento combinado com outro fidalgo de igual importância; se a maternidade a enojava; se a humilhação de uma traição masculina, prática comum, a aterrorizava; se a ideia das obrigações matrimoniais a repugnava. Saberia ela dançar? Gostaria do cheiro de homem? Também não entendo, abadessa. Já não basta uma irmã pobre?
Carolina Augusta era da mesma laia: birrenta, insegura e muito invejosa. Eu era demasiado escura, alta e forte, demasiado do povo, sem dinheiro ou nome, Todas me olhavam como uma aberração. A Paula vai conhecer a sua cela. A sua irmã pode levá-la. Ficarão próximas uma da outra. A Luz mantinha-se de cabeça baixa. Tão humilhada e pequena, a minha irmã mais velha. Não era assim quando morávamos juntas. Percebi exactamente o que se passava naquele convento. Fechei os punhos, preparando-me para a guerra. A minha irmã pousou suavemente a mão no meu ombro. Vamos, querida. Fiz menção de ignorar o pedido. Eu levo-te. Que se transformou numa súplica. A Luz rejeitava o confronto. Obedeci, contrariada. Fi-lo por lealdade ao sangue, no convento há anos, domesticada como o gato. Aqui as regras não são diferentes das regras lá de fora, Paula. Fidalgas são mais gente do que nós. Pensava que éramos todas monjas, iguais aos olhos de Deus. Aos olhos de Deus somos todos iguais. Aqui dentro, continuamos todas diferentes.
Quando cheguei à minha cela vi o que me esperava diante da janela sem esperança: uma cama dentro de grades, como numa capoeira, um altar carunchoso, um armário sem uma perna. Mas o que me deixou em alvoroço não foi a cela em si, foi ter passado por outras de porta aberta e ter visto o luxo que ali imperava. Veludos e madeiras, ouro e prata, espelhos e vidros. Jurei a mim mesma que um dia, custasse o que custasse, haveria de ter uma cela infinitamente mais luxuosa do que qualquer uma daquelas. E não era porque estivesse habituada ao luxo e ao conforto. Era apenas porque a ideia de inferioridade nunca me assentou.
Vou mostrar-te onde te podes refrescar e trocar de roupa. O hábito que vais usar é antigo. Não temos dinheiro para um novo. Este que estou a usar foi-me dado por... O tempo em que a Luz se deliciava com negras e homens atrás de negras, numa sensualidade rebelde, tinha passado. Tinha sido esmagado pelo convento. Éramos felizes antes. Voltei do banho, embrulhada num manto envelhecido. Entrei na cela e, de cima da cama, tinham desaparecido as roupas. Procurei por todo o lado, o manto teimava em escorregar até que, com um puxão, alguém mo retirou pelas costas. Apenas tive tempo de me virar e vislumbrar a cauda do gato ao colo de quem corria. As roupas estão no claustro da Moura, noviça. Risos vindos do corredor. Comecei a tiritar. Preparei-me para gritar. A sua irmã não a ouve. Mandámo-la para o jardim, bem longe. A voz não acompanhava uma cara, mas eu sabia a quem pertencia». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Madre Paula. Patrícia Muller. «De dentro para fora, pude avistar o claustro grande, onde algumas noviças passeavam: relva e pequenas sebes aparadas na perfeição, geometricamente erguidas, a ladear uma fonte»

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«(…) O pai sorria, esperançoso. A falta de ouro fez com que tivesse de mandar os seus tesouros mais preciosos para longe da oficina onde fabricava, ele mesmo, tesouros. Mas a minha entrada no mosteiro foi banal, mais uma menina que ia poder viver sem passar necessidades, ser educada para a fé. Tantas outras foram iguais a mim. Não há ninguém igual a mim. O cheiro a comida inebriou-me mas não me cegou. Gosto, pai. Não poderia atribuir culpas a quem não se interroga quanto aos hábitos com que foi criado. A cozinha tem uma passagem para a igreja e uma escada para as celas de cima, interrompida por diferentes portas: a que acede a um quarto com as pinturas de S. Bernardo no tecto, a que leva apenas a um espaço de arrumações e outra que desemboca na sala grande. A sala grande tem um chão em madeira clara que se estende brilhante diante dos nossos olhos, num rectângulo faustoso, Reflecte a luz das janelas de vidros da Boémia e a talha dourada do tecto. O amarelo predomina, mesmo nos gonzos e nas ferragens em ouro das portas de madeira rica trazida do Brasil. Imaginem um espaço onde o ar que se respira reluz. Os azulejos azuis parecem envergonhados por conviverem com tal intensidade de cor e magnificência.
De dentro para fora, pude avistar o claustro grande, onde algumas noviças passeavam: relva e pequenas sebes aparadas na perfeição, geometricamente erguidas, a ladear uma fonte. O claustro da Moura era igual, labiríntico, com árvores em redor, e a estátua da abadessa dona Maria Luísa Moura, envergando roupas mouriscas e um turbante na cabeça. Admirei essa abadessa do passado, que tinha ousado erigir uma estátua em sua honra, apresentando-se em trajes tão pouco católicos. Saberia o meu pai o que estava a fazer? Era difícil conceber que, profundo conhecedor do clericalismo popular, das histórias pecaminosas de freiras e padres, freiras e nobres, freiras e reis, não soubesse para onde enviava as filhas. Talvez tenha considerado que os seus ensinamentos tenham sido tão explícitos que nós não prevaricaríamos. Ou talvez tivesse desejado, na sua alma universal, que obtivéssemos dividendos do contacto social com damas de outra cultura e autoridade. Em Odivelas existiram verdadeiras amazonas, guerreiras da guerra social e do poder, que chegavam ao êxtase divino da clausura, o excesso de reza, a leitura cristã, todo o ambiente espiritual permitia que as reacções fossem excessivas em todos os campos da existência, e ao patamar máximo das tentativas de domínio e influência. Confessores, outras freiras, fidalgos, familiares, subalternos e outros tentos eram peões em lutas de poder fortíssimas, intrigas complexas e desmandos de senhoras nobres com cetim debaixo do hábito que queriam ser consideradas apesar de estarem fora do mundo. Ou porque a ideia de fora do mundo é em tudo contrária à natureza social do homem. E ainda mais da mulher. Não fomos feitas para sermos sozinhas. Somos mães. A igreja é construída em profundidade com fortes colunas a suportar um coro de monjas fúteis que em nada dignificam a condição monástica. Quando entrei, estavam a cantar e calaram-se com a minha presença. Lembro-me da sensação de desconforto que a minha mente registou, ao ser escrutinada pelas monjas que ensaiavam. E lembro-me de olhar Jesus Cristo de frente, ele na cruz, eu na cruz, e pensar que ambos tínhamos pais fracos que mostravam mal o amor que sentiam por um filho». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

terça-feira, 18 de julho de 2017

Assim foi Auschwitz Primo Levi. «Ao meio-dia, os deportados recebiam um litro de sopa de nabo ou couve, absolutamente insípida devido à falta de qualquer tempero…»

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«(…) O estado higiénico-sanitário do Campo parecia, à primeira vista, realmente bom: as ruas e vielas que separavam os diversos blocos, eram limpas e bem conservadas, até onde permitia o chão lamacento; o exterior dos blocos, em madeira, era bem pintado e o interior tinha os soalhos cuidadosamente varridos e lavados todas as manhãs, com os chamados castelos (beliches) de três andares em perfeita ordem, as mantas dos catres bem estendidas e alisadas. Mas tudo isto era apenas aparência, sendo a substância completamente diferente: na verdade, nos blocos, que normalmente deveriam albergar entre 150 e 170 pessoas, amontoavam-se sempre pelo menos 200, muitas vezes até 250 pessoas, e portanto em quase todas as camas dormiam duas pessoas. Nessas condições, o tamanho do dormitório era certamente inferior ao mínimo exigido pelas necessidades de respiração e hematose. Os catres eram providos de uma espécie de saco grande, mais ou menos cheio com serragem de madeira, reduzida quase a pó pelo uso prolongado, e dois cobertores. Os cobertores, além de nunca serem trocados nem submetidos, a não ser muito raramente e por motivos excepcionais, a qualquer desinfecção, estavam, na maior parte dos casos, em péssimo estado de conservação: gastos pelo uso prolongado, rasgados, cobertos de todo o tipo de manchas. Só os catres mais à vista eram providos de cobertores mais decentes, quase limpos, e às vezes até bonitos: eram os catres dos andares inferiores e mais próximos da porta de entrada.
Naturalmente, essas camas eram reservadas para os pequenos líderes do Campo: capatazes e seus assistentes, ajudantes do chefe de bloco, ou simplesmente amigos de uns ou de outros. Assim se explica a impressão de limpeza, ordem e higiene que a pessoa tinha ao entrar num dormitório pela primeira vez e deitando um olhar superficial ao seu interior. Nas armações dos beliches, nas vigas de sustentação, nas tábuas dos catres, viviam milhares de percevejos e pulgas que impediam os prisioneiros de dormir à noite; nem sequer as desinfecções dos dormitórios com vapores de ácido nitrídrico, efectuadas de três em três meses ou de quatro em quatro, eram suficientes para destruir esses hóspedes que continuavam a vegetar e a multiplicar-se quase imperturbáveis.
Os piolhos, pelo contrário, eram combatidos a fundo, a fim de prevenir o surgimento de uma epidemia de tifo petequial: todas as noites, após regressar do trabalho, e com maior rigor nas tardes de sábado (dedicadas, entre outras coisas, a rapar o cabelo; a barba e por vezes também outros pêlos), praticava-se o chamado controlo dos piolhos. Cada prisioneiro tinha de se despir e submeter as suas roupas ao exame minucioso dos encarregados dessa função; se fosse encontrado um único piolho na camisa de um deportado, todas as roupas de todos os ocupantes do dormitório eram imediatamente enviadas para desinfecção e os homens eram submetidos a duches, depois de serem esfregados com lisol. Assim, tinham de passar a noite inteira nus, até às primeiras horas da manhã, quando as suas roupas voltavam do barracão de desinfecção, impregnadas de humidade.
No entanto, não se tomava qualquer outra providência para a profilaxia das doenças contagiosas, que eram frequentes: tifo e escarlatina, difteria e varicela, sarampo, erisipela etc., sem contar com as inúmeras infecções cutâneas contagiosas, como as epidermofitoses, os impetigos, as sarnas. É de facto surpreendente que, tendo em conta tanta negligência em relação às normas higiénicas de pessoas que viviam numa promiscuidade tão grande, nunca tenham surgido epidemias de rápida difusão. Uma das maiores possibilidades de transmissão de doenças infecciosas consistia no facto de uma razoável percentagem de prisioneiros não dispôr de gamela ou de colher, de modo que três ou quatro pessoas eram obrigadas a comer sucessivamente no mesmo recipiente ou com o mesmo talher, sem poder lavá-lo.
A alimentação, de quantidade insuficiente, era de má qualidade. Consistia em três refeições: de manhã, logo depois de acordar, eram distribuídos 350 gramas de pão quatro vezes por semana e 700 gramas três vezes por semana, portanto, uma média diária de 500 gramas, quantidade que seria razoável se o próprio pão não trouxesse incontestavelmente uma grande quantidade de escórias, entre as quais, de forma muito visível, serragem de madeira; além disso, ainda de manhã, davam-nos 25 gramas de margarina com uns vinte gramas de salame ou uma colherada de doce ou ricota. A margarina era distribuída só seis dias por semana; mais tarde, essa distribuição reduzir-se-ia para três dias. Ao meio-dia, os deportados recebiam um litro de sopa de nabo ou couve, absolutamente insípida devido à falta de qualquer tempero, e à noite, no final do trabalho, outro litro de sopa um pouco mais consistente, com algumas batatas ou, por vezes, ervilhas e grão-de-bico; mas esta também totalmente desprovida de componentes gordurosos». In Primo Levi, Assim foi Auschwitz, 2015, Penguin Randon House Grupo Editorial, Objectiva, 2015, ISBN 978-989-877-569-6.

Cortesia de Objectiva/JDACT

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «A leitura que Ibn Qasi e os almóadas faziam do Corão impunha normas duras e opressivas só compreensíveis para gente oriunda dos desertos africanos, inculta e bruta»

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As Princesas de Córdova. Silves, 1145
«Quase todos os acontecimentos relevantes passados durante este novo ano não foram presenciados por mim. Para os relatar, queridos filhos e netos, recorro às narrativas que me fizeram a minha cunhada Chamoa, Mem e também a princesa Zaida. São as descrições deles que aqui reproduzo, para que possais perceber o quanto os nossos sucessos militares, obtidos em Portugal nos anos seguintes, foram uma consequência directa da forma brutal e vertiginosa como a Andaluzia muçulmana se destruiu a si própria. Sentada na varanda do seu quarto, no palácio de Silves, Zaida constatou que os preparativos para a guerra tinham uma única virtude: haviam afrouxado a vigilância do marido. Desde que Mem a salvara dos assassins que Ibn Qasi ficara em alarido por temer pela vida dela e de Maryam, mas também por invejar o estatuto de salvador da princesa que o almocreve alcançara. Mais de ano e meio passara e Qasi não esquecera o que vira: Mem junto à cama dela, sentinela única em defesa de Zaida. Receoso, proibira-a de aproximar-se do pombal e de passear sozinha.
Em parte, Zaida compreendia, os feddayins tinham tentado eliminá-los. Mas não se tratava só disso. Ibn Qasi mudara, a ambição transformara-o, a religião exigira-lhe novas regras, o domínio da mulher era uma imposição dos almóadas de Marrocos, que não aceitavam que uma esposa se desse a terceiros. Na Córdova antiga e gloriosa, onde a sua mãe, Zulmira, crescera, as mulheres tinham direito aos mesmos prazeres do que os homens. A fidelidade não era exigida, nem a uns nem a outros; as brincadeiras com homens ou mulheres eram consideradas saudáveis e até necessárias, para que a trepidação carnal não baralhasse o espírito. Um casamento era apenas uma união legal, a formação de uma família, a transmissão de riquezas e propriedades. Não ficava em causa por se rebolar com alguém numa cama! Por isso, os homens tinham haréns e as mulheres dos sultões se banhavam com serviçais negros nas piscinas, como no início do belo e antigo livro das Mil e Uma Noites.
A leitura que Ibn Qasi e os almóadas faziam do Corão impunha normas duras e opressivas só compreensíveis para gente oriunda dos desertos africanos, inculta e bruta. Mas eles tinham poder, tanto poder! E, Ibn Qasi estava a segui-los cegamente, até a bela cidade de Silves já se ressentia. Os poetas fugiam e as mulheres já usavam véu, escondiam a cara e diziam que sim a tudo o que os maridos impunham. Mas o aproximar da guerra libertara um pouco a pressão em que Zaida vivera nos últimos tempos. A agitação das tropas e o planeamento das operações haviam distraído Ibn Qasi, que diminuíra a vigilância apertada imposta à princesa. Por isso, lhe chegou aquele pombo, com a mensagem de Afonso Henriques, onde este avisava que um padre, Mem e Chamoa haviam sido levados por Ismar para Córdova, onde já se encontravam também Abu Zhakaria, governador de Santarém, e Fátima, a sua irmã! A voz da mãe ecoava-lhe nos ouvidos, enquanto observava a pequena Maryam a brincar com as bonecas. Iria a filha ouvi-la também, um dia que ela morresse? Zaida não sabia, ninguém conseguia entrar na mente de outra pessoa, o pensamento e a dor eram impossíveis de partilhar». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

domingo, 16 de julho de 2017

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Desta vez, a cidade cairá e os infiéis serão vencidos!, exclamou o abade, que muitos já consideravam um santo. Nas suas palavras, descobri igualmente forte admiração por Afonso Henriques»

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«(…) Contudo, mal vi pela primeira vez a princesa da Sabóia, tive pena do meu melhor amigo. Que injustas eram as leis do mundo! Chamoa era uma beldade, um mulher entusiasmante e inimitável, mas aquela rapariga de dezanove anos jamais chegaria perto dela. Mafalda da Sabóia não era nem bonita, nem simpática. Baixa e feia, de olhar zangado e tenso, transpirava irritação e contrariedade, sendo absolutamente óbvio que abominava a ideia de deixar a sua terra para casar com um príncipe distante e reinar sobre gente que considerava inferior. Nem por uma vez nos sorriu, mirando-nos com desprezo, e recusou mesmo estar presente na ceia que Amadeu de Maurienne nos ofereceu, demonstrando uma consideração e uma amabilidade que a filha não herdara. Cristão e descendente de famílias nobres, Amadeu era parente de importantes figuras da Cristandade, onde se contavam um papa já falecido, Calisto II; o imperador romano-germânico, Henrique IV, de quem era vassalo; e o rei de França, Luís VII, de quem era tio por via do casamento.
A sua filha Mafalda era, portanto, sobrinha de um dos mais poderosos reis da Europa e prestava vassalagem ao único imperador que a Cristandade aceitava como legítimo, laços que permitiriam a Afonso Henriques autonomizar-se em definitivo de seu primo direito Afonso VII. Aquela seria, pois, uma união de máxima importância para o nosso rei. Porém, ao contemplar Mafalda da Sabóia uma última vez, quando nos despedimos, tive a certeza de que seria difícil o meu melhor amigo apaixonar-se por uma mulher tão desapontada com o seu destino, em cujo rosto e corpo não se viam dádivas que pudessem incendiar os desejos de um príncipe que dormia com a lindíssima Chamoa e com a estrondosa normanda, Elvira Gualter. Certamente pressentindo as minhas angústias, meu pai tentou dissolvê-las quando me disse, já a caminho de Cluny:
julgais que é a primeira que casa contrariada? As rainhas só têm de ser pacientes, deixar os reis tomá-las e dar-lhes filhos.
Era essa também a opinião de Bernardo de Claraval, que visitámos, dias depois, na Abadia de Cluny. O famoso religioso, principal responsável pela formação da Ordem do Templo e grande entusiasta das cruzadas, ficou muito agradado por saber que Afonso Henriques ia finalmente desposar Mafalda da Sabóia. Sereno e simpático, com o aspecto de um avô carinhoso, Bernardo de Claraval surpreendia, no entanto, pela vertiginosa velocidade dos raciocínios e pela impetuosidade feroz das vontades. A luta contra os infiéis era o centro da sua vida e pregava há vários anos a favor de novos contingentes serem lançados a caminho de Jerusalém, para garantir a conquista da cidade onde Cristo morrera. A1ém disso, defendia que aquela imensa guerra não se travava apenas na distante Terra Santa, mas também no nosso território. Embora sem estabelecer prazos, Bernardo de Claraval garantiu-nos que em breve uma nova vaga de cruzados, saída do Norte da Europa, poderia ajudar-nos a tomar Lisboa em definitivo, tirando desforra do acontecido dois anos antes.
Desta vez, a cidade cairá e os infiéis serão vencidos!, exclamou o abade, que muitos já consideravam um santo. Nas suas palavras, descobri igualmente forte admiração por Afonso Henriques, que julgava grande rei e valoroso guerreiro, mas não por Afonso VII, que o patrono dos templários desaprovava por encontrar nele semelhanças desagradáveis com sua mãe, dona Urraca, como a propensão para a mentira e o excesso de ambição. Para o emérito abade de Cluny, só uma qualidade distinguia o imperador da Hispânia da sua progenitora: a perícia guerreira. Ao contrário da mãe, está cada vez mais forte, uniu a Hispânia e em breve conquistará Córdova e Sevilha e chegará ao mar! A destreza nas batalhas fazia de Afonso VII um monarca cristão respeitável, mas era necessário não o deixar ir longe de mais. Embora não tivesse conseguido subjugar Afonso Henriques, o santo abade avisou-nos de que o imperador continuaria a tentar minar o primo direito de outras formas. Os portucalenses deviam tomar atenção redobrada às suas manigâncias extremas e sujos estratagemas». ». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Aquelas espantosas e velhas pedras iá haviam visto muito, tanta vileza humana ali despontara ou perecera, e eu preocupado com a rocambolesca intriga de Compostela!»

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O Massacre dos Templários. Roma, 1144
«Naquele novo ano, para azar de Chamoa, os papas mudaram ao ritmo das estações do ano. Celestino II, eleito no Outono, não durou sequer até ao final do Inverno. Se, em Dezembro anterior, a publicação da sua bula Clavis Regni nos dera novo alento, o papa prometera reconhecer Afonso Henriques como rei, em troca do recebimento anual de quatro onças de ouro, em Março a sua morte súbita desanimou-nos. A embirração que o desaparecido pontífice devotava à casa da Sabóia não era partilhada pelo sucessor, Lúcio II, que logo exigiu a renovação das negociações para o matrimónio com Mafalda da Sabóia, obrigando o arcebispo de Braga, João Peculiar, a apresentar-se em Roma para receber instruções. Apesar de incomodado com mais uma súbita mudança, Afonso Henriques sabia que a diplomacia religiosa se mantinha essencial. Nesses dias, meus queridos filhos e netos, o reino de Portugal era ainda uma entidade embrionária e tornava-se absolutamente imperativo convencer o novo papa da sua viabilidade e legitimidade. Por isso, a Roma não foi apenas o arcebispo Peculiar, mas também meu pai, o mordomo do novo reino.
Dias antes de partir, Egas Moniz desafiou-me a acompanhá-lo, coisa que minha mulher, Maria Gomes, apoiou, mas que Chamoa obviamente não aprovou. Desapontada, nem sequer veio despedir-se e segui para Roma com um sentimento misto. Por um lado, estava entusiasmado com a minha primeira grande viagem, ia conhecer a cidade onde morrera São Pedro e também viajar até Dijon e Cluny, pois meu pai desejava visitar o abade Bernardo de Claraval, um dos mais eminentes religiosos da Cristandade e patrono dos templários. Por outro lado, sentia alguma inquietação. Já imaginando de novo um futuro desagradável onde nunca seria rainha, Chamoa poderia espalhar a intriga de Compostela, aproveitando o vácuo deixado pela partida de Egas Moniz, única testemunha viva da cabala.
Temendo tal risco, pedi a Pêro Pais que convencesse a mãe a nada dizer sobre assunto tão delicado. Melhor seria que Chamoa esperasse pelo meu regresso, pois era incerto o resultado final daquelas negociações matrimoniais, que tantos avanços e recuos já tinham sofrido. Parti descansado, prometeu-me Pêro Pais. Confiei naquele rapaz, que já era um homem aos dezassete anos, e embarquei, em Montemor, num barco que subiu até Compostela, dobrou o cabo Finisterra e rumou à Vascónia, onde desembarcámos. Daí, seguimos a cavalo até Barcelona e nessa bela cidade tomámos nova embarcação, que nos fez chegar a Roma em poucos dias. Devo dizer que a cidade papal me causou forte impressão. Não tanto pelas múltiplas igrejas, mas sobretudo pelos vestígios imponentes da civilização romana que ainda existiam. No dia em que João Peculiar e meu pai foram recebidos pelo papa, na Igreja de São Pedro, visitei o Coliseu de Roma e foi junto a esse monumento gigante que senti a pequenez da minha vida e das malícias humanas que me consumiam.
Aquelas espantosas e velhas pedras iá haviam visto muito, tanta vileza humana ali despontara ou perecera, e eu preocupado com a rocambolesca intriga de Compostela! Que interessavam as acusações torpes dos nossos inimigos, que duravam desde os tempos da malfadada dona Urraca? A ideia de que Afonso Henriques podia ter sido trocado era uma enorme canalhice, meu pai e minha mãe tinham sido extremamente dedicados ao menino desde cedo, só mentes diabólicas podiam acreditar em tal patranha! Meu pai sempre fora um homem de princípios, era impensável que tivesse patrocinado uma intrujice tão requintada, e foi com esse pensamento solidificado dentro do meu coração que regressei para junto dele. No dia seguinte, partimos em direcção a Sabóia. O papa Lúcio II fora claro como água: era essencial Afonso Henriques desposar Mafalda e as negociações teriam de ser rápidas. Só assim pode aspirar a ser rei, confirmou meu pai». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

sábado, 15 de julho de 2017

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Não consegui pensar em nada que não parecesse acusação. Desculpa, Griet, gostaria de ter feito melhor por ti»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quando a minha mãe voltou, eu estava sentada, usando a máquina de legumes. Aguardei que ela falasse. Ela estava com os ombros encolhidos como se enfrentasse um frio de Inverno, embora fosse Verão e a cozinha estivesse quente. Amanhã começas como criada deles. Se for bem, vais receber oito tostões por dia. Vais morar lá. Apertei os lábios. Não me olhes assim, Griet. Temos de fazer isso, agora que o teu pai perdeu o ofício. Onde eles moram? Na Oude Langendijck com a Molenpoort. Na Esquina dos Papistas? São católicos? Podes vir para casa aos domingos. Eles concordaram. Minha mãe juntou os nabos com um pouco de repolho e cebola e jogou tudo na panela com água, no fogo. Acabaram-se as fatias de torta que eu havia arrumado com tanto cuidado. Subi a escada para ver o meu pai, sentado à janela da frente do sótão, com o sol batendo no seu rosto. A luz era o máximo que ele podia enxergar. O pai tinha sido pintor de azulejos, os seus dedos ainda estavam manchados de azul, de pintar cupidos, donzelas, soldados, navios, crianças, peixes, flores, animais em azulejos brancos, vitrificando-os, secando-os no forno e vendendo-os. Um dia, o forno explodiu e lá se foram os olhos e o ofício. Teve sorte: dois homens morreram. Sentei-me ao seu lado e segurei a mão dele. Ouvi, ouvi tudo, disse ele, antes que eu falasse. A audição tinha substituído a visão que lhe faltava.
Não consegui pensar em nada que não parecesse acusação. Desculpa, Griet, gostaria de ter feito melhor por ti. O lugar onde ficavam os seus olhos, onde o doutor havia costurado a pele, parecia triste. Mas ele é um bom cavalheiro e educado. Vai cuidar bem de ti. O pai não disse nada sobre a mulher. Como pode ter a certeza, pai? O senhor conhece-o? Não sabe quem ele é? Não. Lembras-te do quadro que vimos na prefeitura, alguns anos atrás, que van Ruijven estava expondo depois que o comprou? Uma paisagem de Delft, dos portões de Roterdão e Schiedam, com o céu, que tomava grande parte do quadro e a luz do sol batendo em algumas construções. A tinta tinha areia para que tijolos e tectos parecessem ásperos, acrescentei. E havia longas sombras na água e pessoas pequenas na praia mais próximas de nós. Esse mesmo. As órbitas do pai se esticaram como se ainda tivessem olhos e vissem o quadro outra vez. Lembrava-me bem, eu estivera várias vezes naquele lugar e nunca vira Delft como o pintor.
Aquele homem era van Ruijven? O mecenas? Não, não, filha. É o pintor Vermeer. Johannes Vermeer e a esposa. Você vai trabalhar como criada no atelièr dele. Minha mãe colocou mais uma touca, uma gola e um avental nas poucas coisas que eu estava levando, de modo que todo dia eu pudesse lavar um e usar o outro, e estar sempre limpa. Ela me deu também um pente de tartaruga para enfeitar o cabelo, em forma de concha, que tinha sido de minha avó, muito fino para uma criada usar, e um livro de orações que poderia ler quando precisasse fugir do catolicismo à minha volta. Enquanto juntávamos as minhas coisas, ela explicou por que eu precisava trabalhar com os Vermeer. Sabias que o teu novo patrão é chefe da guilda de São Lucas desde que seu pai sofreu o acidente, no ano passado? Concordei, ainda assustada por ter de trabalhar com tal artista.
A guilda funciona do jeito que dá. Lembras-te daquela caixa onde o teu pai depositou dinheiro todas as semanas, durante anos? Esse dinheiro vai para mestres necessitados, como nós estamos. Mas é pouco, principalmente agora que Frans está como aprendiz e não recebe nada. Não temos outra saída. Não queremos caridade pública, pelo menos nos esforçaremos para não aceitar. O seu pai soube que o seu novo patrão estava precisando de uma criada para limpar o atelièr sem tirar nada do lugar e então sugeriu o teu nome, achando que, como chefe da guilda e sabendo da nossa situação, Vermeer tentaria ajudar. Pensei em tudo que ela havia dito e perguntei: como se limpa um lugar sem tirar nada?» In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

Cortesia de BertrandB/JDACT

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Toda a nossa família, até meu pai e meu irmão, tinha baixa estatura. A mulher parecia ter sido soprada pelo vento, embora estivesse um dia sereno»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Minha mãe não me contou que eles estavam vindo. Depois, disse que não queria que eu parecesse nervosa. Fiquei surpresa, porque achava que ela me conhecia bem. Estranhos poderiam pensar que eu estava calma. Não chorei como um bebé. Só a minha mãe notaria o meu maxilar duro, os meus olhos grandes mais arregalados. Cortava legumes na cozinha quando ouvi vozes na porta da frente de nossa casa: uma voz feminina e radiante como latão polido, e a de um homem, grave e sombria como a madeira da mesa onde eu estava a trabalhar. Eram vozes que raramente ouvíamos em nossa casa. Havia nelas ricas alcatifas, livros, pérolas e peles. Fiquei contente por ter esfregado tanto os degraus da frente. A voz de minha mãe, uma caçarola, uma jarra, veio da sala da frente. Eles se encaminhavam para a cozinha. Afastei os alhos-pôros que estava cortando, coloquei a faca na mesa, limpei as mãos no avental e apertei os lábios para acalmá-los. Minha mãe surgiu na porta da cozinha, os olhos eram dois avisos. Atrás dela, a mulher teve de abaixar a cabeça por ser bem alta, mais do que o homem que a seguia.
Toda a nossa família, até meu pai e meu irmão, tinha baixa estatura. A mulher parecia ter sido soprada pelo vento, embora estivesse um dia sereno. A sua touca estava torta. Por isso, pequenos cachos louros apareciam e caíam na testa dela como abelhas que ela precisou afastar várias vezes, impaciente. A gola estava frouxa e não tão engomada como deveria. Ela empurrou o manto cinza para trás dos ombros e vi então que sob o vestido azul escuro crescia um bebê. Chegaria lá pelo final do ano, ou antes. O rosto da mulher era como uma terrina oval, às vezes vivo, outras sem graça. Os olhos eram dois luminosos botões castanhos, cor que raramente vi combinando com cabelos louros. Ela fez que me ia examinar com atenção, mas não conseguiu. Seus olhos percorreram a cozinha. Então, é esta a moça, concluiu ela, de repente. É minha filha, Griet, acrescentou minha mãe. Fiz um gesto respeitoso para o casal, concordando, bom, não é muito grande, será que vai ter força? Quando a mulher se virou para falar com o homem, a ponta do manto que vestia bateu no cabo da faca que eu estava usando, fazendo-a cair e girar no chão. A mulher soltou um grito.
Catharina, chamou o homem, tranquilo. Pronunciou o nome dela como se tivesse canela na boca. A mulher fez um esforço para se acalmar. Peguei a faca, limpei a lâmina no meu avental e tornei a colocá-la na mesa. A faca havia esbarrado nos legumes. Recoloquei um pedaço de cenoura no lugar. O homem olhava-me, os seus olhos cinzentos como o mar. Tinha um rosto comprido, anguloso, de expressão firme, em comparação com a da esposa, que tremulava como a chama de uma vela. Não usava barba nem bigode, e gostei, porque isso lhe dava uma aparência limpa. Tinha um capote negro nos ombros, camisa branca e uma linda gola de renda. O chapéu apertava os cabelos que eram ruivos da cor de tijolo lavado pela chuva. O que estava fazendo, Griet?, perguntou ele. Fiquei espantada, mas sabia como disfarçar. Estava cortando legumes, senhor. Para a sopa. Eu sempre colocava os legumes num círculo, cada um numa parte, como fatias de torta. Havia cinco fatias: repolho roxo, cebola, alho-pôro, cenoura e nabo. Usei a ponta de uma faca para fazer cada fatia e coloquei uma rodela de cenoura no centro. O homem tamborilou os dedos na mesa.
Estão na ordem em que vão ser colocados na sopa?, perguntou, examinando o círculo. Não, senhor. Fiquei constrangida. Não conseguia dizer por que tinha arrumado os legumes daquele jeito. Achei que deviam ficar assim, mas estava muito assustada para dizer isso para um cavalheiro. Vejo que separou os brancos, disse ele, indicando os nabos e cebolas. Depois, o laranja e o roxo não estão juntos: por quê? Pegou uma tira de repolho e uma rodela de cenoura e misturou-os como dados na mão. Olhei para a minha mãe, que concordou discretamente, num gesto de cabeça. As cores brigam quando ficam lado a lado, senhor. Ele franziu o cenho, como se não esperasse aquela resposta. E gasta muito tempo arrumando os legumes antes de fazer a sopa? Ah, não, senhor, respondi, confusa. Não queria que ele pensasse que eu era preguiçosa.
Com o canto do olho, vi um movimento. Minha irmã Agnes estava olhando da porta e balançou a cabeça por causa da minha resposta. Eu não costumava mentir. Olhei para baixo. O homem virou um pouco a cabeça e Agnes sumiu na porta. Ele colocou a cenoura e o repolho nas tiras correspondentes. A tira de repolho invadiu o espaço das cebolas. Tive vontade de colocá-la no lugar. Eu não sabia, mas ele sabia que eu queria fazer isso. Estava testando-me. Chega de conversa, decidiu a mulher. Não estava gostando da atenção que ele me dava, mas foi para mim que olhou, séria. Amanhã, então? Olhou para o homem antes de sair da cozinha, seguida por minha mãe. O homem deu mais uma olhada no que seria a sopa, despediu-se com um gesto de cabeça e acompanhou a mulher». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

Cortesia de BertrandB/JDACT