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sábado, 12 de março de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. Parte III. «Camões recorda mesmo a pele bovina (IX.23) que, cortada em tiras finíssimas, fez o perímetro de Cartago, por indústria de Vénus. E de Ovídio não tem apenas o conhecimento das Metamorfoses. No início da Elegia III dá-nos um belo retrato moral de Ovídio desterrado...»

Cortesia de paulatravelho
No ano de 1572 foi feita a publicação dos Lusíadas 

Com a devida vénia à Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Prefácio
A Elaboração do Poema
A primeira vez que Eneias é invocado é o «Troiano». Compara-o ao Gama; em II.45.5 lembra que o «piadoso» Eneias «navegou / de Cila e de Caríbdis o mar bravo»; em III.106.1-8 compara a tímida Maria implorando o favor do rei de Portugal a Vénus quando implora a Júpiter o favor para seu filho Eneias, navegando. Camões recorda mesmo a pele bovina (IX.23) que, cortada em tiras finíssimas, fez o perímetro de Cartago, por indústria de Vénus. E de Ovídio não tem apenas o conhecimento das Metamorfoses. No início da Elegia III dá-nos um belo retrato moral de Ovídio desterrado, em confronto com o seu caso pessoal:

O Sulmonense Ovídio, desterrado
na aspereza do Ponto, imaginando
ver-se de seus parentes apartado;
sua cara mulher desamparando,
seus doces filhos, seu contentamento,
de sua pátria os olhos apartando;
não podendo encobrir o sentimento,
aos montes e às águas se queixava
de seu escuro e triste nacimento.
O curso das estrelas contemplava,
como por sua ordem discorria
o céu, o ar e a terra adonde estava.
Os pexes pelo mar nadando via,
as feras pelo monte, procedendo
com o seu natural lhes permitia.
De sua fonte via estar nacendo
os saüdosos rios de cristal,
a sua natureza obedecendo.
Assi só, de seu próprio natural
apartado, se via em terra estranha,
a cuja triste dor não acha igual.
Só sua doce Musa o acompanha,
nos versos saüdosos que escrevia
e lágrimas com que ali o campo banha.
...............................................................

Cortesia de omba
E que leu dos prosadores? Plutarco, com certeza. Em grego? Conheceu a Bíblia. Dos geógrafos e naturalistas algum conhecimento teria. Pelo menos, cita-os em fiada:

Eu sou aquele oculto e grande cabo
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
Plínio, e quantos passaram, fui notório.

Acerca de Plínio parece não haver dúvidas.
Da história geral também não estamos bem informados. Utilizou a Enneades ou Rhapsodiae historiarum, de Sabélico, volumoso tratado que foi parcialmente traduzido em português por D. Leonor de Noronha, «prima co-irmã do amigo e protector do poeta D. Francisco de Noronha,  2.º conde de Linhares». Da tradução só são conhecidos os dois primeiros volumes, impressos em Coimbra (1.º, 1550; 2.º, 1553). A obra geral de Sabélico foi continuada por Paulo Jove e outros.
É notável a prontidão e a frequência com que o Poeta invoca paralelos para pôr em evidência os feitos dos Lusitanos ou os seus defeitos em relação a outros:

Codro, por que o inimigo não vencesse,
Deixou antes vencer da morte a vida;
Régulo, por que a pátria não perdesse,
Quis mais a liberdade ver perdida.
Este, por que a Espanha não temesse,
A cativeiro eterno se convida! 
Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,
Nem os Décios leais fizeram tanto.
(IV.53.1-8)
Não matou a quarta parte o forte Mário
Dos que morreram neste vencimento,
Quando as águas co sangue do adversário
Fez beber ao exército sedento;
Nem o Peno, asperíssimo contrário
Do romano poder, de nascimento,
Que tantos matou da ilustre Roma,
Que alqueires três de anéis dos mortos toma;
E se tu tantas almas só pudeste
Mandar ao Reino escuro do Cocito,
Quando a santa cidade desfizeste
Do povo pertinaz no antigo rito,
Permissão e vingança foi celeste
E não força de braço, ó nobre Tito,
Que assi dos vales foi profetizado,
E despois por JESU certificado.
(III.116 e 117)
Do pecado tiveram sempre a pena
Muitos que Deus o quis e permitiu:
Os que foram roubar a bela Helena,
E com Ápio também Tarquino o viu;
Pois por quem David santo se condena?
Ou quem o tribo ilustre destruiu
De Benjamim? Bem claro no-lo ensina
Por Sarra Faraó, Siquém por Dina.

E, pois, se os peitos enfraquece
Um inconcesso amor desatinado,
Bem no filho de Almena se parece
Quando em Ônfale andava transformado.
De Marco António a fama se escurece
Com ser tanto a Cleópatra afeiçoado.
Tu, também, Peno próspero, o sentiste,
Despois que ũa moça vil na Apúlia viste.
(III.140 e 141)

Teve muita influência no Poeta o poema Argonautica de Valério Flacco e talvez o de Apolónio Ródio. A partida dos mercantes de Belém é associada à dos Mínias:

Foram de Emanuel remunerados,
Por que com mais amor se apercebessem,
E com palavras altas animados
Pera quantos trabalhos sucedessem.
Assi foram os Mínias ajuntados,
Pera que o Véu dourado combatessem,
Na fatídica nau, que ousou primeira
Tentar o mar Euxínio, aventureira.
(IV.83)

Cortesia de purl 
Os Portugueses são os «segundos Argonautas» (IX.64). Não faltam as referências ao Veo (=Velo) dourado (III.72 e IV.83), nem à «rica pele de Colcos» (V.28) (10).
A partida das naus de Belém suscita ao Poeta este símile:

Elas prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos
(IV.85)

E a constelação Argo figura, entre outras, nestes versos:

Este, por sua indústria e engenho raro,
Num madeiro ajuntando outro madeiro,
Descobrir pôde a parte que faz clara
De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.
(VIII.71)

Dos poetas estrangeiros não pode negar-se-lhe o conhecimento de Petrarca, Ariosto, Tasso, Sannazaro, Garcilaso, Boscán. Teve de munir-se de livros auxiliares de estudo, como as Genealogiae deorum, de Boccacio, o Dictionarium poeticum, de Tormentino, a Officina, de Ravisio Textor, os Lectionum antiquarum libri triginta, de Célio Rhodigino.

Cortesia de conversamoswordpress 
Conhecia bem as lendas mitológicas e a história geral da Antiguidade, mas não é fácil determinar as suas fontes. Para além de Sabélico, que conheceu da história romana? Para a história geral dos tempos posteriores à queda do império romano ocidental – lembra Epifânio (11) –, valeu-se Camões dos trabalhos de vulgarização que já no seu tempo existiam, tais como: a Historia rerum ubique gestarum, de Eneas Silvio, o Catalogus annorum et principum, de Valerio Ryd, que chega até 1540, o De vitis ac gestis summorum pontificum, de Plátina, os Commentariorum libri, de Raffael Maffei de Volaterra, as Historie del mondo, de Tarchagnota. Os conhecimentos cosmográficos podem ter sido hauridos na enciclopédia que tem por título Margarita philosophica. A descrição do sistema do mundo ptolemaico foi
extraída do Tratado da Esfera, de Pedro Nunes (1537). Storck, referindo-se aos conhecimentos de Camões, escreve: «Os seus conhecimentos filosóficos derivam, quanto a pormenores, na aparência, da leitura de Diógenes Laércio, Plutarco, Cícero, Valério Máximo, Aulo Gélio, Plínio Sénior e das Antologias. Encontram-se a miúdo reminiscências destes escritores em passagens camonianas romanos que Camões manuseava frequentemente. As suas poesias são testemunho claro de como conhecia ditos e feitos de uma longa série de escritores ilustres: Homero, Aeliano, Xenofonte, Virgílio, Lucano, Ovídio, Horácio, Plauto, Lívio, Eutrópio, Justino, Ptolemeu e outros, ficando indecisa a questão se lia obras gregas no original». In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.


Cortesia do Instituto Camões/JDACT

terça-feira, 1 de março de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. Parte II. «Como é que Camões, errante, pôde ele arrumar no seu cérebro tantos conhecimentos e servir-se deles por onde quer que andou? Estamos mais bem informados acerca da sua despedida de amor, em Coimbra (vão as serenas águas / do Mondego descendo ...) do que dos seus estudos naquela cidade»

Cortesia de oslusiadas

Com a devida vénia à Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Prefácio
A Elaboração do Poema
«Dizer quando o Poeta pousou pela primeira vez a pena sobre o papel não parece muito difícil; mas a quando remonta o pensamento da epopeia? Para Storck o propósito de cantar os feitos heróicos do seu povo e da Pátria tomou, contudo, forma decisiva e amadureceu durante os seis meses de vida no oceano . É uma tese que podemos aceitar. E acrescenta o historiador alemão: «Se o gérmen da epopeia ainda não estendera até então raízes vivazes e tenazes, se na mente do Poeta ainda não se definira claramente o descobridor do caminho da Índia como figura principal, se a primeira e feliz navegação ao Oriente, a empresa do forte capitão, ainda não se revelara no seu esboço e na primeira traça como ponto culminante e foco de irradiação, no qual convergem as acções heróicas dos Portugueses, foi, sem dúvida alguma, durante a travessia que o génio criador do Poeta tomou o seu voo de águia».

Cortesia de poliscopio
Infelizmente, Storck terçou armas pela criação de dois poemas:
  • um, histórico, elaborado ainda em Portugal e em Lisboa e de que o Poeta teve quase prontos os Cantos III e IV,
  • e, depois, a epopeia marítima, em que vem entretecer-se a história do Reino.
Mas isto, a meu ver, é destruir a unidade dos Cantos III, IV e V, que constituem a narrativa dos feitos do Reino ao rei de Melinde e inserem-se na epopeia marítima. Tal narrativa tem muito pouco de histórica: foi sobretudo ideada pelo Poeta. Camões aproveitou muito bem o momento em que aparece pela primeira vez um rei amigo, o de Melinde, para iniciar a narrativa épica desde as origens até aquele momento em que chegou a Melinde. Não se vê como se podem separar estes três cantos e inserir os dois primeiros numa epopeia do Reino.

Prefiro ver a elaboração da epopeia segundo um plano preestabelecido, apenas modificado nesta ou naquela estância por acontecimento posterior à navegação e portanto tendo o seu lugar em qualquer profecia.
Não creio que o Poeta tenha levado longos anos a elaborar a sua epopeia intensamente, e há uma efeméride que mostra bem que em quatro ou cinco anos o Poeta avançara bastante. O trecho insere-se na descrição do orbe terrestre:

Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço os cantos que, molhados,
Vêm do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapados ...
(X.128.1-4)

Refere-se ao rio Mecom, que recolheu os náufragos do navio de Leonel de Sousa, que se afundou nos mares da China nos fins de 1558 (ou princípios de 1559). Entre eles contava-se Camões. O Poeta fala dos «seus cantos molhados», o que significa que se tratava já de um volume apreciável, cuja perda seria irreparável. O principal da obra estava feito. Mas o Poeta ainda a limou e é testemunha do facto o historiador Diogo do Couto, seu amigo, que em Moçambique o viu dedicado a essa tarefa (1568-1569).

Cortesia de palavrasquemetocam
De novo em Lisboa, em 1570, o Poeta deu-se pressa em arranjar forma de publicar o seu Poema e deve ter encontrado um interessado intercessor em D. Manuel de Portugal.
Em 23 de Setembro de 1571 a obra estava na impressão, conforme consta do alvará respectivo. No alvará que concede a Luís de Camões uma tença de 15$000 réis pela publicação de Os Lusíadas (datado de 28 de Julho de 1572) diz-se que a mercê será dada por três anos, a começar em doze de março deste ano presente de mil quinhentos setenta e dous em diante. Esta tença foi dada pelo conhecimento que o rei tem do «engenho e habilidade» do Poeta e pela «suficiência que mostrou no livro que fez das cousas da Índia». A data de 12 de Março de 1572 é uma data assinalável porque deve corresponder à do lançamento da obra.

Como é que Camões, errante por tantas partes do Mundo, dependente, como soldado, das ordens de marcha que lhe impunham e de que naturalmente descansava a bordo dos navios em que embarcava, como pôde ele arrumar no seu cérebro tantos conhecimentos e servir-se deles por onde quer que andou?
Estamos mais bem informados acerca da sua despedida de amor, em Coimbra (vão as serenas águas / do Mondego descendo ...) do que dos seus estudos naquela cidade.
Nem mesmo sabemos quando o Poeta saiu definitivamente de Coimbra. Mas se na 1.ª carta da Índia se queixa de, sem pecado que o obrigasse a três dias de Purgatório, ter passado (em Lisboa) três mil dias de más línguas, piores tenções, danadas vontades, nascidas de pura inveja de verem «su amada yedra de si arrancada, y en otro muro asida», podemos admitir que chegou a Lisboa por 1546.
Camões deve ter assistido a certos conflitos de jurisdição entre os cónegos regrantes de Santa Cruz e a Universidade, transferida de Lisboa para Coimbra. Impossível me é afirmar (porque a presença de Camões em Coimbra coincidiu com uma fase de transição) se Camões já foi ouvir o ensino «artístico» à Universidade ou se se manteve nos colégios de Santa Cruz, protegido por algum parente daquela congregação. É curioso que na narrativa ao rei de Melinde (III.97), falando das obras do rei D. Dinis, o Poeta escreveu:

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofício de Minerva
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar do Mondego a fértil erva.
Quanto pode de Atenas desejar-se,
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva,
Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Do bácaro e do sempre verde louro.

É Vasco da Gama quem informa, mas a verdade é que nesse momento (em 1497-1498) a Universidade estava em Lisboa. Vasco da Gama transmite ao rei de Melinde uma impressão de Camões, que aproveitara com o estudo de Coimbra e com a reforma do ensino ali operada.

Cortesia de purl
Os poetas lidos por Camões foram numerosos. Nem só Virgílio, nem só Homero, ainda que do primeiro teve um conhecimento profundo, que se revela no número de passos imitados, às vezes por forma bastante literal. Por exemplo:

Como isto disse, manda o consagrado
Filho de Maia à Terra, por que tenha
Um pacífico porto e sossegado,
(II.56.1-3)

Haec ait et Maia genitum demittit ab alto,
Ut terrae utque novae pateant Karthaginis arces
hospitio Teucris...
(En., I.297-299)

Quando a mãe de Eneias interroga ansiosamente o Pai dos deuses sobre o futuro do filho, Júpiter «oscula libavit natae» e diz-lhe: «Parce metu, Cytherea, manent immota tuorum / fata tibi ...» (I.256-258). Em Os Lusíadas também Júpiter, ainda mais aceso de amor:

As lágrimas lhe alimpa, e acendido
Na face a beija e abraça o colo puro
(II.42.5-6)

para lhe dizer

... não temais
Perigo algum nos vossos Lusitanos
(II.44.1-2)

No entanto, se Camões reconhece a suserania destes dois (V.94.7 e V.98.2), não desconheceu nem deixou de aproveitar outros: Ovídio, Horácio, Valério Flacco, Lucano, Claudiano e quantos mais ...
Conhece-os por dentro e invoca-os com toda a precisão». In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. «...Em minha opinião, e fossem quais fossem as meditações do Poeta sobre o assunto, o Poema, tal como o temos, começou a tomar forma em 1554 ou pouco depois. A Dedicatória ficou como foi escrita, a marcar um acontecimento que teve foros de miraculoso para os Portugueses «maravilha fatal» - e só o poderia ter sido não longe de 1554...»

Cortesia de oslusiadas

Com a devida vénia à Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro. 

Prefácio
A Elaboração do Poema
Manuel de Faria e Sousa, cuja «reabilitação» na Europa cis e transpirenaica parece iminente, escreveu, como é sabido, duas vidas de Camões: uma impressa à frente de Os Lusíadas e outra à frente das Rimas Várias, muito modificada. (Deve dizer-se que nem em todos os exemplares das Rimas aparece esta Vida.) A primeira das Vidas é notável por diversos títulos, e ainda pelos dislates que aquele comentador acumulou sobre o início da redacção do Poema, pois diz (col. 35) «que el creerse que la mayor parte deste Poema (la mayor parte, note-se) iva escrito de Portugal quãdo passó a la India, no es difficil; i menos el ver que desde sus primeros años le comẽçó». E mesmo que tivesse começado o seu Poema aos 20 (concede Faria e Sousa), trouxe-o entre mãos trinta anos, pois tendo nascido em 1517 (Faria e Sousa mudou depois de opinião) e imprimido o Poema em 1572 ficam 55, e deduzindo os tais 20 ficam 30 «e quando menos 20». E se alguém argumentar que o Poema só poderia ter sido começado (ou, pelo menos, concebido) depois da leitura das duas primeiras Décadas de Barros e do primeiro livro da História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, por Castanheda, poderá objectar-se com Faria e Sousa que Camões poderia ter conhecido aquelas obras em manuscrito. Mas ainda que não fosse assim, havendo a primeira Década de Barros sido impressa em 1552 e tendo o Poeta partido para a Índia em 1553 «aun queda en pie lo que diximos de q el primero bosquejo se hizo en Portugal en este tiempo que corriò desde la impression de las Decadas a sua partida; o tres años primero que le imprimiese el de 1572; e assi quando menos, son veinte los que truxo consigo este Poema». Uma tão penetrante conjectura devia por força ter o auxílio da Providência. E teve! «O buen Dios, como favoreces las honestas ocupaciones!» E vieram ter-lhe às mãos, ao começar a impressão dos seus Comentários, dois manuscritos, um deles de primacial importância para o seu ponto de vista: «es una copia de los primeros seis cantos, escrita antes que el Poeta passasse a la India: con que me hallo mas contento que un ignorante; mas loco que un enamorado, i mas sobervio que un rico» (na corte de Madrid, acrescente-se). Eis como termina a cópia manuscrita: «Estes seys cantos se furtaraõ a Luis de Camões da obra que tem começado sobre o descubrimento, e conquista da India por os Portugueses: Vam todos acabados, excepto o sexto, que posto que vay aqui o fim delle, faltalhe hũa historia de amores que Leonardo
contou estando vigiando, que ha de prosiguir sobre a Rima 46 onde logo se sente bem a falta della; porque fica fria, e curta a conversaçam dos vigiantes, e o propio canto mais breve que os outros» (col. 37). E assim se fundamentava uma redacção incompleta do Poema, antes de o Poeta ter partido para a Índia.

Cortesia de poliscopio
À história de cavalaria de Fernão Veloso faltava a história de amores de Leonardo, esquecendo que no fim dos Doze de Inglaterra a «companha» pedia a Veloso mais histórias de cavalaria! (VI.69.5-8).
Na segunda Vida, à frente das Rimas, dirá Faria e Sousa no n.º 28:
  • «En la vida del P. que escrivimos en los Comentarios a la Lusiada, desde el numero 16. hasta el 21. hemos procurado mostrar en que tiempos, y en que partes del mundo avia el P. escrito los más de sus Poemas; y despues hallamos que en mucho nos aviamos equivocado, porque tuvimos mejores noticias».
E mais não disse! Ora o n.º 16 referido é justamente aquele em que se ocupa das circunstâncias de tempo e de lugar em que redigiu Os Lusíadas!
Não há qualquer notícia de que o Poeta tenha tido a ideia de escrever um Poema sobre o descobrimento de Vasco da Gama antes de partir para a Índia. Pode supor-se, interpretando alguns versos líricos, que várias ideias heróicas lhe passaram pela mente quando estava ainda em Lisboa, mas não concretizou nenhuma. É certo que o primeiro livro de Castanheda estava à sua disposição desde 1551 e a primeira das Décadas da Ásia desde o ano seguinte. Mas a elaboração de um plano épico não dependia apenas de duas ou três leituras. Camões não ia escrever uma narrativa histórica; ia escrever uma obra de arte, servindo-se de um grande acontecimento histórico. Decidir-se a optar pela fábula pagã também não lhe teria sido fácil, mas, além do exemplo do Mantuano, havia em Camões uma verdadeira idolatria pela beleza do paganismo. Sobre esta matéria estava Camões bem informado ainda antes de partir para a Índia, mas faltava inseri-la num grande campo de acção, que só a experiência marítima lhe daria. E quando falo de experiência marítima não quero referir-me apenas à dura vida de bordo, nem aos grandes fenómenos presenciados, mas às imagens visuais e auditivas que a própria vida do mar pôs ao alcance da sua retina e do seu ouvido e que vieram a transformar-se em versos imortais, como o famoso:


Cortando o longo mar com larga vela

analisado por Tasso da Silveira. A est. 19 do Canto I, que marca o início da narração, só poderia ter sido escrita por um nauta que vê de bordo as outras naus recortando-se num poente solar:
Já no largo oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteu são cortadas,

Nem a alusão mitológica vem empanar a beleza do quadro. À sua experiência marítima pertence a tormenta do cabo da Boa Esperança, que lhe daria a inspiração para a tormenta (irreal) sofrida por Vasco da Gama.
Inseriram-se na sua experiência marítima os ecos surdos do mar, que depois foram transformados em arte:

Bramindo o negro mar de longe brada
Como se desse em vão (= no vão) nalgum rochedo ...

... e cum sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
 
Cortesia de palavrasquemetocam

Em minha opinião, e fossem quais fossem as meditações do Poeta sobre o assunto, o Poema, tal como o temos, começou a tomar forma em 1554 ou pouco depois. A Dedicatória a D. Sebastião foi redigida na hora de iniciar o seu Poema, portanto, por fins de 1554, quando chegou à Índia a notícia do prodigioso nascimento do neto de D. João III, em 20 de Janeiro de 1554. Não só o Poeta se dirige em toda a Dedicatória ao tenro infante «Vos tenrro & novo ramo florecente» (I.7); «Que nesse tenrro gesto vos contemplo» (I.9); «Que afeiçoada ao gesto bello & tenro» (I.16), mas, circunstância para mim muito importante, não procurou alinhá-la na esfera temporal com o ano em que acabou o Poema. A Dedicatória ficou como foi escrita, a marcar um acontecimento que teve foros de miraculoso para os Portugueses «maravilha fatal» - e só o poderia ter sido não longe de 1554. Os versos 
 
E vós, ó bem nascida segurança
Da lusitana antiga liberdade,
 
marcam uma «segurança» presente, que acaba de surgir. Muito mais tarde, em 1575, dirá a D. Sebastião

Assi vós, Rei, que fostes segurança
da nossa liberdade ...

Eram já outros os termos dessa segurança, que o próprio rei, aliás, se encarregaria de destruir.
Não me resta dúvida de que foi por 1554 que o Poeta tratou de elaborar o plano da epopeia (poderia escrever-se um poema sem plano?) e de delinear os principais episódios que, entressachados no Poema, mas fazendo corpo com ele, o encheriam de atractivos estéticos. In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

domingo, 22 de agosto de 2010

Diogo do Couto: Foi um historiador português. Além das «Décadas», escreveu também o célebre Diálogo do Soldado Prático, que contém uma critica mordaz ao funcionalismo na Índia. Os escritos são marcados por uma visão mais realista da Hstória, em tom vivo e pitoresco

(1542-1616)
Lisboa
Cortesia de wikipédia
Diogo do Couto foi um historiador português. Estudou Latim e Retórica no Colégio de Santo Antão e Filosofia no Convento de Benfica. Em 1559 vai para a Índia, donde só regressaria uma década depois. Amigo íntimo de Luís Vaz de Camões, vai descobri-lo na Ilha de Moçambique em 1569, com dívidas e sem dinheiro para voltar. Diogo do Couto e outros amigos disponibilizam-se para ajudar o poeta, que deste modo poderá apresentar na capital a sua maior obra, os Lusíadas.
Chegam a Lisboa em Abril de 1570 na nau Santa Clara: «Em Cascais, as naus fundeadas esperavam que Diogo do Couto voltasse de Almeirim, onde fora solicitar de el-rei a sua entrada no Tejo, porque Lisboa estava fechada com a peste. Logo que a ordem veio, Santa Clara entrou a barra». In Oliveira Martins.
Cortesia de infopédia
No entanto voltou de novo ao Oriente, tendo recebido do Rei Filipe I a missão de prosseguir as «Décadas» de João de Barros. Escreveu as que vão da IV à XII, mas só publicou completas a IV, V e VII e um resumo da VIII e IX porque a VI ardeu na casa de imprensa, a VIII e IX foram roubadas. A XI perdeu-a.
Este historiador criticou os abusos, a corrupção e as violências correntes na Índia, protestando abertamente contra eles. Além das «Décadas», de orações congratulatórias e comemorativas que proferiu em solenidades no Oriente, e do relato do naufrágio da Nau S. Tomé, escrito na História trágico-marítima, escreveu também o célebre Diálogo do Soldado Prático, que contém uma critica mordaz ao funcionalismo na Índia, pondo a descoberto a ambição da riqueza, o amor ao luxo, a opressão aos pobres, a falta de dignidade e a deslealdade nas informações ao Rei.
Cortesia de wook

Cortesia de pedraformosa
Historiador de renome, Diogo do Couto ficou conhecido pelas obras que escreveu, sempre críticas da realidade que encontrou. Mas a «Ásia», do historiador João de Barros, obra sobre a história universal, que Diogo do Couto foi encarregue de continuar, também o notabiliza pela verdade sem restrições, pelo tom vivo e pitoresco, pela acutilância brutal. «Um escritor muito interessante», disse o historiador José Sarmento Matos.
Cortesia de infopédia
Depois de dez anos consecutivos na Índia, regressou à terra natal em 1569, mas apenas por dois anos. Na paragem em Moçambique, encontrou o amigo de longa data, Luís Vaz de Camões. Diz Diogo do Couto nas «Décadas VIII»:
  • Em Portugal morreo este excellente poeta em pura pobreza.
A contrastar com a narração épica de João de Barros, os escritos de Diogo do Couto são marcados por uma visão mais realista da história, em tom vivo e pitoresco. Para além destas obras, escreveu orações congratulatórias e comemorativas e um relato do naufrágio da nau S. Tomé, incluído na «História Trágico-Marítima».
Morreu em Goa em 1616.
Cortesia de wikipédia

Cortesia de wikipédia/RTP/JDACT

João de Barros: O Tito Lívio Português. Considerado o primeiro grande historiador português e o pioneiro da Gramática da Língua Portuguesa. Publicou as Décadas da Ásia

(1498-1570)
Viseu, ?
Cortesia debritannica
João de Barros, chamado o Tito Lívio Português, é geralmente considerado o primeiro grande historiador português e o pioneiro da gramática da língua portuguesa.
Foi educado na corte de D.Manuel I, no período de maior apogeu dos descobrimentos portugueses, tendo ainda na sua juventude concebido a idéia de escrever uma história dos portugueses no oriente. A sua prolífica carreira literária iniciou-se com pouco mais de vinte anos, ao escrever um romance de cavalaria, a Crónica do Emperador Clarimundo, donde os Reis de Portugal descendem, dedicado ao soberano e ao príncipe herdeiro D. João.
Este último, ao subir ao trono como D. João III em 1521, concedeu a João de Barros o cargo de capitão da fortaleza de São Jorge da Mina, para onde partiu no ano seguinte. Em 1525 foi nomeado tesoureiro da Casa da Índia, missão que desempenhou até 1528.

Cortesia de wikipédia
A peste negra de 1530 levou-o a refugiar-se na sua quinta da Ribeira de Alitém, próximo de Pombal, vila onde concluiu o seu diálogo moral, Rhopicapneuma, alegoria que mereceu louvores do catalão Juan Luis Vives. Regressado a Lisboa em 1532, o rei designou-o como feitor das casas da Índia e da Mina. João de Barros provou ser um administrador bom e desinteressado, algo raro para a época, como demonstra o surpreendente facto de ter amealhado pouco dinheiro com este cargo (quando os seus antecessores haviam adquirido grandes fortunas).
Durante estes anos prosseguiu seus estudos durante as horas vagas, e pouco após a desastrosa expedição ao Brasil publicou a Gramática da Língua Portuguesa e diversos diálogos morais a acompanhá-la, para ajudar ao ensino da língua materna.

Cortesia da Biblioteca Nacional 
Anos depois, seguindo uma proposta de D. Manuel I, iniciou a escrita de uma história que narrasse os feitos dos portugueses na Índia, as Décadas da Ásia (Ásia de Ioam de Barros, dos feitos que os Portuguezes fizeram na conquista e descobrimento dos mares e terras do Oriente), assim chamadas por, à semelhança da história liviana, agruparem os acontecimentos por livro em períodos de dez anos. A primeira década saiu em 1552, a segunda em 1553 e a terceira foi impressa em 1563. A quarta década, inacabada, foi completada por João Baptista Lavanha e publicada em Madrid em 1615.

Não obstante o seu estilo fluente e rico, as «Décadas» conheceram pouco interesse durante a sua vida. D. João III, entusiasmado com o conteúdo, pediu-lhe que redigisse uma crónica relativa aos acontecimentos do reinado de D. Manuel, (a crónica foi redigida por outro grande humanista português, Damião de Góis). Diogo do Couto foi encarregado mais tarde de continuar as «Décadas», adicionando-lhe mais nove. A primeira edição completa das 14 décadas surgiu em Lisboa, já no século XVIII (1778 — 1788).

Cortesia de Biblioteca Nacional Digital
Em Janeiro de 1568 sofreu um acidente vascular cerebral. Morreu na mais completa miséria. Enquanto historiador e linguista, João de Barros merece a fama que começou a correr logo após a sua morte. As suas «Décadas» são não só um precioso manancial de informações sobre a história dos portugueses na Ásia e são como que o início da historiografia moderna em Portugal e no Mundo.

Obras:
  • Crónica do Imperador Clarimundo (1522);
  • Rhopicapneuma ou Mercadoria Espiritual (1532);
  • Grammatica da Língua Portuguesa com os Mandamentos da Santa Madre Igreja (1540);
  • Diálogo da Viciosa Vergonha (1540);
  • Diálogo sobre Preceitos Morais (1540);
  • Diálogo Evangélico sobre os Artigos da Fé (1543);
  • Panegíricos de D. João III (1533) e da Infanta D. Maria (1555);
  • Décadas da Ásia. Volumes I (1552), II (1553), III (1563) e IV (1615).
«Moço do guarda-roupa do príncipe D. João, futuro D. João III, foi nomeado em 1525 tesoureiro das Casas da Índia, Mina e Ceuta, e em 1533 foi nomeado feitor das Casas da Guiné e Índias, cargo que exerceu até 1567. Na época que mediou as nomeações, viveu em Pombal, fugindo da peste que assolou Lisboa em 1530 e evitando as consequências do grande terramoto de 1531 que destruiu a capital.
Publicou em 1530 uma novela de cavalaria com o título Crónica do Imperador Clarimundo, contando a história de um antepassado legendário dos reis de Portugal. Mais tarde, em 1532, publicaria a Ropica Pnefma (Mercadoria Espiritual), obra declarando defender a pureza da fé cristã, mas que de facto está muito próximo das posições de Erasmo de Roterdão, criticando mas sem abandonar o catolicismo, o que fará com que fosse colocada no «Índex» em 1581, e no ano seguinte escreverá um Panegírico de D. João III.
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Em 1535, quando foram criadas as capitanias brasileiras, D. João III doou-lhe uma das doze recentemente criadas. Decidiu equipar uma expedição para ocupar o território doado, com o apoio de Aires da Cunha e Álvares de Andrade. A frota saiu em fins de 1535, dirigindo-se para o norte do Brasil mas foi destruída na barra do Maranhão, tendo a maior parte dos participantes sido morta. Este desastre deixou João de Barros bastante empobrecido. Entretanto, publicou em 1539 uma cartilha conhecida como Cartinha de João de Barros, e em 1540 publicou O Diálogo de João de Barros e a Grammatica da Língua Portuguesa obra acompanhada do Diálogo em louvor da Nossa Linguagem.

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A sua principal obra, As Décadas, escritas de acordo com uma sugestão do rei D. Manuel, após ter publicado o Clarimundo. As Décadas não lhe ocupavam todo o tempo, e em 1556 organizou nova expedição ao Maranhão, em que participaram dois dos seus filhos, que, se foi mais feliz, porque conseguiu regressar, depois de ter combatido com corsários franceses e índios., não conseguiu cumprir de novo o objectivos de criar condições para a colonização da capitania». In Dicionário Histórico, O Portal da História, Biografias.

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