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terça-feira, 23 de junho de 2015

Os Lagóias e os Estrangeiros. Garcia Castro e Raul Ladeira. «… lagóia virá de langóia, por sua vez proveniente de langor. Portalegre é cidade de há muito industrial, com fábricas que ocupam muita gente; por falta de matérias-primas, ou outras circunstâncias, as fábricas tinham que fechar por algum tempo, os sem-trabalho, os inactivos...»

jdact

«Vista à distância, mas ao alcance directo dos olhos, a cidade dos lagóias mantém hoje uma unidade que pode fazer pensar os estrangeiros. O recorte de Portalegre nas suas zonas altas tem uma marca tão inconfundível como a dentadura de uma chave. Numa curta faixa, sem pedir qualquer movimento de cabeça, sem exigir o menor truque fotográfico, mostram-se os restos do castelo a grande chaminé da fábrica da rolha, o vulto amarelo do palácio, as torres da Sé sobre o Paço do Bispo, o antigo sanatório. Mais à direita, subindo na fronteira com a planície, o cone escuro da Serra do Penha e a sua cruz branca espetada nos rochedos. Aí ninguém vai que não tenha Portalegre em vistoria, mas é necessário descer sem pressas à cidade-dupla, a de cima da freguesia da Sé e a de baixo, de São Lourenço, em que conversam, comem, amam e trabalham (também sempre a subir e a descer) os lagóias. Serão raros os portalegrenses que não sabem que um portalegrense é um lagóia. Quase tão raros como os que sabem o que lagóia quer reamente dizer. O apodo, ou alcunha meio afrontosa, tem provavelmente o percurso das palavras que perdem, ou ganham, alguma coisa com o tempo. No caso parece que se perdeu um n. Alexandre Carvalho Costa, nos seus Gentílicos e Apodos de Portugal Continental, recordou uma conversa com o ex-juiz de direito na cidade, Joaquim Dias Loução.
Poucos portalegrenses, ainda hoje, poderão desmentir esta hipótese publicada em edição de 1973 pela Junta Distrital de Portalegre: lagóia virá de langóia, por sua vez proveniente de langor que mais não é que moleza, prostração, preguiça. O contexto: Portalegre é cidade de há muito industrial, com fábricas que ocupam muita gente; quando por falta de matérias-primas, ou outras circunstâncias, as fábricas tinham que fechar por algum tempo os sem-trabalho, os inactivos demoravam-se às esquinas, nas ruas, nos largos. À espero de melhores dias, continua, dada a sua falta de hábito para os serviços do campo. O juiz Loução rematava nunca ter percebido a desnalização do na de langóia. Mas um lagóia, por intuição pode chegar lá. Na sua vocação escarninha, no gosto pelo ridículo auto-aplicado, largou-se em menor esforço o tal n. Um processo irmão ao das alcunhas com que metodicamente se carimbam os lagóias uns aos outros (eu tenho, em Portalegre) património da cidade. Ou do calão ofensivo com que se cumprimentam e divertem no dia-a-dia os melhores dos melhores amigos, em Portalegre, sem se ofenderem.
Cidade branca onde o negócio da tasca não perde energias, de mulheres escondidas nas janelas, donas de casa de saber quem passa (escreve Carlos Garcia Castro, lagóia), cidade do café-snack-restaurante Tarro, na zono novo, onde há sempre um caso para contar. A cidade onde muitos portalegrenses novos ainda repetem a ladainha aqui nunca se possa nada, mesmo quando se passa, o capital de um distrito que, e isto continua, parece disputar com o Alentejo do sul, ano a ano e taco-a-taco, o estranho campeonato do maior número de suicidas.
E no espaço em que quase todos se conhecem uns aos outros, a bem e a mal o poeta de olhos abertos e o fotógrafo de objectiva paralela (texto fotográfico de Raul Ladeira, outro lagóia) fazem alguns retratos completos. Dos estrangeiros que lá vivem também, sem ser necessário colocá-los como um contrário, um lagóia é só um modelo da sua própria cidade, não deve, nem ele pretende, servir de exemplo para mais lugar nenhum. O estrangeiro de Portalegre é, no seu ângulo pior o que vive subordinado às exigências rascas de Lisboa, a capital terra ardente, não se conhece ninguém, canseira da igualdade. É a amiba descarada que se atreve a comer açorda sem coentros, mas que parece poder puxar um lagóia para a armadilha: Inaugurarmos nossos velhos espaços onde só haja, como nós, medíocres. Quem diz isto assim, afinal de contas, só pode gostar muito da sua cidade, vista por fora e vista de dentro.
Estas palavras duplas, de lagóia e estrangeiro foram escritas em Lisboa em Outubro de 1992». In Rui Cardoso Martins

In Carlos Garcia Castro e Raul Ladeira, Os Lagóias e os Estrangeiros, edição da CM de Portalegre, 1992, Depósito legal nº 53094.

Cortesia de CMP/JDACT

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Retratos de Gente em Procissão. Aragonez Marques. «… assim fez, cal por cima e parede limpa de novo. Soube-se mais tarde que o Marchão tinha acabado de borrar o maior chamariz para o seu negócio. A jovem promissora chamava-se “Helena Vieira da Silva”»

jdact e raulladeira

«Na década de sessenta, Portalegre era uma cidade organizada, sustentada por uma indústria que garantia o trabalho, a fábrica dos tapetes (tapeçarias de Portalegre onde começaram a trabalhar em exclusivo as primeiras mulheres), a fábrica de lanifícios, a fábrica da rolha, a Finicisa, empresas de construção, o Malcata, o Emílio Castro, que construiu um grande edifício em frente ao mercado com um parque infantil original, logo apelidado de Aldeia dos Macacos, onde brincavam poucas ou nenhumas crianças pois ao ser de cimento, partiam braços, cabeças e pernas com facilidade, um comércio activo, sem a concorrência dos supermercados onde os comerciantes, gente séria que vendia fiado, era avalista da luz eléctrica e do contador da água dos seus clientes, frente à Hidro ou aos Serviços Municipalizados, e polícias, muitos e barrigudos os conhecidos, de chapéu, gabardina e gravata os outros que adivinhávamos, que auxiliavam essa organização.
Os dias corriam iguais e lentos, interrompidos de vez em quando pela fuga de casa de um adolescente, um suicídio ou um par de cor… Havia médicos que casavam com filhas de médicos, professores que casavam com professoras, agricultores que casavam com filhas de outros agricultores, enfermeiras que não podiam casar e operários que casavam com toda a gente disponível depois da tropa cumprida. Médicos os Sampaios, com a Casa de Saúde como catedral, agricultores um par deles, donos das terras e das casas brasonadas ainda heranças feudais, professores, Nunes, Serrotes, Pestanas, Barrocas, Cardosos, Castros, Salgados, Bacharéis, Fonsecas, Matos, Pratas, Martinós, Matelas, Raimundos, Freires, Patés, Mouratos, Heitores, Patrões, Mouras, Natálias, Quezadas, Moreiras e Martins... Alguns que passaram a raia da simples escolástica, Régio, Tavares, Garcia de Castro, Pestana, vários apelidos que a malta naquele tempo se reproduzia mais do que agora e os professores chegavam todos os anos e ficavam. Hoje já não chegam tantos, os que há são da terra, filhos e filhas da cidade antiga.
Havia bons e maus, como em todo o lado, mas os que mais admirava eram os rompedores silenciosos dos tabus, das ordens e do sistema rotineiro, mesmo que o empregado do Café Central lhes servisse o vinho da serra, camuflado em chávenas de café.
Juntavam-se no Marchão, a tasca citadina de mais êxito, pelos reservados que tinha depois de subir as escadas por trás do balcão. O vinho do melhor e venerado, um dia pedi um traçado e quase me puseram na rua. Tinha as melhores empadas, rissóis e pastéis de bacalhau do burgo e era o sítio preferido dos intelectuais que desciam a Rua do Comércio com cara de pau, gravata e lenço branco no bolso e aí se escondiam para rir, para despir o ar sério necessário nesse tempo para se ser levado a sério, até porque depois de uns copos e quando as aparências já não eram possíveis de se reconstituirem, havia sempre a porta traseira do Marchão, aberta à rua que baixava da Igreja de S. Lourenço e podia-se sempre dizer que se tinha acabado de vir da missa, ou de se ter acabado de confessar ao padre Jorge, que com os adultos não sei, mas com a catraiada, transformava o confessionário em inquisição erótica. Tens maus pensamentos? Tocas no teu corpo? Brincas aos médicos com as tuas primas? Qual delas? Sac… de padre.
Eu era um puto nesse tempo e frequentava a casa porque era amigo do Quim, o filho do Marchão e acompanhei de perto muito dos despires dos cinzentos, a que a cidade obrigava os seus mais ilustres. Conta-se que um dia, esteve aí o João Tavares, com uma série de amantes dos pincéis que tinham vindo à Fábrica dos Tapetes, para verem ser reproduzidas, a ponto, obras suas e estava com eles, uma jovem e promissora pintora, que com o adiantar dos risos e a desinibição do vinho, riscou a parede branca com vários rasgos a preto, numa composição organizada no caos. Diz-se que quando saíram pela porta de trás como era habitual, o Marchão chamou a mulher e disse-lhe:
  • Cada vez estão piores, agora temos que ser nós a caiar esta m… Assim fez, cal por cima e parede limpa de novo. Soube-se mais tarde que o Marchão tinha acabado de borrar o maior chamariz para o seu negócio. A jovem promissora chamava-se Helena Vieira da Silva.
Mas continuemos com a cidade onde a deixámos. Enfermeiras, não eram assim muitas, pois as freiras, normalmente espanholas, faziam-lhes concorrência no profissional, não no número de afilhados. Os operários e operárias eram a maior parte dos habitantes da cidade. Havia também pequenos negócios, poros necessários à respiração de uma comunidade, por todos conhecidos e que faziam parte da cidade como o Plátano ou a Fonte do Rossio. Carnes e enchidos, o Vitalino, o Brito, o Zé Maria do Talho... Os sapateiros, o Lagarto, o Adriano... Mercearias de bairro, o Camejo, o Carichas, o Alegre... Tabernas, upa! Uma por rua. Ourives. O Cabecinha, o Áreas, o Garção... Cabeleireiros, o Relvas monopolizava. Os alfaiates, o Traguil, o Moutoso... Mais tarde o Parreira, mestre em vestir noivos já na sacristia das igrejas». In Rui Aragonez Marques, Retratos de Gente em Procissão, Tribuna Livre, capa de Raul Ladeira, Edições Colibri, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-689-257-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Leituras. Parte XXII.Rui Cardoso Martins: Deixem Passar o Homem Invisível. «Chocalhava as cascas. Ficaste, molusco, no teu esconderijo..., respondia António. Mas no fim deixava-o em paz: a pessoa que come vê ou não vê, mas sobra sempre um esquecido no caldo de orégãos, no fundo dos panelões que perfumam Lisboa. E bebia outra imperial em honra do caracol desconhecido»

Cortesia de dquixote

GPS
«António, também conhecido nas suas costas por aquele advogado que é cego, ou aquele advogado invisual, ou aquele ceguinho que tirou advocacia, depende de quem o via e a que distância, visitava a Igreja de São Sebastião da Pedreira pela segunda vez na vida. António tinha hábitos bizarros como gostar de arte e ir a exposições, e juntara durante anos argumentos para dizer como era isso possível no seu caso, até que os abandonou porque, concluiu, quem precisa da explicação não merece ouvi-la. Passou a dizer que era bom porque muitas vezes davam croquetes e taças de espumante na inauguração.
Não se zangou com ninguém, porque António também bebia cerveja à pressão e comia caracóis como qualquer pessoa que gosta disso. Chupava o molho da espiral, depois de fisgar o bicho com um alfinete, dos corninhos doces à tripa amarga, numa esplanada ao fim da tarde, principalmente em Maio e Junho, a altura deles. Duas imperais por petisco era a sua média, e a segunda pousava-a com um suspiro, um som honesto que deixava os clientes alegres. Lambia o bigode de espuma. Às vezes, limpando o molho dos dedos aos guardanapos de papel, perguntava se algum caracol escapara de ser comido, saltando do pires cheio para o pires das cascas sem lhe passar pela boca, acabando por morrer sem utilidade.

Cortesia de dquixote

Chocalhava as cascas. Ficaste, molusco, no teu esconderijo..., respondia António. Mas no fim deixava-o em paz: a pessoa que come vê ou não vê, mas sobra sempre um esquecido no caldo de orégãos, no fundo dos panelões que perfumam Lisboa. E bebia outra imperial em honra do caracol desconhecido. Esfarelava pão e dava-o aos pardais que o chamavam debaixo da mesa, piu, pulando a pés juntos como criancinhas, depressa, piupiu, antes que cheguem os pombos ladrões que correm como tu. Para os ouvir na cidade António usava solas de borracha, movia-se com leveza e nunca, dentro do possível, assustava o coração dos pássaros com a ponta da bengala. Não fazer tic-tic também era bom para escutar automóveis e não ser atropelado.
Ao entrarem na Igreja de São Sebastião, na semana anterior, a mulher falara-lhe das pinturas a óleo do tecto do coro, dos painéis de azulejo dos flancos, e descrevera-lhe o altar dourado. Helena, a mulher daquele advogado que é cego, desenvolvera um método rápido que permitia, em duas ou três frases, mostrar-lhe o ambiente geral dum edifício.
Helena casara com António numa história atribulada com a família dela, que evoluiu mais dum ano e meteu pânico, denegação, lições bem-intencionadas, conversas de envenenar a vida inteira, e depois terminara bem graças a Deus (era católica). Ela tinha dois olhos e via bem dos dois. Ele dizia-lhe seriamente, és a minha vidente, minha pastorinha, só tu vês o meu futuro:
  • vou para o céu ou para o inferno?
António era da opinião de que o humor não é aligeirar, é aprofundar. António também apreciava humor negro, um hábito que lhe vinha das crueldades da vida. De vez em quando, Helena fazia questão de mostrar ao marido lugares interessantes que conhecia pela cidade, em serviço do escritório ou à hora de almoço. Dizia que era comer a caminhar, ou caminhar a comer, segundo o grau de atenção que punha nas coisas. Entrava aqui por acaso, um beco, saía ali por curiosidade, uma travessa, escadinhas, praceta, e um dia voltava com ele porque gostava tanto de António que o queria a ver as mesmas coisas, passo a passo.

Cortesia de wikipedia

Ela nascera na província, numas florestas de pinheiros todos iguais, plantados no mesmo ano à espera de arderem criminosamente, anos depois ardiam e as pessoas choravam e gritavam ter perdido tudo, era mais ou menos isso e alguma agricultura e pecuária, e também uns vizinhos que tinham avós que se matavam à sacholada por culpa dum metro quadrado de xistos ou dum litro de água, com nascentes por todo o lado. Por isso, as saudades da terra de Helena viviam controladas pela crítica. Seria estúpido alguém aborrecer-se nos segredos de Lisboa, a névoa petrificada do império português.
No princípio do namoro, levava-o a um miradouro para sentirem o Tejo a subir pela cidade, colina a colina, telhado a telhado, até aos pulmões de António, ele respirava a calma húmida do rio e esperavam, de mãos dadas, a queda do Sol na grande ponte vermelha de ferro. As nossas mãos, como a ponte, juntarão o Norte e o Sul do país um dia se nos casarmos, disse finalmente Helena, uns pensamentos que lhe cresceram em silêncio, e ficou à espera. António respondeu que também tinha umas ideias a pôr em prática rapidamente, e sendo assim sussurrou-lhe ao ouvido:

sobre o rio atravessado
sou o grosso pilar central
e tu o tabuleiro deitado
ponte por cima de mim...

... e devagariiiinho como a grua do estivador no porto, levou a mão dela a um sítio alto dele, meio enganada, para estudar «uma questão de engenharia hidráulica» no colo, mas... a conversa acabou aqui meu parvalhão, o que foi amor dá cá um beijo, não gostei desse tom ordinário, ordinário porquê se era só um poema, rico poema sim senhor, vá lá um beijinho, larga-me palerma, ah ah casas mesmo comigo, caso mas não é assim não é de qualquer maneira porque tens que me respeitar». In Rui Cardoso Martins, «Deixem Passar o Homem Invisível», Publicações Dom Quixote 2010, ISBN 978-972-20-3828-7.

Com a amizade da Isabel, Ana e João
Cortesia de Dom Quixote/JDACT

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Leituras. Parte XI: Deixem Passar o Homem Invisível. «Subiram a gambiarra e alguém gritou e apontou a meio do buraco. Era um pequeno socalco de areia dourada, no sedimento de obras antigas. Via-se qualquer coisa, um resto arqueológico, mas de cores vivas, recentes. Ali, ali, o que é aquilo?! Espetados na terra húmida estavam a bengala de um cego e um sapato de criança»

jdact

Um buraco no chão.
«Todos, profissionais e amadores, se mantiveram vigilantes nos vários centros da catástrofe, palavra sujeita a confirmação, até se constiparem em directo. Foram os primeiros a mostrar à luz do dia as ruas, os estabelecimentos a enxaguar, a brigada de colectores da câmara municipal, homens exaustos pela luta com as sarjetas, de chávena de café na mão, mais as vítimas friorentas a exigirem subsídios para a ruína, ou a explicarem que aquela chuvada parecia o fim do mundo e o aquecimento global juntos, mas a vida continua.

Por exemplo, no café-snack O Dedé, ao Boqueirão dos Anjos, o dono ouviu como que uns sinos de vidro, olhou e viu as suas grades de minis a fugia parecia aquelas jangadas de imigrantes a escaparem para um país novo, arriscando tudo na maré, disse o senhor Delmiro, o Galego, que não bebia há vinte anos por não poder, mas abriu a única cerveja que ficou e engoliu-a de pequeno-almoço, numa alegria trágica, numa vez sem exemplo.

Cortesia de ionline

No geral, Lisboa acordava sem novas situações de pânico, sem cadáveres a boiar, só esqueletos de guarda-chuva, tambores de máquina de lavar ferrugentos) gatos vadios enrolados nas silvas. Falava-se em milagre e em quase milagre.

A manhã seguinte, no entanto, guardava um mistério. Nas costas do Parque Eduardo VII, frente à Igreja de São Sebastião da Pedreira, do outro lado dos grandes armazéns espanhóis, abrira-se um buraco enorme.
Um fosso no chão de Lisboa, do tamanho duma banheira grande - um alçapão de palco, daqueles por onde desaparecem as partenaires dos mágicos -, disse um taxista que não conseguia fazer pegar o carro que já dera a volta ao conta-quilómerros, pelo menos milhão e meio o meu carro fez, fui à Lua e voltei duas vezes, duas vezes sim, fiz as contas e nunca troquei de motor, disse o homem coçando a cabeça, mas este buracão na estrada parece truque de ilusionismo. A ideia ganhou força e espalhou-se com a segunda e terrível descoberta.
O Comandante operacional dos sapadores bombeiros falava da sorte que era ninguém ter caído lá dentro, como às vezes acontece a carros e até autocarros em Lisboa. Não se esqueçam que isso sucede quando chove desta maneira louca, é uma cidade toda mal feita no solo e subsolo, cheia de ribeiras domesticadas com canos gigantes, que não está nem nunca esteve pronta para precipitações, brincou ele, felizmente até agora os veículos automóveis ficaram sempre entalados, o rabo de fora, por serem demasiado grandes para a fenda respectiva.

Cortesia de alcatraopenas
Os sapadores vedaram o sítio com fita plástica. Ao fim da manhã, desceram uma gambiarra e, no fundo do buraco, a alguns metros de profundidade, deram com um cano velho de tijoleira, bastante alto e largo. Estava rebentado pela implosão da calçada de granito, com paralelepípedos cinzentos à entrada, e seguia pelas entranhas de Lisboa, descendo no escuro pelo que parecia, para baixo ou na direcção do Parque Eduardo VII. Houve uma exclamação geral, no bordo da cratera.
Uma saída! Uma entrada! Um cano secreto?
Em princípio, um boqueirão antigo da cidade subterrânea, disse o Comandante, que aumentara o pescoço como um réptil. E acrescentou, mantendo o espírito cómico, que o desgraçado dum peão que tivesse cardo ali durante a chuvada, na altura do afundamento do chão, estaria perdido, afogando-se sabe-se lá onde, arrastado pelas águas a caminho do Tejo talvez, o destino da água em Lisboa, por causa da gravidade.

Subiram a gambiarra e alguém gritou e apontou a meio do buraco. Era um pequeno socalco de areia dourada, no sedimento de obras antigas. Via-se qualquer coisa, um resto arqueológico, mas de cores vivas, recentes. Ali, ali, o que é aquilo?! Espetados na terra húmida estavam a bengala de um cego e um sapato de criança». In Rui Cardoso Martins, «Deixem Passar o Homem Invisível», Publicações Dom Quixote 2010, ISBN 978-972-20-3828-7.

Com a amizade da Isabel, Ana e João.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Leituras. Parte X: Deixem Passar o Homem Invisível. «Nas zonas mais altas foi menos grave, mas centenas de comerciantes ficaram com dores nas costas, estiramentos e mesmo hérnias discais por súbito abuso de pá, esfregona e balde. Outros sofreram incalculáveis prejuízos de lama no mobiliário, nos electrodomésticos, nas carnes congeladas…»

Cortesia de alcatraopenas

Um buraco no chão.
«Nas ruas ouvia-se um vómito de pedra, um enjoo hidráulico, canos deitavam água pela boca fora, baratas e excrementos, que outros canos voltavam a engolir, como numa gigantesca festa decadente. A água parecia confusa com a sua própria quantidade, um único corpo vivo a cobrir a terra que o rejeitava, e tanto enfiava um braço viscoso no primeiro buraco como usava outro para explodir um «geyser» de esgoto, grosso e gelado.
Nas zonas mais altas foi menos grave, mas centenas de comerciantes ficaram com dores nas costas, estiramentos e mesmo hérnias discais por súbito abuso de pá, esfregona e balde. Outros sofreram incalculáveis prejuízos de lama no mobiliário, nos electrodomésticos, nas carnes congeladas, nos pacotes à deriva, nos linóleos descolados dos pisos e nos balcões novos de alumínio.


Cortesia de ionline e jdact

Em certas caves de restaurante, soube-se mais arde, houve batata que grelou irremediavelmente, da noite para o dia a batata nova fez-se velha, e pouco restou para servir aos clientes dessas sacas, só dava para fazer sopa.
Os bombeiros não têm mãos a medir para acorrer a todos os pedidos de socorro, aos milhares de inundações, e as pessoas são aconselhadas a não sair de casa em caso algum, quem tem água potável que a poupe, subam aos andares superiores, apelou a Protecção Civil.
Quem perdeu o telhado, pelo contrário, desça com precaução até um nível médio que considere seguro, livre das rajadas.
Um prédio erguido em cima do caneiro de Odivelas abanou, cheirando a gás e a curto-circuito, e quinze famílias foram evacuadas por terem escolhido mal o sítio para viver.

Cortesia de a23online

Fugiram a chorar na imundície, velhos e bebés em lágrimas, mais água despejada na rua. Felizmente, e contra o que toda a gente receava, ao fim dumas horas a Protecção Civil anunciou não haver vítimas mortais a registar, por enquanto, ou a denúncia de qualquer desaparecimento, por enquanto, repetiu.
Tudo estava a acabar bem: a meio da madrugada, as rádios e televisões transmitiam o retrocesso das águas, e só mostravam, com o foco luminoso da câmara, alguns cães nadadores a passar, agarrados com os dentes a ramagens, mas, explicou uma testemunha, ainda há uma hora a água me chegaria ao pescoço, aqui mesmo onde estou. O Instituto de Meteorologia disse que as nuvens começavam a desaparecer, umas seguiram o caminho do mar, outras pareciam ter-se gasto ao tentar seguir para norte e para leste e inundar o resto do território. Boas perspectivas abriam-se para a manhã, talvez o próprio Sol.
Esperava-se o regresso do céu azul de Portugal. Os repórteres admitiram dormir uns minutos no carro de exteriores, por falta de novidades mas, por outro lado, se calhar era melhor continuar como toda a gente, em êxtase profissional. Usaram palavras como borbotões, bueiros e gorgolejo. As melhores imagens começavam a ser negociadas por cidadãos-jornalistas, e os seus telemóveis, numa enxurrada de envios para as televisões. Eram de fraca qualidade mas tinham a característica, muito apreciada, do homem no centro do perigo». In Rui Cardoso Martins, «Deixem Passar o Homem Invisível», Publicações Dom Quixote 2010, ISBN 978-972-20-3828-7.

(Continua).
Com a amizade da Isabel, Ana e João.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Leituras. Parte XI: Deixem Passar o Homem Invisível. «Nas zonas mais altas foi menos grave, mas centenas de comerciantes ficaram com dores nas costas, estiramentos e mesmo hérnias discais por súbito abuso de pá, esfregona e balde. Outros sofreram incalculáveis prejuízos de lama no mobiliário, nos electrodomésticos, nas carnes congeladas…»


Cortesia de domquixote e touaabarrotar

Um buraco no chão.
«Nas ruas ouvia-se um vómito de pedra, um enjoo hidráulico, canos deitavam água pela boca fora, baratas e excrementos, que outros canos voltavam a engolir, como numa gigantesca festa decadente. A água parecia confusa com a sua própria quantidade, um único corpo vivo a cobrir a terra que o rejeitava, e tanto enfiava um braço viscoso no primeiro buraco como usava outro para explodir um «geyser» de esgoto, grosso e gelado.

Nas zonas mais altas foi menos grave, mas centenas de comerciantes ficaram com dores nas costas, estiramentos e mesmo hérnias discais por súbito abuso de pá, esfregona e balde. Outros sofreram incalculáveis prejuízos de lama no mobiliário, nos electrodomésticos, nas carnes congeladas, nos pacotes à deriva, nos linóleos descolados dos pisos e nos balcões novos de alumínio.


Cortesia de aleteonocturno e domquixote

Em certas caves de restaurante, soube-se mais arde, houve batata que grelou irremediavelmente, da noite para o dia a batata nova fez-se velha, e pouco restou para servir aos clientes dessas sacas, só dava para fazer sopa.
Os bombeiros não têm mãos a medir para acorrer a todos os pedidos de socorro, aos milhares de inundações, e as pessoas são aconselhadas a não sair de casa em caso algum, quem tem água potável que a poupe, subam aos andares superiores, apelou a Protecção Civil.

Quem perdeu o telhado, pelo contrário, desça com precaução até um nível médio que considere seguro, livre das rajadas. Um prédio erguido em cima do caneiro de Odivelas abanou, cheirando a gás e a curto-circuito, e quinze famílias foram evacuadas por terem escolhido mal o sítio para viver.

Cortesia de librarythinkquest

Fugiram a chorar na imundície, velhos e bebés em lágrimas, mais água despejada na rua. Felizmente, e contra o que toda a gente receava, ao fim dumas horas a Protecção Civil anunciou não haver vítimas mortais a registar, por enquanto, ou a denúncia de qualquer desaparecimento, por enquanto, repetiu.
Tudo estava a acabar bem: a meio da madrugada, as rádios e televisões transmitiam o retrocesso das águas, e só mostravam, com o foco luminoso da câmara, alguns cães nadadores a passar, agarrados com os dentes a ramagens, mas, explicou uma testemunha, ainda há uma hora a água me chegaria ao pescoço, aqui mesmo onde estou. O Instituto de Meteorologia disse que as nuvens começavam a desaparecer, umas seguiram o caminho do mar, outras pareciam ter-se gasto ao tentar seguir para norte e para leste e inundar o resto do território. Boas perspectivas abriam-se para a manhã, talvez o próprio Sol.

Esperava-se o regresso do céu azul de Portugal. Os repórteres admitiram dormir uns minutos no carro de exteriores, por falta de novidades mas, por outro lado, se calhar era melhor continuar como toda a gente, em êxtase profissional. Usaram palavras como borbotões, bueiros e gorgolejo. As melhores imagens começavam a ser negociadas por cidadãos-jornalistas, e os seus telemóveis, numa enxurrada de envios para as televisões. Eram de fraca qualidade mas tinham a característica, muito apreciada, do homem no centro do perigo». In Rui Cardoso Martins, «Deixem Passar o Homem Invisível», Publicações Dom Quixote 2010, ISBN 978-972-20-3828-7.

(Continua).
Com a amizade da Isabel, Ana e João.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Leituras. Parte IX: Deixem Passar o Homem Invisível. «E logo a seguir, baralhada por súbitos ventos cruzados, quentes e frios, atiçados por relâmpagos metálicos, a chuva começou a escorrer com força pela cidade, mas sem saber por onde, e muito mais água chegava pelos veios que desciam das outras colinas, por arroios adormecidos e pelas calhas do eléctrico, numa competição de rios sem nome, acabados de nascer no meio das avenidas e praças»


Cortesia de domquixote e touaabarrotar

Um buraco no chão.
«O céu devia estar cheio de rezas e choros, porque nessa tarde condensou a água de repente e choveu tudo duma vez. Fez-se escuro como a pele dum rato e, minutos depois, largou o peso na terra.
Alguns pescadores da Marginal, que durante a semana trabalhavam em repartições, lojas e oficinas da cidade, e se atrasaram no transporte para os subúrbios, bebendo mais uma cerveja nos cafés, já não o puderam fazer, e o que aconteceu a seguir lembrou-lhes as vagas gigantes das marés vivas do Inverno, que batem nas rochas altas dos mexilhões e perceves da costa, os mariscos aéreos, e esguicham com força, levando um ou outro homem para o mar salgado.
A onda bate na falésia e ergue pelos ares a cana de pesca e o balde das larvas de mosca, puxa o pescador no oleado, estrebuchando como o peixe no anzol, e afoga-o na espuma de iodo. Perdeu-se mais um bom chefe-de-família por aproximação a precipício, mordeu o isco que o mar lhe lançou, queria levar um robalinho para casa e descansar da vida, mas só o mexilhão e o perceve e os limos, e também a lapa, claro, conseguem agarrar-se nesses repuxos traiçoeiros do oceano, porque é ali mesmo que vivem.
No entanto, a chuva na capital nesse dia começou sem brutalidade. Só uma persistência pouco comum, não caíram primeiras gotas, caíram hectolitros de gotas no mesmo segundo, vaga de água doce, uma cascata vertical espremida das nuvens pretas nos telhados. Depressa cresceu para uma parede líquida sobre Lisboa como só uma vez ou duas em cada século.


Cortesia de aleteonocturno e domquixote

E logo a seguir, baralhada por súbitos ventos cruzados, quentes e frios, atiçados por relâmpagos metálicos, a chuva começou a escorrer com força pela cidade, mas sem saber por onde, e muito mais água chegava pelos veios que desciam das outras colinas, por arroios adormecidos e pelas calhas do eléctrico, numa competição de rios sem nome, acabados de nascer no meio das avenidas e praças.
Daí a pouco, os carros andavam com água pelo volante, abrindo sulcos no caminho, até que batiam nos passeios, ouvia-se um som pastoso no granito, os automobilistas abriam as comportas e pulavam pelas sarjetas como fuzileiros nos desembarques de praia, protegendo-se das saraivas.
As buzinas enrouqueceram e calaram-se, os motores fizeram bolhinhas fumarentas nos charcos de barro, antes de rebentarem pelo tubo de escape, no Cais do Sodré.
Muitas saídas estavam entupidas com prédios novos, betão, barracas e muros, outras cobertas de lixo, garagens subterrâneas escavadas à noite no leito dos riachos. Numa cave de Alcântara cem carros afogaram-se ao mesmo tempo, num pacto de morte mecânica.

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Nos vales de Chelas, ao lado das hortas de couve e nabiça, dos talos submersos espetados no solo como bandeiras, afundavam-se viadutos e pilastras erguidos no sítio errado por ordem de alguém.
Nas zonas baixas, autocarros giravam agora em remoinhos e pareciam manadas de baleias desorientadas a dar à costa, para encalharem nos canteiros e morrer.
Jovens subiram aos jacarandás da Avenida da República e esperaram toda a noite aos gritos, como macacos. Mais de trinta árvores solitárias, muito velhas ou muito novas, caíram pela raiz nas matas e jardins, sopradas pelo ar.
Desconhecidos deram as mãos em corrente e salvaram uma senhora que não sabia nadar mas não largava a carteira, ao Campo Grande.
Um atleta fugiu a nado dum túnel e só o encontraram de manhã, embrulhado num casaco que não era dele e a dizer palavras sem sentido.
A linha verde do metropolitano entupiu e a carruagem fez de cobra-de-água, a maior anaconda da floresta perdida, até que parou por falha eléctrica.
Toda a gente na cidade deu cabo dos sapatos». In Rui Cardoso Martins, «Deixem Passar o Homem Invisível», Publicações Dom Quixote 2010, ISBN 978-972-20-3828-7.

(Continua).
Com a amizade da Isabel, Ana e João.
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