Mostrar mensagens com a etiqueta Os Teatros de Lisboa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Os Teatros de Lisboa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Os Teatros de Lisboa. 1874. Júlio C. Machado. «Ninguém se vestia melhor do que elle nas peças d’epocha, ninguém melhor do que elle tirava partido das cores, da elegância das attitudes, da propriedade dos accionados»

Bordalo Pinheiro e jdact

De acordo com o original

D. Maria
«(…) E, como assim acontecesse, a Soller começou a ser a senhora Josepha Soller Assis. Este Assis, António Maria Assis, era um soffrivel actor de alta-comedia, e nascera dotado de quasi todas as condições que constituem o galã de theatro. Era alto, elegante, extremamente sympathico de phisionomia, e com bons olhos. Havia-se estrelado em theatros particulares, e só em 1844 se arriscou a theatros públicos no drama em cinco actos, O infanticidio ou a ponte de S. Cloud. Tinha vinte e dois annos então. No theatro normal, o seu reportório foi sempre o mais escolhido e o mais litterario, e, de ordinário, capricho do acaso ou iniciativa dos auctores, teve este artista papeis em que fazia a cada passo declarações de amor..., a sua mulher! Garrett gostou muito d'elle no seu fr. Luiz de Sousa, e este é decerto o maior louvor para a memoria do artista.
Comquanto a natureza fosse cruel para com a Soller, baixinha, sem voz, sem olhar, sem elegância, o trabalho, que é um segundo talento, valleu-lhe e elevou-a. Chegou a ser notável, grande. Mas, a estrella da felicidade foi-se apagando para ella a pouco e pouco; vieram as guerras e misérias dos bastidores; a melancholia de se encontrar preterida, o despeito de ver que lhe roubavam as flores da sua coroa, não poderia deixar de ter influencia no seu destino; deshabituada do palco pelos longos intervallos em que se encontrou afastada d'elle, sempre que reaparecia em scena, ia como que receiosa, indecisa, timida, hesitante, tremula! Tinha ainda altitudes, gestos, meneios de cabeça, admiráveis; quando representava com Emilia das Neves, ainda erguia a fronte soberbamente, como sacudindo o peso da oppressão que nos últimos tempos lha curvava! Havia thesouros de vingança a trahirem-se nas suas mãos que se encrespavam, nos seus nervos que tremiam sob a immobilidade fria de uma resolução implacável!
Disse adeus difinitivo ás glorias de acordar o enthusiasmo; o publico insaciável e inconstante nos seus prazeres, não se preoccupou sequer um instante com a desgraça d’esse antigo idolo. Sentia e impressionava-se quando declamava! Não era uma vaidosa recitação mais ou menos modulada pelos lábios; era a voz que se quebra, as fibras que palpitam, um anno de vida gasto em dez minutos! Era o ódio, o furor, a revolta, a aspiração á liberdade, as mais devoradoras paixões humanas concentradas n’um frágil corpo de mulher! Se os auctores attendessem ao melhor género do seu talento, se o theatro não a desconsiderasse afastando-a da scena, o publico haveria tido mais occasiões de applaudir senão a esbelta e alegre Ciganinha, ao menos a pallida e melancholica Luiza do Casal das giestas!
Onde havemos de collocar o nosso Rosa, João Anastácio, que apparece hoje tão raras vezes no tablado, e ora n‘um theatro, ora n’outro, sem se perceber bem se elle ainda é do teatro de D. Maria, se é de qualquer theatro de Lisboa ou Porto, ou se não é já de theatro algum? Rosa tem sido um artista importante, mexendo um pouco em tudo, e dotado de uma quantidade de prendas, só comparável á da menina do conto que o pae queria casar: isto canta, isto toca, isto dança, isto borda, isto faz doce!...
Assim, Rosa actor! Chega a parecer a ladainha: Rosa mystica! Rosa ebúrnea! Rosa pulcra! D’essa variedade de talentos tirou por muitas vezes os melhores segredos para a composição do seu personagem. Ninguém se vestia melhor do que elle nas peças d’epocha, ninguém melhor do que elle tirava partido das cores, da elegância das attitudes, da propriedade dos accionados, das combinações engenhosas de caracterisação.
Depois, como sabia sempre com perfeição os seus papeis, tornava-se completamente senhor da acção e verdadeiramente attingia por vezes as proporções de artista de primeira ordem. A doença e a rabuge principiaram a querer moel-o. Elle tem-as moido a ellas. Ainda eu era pequeno já elle voltava dos Pyreneos onde fora tratar-se. Desde então, lá tem tido artes de entreter seus males e por ahi o vemos, com grande alegria nossa, ir passeando a sua enfermidade e o seu mau humor. Não há affectação n’aquelle estado. Soffre effectivamente com as alternativas do tempo, e duas ou três nuvens paradas no azul do ceu prejudicam-o mais do que se pode calcular». In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.


Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

Os Teatros de Lisboa. 1874. Júlio C. Machado. «O papel de amante era effectivo ao Assis. A parte de “adorado bem” competia sempre á Soller»

Bordalo Pinheiro e jdact

De acordo com o original

D. Maria
«(…) Pois que! Esta mulher que se abraçava aos pés de Terpsichore, olha um dia para a face austera de Thalia, e a deusa sorri-lhe e abraça-a, e as almas dâo-lhe lagrimas, o publico dá-lhe flores, a imprensa dá-lhe applausos, e ella acorda actriz! Actriz inesperadamente! Actriz repentinamente! Fizera-se bailarina, mas fora actriz que nascera! Pode dizer-se que ninguém lhe ensinou a arte senão depois de ella se mostrar artista; e mostrou-se artista desde o primeiro dia! Como aprendeu, pois? Como adivinhou, então?
Vi-a eu estrear-se, eu que tinha onze annos. Ainda me recordo de a ver apparecer na montanha com o seu chapeusinho de cigana levemente inclinado sobre a orelha, no famoso theatro do Salitre, toda a brilhar como se ainda estivesse nos divertissements, saia curta, botinha de cano, n'uma peça que foi fallada n'esta Lisboa.

A Ciganinha!
Que noite, que noite! Os ratos, únicos frequentadores hoje d'esse theatro, ainda estremecem do que seus avós lhe contaram de tal caso. A rapaziada effectiva de S. Carlos affluiu ao Salitre n'essa recita, ao que me contam. Nas frisas e na superior, viam-se os terriveis da platéa do theatro lyrico, curiosos de vêr brilhar o talento d’esta singular creatura que o encontrara primeiro nos pés, e o procurava agora na cabeça! O que provava ao menos não estar no caso do rifão, visto que tinha ambas as coisas! Ia descobrindo a todo o instante horizontes novos, auxiliada por grande força de vontade e pela attenção continua com que estudava. N’isto appareceu-lhe o Assis.
A historia anecdotica do theatro, tem mostrado mil vezes a importância do galan para os destinos do amor. Eu creio verdadeiramente que se não existissem galans, as mulheres teriam amado muito menos! Na peça de Psiché o comediante Baron, da companhia de Molière, representava o papel do Amor, e dizem as noticias da época, que elle arrebatava todos os corações dos espectadores, conseguindo depois ser em particular tão bom actor com as senhoras, como com as damas de theatro. Era uma perfeita guerra de mulheres, a qual havia de o alcançar primeiro. La Bruyère conta-o bem claro: Roscius não pode ser vosso, Leha; tem dono e, mesmo que assim não fosse, está já pedido, Claudia espera para o ter, que elle se farte de Messalina!
A amante de Molière, acabou por tomar a serio as phrases que Baron lhe dizia no palco, aprendidas de cór, mas recitadas com o encanto e o calor da arte, que tantas vezes se confundem com a inspiração verdadeira, natural, e espontânea da alma! E a amante de Molière, apaixonou-se por Baron. Cincoenta annos depois, pouco mais ou menos, Adrianna Lecouvreur, que passou a vida em amores, e fez papelotes dos madrigaes de Voltaire, olhou um dia para lord Peterborug, que era grande personagem, e para o galan Legrand, que não passava de um actor mediocre; ambos elles a requestavam, e ella resolveu gostar de ambos, mas de um primeiro que do outro, porque, são as memorias que o dizem, a grande actriz era inconstante, mas não era falsa. E como era preciso principiar por um d'elles, Adrianna Lecouvreur principiou por Legrand!
No theatro do Salitre representava-se no tempo a que nos temos referido, um grande numero de peças sentimentaes. O pranto tinha todas as noites que pagar foro ás desventuras de um amante infeliz, a quem a barbaridade paterna separava do seu adorado bem. O papel de amante era effectivo ao Assis. A parte de adorado bem competia sempre á Soller. Uma vez, o amor, que é um traquina, metteu-se deveras n'isto, e a Sller, querendo que a sua felicidade fosse tão auctorisada no mundo como no palco, resolveu, de accordo com o Assis, principiarem por onde os dramas acabam, pelo casamento!» In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Os Teatros de Lisboa. 1874. Júlio C. Machado. «… bastando uma piroeta para torcer uma linha, seja uma linha torcida o sufficiente para deixar sem fortuna, sem destino, e sem pão um ente infeliz, que teve a sorte de pôr o seu talento nas pontas dos pés?!»

Bordalo Pinheiro jdact

De acordo com o original

D. Maria
«(…) Epiphaneo vivia em companhia de dois filhos: a febre entrou n’essa casa e com ella a morte; o filho mais novo succumbiu á doença. Então aquelle coração de artista que era um grande coração de pae, sentiu-se ferido do mesmo golpe. Passara as noites ao pé do leito do doente, e, dias depois da morte de seu filho, o grande actor caiu também ao sopro pestífero do mesmo mal que lho roubara. A impressão que aquella morte lhe produzira havia sido profunda e irremediável; não sei bem se foi a febre amarella, se a falta do filho, o que o matou!... De quantos artistas ensinou na sua longa carreira de mestre de theatro, a primeira, a única que chegou realmente a attingir proporções notáveis, foi Josepha, Soller. A infeliz Soller! Os elementos pareceram sempre ora querer, ora não querer que ella fosse actriz! Declamára aos três annos n’um theatro, de que era empresário o seu pae: volvêra á scena aos cinco annos, e a intelligencia precoce que revelava era a melhor garantia do talento dramatico, que, com o tempo e o estudo, poderia dar ao seu nome, um dia, a aureola dos triumphos. Todavia um gosto natural pela dança arredou  por muito tempo da arte dramática esta creatura, que invejava, talvez, o prestigio, a elegância, a graça voluptuosa das dançarinas, creaturas excepcionaes que os rapazes applaudem sempre com maior capricho, e maior enthusiasmo.
Realmente, dou razão em parte á Soller! As dançarinas, quando teem a fortuna de não brilharem apenas pela arte, mas também pela belleza, e que deixam campo ás primeiras illusões da vida para acceitar n’ellas a incarnação de um sonho, qualquer coisa de sublime, e desligado das existências terrestres, entes maravilhosos que se elevam sobre o pó, como o atomo se ergue e se perde na atmosphera fluctuante, impellido pelo calor das manhãs do estio..., são verdadeiras creações de poeta, que incendeiam a imaginação e a alma! Por mais que se teimasse e insistisse, por maiores, mais activas e constantes diligencias, que a familia empregasse, para que a Soller n’um paiz tão escasso de actrizes preferisse a carreira dramática, que não devia apenas ser-lhe mais lucrativa, porém mais brilhante, a obstinada creança proseguia no seu intento, e porfiava em seguir, como dizem os choreographos, questa philosofica arte della danza! Uma desgraça, porém, tinha de cortar-lhe a carreira. A pobre dançarina, encontrou-se subitamente impossibilitada de proseguir na sua mania! Uma extenção nervosa, na perna esquerda, resistiu a todos os esforços da medicina, e obrigou-a a afastar dos horisontes do tacté e do balloné as suas aspirações e as suas tendências!
Desgraçadas dançarinas, a quem não é preciso mais do que pôr um pé em falso, para verem a sua carreira cortada, tornar-se infructifero todo o estudo dos primeiros annos, e cahirem por terra, luctuosos, humildes, desenganados, os sonhos de prosperidade e de gloria que lhes haviam dado coragem de trabalhar! Pois que! o nome, a gloria, o futuro de uma creatura, cujo merecimento parecia assegurar-lhe os destinos da illustração e da celebridade, estão por tal forma escravos e dependentes da felicidade de um battement, que, bastando uma piroeta para torcer uma linha, seja uma linha torcida o sufficiente para deixar sem fortuna, sem destino, e sem pão um ente infeliz, que teve a sorte de pôr o seu talento nas pontas dos pés?! Não houve remédio.
Quando a rapariga viu que estava de perninha para todo o sempre, deixou-se de médicos e mandou chamar dilletanti. Acudiram os janotas do tempo, os grandes práticos das fortunas e dos revezes de theatro. Que hei-de fazer? perguntou ella. Vae ser actriz! disse Álvaro. Vae ser trágica! disse-lhe José Vaz. Vae-te ás soubrettes! aconselhou João Menezes. Vae ás ingénuas! disse o marquez de Niza. Depois, todos elles, em alto diagnostico, lhe predisseram: Serás grande! Trata d’isso. Custou-lhe ao principio. A fatalidade que a opprimia foi-lhe tanto mais penosa, que estava para partir para Vienna d’Áustria na companhia de Mabille, que quatro annos depois deu ordem expressa á irmã de madame Santy de a escripturar se já estivesse restabelecida; a esse tempo, porem, a Soller… estava actriz. Actriz! Existência de sensações e gloria, a que ella não aspirava, que não pedia, com que não sympathisava até! Singular destino, que a forçou a valer-se do talento, a reconhecel-o, a educal’o, a deixar que o publico a admirasse e applaudisse! Comediante como sua mãe, a Vasquez Corunha, como seu pae José Soller, Valença, que tomou o nome de Navarro, porque, fugindo á familia para seguir a vida de actor, quiz crear elle o seu nome para a gloria ou opprobrio que lhe coubesse! Oh! ella tinha de ser actriz; e debalde o seu capricho, por louca phantasia de creança, tentava talvez suffocar a vehemencia de uma vocação, que a natureza ou o destino tornaria um dia invencivel e irreconciliável!» In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.


Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

Os Teatros de Lisboa. 1874. Júlio C. Machado. «A febre amarella, de que apenas se citava desconfiadamente dois casos em julho, e dez em agosto, caiu nos fins de setembro de 1857, desapiedada, implacavel, aterradora, sobre a capital!»

Bordalo Pinheiro jdact

De acordo com o original

D. Maria
«(…) Por capricho de artista, ou para se ensaiar em géneros de desencontrada indole, tentou em papeis de mui diversa natureza dar a medida da sua vocação percorrendo todas as escalas da arte cómica, e desempenhando a cada passo tão depressa um centro, tão depressa um galã; apparecendo-nos hoje com a fronte calva e grave do ancião, amanhã com o enfarinhado rosto de palhaço: pae nobre agora, namorado cómico em seguida!... Era muitas vezes notável, mas tinha um senão fatal em todos os seus papeis, era massador. Havia occasiões em que divertia tão pouco que chegava a não parecer peccado o ir ao theatro durante a quaresma para o ouvir n’uma comedia! A festa era uma expiação. Tinha sido nos seus tempos o Etelwood da Catharina Howard, e deu-se o chic de ser Ruy Blas n'uma traducção de Eduardo Faria, aquelle bom e amável Eduardo Faria que fez entre differentes extravagâncias memoráveis o diccionario que por ahi anda, de que elle era sempre o primeiro a gracejar e o José Lacerda o ultimo.
O Trapeiro de Paris, e o Casal das giestas foram as suas peças: ou antes as suas verdadeiras peças eram aquellas, em que elle conseguia que os outros fossem bons. Com elle acabaram os grandes espectaculos dos dramas de apparato, que acordaram a curiosidade no animo do publico. Nunca mais se viu no theatro de D. Maria II, dramas de que o annuncio comportasse algum d'aquelles cartazes, que, pelo gigantesco da forma e pela dimensão das letras, são dum prestigio que outr'ora teve o condão de seduzir José Agostinho Macedo: … violentissima tentação d’um cartaz de comedia que toma uma esquina de cabo a rabo, desafia e titilla a nossa curiosidade! Um cartaz é um verdadeiro prestigio; se ha bruxaria no mundo é o Diabo de um cartaz de comedia. Os que se pregam no Malcosinhado são uns lençoes de casados, e quando é dia de beneficio é o cartaz como a vella grande da nau Centauro!
Assim o dizia já, na segunda carta do Fogaça, José Agostinho, com a sua chistosa graça de grosseirão; isto prova que o cartaz monstro não data apenas do Alcaide de Faro, o que muita gente cuida, porém já d’aquelles tempos, em que um gallego com um boião de papas, um pincel de caiar e uma bola de papel ás costas, ia pregar nas esquinas um papelão monstro com dois triângulos romboides! Não foi unicamente aos seus discipulos que os conhecimentos d’arte do Epiphanio se tornaram uteis: também os companheiros lhe deveram lição em mais d’um papel, e a grande actriz portugueza, Emilia Neves, alcançou uma boa parte dos seus triumphos, auxiliada pelos conselhos d’esse ensaiador. Os destinos outr'ora brilhantes do artista que fizera épocha para o theatro portuguez, haviam no ultimo tempo da sua vida perdido quasi todo o prestigio que os illuminava: a imprensa mostrava-se adversa ao seu methodo, e o publico desgostava-se por vezes do tom da sua phrase. E todavia quando acordava da atonia em que o espirito parecia haver-se-lhe suffocado, era grande! A Pobreza Envergonhada e Espinhos e Flôres, foram os últimos signaes que deu de vida artistica. Sinto tristeza ao escrever os titulos d’estes dois dramas, porque elles marcam o final do drama d’essa existência que tenho contado aqui. Época fatalmente triste para a população de Lisboa, épocha que recorda a cada um uma saudade e um tumulo!
A febre amarella, de que apenas se citava desconfiadamente dois casos em julho, e dez em agosto, caiu nos fins de setembro de 1857, desapiedada, implacavel, aterradora, sobre a capital! O cholera havia sempre atacado quasi exclusivamente as classes pobres, mas a febre amarella não teve predilecções do primeiro ao ultimo periodo do seu devastador reinado. Os felizes da vida tiveram de recuar horrorisados ou de cair como os pobres, ao sopro irremessivel d’este inimigo commum! O terror apoderou-se então de todos os espíritos e de todos os corações: nenhuns limites prováveis, anniquillavam a sua duração : Lisboa tomou um aspecto horroroso; a população coberta de luto lembrava-nos as mortes da véspera: e as macas que se cruzavam, as mortes do dia seguinte!... Também, a philantropia acordou então; e os actos de generosidade desceram da casa dos ricos, e, consolando as classes indigentes, pareceram pedir-lhes perdão, em face da morte, da indifferença com que nos tempos bons da vida insultavam a miséria com o luxo e com a avareza! Mas, não iam depôr-lhes a esmola á cabeceira: atiravam-lh’a e fugiam, ou mandavam-a de Cintra, de Bemfica, do Lumiar, de Bellas, de Cacilhas, de Pedroiços, onde as habitações chegaram a um preço fabuloso, tanto foi o impulso com que a população lisbonense desertou! Os pares, os deputados, os empregados públicos, abandonaram as camaras e as secretarias. A familia real e os pobres, foram apenas os que permaneceram face a face com a morte; isto é dizer-lhes que os actores ficaram também, porque n’este paiz os actores são do numero dos pobres!» In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.


Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

domingo, 14 de junho de 2015

Os Teatros de Lisboa. Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «Sim, senhor. Elle é o dono da estallagem, bem conhecida até nos romances e nos melodramas, chamada a Tête-noire! Ah! A Téte-noire! Já percebo! Já percebe? Já percebo. Quer-me para symbolo!...»

jdact

NOTA: De acordo com o original

«(…) Então, o chapelleiro deixou cair de seus lábios, com uma suavidade ideal, como se fosse mel, como se fora o puro hymeto, estas palavras: É para o actor Santos. O povo recuou. O meu amigo e eu, encostando-nos de novo um ao outro, e tomando a respiração, as res pirações, para lograrmos força digna do assumpto, perguntámos áquelle honrado industrial (estylo jornalistico): Para o actor Santos... Mas para quê? Para levar para o Porto! Para usar. Para trazer na cabeça. Para ser o seu chapéu! O seu chapéu!... E as vozes do povo ao longe, repercutiam em écco: O seu chapéu!!! Teem quasi sempre os artistas de excepcional vocação o seu tic de originalidade. Fallou-se sempre em França das gollas de Frederic Lemaitre e das gravatas de Lafont; porque deixaríamos de fallar do chapéu de Santos? É um typo. Um verdadeiro typo meridional, ardente, que convém para theatro. Grandes olhos, grande franzir de sobrancelhas, encrespando-as como Júpiter e abalando o mundo. Nariz largo e expressivo: tez bronzeada...
As ladies, quando elle esteve em Inglaterra, perguntavam sensivelmente desmaiadas o que significava aquelle typo… No theatro até os banqueiros o examinavam, e os porteiros deitavam-lhe o occulo… Foi de uma vez tirar o retrato a um photographo, e d'alli em diante viu-se grego com o artista, porque o homem tinha tanta venda aos retratos do moço, que o queria escripturar, não para o ver representar, mas para lhe tirar clichés! Em Paris deu-se com elle igual caso memorando. Deixára ficar o retrato n'um photographo (andava sempre a tirar retratos em successivas edições, que se esgotavam rapidamente, como dizem os editores nas folhas publicas) e estivera seis dias sem o ir buscar. Ao setimo dia foi o photographo procurl-o: Meu senhor... Viva!
O sr. é o cavalheiro que ha seis dias foi a minha casa tirar o seu retrato... Exactamente. E que não voltou? E que não voltou; sou eu. Faz empenho no seu retrato? Como, se faço empenho? Se o estima, se o deseja, se sempre quer ficar com elle? De certo. Por ter muito que fazer é que não fui lá estes dias. É porque, proseguiu o photographo n’um tom de embaraço, ha alguém que deseja vivamente compral-o... Ah! As mulheres! exclamou Santos, desdenhoso, e enfastiado. Estou farto de me deixar amar, sr. photographo, é preciso pôr ponto n'isto! D'esta vez não é mulher. Não é mulher?! Não, senhor. É homem?!!! É estallajadeiro. Ah! Isso é outra coisa! Mas, em todo o caso, que empenho pode ter de me possuir em effigie um honesto locandeiro, locandeiro, digâmos, que nem me conhece? Deseja pol-o na parede, do lado da rua..., por cima da porta... Que diacho...?
Sim, senhor. Elle é o dono da estallagem, bem conhecida até nos romances e nos melodramas, chamada a Tête-noire! Ah! A Téte-noire! Já percebo! Já percebe? Já percebo. Quer-me para symbolo!... Santos, emquanto estava na edade das aspirações, do culto pelo bello, da nobre ambição, que constitue os dotes de enthusiasmo e de fé sem os quaes nenhuma alma de artista ousa atrever-se aos voos do génio, foi um mancebo feliz. Seguia a sua vocação, ia atraz da sua estrella, conquistava o bem a que aspirava, sem preoccupações, sem inimisades, sem as invejas e os despeitos que o tempo levanta sempre de algum lado a perseguirem quem tiver talento.
Era um actor de bons dotes, imaginoso, quente, audaz. Assim o era e assim lho diziam. De uma occasião em diante principiaram a dizer-lhe mais alguma coisa: que era um actor sublime. Isso pesou-lhe. Ha poucas coisas tão incommodas como um homem achar-se de um dia para outro armado em divindade. O sublime deve ser sempre uma aspiração; nunca um emprego. Em que se emprega o senhor? Em ser sublime. É mau. Diz um provérbio árabe: Deus te defenda de realisares o teu ideal. Grande e triste verdade. Santos entristeceu, desde que realisou o seu ideal. Chegar a ter todas as immunidades, todos os direitos; ser o grande sacerdote, o pontífice theatral do verbo novo; não poder enganar-se, nem agradecer os conselhos dos seres secundários que gravitem no espaço inferior; não ser elle que mude de systema, serem as coisas que mudem em redor d' elle; tornar-se para elle a critica um attentado, e a opposição um crime; infallivel, impeccavel, infinitamente perfeito, Messias do que se aprende de cor, cercado de jornaes a tocarem trombeta e a dizerem d'elle todos os dias o que não dizem uma vez por anno de Garrett nem de Herculano...
É um encargo, e uma semsaboria. Se elle fosse um piegas, tinha ficado contentissimo; mas ao contrario, data d'então uma indiferença altiva e melancholica, um desdém e desapego a tudo. Natureza de artista, que a tem mais que nenhum em Portugal, quiz ainda fundar como que uma arte nova. O que resta d'essas ambições? Tentativas, que teem a marca dos esforços e dos desvios de uma individualidade, que foi servir de modelo absoluto para o gosto, para a dicção, para a forma, e que, se não poude conseguir fazer artistas, fez uma aluvião de exemplares de si próprio em ponto pequeno, um rancho de santinhos, que, á falta do talento de Santos, aspiram a ter a volubilidade da sua declamação e a grandiosidade dos colletes d'elle. Não seria fácil indicar por um só termo que marque um género, uma especialidade, um temperamento, uma physionomia, a indole característica d’este artista. Já vão a afastar-se d'elle os annos de Cherubim, e entretanto vêmol-o muitas vezes ingénuo e namorado a dar idéa pelo sentimento, pela sinceridade, pelo enthusiasmo, d'essa edade da vida que escalda o sangue e o coração». In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

Os Teatros de Lisboa. Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «Ventura, Victorino, Tasso, Vianna, Lisboa… Este ultimo era mais do que alto, era gigante. Imaginem a sr.ª Tallassi, esbelta na scena, merecedora de um namorado que arrancasse arvores…»

jdact

NOTA: De acordo com o original

«(…) Tive pena sincera de ver o espectáculo d'aquella angustia. Fora em Portugal a mais considerada, e mais respeitada artista, e custava-lhe a entrar para a multidão depois de haver sido in illo tempore o assombro d'ella. É comprehensivel esta magua; mais que comprehensivel, respeitável: mas respeitável nem sempre quer dizer attendivel, e, apesar de estarmos no paiz das reconsiderações, não intendeu nenhum commissario régio reconsiderar sobre o caso, fundando-se em que também o tempo não queria reconsiderar remoçando-a outra vez. O peor é que, apezar dos defeitos da sr.ª Talassi, as actrizes que apparecem agora nem d'esses defeitos são capazes! Pelo género, pelas predilecções, pelas qualidades, e até pelos deffeitos, foi a actriz do seu tempo; foi-o também por outra circumstancia ainda, pela estatura. Os artistas eram quasi todos grandes n’esse tempo. Theodorico velho. Theodorico sobrinho, que é esse que ainda hoje ahi temos.
Ventura, Victorino, Tasso, Vianna, Lisboa… Este ultimo era mais do que alto, era gigante. Imaginem a sr.ª Tallassi, esbelta na scena, merecedora de um namorado que arrancasse arvores e usasse, como Pichrocolo, de um homem em ar de bengala, imaginem-a em scenas amorosas com um heroe miúdo, que em possança e dotes phisicos lhe fosse notavelmente inferior! Já tenho ouvido contar aos que teem experiência d'essas coisas por sua vida aventurosa e prendas bem fadadas, que na vida real são os contrastes o maior encanto: adoram os velhos a juventude, homem forte quer noiva franzininha, e as viragos teem o mais doce fraco por homens delicados e airosos… Mas no theatro, não. No theatro é tudo armado á óptica.
Imaginem-a soberba e magnifica, ancha, espectaculosa, mulher de apparato e de enormes feitos, ser raptada n'um incêndio e levada em braços por algum dos actores de hoje, gente pequena, de maior fôlego que presença, por exemplo Santos que não é o que se chama miudinho, que não se parece com o delicadinho d'Évora, mas que tem sem duvida maior cabelleira que estatura. O que não quer dizer que não tenha maior chapéu ainda..., do que cabelleira! Ah! Mas... Mas, se fallâmos em chapéu, também não posso parar aqui! Seria injustiça. Quando o traje dos heroes é característico, adquire vulto como o personagem. A niza de briche de Frederico da Prússia... A redingote grise de Napoleão... O chapéu de Santos... Vamos á parte histórica. Venham factos: De uma occasião, ha poucos mezes... Vi sobre o balcão da loja do Roxo, ao Rocio, um objecto de proporções incalculáveis, tendo até certo ponto, ou, para que digamos melhor, tendo de certo ponto... para diante, as formas de um chapéu.
Do mesmo modo que Paulo Plantier tem por cima das portas da sua relojoaria um relógio enorme, em symbolo e distinctivo do estabelecimento, cuidei também que fosse destinado a pôr-se á porta, na altura de um lampeão, como annuncio da chapellaria, aquelle chapéu formidoloso. Ia a juntar-se gente, parava sempre alli quem passava, e eu não pude resistir á tentação de entrar, levando commigo para dentro da loja outro amigo—para vermos o chapéu juntos, porque eu sósinho... não podia. Uma vez encostados nós dois, dando-nos mutuo auxilio e incitando-nos reciprocamente a este commettimento de proporções de chaldeu, exclamámos juntos, exactamente como as Marchisio exclamavam tudo, isto é, em duetto, porque isolada a voz de qualquer d'ellas não tinha a força sufficiente para as grandes phrases: Que chapéu!... O povo á porta exclamava também: Que chapéu!... O chefe do movimento n'aquella chapelaria acreditada é um homem loiro, fleugmatico. Olhava-nos sorrindo serenamente, e parecia disfructar in petto a surpresa e o pasmo da turba. Novamente nós repetíamos: Que chapéu !! E a multídão, accrescentada a todo o instante por novos transeuntes, repetia por sua vez: Que chapéu!!!» In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

quarta-feira, 4 de março de 2015

Os Teatros de Lisboa. Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «Encontrando-a um dia no Rocio, logo depois da lei da reforma a haver afastado do theatro, e suppondo que ella própria estimaria isso, dei-lhe os parabéns de estar livre do tablado. As lagrimas que lhe rebentaram espontâneas…»

jdact

NOTA: De acordo com o original

«(…) Activo, laborioso, perspicaz, ninguém venceu ainda com maior denodo os mil embaraços que a todo o momento se levantam no palco e na sala de um theatro lyrico. Conhecendo o publico e os artistas, sabendo entreter ambos, e alcançar de ambos quanto queria, amável, cortez, engraçadíssimo, obtinha da primadonna uma opera a mais, do tenor uma opera a menos (para a dar ao outro e contental-o) sem empregar para isso senão o seu modo jovial, communicativo, que desarma pelo chiste e pelo tom irresistivel e attrahente de mocidade. Valdez foi durante annos o typo curiosíssimo do empresário cavalheiro e rapaz; gostando de musica, de boa mesa, de bons vinhos, de conversação, de alegria; gostando de viver emfim, e sabendo como se vive, sem egoismo, sem vistas mesquinhas, rasgadamente; tendo amigos, gostando de os ter, e merecendo tel-os. Como empresário conseguiu saber-se entender com o governo, com o Estado, com o publico, com a nação no que ella tem mais intelligente e distincto entre os seus membros, e foi sempre o representante do S. Carlos antigo, theatro aristocrático e estróina. Foi o Medicis do theatro lyrico em Portugal!

D. Maria
Mal fadado. Abriu para fechar: primeira ratice! Em 49, no dia dos anos do sr. D. Fernando, que ainda não era rei artista, mas que era rei bom homem, sempre prompto para aturar qualquer representação de principio ao fim, em companhia da sua famiha, com vivas demonstrações de agrado, inauguroú-se o theatro, dando a traducção de uma peça franceza, O sr. de Dumbiky, que levou a mais formidolosa pateada por entre todo o regosijo d'aquella noite de gala, pateada que foi a única coisa que se ouviu bem, porque do que os actores disseram pouco se percebeu, queixando-se por isso o publico e a imprensa de que o theatro não era acústico.
Fecharam-o no dia immediato, fizèram-lhe novas obras, pozeram aqui, tiraram alli, ficou peor, e abriu com o Magriço, drama histórico de outro, de outro magriço, chamado Aguiar Loureiro, um litterato que rebentou como um cogumello considerado venenoso, e não se deixando saborear, a poder dos abrimentos de bocca que suscitava. Refrescaram aquelle caso com os Dois renegados, do sr. Mendes Leal, que foi por muito tempo o drama de salvação para onde appellavam as jangadas theatraes. Cantou ainda a xácara a sr.ª Tallassi e foi como que o despedir do palco para essa actriz que havia sido a Mademoiselle George de Portugal. Mulher esbelta, formosa em tempos a que o meu olhar nunca alcançou, instruida o sufficiente para não escalavrar o estilo aos auctores, dando-se o chic de arranhar o seu bocado de francez, prenda n'essas epochas mui citada, traduzindo uma comedia ou outra nem melhor nem peor do que sempre em geral por cá se fez, e ostentando uma reputação de virtude que chegava para a companhia toda, a não querer aspirar ao premio Montyon. As famílias indicavam-a a dedo; e diziam com veneração: É uma senhora.
Isto queria dizer que não mudava de amante como quem muda de luvas, e que fazia gosto em dar um exemplo ao mundo de que também no tablado pode haver Lucrecias. O que tornava ainda mais pesada a idéa d'aquella virtude famosa, era o tom em que a actriz declamava; antiga escola, escola da cantilena, do sublinhar de intenções, dos grandes tons, e grandes geitos e tregeitos. Tudo affectado, assoprado, maneirado, tudo grandiloquo, tudo magestatico!... Não cheguei a poder formar idéa clara do talento d'esta artista; isto é, já ella não representava os seus verdadeiros papeis, quando a vi; e n'esses em que ainda cheguei a vêl-a, os Dois Renegados por exemplo, tinha de combater a edade, a estatura, a nutrição, e de sujeitar tudo isso a parecer-se com uma donzella de dezeseis annos, apaixonada, terníssima, ideal, toda suspiros, ais d'amor, bailadas, delirios...

Morte e affronta ao assassino,
Morte e affronta ao renegado!

Era difficil... E oxalá fora impossível! Isto não impede, e folgo de lhe render esse tributo de justiça, que ella de uma occasião me haja produzido uma impressão profunda e commovente. Encontrando-a um dia no Rocio, logo depois da lei da reforma a haver afastado do theatro, e suppondo que ella própria estimaria isso, dei-lhe os parabéns de estar livre do tablado. As lagrimas que lhe rebentaram espontaneas e copiosas, fizeram-me comprehender toda a singularidade da exasperação dolorosa de uma artista, que sobrevive a si própria, passeando pela cidade. A morte parecer-lhe-hia pouco, em comparação de similhante desgraça: ao menos, ao seu tumulo iriam lançar-lhe corôas». In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

Os Teatros de Lisboa. Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «O que querem os senhores?, perguntava-lhes elle. Estão fartos da Norma, da Somnamhula, da Favorita, da Africana, dos Huguenotes: desconfio que estão a appetecer o Eurico! Estamos, sim! dizia-lhe a imprensa e a platéa…»

jdact

NOTA: De acordo com o original

«(…) Perguntam-me se tem virtudes? De certo as tem. Excellente moço, excelente filho, e muito bom musico. Mas, não acima de tudo isto, porém a par de tudo isto, muito bom brincalhão, o que quer dizer um brincalhão infernal, inaturavel ás vezes. Que alegria permanente, que humor caçoísta! Em elle me encontrando na rua já finge evitar-me, corta para o lado opposto de repente, volta ainda, torna a ir, vem de tombo cair sobre mim, pede mil desculpas, mette-me o braço, e diz-me placidamente se é no verão: É o primeiro dia de calor que faz este anno! Ou, se é de inverno: É o primeiro dia de frio que temos! Depois, mesmo de braço dado commigo, não perde de vista os que vão e vêem. Finge que escorrega sobre um, faz como se estivesse preso por um botão ao chaile de uma senhora, larga a mostrar-me nem elle sabe o quê, apontando para um quarto andar; e d'alli a nada toda a gente principia a olhar também para o quarto andar...
Todos riem, todos lhe acham graça, todos gostam d'elle, e ha deveras razão para isso porque ninguém fica triste na sua companhia. Elle aproveita essa occasião para fallar serio por três minutos, e quando todos lhe prestam a attenção mais profunda, salta elle no collete de um amigo que por alli passa e grita-lhe fulminantemente: A minha cadeia e o meu relógio!... Oh!... Até que os encontrei!... Eu tenho medo d'elle como de apanhar sol... E entretanto, em se estando tempo sem o vêr, ou em os jornaes dando noticia de que a atroz, barbara gotta, o está pregando á cama, todos nós volvemos um pensamento de saudade ás alegres estroinices, infantis, innocentes, d'esse moço, que se distinguiu sempre pelo seu merecimento, e por um chic especial de graça e folia.
Folia, que parecia dever empallidecer na presença da alegria ruidosa, communicativa, do mais agradável e espirituoso companheiro que pôde achar-se, hoje rotundo, mas sempre gentil, gordo e ágil, bem nutrido e bem posto, feições de uma frescura, de uma quasi meninice immorredoura, perna curta, arqueada, e forte, hombro intrépido, barriga de banqueiro elegante, cores sadias, pequenino bigode á Gherubim, meio anjo meio Artagnan, um elegante enxertado em empresário, esperto, lesto, vivo, audaz: Valdez. Ah! Cuido ainda estar a vel-o nos tempos em que elle se apeava de um cavallorio immenso á porta da Eschola Polytechnica! Um pequenito armado em cabo de esquadra; fardeta apurada, golla a estoirar-lhe o pescoço atochado e curto ; baixinho, buliçoso, e vivaz; rosto de feições delicadas, regularissimas, pelle fresca e rosada, olhos de extrema sagacidade... O nome illustre da sua familia, e a graça que em todo elle respirava, ganharam-lhe facilmente entrada segura no mundo. Tinha a seu favor mil coisas. Era moço. Bem parecido. Bem educado. Intelligente. E... rico. De todos os talentos, este ultimo, sempre o melhor.
Estudava o seu primeiro anno de mathematica de manha, e cursava o Marrare pelo dia adiante. Como o fadara Deus com uma delicada aptidão para a musica, principiou a ser dilletante, accumulando as distincções de grande amador ao piano, e entendedor de arte e de artistas no theatro. Um pequenóte terrível! Tocava piano com extremo gosto, sentia e expressava a musica dos mestres ; protegia ou anniquillava as celebridades de S. Carlos. Foi o anjo da guarda de Nery Baraldi, e da Tedesco! Capitaneava janotas, era o heroe da platéa, fazia artistas como Warvich fazia reis. Foi-lhe apparecendo o buço n'estas lides. Conhecido em Alcácer pela sua familia, foi sempre tratado alli como o menino bonito, o herdeiro, o fidalgo, o menino Campos. Em Lisboa, o menino Campos, freguez por excellencia do Marrare, e terror do theatro lyrico, era o sr. Valdez.
Com os annos, com a experiência, com o desenvolvimento no trato da vida, foi passando a Campos Valdez, e fez-se empresário. Desde esse dia, representou sempre a boa administração theatral nas suas relações com a arte e o gosto. Ninguém como elle, para arranjar e accommodar as difficuldades, os embaraços, as dissenções, que ha sempre entre empresa e artistas. O publico não sabia nunca d'essas combinações, e via só o resultado ; que importa de que modo é feito o guisado, em o jantar sendo bom? Cedendo nos pontos secundários, inflexível nas grandes luctas. Não concedendo de mais ás exigências do publico, nem ás comodidades dos artistas, e andando sempre entre uns e outros ora como um advogado, ora como um dilletante. Conhecendo perfeitamente que era preciso de vez emquando lembrar-se de que a multidão não gosta de correr sempre para o sublime, e teima de vez emquando com alguma pretenção prudhommesca. O que querem os senhores?, perguntava-lhes elle. Estão fartos da Norma, da Somnamhula, da Favorita, da Africana, dos Huguenotes: desconfio que estão a appetecer o Eurico! Estamos, sim! dizia-lhe a imprensa e a platéa. Pois vamos a elle. E dava-lh'o; dava-lh'o para não lh'o pedirem mais». In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Os Teatros de Lisboa. Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «E estendeu as pernas... N’esse instante invadiu-lhe o corpo todo uma sensação desagradabilissima. Entornára-se-lhe nos pés um alguidarinho cheio de agua, e ia já a chegar-lhe aos quadris proporcionando-lhe um banhosito glacial»

Bombeiro Guilherme Cossoul
jdact

NOTA: De acordo com o original

«(…) Depois, fóra do theatro, ia sendo bombeiro, e, ainda mais que bombeiro, bombista!..., isto é, brincalhão, farcista, trocista, cassoista! Um Vivier, sem a trompa. E isto apesar do trabalho, da seriedade, e até da gotta, de que elle não soffre pouco. Ha casos em que sempre se tem medo d’elle como do diabo, por seus artifícios e malefícios. A poder de phantasias e ratices chega a attingir por vezes aos olhos da boa gente proporções phantasticas...
Dir-se-hia que tem pés de gancho, e que exhala de toda sua pessoa um cheiro de enxofre... Póde ser a alegria das creanças, mas não é o socego dos paes. Os menos prudentes, tão depressa o vêem apparecer, tomam desde logo precauções injuriosas. Se é no campo e se elle vae estar de hospede na mesma casa em que estejamos, tem uma pessoa todas as noites de visitar o quarto, abaixar-se, ver bem por baixo da cama, remexer os moveis, sondar as paredes, tapar o buraco da fechadura, dar tres voltas á chave e guardal-a segura. E apesar d’este luxo de precauções ainda se fica inquieto...
Se elle por ahi apparecesse... - Não; não pode ser! - Entretanto está uma pessoa assustada, como Ulysses quando ouviu rebolar o rochedo com que Polyphemo lhe fechou a caverna... Principiam sempre as hostilidades quando os convivas, munidos cada um com a competente palmatória e vela de stearina, vão tranquilamente para os seus quartos. Cahe de repente em cima d’elles uma chuva de travesseiros e de almofadinhas, que apaga de repente as luzes. Pragas de um lado, risota do outro, lá se accende a luz outra vez; e cada um, instruído já pela experiência, vae de degrau em degrau abrigando a chamma com mão protectora...
Em se estando deitado, misericórdia divina!, recomeçam as estrepolias com uma insistência de que não ha precedente na historia dos povos. O armário dos irmãos Davenport era menos complicado do que as peças que prega a todos este gaiato mor do paiz. Desgraçado de quem não tiver cautella com elle. Está perdido. De varias occasiões, nas Caldas da Rainha, onde elle se achava a fingir que tratava da sua gotta impertinente, fez coisas incriveis a homens pacificos, incapazes de suspeitarem que elle armasse laços de tal ordem á sua inexperiência.
Uns ficavam sem sopa, outros ao recolher do Club encontravam-se sem a chave do trinco, e tinham de arrombar a porta, ou de ir pedir, á uma hora da noite, uma escada para trepar e entrarem pela janella... No meio de uma noitada de folia e de risota, quando o nosso commum amigo P... que o havia acompanhado áquella excellenle villa para tratar de uns padecimentos rheumaticos que ás vezes o entreteem menos agradavelmente do que poderia ser, ia deitar- se, promettendo a si próprio dormir emfim umas poucas de horas socegado, o nosso homem metteu-lhe um castiçal nas mãos, e disse-lhe com expressões cortezes, porém maliciosas, que lhe desejava uma feliz noite acompanhada de sonhos suaves e propicios...
Levou a sollicitude a um ponto, que se tornaria suspeito a um espirito de menos lealdade e boa fé do que o do nosso amigo P. Elle não, achou tudo naturalissimo, e a sua extrema confiança o perdeu. Despiu-se devagar, como quem saboreia antecipadamente as delicias do repouso. Pendurou o fato nas costas da cadeira. Assoprou a luz. Metteu-se pela cama dentro. Sem se estender todavia, para concentrar o calor do corpo n’um espaço menor. - Ah!, dizia entre si. Quanto é agradável! Doce e benéfica invenção da cama! Não é homem de juízo, o que não souber apreciar este bem! Lá o diz o árabe: É melhor estar sentado que em pé, é melhor estar deitado que sentado!... E todo elle era satisfação.
Em seguida, por ir a dar-lhe o somno, e já disposto a cerrar definitivamente as pálpebras, procurou a attitude em que deveria encontrar-se de manhã ao acordar. E estendeu as pernas... N’esse instante invadiu-lhe o corpo todo uma sensação desagradabilissima. Entornára-se-lhe nos pés um alguidarinho cheio de agua, e ia já a chegar-lhe aos quadris proporcionando-lhe um banhosito glacial.
Saltou para o chão, aos berros; acudiram-lhe; e o rumor publico accusou o nosso heroe de ter a culpa d’esta vasta historia, emquanto o pobre amigo, a praguejar contra a sorte e contra os humanos, levou a noite a tiritar num canapé!» In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

Os Teatros de Lisboa. Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «Guilherme Cossoul nem dava por estas coisas. Qual! Ia regendo a orchestra. Ia ensaiando os cantores. Ia trabalhando. Gravemente. Austeramente…»

Guilherme Cossoul
jdact

NOTA: De acordo com o original

«(…) Hoje lá está em Catanea director do Conservatório. Chamáram-o d’alli os seus amigos e uma irmã que tinha. A irmã offereceu-lhe a casa e os bens que possue; Coppolla não tinha nada, era um philosopho, gastava o que tinha no jogo e nos amores. A irmã exigiu-lhe como única condição que casasse com a mulher com quem vivia, e que a levasse para lá com os filhos. Isto ia dando com elle em doido. - Casar-me aos sessenta annos! Que idea! Com uma mulher que eu conheço tanto!... Não posso!... Sempre poude. Casou, partiu. Lá está para Catanea.
O outro director da orchestra, Guilherme Cossoul, dava em applicação, em assiduidade, em attenção e em paciência quanto bastasse por dois. Eram-lhe incumbidas as operas difficeis, que requeressem grande numero de ensaios e aquella dedicação e perseverança que não quer ser paga n’outra moeda senão a gloria de agradar e de vencer. O publico teve sempre confiança nas operas dirigidas por Cossoul; e os cantores iam para a scena com esperança e fé, em elle estando de poleiro no meio dos músicos, ou antes por cima d’elles, no seu estrado de honra. Quando se interessava por alguma artista, fazia taes prodígios com a batuta, que a maior parte da gente incapaz de comprehender a paixão da arte julgava-o namorado. Foi assim que se espalhou que elle ia casar ora com uma prima-donna, ora com outra, c, em cada anno lhe attribuiram noiva, até que a ultima cortou a legenda no melhor do boato, a cantora Harris, Miss Harris; para que dizermos mademoiselle sendo ella ingleza?, que foi por um anno o acontecimento great attraction. A sua voz e a sua pessoa dominavam egualmente o publico. Cantava com agilidade prodigiosa, e os médicos do theatro andavam muito inquietos para averiguar se ella tinha a Patti na garganta. Que edade? Os calumniadores davam-lhe vinte annos. Mas, linha deseseis, creio eu: tinha-os porque os parecia ter. Deseseis anos! Os egypcios gostavam muito d’este numero, e fizeram d’elle emblema de voluptuosidade na sua escripta hierogliphica: nós apezar de portuguezes e de vivermos debaixo do regimen da Carta Constitucional, mostrámo-nos n’isso da mesma opinião exactamente dos sacerdotes d’Isis, contemporaneos de qualquer pharaó mais ou menos Nekau, e saudámos a juventude de miss Harris como quem sauda o sol.
É muito bom, pois então que pensam?, muito bom ter grande agilidade de canto, servir-se de uma voz educadissima como do melhor instrumento que possa ouvir-se, não fazer senão difficuldades de professora, e ter dentes, cabellos, andar sem um pausinho, e poder pôr-se de joelhos em scena sempre que seja necessário, sem virem dois moços ajudal-a a levantar. De ordinário quando as primas donnas chegam a cantar com esta perfeição podem ainda comparal-as quanto quizerem a rouxinoes, mas já lá fica ao longe a primavera!
Foi todavia rápido, momentaneo, o triumpho para com esta cantora. No segundo anno ninguém deu por ella, e fez-se gosto em a desgostar do publico. Ella então, dir-se-hia a vendetta corsa, voltou as costas ao theatro, mandou chamar o rabbino e casou com um cavalheiro israelita que costumava ir namoral-a da platéa. Guilherme Cossoul nem dava por estas coisas. Qual! Ia regendo a orchestra. Ia ensaiando os cantores. Ia trabalhando. Gravemente. Austeramente. Diziam esses excellentes italianos, ponderando a sua seriedade: - Quanto é de sisudo! - É um modelo! -Tão moço, e já sem se rir!» In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

Os Teatros de Lisboa. Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «O que era então, e de que provinha essa melancholia incurável? Fugira-lhe o talento? Perdera o dom? Não produzia já porventura a si próprio o effeito que produzia ainda nos outros?»

Coppolla
jdact

NOTA: De acordo com o original

«(…) Beneventano tinha por entre os seus ridículos, um talento de artista. Era estapafúrdio, era affectado, fazia jogo de attitudes para qualquer coisa, mãos para o ar como quem desafia os elementos; braço esquerdo erguido como quem conjura; corpo dobrado e mãos para o chão como quem se espoja em caturreira trágica… Entretanto, o diabo do homem, poseur ou não poseur, era um artista. Ninguém lhe era superior no Moysés, na Semiramis, no canto ornado. Um homem profundamente irónico, desdenhoso, que mettia tudo á bulha, e que respeitava poucas vezes alguém ou alguma coisa, disse-me d’elle uma vez: - Não se pode ser tão charlatão de teatro sem fazer do canto o que elle faz, nem se pode fazer tanto em musica sem ser charlatão! É inevitável. Este homem era Coppolla. O famoso Coppolla, que durante muitos anos regeu a orchestra de S. Carlos, um dos raros de quem pode escrever-se a palavra Maestro sem a penna espirrar… nem o nariz do leitor, com o riso, o que nem sempre acontece a respeito de alguns dos maestros que por ahi lemos quasi sem dar por isso, e cuja existência e prendas os reclamos dos jornaes, mais do que suas obras, affirmam.
Coppolla parecia no ultimo tempo sobreviver a si próprio e passeiar por Lisboa a sua indiferença e o seu não se me dá!, como se lhe estivesse ausente a alma. Entrar na multidão depois de haver sido um nome, e perder- se na turba como se nunca tivesse sido nem illustre nem famoso: deixar apagar a inspiração no cérebro e a aureola na fronte, passar ao lado de todos, pelo meio de todos, egual a todos: ter sido illustre e querer ser ninguém, parecia o intento d’este talento desiludido da vida e da gloria. Jamais alguém o desdenhara, nem fora injusto para com elle; não devia sangrar-lhe o coração pela ingratidão do publico, ao ponto de ter de revoltar-se e de protestar; a Sannazáro reverdecera a Nina, a Borghi suspirara-a entre applausos. Não houvera affronta; não cumpria esperar o dia da reparação; a empresa de S. Carlos considerava-o muito; os seus amigos nunca deixaram de se sorrir para elle e de apertar-lhe a mão em o encontrando.
O que era então, e de que provinha essa melancholia incurável? Fugira-lhe o talento? Perdera o dom? Não produzia já porventura a si próprio o effeito que produzia ainda nos outros? Ha estrellas fixas, cuja luz leva milhares de annos primeiro que chegue até nós, e a que não poderia observar-se daqui o escurecer senão em centenas de séculos. Quem sabe se uma d’essas estrellinhas que a gente admira nas noites serenas não haveria sido arrancada do pavilhão celeste pela mão mysteriosa, no dia da creação do nosso globo…
Ainda o olhar se deslumbra ao vel-o; mas o pobre astro caído lá sabe, de si para si, que lhe tiraram a coroa, e vae indo aos tropeções, opaco e triste, para o fundo turvo da humanidade... Assim eu cuidei muitas vezes quando o via no theatro, nas ruas, na casa Podestá, se succedia encontrarmo-nos á mesa d’essa amável família, assim eu cuidei ao observar o modo vago e distrahido d’elle, os ares de absorto n’uma idea, ou de indifferente ao deixal-a fugir-lhe, que, guardadas as proporções de um sol a uma cabeça, fosse esta a historia do talento de Coppolla.
Uma occasião apenas, ao cantar-se em S. Carlos o Stabat Mater, em que uma das Marchisios, a Carlota, tão extraordinária, tão prodigiosa foi, elle pareceu accordar com aquella musica; de tudo o que escreveu Rossini o mais sublime e superior voo do seu génio. Era natural! Haviam sido amigos, os dois maestros, vivendo annos em boa intimidade artistica; o auctor do Barbeiro estimara sempre muito a Nina, preoccupára-se em querer saber como fora que tinha vindo aquella idea a Coppolla; haviam estado na fama pela mesma época; e, pelo mesmo tempo depois, se haviam calado; Rossini permanecendo sereno, descuidoso, ironico, no centro d’aquelle pandemonio de Paris, sem querer compor senão algum prato rossiniano, elle de quem se fallára tanto como de Napoleão, elle o primeiro dos artistas vivos, deus moderno que se enfastiara das honrarias, da gloria, dos triumphos, rindo-se de tudo menos do prazer da mesa: Coppolla, ficando em Portugal numa existência nómada, da rua do Alecrim para as Larangeiras, das Larangeiras para o Farrobo, convivendo com os artistas, entretendo as noites no theatro, ou em reuniões, não escrevendo nunca, não pensando em si, não tolerando quasi que lhe falassem d’elle!» In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

Os Teatros de Lisboa. Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «Temos o paletó D’Orsay, assim chamado por haver sido o famoso conde que lhe deu nomeada! É amplo, é soberbo, mas tem o forro pesado de mais. Não lhe convém talvez… Eu ia fallar…»

Il nostro sympathico
jdact

NOTA: De acordo com o original

«(…) De uma occasião, intendeu talvez que isso não era bastante, e recorreu a um expediente curioso. Em nos encontrando no Passeio Publico, eu sosinho ou com algum amigo, elle com sua mulher, uma ingleza enxertada em italiana, baixinha, branca, brilhante, e em numerosa companhia ás vezes de artistas ou de diletanti, que se recreavam em fazer com elle a passeggiata; em nos encontrando, já elle dizia para o seu rancho, indicando-me bizarramente á sua illustre comitiva: il nostro sympathico! Eu fazia-me corado, ficava sem saber se devia tirar o chapéu a agradecer, e ia seguindo o meu caminho n’uma vaidosa perturbação. D’alli a dois dias, viamo-nos outra vez, e, sem comprimento, sem paragem, sem mais tir’te nem guard’te, Beneventano deixava cair magestaticamente de seus sublimes lábios estas palavras, meu enlevo e minha gloria: il nostro sympathico! Eu tinha vinte annos; e, quando elle me disparava esta amabilidade á queima-roupa, deitava umas olhadelas á mulher, que era lindissima, em que se me iam os vinte annos todos.
No dia de um folhetim a propósito da Semiramis, o plumoso…, não, o encasacado cantor, foi a minha casa. Grande conversação, grandes shake-hands, e brava, e mille grazzie, e tanto gentile; ficámos com uma amisade de pedra e cal. N’uma tarde húmida d’esse inverno, estando em sua casa e querendo vir para a minha, oppôz-se elle galhardamente. – Jante comnosco! - Hoje não pôde ser. - Pode, sim. - Não pode, não. E, quando ia a despedir-me: - Meu caro Machado, repare que está choviscando! - Não tem duvida. - Vem sem paletó, e eu não consinto que saia d’esse modo! Na minha vasta guarda-roupa, e bem deve saber até que ponto o barão Beneventano leva o capricho e a novidade nas toilettes!, ha mais de um sobretudo, que deva convir-lhe. E, mettendo-me o braço e levando-me pelas casas dentro, o galantuommo ia dizendo: - Temos o paletó D’Orsay, assim chamado por haver sido o famoso conde que lhe deu nomeada! É amplo, é soberbo, mas tem o forro pesado de mais. Não lhe convém talvez… Eu ia fallar.
 - Temos o elegantissimo brummell, paletó para de dia, tirando o nome do nunca esquecido Georges Bryan Brummell, rival em gloria dos Lausun e dos Grammont… Eu queria dizer uma coisa. - Temos o paletó Galles, o que ha de mais distincto, o sobretudo predilecto do principe Georges IV… Casimira branca, botões grandes de seda, cintura marcada… Este é que ha de ser. E tirava-o do cabide, e vestia-m’o, ao pronunciar taes fallas. O paletó era enorme para mim. Dava-me a cintura no sitio em que as costas mudam de nome... Um pouco vexado, um pouco indeciso, não tive remédio senão acceitar, e sair.
Na escada despi-o logo, e, com elle no braço, fui para o Chiado. A chuva apertara mais, recolhi-me na loja de papel do Pereira, onde estavam recolhidos também uns poucos de homens mais ou menos meus conhecidos. D’alli a pouco, quem ha de passar? Beneventano. Beneventano, que, ao ver-me, entra na loja, e vivamente surprehendido me diz: - Como! Machado! Despiu-o!!! - Para o não estragar!, respondi eu balbuciando. - Qual estragar! E elle ahi m’o veste outra vez, diante d’aquella gente toda, que sustinha difficilmente o riso ao ver-me mettido n’aquella galèreIn Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

sexta-feira, 1 de março de 2013

Os Teatros de Lisboa: Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «O mais pantafassudamente original de quantos artistas teem pisado aquelle palco glorioso, foi decerto “Beneventano”, il cavaliére de Beneventano! Um galant’uommo, como se diz em Itália»

De Giuli-Borsi
jdact

NOTA: De acordo com o original

«Lisboa, que tem memoria rebelde e que ás vezes leva quinze annos a aprender um nome de que depois se esquece em seis mezes, tem retido estas tres syllabas que durante seis annos tantas vezes soaram entre nós - Mongini. O artista privilegiado que á sua chegada a Lisboa soube luctar com todas as reminiscências do publico, vence pelas saudades, que ainda agora todos temos d'elle, os tenores que teem vindo depois. Se uns não esquecem pelo sublime, outros não esquecem… pelo ridiculo. Cuida-se ainda estar vendo a De Giuli-Borsi, alta, magra, estitica, espalmada, voz larga, bocca mais larga ainda, bocca phenomenal, que a tornou mais citada do que o talento e do que o canto desde que, uma noite da Traviata, certa família, que assistia á recita do alto de um camarote de terceira ordem, poude avistar, durante os gorgeios de uma ária, no interior do estômago da prima-donna, um perdigoto que ella comera ao jantar!
Entretanto o mais original, o mais pantafassudamente original de quantos artistas teem pisado aquelle palco glorioso, foi decerto Beneventano, il cavaliére de Beneventano! Il barone Beneventano! - Um galant’uommo, como se diz em Itália. Affabilissimo, delicadissimo, suavissimo, cantando como ninguém a musica rossiniana, il mio bravo interprete Beneventano! dizia delle Rossini, correctissimo, affectadissimo, e paspalhissimo! Beneventano era um gentleman emproado, mas era um gentleman.

Cantando, era um artista.
Andando, era um nababo.
Conversando, era um paladino.
Gesticulando, era um acrobata.
Vestindo, era uma caricatura.

E...
Vestindo, gesticulando, conversando, andando, cantando, era sempre um charlatão. Charlatão de talento, charlatão com merecimento, mas charlatão. Ares de Falstaf, com um quê de Prud’homme, outro quê de Don Quixote, e um quê também de Roberto Macário. Só um chimico poderia bem examinar de que singulares segredos se compunha aquelle macassar. Porque era um macassar! No reclame, na fama, no brilho, na suavidade, no oleoso, na importância… O sublime macassar! diz Byron no D. João. A guarda roupa d’este dio del canto era assombrosa. Tinha setenta casacos, e vinte e dois paletós. Só em colletes novos, renovava o painel das onze mil virgens!

Beneventano

O nosso conhecimento fez-se de um modo curioso. Eu escrevera muitas vezes a seu respeito dando-lhe o louvor de que era digno, mas sem a foguetada de elogios a que os artistas vivem habituados na imprensa. Os meus folhetins, e n'esse tempo eu estava só em campo, e a Revolução de Setembro era o unico jornal que tinha revista critica da semana, cahiram-lhe em graça, e constava-me, ora por um ora por outro, que o divino Beneventano me fazia as melhores ausências». In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de Livraria Editora Mattos Moreira, 1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Os Teatros de Lisboa: Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «Mongini tinha gosto pela poesia, era grande amador das letras, cultivava-as como recreio, e estimava muito os que se distinguem com talento fazendo profissão delas. Na manhã do dia em que partiu, fez versos aos seus amigos de Lisboa»

A grande Alboni
jdact

NOTA: De acordo com o original

«Aqui, dizem ellas, n'este camarim, esteve a famosa Novello, e depois a Castellan, e a Tedesco, e a Volpini, e a infeliz Pascal-Damiani que quebrou uma perna uma noite e nunca mais se levantou da cama senão para se tratar de um ataque de loucura, e a Giovanoni, e a Fricci, e a cantora por excellencia, a priveligiada, a maravilha, que o Ruas nos trouxe. Um prodígio! A voz mais argentina e fresca! Uma voz de rapaz a pairar com uma voz de rapariga… na mesma guela! A grande, a gorda, a rara Alboni!
N'aquelle, esteve a Pareppa e a Bianchi, e a Uberti, e a Dorr, e a Lablache, e a Lotti…
A força suave! O poder fácil! A delicadesa vigorosa! Nem fadiga nunca, nem esforço. Um pouco fria, diziam; mas tão elegante e tão formosa! Qual fria! Não seria um brazeiro, estamos d'accordo; mas não seriam talvez os frialões os que mais se queixavam da frieza d’ella? Os ladrões, por via de regra, são quem mais gosta de gritar Aqui d'El-rey!
N'aquelle, o segundo do lado da escada, estiveram a Gazzaniga, e a Bendacci, e a Massini, e a Carlota Marchisio, voz de soprano purissima, a Norma das feias. Quando ella appareceu em Lisboa com sua irmã Barbara, houve um quarto de hora de surpreza. Pareciam… dois homens! Dois homens feios! Dois homens feios, vestidos de mulher! Mas a voz era tão agradável ao ouvido, que… fazia fechar os olhos. Permittiu-se-lhe, á famosa Carlota, uma das maiores temeridades, sem pestanejar de pasmo. Uma noite, na Somnambula, quando menos se esperava, appareceu de loira! Este povo é muito hospitaleiro!
E a Borghi-Mamo, a voz com mais talento e com mais alma que tem acordado no nosso tempo os eccos de S. Carlos. E estremecem as velhas costureiras, como se avistassem ao longe as sombras da gloria na névoa do passado e na poeira dos camarins. Ha artistas que nunca mais esquecem. Uns, pelo sublime. Mongini, por exemplo.


Mongini que teve entre nós todas as glorias; primeiro as do amor, e no fim, por um momento, as do ódio. Nas recitas finaes da ultima estação que fez em Lisboa, Mongini recusou-se a cantar, porque a ameaça publica rugia por ahi contra elle, accusando-o de pouco amável para com Portugal, por não haver querido cantar a opera dum portuguez, O Arco de Santa Anna, de Francisco Sá Noronha. O grande tenor partiu de Lisboa como que dando a entender que não tornaríamos a ouvir aquella voz deliciosa, cuja limpidez nocturna fazia sonhar com o luar, a banhar-se no orvalho que cae em pérolas sobre as flores! Tantas festas, tanto applauso, tantos triumphos, tanto phrenesi de enthusiasmo, ahi está no que deu tudo isso, num capricho! Tudo se quebra n'este mundo; é essa uma das melancholias mais profundas da existência humana.
Por maior génio, esplendor, mocidade e gloria, que tenha um homem, lá chega a hora em os mesmos que o proclamavam inimitável teem gosto em o amargurar. Talvez assim deva ser, para que todos tenham o seu dia; e toque a cada um passar por baixo da luz que brilha, como a onda pelo rastilho do luar antes de ir perder-se na immensidade escura...
Mongini tinha gosto pela poesia; era grande amador das lettras, cultivava-as como recreio, e estimava muito os que se distinguem com talento fazendo profissão d'ellas. Na manha do dia em que partiu, fez estes versos aos seus amigos de Lisboa:

Addio agli amici
In mezzo a voi da gelide contrade
Men venni, or son sei anni sconosciuto;
Tali mi deste prove di bondate
Che ringragiai il Ciei d'esser venuto.

Ognor crescente si fu in voi l’affetto
Giammai conobbi il duol glammai l'affanno;
Voti formai d'amor, per voi nel petto
Che per andar di tempo non moranno.

Le Auguste Maestá pien di clemenza
Mi vollero onorar con distinzione,
Eterna serberó riconoscenza,
Ossequio, servitu e devozione.

Amici addio, giunto é omai l'istante
Ne so ove mi chiama il mio destino;
Che l’artista, per sua vita errante
Un limite non ha nel suo cammino.

Ma se varcassi l’Oceano intero,
Questa terra per me sacra, un sospiro
S'avrebbe dei mio cor, che dal pensiero
Imille affetti suoi non si svaniro.

Se spietata una nube di dolore
Volle offuscar tant'anni di contento,
L'abblio la sperda, per quel tanto amore
Di voi in mezzo a cui grande mi sento!

Amici miei, anche una volta addio!
Sull’ ali del pensier, vi giunga ardente
Dai patrii lidi il saluto mio
II saluto deir uom riconoscente.


Querido artista! Não consentiu a morte que elle voltasse a Portugal e que o publico lhe tornasse bem sensivel que aquelle momento de ódio á despedida ainda havia sido também, de algum modo, amor!
In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de Livraria Editora Mattos Moreira, 1874/Bordalo Pinheiro
JDACT