sábado, 21 de julho de 2018

O Último Cabalista de Lisboa. Richard Zimler. «Os seus olhos verdes calorosos, bem abertos, pareciam envolver-me. Com um trejeito divertido nos lábios, sem deixar de caminhar…»

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A descoberta do manuscrito de Berequias Zarco
«(…) Uma mágoa contida recobria o aparo da pena com que escrevia quando iniciei a narração da nossa história. Estávamos no ano hebraico de 5267, 1507 da era cristã. Egoisticamente, abandonei o manuscrito, por Deus não me ter recompensado com a tranquilidade da alma. Hoje, passados que são vinte e três anos desta magra tentativa de registar a minha busca de vingança, voltei a afagar as páginas abertas do pergaminho. O que me terá levado a romper a jura de silêncio? Ontem, por volta do meio-dia, bateram à porta, aqui, na nossa casa de Constantinopla. Mais ninguém da família se encontrava em casa e fui ver quem era. À entrada perfilava-se um jovem de pequena estatura, cabelo escuro comprido, olhos cansados, envolvido numa bela capa ibérica às riscas verdes e escarlates. Num tom hesitante, entrecortado, perguntou em português: acaso tenho a honra de falar com mestre Berequias Zarco? Assim é, meu rapaz, respondi. E tu poderás dizer-me com quem falo? Curvando-se numa vénia, respondeu: Lourenço Paiva. Cheguei agora mesmo de Lisboa e vinha com a esperança de vos encontrar.
Murmurando aquele nome para mim próprio, recordei-me ser ele o filho mais novo de uma velha amiga cristã, a lavadeira a quem tínhamos deixado a nossa casa em Lisboa, momentos antes de fugirmos daquela cidade tenebrosa há mais de duas décadas. Interrompi com um aceno a desnecessária apresentação que ainda desfiava e fi-lo entrar na nossa cozinha. Sentámo-nos nos bancos junto à janela que dava para uma roda de arbustos de alfazema e de murta no jardim. Quando perguntei pela mãe dele, entristeceu-me saber que tinha sido há pouco chamada por Deus. Numa voz melancólica mas orgulhosa ficou uns momentos a gabar-lhe as qualidades. Depois, partilhámos deliciados uma garrafita de vinho da Anatólia, enquanto me contava a sua viagem por mar desde Portugal e as suas primeiras e pasmadas impressões da capital turca. Mas a minha despreocupação havia de me deixar desprevenido para o que se seguiu: quando lhe perguntei a que devia o prazer da sua visita sacou da sua capa duas chaves de ferro pendentes de uma corrente de prata. Instantaneamente, percorreu-me um estremecimento de temor. Antes que eu pudesse falar, exibindo o radioso sorriso de um jovem oferecendo um presente a alguém mais velho, depositou as chaves nas minhas mãos e disse: se quiser voltar, mestre Berequias, tem à sua espera a sua casa de Lisboa.
Agarrei-lhe o braço para me segurar; o meu coração batia ao ritmo desta única palavra: lar. Sentia os dentes das chaves a morder-me o punho em que as tinha envolvido, abri a mão e inclinei-me para aspirar o cheiro a moeda antiga do metal. Memórias de ruas labirínticas e de olivais varriam-me de cima a baixo. Eriçavam-se-me os pêlos do pescoço e dos braços. Uma porta interior abria-se dentro de mim, dando acesso a uma visão: estava em pé do lado de fora da cancela de ferro que dava para o quintal nas traseiras da nossa velha casa de Alfama. Emoldurado pelo arco da cancela e erguendo-se no meio do quintal estava o meu tio Abraão, o meu mestre espiritual. Envolvido na sua túnica de viagem de lã inglesa de uma cor vermelho-viva, colhia limões do nosso limoeiro, cantarolando baixinho com um ar feliz. A sua pele morena, cor de canela, brilhava como ouro, como se a iluminasse a luz que precede o pôr do sol, e a mecha rebelde do seu cabelo de prata e os tufos das sobrancelhas cintilavam como por um poder mágico. Pressentindo a minha presença, suspendeu a melodia, voltou-se com um sorriso de boas-vindas e caminhou em minha direcção com o passo balanceado que normalmente só adoptava na sinagoga. Os seus olhos verdes calorosos, bem abertos, pareciam envolver-me. Com um trejeito divertido nos lábios, sem deixar de caminhar, começou a desapertar a faixa que rodeava a túnica, deixando a roupa cair sobre as lajes de ardósia que pavimentavam o quintal. Estava completamente nu, só com um xaile ritual a cobrir-lhe os ombros. Enquanto se aproximava de mim, o seu corpo começou a irradiar feixes de luz. O seu vulto tornou-se tão brilhante que os meus olhos se cobriram de lágrimas». In Richard Zimler, O Último Cabalista de Lisboa, 1996, Quetzal Editores, Lisboa, ISBN 978-972-004-491-4.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Os Anagramas de Varsóvia. Richard Zimler. «Mas há uma boa notícia: os americanos entraram na guerra. Os japoneses nos bombardearam há uma semana, segundo a BBC; tenho um amigo que possui um rádio clandestino»

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«(…) Ei!, gritou para mim. Vai acabar caindo e partindo o pescoço!Vi um reflexo de mim mesmo naqueles ombros encolhidos, naquele olhar de pânico. Ergui a mão, fazendo-lhe sinal para que esperasse onde estava, desci atabalhoadamente do telhado escadas abaixo e atravessei a rua, patinhando na lama. Lá em cima, no seu apartamento, o homem percebeu que eu não era como ele. Escancarou os olhos congestionados de vermelho, espantado, e deu um passo atrás. Olá, disse, cauteloso. Então…, então consegue ver-me?, gaguejei. O rosto dele descontraiu-se. Perfeitamente. Embora os seus contornos… Rodou a mão no ar, depois inclinou a cabeça, como quem avalia qualquer coisa. Não estão lá muito bem; um pouco indefinidos. E não tem medo de mim?, perguntei. Ná! Já tive outras visões. Além disso, você fala iídiche. Por que é que um ibbur judeu haveria de me fazer mal? Um ibbur? Um ser, que regressou da terra que fica atrás da berma do mundo.
Tinha uma maneira poética de falar, o que me agradou. Sorri de alívio; ele conseguia mesmo ver-me e ouvia-me. E me senti menos preocupado por saber que havia um nome para aquilo que eu era. Meu nome é Heniek Corben, disse-me ele. Erik Benjamin Cohen, respondi, apresentando-me como fazia quando era menino e estava na escola. É de Varsóvia?, perguntou. Sou, cresci perto do centro da cidade, na rua Bednarska. Franzindo os lábios numa expressão cómica, ele assobiou baixinho. Belo bairro! Comentou entusiasmado, mas quando a sua boca se rasgou num sorriso, vi que era uma ruína de dentes podres. Interpretando a minha careta como sinal de dor física, Heniek sentou-se. Sente-se, sente-se, Reb Yid, disse-me em tom preocupado, puxando um banco para eu me sentar à mesa da cozinha.
Aquele formalismo parecia um pouco absurdo depois de tudo o que nós, judeus, tínhamos sofrido. Por favor, trate-me por Erik, pedi-lhe. Sentei-me devagar, com receio de não encontrar um assento sólido, mas a madeira do seu banco acolheu generosamente o meu traseiro esquelético, prova de que já estava pegando o jeito daquela vida nova. Heniek olhou-me de alto a baixo, e a sua expressão tornou-se mais séria. O que foi? Por um momento, ficou branco. Acho que talvez … Terminando a frase abruptamente, ergueu a mão nodosa e disforme por sobre minha cabeça e abençoou-me em hebraico. Com um pouco de sorte, isto há-de resolver o assunto, disse-me com ar jovial. Percebendo que era provavelmente religioso, comentei: não tenho visto qualquer indício de Deus, nem nada que se pareça com um anjo ou um demónio. Nem fantasmas, nem seres necrófagos, nem vampiros... Nada.
Não queria que ele me achasse capaz de responder a qualquer das suas perguntas metafísicas. Fez um gesto com a mão, como quem não quer saber disso. Então, o que posso oferecer-lhe? Que tal um chá de urtiga? Obrigado, mas descobri que já não preciso beber nada. Importa-se que faça um para mim? Por favor. Enquanto ele fervia a água, fiz-lhe perguntas sobre o que acontecera desde que eu saíra de Varsóvia em Março passado. Com um suspiro, ele respondeu: ech basicamente, a mesma velha desgraça. O grande entusiasmo foi durante o Verão: os russos bombardearam-nos. Infelizmente, aqueles pilotos idiotas não acertaram na sede da Gestapo, mas ouvi dizer que a praça do Teatro ficou reduzida a escombros. Baixou a voz e inclinou-se para mim. Mas há uma boa notícia: os americanos entraram na guerra. Os japoneses nos bombardearam há uma semana, segundo a BBC; tenho um amigo que possui um rádio clandestino. Porque está sussurrando? Apontou para o céu. Não quero parecer optimista; Deus ainda nos pode pregar mais umas peças, se achar que estou sendo arrogante.
Noutros tempos, o espírito supersticioso de Heniek teria arrancado de mim um comentário sarcástico, mas era óbvio que, com a morte, eu tinha-me tornado mais paciente. Então, onde é que trabalha? Numa fábrica de sabão clandestina. E hoje está de folga? Sim, acordei com um pouco de febre. Em que dia estamos? Dezasseis de Dezembro de 1941. Tinham decorrido sete dias desde que eu saíra do campo de trabalho de Lublin, onde estivera como prisioneiro, mas pelas minhas contas só tinha levado cinco dias para chegar a casa, por isso perdera 48 horas em algum lugar pelo caminho. Talvez o tempo passasse de modo diferente para os da minha laia. Heniek contou-me que, antes de se mudar para o gueto, era impressor. A mulher e a filha tinham morrido de tuberculose havia um ano. Eu até era capaz de aguentar a solidão, baixando o olhar para esconder a sua perturbação, mas o resto é… É mesmo demasiado. Eu sabia por experiência própria que o resto significava culpa, e também emoções mais subtis e confusas, para as quais não tínhamos um nome adequado. Deixou cair as folhas de urtiga no jarro de cerâmica branca que lhe servia de bule. Depois, erguendo os olhos com um vigor renovado, perguntou pela minha família, e eu disse-lhe que minha filha Liesel estava em Esmirna. Estava a trabalhar numas escavações arqueológicas quando estourou a guerra, por isso ficou por lá. Já foi visitá-la? Não, tinha de vir aqui primeiro. Mas ela está em segurança. A menos que… Pus-me de pé num salto, aflito. A Turquia não entrou na guerra, entrou? Não, não, ainda é território neutro. Não se preocupe». In Richard Zimler, Os Anagramas de Varsóvia, 2009, Editora Record, 2010, isbn 978-850-109-966-2, Porto Editora, Porto, 2015, ISBN 978-972-004-728-1.

Cortesia de ERecord/PortoEditora/JDACT

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Um Estudo em Torno da Revista Portuguesa (1889-1892). Adriana Mello Guimarães. «Este fervilhar de ideias novas toca também Portugal, ainda que de forma muito especial. Mas como é que esta vaga de modernização chegou a Portugal e, por extensão, ao Brasil?»

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Com a devida vénia à Doutora Adriana M. Guimarães.

Introdução
«(…) Assim sendo, entendemos por modernização o processo de recepção, assimilação e institucionalização de certas ideias básicas que permanecem e determinam as outras manifestações culturais como próprias da modernidade. Mesmo que essas ideias não sejam encontradas em fórmulas precisas, como numa doutrina, elas exprimem uma maneira de pensar as relações do homem com o mundo, uma preferência por certos valores e um estilo geral de raciocinar, implícito em diferentes doutrinas. Não se trata de um sistema de pensamento, senão de uma mentalidade. E nos parece caber ressaltar que este modo do ser moderno assente na mudança coexiste necessariamente com a maneira antiga de pensar, com a qual frequentemente entra em conflito (nesse contexto, devemos recordar Adriano Duarte Rodrigues: tradição e modernidade são (…) categorias e representações relativas da experiência, não podendo ser definidas independentemente uma da outra. Ou seja, mais uma vez, assistimos a uma espécie de contaminação, de cruzamento de conceitos e de permanência). Segundo Habermas, à medida que a modernização se foi automatizando, os princípios da modernidade, que estão na sua origem, se esvaíram. Nesta perspectiva, Berman, em Tudo o que é sólido desmancha no ar, considera a modernidade como uma condição, um estado, e a modernização como um processo, um estado de vir a ser (1986, p. 10). No moderno, Habermas vê pois, antes de mais, uma consciência de ruptura e a actualidade é o momento privilegiado da realização do moderno.
Enfim, a tentativa de compreender e explicar os principais contornos da modernidade foi trabalhada por vários teóricos, em diferentes domínios. No entanto, é impossível não reconhecer a existência de um campo de pensamento comum: a noção da modernidade significou a emergência de novos valores, atitudes, de modos de vivência do tempo, do espaço, da organização da vida política e moral, do surgimento de novas instituições e de uma nova forma de assimilação do espírito científico.

A modernização em língua portuguesa
Este fervilhar de ideias novas toca também Portugal, ainda que de forma muito especial. Mas como é que esta vaga de modernização chegou a Portugal e, por extensão, ao Brasil? Antes de mais, cabe assinalar a relação de reciprocidade única e exclusiva entre as culturas portuguesa e brasileira, a partir de uma tradição filosófica comum, o aristotelismo conimbricense [(esse aristotelismo conimbricense consiste não só no propósito de fidelidade a Aristóteles mas também se afirma contra a doutrina de Lutero assumida pelos teólogos da Reforma, no propósito de conciliar a teologia tomista e a exigência humanística do livre-arbítrio da vontade humana (Cerqueira, 2002, cap. 1)]. Em Portugal, o conflito ideológico entre antigos e modernos decorreu entre o século XVII até as reformas pombalinas do século XVIII. Ora, a recusa portuguesa da ideia de modernização assume características quer de ordem socioeconómica, quer de carácter mental, quer de natureza cultural. Afinal, no século XVII, enquanto a filosofia prolongava uma temática e uma metodologia ainda escolástica, a ciência estava praticamente ausente das preocupações da inteligência portuguesa de então (Serrão, 1989, p. 27). Sublinhe-se um argumento utilizado para afirmar que, em Portugal, antes da reforma pombalina, se vivia um ambiente de inércia científica: tudo se devia ao facto de as obras de Galileu, Descartes, Newton e outros se encontrarem oficialmente (a meio do século XVIII) interditas ao ensino. Assim, assumindo um absolutismo que pretende iluminado pela clarividência da razão, o monarca José I delega em Sebastião José Carvalho Melo (recorde-se que João V morreu em 1750 e o seu sucessor, José I (1750-1777), formou o novo governo. Para a secretaria dos Estrangeiros e Guerra e para a aritmética política, escolheu Sebastião José Carvalho Melo, que já passava dos cinquenta anos, e regressara da corte austríaca, onde desempenhara uma apagada representação diplomática. Antes disto, fora durante vários anos representante português em Inglaterra. Era formado em Direito por Coimbra e estava ligado aos meios literários, visto que foi sócio da Academia Portuguesa de História, onde prestou uma curta colaboração. Era um homem mal aceite pela nobreza antiga. Ele era fidalgo de cepa provinciana, de uma família onde predominavam magistrados e que ganhara o dinheiro para construir em Lisboa um palácio (na actual rua do Século) onde o estadista nasceu. Depressa Sebastião Carvalho Melo dominou outros ministérios. Em 1759, o rei promoveu-o à alta nobreza, com o título de conde de Oeiras. Posteriormente (1770) foi nomeado marquês de Pombal. A figura do marquês de Pombal é uma das mais controvertidas da história portuguesa. Foi-o ainda em sua vida. Na base desta polémica estão as antinomias fundamentais que se estabelecem entre tradição e inovação e entre tirania e liberdade. Quando o rei José I morreu e a rainha dona Maria I subiu ao trono, em 1777, o marquês foi afastado do seu trabalho na corte), futuro marquês de Pombal, toda a autoridade necessária à modernização do país». )». In Adriana Mello Guimarães, A Modernização, Problema Cultural Luso - Brasileiro, Um Estudo em Torno da Revista Portuguesa (1889-1892), Tese de Doutoramento em Literatura, Évora, Instituto de Investigação e Formação Avançada, Setembro de 2014.

Cortesia de UdeÉvora/IIFA/JDACT

Um Estudo em Torno da Revista Portuguesa (1889-1892). Adriana Mello Guimarães. «Interessante é constatar que, na sua obra O discurso filosófico da modernidade, Habermas discute o problema como um projecto inacabado, mas localizado no tempo»

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Com a devida vénia à Doutora Adriana M. Guimarães.

Introdução
«(…) O homem moderno tem confiança nos seus recursos, no seu destino e na ciência para a resolução de problemas. A convicção de que a educação poderia ser um catalisador das mudanças sociais foi igualada pela confiança na integridade dos indivíduos. Os sistemas políticos também foram questionados, o que levou a exigências de uma representação política mais abrangente. Vários autores, como Edgar Morin, Berman ou Giddens, também associam a modernidade ao desenvolvimento da sociedade capitalista-industrial, altura em que são desprezadas as concepções religiosas e místicas, para basear a regulação do comportamento na racionalidade. Ou seja, a ideia de racionalidade é fulcral. Neste sentido, contudo, Alain Touraine questiona: a modernidade reduzir-se-á à racionalização? (1994, p. 2) e procura introduzir na discussão o tema do sujeito pessoal e da subjectivação.
A par disso, o sociólogo Giddens, em Modernidade e identidade, traça um quadro e explica-nos que na sociedade tradicional a identidade social dos indivíduos é limitada pela própria tradição, pela localidade. Com a modernidade, há um romper com as práticas e preceitos pré-estabelecidos, o que enfatiza o cultivo das potencialidades individuais, e consagra ao indivíduo uma identidade móvel, mutável: os indivíduos são forçados a escolher um estilo de vida a partir de uma multiplicidade de opções. É nesse sentido que, na modernidade, o eu torna-se, cada vez mais, um projecto reflexivo, pois, onde não existe mais a referência da tradição, descortina-se, para o indivíduo, um mundo de diversidade, de possibilidades, de escolhas. Para Giddens (2000), uma característica marcante da modernidade é o seu dinamismo. Já Max Weber considera a modernidade como processo de desencantamento do mundo, de perda das referências mítico-religiosas. Repare-se, ainda, que, por outro lado, Morin compara a modernidade a uma nova religião e até circunscreve o seu fim:

nascida em fins do século XV, a modernidade agoniza neste final do século XX. A modernidade não era apenas um fenómeno histórico, não era apenas uma ideia-força, era uma crença e, de facto, erigira-se no século XIX numa religião que se ignorava enquanto tal porque se baseava naquilo que se impusera contra a Religião revelada: a Ciência materialista, a Razão laica, o Progresso histórico. (Morin, 1996, p. 9)

Interessante é constatar que, na sua obra O discurso filosófico da modernidade, Habermas discute o problema como um projecto inacabado, mas localizado no tempo, sendo o início da época moderna marcado por três eventos históricos: a Reforma Protestante, o Iluminismo e a Revolução Francesa. Tal discussão sobre a modernidade nos conduz à caracterização do horizonte do nosso tempo, em face do que se concebe como sendo o pós-moderno (Lyotard, faz uma análise da condição do saber na actual situação da cultura ocidental. Zygmunt Bauman propõe o conceito de modernidade líquida para definir o presente, em vez do termo pós-modernidade. Os tempos são líquidos porque tudo muda rapidamente: o espaço e o tempo estão separados. Calabrese emprega o termo neobarroco para falar do gosto da totalidade das manifestações estéticas predominante deste nosso tempo. O autor considera que o termo pós-moderno confunde os campos de acção da literatura, do cinema e da filosofia. Já para Gilles Lipovetsky, vivemos uma segunda revolução moderna, a hipermodernidade)». In Adriana Mello Guimarães, A Modernização, Problema Cultural Luso - Brasileiro, Um Estudo em Torno da Revista Portuguesa (1889-1892), Tese de Doutoramento em Literatura, Évora, Instituto de Investigação e Formação Avançada, Setembro de 2014.

Cortesia de UdeÉvora/IIFA/JDACT

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Número de Deus. José L. Corral. «Quando deixaram as bagagens em segurança, foram visitar a catedral de Notre-Dame. O templo, em pleno coração da ilha de la Cité…»

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O Algarismo e o Número
«(…) Numa manhã de princípios de Junho, debaixo de um sol ardente e amarelo divisaram o vale do Sena e, no coração da extensa planura, abraçada ao rio como uma amante adormecida, apareceu o casario cinzento e ocre da cidade de Paris. Cinco soldados tinham-se adiantado uma jornada para mostrar o documento enrolado em que ei rei Fernando de Castela nomeava o portador do salvo-conduto, Maurício, bispo de Burgos, embaixador real e lhe outorgava a sua representação em toda a terra de fiéis e infiéis. Senhor bispo, avisámos o preboste de Paris da vossa iminente chegada; mostrou-se muito amável e recomendou-nos que nos alojássemos nas dependências de um convento que uns monges italianos estão a construir nos arredores da cidade. Haveis falado com o senhor bispo? Fornos ao seu palácio, que está situado numa ilha no meio do rio, mas aí disseram-nos que está fora, visitando alguns lugares da diocese, mas regressará em breve. Pois façamos caso do preboste e vamos instalar-nos onde nos aconselhou.

Quando deixaram as bagagens em segurança, foram visitar a catedral de Notre-Dame. O templo, em pleno coração da ilha de la Cité, estava muito avançado. O plano da obra era grandioso; cinco naves escalonadas em altura estendiam-se ao largo de quatrocentos pés de comprimento, com um cruzeiro só detectado no alçado, não na planta. Quando cá estive a estudar, há dez anos, a nave ainda estava a céu aberto, pois faltava colocar quase todo o telhado. Mas agora, Santo Deus! É extraordinário. Fixai-vos nessas abóbadas, nas tribunas, nos janelões, observai a luz, que inunda tudo..., a luz, a luz...
O bispo Maurício contemplava extasiado a grande igreja Catedral de Notre-Dame, tão grande que poderia conter dentro dela três catedrais como a de Burgos. O bispo Maurício vivera em Paris alguns anos antes. Nesta cidade, destino de quantos eclesiásticos quisessem tudo o que o mundo era capaz de ensinar até então, estudara com o seu amigo e companheiro Rodrigo Ximenes Rada. Quando este foi nomeado arcebispo de Toledo, em 1209, Maurício regressou a Castela, pois Rodrigo chamou-o para seu lado, como arcediago. Quatro anos depois e devido ao seu prestígio, foi nomeado bispo de Burgos, sem que ainda tivesse cumprido os trinta anos.
Durante vários dias, e enquanto o bispo parisiense não regressava da visita pastoral pela diocese e o recebia no seu palácio, Maurício interessou-se por todos os aspectos relacionados com a construção da catedral de Notre-Dame. Preocupavam-no o custo da obra, o tempo de execução, a maneira de realizar as abóbadas, a quantidade de operários necessários para semelhante trabalho e a maneira de coordenar todos eles. Todos os dias se deslocava até à catedral, onde uma equipa de escultores estava a começar a lavrar as esculturas da fachada principal, que no seu estado final disporia de duas enormes torres demarcando um grandioso pórtico no qual as cinco naves se manifestavam para o exterior em cinco portas.
Temos que ir a Chartres. Não fica muito longe, apenas a dois dias de caminho para oeste. Quando cá estive não visitei essa cidade, mas toda a gente falava da catedral que ali estava a ser construída. Um dos oficiais desta obra aconselhou-me a visitá-la. O bispo Maurício e o abade de Arlanza partiram para Chartres com uma pequena escolta de quatro soldados comandados pelo prior do Hospital. O resto da comitiva castelhana ficou em Paris, aguardando o regresso do bispo, enquanto o abade de Rio Seco viajava para a Alemanha para preparar o encontro com a princesa Beatriz». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

O Faraó Negro. Christian Jacq. «Majestade..., murmurou ele com dificuldade, desfazendo-se em lágrimas. Se fosses mais pesado, meu filho, estaríamos os dois mortos»

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«(…) Piankhi ergueu os olhos e viu um rapaz encostado à parede, com as mãos agarradas a uma saliência e os pés apoiados num pedaço de rocha friável. Para avançar mais depressa, o rapaz não tinha seguido pelo caminho formado por escadas e cordas, julgando-se capaz de escalar (Uraeus, representação da naja, símbolo, para os egípcios, da divindade e da realeza, bem como das divisões do céu, Oriente e Ocidente) a parede com as mãos nuas. Quando vira o escultor cair, fora invadido pelo pânico. Impotentes, com os braços caídos, os seus camaradas esperavam o desenlace fatal. Que idade tem esse rapaz? perguntou Piankhi. Dezassete anos. Quanto pesa? Não sei exactamente confessou Cabeça-fria mas é um magricela. Escolhe dois homens para me acompanharem. Majestade, não ides... Por cima dele as paredes aproximam-se. Se conseguir arranjar uma posição estável e agarrar-lhe a mão, tem uma hipótese de sobreviver. Cabeça-fria tremia.
Majestade, em nome do reino, suplico-vos que não correis semelhante risco! Considero-me responsável pela vida desse rapaz. Vamos, não há um segundo a perder. Dois talhadores de pedra de ombros fortes e pés seguros precederam Piankhi subindo a escada estreita que conduzia à primeira plataforma, formada por sólidas vigas de madeira de acácia. Aguenta-te disse Piankhi com uma voz forte que ressoou por toda a Montanha sagrada. Já aí vamos! O pé esquerdo do assistente de escultor deslizou e ficou por instantes suspenso no vácuo. Com um esforço de que já não se julgava capaz, o rapaz reencontrou o equilíbrio e conseguiu encostar-se de novo à parede. Tenho que subir mais considerou o rei. Deveis utilizar esta corda com nós, Majestade disse um dos talhadores de pedra. Piankhi trepou sem dificuldade e imobilizou-se numa saliência, por cima do infeliz cujos dedos começavam a ficar roxos à força de se agarrar ao rochedo. O monarca estendeu o braço direito, mas faltava-lhe ainda cerca de um metro para atingir aquele que pretendia salvar de uma morte horrível. Uma escada!, exigiu o monarca.
Os dois talhadores de pedra ergueram uma. Era tão pesada que todos os seus músculos se contraíram. Isso significava que aquilo que Piankhi tencionava fazer exigiria uma força hercúlea: colocar a escada em posição horizontal e encaixá-la entre as duas paredes. Lentamente, com uma concentração extrema, os dedos crispados no degrau central, o rei fê-la girar. Quando uma das extremidades tocou na rocha, soltaram-se alguns fragmentos que passaram a rasar a cabeça do rapaz, o qual soltou um grito abafado. Aguenta-te, rapaz! A escada estava encaixada. Piankhi avançou pela passarela improvisada; a madeira gemeu. Um dos degraus teve um rangido sinistro, mas suportou o peso do atleta negro. Com agilidade, este estendeu-se sobre a escada.
Estou muito perto de ti, meu rapaz. Vou estender o braço, tu vais agarrar o meu pulso e vou içar-te para esta escada. Não..., não aguento mais! Tens de voltar-te para veres o meu braço. É impossível... Impossível! Respira calmamente, concentrando-te na respiração, apenas na respiração, e gira sobre ti mesmo. Vou esmagar-me no chão, vou morrer! Principalmente, não olhes para baixo mas apenas para cima, para o meu braço estendido! Está mesmo por cima da tua cabeça. A escada gemeu de novo. Gira sobre ti mesmo e volta-te!, ordenou Piankhi em tom imperioso. Tetanizado, sem respiração, o assistente do escultor obedeceu. Desajeitados e incertos, os pés deslizaram contra sua vontade. No instante em que ia encontrar-se face ao vácuo, o jovem escorregou. De olhos esbugalhados, oscilou no abismo. Estendendo-se até quase deslocar o ombro, Piankhi conseguiu agarrar o pulso esquerdo do rapaz. O choque foi violento, mas o rei conseguiu içá-lo para a escada. Majestade..., murmurou ele com dificuldade, desfazendo-se em lágrimas. Se fosses mais pesado, meu filho, estaríamos os dois mortos. Condeno-te a trabalhar um mês com as lavadeiras por teres violado as regras de segurança. Na base do pico, os camaradas do rapaz que acabara de ser salvo felicitaram-no, depois de terem aclamado o rei. Cabeça-fria continuava a parecer pouco satisfeito. O rapaz está vivo, não é o essencial? Não vos disse tudo, Majestade. O que há mais? Devo confirmar-vos os meus receios; alguns membros da vossa corte, e não dos menos importantes, põem em causa a vossa legitimidade». In Christian Jacq, O Faraó Negro, 1997, Bertrand Editora, 1998, ISBN 978-972-251-049-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Faraó Negro. Christian Jacq. «Os trabalhos estavam a chegar ao fim e tinham sido içados os últimos cestos de pedras e argamassa destinados a modelar a montanha para lhe dar o aspecto pretendido»

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«(…) Piankhi apreciava a coragem de Puarma. E este último estava convencido que aquele encontro nada tinha a ver com o acaso. Majestade... Devemos preparar-nos para um conflito? Não... Ou, pelo menos, não sob a forma que imaginas. O inimigo nem sempre ataca onde esperamos. Na minha própria capital, há quem deseje que eu me ocupe menos dos deuses e mais dos seus privilégios. Reúne os teus homens, Puarma, e coloca-os em estado de alerta. O capitão dos archeiros curvou-se perante o seu rei e partiu a correr para Napata, enquanto Piankhi continuava a contemplar a paisagem atormentada da catarata. Da fúria das águas e da eternidade implacável da rocha, o faraó negro absorvia a energia indispensável para cumprir a sua missão. A felicidade... Sim, Piankhi tinha a sorte inestimável de saborear a felicidade. Uma família feliz, um povo que comia o que queria e se alimentava também dos dias tranquilos que se escoavam ao ritmo das festas e dos rituais. E ele, o faraó negro, tinha o dever de preservar essa serenidade.
A pureza do ar tornava perceptível o menor ruído. E Piankhi conhecia bem aquele: o choque regular dos cascos de um burro no carreiro. Um burro que transportava Cabeça-fria, escriba de elite e conselheiro de Piankhi. Um burro que se alegrava por ter um dono leve, dado que Cabeça-fria era um anão de rosto severo e busto admiravelmente proporcionado. O escriba habitualmente não se afastava do seu gabinete, o centro administrativo da capital. Se tinha empreendido aquela viagem, a razão devia ser séria. Até que enfim que vos encontro, Majestade! O que se passa? Um acidente no estaleiro, Majestade. Um acidente grave.
Dominando Napata, a capital do faraó negro, os mil metros da montanha pura, o Gebel Barkal, abrigavam o poder invisível do deus Amon, o Oculto, que estava na origem de toda a criação. Situada quinze quilómetros para jusante da quarta catarata e rodeada de desertos, Napata encontrava-se no entanto no meio de uma planície fértil à qual iam dar diversas pistas de caravanas. Desta forma, os súbditos de Piankhi não tinham falta nem de produtos de primeira necessidade, nem de iguarias requintadas, nem mesmo de artigos de luxo. Mas os caravaneiros não estavam autorizados a instalar-se em Napata, a não ser que mudassem de profissão. Apenas eram admitidos para uma breve estada, o tempo de vender as suas mercadorias e repousar um pouco. Todos sabiam que Piankhi dispunha de imensas riquezas, mas eram reservadas para o embelezamento dos templos e manutenção do bem-estar da população. Os raros casos de corrupção tinham sofrido pesadas penas, indo até à condenação à morte. O faraó negro não tolerava as faltas graves à regra de Maât e muito poucos imprudentes se arriscavam a sofrer a sua cólera.
Montanha isolada em pleno deserto, o Gebel Barkal fascinava Piankhi desde a infância. Quantas horas tinha passado junto das falésias abruptas que dominavam a margem direita do Nilo! Com o correr dos anos, formara-se no seu coração um projecto insensato: fazer falar a montanha pura, talhar o pico isolado, num dos seus ângulos, para fazer dele o símbolo da monarquia faraónica. O empreendimento apresentava-se como perigoso, mas Piankhi entregava-se a ele há dois anos com a colaboração de voluntários. Como o pico estava separado da massa da montanha por uma ravina com a largura de doze metros e a profundidade de sessenta, fora necessário escavar buracos na rocha para enfiar traves e montar um gigantesco andaime com o auxílio de aparelhos de elevação rudimentares mas eficazes.
Seguindo as indicações do faraó mestre-de-obra, os escultores, sentados em estreitas plataformas, tinham talhado o pico do Gebel Barkal De leste, as pessoas julgavam ver um enorme uraeus, a cobra fêmea erguida e adornada com a coroa branca; de oeste, a coroa vermelha e o disco solar. No extremo do cume tinha sido gravada uma inscrição hieroglífica em honra de Amon. Um ourives fixara também um painel coberto de folhas de ouro para reflectir a luz da madrugada e evidenciar de forma deslumbrante, todas as manhãs, o triunfo da luz sobre as trevas. Por baixo do painel, um nicho guardava uma serpente uraeus em ouro. Os trabalhos estavam a chegar ao fim e tinham sido içados os últimos cestos de pedras e argamassa destinados a modelar a montanha para lhe dar o aspecto pretendido. Conta-me o que se passou pediu Piankhi a Cabeça-fria. Um escultor quis contemplar a sua obra de perto e não respeitou as regras de segurança. A meia altura, escorregou numa viga. Queres dizer...? Morreu, Majestade. E o seu assistente não é melhor do que ele: lançando-se de forma estúpida em socorro do patrão, foi dominado pelas vertigens e não pôde fazer um gesto». In Christian Jacq, O Faraó Negro, 1997, Bertrand Editora, 1998, ISBN 978-972-251-049-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

O Faraó Negro. Christian Jacq. «Embora tivesse o título de rei do Alto e do Baixo Egipto, Piankhi não saía da sua capital, Napata. Coroado aos vinte e cinco anos, o faraó negro reinava há vinte anos…»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Musculoso, excelente nadador, o rapaz tinha a intenção de conquistar todas três. Visto que não tinham fugido, isso não equivalia a dar o seu consentimento de forma implícita? No entanto, a rude região da quarta catarata do Nilo não fazia sonhar com o amor. Correndo surpreendentemente de nordeste para sudoeste, o rio exibia a sua força selvagem, abrindo com dificuldade passagem por entre os blocos de granito ou de basalto e as ilhotas inóspitas que tentavam travar o seu curso. Nas margens hostis, a areia e as pedras concediam apenas um pequeno espaço para as fracas culturas; e os ueds (cursos de água temporários das regiões desérticas) que penetravam no deserto ficavam secos durante quase todo o ano. Vigorosas palmeiras-tamareiras agarravam-se a encostas abruptas que, aqui e além, se transformavam em falésias escuras. Para os viajantes que passavam na região da quarta catarata, esta revelava-se como uma antecâmara do inferno. Mas Puarma vivera naquela solidão uma infância maravilhosa e conhecia o menor recanto daquele labirinto rochoso. Com perfeito controlo, atraiu os búfalos para uma espécie de canal onde poderiam refrescar-se em perfeita segurança. Vinde, disse ele às três beldades. Já não há perigo nenhum! Elas consultaram-se com o olhar, trocaram algumas frases risonhas e depois saltaram com agilidade de rocha em rocha para se irem juntar ao rapaz.
A mais audaciosa saltou para o dorso de um búfalo e estendeu os braços em direcção de Puarma. Quando ele tentou agarrá-la, recuou e deixou-se cair para trás. Nadando por baixo de água, as duas companheiras agarraram o rapaz pelas pernas e puxaram-no para si antes de voltarem à superfície. Encantado por tornar-se seu prisioneiro, Puarma acariciou um seio admirável e beijou uns lábios ardentes. Nunca agradeceria suficientemente aos búfalos do seu primo por terem tido a ideia de fugir. Entregar-se aos jogos do amor com uma jovem núbia flexível como uma liana era um momento de graça, mas tornar-se o brinquedo de três amantes ávidas e inventivas assemelhava-se a um impossível paraíso... Na água, Puarma fingiu lutar para conservar uma relativa autonomia mas, quando elas o arrastaram para a margem, cessou qualquer resistência e abandonou-se aos seus mais audaciosos beijos. De repente, a que se tinha estendido em cima dele soltou um grito de susto e levantou-se. As duas companheiras imitaram-na e todas três debandaram como gazelas. Mas o que é que vos deu?... Voltem! Despeitado, Puarma levantou-se por sua vez e voltou-se.
Em pé sobre um rochedo que dominava o ninho de amor estava um colosso de um metro e noventa, com a pele de um negro de ébano que brilhava sob o sol ardente. Com os braços cruzados, usando um saiote de linho branco imaculado, o pescoço adornado por um fino colar de ouro, o homem tinha um olhar de rara intensidade. Puarma ajoelhou e tocou com a testa no solo. Vossa Majestade... Ignorava que estáveis de regresso. Veste-te, capitão dos archeiros. Puarma era um valente que não hesitava em bater-se a um contra dez, mas suportar o olhar do faraó negro ultrapassava as suas forças. Tal como os outros súbditos de Piankhi, sabia que uma força sobrenatural animava o soberano e que só ela lhe permitia reinar. Majestade... Estará prestes a rebentar algum conflito? Não, sossega. A caça foi excelente e decidi regressar mais cedo do que estava previsto. Piankhi tinha o costume de meditar naquele caos rochoso de onde contemplava o seu isolado país que tanto amava. Rude, hostil, secreta, aparentemente pobre, a Núbia profunda, tão distante do Egipto, formava almas fortes e corpos vigorosos. Aqui se celebravam todos os dias as núpcias do sol e da água, aqui soprava um vento violento, ora glacial ora ardente, que modelava a vontade e tornava os seres capazes de enfrentar as provações quotidianas.
Embora tivesse o título de rei do Alto e do Baixo Egipto, Piankhi não saía da sua capital, Napata. Coroado aos vinte e cinco anos, o faraó negro reinava há vinte anos, consciente das fracturas políticas e sociais que tornavam o Egipto fraco como uma criança. No Norte, os ocupantes, os guerreiros líbios, digladiavam-se constantemente para conseguirem mais poder; no Sul, a cidade santa de Tebas, onde estavam instaladas as tropas núbias, encarregadas de proteger o domínio do deus Amon contra qualquer agressão. Entre o Norte e o Sul, o Médio Egipto, com dois fiéis aliados do faraó negro, os príncipes de Heracleopólis e de Hermopólis. Bastava a sua presença para dissuadir os nortistas de saírem da sua zona de influência. É verdade que esta situação não agradava a Piankhi. Mas contentava-se com o bem-estar de Tebas e com o embelezamento da sua própria capital onde mandara construir um soberbo templo em glória de Amon, verdadeira réplica do seu santuário de Karnak. Ser um construtor, seguindo o exemplo dos grandes monarcas do passado, era a única ambição de Piankhi. E os deuses tinham-lhe oferecido uma terra mágica onde a voz de Maât, a deusa da justiça e da verdade, continuava a fazer-se ouvir. Bater-se-ia até ao limite das suas forças para preservar esse tesouro. Tens treinado os teus homens ultimamente? Com certeza, Majestade! Os meus archeiros estão sempre em pé de guerra. Caso contrário, amolecem. Ordena e combateremos!» In Christian Jacq, O Faraó Negro, 1997, Bertrand Editora, 1998, ISBN 978-972-251-049-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

terça-feira, 17 de julho de 2018

O Erotismo. Georges Bataille. «As imagens eróticas, ou religiosas, suscitam essencialmente nuns os comportamentos do interdito, em ou mis, comportamentos contrários»

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«(…) Assim, a minha pesquisa, que é fundada essencialmente pela experiência interior, difere na sua origem do trabalho do historiador das religiões, do etnógrafo ou do sociólogo. Sem dúvida, colocou-se a questão de saber se era possível para estes últimos se dirigir através dos dados que eles elaboravam, independentemente de uma experiência interior que eles tinham, de um lado, em comum com os seus contemporâneos, e que, de outro, era também até certo ponto a sua experiência pessoal modificada por um combate com o mundo que fazia o objecto de seus estudos. Mas, no caso deles, podemos quase adiantar em princípio que: quanto menor o papel da experiência (quanto mais ela é discreta), maior é a autenticidade de seu trabalho. Não estou dizendo que quanto menor sua experiência, menor o seu papel. Estou, com efeito, convencido da vantagem, para um historiador, de ter uma experiência profunda, e se ele a tem, visto que ele a tem, o melhor é que ele se esforce para esquecê-la, e aborde os factos de fora. Ele não pode esquecê-la completamente, não pode reduzir inteiramente o conhecimento dos factos ao que lhe é dado de fora, e isto é melhor, mas o ideal é que essa experiência haja apesar dele, na medida em que essa fonte do conhecimento é irredutível, na medida em que falar de religião sem referência interior à nossa experiência levaria a trabalhos sem vida, acumulando a matéria inerte, dada numa desordem ininteligível. Em contrapartida, se eu encaro pessoalmente os factos à luz da minha experiência, sei o que abandono, abandonando a objectividade da ciência. Primeiramente, eu o disse, não posso me proibir arbitrariamente o conhecimento que me dá o método impessoal: a minha experiência supõe sempre o conhecimento dos objectos que ela põe em jogo (são, no erotismo, pelo menos, os corpos; na religião, as formas estabilizadas, sem as quais a prática religiosa comum não saberia ser). Esses corpos não nos são dados senão na perspectiva em que historicamente adquiriram o seu sentido (seu valor erótico). Não podemos separar a nossa experiência dessas formas objectivas e de seus aspectos vistos de fora, nem do seu aparecimento histórico. No plano do erotismo, as modificações do próprio corpo, que respondem aos movimentos vivos que nos sublevam interiormente, estão elas próprias ligadas aos aspectos sedutores e surpreendentes dos corpos sexuados.
Esses dados precisos, que nos vêm de todos os lados, podem não só se opor à experiência interior que lhes responde, mas também a ajudam a sair do fortuito que é típico do indivíduo. Mesmo estando associada à objectividade do mundo real, a experiência introduz fatalmente o arbitrário e, se não tivesse o carácter universal do objecto para o qual está voltada, não poderíamos falar dela. Da mesma forma, sem experiência, não poderíamos falar nem de erotismo, nem de religião.

As condições de uma experiência interior impessoal: a experiência contraditória do interdito e da transgressão
Seja como for, é necessário opor claramente o estudo que se estende o menos possível no sentido da experiência ao que aí avança resolutamente. É preciso que se diga ainda que este ficaria condenado à gratuidade que nos é familiar, se aquele não tivesse sido feito em primeiro lugar. Essa condição que hoje nos parece imprescindível é de data bem recente. Em se tratando de erotismo (ou geralmente de religião), a sua experiência interior lúcida era impossível num tempo em que não aparecia às claras o jogo de balança do interdito e da transgressão que ordena a possibilidade de um e de outro. Não basta saber que existe esse jogo. O conhecimento do erotismo, ou da religião, exige uma experiência pessoal, igual e contraditória, do interdito e da transgressão. Essa dupla experiência é rara. As imagens eróticas, ou religiosas, suscitam essencialmente nuns os comportamentos do interdito, em ou mis, comportamentos contrários. Os primeiros são tradicionais. Os segundos são comuns, pelo menos sob a forma de uma pretensa volta à natureza, à qual se opunha o interdito. Mas a transgressão difere da volta à natureza: ela suspende o interdito sem suprimi-lo. Aí esconde-se o suporte do erotismo e se encontra, ao mesmo tempo , o suporte das religiões. Eu anteciparia o desenvolvimento do meu estudo se me estendesse inicialmente sobre a profunda cumplicidade da lei e da sua violação. Mas se é verdade que a desconfiança (o movimento incessante da dúvida) é necessária a quem se esforça por descrever a experiência de que estou falando, ela deve particularmente satisfazer às exigências que posso desde já formular». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972 608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT

segunda-feira, 16 de julho de 2018

O Erotismo. Georges Bataille. «Jamais a humanidade pôde procurar o que a religião procura há muito tempo, a não ser num mundo em que a sua busca dependia de causas duvidosas, subordinadas…»

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«(…) Transformam assim aquele que os acolhe naquilo que seria, entre os seus, um homem que soubesse da existência do cálculo, mas se recusasse a corrigir os seus erros de adição, ciência não me cega (uma vez cego, eu não poderia senão responder mal às suas exigências) e, igualmente, a matemática não me incomoda. Admito que me digam dois e dois são cinco?, mas se alguém, visando um fim preciso, faz contas comigo, esqueço a identidade pretendida de cinco e de dois e dois. Ninguém saberia diante de mim colocar o problema religião a partir de soluções gratuitas que o atual espírito de rigor recusa. Não sou um homem de ciência enquanto falo de experiência interior, não de objectos, mas no momento em que falo de objectos, eu o faço como os homens de ciência, com o inevitável rigor.
Direi mesmo que, com frequência, na atitude religiosa, no meio de uma tão grande avidez de respostas precipitadas, religião adquiriu o sentido de facilidade de espírito, e que as minhas palavras iniciais levam leitores desprevenidos a pensar que se trata de aventura intelectual e não da incessante actividade que desloca o espírito para mais adiante, se foi preciso, mas pela via da filosofia e das ciências, em busca de todo o possível que ele pode abrir.
Todo o mundo, seja quem for, reconhecerá que nem a filosofia, nem as ciências podem abordar o problema que a aspiração religiosa colocou. Mas todo o mundo também reconhecerá que, nas condições em vigor, esta aspiração até aqui não pôde traduzir-se não ser por formas adulteradas. Jamais a humanidade pôde procurar o que a religião procura há muito tempo, a não ser num mundo em que a sua busca dependia de causas duvidosas, subordinadas, quando não ao movimento dos desejos materiais, a paixões de circunstâncias: ela podia combater esses desejos e essas paixões, podia também servi-las, não podia ser-lhes indiferente. A busca que a religião começou, e que prosseguiu, não deve menos que a da ciência ser libertada das vicissitudes históricas. Não que o homem não tenha inteiramente dependido dessas vicissitudes. Mas isto é válido para o passado. Chega o instante, precário sem dúvida, em que, a sorte ajudando, não devemos mais esperar a decisão dos outros (em forma de dogma) antes de ter a experiência desejada. Até agora, podemos comunicar livremente o resultado dessa experiência. Posso, nesse sentido, preocupar-me com a religião, não como o professor que dela relata a história, que fala entre outras pessoas do brâmane, mas como o próprio brâmane.
Mas eu não sou nem brâmane nem nada, devo continuar uma experiência solitária, sem tradição, sem rito, e sem nada que me guie, sem nada também que me atrapalhe. Expresso no meu livro uma experiência sem recorrer ao que quer que seja de particular, tendo essencialmente o cuidado de comunicar a experiência interior, isto é, aos meus olhos, a experiência religiosa, fora das religiões definidas». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972 608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. «Porém, observando com mais atenção, percebeu que ele não estava dormindo, mas profundamente concentrado em alguma coisa, alguma coisa interior»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Depois da refeição, na tranquilidade do entardecer e enquanto esperava que o vinagre aliviasse as dores de Rute, a família começou a recitar as escrituras. Tinha de ser feito de memória, pois era proibido ler. Mas quando terminaram de recitar, Rute ainda estava incomodada. Talvez eu devesse falar com o rabino, disse José. Talvez ele me permita desatar os nós ou usar um remédio, só desta vez. E balançou a cabeça. Um dos meninos foi chamar o rabino e, após o que pareceu uma eternidade, ele surgiu da escuridão próxima à barraca. Deixe-me ver a criança, disse. Dirigiu-se a Rute e pediu-lhe que abrisse a boca, espiando para dentro. Em seguida, fechou-a. Não vejo nada demais, murmurou. Mas dói, disse Rute. Será que não podemos desatar a sacola onde tem o pó?, perguntou José. Desata com uma mão só?, retrucou o rabino. Não, é um nó forte, para aguentar durante a viagem. O rabino balançou a cabeça. Então, conhece as normas, disse. E voltou-se para Rute. Tente ser forte, menina. Já é bem tarde da noite e não irá demorar tanto até o pôr do sol, amanhã. Olhou para todos eles. Sinto muito, disse, voltando-se para a saída. E, de qualquer maneira, mesmo que o remédio estivesse ao alcance, não pode ser usado durante o Sabá. Parecia triste e sem jeito. Sabe disso, José.
Depois que o rabino saiu, José veio sentar-se junto à sua filha e segurou a sua mão. Ela fazia uma careta de dor. Ele olhou para seus olhos e, decidido, levantou-se. Dirigiu-se à sacola e, calmamente, deliberadamente, desatou os nós. Vou fazer uma oferenda dos meus pecados para compensar isto, disse. Mas não aguento ficar aqui quieto, esperando por amanhã. Pegou o remédio e deu-o à Rute. Pouco depois, foram todos dormir, acomodando-se nas cobertas que tinham sido preparadas. Maria, as suas primas e Quezia ficaram num dos cantos da barraca e não demorou para que adormecessem. Com todo o cuidado, ela desamarrara seu cinto, colocando-o junto ao capote. Tocou-o, como se o protegesse, e dormiu com ele junto à cabeça.
Sorria quando adormeceu. Era gostoso ter um segredo. E o dia também tinha sido maravilhoso, conhecendo essas pessoas de Nazaré. Tinha que reconhecer que era divertido ficar por um tempo longe da família, ser outra pessoa. Ou, quem sabe, talvez não ser outra pessoa, mas aquela que é. Dormiu profundamente e, quando acordou, os outros já se tinham levantado. Estavam todos lá fora e ela ainda esfregava os olhos. Rapidamente, sentou-se, vestiu-se e juntou-se aos outros.
O céu estava limpo e azul; o clarão da madrugada já tinha desaparecido. Compartilharam de uma refeição leve, de pão e queijo, sentados em círculo. O brilho do céu e o cheiro doce da manhã prometiam um dia magnífico. Não é de estranhar que, se o primeiro Sabá foi tão bonito quanto este, Deus tenha achado que fizera um bom trabalho e tenha ido descansar, disse Jesus. Mastigava, devagar, um pedaço de pão, e olhava para o alto, profundamente feliz. Todos concordaram. Parecia respirar-se paz no ar. É verdade, disse a mãe de Jesus, na sua voz melodiosa. E passou uma cesta de figos com o gesto gracioso de uma bailarina.
Ela é linda, pensou Maria, mas só agora é que o percebi. É muito mais bonita que a minha própria mãe. Mas, na mesma hora, sentiu-se desleal, e mesmo culpada, por tê-lo pensado. O restante do dia, que tanto pareceu longo quanto curto, passou-se nos prazeres do lazer e da devoção. Era permitido ficar sentado, conversando; assim como cantar, dar pequenas caminhadas, alimentar os animais, comer a comida já preparada e gozar da tranquilidade e sonhar. E havia as orações, a sós ou em grupo, entre as quais a mais antiga e fundamental era a Shemá: Shemá, ouvi-me! Israel, o Senhor nosso Deus, o Senhor é Um.
Maria reparou que Jesus estava sentado debaixo de uma arvorezinha e parecia dormitar. Porém, observando com mais atenção, percebeu que ele não estava dormindo, mas profundamente concentrado em alguma coisa, alguma coisa interior. Quando tentava afastar-se, ele a viu. Já era tarde, ela tinha-o perturbado. Ele acenou para que ela se aproximasse. Desculpe-me, disse ela. Por quê? Ele não parecia aborrecido com a sua presença, e sim confuso, sem compreender o motivo para as suas desculpas. Por me ter intrometido, disse ela. ele sorriu. Estou sentado aqui, ao ar livre. É impossível alguém se intrometer num lugar público. Mas estava sozinho, insistiu Maria. Talvez quisesse ficar sozinho. Não, nada disso. Talvez só estivesse esperando que alguma coisa de interessante acontecesse. Como o quê, por exemplo? Qualquer coisa. Tudo o que acontece é interessante, se olhar com atenção. Repare naquele lagarto, e inclinou a cabeça, devagar, para não o assustar, que está tentando decidir se sai ou não daquela fenda na árvore». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. « Mas..., lembrou Maria, o vinagre pode ser usado como tempero, e se ajudar na dor de dentes, é permitido»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Bem-vindas sejam nossas convidadas, disse José, acenando com a cabeça para Maria, suas primas e Quezia. Embora não moremos assim tão longe, há muitos vizinhos nas cidades próximas que nunca encontramos. É uma felicidade que tenham vindo até nós. Sim, disse Jesus. Obrigado por virem até nós. E sorriu. Agora vamos comer e agradecer por este lindo Sabá. José partiu um pão e foi passando em redor. Sentados, com as pernas cruzadas, foram pegando o pão que recebiam. Depois, havia o feijão, as fatias finas de cebola, os figos, as amêndoas, o queijo e o peixe em conserva, de Magdala. Jesus olhou, surpreendido, e disse: devíamos ter sabido que teríamos visitas de Magdala. Pegou um pouco de peixe e passou-o em volta. Maria vibrou, orgulhosa. Talvez aqueles peixes viessem do armazém de seu pai! Escolheu um, colocando-o, cuidadosamente, sobre o pão. O peixe de Magdala viaja para bem longe, disse José, levando à boca, despreocupadamente, um pedaço de pão com peixe. Vocês divulgaram o nosso nome até Roma, e mesmo mais longe. E engoliu o seu pedaço. É, nós, galileus, somos respeitados no exterior, mas bem pouco em Jerusalém, disse Jesus. Ele também colocou um pedaço de peixe com pão na boca e sorriu de satisfação. O que quer dizer?, perguntou Tiago, curioso. Sabe o que quero dizer, respondeu Jesus. Como chamam a Galileia? O círculo dos hereges. Isso porque foram tantas as vezes que estivemos dentro e fora das divisas de Israel, quando regiões do país iam sendo conquistadas... Tomou um gole de vinho. Há uma pergunta interessante: quem são e o que são os verdadeiros filhos de Israel? Riu e inclinou a cabeça na direcção das mulheres. E as filhas, naturalmente. Quem são os judeus?, perguntou Tiago, de repente, com a cara bem séria. Talvez só..., o céu..., possa responder. Fez uma pausa. Existem meio judeus, com antepassados suspeitos; existem falsos judeus, como Herodes Antipas; e existem gentios que são atraídos pelos nossos conhecimentos, e quem não seria?, com aquelas religiões repugnantes à sua volta. Mas não aceitam até o fim, pois não fazem a circuncisão. Será que todos esses tipos de judeus nos ajudam ou atrapalham? Depende de Deus. Não sabemos se lhe agrada que as pessoas se aproximem de si, ainda que a uma certa distância, ou se se sente insultado por isso.
Eu não sei, reconheceu Jesus. Nem eu, disse José pondo fim à discussão. Além do mais, estamos profanando o Sabá com essa conversa vazia. E somos os responsáveis por essa conversa vazia. Devemos explicar-nos para com Deus. O que é conversa vazia?, perguntou Quezia. Maria espantou-se que ela falasse assim com José. Alguma coisa que não é sagrada? Mas eu acho que há uma porção de coisas de que se pode falar que não parecem sagradas. Fez uma pausa. Por exemplo..., decidir que roupa vestir. Mas existem normas com relação a tudo isso, disse Tiago. Moisés criou essas normas, e depois, quando os rabinos... Mas eu me refiro a usar roupas agradáveis ou roupas velhas, mofadas, roupas coloridas ou sóbrias e escuras, roupas caras ou baratas! Olhou em volta, triunfante. Está vendo? Não há normas com relação a isso... Bom, nesse caso deve ser usado um critério genérico, disse José. E será que irá agradar a Deus? Será que ele se sentirá glorificado? Compreende? Não é assim tão simples como uma norma. Será que Deus se importa com a aparência externa das pessoas? Ou será que só os homens, que não podem enxergar o que está no coração, é que dão importância a isso?
É muito complicado, queixou-se Quezia. Como é que se pode saber o que passa na cabeça de Deus? Nessa hora, Rute deu uma dentada numa tâmara seca e fez uma careta. Meu dente, disse, mais pelo susto que pela dor. A raiz de alfavaca, disse sua mãe. Está no saco de couro... E a sua voz foi-se sumindo. Que está dentro daquela saca grande... Todos haviam compreendido. A sacola grande estava amarrada com nós e era proibido desatá-los até o pôr do sol do dia seguinte. E, mesmo que fosse mais fácil, era proibido usar remédios durante o Sabá. Mas..., lembrou Maria, o vinagre pode ser usado como tempero, e se ajudar na dor de dentes, é permitido. Por sorte, o frasquinho de vinagre estava do lado de fora. Foi passado de mão em mão e todos temperaram a comida. Rute tomou uma dose grande». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

Poesia e Drama. Ensaio sobre a Poesia de Bernardim Ribeiro. António José Saraiva. «Cristóvão Falcão foi, na verdade, um herói da aventura que lhe atribui o primeiro editor da Menina e Moça; e toda a corte se interessou pela triste sorte do fidalguinho infeliz»

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«(…) E, quanto a datas. algarismos, etc., haverá alguma coisa que impeça Bernardim Ribeiro de ser o autor do Crisfal? Carolina, fiada no famoso documento judicial de 1642, sustentava a impossibilidade cronológica. Mas já vimos, no primeiro parágrafo desta Introdução, o que devemos pensar da valia desse e de outros documentos. É impossível, portanto, argumentar com algarismos; e as razões que tenho estado a expor são bastante poderosas para os dispensar. Que resultado final se obtém de tudo isto? Vou apresentar ao Leitor urna hipótese que enfiará num colar as contas dispersas e desarticuladas que lhe venho apresentando. Cristóvão Falcão foi, na verdade, um herói da aventura que lhe atribui o primeiro editor da Menina e Moça; e toda a corte se interessou pela triste sorte do fidalguinho infeliz, namorado e preso. Bernardim Ribeiro, conhecedor da carta em verso que ele dirigira a Maria e que, possivelmente, correra de mão em mão, escreveu a Écloga pondo em cena o próprio Cristóvão Falcão sob o disfarce transparente do nome de Crisfal, formado das sílabas iniciais do nome dele. A Écloga correu anónima porque Bernardim Ribeiro, por qualquer razão, se não quis assinar como autor dela; e, por um processo naturalíssimo, pois Cristóvão Falcão era o herói da aventura e o autor da Carta, foi atribuída a este pela bisbilhotice palaciana. Daqui facilmente o boato chegaria aos ouvidos dos Usques, que o reproduziram com todas as cautelas, e, por intermédio deles, até nós. Bem sei que é esta uma hipótese como qualquer outra; mas tem sobre a hipótese de Delfim Guimarães e a hipótese tradicional a superioridade, pelo menos, de não ser inverosímil.
E passemos a outra meada.
A novela que conhecemos pelo nome de Menina e Moça aparece separada, na edição de Évora (1557), em duas partes muito diferentes entre si, tanto pelo carácter literário como pelo desenvolvimento do enredo: ao passo que a Primeira Parte é idílica e se desenvolve a partir de um ponto, num movimento contínuo, sem quebras, a Segunda Parte é uma série de histórias de cavalaria, sem unidade de desenvolvimento, contíguas, que se interrompem para dar passagem umas às outras.
Esta diversidade deu origem a uma hipótese segundo a qual a segunda parte da Menina e Moça seria escrita por um continuador com o fito de declarar, isto é, dar acabamento à história começada e evidentemente incompleta. Não seria caso desusado; e a hipótese era fortalecida pelas enormes contradições existentes entre as duas partes. Mas a edição de Ferrara (1554) vem destruir esta hipótese porque dá Bernardim Ribeiro como autor de dezassete capítulos da Segunda Parte; e aceite a autenticidade destes dezassete capítulos, ficamos autorizados a aceitar a de todos os restantes, porque os editores de Ferrara utilizaram um traslado evidentemente incompleto ou truncado. António Salgado Júnior acaba de propor a autenticidade dos sete capítulos que se seguem ao capítulo final da edição de Ferrara, com argumentos que não é fácil rebater». In António José Saraiva, Poesia e Drama, Estudos sobre Bernardim Ribeiro, Gradiva Publicações, Lisboa, 1996, ISBN 972-662-477-0.

Cortesia de Gradiva/JDACT

domingo, 15 de julho de 2018

As Egípcias. Christian Jacq. «Pépi II viveu centenário e teve três esposas sucessivas: Neit, Ipuit e Udjebten. Cada uma das três rainhas foi a encarnação da deusa Hator»

Cortesia de wikipedia e jdact

A rainha Quenet-Kaus, um faraó esquecido?
Quem era Quenet-Kaus?
«(…) Chepseskaf, o último rei da quarta dinastia, e Quenet-Kaus, considerada a mãe dos dois primeiros faraós da quinta dinastia, mandaram construir o mesmo e excepcional tipo de túmulo. Chepseskaf abandonou o símbolo da pirâmide que podia ser avistada de longe, e o mesmo fez Quenet-Kaus; os primeiros monarcas da quinta dinastia voltarão a mandar edificar pirâmides na estação de Abusir, próxima de Sacara. Uma suposição ousada: a existência deste túmulo-sarcófago, de um templo funerário, a sua posição de fundadora de uma nova dinastia, o culto que lhe será prestado depois da sua morte, não levam a crer que Quenet-Kaus ocupou a função suprema no início da quinta dinastia, entre o desaparecimento de Chepseskaf e a subida ao trono de Kserkal (cerca de 2500-2491 a.C.)? Os poderes criadores sobre os quais esta mulher reinava eram talvez os seus sucessores, que ela havia preparado para reinarem, quer tenha sido a sua mãe espiritual ou carnal, ou ambas. Infelizmente é impossível saber mais, mas reconhece-se hoje unanimemente que Quenet-Kaus, grande dama do Antigo Egipto, foi uma das duas figuras marcantes.

As Mulheres de Pépi II
Uma outra rainha faraó?
O faraó Pépi II (cerca de 2278-2184 a.C.) é a figura central da sexta dinastia: noventa e quatro anos à frente do Egipto, ou seja, o mais longo reinado da História! É certo que não edificou uma pirâmide tão colossal como a de Quéops, mas o país manteve-se próspero e feliz. Quando Pépi II foi escolhido para reinar, tinha apenas cinco anos. Era, evidentemente, incapaz de governar. Esta função foi conferida a uma mulher, Meryré-Anquenes, a amada da Luz divina, que a vida lhe seja concedida, viúva do faraó Pépi I. Que fosse simplesmente considerada como regente não altera os factos, assumiu os assuntos de Estado até ao momento em que Pépi II foi capaz de assumir o seu cargo.
Uma estátua em alabastro, conservada no Brooklyn Museum, mostra-a sentada com uma grande peruca, tendo sobre os joelhos o Faraó menino e enfeitiçando-o com a mão esquerda. A estatura de Pépi II revela que é certamente uma criança, mas tem um rosto de adulto. De facto, na concepção egípcia, o senhor das Duas Terras é faraó desde o ovo; o papel da mãe do rei consiste em fazê-lo crescer magicamente, em alargar o seu coração e torná-lo plenamente ciente dos seus deveres.

Três rainhas para um faraó e pirâmides falantes
Pépi II viveu centenário e teve três esposas sucessivas: Neit, Ipuit e Udjebten. Cada uma das três rainhas foi a encarnação da deusa Hator, cujo nome significa templo de Hórus, ou seja, o próprio faraó; na sua qualidade de senhora das estrelas, ela gerava o Hórus de ouro, a obra-prima da Criação, o rei capaz de exercer na Terra a missão de natureza cósmica que ela lhe confiava. A rainha chama-se aquela que vê Hórus e Set no mesmo ser (o faraó) e que consegue conciliar o inconciliável restabelecendo a paz entre os dois irmãos inimigos. É também aquela que reúne os dois senhores, os mesmos Hóros e Set que reinam sobre o Norte e o Sul do país, cuja aliança é indispensável.
Nesta época, é certo que o título de Amiga (semeret) de Hórus já não está reservado às esposas reais, podendo ser concedido a uma filha de rei ou mesmo a uma dignitária. E não foi a única inovação do longo reinado de Pépi II. Havia muito que se construíam pirâmides para as mães de rei e as grandes esposas reais, que assim partilhavam o destino estelar do faraó; quanto aos príncipes, não tinham sepulturas tão monumentais». In Christian Jacq, As Egípcias, Edições ASA, 2002, ISBN-978-972-413-062-0.

Cortesia de EASA/JDACT

As Egípcias. Christian Jacq. «E uma grande hesitação: será que a inscrição nos permite pensar que esta mãe de um rei não designado era também faraó?»

Cortesia de wikipedia e jdact

A enigmática Meresanq
Meresanq, guardiã das escrituras sagradas
(…) Entre os personagens presentes no túmulo figuram escribas. Ora, Meresanq possui um título notável: sacerdotisa do deus Tot, criador da linguagem sagrada e senhor das palavras de deus, os hieróglifos. Está, pois, directamente relacionada com o deus do conhecimento. É, aliás, o caso de várias rainhas egípcias, como Bentanta, que vemos ser conduzida por Tot para o outro mundo numa cena da sua sepultura do Vale das Rainhas. O pormenor é importante, pois prova que Meresanq tinha acesso à ciência sagrada e aos arquivos dos templos, denominados a manifestação da Luz divina (baú Ra). É também uma deusa, Sechat, que rege a Casa da Vida onde se compunham os rituais e onde os faraós eram iniciados nos segredos da sua função. Guardiã das bibliotecas e dos textos fundamentais, ela maneja perfeitamente o pincel, que utiliza tanto para escrever as palavras da vida como para praticar a requintada arte da maquilhagem. Vestida com uma pele de pantera, a cabeça coroada por uma estrela de sete pontas (por vezes cinco ou nove), é Sechat quem redige os Anais Régios e inscreve os nomes do faraó nas folhas da árvore sagrada de Heliópolis. Desta deusa detentora dos segredos de construção do templo, que partilha com o rei, depende o secretariado do palácio. No templo de Séti I em Abidos, Sechat, encarregada dos arquivos aos rolos divinos, escreve o destino do faraó e diz: a minha mão escreve o seu longo tempo de vida, a saber, do que sai da boca da Luz divina (Ra), o meu pincel traça a eternidade; a minha tinta, o tempo; o meu tinteiro, as inúmeras festas de regeneração. Meresanq, iniciada nos mistérios de Tot e no conhecimento das escrituras rituais, foi instruída em toda a ciência sagrada do Antigo Egipto; mais de três mil anos após o seu desaparecimento, podemos encontrá-la na companhia da sua mãe e das suas irmãs, numa das mais surpreendentes sepulturas de Gize. Esta misteriosa e fascinante Meresanq permitiu-nos descobrir que o universo do conhecimento estava inteiramente aberto à mulher egípcia.

A rainha Quenet-Kaus, um faraó esquecido?
Um gigantesco sarcófago
No Inverno de 1931-1932, o egiptólogo egípcio Selim Hassan explorou uma parte da imensa estação de Gize, a cerca de 400 m a sueste da pirâmide de Quéfren. Neste planalto criado pelo homem havia um impressionante número de obras-primas: as três pirâmides, por certo, mas também numerosas sepulturas decoradas. São necessárias longas jornadas para percorrer estas ruas de sepulturas que nada têm de fúnebre; pelo contrário, esta cidade de eternidade, de tranquilizadoras pedras, é um lugar de paz e serenidade. Selim Hassan descobriu um extraordinário monumento, um imenso sarcófago cuja base tinha 40 m de lado. Espantado, teve de render-se à evidência: tratava-se de um sarcófago rectangular de tecto abobadado, assente sobre uma base quadrada, cujo interior maciço era em parte constituído pela rocha. Desconcertado e deslumbrado, o egiptólogo pensou num monumento comparável: o túmulo do rei Chepseskaf (cerca de 2504-2500 a.C.), sucessor de Miquerinos e último rei da quarta dinastia. A sua morada eterna, em forma de gigantesco sarcófago, foi edificada a sul de Sacara, longe da actual zona turística. Infelizmente, nada sabemos acerca deste faraó cujo reinado foi breve.

Quem era Quenet-Kaus?
No ângulo sueste do túmulo-sarcófago de Gize, nos alizares em granito de uma capela exterior e de uma falsa porta que estabelece a comunicação entre o visível e o invisível, Selim Hassan decifrou o nome e os títulos da proprietária: Quenet-Kaus, Aquela que preside aos seus poderes criadores, mãe do rei do Alto e Baixo Egipto, filha do deus. para o qual se realizam todas as boas coisas que ela formula. E uma grande hesitação: será que a inscrição nos permite pensar que esta mãe de um rei não designado era também faraó?
Desde a descoberta do seu túmulo, poucas informações conseguimos acerca desta rainha, mas podemos concluir que teve um papel importante. Filha, por certo, de Miquerinos, o construtor da mais pequena das três pirâmides de Gize, foi criada e instruída na escola do palácio. A sua mãe seria a sublime Qamerer-Nebti, a esposa de Miquerinos, cujo rosto admirável conhecemos graças a uma estátua conservada no Museu de Boston? Esta obra magnífica, colocada no templo do vale no conjunto funerário de Miquerinos, mostra-nos a sua esposa caminhando a seu lado, passando o braço direito pela cintura do monarca e pousando a mão esquerda no braço esquerdo do esposo, numa atitude protectora». In Christian Jacq, As Egípcias, Edições ASA, 2002, ISBN-978-972-413-062-0.

Cortesia de EASA/JDACT