sábado, 12 de junho de 2021

Lucrécia Borgia. Jean Plaidy. «Claro que ela era serena, porque era inteligente; adquirira o poder através da rivalidade dos irmãos, e tudo o que tinha de fazer era dar o prémio, o seu afecto»


Cortesia de wikipedia e jdact

A Piazza Pizzo di Merlo

«(…) Inocêncio VIII tornara-se papa e permitira que o cardeal della Rovere, que era sobrinho do falecido Sisto, o convencesse a fazer guerra contra Nápoles. Os poderosos Orsini, que, como os Colonna, dominavam Roma, eram amigos e aliados dos napolitanos, e isso lhes proporcionara uma desculpa para levantarem-se contra a cidade. Colocaram Roma quase em estado de sítio, e seus velhos inimigos, os Colonna, não perderam tempo e entraram em combate contra eles. Portanto, as ruas de Roma, durante o período que se seguiu à morte de Sisto e à eleição de Inocêncio, foram cenário de muitas batalhas ferozes. As crianças, César, Giovanni e Lucrécia, olhando por trás das barricadas, tinham visões estranhas da cidade de Roma. Viram os ferozes Orsini saindo em grande número de Monte Giordano para atacar os igualmente ferozes e sanguinários Colonna. Viram homens cortando uns aos outros em pedaços na praça imediatamente diante de seus olhos; viram o comportamento de soldados lascivos com meninas e mulheres; sentiram os horríveis cheiros da guerra, de prédios em chamas, de sangue e de suor; ouviram os gritos de vítimas e os gritos triunfantes de atacantes. A morte era comum; a tortura, também.

A pequena Lucrécia, com quatro anos de idade, assistia àquilo a princípio com espanto, e depois quase que com indiferença. César e Giovanni assistiam com ela, e ela ia aprendendo com eles. Tortura, estupro, assassinato, tudo isso fazia parte do mundo fora da ala infantil em que eles viviam. Aos quatro anos de idade, as crianças aceitam sem surpresa aquilo que diariamente desfila diante de seus olhos, e Lucrécia iria lembrar-se daquela época da sua vida não como uma época de horror, mas de mudança. Aos poucos, o combate acabou; a vida voltou ao normal; e dois anos se passaram antes que houvesse uma outra, e dessa vez mais importante, mudança para Lucrécia, uma mudança que assinalou o começo do fim da sua infância. Ela estava com quase seis anos, uma criança precoce para a idade, César, com onze e Giovanni, com dez; ela ficara tanto tempo na companhia deles que aprendera mais do que a maioria das crianças sabia aos seis anos de idade. Ela estava serena como sempre, talvez um pouco mais ansiosa agora do que antes, por provocar aquela rivalidade entre os irmãos, compreendendo mais do que nunca o poder que aquilo lhe dava, e que, enquanto cada um deles procurasse ser o seu favorito, ela poderia ser a pessoa mais poderosa da ala infantil.

Claro que ela era serena, porque era inteligente; adquirira o poder através da rivalidade dos irmãos, e tudo o que tinha de fazer era dar o prémio, o  seu afecto. Continuava sendo a querida da ala infantil. As amas podiam ter a certeza de que não haveria acesso de fúria algum por parte de Lucrécia; era delicada com o jovem Goffredo, que os irmãos praticamente não se dignavam anotar por causa da pouca idade; e era igualmente delicada com o pequeno Otaviano, a que os irmãos não davam absolutamente atenção alguma. Eles sabiam de alguma coisa a respeito de Otaviano que fazia com que o desprezassem, mas Lucrécia sentia pena dele, de modo que lhe dedicava uma delicadeza especial. Lucrécia desfrutava a vida; era divertido jogar um irmão contra o outro, extrair deles os segredos, usar aquela rivalidade. Ela gostava de andar pelos jardins, os braços envolvendo Giovanni, sendo especialmente carinhosa quando sabia que César podia vê-la da casa. Ser assim tão amada por dois irmãos tão maravilhosos fazia com que ela se sentisse bem e à vontade». In Jean Plaidy, Lucrécia Borgia, Edição Record, 1996, ISBN 978-850-104-410-5.

 

Cortesia de ERecord/JDACT

 

JDACT, Jean Plaidy, Itália, Literatura,

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Dan Brown. O Símbolo Perdido. «Mas não foram as tatuagens que chamaram sua atenção. Seu olhar se moveu instantaneamente para o conhecido anel de ouro no dedo anelar»


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«(…) Assim em cima como em baixo, disse o homem. Langdon sentiu um calafrio. Aquela estranha resposta era um antigo adágio hermético que afirmava uma crença na conexão física entre o céu e a terra. Assim em cima como em baixo. Langdon correu os olhos pelo amplo salão e se perguntou como as coisas tinham fugido tão subitamente ao seu controle naquela noite. Olhe aqui, eu não sei como encontrar portal antigo nenhum. Vou chamar a polícia. O senhor realmente ainda não entendeu, não é? O motivo porque foi escolhido? Não, disse Langdon. Mas vai entender, retrucou o homem com uma risadinha. A qualquer momento. Então a ligação foi cortada. Langdon ficou parado por vários segundos aterrorizantes, tentando processar o que havia acabado de acontecer. De repente, ao longe, ouviu um som inesperado. Vinha da Rotunda. Alguém estava gritando.

Robert Langdon já havia entrado na Rotunda do Capitólio várias vezes na vida, mas nunca correndo a toda a velocidade. Quando atravessou, em corrida, a entrada norte, viu um grupo de turistas aglomerado no centro da sala. Um menininho gritava e seus pais tentavam acalmá-lo. Outras pessoas se juntavam à sua volta enquanto os seguranças faziam o possível para restaurar a ordem. Ele tirou de dentro da tipóia, disse alguém com a voz histérica, e simplesmente largou ali! Ao se aproximar, Langdon viu pela primeira vez o que estava causando todo aquele estardalhaço. De facto, o objecto no chão do Capitólio era estranho, mas a sua presença não justificava tanta gritaria. Langdon já vira muitas vezes o objecto caído no chão. O departamento de artes de Harvard tinha dezenas deles, modelos de plástico em tamanho natural, usados por escultores e pintores para ajudá-los a reproduzir a parte mais complexa do corpo humano, que surpreendentemente não era o rosto, e sim a mão. Alguém deixou a mão de um manequim dentro da Rotunda?

Mãos de manequim tinham dedos articulados que permitiam a um artista colocá-los na posição que quisesse, o que, para os alunos de segundo ano da universidade, geralmente significava com o dedo médio em riste. Aquela, porém, havia sido posicionada com o indicador e o polegar apontados para o tecto.

No entanto, quando Langdon se aproximou, percebeu que aquela mão de manequim era peculiar. Sua superfície de plástico não era lisa como a maioria. Pelo contrário, era cheia de manchas e levemente enrugada, quase parecida com... Pele de verdade. Langdon parou abruptamente. Foi então que viu o sangue. Meu Deus!

O pulso cortado parecia ter sido fincado numa base de madeira com um prego para ficar em pé. Uma onda de náusea atravessou seu corpo. Langdon foi-se aproximando devagar, sem conseguir respirar, vendo agora que as pontas do indicador e do polegar haviam sido decoradas com minúsculas tatuagens. Mas não foram as tatuagens que chamaram sua atenção. Seu olhar se moveu instantaneamente para o conhecido anel de ouro no dedo anelar. Não. Langdon recuou. O mundo à sua volta começou a girar quando ele percebeu que estava olhando para a mão direita cortada de Peter Solomon». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

 JDACT, Washington DC, Dan Brown, Literatura, Maçonaria,

O Símbolo Perdido. Dan Brown. « O homem fez uma pausa de vários segundos. Como o senhor talvez saiba, nesta cidade existe um antigo portal. Um antigo portal?»

 


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«(…) Onde? Langdon percebeu que estava apertando o telefone móvel com tanta força que os seus dedos estavam ficando dormentes. O Araf? O Hamistagan? Aquele lugar ao qual Dante dedicou o livro imediatamente posterior ao seu lendário Inferno? As referências religiosas e literárias do homem aumentavam as suspeitas de Langdon de que estava lidando com um louco. O segundo livro. Langdon o conhecia bem; ninguém consegue escapar da Academia Phillips Exeter sem ler os cantos de Dante. Está dizendo que acha que Peter Solomon está..., no purgatório? Vocês cristãos usam uma palavra rude, mas sim, o sr. Solomon está no mundo intermediário. As palavras do homem se demoraram nos ouvidos de Langdon. Está dizendo que Peter está..., morto? Não, não exactamente. Não exatamente?!, berrou Langdon, sua voz ecoando com força pelo salão. Uma família de turistas olhou para ele. Ele lhes virou as costas e baixou a voz. Em geral a morte é ou não é! O senhor me surpreende, professor. Imaginava que tivesse uma compreensão melhor dos mistérios da vida e da morte. Existe de facto um mundo intermediário..., um mundo no qual Peter Solomon está actualmente suspenso. Ele pode voltar para o seu mundo ou pode passar para o outro..., dependendo de como você haja neste momento. Langdon tentou processar o que ele dizia.

O que quer de mim? É simples. O senhor obteve acesso a algo muito antigo. E hoje à noite vai compartilhar isso comigo. Não faço ideia do que está falando. Não? O senhor finge não entender os antigos segredos que lhe foram confiados? Langdon teve uma súbita sensação de vertigem, suspeitando por fim do que aquilo provavelmente se tratava. Antigos segredos. Não havia mencionado a ninguém sequer uma palavra sobre as suas experiências de vários anos atrás em Paris. Contudo, os fanáticos do Graal haviam acompanhado de perto a cobertura da comunicação social, sendo que alguns conseguiram ligar os pontos e acreditavam que Langdon agora detinha informações secretas relacionadas ao Santo Graal, e talvez até a sua localização.

Olhe aqui, disse Langdon, se isso tiver a ver com o Santo Graal, posso lhe garantir que não sei nada mais do que... Não ofenda a minha inteligência, sr. Langdon, disparou o homem. Não tenho nenhum interesse em algo tão frívolo quanto o Santo Graal ou o patético debate da humanidade para saber qual versão da história está correcta. Discussões inúteis sobre a semântica da fé não me interessam nem um pouco. São perguntas que só se respondem com a morte. Aquelas palavras duras deixaram Langdon confuso. Então de que estão falando? O homem fez uma pausa de vários segundos. Como o senhor talvez saiba, nesta cidade existe um antigo portal.

Um antigo portal?

E hoje à noite o senhor vai destrancá-lo para mim. Deveria se sentir honrado por eu ter entrado em contacto... Professor, o senhor vai receber o convite da sua vida. O senhor foi o único escolhido. E você enlouqueceu. Desculpe, mas você escolheu mal, disse Langdon. Eu não sei nada sobre nenhum antigo portal. O senhor não está entendendo, professor. Não fui eu que o escolhi... foi Peter Solomon. O quê?, retrucou Langdon, sua voz pouco mais que um sussurro.

O sr. Solomon me disse como encontrar o portal e confessou que somente um homem no mundo seria capaz de destrancá-lo. Ele também falou que esse homem é o senhor. Se Peter disse isso, estava enganado..., ou mentindo. Acho que não. Ele estava fragilizado quando fez essa confissão, e tendo a acreditar nele. Langdon sentiu uma pontada de raiva. Estou avisando, se machucar Peter de alguma forma... É muito tarde para isso, disse o homem como se estivesse achando graça. Eu já tirei o que precisava de Peter Solomon. Mas, para o bem dele, sugiro que me dê o que necessito do senhor. O tempo urge..., para vocês os dois. Sugiro que o senhor encontre o portal e o destranque. Peter apontará o caminho. Peter? Pensei que tivesse dito que ele está no purgatório». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

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quarta-feira, 9 de junho de 2021

Lucinda Riley. O Segredo de Helena. «Querido Alex, feliz Natal! Procure manter este diário em dia, escrevendo com regularidade. Talvez seja interessante lê-lo quando for mais velho…»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Fechei a porta com firmeza, ainda incapaz de lidar com a Caixa de Pandora das lembranças que voariam de qualquer um daqueles cómodos, e bati em retirada para o térreo. Vi que a noite caíra e estava escuro como breu do lado de fora. Consultei o relógio, acrescentei duas horas por conta da diferença de fuso horário e constatei que eram quase nove da noite, meu estômago vazio roncava, pedindo comida. Descarreguei meus pertences que estavam no carro e guardei na despensa os mantimentos que havia comprado na loja do vilarejo, depois levei pão, queijo fecha e uma cerveja morna para a varanda. Ali, sentado no meio ao silêncio cuja pureza só era rompida por uma ou outra cigarra sonolenta, tomei a cerveja e me perguntei se tinha sido mesmo uma boa ideia chegar dois dias antes dos outros. Pensar no meu próprio umbigo é algo que domino, a ponto de, recentemente, alguém me ter oferecido um emprego para exercer essa actividade em carácter profissional. Essa ideia, pelo menos, me fez rir. Para tirar da cabeça a situação, abri o diário e li a dedicatória na primeira página: Querido Alex, feliz Natal! Procure manter este diário em dia, escrevendo com regularidade. Talvez seja interessante lê-lo quando for mais velho. Com todo o meu amor, um beijo, M.

Bem, mãe, vamos torcer para estar certa. Dei um sorriso desanimado e fui pulando as páginas de prosa cheia de empáfia, até chegar ao começo de Julho. E, à luz da lâmpada fraca e solitária pendurada acima de mim na pérgula, comecei a ler.

Meu rosto é perfeitamente redondo. Tenho a certeza de que se poderia desenhá-lo com um compasso. Eu detesto o meu rosto. No interior do círculo estão as maçãs do rosto. Quando eu era menor, os adultos costumavam puxar minhas bochechas, pegar minha carne entre os dedos e apertar. Esqueciam que não eram maçãs de verdade. As maçãs são inanimadas. São duras, não sentem dor. Quando se machucam, é só na superfície. Tenho olhos bonitos, é bom que se diga. Eles mudam de cor. Minha mãe diz que, quando estou vivo por dentro, cheio de energia, eles são verdes. Quando fico estressado, passam a ter a cor do mar do Norte. Pessoalmente, acho que passam um bom tempo cinzentos, mas são bem grandes e têm formato de caroço de pêssego, e minhas sobrancelhas, mais escuras que meu cabelo, que é muito louro e escorrido, formam uma bela moldura para eles.

No momento, estou-me olhando no espelho. Brotam lágrimas nos meus olhos, porque, quando não estou olhando para o meu rosto, na minha imaginação, posso ser quem eu quiser. Aqui, neste minúsculo banheiro de avião, a luz é cruel e brilha feito uma auréola acima da minha cabeça. Os espelhos de avião são a pior coisa do mundo: fazem a gente parecer um morto de 2 mil anos, recém-exumado. Sob a camiseta, posso ver a banha que cai por cima do meu short. Seguro um punhado dela e moldo uma imitação sofrível do deserto de Gobi. Crio dunas com buraquinhos entre elas, dos quais poderia brotar uma ou outra palmeira em torno do oásis. Depois disso, lavo minuciosamente as mãos. Na verdade, gosto das minhas mãos, porque parecem não ter se juntado à Marcha para a Gordolândia, que é onde o meu corpo resolveu morar no momento. Minha mãe diz que são dobrinhas, que o botão hormonal chamado cresça para os lados funcionou logo na primeira vez em que foi accionado.

Infelizmente, o botão cresça para cima deu defeito. E não parece ter sido consertado até hoje. Quem quer ter dobrinhas, além dos bebés? Talvez eu precise de um pouco de exercício. A boa notícia é esta: andar de avião dá uma sensação de ausência de peso, mesmo que você seja gordo. E há um monte de gente mais gorda que eu neste avião, porque eu vi. Se eu sou o deserto de Gobi, meu vizinho de assento é o Saara. Os braços dele monopolizam os dois braços da poltrona, e a pele, os músculos e a gordura dele invadem o meu espaço pessoal feito um vírus mutante. Isso realmente me irrita. Guardo minha carne comigo, no território que me foi designado, mesmo que, nesse processo, acabe com uma tremenda contratura muscular». In Lucinda Riley, O Segredo de Helena, 2016, Editora IN, 2018, ISBN 978-989-776-064-8.

Cortesia de EIN/JDACT

JDACT, O Segredo de Helena, Literatura, Crónica,

Lucinda Riley. O Segredo de Helena. «Abri a porta do Armário das Vassouras, apelido carinhoso que dei ao quarto que ocupei durante aquele longo e quente verão dez anos atrás»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A única coisa na sala que tinha mudado de forma a ficar irreconhecível era eu, é claro. Nós, humanos, completamos a maior parte da nossa evolução física e mental em nossos primeiros anos no planeta Terra, de bebés a adultos plenos num piscar de olhos. Depois disso, ao menos por fora, passamos o resto da vida mais ou menos com a mesma aparência, apenas nos transformando em versões mais flácidas e menos atraentes do nosso eu jovem, à medida que os genes e a gravidade fazem o que sabem fazer de pior. Quanto à dimensão afectiva e intelectual das coisas..., bem, devo acreditar que há algumas vantagens que compensam o lento declínio do nosso envoltório externo. Estar de volta a Pandora me mostrou com clareza que elas existem. Tornando a entrar no corredor, ri do Alex que eu era. E me encolhi diante do meu eu anterior, aos 13 anos, um completo egocêntrico e perfeito pé no saco.

Abri a porta do Armário das Vassouras, apelido carinhoso que dei ao quarto que ocupei durante aquele longo e quente verão dez anos atrás. Ao procurar o interruptor, percebi que eu não subestimara as dimensões do cómodo e que, para dizer o mínimo, o espaço parecia haver encolhido ainda mais. Entrei nele com todo o meu 1,85 metro e me perguntei se, caso eu fechasse a porta, meus pés precisariam ficar pendurados para fora da janelinha, bem ao estilo Alice no País das Maravilhas. Levantei os olhos para as estantes que preenchiam os dois lados do quarto claustrofóbico e vi que os livros que eu arrumara trabalhosamente em ordem alfabética ainda estavam ali. Num gesto instintivo, peguei um deles, Rewards and Fairies, de Rudyard Kipling, e o folheei até encontrar o famoso poema. Ao ler os versos de Se, os sábios conselhos de um pai para um filho, senti meus olhos se encherem de lágrimas pelo adolescente que eu fora, tão desesperado para encontrar um pai. E que, depois de encontrá-lo, reconhecera que já o tinha. Quando devolvia Rudyard a seu lugar na prateleira, avistei um livrinho de capa dura a seu lado e me dei conta de que era o diário que minha mãe me dera no Natal, alguns meses antes de eu vir a Pandora pela primeira vez.

Todos os dias, durante sete meses, eu escrevera nele com assiduidade e, sabendo como eu era na época, pomposamente. Como todo o adolescente, eu acreditava que minhas ideias e sentimentos eram únicos e inovadores, pensamentos que nenhum ser humano jamais tivera antes de mim. Balancei a cabeça, triste, e suspirei como um ancião diante da minha ingenuidade. Eu havia deixado esse diário para trás ao voltar para casa, na Inglaterra, depois daquele longo verão em Pandora. E ali estava ele, passados dez anos, mais uma vez nas minhas mãos, hoje muito maiores. Uma lembrança dos meus últimos meses de criança, antes que a vida me arrastasse para a idade adulta. Levando o diário comigo, saí do quarto e subi para o segundo andar. Ao caminhar pela penumbra do corredor abafado, sem saber exactamente em qual cómodo queria me instalar durante minha temporada aqui, respirei fundo e fui ao quarto dela. Com toda a coragem possível, abri a porta. Talvez fosse minha imaginação, após uma década de ausência, achei que devia ser, mas me convenci de que meus sentidos tinham sido tomados de assalto pelo aroma daquele perfume que um dia ela usara...» In Lucinda Riley, O Segredo de Helena, 2016, Editora IN, 2018, ISBN 978-989-776-064-8.

Cortesia de EIN/JDACT

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terça-feira, 8 de junho de 2021

José Saramago. Objecto Quase. «E logo a seguir, na curva do caminho, apareceu um homem pedalando numa bicicleta, coberto com uma grande folha de plástico preto, por onde a chuva escorria como sobre a pele de uma foca»


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«(…) Desligou o motor, tirou a chave e abriu a porta. Não foi capaz de sair. Julgou que a aba da gabardina se prendera, que a perna ficara entalada na coluna do volante, e fez outro movimento. Ainda procurou o cinto de segurança, a ver se o colocara sem dar por isso. Não. O cinto estava pendurado ao lado, tripa negra e mole. Disparate, pensou. Devo estar doente. Se não consigo sair, é porque estou doente. Podia mexer livremente os braços e as pernas, flectir ligeiramente o tronco consoante as manobras, olhar para trás, debruçar-se um pouco para a direita, para o cacifo das luvas, mas as costas aderiam ao encosto do banco. Não rigidamente, mas como um membro adere ao corpo. Acendeu um cigarro, e de repente preocupou-se com o que diria o patrão se assomasse a uma janela e o visse ali instalado, dentro do carro, a fumar, sem nenhuma pressa de sair. Um toque violento de claxon fê-lo fechar a porta, que abrira para a rua. Quando o outro carro passou, deixou descair lentamente a porta outra vez, atirou o cigarro fora e, segurando-se ao volante, fez um movimento brusco, violento. Inútil, Nem sequer sentiu dores. O encosto do banco segurou-o docemente e manteve-o preso. Que era isto que estava a acontecer? Puxou para baixo o retrovisor e olhou-se.

Nenhuma diferença no rosto. Apenas uma aflição imprecisa que mal se dominava. Ao voltar a cara para a direita, para o passeio, viu uma rapariguinha a espreitá-lo, ao mesmo tempo intrigada e divertida. Logo a seguir surgiu uma mulher com um casaco de abafo nas mãos, que a rapariga vestiu, sem deixar de olhar. E as duas afastaram-se, enquanto a mulher compunha a gola e os cabelos da menina. Voltou a olhar o espelho e compreendeu o que devia fazer. Mas não ali. Havia pessoas a olhar, gente que o conhecia. Manobrou para desencostar, rapidamente, deitando a mão à porta para fechá-la, e desceu a rua o mais depressa que podia. Tinha um fito, um objectivo muito definido que já o tranquilizava, e tanto que se deixou ir com um sorriso que aos poucos lhe abrandara a aflição Só reparou na bomba de gasolina quando lhe ia quase a passar pela frente. Tinha um letreiro que dizia esgotado, e o carro seguiu, sem o mínimo desvio, sem diminuir a velocidade. Não quis pensar no carro. Sorriu mais. Estava a sair da cidade, eram já os subúrbios, estava perto o sítio que procurava. Meteu por uma rua em construção, virou à esquerda e à direita, até uma azinhaga deserta, entre valados. Começava a chover quando parou o automóvel.

A sua ideia era simples. Consistia em sair de dentro da gabardina, torcendo os braços e o corpo, deslizando para fora dela, tal como faz a cobra quando abandona a pele. No meio de gente não se atreveria, mas, ali, sozinho, com um deserto em redor, só longe a cidade que se escondia por trás da chuva, nada mais fácil. Enganara-se, porém. A gabardina aderia ao encosto do banco, do mesmo modo que ao casaco, à camisola de lã, à camisa, à camisola interior, à pele, aos músculos, aos ossos. Foi isto que pensou não pensando quando daí a dez minutos se retorcia dentro do carro aos gritos, a chorar. Desesperado. Estava preso no carro. Por mais que se torcesse para fora, para a abertura da porta por onde a chuva entrava empurrada por rajadas súbitas e frias, por mais que fincasse os pés na saliência alta da caixa de velocidades, não conseguia arrancar-se do assento. Com as duas mãos segurou-se no tejadilho e tentou içar-se. Era como se quisesse levantar o mundo. Atirou-se para cima do volante, a gemer, apavorado. Diante dos seus olhos, os limpa-vidros, que sem querer pusera em movimento no meio da agitação, oscilavam com um ruído seco, de metrónomo. De longe veio o apito duma fábrica. E logo a seguir, na curva do caminho, apareceu um homem pedalando numa bicicleta, coberto com uma grande folha de plástico preto, por onde a chuva escorria como sobre a pele de uma foca. O homem que pedalava olhou curiosamente para dentro do carro e seguiu, talvez decepcionado ou intrigado por ver um homem sozinho, e não o casal que de longe lhe parecera.

O que estava a passar-se era absurdo. Nunca ninguém ficara preso desta maneira no seu próprio carro, pelo seu próprio carro. Tinha de haver um processo qualquer de sair dali. À força não podia ser. Talvez numa garagem? Não. Como iria explicar? Chamar a polícia? E depois? Juntar-se-ia gente, tudo a olhar, enquanto a autoridade evidentemente o puxaria por um braço e pediria ajuda aos presentes, e seria inútil, porque o encosto do banco docemente o prenderia a si. E viriam os jornalistas, os fotógrafos e ele seria mostrado metido no seu carro em todos os jornais do dia seguinte, cheio de vergonha como um animal tosquiado, à chuva. Tinha de arranjar outra maneira». In José Saramago, Objecto Quase, 1978, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-004-655-0.

Cortesia de PortoE/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Política, Cultura, Nobel, MLCT,

segunda-feira, 7 de junho de 2021

José Saramago. Objecto Quase. «Tinham passado mais de vinte minutos quando fez avançar o carro até à bomba. Viu chegar o empregado e a voz apertou-se-lhe ao pedir que atestasse o depósito»


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«(…) Que fora aquilo? Tinha o depósito cheio, sim, praticamente cheio, porque diabo de lembrança. Manejou a alavanca das velocidades para meter a marcha atrás, mas a caixa não lhe obedeceu. Tentou forçar, mas as engrenagens pareciam bloqueadas. Que disparate. Agora avaria. O automóvel da frente avançou. Receosamente, a contar com o pior, engatou a primeira. Tudo perfeito. Suspirou de alívio. Mas como estaria a marcha atrás quando tornasse a precisar dela? Cerca de meia hora depois metia meio litro de gasolina no depósito, sentindo-se ridículo sob o olhar desdenhoso do empregado da bomba. Deu uma gorjeta absurdamente alta e arrancou num grande alarido de pneus e acelerações. Que diabo de ideia. Agora ao cliente, ou será uma manhã perdida. O carro estava melhor do que nunca. Respondia aos seus movimentos como se fosse um prolongamento mecânico do seu próprio corpo. Mas o caso da marcha atrás dava que pensar. E eis que teve de pensar mesmo. Uma grande camioneta avariada tapava todo o leito da rua. Não podia contorná-la, não tivera tempo, estava colado a ela. Outra vez a medo, manejou a alavanca, e a marcha atrás engrenou com um ruído suave de sucção. Não se lembrava de a caixa de velocidades ter reagido desta maneira antes. Rodou o volante para a esquerda, acelerou, e de um só arranco o automóvel subiu o passeio, rente à camioneta, e saiu do outro lado, solto, com uma agilidade de animal. O diabo do carro tinha sete fôlegos. Talvez que por causa de toda esta confusão do embargo, tudo em pânico, os serviços desorganizados tivessem feito meter nas bombas gasolina de muito maior potência. Teria a sua graça. Olhou o relógio. Valeria a pena ir ao cliente? Por sorte apanharia o estabelecimento ainda aberto. Se o trânsito ajudasse, sim, se o trânsito ajudasse, teria tempo. Mas o trânsito não ajudou.

Tempo do Natal, mesmo faltando a gasolina, toda a gente vem para a rua, a empatar quem precisa de trabalhar. E ao ver uma transversal descongestionada, desistiu de ir ao cliente. Melhor seria explicar qualquer coisa no escritório e deixar para a tarde. Com tantas hesitações desviara-se muito do centro. Gasolina queimada sem proveito. Enfim, o depósito estava cheio. Num largo ao fundo da rua por onde descia viu outra fila de automóveis, à espera de vez. Sorriu de gozo e acelerou, decidido a passar roncando contra os entanguidos automobilistas que esperavam. Mas o carro, a vinte metros, obliquou para a esquerda, por si mesmo, e foi parar, suavemente, como se suspirasse, no fim da fila. Que coisa fora aquela, se não decidira meter mais gasolina? Que coisa era, se tinha o depósito cheio? Ficou a olhar os diversos mostradores, a apalpar o volante, custando-lhe a reconhecer o carro, e nesta sucessão de gestos puxou o retrovisor e olhou-se no espelho. Viu que estava perplexo e considerou que tinha razão. Outra vez pelo retrovisor distinguiu um automóvel que descia a rua, com todo o ar de vir colocar-se na fila. Preocupado com a ideia de ficar ali imobilizado, quando tinha o depósito cheio, manejou rapidamente a alavanca para a marcha atrás. O carro resistiu e a alavanca fugiu-lhe das mãos. No segundo imediato achou-se apertado entre os seus dois vizinhos. Diabo. Que teria o carro? Precisava de levá-lo à oficina. Uma marcha atrás que funciona ora sim ora não, é um perigo.

Tinham passado mais de vinte minutos quando fez avançar o carro até à bomba. Viu chegar o empregado e a voz apertou-se-lhe ao pedir que atestasse o depósito. No mesmo instante, fez uma tentativa para fugir à vergonha, meteu uma rápida primeira e arrancou. Em vão. O carro não se mexeu. O homem da bomba olhou-o desconfiado, abriu o depósito, e, passados poucos segundos, veio pedir o dinheiro de um litro, que guardou resmungando. No instante logo, a primeira entrava sem qualquer dificuldade e o carro avançava, elástico, respirando pausadamente. Alguma coisa não estaria bem no automóvel, nas mudanças, no motor, em qualquer sítio, diabo levasse. Ou estaria ele a perder as suas qualidades de condutor? Ou estaria doente? Dormira ainda assim bem, não tinha mais preocupações da vida que em todos os outros dias dela. O melhor seria desistir por agora de clientes, não pensar neles durante o resto do dia e ficar no escritório. Sentia-se inquieto. Em redor de si, as estruturas do carro vibravam profundamente, não à superfície mas no interior dos aços, e o motor trabalhava com aquele rumor inaudível de pulmões enchendo e esvaziando, enchendo e esvaziando. Ao princípio, sem saber porquê, deu porque estava a traçar mentalmente um itinerário que o afastasse doutras bombas de gasolina, e quando percebeu o que fazia assustou-se, temeu-se de não estar bom da cabeça. Foi dando voltas, alongando e cortando caminho, até que chegou em frente do escritório. Pôde arrumar o carro e suspirou de alívio». In José Saramago, Objecto Quase, 1978, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-004-655-0.

Cortesia de PortoE/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Política, Cultura, Nobel, MLCT,

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Alfred porém não sabia escrever uma única palavra, e mal era capaz de reconhecer o próprio nome; Martha não conseguia fazer nem isso. Seria possível que aquela criança idiota…»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mas e o francês? Tom teve vontade de perguntar se era ele o pai de Jack. E se era, quando morrera? E como? Mas pela cara de Ellen, sabia que ela não ia falar a respeito dessa parte da sua história, e como parecia ser do tipo que não podia ser persuadida a agir contra a própria vontade, ele guardou as perguntas para si. Por essa época seu pai morrera e o bando se dispersara, de modo que Ellen não tinha parentes ou amigos neste mundo. Quando Jack estava para nascer, ela acendeu uma fogueira para ficar acesa a noite toda, na entrada da sua caverna. Tinha água e comida à mão, assim como o arco, as flechas e as facas, para afastar os lobos e cães selvagens, e até mesmo um pesado manto vermelho roubado de um bispo, para embrulhar o bebé. Só não estava preparada para o medo e a dor do parto, e por muito tempo pensou que fosse morrer. Não obstante, o bebê nasceu forte e saudável, e ela sobreviveu.

Ellen e Jack viveram uma vida simples e frugal durante os onze anos seguintes. A floresta lhes dava tudo de que necessitavam, desde que fossem cuidadosos para armazenar maçãs, nozes e carne de veado salgada o suficiente para passar os meses de Inverno. Não raro Ellen pensava que, se não houvesse reis, lordes, bispos e xerifes, todos poderiam viver assim e ser perfeitamente felizes. Tom perguntou-lhe então como se arranjava com os outros proscritos, homens como Faramond Boca Aberta. O que aconteceria se eles se aproximassem furtivamente de noite e tentassem estuprá-la?, perguntou ele, e o desejo despertou com o pensamento, embora jamais tivesse possuído uma mulher contra a vontade, nem mesmo sua esposa. Os outros fora-da-lei tinham medo dela, disse Ellen, fitando-o com os luminosos olhos claros, e sabia a razão: eles pensavam que fosse uma feiticeira. Quanto às pessoas obedientes à lei que viajavam pela floresta, pessoas que sabiam que podiam roubar, estuprar e matar uma fora-da-lei sem medo de punição, Ellen simplesmente se escondia delas. Porque então não se escondera de Tom? Porque vira uma criança ferida e quisera ajudar. Ela própria tinha um filho.

Ellen ensinara a Jack tudo o que aprendera na casa do pai acerca de armas e caçadas. Depois lhe ensinara a ler e escrever e tudo mais que aprendera com as freiras: música e aritmética, francês e latim, desenho, até mesmo histórias da Bíblia. Finalmente, nas longas noites de Inverno, transferira para ele o legado do francês, que sabia mais histórias, poemas e canções do que qualquer outra pessoa no mundo... Tom não acreditou que Jack pudesse ler e escrever. Tom sabia escrever o nome, e um punhado de palavras como pence, jardas e alqueires; e Agnes, sendo filha de um sacerdote, sabia mais, embora escrevesse lenta e laboriosamente, com a ponta da língua aparecendo no canto da boca; Alfred porém não sabia escrever uma única palavra, e mal era capaz de reconhecer o próprio nome; Martha não conseguia fazer nem isso. Seria possível que aquela criança idiota fosse mais alfabetizada do que toda a família de Tom? Ellen disse a Jack para escrever qualquer coisa, e ele alisou a terra e rabiscou umas letras. Tom reconheceu a primeira palavra, Alfred, mas não as outras, e sentiu-se um tolo; então ela o salvou, lendo em voz alta: Alfred é maior que Jack. O menino desenhou rapidamente duas figuras, uma maior que a outra, e embora fossem desenhos esquemáticos, via-se que uma das figuras tinha os ombros largos e uma expressão um tanto bovina, enquanto a outra era pequena e sorridente. Tom, que tinha um certo talento para desenhar, ficou atônito com a força e simplicidade do desenho garatujado na terra. Mas a criança parecia idiota». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

JDACT, Ken Follett, Catedrais, Narrativa, Cultura,

domingo, 6 de junho de 2021

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Finalmente disse qualquer coisa em francês e, com o rosto iluminado de alegria, ele lhe respondeu na mesma língua. Ellen nunca mais voltou ao convento»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ouvindo a voz dela, na temperatura amena de uma tarde de Outono, Tom fechou os olhos e imaginou-a como uma garota de peito chato e cara suja, sentada a uma mesa comprida com os truculentos companheiros do pai, bebendo cerveja forte, arrotando e cantando canções sobre batalhas, pilhagens e estupros, cavalos, castelos e virgens, até cair adormecida com a cabecinha apoiada na tábua áspera. Se ao menos pudesse ter permanecido com o peito chato para sempre, teria sido feliz. Mas chegou a época em que os homens começaram a olhar para ela de modo diferente. Já não riam as gargalhadas quando dizia: saia do meu caminho senão cortarei fora suas bolas e as darei para os porcos. Alguns ficavam olhando, quando tirava a túnica de lã e se deitava para dormir com a camisa comprida, de linho, que usava por baixo. Quando urinavam no mato, viravam de costas para ela, o que nunca faziam antes. Um dia ela viu o pai mergulhado numa conversa com o sacerdote da paróquia, um raro acontecimento, e os dois ficavam olhando para ela o tempo todo, como se falassem a seu respeito. Na manhã seguinte seu pai disse-lhe: vá com Henry e Everard e faça o que eles disserem. Depois deu um beijo na sua testa. Ellen perguntou-se que diabo tinha acontecido com ele, estava ficando mole com a idade? Selou seu corcel cinzento, recusava-se a montar um palafrém, mais adequado a senhoras, ou um pónei de criança, e partiu com os dois homens de armas.

Eles a levaram a um convento e a deixaram ali. O local todo tremia, com suas pragas obscenas, enquanto os dois homens se afastavam. Ela esfaqueou a abadessa e voltou a pé para a casa do pai. Ele a mandou de volta, mãos e pés atados, e amarrada na sela de um jumento. Puseram-na de castigo numa cela até que o ferimento da abadessa sarou. Ali era frio, húmido e escuro como a noite, e havia água para beber mas nada para comer. Quando a deixaram sair da cela, mais uma vez voltou andando para casa. Seu pai a devolveu novamente, e então a açoitaram antes de a empurrarem na cela. Acabaram por vencê-la, é claro, e Ellen vestiu o hábito de noviça, obedeceu às regras e aprendeu as orações, mesmo que no fundo do coração detestasse as freiras, desprezasse os santos e não acreditasse, em princípio, em nada que qualquer pessoa lhe dissesse a respeito de Deus. Mas aprendeu a ler e escrever, passou a dominar a música, os números e o desenho, assim como acrescentou o latim ao francês e inglês falados na casa do seu pai. A vida no convento, afinal, não foi tão ruim assim. Era uma comunidade de um único sexo, com suas regras e rituais peculiares, e isso era exactamente aquilo com que estava acostumada. Todas as freiras tinham que fazer algum trabalho físico, e Ellen foi designada para cuidar dos cavalos. Antes que se passasse muito tempo, já era a encarregada do estábulo.

A pobreza jamais a preocupou. A obediência não veio com facilidade, mas acabou vindo. A terceira regra, castidade, nunca a incomodou, embora de vez em quando, só para contrariar a abadessa, ela apresentasse uma ou outra das noviças aos prazeres do... Agnes interrompeu a história de Ellen nesse ponto e, levando Martha, foi procurar um regato onde pudesse lavar o rosto da menina e limpar a sua túnica. Levou Alfred também, como medida de protecção, embora dissesse que não ia se afastar a uma distância superior a um grito. Jack levantou-se para segui-los, mas Agnes disse-lhe firmemente que ficasse, e o menino pareceu compreender, pois sentou-se de novo. Tom observou que Agnes conseguiu levar os filhos para onde não mais pudessem ouvir aquela história ímpia e indecente, deixando Tom ouvi-la.

Um dia, prosseguiu Ellen, o palafrém da superiora mancou, quando ela estava ausente do convento há diversos dias. O priorado de Kingsbridge por acaso era perto, de modo que a abadessa pediu emprestado ao prior outro animal. De volta ao convento, disse a Ellen para devolver o cavalo emprestado e trazer o palafrém manco. Ali, no estábulo do mosteiro, à vista da velha catedral em ruínas de Kingsbridge, Ellen conheceu um rapaz que parecia um cachorrinho que houvesse levado uma surra. Tinha a expressão alerta e a graciosidade de um filhote, mas era acovardado e assustado, como se toda a sua capacidade de brincar lhe tivesse sido arrancada a pancadas. Quando Ellen falou, ele não entendeu. Ela tentou latim, mas ele não era monge. Finalmente disse qualquer coisa em francês e, com o rosto iluminado de alegria, ele lhe respondeu na mesma língua. Ellen nunca mais voltou ao convento.

Daquele dia em diante passou a viver na floresta, primeiro num abrigo rústico, feito de galhos e folhas, depois numa caverna seca. Não tinha esquecido as habilidades masculinas que aprendera na casa do pai: sabia caçar veados, pegar coelhos com armadilhas e abater cisnes com o arco; sabia limpar a caça, eviscerá-la e prepará-la; sabia inclusive retirar e curtir o couro e as peles para as suas roupas. Além de caça, ela se alimentava de frutas silvestres, nozes e verduras. Qualquer coisa de que precisasse, sal, tecidos de lã, um machado ou uma faca nova tinha que roubar. O pior foi quando Jack nasceu...» In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

JDACT, Ken Follett, Catedrais, Narrativa, Cultura, 

sábado, 5 de junho de 2021

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «Tal como de manhã o rapaz, o funcionário público largou a Hirondelle e seguiu caminho sem se desculpar. Ainda com o sangue a latejar nas têmporas»


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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Mais calma, deu por si com fome, a tarde já ia a meio e nada comera desde manhã. Tinha uns francos no porta-moedas e olhou em volta, para se situar. Lembrava-se vagamente de que passara uma das pontes do Sena, antes de se sentar mais uma vez, supinamente chateada. Estava nos jardins da Nôtre-Dame e viu, do lado de lá do rio, na direcção do Saint-Germain, um bistrô numa esquina, para onde se dirigiu. Encostou a bicicleta à parede do Chez Pierre, onde nunca entrara, apesar de se recordar de que, um dia, Sara comentara que ali se serviam uns bons ovos mexidos. Pediu-os, juntamente com uma torrada e um café com leite, mal se sentou a uma das mesas e o proprietário a veio atender, contrariado e arrastando os pés. Ao balcão viu apenas três clientes, debruçados sobre um rádio, um Telefunken, ironicamente alemão. Pelo vestuário, deviam ser funcionários públicos, pois usavam mangas de alpaca e pareciam ansiosos, embora por vezes lançassem comentários jocosos, como se o locutor da rádio não os convencesse. Enquanto comia, a minha prima escutou a voz rouca e poderosa que provinha do aparelho, que lhe soou vagamente conhecida e cujas frases em inglês eram ditas com firmeza e convicção. Fosse quem fosse, tinha jeito à frente do microfone e foi esse talento que a obrigou a tomar atenção às palavras.

...Tenho plena confiança de que, se todos cumprirem os seus deveres, se nada for negligenciado e se as melhores providências forem tomadas, como está sendo feito, deveremos provar ser capazes mais uma vez de defender a nossa ilha natal, de superar a tempestade da guerra e de sobreviver à ameaça de tirania, se necessário por anos, se necessário, sozinhos. Um dos funcionários públicos soltou uma gargalhada, macerada de desprezo, apelidando quem falava de velho bêbado. Foi nesse momento que Carol identificou finalmente a voz de Winston Churchill, o recém-nomeado primeiro-ministro da Inglaterra, enquanto este fazia uma referência à República Francesa, gerando alguma indignação nos ouvintes, que logo negaram aos ingleses o estatuto de fiéis aliados. Balelas!, protestou um dos mangas de alpaca. A Maginot é que nos vai salvar, não é este careca gordo! Carol ignorou-os, como que atraída por um íman sonoro. Churchill usava impressionantes adjectivos e falava agora em grandes extensões da Europa e antigos e famosos Estados, caídos nos punhos da Gestapo e do odioso aparato do domínio nazi.

De repente, um conjunto de frases épicas emergiu do Telefunken e, como que por magia, o garfo da minha prima ficou suspenso no ar.

Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar, defenderemos a nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos! Finalmente, havia alguém que prometia uma resistência férrea contra os nazis. A coragem mostra-se, na esperança de que se multiplique, e a de Churchill emitia um brilho tão eficaz que teria certamente a capacidade de parar a fuga dos parisienses, de lhes tirar o medo e de os convencer a lutarem pelo que era seu, por uma Paris que a minha prima adorava. Eu vou ficar, prometeu a si própria. Não vou deixar a cidade e vou lutar, tal como Churchill disse. Eu não me rendo! Decidida, procurou o olhar dos franceses, mas estes, apesar de temporariamente emudecidos pela vibrante peroração do primeiro-ministro inglês, estavam já para além da salvação. Como se aquele notável discurso tivesse exposto ainda mais as suas fraquezas, os três ouvintes abandonaram o bistrô cabisbaixos e envergonhados. E, para enorme espanto de Carol, enquanto dois seguiram pela rua para a direita, um dos manga de alpaca dirigiu-se à Hirondelle e preparou-se para a montar. Com um pulo, a minha prima levantou-se, ouvindo nas suas costas um grito do proprietário, convencido de que ela ia escapar sem pagar, enquanto saía para a rua, insultando o homem com palavrões! Tal como de manhã o rapaz, o funcionário público largou a Hirondelle e seguiu caminho sem se desculpar. Ainda com o sangue a latejar nas têmporas, Carol levantou a bicicleta do chão e estacou, siderada, vigiada pelo dono do estabelecimento. Mais calma, encostou de novo a Hirondelle à parede e reentrou no bistrô, seguida de perto pelo homem, cujo comentário seguinte não se destinou à tentativa de furto, mas ao discurso de Churchill. É fácil falar do lado de lá da Mancha, resmungou ele, antes de exigir que Carol pagasse, pois tinha de fechar portas. Desiludida, a minha prima retirou uma conclusão óbvia: Paris não queria saber de lutas.

Paris, 4 de Junho de 1940

No Boulevard Saint-Germain, pelas seis da tarde, alguns carros eram ainda carregados com malas, mas o frenesim matinal desaparecera. A cidade voltava à normalidade, deduziu Carol, pedalando lentamente, enquanto era ultrapassada por um grande automóvel preto que, cem metros à frente, virou à esquerda. Um Mercedes... Não que fosse raro, mesmo os franceses compravam carros alemães, porém pareceu-lhe um mau presságio. Virou também e via já os contornos do Convento de Saint-Sulpice quando reparou que o veículo estacionara à porta de casa da sua amiga Sara». In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris,

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Ninguém é nosso irmão ou irmã. De irmandade só o convento. Que o cavaleiro erre tanto como a tua loucura…»


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«(…)

Brinvilliers (Marie Marguerite de)

Jovem e bonita mulher que, de 1666 a 1672, envenenou sem malícia, e muitas vezes com desinteresse, pais, amigos e criados. Chegava a ir aos hospitais e aí administrava veneno aos doentes. Todos os seus crimes devem ser atribuídos a uma horrível loucura ou à mais atroz espécie de depravação, mas não ao demónio, como é frequentemente o caso. É verdade que Brinvilliers começou a sua carreira criminosa aos sete anos e que espíritos supersticiosos suspeitavam de que um medonho diabo a tinha possuído... Vinte e quatro horas depois de ter sido queimada, em 1676, as pessoas procuraram os seus ossos e olhavam-nos como relíquias, dizendo que ela era uma santa..., pois que os envenenamentos continuaram depois da sua morte.

A ti fugida na tua paixão. De solidariedade

Ninguém, casadas e vendidas e nos próprias.

Não houve pão para nós à mesa dos homens.

E o que faremos, Madre Abadessa, que faremos?

Ninguém é nosso irmão ou irmã. De irmandade

Só o convento. Que o cavaleiro erre

Tanto como a tua loucura. Não acoites seu corpo

No teu, refúgio do seu pavor. Que ele caia

Sem casa. Nossa esperança

É a ruína das casas. Aí virás

Da tua paixão.

E o que faremos, o que faremos?

Deshoulières

Madame Deshoulierès decidiu passar alguns meses num domínio a quatro léguas de Paris, e foi convidada a escolher o mais belo quarto do castelo, à excepção de um quarto que era visitado todas as noites por um fantasma. Havia já muito tempo que Madame Deshoulières queria ver um fantasma, e a despeito de todas as objecções levantadas, instalou-se no quarto assombrado. Quando chegou a noite, foi para a cama, pegou num livro, como era seu costume, leu e, tendo-o acabado, apagou a luz e adormeceu. Depressa foi acordada por um barulho na porta, que fechava mal. Alguém abriu a porta, entrou, andando pesadamente... Estendendo as mãos, Madame Deshoulières agarrou duas orelhas lanzudas, e teve a paciência de as segurar até à manhã seguinte..., quando se descobriu que o pressuposto fantasma era um grande cão que achava o quarto mais confortável para dormir do que as estrebarias.

No mundo abandonado onde então erraremos

A paixão será um só objecto e exercício. Não me chames

De irmã, até que outro mundo venha.

Afastar possibilidades de novo convento. Nos escombros

Acharemos irmãos. Os que nada perderam

E por nada foram esmagados, pois que não tinham

Casas. Mas guardemo-nos ainda porque os irmãos

Dirão Fizésteis os cidadãos

Agora a cidade é nossa

Três vezes nos trairão

Nossos irmãos: no pão, no corpo

E na cidade. Não me armes cavaleiro

Das tuas angústias. Retomaríamos nos escombros

Antigos fantasmas. Recuaremos à raiz

Da nossa angústia, sozinhas, até dizermos

Nossos filhos são filhos são gente e não

Falos dos nossos machos. Chamaremos crianças

Às crianças, mulheres às mulheres e homens

Aos homens. Chamaremos um poeta para governo

Da cidade. Que substitua o demiurgo

De ciclópicos trabalhos.

Primeira Carta IV

Como é que o amor é possível?

Como é que não é possível?

que mais importa:

a história de um amor?

ou um amor na História?

na estória?»

30/3/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

JDACT, Maria Teresa Horta, Literatura, Saber, Mariana Alcoforado,  

Domingos Amaral. Por Amor a uma Mulher. «A recente morte de dona Urraca provocara, no entanto, uma alteração política capaz de modificar os equilíbrios anteriores. Aquele reencontro de Páscoa…»

 


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1126

Viseu, Sexta-Feira Santa, Abril de 1126

«(…) As outras olharam para ela, espantadas, mas Zaida limitou-se a encolher os ombros, como se lhe fosse indiferente a opinião sobre os atributos estéticos da rapariga galega, e apenas tivesse falado para evitar uma imprecisão teológica. Enervada com a alfinetada da irmã, Fátima defendeu-se: os anjos cristãos têm sempre caras lindas, em qualquer igreja! E a galega também, foi isso que quis dizer! Encolhendo os ombros, Raimunda acabou por conceder: sim, é bonita. Como quem conhece um segredo pecaminoso, Fátima declarou: de anjo só tem a cara! Diz-se que adora ajoelhar à frente dos amigos e beijá-los onde eles se tornam duros. Ouviu-se de imediato a voz imperativa de Zulmira: Fátima!

A filha encolheu os ombros à repreensão da mãe e continuou: se fosse ao príncipe, fugia dessa Chamoa a sete pés! As juras de amor da galega mudam de cada vez que nasce o Sol! É um hoje, outro amanhã, outro no domingo, vai tudo a eito! Inflamadas por estas argumentações, a minha prima e as três mouras nem repararam que eu, meus irmãos e Afonso Henriques nos tínhamos aproximado. Ao vê-las, o príncipe saudou-as e perguntou: a rapariga que por aqui passou há pouco era a Chamoa? A minha prima Raimunda viria um dia a contar-me que naquele momento o seu coração quase explodia, estilhaçado de dor. Ele viu a jumenta e vai galá-la na missa!, era o que ela pensava... Pobre Raimunda, como se ela tivesse poder para impedir o amor de acontecer. É sempre assim: quando amamos alguém, esse sentimento é tão forte que nos cega, dando-nos uma ilusão de que seremos sempre amados de volta. Como se não existissem outras pessoas para amar no mundo, ou como se não houvesse loucos, incapazes ou solitários que não sabem, ou não podem, amar.

Viseu, Sexta-Feira Santa, Abril de 1126

Lembro-me de que Teotónio, o prior de Viseu que todos consideravam um santo, sentara-se naquela tarde atrás do altar e observava a representação dos populares à sua frente. No espaço que o separava dos primeiros bancos onde estavam os fiéis, um dos improvisados actores, barbudo e seminu, apenas com um trapo encardido enrolado à volta do baixo-ventre, apresentava-se coberto de sangue na testa, debaixo da coroa de espinhos que lhe rodeava a cabeluda cabeça. Era sangue de galinha, untaram-no para parecer Jesus, disse-me depois o prior. Com aquelas barbas tão sujas e tanta lama até estava idêntico a um Cristo, mas na verdade Teotónio sentia-se desiludido com o lavrador, parecia faltar-lhe gravidade para um papel tão importante. Pegava na cruz como quem leva distraidamente uma saca vazia e estava sempre a olhar para os secundários, vestidos de soldados romanos, esquecendo as suas obrigações. Por uma vez, quando vinha a caminho do altar, o prior até o vira a sorrir ao centurião! Que descarado! O Jesus do ano passado tinha mais jeito!, comentou ele connosco, depois da missa.

Já incomodado com aquela fraca prestação, o prior ainda mais se desiludiu quando, ao vê-lo ser pregado na cruz, numa trave improvisada, com falsos pregos martelados por falsos soldados, reparou que dona Teresa nem sequer olhava para o teatro da paixão, embevecida como estava com o Trava. Que afronta, passar a Páscoa na minha igreja ao lado do amante!, comentaria ele depois. Era uma desonra para o Condado ter como condessa uma mulher que se deitava com um homem casado, e ainda por cima galego! Quando os vira entrar na igreja, de braço dado e sorridentes, Teotónio ainda pensara em corrê-los dali aos gritos, mas o Jesus já entrara pela porta principal e os olhos dos presentes tinham-se virado para lá. Passara o momento de lhes pregar um sermão castigador. Na missa, era tempo de silêncio, mas como a igreja estava cheia ouvia-se o rumor das conversas e das risadas. Do lado direito da nave central, encontrava-se a família Trava. Na primeira fila, Fernão Peres, ao lado de dona Teresa, e Bermudo, junto à sua esposa, Urraca Henriques. Atrás, no segundo banco, sentava-se Elvira Trava, o seu marido, Gomes Nunes Pombeiro, e ainda as duas belas filhas de ambos, Maria e Chamoa Gomes.

No terceiro banco, encontrava-se Sancha Henriques, a segunda filha de dona Teresa, uma problemática criatura. O Braganção, como todos chamavam a Fernão Mendes, senhor de Bragança, apesar de alto, espadaúdo e forte, já levara dois gritos há pouco, tendo sido obrigado a afastar-se dela. Entre esses dois litigantes estava agora sentada Teresa Celanova, bonita e ainda jovem, talvez com vinte e dois anos, e que necessitava claramente de casar, pela forma como lhe ardiam as faces. Corria o rumor de que Afonso Raimundes se afeiçoara por ela, mas agora que dona Urraca morrera e o filho se passaria a chamar Afonso VII, deixando cair o Raimundes, havia quem dissesse que às ousadas esperanças da Celanova iria acontecer o mesmo que ao sobrenome do novo monarca. Do lado esquerdo da nave central, estavam sentados os nobres portucalenses de Entre Douro e Minho, e a separação forçada entre eles e os Trava era tudo menos simbólica. Há anos que existiam fundas querelas entre eles e a poderosa família galega. Liderados pelo ardiloso Fernão, os Trava haviam primeiro afastado dos cargos públicos do reino os senhores da Maia, de Baião, de Ribadouro. Depois, numa segunda vaga, haviam secundarizado também as famílias menos distintas, os Silva, os de Lanhoso, os Guedões ou os de Marnel.

A recente morte de dona Urraca provocara, no entanto, uma alteração política capaz de modificar os equilíbrios anteriores. Aquele reencontro de Páscoa, que dona Teresa impusera a todos, trazia água no bico. Os seus planos para casamentos também eram já conhecidos, e uma estranha excitação percorria a igreja de Viseu. Paio Soares, o vaidoso, estava fisgado em Chamoa, mas também Afonso Henriques, formoso e altivo na sua dalmática vermelha, parecia esgazeado com a formosura da bela galega! Enervado, o prior olhou para o improvisado Cristo, já pregado na cruz e a quem um soldado estendia a tradicional esponja com fel. Estava na hora de o filho do homem falecer, pois só assim cairia um silêncio sepulcral na igreja. O prior gesticulou ao centurião, ordenando que se despachassem. O Cristo tinha de olhar para o alto da igreja e dizer, meu pai, porque me abandonaste?, e depois todos ajoelhariam e ficariam algum tempo calados, a olhar para o chão, em silenciosa homenagem à morte de Jesus, e sobretudo impedidos de trocarem olhares luxuriosos». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,

 

Domingos Amaral. Por Amor a uma Mulher. «O principezinho do Condado veio ver as moças, e a irmã, a Sancha Henriques, os moços! Dona Teresa quer casá-los aos dois, e depressa!»

 

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1126

Viseu, Sexta-Feira Santa, Abril de 1126

«(…) Nove anos depois daquela manhã em Coimbra, em que perdera as esperanças de que o marido Taxfin as salvasse do cativeiro, Zulmira mantinha como imperativo moral da sua existência a fidelidade ao Corão, e não deixara as filhas submeterem-se às leis de Cristo. Mas, como me explicou um dia Zaida, o seu fascínio pelo Génesis levava a mãe a temer que ela cedesse a essa interdita tentação. Zaida absorvia como uma esponja as influências espirituais de Roma que a rodeavam, ao contrário de Fátima e da mãe. Se havia fé que ainda resistia em Zulmira era em Alá. O seu marido Taxfin não voltara, nem nunca mais dera notícias. Embora o soubesse vivo, sabia igualmente que ele já não era governador de Córdova e que nunca mais organizara qualquer expedição ao Oeste. Nos primeiros anos daquela longa espera, ainda se perguntara porquê. Torturada por tanto o desejar, questionara-se sobre o amor que lhe tinha o marido e a sua recusa de voltar. Mas, com o tempo, essas questões haviam perdido a pertinência, e em Viseu limitava-se a tentar manter as filhas a salvo de sarilhos. Foi por isso que naquele momento, e para evitar que a conversa entre Fátima e Raimunda azedasse ainda mais, Zulmira perguntou: e o vosso amado Afonso Henriques já chegou? Ainda não o vi. Raimunda ficou de pé atrás, respirou fundo e retorquiu: deve estar a vestir-se, virá com Lourenço e com os irmãos. Mas para que quereis saber dele? Fátima soltou uma maldosa gargalhada.

O principezinho do Condado veio ver as moças, e a irmã, a Sancha Henriques, os moços! Dona Teresa quer casá-los aos dois, e depressa! Fazendo uma careta jocosa, continuou: agora que a rainha Urraca esticou o pernil, há mais pressa, não vá algum reino fugir-lhe! Raimunda mostrou-se intrigada, como se não entendesse as implicações do que ouvira. O Afonso Henriques é tão novo, a mãe quer casá-lo já? A impetuosa Fátima deu nova risada e afirmou: à Sancha Henriques tem de ser um que lhe meta o cabresto! Depois, baixou o tom de voz e provocou Raimunda: mas para o aleijadinho ainda é cedo. Nunca conheceu mulher... Alguém tem de desmamar o bezerro antes da noite de núpcias, senão é uma vergonha para o Condado! Irritada, Raimunda encostou-se à moura, tentando intimidá-la: ele não ficou aleijado, está alto e forte! Fátima recuperara aquela fraqueza antiga para desprezar Afonso Henriques, embora parecesse agora mais interessada na suposta virgindade do príncipe, pois acrescentou: seja como for, tem de ser desmamado. Não vos prestais ao serviço? Raimunda cerrou os punhos, mas logo os libertou, pois viu que Zulmira e Zaida a miravam. Fez um esforço para se acalmar. A feroz Fátima desferiu nova estocada: também, magra como sois, ele nem endurece. Deve pensar que sois um rapaz!

Desta vez, Raimunda riu-se, pois estava habituada àquela graçola recorrente. Até os primos lhe chamavam Raimundo, na brincadeira. Nunca se ofendia, sobretudo porque Afonso Henriques não os acompanhava nessas aberrantes apreciações. Com desdém, ripostou: Fátima, não tendes muito mais carne do que eu! Raimunda captou que, por detrás do esgar de indiferença da moura, pousou um ligeiro azedume, ela não gostava de ser relembrada da sua magreza. Contudo e de surpresa, a inflamada mourisca mudou de alvo, e Raimunda estremeceu. Dizem que a galeguinha de cabelos cor de mel é a principal candidata para o príncipe aleijadinho. Já haveis visto a ruça? Embora tivesse o coração a acelerar, Raimunda confirmou que vira Chamoa Gomes quando esta passara por ali há pouco, a caminho da igreja onde o prior Teotónio iria dizer a missa. Curiosa, prevendo os danos que podia causar, Fátima insistiu: e é tão bonita quanto dizem? Tem cara de anjo? Nesse momento, ouviu-se pela primeira vez a voz fina de Zaida, que interveio, corrigindo a irmã: os anjos não são mulheres. Nem homens». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Em família, como anos mais tarde me confessou, Zaida pagava um preço pela sua popularidade. Com ciúmes, Fátima chamava-a constantemente de gorda ou balofa, acusando-a de comer de mais…»


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1126

Viseu, Sexta-Feira Santa, Abril de 1126

«(…) Quanto a Ramiro, permaneceu sozinho, no meio do pátio, observado pela minha prima Raimunda, que se congratulava interiormente com as suas descobertas sobre a rival. Chamoa era muito dada, bastaram-lhe uns instantes para a topar. Não só se amigava com o primo Tougues, como tempos antes, em Ponte de Lima, se amigara com Ramiro! E agora, descarada, fazia olhinhos de corça ao pai dele! Aquelas pequenas nódoas na reputação da vivaça moça, sussurradas a ouvidos atentos e espalhadas por línguas palradoras, aniquilariam qualquer possível enlace com Afonso Henriques. O príncipe jamais casaria com uma tola que rodava de mão em mão. Jumenta, vou dar cabo de ti!, foi o que pensou a minha prima Raimunda, cada vez mais brava. Só depois olhou melhor para Ramiro e teve pena dele. Estarrecido, o pobre rapaz não conseguira balbuciar palavra enquanto vira o pai partir, de braço dado à beldade. Raimunda sentiu também uma certa cumplicidade de estatuto. Ramiro e ela eram semelhantes: os ilegítimos, os bastardos, cujo futuro seria a guerra ou o mosteiro. Ninguém nos quer para casar, lamentara-se depois minha prima. Ao longo da vida, dei-me conta de que o infortúnio de nascença é a razão de muitos ódios, e há quem nunca se liberte da sua condição de partida.

Viseu, Sexta-Feira Santa, Abril de 1126

Quem andais a espiar desta vez, ó vara de virar tripas? Rodando os pés no chão, Raimunda deu de caras com Fátima e com Zaida, as filhas de Zulmira, que as seguia, coberta por um manto roxo. Julgava-vos em Coimbra!, exclamou minha prima, surpreendida. Fátima libertou uma gargalhada desdenhosa, enquanto a irmã se refugiava na sombra da mãe. As três mouras continuavam prisioneiras dos cristãos, uma década depois de terem sido apanhadas. Fátima já contava dezanove anos, enquanto Zaida ia nos dezasseis. Por vezes, acompanhavam a corte de dona Teresa e haviam conhecido Guimarães e o Porto, Tui e Lamego, Braga e agora Viseu. No Inverno do ano anterior, tinham mesmo peregrinado até ao Mosteiro de Sahagún, passando de caminho por Astorga e Zamora, mas depois Zulmira adoecera de forma inesperada durante a descida para Toledo, a última cidade que estava previsto conhecerem naquele longo passeio, e regressara mais cedo com as filhas a Coimbra, enquanto dona Teresa seguia até à antiga capital visigótica.

Viemos festejar a Páscoa com os porcos, disparou Fátima. A filha bastarda de Ermígio Moniz semicerrou os olhos, irritada. Vede como falais, não tenho medo de vós. Fátima apontou o dedo para um curral nas traseiras dos edifícios, onde eram visíveis vários suínos a chafurdarem na lama. Estava a falar daqueles. Veloz de espírito, Raimunda retorquiu-lhe: os porcos deram tal susto ao vosso califa que ele se borrou de medo e há nove anos que não volta. Fátima preparava-se para disparar nova salva de crueldades, quando Zulmira se intrometeu, evitando o azedar da polémica. E vós, não ides à missa? É Sexta-Feira Santa. Raimunda enfrentou a distinta muçulmana com uma ponta de hostilidade, responsabilizando-a pelo desbragamento da filha. Tendes de pôr pimenta na língua da Fátima!

Nove anos depois da bulha infantil com Afonso Henriques, a mais velha das meninas mouras continuava uma fera bravia e indomável. Contava-se que certa vez tentara convencer um moçárabe de Coimbra a organizar uma fuga, levando-a dali com a mãe e com a irmã, provavelmente com destino a Córdova. A partir de então, todos andavam de olho nela, e rapidamente denunciavam qualquer engenhoso plano que elaborasse para se escapulir. Frustrada, a jovem moura vingava-se com ditos excessivos e cruéis, com os quais fustigava os cristãos. Embora por vezes temesse as imprevisíveis consequências da linguagem da filha, recordo-me bem do orgulho que Zulmira tinha nela, tão esperta e combativa. Além disso, e ao pé da minha prima Raimunda, que era só pele e ossos, Fátima destacava-se, exuberante e vistosa. Os longos cabelos negros, sempre desalinhados, o nariz fino e espetado, as sobrancelhas escuras e suaves, o queixo pontiagudo e uns olhos escuros, que pareciam azeitonas da Andaluzia a brilharem ao sol depois de colhidas, não faziam de Fátima uma mulher demasiado bela, como a irmã Zaida era, mas mesmo assim fascinava os machos com a forma como mexia as ancas, a maneira como se empertigava, espetando os pequenos seios para a frente, para que reparassem neles.

Sei do que falo, embora eu até fosse o que menos olhasse para as mouras, sobretudo a partir daquela Páscoa em Viseu. De qualquer forma, todos sabíamos que Fátima era virgem e que nunca se amigara com um cristão, pois destilava ódio aos seguidores de Jesus. Já a sua irmã Zaida, apesar de também intocada, era meiga e carinhosa, e dizia sempre que herdara o espírito sensível e caloroso dos haréns de Sevilha, do tempo do seu bisavô e rei Al-Mutamid, onde as mulheres se beijavam umas às outras, na aprendizagem constante dos prazeres mais profundos, que depois praticavam com os homens. Ela e a mãe dormiam na mesma cama, mas Fátima nunca participava nessas distrações, parecia fechada à festa dos sentidos. Em comum, as irmãs só tinham o negro dos olhos e dos longos cabelos. Enquanto Fátima apresentava um perfil agreste, cheio de arestas no rosto, Zaida era redonda de cara e de corpo, parecida com Zulmira, que topava os olhares gulosos que cristãos e moçárabes deitavam à filha mais nova, bem como os piropos com que homens e mulheres a brindavam!

Em família, como anos mais tarde me confessou, Zaida pagava um preço pela sua popularidade. Com ciúmes, Fátima chamava-a constantemente de gorda ou balofa, acusando-a de comer de mais e de não fazer exercícios. Todavia, ela não parecia importar-se. Não nascera para a ginástica nem para a guerra. Não sou nenhuma amazona, sou assim e tu és como és, nenhuma está mal ou bem, proclamara um dia, e a partir dessa data a irmã não mais a chamara para treinar com espadas ou punhais. A minha Maria Gomes diria certa vez que Zaida era um pote de mel, enquanto Fátima era uma vespa impetuosa. Com um carácter fluido e volúvel, Zaida nunca se enfurecia contra os outros ou contra o destino, e parecia sempre contemplativa e em paz com o mundo. Contudo, faltava-lhe a energia primária e bruta da irmã, e talvez por isso fosse dada a doenças. Por isso ou porque lia de mais, apanhando pouco sol e muito pó. O seu maior prazer era correr para as bibliotecas da Sé de Coimbra ou do Mosteiro de Guimarães, onde passava dias a devorar páginas, a ponto de preocupar a mãe, a quem ela parecia muitas vezes aluada, a viver num eterno mundo de fantasia e com demasiada curiosidade pelo Velho Testamento». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,