sexta-feira, 29 de maio de 2020

Estudo Morfológico da Cidade de São Tomé. Teresa Madeira. «Relativamente aos modelos que estiveram na génese das cidades insulares atlânticas de origem portuguesa, vários são os autores que referem a influência da cidade medieval e renascentista portuguesa do continente»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Início da Expansão
«(…) De uma forma geral é aceite que a expansão portuguesa se divide em cinco grandes grupos geograficamente distintos: o norte de África, as ilhas atlânticas, a costa africana, o Oriente e o Brasil. No norte de África o domínio português, que se iniciou no princípio do século XV, é marcado em termos urbanos sobretudo pela construção de fortalezas. A actuação nesta altura é marcada, não por uma acção planificada no sentido de uma política urbanizadora, mas sim por um sentido defensivo cujo interesse passava por razões estratégicas. Contemporânea à ocupação do Norte de África é a ocupação das ilhas atlânticas. Com o objectivo de futuros empreendimentos ligados ao interesse de chegar à Índia, a criação de uma rede urbana ligada pela navegação originou o interesse e a colonização das ilhas. Estas, em oposição aos estabelecimentos do Norte de África, reflectem uma forma de urbanização, claramente com um sentido colonizador, idêntica ao que se praticava no continente. A ocupação dos arquipélagos atlânticos iniciou-se na Madeira em 1422, seguindo-se as Canárias 1424, os Açores em 1439, depois Cabo Verde em 1462 e finalmente São Tomé em 1485. Com base na agricultura destinada à exportação, introduziu-se o açúcar, o vinho, as plantas tintureiras e o trigo, sendo estas culturas introduzidas durante a primeira fase de ocupação. As cidades que mais se desenvolveram nestes arquipélagos durante os séculos XV e XVI foram, na Madeira, a cidade do Funchal; no arquipélago dos Açores, as cidades de Angra do Heroísmo e Ponta Delgada; no arquipélago de Cabo Verde, a cidade da Ribeira Grande (embora, só até ao século XVII, tendo-se verificado o seu declínio a partir dessa altura); e no arquipélago de São Tomé e Príncipe, a cidade de São Tomé e Santo António.

As cidades das Ilhas Atlânticas de Origem Portuguesa. Funchal, Angra do Heroísmo e Ribeira Grande.
Como já foi referido é comummente aceite que a prática que se processava no continente foi de certa forma exportada para as cidades da expansão. Certamente que a tradição e prática que se processava no continente na época (século XV), e em épocas anteriores (séculos XIII e XIV) e posteriores (século XVI), foi o modelo que lhes serviu de base. Relativamente aos modelos que estiveram na génese das cidades insulares atlânticas de origem portuguesa, vários são os autores que referem a influência da cidade medieval e renascentista portuguesa do continente. Através da análise da evolução do traçado urbano e de alguns elementos da morfologia do tecido urbano (estrutura de quarteirões, ruas e largos, implantação de edifícios de grande significado e pontos defensivos), apreendeu-se um conjunto de traços comuns às três cidades.

Evolução da Estrutura Urbana
Nas três cidades estudadas a malha urbana nasce a partir de uma rua principal que une dois núcleos urbanos, constituindo esta o elemento gerador e estruturador da referida malha urbana. Para a cidade do Funchal sabemos que a cidade teve origem em dois núcleos urbanos: no núcleo primitivo de Santa Maria do Calhau (onde se ergue a igreja de Santa Maria) e em Santa Catarina onde o capitão mandou erguer a sua casa. O núcleo de Santa Maria do Calhau definiu-se a partir de uma igreja e de um largo que lhe estava associado e de uma rua paralela ao mar, a Rua de Santa Maria. Esta rua, paralela ao mar, existia entre o largo da igreja (junto à Ribeira de Santa Luzia) e a zona onde existe o forte de S. Tiago. Para o lado poente da Ribeira de Santa Luzia e no seguimento da Rua de Santa Maria desenha-se, nesta fase de desenvolvimento, a Rua de Santa Catarina (posteriormente designada Rua dos Mercadores e depois Rua da Alfândega) ligando os dois pólos primitivos, de Santa Maria do Calhau e de Santa Catarina. A este tipo de desenvolvimento corresponde uma estrutura alongada no sentido da costa, percorrendo toda a zona junto ao mar.
Também para a cidade de Angra se reconhece um crescimento deste tipo. Assim temos que o primeiro núcleo urbano se desenvolveu no alto de uma colina no lugar onde se ergueu a primeira fortaleza. Paralelamente a este núcleo desenvolve-se um outro (S. Pedro) do lado oposto da baía de Angra para o lado poente. A ligar estes dois núcleos desenvolve-se uma rua, a actual rua da Sé que liga o núcleo do castelo a S. Pedro. Com o desenvolvimento do porto na zona baixa da cidade houve necessidade de ligar o castelo e o cais. É então que se assiste a um novo crescimento linear através da Rua de Santo Espírito, mas este ao contrário do que acabamos de ver para o Funchal é um crescimento linear, neste caso, perpendicular à costa». In Teresa Madeira, Urbanismo, Comunicação apresentada no Colóquio Internacional Universo Urbanístico Português, 1415-1822, Coimbra, 1999.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

Tratado de Alcanizes. Rei Diniz I de Portugal e o rei Fernando IV de Castela. 1297. «E eu El Rey Dom Fernando de suso dito por mim, e por todos meus Successores com conselo, e com outorgamento, e per autoridade da Rainha Dona Maria, minha Madre, e do Infante Dom Anrique meu Tio»

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«(…) E outro si eu El Rey Dom Fernando, entendendo, e conocendo, que vós aviades direito en aluns Lugares dos Castellos, e Villas de Sabugal, e de Alfayates, e de Castel Rodrigo, e de Villa Mayor, e de Castel Boom, e de Almeida, e de Castel Melhor. e de Monforte, e dos outros Lugares de Riba Coa, que vós Rey Dom Diniz teendes agora en vossa mão, e por que me vós partades do direito, que aviedes en Vallença, e em Ferreira, e en no Sparagal, que agora tem a Ordem d'Alcantara asá maão, e que aviades en Ayamonte, e en outros Lugares dos Reinos de Leon e de Galiza. E outro si por que me vós partades das demandas que me faziades sobre razon dos termos, que som antre meu Senorio, e vosso por esso me vos parto do ditos Castellos, e Villas, e Lugares de Sabugal, e de Alfayates, e de Castel Rodrigo, e de Villa Maior, e de Castel Boom, e de Almeida, e de Castel Melhor e de Monforte, e dos outors Lugares de Riba Coa que vós agora teendes à vossa maãao, com todas seus Termos, e Direitos, e perteenças, e partome de toda demanda, que eu hei, ou poderia aver contra vós, ou contra vossos successores per razom destes Lugares sobreditos de Riba Coa, e de cada hum delles. E outo si me parto de todo o Direito, ou jurisdiçom, ou, Senorio Real tambem en possissom come em propriedade, come en outra maneira qualquer, que eu hi avia, e toloo de mim todo, e dos meus successores, e do Senorio dos Reinos de Castella, e de Leom, e ponoo en vós, e em vossos Successores, e no Senorio do reino de Portugal pera sempre. E mando, e outorgo, que se per ventura alguus Privilegios, ou Cartas, ou Estrumentos parecerem, que fossem feitos antre os Reys de Castella, ou de Leom, e os Reys de Portugal sobre estes Lugares sobreditos, d'aveenças, ou de posturas, ou demarcamentos, ou em outra maneira qualquer sobre estes Lugares, que sejão contra vós, ou contra vossos Successores, e me voss o dano,ou em dano do Senorio do Reino de Portugal, que daqui em diante nom valham, nem tenham, nem ajam fermidoim, nem me possa ajudar dellas, eu, nem meus Successores, e revogoos todos para sempre. E eu El Rey Dom Diniz de suso dito por Olivença, e por São Felizes dos Galegos. que vós amim dades, e por Ougela que metedes a meu Senorio, segundo sobre dito hé, parmotivos dos Castellos, e das Villas d'Arouche, e da Aracena, e de todos seus Termos, e de todos seus Direitos, e de todas sas pertenças, e de toda a demanda, que eu hei, ou poderia aver contra vós, ou contra vossos Successores per razom destes Lugares sobreditos, e de cada hum delles, ou dos fruitos delles, que El Rey Dom Affonso vosso Avoo, e El Rey Dom Sancho vosso Padre, e vós ouvetses, e recebestes destes Lugares e dou a vós, e a vossos Successores todo o direito, e jurisdiçom, e Senorio real que eu hei, e de direito devia aaver em esses Castellos, e Villas d'Arouche e da Aracena por quealquer maneira, que o eu hi ouvesse, e tolhoo de mim, e de meus Successores, e no Senorio do Reino de Castella, e de Leom pera sempre.
Outro si eu Rei Dom Diniz de suso dito, por que mi vós vos quitades dos Castellos, e de Villas do Sabugal, e de Alfayates, e de Castel Rodrigo, e de Villar Mayor, e de Castel Boom, e de Almeida, e de Castel Melhor, e de Monforte; e dos Lugares de Riba Coa, com seus termo; que eu agora teno á minha maão, assi como de susso dito he, quimotivos, e partomivos de todo o direito, que eu hei en Vallença, e em Ferreira, e no Esparregal, e em Ayamonte; Outro si mi vosparto de outros Lugares de todolos vossos Reinos em qual maneira quer; Outro si mi vos parto de todolas demandas, que eu havia contra vós per razom dos Termos, que som antre o meu Senorio, e o vosso, sobre que era contenda. E eu El Rey Dom Fernando de suso dito por mim, e por todos meus Successores com conselo, e com outorgamento, e per autoridade da Rainha Dona Maria, minha Madre, e do Infante Dom Anrique meu Tio, e meu Yutor, e Guarda de Avangelos, sobreolhos quaaes pusy minhas maãos, e faço menagem a vós Rey Dom Diniz ateer, e cumprir, e a guardar todas estas couzas de suso ditas, e cada huma dellas pera sempre, e de nunca vir contra ellas per mim, nem per outrem deffeito, nem de conselo, e se o assi nom fezer, que fique por prejuro, e por traidor come quem mata Senhor, e traae Castello. E nós Rainha Dona Maria, e o Infante Dom Anrique se suso ditos, outorgamos tosa estas couzas, e cada huma dellas, e damos poder, e autoridade a El Rey Dom Fernando pera fazellas, e prometemos em boa fé por nós, e polo dito Rey Dom Fernando, e juramos sobreolhos Saantos Avengelos, sobreolhos quaaes pozemos nossas maãos, e fazemos menagem a vós Rey Dom Diniz, que El Rei Dom Fernando, e nós tinhamos, e complamos, e guardemos, e façamos teer, e cumprir, e guardar todalas couzas sobreditas, e cada huma dellas pera sempre, e de nunca virmos contra ellas per nós, nem per outro defeito, nem de direito, nem de conselo, e se o assi nom fazessemos, que fiquemos por prejuros, e por traedores assi como mata Senhor, ou traae Castello. E eu Rey Dom Dinis por mim, e pola Rainha Dona Izabel minha Mulher, e polo Infante Dom Affonso meu Filho, primeiro, e herdeiro, e por todos meus successores, prometo a boa fé, e jura sobreolhos Santos Avangelos, sobreolhos,quaaes pono minhas maãos, e fasso menagem a Vós Rey Dom Fernando por v´s, e por vossos successores, e a vós Rainha Dona Maria, e a vós Infante Dom Anrique de teer, e aguardar, e cumprir todas estas couzas de suso ditas, e cada huma dellas pera sempre, e de nunca vir contra ellas per mim, nem per outrem defeito, nem de dereito, nem de conselo, e se o assi nom fezer, que fique por prejuro, e por traedor come quem mata Senhor, ou traae Castello. E por todas estas couzas sejão firmes, e mais certas, e nom possão vir em duvida, fazemos ender fezer duas Cartas em hum teor, tal ahuma come a outra, seelladas com nossos sellos do Chumbo d nós ambos los Reyes e dos seellos das Raynhas, e do Infante Dom Anrique em testemonio de verdade. Das quuaes Cartas cada huum de nós Reys devemos ateer senhas. Feita em Alcanizes sexta feira doze dias do mes de Setembro. Era de mil trezentos trinta e cinco anos». In Extraído da obra Nos caminhos de Olivença», por Carlos Luna.

In Wikipédia, Carlos Luna, Nos caminhos de Olivença, 2010.

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Barco da Carreira dos Tolos. 1850. Obra Crítica, moral e Divertida. José Daniel Rodrigues da Costa. «O outro dia foi huma Saloia alli de Camarate procurar me, dizendo-me que se casava, e que se queria refazer de algum fatinho mais aceado, e sem escrúpulo»

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De acordo com o original!

Carreira dos Tolos. Modistas
«(…) Aqui o Arrais compadecido da pobre Velha, e achándo-lhe alguma razão, mandou que entrasse para o Barco-, e com demora de cinco minutos chegou huma Adela, perguntou pelo Arrais, e dando com elle, lhe fallou deste modo: senhor Arrais, aqui venho para fazer viagem na sua Carreira, porque não há huma mulher mais tola do que eu : tenho passado a minha vida na occupação de Adela, tenho ganho muito dinheiro, e vejo-me pobre, como Job. Para eu ver se a sua tolice está no seu auge, lhe respondeo o Arrais, quero saber porque motivo ganhou esse dinheiro, o porque motivo se vê sem elle? Eu, senhor Arrais, lhe replicou a Adela , darei conta de todos os estratagemas, que por mim tem passado nisto de vender fatos alheios, alborcar fatos, e comprar fatos.

O anno passado vendi trinta e dois vestidos de Senhoras, de veludo preto, aos armadores para armações de Igreja, que he hoje só a applicação, que lhes dão, vendidos a doze vinténs o covado: isto então huma fazenda, que custou certamente a meia moeda. Eis-ahi, lhe disse o Arrais, huma desordem causada pelas modas, que abandonão sempre as cousas de valor, para abraçarem trezentas canquilharias. A semana passada, continuou a Adela, vendi oito mantos de huma bella seda em bom uso; e soube que suas donas com o dinheiro delles forão logo comprar chapelinhos do Sol de sete mezinhos, a medalhas para se mostrarem pelas ruas de Lisboa. Tive em minha casa dois caixões cheios de saias de grodetú, que ninguém olhava para ellas: tinha quatro dúzias de aventaes lizos , e bordados, finos, e grossos, que não sabia o fim, que lhes havia de dar: tinha vinte capas de panno fino, tudo dentro do mesmo caixão. Eis senão quando; hum genro que tenho, levado do demo, pilhou-me fora, e roubou-me; e ainda cahi na tolice de o metter outra vez em casa.

O outro dia foi huma Saloia alli de Camarate procurar me, dizendo-me que se casava, e que se queria refazer de algum fatinho mais aceado, e sem escrúpulo. Dei logo parabéns á minha fortuna, assentando comigo que sáias, capas, aventaes, e roupinhas terião alli alguma sahida. Vou ao caixão, e foi então quando não achei, nem hum fio, porque o maroto de meu genro tudo tinha abafado. Ainda mostrei algum fatinho á saloia, que tinha em outro sitio, e cómmodos nos preços; porém ella a tudo cuspio, e a tudo fez focinho, e descarta-se me, dizendo: V. m. julga-me alguma bruta? vá lá para o meu lugar, e verá o que por lá acha! Eu quero fato da moda; se me lá vissem com isto, corrião-me á pedrada: eu quero algum vestido branco bordado, franzido, quasi sem cintura, e sem mangas; quero hum chalé, que tenha ao menos duas varas de largo, e de comprido; quero huma barretina com véó. E finalmente entra a boa da Saloia a fazer-me huma pintura como lá dizem, de tremer». In José Daniel Rodrigues da Costa, Barco da Carreira dos Tolos, Obra Crítica, Moral e Divertida, RB196984, University of Toronto, Typographia de Elias José Costa Sanches, Lisboa, 1850.

Cortesia de T. Sanches/JDACT

O Teatro Naturalista e Neo-Romântico (1870-1910). Luiz Rebello. «Mais activa seria a participação de Guilherme Azevedo, (1839-1882), o poeta revolucionário da Alma Nova, que se reunira ao grupo coimbrão…»

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O Teatro em 1871
«(…) Esse mesmo interesse tê-lo-á movido, embora com resultados bem menos relevantes, a escrever duas peças, ambas em verso, baseadas na vida de duas grandes figuras literárias: Gil Vicente (Auto por Desafronta) e Correia Garção (Poeta por Desgraça), que em 1869 foram incluídas no volume de poesias Torrentes. A última fora representada em 1865, no Teatro Académico de Coimbra, tendo Eça de Queirós interpretado o protagonista. Motivos vicentinos inspiraram ainda a Teófilo o auto O Lobo da Madragoa, integrado no 2.º volume da colectânea Folhas Verdes, editada igualmente em 1869. Tempos depois, em 1907, com os cinco actos, enquadrados por um prólogo e um epílogo, de Gomes Freire, reincidiria no drama histórico, que, invocando o Shakespeare de Júlio César e o Schiller de Guilherme Tell, contrapunha à tragédia antiga, considerando-o a expressão teatral moderna por excelência, na medida em que nos pode apresentar os altos caracteres, como tipos de imitação, e dar-nos a lição objectiva dos grandes sucessos como uma animada experiência sociológica. Um propósito semelhante animara Oliveira Martins (1845-1894) a conceber o projecto de um ciclo de quatro peças históricas, que todavia nunca chegou a realizar mas de que confidenciou a Teófilo Braga, numa carta datada de 1869, os títulos e os temas: A Tragédia do Jogral, em que aspirava a desenhar, dentro do movimento nacional português de emancipação dos servos, o carácter da Idade-Média, pela formação da consciência dentro do animal»; Afonso VI, tragédia histórica, simbolizando o cair do direito divino e da autoridade política; O Abade, luta confusa de elementos religiosos, políticos e económicos da sociedade actual; e O Mundo Novo, tragédia ideal representando a fusão e compreensão do espírito com a carne, da ciência com a consciência, o encerramento da Idade-Média, a continuação da antiguidade alargada por todas as descobertas do mundo moral.
Mais activa seria a participação de Guilherme Azevedo, (1839-1882), o poeta revolucionário da Alma Nova, que se reunira ao grupo coimbrão quando este se deslocou para Lisboa entre 1870 e 1871: além de uma tradução de Sardou. (Andréa, 1876) e de uma opereta francesa, escreveu uma comédia-drama em quatro actos, Rosalino, e, em colaboração com Guerra Junqueiro, a revista do ano Viagem à Roda da Parvónia. A primeira, definida por Rafael Bordalo Pinheiro como a expressão espirituosa da sensaboria lisboeta, estreou-se no Teatro Nacional em 1877, mas foi hostilmente recebida pelo público e pela crítica; mais tarde, o autor reduziu-a a três actos, eliminando a parte dramática e refundindo a parte cómica, subindo então de novo à cena no Teatro do Ginásio, mas desta vez com assinalado êxito. Neste mesmo Teatro se representou, a 17 de Janeiro de 1879, a revista escrita de parceria com Junqueiro, anunciada nos cartazes como relatório em quatro actos e seis quadros, da autoria de Gil Vaz (comendador)», que seria pateada das dez à meia-noite e proibida no Governo Civil à uma da madrugada. Dela falaremos mais desenvolvidamente no capítulo dedicado ao teatro de revista, limitando-nos por agora a citar Antero Quental (que em 1875 havia traduzido, com Jaime Batalha Reis, o libreto da ópera-cómica O Degelo, posta em música por Augusto Machado): numa das curiosas notas incluídas na sua edição em livro, o autor dos Sonetos caracterizou-a como a descrição da sociedade de Lisboa, na variedade pitoresca das suas pequenas e não pequenas misérias morais e intelectuais, com os seus ridículos e as suas baixezas, as suas pretensões e a sua ignorância, o seu descaramento e o seu vazio». In Luiz Rebello, O Teatro Naturalista e Neo-Romântico (1870-1910, Série Literatura, volume 16, Instituto de Cultura Portuguesa, Livraria Bertrand, 1978, Centro Virtual Camões, Instituto Camões.

Cortesia do ICamões/JDACT

O Teatro Naturalista e Neo-Romântico (1870-1910). Luiz Rebello. «… a intervenção dos intelectuais de 70 na vida teatral do país assumiu a figura de uma pequena secante. Nenhum deles fez do teatro, como Garrett, o centro da sua paixão…»


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O Teatro em 1871
«(…) Não se esqueça, aliás, que por finais do século o índice de analfabetismo era da ordem dos 75%. O diagnóstico de Eça Queirós estava, pois, certo. Mas faltava encontrar a terapêutica. E nenhum dos homens da geração de 70, mau grado o interesse que, de um modo ou de outro, todos eles manifestaram pelo teatro, se empenhou a fundo em descobri-la.

A Geração de 70 e o Teatro
Com efeito, a intervenção dos intelectuais de 70 na vida teatral do país assumiu a figura de uma pequena secante. Nenhum deles fez do teatro, como Garrett, o centro da sua paixão dominante, embora eventualmente para ele ou sobre ele houvessem escrito, sem que, no primeiro caso, daí tenham advindo consequências de maior para a sua obra ou para a evolução da nossa literatura dramática. Já no segundo caso o seu contributo se revestiu de um significado mais relevante: a investigação histórica de um Teófilo Braga, a doutrinação estética de um Lourenço Pinto, sobrelevam decididamente o mérito dos, raros aliás, textos dramáticos dos seus companheiros de geração. No citado artigo das Farpas, Eça defendia a criação de um teatro normal que estimulasse a criação de uma literatura dramática, isto é, o enriquecimento do nosso património intelectual». Não foi, decerto, cumprido este propósito com o seu único labor teatral conhecido: uma imprevista tradução (que aliás ficou inédita) de um melodrama francês de Joseph Bouchardy, Philidor, modelo acabado daqueles dramas de efeito que não pouparia, mais tarde, aos seus sarcasmos... É certo que no seu espólio literário foram encontrados apontamentos para uma peça a extrair de Os Maias, o único dos meus livros que sempre se me afigurou próprio a dar um drama, e um drama patético, de fortes caracteres, de situações morais altamente comoventes, diria ele em carta dirigida ao escritor brasileiro Augusto Fábregas, que transpusera O Crime do Padre Amaro para a cena. A adaptação teatral dos Maias ficaria, porém, a dever-se a José Bruno Carreiro (e estrear-se-ia em 1945, no Teatro Nacional, por ocasião das comemorações do primeiro centenário do grande romancista), mas circunscrever-se-ia praticamente ao conflito passional do livro, reduzindo-lhe o alcance da crítica social.
Outras teatralizações da ficção queirosiana foram empreendidas, quase sempre com êxito, pelo conde de Arnoso e Alberto Oliveira (Suave Milagre, 1901), Vaz Pereira (O Primo Basílio, 1915), Artur Ramos (A Relíquia, em colaboração com Luis Sttau Monteiro, 1969), e A Capital, em colaboração com Artur Portela Filho, 1971). E o colaborador de Eça nas Farpas, Ramalho Ortigão, (1836-1915), também limitou a sua actividade dramatúrgica à tradução de obras alheias, embora de melhor quilate que o melodrama de Bouchardy: o Anthony de Dumas (1870), O Marquês de Villemer de George Sand, A Esfinge e O Acrobata de Feuillet (1874), Fromont & C.ª de A. Daudet e A. Belot (1899), a Electra de Pérez Galdós (1901).
O interesse de Teófilo Braga (1843-1924) pela história da nossa literatura em geral, e do teatro em particular, corporizou-se nos quatro tomos da sua História do Teatro Português, publicados em 1870 e 1871 e respectivamente dedicados à Vida de Gil Vicente e sua Escola (que em 1898 seria por ele desenvolvido e desdobrado em dois volumes), à Comédia Clássica e as Tragicomédias, à Baixa Comédia e a Ópera, a Garrett e os Dramas Românticos. Com todos os seus lapsos e inexactidões, as suas hipóteses arriscadas, que o facto de se tratar de um terreno virgem, pela primeira vez explorado, amplamente justificava, com todos os seus preconceitos, a sua conformação aos esquemas mentais do positivismo, ela é ainda o estudo mais completo, mais sistemático, mais rico de informações, que ao nosso teatro até hoje se consagrou: e a verdade, como observou Augusto Costa Dias, é que poucos souberam, como Teófilo, analisar as ideologias na criação literária, os seus aspectos alienatórios e as suas determinações económico-sociais». In Luiz Rebello, O Teatro Naturalista e Neo-Romântico (1870-1910, Série Literatura, volume 16, Instituto de Cultura Portuguesa, Livraria Bertrand, 1978, Centro Virtual Camões, Instituto Camões.

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quinta-feira, 28 de maio de 2020

O Primitivo Teatro Português. Luiz Francisco Rebello. «Foi nos séculos XIII e XIV, e sobretudo nos reinados de Afonso III (1248-1279) e seu filho Dinis I (1279-1325), que a poesia jogralesca viveu entre nós o período mais florescente»

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Primeiras manifestações teatrais: o arremedilho
«(…) É, de resto, com os jograis que melhor se patenteia a fluidez, a indeterminação de fronteiras entre as diversas manifestações dramáticas medievais, cujo sincretismo a obra de Gil Vicente (e, até, alguns dos seus autos isoladamente considerados: pense-se nas Barcas, por exemplo, ou no Auto da Feira) de maneira tão flagrante ilustra. A própria etimologia da palavra arremedilho insinua que se trataria de uma representação elementar em que a declamação e a mímica se combinavam para tornar mais atraente e persuasiva a fábula contada pelos jograis ao seu auditório popular ou cortês: como que a iluminura animada das novelas ou das canções épicas da Idade Média, na definição expressiva de Oscar de Pratt. Remedadores, com efeito, se chamavam no reinado de Afonso X de Castela (di-lo uma declaração do trovador Guiraut Riquier, de 1275, que os aproximava dos contrafazedores provençais), os jograis especializados na arte de imitar; e uma das Cantigas de Santa Maria, do Rei Sábio, conta a história de um jogral que quis remedar como seja a imagem de Santa Maria, e torceu-se-lhe a boca e o braço. Num dos versos dessa mesma cantiga depara-se-nos o termo remedilho, que Menéndez Pidal define como sendo o espectáculo que dava o remedador. Parece, assim, não haver dúvidas de que estamos perante uma verdadeira manifestação dramática, embora incipiente e rudimentar; e tanto que, em pleno século XVI, o autor da anónima Obra da Geração Humana (Gil Vicente?), na cena introdutória, e Chiado (no Auto da Natural Invenção) designam por arremed(i)ação uma modalidade cénica que, na obra do último, se dá também como sinónimo de comédia, representação, auto ou prática. Foi nos séculos XIII e XIV, e sobretudo nos reinados de Afonso III (1248-1279) e seu filho Dinis I (1279-1325), que a poesia jogralesca viveu entre nós o período mais florescente. Apesar de o regimento da casa real, de 1250, proibir que houvesse mais de três jograis na corte ou jogralesas (denominadas soldadeiras) que não viessem de passagem ou se demorassem mais de três dias, a verdade é que em nenhuma outra época tão grande número de jograis e trovadores deverá ter-se reunido na corte portuguesa, o que autoriza a concluir que as representações de arremedilhos fossem, então, frequentes. Não era, de certo, infundadamente que o jogral João Airas, de Santiago, numa das suas cantigas, aludia às ricas e nobres Cortes que faz el-rei. (Convém esclarecer que o trovador se distingue do jogral por uma condição social e um grau de cultura mais elevados, e está para ele como, na antiguidade clássica, o aedo ou rapsodo relativamente ao mimo e ao histrião. Mas esta distinção, que aliás aparece glosada em várias cantigas de escárneo e mal-dizer, é por via de regra mais teórica do que prática).
Abundam, aliás, nos Cancioneiros dos séculos XIII (Ajuda) e XIV (Vaticana e Biblioteca Nacional) as composições poéticas de esquema dialógico, ou tenções, que um breve tratado de versificação, anexo ao último dos citados Cancioneiros, assim define: outras cantigas fazem os trovadores que chamam tenções, porque são feitas por maneira de razão que um haja contra outro, em que diga aquilo que por bem tiver na prima cobra (isto é, copla) e o outro responda-lhe na outra dizendo o contrário. Estas se podem fazer de amor, ou de amigo, ou de escárneo, ou de mal-dizer. Poderiam multiplicar-se exemplos de tais composições, desde as cantigas de trovadores e jograis como Pedro Meogo, Bernaldo Bonaval, Paio Gomes Charinho, Fernando Esguio, Lourenço, o próprio rei Dinis I, que tomam a forma dum diálogo com o namorado, a mãe, a amiga confidente, às polémicas em verso que aqueles entre si travaram, com a questão do Guarecer por trovar em que intervieram o jogral Lourenço, João Garcia Guilhade, João Aboim, João Soares Coelho e João Vasques. A sua estrutura subsiste no Cancioneiro Geral de Garcia Resende (a querela do Cuidar e Suspirar, o processo de Vasco Abul em que interveio Gil Vicente, a porfia entre o conde de Vimioso e Aires Teles sobre a questão de desejar e bem-querer) e nas éclogas de um Sá Miranda, de um Bernardim Ribeiro ou de um Rodrigues Lobo; seria, no entanto, excessivo qualificar, por essa razão apenas, de dramáticas tais composições». In Luiz Francisco Rebello, O Primitivo Teatro Português, Instituto de Cultura Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1977.

Cortesia do ICamões/JDACT

Esboço para um possível Ensaio sobre Fiama Hasse Pais Brandão. Márcio L. Dantas. «Em Obra Breve, os pequenos livros de meus poemas reúnem-se de uma forma contígua, tal como foram vividos…»

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«Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar». In Roland Barthes

(…)
À guisa de apresentação
Este conjunto de ensaios foi uma selecção procedida a partir dos trabalhos referentes à primeira avaliação da disciplina Tópicos de Literatura Portuguesa II, curso monotemático, disciplina complementar, ministrado na graduação de Letras da UFRN, sobre a poeta Fiama Hasse Pais Brandão. A forma e o conteúdo são da responsabilidade dos meus alunos, por sinal, diligentes e afeitos ao gosto pela poesia portuguesa. Tenho em mim, sempre, as palavras de Roland Barthes: há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama de pesquisar. Pois muito bem, ando pesquisando a obra da escritora portuguesa que participou junto com Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge da revista-movimento Poesia 61.

Apontamentos para a Poesia Atómica - em Fiama
Fiama Hasse Pais Brandão, ou simplesmente Fiama (1938-2007), publicou uma vasta obra lírica, de considerável valor estético e múltipla, desde Barcas Novas até âmago I/ nova arte e, sobretudo, o admirável Obra Breve. A poeta, exímia modeladora do corpo do verso (não foi à toa que traduziu para o português o Cântico dos Cânticos, Cântico Maior na sua tradução/recriação), além da publicação do seu último livro Cenas Vivas, de carácter autobiográfico, no qual mostra-nos mais uma das suas facetas, tinha, tal como Pessoa, uma pluralidade estética e literária. Tais qualidades só podem adquirir brilho se o autor envolvido com a força da palavra possuir um vasto repertório no que diz respeito à criação artística e à consciência artística, aliando a tradição ao talento individual tal como pensara Eliot. Fiama os possuía.
Estes apontamentos para poesia atómica de Fiama, breves, aliás, breves como a Obra Breve em análise, basear-se-ão na premissa escrita pela própria poeta na abertura do livro (uma espécie de comentário) que logo colocarei num poema da mesma obra: Tema 4. Assim adverte aos leitores e críticos:

Em Obra Breve, os pequenos livros de meus poemas reúnem-se de uma forma contígua, tal como foram vividos. As cortinas delimitam, confundindo-os, livros e parte de livros; poemas inéditos preenchem alguns intervalos. Na verdade, cada livro tinha sido apenas um corte, a poesia vai sendo escrita, transformada, recortada, ao correr do tempo todo.

Fiama recria, constantemente, parte da sua obra poética ao correr do tempo, reunindo-a tal como foi vivida, como se ela fosse um organismo poético vivo e mutante. A vida e a experiência dão certos sentidos às palavras, revelando a sua face mais bela ou assustadora, oferecendo à poeta inspiração o suficiente para criar e recriar a sua obra inacabada. A crítica talvez se perturbe com tal movimento de escrita e reescrita (perene até o período de vida da autora), contudo, não cabe aos críticos a preocupação com a mudança ou recriação de um poema, ora, o papel da crítica é justamente o de interpretar, sugerir, supor e adiantar algo a partir da análise do poema. Se ele é outro poema (reescrito), deverá se fazer, como se faz com poemas à primeira vista díspares, outra crítica, comparando-os e relacionando-os, percebendo o processo de escrita do poeta e seus ganhos, estéticos ou literários.
Afinal, Nenhum sinal nos calcina as órbitas.
Doravante, para apresentar a proposta deste ensaio, irei expor uma perspectiva de poesia, fazendo uma breve definição, relações com as demais ciências, críticas e literaturas, além de reforçar algumas ideias essenciais do conteúdo poético, desenvolverei características intrínsecas da manifestação verbal poesia, finalizando com o poema de Fiama. Porque realizar tais movimentos? Existe, na poesia portuguesa, um sentimento de tristeza profundamente enraizado na sua tradição (como se pode conferir pelo estilo musical fado), que deram a poetas como Sá Miranda e Camões, temas infindos para a sua poesia. Fiama é diferente. Fernando Pessoa, mesmo sob a face do heterónimo Álvaro de Campos, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, não fugiu à regra. A poeta tende para as poesias de vanguarda dos anos 60, geração de grandes poetas da Europa (Eliot, Pound), deixando a tristeza com os que foram ao mar. Adiante, pois, as poesias de Obra Breve revelam um teor mais moderno do que se imagina; aos sentidos e sentidos da poesia». In Márcio Lima Dantas, Esboço para um possível Ensaio sobre Fiama Hasse Pais Brandão, Departamento de Letras da UFRN, Tópicos de Literatura Portuguesa II, Wikipédia, Poesia 61.

Cortesia de DLdaUFRN/JDACT

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Breve Notícia sobre o Descobrimento da América. Teixeira de Aragão. «Na volta para a Europa, em fevereiro de 1493, aportou á ilha de Santa Maria, onde o capitão João Castanheda, por suspeitas, pretendeu aprisional-o»

jdact

Conforme o original

A América Antecolombiana
«(…) Por este período e segundo dizem vários escriptores, o genovez foi-se guiando por uma carta de marear. Seria a de Toscmelli, egual ã que enviou ao cónego Martins e onde se notava a Antilia? Este homem verdadeiramente extraordinário pela coragem com que persistia, e pela fé cega com que acreditava as inspirações celestes, conseguiu vencer todos os obstáculos e descobrir as ilhas de Cuba, Lucayas c S. Salvador [Varnhagen publicou em Valência a primeira carta que Colombo escreveu a D. Gabriel Sanches, thesoureiro de Aragão, dando conta do famoso descobrimento. Diz o titulo: primera epistola del almirante D. Christobal Cólon dando atenta de su gran descobrimento a D. Gabriel Sanchez, tesorero de Aragon. Acompana el texto original castellano el de la
traduccion latina de Leandro de Cosso, segnn la primera edicion de Roma de 1493, y precede la noticia de una copia del original manuscripto, e de las antiguas adiciones del texto en latin, hecha por el editor D. Genaro H. Volafen (anagratnma de Adolfo de Varnhagen). Depois fez-se nova edição em Vianna, pelo mesmo editor, servindo de texto o único exemplar conhecido da primitiva, em castelhano, que se conserva na bibliotheca Ambrosiona de Madrid, sem indicação de anno. Carta de Christobal Cólon, enviada de Lisboa a Barcelona en Marzo de 1493].
Na volta para a Europa, em fevereiro de 1493, aportou á ilha de Santa Maria, onde o capitão João Castanheda, por suspeitas, pretendeu aprisional-o. A 6 de março entrou o Tejo; e João II, que se achava em Valle do Paraizo, logo que o soube mandou-o chamar, para se informar se o descobrimento das ilhas de Cypango e Antilia, de que vinha tão ufano, estavam dentro dos mares e terras do seu senhorio da Guiné. O genovez alardeando das riquezas e possessões que adquirira para a Hespanha, censurou el-rei João II de não dar credito ás suas promessas. (Aqui contradiz-se em parte a carta que Colombo recebeu em 1488 do monarcha portuguez). Pela sua descortezia houve idéa de o matarem, ao que el-rei se oppoz formalmente. Colombo affirmava ter descoberto a ilha de Ophir, que dizia próxima das Autilias e a que poz o nome de Hispaniola. Pedro Marfim de Angéva na Oceânica diz: ... Offyaã isulã sesse reperisse refert sed cosmographorum tracto, diligêter considerato atilie isule síit ille et adiacètes alies hãc hispaniolã appellanit.
Na corte de Fernando e Isabel foi recebido com as maiores solemnidades em abril de 1493, prestando-se-lhe grandes honras e fazendo-se-lhe largas mercês, entre as quaes a de addicionar ao seu brazão um leão e um caslello.
Em 28 de maio de 1483 foi-lhe confirmado o cargo de almirante, vicerei e governador das ilhas e terras, que havia descoberto e descobrisse. Na mesma data teve a nomeação de capitão general da armada que ia em segunda viagem á índia, com auctorização de prover os officios, e de nomear quem o substituísse na sua ausência. Pouco tempo lhe foi concedido de descanço. A 25 de setembro do mesmo anno tornou a sahir de Cadiz para continuar as descobertas, e os reis de Hespanha, com animo e crença no novo almirante, pozeram á sua disposição 17 navios bem providos e guarnecidos por 1:500 homens. N'esta segunda viagem fundou diversos estabelecimentos nas Antilhas e em S. Domingos. A 24 de abril de 1494 entregou o governo da nova colónia a seu irmão Diogo e, com três caravellas, partiu para continuar as descobertas. Conseguiu chegar ao Cabo de S. António; mas o mau estado dos navios obrigou-o a voltar para a Hispaniola, onde encontrou revoltados a maior parte dos europeus, commettendo as maiores atrocidades, e quando deram noticia da chegada da frota do almirante, apoderaram-se de algumas caravellas e fugiram para Hespanha.
Colombo coadjuvado por seu irmão Bartholomeu e duzentos homens suplantou 100:000 indios; mas fizeram grande numero de victimas, e as crueldades que se praticaram são descriptas por Las Casas com horríveis cores. Constando-lhe que os seus inimigos o accusavam e intrigavam com os reis de Castella, para se justificar, entregou o governo das ilhas a seu irmão Bartholomeu, de sua inteira confiança, com o titulo de Adelanlado de las índias, e embarcou para a Europa». In A. C. Teixeira de Aragão, Breve Notícia sobre o Descobrimento da América, Mckew Parr Collection, Maggellan, BrandeisUniversity (Lo que nos importa), Tipografia da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1892.

Cortesia de Adas Ciências/JDACT

Os Meus Amores. Contos e Baladas. Trindade Coelho. «E debruçando-se um pouco na parede, poz-se a fixar o vulto que avançava, para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os hombros…»

Cortesia de wikipedia e jdact

De acordo com o original

«(…) Se por vezes parava, recolhendo-se n'uma quietação attenta, logo um gesto brusco desmanchava a sua immobilidade de estatua, soltava um fundo gemido, e punha-se de novo a andar. Vens ou não vens?, perguntava elle, evocando com dorido esforço a imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando apparecia era como se fosse um relampago, apagava-se logo. N'esta lucta com a sua dôr as horas iam passando longas. Era já tarde, talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrellas, pois que o luar nascia tarde. Pesava sobre toda a paizagem o largo silencio da noite, apenas cortado, ao longe, pela melopeia somnolenta do rio. Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se n'um recanto onde a sombra era mais densa. Temos historia..., resmungou comsigo o rapaz. E, rente a uma arvore, quedou-se alapardado, á espreita. Não desconfiou que fosse o José Cosme: aquillo era mariola de larapio que vinha por ali fazer das suas. Agachou-se então, e poz-se a procurar uma pedra. Apanhou duas, para o caso de não acertar a primeira. Cão do diabo!, exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a pedra. Espera que eu te arranjo... E já ia arremessal-a na direcção do canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao logar onde o rapaz estava. Melhor! Mais a geito ficas...
E debruçando-se um pouco na parede, poz-se a fixar o vulto que avançava, para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os hombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo defronte d'elle, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme. O vulto parecia, com effeito, ser o d'elle; lembrava-se agora de ter ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aquelles carreiros por onde ellas tinham andado. Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente, deixou cair as pedras e perguntou: tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luiz... Vossemecê que tem? O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu: doe-lhe alguma coisa, ó tio José? Não dóe, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes. Bem me bondam as minhas afflicções. Vae com Deus, vae. O rapaz ficou surprehendido, triste do tom de supplica dorida que o José Cosme dera áquellas palavras, e retirou-se silencioso, quasi aterrado agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse a pedrada.
No emtanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruido que não fosse o das aguas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadario, ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um automato ou um somnambulo. Ás vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. N'isto, de uma vez que passava em frente do cancello, pareceu-lhe ouvir passos. Ó Thomaz! Sr. José!, respondeu o que entrava, n'uma voz que era mesmo voz de barqueiro. O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontral-o a pé, elle então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado. Como tinha de madrugar... Pois são horas de largar, sr. José; isto vae p'r'as duas». In Trindade Coelho, Os Meus Amores, Contos e Baladas, Projecto Gutenberg, ISSO 88589-1, 2006, produção de Carla Ramos e Ricardo Diogo e edição de Rita Farinha, Os Meus Amores, 2ª edição, Lisboa, Livraria de António Pereira, 1894.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

O Manuscrito Alfield. Manuscrito de 1516. Alan Dorsey Stevenson. «Tirai sortes entre vós para saber quem ficará comigo primeiro. Por minha honra, disse uma delas, não quero tirar sortes por tal homem: abro mão da parte dele que me cabe»

Cortesia de wikipedia e jdact

Texto Crítico do Manuscrito. Livro Dois
«(…) Por São João, disse a primeira, foi Bursegaunt que tive por último. Eu também, disse a segunda. Ora, disse a terceira, foi ele o último que eu tive também. Santa Maria, disseram as três, ele não é o amante fiel que pensávamos, pois não passa de um velhaco fingidor. Mandemos chamá-lo para saber o que dirá. Lá veio Bursegaunt; elas receberam-no sentadas em cadeiras e mandaram que se sentasse entre elas. Então disseram, cheias de raiva e de cólera, Bursegaunt, fomos torpemente enganadas por ti, pois pensávamos que fosses fiel nos amores, mas não passas de um falso fingidor que faz troça das mulheres, e isso é coisa muito torpe num cavaleiro. Senhoras, ele respondeu, porque dizeis isso? Porque, disse uma delas, foste amante aqui das minhas primas, e meu também, ao mesmo tempo, e disseste que nos amavas e que cada uma de nós era dona de teu coração, o que é uma falsa mentira, pois não podias amar direito nenhuma das três, pois não és três pessoas nem tens três corações, e por isso és falso e enganador, e não deves ser contado no número dos amantes fiéis. Senhoras, ele disse, isso não é justo, e eu vos direi porquê: pois, enquanto estava com cada uma de vós, amava mais aquela com quem estava, portanto creio que sois injustas dizendo de mim essas coisas. Elas, vendo-o assim nem um pouco desconcertado, não souberam o que dizer. Ah, disse ele, vou ensinar-vos o que fazer: que uma de vós fique comigo num dia, e outra no dia seguinte, e a terceira no terceiro dia, e assim diariamente seis dias seguidos, e o sétimo será meu dia de descanso.
Tirai sortes entre vós para saber quem ficará comigo primeiro. Por minha honra, disse uma delas, não quero tirar sortes por tal homem: abro mão da parte dele que me cabe. E as outras duas disseram, também abrimos mão de nossas partes, não queremos dele coisa alguma. Com isso Bursegaunt ergueu-se para sair e disse, Senhoras, não há razão para que brigueis umas com as outras nem todas as três comigo, se nenhuma de vós quer nada de mim. Mas então a mais petulante disse às primas, e agora: ele sai ou ele morre? Ele morre, para nunca mais enganar mulher alguma, disseram as outras. Então trancaram a porta às suas costas e vieram contra ele, cada qual com um punhal na mão, para matá-lo. Mas ele disse, Senhoras, se quereis matar-me sem piedade, assim seja, mas rogo que não me negueis sequer ao menos um último desejo. Elas assentiram, e ele, oferecendo o peito nu, pediu, que a pior pu… das três me dê o primeiro golpe. Elas ficaram ali olhando umas para as outras e por vergonha não houve uma só que ousasse feri-lo, pois nenhuma queria admitir que fosse uma pu… Ele, vendo-as naquele embaraço, correu até a porta, abriu-a, e lá se foi embora rindo delas. Assim, disse lady Marguerite, salvou-se meu marido, e essas três mulheres ficaram lá confusas e humilhadas. E bem que o mereceram, porque é um perigo para as mulheres brigar ou discutir com homens que conhecem as manhas do mundo e sempre acham meio de sair de dificuldades, como fez com elas Bursegaunt meu marido.

Podeis ter certeza de que Roger muito se espantou de ouvir contada pela boca de lady Marguerite essa crua história, que ele achava não devia ser contada por mulher de respeito. Tanto a bem amava, porém, que não era capaz de a inculpar nem repreender, nem de se afastar da sua presença. Assim disse a si próprio que aquilo fora só uma pequena indiscrição, coisa comum nas mulheres, e deixou passar. Quanto a ela, corridos já dois dias sem que Roger lhe tivesse pedido para ser sua amante, então começou a perceber que a ela mesma é que cabia achar meios de atingir o seu intento, scilicet, fazer daquele moço seu parceiro para vadiar e dormir com ela. Suas amigas de Danvil troçavam dela por ter feito péssima escolha e diziam de Roger que grande covarde era ele, que não tinha nada de homem, mas um eunuchus é o que mais parecia. Foi-lhe muito duro ao coração ouvir as palavras das amigas, e ela disse e jurou que a história não ficaria assim, mas vou cuidar dele de tal maneira antes de partir que nem todos os santos do céu serão capazes de lhe salvar a castidade. Ora vede Amidieu em que grande perigo ele jazia, pois essa mulher estava muito determinada a desviá-lo da virtude e fazê-lo perder a virgindade. Daí então chamou Roger para avisar que bem cedo na manhã seguinte pretendia sair a cavalo pelos bosques e campos de Male Mort com as amigas e que te aviso que, se me amas de verdade, que estejas pronto e bem montado para vires comigo. Assim, quando foi de manhã, saíram todas a cavalo, e Roger com elas, e puseram-se a cavalgar pelos bosques e prados em grande ledice e alegria; era um dia claro e formoso, e o tempo agradável, e aquela senhora trazia sobre o corpo um belo vestido de seda; Vem andar bem junto de mim, disse ela a Roger, para conversarmos pelo caminho. Ele pôs-se ao lado dela: e ela cantou para ele, enquanto cavalgavam, esta canção: Kyrie, sim, kyrie, Jacques cantando, para Aleison. Assim que entrei na capela para a missa de Natal o bom Jacques conheci pela voz tão musical, Kyrieleyson. Jacques deu começo à missa nesse dia de Natal, bem me lembro com prazer que não cantava tão mal, Kyrieleyson. Jacques foi ler a Epístola do começo até ao fim, bem me lembro com prazer de seus olhos sobre mim, Kyrieleyson. Jacques na hora do Sanctus cantou mais alegre ainda, bem me lembro com prazer que sua voz era linda, Kyrieleyson». In Alan Dorsey Stevenson, O Manuscrito Alfield, A Folha de Hera, Jazzseen, Julho de 2012, Vitória Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, Biblioteca Pública do Espírito Santo, 2011.

Cortesia de Jazzseen/JDACT

Povos e Culturas. Centro de Estudos. Coordenação de Roberto Carneiro. Alberto Araújo. «Basta considerar a probabilidade de o referido fenómeno do pulular de iniciativas portuguesas viradas para Timor passar da dimensão portuguesa para a escala internacional…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O futuro da cooperação cultural Luso-Timorense. 2001
A Fase de Emergência e a Cooperação Luso-Timorense
«(…) Respondendo aos apelos da Igreja de Timor e do CNRT o governo português, através do Comissariado para Apoio à Transição de Timor-Leste e de mais outras instituições, não se tem poupado a esforços no sentido de enviar para Timor, sucessivamente, grupos de professores para missões curtas de três meses e missões mais longas de um a dois anos. É espantoso presenciar, no interior como em Portugal, o pulular de movimentos de solidariedade: organizações e instituições governamentais e não governamentais, iniciativas públicas, privadas, familiares e pessoais, todos de mãos dadas estão envolvidos nos mais diversificados sectores de economia, finanças, segurança e administração, e isso para citar apenas as áreas consideradas prioritárias pelo Encontro de Darwin. Esse Encontro, realizado entre Setembro e Outubro de 1999, foi convocado com carácter de urgência pelo Presidente do CNRT, Xanana Gusmão, vindo o seu início a coincidir com o primeiro dia de libertação definitiva do líder do cativeiro de Jacarta. Envolveu os Órgãos de Direcção do CNRT, Comissão Política Nacional (CPN), Comissão Executiva (CE) e Comissão de Jurisdição e Controlo (CJC), e técnicos das áreas consideradas prioritárias: Administração e Governação, Finanças, Economia, Segurança Nacional. Teve como objectivo a restruturação funcional do CNRT e a definição de um Plano Estratégico de Desenvolvimento para Timor.
O referido pulular de movimentos e de acções é sem dúvida a expressão de insondáveis sentimentos humanos face à situação de emergência e transição e é ou poderá vir a originar os germes de futuros acordos e protocolos de cooperação, incluindo portanto a cooperação cultural. A incerteza reside na perspectiva de que o conceito de emergência parece oposto ao da cooperação e que a situação ou a experiência humana de emergência não garante as condições psicológicas e objectivas em ordem aos verdadeiros acordos de cooperação.

A cooperação/cultural Luso-Timorense e a Fase de Transição
O conceito de Transição, segundo a definição assumida pelo CNRT no referido Encontro de Darwin e de acordo com os termos do Artigo 6.º do Acordo de 5 de Maio, significa o espaço de transferência (…) da autoridade em Timor Leste para as Nações Unidas e durará o tempo que for definido para o termo da gestão do poder pela UNTAET.
Colocar a ideia de Cooperação / Cultural Luso-Timorense no quadro conceptual de Fase de Transição implica termos que enfrentar questões jurídicas e operacionais que afectam o trinómio interessado, Timor Lorosae, Portugal e ONU, trinómio que é na realidade um polinómio. Basta considerar a probabilidade de o referido fenómeno do pulular de iniciativas portuguesas viradas para Timor passar da dimensão portuguesa para a escala internacional e para a igual probabilidade de algumas das potências intervenientes serem motivadas por planos de protagonismo de liderança ou de interesses próprios ao participarem na condução/construção dos destinos da Nova Nação. A transferência de autoridade traz como consequência que a responsabilidade de determinados actos de natureza oficial, incluindo a capacidade jurídica de celebração de acordos formais de cooperação, encontra-se centrada na ONU representada através da UNTAET. O Conselho de Segurança da ONU, em virtude da resolução 1272(1999) de 25 de Outubro de 1999, constituiu a UNITED, Nations Transitional Administration In East Timor (UNTAET) de pleno e total (fully, overall) responsável pela administração de Timor Lorosae (East Timor), com poderes para exercer toda a autoridade legislativa e executiva, incluindo a administração da justiça. Do mandato constam os seguintes elementos: Providenciar a segurança e manter a lei e a ordem em todo o território de Timor Lorosae; estabelecer uma administração efectiva; ajudar no âmbito de desenvolvimento de serviços civis e sociais; assegurar a coordenação e a distribuição da assistência humanitária e assistência à reabilitação e desenvolvimento; apoiar a capacidade construtiva de autogoverno;  prestar ajuda no âmbito de estabelecimento de condições para um desenvolvimento sustentado». In Alberto Araújo, O futuro da cooperação cultural Luso-Timorense, Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, Coordenação de Roberto Carneiro, Povos e Culturas, U. C. Portuguesa, nº 7, patrocínio de Comissariado para o apoio à Transição de Timor-Leste, 2001.

Cortesia da U. Católica P./JDACT

Uma Tapeçaria Inédita da série dos feitos de D. João de Castro. Pedro Dias. «Os elementos iconográficos essenciais são as duas girafas, vindo da esquerda para a direita, uma delas montada por um homem armado com uma lança»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Entretanto casou-se com uma dama riquíssima, Ana Ataíde, que era sua prima, filha dos condes de Monsanto e senhores de Cascais, portanto neta do poderoso António Ataíde, que foi vedor da Fazenda, e um dos maiores amigos do próprio João de Castro. Como hipótese, podemos adiantar que as tapeçarias terão sido encomendadas quando da viagem de Álvaro Ataíde a França, como embaixador, para apresentar os pêsames da Corte Portuguesa a Catarina de Medice, pela morte do monarca Henrique II, e eventualmente tratar do casamento da infanta dona Maria com o imperador Fernando I de Habsburgo. Assim a encomenda poder-se-ia colocar entre 1558 e 1560.
Mas é também possível que fosse a própria Corte a encomendar estas obras, ou pelo menos a patrociná-las fortemente, pois há o precedente da encomenda da série da primeira viagem de Vasco da Gama, por Manuel I, para publicitar a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia e o facto de se ter tornado senhor do Comércio e das Conquistas e Navegações da Arábia, Pérsia e Índia, tapeçarias que ficaram conhecidas como à maneira de Portugal e da Índia, e de que foram feitas diversas séries, ao longo das décadas seguintes. Também nestas o exótico era um tópico, e não teriam alcançado o êxito que tiveram, não fossem as representações das coisas da Ásia. Se escolhermos a tapeçaria menos conhecida do grande público, revelada por nós recentemente, notaremos imediatamente esse exotismo. Os elementos iconográficos essenciais são as duas girafas, vindo da esquerda para a direita, uma delas montada por um homem armado com uma lança. A outra, a que está mais atrás, tem um serviçal a segurá-la, este já dentro de uma cerca, como que a recebê-la. O lado direito está próximo das tapeçarias com temas pastoris.
Opostamente, o lado esquerdo do observador, para além das já referidas girafas, um servo puxa um camelo que está deitado e de que só se vê parte da cabeça e do pescoço. Um outro homem, armado com uma lança, com um turbante na cabeça, o que indicará a sua origem oriental, e com a mão direita pousada no punho de uma cimitarra, espera o resto do cortejo. As flores e os frutos, que parecem laranjas apontam para regiões longínquas e para realidades novas. A vitória de Diu elevou João III ao mesmo nível de Carlos V, quando este conquistou Tunes, e não estando lá presencialmente, estava lá através do seu longo braço materializado na figura do vice-rei. Isto justificaria o facto de não estarem em Portugal, mas sim em colecções de familiares chegados da rainha dona Catarina de Áustria, como aliás aconteceu com muitas obras que vieram do Oriente, e que eram da maior importância, quer política quer material, como os cofres das embaixadas do Ceilão, mas que parece não terem interessado muito aos monarcas portugueses. Também as tapeçarias vulgarmente conhecidas como de Pastrana, dedicadas às conquistas em Marrocos, ou as das glórias de João III e dona Catarina e a sua equiparação aos deuses do Olimpo acabaram no país vizinho.
Alguns autores pretenderam identificar nas tapeçarias os retratos da infanta dona Maria e do infante Luís, ideia que também já perfilhámos, mas que abandonámos, dando hoje total razão aos argumentos de Vasco Graça Moura sobre esta questão. Se assim fosse, estariam representados fora do contexto geográfico e temporal, devendo ser antes Álvaro Castro e dona Ana Ataíde, sua esposa». In Pedro Dias, Uma Tapeçaria Inédita da Série dos feitos de D. João de Castro, A importação de esculturas de Itália nos séculos XV e XVI, Coimbra, 1987.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

terça-feira, 26 de maio de 2020

Manique do Intendente. Uma Vila Iluminista. «Após uma primeira fase de governo por capitanias, seguiu-se a nomeação de um governador-geral em 1548 e uma política mais abrangente»


jdact e wikipedia

Urbanismo: o Contexto Europeu. A engenharia militar e a tratadística
«(…) Os engenheiros militares foram também os responsáveis pelo desenvolvimento de um tipo de urbanismo português, ensaiado nas colónias ultramarinas, a partir do século XVI, e sobretudo do século XVII. Essas experiências tiveram um palco fundamental no Brasil.

O Urbanismo Português no Brasil
A experiência colonial, iniciada no século XV, é um processo muito lato temporal e fisicamente. A prática urbanística pelos engenheiros militares nasce a par das primeiras conquistas, nas praças fortificadas no Norte de África e aperfeiçoa-se, no século XVI, na Índia, nas ilhas atlânticas e no Brasil, com traçados geometrizados, conjugados parcial ou totalmente com fortificações. O caso que mais interesse tem para o presente trabalho é o da colonização brasileira e será esse que o que se passa a referir, de modo bastante conciso. Primeiramente, há que referir que as circunstâncias da ocupação deste território sul-americano diferem bastante das dos restantes territórios. Tratava-se de um vasto espaço, praticamente desabitado, e portanto sem referências anteriores. O perigo, esse, vinha por mar, o que se traduziu numa ocupação primária na faixa marítima. São engenheiros-militares os principais obreiros das novas povoações, quase sempre formados na Metrópole e, a partir do final do século XVII, também no Brasil, embora com pouca regularidade.
Após uma primeira fase de governo por capitanias, seguiu-se a nomeação de um governador-geral em 1548 e uma política mais abrangente. Foi fundada em 1549 a primeira capital, São Salvador da Baía. Contrariamente ao que até aí fora regra em todo o Império, a fundação desta cidade teve pois como grande novidade a intenção prévia de não só planear a sua implantação e defesa, mas também pré-conceber o seu espaço urbano. Ao período filipino corresponde a uma ampliação do esforço de ocupação do território, para o Norte, ameaçado por franceses, holandeses e ingleses e também para Sul (o Rio de Janeiro é fundado em 1565). Após a Restauração, o Brasil é a mais importante possessão portuguesa e sistematiza-se a ocupação do território. No final do século XVII, são quatro os objectivos para a colonização do interior: distribuir e rentabilizar as terras, assegurar a lei e a ordem, afirmar a presença portuguesa face à coroa espanhola e controlar a produção dos recentemente descobertos filões auríferos. Os arraiais mineiros realizados sem qualquer espécie de plano anterior foram a primeira face desta ocupação do interior. Mas o crescente interesse da Coroa levou à proliferação de novas cidades, por meio de Cartas Régias mais ou menos estandardizadas: determineis na vila o lugar da praça no meio da qual se levante pelourinho e se assinale a área para o edifício da Igreja […], e que façais delinear por linha recta a área para as casas com seus quintaes, e se designe o lugar para se edificarem a casa de Camara […] e mais oficinas publicas, e que todas devem ficar na área determinada para as casas dos moradores as quais pelo exterior sejam todas do mesmo perfil, […] de sorte que em todo o tempo se conserve a mesma fermosura da terra e a mesma largura das ruas. À época de João V lançou-se uma política de colonização por gentes dos Açores e da Madeira, algumas vezes com ajuda estatal durante o período de instalação. Fundaram-se neste reinado Vila Boa de Goiás (1739), no interior Oeste, e Mariana (cerca de 1730), a Sul. Esta política foi prosseguida no reinado subsequente, com grande empenho do marquês de Pombal, mas agora a região alvo foi, sobretudo, a amazónica. Era objectivo primeiro civilizar os autóctones, e isso significava fazê-los seguir modelos de comportamento europeus. Por outro lado, esta nova etapa da colonização brasileira teve a particularidade de ser apoiada por um conhecimento muito mais aprofundado do território. Foram fundadas neste período, entre outras, Bragança (1753), Borba (1756) e Barcelos, na região amazónica, e Vila Bela da Santíssima Trindade (1752), S. Miguel (cerca de 1760) e Balsemão (1768), no Mato Grosso. Já no reinado de dona Maria foram fundadas as cidades de Albuquerque (1778), Vila Maria do Paraguai (1778) e Casal Vasco (1783). Desta rápida passagem pelas fundações brasileiras, pode observar-se uma crescente regularização dos traçados, ainda que se apresentem das mais variadas formas». In Cátia Gonçalves Marques, Departamento de Arquitectura da FCTUC, Junho de 2004.

Cortesia de FCTUC/JDACT

Novos cátaros para Montsegur. Saint-Loup. «El sol aún entraba en la fortaleza por encima de la muralla occidental. Bajo esa iluminación directa la vegetación salvaje mostraba su verdadero carácter de maleza»

Cortesia de wikipedia e jdact

Luz Azul
«(…) Y tú? Aparte de los AJ…, que haces? Ajiste… Eh! eh! No es una profesión, o sí? Yo? Trabajo cerca de aquí, en un telar de Lavelanet. El que se encamina hacia la puerta es el hijo de mi patrón, Gaston Reboul… Este yugo ajiste le parece extraño, no?... El proletario y el hijo de papá…. El capital y el trabajo se dan bien y nos gastamos bromas en los AJ los sábados por la tarde!... Camas a la española (Broma consistente en colocar las sábanas dobladas sobre su mitad con el fín de que el durmiente sólo pueda introducirse parcialmente en la cama)… Cubos llenos de agua encima de las puertas. Racimos de uvas dentro de las botas! Me encanta gastar bromazos y soy un socialista que vale por dos! Y el hijo de su patrón se aviene a este juego? Claro, tiene esprit auberge! (Expresión francesa que significa más o menos predilección por albergues o espíritu de albergue).
Otto Rahn murmuró con ensoñación: también tenemos lo mismo en Alemania, ahora.
Y alternativamente observaba a la bella e inquietante Auda Isarn y Gaston Reboul, hijo de un capitalista integrado en una sociedad sin clases de los AJ. De mediana altura, trigueño, magro, el joven Reboul ostentaba una dejadez asumida tal vez de manera voluntaria, sin la cual tendría dificultad de sentirse a gusto en un mundo más cercano al trabajador Jordi Couquet que al heredero de los Telares Industriales de Lavelanet. Pensó: estos ajistes (que me parta un rayo! Cómo se puede ser ajiste?...) caen en el engaño, ya que su ideal consiste en alinear al pueblo por la élite y no hacer descender a esta hasta el pueblo!
Jordi Couquet terminaba de roer una manzana arrugada, con un invierno en el granero en su haber, y arrojó el carozo en medio de los matorrales de enfrente. Otto Rahn la reprendió suavemente: no debió hacer eso… El joven arqueó las cejas negras y espesas. No me venga con esas! Por qué? Allí puede crecer un manzano! Por qué? Por respeto a Montsegur, el más sagrado de todos los elevados lugares de Europa! Inquieto, el camarada Couquet miró directamente al alemán. Tuvo ganas de colocarse un dedo en la sien precisando la estima que tenía por la salud mental de su viejo interlocutor, pero se contentó con objetar: alto lugar? Montsegur a duras penas tiene mil doscientos metros. Ya estuve en montañas con más de tres mil. Qué si pasa? No se acotaron altitudes para arrojar huesos!

El sol aún entraba en la fortaleza por encima de la muralla occidental. Bajo esa iluminación directa la vegetación salvaje mostraba su verdadero carácter de maleza. Las conversaciones fueron escaseando con las primeras muestras de calor. Otto Rahn parecía contrariado. El movimiento (acompasado) del pie apoyado sobre el talón le cronometraba el curso de los pensamientos y dejaba traslucir una ligera irritación. Permaneció en silencio durante largo tiempo y, por fin, retomó la conversación con una frase trivial. De modo qué todos sois de esta región? Todos. Marius Chabrol, el pequeño allí de abajo que nos mira como un padre listo a escuchar una confesión de asesinato, es de Narbona. Es banquero. Digamos más bien, empleado bancario! Eh, eh! No es lo mismo. Sea como fuere, es un tipo importante… Tiene diecinueve años y es secretario de la juventud comunista de su zona! El que está en el lado izquierdo es Raymond Ferrocas, va a ingresar en la Escuela Normal de profesores. Nació en Béziers. El grueso aquel, de cara cortada a machetazos, es Robert Robuffay, trabaja con el padre en Menèrba. Tiene viñedos. El del pelo ensortijado a la vera del muro es Guyot Peyrat, de Toulouse. Está preparando cualquier asunto en la Facultad de Letras de Montpellier. Un excéntrico. Habla y escribe el dialecto de la región. Todos son de aquí.
Guyot Peyrat se había aproximado y ya estaba lo suficientemente cerca como para oír la última frase que denominaba dialecto a la lengua d’Oc. Levantó los hombros y dijo: ya no se hacen amôrri (Expresión que forma parte de la dialéctica del resentimiento usada en el Languedoc en 1968. Proviene de Amaury y se refiere al hijo de Simon de Monfort que precisamente no brillaba por su inteligencia), como tu, Jordi! Dijiste más de un centenar de veces que la lengua d’Oc no es un dialecto! Qué quieres que haga para no quedarme a medias-tintas, si eso es chino para mi? Uno a uno, los muchachos se fueron colocando junto al alemán. La chica paseaba sobre los peñascos manteniéndose a distancia en una actitud de pura-sangre. Otto Rahn se volvió al muchacho que había abordado primeramente una hora antes: señor Barbarïa, quería hacerle una pregunta, una pregunta importante. Cuál es la razón de venir con sus camaradas a Montsegur? Un tanto cuestionado, Barbaïra tardó en responder». In Saint-Loup, Novos cátaros para Montsegur, tradução para espanhol por RRB, tradução de António Rangel, 2003, Huguin Editores, Lisboa, Eneese, Las Españas, año 120 (2010).

Cortesia de HuguinE/JDACT

O Livro do Amor. Kathleen Mcgowan. «… da promessa dela de procurar um livro secreto que Ele escrevera com a própria divina mão, O livro do amor»

Cortesia de wikipedia e jdact

Rosso. La Beauce. França. 390 d. C.
«(…) Um guarda que estava do outro lado do cepo se aproximou para posicionar os prisioneiros. Modesta fez uma pergunta bem alto para que todos pudessem ouvir. Senhores, podem-nos permitir alguns minutos para rezarmos juntos? Os guardas olharam para onde estava o maligno irmão Timóteo, ansioso, prevendo o espectáculo que estava prestes a acontecer. Ele fora apanhado numa armadilha Como homem da Igreja não podia negar o pedido de oração. A Igreja é misericordiosa e permitirá uma breve oração se os hereges desejam arrepender-se.
Modesta foi para perto do marido e o encarou pela última vez. Naquele instante não havia cadafalso, nem machado, nem a terrível injustiça. Havia apenas amor quando repetiram a oração mais sagrada do seu povo, em uníssono.

Eu te amei no passado,
Eu te amo no presente,
E te amarei novamente.
O tempo retorna.

Modesta tocou os lábios do amado com os seus, num último beijo suave. Basta!
A ira do irmão Timóteo desfez o momento. Irritados, os guardas separaram o casal e os fizeram ajoelhar com empurrões, lado a lado, diante do bloco de madeira. Com a profunda calma que nasce de saber que apenas Deus os espera, Modesta e Potentian abaixaram a cabeça sobre o cepo. Continuaram a rezar baixinho e a uma só voz enquanto o primeiro machado desceu com uma pancada nauseante. O segundo caiu logo depois. A multidão não se manifestou. A sensação de luto e de tragédia pesava na atmosfera. Não foi a comemorada execução de hereges que irmão Timóteo esperava. E ele transmitiu sua visão impopular em alto e bom som. Que isso sirva de aviso para todos. A heresia não será tolerada no Sacro Império Romano!
O povo da cidade se dispersou no rasto desse aviso impiedoso, com expressões sérias e mais do que temerosas. Irmão Timóteo ignorou todos. Aproximou-se do cepo de madeira para falar com os carrascos. Não deixem nenhuma relíquia dos mártires para os hereges lamentarem. Joguem os dois no fundo do poço. É o mais próximo que posso chegar de mandá-los para o inferno eu mesmo. Irmão Timóteo olhou longamente e com satisfação para o corpo mutilado de Modesta quando os carrascos começaram a cumprir a sua tarefa mórbida. Obsessão tomou conta do rosto dele quando tirou escondido alguma coisa do bolso. Era um cacho do cabelo vermelho e brilhante de Modesta. Com a pastora morta, seria fácil controlar os carneiros. Ele guardou o fetiche de volta no bolso e passou por cima da poça de sangue de Modesta sem olhar para trás.

Cidade de Nova York, agora
Maureen Paschal, refestelada no luxo de lençóis e travesseiros de puro algodão, no quarto do hotel em Manhattan, reservado pela sua editora, se debatia na cama enorme. Tão agitada no sono, como era acordada, Maureen não dormia a noite inteira havia quase dois anos. Desde os acontecimentos sobrenaturais que levaram-na a descobrir o Evangelho de Maria Madalena, Maureen era uma mulher perturbada, no seu sono e nas horas de vigília. Quando tinha a sorte de cochichar algumas horas consecutivas, era perseguida por sonhos fortemente simbólicos ou aparentemente vívidos e literais. Desses sonhos recorrentes o mais perturbador era aquele em que ela encontrava Jesus Cristo e Ele falava misteriosamente da promessa dela de procurar um livro secreto que Ele escrevera com a própria divina mão, O livro do amor. Quando estava desperta, Maureen era atormentada por essas experiências oníricas; mas O livro do amor até ao momento continuava o mais completo mistério. Não havia como encontrar referências históricas de tal documento além de um punhado de lendas muito vagas que surgiram na França na Idade Média, antes de desaparecer por completo. Ela não tinha ideia de onde começar a procura para cumprir a sua promessa e encontrar esse espectro. Não tinha nem muita certeza do que era. E até aquele dia, o Senhor não lhe dera pista alguma para ajudá-la nessa busca. Maureen rezava fervorosamente todas as noites para não falhar na missão que lhe fora confiada e para obter alguma orientação e encontrar o ponto de partida para essa viagem estranha. Os acontecimentos sobrenaturais da sua vida, nos últimos anos, eram a prova que bastava para saber que aquela magia divinamente inspirada existia por toda parte. Só teria de ser paciente na sua fé, e esperar». In Kathleen Mcgowan, O Livro do Amor, O Legado de Maria Madalena, Rocco, 2009, ISBN 978-853-252-513-0.

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