domingo, 23 de janeiro de 2022

Poemas de Alcipe. Marquesa de Alorna. «Fazíeis a delícia dos meus dias, escutai os gemidos lastimosos Com que Lília, nas bordas do sepulcro, vos envia um adeus, com que saudade!»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«[…]

Idílio

«Quando, pela moléstia de peito que então sofria, me desenganaram de que não tinha remédio enquanto estivesse em Chelas, e havia inteira impossibilidade para mudar de sítio»

«Cordeiros meus, que em tempo mais ditoso

Fazíeis a delícia dos meus dias,

Escutai os gemidos lastimosos

Com que Lília, nas bordas do sepulcro,

Vos envia um adeus, com que saudade!

Passou ligeiro o tempo em que, contentes,

No mais alto do monte, consagrado

Aos cânticos das Musas, felizmente

Vos nutríeis de um pasto que regava

A fresca Aurora com a porção mais pura

Do c que dedica ao filho amado.

Gostáveis um licor sacro e sublime,

Que a alma inflama dos cândidos Pastores,

E os obriga a cantar suavemente

Seus amores nas flautas sonorosas.

Que pacíficos gostos eu lograva,

(Ó milagres de Délio!) quando apenas

Da minha pobre avena, mansamente

Os inocentes colos estendendo,

Sentir parecíeis vós esse meu canto,

Parecíeis aplaudir os meus acentos,

Em que a Amor perdoava as travessuras

Com que afligia os míseros pastores!

Outras vezes, que a Amor chamei tirano,

Que só cantei as graças da inocência,

Com que pressa, Cordeiros, me cercáveis,

E com a paz que meus versos inspiravam

Entre os braços do sono vos perdíeis!

Ó memória suave, onde me levas!...

Tais como as densas nuvens que no Inverno

As estrelas aos olhos vão roubando,

A distância me faz ver esse tempo,

Ditoso, mas perdido, ir já cedendo

Ao tirano poder do esquecimento.

Neste vale cruel, onde a desgraça

Ordena que termine os tristes dias,

Escuto só os ventos rugidores,

Arrancando da terra os verdes freixos,

Que abrigavam com as frondosas ramas

Comigo a terna Márcia, a cara Tirce.

O rebanho de Agrário pelos montes

Somente deixa ouvir tristes balidos,

Disperso, quase extinto! Com que pena

Meus olhos tal objeto consideram!...

No espaço imenso dos passados séculos,

Com passos apressados se sepulta

O tempo, que não cessa. A horrenda morte

Com que aspeto a meus olhos (tristes olhos!)

Os descarnados ossos apresenta!

Levanta com furor a enorme foice,

(Que susto!... ó Céus, valei-me!...) que pendente

Vejo sobre a cabeça... Mostra, irada,

O voraz apetite com que esperava

Fazer presa em meus dias brevemente!

Cordeiros, minha doce companhia,

Com quem já reparti os meus prazeres,

Quando da morte o lívido semblante

Vos mostrar com horror minha figura,

E não puder a mão, trêmula e fria,

Sustentar por mais tempo o meu cajado,

(Que jamais vos serviu para castigo,

Que à fonte vos guiava, que ao redil

Vos levou tantas vezes ao descanso)

Ah! não deixeis que algum Pastor profano

À minha Tirce o roube; a minha lira

Nele deixo pendente de um grilhão

Que o maligno Cupido, na cabana

Da mesma Tirce amada, sutilmente

Me trocou pela minha liberdade.

Nos versos meus, que eu confiei dos troncos,

Deixo a fúnebre história dos meus males.

Não consintais que o musgo, o tempo, a sorte

A memória sepultem do que eu sinto,

Antes que os claros olhos do meu Nume

Derramem, quando os lerem, terno pranto,

E que à memória da constante Lília

Pague Amor os extremos que lhe deve.

Ah! possa a mão de Tirce ainda algum dia

Ao querido Pastor, ao Pai amado,

Com os dons que lhe restam, de uma filha

Compensar os suspiros que hoje exala!

Oh! feliz sorte a vossa, triste a minha,

Cordeiros inocentes, que aos desastres

Insensíveis viveis, que da saudade

Não provais a violência, o golpe amargo!

Não sofreis o poder fero e tirano

Deste duro farpão, que rasga o peito,

Monstro que a alma devora sem piedade.

Ficai sempre felices, sempre alegres,

Que eu, sem ver os objetos que adorava,

Acabo... ó Céus!... meus dias... na amargura!...

Razão, por piedade, esconde

O que eu dentro de alma sinto;

Se amor se mostra em meus lábios

Faze crer que sempre minto.

Não quero que hoje a verdade

Se oponha às leis da razão;

Triunfe a modéstia austera,

Gema embora o coração.

Não acenda um só suspiro

Chama que devo apagar;

Siga-se à dor o silêncio:

Vencer é saber calar.

Quantos males evitara

Esse incauto Prometeu,

Se na férula escondido

Ficasse o fogo do Céu!...

Porque se ama, ou se não gosta,

Inda está mal definido;

O acaso, o fado, a estrela

Forjam armas a Cupido.

Se com desdéns recompensa

Zelina meu vivo ardor,

Não tenho de que queixar-me

Não depende dela amor.

Por ela morro; e não pago

De Alcina os ais com os meus.

Ninguém a razão me aindague,

Procure o enigma nos Céus».

[…]

Poemas de Leonor Almeida Portugal Lorena Lencastre, (1750 – 1839), in Poemas de Alcipe’

JDACT

A Arte, Encantamento, Fernando Pessoa, JDACT, Marquesa de Alorna, MLAC, Poesia, Alcipe,    

Poemas de Alcipe. Marquesa de Alorna. «A minha antiga Musa se desvia, só me inspira a cruel melancolia; outro Apolo não tenho que o meu dano»

Cortesia de wikipedia e jdact

«[…]

Águas

Quantas vezes a Musa me guiava

Ao lugar em que terno suspirava

Petrarca saudoso, que em Vaucluso

Suave fez o uso

Da cítara cadente, repetindo

Aquela branda história

Que lhe pôs na memória,

Com as farpas de Amor, um gesto lindo!

Aonde os pensamentos me levavam!

Parecia-me que as Musas enlaçavam

Com fios de ouro as ramas do loureiro;

Depois, que o Deus flecheiro,

Verdes mirtos colhendo, os ia unindo

À formosa capela

De que a Musa mais bela

Coroou Petrarca, Laura, repetindo.

Sonhos vãos que forjava a fantasia!...

Prazeres que benigno Amor fingia!...

As Dríades me ouviram mil canções,

Que aos ternos corações

Excitaram mil gratos sentimentos.

Hoje, nos troncos duros,

Dos meus fados escuros

Escrevo os tão diversos movimentos!

A minha antiga Musa se desvia,

Só me inspira a cruel melancolia;

Outro Apolo não tenho que o meu dano.

Às vezes de ano a ano

Uma triste cantiga solitária

No centro do retiro,

Seguida de um suspiro,

Arranca do meu peito a sorte vária.

Ó Naides, que do fundo desta fonte

Ouvis o mal que Amor manda que eu conte,

Se acaso minhas lágrimas saudosas

Distinguirdes, piedosas,

Ah! condoei-vos, sim, do dano meu!

Se o mal que eu choro tanto

Paga outro terno pranto,

Dai-me a sorte feliz do claro Alfeu!

Canção, vai, que a levar-te não me atrevo;

Segue longe do meu outro destino;

Enquanto nos pesares que imagino

A minha acerba dor eu, triste, cevo.

[…]

Poemas de Leonor Almeida Portugal Lorena Lencastre, (1750 – 1839), in Poemas de Alcipe’

JDACT

A Arte, Encantamento, Fernando Pessoa, JDACT, Marquesa de Alorna, MLAC, Poesia, Alcipe,

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «… em toda a sua sabedoria libertina, devia ter-me ofendido de propósito para cauterizar minha ferida e, perfeccionista como era, completar minhas aulas de esgrima com o golpe mais honrado de todos: o de misericórdia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Imagino que o seu benfeitor não seja o jovem Moselane..., sugeriu meu pai, olhando pelo retrovisor. Quando me virei, vi James saindo da faculdade com uma raquete de ténis no ombro. Um calor repentino e nada agradável tomou conta do meu corpo. Ali estava ele, a sensatez em pessoa, lindo como nunca. Não seria mais prudente lhe dizer que eu iria viajar em vez de sair de fininho daquele jeito? Ai, droga, falei, conferindo o relógio. Temos de ir, sério. Meu pai continuou a olhar pelo retrovisor enquanto avançávamos pela Merton Street, decerto perguntando-se como contar à minha mãe sobre aquela agourenta mudança de cenário, e cada tremor de sua pálpebra fazia aumentar o bolo de culpa que eu sentia no estômago. Mas como eu lhe poderia contar a verdade? Ele nunca havia tomado qualquer iniciativa de conversar sobre a avó, nunca me contara sobre o caderno que ela claramente escrevera para mim. Abordar o assunto agora, a caminho do aeroporto, a uma velocidade para ele supersónica, não era uma ideia nada boa. Desculpe, meu pai, murmurei, afagando seu braço. Na volta eu explico.

Passamos algum tempo em silêncio dentro do carro. Com o rabo do olho, pude notar a preocupação paterna cada vez maior lutando contra sua boa índole, que tanto resistia a confrontos. No final ele respirou fundo e disse: Só me prometa que isso não é alguma espécie de..., fuga amorosa. Ele teve de levantar um pouco a voz para pronunciar a palavra. Nós temos dinheiro de sobra para pagar uma festa de casamento, você sabe. Fiquei tão chocada que desatei a rir. Pai, sério! Bom, o que quer que eu pense? Curvado sobre o volante, ele parecia quase zangado. Você passa três horas em casa, pergunta sobre a sua certidão de nascimento..., e agora vai viajar para Amsterdão. Ele me lançou um olhar, e na sua expressão pude ver uma centelha de medo genuíno. Prometa que isso não tem a ver com nenhum..., homem. Sua mãe jamais iria perdoar-me. Ah, meu pai! Inclinei-me para lhe dar um beijo na bochecha. O senhor sabe que eu jamais faria isso. Não sabe? Ele assentiu sem convicção, e acho que eu não podia culpá-lo. Embora fosse raro o assunto vir à baila, eu não tinha dúvidas de que meus pais haviam deduzido bastante coisa em relação ao meu grupo bastante heterogéneo de ex-namorados, aos quais Rebecca se referia como cavaleiros do Apocalipse, embora nenhum deles merecesse título tão nobre.

Por algum motivo, eu nunca tinha tido muito jeito com homens. Talvez a causa fosse minha própria predilecção por ficar sozinha ou quem sabe, como Rebecca sugerira certa vez (esquecendo por um instante minha paixão infantil por James Moselane), eu tivesse algum defeito genético passado por minha avó que me impedisse de me apaixonar. Sempre que algum relacionamento terminava mal, com lágrimas e palavras ditas para magoar, eu chegava a desconfiar que talvez não gostasse de homens e pronto, e que talvez por isso tivesse na gaveta da escrivaninha um maço cada vez maior de cartas de adeus me acusando de ser uma vaca frígida, embora em termos mais eloquentes, claro. Instigada por Rebecca, lá de Creta, na ocasião do meu vigésimo sétimo aniversário, cheguei a pensar que talvez meu problema pudesse ser resolvido simplesmente mudando o foco de homens para mulheres. No entanto, depois de reflectir a respeito por mais ou menos uma semana, tive de concluir que elas despertavam ainda menos meu interesse. A triste conclusão, decidi, devia ser que Diana Morgan estava fadada a ser solitária..., uma daquelas damas de ferro cujo legado, no lugar de netos, consistia em monografias de 3 quilos dedicadas a algum finado professor.

Três dias depois disso, Federico Rivera aparecera. Sendo frequentadora antiga do Clube de Esgrima da Universidade de Oxford, eu não me deixava impressionar fácil por homens exibidos, mas percebi na hora que aquele mestre espanhol que viera passar uma temporada em Oxford era outra história. Apesar de não ser bonito no sentido estrito do termo, ele era alto e tinha um físico invejável. E mais: possuía uma energia explosiva absolutamente inebriante. Federico era um perfeccionista não apenas na esgrima, mas também na arte da sedução e, embora eu tenha certeza de que ambos sabíamos desde o início quais seriam as consequências inevitáveis das minhas aulas nocturnas particulares com ele, passou vários meses concentrado nos meus golpes e contragolpes e mais nada..., antes de finalmente me seguir até ao chuveiro e me ensinar o coup d’arrêt sem dizer uma palavra. Nosso caso durou o Inverno todo e, apesar da sua insistência em que guardássemos segredo, acreditei piamente quando ele disse que eu era o amor de sua vida. Um dia, num futuro próximo, nós contaríamos sobre o nosso relacionamento..., nos casaríamos..., teríamos filhos... Isso nunca foi dito de forma explícita, mas ficou sempre subentendido. E quando ele fugiu de volta para a Espanha da noite para o dia sem nem ao menos se despedir, fiquei tão pasma e magoada que pensei que nunca mais voltaria a ser feliz.

Aí vieram todas as descobertas horríveis: os muitos outros casos dele em Oxford, a noiva furiosa em Barcelona, sua vergonhosa dispensa do clube de esgrima..., mas mesmo assim eu lhe escrevi várias cartas chorosas jurando amor e compreensão e implorando uma resposta. E ele respondeu. Vários meses depois, recebi um envelope gordo enviado de uma academia de esgrima de Madrid contendo todas as minhas cartas, a maioria ainda fechada, e 500 euros. Como ele não me devia dinheiro nenhum, fui forçada a supor que aquele era o seu modo de me remunerar pelos serviços prestados. Fiquei tão irada que levei semanas para entender que mestre Federico Rivera, em toda a sua sabedoria libertina, devia ter-me ofendido de propósito para cauterizar minha ferida e, perfeccionista como era, completar minhas aulas de esgrima com o golpe mais honrado de todos: o de misericórdia». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Anne Fortier, JDACT, Literatura,

sábado, 22 de janeiro de 2022

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «… Tom olhou para trás. Ellen ainda os observava, de pé na estrada, pernas abertas, protegendo os olhos do sol com uma das mãos; o garoto esquisito estava ao seu lado»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ellen ultimamente começara a perceber isso, confessou ela, adivinhando os pensamentos de Tom. Jack nunca tivera a companhia de outras crianças, ou, na verdade, de outros seres humanos, excepto a mãe, e o resultado era que estava crescendo como um animal selvagem. Apesar de tudo o que aprendera, não sabia lidar com as pessoas. Era por isso que estava ali em silêncio, que encarava fixamente os outros e apanhava o que queria. Ao dizer isso, ela pareceu vulnerável pela primeira vez. Desapareceu seu ar de inexpugnável auto-suficiência, e Tom a viu como uma mulher preocupada e mesmo desesperada. Pelo bem de Jack, ela precisava retornar à sociedade, mas como? Se fosse homem, poderia ter conseguido convencer algum lorde a lhe dar uma fazenda, sobretudo se mentisse de modo convincente e dissesse que estava voltando de uma peregrinação a Jerusalém ou a Santiago de Compostela. Havia algumas mulheres trabalhando na lavoura, mas invariavelmente eram viúvas com filhos crescidos. Nenhum lorde daria uma fazenda a uma mulher com um filho pequeno. Ninguém iria querer empregá-la para fazer qualquer tipo de trabalho, na cidade ou no campo; além disso, não tinha onde morar, e o trabalho não qualificado raramente era acompanhado por oferta de moradia. Ellen não tinha identidade. Tom sentiu por ela. Dera à criança tudo o que podia, e não era o bastante. Mas ele era incapaz de ver uma saída para o seu dilema. Por mais bonita, determinada e formidável que fosse, estava destinada a passar o resto dos dias escondida na floresta com o seu filho esquisito.

Agnes, Martha e Alfred voltaram. Tom olhou ansiosamente para a filha, mas pelo seu jeito a pior coisa que lhe acontecera fora ter o rosto esfregado. Durante algum tempo, o construtor ficara absorto nos problemas de Ellen, mas agora se lembrou da sua situação difícil: estava sem trabalho e seu porco havia sido roubado. A tarde estava acabando. Começou a recolher as coisas que lhe tinham restado. Aonde estão indo?, perguntou Ellen. Winchester, disse Tom. Ali havia um castelo, um palácio, diversos mosteiros e, principalmente, uma catedral. Salisbury é mais perto, disse Ellen. E da última vez em que estive lá a estavam reconstruindo..., ampliando-a. O coração de Tom deu um pulo. Era aquilo que estava procurando. Se ao menos pudesse arranjar um trabalho num projecto em andamento, acreditava que um dia conseguiria se tornar mestre construtor. Como se vai para Salisbury?, perguntou ele ansiosamente. No caminho que vieram, uns cinco quilómetros ou pouco mais. Lembra-se de uma encruzilhada onde pegou a trilha da esquerda? Sim, perto de um lago de água suja. Isso mesmo. A trilha da direita leva a Salisbury. Eles se despediram. Agnes não gostara de Ellen, mas mesmo assim conseguiu dizer graciosamente: Muito obrigada por ter ajudado a tomar conta de Martha. Ellen sorriu e pareceu ficar melancólica quando eles partiram. Quando já haviam caminhado alguns minutos, Tom olhou para trás. Ellen ainda os observava, de pé na estrada, pernas abertas, protegendo os olhos do sol com uma das mãos; o garoto esquisito estava ao seu lado. Tom acenou, e ela respondeu com outro aceno. Uma mulher interessante, comentou ele com a esposa. Agnes nada disse.

Aquele menino era estranho, disse Alfred. Caminhavam no sol outonal de fim de tarde. Tom gostaria de saber como era Salisbury; nunca estivera ali. Sentiu-se excitado. Claro que seu sonho era construir uma catedral desde os alicerces, mas isso quase nunca acontecia: era muito mais comum encontrar uma velha edificação sendo melhorada, ampliada ou parcialmente reconstruída. Mas isso já seria bastante bom para ele, desde que lhe oferecesse a chance de ajudá-lo a um dia realizar seu objectivo. Porque aquele homem bateu em mim?, quis saber Martha. Porque queria roubar o nosso porco, respondeu Agnes. Devia ter um porco dele, disse Martha indignada, como se só agora percebesse que o fora-da-lei tinha feito algo errado. O problema de Ellen estaria resolvido se ela tivesse uma profissão, pensou Tom. Um pedreiro, carpinteiro, tecelão ou curtidor não estaria na sua posição. Sempre poderia ir para a cidade e procurar trabalho. Havia poucas artífices. Ela precisa é de um marido, disse Tom em voz alta. Mas não vai ficar com o meu, disse Agnes rispidamente.

O dia em que perderam o porco foi também o último dia de temperatura amena. Passaram aquela noite num celeiro, e quando saíram pela manhã, o céu estava da cor de um tecto de chumbo, e o vento frio trazia lufadas de chuva. Desembrulharam o manto de tecido espesso, feltrado, e o vestiram, apertando-o com força sob o queixo e puxando o capuz bem para frente a fim de proteger o rosto da chuva. Puseram-se a caminho melancolicamente, quatro fantasmas taciturnos metidos no temporal, os tamancos de madeira espadanando água e lama ao longo da estrada cheia de poças. Tom gostaria de saber como seria a Catedral de Salisbury. Em princípio, uma catedral era uma igreja como outra qualquer, simplesmente a igreja onde o bispo tem o seu trono. Na prática, porém, as catedrais eram as igrejas maiores, mais ricas, mais grandiosas e elaboradas. Raramente um simples túnel com janelas. A maioria se compunha de três túneis, um alto flanqueado por dois menores, como cabeça e ombros, formando uma nave central com duas laterais. As paredes do lado do túnel central eram reduzidas a duas linhas de colunas ligadas por arcos, constituindo uma arcada. As duas naves menores eram usadas para procissões, que podiam ser espectaculares nas catedrais, e proporcionavam espaço para pequenas capelas dedicadas a santos da devoção particular dos crentes, o que atraía importantes doações extras. As catedrais eram os edifícios mais caros do mundo, muito mais do que palácios ou castelos, e tinham que ganhar o dinheiro que custavam». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «A voz de Lorena tornou-se um guincho. Eu preciso sair daqui! Sinto muito. O pai falou mais delicadamente. Você não pode ir. Direi que estou grávida. Seria bom que estivesse…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

«(…) Estava acontecendo algo ali naquele aposento que eu não entendia, mas era jovem, insensata e obstinada demais para ser prudente e esperar e escutar. Explodi. Não há outros!, bradei. As pessoas desta cidade são almas boas. Você tem de soltar Bartolomé imediatamente! Ambos os homens se viraram para me encarar. A cor abandonou o rosto de meu pai. Zarita! Você não deveria estar aqui. Ao contrário, afirmou o padre Besian. É aqui exactamente onde sua filha deveria estar. Ela tem idade suficiente para distinguir o bem do mal e precisa saber o que não será tolerado pela igreja e pelo Estado. Virou-se para meu pai. Vou dar-lhe uma ordem agora. Ninguém pode sair desta cidade sem antes recorrer a mim para pedir permissão. Essa regra inclui cada membro da sua criadagem e família. Quem tentar sair será preso e mantido sob a custódia dos agentes da Inquisição (maldita).

Na manhã seguinte fui acordada por um grito. Num instante, fiquei totalmente desperta, pensando que era um sonho ruim no qual eu atravessava um mar tempestuoso em direcção à minha mãe, só para ver o bote em que ela estava a afundar-se. Outro grito.

Dessa vez, percebi que ele não fazia parte do meu pesadelo. O grito veio da direcção do nosso celeiro, no lado mais distante do padoque. Sentei-me. Meus olhos se arregalaram quando ouvi outro grito agudo, depois outro, e mais outro, e, depois disso, um longo gemido. Soou como um animal nos espasmos da morte. Saltei da cama, coloquei um longo agasalho e saí do quarto para o patamar superior. Abaixo de mim, no saguão, Lorena discutia com o pai. Quero ir para a casa de meu pai! O padre Besian deu ordens em nome da Inquisição (maldita), disse-lhe o pai. Ninguém deve sair da cidade sem sua autorização expressa. Não fazemos de facto parte da cidade. Lorena abanou os braços no ar. Esta casa fica quase fora da cidade. O terreno é parte da zona rural. Não podemos ser incluídos na ordem que controla o município. O padre Besian declarou que mantém os ocupantes desta casa sob a jurisdição da Inquisição (maldita). Como magistrado, certamente você tem mais poder, mais direitos do que pessoas comuns. Comecei a descer a escada.

A voz de Lorena tornou-se um guincho. Eu preciso sair daqui! Sinto muito. O pai falou mais delicadamente. Você não pode ir. Direi que estou grávida. Seria bom que estivesse, retrucou o pai, com um traço de amargura na voz. Você pode dizer que eu desmaiei e que tememos pela vida da criança, por isso fui para a casa de meu pai, nas colinas, onde é mais fresco. Não, disse papa. Não farei isso. Lorena atingiu-o na face com os punhos. Ele deu um passo para trás, diante da agressão, e tentou segurar suas mãos. Ela se livrou dele e correu para subir a escada, berrando pela sua criada. Quase me derrubou na sua pressa. O pai olhou para ela e me viu parada ali. Zarita! Talvez seja melhor ir para o convento e ficar lá com sua tia Beatriz. Talvez seja..., mais seguro. Não tenho a certeza, respondi. O padre Besian não aprova a ordem de irmãs de minha tia. Olhei na direcção da porta externa. Ouvi um grito, como se um dos cavalos estivesse sofrendo. Há algo errado? O pai baixou a cabeça para evitar meu olhar. Preciso voltar ao celeiro e ver o que está acontecendo. Fique aqui até eu voltar. E deixou-me ali e se apressou em sair de casa. Fui à sala de jantar. O café da manhã ainda não fora servido, portanto segui até à cozinha. Era cedo, mas não tão cedo para que os empregados não estivessem em actividade, preparando a comida. Não havia ninguém lá. A porta da cozinha estava entreaberta. Fui até lá e olhei para fora. Serafina e Ardelia estavam paradas na horta, olhando em direcção ao celeiro. Apoiavam-se uma na outra de um modo receoso. O que está havendo?, gritei para elas. Um dos cavalos está doente? Como não responderam, continuei: Onde está Garci? Está com meu pai? Viraram os rostos para mim. Os olhos de Serafina estavam vermelhos e suas bochechas, lívidas. Ardelia também estava chorando. Outro grito soou. Bartolomé!, Serafina caiu de joelhos, estendendo as mãos para o céu e gritando: Maria Santificada, interceda por ele! A verdade me atingiu com tal violência que me curvei com força. Engoli em seco e coloquei as mãos sobre a barriga. Os sons que pensei virem de um animal sofrendo foram proferidos por Bartolomé. Endireitei-me, apertei o agasalho em volta do corpo e corri para fora da casa». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

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Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Vivenciei um surto de lealdade por nosso louco capitão e pensei que, no futuro, eu realmente tentaria cuidar dele. Esse dia chegou mais cedo do que eu esperava. O dia em que deixei minha juventude para trás…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

 Saulo

«(…) Ambos pareciam educados e bem articulados, nenhum dos dois era inferior ao outro. Talvez fosse uma diferença de religiões. Eles nunca comentavam isso, mas vivíamos mudando constantemente de casa. Meu pai tinha um bom conhecimento de cavalos e, na minha tenra juventude, ele conseguiu encontrar emprego e começou a me ensinar o seu ofício de treiná-los. Mas, desde que me lembro, minha mãe vivia doente. E, enquanto eu crescia, ela ficava mais e mais doente, até a maior parte do nosso dinheiro ser gasto com seus remédios. Não muito tempo após chegarmos a Las Conchas, ela foi acometida por uma nova enfermidade que a deixou acamada. Minha mãe não tinha mais condições de viajar para longe, e nem meu pai nem eu conseguíamos encontrar emprego. Nossas economias logo desapareceram e, sem uma família a quem recorrer, nos tornamos mendigos. Era uma história triste e preferi não contá-la inteira, pois, quando pensava na minha mãe e no meu pai, a dor de perdê-los alimentava o cancro de veneno que era o juramento de vingança que trazia comigo. Aos meus companheiros, contei apenas que um infortúnio havia me roubado meus pais. Cheios de vinho e sonolentos, os homens faziam pilhérias e gargalhavam, e eu, sentado com eles, me sentia parte do seu grupo. Na ausência de meus pais, sentia-me feliz por estar naquele barco. Vivenciei um surto de lealdade por nosso louco capitão e pensei que, no futuro, eu realmente tentaria cuidar dele. Esse dia chegou mais cedo do que eu esperava. O dia em que deixei minha juventude para trás e matei um homem.

Zarita

Você ordenou a prisão do meu criado Bartolomé. Pude ouvir claramente a voz de meu pai, embora a porta do seu gabinete estivesse fechada. A resposta do padre Besian foi mais baixa, porém audível. Ele foi desrespeitoso a ponto da blasfémia. Bartolomé não faz ideia do que os seus actos poderiam ser interpretados desse modo. Dei um leve empurrão na Serafina em direcção à cozinha. Vá cuidar dos seus afazeres. Vou juntar minha voz aos argumentos do pai. Tenho direito de prender quem eu achar que pode ser um herege ou que possa estar conspirando contra a Santa Madre Igreja. O padre Besian e meu pai estavam de pé, encarando-se, quando entrei no aposento. Encontravam-se tão envolvidos na discussão que não notaram a minha presença. O rapaz que prendeu é um simplório que nem faz ideia do que seja um herege. Ontem, meus homens lhe perguntaram se alguma vez nutrira maus pensamentos contra sacerdotes da igreja e ele respondeu que sim. Bartolomé concordaria com qualquer coisa que alguém dissesse, vociferou em resposta meu pai, um homem nunca dado à paciência. É da sua natureza fazer isso. Ele não tem pensamentos próprios e procura agradar a todos que encontra. Além do mais, prosseguiu o padre, quando indagado se alguma vez planeou atacar o padre durante a missa, ele disse que, às vezes, nutria essa ideia ao frequentar a cerimónia religiosa. Meu pai gargalhou rudemente.

Os sermões de certos padres talvez mereçam tal reacção. Advirto-o a ter cautela com o que diz. Havia rispidez na voz do padre. Eu já lhe disse, o rapaz é um simplório! Ele mal sabe se vestir sem ajuda. Ele não é mais capaz de conspirar contra a igreja do que consegue contar de um a cem. Certamente deve ter percebido isso. O mal tenta encontrar um lugar até mesmo nas pessoas mais simples. Ele é apenas um garoto!, explodiu o pai, exasperado. Com quase 20 anos de idade, o que o torna um homem, mas eu me lembrarei do que alegou, quando for feito o interrogatório. Interrogatório? Meu pai pareceu aterrorizado. Certamente não pretende interrogar o rapaz num julgamento. Se eu ficar insatisfeito com as suas respostas iniciais, sim. Mas, se sabe quais serão suas respostas iniciais, porquê continuar... O pai parou, como se começasse a entender a importância do que acabara de ouvir. Olhou o padre mais atentamente. Que jogo pretende fazer aqui, para usar o rapaz como peão? O padre Besian hesitou. Então disse: Pode ser que a nossa investigação dessa primeira pessoa acusada de transgressão induza os habitantes a nos levar a outros». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Steve Berry. O Legado dos Templários. «A rua pedonal mesmo em frente estava agora deserta, pois a maior parte dos cafés e restaurantes ficava a quarteirões de distância. O comércio daquela parte da Ströget fechava à noite»

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Abbaye des Fontaines. Pirinéus Franceses. Roskilde

«(…) Se isso aconteceu, ele não sangrou. Isso significava que estavam a usar coletes à prova de bala. O grupo viera preparado, mas para o quê? Quanto tempo mais planeia ficar na Dinamarca?, interrogou o inspector. Amanhã já cá não estarei, respondeu Stephanie. A porta abriu-se e um homem fardado entregou uma folha de papel ao inspector. Este leu o seu conteúdo e depois disse: Parece que a senhora tem amigos muito poderosos. Os meus superiores dizem-me que devo soltá-la e não fazer perguntas. Stephanie dirigiu-se para a porta. Malone levantou-se. Estou incluído nessa ordem? Sim, também pode ir. Esticou a mão para levar a arma, mas o inspector não permitiu. No papel não há nada que diga que tenho de lhe devolver a Beretta. Decidiu não discutir. Trataria desse assunto mais tarde. O mais importante agora era falar com Stephanie. Saiu a correr e encontrou-a lá fora. Ela fitou-o com uma expressão séria.

Cotton, agradeço muito o que fez na catedral, mas escute bem o que lhe vou dizer. Não se meta nos meus assuntos. Não sabe o que está a fazer. Na catedral meteu-se numa situação perigosa sem estar sequer preparada para ela. Aqueles três homens queriam matá-la. Tiveram muitas oportunidades para o fazer, antes de você aparecer, e não o fizeram. Porquê? Isso levanta ainda mais questões. Não tem que fazer na sua livraria? Até tenho muito. Então dedique-se a essa tarefa. Quando se reformou o ano passado, deixou bem claro que estava farto de ser alvo de balas. Também me disse que o seu patrono dinamarquês lhe oferecia a possibilidade de ter a vida com que sempre sonhara. Pois então, aproveite-a. Foi a Stephanie quem me ligou a convidar para um café. E já vi que foi uma péssima ideia. Aquele homem não era nenhum ladrão de carteiras. Não se meta nisto. Salvei-lhe a vida, está em dívida para comigo. Ninguém lhe disse para o fazer. Stephanie...

Raios, Cotton, não volto a repetir. Se insistir terei de tomar atitudes drásticas. Começava a ficar irritado. Ai sim? E o que planeia fazer? O seu amigo dinamarquês não é o único com influência. Eu também posso mexer uns quantos cordelinhos. Faça isso!, ripostou, furioso. Stephanie não respondeu. Em vez disso, virou costas e afastou-se. A sua vontade era ir atrás dela e terminar o que tinham começado, mas decidiu que ela tinha razão. Não era assunto dele e já fizera estragos suficientes para uma noite. Estava na hora de ir para casa.

Copenhaga

De Roquefort aproximou-se da livraria. A rua pedonal mesmo em frente estava agora deserta, pois a maior parte dos cafés e restaurantes ficava a quarteirões de distância. O comércio daquela parte da Ströget fechava à noite. Assim que tratasse das duas últimas tarefas, deixaria a Dinamarca. Por certo as testemunhas da catedral já os tinham descrito à Polícia, por isso era importante que não se demorassem mais do que o necessário. Trouxera consigo de Roskilde quatro dos seus subordinados e planeava supervisionar cada detalhe das suas acções. Já houvera demasiada improvisação para um dia só e parte dela custara a vida de um dos seus homens na Torre Redonda. Não pretendia perder mais nenhum. Dois deles estavam já a inspeccionar as traseiras da livraria e os outros dois permaneciam a seu lado. Havia luz no primeiro andar do edifício. Ainda bem. Ele e o dono precisavam de ter uma conversa. Malone tirou uma Pepsi do frigorífico e desceu quatro lanços de escadas até ao rés-do-chão. A sua loja ocupava todo o edifício. O rés-do-chão era para os livros e os clientes, os outros dois serviam de armazém e o último era um pequeno apartamento ao qual chamava casa. Acostumara-se ao espaço exíguo e apreciava-o bem mais do que a casa enorme na qual vivera em Atlanta. A sua venda, no ano anterior, por cerca de trezentos mil dólares, dera-lhe um rendimento de sessenta mil dólares para investir na sua nova vida, que lhe fora oferecida, como Stephanie referira, pelo seu benfeitor dinamarquês, um homenzito estranho chamado Henrik Thorvaldsen». In Steve Berry, O Legado dos Templários, 2006, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-808-9.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

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O Legado dos Templários. Steve Berry. «Vim visitar o Sr. Malone. Há mais de um ano que não o via. Foi esse o único motivo que a trouxe cá? É melhor esperarmos pelo parecer do Ministério do Interior»

 

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Abbaye des Fontaines. Pirinéus Franceses. Roskilde

«(…) Fitou um dos homens que permanecera no leilão e perguntou-lhe: Conseguiste saber quem arrematou o livro? O homem assentiu. Tive de dar mil coroas ao empregado pela informação. De Roquefort não estava interessado no preço da fraqueza. O nome? Henrik Thorvaldsen. O telemóvel no seu bolso vibrou. O seu segundo comandante sabia que ele estava ocupado, por isso devia ser importante. Atendeu a chamada. Já não falta muito, disse a voz ao telefone. Quanto tempo? Nas próximas horas. Um bónus inesperado. Tenho uma tarefa para ti, afirmou De Roquefort para a pessoa ao telefone. Há um homem, Henrik Thorvaldsen, um dinamarquês endinheirado que vive a norte de Copenhaga. Sei algumas coisas sobre ele, mas preciso da informação completa daqui a uma hora. Telefona-me quando tiveres tudo. Desligou o telefone e encarou os seus subordinados. Temos de regressar, mas ainda há duas tarefas que precisamos de completar antes de amanhecer.

Malone e Stephanie Nelle foram transportados para uma esquadra da Polícia nos arredores de Roskilde. Nenhum deles abriu a boca no caminho, pois sabiam ambos o suficiente para estarem calados. Estava convencido que a visita da sua antiga chefe à Dinamarca nada tinha a ver com o grupo que liderava. Ela nunca trabalhara no terreno, era o vértice do triângulo e toda a gente em Atlanta lhe prestava contas. Para além disso, quando na semana passada ela lhe telefonara e dissera que gostava de o ver, deixara bem claro que se deslocava à Europa de férias. Grandes férias, pensou ele quando os deixaram sozinhos numa sala bem iluminada, mas sem janelas. Ah, acabei por não lhe dizer mas estava-se muito bem na esplanada do Café Nikolaj, comentou Malone. Tive de beber o seu café. Claro que isso foi antes de ter perseguido um homem até ao topo da Torre Redonda e tê-lo visto saltar lá de cima. Ela não disse nada. Também reparei que apanhou a mala do chão. Por acaso não viu o cadáver mesmo ao lado, não? Pois, não deve ter reparado, afinal estava com pressa. Já chega, Cotton, ripostou ela num tom que lhe era familiar. Já não trabalho para si. Então porque veio atrás de mim? Interrogava-me sobre isso mesmo na catedral, mas as balas desconcentraram-me. Antes que conseguisse responder-lhe, a porta abriu-se e entrou um homem alto de cabelo ruivo e olhos castanhos. Era o inspector da Polícia de Roskilde que os acompanhara desde a catedral e segurava a Beretta de Malone.

Fiz a chamada que me pediu, disse o inspector para Stephanie. A Embaixada dos Estados Unidos confirma a sua identidade e ligação ao Departamento de Justiça. Estou à espera de instruções do nosso Ministério do Interior sobre o que fazer consigo. Voltou-se para Malone. O senhor é outro assunto. Está na Dinamarca com um visto temporário de residência como comerciante. Mostrou-lhe a arma. As nossas leis não permitem o porte de armas e muito menos dispará-las no interior das catedrais, e estamos a falar de uma que é Património da Humanidade. Só gosto de quebrar as leis mais importantes, argumentou ele, mostrando ao inspector que não se sentia amedrontado pelas suas palavras. Também aprecio o humor, Sr. Malone. Todavia, isto é um assunto da maior seriedade. Não para mim, mas para si. As testemunhas referiram que havia outros três homens armados e que foram eles que começaram o tiroteio?

Temos descrições. Mas é pouco provável que ainda estejam por perto. O senhor, no entanto, está aqui. Inspector, interrompeu Stephanie, toda aquela situação foi culpa minha e não do Sr. Malone. Lançou-lhe um olhar. Ele trabalhou em tempos para mim e pensei que pudesse necessitar da sua ajuda. Está a dizer-me que o tiroteio nunca teria acontecido se não fosse a interferência do Sr. Malone? Não. Estou apenas a dizer que as coisas se descontrolaram, mas não foi responsabilidade dele. O inspector considerou o que acabara de ouvir com alguma apreensão. Malone interrogou-se sobre o que estaria Stephanie a fazer. Mentir não era o seu forte, mas decidiu não a contradizer frente ao inspector. Estava na catedral em missão oficial?, perguntou-lhe o polícia. Isso não posso revelar. Creio que compreende. O seu trabalho envolve actividades sobre as quais não pode falar? Pensei que fosse advogada. E sou. No entanto, a minha unidade está frequentemente envolvida em investigações ligadas à segurança nacional. Na verdade, é por essa razão que existimos. O inspector não pareceu impressionado. O que veio fazer à Dinamarca, Sra. Nelle? Vim visitar o Sr. Malone. Há mais de um ano que não o via. Foi esse o único motivo que a trouxe cá? É melhor esperarmos pelo parecer do Ministério do Interior. Foi um milagre ninguém se ter magoado naquela confusão. Houve estragos em alguns monumentos sagrados, mas nenhum ferido. Eu acertei num dos atacantes, revelou Malone». In Steve Berry, O Legado dos Templários, 2006, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-808-9.

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