sábado, 15 de junho de 2019

Os Herdeiros do infante e o Governo dos Açores (1460-1485). João Silva Sousa. «O próprio Pedro, duque de Coimbra e regente do reino, quando se encarregou, a sós, da tutoria do jovem rei, ainda em 1438»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Após uma série de estudos que temos vindo a concretizar sobre o infante Henrique e a sua Casa, prosseguimos a nossa investigação acerca da figura e do património de seu sobrinho e afilhado, o infante Fernando, que considerámos sempre como seu continuador, nem tanto na política que o primeiro se propôs desenvolver, mas como o titular de uma Casa de bens e cargos que não morreram com o primeiro. A tendência era, e, por vezes, sucedeu, fazer valer a força da Lei e, consequentemente, recolher à Coroa o que havia sido distribuído e institucionalizado, com objectivos muito concretos.
O 2º duque de Viseu, potencial herdeiro quase universal, se fosse esta figura jurídica possível, do Navegador, só muito recentemente tem vindo a ser alvo de estudos com maior profundidade. Sebastiana Pereira Lopes, na sua tese de Mestrado, foi quem, até hoje, mais dados reuniu sobre esta figura tão relevante do neo-senhorialismo quatrocentista em Portugal, numa sistematização que se impunha há muito dos seus bens móveis e imóveis, homens de sua Casa, actividades políticas, entre o Continente e o Norte de África…, caracterizando aquele que António Caetano Sousa apelidaria, anos atrás, como o mayor senhor, que nunca houve em Hespanha, que não fosse Rey. O seu estudo baseou-se numa bibliografia muito actual e diversificada, quer nacional quer estrangeira.
O infante Fernando era filho do monarca Duarte I, o mais novo dos seus varões, jurado herdeiro do trono quando Afonso V sucedeu a seu pai, menor de idade, em 1438. Afonso tinha, então, seis anos e Fernando, cinco. Esta situação pouco comum, a de ser jurado rei um irmão do recém-aclamado rei de Portugal, no quadro das heranças régias, mas, de facto, lógica, legítima e leal, porque Afonso não tinha nem podia ter ainda descendentes, terá feito ele, pela consequente educação que lhe foi dada, entregue a eclesiásticos dele nomeada e de grande influência que haviam privado com o infante Henrique, um homem seguro de si, da sua estirpe, importância e disponibilidade para assumir qualquer situação. O próprio Pedro, duque de Coimbra e regente do reino, quando se encarregou, a sós, da tutoria do jovem rei, ainda em 1438, ter-se-á apercebido do carácter desta criança e colocara-o sempre no lugar que cabia ao jovem infante por ser, ao tempo, o único sucessor legítimo do novo soberano. Começou a governar a Casa por si próprio e a ocupar-se de actos políticos, após 1448, tinha, então, catorze anos.
De facto, não veio a ser rei. Mas o acaso permitiu que o viesse a ser um filho seu, por sinal o mais novo dos seus varões: Manuel, o sobrevivente às intrigas do rei João II. Nada faria prever que a política centralizadora de seu bisavô viesse a concretizar-se depois, sessenta e um anos após a publicação da Lei Mental: a Casa de Viseu e tudo o que ela detinha em imóveis, monopólios, direitos nas Ilhas e em África, tudo regressava à Coroa, conjuntamente com a administração da ordem de Cristo, porque o herdeiro de Fernando, de seus irmãos, João e Diogo, habilmente resguardado por sua mãe, a infanta dona Beatriz, da ira do Príncipe Perfeito, viria a ser também o herdeiro da coroa Portuguesa, em 1495.
Entre o vastíssimo rol de feudos e préstamos, de ordem variada, que vieram a integrar o seu património e a suscitar, de quando em vez, a revisão do processo por parte da Administração, ao longo apenas de 37 anos de vida, somos levados a notar pouco mais do que um pálido interesse que ele sempre mostrou sobre os negócios ultramarinos, a par da concretização dos objectivos de Afonso V que, secundando este, o levaria, por mais de uma vez, ao Norte de África, à tomada de fortalezas que mandara sitiar e a territórios além-mar que explorava e administrava. Para o propósito, veio sempre a obter um variado número e tipologias diversas de privilégios. Na Guerra e nas guerras no Norte Africano, crêmo-lo presente no socorro a Ceuta, em 1456; na conquista de Alcácer Ceguer, entre os 26 000 homens aí enviados, em 1458; na cavalgada às cercanias da serra de Benafocu, em 1464 e a Anafé, com mais de 10 000 homens, empresa que, superiormente, comandou, em 1468». In João Silva Sousa, Os Herdeiros do infante e o Governo dos Açores (1460-1485), Arquipélago, História, 2ª Série, IV, Nº 2, 2000, FCSHUNova de Lisboa, Wikipedia.

Cortesia de FCSHUNova de Lisboa/JDACT

sexta-feira, 14 de junho de 2019

A Casa Senhorial do Infante D. Luís (1506-1555). Hélder Carvalhal. «… com excepção de Afonso, pela natureza das funções eclesiásticas que exercia deste tenra idade (um príncipe na diocese de Évora: o governo episcopal do cardeal-infante Afonso (1523-1540)»

Cortesia de wikipedia e jdact

O ducado de Beja: uma reordenação do poder?
«(…) A situação específica do infante Luís pode decorrer de um par de hipóteses complementares. A concessão de estado e casa, assumindo que é uma condição própria à separação dos descendentes da corte régia, com vista a satisfazer as necessidades inerentes ao matrimónio, poderia indiciar que o infante só seria investido quando uma proposta matrimonial gerasse consenso, algo que nunca viria a acontecer. Por outro lado, a doação do ducado de Beja em 1527 é reveladora de uma certa hierarquização da política matrimonial joanina, já que tanto o rei como as irmãs mais velhas do infante Luís (Beatriz e Isabel) estavam, ao tempo, consorciados. As notícias de que só em 1530 o infante tomou a sua casa estariam relacionadas com a necessidade de aprofundar processos de transmissão do poder no seguimento da apropriação das jurisdições que outrora pertenciam à Coroa, nunca seria um processo imediato, atendendo ainda às inquirições promovidas pelo poder régio entre 1527-1532.
Todavia, o facto de o infante Fernando (1507-1534) ter-se casado com dona Guiomar Noronha, herdeira única do Condado de Marialva e Loulé, igualmente em 1530 podia ser apontado como uma hipótese plausível, atendendo ao facto de o infante Luís ser mais velho e, como tal, prioritário na linha de sucessão ao trono, na eventualidade de o monarca não possuir descendência. Não obstante, é sabido que este matrimónio foi negociado ainda ao tempo de Manuel I e apenas se adiou devido ao pleito travado com João Lencastre, marquês de Torres Novas, por alegadamente ter casado a furto com dona Guiomar. De resto, os seus irmãos mais novos (Henrique, Duarte e Maria) viriam todos a receber as respectivas casas durante a década de trinta, com excepção de Afonso, pela natureza das funções eclesiásticas que exercia deste tenra idade (um príncipe na diocese de Évora: o governo episcopal do cardeal-infante Afonso (1523-1540); João III dá casa ao infante Henrique em 1535, segundo uma carta enviada ao conde da Castanheira, a 6 de Abril do mesmo ano; o infante Duarte teria recebido casa por altura do seu casamento com dona Isabel de Bragança (1537), concedendo-lhe o monarca a jurisdição sobre algumas cidades e vilas como o caso de Castelo de Vide ou Vila do Conde, tendo estas servido como complemento ao ducado de Guimarães doado pelo duque Teodósio, conforme o acordado no contrato matrimonial; pela mesma altura terá João III concedido casa à sua irmã mais nova, dona Maria). Apesar de se dispor dos instrumentos de doação das jurisdições que foram investidas em Luís enquanto cabeça do ducado de Beja e governador do Priorado do Crato, saliente-se que avaliar do ponto de vista económico este senhorio afigura-se como uma tarefa extremamente difícil visto que a inexistência de fontes primárias como livros de receita e despesa ou livros da chancelaria do ducado impossibilitam o conhecimento total dos rendimentos que estariam à sua disposição. A legislação municipal do período, consubstanciada nos forais reformados ao tempo de Manuel I, dá conta dos direitos e/ou rendimentos que são devidos ao senhor da vila ou concelho em questão. No entanto, a variabilidade dos mesmos, que, em boa parte das vezes, eram conseguidos com base na aplicação de coimas e tributos, sendo portanto altamente díspares em função de variáveis aleatórias como o consumo ou o número de crimes cometidos durante um determinado período, dificulta uma estimativa séria de quanto o infante Luís poderia obter de renda anual, com base nos direitos régios sobre estes territórios, transferidos ao momento da doação». In Hélder Carvalhal, A Casa Senhorial do Infante D. Luís (1506-1555), Dinâmicas de construção e consolidação de um senhorio quinhentista, Revista 7 Mares, Nº 4, Dossié, Junho de 2014, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

A Casa Senhorial do Infante D. Luís (1506-1555). Hélder Carvalhal. «Aproximando esta dinâmica a um caso concreto, pode afirmar-se que o ducado de Viseu/Beja ilustra a referida política régia na plenitude…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Dinâmicas de construção e consolidação de um senhorio quinhentista
«(…) Partindo destas premissas, procura-se compreender toda esta complexa plataforma de poder de que o infante Luís poderia dispor, redistribuindo uma série de privilégios de índole variada pelas hierarquias que compunham a estrutura curial do seu senhorio. Tais hierarquias encontravam-se, por sua vez, espelhadas numa densa e complexa teia de interesses pessoais e familiares que ultrapassavam, na maior parte das vezes, o âmbito do próprio ducado, manifestando-se nos assuntos tratados com distintos centros de poder, situados dentro e fora do campo político da monarquia portuguesa.

O ducado de Beja: uma reordenação do poder?
Aproximando esta dinâmica a um caso concreto, pode afirmar-se que o ducado de Viseu/Beja ilustra a referida política régia na plenitude, já que foi sucessivamente governado por membros da família real (infante Henrique, infante Fernando, infanta Beatriz), culminando na anexação deste título pela própria Coroa no momento da subida do então duque Manuel ao trono. Enquanto monarca, o próprio Manuel I, teria previsto a investidura do seu filho segundo, o infante Luís, no governo do ducado de Beja (ainda que o seu testamento não mencione especificamente o estado a conceder a este príncipe), algo que apenas João III concretizou, após o falecimento do seu pai.
Contrariando a típica tradição medieval de constituição de casa (e respectiva autonomização) aos filhos varões por volta da maioridade, assim acontecendo, por exemplo com o príncipe João, o infante Luís tomaria a sua casa numa idade relativamente tardia. Receberia o título de duque de Beja a 27 de Agosto de 1527 (contava então vinte e um anos de idade), tendo o monarca doado o senhorio um conjunto significativo de cidades e vilas entre as quais, Covilhã, Serpa e Moura. Com as posteriores doações no seguinte ano de 1528, baseadas em espaços situados no Entre Douro e Minho e em Trás-os-Montes, bem como da jurisdição sobre o Priorado

do Crato, donde proviriam réditos apreciáveis, esta casa teria então adquirido mais condições financeiras para sustentar todas as estruturas administrativas necessárias a um grau mínimo de autonomização. Esta tendência viria a ser incrementada com as consecutivas benesses régias das décadas de trinta e quarenta, bem como com os legados testamentários de dona Beatriz Meneses, condessa de Marialva e Loulé, que aumentaram consideravelmente as jurisdições do infante Luís, nomeadamente através dos direitos de apresentação eclesiástica (padroados) que se encontravam na posse da casa de Marialva. Contudo, a devida apropriação e consolidação destas jurisdições não era imediata e os indícios do momento preciso em que o infante se aparta fisicamente da Coroa relatam que tal teria ocorrido no ano de 1530, quando este contaria vinte e quatro anos. As razões que originam este atraso, provavelmente propositado, não são completamente claras. É legítimo assumir que a política cortesã de João III tenha privilegiado certos sectores da nobreza, em detrimento de outros mais favorecidos ao tempo de seu pai, Manuel I, e tal dinâmica é também visível na atribuição de títulos aos indivíduos mais próximos ao monarca». In Hélder Carvalhal, A Casa Senhorial do Infante D. Luís (1506-1555), Dinâmicas de construção e consolidação de um senhorio quinhentista, Revista 7 Mares, Nº 4, Dossié, Junho de 2014, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A Casa Senhorial do Infante D. Luís (1506-1555). Hélder Carvalhal. «… desenvolvimento e consolidação da casa senhorial do infante Luís (1506-1555), filho do rei Manuel I de Portugal e da rainha dona Maria de Castela e Aragão»

Cortesia de wikipedia e jdact

Dinâmicas de construção e consolidação de um senhorio quinhentista
«O presente artigo efectua uma primeira abordagem às dinâmicas que regularam a formação, desenvolvimento e consolidação da casa senhorial do infante Luís (1506-1555), filho do rei Manuel I de Portugal e da rainha dona Maria de Castela e Aragão, atendendo às conjunturas que esta instituição atravessa durante o segundo quartel do século XVI. É necessário, portanto, analisar as jurisdições legadas ao infante Luís durante este período, bem como a composição curial das hierarquias presentes no seu senhorio, de maneira a compreender a plataforma de poder que tem ao seu dispor e a quantidade de recursos que consegue redistribuir pelas suas clientelas.

O presente artigo tem como objectivo principal compreender as lógicas por detrás da formação, estrutura e consolidação da casa senhorial do infante Luís (1506-1555), atendendo às variadas conjunturas que esta instituição atravessa, grosso modo, durante o segundo quartel do século XVI. Impõe-se, portanto, um duplo enfoque que permita avaliar as dimensões inerentes às jurisdições do senhorio deste infante, bem como composição e o recrutamento clientelar presentes na estrutura curial que compõe a sua casa. Deste modo, uma análise das mercês e benesses concedidas pela Coroa ao longo deste período afirma-se como imperativa, avaliando assim as bases da sustentação económica desta estrutura. Por outro lado, as dinâmicas relativas ao grupo clientelar organizado em torno do senhorio merecem especial atenção, já que tais indivíduos configuram relações de poder entre esta esfera de poder e as restantes instituições, quer no campo político da monarquia portuguesa e respectivos órgãos, quer no relacionamento com actores e centros de poder oriundos de unidades políticas distintas.
As transformações levadas a cabo durante o período tardo medieval/renascentista nas distintas unidades políticas proto estatais europeias, em que factores como indistinção entre o público e o privado e a falta de centralidade da monarquia justificam tradicionalmente a posse, por parte de privados, de uma mole imensa de recursos políticos, económicos e militares, conduziriam ao surgimento de redes de dependência e redistribuição desses bens, em que as cabeças seriam os titulares de casas senhoriais. Por outro lado, ao assumir esta premissa, admite-se a existência de um modelo pluricurial e a eventual cooperação entre Coroa e casas nobiliárquicas, com a participação destes na política central da monarquia, o que por si acompanha as tendências da historiografia mais recente e as críticas ao modelo apresentado por Norbert Elias, em especial a reciprocidade nas relações na cúria régia concebendo a corte enquanto centro de domesticação da nobreza.
A política régia de doações patente na dinastia de Avis é reconhecida pelo facto de agraciar os membros da família real e seus descendentes, entre outras figuras da alta nobreza do Reino, com estados e casas de dimensão considerável, não raras vezes doando domínios fundiários e privilégios em zonas relativamente marginais do Reino e, portanto, longe do centro político, onde estes senhores exerciam um conjunto de prerrogativas (jurisdição cível e criminal, cobrança de impostos, concessão de nobreza no caso dos infantes, entre outras) que, no limite, os aproximavam da dignidade régia, não obstante se encontrarem permanentemente na dependência do monarca. A constituição dos estados destes infantes manuelinos é assunto ainda não devidamente aflorado pela historiografia portuguesa. O mesmo se pode afirmar sobre a evidente lacuna nos trabalhos aprofundados sobre as casas senhoriais destes príncipes enquanto centros de poder, apesar da existência de apontamentos úteis, retirados de trabalhos de pendor biográfico e em torno das dimensões curiais que lhe são inerentes. De modo similar, os esforços levados a cabo durante as últimas décadas, por um conjunto de autores que se dedicaram ao estudo dos senhorios aristocráticos medievais e modernos, tem fornecido bons contributos neste desígnio, em boa parte influenciados por tradições historiográficas orientadas pelo estudo das instituições e da história social dos poderes». In Hélder Carvalhal, A Casa Senhorial do Infante D. Luís (1506-1555), Dinâmicas de construção e consolidação de um senhorio quinhentista, Revista 7 Mares, Nº 4, Dossié, Junho de 2014, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. « Na lápide funerária de Afonso Peres Farinha proclama-se: viveu durante vinte anos nas margens do Guadiana, nas vilas conquistadas de Moura e Serpa…»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Teremos de esperar pela época dos Descobrimentos e Conquistas para que o Oriente penetre de novo e intensamente na nossa cultura. Mas, nesse mesmo tempo, os expoentes de referência do conhecimento científico, continuarão a ser o médico al-Razí, o médico hispânico Avenzoar, o uzbeque Avicena e o cordovês Averróis, como poderemos verificar, por exemplo, no Colóquio dos Simples e das Drogas de Garcia da Orta. A Reconquista não suprimiu as marcas da civilização islâmica que perduraram na língua e em muitas técnicas agrícolas e artesanais até ao século XX. Os cristãos medievais herdaram a estrutura das cidades islâmicas, usaram os seus alarifes e alvanéis, os meus mouros de Afonso Henriques, na construção de catedrais e fortalezas. Um deles deixou escrito no transepto da sé de Coimbra: escrevo isto como recordação permanente do meu sofrimento. A minha mão perecerá um dia mas a grandeza ficará. O hospitalário Afonso Peres Farinha, cavaleiro de uma lança e futuro prior da ordem do Hospital em Portugal, exemplifica a recepção contraditória dessa influência que teve o seu ponto alto, no ponto de vista da cultura literária, no trabalho dos tradutores muçulmanos e cristãos das cortes de Afonso X o Sábio e do seu neto o nosso rei Dinis. Na lápide funerária de Afonso Peres Farinha proclama-se: viveu durante vinte anos nas margens do Guadiana, nas vilas conquistadas de Moura e Serpa, fazendo muita guerra e muito mal aos mouros e tomando-lhes Arouche e Aracena.
Atravessou três vezes o mar e lá viveu longo tempo. Residiu em muitos locais estrangeiros. Viu muitas e grandes coisas e muitos homens bons daquele tempo, tanto cristãos como mouros. Os muitos vêm carregados de espanto. No campo das ciências e da cultura, não faltaram, em território português, gramáticos de língua árabe, jurisconsultos, sufis, escreventes de história, de crítica literária e principalmente poetas. Abu al-Hayaye al-Halam de Santarém escreveu um comentário sobre a obra do poeta oriental Mutanabi. Por sua vez, Ibn Abdun Silves analisou o longo poema sobre o fim trágico dos abádidas e aftácidas, escrito pelo poeta eborense Ibn Abdun.
Entre os jurisconsultos, destaque para o bejense Abu al-Walid al-Baji (1012-1081) que peregrinou pelo Oriente e polemizou com Ibn Hazm. A história e a biografia contaram com vultos de importância capital. O primeiro foi Ibn Mozain, da família dos reis que dominaram a cidade de Silves nos princípios do século XI. Só nos chegaram fragmentos conservados por outros historiadores mas a ele devemos notícias preciosas sobre a distribuição das terras quando os muçulmanos se apossaram de Hespanha. Ibn al-Imam al-Shilbi (+c. 1156) escreveu as biografias de muitos dos seus contemporâneos na obra Simt aldjuman, infelizmente perdida. No entanto, restaram trinta e cinco passagens conservadas por Ibn Said no Mugrib, passagens que constituem um quarto deste livro.
Para a história e a história da cultura do Islão Ocidental a Dakira (Tesouro) do santareno Ibn Bassam, de seu nome Abu al-Hassam ibn Bassam al-Santarini (+c.1147) é fundamental. A obra reúne, em quatro volumes, uma antologia dos poetas peninsulares, recheada de preciosas notícias de natureza social e político-militar». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de I.Camões/JDACT

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «O Gharb al-Ândalus não constituiu uma unidade acabada e homogénea no todo da civilização islâmica peninsular…»

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Filósofos Orientais
«(…) Esta, uma das razões da pobreza das nossas comunidades onde as mulheres chegam a duplicar em número os homens sem contribuírem para as actividades necessárias. Ibn al-Arabi, Abu Abd Allah Muhammad b. Ali b. Muhammad b. Al-Arabi al-Hatimi Al-Tai (Murcia 1165-Damasco 1240). Um dos mais destacados representantes dos sufis. Estudou em Sevilha e foram seus mestres alguns sufis do Gharb al-Ândalus como Al-Oriani de Loulé e Abu Imran al-Mertuli, o de Mértola. A fim de aprofundar a sua experiência mística viajou para Túnis e daí para Meca, Bagdad, Konia na Anatólia até se fixar em Damasco onde decorreu o resto dos seus dias.
Atribuem-lhe cerca de 300 obras poéticas e religiosas, na principal das quais, As Iluminações da Meca (al-Futuhat al-Makkiyya), dedica 560 capítulos ao estudo das manifestações do conhecimento místico. Noutra obra, As Conexões da Sabedoria (Fusus al-Hikam), considera que, de Adão a Maomé, os profetas reflectem a revelação divina e que as suas mensagens assumem diferente significado consoante a pessoa que a recebe. Mas, no essencial, considera a razão humana extremamente limitada. No livro Epístola de Santidade, enviada em 1203 de Meca a um seu amigo de Tunes, fala dos vícios do sufismo oriental e principalmente do ensino e da influência que recebeu de cerca de cinquenta mestres e companheiros do Andaluz, entre eles alguns sufis nascidos em território português.

Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
O Gharb al-Ândalus não constituiu uma unidade acabada e homogénea no todo da civilização islâmica peninsular, no entanto nele se radicaram as bases e as guarnições militares da chamada Fronteira Inferior; nele se definiram espaços de rebelião contra o poder central dos emires; nele se desenharam os reinos de Badajoz e de Sevilha e se definiram algumas cidades-estado. Sevilha integrava-se no Gharb al-Ândalus. No século XI foi a capital do reino dos abádidas, que se estendeu de Córdova ao Algarve e ao sul do Alentejo. Durante o domínio almorávida e almóada tornou-se a capital do Andaluz. Se tivermos em conta o papel cultural de Sevilha e a sua inserção geográfica e política, podemos ligar ao Gharb al-Ândalus uma parte substancial dos pensadores islâmicos peninsulares. Mas não vamos partir o território do Andaluz a régua e esquadro. A história que nunca definiu completamente o Gharb, acabou mais tarde por desintegrar o ocidente do ocidente. Assim, neste último ponto, consideraremos somente os literatos e pensadores originários do actual território português. Como dissemos, Silves, Santarém, Beja, Faro, Évora, Lisboa podem orgulhar-se dos seus homens de cultura, das suas escolas e de ousarem brilhar durante algum tempo como estrelas secundárias integradas no todo peninsular. Por outro lado, este Islão hispânico pulsava em sintonia, certamente desigual, com todo o mundo islâmico, em particular com os grandes centros orientais. O sunismo medinense chegou bastante cedo a Córdova. Mas a filosofia, olhada com desconfiança ou perseguida por alfaquis e ulemas, pulsava com atraso. Segundo Miguel Cruz Hernández, a primeira citação fiável de Al-Kindí (século IX) cabe a Ibn Hazm (século X) e a de Al-Farabí (primeira metade do século X) a Ibn al-Sid (segunda metade do século XI e princípios do século XII), precisamente dois filósofos originários do Gharb al-Ândalus». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «O robot de puxar lustro é bom na cama?, perguntou à enfermeira que regressava sem smarties, empunhando o tabuleiro vazio desprovido do encanto trémulo das pastilhas»

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«(…) Tem as nádegas cheias de caroços das injecções, defendeu o médico. Que lhe posso fazer? Além disso a senhora não acha poética a ideia do seu sangue derramado? Um fim à César, que mais quer? E acrescentou num sussurro de confidência: que pensa a chefe das mortes violentas? Talvez dêem o seu nome a uma ala do hospital: no fim de contas o Miguel Bombarda finou-se de um tiro. De longe a Nélia enviou-lhes o mais obsceno gesto do seu mostruário elementar de colégio de freiras: alguns dos jornais caíram-lhe das mãos perto de uma empregada que encerava o soalho tripulando uma maquineta prima de um cortador de relva esquemático, a qual devorou incontinenti as notícias num apetite ronronante de jibóia, tossiu três ou quatro vezes, soluçou, e imobilizou-se de encontro à parede numa agonia espectacular de king-kong cinematográfico. O Napoleão precipitou-se a chinelar para ela como para um filho doente: o psiquiatra calculou que fosse tentar, desesperada, a respiração boca-a-buraco, e voltou as costas enfastiado por esse acto de amor contranatura.
O robot de puxar lustro é bom na cama?, perguntou à enfermeira que regressava sem smarties, empunhando o tabuleiro vazio desprovido do encanto trémulo das pastilhas. Quanto mais se conhecem os homens mais se apreciam os electrodomésticos, respondeu ela. Eu vivo maritalmente com um fogão de dois bicos e somos felizes. Só é pena o pulmão de aço da botija de gazcidla. Num asilo de malucos onde estão os malucos?, insistiu o médico. Porque nos arrastamos aqui, nós os que ainda possuímos licença de saída diária, se todas as semanas há um barco para a Austrália e existem boomerangs que não regressam ao ponto de partida? Eu sou velha demais e você demasiado novo, explicou a enfermeira. E os boomerangs acabam sempre por voltar nem que seja em bicos de pés, à noite, num assobiozinho envergonhado.
Voltar, pensou o psiquiatra repetindo a palavra num vagar de camponês que enrolasse mortalha pensativa na tarde de um campo de trigo, voltar, abrir a porta com a simplicidade literária do Suave Milagre e informar sorrindo, estou aqui? Voltar como um tio da América, um filho do Brasil, um miraculado de Fátima de vitoriosas muletas ao ombro, iluminado ainda pela visão de uma quiromante celeste manejando hábeis truques bíblicos no palco de uma azinheira? Voltar como voltara anos atrás da guerra de África, às seis da manhã, para um mês de felicidade furtiva numa mansarda oblíqua, a certificar-se rua a rua, no táxi, de que nada mudara na sua ausência, país a preto e branco de muros caiados e de viúvas de negro, de estátuas de regicidas a levantarem braços carbonários em praças habitadas, em doses equitativas, de reformados e de pombos, uns e outros esquecidos já da alegria de um voo? A sensação de haver perdido a chave embora a conservasse no porta-luvas do automóvel entre papéis manchados de óleo e tubos de comprimidos para dormir fê-lo experimentar a angústia sem amarras da solidão absoluta: algo que desconhecia e lhe entortava os gestos impedia-o de marcar o número que se seguia ao seu nome na lista telefónica e pedir socorro à mulher que amava e o amava. A crueldade dessa impotência subiu-lhe aos olhos num nevoeiro de ácido difícil de reprimir como a turbulência de um arroto. Os dedos da enfermeira vieram tocar-lhe de leve o cotovelo: se calhar, disse ela, sempre é capaz de haver boomerangs que não regressam. E conseguem manter-se à tona mesmo assim. E pareceu ao psiquiatra que acabava de receber uma espécie de extrema-unção definitiva». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1979, 1983, Publicações dom Quixote, BIS, Grupo Leya, 1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «O psiquiatra pegou no telefone e pediu para ligarem ao hospital onde um amigo trabalhava: é o momento de me agarrar a qualquer coisa, decidiu ele»

jdact e wikipedia

«(…) As cordas de nylon dos tendões da nuca esticavam-se de esforço sob a pele e o médico pensou que era como se Fellini houvesse invadido de súbito um desses belos dramas paralisados de Tchekov em que gaivotas gasosas definham de dor contida atrás da chamazinha vacilante de um sorriso, e que para lá da porta fechada as empregadas se deviam principiar a agitar de inquietações solícitas, imaginando-o enforcado no elástico preto de uma liga. A Charlotte Brontë, saciada, empoleirou-se no trono da marquesa como quem regressa de motu próprio ao orgulho intransigente do exílio. Seu grandessíssimo cab… de mer…, articulou ela em tom distraído de quinquagenária que conversa com as amigas contando as malhas do tricot. O psiquiatra apressou-se a aproveitar essa favorável disposição de humor para se escapar à sorrelfa para a trincheira da sala de pensos. Uma enfermeira que ele estimava e cuja amizade tranquila apaziguara mais de uma vez os impulsos destrutivos das suas fúrias de maremoto preparava pacificamente as medicações do almoço vertendo comprimidos idênticos a smarties num tabuleiro repleto de copinhos de plástico.
Deolinda, informou-a ele, estou a tocar no fundo. Ela abanou o rosto em bico de tartaruga bondosa: nunca mais tem fim essa descida? O médico ergueu os botões de punho ao tecto de caliça descamada numa patética imploração bíblica, na esperança de que a teatralidade voluntária ocultasse parte do seu sofrimento verdadeiro: você encontra-se (observe-me bem) por felicidade sua e infelicidade minha defronte do maior espeleólogo da depressão: oito mil metros de profundidade oceânica da tristeza, negrume de águas gelatinosas sem vida salvo um ou outro repugnante monstro sublunar de antenas, e tudo isto sem batiscafo, sem escafandro, sem oxigénio, o que significa, obviamente, que agonizo. Porque é que não volta para casa?, perguntou a enfermeira que possuía o sentimento prático da existência e a certeza inabalável de que ainda que a linha recta não seja forçosamente o caminho mais curto entre dois pontos é pelo menos o aconselhável à deslabirintação dos espíritos tortuosos.
O psiquiatra pegou no telefone e pediu para ligarem ao hospital onde um amigo trabalhava: é o momento de me agarrar a qualquer coisa, decidiu ele. Porque não sei, porque não posso, porque não quero, porque perdi a chave, declarou à enfermeira sabendo perfeitamente que mentia. Eu minto e ela sabe que eu minto e que eu sei que ela sabe que eu minto e aceita isso sem zanga nem sarcasmo, verificou o médico. De longe em longe cabe-nos a sorte de topar com uma pessoa assim, que gosta de nós não apesar dos nossos defeitos mas com eles, num amor simultaneamente desapiedado e fraternal, pureza de cristal de rocha, aurora de maio, vermelho de Velázquez. Olhe, disse o médico tapando o bocal com a manga, nem calcula quanto lhe agradeço você existir. Nesse instante a voz do amigo chegou pequenina ao telefone, formulou com cuidado: está? (E ele fantasiou uma pinça delicada colhendo suavemente qualquer coisa de frágil e precioso.) Sou eu, respondeu rápido porque sentiu que principiava a emocionar-se. Estou a tocar o fundo, o fundo do fundo, e precisava de ti. No silêncio do telefone adivinhou o amigo a desenrolar mentalmente na cabeça o horário do seu dia: posso descombinar um almoço, anunciou por fim, íamos juntos a uma dessas manjedouras que tu frequentas e durante o hamburger descarregavas a alma.
À uma nas Galerias, resolveu o psiquiatra fitando a enfermeira que saía com o tabuleiro repleto de grãozinhos vermelhos, amarelos e azuis a estremecerem nos receptáculos de plástico. E obrigado. À uma, confirmou o amigo. O médico pousou o telefone com a velocidade suficiente para não ouvir o som do aparelho a desligar-se, inútil ruído penoso que lhe recordava discussões azedas alimentadas pelo despeito e pelo ciúme. Compunha a gravata que a Charlotte Brontë desarrumara, em busca da bissectriz dos colarinhos, quando o Napoleão da dentadura postiça, chocalhando centenas de molares, o veio avisar que o chamavam da Urgência. Do quarto de banho em frente saiu a correr uma rapariga meia nua abraçada a um molho de jornais em farrapos: há que apertar a tarraxa à Nélia, opinou o Corso das mandíbulas desmontáveis. Não se consegue aturar. Ainda agora me disse que queria ver o meu sangue a escorrer aos saltos pelo corredor da enfermaria». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1979, 1983, Publicações dom Quixote, BIS, Grupo Leya, 1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

As Naus. António Lobo Antunes. «… o carrapito com uma multidão de ganchos. De modo que a avisou, mergulhando num púcaro a bolsinha do chá para o fim do almoço, daqui a doze dias temos navio para a Europa»

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«(…) Corrida uma semana voltaram a convocá-los para o Cine Theatro e garantiram-lhes passagens para o reyno depois de horas de explicações confusas, no decurso das quais três majores em uniforme de combate, postados atrás de uma mesa com o escudo da nação, berraram discursos veementes acerca do fascismo que nos matou ao sol de frigideira do campo de concentração do Tarrafal, da censura eclesiástica da polícia que degolou tantas das nossas obras-primas nas tipografias mais recônditas, do colonialismo que até o Papa condenou no discurso de encerramento do Sétimo Congresso Dos Esperantistas Cristãos com as palavras consternadas da nossa preocupação apostólica. A divorciada do agrimensor jurou-lhes que os pretos, irritados pelos estabelecimentos vazios, coziam a lume brando, em fogões de campanha, as crianças da cidade. O sabão e o tabaco deram em faltar nas mercearias de forma que fumavam folhas de amoreira e páginas de herbário, e raspavam com lixa de bate-chapas a fuligem dos dedos. As naus aportavam vazias e partiam cheias, convexas de gente e de caixotes. Bissau despovoava-se de brancos e o início da estação das chuvas encontrou-os sem saber o que fazer numa terra de selvagens triunfais que estilhaçavam à metralhadora os postigos das fachadas. A do agrimensor, na altura ocupado a calcular em polegadas a fronteira da Costa do Marfim, deixou de procurá-los com os seus avisos de cozeduras e vinganças, e vieram a saber que se amancebara com um guerrilheiro pintalgado de Bolama, repartida com mais duas fulas numa cubata malcheirosa, a tramar castrações e garrotes. Um amigo da fábrica de sonetos gongóricos, chamado Jerónimo Baía, descreveu-lhes acontecimentos medonhos, sodomias, envenenamentos, rimas cruzadas, récuas de prisioneiros de algemas enxotados à coronhada para o mato. E quando o chá acabou e mergulhavam diariamente na água fervida o mesmo saquito sem sabor dependurado na extremidade de uma guita, a esposa, de costas para ele, anunciou-lhe na serena voz habitual com que enterrara, trinta e oito anos antes, a filha criança, Já não pertenço aqui.
O marido olhou pela janela as lagunas de enguias de Bissau, o estuário deserto de pesqueiros, os telhados em que cantavam as guitarras sem cordas dos trovões, e viu reflectido no vidro um velho que demorou a reconhecer porque apenas se confrontava no espelho para a barba sumária dos sábados e prestava mais atenção aos lenhos do queixo do que à calva, às rugas e outras marcas e devastações do tempo, esticando a pele de iguana do pescoço com os beliscos dos dedos. A crueldade dos anos magoou-o como um castigo injusto e ao voltar-se para encarar a mulher, sugando das gengivas uma remota saudade de chá, indignou-se de novo ao verificar, espantado, a erosão sem cura que o tempo provocara nela também, avariando-lhe as pernas de um mármore de varizes, aumentando-lhe as pálpebras, dissolvendo a cintura, e admitiu com desgosto que já não pertencemos nem sequer a nós, este país comeu-nos as gorduras e a carne sem piedade nem proveito uma vez que se achavam tão pobres como haviam chegado. Nessa mesma tarde subiu aos damascos rotos e óleos de defensores do reyno do palácio do governo, esperou numa enorme cadeira de dignitário, no meio de dezenas de brancos e mulatos, que lhe pronunciassem o nome e um funcionário de jaqueta e punhal o recebesse na cave do edifício, atulhada de flippers e de mesas de bilhar desfeitas, e pediu, ao cabo de um silêncio difícil, dois lugares de porão para Lixboa. Ao entrar no quarto a mulher, instalada na ponta da cama, consertava o carrapito com uma multidão de ganchos. De modo que a avisou, mergulhando num púcaro a bolsinha do chá para o fim do almoço, daqui a doze dias temos navio para a Europa.
No decurso desse período choveu sem parar um temporal que harpejava cravo no telhado das gelosias. O vento desordenava os galhos das mangueiras desorientando o azimute dos pássaros, e os derradeiros soldados partiam curvados sob as guinadas da água. Pólipos e cogumelos minúsculos rebentavam nas pregas dos lençóis, nos chinelos esquecidos, na trança das lâmpadas, na fotografia muito antiga de um casal de noivos contra uma paisagem de abetos: nós dois, eu de sobrecasaca e tu de véu, há tantos anos que não se distinguiam os rostos, ainda que me lembrasse do bigode do fotógrafo a desaparecer nos panos da quina e da mão de afogado, de anel de pedra vermelha no indicador, que acenava aflitivamente para nós que pelo amor de Deus não se mexam agora, olha o passarinho, já está, e eles embaraçadíssimos diante daquele bicho estranho, assente em três patas junto ao balde de zinco do revelador. Se os brancos diminuíam, os pretos, em compensação, aumentavam nas casas atoladas nos caniços dos rios. Ocupavam as casernas que a tropa deixara, aliviada do peso da guerra, e enfeitadas de frases bélicas e de gravuras de mulheres de ligas, de pescoços opalinos como abajures arte-nova; acomodavam-se nos bancos de jardim, indiferentes à chuva, com as automáticas checoslovacas nos joelhos, caçando cães para o almoço; postavam-se de sentinela nas esquinas, a beber permanganato de garrafões de botica; entravam e saíam nos cretones do palácio do governo, pisando com desdém as lajes do poder. Os escarros dos antropófagos do barbudo assobiavam raivas e ordens no piso inferior, exactamente por baixo das nossas nucas deitadas, e a mulher disse não pertenço aqui num sussurro que provinha do interior da sua desilusão e da sua miséria, e repetiu baixinho Não pertenço aqui na exacta voz da noiva do retrato». In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT

As Naus. António Lobo Antunes. «… nos botequins do Rossio os mais belos improvisos do meu tempo, e depois, já na época da guerra, por oficiais roídos de febre intestinal…»

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«(…) Um padre missionário transportado por um batel perdido e a quem o escorbuto e a malaria emagreceram como um abissínio sem poiso casara-os cinquenta e três anos antes, já na Guiné que se limitava então a um amontoado de casas no estuário do rio, muitas delas de madeira e de capim, com meninos e jacarés brincando com as mesmas rocas nos mesmos berços de bordão, em torno do palácio do governo e de uma ermida sem majestade. As jibóias engordavam na humidade dos lagos, e a senhora de luto que lhes alugara o quarto levava o dia com um pé calçado e o outro descalço, de botina de verniz no ar, achatando melgas nas paredes. Aos domingos, quando os corpos se procuravam e tocavam nos lençóis musgosos de calor, o caminhar desigual da dama no andar de baixo, entre centenas de pêndulos desencontrados, e os estalos vingativos da sola nos muros de tijolo, acabavam por lhes desanimar a vontade e os fazer sair para a rua, cegos de luz, a sentarem-se nos bancos de uma praceta de mangueiras anãs, cujos troncos definhavam na névoa do cacimbo. Ou vinham até ao cais, empurrados pela curiosidade tatuada dos indígenas, assistir ao atracar sempre idêntico dos navios de emigrantes, gente escura de Trás-os-Montes ou da Beira, céreos na morrinha cérea da tarde, que desciam do convés na lentidão processional dos enterros. No decurso desses cinquenta e três anos construíram-se mais umas dezenas de capelas imediatamente em ruína, um bairro para os operários da fábrica de sonetos gongóricos e para os cronistas desempregados que catavam cedilhas da barba, e um sistema de esgotos eternamente entupido por embriões de sapos. A criatura dos mosquitos finou-se da vesícula e os insectos passaram a circular em liberdade, apesar das osgas, do esquentador avariado para a cantoneira da cozinha, de medalhão de esmalte (meninas e faunos a almoçarem num prado) sob as garrafas de Porto. O piso inferior foi primeiro ocupado por um vedor da fazenda, que negociava à socapa das polícias do reyno em irmãos siameses e miudezas de estanho, a seguir por um poeta de cabeleira empoada e sapatos de presilha e tacão alto que se gabava de ter sido amigo do glorioso defunto Manoel Maria Barbosa Du Bocage, eu que vi nascer nos botequins do Rossio os mais belos improvisos do meu tempo, e depois, já na época da guerra, por oficiais roídos de febre intestinal que de dois em dois anos mudavam de cara e de galões e regressavam da mata com um fungo de pêlos nas bochechas, porque todos emagrecíamos na Guiné nessa época, mesmo as araucárias, mesmo as ondas de alumínio do mar, mesmo o vento nos algerozes dos prédios, reduzido a um pifarozinho cristalizado. A violência das explosões dos morteiros, das bazookas e dos canhões sem recuo estremecia as lagunas de Bissau, sobrepondo-se aos relâmpagos de Março. À noite grupos de colonos de pistola percorriam as travessas amedrontando as sombras, as negras apequenavam-se nas cubatas calando os filhos com os peitos chochos, e eles nunca mais se sentaram aos domingos, inchados de desejo reprimido, no banco da praceta das palmeiras: demoravam-se em camisa pelo quarto, desocupados, sem destino, borbulhosos de melgas, a fitarem com desgosto o leito coxo ou a janela para o cais onde em vez de colonos atracavam agora paquetes e caravelas de soldados, com a mesma inocência espantada na infância dos olhos. Uma noite escutaram por acaso na telefonia, num vendaval de assobios, a revolução de Lixboa, notícias, comunicados, marchas militares, a prisão do governo, canções desconhecidas, e no dia imediato a tropa parecia menos crispada, os bombardeamentos rarearam, pretos de óculos flamejantes e camisas de feriado instalaram-se nas esplanadas e nos largos no lugar dos brancos. Convocaram-nos para uma reunião no Cine Theatro das zarzuelas estafadas e das récitas dos bombeiros, onde um coronel de artilharia, com uma tripla fita de condecorações na clavícula, subiu ao palco em cujo fosso a orquestra desafinou entusiasticamente o hino, e lhes ofereceu de mão beijada, numa generosidade inexplicável, a possibilidade gratuita de tornar a Portugal. Uma vizinha de oiro nas cáries, divorciada de um agrimensor que media a palmo, de joelhos, ribeiros e colinas, enganado nas contas pela quietude mineral dos crocodilos, narrou em pormenor que haveria vinganças, fuzilamentos, tiroteios, buscas. Os oficiais de tripas puídas debandaram do andar de baixo e tomaram o avião para a Europa. Batalhões completos, convulsos de amibas e lombrigas, com os furriéis a cabecearem de doença do sono logo após a charanga e a bandeira, alçavam-se para navios ferrugentos carregando as suas armas e os seus mortos. Guerrilheiros descalços, de camuflado, colares ao pescoço e bafo canibal de gato selvagem, passeavam-se nas escadinhas da cidade chacinando mulatos à baioneta. Um negro barbudo, autoritário, de cachimbo, que lhes não dava os bons-dias sequer, ocupou o rés-do-chão protegido por uma matilha de antropófagos de boina, a cuspirem sem cessar catarros prepotentes que assustavam no aparador o serviço de xícaras com pagodes de Macau da senhoria defunta». In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT

Os Cus de Judas. António Lobo Antunes. «Na messe de oficiais do Luso, espécie de Bairro da Madre de Deus de ruas geométricas e casas económicas plantado no planalto dos Bundas, no espírito Portugal dos Pequeninos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) De tempos a tempos, no entanto, Portugal reaparecia sob a forma de pequenas povoações à beira da estrada, nas quais raros brancos translúcidos de paludismo tentavam desesperadamente recriar Moscavides perdidas, colando andorinhas de loiça nos intervalos das janelas ou pendurando lanternas de ferro forjado nos alpendres das portas: quem levou séculos a semear igrejas acaba inevitavelmente, por reflexo, a colocar jarras de flores de plástico no tampo dos frigoríficos, do mesmo modo que Tolstoi, agonizante, movia os dedos cegos no lençol repetindo o acto de escrever, com a diferença de as nossas frases se resumirem a boas-vindas de azulejo e a palavras de acolhimento desbotado no capacho da entrada. Até que ao fim da tarde, um fim de tarde sem crepúsculo, com a noite a suceder-se abruptamente ao dia, chegamos a Nova Lisboa, cidade ferroviária no planalto, de que guardo uma confusa lembrança de cafés provincianos e de montras poeirentas, e do restaurante onde jantamos, de espingarda entre os joelhos, obsevados por mulatos de óculos escuros parados diante de cervejas imemoriais, cujas feições imóveis possuíam a consistência opaca das cicatrizes; durante todo o bife senti-me como que no prefácio do massacre de S. Valentim, prestes a tiroteios de Lei Seca, e levava o garfo à boca no aborrecimento mole de Al Capone, compondo nos espelhos sorrisos de crueldade manifesta; ainda hoje, sabe, saio do cinema a acender o cigarro à maneira de Humphrey Bogart, até que a visão da minha imagem num vidro me desiluda: em vez de caminhar para os braços de Lauren Bacall dirijo-me de facto para a Picheleira, e a ilusão desaba no fragor lancinante de um mito desfeito. Meto a chave à porta (Humphrey Bogart ou eu?), hesito, entro, olho a gravura do vestíbulo (já definitivamente eu a olhá-la) e afundo-me no sofá no suspiro de pneu que se esvazia de uma Gata Borralheira ao contrário. Como quando sair daqui, percebe, ao ter acabado de lhe contar esta história esquisita e de ter bebido, em vagares de camelo, todas as garrafas visíveis, e me achar lá fora, ao frio, longe do seu silêncio e do seu sorriso, sozinho como um órfão, de mãos nos bolsos, a assistir ao nascer da manhã numa angústia cremosa que a lividez das árvores macabramente sublinha. As madrugadas, de resto, são o meu tormento, gordurosas, geladas, azedas, repletas de amargura e de rancor. Nada vive ainda e, todavia, uma ameaça indefinível ganha corpo, aproxima-se, persegue-nos, incha-nos no peito, impede-nos de respirar livremente, as pregas do travesseiro petrificam-se, os móveis, agudos, hostilizam-nos. As plantas dos vasos avançam para nós tentáculos sequiosos, do outro lado dos espelhos objectos canhotos recusam-se aos dedos que lhes damos, os chinelos sumiram-se, o roupão não existe, e no interior de nós, teimoso, insistente, dolorosamente lento, caminha este comboio que atravessa Angola, de Nova Lisboa ao Luso, a transbordar de homens fardados que cabeceiam contra as janelas à procura de um sono impossível.
Conhece o general Machado? Não, não se franza, não procure, ninguém conhece o general Machado, cem em cada cem portugueses nunca ouviram falar do general Machado, o planeta gira apesar desta ignorância do general Machado, e eu pessoalmente odeio-o. Era o pai da minha avó materna, a qual, aos domingos, antes do almoço, me apontava com orgulho a fotografia de uma espécie de bombeiro antipático de bigodes, dono de numerosas medalhas que tronavam no armário de vidro da sala juntamente com outros troféus guerreiros igualmente inúteis, mas a que a família parecia prestar uma veneração de relíquias. Pois fique sabendo que durante anos, aborrecido e pasmado, escutei semanalmente, em folhetins narrados pela voz emocionada da avó, as proezas vetustas do bombeiro elevadas na circunstância a cumes de epopeia: o general Machado envenenou-me anos e anos o bife introduzindo na carne o mofo indigesto de uma dignidade hirta, cuja rigidez vitoriana me enjoava. E foi precisamente esta criatura nefasta, de que as órbitas globulosas de prefeito ou de cura me reprovaram da parede, recusando-me mesmo a absolvição dúbia que paira como um halo nos sorrisos amarelos dos retratos antigos, que construiu, ou dirigiu a construção, ou concebeu a construção, ou concebeu e dirigiu a construção do caminho de ferro em que seguíamos, de rebenta-minas na dianteira, chocalhando numa planície sem princípio nem termo, mastigando as conservas da ração de combate num desapetite em que morava já o medo pânico da morte, que durante vinte e sete meses cresceu na humidade das minhas tripas os seus cogumelos esverdeados. Na messe de oficiais do Luso, espécie de Bairro da Madre de Deus de ruas geométricas e casas económicas plantado no planalto dos Bundas, no espírito Portugal dos Pequeninos corporativo que fez do Estado Novo uma constante aberração por defeito ou por excesso, vi, pela primeira vez em muito tempo, cortinas, cálices, mulheres brancas e tapetes: a pouco e pouco aquilo a que durante tantos anos me habituara afastava-se de mim, família, conforto, sossego, o próprio prazer das maçadas sem perigo, das melancolias mansas tão agradáveis quando nada nos falta, do tédio à António Nobre nascido da crença convicta de uma superioridade ilusória. Por exemplo, a tristeza depois do jantar substituía as palavras cruzadas do jornal, e entretinha-me a preencher os quadradinhos em branco de trabalhosas elucubrações oscilando entre o idiota chapado e o vulgar profundo, limites aliás entre os quais o pensamento lusitano se condensa, equivalentes metafísicos dos versos dos cravos de papel». In António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Editora Dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-202-759-5.

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terça-feira, 11 de junho de 2019

Os Cus de Judas. António Lobo Antunes. «Porém, na época de que lhe falo eu tinha cabelo, bastante cabelo, enfim, algum cabelo se bem que aparado regularmente curto e escondido dentro do pires da boina militar, e descia de Luanda…»

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«(…) Porque, deixe-me confidenciar-lho, sou terno, sou terno mesmo antes do sexto JB sem água ou do oitavo drambuie, sou estupidamente e submissamente terno como um cão doente, um desses cães implorativos de órbitas demasiado humanas que de quando em quando, na rua, sem motivo, nos colam o focinho aos calcanhares gemendo torturadas paixões de escravo, que acabamos por sacudir o pontapé e se afasta, a soluçar, decerto, interiormente sonetos de almanaque, chorando lágrimas de violetas murchas. Duas coisas, minha boa amiga, continuo a partilhar com a classe de que venho, desapontando o poster do Guevara, esse Carlos Gardel da Revolução, que pendurei sobre a cama a fim de que me proteja dos pesadelos burgueses, e que funciona um pouco para mim como uma espécie de jóia magnética Vitaphor da alma: a emoção fácil que me faz fungar diante da televisão da leitaria à hora da novela, e o medo arrepiado do ridículo. O que eu gostava, por exemplo, de conseguir, sem ostentação nem vergonha, coroar a minha calvície nascente de um chapéu tirolês de pena. Ou de deixar crescer a unha do dedo mínimo. Ou de entalar um bilhete de eléctrico dobrado na aliança. Ou de atender os meus doentes vestido de palhaço pobre. Ou de lhe oferecer o meu retrato em coração de esmalte para você usar quando for gorda, porque será gorda um dia, descanse, todos nós seremos gordos, gordos, gordos e tranquilos, como gatos capados à espera da morte nas matinées do Odeon.
Porém, na época de que lhe falo eu tinha cabelo, bastante cabelo, enfim, algum cabelo se bem que aparado regularmente curto e escondido dentro do pires da boina militar, e descia de Luanda a caminho de Nova Lisboa na direcção da guerra, através de inacreditáveis horizontes sem limites. Entenda-me: sou homem de um país estreito e velho, de uma cidade afogada de casas que se multiplicam e reflectem umas às outras nas frontarias de azulejo e nos ovais dos lagos, e a ilusão de espaço que aqui conheço, porque o céu é feito de pombos próximos, consiste numa magra fatia de rio que os gumes de duas esquinas apertam, e o braço de um navegador de bronze atravessa obliquamente num ímpeto heróico. Nasci e cresci num acanhado universo de crochê, crochê de tia-avó e crochê manuelino, filigranaram-me a cabeça na infância, habituaram-me à pequenez do bibelot, proibiram-me o canto nono de Os Lusíadas e ensinaram-me desde sempre a acenar com o lenço em lugar de partir. Policiaram-me o espírito, em suma, e reduziram-me a geografia aos problemas dos fusos, a cálculos horários de amanuense cuja caravela de aportar às Índias se metamorfoseou numa mesa de fórmica com esponja em cima para molhar os selos e a língua. Já lhe aconteceu sonhar de cotovelos apoiados num desses tampos horríveis e acabar o dia num terceiro andar de Campo de Ourique ou da Póvoa de Santo Adrião, a ouvir crescer a própria barba nos serões vazios? Já sofreu a morte quotidiana de acordar todas as manhãs ao lado de uma pessoa que mornamente se detesta? Irem os dois para o emprego no carro, olheirentos de sono, pesados já de decepção e cansaço, ocos de palavras, de sentimentos, de vida? Pois imagine que de repente, sem aviso, todo esse mundo em diminutivo, toda essa teia de hábitos tristes, toda essa reduzida melancolia de pisa-papéis em que neva lá dentro, em que neva monotonamente lá dentro, se evaporava, as raízes que a prendem a resignações de almofada bordada desapareciam, os elos que a agarram a pessoas que a aborrecem se quebravam e você acordava numa camioneta, não muito confortável, é certo, e cheia de tropas, é verdade, mas circulando numa paisagem inimaginável, onde tudo flutua, as cores, as árvores, os gigantescos contornos das coisas, o céu abrindo e fechando escadarias de nuvens em que a vista tropeça até cair de costas, como um grande pássaro extasiado». In António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Editora Dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-202-759-5.

Cortesia DomQuixote/JDACT

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Vamos, encorajou. Levantem a mão e repitam o que eu disser. Os estudantes levantaram a mão, esperando pela deixa. Juro solenemente, como um estudante sério de história…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Los Angeles. Outubro de 2004
«(…) Vamos começar do alto. Maria Antonieta nunca disse: se eles não têm pão, que comam brioche. Lucrécia Bórgia nunca envenenou ninguém. E Maria I, da Escócia, não era uma prostituta assassina. Ao repararmos esses erros, damos o primeiro passo para restituir às mulheres o seu lugar apropriado e respeitável na história..., um lugar que foi usurpado por gerações de historiadores com uma agenda política. Maureen fez uma pausa, enquanto murmúrios de aprovação espalhavam-se pela plateia de estudantes. Falar para uma nova turma era quase como uma noite de estreia no teatro. O sucesso do desempenho inicial determinava o impacto a longo prazo de todo o curso. Ao longo das próximas semanas, vamos examinar as vidas de algumas das mulheres mais infames na história e na lenda. Mulheres com histórias que deixaram uma marca indelével na evolução da sociedade e do pensamento moderno; mulheres que foram dramaticamente incompreendidas e mal retratadas pelas pessoas que estabeleceram a história do mundo ocidental, ao registarem as suas opiniões no papel.
Maureen estava concentrada e relutante em parar para perguntas tão cedo, mas um jovem estudante acenava com a mão da primeira fila desde que ela começara a falar. Parecia muito ansioso; afora isso, porém, não havia nada de extraordinário na sua aparência. Amigo ou inimigo? Admirador ou fundamentalista? Havia sempre esse risco. Maureen deu-lhe a palavra, sabendo que ele distrairia a sua atenção enquanto não o fizesse. Considera que essa é uma visão feminista da história? Era só isso? Maureen relaxou um pouco, enquanto respondia à pergunta familiar: considero que é uma visão honesta da história. Não trato do assunto com qualquer outro interesse que não a busca da verdade. Mas ela ainda não se livrara do importuno. Pois me parece uma visão contra os homens. Nem um pouco. Adoro os homens. Acho que toda mulher devia ter um.
Maureen fez uma pausa, para permitir o riso das mulheres. Estou brincando. Meu objectivo era o de recuperar o equilíbrio, analisando a história com olhos modernos. Leva a sua vida da mesma maneira como as pessoas viviam há mil e seiscentos anos? Não. Então, porque leis, convicções e interpretações históricas determinadas na Idade Média devem reger a maneira como vivemos no século XXI? Não faz o menor sentido. O estudante declarou: mas é por isso que estou aqui, para descobrir o que realmente acontece. Óptimo. Neste caso, aplaudo a sua presença. Só peço que mantenha a mente aberta. Na verdade, quero que todos parem o que estão fazendo, levantem a mão direita e façam o seguinte juramento. Os estudantes do curso nocturno trocaram murmúrios outra vez. Sorriram e deram-de-ombros uns para os outros, querendo determinar se ela falava mesmo sério. A professora, escritora de sucesso e jornalista respeitada, mantinha-se de pé na frente deles, com a mão direita levantada e uma expressão de expectativa.
Vamos, encorajou. Levantem a mão e repitam o que eu disser.
Os estudantes levantaram a mão, esperando pela deixa. Juro solenemente, como um estudante sério de história, Mauree fez uma pausa, enquanto os estudantes repetiam, obedientes, lembrar em todas as ocasiões que as palavras registadas no papel foram escritas por seres humanos. Outra pausa, para a repetição dos estudantes. E como todos os seres humanos são regidos pelas suas emoções, opiniões, filiações políticas e religiosas, toda a história inclui tanto opinião quanto facto e em muitos casos foi inteiramente fabricada para promover as ambições pessoais ou as intenções secretas de quem a escreveu. Outra pausa. Juro solenemente manter minha mente aberta em cada momento em que estiver sentado nesta sala. Aqui está o nosso grito de batalha. A história não é o que aconteceu. A história é o que foi escrito. Ela levantou um livro de capa dura que estava no pódio à sua frente, mostrando para a turma. Todos já possuem um exemplar deste livro?» In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Ela leu em voz alta a citação de outra placa, abaixo do bronze: mulher, por que chora? A quem procura?»

Cortesia de wikipedia e jdact

Jerusalém
«(…) Isso mesmo. Meu nome é Maureen. Mas como..., como sabia? O homem ignorou a pergunta. Pegou-a pela mão e puxou-a através da igreja. Não há tempo, não há tempo. Venha. Esperámos muito tempo por você. Venha, venha. Para um homem tão pequeno, era mais baixo até do que Maureen, ele se movia com bastante rapidez. As pernas curtas impulsionaram-no pelo interior da basílica, passando pelo lugar em que os peregrinos esperavam para serem admitidos na tumba de Cristo. Ele continuou a andar, até alcançar um pequeno altar no fundo da basílica, onde parou abruptamente. A área era dominada por uma escultura de bronze em tamanho natural de uma mulher com os braços estendidos para um homem, numa pose suplicante. Capela de Maria Madalena... Madalena... Veio por causa dela, não é? Não é? Maureen tornou a acenar com a cabeça, cautelosa, olhando para a escultura. Uma placa informava:

Neste lugar,
Maria Madalena foi a Primeira
A Ver a Ascensão do Senhor.

Ela leu em voz alta a citação de outra placa, abaixo do bronze: mulher, por que chora? A quem procura?
Maureen teve pouco tempo para reflectir sobre a pergunta, pois o estranho homenzinho puxava-a de novo, seguindo apressado, nos seus passos improváveis, para outro canto escuro da basílica. Venha, venha. Contornaram uma esquina e pararam na frente de um quadro, um retrato grande e antigo de uma mulher. O tempo, o incenso e séculos de resíduos de velas oleosas haviam impresso o seu tributo sobre a obra de arte. Para ver melhor, Maureen teve de chegar mais perto do quadro escuro, os olhos contraídos. O homenzinho explicou, numa voz subitamente muito séria: quadro muito antigo. Grego. Pode entender? Grego. Mais importante, da Senhora. Ela precisa que conte a sua história. É por isso que veio até aqui, Mo-ree. Esperamos há muito tempo. Ela esperou. Por você. Sim? Maureen olhou atentamente para o quadro, um retrato antigo de uma mulher usando um manto vermelho. Virou-se para o homenzinho, com a maior curiosidade sobre o lugar para onde ele queria levá-la. Mas ele não estava mais ali..., desaparecera tão depressa quanto havia surgido. Espere!
O grito de Maureen ressoou pela câmara de eco da vasta basílica. Mas ela não obteve resposta. Tornou a concentrar a sua atenção no quadro. Ao se inclinar na sua direcção, verificou que a mulher usava um anel na mão direita, um disco de cobre redondo, com um padrão de nove círculos em torno de uma esfera central. Maureen levantou a sua mão direita, a fim de comparar o anel que acabara de ganhar com o que aparecia no quadro. Os anéis eram idênticos.

... Muito será dito e escrito, nos tempos que virão, sobre Simão, o Pescador de Homens. De como ele foi chamado de pedra, Pedro, por Easa e por mim, enquanto os outros chamavam-no de Cefas, o que era natural na língua que falavam. E, se a história se propuser justa, dirá como ele amou Easa com intensidade e lealdade incomparáveis. E muito se tem dito, assim me contaram, sobre o meu relacionamento com Simão-Pedro. Há aqueles que nos chamavam de adversários, de inimigos. Querem acreditar que Pedro me desprezava e que disputávamos a atenção de Easa em todas as ocasiões. E há aqueles que diriam que Pedro odiava as mulheres..., essa é, porém, uma acusação que não pode ser atribuída a nenhum dos seguidores de Easa. Saibam que nenhum homem que seguiu Easa jamais menosprezou uma mulher ou subestimou seu valor nos desígnios de Deus. Qualquer homem que faz isso e alega ter Easa como mestre está proferindo uma mentira. São inverídicas tais acusações contra Pedro. Aqueles que testemunharam as críticas a mim dirigidas por Pedro, desconhecem a nossa história, ou de que fontes se originaram as suas explosões. Contudo eu compreendo e nunca o julgarei. Isso, acima de todo o resto, é fruto daquilo que Easa me ensinou..., e espero que aos outros ele também tenha ensinado. Não julgar. In o Evangelho de Arques Segundo Maria Madalena. O Livro dos Discípulos»

In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «O cheiro intenso e inconfundível do incenso chamado olíbano envolveu Maureen quando ela entrou. Peregrinos de todas as áreas da Cristandade espalhavam-se…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Jerusalém
«(…) Descobriu-se no meio de um enxame de turistas britânicos que contornaram a esquina, levados por um guia que usava o colarinho de sacerdote anglicano. Ele anunciou para o seu grupo de peregrinos que se aproximavam do local mais sagrado da Cristandade, a Basílica do Santo Sepulcro. Maureen sabia, por sua pesquisa, que as Estações da Cruz que restavam ficavam dentro daquele prédio reverenciado. A basílica ocupava vários quarteirões, inclusive o local da crucificação. A construção começara quando a imperatriz Helena jurara proteger esse lugar sagrado, no século IV. Helena, a mãe do imperador romano Constantino, fora mais tarde canonizada pelos seus esforços. Maureen aproximou-se da vasta entrada devagar, com alguma hesitação. Ao parar no limiar, compreendeu que não entrava numa igreja de verdade havia muitos anos. Não gostou da perspectiva. Lembrou a si mesma, com a devida firmeza, que a pesquisa que a trouxera a Israel era académica, não espiritual. Enquanto se mantivesse concentrada nesse aspecto da questão, não teria qualquer problema. Poderia passar por aquelas portas. Apesar de sua relutância, ela teve de admitir que havia alguma coisa naquele colossal santuário que inspirava reverência, um ambiente magnético. Enquanto passava pela entrada enorme, ela ouviu as palavras do sacerdote britânico:

Dentro destas paredes, verão onde Nosso Senhor fez o supremo sacrifício. Onde ele foi despojado de sua túnica e pregado na cruz. Entrarão na tumba sagrada em que seu corpo foi sepultado. Meus irmãos e irmãs em Cristo, depois de entrarem aqui, suas vidas nunca mais serão as mesmas.

O cheiro intenso e inconfundível do incenso chamado olíbano envolveu Maureen quando ela entrou. Peregrinos de todas as áreas da Cristandade espalhavam-se pelos vastos espaços da basílica. Ela passou por um grupo de sacerdotes coptas empenhados numa discussão reverente, as vozes abafadas. Observou um clérigo ortodoxo grego acender uma vela numa das pequenas capelas. Um coro masculino cantava em dialecto oriental, um som exótico para ouvidos ocidentais, o hino se elevando de algum lugar secreto dentro da basílica. Maureen concentrava-se em absorver as imagens e sons daquele lugar sagrado, atordoada com a sobrecarga sensorial. Não notou a aproximação do homem pequeno, magro e forte, até que ele bateu no seu ombro, provocando um sobressalto.
Desculpe, moça. Desculpe, srta. Mo-ree. Ele falava inglês. Ao contrário do enigmático Mahmoud, no entanto, o seu sotaque era carregado. Sua habilidade com o idioma de Maureen era rudimentar, na melhor das hipóteses; por isso ela não entendeu a princípio que o homem a chamava pelo primeiro nome. Ele repetiu. Mo-ree. Seu nome. É Mo-ree, não é? Maureen estava perplexa, tentando determinar se o estranho homenzinho a chamava mesmo pelo seu nome e, se chamava, como o conhecia. Estava em Jerusalém havia menos de vinte e quatro horas e ninguém na cidade sabia seu nome, excepto o recepcionista do King David Hotel. Mas aquele homem era impaciente e perguntou de novo: Mo-ree. V. é Mo-ree. Escritora. Você escreve, não é? Mo-ree? Maureen acenou com a cabeça em confirmação, lentamente». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT