quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «Devemos insistir neste aspecto: o interesse pela África do Norte não se restringia à Coroa, aos grandes nobres ou à alta burguesia»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

O Interesse pelo Norte de África

«(…) A conquista das cidades e as incursões nos campos e aldeias eram aproveitadas para recolher o produto do saque de tudo o que tinha valor: alfaias, gado, cereais. Cada um dos contendores procurava fazer cativos, a fim de obter o dinheiro dos resgates. As praças serviam de base a uma importante actividade de corso feita ao serviço do rei ou dos nobres. Barcos pesqueiros ocupavam-se na exploração dos ricos bancos da orla marítima marroquina. Os períodos de paz eram aproveitados para as trocas comerciais com os diferentes produtos do país, os importados do Sudão, como o ouro e os escravos, ou as especiarias do Oriente. A indústria de tecidos, em particular os destinados ao vestuário e utilizados também para a cobertura durante a noite, assumiu uma importância decisiva depois da instalação dos portugueses em Arguim (cerca de 1448) e na Mina (depois de 1481) porque os Negros estavam habituados a utilizá-los. Ficaram célebres os lambéis como referiu Duarte Pacheco Pereira no Esmeraldo: uma roupa feita como mantas do Alentejo, que tem uma banda vermelha e outra verde e outra azul e utra branca, as quais bandas são de largura de dois e três dedos (...) E esta é a principal mercadoria por que se em Axem resgata o dito ouro, além de outras de menos valia que também praticamos. A obtenção de cereais em Marrocos foi muito aleatória porque estava dependente das colheitas, que nem sempre eram abundantes, e da situação de guerra ou de paz com as diferentes praças. Em 1414, um ano antes da conquista de Ceuta, os Portugueses venderam trigo no reino de Fez. Durante a maior parte do século XV assistimos ao abastecimento das praças lusitanas a partir da Europa. A paz de 1471, o protectorado na região de Azamor, Safim e Meça e o período dos mouros de pazes trouxeram tributos em cereais e outros produtos, além do incremento das compras e do comércio em geral. A reacção xarifina comprometeu quase definitivamente essa época promissora. Os diferentes estratos sociais tinham vantagens económicas com a colonização das praças da África do Norte. A exploração das terras era fonte de rendimentos. Afonso V procedeu a generosas doações no território que lhe pertencia nos termos da paz de Os cargos militares e civis eram asperamente disputados. Os reis favoreciam com moradias, comendas e outras benesses os que se dispunham a servir em África. Os burgueses interessavam-se pelos contratos de abastecimento das diferentes praças, associando-se, se necessário, a comerciantes estrangeiros. Devemos insistir neste aspecto: o interesse pela África do Norte não se restringia à Coroa, aos grandes nobres ou à alta burguesia. Grande número de particulares, pequenos comerciantes, pescadores e artesãos mantinham relações privilegiadas com Marrocos. Eram homens comprometidos com o abastecimento em víveres, armas, materiais de construção e outros produtos necessários à vida naquelas fronteiras e ao provimento das armadas que ali se dirigiam. Os pescadores algarvios habituaram-se a frequentar os ricos mares das costas marroquinas. O contrabando de todo o género de mercadorias, incluindo as proibidas, como as armas florescia nos portos portugueses, em especial do Algarve. Procuravam obter produtos diversos, como as especiarias, que, embora em quantidades diminutas, afluíam aos mercados norte-africanos. Este comércio fomentava o gosto pelos produtos exóticos que se desenvolvia em Portugal e em toda a Europa». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

 Cortesia de Instituto Camões/JDACT

JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «O favor real fazia perder a cabeça a muita gente e o monarca tinha de os pôr no seu lugar: Pois Fulano mais vale sendo pobre e sem poder…»

jdact

 Sátiras contra os Favoritas e Magnates

«(…) Favoritos do rei, ricos-homens e outros magnates levavam também a sua conta por tabela. Martin Moxa, numa tenção, pergunta a um cortesão-poeta se os privados duram muito na privança. É que só tomam para si. Quem não lhes dá, escusa de esperar favor do rei. O outro observa que não sabe novelar e só diz: estão cada vez mais poderosos, as suas rendas aumentam e o povo empobrece. Empobrece e emigra: e, con proveza, da terra sair. Parecem os tempos de hoje. Martin Moxa zanga-se ironicamente. Morais na corte e nada sabeis! Quem lá vai, algo deve levar. Caso contrário, passa por tolo. Que ele dê, porque os privados, sem isso, nada fazem.

O conde Pedro de Portugal insistia no mesmo ponto: seu saber é juntar aver. Servir o rei nada vale. Peitas, isso sim! E se el-rei, por boa inclinação, procura fazer bem, levam-no a mal. Um dos grandes privados, na corte del-rei Afonso III, era o chanceler Estêvão Anes. Que miopia a dele! Mas caiu bem no goto do rei, nota Joan Soárez Coelho, jogando com o duplo significado de cair. Bendita miopia que o fazia cair! Míope?, pergunta Roí Queimado. Talvez. Mas ouve bem. Cuidado! E erguem-se agora, contra o favorito, três cantigas violentas de Airas Pérez Vuitoron, insinuando vícios homossexuais, desfazendo-lhe na miopia e insistindo na sua crueldade: não há homem nem mulher que non queirades trager come can. A melhor destas sátiras baseia-se na miopia: Comi ontem em casa do rei. Nunca os vossos olhos viram tal pão nem vinho como eu lá bebi! De dez anos para cá, nunca vistes um capão como aquele, nem melhor cabrito nem tal lombo de vinh’e d’alhos e de sal. Não, nunca vistes um homem comer como eu comi. Não me faltou nada: non vistes nen avedes de veer. Chega a ser cruel.

Porém Vuitoron era partidário del-rei Sancho II. Daqui nasce parte do seu ódio a Estêvão. E tem, ou parece ter, o gosto equívoco de insinuações homossexuais. Estêvão da Guarda era de Aragão. Isso não o impedia de atirar remoques ao seu patrício Miguel Vivas, chanceler-mor del-rei Afonso IV e bispo eleito de Viseu, a partir de 1330. Ironicamente, jogueta com o verbo privar: conforme o proveito que me vier da vossa privança, rogo eu a Deus que sejades privado.

O favor real fazia perder a cabeça a muita gente e o monarca tinha de os pôr no seu lugar: Pois Fulano mais vale sendo pobre e sem poder, então que volte ao que era e torne a ganhar juízo. Pertence ainda a Estêvan da Guarda esta graça posta na boca do rei. Voltando, porém, a Miguel Vivas, temos contra ele um serventês a descrever-nos a fisionomia do bispo, como dum grande beberrão, de penca vermelha:

Eu convidei un prelado a jantar, se ben me venha.

Diz el en est’: E meus narizes de color de bereguenha?

Vós avede-los alhos verdes, e matar-m’íades con eles!

O jantar está guisado e, por Deus, amigos, trei-nos.

Diz el en est’: E meus narizes color de figos çofeinos?

Vós avedes os alhos verdes, e matar-m’íades con eles!

Alhos e não olhos. Quem matava não eram uns lindos olhos verdes, mas esses alhos que levavam um homem a comer de mais. E o bispo vai-se preocupando com as cores do nariz: E o meu nariz cor de escarlata roxa? E o meu nariz cor de rosa bastarda? E o meu nariz cor de púrpura escura? E o meu nariz cor de amoras maduras?» In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

 Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «O rei vivia, de facto, em permanentes dificuldades económicas e quem mandava no mundo era o dinheiro: Nummus honoratur, sine nummis nullus amatur»

 jdact

Afonso X e os soldados

«(…) As cantigas de escárnio e maldizer também tinham o seu quê de literatura panfletária, aqui e além. Afonso Fernández Cubel queixa-se do rei e da sua mão fechada. Não lhe pagava os serviços nem o recompensava dos prejuízos:

el do seu aver non me quer dar

nen er quer que eu viva no alheo;

e eu non ei erdade de meu padre.

Era, pois, um cavaleiro pobre. E ainda pior, o rei prejudicara-o nos haveres que herdara da mãe. Passava fome e em mau dia nascera. Nem mercê, nem soldada! Não sabemos de que rei se trata aqui. Contudo, Gil Pérez Conde, cavaleiro e poeta, esse queixava-se claramente do rei Afonso X. Não pagavam depressa aos que entravam na campanha da Andaluzia. Que lhe dessem um fiador, nem que fosse judeu. E noutra cantiga, lembra como brilhara na guerra mas que, na paz, a sua fortuna se pusera a andar a pé de boi. Na terceira, reclama ao rei os vossos meus maravedis, a vossa mia soldada, senhor Rei! Expressão maliciosa e bem achada: vossa, porque a tendes na mão; minha, porque me pertence. Na quarta cantiga, em forma de alegoria, conta-nos que andara em busca do Amor, primeiro no paço do rei e depois nas casas dos privados. Ninguém sabia onde ele estava. Partira e não voltara. Nas tendas dos infanções e nas dos que os serviam, todos diziam: Non sei! Só o encontrou entre os freires do Templo.

Era português este Gil Pérez Conde, e exilara-se para Castela após a subida ao trono do conde de Bolonha. Em má hora se exilara: non fui vosco en ora bõa! Tornara-se vassalo de Afonso X, servira-o em várias cidades e sempre lhe minguara a generosidade real. Podemos resumir esta polémica num provérbio: Casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. O rei vivia, de facto, em permanentes dificuldades económicas e quem mandava no mundo era o dinheiro: Nummus honoratur, sine nummis nullus amatur». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Lembra-nos isto a frase dum poltrão, em Tirso de Molina, na sua comédia Dona Beatriz da Silva: soy una galina, isto é, sou um cobarde. E por cada um ser aquilo que come, proibira el-rei…»

 

 jdact

 Afonso X e os soldados

«(…) Porém, a obra-prima do mundo satírico do rei Afonso X nasceu quando este andava pelos 60 anos de idade: uma poesia fresca e ágil, embalada pelo sonho duma vida livre das obrigações do governo. Com tintas que parecem dum poeta moderno, diz Rodrigues Lapa, Afonso X põe-se no estado psicológico de quem despiu o manto real e quer ser outro, um negociante, por exemplo, a navegar livremente no mar livre, longe da terra, da política e da guerra: Estou farto do canto das aves, do amor e das armas. Antes um bom galeão que me afaste depressa deste diabo de terra cheia de lacraus, cujo aguilhão senti na alma! Juro por Deus que não andarei de capa, nem com barbas, armas ou razões de amor! Tudo isso me cansa e, volta e meia, me faz chorar. Antes um pequeno barco e ir ao longo da costa, a vender azeite e farinha, para evitar o veneno dos lacraus! Não me alegro de atirar lanças ao tabulado nem de bafordar! De noite andar armado e fazer rondas, vontade não tenho. Gosto mais do mar, pois já fui marinheiro. E por causa dos lacraus, prefiro tornar ao que fui antigamente! Não me falem de guerras! Antes andar sozinho e ir, como um mercador, em busca dalguma terra onde não haja lacraus negros nem pintalgados!

Há outras cantigas de troça, contra vassalos sovinas, poetas plagiários ou de expressão menos ortodoxa, pedinchas, maus cantores, fidalgos ridículos no trajar, manhosos, etc. Algumas dessas cantigas de escárnio têm graça. Contudo, afastam-se do núcleo central da guerra andaluza. Neste ciclo da guerra andaluza, entram ainda outros poetas, por exemplo Gil Pérez Conde: Aos cavaleiros e à tropa dos concelhos, ordenou o rei que não comessem galinha, durante a campanha, mas, sim, vacas e carneiros, porcos frescos, cabritos e gansos. Com efeito diziam os adivinhos que, se comessem galinha, seria perdimento da terra.

Lembra-nos isto a frase dum poltrão, em Tirso de Molina, na sua comédia Dona Beatriz da Silva: soy una galina, isto é, sou um cobarde. E por cada um ser aquilo que come, proibira el-rei que os soldados comessem galinha! Gil Pérez ajunta, ironicamente, que muitos a comeram. Por seu lado, Pero Gómez Barroso volta-se também contra um rico-homem que faltou na guerra e só veio na paz. E questiona com o rei, por não lhe ter dado ocasião de o servir! Fica-nos a impressão de que poetas e fidalgos pouco temiam Afonso X, o Sábio. Este e Garcia Pérez disputam, entre si, acerca duma peliça de cor, já um pouco velha. Que a atirasse à estrumeira, aconselha Garcia Pérez. E o rei não se zanga. Responde até com mesura» In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

 Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões, 

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Viagem a Portugal. José Saramago. «Na memória do viajante ficou intacto o vale profundo e enevoado de delgada bruma, tenuíssima, que parecia avivar melhor as cores vegetais, contra o que se pode e deve esperar das brumas. Não vendo tudo, o viajante ficou com o melhor»

 jdact e cortesia de wikipedia

 De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Tentações do Demónio

«(…) Gritos, havia-os, sem dúvida. O viajante já não tinha olhos para os capitéis. Saiu do adro e aproximou-se do muro do cemitério, que está num rebaixo do terreno, por trás da igreja, como já ficou dito. Ali estava uma mulher que chorava, gemia e gritava, de pé, e tendo-se o viajante chegado mais perto percebeu que ela fazia um longo discurso, talvez sempre o mesmo, quase uma invocação, um encantamento, um esconjuro. Tinha a mulher um retrato na mão e era para ele que falava e suspirava. De cima do muro, o viajante, apesar dos maus olhos que tem, viu que a retratada era uma rapariga novíssima, e bonita. Atreveu-se a perguntar que desgosto era aquele. E soube a história duma filha que saiu do regaço de sua mãe para emigrar, lá para as Franças do costume, onde casou e morreu com dezoito anos. Enquanto ia ouvindo, o viajante jurava a si próprio nunca mais se aproximar de cemitérios, pelo menos durante esta viagem. Só casos tristes de injustiças, um soldado enforcado inocente, uma rapariguinha em flor. E como o dinheiro custa muito a ganhar, não se esqueceu a mãe chorosa de informar o viajante que só o transporte do corpo, de Hendaia até Portugal, custara quarenta contos. Afastou-se esmagado o viajante, deu a propina à mulher da chave, que sorria malevolamente, e meteu-se a caminho de Chaves. Eram horas de almoço.

A cidade é maneirinha, quer dizer, pequena na proporção, de bom tamanho para ser bom lugar de viver. Ao Largo do Arrabalde tudo vai dar, e é dali que tudo parte. O viajante já almoçou, deita contas à vida. Vai ver a matriz, que tem a singularidade de dois portais a poucos palmos de distância um do outro, românico o da torre sineira, renascença o da fachada, e em pensamento louva quem para construir o segundo entendeu dever conservar o primeiro. Louva também, o viajante está em maré de louvores, será do bom almoço no 5 Chaves, louva a cantaria aparelhada da nave, louva a magnífica estátua de Santa Maria Maior, antiquíssima peça que na abside se mostra. E sai louvando o sol que o espera na rua e o acompanha até à Igreja da Misericórdia, toda em colunas torsas, como a cabeceira duma cama de bilros. Lá dentro, painéis de azulejos forram de alto a baixo a nave e são uma festa para os olhos. O viajante demora-se a percorrer aquelas paisagens, a investigar aquelas figuras, e sai contente.

O viajante não vai a todos os castelos que vê. Algumas vezes contenta-se com vê-los de fora, mas irrita-se sempre quando dá com algum fechado. Lá lhe parece que os fechados são os melhores, e fica-se nesta teima até que o bom senso o convence de que só lhe parecem os melhores precisamente por estarem fechados. São fraquezas que se desculpam. Mas a torre de menagem, que no alto da cidade se levanta, tem, ainda por cima, um aspecto impenetrável, com aqueles lisos panos de muralha, ainda mais frustradores. Paciência. O viajante volta as suas atenções para as varandas da Rua Direita, sacadas de madeira, pintadas de cores escuras e quentes, molduras que enquadram as brancas superfícies das paredes caiadas. É um modo de viver antigo, mas por cima dos telhados florescem fartas as antenas de televisão, nova teia de aranha que sobre o mundo caiu, bem e mal, verdade e mentira.

Agora é preciso escolher. De Chaves vai-se a todo o lado, frase que mais parece um lugar-comum (de qualquer lugar se vai a outro lugar), mas aqui, para oeste estão as serras do Barroso e do Larouco, para baixo a Padrela e a Falperra, e isto só para falar de alturas e altitudes, que não faltam outras e tão boas razões para a perplexidade em que o viajante se encontra. Veio a prevalecer uma que só ele provavelmente será capaz de defender: tomou-se de amores por um nome, pelo nome duma povoação que está no caminho de Murça, e que é Carrazedo de Montenegro. É pouco, é suficiente, pense cada um o que quiser. Mas esta decisão não se tomou sem intenso debate interior, tanto assim que o viajante se enganou no caminho e meteu pela estrada que segue para Vila Real, por Vila Pouca de Aguiar. Há horas felizes, há erros que o não são menos. O vale que se prolonga a partir de Pero de Lagarelhos é outro daqueles que o viajante não esquecerá, e se é verdade que alguns quilómetros adiante emendou o percurso e voltou para trás, isso mesmo se há-de tomar como um acto de bom sentir. Continuando haveria de assistir ao fim daquela formosíssima paisagem, naturalmente, porque tudo tem seu fim. Mas, neste caso, não. Na memória do viajante ficou intacto o vale profundo e enevoado de delgada bruma, tenuíssima, que parecia avivar melhor as cores vegetais, contra o que se pode e deve esperar das brumas. Não vendo tudo, o viajante ficou com o melhor». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,

terça-feira, 29 de novembro de 2022

II) A “Besta de Leste”. Roberto Granda. «… afectar al vórtice polar troposférico y determinar el tiempo en futuras semanas. No obstante, la incertidumbre es máxima, así que toca seguir las previsiones más actualizadas»

Cortesia de wikipedia, eltiempo e jdact

Com a devida vénia ao Doutor Roberto Granda

Estamos ante una Ruptura del Vórtice Polar por el Bloque atmosférico?

«(…) Se está comentado que el vórtice polar se va a romper y va a provocar la llegada del crudo invierno. Qué hay de verdad en esto? Si nos referimos al vórtice polar estratosférico, es mentira: no sólo no hay indicios de ruptura a medio plazo, sino que además estaría más fuerte de lo que sería normal. 


Predicción del viento a la altura del vórtice estratosférico. Cuanto más positivo, más fuerte. Fuente.ECMWF.

Si nos referimos al vórtice polar troposférico, en ese caso sí tenemos una situación que apunta a una cierta ruptura. El vórtice polar se vería afectado por el bloqueo atmosférico ruso-escandinavo, que probablemente se propague hacia el Ártico y Groenlandia en próximas jornadas. Esto provocaría la desorganización de la circulación atmosférica, con aire frío descolgándose hacia latitudes inferiores.

Como vemos, el bloqueo atmosférico podría afectar al vórtice polar troposférico y determinar el tiempo en futuras semanas. No obstante, la incertidumbre es máxima, así que toca seguir las previsiones más actualizadas». 


In  Roberto Granda, A “Besta de Leste”., Eltiempo, Wikipedia, Meteorologia, ECMWF, Espanha, 29 de Novembro de 2022.

Cortesia de Eltiempo/JDACT/ECMWF/ Roberto Granda, Meteorologia, JDACT, Conhecimento, Caso de Estudo, Cultura, 

I) A “Besta de Leste”. Roberto Granda. «Hace unos días analizábamos en esta noticia la posibilidad de que el poderoso bloqueo atmosférico entre Rusia y Escandinavia pudiera derivar en una entrada fría continental sobre Europa»

Cortesia de wikipedia, eltiempo e jdact

Com a devida vénia ao Doutor Roberto Granda

«Bloqueo atmosférico, vórtice polar o “bestia del este” son términos que estarás leyendo estos días. Son verdad? Qué relación guardan con las lluvias? Hace unos días analizábamos en esta noticia la posibilidad de que el poderoso bloqueo atmosférico entre Rusia y Escandinavia pudiera derivar en una entrada fría continental sobre Europa. Sin embargo, de dónde venía el término empleado, “bestia del este”? Además, qué relación guarda con el vórtice polar o el bloqueo atmosférico? Te lo contamos!

Vayamos por partes. Lo primero de todo es saber a qué nos referimos cuando hablamos de un bloqueo atmosférico. Este término gana peso en ciertas épocas del año, como verano o invierno. Sin embargo, qué es? Cuando los meteorólogos hablamos de bloqueo atmosférico hacemos referencia a una situación en la cual se genera un área de altas pressiones en superficie, generalmente acompanhada también de estabilidade en altura, en el nivel de los 500 hectopascales, doravante (hPa), (a unos 5500 metros). Las zonas atmosféricas de alta presión suelen perdurar en el tiempo, ya que son más robustas que las áreas inestables. Así pues, si un bloqueo se forma, condicionará la circulación atmosférica durante días o semanas. En este caso, hablamos de un bloqueo en altas latitudes, lo que puede modificar la circulación a escala de todo el hemisferio norte.

El bloqueo de diciembre de 2022

En esta ocasión, el bloqueo se ha iniciado entre Rusia y Escandinavia. Una fuerte zona de altas presiones se ha formado en dicha región, ganando intensidad con cada día. Con el paso de las jornadas, las previsiones indican que el bloqueo podría desplazarse hacia el oeste. Esto provocaría que, llegado el caso, se extendiera desde Groenlandia hasta Rusia.

El bloqueo anticiclónico limita los movimientos del aire. Esto, sumado a la innivación del suelo en estas fechas, hace que el aire junto a la superficie se enfríe rápidamente. Así pues, debajo de las altas presiones se forma una masa de aire frío, que a su vez retroalimenta al anticiclón (el aire frío es más denso que el cálido). Cuáles son las posibles consecuencias de este bloqueo atmosférico ruso-escandinavo en invierno? Los escenarios son múltiples, pero para el interés de España, suele haber dos escenarios principales (y en ocasiones compatibles): una potente entrada de aire frío continental (que en el pasado se ha llamado bestia del este) o la apertura del atlántico, con la llegada de lluvias.

La apertura del atlántico: NAO- y bloqueo

El escenario de las lluvias pasa por un bloqueo que se forme al sur de Groenlandia o se expanda hacia el oeste desde Escandinavia. Si lo hace, y además lo hace a la latitud adecuada, la circulación de las bajas presiones se verá forzada más al sur. De ser así, las lluvias llegarían a la Península Ibérica, con un ambiente templado y húmedo. Son estos episodios de NÃO (Oscilação do Atlântico Norte) acusada los que suelen traer las mayores lluvias a gran parte del país. El último gran episodio de NAO- fue el del invierno de 2009-2010, que dejó cantidades de lluvia muy elevadas.

  

Ahora bien, qué es la NAO? La NAO es la North Atlantic Oscillation (oscilación del Atlántico norte). Es un valor de teleconexión que se define en función de la presión atmosférica en el Atlántico norte. Si su valor es negativo, las bajas presiones circulan más al sur. Si es positivo, al contrario.

La entrada fría continental

Si el anticiclón de bloqueo se coloca adecuadamente, su disposición establecería un flujo de vientos del noreste sobre Europa. Esto trasladaría la masa de aire frío rusa hacia el resto del continente. Hace unos años, una de estas fuertes entradas fue llamada la bestia del este en Reino Unido. No es más que una forma de denominar a la entrada fría continental. Estas entradas de aire frío continental se caracterizan por traer temperaturas extremadamente bajas al continente Europeo, y suelen estar detrás de los récords de frío en muchas zonas del continente. Además, aunque la masa en origen es seca, su paso por océanos o la llegada de alguna borrasca desde el Atlántico puede provocar nevadas, especialmente en Europa occidental.

Y el Vórtice Polar?

El vórtice polar es una gran área de aire frío sobre el polo norte. El vórtice polar tiene dos partes: el vórtice polar estratosférico y el vórtice polar troposférico. El primero se ubica en la estratosfera, entre los 15 a 50 km. El segundo se sitúa en la troposfera, por debajo de los 15km. Cuando se habla del vórtice polar y sus rupturas, se suele hacer referencia al vórtice polar estratosférico. Esta zona de fuertes vientos y aire muy frío, contenida en el polo norte, puede ser determinante en el tiempo invernal. En condiciones normales se enfría (y acelera) a lo largo del invierno. Sin embargo, si produce un calentamiento súbito estratosférico (propiciado por fenómenos en la troposfera), el vórtice puede romperse. De romperse, su inestabilización puede propagarse a capas inferiores, afectando al vórtice polar troposférico y alterando la configuración atmosférica fuertemente. La otra parte del vórtice polar, la troposférica, suele hacer referencia al aire contenido al norte de la corriente en chorro (corrente de jacto) y a cierta altitud, en el caso del hemisferio norte. Las roturas de este vórtice troposférico tienen consecuencias rápidas, al cambiar los patrones atmosféricos a nivel hemisférico» .In  Roberto Granda, A “Besta de Leste”., Eltiempo, Wikipedia, Meteorologia, Espanha, 29 de Novembro de 2022.

Cortesia de Eltiempo/JDACT/

Roberto Granda, Meteorologia, JDACT, Conhecimento, Caso de Estudo, Cultura,

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Viagem a Portugal. José Saramago. «Ali, não é nada. É uma criatura a quem morreu a filha, e todos os dias vem aí a chorar para o cemitério. Uma exagerada. E quando sente alguém perto, é quando se põe aos gritos»

 

 jdact e cortesia de wikipedia

De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Tentações do Demónio

«(…) Há quem não garanta nada sem jurar, há quem se recuse a mais que sim sim, não não. Digamos que o viajante está no termo médio destas posições, e só por isso não faz juramento formal de apenas viajar, futuramente, por este tempo brumoso e de chuva, no Outono, quando o céu se esconde e as folhas caem. Belo é sempre o Verão, sem dúvida, com o seu sol, sua praia, sua latada de sombra, seu refresco, mas que se há-de dizer deste caminho entre florestas onde a bruma se esfarrapa ou adensa, às vezes ocultando o horizonte próximo, outras vezes rasgando-se para um vale que parece não ter fim. As árvores têm todas as cores. Se alguma falta, ou quase se esconde, é precisamente o verde, e quando ainda se mantém está já a degradar-se, a tomar o primeiro grau do amarelo, que começará por ser vivo em alguns casos, depois surgem os tons de terra, o castanho-pálido, logo escuro, às vezes a cor do sangue vivo ou coalhado. Estas cores estão nas árvores, cobrem o chão, são quilómetros gloriosos que o viajante gostaria de percorrer a pé, mesmo sendo tão longe de Bragança a Chaves, que é o seu primeiro destino de hoje.

Diz-se, em corrente estilo, que as árvores no nevoeiro são como fantasmas. Não é verdade. As árvores que aparecem entre estas névoas têm uma presença intensíssima, é como gente que vem à estrada e acena a quem passa. O viajante pára, olha para o vale, e tem uma impressão que pensaria não ser possível: gosta de nada ver, apenas esta brancura irreprimível, que mais adiante se tornará a rasgar para mostrar outra vez a floresta neste mundo quase desabitado que se prolonga até Vinhais. Porém, o melhor deste dia será a passagem do rio Tuela. Da ponte não tem o viajante memória, nem sequer do rio, talvez, e só, o espumejar da água entre as pedras, mas isto é o que tem para oferecer qualquer rio ou ribeira destes sítios. Aquilo que ao viajante não esquecerá enquanto viver é a sufocante beleza do vale neste lugar, nesta hora, nesta luz, neste dia. Talvez que em Agosto ou Maio, ou amanhã, tudo seja diferente, mas agora, exactamente agora, o viajante sabe que vive um momento único. Dir-lhe-ão que todos os momentos são únicos, e isso é verdade, simplesmente ele responde que nenhum outro é este. A bruma já se levantou, apenas sobre a crista dos montes se vão arrastando esfarrapadas névoas, e aqui o vale é um imenso e verde prado, com as árvores que o cortam e povoam em todas as direcções, fulvas, douradas, negras, e há um profundo silêncio, um silêncio total, raro, angustioso, mas que é necessário a esta solidão, a este minuto inesquecível. O viajante vai-se embora dali, não pode lá ficar para sempre, mas afirma e jura que, de uma certa maneira que nem sabe explicar, continua sentado na beira da estrada, a contemplar as árvores, a olhar esta primeira porta do paraíso.

Entre Vinhais e Rebordelo a chuva foi constante. Este caminho é uma festa que o céu acompanha enviando tudo quanto tem para mostrar. Agora começa a surgir entre as nuvens o primeiro azul-aguado, a primeira promessa de tréguas. E quando o viajante se aproxima de Chaves já é muito maior o espaço de céu limpo, as nuvens fazem a sua obrigação e aproveitam o vento alto, mas recolheram a chuva, são flotilhas de barcos de recreio a espairecer, todas de velas brancas e galhardetes. Aliás, bem está que assim seja: a veiga de Chaves não merecia outra coisa. Desdobrada nas duas margens do Tâmega, divide-se em canteiros cultivados com minúcia, trabalho de hortelão e ourives. O viajante, que vem de paisagens agrestes e rudezas primitivas, tem de habituar-se outra vez à presença do trabalho transformador.

Antes de entrar em Chaves, o viajante vai a Outeiro Seco, não mais do que três quilómetros para norte. Ali, logo à entrada da povoação, está a Igreja de Nossa Senhora da Azinheira, peça românica do século XIII, célebre muitas léguas em redor, não tanto pelos seus merecimentos arquitectónicos, ou também alguma coisa, mas sobretudo por a escolherem para celebração de matrimónios e baptizados as classes altas da região. Vão ali de Vila Real, de Guimarães, e até do Porto. À noite, quando as pedras podem falar sem testemunhas, deve haver grandes conversas entre elas, quem estava, quem casou ou saiu baptizado, como ia a noiva vestida e se a mãe dela chorava com a comoção natural das mães que vêem sair as filhas do seu regaço, hoje muito menos protector do que antigamente.

Estava o viajante neste seu filosofar de três um vintém, e ouvia distraidamente o resto das explicações que lhe dava a mulher da chave, desencantada da sua casa duzentos metros adiante, quando da parte de trás da igreja se levantou um alto choro, de mulher também, um ganido lancinante, como um gemido que de si próprio se queixasse. O viajante teve um arrepio e jura que se arrepiaram nas paredes as figuras dos frescos. Olhou surpreendido a mulher da chave e mais surpreendido ficou ao vê-la com um sorrizinho de troça nada próprio do lugar e da situação. Que é isto?, perguntou. E a mulher da chave respondeu: Ali, não é nada. É uma criatura a quem morreu a filha, e todos os dias vem aí a chorar para o cemitério. Uma exagerada. E quando sente alguém perto, é quando se põe aos gritos». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

 JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,

domingo, 27 de novembro de 2022

Viagem a Portugal. José Saramago. «Um dia um amigo pediu-lhe a farda emprestada, sem dizer para quê, mas eram amigos, e o soldado nem perguntou, o caso é que mais tarde…»

 jdact e cortesia de wikipedia

 De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

História do Soldado José Jorge

«(…) Está vista Bragança? Não está. Mais não se peça, porém, ao viajante, que tem outras terras a ver, como esta capazes de reter um homem para o resto da vida, não por particulares merecimentos, mas porque é essa a tentação das terras. E quando se diz para o resto da vida, diz-se também para além dela, como é o caso do soldado José Jorge, que vai contar-se. Antes se diga, para entendimento completo, que o viajante tem um gosto, provavelmente considerado mórbido por gente que se gabe de normal e habitual, e que é, dando-lhe a gana ou a disposição de espírito, ir visitar os cemitérios, apreciar a encenação mortuária das memórias, estátuas, lápides e outras comemorações e de tudo isto tirar a conclusão de que o homem é vaidoso mesmo quando já não tem nenhuma razão para continuar a sê-lo. Calhou estar o dia propício a estas reflexões, e quis o acaso que os passos vagabundos do viajante o encaminhassem ao lugar onde elas mais se justificam. Entrou, circulou pelas ruas varridas e frescas, ia lendo as inscrições cobertas pelos líquenes e roídas pelo tempo, e dando a volta inteira foi dar com uma campa rasa, isolada das pompas da congregação dos falecidos, na qual campa, rodeada por um berço, estava um dístico que assim rezava: Aqui Jaz José Jorge Foi Sentenciado à Morte em 3 de Abril de 1843. O caso era intrigante. Que morto célebre era este, com lugar marcado e ocupado há quase cento e quarenta anos, posto aqui ao pé do muro, mas não ao abandono, como se vê pelas letras pintadas de fresco, nítido branco sobre preto retinto? Alguém há-de saber. Mesmo ali ao lado estava a barraca do coveiro, e o coveiro lá dentro. Diz o viajante: Boas tardes. Pode dar-me uma informação? O coveiro, que estivera conversando com uma mulherzinha naquele suave tom transmontano, levanta-se do banco e põe-se às ordens: Se eu souber. Sabe, com certeza, é pergunta do ofício, parecia mal que não respondesse: Aquele José Jorge ali, quem era? O coveiro encolhe os ombros, sorri: Ah, isso é uma história muito antiga. Que o seja, não é novidade para o viajante, que bem viu a data. Prossegue o cavador desta vinha: Conta-se que era um soldado que viveu naquela época. Um dia um amigo pediu-lhe a farda emprestada, sem dizer para quê, mas eram amigos, e o soldado nem perguntou, o caso é que mais tarde apareceu uma rapariga morta e toda a gente começou a dizer que a tinha morto um soldado e que esse soldado era o José Jorge. Parece que o fardamento tinha ficado sujo de sangue, o José Jorge não conseguia explicar, ou não queria, por que tinha emprestado a farda. Mas se dissesse que a tinha emprestado, salvava a vida, diz o viajante, que se gaba de espírito lógico. Respondeu o coveiro: Isso não sei. Só sei o que me contaram, é uma história que já vem do meu avô, e do avô dele. Calou-se o José Jorge, o amigo não se apresentou, ruim amigo era, e o José Jorge foi enforcado e depois enterrado naquele sítio. Aqui há muitos anos quiseram levantar a campa, mas deram com o corpo em perfeito estado, tornaram a tapar, e nunca mais se lhe mexeu. Perguntou o viajante:  E quem é que lhe vai pintando aquelas letras tão bem-feitinhas? Isso sou eu, respondeu o coveiro.

O viajante agradeceu a informação e retirou-se. Recomeçara a chover. Ficou um momento parado à beira da grade, a pensar: Por que foi que nasceu este homem? Por que foi que morreu? O viajante tem muito destas perguntas sem resposta. Depois, confusamente, pensa que talvez tivesse gostado de ter conhecido este soldado José Jorge, tão confiante e calado, tão amigo do seu amigo, e enfim reconhece que há milagres e outras justiças, mesmo póstumas e de nenhum proveito, como esta de estar incorrupto cento e quarenta anos depois. Sai o viajante do cemitério, agarrado ao guarda-chuva, e desce para o centro da cidade, imaginando onde teria sido o local da forca, se aqui na praça principal, ou na cerca do castelo, ou nestes arrabaldes, e a cerimónia da execução, os tambores rufando, o pobre de mãos atadas e cabeça baixa, enquanto em Rio de Onor uma mulher estaria dando à luz uma criança e na igreja de Sacoias o padre baptizava outra. À noite o viajante foi visitar uns amigos e ficou até tarde. Quando saiu, enganou-se no caminho e foi dar à estrada de Chaves. Continuava a chover». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

 Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

A Obra Poética. José Pina Martins. «Os dois pastores do diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais…»

 

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«(…) Pessimismo antropológico e cosmológico até, mas nem sempre expresso através das formas literárias consuetas, dos achadilhos conceituosos da tese e da antítese, como em Petrarca e nos petrarquistas, da afirmação e da negação, da dúvida e da fé, da ilusão e da sua consciência lúcida (desilusão), da aceitação e da atitude inconformista, do crer e do duvidar. É talvez especificamente melódico o recurso à expressividade de um humorismo transcendente para significar a problemática da dor pelo próprio sujeito experimentada. A vocação do moralista ergue-o na passagem do concreto para a reflexão sentenciosa, mas sem um divórcio temático do aforístico em relação ao vivencial ou ao religioso.

Não raro, as fontes clássicas insinuam na palavra poética o recurso a uma erudição profundamente assimilada, mas porque o poeta sabe colocá-la no seu verdadeiro plano de arte ou de artifício, nunca a cultura abafa a experiência, e por isso nunca o artifício sábio ou técnico se sobrepõe à arte. Mas estamos em crer que os sonetos mais artisticamente valiosos de dom Francisco Manuel são os de tema predominantemente religioso, como Antes da Confissão. Já num outro estudo tivemos oportunidade para relevar os elementos essenciais de valorização estética desta composição e não vamos aqui repetir-nos. A palavra poética, nesta parte de As Segundas Três Musas, assume, como na Retórica renascentista, a plenitude de um valor directamente ligado ao humano. Não há dúvida de que uma tal poesia exprime, na arte, o próprio homem.

As Éclogas.

A Sanfonha de Euterpe, segunda parte de As Segundas Três Musas, é formada por éclogas e cartas. Já se observou que falta às primeiras o ambiente genuinamente pastoril que deveria caracterizar o género, mas nisto, como aliás na própria substância doutrinal, o Melodino segue a lição e o exemplo de Sá de Miranda, seu modelo também nas cartas.

A écloga Casamento, que integra o cap. II de PEM, é talvez, neste domínio, o exemplo mais representativo. O tema era muito do agrado do nosso autor, que o tratou também na Carta de Guia de Casados.

Os dois pastores do diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais. O cura, discreto e avisado segundo o cânone do ideal normativo da época, concilia as duas opiniões de acordo com um ideal de equilíbrio e moderação. A lição do meio termo é igualmente preconizada nas éclogas Temperança e Rústica. Mediano, aliás, é o nome de um dos interlocutores de Temperança, cujo conselho, de resto, pode resumir-se nos dois versos que, com outros, se encontravam gravados no templo aonde os dois pescadores (Afouto e Medroso) são levados por Mediano: Caminha sempre a um justo fim direito, / fugindo todo extremo perigoso. E assim como, em Basto, Gil exprime as ideias de Sá de Miranda, na écloga Rústica, por exemplo, Cremente tem palavras cujo tom de pessimismo profundo e sentido reflecte a experiência dolorosa de dom Francisco Manuel de Melo. A lição de moralidade, que informa o suco didáctico das éclogas, não apagou o sinete autêntico de transposição da vida vivida na palavra poética. Mas as cartas são, a este respeito, ainda mais interessantes.

[...]» In José Pina Martins, A Obra Poética de D. Francisco Manuel de Melo, HALP 31, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, ISSN 1645-5169.

Cortesia de FCGulbenkian/JDACT

JDACT, José Pina Martins, Isabel Allegro Magalhães, Poesia, D. Francisco Manuel de Melo, Século XVII,

terça-feira, 22 de novembro de 2022

A Obra Poética. José Pina Martins. «Os estudiosos mais sérios da nossa terra insistem em ver em As Segundas Três Musas de Melodino, insertas na segunda parte do grosso volume das Obras Métricas (Lyon, 1665)…»

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«Dom Francisco Manuel Melo (1608-1666) ocupa de há muito tempo, como prosador, um lugar eminente na história da literatura portuguesa. São poucos, porém, os críticos que tenham consagrado à sua obra poética a atenção que ela merece. Já alhures escrevemos que a minimização do valor poético de dom Francisco Manuel Melo é, não raro, o resultado de posições apriorísticas ou ideias preconcebidas. Os estudiosos mais sérios da nossa terra insistem em ver em As Segundas Três Musas de Melodino, insertas na segunda parte do grosso volume das Obras Métricas (Lyon, 1665), mais um produto do talento multiforme do autor, do que a expressão literária autêntica de uma experiência humana profundamente sentida e vivida. Estamos em crer que, salvo poucas e honrosas excepções, podem contar-se pelos dedos aqueles que algum dia tenham contactado, em convívio diuturno, o mundo poético do Melodino, pois, de contrário, ter-se-iam logo apercebido do valor estético ímpar de algumas composições. Entre aqueles que, entre nós, estudaram a poesia de dom Francisco Manuel, merecem ser distinguidos José Pereira Tavares que, em 1921, nos deu uma edição antológica das suas Rimas Portuguesas e Orações Académicas, e, mais recentemente, António Correia de A. Oliveira, que ao nosso autor consagrou vários estudos de valor excepcional. Outros  investidores se têm ocupado do Melodino, nomeadamente Hernâni Cidade e Maria de Lourdes Belchior, com invulgar argúcia e erudição: mas não em trabalhos monográficos, ex professo dedicados à sua poesia.

Não nos cabe, estudar mais ou menos detidamente As Segundas Três Musas, mas só dedicar-lhes um antelóquio superficial: a poesia apresentar-se-á por si mesma, no valor genuíno da sua significação humana e estética. Seja-nos, contudo, lícito pôr em relevo um ou outro aspecto temático e de técnica formal mais digno de realce, principalmente numa perspectiva de pesquisa dos valores de fidelidade artística da palavra significante à sua carga vital de significado. Corresponde, então, a poesia do Melodino às dores da experiência vivencial expressa poeticamente? Cumpre-nos aqui observar, in limine, que o prisioneiro da Torre Velha fez da sua vida um poema, ou melhor, a sua vida está toda ela, com o sinete de uma experiência dolorosa, nalguns dos seus poemas. Documentá-lo é, porventura, mais fácil do que enunciá-lo.

Os Sonetos

A primeira parte de As Segundas Três Musas é formada por 100 sonetos, alguns deles documentos interessantes de engenhoso conceptismo, com profusão de imagens requintadas e metáforas de elaboração aguda. Nascem, assim, obscuridades e ambiguidades intencionais, bem de acordo com os preceitos da doutrina barroca. Não obstante tudo isso, que é afinal o tributo pago pelo autor à moda do tempo, já um crítico de grande autoridade foi levado a escrever que o nosso poeta preanuncia, nesta parte da sua obra, a lira anteriana. Quer tratando o tema da liberdade individual, ele que se encontrava prisioneiro na Torre e bem conhecia os grilhões da vida cortesã, quer repetindo alguns tópicos do petrarquismo numa poesia amorosa que, apesar da imitação, ostenta o sinete de uma visível originalidade, dom Francisco Manuel consegue superar os esquemas artificiais de uma arte toda voltada para a quinta essência do jogo dialéctico e do brinco subtil.

Não raro o tom vagamente preceptivo e normativo identifica-se com o epigramático: aliás o poeta hauria a lição em fontes autênticas, como são as da sabedoria popular que exprime o mais saboroso do seu suco em provérbios e ditos exemplarmente concisos. Também a consciência do tempo breve, da fugacidade da vida, da efemeridade das coisas, na certeza de que viver é peregrinar na terra do exílio, tem em dom Francisco Manuel um intérprete inspirado, a despeito da dificuldade de um tal tratamento poético, já então exemplarmente fixado em obras-primas consagradas como as de Sá Miranda e Camões, para só referirmos dois nomes da literatura portuguesa que lhe serviram de modelos e de mestres». In José Pina Martins, A Obra Poética de D. Francisco Manuel de Melo, HALP 31, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, ISSN 1645-5169.

Cortesia de FCGulbenkian/JDACT

JDACT, José Pina Martins, Isabel Allegro Magalhães, Poesia, D. Francisco Manuel de Melo, Século XVII, 

O Manual dos Inquisidores. António Lobo Antunes- «Pode sentar-se os lobos da Alsácia que se evaporavam a galope na casa tombando cadeiras, rasgando sofás, destruindo reposteiros, que regressavam ao jardim num temporal de caçarolas…»

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«(…) Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão o meu pai de chávena de chá, a viúva do farmacêutico a alimentar de pedacinhos de biscoito o cãozito horrível, e a minha sogra não furiosa, não indignada, indulgente  Que pena o seu pequeno não lhe ter herdado o sentido de humor Francisco o mar a seguir às palmeiras, e as gaivotas no pontão sossegadas e brancas tão diferentes dos corvos desgrenhados da quinta Que pena o seu pequeno não lhe ter herdado o sentido de humor Francisco o meu pai calado esmiuçando as cunhadas do bridge na paciência aborrecida com que examinava as vacas no estábulo, a raspar crostas das botas com o canivete e no entanto eu gostava de si pai, gostava de si, não fui capaz de dizer-lhe mas gostava de si, a mãe da Sofia a oferecer torradas que o meu pai não se dava ao trabalho sequer de recusar ocupado com o lodo das solas, a mãe da Sofia, solícita O meu irmão Pedro procurou-o várias vezes por problemas lá do banco quando você foi secretário de Estado lembra-se do Pedro com certeza e no tribunal em Lisboa o advogado para mim O juiz chamou senhor engenheiro o advogado preocupado, inquieto, implorativo, com os cheviotes subitamente baratos e ruços, o corte de cabelo subitamente vulgar aparado por um barbeiro de vão de escada da Penha de França ou da Amadora Não abra a boca durante o julgamento senhor engenheiro não se ponha com essas histórias de patrão um corredor com empregados que escreviam à máquina, convocatórias e avisos que proibiam fumar num painel de cortiça, pessoas à espera e ao fim do corredor uma prateleira de livros, um calendário de parede, dossiers no soalho, uma mesa de repartição pública preenchida por códigos e processos e o juiz entrincheirado de caneta em riste por detrás das leis como para se defender de nós, idêntico a um mestre-escola com a metade inferior da cara oculta por tratados com farpas de cartão a marcarem as páginas, fitando-me como se pedisse desculpa tal como fitei o meu pai quando na semana seguinte ou duas semanas depois da revolução (soldados marchas militares armas prisões a minha sogra e as cunhadas em Espanha em hotéis de terceira ordem nos arredores de Madrid sem malas de viagem sem passaporte apavoradas tentando ligar para Lisboa sem que lhes respondessem tentando ligar para a herdade e os camponeses a insultarem-nas aos berros a minha sogra e as cunhadas em Espanha com vários casacos de peles uns por cima dos outros com vários relógios de ouro em cada pulso e os irmãos da minha sogra humilhados por civis de pistola na companhia de seguros humilhados por civis de pistola no Guincho os irmãos da minha sogra transportados em camionetas de talho para Caxias para Peniche para Vale de Judeus) tal como fitei o meu pai quando na semana seguinte ou duas semanas depois da revolução nos chamou à quinta, à Sofia, aos miúdos e a mim e tinha trancado as janelas e aferrolhado os quadros e as pratas, solto os lobos da Alsácia dos canis e despedido as criadas e nos esperava no topo da escada, de caçadeira no sovaco e os bolsos inchados de cartuchos, o meu pai que continuava a fumar cigarrilhas de chapéu na cabeça O primeiro comunista que se atrever a entrar leva um tiro nos cor… a ameaçar com a caçadeira o pântano, o celeiro, o pomar e a azinhaga de ciprestes, os lobos da Alsácia a rebolarem nos canteiros decepando os narcisos O primeiro comunista que se atrever a entrar leva um tiro nos cor… e o advogado baixinho Pode sentar-se os lobos da Alsácia que se evaporavam a galope na casa tombando cadeiras, rasgando sofás, destruindo reposteiros, que regressavam ao jardim num temporal de caçarolas e panelas, com pedaços de almofadas, de cortinas, de toalhas e o meu pai disparando contra o susto dos corvos O primeiro comunista que se atrever a entrar leva um tiro nos cor…» In António Lobo Antunes, O Manual dos Inquisidores, 1996, Publicações Dom Quixote, Grupo Leya, 1996, ISBN 978-972-204-234-5.

Cortesia de PDQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, O Saber,

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

O Manual dos Inquisidores. António Lobo Antunes. «O menino é parvo ou faz-se?, o palacete do Estoril onde acompanhei o meu pai vestido como um camponês, de corrente de cobre, botas de carneira…»

 

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«(…) Nunca devia ter tirado o chapéu da cabeça para que se soubesse quem era o patrão e o advogado do vértice dos cheviotes sem entender Como?, o advogado parecido com os advogados, os banqueiros, os gestores, os deputados e os ministros que chegavam à quinta no tempo do meu pai, invisíveis nos vidros opacos de um cortejo de automóveis fúnebres avançando pelo caminho de ciprestes que separava o portão da casa, me faziam uma festa distraída no queixo comentando sem me verem Como tu cresceste se fechavam na sala do piano a tarde inteira com as criadas de luvas brancas num corrupio de bandejas, a governanta a mandar-me brincar para as traseiras, o caseiro a afugentar os corvos e a calar os cães, os advogados, os banqueiros, os gestores, os deputados e os ministros que regressavam já de noite aos seus carros imensos, desapareciam na estrada de Lisboa e o meu pai esquecido deles, voltado para a respiração do pântano onde as últimas rolas se sumiam, a Sofia a passar por mim com a desenvoltura desdenhosa da mãe e o advogado sem entender inclinando-se para escutar melhor Perdão?, eu não no tribunal, na quinta, a dirigir-me ao meu pai entre o choro das rãs Nunca devia ter tirado o chapéu da cabeça para que se soubesse quem era o patrão e o advogado com o espanto das sobrancelhas pegando-se à raiz dos cabelos Perdão?, como se dissesse, possesso, não ali no tribunal, no Estoril, no bridge do Estoril diante da janela para as palmeiras do Casino olhando o candeeiro de globo que eu acabara de quebrar O menino é parvo ou faz-se?, o palacete do Estoril onde acompanhei o meu pai vestido como um camponês, de corrente de cobre, botas de carneira, um chapéu velho na cabeça e a cigarrilha nos dentes, o meu pai que deixou o Nash na garagem com chofer fardado a puxar lustro aos cromados e convocou único táxi de Palmela conduzido por uma espécie de palhaço de pala de verniz parando em todas as tabernas com o pretexto de descansar o motor e demorando-se horas entre parreiras e moscas, o meu pai acompanhado pela viúva do farmacêutico escondida atrás de um camaféu de madrepérola e de um leque sevilhano a que faltavam varetas, com um cãozinho microscópico a latir-lhe guinchos no colo, a viúva e eu torrando dentro do táxi que cheirava a caixa de sapatos antiga e o meu pai e o palhaço de pala de verniz a chuparem calicezinhos e a esfriarem o radiador com abanos de trança, enodoados de fuligem, de forma que alcançámos o Estoril muito depois do almoço quando tinham desistido de esperar-nos e jogavam bridge no terraço sobre a praia e as gaivotas, e a minha sogra em lugar de indignar-se com a falta de educação do meu pai que empurrava a viúva e o cãozito microscópico protegido por uma capa de lã casa adentro O menino é parvo ou faz-se?, deixando o palhaço no pátio a cambalear nas hortênsias e a enroscar e a desenroscar o motor do táxi que trepidava explosões e agonias, o meu pai de chávena de chá na mão a mirar a mãe da Sofia e as cunhadas com a pálpebra sonolenta com que mirava a cozinheira, a filha do caseiro, as ciganas, as criadas, sem tirar o chapéu da cabeça nem deixar de fumar, que dali a nada empurraria uma delas para o primeiro quarto livre a fim de lhe erguer a saia e achatar as nádegas contra um armário ou uma cómoda cujas gavetas gemiam, informando quem quer que entrasse» In António Lobo Antunes, O Manual dos Inquisidores, 1996, Publicações Dom Quixote, Grupo Leya, 1996, ISBN 978-972-204-234-5.

Cortesia de PDQuixote/JDACT

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domingo, 20 de novembro de 2022

Levantado do Chão. José Saramago. «Do sul, ao encontro deles, vinha uma enorme massa de nuvens, densa e enrolada, sobre a planície cor de palha. O caminho mergulhava a direito, mal definido entre os valados que se esboroavam, rasoira pelos ventos do descampado»

 

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Começou-lhes a chover para o fim da tarde, com o sol meio palmo acima dos cabeços baixos, à mão direita, estavam portanto as bruxas a pentear-se, que este é o tempo que escolhem. O homem fez parar o burro, e com o pé, para o aliviar da carga no teso da encosta breve, empurrou uma pedra até à roda da carroça. Esta chuva, que ideia terá dado ao regedor das celestes águas, não é da estação. Por isso há tanta poeira no caminho e alguma bosta seca ou bonicos de cavalo, que por longe de lugares habitados ninguém veio apanhar até aqui. Nenhum rapazito de cesta enfiada no braço se aventurou tão longe no rabisco do estrume natural, colhendo cuidadoso com as pontas dos dedos a esfera estaladiça, às vezes fendida como um fruto maduro. Sob a chuva, o chão pálido e quente salpicou-se de estrelas escuras, súbitas, caindo surdamente na poeira fofa, e depois uma pancada de água deu de chapa e alagou. Mas a mulher tivera tempo de tirar a criança da carroça, do côncavo que o enxergão de riscas fazia entre duas arcas. Aconchegou-a ao peito, cobriu-lhe a cara com a ponta desatada do lenço, e disse, Não acordou.

De cuidados foi este o primeiro, outro logo, Vai-se molhar tudo. O homem estava a olhar para as nuvens altas, a franzir o nariz, e decidiu em seu saber de homem, Isto passa, é aguaceiro, mas por sim por não desenrolou uma das mantas, estendeu-a por cima dos móveis, Logo hoje havia de chover, raios partam. Um rufo de vento fez correr as gotas agora esparsas. O burro sacudiu com força as orelhas quando o homem lhe assentou uma palmada no lombo, deu um esticão aos varais, e o homem ofereceu sua ajuda empurrando na roda. Recomeçaram a subir a pequena ladeira. A mulher seguia atrás, com o filho ao colo, e gostosa do sossego do infante espreitou-lhe o rosto, murmurando, Meu menino. De um lado e do outro do caminho carreteiro, a terra era de mato, com algumas azinheiras perdidas e sufocadas até meio tronco, ao abandono ou acaso ali nascidas. As rodas da carroça calcavam a terra molhada, faziam um ruído áspero de trituração, e de vez em quando batiam uma pancada bruta, de ressalto, se uma pedra levantava o ombro. Os móveis rangiam debaixo da manta. O homem, ao lado do burro, com a mão direita pousada no varal, seguia calado. E assim chegaram ao alto da encosta.

Do sul, ao encontro deles, vinha uma enorme massa de nuvens, densa e enrolada, sobre a planície cor de palha. O caminho mergulhava a direito, mal definido entre os valados que se esboroavam, rasoira pelos ventos do descampado. Ao fundo, ia juntar-se a uma estrada larga, maneira ambiciosa de dizer em terras de tão má serventia. Para a esquerda, quase no roço do horizonte rebaixado, uma pequena povoação virava a poente as paredes brancas. A planície era imensa, como já foi dito, lisa, arrasada, raras azinheiras isoladas ou aos pares, e pouco mais. Daquela pequena altura, não era difícil acreditar que o mundo não tem fim conhecido. E a povoação, lugar de destino, vista dali, à luz amarelada e sob a grande placa de chumbo das nuvens, parecia inatingível. São Cristóvão, disse o homem. E a mulher, que nunca viajara tanto para o sul, Monte Lavre é maior, pareceu só um dizer de comparação, seria talvez saudade. Iam a meio da encosta quando a chuva voltou. Caíram primeiro umas bagadas grossas, ameaça de cordas de água, onde é que já ia o aguaceiro. Depois o vento rapou a planície, varejou-a toda como uma vassoura, levantou a palha e o pó, e a chuva avançou do horizonte, cortina parda que em pouco tempo ocultou a paisagem distante. Era uma chuva regular, daquelas que vêm para muitas horas, caindo e alagando, chegou e não se vai embora, e quando a terra já não pode com tanta água, nem cuidamos de saber se é o céu que nos molha, se a terra que nos encharca. O homem tornou a dizer, Raios partam, são os desabafos da humanidade quando outros de melhor consonância se não aprenderam. Estão longe os abrigos, mesmo sem horta nas costas, não há outro remédio que receber nelas quanta chuva caia. Dali à povoação, com este passo de burro que vem cansado e vai de pouca vontade, não será menos de uma hora de caminho, e entretanto se fará noite. A manta, que mal protege os móveis, escorre, empapada, pinga-lhe a água dos fios brancos, como estarão por baixo as roupas dentro das arcas, os parcos bens migratórios desta família que por suas razões vai atravessando o latifúndio. A mulher olha o céu, é um jeito antigo e rural de ler esta grande página aberta sobre a nossa cabeça, agora a ver se estava aclarando o ar, e não estava, antes mais carregado de tinta escura, não temos outra tarde. A carroça corre lá adiante, é um barco a dar de bordo no dilúvio, vai cair tudo, parece que de propósito o homem está sovando o burro, e é só a pressa de alcançar aquela azinheira, sempre nos resguardamos da maior. Já lá chegaram, homem, carroça e burro, e ainda a mulher aqui vai, patinhando na lama, não pode correr, acordaria a criança, assim é o mundo feito que não se apercebem uns do mal dos outros, mesmo quando tão perto estão como mãe e filho». In José Saramago, Levantado do Chão, Editorial Caminho, 1980, ISBN 978-972-212-236-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT

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