segunda-feira, 24 de junho de 2019

Júlio Dinis. Poesias. Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho). «Tudo isso era ilusão, simples quimera, que aos vinte anos sonhamos acordados; curta página a sorte te escrevera…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A meu irmão
«Também tu, meu irmão, inda aos vinte anos,
Dizes ao mundo teu extremo adeus!
Deixas-me só e partes!, os arcanos
Vais da vida sondar aos pés de Deus?
Inda há bem pouco aspirações ridentes,
Despertadas ao sol da juventude,
Te apontavam futuros resplendentes
De mil glórias, de amor e de virtude.
Há pouco em devaneios tão risonhos,
Cantavas em sentida poesia
As meigas ilusões, dourados sonhos
Que te adejavam sempre à fantasia.
Há pouco tu julgavas do horizonte
Ver dum belo porvir sorrir-te a aurora,
Bem como a áurea luz c’roando o monte,
Do Sol precede a chama animadora.

Tudo isso era ilusão, simples quimera,
Que aos vinte anos sonhamos acordados;
Curta página a sorte te escrevera
No grande livro incógnito dos fados
E enquanto descuidado te entregavas
Aos sonhos da exaltada fantasia,
Sob a flores vereda que trilhavas
A morte, a fria morte, se escondia!
Tu viste uma por uma emurchecerem
As mais viçosas flores da tua vida;
E as esperanças seu verdor perderem
Com a aridez da existência desflorida.
E a vida te pareceu áspero deserto,
Assim desguarnecida de ilusões,
De laços materiais cedo liberto
Remontaste às celestes regiões.

Não te lamento, irmão; a tua sorte,
Ao que padece, inveja só produz;
Porque às trevas finais da hora da morte
Seguem-se anos sem fim de imensa luz.
Eras justo, no Céu gozas a palma,
Que ao mundo, aqui debalde pedirias,
E os anjos acolheram a tua alma
Num coro de suaves harmonias.
Mas eu, que te amei, p’ra quem tu eras
Mais que irmão, mais que pai, mais que amigo,
Eu, a quem desde infante ofereceras,
P’ra suprir o de mãe fraterno abrigo.

Mais infeliz fui eu; junto a meu lado
Vago está o lugar que abandonaste.
Vivo só, com as saudades do passado,
Do tempo que de encantos povoaste.
Nesta acerba aridez do meu presente
Recordo-me da vida que passou,
E bem vejo que a sorte fatalmente
Na vida do infortúnio me lançou.
Como a do nauta desditosa sorte,
Que o mar arrosta em tormentosa viagem,
E viu nas ondas que enfurece a morte
Sucumbir todo o resto da equipagem;
Tal o destino meu; entrei no mundo
E saudei-o com hinos de alegria;
Nos êxtases dum júbilo profundo,
O dom da vida a Deus agradecia.
[…]
In Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho), Poesias, 1859, Publicações Europa-América, 2010, ISBN 978-972-104-585-9
.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

domingo, 23 de junho de 2019

Poemas de Alberto Caeiro Fernando Pessoa. «Ao entardecer, debruçado pela janela, e sabendo de soslaio que há campos em frente, leio até me arderem os olhos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Guardador de Rebanhos
«(…) O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...»
In Alberto Caeiro, Poemas Completos, Fernando Pessoa, Editorial Presença, 2000, ISBN 978-972-232-422-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Poemas Completos de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. «Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo, e a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma... Quem dera que houvesse um terceiro estado p’ra alma, se ela tiver só dois...»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Casa Branca Nau Preta
«(…) Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se...
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro...
Não existe manhã para o meu torpor nesta hora...
Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim...
Há uma interrupção lateral na minha consciência...
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par...
Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,
E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma...

Quem dera que houvesse
Um terceiro estado p’ra alma, se ela tiver só dois...
Um quarto estado p’ra alma, se são três os que ela tem...
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir...
As naus seguiram,
Seguiram viagem não sei em que dia escondido,
E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,
Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho...

Árvores paradas da quinta, vistas através da janela,
Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo,
Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las,
Não poder eu fazer qualquer coisa género haver árvores que deixasse de doer,
Não poder eu coexistir para o lado de lá com estar-vos vendo do lado de cá.
E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão...

Que sonhos?... Eu não sei se sonhei... Que naus partiram, para onde?
Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteira
Naus partem, naus não, barcos, mas as naus estão em mim,
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

Quem pôs as formas das árvores dentro da existência das árvores?
Quem deu frondoso a arvoredos, e me deixou por verdecer?

Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele,
Sentir sem auxílio de poder para quando quiser, e o mar alto
E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir... Não há, substância de pensamento na matéria de alma com que penso...
Há só janelas abertas de par em par encostadas por causa do calor que já não faz,
E o quintal cheio de luz sem luz agora ainda-agora, e eu.

Na vidraça aberta, fronteira ao ângulo com que o meu olhar a colhe
A casa branca distante onde mora... Fecho o olhar...
E os meus olhos fitos na casa branca sem a ver
São outros olhos vendo sem estar fitos nela a nau que se afasta.
E eu, parado, mole, adormecido,
Tenho o mar embalando-me e sofro...

Aos próprios palácios distantes a nau que penso não leva.
As escadas dando sobre o mar inatingível ela não alberga.
Aos jardins maravilhosos nas ilhas inexplícitas não deixa.
Tudo perde o sentido com que o abrigo em meu pórtico
E o mar entra por os meus olhos o pórtico cessando.

Caia a noite, não caia a noite, que importa a candeia
Por acender nas casas que não vejo na encosta e eu lá?

Húmida sombra nos sons do tanque nocturna sem lua, as rãs rangem,
Coaxar tarde no vale, porque tudo é vale onde o som dói.
Milagre do aparecimento da Senhora das Angústias aos loucos,
Maravilha do enegrecimento do punhal tirado para os actos,
Os olhos fechados, a cabeça pendida contra a coluna certa,
E o mundo para além dos vitrais paisagem sem ruínas...

A casa branca nau preta...
Felicidade na Austrália...»
In Fernando Pessoa, Poemas Completos de Álvaro de Campos, Tinta da China, 2014, ISBN 978-989-671-232-7.

Cortesia de TintadaChina/JDACT

sábado, 22 de junho de 2019

A Herdeira. Sydney Sheldon. «Quero que estejam a caminho dentro de trinta minutos. Entregou a Kafir uma cópia do telegrama que havia redigido. Qualquer pessoa que fizer algum comentário…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Istambul, Sábado, 5 de Setembro. 22 horas
«(…) Durante os nove anos em que vivera sob a direcção de Sam Roffe, Rhys Williams se tornara de valor inestimável para a companhia. Com o correr do tempo, assumira responsabilidades cada vez maiores, reorganizando várias divisões, resolvendo problemas em qualquer ponto do mundo, coordenando as diversas filiais da Roffe and Sons e criando novos conceitos. No fim, Rhys Williams conhecia o funcionamento e a situação da companhia mais do que qualquer pessoa, à excepção do próprio Sam Roffe. Rhys Williams era o sucessor natural para a presidência. Um dia, quando Rhys e Roffe voltavam de Caracas num luxuoso Boeing 707-320, que fazia parte da frota de oito aviões da companhia, Sam Roffe felicitou Rhys por uma transacção lucrativa que ele havia fechado com o governo. Vai ganhar uma boa gratificação por isso, Rhys.
Rhys respondeu calmamente: não quero gratificação, Sam. Prefiro algumas acções e um lugar na sua administração. Merecia isso, decerto, e os dois sabiam disso. Mas Sam respondeu: sinto muito, mas não vou alterar os meus princípios, nem mesmo por sua causa. A Roffe and Sons é uma empresa privada e ninguém que não seja da família pode pertencer à administração ou possuir acções. Rhys sabia disso, sem dúvida. Comparecia a todas as reuniões da companhia, mas não como participante. Sam era o último elemento masculino da família Roffe. As outras pessoas da família eram todas mulheres, primas de Sam. Os homens com quem elas haviam casado tinham um lugar na administração da companhia: Walther Gassner, que se casara com Anna Roffe; Ivo Palazzi, casado com Simonetta Roffe; Charles Martel, casado com Hélsne Roffe e Alec Nichols, cuja mãe fora uma Roffe. Rhys fora assim forçado a tomar uma decisão. Sabia que merecia fazer parte da administração e que um dia dirigiria tudo. As circunstâncias actuais impediam isso, mas elas podiam ser alteradas.
Rhys tinha decidido continuar à espera, para ver o que acontecia. Sam lhe ensinara a ser paciente. E agora Sam estava morto. As luzes do escritório acenderam-se de novo e Hajib Kafir apareceu à porta. Kafir era o gerente de vendas da Roffe and Sons na Turquia. Era um homem baixo e moreno, que usava diamantes e uma barriga gorda com atributos de prestígio pessoal. Tinha o ar desmazelado de um homem que se vestia as pressas. Sophie não o encontrara, portanto, numa boite. Outro efeito secundário da morte de Roffe, pensou Rhys: um coito interrompido. Rhys!, exclamou Kkafir. Nunca imaginei que ainda estivesse em Istambul!
Quando o deixei, ia tomar o avião e, como eu tinha alguns casos para resolver... Sente-se, Hajib, e ouça com muita atenção. Quero que mande quatro telegramas no código da companhia. São para países diferentes. Quero que sejam levados pessoalmente para o telégrafo por mensageiros de confiança. Entendeu? É claro, disse Kafir, espantado. Entendi perfeitamente. Rhys olhou para o fino relógio de ouro Baume & Mercier que tinha no pulso. A agência da Cidade Nova já está fechada. Passe os telegramas pelo Yeni Posthane Cad. Quero que estejam a caminho dentro de trinta minutos. Entregou a Kafir uma cópia do telegrama que havia redigido. Qualquer pessoa que fizer algum comentário será sumariamente despedida. Kafir viu o telegrama, os seus olhos se arregalaram. Meu Deus! Meu Deus! Como pode acontecer uma coisa dessas? Sam Roffe morreu num acidente, disse Rhys». In Sydney Sheldon, A Herdeira, Edições ASA, 2018, ISBN 978.989-234-299-3.

Cortesia de EASA/JDACT

Néfer. O Silencioso. A Pedra da Luz. Christian Jacq. «Quem és tu? Chamo-me Ardente e quero bater à porta da confraria do Lugar de Verdade. Tens um salvo-conduto? Não. Quem te recomenda? Ninguém»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) És incapaz de me compreender, pai. É inútil continuar esta conversa. O agricultor atirou a cebola para longe. Agora basta. És meu filho e deves-me obediência. Adeus. Ardente voltou as costas ao pai, que agarrou num cabo de ferramenta de madeira e lhe bateu nas costas. O rapaz voltou-se lentamente. O que o camponês viu nos olhos do jovem colosso aterrorizou-o e recuou até à parede. Uma mulherzinha enrugada saiu da arrecadação onde se tinha escondido e agarrou-se ao braço direito do filho. Não agridas o teu pai, suplico-te! Ardente beijou-a na testa. Tu também não, mãe, tu também não me compreendes, mas não te quero mal por isso. Descansa, vou-me embora e nunca mais voltarei. Se saíres desta casa, preveniu-o o pai, deserdo-te! Estás no teu direito. Vais acabar na miséria! O que me importa? Quando franqueou o limiar da casa familiar, Ardente soube que nunca mais ali voltaria. Metendo pelo caminho que seguia ao lado de um campo de trigo, o rapaz respirou fundo. Um mundo novo abria-se à sua frente.

Ardente saiu da zona cultivada para se dirigir ao Lugar de Verdade. Nem as queimaduras do sol nem a aridez do deserto o assustavam. E o rapaz queria tentar o que fosse possível: talvez bater à porta da aldeia fizesse com que ela se abrisse. Naquele fim de manhã não havia ninguém na via pisada pelos cascos dos burros que, todos os dias, traziam à confraria água, alimentos e tudo aquilo de que ela tinha necessidade para trabalhar longe dos olhos e dos ouvidos. Ardente amava o deserto. Gostava da sua força implacável, sentia-lhe a alma vibrar em uníssono com a sua e caminhava dias inteiros sem se cansar, saboreando o contacto dos pés nus com a areia ardente. Mas desta vez o rapaz não foi longe. O primeiro dos cinco fortins que garantiam a protecção do Lugar de Verdade barrou-lhe o caminho. Como Ardente tinha notado os vigias que não tiravam os olhos dele, foi direito ao obstáculo. Mais valia enfrentar os guardas e saber o que podia esperar. Dois archeiros saíram do fortim. Ardente continuou a avançar, com os braços ao longo do corpo para mostrar bem que não estava armado. Alto! O rapaz imobilizou-se. O mais velho dos dois archeiros, um núbio, dirigiu-se para ele. O outro colocou-se de lado, esticou o arco e visou-o. Quem és tu? Chamo-me Ardente e quero bater à porta da confraria do Lugar de Verdade. Tens um salvo-conduto? Não. Quem te recomenda? Ninguém. Estás a fazer troça de mim, meu rapaz? Sei desenhar e quero trabalhar no Lugar de Verdade. Esta zona é interdita, devias saber. Quero encontrar-me com um mestre artesão e provar-lhe as minhas qualidades. Eu tenho ordens. Se não te fores embora imediatamente, prendo-te por ofensa à força pública.
Não tenho más intenções... Deixem-me tentar a sorte! Desaparece! Ardente lançou um olhar às colinas circundantes. Não tenhas esperança de te esgueirares por ali, avisou o archeiro núbio. Serias abatido. Ardente teria podido atacar o polícia com um murro, atirar-se ao chão para evitar a flecha do colega e depois tentar forçar a passagem. Mas quantos archeiros teria que afastar do seu caminho antes de chegar à porta da aldeia? Desapontado, voltou para trás. Logo que ficou fora da vista dos vigias, sentou-se numa rocha, decidido a observar o que se passava naquele caminho. Havia de encontrar uma ideia para conseguir. A mãe de Ardente chorava há horas sem que as filhas a conseguissem consolar. O pai tinha sido obrigado a contratar três camponeses para substituírem o jovem colosso. Furioso, sem deixar de se sentir encolerizado contra o filho indigno, fora ao escrivão público para ditar uma carta dirigida ao gabinete do vizir. Anunciando a sua decisão em termos implacáveis e definitivos, o agricultor decretava, como lhe permitia a lei, que deserdava Ardente e que a totalidade dos seus bens seriam para a esposa que deles faria uso como entendesse. Se ela morresse antes dele, as três filhas herdariam em partes iguais». In Christian Jacq, A Pedra da Luz, Néfer, O Silencioso, Bertrand Editora, 2000, ISBN-978-972-251-135-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Pedra da Luz. A Mulher Sábia. Christian Jacq. «Nomeado pelo vizir com a aprovação do Faraó, o escriba do Túmulo estava sobrecarregado de trabalho. Competia-lhe velar pela prosperidade da aldeia»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Era por isso que o escriba do Túmulo esperava todas as manhãs, não sem impaciência, a chegada dos transportadores de água cujos pesados potes permitiam encher as enormes ânforas de barro rosado, cozido de forma homogénea e recoberto com um vidrado amarelo-pálido ou vermelho-escuro, dispostas nas ruelas da aldeia. ao abrigo de proteções a fim de que a frescura do precioso líquido fosse preservada. Algumas dessas ânforas tinham inscritos os nomes de Amenhotep I, de Tutmés III ou da Rainha-Faraó Hatchepsut e serviam para recordar que os soberanos se preocupavam com o bem-estar dos habitantes do Lugar de Verdade. O regulamento era rigoroso: os carregadores despejavam a água pura, várias vezes por dia, em dois reservatórios, um a norte da aldeia e o outro a sul. Os aldeões vinham buscá-la com jarros para encherem as ânforas do interior cujo conteúdo utilizavam para beber, se lavarem ou cozinhar. Não havia penúria desde a criação da confraria mas, pelo contrário, uma abundância muito apreciada pela pequena comunidade que vivia numa zona desértica.
Nomeado pelo vizir com a aprovação do Faraó, o escriba do Túmulo estava sobrecarregado de trabalho. Competia-lhe velar pela prosperidade da aldeia, preservar um bom entendimento entre os dois chefes de equipa, pagar ao pessoal, manter o Diário do Túmulo, no qual anotava cuidadosamente as ausências e os respectivos motivos, receber o material necessário aos trabalhos e distribuí-lo e continuar a Grande Obra iniciada pelos seus predecessores. Um trabalho assustador que não impedia Kenhir de se entregar à sua distracção favorita: a escrita. Filho adoptivo do ilustre Ramosé elevado à dignidade raríssima de escriba de Maet antes de morrer, Kenhir herdara a sua bela casa, o seu gabinete e, sobretudo, a sua rica biblioteca onde figuravam todos os grandes autores cujas obras copiara com a sua escrita desajeitada e quase ilegível. Amador da poesia épica, compusera uma nova versão de A Batalha de Kadesch que testemunhara a vitória de Ramsés sobre os hititas e da luz sobre as trevas e entregara-se depois a uma reconstituição romanesca da prestigiosa XVIII dinastia. Logo que se reformasse, Kenhir consagrar-se-ia à redacção definitiva de uma Chave dos sonhos, fruto de pesquisas de longo fôlego.
Um artesão procura-vos, avisou Niut a Vigorosa. Não vês que estou ocupado? Quando poderei estar tranquilo nesta aldeia! Quereis vê-lo ou não? Que entre, rosnou Kenhir. Ipui o Examinador, um escultor da equipa da direita, era franzino e nervoso mas de notável habilidade. Sabia domesticar a rocha mais renitente e nunca fazia má cara a um problema difícil. Algum aborrecimento? Um sonho mau, confessou Ipui. Preciso de vos consultar. Conte. Em primeiro lugar, o deus carneiro Khnum apareceu-me e disse: os meus braços protegem-te, confio-te as pedras nascidas do ventre das montanhas para construir templos. Era bastante assustador... Enganas-te, é um excelente presságio. Eincarna em Khnum a energia da criação que constrói os homens e dá aos artesãos a capacidade de dominarem a sua força. E depois! Depois... É mais delicado. Não tenho tempo a perder, Ipu. Ou falas ou vais-te embora. O artesão parecia muito pouco à vontade. Sonhei que fazia amor com uma mulher..., que não era a minha mulher. Muito mau! Uma única solução: mergulha na água fresca de um canal, de madrugada, e ficarás de novo em paz. Mas, diz-me... Porque permaneceste na aldeia em vez de ires trabalhar no Vale dos Reis com o resto da equipa? Levei oferendas ao túmulo do meu pai e a minha mulher está doente.
Kenhir anotou os dois motivos, considerados como válidos, no Diário do Túmulo. Ipui não merecia a terrível designação de preguiçoso que teria arrastado graves sanções. O escriba do Túmulo não deixaria no entanto de verificar as suas palavras, pois já não tinha confiança em ninguém desde que um artesão dera como razão para a sua ausência a morte da tia..., morta pela segunda vez. Logo que o escultor saiu da sala de colunas que servia de gabinete a Kenhir, entrou Didia o Carpinteiro, um homem de elevada estatura e gestos lentos. O chefe de equipa confiou-me um trabalho na oficina, explicou, e pediu-me para vos recordar que os salários deviam ser pagos amanhã de manhã.
O pagamento dos salários... Verificava-se de vinte e oito em vinte e oito dias, inexoravelmente! O escriba do Túmulo e os dois chefes de equipa recebiam cada um cinco sacos de espelta e dois sacos de cevada, enquanto que cada artesão tinha direito a quatro sacos de espelta e um de cevada. A isso juntava-se carne, vestuário e sandálias. De dez em dez dias, Kenhir velava pela distribuição de óleo, unguentos e perfumes; e quotidianamente cada aldeão era gratificado com cinco quilos de pão e de bolos, trezentos gramas de peixe, várias espécies de legumes e frutos, leite e cerveja. Os excedentes permitiam-lhes fazer trocas no mercado». In Christian Jacq, A Pedra da Luz, A Mulher Sábia, 1995(?), Bertrand Brasil, ISBN 978-852-860-772-7.

Cortesia deBertrandB/JDACT

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Ainda não me esqueci do caso, senhora, atalhou Briolanja ao aperceber-se do que a jovem queria dizer com a história do falso sonho. Eu sei que sim, boa amiga…»

jdact

«(…) Palavras mais desenganadoras do que estas não podia ter ouvido. Talvez Leonor preferisse que Briolanja lhe dissesse que as estrelas tinham confirmado a conquista por parte dela de um rei e de um trono para assim poder sonhar com um mundo fantástico, improvável que fosse, impossível que se revelasse. Pena que a verdade fosse tão dolorosa e que só mesmo a mentira lhe fizesse idealizar o cume de uma alcáçova e lhe consentisse a ideia de que o discreto estatuto de senhora do morgado de Pombeiro era apenas provisório e não definitivo. Depois de alguns momentos de reflexão, com ar sério e num tom de voz indisfarçavelmente cínico, fitou a ama e disse: também tive um sonho esta noite. Vê lá tu que sonhei que o meu desalmado esposo se sentiu mal por causa de uma coisa que bebeu misturada no vinho. Durante alguns instantes fez-se um silêncio quase absoluto, deixando as duas mulheres inertes e frias como as grandes rochas da serrania defronte à casa.
Ainda não me esqueci do caso, senhora, atalhou Briolanja ao aperceber-se do que a jovem queria dizer com a história do falso sonho. Eu sei que sim, boa amiga, sei que tens boa cabeça, mas agora fecha a porta e deixa-me sozinha.
Passaram-se entretanto quatro semanas sobre este episódio sem que o dono da casa sentisse qualquer indisposição súbita ou o professor Vicente Esteves desse sinal de vida. Certa tarde, já Leonor tinha perdido a esperança de ter o lente como hóspede, apareceu ele encharcado da chuva e sem bagagens, com um braço tolhido de dor e um golpe na testa. Que aconteceu?, perguntou a dama, incrédula e assustada, quando viu o homem naquele estado à porta de casa. Entre, senhor, entre e vá à lareira enxugar-se e aquecer-se. Vicente Esteves contou que fora assaltado por quatro homens, armados de punhais, quando estava já a pouco menos de duas léguas de Pombeiro e que os ferimentos no braço e na cabeça tinham sido causados pela violência das pancadas que sofreu antes de lhe levarem o animal em que se transportava, o capeirote que o protegia do frio e até mesmo os livros para o trabalho que pretendia realizar. Impressionadas com o relato do homem, Briolanja Mendes, que assistia à conversa junto ao umbral da porta, persignou-se logo que ele deu por findo o relato, enquanto Leonor Teles se benzia e proclamava in nomine patris et filii et spritus sancti. Amen.
Visivelmente abatido, destroçado, de pé junto à lareira, Vicente Esteves olhou para Leonor e com um ar doce e cândido comentou: isto passa, senhora, o pior de tudo são os livros que me levaram e que dificilmente conseguirei reaver. Sem eles, terei de voltar para Coimbra tão depressa o tempo amaine e tenha para a viagem alguém por companhia. Leonor estremeceu. Ela, que tinha esperado mais de um mês por aquele homem de boas regras e melhores costumes, discreto, sereno, prazenteiro, estava a um pequeno passo de o perder, quem sabe se de uma vez por todas, por causa de um grupo de miseráveis plebeus endemoninhados a quem só a morte violenta, na sua opinião, serviria como castigo para tamanho crime. E o seu estimado esposo, senhor João Lourenço, onde está?, perguntou Vicente Esteves. Esse foi para a caça sem receio de que a chuva o molhe ou os criminosos o assaltem, respondeu com um sorriso, mas num tom de voz desprezível». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
Cortesia de OdoLivro/JDACT

A Rainha Liberdade. A Guerra das Coroas. Christian Jacq. «Recuso. Tão frágil frente à magnífica jovem morena de fascinante encanto, Teti, a Pequena, não cedeu»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Desde que o cadáver do marido fora trazido da frente para o navio-almirante, a jovem Rainha de trinta e dois anos nunca mais o abandonara. Um cadáver martirizado, atingido por vários ferimentos mortais, que a mumificação deixara aparentes por ordem de Ah-hotep. Não queria apagar os vestígios da coragem de Seken, que se batera sozinho contra uma horda de hicsos antes de sucumbir. A sua bravura cerrara as fileiras dos egípcios, aterrorizados pelos carros de guerra puxados por cavalos, uma arma nova e temível. Proveniente de uma família pobre, Seken apaixonara-se perdidamente por Ah-hotep, que admirava aquele ser puro e nobre, ébrio de liberdade e pronto a sacrificar a vida para devolver ao Egipto a sua passada grandeza. De mãos dadas, Seken e Ah-hotep tinham enfrentado múltiplas provas antes de poderem atacar as posições hicsas a norte de Tebas e começar assim a alargar o cerco. Ah-hotep tivera a ideia de criar uma base secreta onde os soldados do exército de libertação seriam preparados para o combate e confiara a Seken a tarefa de concretizar o projecto. Como Rainha do Egipto, fora Ah-hotep a reconhecer Seken como Faraó, uma pesada função da qual ele se mostrara digno até ao último suspiro. Embora o Império das Trevas tivesse feito da existência do par real um caminho de lágrimas e de sangue, Ah-hotep recordava os raros e intensos momentos de felicidade partilhados com Seken.
No seu coração, permaneceriam para sempre a juventude, a força e o amor. Parecendo extremamente frágil, a Rainha-Mãe Teti, a Pequena, desceu ao túmulo onde a filha meditava. Sempre impecavelmente vestida e maquilhada, a idosa dama lutava com obstinação contra a fadiga surda que a obrigava a fazer uma longa sesta e a deitar-se cedo. Abalada pela morte do genro, receava que Ah-hotep já não tivesse a energia necessária para sair do seu sofrimento. Deverias alimentar-te sugeriu-lhe. Como Seken é belo, não é verdade? Temos de esquecer os seus horríveis ferimentos e pensar apenas no rosto orgulhoso e determinado do nosso Rei. Ah-hotep, tu hoje és a soberana do país. Todos esperam as tuas decisões. Fico ao pé do meu marido. Velaste-o de acordo com os nossos rituais, a mumificação terminou. Não, mãe, não...
Sim, Ah-hotep. E compete-me a mim pronunciar as palavras que receias ouvir: chegou a hora de proceder à cerimónia dos funerais e fechar o túmulo. Recuso. Tão frágil frente à magnífica jovem morena de fascinante encanto, Teti, a Pequena, não cedeu. Comportando-te como uma chorona, trais o Faraó e tornas o seu sacrifício inútil. Agora, ele deve viajar para as estrelas e nós continuar a luta. Dirige-te a Karnak onde os sacerdotes farão de ti a incarnação de Tebas a Vitoriosa. O tom imperioso da mãe surpreendeu Ah-hotep e as suas palavras trespassaram-na como outras tantas punhaladas. Mas Teti, a Pequena, tinha razão. Sob poderosa escolta e acompanhada pelos dois filhos, Kamés de catorze anos e Ahmés de quatro, Ah-hotep apresentou-se no templo de Amon de Karnak onde os ritualistas não cessavam de cantar hinos pela imortalidade da alma real. Desde a ocupação hicsa que Karnak não beneficiava de qualquer ampliação. Protegido por uma cerca, o templo era composto por dois santuários principais, um de pilares quadrados e outro de pilares em forma de Osíris que proclamavam a ressurreição do deus assassinado pelo seu irmão Set. De acordo com uma previsão, a capela contendo a estátua de Amon, o Escondido, abrir-se-ia por si mesma se os Egípcios conseguissem vencer os Hicsos». In Christian Jacq, A Rainha Liberdade, A Guerra das Coroas, ISBN 978-852-861-216-5, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-281-7.

Cortesia de BEditora/JDACT

quinta-feira, 20 de junho de 2019

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «… o padre Healy, um estudioso jesuíta, um especialista internacionalmente aclamado pelos seus estudos bíblicos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Los Angeles. Outubro de 2004
«(…) Acenos de cabeça e murmúrios de confirmação foram a resposta. O livro na mão de Maureen era sua controvertida obra, HERstory, Uma defesa das heroínas mais odiadas da história. Era o motivo pelo qual ela lotava as salas de aula e os auditórios cada vez que decidia dar um curso ou fazer uma conferência.
Começaremos esta noite com uma análise das mulheres do Antigo Testamento, ancestrais das tradições judaica e cristã. Na próxima semana, faremos a transição para o Novo Testamento, concentrando a maior parte da sessão em uma única mulher... Maria Madalena. Examinaremos as diferentes fontes e referências sobre sua vida, tanto como mulher quanto como discípula de Cristo. Por favor, leiam os capítulos correspondentes, em preparação para as discussões a respeito.
Maureen fez uma pausa.
Também teremos um convidado especial, o dr. Peter Healy, que alguns de vocês já conhecem de nosso programa de extensão em Ciências Humanas. Para aqueles que ainda não foram bastante afortunados para comparecer a uma das aulas do nosso bom dr. Healy, devo acrescentar que ele é também o padre Healy, um estudioso jesuíta, um especialista internacionalmente aclamado pelos seus estudos bíblicos. O estudante persistente na primeira fila levantou a mão outra vez e foi logo perguntando, sem esperar que Maureen lhe concedesse a palavra: não tem uma relação especial com o dr. Healy? Maureen acenou com a cabeça em confirmação. O dr. Healy é meu primo. Ela olhou para os outros estudantes e acrescentou: ele nos dará a perspectiva da Igreja sobre o relacionamento de Maria Madalena com Cristo e revelará como as percepções evoluíram ao longo de dois mil anos. Maureen estava ansiosa em voltar ao que dizia antes e encerrar o mais depressa possível aquela tergiversação. Será uma boa noite. Tentem não perdê-la. Mas esta noite vamos começar por uma de nossas mães ancestrais. Quando tomamos conhecimento de Betsabá, ela está purificando-se da sua impureza...

Maureen saiu apressada da sala, pedindo desculpas e jurando que ficaria depois da aula na semana seguinte. Em circunstâncias normais, teria permanecido na sala pelo menos por mais meia hora, conversando com o grupo que inevitavelmente ficava por ali. Adorava aquele tempo com os alunos, talvez ainda mais do que as aulas. Afinal, os que permaneciam na sala eram aqueles que tinham afinidades. Eram os estudantes que faziam com que continuasse. Não precisava da remuneração insignificante que o curso de extensão lhe proporcionava. Dava aulas porque adorava o contacto e o estímulo de partilhar suas teorias com pessoas curiosas e de mentalidade aberta. Os saltos ressoando ritmados pela calçada, Maureen acelerou os passos, seguindo pelas ruas arborizadas no norte do campus. Não queria perder Peter, não naquela noite. Irritou-se com seu senso de elegância, desejando estar usando calçados mais apropriados para a quase corrida até a sala de Peter, antes de sua saída. Como sempre, vestia-se de forma impecável. Dedicava às roupas o mesmo cuidado meticuloso que dispensava a todos os outros detalhes da sua vida. O tailleur de grife ajustava-se ao corpo pequeno com perfeição, a cor de floresta realçava os seus olhos verdes. Os sapatos de saltos altos de Manolo Blahnik acrescentavam um toque de ousadia ao traje, afora isso, conservador..., e alguma altura a seu corpo de pouco mais de metro e meio. Eram justamente os Manolo que constituíam a fonte de sua actual frustração. Ela considerou por um instante a possibilidade de tirá-los». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

A Catedral de Lamego. Séculos XII a XX. Anísio Sousa Saraiva. «A designação de prior, nesta época, em Coimbra, e centramo-nos em Coimbra por ser o espaço que nos importa de momento, mas o essencial do que for dito é válido para as outras dioceses do reino»

Cortesia de wikipedia e jdact

Espaço. Poder. Memória
Construir e Organizar
«(…) Em Coimbra, a restauração da diocese, que fora planeada por Fernando Magno e Sesnando, só se verificou com Afonso VI, que, pelo ano de 1080, colocou na cátedra da cidade o bispo Paterno. Coimbra foi, pois, a única das três sedes episcopais portuguesas reconquistadas por Fernando Magno a conhecer uma efectiva restauração, tendo o bispo Paterno sido seguido por toda uma série de prelados, numa sucessão ininterrupta que vem até aos nossos dias. Em Lamego e Viseu, pelo contrário, foi necessário aguardar por meados do século XII para haver prelados nas suas cátedras, tendo ambas as dioceses ficado, entretanto, subordinados à autoridade da Sé de Coimbra.

A dependência face a Coimbra
A subordinação destes dois bispados à diocese de Coimbra prendeu-se com vários factores. Em primeiro lugar, há que ter em conta a importância primordial que esta cidade então assumia. Antiga sede de condado, mantivera essa primazia ao ser entregue a Sesnando; a sua conquista transformou-a em guarda avançada da fronteira meridional com os muçulmanos no extremo ocidente hispânico, papel que desempenhou até à passagem da linha fronteiriça do Mondego para o Tejo, em 1147. Coimbra exercia, pois, nas décadas finais do século XI, uma hegemonia incontestada no território governado por Sesnando, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista estratégico e militar. A sua hegemonia eclesiástica seria também desejada pelo conde moçárabe, que não veria qualquer vantagem em menorizar a importância da cidade com a restauração de mais dioceses no interior do condado. Importava mais, ao invés, manter o poder eclesiástico sobre toda a região concentrado nas mãos de um único prelado, o bispo Paterno, com quem Sesnando tinha uma relação de grande proximidade, e utilizar os rendimentos de Lamego e Viseu para colmatar a as necessidades de Coimbra, que tinha ainda boa parte dos seus territórios sob domínio árabe.
Depois da morte de Sesnando, em 1091, o governo do condado passou para seu genro, Martim Moniz, sendo poucos anos depois entregue pelo imperador Afonso VI a Raimundo, e, em 1096, a Henrique, passando então a integrar o recém-formado Condado Portucalense. A situação das dioceses do interior beirão não mudou, porém, com as alterações políticas sofridas; pelo contrário, a sua subordinação a Coimbra foi ratificada pela bula Apostolicae Sedis, outorgada pelo papa Pascoal II, a 24 de Março de 1101, a favor do bispo Maurício Burdino, bula essa que, curiosamente, foi a primeira carta pontifícia destinada a um prelado conimbricense. O governo das dioceses dependentes seria feito por intermédio de arcediagos ou priores, assim se tem dito, como se os termos fossem sinónimos. Comecemos por perceber as diferenças entre uns e outros, para depois vermos o que nos dizem as fontes a este respeito.
A designação de prior, nesta época, em Coimbra, e centramo-nos em Coimbra por ser o espaço que nos importa de momento, mas o essencial do que for dito é válido para as outras dioceses do reino, incidia sobre aquele que presidia ao cabido, e que veio mais tarde a ser chamado deão. De acordo com as mais antigas informações acerca da organização capitular da catedral de Coimbra, em finais do século XI, o prior, escolhido de entre os cónegos, tinha a seu cargo a administração patrimonial, assim como funções que vieram a ser atribuídas ao mestre-escola e ao tesoureiro. Segundo os estatutos de 1127, o prior era o encarregado dos mais diversos aspectos da vida material e litúrgica da comunidade canonical ligada à Sé. Os arcediagos, por seu turno, eram os oculi episcopi (os olhos do bispo), encarregados de o coadjuvar na administração dos territórios diocesanos, visitando-os em seu nome, julgando querelas, prolongando a sua acção pastoral». In Anísio Sousa Saraiva, Coordenação, Espaço, Poder, Memória, Faculdade de Teologia, Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2013, ISBN 978-972-836-157-0.

Cortesia de CEHR/UCP/FCT/JDACT

O Sebastianismo, História Sumária. José Van Den Besselaar. «Um rei novo, nos últimos tempos, na Espanha Maior, duas vezes dado por piedade do Céu, nascendo póstumo, reinará por uma mulher…»

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As profecias e os cartapácios dos sebastianistas
As profecias não canónicas
«(…) Das inúmeras profecias não canónicas ocorrentes nos cartapácios dos sebastianistas podemos dar aqui apenas uma pequena selecção. Em primeiro lugar, são frequentemente citados os oráculos sibilinos, geralmente em forma de coplas castelhanas. Esses oráculos não têm nada a ver com os vaticínios gregos que o Baixo Império nos transmitiu e parece que são de origem ibérica. Devem ter sido forjados no fim da Idade Média, mas os pormenores da sua origem são-me desconhecidos. Existe também um oráculo sibilino, redigido em linguagem solta e citado em Latim ou em Português. Segundo ele, Cassandra, a filha de Príamo, rei de Tróia, teria predito, juntamente com Santo Isidoro (bien étonnés de se trouver ensemble!), o seguinte:

Um rei novo, nos últimos tempos, na Espanha Maior, duas vezes dado por piedade do Céu, nascendo póstumo, reinará por uma mulher, cujo nome começará em I e acabará em L. E o dito rei virá das partes orientais. Reinará na sua mocidade, e alimpará a Espanha dos vícios imundos, e o que não queimar o fogo, devastará a espada. Reinará sobre a Casa de Agar [= Sarracenos], conquistará Jerusalém, fixará a imagem do Crucificado sobre o Santo Sepulcro, e será o maior de todos os monarcas.

Esta profecia, citada em diversas formas de acordo com as preferências dos tratadistas, contém elementos que parecem talhados para a pessoa de Sebastião: duas vezes dado, nascendo póstumo, reinando na sua mocidade, vindo das partes orientais e destruidor dos Sarracenos. Mas António Vieira, que não reconhecia a autenticidade das palavras nascendo póstumo, aplicou-a, em 1659, a João IV e, mais tarde, a um filho de Pedro II. A Santo Isidoro, o famoso arcebispo de Sevilha e grande organizador da Igreja visigótica, se atribuíam muitas profecias, que, no fim do século XV, foram postas em verso pelo cartuxo castelhano Pedro de Frias, uma fonte avidamente explorada pelos sebastianistas. Além de ter profetizado que o Encoberto seria duas vezes dado, o arcebispo teria predito também que ele traria em seu nome letra de hierro. Segundo os sebastianistas, a letra de ferro era o S, inicial do vocábulo latino servus, que os Romanos costumavam imprimir com um cunho de ferro nos rostos dos escravos. Obviamente, o profeta tinha em mente o nome de Sebastião. Santo Isidoro não foi o único eclesiástico a fornecer profecias à causa sebástica. Do apóstolo São Tomé se acharam em Meliapor profecias que resumiam, em estilo bíblico, a derrota do rei Sebastião, o domínio filipino e o triunfo final da nação lusitana. De São Metódio, bispo de Olimpo, que morreu mártir sob Diocleciano, citava-se um texto profético, segundo o qual um Rei, tido por morto e inútil, havia de despertar como de sono de vinho. A frase não é de São Metódio, mas ocorre num tratado apocalíptico, redigido por um monge sírio no fim do século VII. São Bernardo, que o patriotismo português promovera a parente de Afonso Henriques, teria escrito a este que ao seu Reino nunca faltariam reis naturais, salvo se pela gravidade de culpas Deus o castigasse por algum tempo. São Francisco de Assis, numa visita (completamente fantasiada) a Portugal, teria prometido a dona Urraca, esposa de Afonso II, que o Reino de Portugal nunca seria unido ao Reino de Castela». In José Van den Besselaar, O Sebastianismo História Sumária, Instituto Camões, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Biblioteca Breve /Volume 110, Livraria Bertrand, 1987.

Cortesia de CV Camões/JDACT

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Obra Poética Reunida (1950-1996). Hilda Hilst. «As maçãs ao relento. Duas. E o viscoso do Tempo sobre a boca e a hora. As maçãs deixa-as para quem devora esta agonia crua: meu instante de penumbra salivosa»

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Amavisse
[…]
Se chegarem as gentes, diga que vivo o meu avesso.
Que há um vivaz escarlate
Sobre o peito de antes palidez, e linhos faiscantes
Sobre as magras ancas, e inquietantes cardumes
Sobre os pés. Que a boca não se vê, nem se ouve a palavra

Mas há fonemas sílabas sufixos diagramas
Contornando o meu quarto de fundo sem começo.
Que a mulher parecia adequada numa noite de antes
E amanheceu como se vivesse sob as águas. Crispada.
Flutissonante.

Diga-lhes principalmente
Que há um oco fulgente num todo escancarado.
E um negrume de traço nas paredes de cal
Onde a mulher-avesso se meteu.
Que ela não está neste domingo à tarde, apropiada.

E que tomou algália
E gritou às galinhas que falou com Deus.

As maçãs ao relento. Duas. E o viscoso
Do Tempo sobre a boca e a hora. As maçãs
Deixa-as para quem devora esta agonia crua:
Meu instante de penumbra salivosa.

As maçãs comi-as como quem namora. Tocando
Longamente a pele nua. Depois mordi a carne
De maçãs e sonhos: sua alvura porosa.

E deitei-me como quem sabe o Tempo e o vermelho:
Brevidade de um passo no passeio.

Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.
[…]

Hilda Hilst, Obra Poética Reunida (1950-1996), 1998, organização Costa Duarte, Literatura brasileira século XX, Wikipédia.

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