quarta-feira, 21 de agosto de 2019

O Mistério das Catedrais. Interpretação Esotérica. Fulcanelli. «Trata-se, visivelmente, da própria essência das coisas. E, com efeito, as Litanias ensinam-nos que a Virgem é o Vaso que contém o Espírito das coisas»

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Paris
«(…) A catedral de Paris, tal como a maior parte das basílicas metropolitanas, está colocada sob a invocação da bendita Virgem Maria ou Virgem Mãe. Em França, o povo chama a estas igrejas Notre-Dame. Na Sicília, têm um nome ainda mais expressivo, o de Matrices. São, portanto, templos dedicados à Mãe (lat. mater, matris), à Matrona, no sentido primitivo da palavra que, por corrupção, se tornou a Madona (ital. ma donna) minha Senhora e, por extensão, Notre-Dame, Nossa Senhora.
Franqueemos a grade do pórtico e comecemos o estudo da fachada pelo grande portal, chamado pórtico central ou do Juízo. O pilar central, que divide em dois o vão da entrada, oferece uma série de representações alegóricas das ciências medievais. Face à praça, e em lugar de honra, a alquimia aparece figurada por uma mulher cuja fronte toca as nuvens. Sentada num trono, tem na mão esquerda um cetpro, insígnia de soberania, enquanto à direita sustem dois livros, um fechado (esoterismo) outro aberto (exoterismo). Mantida entre os seus joelhos, e apoiada no seu peito, ergue-se a escada dos nove degraus, scala philosophorum, hieróglifo da paciência que devem possuir os seus fiéis no decurso das nove operações sucessivas do labor hermético. A paciência é a escada dos Filósofos, diz-nos Valois, e a humildade é a porta do seu jardim; porque a quem perseverar sem orgulho e sem inveja, Deus fará misericórdia.
Esse é o título do capítulo filosofal deste mutus Liber que o templo gótico é; o frontispício dessa Bíblia oculta de maciças folhas de pedra; a marca, o sinal da Grande Obra laica na fachada da Grande Obra cristã. Não podia estar melhor situado do que no próprio umbral da entrada principal. Assim, a catedral aparece-nos fundada na ciência alquímica, investigadora das transformações da substância original, da Matéria elementar. Porque a Virgem Mãe, despojada do seu véu simbólico, é a personificação da substância primitiva de que, para realizar os seus intuitos, o Princípio criador de tudo o que existe se serviu. Tal é o sentido, aliás muito luminoso, dessa epístola singular, lida na missa da Imaculada Conceição da Virgem, cujo texto transcrevemos:

O Senhor teve-me consigo no começo das suas obras. Eu existia antes que ele formasse qualquer criatura. Eu existia desde toda a eternidade, antes que a terra fosse criada. Os abismos ainda não existiam e já eu tinha sido concebida. As fontes não tinham ainda brotado da terra; a pesada massa das montanhas ainda não tinha sido formada; fui concebida antes das colinas. Ele não tinha criado nem a terra, nem os rios, nem consolidado o mundo nos seus pólos. Quando ele preparava os Céus já eu estava presente; quando ele limitava os abismos e prescrevia uma lei inviolável; quando consolidava o ar acima da terra; quando dava o equilíbrio às águas das fontes; quando encerrava o mar nos seus limites e impunha uma lei às águas para que elas não passassem além das suas marcas; quando ele lançava os fundamentos da terra, eu estava com ele e regulava todas as coisas.

Trata-se, visivelmente, da própria essência das coisas. E, com efeito, as Litanias ensinam-nos que a Virgem é o Vaso que contém o Espírito das coisas: Vas spirituale. Sobre uma mesa, à altura do ombro dos Magos, diz-nos Etteilla, estavam, de um lado, um livro ou uma série de folhas ou lâminas de ouro (o livro de Thot) e, do outro lado, um vaso cheio de um licor celeste-astral, composto de um terço de mel selvagem, uma parte de água terrestre e uma parte de água celeste... O segredo, o mistério estava pois no vaso.
Esta Virgem singular, Virgo singularis, como a designa expressamente a Igreja, é, além do mais, glorificada com epítetos que denotam bem a sua origem positiva. Não a chamam também a Palmeira da Paciência (Palma patientiae); Lírio entre os espinhos (Lilium inter spinas); Mel simbólico de Sansão; Tosão de Gedeão; Rosa Mística; Porta do Céu; Mansão de Ouro etc.? Os mesmos textos chamam ainda a Maria Sede da Sabedoria, noutros termos, o Tema da Ciência hermética, da sapiência universal. No simbolismo dos metais planetários, é a Lua que recebe os raios do Sol e os conserva secretamente no seu seio. É a dispensadora da substância passiva que o espírito solar vem animar. Maria, Virgem e Mãe, representa portanto a forma; Elias, o Sol, Deus Pai, é o símbolo do espírito vital. Da união desses dois princípios resulta a matéria viva, submetida às vicissitudes das leis da mutação e da progressão. É então Jesus, o espírito encarnado, o fogo que toma corpo nas coisas tais como nós as conhecemos neste mundo: e o verbo se fez carne e habitou entre nós». In Fulcanelli, 1926, Le Mystère des Cathédrales, 1964, O Mistério das Catedrais, Interpretação Esotérica dos símbolos herméticos, Edições 70, 1975, Lisboa, Colecção Esfinge.

Cortesia de E70/JDACT

A Princesa Determinada. Catarina de Aragão. Philippa Gregory. «A mulher mais velha abanou a cabeça, mas Catarina partiu, de rosto destapado, sentindo-se ao mesmo tempo temerosa e irresponsável pela sua própria ousadia, e viu os homens do duque, em formação na estrada»

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«(…) Tal como o rei decidira, ele e Artur regressaram rapidamente a Windsor na manhã seguinte e a comitiva de Catarina, com a bagagem transportada por mulas, o enxoval dentro de enormes arcas de viagem, as damas de companhia, os criados espanhóis e os guardas do tesouro do seu dote, percorreram as estradas lamacentas até Londres, a um ritmo bastante mais lento.
Não voltou a ver o príncipe até ao dia do casamento, mas quando chegou à aldeia de Kingston-upon-Thames a comitiva parou, para se encontrar com o homem mais importante do reino, o jovem Edward Stafford, duque de Buckingham, e Henrique, duque de York, o segundo filho do rei, que haviam sido designados para a acompanhar até ao Palácio Lambeth. Eu saio, disse Catarina à pressa, saindo da liteira, passando rapidamente pelos cavalos que estavam à espera, não querendo ter mais nenhuma discussão com a estrita aia sobre jovens damas conhecerem homens antes do dia do casamento. Dona Elvira, não digais nada. O rapaz é uma criança de dez anos. Não tem importância. Nem a minha mãe pensaria que teria importância.
Pelo menos, colocai o véu!, implorou a mulher. O duque de Buck... Buck.., seja qual for o nome dele, também cá está. Colocai o véu antes de aparecer à frente dele, pela vossa própria reputação, infanta. Buckingham, corrigiu Catarina. O Duque de Buckingham. E tratai-me por Princesa de Gales. E vós sabeis que eu não posso usar o véu, porque deve ter-lhe sido ordenado que contasse tudo ao rei. Vós sabeis o que a minha mãe disse: que ele é o protegido da mãe do rei, recuperado para os destinos da família, e deve ser-lhe prestado o maior respeito.
A mulher mais velha abanou a cabeça, mas Catarina partiu, de rosto destapado, sentindo-se ao mesmo tempo temerosa e irresponsável pela sua própria ousadia, e viu os homens do duque, em formação na estrada, e diante deles, um rapazinho sem elmo, de cabelo claro brilhando ao sol. O seu primeiro pensamento foi que ele era totalmente diferente do irmão. Enquanto Artur era louro, pequeno e de ar sério, de compleição pálida e olhos castanhos calorosos, este era um rapaz alegre que aparentava nunca ter tido um pensamento sério. Não herdara o rosto magro do pai, tinha a aparência de um rapaz para quem a vida era fácil. O seu cabelo era vermelho-dourado, o rosto redondo ainda de bebé, o seu sorriso, quando a viu pela primeira vez, foi genuinamente amigável e inteligente, e os seus olhos azuis brilhavam como se estivesse habituado a ver um mundo muito agradável. Irmã!, afirmou calorosamente, saltando do cavalo, ouvindo-se o impacto da armadura, e fez-lhe uma pequena vénia. Irmão Henrique, disse, devolvendo a reverência precisamente à altura correcta, tendo em conta que ele era apenas um segundo filho da Inglaterra e que ela era a Infanta da Espanha.
Tenho tanto prazer em conhecer-vos, afirmou rapidamente, num latim rápido, com forte sotaque inglês. Desejava tanto que Sua Majestade permitisse que eu viesse conhecer-vos, antes de vos levar para Londres, no dia do casamento. Pensei que seria tão estranho entrar na igreja convosco e entregar-vos a Artur, se nem sequer tivéssemos falado. Também tenho todo o prazer em conhecer-vos, Irmão Henrique, retorquiu Catarina educadamente, um pouco surpreendida pelo entusiasmo dele. Tendes prazer? Deveríeis estar a dançar de alegria!, exclamou alegremente. Porque o Pai disse que eu poderia trazer-vos o cavalo que deveria ser um dos presentes do dia do casamento, e assim poderemos cavalgar juntos até Lambeth. O Artur disse que deveríeis esperar pelo dia do casamento, mas eu perguntei, porque deverá esperar? Não vai poder montar no dia do casamento. Vai estar demasiado ocupada a casar-se. Mas se lho levar agora, vai poder montá-lo já. Foi simpático da vossa parte. Oh, eu nunca ligo nenhuma ao que o Artur diz, afirmou Henrique animadamente. Catarina teve de se controlar para não soltar uma gargalhada.
Não? Ele fez uma careta e abanou a cabeça. Sério, disse, ireis ficar espantada de quão sério ele é. E estudioso, claro, mas não dotado. Todos dizem que sou muito dotado, para línguas principalmente, mas também para a música. Podemos falar francês, se desejardes, sou extremamente fluente para a minha idade. Sou considerado um músico bastante bom. E é claro, sou um desportista. Caçais? Não, respondeu Catarina, um pouco assombrada. Pelo menos, só acompanho as caçadas quando perseguimos javalis ou lobos. Lobos? Gostaria tanto de caçar lobos. Têm mesmo ursos? Sim, nos montes. Gostaria muito de caçar um urso. Caçais os lobos a pé, como os javalis? Não, a cavalo, replicou. São muito rápidos, temos de levar cães muito rápidos para os cansar. É uma caça horrível». In Philippa Gregory, Catarina de Aragão, A Princesa Determinada, Livraria Civilização Editora, 2006, ISBN 978-972-262-455-8.
                                                                                      
Cortesia CivilizaçãoE/JDACT

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio P. Couto. «Os arquivos ganharam a alcunha de secretos não apenas pelo seu acesso restrito para a maioria das pessoas mas também pelo seu conteúdo proibido. Isso porque muitos livros, documentos, epístolas, entre outros…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Tudo o que é oculto, secreto, proibido parece chamar mais a nossa atenção. E, de facto, uma aura de mistério envolve os Arquivos Secretos do Vaticano. Localizados na Cidade de Vaticano, compreendem um local que reúne documentos relativos a todos os actos promulgados pela Santa Sé. São, na verdade, um imenso repositório central de informações, que abrange livros, documentos, correspondências, diários de papas, processos da Inquisição (maldita), papéis confidenciais, imagens, fac-símiles e milhares de outros registos que a Igreja Católica vem acumulando ao longo dos séculos. O seu tamanho e extensão impressionam. Estima-se que contenham 85 quilómetros de prateleiras e que existam 35 mil volumes apenas no catálogo selectivo. No total são cerca de 2 milhões de documentos que relatam cerca de 800 anos de história guardados hermeticamente.
Os arquivos foram criados para ser consultados principalmente pelo papa e pela cúria romana. Com o passar do tempo, os Arquivos Secretos do Vaticano se tornaram um verdadeiro depósito de documentos ligados aos mais variados processos que envolviam a participação da Igreja Católica na defesa da fé cristã. Ali há seis grupos de documentos: cúria, delegações papais singulares ou familiares, concílios, ordens religiosas, mosteiros e confrarias, e outros. O complexo está dividido em dois recintos, que possuem a capacidade de receber a visita de, até 1.500 pessoas. Há também um aposento com os arquivos de índices, uma biblioteca, uma sala de restauração, um laboratório de fotografias digitais e outro de informática, além do espaço administrativo. Mas o que há de secreto em tudo isso? Em latim, Arquivos Secretos do Vaticano são Archivum Secretum Vaticanum. Nesse idioma, secretum tem o significado de segredo, mas também de secretário, ou seja, a pessoa de confiança de alguém. Assim, os Arquivos Secretos poderiam ser traduzidos como arquivos de confiança. Isso porque, quando alguma dúvida surge em assuntos relacionados à Igreja, é a eles que os padres recorrem para esclarecimentos.
Entretanto, há sim um cunho de segredo por detrás deles. Na verdade, nada do que possa sair das suas paredes blindadas é passível de ser tomado apenas como um simples documento. Os conspirólogos (ou seja, os adeptos das teorias de conspiração) gostam de insinuar que o local é não um simples depósito de dados dos governos papais, mas uma espécie de área proibida, que guarda detalhes que mudariam a história não apenas do cristianismo mas também da humanidade como a conhecemos. É o que de facto acontece é que apenas uma parte do que há ali é hoje de acesso público, e por alguns motivos. Primeiro, porque os papéis que ali existem são muito antigos e, a exemplo de museus, que não permitem flashes das máquinas fotográficas para não danificar as obras, também os Arquivos Secretos protegem o seu acervo, de valor incalculável, já que o simples acto de respirar próximo a um pergaminho antigo poderia levar à sua irreparável perda. E isso acontece mesmo hoje em dia, com a tecnologia de que dispomos. Em segundo lugar, nem tudo está autorizado a ser divulgado. A publicação dos índices dos documentos, por exemplo, em parte ou como um todo, é proibida, de acordo com os regulamentos actuais estabelecidos em 2005. E, em geral, somente depois de pelo menos 75 anos da sua publicação é que uma parte do acervo se torna acessível. Essa abertura começou no papado de Leão XIII (1810-1903). Desde 1881, o papa que está na direcção da Igreja Católica tem tomado a iniciativa de abrir o acesso a papéis de seus antecessores. A partir de 1924, uma quantidade maior de textos foi aberta ao público, incluindo aqueles do período que vai até ao fim do apostolado do papa Gregório XVI (1765-1846). O facto de existir esse lapso de tempo para que determinados documentos dessa vasta colecção possam ser consultados deixa as pessoas desconfiadas. Os arquivos ganharam a alcunha de secretos não apenas pelo seu acesso restrito para a maioria das pessoas mas também pelo seu conteúdo proibido. Isso porque muitos livros, documentos, epístolas, entre outros, traziam ideias de várias das correntes consideradas heréticas. Nos Arquivos do Vaticano é possível encontrar, além dos citados documentos, livros confiscados e classificados como perigosos. Entre eles, há até mesmo antigas edições da Bíblia e cópias dos chamados Evangelhos Apócrifos, além de dados sobre o código da Bíblia e as suas versões mais antigas, denominadas gematria e teomática.
Segundo dizem alguns especialistas, a parte sobre o terceiro segredo de Fátima, que era somente de conhecimento dos papas (e que teria feito um deles desmaiar ao saber do seu teor), só foi revelada por iniciativa de João Paulo II. E, mesmo assim, os conspirólogos afirmam que as verdades divulgadas são falsas e que as legítimas ainda estariam guardadas sob as sete chaves atribuídas a Pedro. Os arquivos foram instituídos numa época em que a Igreja Católica era praticamente soberana no mundo e se tornou depositária do conhecimento humano desde a época da Inquisição (maldita), em torno de 1184. Os livros considerados perigosos por ameaçarem os dogmas estabelecidos pela Igreja eram recolhidos e destruídos, mas não antes de terem um exemplar lá colocado para consultas futuras, por parte daqueles que se lançavam na defesa da pureza eclesiástica». In Sérgio P. Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Da Inquisição à renúncia de Bento XVI, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

Cortesia de EGutenberg/JDACT

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Não houve pão para nós à mesa dos homens. Nosso corpo fértil no cavaleiro foi maridado na casa do Cavaleiro comeremos. Na casa do Cavaleiro dormiremos»

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Cantiga de Mariana Alcoforado à maneira de lamento
«(…)
Me tomam por tomada
a mim se dou
meu peito e meu convento
em troca de mais nada

que alheada andava
tão alheada andava

Me davam por freira
conformada
no hábito que habito
ou habitava

que alheada andava
tão alheada andava

Me têm por lei presa
tão bem posta em dádiva
pois me libertei

que alheada andava
tão alheada andava

Me dizem que morra
se por mim amei
com a ameaça funda que pequei

que alheada andava
tão alheada andava

Me sobram porém hoje os dias
que perdi
e a clausura então que não rasguei

que alheada andava
tão alheada andava
28/3/71

A freira sangrenta
Fantasma que assombrava o Castelo de Lindenberg, tornando-o inabitável... Era uma freira usando um véu e um vestido ensanguentado. Numa das mãos trazia uma enxada, na outra uma candeia acesa... Freira espanhola, tinha deixado o convento para viver com o senhor do castelo. Tão infiel ao seu amante como o fora para o seu Deus, traiu-o, mas só conseguiu ser por sua vez traída pelo cúmplice, com quem queria casar. O seu corpo foi deixado sem sepultura, e a sua alma sem poiso errou cerca de um século. Implorava um pouco de terra para o seu corpo e algumas orações para a sua alma..., tendo-lhe sido prometidas ambas as coisas, desapareceu.

Madre Abadessa, aqui me mandam de casa dos meus pais.

Não houve pão para nós à mesa dos homens.
Nosso corpo inútil no Senhor foi votado.
Na casa do Senhor comeremos.
Na casa do Senhor dormiremos.

Madre Abadessa, e o que seremos sem corpo
Nem cavaleiro?

Nossa paixão é o Senhor, nosso exercício
O paraíso, nosso objecto é o mundo
Seremos freiras em convento.

Elisabeth de Hoven
Freira num convento de Hoven, no século doze. Encontrou um dia o diabo no seu quarto. Reconhecendo-o pelos cornos, foi direita a ele e deu-lhe uma estalada que o atirou pelos ares... Noutra ocasião, julgou que um homem tinha conseguido entrar no convento, mas quando depois se convenceu de que tinha estado tratando com o diabo, a Irmã Elizabeth exclamou: oh! Se tivesse logo percebido isso, que bofetada eu lhe teria dado!

Madre Abadessa, aqui me mandam de casa dos meus pais.

Não houve pão para nós à mesa dos homens.
Nosso corpo fértil no cavaleiro foi maridado
Na casa do Cavaleiro comeremos.
Na casa do Cavaleiro dormiremos.

Madre Abadessa, e o que seremos sem corpo
E com cavaleiro?

Pomar de primeira, montada
Das suas lutas vazias, mão de obra barata.
Nossa paixão é o mundo, nosso exercício
Seus filhos, nosso objecto é o cavaleiro.
Seremos dadas em casamento».

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Arquivo Secreto do Vaticano. Coordenação Geral de José Eduardo Franco. «… cristãos em tantos significantes religiosos arquetípicos (templos, ritos, sacerdócio, sacrifício) com base numa analogia que lhes permitia ter parte, desde sempre, no significado salvífico cristão»

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Expansão Portuguesa. Oriente
«(…) Por outro lado, não seria decerto fácil encontrar um equivalente da Filosofia em todos os povos que a primeira globalização trouxe ao contacto com o cristianismo. De modo que as categorias de pré-compreensão a que, espontaneamente, o missionário fará apelo para enquadrar o anúncio cristão, na falta (e mesmo não só na falta) de um contexto filosófico, serão precisamente as da religião, que acaba assim por funcionar como o culturema universal mais conatural à maturidade do cristianismo. Se lhe viesse a faltar esse caminho mais curto para o Evangelho, o missionário ficaria mesmo eventualmente desconcertado. Assim se sentia frei João Santos na sua missão à Etiópia Oriental (Évora, 1609): não adoram a Deus nem têm ídolos a que adorem, nem imagens, nem templos, nem usam sacrifícios. E assim, dificultosamente se convertem nem aceitam a lei de Cristo que muitas vezes lhes pregamos. Grande parte do dinamismo missionário que perpassa esta documentação radica precisamente na possibilidade de enxertar os sacramentos cristãos em tantos significantes religiosos arquetípicos (templos, ritos, sacerdócio, sacrifício) com base numa analogia que lhes permitia ter parte, desde sempre, no significado salvífico cristão.
Ora esta consideração parece paradoxal, quando confrontada com uma sombra que atravessa toda a nossa documentação relativa à China. O Documento nº 497, por exemplo, é uma carta do Último Jesuíta Português na Corte Chinesa, missionário em Pequim havia vinte e nove anos, a recorrer de uma pena de suspensão a divinis a que se expusera juntamente com outros três ex-jesuítas, por conivência com uma cerimónia chinesa (Ko teu) que seria por sua intrínseca natureza, supersticiosa… Referimo-nos à memória da condenação dos ritos chineses. A questão nunca deixou de preocupar todas as sucessivas levas de missionários e neófitos ou clérigos indígenas. Em 1806, ano seguinte ao do falecimento do jesuíta, o padre Georges d’Alary, destinatário da carta constante do Documento nº 774, compunha durante a sua estada em Macau umas apreciadas instruções para lidar com as susperstições chinesas. Com toda a probabilidade, são essas instruções que constituirão o grosso do manual da matéria, intitulado Documentos da recta razão (…) coligidos para uso dos alunos chineses e vietnamitas, bem como dos catequistas em geral, editados por monsenhor Jean-Louis Taberd, bispo de Isaurópolis. O que estava em causa era, além da adopção de termos religiosos (a começar pelo próprio nome de Deus) extraídos dos clássicos chineses, o dever de renunciar à idolatria. À sensibilidade nossa contemporânea, em que o político e o religioso se distinguem à saciedade, o argumento dos jesuítas, isto é, da relevância cívica, e não propriamente religiosa, de ritos gregários ligados ao culto dos antepassados e do imperador, pode colher bastante bem. Mas o mesmo não aconteceria com os fiéis chineses, a quem eles quereriam poupar desnecessárias rupturas culturais. Por outro lado, do ponto de vista político, seria inevitável, mais cedo ou mais tarde, a ruptura entre eles e um Império idólatra, um poder absoluto caucionado por uma idolatria ou, quanto mais não fosse, por um equívoco que consistia em expressar culturalmente a pertença ao mundo. Os gestos da religião, numa mente cristã, adquirem um alcance radical e são reservados para exprimir a pertença do homem ao seu horizonte último, o Céu, e não ao mundo. Sede religiosos, sim, mas para com Deus…, apelava um apologeta do século III aos seus concidadãos. E este apelo é tanto mais significativo quanto o contexto em que nos aparece, a modo de premissa irrenunciável, é o de uma tentativa de provar a lealdade cívica dos cristãos, pois acrescenta: … se quereis que Ele seja propício ao Imperador». In José Eduardo Franco (Coordenação Geral) Arquivo Secreto do Vaticano,Archivio della Nunziatura in Lisbona, Centro de Estudos Damião de Góis, Projecto financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2010, POCI 2010, Esfera do Caos Editores, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-680-032-1.

Cortesia de EsferadoCaos/JDACT

A Cal para Caiar o Universo. Ruy Ventura. «Do que é certo desconfia do duvidar te enamora é bom não saber de Deus quem de dentro a Deus adora»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cartas e quadras de Agostinho da Silva
«(…) Em todas estas quadras de Agostinho da Silva há uma grande reflexão sobre a existência de Deus ou sobre o que ele pensava ser a íntima essência da divindade. Sem fazer comentários (cada um deverá fazer os seus comentários interiores), apresento-vos algumas das quadras que publicou sobre essa temática:

Se não sabes o caminho
e a sorte nenhum prefere
toma então pelo mais duro
é esse o que Deus te quer.

Acho que Deus não escreve
e também que Deus não fala
e que nos sustenta vivos
a vida que nele cala.

Dizendo que é só amor
fazes Deus menor que Deus
cercas o ilimitado
dos limites que são teus.

E venha filosofia
teologia que farte
o que se pense de Deus
é só de Deus uma parte.

Mais que a teu Deus sê fiel
ao que tu sejas de Fé
talvez o Deus que te crias
oculte o Deus que Deus é.

O mais simples alicerce
traz logo a casa traçada
se eu quiser chegar a Deus
começarei por ser nada.

Posso dizer-lhes de Deus
quanto queiram mas calado
aprovarão se há silêncio
mas se me escutam cuidado.

Se Deus quisesse ocupar
lugar a si mesmo igual
preenchia todo o nada
e o deixava tal e qual.

Sobre o Espírito Santo, cujo culto Agostinho considerava ser a essência da cultura portuguesa, tem uma quadra sintética e bem demonstrativa da sua posição:

Do que é o Espírito Santo
só diga quem fique mudo
que palavra há que me leve
àquele nada que é tudo.

Há sempre uma grande aceitação tanto do mundo transcendente quanto do mundo concreto, imanente, em que todos nós vivemos. Embora acredite na crença, esta tem sempre base na desconfiança, na dúvida. Só com o vencimento das dúvidas, das desconfianças, é que se chega à crença, sendo no entanto sempre uma crença imperfeita. Refere:

Do que é certo desconfia
do duvidar te enamora
é bom não saber de Deus
quem de dentro a Deus adora.

E o mesmo diz do mistério. Ao longo da História, por motivos naturais e aceitáveis, o ser humano tem tentado constantemente vencer os mistérios e os segredos. Andamos sempre em demanda de uma revelação dos segredos».
In Ruy Ventura, A Cal para Caiar o Universo, www.arquivors.com/ruy_acal.pdf, 2007, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

Arquivo Secreto do Vaticano. Coordenação Geral de José Eduardo Franco. «A questão da Verdade passa a ser relevante para o culto dos deuses, e este, antes metafisicamente agnóstico e relativista…»

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Expansão Portuguesa. Oriente
«(…) Ateus, entenda-se, em relação aos gestos do culto em que se expressava e assegurava oficialmente, no sentido etimológico de serviço e obediência, a pertença à Cidade. Acresce que, na cosmovisão animista dos antigos, essa recusa da religião pública se traduzia numa repugnância quase física, dada a identificação dos ídolos, primeiro com os daimones e, depois, com os demónios da literatura apocalíptica inter-testamentária. Também por isso eram ditos, em grego, asebeioi, isto é, ímpios, sem religião. Faltava-lhes a pietas, o sentimento filial de pertença e submissão à pátria, cuja solidez fora garantida pela virtude da religio, ou cultus deorum, em que, dissera-o Cícero espelhando um lugar-comum, Roma sempre se distinguira acima das demais cidades, granjeando assim o seu imperium civile. Não admira pois que o título de condenação não tardasse a assumir explicitamente uma reivindicação por parte do poder político. A diferença do cristão vinha a ser fundamentalmente o metro eterno com que media a sociedade e esse poder (que a cristandade, não por acaso, chamará temporal). No contexto de uma sua pretensão absoluta, essa diferença era percebida como recusa da cidadania e o cristão tornava-se hostis publicus, um inimigo do Estado, diríamos hoje.
O que é certo é que, de facto, num primeiro momento, a dimensão religiosa (que, na realidade dos factos, significava idolátrica) permanece alheia tanto à auto-percepção, como à hetero-percepção do cristianismo. Os apologetas procuraram o diálogo (ou a polémica), não com os sacerdotes nem com os mistagogos orientais, mas sim com outros parceiros e interlocutores que lhes pareciam mais conaturais, isto é, os filósofos, tal como eram vistos no período helenista. As suas escolas (em latim, sectae) é que eram originariamente designadas pelo sufixo grego ismos e também eles diziam viver sob o signo da busca da Verdade e do Bem (verum et bonum). Com efeito, só quando o cristianismo, precisamente em Roma, tomar consciência de ser religião (e fá-lo-á por excelência ao reivindicar, num significativo híbrido filosófico-religioso, o estatuto antes inaudito de religio vera), é que os cultos, a partir do paradigma cristão, se passarão a designar com tal sufixo.
Esta já não é, para o nosso propósito, uma consequência de somenos. Por ela se pode ver que, uma vez identificado o cristianismo com a dimensão religiosa, foi afectada muito mais a noção de religião do que a de cristianismo. A questão da Verdade passa a ser relevante para o culto dos deuses, e este, antes metafisicamente agnóstico e relativista, passa a ser encarado como um sistema, ultimamente frustrado, embora, se não for Revelado, de afirmações potencialmente válidas do ponto de vista metafísico. Este aspecto não nos pode ser indiferente pois pauta toda a história da missionação. Por um lado, a possibilidade de uma filosofia cristã permitirá ainda aos missionários da modernidade o exercício da controvérsia escolástica junto dos bonzos. Procedente de fins do século XVIII, a documentação aqui alusiva à Coreia ilustra esse tipo originário de penetração cultural conatural ao cristianismo das origens. Integrado numa embaixada a Pequim chefiada pelo pai, o coreano Ly do Documento nº 524, (Ly-Seun-Houn, mais conhecido pela transcrição inglesa Lee-Sung-Hoon), foi expressamente enviado por Ly-Byok (Lee Byeok) que, como filósofo em busca da verdade, lera as obras de Ricci, vindas de Pequim (milagres dos ideogramas chineses!), e fundara um cenáculo de letrados-catecúmenos em Chon-Jin-An, hoje sede de um grande santuário. A correspondência formal que com ele entreteve o bispo de Pequim dá conta de não tratar com nenhuma autoridade religiosa e é estruturada nos moldes do diálogo filosófico (na De Deo verax disputatio ele teria aprendido a Ciência do Céu). E isso não obstava à consideração destes dois coreanos como os fundadores da Igreja Católica no país». In José Eduardo Franco (Coordenação Geral) Arquivo Secreto do Vaticano,Archivio della Nunziatura in Lisbona, Centro de Estudos Damião de Góis, Projecto financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2010, POCI 2010, Esfera do Caos Editores, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-680-032-1.

Cortesia de EsferadoCaos/JDACT

O Padre Negro. Edgar Wallace. «Ela acenou com a cabeça. Só por isso devias ir à procura dele. Vai, eu espero aqui, disse sentando-se e, quando ele se levantou, acrescentou num resmungo…»

Cortesia de wukipedia e jdact

«(…) Chelfordbury, uma aldeia adormecida do Sussex, está envolvida no desporto emocionante da caça ao fantasma. O Padre Negro de Fossaway, depois de um período de calma, voltou a aparecer. A lenda conta que há setecentos anos Hubert de Redruth, pároco de Chelfordbury; foi assassinado por ordem do 2º conde de Chelford. Desde então, de-quando-em vez, o seu fantasma tem sido visto. Durante os últimos anos têm corrido histórias horríveis de um ser invisível que emite gritos demoníacos, mas o fantasma nunca fora visto até à semana passada. Fossaway Manor tem outras histórias além de fantasmas. Há quatrocentos anos um grande tesouro de ouro foi, de acordo com a lenda, escondido em algum lugar na propriedade; até hoje ainda não foi descoberto, embora os sucessivos condes de Chelford tenham procurado diligentemente o tesouro ancestral. O actual conde de Chelford, que por acaso está noivo de miss Leslie Gine, a única irmã de mr. Arthur Gine, o tabelião local, informou o nosso representante de não ter dúvidas de que a aparição do Padre Negro era uma brincadeira de mau gosto da autoria de algum jovem das redondezas. Harry fez menção de rasgar o papel, mas pensou melhor e colocou o recorte debaixo do pisa-papéis. Aquela referência aos brincalhões da aldeia era reconfortante, principalmente quando se aproximava o cair da noite e ele necessitava de encorajamento. E isto porque lorde Chelford acreditava no Padre Negro tão religiosamente quanto proclamava o seu cepticismo. A sua mão inquieta dirigiu-se para a campainha. Mr. Richard já voltou? Não, milorde. Lorde Chelford bateu na mesa com a palma da mão. Onde raios vai ele de manhã?, perguntou, irritado. Thomas, muito prudentemente, fingiu não ouvir.

Dick Alford estava sentado no alto de um pequeno morro e avistava os campos de Sussex, por muitas milhas. Se virasse a cabeça poderia avistar toda a propriedade e os telhados verdes e as cúpulas de Fossaway Manor, com os seus relvados extensos e sebes bem cortadas. Nem os campos nem a casa o atraiam naquele momento. Os seus olhos e a sua atenção estavam centrados na moça que caminhava rapidamente pelo caminho que conduzia ao local onde ele se encontrava sentado. Tom, o espião!, disse ela com ar de reprovação. Ela não era tão alta como a média das moças inglesas, mas a magreza dava-lhe altura e os seus movimentos suaves davam-lhe mais força do que a sua figura frágil sugeria. O rosto delicadamente modelado tinha o requinte subtil da classe. Pequena, de mãos e pés delicados, uma cabeça esguia, olhos de um cinzento profundo e uma boca vermelha que sorria facilmente, Leslie Gine mesmo mal vestida seria sem dúvida uma bela mulher. Ali estava ela agora em pé, com o pequeno chapéu de montar caído nas costas, vestindo uma roupa preta  e uma camisa branca. Dick Alford, sentado no alto da colina, mastigava um pedaço de erva entre os dentes enquanto a observava com ar de aprovação. Tens andado a montar, Leslie? Sim, disse ela gravemente, e acrescentou: um cavalo. Ele olhou à volta inocentemente. E onde está o feliz animal?, perguntou. Ela olhou-o desconfiada, mas nem um músculo do rosto queimado se mexeu. Desmontei para apanhar flores silvestres e o animal fugiu. V o viu, acusou ela. Vi qualquer coisa que se parecia com um cavalo em direcção a Willow House, admitiu. Até julguei que te tivesse derrubado.
Ela acenou com a cabeça. Só por isso devias ir à procura dele. Vai, eu espero aqui, disse sentando-se e, quando ele se levantou, acrescentou num resmungo: de qualquer maneira, já tencionava pedir-te. Quando te vi, pensei: ali está um preguiçoso a precisar de exercício! As futuras cunhadas têm os seus privilégios. Ele fez uma careta ao ouvir aquelas palavras. Ela deve ter reparado na tristeza do seu rosto, pois colocou-lhe a mão no braço e disse: um dos empregados pode ir atrás dele, Dick. Ele é um porco tão faminto que já deve ir a caminho dos estábulos. Não, não estou a referir-me ao empregado. Sente-se, quero falar-lhe. Ela subiu o pequeno morro e sentou-se no local onde ele estivera. Richard Alford, não me parece que esteja satisfeito com a perspectiva de eu vir a ser a senhora de Fossaway House». In Edgar Wallace, O Padre Negro, 1926/1927, Publicações Europa-América, 1985, ISBN 978-972-101-690-3.

Cortesia PEAmérica/JDACT

O Padre Negro. Edgar Wallace. «Acenou ao homem para que desaparecesse e pôs-se a estudar o livro escrito a negro que chegara da Alemanha naquela manhã…»

Cortesia de wukipedia e jdact

«Thomas! Sim, milorde. Thomas, o criado, aguardou com ar de interesse enquanto o homem pálido que se encontrava atrás da grande secretária da biblioteca retirou um pequeno maço de notas de banco. A caixa de aço de onde saíram estava cheia de diversas notas de banco numa terrível confusão. Thomas, disse com ar ausente. Sim, milorde. Põe este dinheiro naquele envelope, esse não, pateta, no cinzento. Está endereçado? Sim, milorde. Cherr Lubitz, Frankforterstrasse, 35, Leipzig. Fecha-o, vai aos correios e regista-o. Mr. Richard está no gabinete? Não, milorde, saiu há uma hora. Harry Alford, o 18º conde de Chelford, suspirou. Estava já avançado na casa dos trinta anos, tinha o rosto esguio e pálido de estudante, o cabelo negro realçava mais a palidez da pele. A biblioteca onde trabalhava ficava num compartimento de tecto alto, cujas paredes estavam divididas por um corredor largo aonde se chegava através de uma escada circular metálica. Desde o tecto até ao chão, as paredes estavam completamente cobertas de prateleiras, apenas com uma excepção. Por cima da enorme lareira havia um quadro grande representando uma bela mulher. Ninguém que conhecesse o conde poderia se enganar quanto à relação existente entre ele e aquela beleza de olhos selvagens. Era a mãe dele; tinha as mesmas feições delicadas, o mesmo cabelo escuro, asa de corvo, olhos insondáveis. Lady Chelford fora a mais famosa debutante da sua época e o seu fim trágico tinha sido a sensação do começo do século XX. Não havia qualquer outro retrato seu na sala. Os olhos dele pousaram no quadro. Para Harry Alford, Fossaway Manor, apesar de toda a sua beleza e encanto, não era cofre suficientemente bom para tal jóia.
O criado, de sóbrio terno preto e cabelos já brancos, inclinou-se. Mais nada, milorde? Mais nada, respondeu o conde gravemente. No entanto, quando o homem se dirigia sem ruído para a porta... Thomas! Ouvi-o falar num acidente quando passou sob a minha janela com Filling, esta manhã?... Ele estava falando sobre o Padre Negro, milorde. O rosto pálido contraiu-se numa careta. Mesmo à luz do dia, com os raios de Sol passando pelas janelas e se reflectindo em arabescos púrpura, azuis e ametista, a simples menção ao Padre Negro punha-lhe o coração aos saltos. Qualquer homem ao meu serviço que fale sobre o Padre Negro será imediatamente despedido. Diz isso aos teus colegas, Thomas. Um fantasma? Meu Deus! Estão todos doidos? O seu rosto estava agora congestionado, pequenas veias sobressaíam-lhe nas têmporas e, sob a onda de cólera, os seus olhos negros pareciam desaparecer no rosto. Nem uma palavra, entendeu? É mentira! Uma mentira desprezível para dizer que Fossaway está assombrada. É uma brincadeira. E chega!
Acenou ao homem para que desaparecesse e pôs-se a estudar o livro escrito a negro que chegara da Alemanha naquela manhã. Uma vez fora da sala, Thomas pôde arriscar-se a fazer uma careta. Foi só durante alguns segundos e depois retomou a seriedade. Devia haver quase mil libras naquela caixa, e Thomas uma vez cumprira uma pena de dez anos por um décimo daquela soma. Até mr. Richard Alford, que sabia a maior parte das coisas, desconhecia este interessante facto. Thomas tinha uma carta para escrever, pois mantinha uma lucrativa correspondência com alguém que tinha um interesse especial em Fossaway Manor, mas primeiro deveria relatar a conversa a mr. Glover, o mordomo. Não me interessa o que o conde diz (e porque havia ele de o dizer a um criado e não a mim, não entendo); há um fantasma e já muita gente o viu. Eu não passaria a pé em Elm Drive durante a noite nem por cinquenta milhões de libras.
O homem abanou a cabeça que o tempo já tornara grisalha. E o conde também acredita. Quem me dera que ele tivesse casado. Sempre seria mais sensato. E aí víamo-nos livres de mr. Blooming Alford, hem, mr. Glover. O mordomo fez um ruído com o nariz. Há os que gostam e os que não gostam, disse o mordomo. Nunca trocamos uma palavra azeda. Thomas, estão batendo à porta. Thomas apressou-se a abrir a enorme porta. Havia uma moça à entrada. Era bonita de uma forma ousada, lábios vermelhos, olhos brilhantes e vestia luxuosamente. Thomas reconheceu-a. Bom dia, miss Wenner..., mas que surpresa! O conde está, Thomas? O criado contraiu os lábios em sinal de dúvida: ele está, menina, mas receio não poder levá-la até lá. Não me culpe, são ordens de mr. Alford. Mr. Alford, repetiu ela. Quer dizer que venho de propósito de Londres e não posso ver lorde Chelford? Thomas continuou com a mão na porta. Gostava da moça que, enquanto fora secretária do conde e, nunca se dera ares de grande importância (o pecado imperdoável dos criados de dentro) e sempre tivera um sorriso para o elemento mais insignificante do pessoal. Tê-la-ia deixado entrar e pensava que Sua Senhoria ficaria satisfeito por vê-la, mas no seu espírito apareceu-lhe a imagem de Dick Alford, um homem de poucas falas, que não só era capaz de o pôr na rua, como também de o fazer aos pontapés.
Tenho muita pena, menina, mas, como sabe, ordens são ordens. Percebo, disse ela. Sou posta fora do que poderia ter sido a minha casa, Thomas. Ele tentou mostrar-se compreensivo e conseguiu fazer uma careta de imbecilidade. Ela sorriu-lhe, apertou-lhe graciosamente a mão e afastou- se. Miss Wenner, relatou Thomas, aquela que Alford despediu porque pensou que o conde estava sendo carinhoso demais com ela... A campainha da biblioteca tocou naquele momento e Thomas apressou-se a responder à chamada. - Quem era a senhora que vi pela janela? Miss Wenner, milorde. Uma nuvem passou pelo rosto de Harry Alford. Disse-lhe para entrar? Não, milorde, mr. Alford deu ordens... Sim, claro. Tinha-me esquecido. Talvez tenha razão. Obrigado. Puxou o castiçal para junto dos olhos, pois mesmo durante o dia trabalhava à luz artificial, tal era a escuridão na biblioteca, e continuou a analisar o livro. Contudo, o seu espírito não estava totalmente concentrado no trabalho. Levantou-se e caminhou na biblioteca para cima e para baixo, as mãos cruzadas e o rosto descaído. Deteve-se ante o retrato da sua mãe, suspirou e regressou à mesa. Havia um parágrafo que recortara de um jornal londrino e leu-o pela terceira vez, não muito desagradado pelo facto pouco habitual de se ver o objecto de um comentário de jornal, no entanto irritado pelo assunto que provocara a notícia». In Edgar Wallace, O Padre Negro, 1926/1927, Publicações Europa-América, 1985, ISBN 978-972-101-690-3.

Cortesia PEAmérica/JDACT

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Quando Lisboa Tremeu. 1755. Domingos Amaral. «É de certa forma compreensível que irmã Margarida precisasse de um incentivo para fugir. Ela não era como eu, um pirata, um homem que odiava estar preso e que fugia à primeira oportunidade»

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«(…) Percorrera vários corredores e a mortandade era geral. Apontou para os três corpos: estes morreram aqui. Ainda os tentei ajudar, mas... Ficaram todos em silêncio, como sinal de respeito, e depois o profetista perguntou ao padre para onde deviam ir, mas antes que este dissesse alguma coisa a mulher mais velha falou. Debíamos fugir. O padre apontou para irmã Margarida, exaltado: ela merece a liberdade, mas tu não, pecadora! A mulher mais velha ignorou-o e cruzou a porta, e depois voltou atrás e disse que por ali podiam descer para a rua. O profetista seguiu-a, mas irmã Margarida ficou junto do padre e dos três mortos. Pediu ao sacerdote: padre, preciso de me confessar... Pequei... Com ternura, o padre colocou-lhe a mão direita na cabeça e disse: criança, nada que tenhas feito é grave neste dia terrível... Irmã Margarida precipitou-se, numa ânsia de lhe contar que se tentara enforcar, com medo de morrer queimada; que perdera a vergonha com o carcereiro para conseguir uma corda; e que agora lhe tinha roubado um fio, que por acaso era dela. Mas, sem a ouvir, o padre interrompeu-a: criança, sofreste muito e injustamente. As acusações contra ti são uma farsa... Porque não aproveitas e foges? Nesse momento, irmã Margarida compreendeu pela primeira vez que podia aspirar a ser livre e perguntou: fugir? Como? O padre respirou fundo: não sabes o que aconteceu? Ela não sabia e ele explicou-lhe: Lisboa foi atingida por um terramoto. A cidade está destruída. Se olhares pelas janelas, vais ver... Devias aproveitar. Foge! Foge!, gritou o padre. Mas irmã Margarida estava paralisada pelo que ouvira. Um terramoto... Olhou em volta, perplexa. O padre abanou-a pelos ombros e gritou: olha para mim, rapariga! Irmã Margarida assim fez e ele acrescentou: eu não chamo os soldados. És a única pessoa que não merece morrer amanhã. A irmã Alice é outra história. Afasta-te dela, eles vão andar à procura dela. E do outro também... Mas, tu... Ninguém se vai preocupar contigo, não fizeste nada de mal. Foge, foge, e depressa!
É de certa forma compreensível que irmã Margarida precisasse de um incentivo para fugir. Ela não era como eu, um pirata, um homem que odiava estar preso e que fugia à primeira oportunidade, como aconteceu nessa manhã, e como já sucedera no passado, quando estive preso pelos árabes. Ela era uma jovem que tinha sido presa, torturada, julgada e condenada sem perceber bem porquê. Tinha desejado enforcar-se, e não o conseguira. Naquela situação não sabia o que fazer. Fugir para onde? Eu sabia para onde fugir, mas ela não, não tinha ninguém a quem pudesse recorrer, nem um destino geográfico que pudesse dar sentido à sua fuga. Nem sequer família, pois os pais haviam morrido. Para ela, a liberdade era ainda um território duvidoso e desconhecido. Contudo, pressentiu que aquela oportunidade podia poupá-la à morte na fogueira, e que a absolvição moral do sacerdote, seu confessor, era uma espécie de garantia da existência de um sentido de justiça superior, que lhe dava razão. Portanto, apoiou-se nessas palavras, ganhou forças e fugiu. Começou naquele momento a reinventar-se como pessoa, e ainda bem, pois foi esse primeiro passo que possibilitou o nosso encontro, dias depois. Se hoje a amo, devo-o também àquele confessor da prisão, que extinguiu a relutância do coração de irmã Margarida e lhe apontou um novo caminho.
Despediu-se do padre, e descobriu o local de fuga do profetista e da freira mais velha. Entre duas celas, havia uma escadaria de pedra que as derrocadas tinham colocado à vista. Formara-se uma espécie de cascata de destroços, por onde se podia descer até à rua. A meio, a freira mais velha e o profetista desciam, devagar, para evitar cair. Seguiu-os. Quase caiu por duas vezes, antes de chegar finalmente ao chão. Os outros esperaram por ela, mas o profetista estava muito agitado, com medo de que os soldados os vissem. Na rua, tudo era confusão. Nuvens enormes de poeira pairavam, ouviam-se gritos lancinantes e desmoronamentos constantes de edifícios nas redondezas. Deus me balha..., repetiu irmã Alice. A cerca de cem metros, apresentava-se uma das portas do Convento de São Domingos. E, um pouco antes, nascia uma travessa, que ia dar ao Rossio. Ao longe, irmã Margarida viu aparecerem vultos vestidos de branco. Eram os soldados da Inquisição e avisou os seus companheiros de fuga. Vamo fugi!, gritou o profetista. Desataram a correr, e nas suas costas ouviram alguns tiros. Contornaram um dos cantos do palácio, enfiaram pela estreita ruela, e o Rossio apareceu de repente à frente deles. Foi tal a surpresa com o que lá se passava que pararam, embasbacados». In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, O Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2010, ISBN 978-972-461-986-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT