terça-feira, 11 de dezembro de 2018

As Naus. António Lobo Antunes. «A mulata arreou as malas e os sacos num baque de desmaio. Deviam ser oito horas mau grado o silêncio de poço dos relógios atendendo a que desdobravam os toldos dos cabarés de Santa Bárbara»

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«(…) Uma rapariga de sapatos de homem despejava um caixote numa cova repleta de cascas, de embalagens de insecticida, de bisnagas, de mostradores de bússola e de frascos de xarope vazios. O senhor Francisco Xavier, indiano gordo de sandálias, recebeu-o no camarote do vestíbulo cercado de uma dúzia de indianozinhos todos parecidos com ele, igualmente gordos e de sandálias, de tamanhos diversos como a escala de teclas de um xilofone. Cheirava a insónia e a pés, cheirava ao estrume de curral da miséria, e percebia-se o andamento de migração das nuvens pelos orifícios do reboco. Como se houvesse também guerra aqui, pensou Pedro Álvares Cabral, como se um morteiro destruísse os prédios.
Eu sou de Moçambique, elucidou o senhor Francisco Xavier num sotaque macerado de gentio a recolher-lhes as senhas de desembarque carimbadas pelas armas do escrivão. E ele imaginou o goês, de charuto apagado na saliva das mandíbulas, a adorar na floresta criaturas de oito pernas ou a impingir tafetás de praça em praça antecedido pelo volume persuasivo da barriga. Lá fora escutavam-se os vagabundos que discutiam aos guinchos e as rolas de papo que tornavam aos paus de fileira, e debruçando-me lobriguei o chibo a tiritar entre os calhaus e os edifícios desertos que anoiteciam devagarinho à minha volta.
Não os preveniram, espantou-se o senhor Francisco Xavier, que têm de entregar cinco contos de sinal? A rapariga do caixote regressou falar sozinha e sumiu-se na boca de uma escada: os sapatos deslaçados encalhavam no rebordo dos degraus. Cochichos e choros espalhavam-se na extensão de trevas da Residencial. Um pássaro qualquer assobiava, estrangulado, no buraco de caliça de uma esquina.
Na Beira comprei eu três cinemas e uma moradia com piscina, disse o senhor Francisco Xavier exibindo os braços vazios de déspota apeado. Três cinemas e uma moradia frente às caravelas do porto, sem contar os criados, é claro, e se me jurassem que havia de governar esta espelunca para ganhar a vida ria-me uma tarde inteira pelo menos. Só os calores que os hóspedes me pregam dão comigo em doido. Por falar em calotes, rapaz, os cinco contos vêm ou não vêm? Três cinemas, poça. E assine-me este recibozinho para lhe receber o subsídio, é uma norma do Apóstolo das Índias, entende? Honestidade de uma banda, honestidade da outra.
A mulata arreou as malas e os sacos num baque de desmaio. Deviam ser oito horas mau grado o silêncio de poço dos relógios atendendo a que desdobravam os toldos dos cabarés de Santa Bárbara, e sujeitos agaloados a oiro, vestidos de alferes de carnaval, controlavam um tráfego complicado de clientes e de pu… As rolas inquietavam-se nos peitoris desmantelados e ele pensou que Lixboa seln restaurantes chineses era a cidade mais feia sobre a terra. Pensou a olhar um ninho de vespas num taipal Onde vou arranjar agora cinco contos para acalmar o gordo, e nesse instante guincharam do escuro Ó Xavier, o indiano disse-nos Aguentem pianinho que eu já venho, e partiu a estalar as sandálias, seguido pelo xilofone dos filhos, para as despensas, patamares, saletas, caves e túneis da pensão.
De maneira que ficaram à espera no vestíbulo diante do alarido do tojo e dos ralos de agosto: a mulata e o garoto completamente mudos, arqueados e quietos na escuridão que crescia, medindo tudo, verificando tudo, espiolhando tudo, as centopeias sem rumo, os escaravelhos mortos, as lagartixas átonas nos relevos do tecto, a noite e a via láctea dos candeeiros do Martim Moniz que nenhum dedo desfia, e eu, branco de Coruche sem instintos nem mistério, demasiado afastado dos castanheiros da infância, a cismar no dinheiro do indiano e na forma de roubá-lo, ouvindo passos e cicios e arrastar de baús, lembrando-me do meu avô a tactear o sol das três da tarde com a bengala até que a voz do senhor Francisco Xavier proclamou, à medida que as sandálias bolorentas se avizinhavam de novo, Arranjei-lhes um quarto com mais oito famílias de Angola, reparem na vossa sorte, caneco, tudo conterrâneo, tudo solidário, tudo compincha, tudo no paleio, que é dos cinco contitos, ó sócio?» In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT

As Naus. António Lobo Antunes. «Abaixo, na Rua de Arroios com obras nos esgotos e um caterpillar a entupir o trânsito, ficavam capelistas decrépitas, bares de prostitutas e merceariazinhas manhosas…»

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«(…) Lançou fora a ponta do cigarro e a luzinha vagabundeou na noite e apagou-se no Tejo. A passagem de nível desatou a tocar na fúria estremunhada dos despertadores, e as janelas do rápido das dez sucederam-se por detrás dos arbustos em quadrados cintilantes levando consigo os operários dos Jerónimos aos bairros periféricos sem electricidade nem água, com bêbedos e cadelas a ferverem raivas nas esquinas. Um par de guardas, chamado pelo apito do cabo, transportou o féretro para o escritório de tijolo de secretárias desfeitas encostadas às paredes, antigos ficheiros metálicos e ordens de serviço e relações de naus desaparecidas afixadas a alfinete num painel de cortiça, à esquerda da fotografia emoldurada do presidente da república que mirava a eternidade na expressão de estupidez visionária dos heróis. Os guardas, de cócoras, aliviaram os parafusos, esboroaram a placa de estearina que cintava a urna, desfizeram a canivete as rendas do forro, um vento de amoníaco ascendeu do caixão e a boca do presidente do retrato torceu-se na careta de dor de dentes com que por muitos anos assistiu, por cima da ardósia, à tabuada das escolas.
Mal atraque o paquete com as minhas coisas, garanti eu, juro que lhe pago uma lápide como deve ser. Perto do candeeiro, mais nu sem o boné do que se estivesse despido, o cabo, a limpar as unhas com um fosforo, aparentava-se aos pescadores de limos da vazante, embora de polainas e cartucheira à cinta a fim de assassinar as enguias do rio. Ou os morcegos. Ou os comboios. Ou a Torre de combater os castelhanos. Ou o pai que engolira o seu chumbo em Loanda e se tornava devagarinho num lodaçal de tripas. Cara…, disse um dos guardas, enjoado, a tapar o nariz com a manga de cotim. Espreite-me só este radiozinho japonês, nosso cabo. Uma locomotiva atravessou de cambulhada o posto de socorros a náufragos, tombando ficheiros e cadeiras, e agora olhavam-me os três, escondidos por uma ponta do lençol, numa surpresa de virgens, de modo que cresci um passo num sorrisinho humilde de desculpa: se os senhores pregassem o caixão agradecia: é que não há nada para me sentar no cais enquanto o barco não chega.

A Residencial Apóstolo das Índias não se situava no Largo de Santa Bárbara consoante o escrivão da puridade lhes afiançara, mas no declive de um terreno perdido nas traseiras dos prédios entre a embaixada da Itáliae a Academia Militar. Era uma casa arruinada no meio de casas arruinadas diante das quais um grupo de vagabundos, instalado em lonas num baldio, conversava aos gritos à roda de um chibo enfermo. Perguntou o endereço a um mestiço de olhos sigilosos, a garotos que remexiam desperdícios com uma vara e a um sobrevivente alcoólico de mares remotos abraçado a uma âncora oxidada, e contornaram, a tropeçar, tábuas de andaime, paredes calcinadas, betões torcidos, restos de muro e escadas de apartamentos sem ninguém, por onde à noite deslizavam luzes de navegação nos intervalos das janelas. Um bando de rolas espantou-se num coto de telhado, ergueu-se em leque e afundou-se num céu de chaminés.
Abaixo, na Rua de Arroios com obras nos esgotos e um caterpillar a entupir o trânsito, ficavam capelistas decrépitas, bares de prostitutas e merceariazinhas manhosas enxameadas de operários de pavio de bagaço aceso no castiçal da mão. Um rato húmido de brilhantina escapou-se de um caneiro, correu ao longo de degraus assoreados e esgueirou-se num monte de cascalho. Os mendigos observavam-no de longe, em silêncio, debaixo de um pedaço de tenda, e nesse instante viu as letras Residencial Apóstolo Das Índias pintadas a amarelo ao lado de uma porta aberta ou do que havia sido uma porta e não era mais do que uma espécie de cancela esburacada». In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT

As Naus. António Lobo Antunes. «… anis, perfumes franceses, vermutes, uma dúzia de radiozinhos de pilhas japoneses? Você quer convencer-me que traz um cadáver aí?»

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«(…) Os morcegos que farejavam as lâmpadas, procurando as borboletas tropicais chegadas com os escravos da Guiné, submergiam-se por engano nos reflexos lilases das ondas de desmaio do Tejo. Automóveis de faróis nos mínimos, em que se revolviam namorados, apontavam ao chão as grelhas amuadas. O cheiro do esquife tornara-se a pouco e pouco tão insuportável quanto o do desertor no seu cepo, com pássaros poisados na crista da espinha e no que sobejava dos ombros e das nádegas, de modo que pensei Mal o frigorífico e o fogão arribem vendo-os a um cigano qualquer e compro ao velho um Jesus de metro e meio com embutidos e enfeites, já que a partir de certa idade vivemos a imaginar, a aperfeiçoar, a polir o teatro macabro das próprias exéquias, o sacristão, a família, as participações nas revistas, o interesse dos vizinhos, o número de ramos de flores e os litros das lágrimas. Pensei: nem que tenha de pagar para o chorarem. Pensei: nem que tenha de comprar óculos escuros e um lenço enorme de adeuses de emigrante para fingir que choro. Pensei: Nem que alugue cunhados nos mendigos que exageram a fome nos degraus das igrejas, e nisto o cabo, a seguir a tentar em vão um pontapé na seda instantânea de um gato, avançou em diagonal de lagosta a mudar a bandoleira da arma de uma omoplata para a outra:
O que é aquilo ali?, disse ele. Só então me dei conta de que para lá dos ralos e das cigarras das trevas cujo trino se aparenta ao zumbir das lantejoilas da insónia, para lá dos moluscos nas enxárcias e da harpa das cordas e da sua única nota sem cessar repetida, um grilo cantava: não dentro da noite, entenda-se; num barquito ancorado, uma dessas chatas de caçadores de limos e mariscos doentes, que navegam umas braças tripuladas por homens de calças enroladas munidos de camaroeiros e de baldes. De tempos a tempos uma barbatanazinha da água cintilava num pulo e evaporava-se de novo. As casas, duplicadas de pernas para o ar, subiam e desciam na direcção de Lisboa, enfeitadas de craveiros nos caixotes das varandas. O cabo tocou no féretro com a ponta da bota, a avaliar: esta porcaria pertence-lhe? De madrugada as locomotivas, quando chamam, mesmo distantes, dão a impressão de se encontrarem tão próximas que se podem apertar contra o peito. Os demais ruídos também. E o silêncio. E os odores. E as vozes que ciciam a quilómetros: tudo vizinho, nítido, transparente e frágil, de vidro.
Incluindo a ponte que atravessa o Tejo e os pirilampos dos camiões a vogar no tabuleiro. Ando à espera do paquete para a levar daqui, disse eu. Tenho lá o meu pai morto embrulhado num lençol. Em África, semeada de padrões, de destroços de caravela e de armaduras de conquistadores finados, os mochos plantavam-se no centro das picadas e deixavam que os carros os atropelassem, mochos de olhos amarelos como as barbatanas da água e os pirilampos dos camiões: viamo-los tarde demais, buzinávamos e um remoinho de penas cinzentas, mais cabelos do que penas, embatia no vidro e morria para trás de nós, a perder-se nas lavras de girassóis adormecidos por onde os burros do mato trotavam sem descanso. Em África, ao contrário daqui, o meu nariz palpava os odores e alegrava-se, as pernas conheciam os lugares de caminhar, as mãos aprendiam com facilidade os objectos, respirava-se um ar mais limpo do que panos de igreja, até a guerra civil dar um tiro no velho, me encafuar com o reformado e o maneta dos moinhos num porão de navio, e os perfumes e os rumores das trevas se me tornarem estrangeiros porque ignoro esta cidade, porque ignoro estas travessas e as suas sombras ilusórias, porque apenas soletro o porto e as traineiras, presentes de dia e ausentes de noite, sem contar os corvos e as gaivotas excitadas pelo relento do defunto, debicando o crucifixo à procura da carne podre oculta no túmulo de verniz. Um cadáver?, desconfiou o cabo. Um cadáver ou tabaco americano, nosso amigo? Gitanes, Marlboro, anis, perfumes franceses, vermutes, uma dúzia de radiozinhos de pilhas japoneses? Você quer convencer-me que traz um cadáver aí?» In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT

As Naus. António Lobo Antunes. «O cabo da véspera espiou da repartição de tijolo, e sempre que se aproximava as fivelas das polainas tilintavam e as feições reduziam-se a nódulos inexpressivos de pau»

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«(…) Cheirava a calor e a desperdícios e de tempos a tempos farrapos de jornal erguiam uma brisa de notícias da calçada. Urinei à sombra de uma camioneta de fruta e enquanto desabotoava a breguilha e o ar se tingia de fragrâncias de pêssego lembrei-me de Loanda às seis da tarde, à hora a que os barcos largavam para a pesca diminuindo a fumegar entre troncos de palmeiras. Urinei a pensar no relojoeiro surdo-mudo, de pupilas de Charlot, cercado por centenas de cucos furiosos, que consertava molas microscópicas a dez metros do meu emprego, a pensar em Miguel Cervantes Saavedra que nos gritava por vezes episódios esquisitos de dulcineias e moinhos e acrescentava excitadíssimo, a palpar o lápis no casaco, Vou enfiar isto no meu livro, vou enfiar isto no meu livro, a pensar no reformado da sueca que vedava com rolhões de pano e estearina de vela as frestas do caixão e se instalava ao meu lado no beliche a exibir fotografias antigas coladas num caderno de escola, Aqui sou eu no cavalo de pasta aos quatro anos, O terceiro a partir da esquerda sou eu na tropa em Tancos, Esta tirou-me o meu irmão Paulo quando descobri o caminho marítimo para a Índia, Agora, que engraçado, repare, estou com os colegas da secção de rótulos da fábrica de cerveja, por sinal que me ofereceram uma caneta com aparo de oiro e um diploma encaixilhado, com uma placa em baixo e as assinaturas de todos, Que pena, ó Gama, já não trabalhares cá, o reformado que se alongava em episódios sem fim da sua juventude de sapateiro em Vila Franca, terra que a vermelhinha do Tejo ora mostrava ora escondia consoante as cheias, abandonando, ao retirar-se, ventres inchados de bois e os saxofones entupidos da banda do coreto.
O primo que dirigia o negócio das solas escrevera-lhe para África a oferecer um quarto e sociedade na loja, e eu, que não conhecia ninguém em Portugal, decorei o endereço para o visitar pela Páscoa com um saquinho de broas e um baralho americano com mulheres nuas do outro lado dos valetes. Acabei de urinar no momento em que uma locomotiva arrancou confundindo o seu apelo com o apelo dos barcos, e tornei para o cais sem saber o que fazer com o trambolho da urna a que o maneta das cautelas, num impulso absurdo de artista, prometera um poema, Apeio-me do cavalo em Madrid, tranco-me em casa e escrevo-o num segundo, não custa nada, ora que espiga, copio tudo em papel de carta de avião e dentro de um mês o máximo está cá. Cocei as crostas do herpes da orelha, cuspi para a água invisível na esperança de uma ideia, mas onde catano sepultar o pai se não há dinheiro sequer para o serviço dos mortos?
Se não fosses completamente parvo, explicava-me o reformado manipulando damas, num dos seus raros instantes de compaixão e áspera amizade, esquecias-te do defunto na mesa onde o deixaram, de mão de unhas compridas quase a agarrar o galheteiro porque os gajos se pelam por azeite como os mochos, chupam-no agitando as asas nos armazéns das mercearias, mas a mim afligia-me a ideia de que pudesse apodrecer sozinho em África, com malmequeres nas cerdas do nariz, rodeado de salamandras e lacraus. Ao sétimo escarro amanheceu: uma claridade de alguidar revelava os guindastes, o perfil das naus de Ceilão, a labareda da Siderurgia ao longe, e o esqueleto do supliciado no altar do seu patíbulo. Os milhafres e os corvos voltaram, o cabo da guarda-fiscal desapareceu. Uns pescadores de camisa estampada instalaram-se a dez ou vinte metros do caixão, cada qual com o seu cabaz e a sua cana, mas decorridas algumas horas de não apanharem nada jogaram a tralha para uma furgoneta da companhia do gás e escaparam-se mais ou menos pelo mesmo trajecto do senhor Gama e do espanhol, sacudindo as chapas soltas do capot nos carris do comboio, e ao irem-se embora regressou a noite: as luzes acenderam-se, os pavios das canoas baloiçavam, o volume incompleto dos Jerónimos, vigiado por infanções de alabarda, adquiriu uma grandeza imprevista. O cabo da véspera espiou da repartição de tijolo, e sempre que se aproximava as fivelas das polainas tilintavam e as feições reduziam-se a nódulos inexpressivos de pau». In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT

O Evangelho Segundo Lázaro. Richard Zimler. «Depois de ter bebido, reparo que tenho um colar de âmbar à volta do pescoço. As contas são de um amarelo-leitoso»

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«(…) Qualquer coisa penugenta enrosca-se na concha da minha mão direita. Um rato? Será que esta caverna em que me aprisionaram é um antro infestado de bichos? Não consigo virar a cabeça para dar uma espreitadela. Abaixo do meu pulso palpita a esperança de que o animalzinho não me morda. Yaphiel, talvez aches isto cómico, mas mais tarde vim a descobrir que, em circunstâncias estranhas, a mão de um velho amigo pode parecer um rato trémulo. Sinto que me seguram por trás dos ombros e me colocam em posição vertical. O jovem de cabelo comprido e a mulher da cicatriz em forma de crescente desdobram um pano de linho grosseiro que se encontrava enrolado à volta do meu peito e pernas. Terei adormecido enquanto eles trabalham? A seguir só me lembro do velho choroso a colocar o seu xaile de orações sobre o meu sexo nu.
Um homem esguio, de capa e capuz de chamalote, leva-me aos lábios uma concha de madeira. É paciente comigo, este estranho de mãos generosas e fortes, e eu bebo sofregamente quando volta a dar-me de beber e outra vez e... Ao fim de algum tempo, divido-me em duas pessoas: um ser exausto, desesperado por matar a sede, e um observador distante e curioso que pergunta a si próprio por que razão um acto tão simples se tornou uma tarefa tão difícil, e o que é que toda aquela gente da Judeia quer de mim. Depois de ter bebido, reparo que tenho um colar de âmbar à volta do pescoço. As contas são de um amarelo-leitoso. Quando tento tocar-lhe, sinto a mão de novo atacada por tremores. Ajudem-me.
Não me sai a voz, mas o jovem de cabelo comprido lê-me o desespero na cara e ergue o colar para eu poder vê-lo. Será aquele que a minha mãe usava sempre? Mostra-lhe o talismã! Uma voz enfática de mulher diz-lhe que me mostre uma rodela de pergaminho que também me puseram ao pescoço. Nela estão grosseiramente desenhadas quatro figuras, todas com olhos ovais, ao estilo egípcio. Por cima das cabeças, os respectivos nomes angelicais: Mikhael, Gavriel, Uriel e Raphael. Por baixo das figuras, uma citação dos Salmos, escrita numa letra de criança: o Senhor é o teu único refúgio, o Altíssimo o teu auxílio. Por isso, nenhum mal te acontecerá, nenhuma epidemia chegará à tua tenda. É que Ele deu ordem aos Seus anjos para que te guardem em todos os teus caminhos.
A melodia de uma flauta, uma música frígia, simultaneamente triste e queixosa, alicia-me para o sono, que invade o meu corpo, quente e abundante como um mar que ondula suavemente. Algum tempo depois, tomo gradualmente consciência de um peso no peito. Dá-me a sensação de estar ali há muito tempo. O homem que me ajudou a beber beija-me nos lábios. Tirou o capuz. Tem os olhos vermelhos e inchados. Tem estado a chorar alguém, penso, e apetece-me perguntar-lhe se lhe morreu algum amigo, mas continuo incapaz de encontrar a minha voz». In Richard Zimler, O Evangelho Segundo Lázaro, Porto Editora, 2016, ISBN 978-972-004-854-7.

Cortesia de PEditora/JDACT

domingo, 9 de dezembro de 2018

O Evangelho Segundo Lázaro. Richard Zimler. «O coração aperta-se-me com a visão de tantos estranhos, e o meu primeiro pensamento é que tenho de apelar rapidamente à sua misericórdia»

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«(…) Eliezer, a porta que procuras sou eu!, grita. A voz é-me familiar, embora não seja capaz de a identificar. Antes que consiga voltar-me para ver quem é, sinto umas mãos empurrar-me para a frente. Caio e sou engolido pelas chamas. E, contudo, não me queimo nelas. E não morro. Vou cambaleando através das labaredas até dar comigo a voar num céu vermelho e magoado. Tenho o corpo revestido de penas prateadas. Yerushalayim ergue-se diante de mim e voo como uma flecha na direcção da sua cidadela. A Torre Faesal... Decido pousar-lhe no rebordo para avaliar as forças do inimigo, mas ao aterrar aí... Graças a essa metamorfose da emoção que nos marca para sempre como os filhos de Adam e Havvah, o vigoroso bater das minhas asas transforma-se nas batidas aceleradas do coração de um rapazinho galileu que acorda para dar consigo no seu quarto, nu, banhado em luar, perguntando-se de que maneira, e por que razão, se transformou num deus alado.

Tenho de te falar agora da semana que mudou a minha vida e me mandou para o exílio, aqui, em Rodes, e que te trouxe para o seio da nossa família. Vê se consegues imaginar-me como o viúvo e pai de dois filhos pequenos que eu era nessa altura, um homem que já celebrara trinta e seis aniversários com a família e os amigos, e que ainda não tinha a certeza do seu lugar no mundo... Uma tarde, acordo para me ver rodeado de uma amálgama de rostos que me são desconhecidos, iluminados pela luz cor de açafrão de uma dúzia de lanternas. O coração aperta-se-me com a visão de tantos estranhos, e o meu primeiro pensamento é que tenho de apelar rapidamente à sua misericórdia. Mas não digo uma palavra; sou um par de olhos que pestanejam, aterrados, à espera de pistas que me revelem a natureza da minha atribulação.
Por mero hábito, digo para mim próprio as palavras do Senhor ao profeta Yirmiyahu: não temas diante deles; porque estou contigo para te livrar. Mas uns gritos roucos vindos de um sítio que não consigo ver levam-me a contrair o rosto num esgar de medo, e apetece-me fugir. Em breve me chegam igualmente aos ouvidos sussurros apressados, que não consigo decifrar. As batidas insistentes e tensas dentro do meu peito fazem-me balançar de um lado para o outro, e tenho a garganta seca como areia. Nas profundezas da terra, é aí que os meus pensamentos em debandada parecem ter procurado refúgio. Um jovem de longos cabelos ergue uma tocha e inclina-se para mim, estudando-me com olhos húmidos e perturbados. Tem a túnica rasgada ao longo do colarinho.
Olho por cima do seu ombro e descubro sombras que fazem lembrar borboletas a esvoaçar num tecto de pedra pálida. Os odores pesados, doces e húmidos da mirra e do espicanardo enchem-me o peito ofegante. Trouxeram-me para uma caverna, penso. Tenho de tentar descobrir o que querem de mim antes de falar. Uma mulher pequena, de rosto tenso e olhos encovados e curiosos, debruça-se sobre mim. Segura um pequeno quadrado de tecido sobre a boca e o nariz, e perscruta-me como se tentasse resolver um cálculo complexo. Diz qualquer coisa ininteligível, em latim, talvez, e ergue as sobrancelhas, numa tentativa de me levar a responder-lhe. Pergunto-me porque não se dirige a mim em aramaico ou hebraico, ou grego.
Deve ser estrangeira. E os outros também. Contudo, estão quase todos vestidos à maneira de Judeia. À minha esquerda chora um velho corcovado, com o seu talit pelos ombros. Ao lado dele ergue-se uma mulher alta, de membros longos, dos seus quarenta anos, diria eu, apertando contra o peito uma mantilha de lã, como quem receia que ela lhe salte das mãos e fuja, se aliviar a pressão dos dedos. Tem o rosto devastado de uma alma perdida que viu demasiado, e o colarinho do peplos rasgado. A pequena cicatriz que ostenta no queixo, em forma de crescente, parece-me familiar». In Richard Zimler, O Evangelho Segundo Lázaro, Porto Editora, 2016, ISBN 978-972-004-854-7.

Cortesia de PEditora/JDACT

Manual para Mulheres de Limpeza. Lucia Berlin. «Claro que acredito. Queres lume? Ele acendeu-me o cigarro e sorrimos um para o outro. Estávamos muito próximos e, depois, ele apagou-se…»

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A lavandaria self-service do Angel
«(…) Depois ficámos em silêncio. Sem outro som além do da água revolvida, rítmica como ondas no mar. A sua mão de Buda pegou na minha. Passou um comboio. Deu-me um leve empurrão: Grande cavalo de ferro!, e começámos a rir outra vez.
Faço muitas generalizações infundadas sobre as pessoas, como achar que todos os negros gostam de Charlie Parker. Os alemães são horríveis, todos os índios têm um sentido de humor estranho, igual ao da minha mãe. Uma das suas preferidas é a de um tipo que está dobrado a atar o sapato e vem outro que lhe bate e diz: estás sempre a atar o sapato. A outra é quando um empregado de mesa deixa cair sopa no colo de uma pessoa e diz: oh, não, agora está o caldo entornado. O Tony costumava contar-me essas, em dias calmos, na lavandaria.
Uma vez, estava muito bêbado, bêbado com mau feitio, e andou à luta com uns oakies (nome pejorativo dado a trabalhadores agrícolas migrantes, vindos do centro-sul doa USA) no parque de estacionamento. Partiram-lhe a garrafa de Jim Beam. O Angel disse que lhe pagava uma cerveja se ele lhe desse ouvidos na sala de engomar. Passei a minha roupa da máquina de lavar para a de secar enquanto o Angel falava com o Tony acerca do Um Dia de Cada Vez.
Quando o Tony saiu, enterrou-me as suas moedas na mão. Pus-lhe as roupas na máquina de secar enquanto ele se debatia com a tampa da garrafa de Jim Beam. Antes ainda de me sentar, gritou-me: sou um chefe! Sou um chefe da tribo Apache! Mer… Mer… tu, chefe., Limitou-se a ficar sentado, a beber, a olhar para as minhas mãos no espelho. Então porque é que lavas tu a roupa dos apaches? Não sei por que motivo disse aquilo. Era uma coisa horrível de se dizer. Talvez eu tenha pensado que ele se risse. Ele riu-se, em todo o caso. De que tribo és tu, pele-vermelha?, disse ele, observando as minhas mãos a tirarem um cigarro. Sabias que foi um príncipe quem me acendeu o meu primeiro cigarro? Dá para acreditar?
Claro que acredito. Queres lume? Ele acendeu-me o cigarro e sorrimos um para o outro. Estávamos muito próximos e, depois, ele apagou-se e eu fiquei sozinha no espelho. Estava lá uma rapariga, jovem, não no espelho, sentada junto à janela. Com o cabelo a encaracolar na névoa, numa delicadeza de Botticelli. Li todos os cartazes. Dai-me coragem, Senhor. Berço novo, nunca usado, bebé morreu. A rapariga pôs a sua roupa num cesto azul-turquesa e foi-se embora. Passei a minha roupa para a mesa, espreitei a do Tony e pus outra moeda. Estava sozinha com o Tony na lavandaria. Contemplei as minhas mãos e os meus olhos no espelho. Olhos azuis bonitos. Uma vez estive num iate ao largo de Viña del Mar. Cravei o meu primeiro cigarro e pedi lume ao príncipe Aly Khan. Enchanté, respondeu. Na verdade, ele não tinha lume. Dobrei a minha roupa e, quando o Angel voltou, fui para casa. Não me lembro de quando me dei conta de que nunca mais voltei a ver aquele índio». In Lucia Berlin, Manual para Mulheres de Limpeza, 1977, …, 1999, Penguin Random House, 2016, Alfaguara, 2018, ISBN 978-989-665-065-0.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

Manual para Mulheres de Limpeza. Lucia Berlin. «Gostou do meu nome, pronunciou-o em italiano. Lu-chi-a. Tinha estado em Itália na Segunda Grande Guerra. E, entre os seus belos colares prateados e azul-turquesa, lá estava o colar militar…»

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A lavandaria self-service do Angel
«(…) O Tony não abriu os olhos. Qualquer pessoa que diga que sabe como outra se sente é um idiota. A lavandaria self-service do Angel fica em Albuquerque, no Novo México. 4th Street. Lojas maltrapilhas e ferros-velhos, lojas de roupa em segunda mão com catres militares, caixas de meias desirmanadas, edições da Good Hygiene de 1940. Lojas de cereais a granel e motéis para amantes e bêbados, e velhas com cabelo pintado com hena que tratam da sua roupa na lavandaria do Angel. Noivas chicanas adolescentes vão à lavandaria do Angel. Toalhas, camisas de noite cor-de-rosa curtas, cuecas biquíni que dizem Thursday. Os seus maridos usam fatos-macaco azuis com os nomes bordados nos bolsos. Gosto de esperar e de ver os nomes a aparecerem no reflexo do vidro reflexo das máquinas de secar. Tina, Corky, Junior.
Pessoas em viagem vão à lavandaria do Angel. Colchões sujos, cadeiras de refeição para crianças, enferrujadas, atadas aos tejadilhos de velhos Buicks com mossas. Motores com fugas de óleo, radiadores com fugas de água. Máquinas de lavar roupa com fugas de água. Os homens ficam nos carros, em tronco nu, esmagam latas de Hamm's depois de vazias. Mas são sobretudo os índios que vão à lavandaria do Angel. Índios do pueblo, de San Felipe, de Laguna e de Sandia. O Tony foi o único apache que alguma vez vi, na lavandaria ou noutro sítio qualquer. Gosto de entortar ligeiramente os olhos e de ver as máquinas de secar cheias de roupas índias a turvarem os roxos e cor de laranja e vermelhos e cores-de-rosa-brilhantes que giram. Vou à lavandaria do Angel. Não sei bem porquê, não é apenas pelos índios. Fica na outra ponta da cidade, para mim. A apenas um quarteirão de distância tenho o campus, com ar-condicionado, a música ambiente a passar um rock suave. New Yorker, Ms. e Cosmopolitan. As mulheres dos professores assistentes vão lá e compram barras Zero e Coca-Colas aos seus filhos. A lavandaria do campus tem um letreiro, à semelhança da maioria das lavandarias: absolutamente proibido tingir. Andei por toda a cidade com uma colcha verde até ter chegado à lavandaria do Ange, com o seu letreiro amarelo: pode tingir aqui sempre que quiser.
Vi que não estava a ficar de um roxo-intenso, e sim de um verde-escuro mais lamacento, mas quis voltar, em todo o caso. Gostava dos índios e da roupa que lavavam. A máquina de Coca-Cola avariada e o chão inundado lembrava-me Nova Iorque. Os porto-riquenhos a ensopar a esfregona, a ensopar. O telefone público também estava sempre avariado, como o da lavandaria do Angel. Teria eu ido procurar o corpo da Armitage numa quinta-feira? Sou chefe da minha tribo, disse o índio. Até então estivera apenas ali sentado, a beber pequenos goles de porto, a olhar para as minhas mãos. Disse-me que a sua mulher trabalhava a limpar casas. Tinham quatro filhos. O mais novo tinha-se suicidado, o mais velho tinha morrido no Vietname. Os outros dois conduziam autocarros escolares. Sabes porque é que gosto de ti? Não, porquê? Porque és pele-vermelha. Apontou para a minha cara no espelho. Tenho a pele vermelha, e, não, nunca vira um índio pele-vermelha.
Gostou do meu nome, pronunciou-o em italiano. Lu-chi-a. Tinha estado em Itália na Segunda Grande Guerra. E, entre os seus belos colares prateados e azul-turquesa, lá estava o colar militar com as chapas de identificação. Tinha uma grande amolgadela. Uma bala? Não, costumava mordê-lo quando tinha medo ou tes… Uma vez, sugeriu que nos fôssemos deitar na sua rulote, para descansarmos juntos. Os esquimós dizem rir juntos. Apontei para o letreiro em verde-lima fluorescente: nunca deixe as máquinas sem supervisão. Ambos nos rimos, gargalhando nas nossas cadeiras de plástico ligadas». In Lucia Berlin, Manual para Mulheres de Limpeza, 1977, …, 1999, Penguin Random House, 2016, Alfaguara, 2018, ISBN 978-989-665-065-0.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

Manual para Mulheres de Limpeza. Lucia Berlin. «Durante meses, na lavandaria do Angel, o índio e eu não falámos, embora nos sentássemos juntos em cadeiras de plástico amarelas presas umas às outras»

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A lavandaria self-service do Angel
«Um índio alto e velho, com umas Levi's coçadas e um bonito cinto zuni (tribo de índios da América do Norte). O cabelo, branco e comprido, atado com fio cor de framboesa junto ao pescoço. O estranho é que, durante cerca de um ano, estávamos sempre na lavandaria do Angel ao mesmo tempo. Mas não às mesmas horas. Isto é, por vezes eu ia às sete numa segunda-feira, ou às seis e meia da tarde numa sexta-feira, e ele já lá estava.
Com a Sr.a Armitage tinha sido diferente, embora também ela fosse velha. Fora em Nova Iorque, na lavandaria San Juan, na 15th Street. Porto-riquenhos. Espuma a transbordar para o chão. Eu era uma jovem mãe, nessa altura, e lavava fraldas às quintas-feiras de manhã. Ela vivia por cima de mim, no 4-C. Certa vez, na lavandaria, deu-me uma chave, e eu aceitei-a. Disse-me que, se não a visse às quintas-feiras, era porque estaria morta e que fizesse o favor de ir à procura do seu corpo. Era uma coisa horrível de se pedir a alguém; além do mais, isso obrigava-me a ir tratar da minha roupa às quintas-feiras. Ela morreu numa segunda-feira, e eu nunca mais voltei à San Juan. O porteiro encontrou-a. Não sei como.
Durante meses, na lavandaria do Angel, o índio e eu não falámos, embora nos sentássemos juntos em cadeiras de plástico amarelas presas umas às outras, como nos aeroportos. Elas deslizavam no linóleo rasgado e o som arrepiava os dentes. Ele costumava ficar ali sentado a bebericar Jim Beam (marca de bourbon), a olhar para as minhas mãos. Não directamente, mas pelo espelho à nossa frente, por cima das máquinas de lavar Speed Queen. Ao início, não me incomodou. Um velho índio a olhar fixamente para as minhas mãos pelo espelho sujo, entre Engoma-se 1,50$ a dúz, amarelecidos e preces de serenidade em cor de laranja-fluorescente. Deus, Concede-me a Serenidade, para Aceitar as Coisas que não posso Mudar. Mas, depois, comecei a perguntar-me se ele teria uma tara com mãos. Deixava-me nervosa, ele a ver-me fumar, a assoar-me, a folhear velhas revistas com muitos anos. Lady Bird Johnson (alcunha dada à primeira-dama dos USA, Claudia Johnson, casada com Lyndon B. Johnson, presidente entre 1963 e 1969) a descer os rápidos.
Por fim, ele apanhou-me a olhar fixamente para as minhas mãos. Vi-o quase a sorrir por me ter apanhado a olhar fixamente para as minhas próprias mãos. Pela primeira vez, os nossos olhares cruzaram-se no espelho, por baixo do não sobrecarregue as máquinas. Havia pânico no meu olhar. Olhei para os meus próprios olhos e, depois, para baixo, para as minhas mãos. Manchas de velhice horríveis, duas cicatrizes. Mãos não índias, nervosas, solitárias. Pude ver crianças e homens e jardins nas minhas mãos.
As suas mãos naquele dia (no dia em que reparei nas minhas) estavam pousadas sobre cada uma das suas tensas coxas azuis. Na maior parte do tempo, tremiam bastante, e ele deixava-as agitarem-se no seu colo, mas, naquele dia, mantinha-as quietas. O esforço para não as deixar tremer fez com que os nós dos seus dedos de terracota ficassem brancos.
A única vez que falei com a Sr.a Armitage fora da lavandaria foi quando a sua retrete transbordou e causou infiltrações no candelabro do meu piso. As luzes ainda estavam acesas, com a água a salpicar arcos-íris à sua volta. Ela agarrou-me o braço com a mão fria e moribunda e disse: é um milagre, não é? Chamava-se Tony. Era um apache Jicarilla, do Norte. Um dia, não o vi, mas soube que era a sua bela mão no meu ombro. Deu-me três moedas. Não percebi, quase disse obrigada, mas depois vi que ele estava com tantos tremores que não conseguia usar as máquinas. Sóbrio já é difícil. É preciso girar a seta com uma mão, pôr a moeda com a outra, empurrar o êmbolo para baixo e, depois, voltar a girar a seta para trás, para pôr a próxima moeda.
Ele voltou mais tarde, bêbado, precisamente na altura em que as suas roupas começavam a ficar mais leves e secas. Não conseguiu abrir a porta, apagou-se sobre a cadeira amarela. As minhas roupas já tinham secado, estava a dobrá-las. Eu e o Angel pusemos o Tony no chão da sala de engomar. Quente. O Angel é o responsável por todas as preces e lemas dos AA. Não penses e não bebas. Ele pôs uma meia molhada e fria na testa do Tony e ajoelhou-se ao seu lado. Irmão, acredita em mim... Já estive nesse sítio..., nessa mesma sarjeta onde estás agora. Sei perfeitamente como te sentes». In Lucia Berlin, Manual para Mulheres de Limpeza, 1977, …, 1999, Penguin Random House, 2016, Alfaguara, 2018, ISBN 978-989-665-065-0.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

A Perseguição aos Judeus e Muçulmanos de Portugal. François Soyer. «O porteiro estava encarregado de executar as ordens e sentenças do rabi-mor, assim como os arrestos, penhoras de bens e prisões. No caso de a comuna se recusar a pagar os impostos que lhe eram atribuídos pelo rabi-mor»

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Manuel I e o fim da tolerância religiosa (1496 - 1497
Organização comunitária: judiarias, mourarias e comunas
«(…) Mais tarde, Fernando I aumentou os poderes já consideráveis do rabi-mor, concedendo-lhe o direito de usar um selo real e prender judeus delinquentes, tal como qualquer magistrado e beleguim cristão. Em 1412, João I reformou o cargo de rabi-mor em resposta a queixas dos judeus de Lisboa e de outras comunas contra certos abusos não especificados do rabi-mor Yehuda Cohen (esta ordenação tem a data de 1402 [Era Comum 1440], mas isso deve ter sido um erro do escrivão, porque a mesma se refere claramente a Judas Cohen, que só foi nomeado rabi-mor de Portugal por João I em 1405. A data mais provável de 1412 [Era Comum 1450] encontra-se noutro manuscrito das Ordenações Afonsinas na Torre do Tombo). Estas reformas devolveram alguns poderes aos rabis-menores e às comunidades judaicas. O rabi-mor já, não podia prender nem deter indivíduos transgressores, nem interferir nas finanças das comunas. As reformas destinavam-se também a travar os abusos e a corrupção, proibindo a concessão de isenções fiscais ou a emissão de alvarás.
Apesar destas limitações, o rabi-mor manteve a sua importante posição no seio da comunidade. O rabi-mor continuaria a julgar causas em segunda instância, enquanto os juízes ou corregedores de comarca cristãos estavam proibidos de julgar essas causas. Para reforçar esta ordenação, os judeus foram terminantemente proibidos de recorrer a tribunais cristãos sob ameaça de uma pesada multa. Embora João I proibisse o rabi-mor de nomear rabis-menores, e ordenasse que tais nomeações fossem revogadas, o primeiro continuaria a confirmar a eleição dos segundos e a verificar o orçamento das comunas. Por fim, o rabi-mor manteve o uso de um selo com as armas reais, mas este teria a seguinte legenda: Selo do rabi-mor de Portugal.
Para o ajudar no cumprimento das suas funções, o rabi-mor tinha a sua própria chancelaria, com um chanceler, um escrivão e um porteiro, e um selo especial. O chanceler guardava o selo oficial do rabi-mor que este usava para selar todas as cartas, alvarás e livramentos redigidos pelo escrivão e assinados por si. O chanceler e o escrivão deviam ser homens de boa fama, e o escrivão devia saber escrever bem e estar disposto a manter em segredo tudo o que ouvia e a usar bem e direitamente do seu ofício. O porteiro estava encarregado de executar as ordens e sentenças do rabi-mor, assim como os arrestos, penhoras de bens e prisões. No caso de a comuna se recusar a pagar os impostos que lhe eram atribuídos pelo rabi-mor, o porteiro podia também confiscar os bens dos oficiais da comuna. Estes três funcionários deviam ser escolhidos pelo rabi-mor e podiam ser judeus ou cristãos. Como o rabi-mor não era necessariamente um homem versado na lei judaica, o rei ordenava também que entre o pessoal houvesse sempre um letrado judeu de boa fama e condição, cujo conhecimento do Talmude ajudaria o rabi-mor a resolver complexas questões judiciais fora da sua própria competência. Além disso, uma vez que muitos rabis-mores combinavam também este cargo com os de médico real e/ou tesoureiro-mor da Coroa, o seu tempo para realizar visitas era severamente limitado. Para remediar este problema, e facilitar o acesso à justiça a todos os judeus portugueses, seriam nomeados magistrados judeus especiais, os ouvidores, para servir de delegados do rabi-mor em sete comarcas judiciais.
No reinado de João I, as sedes destas comarcas estabeleceram-se no Porto, Torre de Moncorvo, Viseu, Covilhã, Évora, Santarém e Faro. Os poderes e funções dos ouvidores eram exactamente os mesmos que os do rabi-mor e cada um tinha uma chancelaria, selo, chanceler, escrivão e porteiro. Sempre que visitasse uma comarca, o rabi-mor assumia as funções do ouvidor local até voltar a partir». In François Soyer, A Perseguição aos Judeus e Muçulmanos de Portugal, 2007, Edições 70, 2013, ISBN 978-972-441-709-7.

Cortesia de E70/JDACT

sábado, 8 de dezembro de 2018

A Perseguição aos Judeus e Muçulmanos de Portugal. François Soyer. «No topo da estrutura administrativa das comunas dos judeus, e da sociedade judaica em Portugal, estava o rabi-mor, figura semelhante ao Rab Mayor de la Corte em Castela»

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Manuel I e o fim da tolerância religiosa (1496 - 1497
Organização comunitária: judiarias, mourarias e comunas
«(…) Além do rabi-menor, cada comuna tinha também uma câmara de vereação, que se reunia na sinagoga principal e era constituída por um número variável de vereadores, procuradores e homens-bons. No reinado de Pedro I, cada comuna devia ter, em teoria pelo menos, três vereadores e dois procuradores, excepto Lisboa, que tinha doze e mais tarde oito. O rabi-menor e os vereadores eram eleitos anualmente e iniciavam as suas funções no Ano Novo judaico. Apenas em Lisboa eram eleitos para um mandato mais longo de três anos. Em todos os casos, porém, a sua eleição tinha de ser ractificada pela Coroa e, assim, o rei reservava o direito potencial de vetar qualquer nomeação. Este processo, aparentemente, estava muitas vezes sujeito a irregularidades. Documentos na chancelaria régia mostram que alguns rabis-menores eram nomeados directamente pela Coroa.
A câmara da comuna e os seus oficiais, como a câmara municipal cristã, eram responsáveis pela manutenção dos edifícios comunitários, como a sinagoga, e pela gestão das suas receitas. Cada comuna tinha o direito de criar as suas próprias leis e ordenações. Infelizmente, não sobreviveram em Portugal quaisquer estatutos comunais semelhantes aos instituídos por comunidades judaicas noutras partes da Península Ibérica e as fontes documentais disponíveis revelam muito pouco sobre a composição da câmara. Segundo as ordenações de Afonso V (1438-1481), que pretendiam impor uma prática uniforme, os nomes de judeus elegíveis deviam ser inscritos em bolinhas de papel (pelouros), de entre as quais seriam sorteados os oficiais da comuna, incluindo o rabi-menor. Este sistema de eleição parece ter sido idêntico àquele praticado nas câmaras cristãs de Portugal para eleger os funcionários municipais. Existem poucos dados que nos revelem o modo como os candidatos elegíveis eram escolhidos e parece que, nas grandes comunas judaicas, os artesãos mais humildes competiam com os mercadores ricos pelo controlo da administração da comuna. Uma pesquisa aos oficiais das comunas de Lisboa e de Évora mostra que um pequeno grupo de famílias ricas dominava o governo das mesmas.
Alguns funcionários menores eram nomeados para desempenhar funções governativas. Cada comuna tinha um tesoureiro, um escrivão que mantinha os registos oficiais da comuna e um ou mais tabeliões, autorizados pela Coroa a lavrar documentos legais. Embora estes cargos fossem normalmente desempenhados por judeus, a lei permitia que os mesmos também fossem desempenhados por cristãos. O número de tabeliões variava de acordo com a dimensão da comunidade. Nas últimas décadas do século XV, Lisboa tinha seis, Santarém e Évora tinham ambas três e o Porto dois. Outras comunas empregavam provavelmente um único tabelião. Cada tabelião pagava uma taxa à Coroa em troca do seu ofício e tinha de apresentar fiadores. Por fim, um funcionário especial, o almotacé, era por vezes encarregado de inspeccionar o mercado comunitário. Os outros funcionários das comunas judaicas eram os contadores dos feitos e custas e os procuradores de número.
No topo da estrutura administrativa das comunas dos judeus, e da sociedade judaica em Portugal, estava o rabi-mor, figura semelhante ao Rab Mayor de la Corte em Castela. Desde o reinado de Afonso Henriques, o rabi-mor era o líder inequívoco e incontestado das comunidades judaicas do Portugal medievo. O rabi-mor não era eleito pelos judeus, mas nomeado pela Coroa, e era normalmente um cortesão judeu que gozava das boas graças do rei. Era responsável perante o rei pela boa administração das comunidades judaicas em todo o reino e, em troca, representava também os interesses dos judeus portugueses na corte, funcionando como seu interlocutor junto do rei. Pouco se sabe das tarefas precisas e jurisdição do rabi-mor antes do fim do século XIV. Só com o foral concedido pelo rei Fernando I (1367-1383) ao rabi-mor Yehuda b. Menir em 1373, e com os documentos posteriores do reinado de João I (1384-1433), é que começa a surgir um quadro pormenorizado dos importantes deveres e poderes desse cargo. O foral emitido por Fernando I decretava que o rabi-mor devia visitar as comunas judaicas em Portugal e corrigir quaisquer injustiças feitas às mesmas e ouvir as queixas da população contra as autoridades comunitárias e aqueles judeus poderosos que não obedeciam aos funcionários da comuna. A jurisdição do rabi-mor abrangia todas as causas cíveis e criminais entre judeus e recursos contra as sentenças dos rabis-menores. O rabi-mor devia também confirmar a eleição anual dos rabis-menores em nome do rei e podia convocar representantes de cada comunidade para discutir a distribuição dos impostos régios entre as diferentes comunas do reino de acordo com a sua população e riqueza». In François Soyer, A Perseguição aos Judeus e Muçulmanos de Portugal, 2007, Edições 70, 2013, ISBN 978-972-441-709-7.

Cortesia de E70/JDACT

A Perseguição aos Judeus e Muçulmanos de Portugal. François Soyer. «As comunas não eram entidades físicas, mas corporações administrativas e jurisdicionais reconhecidas oficialmente e reunindo judeus ou muçulmanos»

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Manuel I e o fim da tolerância religiosa (1496 - 1497
Organização comunitária: judiarias, mourarias e comunas
«(…) As cidades de Lisboa e Porto tinham ambas várias judiarias, embora estas não fossem todas contemporâneas umas das outras nem de tamanho igual. Em Lisboa, estes bairros judeus eram a Judiaria Grande, a Judiaria Nova e a Judiaria de Alfama. A primeira, como sugere o nome, era a maior e a mais antiga. A Judiaria Nova e a Judiaria de Alfama nasceram ambas durante o século XIV. Uma quarta judiaria, com o nome de Pedreira, encontra-se pouco documentada e parece que deixou de existir no início do século XIV, durante o reinado de Dinis I. No Porto, a população judaica reunia-se na Judiaria do Olival, na Judiaria Velha e, fora das muralhas da cidade, nas judiarias de Monchique e Gaia. Outras cidades tinham mais de uma judiaria: Coimbra tinha três e Guarda e Lamego duas cada, mas tudo indica que a maioria das cidades portuguesas tinha apenas uma judiaria. Por outro lado, nenhuma cidade portuguesa parece ter tido mais do que um único bairro muçulmano. Lisboa, por exemplo, tinha apenas uma mouraria, situada na encosta noroeste do Castelo de São Jorge. A sua localização fora das muralhas da cidade levou a que fosse muitas vezes identificada em documentos como o arrabalde dos mouros. Um viajante polaco de visita a Lisboa em 1484 ficou algo espantado por ver que a cidade (...) tem muitos pagãos (i.e. muçulmanos) a viver nos seus arrabaldes e eles ocupam mesmo uma parte dos mesmos (...) um subúrbio no qual até agora têm residido e construído as suas casas sem que ninguém os perturbe.

As comunas dos judeus
As comunas não eram entidades físicas, mas corporações administrativas e jurisdicionais reconhecidas oficialmente e reunindo judeus ou muçulmanos a viver numa determinada cidade ou zona. Noutros lugares na Península Ibérica, a palavra arábica aljama era geralmente usada para descrever estas corporações legalmente constituídas, mas em Portugal o termo latino comuna foi adoptado nos documentos oficiais. A organização administrativa e judicial das comunas judaicas e muçulmanas baseava-se, em grande parte, no sistema do concelho cristão, que constituía a base da organização administrativa de Portugal na Idade Média. A comuna podia incluir várias judiarias. Assim, os judeus de Lisboa formavam apenas uma comuna, apesar de existirem três judiarias distintas na cidade. Os núcleos judaicos ou muçulmanos mais pequenos ficavam sob a jurisdição das autoridades das comunas de grupos maiores. As autoridades judaicas de Leiria, por exemplo, gozavam de autoridade jurisdicional sobre os habitantes judeus de vilas vizinhas mais pequenas.
A nível local, o chefe de cada comuna judaica em Portugal e a sua autoridade judicial superior era o rabi-menor. Cada comuna tinha um único rabi-menor encarregado da sua administração, excepto Lisboa, que tinha dois, provavelmente devido ao tamanho da sua população judaica. Estes rabis tinham o poder de actuar como magistrados, julgando em primeira instância todas as causas cíveis e crimes entre judeus ou entre cristãos e judeus quando estes últimos eram os réus. O rabi-menor podia punir os transgressores com multas, prisão, castigos corporais, exílio da comuna e até a excomunhão. Nalgumas comunas maiores, o rabi-menor podia ser auxiliado por um inquisidor dos feitos e um alcaide pequeno. Às vezes, o rabi-menor chamava mesmo funcionários régios para o ajudar a prender judeus delinquentes. Além disso, na sua capacidade de juiz dos órfãos, o rabi-menor era também responsável pela nomeação de tutores e guardiães para as crianças órfãs da sua comunidade». In François Soyer, A Perseguição aos Judeus e Muçulmanos de Portugal, 2007, Edições 70, 2013, ISBN 978-972-441-709-7.

Cortesia de E70/JDACT

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Tal como o rei e os grandes nobres que o apoiavam, também a peonagem se deixou levar pela onda de entusiamo. Não era para tanto, mas que se havia de fazer?»

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Invasão da Galiza
«(…) Mas será que o Trastâmara assassino não vem a terreiro defender o território galego?, interrogava-se Fernando I com justificada surpresa, em voz alta, para que os mais próximos ouvissem e comentassem. Não vem, senhor!, afirmou o conde Andeiro. Todos na Hispânia vos conhecem. Sabem o cavaleiro que vós sois, temem-vos. Se não o fordes buscar, majestade, ao vosso encontro é que ele não virá. Travestido de uma confiança construída por aduladores, Fernando avançou. Ir em frente não lhe custava, mas ao chegar a Monterrey teve a primeira surpresa. O pueblo não tinha mais do que uma fortaleza mal defendida, com pouca população, incapaz de se defender de um exército inteiro. Mas o que se havia de fazer? Teimosos, não queriam nada com o rei português, uns ingratos que não viam nele o rei elegantíssimo que era. Rejeitam-me? Não querem um rei bem-parecido e de boas maneiras? Preferem um assassino? Pois bem, vamos lá a ver se têm ameias que cheguem para aguentar a força lusitana.
Pelo sim, pelo não, Fernando pediu ao conde Andeiro que parlamentasse com os sitiados. E já estava a ser magnânimo. Oferecia-lhes uma rendição honrosa, isso bastava, porque a outra hipótese era arrasar Monterrey com tudo o que havia lá dentro. Na volta, o conde Andeiro apenas disse que os do castelo preferiam morrer a deixar-se governar por um rei estranho. Estranho? Nem estranho, nem mal acabado, o que eles querem é empatar, deduziu o rei. A indignação do formoso rei não tinha razão de ser. O que os de Monterrey queriam dizer é que ele era estrangeiro, galego não era de certeza. As vossas palavras são ordens que todos respeitaremos, assentiu João Fernandes Andeiro, disposto a expulsar as dúvidas da cabeça do rei, mas, senhor, o que o alcaide quis dizer é que vós sois estrangeiro, não tem nada de pessoal.
Adiante, tomai a dianteira, mandai formar as forças e atacai. Os engenhos do contrapeso começaram a deslocar-se devagar, e quando chegaram à distância de tiro, lançaram os seus pesados pedregulhos contra as portas e as ameias do frágil castelo, começando a partir os cubos e a destapar os sitiados que tentavam com as suas bestas acertar nos combatentes portugueses. Partidos os dentes do castelo, as bastidas (construção de madeira como torre ou castelo mais alto do que a muralha do inimigo, permitindo aos assaltantes desfechar ataques sobre os sitiados escondidos atrás das ameias) logo avançaram até se encostarem às muralhas, num instante despejando dentro do burgo hordas de guerreiros prontos a matar e a pilhar o que por lá houvesse.
A vitória sobre os de Monterrey foi um ápice. Embriagado pelo triunfo insignificante, transformado logo pelos apologistas em uma batalha decisiva, el-rei convenceu-se de que não havia força que o detivesse na sua caminhada triunfal: hoje foi Monterrey, mais à frente e mais longe será Valladolid, até só haver um rei em toda a Hispânia. Viva o nosso rei, viva Portugal! Viva a Galiza!, exultavam com ele uma corja de bajuladores e sanguessugas do erário.
Tal como o rei e os grandes nobres que o apoiavam, também a peonagem se deixou levar pela onda de entusiamo. Não era para tanto, mas que se havia de fazer? A vitória é o oposto da derrota, nisso o rei e toda aquela pantalha tinham razão, pois se fosse ao contrário, se em vez de vencer, fracassassem, seria uma humilhação. Por isso, os quatro amigos da taberna da Mariamem, lídimos representantes das classes menos favorecidas, regalavam-se à sombra dos choupos frondosos nas margens da ribeira, comendo uma galinha que surripiaram com facilidade. Sim, era uma guerra cansativa, está bem de ver, pois andar de um lado para o outro com a tralha às costas, sempre disponíveis para acorrer às requisições dos seus senhores, custava muito, mas tinha as suas compensações, entre elas os soldos que entrariam no bornal, e como naquele dia, comer um acepipe sem penas». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «A campanha estava a revelar-se para o monarca Fernando bem mais fácil e compensadora do que alguma vez pensara. Até ali não gastara uma seta, uma pedra…»

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Invasão da Galiza
«(…) Senhor, ides tão cedo..., murmurou a dona, palavras que custavam a ouvir..., mandai o camareiro esperar, dizei-lhe que tendes uma emergência, qualquer coisa que vos faça ficar mais um ratito. Às palavras madrugadoras da galega, Fernando I não voltou resposta. A moça era linda, ele suspirava. Ela sem bordados que lhe tapassem as virtudes, ele na borda da cama sentado a enfiar as calças soladas e a pensar quão aborrecido era marchar atrás de tantas cavalgaduras por esses caminhos afora. Pensasse em outras coisas. Ali não podia ficar. Vontade não lhe faltava, mas como voltaria as costas às obrigações? Combater o usurpador, anulá-lo, anexar mais um bocado de terra ao território português valia bem o esforço que teria de fazer para resistir ao chamamento do corpo oferecido sobre a cama.
Saído de Tui, por aí acima foi um passeio até Padrón, pequeno povoado sem a dimensão da cidade à beira do rio Minho, mas suficiente para à sua volta caber toda a tropa, enquanto a comitiva real assentou arraiais na única casa apalaçada que lá havia, modesta demais para tanta exuberância, mas bem digna se mostrou quando o fidalgo que a detinha se ajoelhou aos pés de Fernando e fez o voto feudal de auxílio e conselho. O mesmo acolhimento e mesuras em Pontevedra, mais ofertas e bajulices, antes de rumar a Santiago de Compostela, isso sim, um santuário de verdade, onde o rei permaneceria por dois dias em actos devocionais, promessas, rogos, tudo em comunhão com Deus e os santos.
A campanha estava a revelar-se para o monarca Fernando bem mais fácil e compensadora do que alguma vez pensara. Até ali não gastara uma seta, uma pedra, não quebrara uma lâmina, nem uma baixa se verificou entre a tropa. Levavam já dez dias de caminho, espaço de tempo em que as viandas começavam a dar sinal de exaustão, mas nesta campanha comiam que nem nababos, era à larga, divertimento e tudo. Nem sequer os mais frágeis ficaram pelo caminho, pois se eram tão bem alimentados, por certo resistiriam, pelo menos até encontrarem quem lhes tirasse o apetite.
Mas havia os que estranhavam. É que o tempo passado desde que saíram de Lisboa não tinha nas suas horas qualquer reacção de Henrique de Trastâmara. Matutando nisto, Fernando I, ajudado a pensar pelos do Conselho, concluiu que o rei castelhano se encolhia de medo só de pensar que a caminho ia um verdadeiro rei, filho e neto de outros reis, de uma realeza insuspeita, diferente do castelhano, que era bastardo. O cúmulo da invasão deu-se quando o exército irrompeu pelas ruas da Corunha, no meio de vivas ao rei Fernando, o grande salvador da Galiza. Era como se os coruñeses esperassem o seu rei, que voltava de uma longa viagem.
Até chegar ao paço condal foi uma festa, e ainda Fernando não tinha desmontado, já o conde João Fernandes Andeiro se torcia em requebros de grande cavaleiro. Ajoelhou-se, beijou-lhe as mãos e fez todas as promessas, as que cumpriria, e as outras, que mais tarde, sem por enquanto os dois saberem, o levaria à traição. Logo ali houve uma empatia fulminante entre os dois. Era de um homem assim que o rei precisava para seu conselheiro particular; o último entre muitos a oferecer-lhe soluções, a ajuda mais competente na hora de decidir.
Com a pessoa certa a seu lado, o rei Fernando demorou-se algum tempo na cidade a cerzir tácticas de guerra e teias políticas, tudo para levar de vencida o usurpador. Para tal, exigiu reforços, mandou erguer muros e indigitar fidalgos para os diferentes cargos, impondo em Tui e Baiona atalaias e velas pela noite afora, não fosse o adversário atacá-lo durante as trevas. Todas as decisões tinham carácter militar, no entanto, não deixavam de ser deliberações administrativas, como se a sua presença na Galiza estivesse para durar». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Sua majestade vai com os pensamentos a saírem-lhe do chapeirão, por enquanto, porque quando envergasse o elmo na guerra feia, nem se lembraria de quem era filho»

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Invasão da Galiza
«(…) Aquilo era bonito de se ver. Assim que o Sol mostrou a luminosidade que prometia para esse dia de Julho de 1369, começaram a sair do castelo de S. Jorge os mais altos dignitários da terra portuguesa, acompanhados pelos nobres galegos partidários da união galaico-portuguesa. Iam tomar posse de toda a Galiza e de alguns lugares de Castela que desejavam ter Fernando I como seu senhor, formando no seu todo mais uma excursão a caminho do Norte do que um exército invasor. Sobre o sucesso da caminhada até à Corunha, e dali para cima se fosse preciso, dava ao rei português todas as certezas, nenhumas desconfianças.
É certo que ainda estava em território lusitano, Henrique de Trastâmara não se dispunha a vir por aí abaixo interceptá-lo, mas a verdade é que o rei castelhano, até as tropas começarem a deslocar-se, não fizera qualquer aviso a Fernando I, nem sequer parecia incomodado com a expedição do exército português à Galiza. Era uma festa. Os músicos a retirar os sons ainda antes de saírem do castelo, cornetas, tambores e atabales na máxima expansão, ordenando aos que dormiam que chegassem às janelas, saíssem à rua para ver o formoso rei arrastar com ele alguns milhares de portugueses sem saber se voltariam.
Na frente seguiam os mestres de Santiago e de Cristo, mais Álvares Peres Castro, o condestável; o conde João Afonso Teles III; Álvaro Gonçalves Pereira, prior do Hospital; enquanto atrás deles, bem encavalitado, lá ia sua alteza corno se já estivesse a resguardar-se, e logo a seguir, os vários corpos de nobres portugueses e galegos que por certo seriam os mais brigosos guerreiros, comandantes das alas que iam esticar Portugal para norte. Durante a noite, os homens de pé ficaram por ali, acomodados nos pátios e nos terreiros, só os mais especializados, aqueles que ofereciam o seu talento profissional para apoio da guerra, tiveram direito a dormir na esplanada do castelo, entre eles, os assíduos clientes da taberna do Justo Lourenço e das meninas de Mariamem: o almocreve Eliel, o barbeiro Falcão, Lenir, o homem do forno, e o escudeiro Tomé. Por mar iria uma frota de oito galés com a respectiva equipagem, prevendo o rei que se juntassem depois na Corunha, quartel-general de onde partiria a última torrente invasora.
Sua majestade vai com os pensamentos a saírem-lhe do chapeirão, por enquanto, porque quando envergasse o elmo na guerra feia, nem se lembraria de quem era filho ou se o tabardo real lhe favorecia a imagem. Neste dia, não. Tudo quanto lhe vinha à cabeça correspondia a cenas de grande exaltação, um homem a caminho do seu destino, o monarca português que iria pôr em sentido o usurpador castelhano e ficar com o que era dele. Para reforçar a grande conta que tinha de si, depois de o exército atravessar o rio Minho, logo ali, em Tui, apareceu gente aos magotes para vitoriar Fernando I. Queriam vê-lo de perto, analisar a sua lendária formosura, dizer-lhe que eram todos portugueses e galegos ou galegos e portugueses, que para o caso tanto faz. Olhando em redor e para dentro de si, o soberano português via-se quase imperial, rei de Portugal e da Galiza e o que mais adiante se veria, o maior senhor da Península Ibérica sem sequer desembainhar a espada. Então, e as donas galegas que acorreram para ver tanto garbo e formusura? E aquelas miradas, senhor! Já antes de abalar andara com as chicas na cabeça, no pensamento tinha-as quando queria, olhos negros, faces morenas, beiços carnudos, de um vermelho vivo, como se fossem frutos silvestres. Ah, como seria sublime, depois de estilhaçar os corpos nas batalhas que iria travar, ter na cama um corpo de mulher para acariciar, pele lisa, montes e vales por todo lado, curvas e destinos oferecidos.
Após passar o rio Minho, fronteira natural entre os dois reinos, Fernando I fez uma entrada triunfal em Tui, onde pernoitou e de onde, no outro dia, lhe custou a sair. Foram tantos os louvores, elogios tão rasgados, que foi preciso muita coragem para depois de acordar se desenlear do perfume que o leito expelia. Deixou-se levar pela festa, danças, cantares, devaneios, moças da nobreza local a rodopiarem à sua volta, cumprimentos dos fidalgos, lembranças para o caminho e para quando voltasse. Nessa noite, como cumpria, não faltou quem lhe aquecesse a cama. A moça, uma dona cheia de salero, sentiu-se como se estivesse no Céu, mesmo à beira dele, actuando mais do que pensando, pois era, no trabalho competente que se jogava toda a sua capacidade para convencer o rei de que lhe fazia muita falta, embora soubesse que nunca se sentaria no trono». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Mas se ao meu … pusessem orelhas e lhe bem fingissem sobrancelhas de parecer nada vos deveria»

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O reino precisava mais do que um homem bonito
«(…) Então vossemecê não foi ao casamento, ti Lourenço, interpôs de modo provocador um tal Tomé, jovem escudeiro, que por enquanto entrava pela porta da frente da taberna até que subisse na hierarquia, ouvi dizer que sua majestade nem lá pôs os pés... O que me disseram, foi que a princesa aragonesa não passa de uma criança. Nem tem saliências nem senhoria. Mas diz-me, Tomé, tens visto o rei?, quis saber o taberneiro. Ora, sua senhoria passa o tempo com os seus conselheiros ou vai à caça quando está em Santarém. Pouco sai. Uma vez por outra, desloca-se até à porta sul do castelo a ver o Tejo. Até parece que sonha... Não havia de sonhar..., sonha ele acordado e eu a dormir cheio de pesadelos, intrometeu-se na conversa o barbeiro, também ele um dos primeiros a ser mobilizado para a guerra. Ó Falcão, quis o Eliel, almocreve no castelo, provocar o barbeiro, estás para aí a tremer..., tens medo da guerra, meu menino, tens? Um homem destes, chamado só para desfazer barbas e cortar cabelos, põe-se-me aqui arreceado e ainda nem um passo demos a caminho da Galiza.
Estás parvo?!, volveu o Falcão. O que faz isso é o nosso rei Pedro vos desabituar da guerra. Já se esqueceram das obrigações de um barbeiro? Quem é que arranca os dentes aos queixosos? Quem põe cataplasmas e faz sangraduras? Julgas que é o mesmo que tratar de bestas como tu? É lá! Bestas como eu, salvo seja. Então porque tremes? Eu?! Pelo mesmo que tu. Vamos atrás das ilusões do rei, sei eu lá o que nos pode acontecer. Pronto, está bem, não se zanguem, procurou Justo Lourenço amaciar a conversa dos dois milicianos. Ó Tomé, dizem para aí que o nosso rei tem grandes apoios em Castela. É ou não verdade? Então não é! Ao castelo chegam às dezenas de galegos prontos a combater por Portugal contra o usurpador do trono castelhano. E não é só isso. Granada e Aragão já tomaram partido por sua majestade. E o que lhe deu o nosso rei em troca?, intrometeu-se o alfaiate.
Isso não sei, mestre, tem de perguntar à Mariamem. Que ela disso sabe mais do que o chanceler. Ó ti Lourenço, insistiu o aprendiz de escudeiro, então quando é que posso subir as escadas? Olhe que a vida não pára. Daqui a pouco estou a fazer falta no castelo e já não volto. Se calhar nunca mais vejo a Almara. A tirada do jovem foi motivo de gargalhada geral. Não era no entanto despropositada a afirmação. Mariamem, através das meninas, estava a par de quase tudo quanto se passava no castelo, e ele, com guia de marcha para a Galiza, até a morte lhe podia acontecer. Enquanto o convidado especial não entrava pela porta do quintal à procura de um pouco de atenção da bela Almara, e os clientes nunca mais viam os seus desejos satisfeitos, no castelo, o alardo das tropas não parava. Neste sentido, o almocreve pôs-se também a andar, cantando uma moda bem apimentada, abraçado ao barbeiro e ao jovem escudeiro. Ó Eliel, canta lá uma daquelas que tu sabes, propôs o barbeiro. Ai é?! Então vejam lá se sabem esta da cara de …

Donzela quem quiser entenderia
Que vós muito formosa parecedes
E se é como vós dizedes
No mundo um par igual não haveria
E ainda que vosso par não houvesse
Se em meu … cosmético pusesse
De bem parecer venceria

Vós andades dizendo no concelho
Que muito formosa parecedes bem
Eu nisso não vejo quem
Mesmo que vos ponhais de branco ou vermelho
Pois se um pouco de sol o meu … pegue
E puser um pouco de alvaiade
Comparar-se-á convosco ao espelho

Donzela vós sodes bem talhada
Se no apronto erro não fizerdes
Ou em essa saia que vós trazedes
Mas se ao meu … pusessem orelhas
E lhe bem fingissem sobrancelhas
De parecer nada vos deveria.

Tropeçando uns nos outros, lá iam os três, cerro acima, cantando sempre a mesma cantiga, rindo com a alarvidade que o vinho lhes transmitia, por certo ignorantes de que o dia seguinte poderia ser o último das suas vidas». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT