quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Idade Média. Umberto Eco. «Percebe-se muitíssimo bem, e até na violência da repulsa, um vivo sentido das coisas recusadas e um pingo de remorso. Mas há outra página da mesma Apologia ad Guillelmum que é um explícito…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Idade Média não foi apenas uma época de místicos e rigoristas

«(…) Os místicos pregam a castidade e pretendem-na para os religiosos, mas os novelistas representam frades e monges glutões e dissolutos. É exactamente no comportamento dos místicos que se vê como a Idade Média não pode ser reduzida a estereótipos. Os cistercienses e os cartuxos insurgiam-se, especialmente no século XII, contra o luxo e o uso de meios figurativos na decoração das igrejas, onde São Bernardo e outros rigoristas viam superfluitates que desviavam os fiéis da oração. Mas nestas condenações a beleza e o encanto das ornamentações nunca são negados e são combatidos porque lhes é reconhecida uma atracção invencível. Hugo de Fouilloy fala a este respeito de mira sed perversa delectatio, prazer maravilhoso mas perverso. Perverso mas maravilhoso. Bernardo confirma este estado de espírito ao explicar a que renunciavam os monges quando abandonavam o mundo:

Nós, monges, que estamos fora do povo, nós, que por Cristo abandonámos todas as coisas preciosas e sedutoras do mundo, nós que para ganhar Cristo declarámos esterco o que resplandece de beleza, que afaga o ouvido com sons doces, que dissemina suaves aromas, que é macio e agrada ao tacto, tudo o que, em suma, acaricia o corpo… (Apologia ad Guillelmum Abbatem).

Percebe-se muitíssimo bem, e até na violência da repulsa, um vivo sentido das coisas recusadas e um pingo de remorso. Mas há outra página da mesma Apologia ad Guillelmum que é um explícito documento de sensibilidade estética. Insurgindo-se contra os templos excessivamente grandes e com grande riqueza escultórica, São Bernardo dá-nos uma visão da escultura românica que constitui um modelo de crítica descritiva; e a representação daquilo que ele rejeita demonstra como era paradoxal o desdém daquele homem que conseguia analisar com grande finura as coisas que não queria ver:

Não falamos das imensas alturas dos oratórios, dos comprimentos desmedidos, das larguras desproporcionadas, dos polimentos soberbos, das curiosas pinturas que distraem os olhos dos que rezam e lhes impedem a devoção… Os olhos são feridos pelas relíquias cobertas de ouro e logo se abrem as bolsas. Mostra-se uma belíssima imagem de um santo ou santa e os santos são julgados tanto mais santos quanto mais vivamente coloridos… As pessoas correm a beijá-los, são convidadas a fazer doações e mais admiram o belo do que veneram o sagrado… Que fazem nos claustros, onde os frades leem o Ofício, essas ridículas monstruosidades, essa espécie de estranha formosura disforme e formosa deformidade? Que fazem ali os símios imundos? Os leões ferozes? Os centauros monstruosos? Os semi-homens? Os tigres listrados? Os soldados em luta? Os caçadores com as suas tubas? Veem-se ali muitos corpos sob uma só cabeça e, inversamente, muitas cabeças sobre um só corpo. Num lado, vemos um quadrúpede com cauda de serpente, noutro, um peixe com cabeça de quadrúpede. Além, um animal com aspecto de cavalo arrasta posteriormente meia cabra; aqui, um animal cornudo com traseiro de cavalo. Resumindo, por toda a parte se vê tão grande e estranha variedade de formas heterogéneas que se tem mais gosto em ler os mármores do que os códices, e todo o dia é passado a admirar uma por uma essas imagens e não a meditar a lei de Deus.

Encontramos nestas páginas, sem dúvida, um elevado exercício de belo estilo segundo os ditames da época, mas elas manifestam, de qualquer maneira, que Bernardo discute uma coisa, a cujo fascínio não pode subtrair-se. De resto, já Agostinho falara do dissídio interior do homem de fé que continuamente teme ser seduzido durante a oração pela beleza da música sacra; e São Tomás desaconselhava o uso litúrgico da música instrumental porque provocava um deleite tão intenso que perturbava a concentração dos fiéis». In Umberto Eco (organização), Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN: 978-972-204-479-0.

Cortesia PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento,

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Inquisição. O Reinado do Medo. Toby Green. «Havia pinturas de meninos tocando trombetas acima da porta que levava ao cadafalso, e os prisioneiros seriam mantidos numa estrutura encimada por uma cúpula»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cidade do México, 1649

«Na segunda-feira 11 de Março de 1649 uma procissão partiu do quartel-general do Santo Ofício da Inquisição (maldita) na Cidade do México. A tropa de gala desfilou entre as casas caiadas, animada por músicos vestidos com sedas coloridas que tocavam trompetes, tímpanos e instrumentos de sopro. Os cavalos dos músicos eram seguidos pelos dos sacerdotes do Santo Ofício (maldito) e pelos dos mais nobres cavalheiros da cidade. Os religiosos portavam os brasões da Inquisição (maldita), que reflectiam justamente a luta entre a paz e a violência que estava no cerne daquela curiosa instituição: uma cruz no centro, um ramo de oliveira à direita e uma espada à esquerda. Ao final da procissão vinha dom Juan Aguirre de Soaznavar, o principal encarregado da Inquisição no México. O cortejo seguia pelas ruas de uma das duas mais importantes cidades da América, anunciando com o estrondo dos tímpanos e dos instrumentos de sopro que um grande auto de fé seria realizado num mês. Avisos haviam sido afixados nos edifícios do Santo Ofício, na casa do arcebispo, diante do palácio do vice-rei, no conselho da cidade e em várias ruas. Um mês era o tempo mínimo para preparar o grande teatro do auto de fé. Foi construído um cadafalso de cerca de 37 metros de comprimento por 24 metros de largura, em torno do qual foram erguidas oito colunas de mármore, agrupadas em pares. Na pedra angular de um arco acima do cadafalso havia um brasão com o escudo de armas real, e foi construída uma pirâmide decorada com um escudo da fé. Havia pinturas de meninos tocando trombetas acima da porta que levava ao cadafalso, e os prisioneiros seriam mantidos numa estrutura encimada por uma cúpula. A arena era sombreada por velas de barco fixadas em 43 troncos de aproximadamente 18 metros de altura, e trinta escadas levavam aos apartamentos e outros edifícios, permitindo que o público descansasse das exigências do auto de fé. O conjunto era esplendidamente decorado com pendentes de veludo, tapetes e cortinas vermelhas, e havia tanta actividade que as pessoas se congregavam todos os dias e ali permaneciam do alvorecer ao anoitecer [...] elas admiravam tudo e sentiam que estavam assistindo a algo que podia se perpetuar através dos tempos.

No dia 10 de Abril, após um mês de obras agitadas, mais de 20 mil pessoas lotaram a Cidade do México para assistir à procissão da cruz verde que anunciava o auto de fé do dia seguinte. As ruas entre os gabinetes da Inquisição (maldita) e a grande arena estavam cheias de palcos menores. As pessoas assistiam em bancos, coches, balcões e janelas quando dom Juan Aguirre Soaznavar surgiu, às três e meia da tarde, acompanhado de uma guarda de 12 homens, pajens e lacaios. Os sinos de todas as igrejas e mosteiros da cidade tocavam enquanto a procissão avançava. Os guardas estavam vestidos de verde e preto, as cores do império, com galões de ouro e prata. Quando a procissão finalmente chegou à Plaza del Volador, os soldados dispararam uma salva de tiros para celebrar, e vinte frades dominicanos caminharam segurando velas brancas para, finalmente, receber a cruz no cadafalso. Eram sete horas. A noite caíra sobre a cidade, mas havia tantas velas que faziam parecer que era dia em todo o teatro. As velas eram tão grossas que poderiam queimar durante dois dias. Foram entoadas orações no palco e uma multidão encheu a Plaza del Volador. Todos os assentos estavam ocupados. Poucos dormiam, imaginando as sentenças que seriam aplicadas aos condenados.

Contudo, enquanto na cidade proliferava todo tipo de rumores, o Santo Ofício (maldito) [...] prosseguia sua obra em silêncio. Dos gabinetes da Inquisição (maldita) foram enviados dois padres para ouvir as confissões de 15 pessoas condenadas à morte pela prática do judaísmo, apesar de terem sido baptizadas e declararem professar a fé católica. Eram os chamados relaxados, termo que designava aqueles que seriam entregues pela Inquisição às autoridades laicas para serem executados. Todos os relaxados alegaram inocência e afirmaram serem bons cristãos, menos um deles. A excepção era Tomás Treviño Sobremonte, um mercador itinerante que admitira ser judeu. Como se negara a aceitar a fé cristã, no dia seguinte seria executado na fogueira, enquanto os outros 14 relaxados obteriam a relativa clemência do estrangulamento antes de serem queimados.

Às quatro da manhã chegou o inquisidor-geral do México, Juan de Mañozca. Os sinos da catedral começaram a tocar para lembrar ao gentio que o auto de fé era uma representação terrena do Juízo Final. Além dos 15 relaxados, foram esculpidas efígies de 67 mortos para serem queimadas no lugar de seus corpos pelas heresias que eles não estavam mais vivos para expiar. As efígies vinham primeiro na procissão, seguidas por 23 caixas com as ossadas, que também eram queimadas. Então vinham os prisioneiros sentenciados a penitências, como o açoite, a prisão, as galés e o confisco dos bens, os reconciliados. Por último, os relaxados eram chamados para receber os estandartes de suas condenações, que eram sambenitos [o hábito penitencial dos prisioneiros] decorados com chamas e figuras de demónios; essas imagens aterrorizantes também decoravam as mitras, os capuzes em forma de cone que os prisioneiros usavam a caminho do cadafalso». In Toby Green, Inquisição, O Reinado do Medo, 2007, Editora Objectiva, 2012, ISBN 978-853-900-354-9.

Cortesia de EObjectiva/JDACT

Toby Green, JDACT, Literatura, Religião, 

A Prometida. Kiera Cass. «Graças aos céus temos a atenção do rei este ano, eu disse num tom leve, enquanto ela trançava meu cabelo para trás. Do contrário, isto aqui estaria um tédio completo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Era aquela época do ano em que o sol ainda nascia gelado. Mas o Inverno já estava acabando, e as flores começavam a desabrochar. A promessa de uma nova estação me enchia de expectativas. Mal posso esperar pela Primavera, suspirei enquanto via os pássaros voarem destemidos contra o azul do céu. Delia Grace amarrou o último laço do meu vestido e me conduziu até à penteadeira. Eu também, ela respondeu. Torneios. Fogueiras. O Dia da Coroação já está chegando… O tom da voz dela dava a entender que eu deveria estar mais animada, só que ainda tinha minhas reservas. Pois é. Dava para sentir a frustração dela nos movimentos de suas mãos. Hollis, com certeza você será a parceira e acompanhante do rei durante os festejos! Não sei como consegue ficar tão calma.

Graças aos céus temos a atenção do rei este ano, eu disse num tom leve, enquanto ela trançava meu cabelo para trás. Do contrário, isto aqui estaria um tédio completo. Você fala como se flirt não passasse de um jogo, ela comentou, surpresa. Mas é um jogo, insisti. Logo ele vai seguir em frente, por isso temos que aproveitar enquanto podemos. Pelo espelho, vi Delia Grace morder o lábio sem desviar os olhos do que fazia. Alguma coisa errada?, perguntei. Ela logo se animou e esboçou um sorriso. Nada. Só estou perplexa com seu descaso em relação ao rei. Acho que as intenções dele vão além do que imagina. Baixei o olhar, tamborilando os dedos no tampo da penteadeira. Eu gostava de Jameson. Seria loucura não gostar. Ele era bonito, rico e, céus, era o rei. Também dançava bem e era uma óptima companhia, quando estava de bom humor. Mas eu não era tola. Eu o tinha observado passar de uma moça para outra ao longo dos meses anteriores. Haviam sido pelo menos sete, contando comigo. Isso considerando apenas os casos de que todos na corte sabiam. Minha ideia era aproveitar enquanto pudesse, depois aceitar quem meus pais escolhessem para mim. Pelo menos poderia lembrar daqueles dias quando fosse uma velha entediada.

Ele ainda é jovem, repliquei afinal. Não consigo vê-lo assumindo compromissos com ninguém pelos próximos anos de trono. Além disso, tenho certeza de que esperam que obtenha alguma vantagem política com o casamento. E não posso oferecer muito nesse quesito. Uma batida soou à porta, e Delia Grace foi atender, com o rosto cheio de decepção. Dava para notar que ela achava mesmo que eu tinha chance, e imediatamente me senti culpada por ser tão difícil. Em nossos dez anos de amizade, sempre tínhamos apoiado uma à outra, mas as coisas tinham mudado entre nós nos últimos tempos. Fazíamos parte da corte, e nossas famílias tinham criadas. Já as mulheres das famílias mais nobres e da realeza tinham damas de companhia. Mais do que empregadas, aquelas damas eram suas confidentes, suas acompanhantes…, tudo. Delia Grace assumia o papel sem que eu estivesse em tal posição, convicta de que minha situação mudaria a qualquer momento.

A atitude dela tinha um significado maior do que eu era capaz de expressar, maior do que eu era capaz de encarar. O que é uma amiga senão alguém que acredita que consegue mais do que imagina? Ela voltou da porta com uma carta na mão e um brilho no olhar. Veio com o selo real, Delia Grace provocou, balançando a carta. Mas, como não ligamos para o que o rei sente por si, suponho que não haja pressa em abrir. Quero ver, eu disse, levantando com a mão estendida. Ela logo puxou a carta para trás. Sua maldosa! Pode dar-me isso? Delia Grace deu um passo para trás e no segundo seguinte eu já estava correndo atrás dela pelos meus aposentos, às gargalhadas. Consegui encurralá-la duas vezes num canto, mas ela era mais rápida, e escapuliu pelas brechas antes que eu conseguisse pegá-la. Eu já estava quase sem fôlego de tanto correr quando finalmente a agarrei pela cintura. Ela esticou o braço o máximo que pôde para proteger a carta. Talvez eu até conseguisse tomá-la da sua mão, mas bem quando eu estava erguendo o braço, minha mãe abriu as portas que ligavam meus aposentos aos dela. Então veio a bronca. Hollis Brite, perdeu o juízo?!» In Kiera Cass, A Prometida, 2020, Marcador Editora, 2020, ISBN 978-989-754-451-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

Kiera Cass, JDACT, Literatura, 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Adeus até ao Meu Regresso. Jorge Serafim. «Acreditei nos dias das flores em punho e parece-me que os de hoje não têm lembrança. Que a memória já não conta…»

jdact

«Queria descobrir o teu lenço na multidão e não conseguia.

Pareciam um bando de pombas brancas acenando para a guerra.

Que ironia…

Atravessei um oceano para chegar a tanta dor.

Para quê?

Levei saudades em todo o corpo que tenho,

trouxe silêncios da cabeça até aos pés.

O que vivi encolheu-me a fala.

Adeus até ao meu regresso

Partimos sempre meu amor! Partimos sempre!

Acreditei nos dias das flores em punho

e parece-me que os de hoje não têm lembrança.

Que a memória já não conta…

Partimos porque a fome não despega, a terra não germina,

a miséria é mais um à mesa e o sol só nasceu para meia-dúzia.

Atravessamos a esperança num barco e atracamos sem conhecer destino.

Sonho que se encomende…

Onde estavas a acenar-me»

Adeus até ao meu regresso

Tento perceber o teu lenço.

Tento perceber o teu lenço no meio de tanta gente.

A tua barriga sendo mãe, o meu tempo não sendo pai.

A minha lonjura permanente.

Doem-me os dias que não mudam

As dores actuais iguais às de antigamente.

Tantos que o mar ainda come, a guerra, sempre a guerra,

colhendo vidas em qualquer parte.

Onde ficaste a desenhar no ar uma pomba branca?

Adeus até ao meu regresso»

Poema de Jorge Serafim

In Os Fabulosos Tais Quais, Edição Sony Music Portugal, 2015.

Cortesia de ESMusicPortugal/JDACT

Jorge Serafim, JDACT, Poesia, Alentejo, 

sábado, 17 de outubro de 2020

Nada é por Acaso. Zibia Gasparetto. «Eu quero progredir na vida, mãe. Ser alguém. Não quero ficar atrás de um balcão a vida inteira. Vou continuar os estudos e me formar»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Adele, uma empresária de sucesso, precisa de um neto para manter o controlo das suas empresas. Mas a sua filha, Maria Eugénia, é estéril. Adele contrata, então, Marina para ser mãe de aluguer. Marina terá de engravidar de Henrique, genro de Adele, e em troca receberá 1 milhão de dólares. Inicialmente constrangida pela insólita proposta, Marina acaba por aceitar, aliciada pela súbita prosperidade financeira que lhe permitirá ajudar a sua própria família. É nesse momento que se inicia um processo que mudará a vida de todos os envolvidos, mulher estéril, mãe de aluguer, pai biológico e empresária dominadora, convergindo para um emocionante final, absolutamente surpreendente. A vida tem leis perfeitas que condicionam o equilíbrio do Universo. Ela criou o homem com destino à felicidade, mas determinou que essa conquista fosse feita com esforço próprio, para que o homem valorizasse as suas vitórias». In Sinopse

«Marina estugou o passo, esbarrando nos transeuntes para abrir passagem. Estava atrasada. Ainda tinha de passar em dois bancos antes que fechassem e entregar aqueles documentos no escritório do dr. Moura. Eram sigilosos e fora-lhe recomendado o máximo cuidado com eles, devendo ser entregues directamente a ele. Consultou o relógio de pulso e suspirou cansada. Porque tinha de ser tudo ela? No escritório de advocacia em que trabalhava, havia outros funcionários, mas o dr. Olavo, seu chefe, parecia só ter olhos para ela. Sempre que havia algum documento importante ou transacção mais complicada no banco, era ela quem ia. Você vai, determinava ele. Sei que fará tudo certo. Ela ia. Começara a trabalhar naquele escritório logo que entrara na faculdade de Direito. Havia lutado muito para pagar seus estudos. Sua família morava em Sorocaba, interior de São Paulo. Ofélia, sua mãe, era costureira, e seu irmão menor, Cícero, estava cursando o primário. Seu pai deixara a família quando Ofélia ainda estava grávida de Cícero, e nunca mais os procurara. Quando Marina decidiu fazer faculdade em São Paulo, Ofélia foi contra: somos apenas nós três, disse, triste. O que faremos se também for embora? Eu não vou embora, respondera Marina com voz firme. Estou precisando ganhar mais para pagar os estudos. podia continuar trabalhando na farmácia do sr José e estudar outra coisa.

Eu quero progredir na vida, mãe. Ser alguém. Não quero ficar atrás de um balcão a vida inteira. Vou continuar os estudos e me formar. Disparate! Já está com vinte anos. Logo vai casar-se e deixar os estudos de lado. Marina apertou os lábios e disse com raiva: não eu! Vou cuidar de minha vida e não vou arranjar ninguém que venha atrapalhar. Pense bem, mãe: vou fazer carreira, ganhar muito dinheiro e levar-vos para São Paulo. O Cícero também vai precisar continuar os estudos. Eu ganho o suficiente para viver. Para que mais? A mãe faz o que pode. Mas tem-nos sustentado toda a vida. Chegou a hora em que eu posso ajudar a manter a casa. Ofélia sorriu. Boa intenção. Mas, até que possa colaborar com as despesas, vai demorar. Quanto acha que pode ganhar em São Paulo? Depois, terá que se sustentar. Não vai ser fácil. Eu me arranjo. A Bete me escreveu. Ela está morando numa pensão, e não é cara. Vou trabalhar na farmácia até receber o pagamento e depois irei para a pensão. As aulas só vão começar no mês que vem. Enquanto isso, procuro um bom emprego. Não me agrada que fique lá sozinha. Não conhece ninguém. Posso tomar conta de mim. Não houve argumentos que a fizessem mudar de ideia. Recebeu o salário e instalou-se na mesma pensão onde vivia a sua amiga Bete.

Interessada em fazer carreira na advocacia, procurou emprego e conseguiu ser contratada pelo escritório do dr. Olavo Augusto Resende. Ele liderava um grupo de advogados que trabalhavam na área civil. Marina começara modestamente como auxiliar. Desejando progredir, esforçava-se procurando aprender o que podia, interessando-se pelos negócios do grupo e fazendo mais do que lhe pediam. Educada, inteligente e, principalmente, arguta, Marina sabia como lidar com as pessoas. Os advogados do escritório logo perceberam que podiam contar com ela e a encarregavam dos mais complicados assuntos, felizes por se livrarem de atendê-los pessoalmente e seguros de que ela agiria a contento. À medida que Marina ia avançando nos estudos, suas despesas iam aumentando, tornando sua situação difícil. Esse problema, porém, era amenizado pelos aumentos salariais que ela recebia como incentivo para completar o curso.

Fazia seis meses que Marina se havia bacharelado, e ela desejava mais. Olavo prometera-lhe algumas pequenas causas, para que ela pudesse ir conquistando a confiança dos clientes. Dissera-lhe: na nossa profissão, é preciso paciência. O nome é importante. Você é boa, tem aprendido muito nestes anos aqui, mas ninguém a conhece. Precisa fazer nome. Ela continuava trabalhando como antes, e as causas não apareciam. No escritório, era ela quem tomava a maior parte das providências jurídicas, redigindo petições, acompanhando o andamento dos processos, analisando-os, sugerindo providências, comparecendo às audiências, conversando com os advogados da parte contrária ou com os clientes e seus adversários. Trabalhava agora mais do que antes. Havendo terminado os estudos, ficava até mais tarde. Muitas vezes levava processos para ler nos fins de semana». In Zibia Gasparetto, Nada é por Acaso, 2005, Edição 11, Editor Nascente, 2012, ISBN 978-989-668-172-2.

Cortesia E11/ENascente/JDACT

Zibia Gasparetto, Literatura, JDACT,

Os Cavaleiros de São João Baptista. Domingos Amaral. «A ausência dela deixava-o desassossegado. Seria amor o que sentia? Estaria ele com tantas saudades que um mero atraso dela o podia deixar assim?»

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A Fundação. Sábado, 16 de Junho de 2002

«(…) É. Tenho a certeza de que ela vai chegar, disse o professor, com aquele desejo de ser simpático que está na natureza de certas pessoas. Porquê?, perguntou João Pedro. Elas chegam sempre, sorriu o professor. João Pedro não gostou daquela previsão. Além de achar que ela é filha do Al Capone, o que o faz dizer que ela vai chegar? Está com pena de mim? O historiador ficou embaraçado com a agressividade dele. Não queria ser mal interpretado... É um bocado irritante, quando uma pessoa está preocupada, ouvir estranhos a dizer que não há razões para isso. E se houver? E se ela tiver sido assaltada? Ou se sofreu um acidente e estiver na beira da estrada, a sangrar? Neste país, da maneira que as pessoas conduzem é provável que mais cedo ou mais tarde um maluco se espete contra nós e nos mande para o hospital!

Com tamanha excitação, João Pedro nem reparou que alguns convidados tinham regressado à mesa, já com os pratos cheios. Uma amiga minha teve um acidente. partiu o fémur e a bacia, comentou Natália, acabada de sentar e com o prato cheio de profiteroles, cobertos de gelado de baunilha. Exasperado, João Pedro olhou-a. Depois levantou-se, irritado. Sabia que fora desagradável com o homem, mas aquela despreocupação incomodava-o. O que se passaria com Mariana? Uma estranha sensação invadia-o. A ausência dela deixava-o desassossegado. Seria amor o que sentia? Estaria ele com tantas saudades que um mero atraso dela o podia deixar assim? Mas o que se passara entre eles era amor? E, nos dias que corriam, o que era amor? Sim, existira intimidade; sim, havia sentimentos; mas era um namoro? As pessoas, hoje, já não começavam namoro. Não havia o Momento Inicial, o Big Bang, o acto fundador. Já ninguém pedia namoro a ninguém, como na sua adolescência, quando ia com as raparigas ao cinema, ao Oxford de Cascais; ou a meio de um slow do Christopher Cross, numa festa em casa dos amigos. Hoje, ia-se começando, devagar, com prudência, um jantar aqui, um cinema ali, sexo, jantar, sexo, e depois as pessoas descobriam que não havia mais ninguém, começavam a pensar que gostavam da companhia e a coisa podia evoluir. Era a teoria geral dos namoros nestes tempos. Será que Mariana verificava essa teoria? Não fazia ideia. Era cedo. Ainda estavam na fase do ir andando.

Tinham-se conhecido uma noite, há dez anos. Ele saíra do Van Gogo, uma discoteca pequena em Cascais onde iam nas noites de sábado. Ele era um menino de Cascais. Colégio dos Salesianos, râguebi no Cascais, noites no Van Gogo, no News, no 2001 à quinta ou ao domingo, nos bares da velha cidadela. Eram quatro da manhã e estava bêbado. Numa ruela do centro de Cascais, encostara-se a um carro e vomitara como um porco, expressão que ele os amigos usavam para descrever o descontrolo da situação. A meio do patético processo, alguém dissera: precisas de ajuda? Envergonhado, nem olhara para ver quem era. A voz era feminina e ele odiava ser visto naquele estado por raparigas. Tentara recompor-se, mas o braço fugira-lhe e caíra no chão, de joelhos. O mundo andava-lhe à roda. De súbito, sentira a cabeça refrescar e ouvira: pronto, já passou. Mariana tinha colocado a mão na sua testa, ajudando-o a recuperar o controlo. Tinha-a conhecido nessa noite, na festa de dezoito anos do Francisco. Pouco tinham falado. Ela tinha quinze anos, era magricela, e apesar de bonita não era ainda a mulher que viria a ser. Chamara um táxi para ele. Só se recordava do sorriso de Mariana, quando ela fechou a porta do carro e lhe desejou: as melhoras.

Do episódio ficara-lhe o simbolismo: ela ajudara-o a sair da ruína em que estava, como se tivesse poderes de salvação. Só uns anos mais tarde se voltaram a ver. Destinos, grupos de amigos que se cruzam: um amigo dele namorara uma amiga dela. Porém, nessa época Mariana não aparecia muito, pois tinha a mãe doente. Aos vinte e dois anos, aquilo não lhe parecera importante, e nem foi ao enterro quando a senhora morreu. Seis meses depois, cruzara-se com Mariana uma noite no Plateau e dissera-lhe: um beijinho pela tua mãe. Obrigado, respondeu ela a sorrir. Seis anos haviam passado desde essa noite no Plateau. Era assim entre ele e Mariana. Momentos ocasionais de proximidade e longos períodos de afastamento. Tinha sabido dela quase sempre por acaso. Mariana fora estudar para Londres, onde o pai tinha uma casa. Correu o rumor de que se metera nas drogas e de que tivera uma depressão». In Domingos Amaral, Os Cavaleiros de São João Baptista, 2004, Leya, BIS, 2015, ISBN 978-989-660-373-1.

Cortesia de Leya/BIS/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Templários, Literatura, Conhecimento,

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

A Terra Oca. Raymond Bernard. «Que temos aqui? Temos o vôo bem autenticado do almirante Richard E. Byrd a uma terra além do Pólo, que ele tanto desejava ver porque era o centro do grande desconhecido, o centro do mistério»

Cortesia de wikipedia e jdact

Aquele Continente Encantado nos Céus, Terra de Eterno Mistério! Gostaria de ver aquela terra além do Pólo (Norte). Aquela área além do Pólo é o Centro do Grande Desconhecido! In Richard Byrd

 A Descoberta do almirante Byrd

«(…) Palmer conclui que esta nova área de terras, que Byrd descobriu e que não está em qualquer mapa, existe dentro e não no lado de fora da Terra, uma vez que a geografia do lado de fora é muito bem conhecida, enquanto a de dentro (do interior da depressão polar) é desconhecida. Aquela foi a razão pela qual Byrd a chamou de a Grande Desconhecida. Depois de discutir a significância do uso, por Byrd, dos termos além em vez de através dos Pólos, para o outro lado das regiões Ártica e Antártica, Palmer conclui que o que Byrd mencionou foi uma área de terras desconhecidas, dentro da concavidade polar e se comunicando com o interior mais (incute da Terra, o que explica sua vegetação e vida mimai. Ela é desconhecida porque não está na superfície externa da Terra e por isso não é registada em qualquer mapa. Escreve Palmer:

 Em Fevereiro de 1947, o almirante Richard E. Byrd, que é o homem que mais contribuiu para tornar conhecida a área do Pólo Norte, fez a declaração seguinte: Gostaria de ver a terra além do Pólo. Aquela área além do Pólo é o centro do grande desconhecido. Milhões de pessoas leram esta declaração nos jornais. Milhões se emocionaram com os vôos subsequentes do almirante ao Pólo e a um ponto 2.730 quilómetros além dele. Milhões ouviram as descrições do vôo, irradiadas e também publicadas nos jornais. Que terra era esta? Olhe no seu mapa. Calcule a distância de todas as terras conhecidas, que mencionamos antes (Sibéria, Spitzbergue, Alasca, Canadá, Finlândia, Gronelândia e Islândia). Uma boa porção delas está bem dentro do alcance de 2.730 quilómetros. Entretanto, nenhuma parte delas está a 320 quilómetros do Pólo. Byrd não voou sobre terra conhecida. Ele próprio a chamou a grande desconhecida. Grande ela o é na verdade! Pois depois de 2.730 quilómetros sobre terra, quando foi obrigado a voltar, em virtude das limitações do seu suprimento de gasolina, não tinha chegado ao seu fim! Ele devia estar de volta à civilização, mas não estava. Devia ter visto apenas oceanos cobertos de gelo, ou no máximo oceanos parcialmente desobstruídos. Ao contrário, estava sobre montanhas cobertas por florestas! Florestas! Incrível! O extremo limite norte das terras de florestas está localizado bem para baixo, no Alasca, Canadá e Sibéria. Ao norte daquele limite nenhuma árvore existe! Em toda a volta do Pólo Norte, não existem árvores dentro de um raio de 2.730 quilómetros!

Que temos aqui? Temos o vôo bem autenticado do almirante Richard E. Byrd a uma terra além do Pólo, que ele tanto desejava ver porque era o centro do grande desconhecido, o centro do mistério. Aparentemente, o seu desejo foi satisfeito ao máximo e, todavia, hoje esta terra misteriosa não é mencionada em qualquer lugar. Por quê? Foi aquele vôo de 1947 uma ficção? Mentiram todos os jornais? Mentiu o rádio do avião de Byrd?

Não, o almirante Byrd voou além do Pólo. Além? Que quis dizer o almirante quando usou aquela palavra? Como é possível ir além do Pólo? Façamos algumas considerações. Imaginemos que fomos transportados, por algum meio miraculoso, ao ponto exacto do Pólo Magnético Norte. Chegamos lá, instantaneamente, sem saber de que direcção viemos. Tudo o que sabemos é que devemos seguir do Pólo para Spitzbergue. Que direcção tomamos? Para o sul, naturalmente! Mas, que sul? Todas as direcções, a partir do Pólo Norte, vão para o sul! Este é na realidade um problema simples de navegação. Todas as expedições ao Pólo, quer as de avião, de submarino ou a pé tiveram que enfrentar este problema. Ou têm de retornar sobre as suas pegadas ou descobrir que direcção sul é a que devem tomar para chegar onde quer que tenha sido determinado. O problema é solucionado tomando qualquer direcção e nela continuando por cerca de 30 quilómetros. Então se pára, determina-se a posição pelas estrelas e se a correlaciona com a bússola (que então já não aponta para baixo, mas em direcção ao Pólo Norte Magnético) traçando então o nosso curso no mapa. É então simples seguir para Spitzbergue, dirigindo-se para o sul. O Almirante Byrd não seguiu este procedimento tradicional de navegação. Quando alcançou o Pólo continuou por 2.730 quilómetros. De toda maneira, continuou num curso para o norte, depois de cruzar o Pólo. E, fantasticamente, consta dos registos que o conseguiu, ou não teria visto aquela terra além do Pólo, a qual, até hoje, se esquadrinharmos os registos dos jornais, livros, rádios e televisão, e os verbais, jamais foi visitada outra vez! Aquela terra, nos mapas de hoje, não pode existir. Entretanto, como ela existe, a única conclusão possível é a de que os mapas de hoje são incorrectos, incompletos e não representam a situação verdadeira do Hemisfério Norte. Assim, tendo localizado uma grande massa de terra no Norte, inexistente nos mapas de hoje, nina terra que é o centro do grande desconhecido, isto só pode ser interpretado como significando que os 2.730 quilómetros de extensão, atravessados por Byrd, são apenas uma parte dela».

In Raymond Bernard, A Terra Oca, 2008, Editorial Minerva, 2008, ISBN 978-972-591-725-1.

Cortesia de EMinerva/JDACT

JDACT, Raymond Bernard, Mistério, Terra, Literatura, 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O rei que esmorece e a rainha sanhuda: a crise dinástica de 1383-1385 através das emoções nas crónicas de Fernão Lopes. Inês Olaia. «Não podemos esquecer que as emoções são alvo de tratados e acabam por se ver altamente mediatizadas na viragem do século XIII»

Cortesia de wikipedia e jdact

Problemas e Conceitos

«A historiografia do Portugal Medieval debateu já amplamente os problemas da transição 1383-1385 sob as mais diferentes perspectivas. Aquilo que aqui trazemos pretende ser apenas um breve estudo centrado no mesmo problema de fundo, mas analisando-o sob uma luz diferente e que nos parece ter sido até aqui ignorada: a das emoções. Olhando cuidadosamente para as crónicas de Fernão Lopes procuraremos estabelecer em que medida as emoções sentidas ou provocadas pelas figuras régias que directamente influem sobre a acção são manobradas pelo cronista com o intuito de orientar o relato para definir o Mestre de Avis como o melhor candidato ao trono. O nosso foco centrar-se-á sobretudo em Leonor Teles, no Mestre de Avis e em Juan I de Castela, embora não sejam o alvo exclusivo da nossa atenção: como é que Fernão Lopes manobra as emoções sentidas e provocadas por estas figuras e em que medida isso contribui para o desenlace do problema em causa? Pela sua própria natureza, as crónicas de Fernão Lopes estão desenhadas para serem instrumentos de poder: estão enquadradas num tipo de historiografia promovido pela Coroa, em que o objecto central do discurso é a própria monarquia; agem como promotoras da boa imagem do rei e justificam as suas acções. A cronista medieval portuguesa toma forma no século XV, em estreita proximidade com o contexto político. As crónicas destinavam-se sobretudo a ser lidas e ouvidas na corte, entre os seus oficiais e a alta nobreza. É precisamente no papel de cronista-mor do reino que encontramos o autor das crónicas que aqui nos ocupam, encomenda do sucessor de João I. É natural que o seu texto procure, por todos os meios, legitimar a sucessão invulgar do Mestre de Avis. As crónicas de Fernão Lopes acabam por ser documentos que registam uma versão da história dessa mesma sucessão e utilizam todos os meios para a demonstrar como legítima e benéfica.

Importa-nos definir alguns conceitos essenciais, que nos orientarão o percurso por Fernão Lopes. O mais elementar de todos é o vocábulo emoção em si mesmo. Não é fácil de definir e, na verdade, é inexistente na Idade Média. Embora o termo seja mais recente, ganhou o sentido actual no final do século XVII, consagrou-se como nome do campo em causa e é genericamente aceite assim, conquanto se faça a ressalva necessária. Às portas da modernidade, seriam mais frequentes conceitos como paixões, afectos ou mesmo sensibilidades, todos eles, de qualquer forma, ligados aos processos físicos do corpo. A ligação é lógica, uma vez que essa visão de proximidade entre corpo e alma era a mais frequente. Não podemos esquecer que as emoções são alvo de tratados e acabam por se ver altamente mediatizadas na viragem do século XIII. O problema de fundo a que a própria reflexão do período que estudamos nos leva é, no entanto, outro, e um de discussão relativamente recente na medicina e na psicologia: as emoções são características biológicas do ser humano ou construções sociais? Sucintamente, considera-se hoje, fundindo mais que uma teoria, que, embora tenham um fundo biológico, são construções sociais aprendidas, pelo menos na sua forma de expressão e adequação às circunstâncias, através dos códigos sociais em vigor.

Ainda que nos possa ser útil ter uma noção da evolução do campo historiográfico em causa, nos moldes em que se (re)fundou na década de 1980, não compete a este trabalho traçar uma revisão extensa da historiografia e dos diferentes rumos que tomou então. Um dos modelos de análise mais comum está centrado no conceito de comunidade emocional e é-nos aqui útil. Estas comunidades são grupos bem definidos e coesos: por exemplo, um mosteiro, uma confraria ou uma família. Todos podem ser estudados como comunidades sociais, no sentido em que partilham espaços, quotidianos e laços. A história das emoções procura o padrão emocional pelo qual estas se regem. Ou seja, as emoções bem e mal aceites pelo grupo e a forma como o próprio as mostra. O padrão define o que é positivo e o que pode ser perigoso, porque é perante esse tipo de circunstâncias que se expressam emoções. A comunidade emocional que aqui nos compete analisar é, portanto, a corte régia. Não somos os primeiros a tomá-la dessa perspectiva. Na cronista, as emoções funcionam muitas vezes como meio de comunicação. A forma como determinada acção ou evento são recebidos e a reacção que provocam, demonstrada depois pelo governante através das emoções, é um claro indicador, para todos os que o rodeiam, da posição a tomar. O acto é tão deliberado quanto foi, provavelmente, treinado e ponderado na sua educação. Basta recordar o quanto os espelhos de príncipes se focam na boa utilização e controlo das paixões. São estas que estão na base de todos os actos governativos porque são a causa ou revelam a eficácia da acção no discurso do período». In Inês Olaia, O rei que esmorece e a rainha sanhuda: a crise dinástica de 1383-1385 através das emoções nas crónicas de Fernão Lopes, Revista Medievalista nº 27, Janeiro-Junho 2020, ISSN 1646-740X, http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA27/olaia2701.html

Cortesia de RMedievalista/JDACT

 Inês Olaia, História, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Literatura, 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

AM Dean. A Biblioteca Perdida. «Era um número que ela conhecia muito bem. Embora geralmente ligasse para ele pela tecla de discagem rápida de seu telemóvel, ainda reconhecia os dígitos»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Minnesota

«(…) Emily ficou olhando a carta nas suas mãos. O papel se agitava no ar e percebeu, então, que estava tremendo. Ela o releu uma segunda, uma terceira, uma quarta vez. E de novo. Apenas alguns minutos antes, ficara sabendo que Arno Holmstrand tinha sido assassinado, e agora tinha nas mãos uma carta escrita exactamente por esse homem. Escrita antes da sua morte. Ele sabendo que iria morrer. Mais que isso, pensou Emily. Ele sabendo que seria assassinado. Esse facto fazia uma grande diferença. Consciente disso, Arno Holmstrand tinha escrito para Emily Wess. Um gigante, escrevendo para um peão, nos últimos momentos de sua vida. Ela não podia entender porquê. O que quer que Holmstrand tivesse descoberto, porque a estava envolvendo naquilo? A questão ficava ainda mais premente pela ligação directa entre a carta e a morte daquele que a escrevera. Parecia totalmente possível que o conhecimento a que a carta se referia tivesse causado a morte de Holmstrand. Ele sugeria exactamente isso na carta. Assim, não parecia improvável que, tendo a carta em seu poder, Emily agora corria perigo de vida. Seu estômago revirou quando pensou nisso, e na realidade do que tinha nas mãos. Virou o papel, e seus olhos logo se fixaram no número de telefone escrito no verso, em algarismos bem visíveis no centro da página. A carta instruía Emily a ligar para aquele número, embora não desse indicações de quem poderia atender do outro lado. Apesar disso, quando os seus olhos verificaram o número, seu corpo ficou paralisado. Ficou olhando, chocada e confusa, para os dez algarismos escritos em tinta marrom no papel do homem morto. Era um número que ela conhecia muito bem. Embora geralmente ligasse para ele pela tecla de discagem rápida de seu telemóvel, ainda reconhecia os dígitos. Não havia como não reconhecê-los. Pegando o telefone de sua sala, lentamente apertou as teclas de cada um dos dígitos. Talvez eu esteja errada, pensou, sabendo que não estava. Estou apenas agitada. Meus pensamentos estão confusos por causa do choque da notícia. Mas ela sabia que não era nada disso. A sua respiração ficou mais rápida enquanto o telefone chamava. Sabia no seu íntimo que, no momento em que a chamada fosse atendida, os eventos daquela manhã assumiriam uma perspectiva totalmente nova. Um instante depois, o momento chegou. A chamada foi atendida e uma respiração conhecida do outro lado serviu de preâmbulo para uma saudação, vindo de uma voz que já sabia quem estava ligando.

Emmy! O sotaque britânico na fala de Michael Torrance era inconfundível. Com uma exuberância que ficava à altura da confusão que sentia, o noivo de Emily Wess saudou o amor de sua vida.

Mike?, disse Emily, com o coração disparado. Aquela conexão pelo telefone, tendo como causa a enigmática carta de Arno Holmstrand, aumentava ainda mais a confusão. Onde você está?, disse Michael com a voz cheia de energia. Ainda estou no meu gabinete, respondeu Emily. Ainda não saí para o aeroporto. Ela não sabia como devia comunicar seu único pensamento. Mas finalmente decidiu que deveria ser o mais direta possível. Aconteceu uma coisa aqui no campus. Michael de repente ficou sério, numa reacção instantânea. Como assim? É alguma coisa grave? Você está bem? O tom dele denunciava um pânico gerado pelo seu instinto de protecção, e Emily percebeu que começara mal. Não, não é nada desse tipo. Estou bem. Ela ouviu um suspiro de alívio do outro lado da linha. Embora os dois fossem corajosos, o instinto protector de Michael era forte. Mas uma coisa realmente estranha está acontecendo por aqui. Você não acreditaria se eu contasse. Aceito o desafio. Um homem morreu aqui ontem à noite, continuou Emily. Se lembra do famoso professor aqui da universidade? Arno Holmstrand? Aquele do qual falou sem parar durante um ano? Claro, Emmy, eu me lembro, sim. Seguindo um costume que tinham de se comunicar com provocações, zombava de Emily dizendo que ela desenvolvera uma paixão recolhida de colegial quando o lendário professor viera para a universidade. Mais tarde confessara que se o entusiasmo dela não fosse tão enternecedor, ele teria desconfiado que ela estava de olho noutro homem. É ele mesmo, disse, engolindo em seco. Foi assassinado ontem». In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

 Cortesia de EPrumo/JDACT

JDACT, AM Dean, Literatura, Mistério, 

A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Nossos planos estão seguros. Vamos então cuidar do nosso lado do negócio, e vocês cuidam do seu. Assim, todos ganhamos»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Hines de repente não conseguiu esquecer a pergunta. Quantos anos tem, Mitch? A pergunta pegou o assistente de surpresa. Como? A sua idade. Qual é a sua idade? Forrester lançou-lhe um olhar estranho, o seu desdém velado agora misturando-se a uma confusão intrigada. Se eles estivessem sozinhos, poderia ter respondido com uma demonstração explícita do ódio que estava sentindo, mas estava muito consciente da presença de outro homem no escritório de Hines, alguém sentado no canto, em completo silêncio. Alguém que ele não queria que testemunhasse a sua impertinência. Vinte e seis, respondeu por fim. Vinte e seis, repetiu Hines, soltando um suspiro em reacção àquele número tão baixo. Teria sido ele tão petulante naquela idade? Tinha muito mais que o dobro disso, e sempre fora um sujeito cheio de ambição, mas acreditava que nunca tinha sido tão impetuoso quanto aquele rapaz diante dele. Não sei qual é a relevan… Relevância nenhuma, nenhuma, Hines o interrompeu, indicando com um gesto que deviam mudar de assunto. Ele parou por um instante. Alguma coisa mais? Nada ainda, respondeu Forrester secamente. Assim que recebermos alguma notícia, eu lhe comunico, senhor. Ele deixou que a pausa antes da sua última palavra acentuasse a sua insatisfação pelo modo como fora tratado. Ainda assim, com todo o egocentrismo da juventude, continuou ali parado, esperando algum reconhecimento. Hines, entretanto, simplesmente desviou os olhos dele na direcção das imagens da televisão. Percebendo finalmente que não conseguiria mais nada, o assistente se virou e saiu da sala.

Hines esperou uns bons 30 segundos em silêncio antes de virar a cabeça na direcção do homem sentado no outro canto de seu escritório. Embora estivesse acostumado há muito tempo com o serviço que esses homens faziam para a organização, ainda sentia uma ponta de nervosismo quando estava realmente sozinho com um deles. Seu papel na organização sempre fora diplomático, profissional. Nunca tinha feito o serviço sujo. Aquela era uma dimensão vil, mas essencial, da causa deles. Embora muitos no mundo o considerassem um indivíduo de grande influência, Jefferson Hines sabia que o homem sentado a poucos passos da sua mesa representava um poder muito maior que qualquer poder que ele jamais teria.

Acha que as coisas estão ligadas?, perguntou ele finalmente, apontando para o arquivo na sua mesa e depois para o televisor mudo. Ligadas à missão? Claro! Os dois homens não falavam do plano em nenhum outro termo a não ser a missão. Naquela cidade, e no seu escritório, era quase certo que as paredes tivessem ouvidos. Mas não deixe que isso o desestabilize. Vamos manter o curso das acções. Hines não estava satisfeito. Isso nunca foi discutido. Marlake, Gifford…, o resto; esse era o plano. Que diabos se está passando na Inglaterra? O outro homem se endireitou na cadeira enquanto Hines falava. Ele lhe lançou um olhar que nã deixava dúvidas sobre seu significado: cale a boca. Nomes nunca deveriam ser mencionados. Hines percebeu o olhar e a sua mensagem, batendo os dedos na mesa, meio irritado, meio ansioso. Diga-me que esperávamos reacções como essa, disse ele. Diga-me que nada disso é surpresa. Se o outro homem hesitou antes de responder, não havia demonstrado. Tinha o ar de um homem que desejava exalar confiança, e queria que o seu interlocutor permanecesse forte e imperturbável. Nossos planos estão seguros. Vamos então cuidar do nosso lado do negócio, e vocês cuidam do seu. Assim, todos ganhamos.

Fez uma pausa para que suas palavras permanecessem no ambiente pesado entre os dois. Não perca o seu alvo de vista. Apesar do medo instintivo que sentia daquele homem, Hines se sentiu mais tranquilo com aquela aparente certeza. Soltando um longo suspiro, recobrou a sua postura. Homens de estado deviam ser fortes, e ele estaria à altura da sua tarefa. Bom. Então suponho que devo falar-lhe amanhã? O outro homem fez que sim com a cabeça, levantando-se da sua poltrona. Isso mesmo, sr. vice-presidente». In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

JDACT, AM Dean, Literatura, Mistério, 

A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Houve alguma resposta formal do governo britânico? Apenas que estão chocados e horrorizados, envidando todos os esforços para trazer à justiça os culpados…»

 
Cortesia de wikipedia e jdact

 «(…) O Guardião e o seu Assistente eram homens cujas vidas tinham inegável valor para ele, mas esse valor foi considerado menor que os riscos que eles representavam. O secretário tinha ficado tão absorto mns seus pensamentos que, a princípio, não notou o silêncio do outro lado da linha. De repente, entretanto, o silêncio disparou um alarme. Despertando dos seus devaneios, inclinou-se para a frente. O que aconteceu? O que deu errado? O facto de que ele sabia que estávamos chegando; talvez seja mais relevante do que o senhor imagina. O secretário estremeceu. Era um homem que não gostava de surpresas. Inclinou-se mais para a frente, pressionando o telefone contra o ouvido. Fale! Ele chegou ao gabinete antes que eu pudesse acabar com ele. Algo não me pareceu muito certo naquele momento, mas eu não podia demorar-me mais. Quando voltei hoje de manhã para acompanhar os acontecimentos, as minhas suspeitas se confirmaram. Continue, ordenou o secretário, mantendo uma calma, que conseguia manipular depois de muito treinamento. Tinha décadas de experiência em receber más notícias. Controle nos momentos difíceis, sempre soube, era importante. Um bom líder estava no seu nível mais feroz e mais temível quando estava no seu nível máximo de calma. Tinha um livro sobre a mesa dele, disse o Amigo. Três das páginas estavam faltando; tinham sido arrancadas. Eu as encontrei queimadas na lixeira perto da cadeira dele. Fez uma pausa, permitindo que o secretário digerisse os detalhes. Não esperava ou aguardava uma resposta. Não era assim que o relacionamento deles funcionava. Esperava-se que ele dissesse o necessário. Se quisesse ouvir mais, o secretário perguntaria. O homem mais velho ficou pensando no estranho relato. Então, havia algo que o Guardião não queria que o seu assassino visse. Mesmo à beira da morte, estava determinado em despistá-los. As próximas palavras do secretário tinham um tom de ameaça misturado ao de um questionamento. Obteve detalhes sobre o livro? Claro, senhor! Tentou relaxar os músculos dos ombros. O Amigo fora bem treinado. Quero os detalhes na minha mesa dentro de meia hora. Consiga-os para mim enquanto estiver a caminho de Washington. A caçada não ia terminar daquele jeito. E me traga um exemplar desse livro.

Washington, D.C..10H45 (9H45 em Minnesota)

A notícia que estava na pasta vermelha nas suas mãos era perturbadora, mas não superava muito nos seus detalhes o que a loira atrás do letreiro eletrónico da CNN estava reportando no televisor do outro lado da sala. Tinha eliminado o som do aparelho poucos minutos antes que o seu assistente entrasse na sala. A âncora anunciara a notícia da explosão no Reino Unido e um helicóptero sobre o local filmava e transmitia ao vivo cenas das ruínas, mas, além do horário da explosão e de imagens da extensão dos danos, pouco mais se sabia naquele estágio da investigação. Uma importante igreja antiga, marco da herança inglesa, fora destruída por uma bomba no início da manhã. Não havia vítimas registadas, apenas a perda em termos sentimentais e históricos. Alguém reivindicou a responsabilidade?, perguntou ele. Não, sr. Hines, respondeu o assistente. Jefferson cerrou os dentes em reacção à falta de respeito daquele jovem. Não se referir a ele mencionando o seu cargo era, ele sabia, totalmente intencional. A CIA está acompanhando o Serviço de Inteligência Britânico na busca de informações, mas, até agora, nem mesmo os loucos de sempre estão disputando a responsabilidade. Hines processou a informação, ou melhor, a falta de informação. Atentados a bomba eram, em geral, seguidos de uma chuva de reivindicações de responsabilidade feitas por vários grupos, que desejavam também a publicidade que acompanhava o ataque à Grande Besta do Ocidente. Havia excepções, claro, e elas eram suficientemente frequentes para que a falta de reivindicações do caso actual não disparasse muitos alarmes, mas ainda assim aquele silêncio era interessante.

Houve alguma resposta formal do governo britânico? Apenas que estão chocados e horrorizados, envidando todos os esforços para trazer à justiça os culpados por esse crime hediondo, etc. etc. etc. Mitch Forrester mexia os dedos no ar num gesto que indicava a falta de sentido daquelas respostas padronizadas. Ele só trabalhava no escritório de Hines havia seis meses e, mesmo assim, transmitia os comentários com um ar de quem já ouvira tudo aquilo antes». In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

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terça-feira, 13 de outubro de 2020

A Biblioteca Desaparecida. Luciano Canfora. «Calímaco tentou uma classificação geral, com seus Catálogos subdivididos por géneros, correspondentes aos outros tantos sectores da biblioteca: Catálogos dos autores que brilharam em cada disciplina…»

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O Banquete dos Sábios

«(…) Contudo, ao contrário do que poderia se esperar, os 72 não f oram levados ao Museu para executarem sua obra, e sim acomodados na ilhota de Faro, a sete estádios da cidade. A cada passo que avançava o trabalho, era Demétrio que ia até eles, com um pessoal adequado, para levar a cabo a transcrição definitiva das partes traduzidas e acordadas. Em 72 dias, os 72 intérpretes concluíram a tradução.

Na Gaiola das Musas

Dentro do Museu, porém, a vida não era nada tranquila. Na populosa terra do Egipto, escarnecia um poeta satírico da época, são criados uns garatujadores livrescos que se bicam eternamente na gaiola das Musas. Timão, o filósofo céptico a que se devem tais palavras, sabia que em Alexandria, diz ele vagamente no Egipto, encontrava-se o fabuloso Museu: chama-o de gaiola das Musas, referindo-se justamente à aparência de pássaros raros, distantes, preciosos, de seus moradores. Deles diz que são criados, referindo-se também aos privilégios materiais concedidos pelo rei: o direito às refeições gratuitas, o salário, a isenção de impostos. Chamava-os de charakitai, querendo dizer que fazem garatujas em rolos de papiro, com um deliberado jogo de palavras com charax, o recinto, onde aqueles pássaros de viveiro de luxo viviam escondidos. E para demonstrar que eram dispensáveis, que todo o mistério e a reserva que os circundava na realidade encobriam o vazio, o nada, Timão desdenhosamente dizia a Arato, o poeta dos Fenómenos que costumava frequentá-lo, que usava as velhas cópias de Homero, não aquelas agora corrigidas, referindo-se ao esforço dedicado por Zenódoto de Éfeso, o primeiro bibliotecário do Museu, ao texto da Ilíada e da Odisseia. Por exemplo, no verso 88 do livro quarto da Ilíada, Zenódoto mudava o texto no ponto em que fala de Atenas misturando-se aos heróis troianos, Pândaro igual aos deuses procurando, se jamais viesse a encontrar, por lhe parecer impossível falar de uma deusa que se esforça em encontrar o objecto que procura. No livro primeiro, propusera eliminar os versos 4 e 5, os famosos versos da medonha refeição de cães e pássaros, por alguma outra razão que, por sorte, não pareceu convincente a ninguém além dele. Timão não estava totalmente errado em se sentir enfastiado com tudo isso. Naturalmente, não era só esse tipo de excêntricas intervenções que os ocupava. Classificavam, dividiam em livros, copiavam, anotavam, enquanto o material crescia incessantemente, e eles próprios, com seus volumosos comentários, contribuíam para aumentá-lo. Poucos conheciam a f undo a biblioteca em todas as suas partes e artérias. Num dos periódicos concursos poéticos promovidos pelos Ptolomeus, já se estava na época do Evergeta, foi preciso acrescentar um sétimo juiz ao júri; o soberano recorreu aos expoentes máximos do Museu, e eles lhe revelaram a existência de um douto chamado Aristófanes, originário de Bizâncio, que, disseram-lhe, todo dia, o dia inteiro, não fazia outra coisa além de ler e reler atentamente todos os livros da biblioteca, seguindo pela ordem. Ordem que, portanto, Aristófanes conhecia perfeitamente. O que se viu logo depois, quando, para desmascarar alguns poetas plagiadores que estavam prestes a conquistar os melhores prémios, abandonou a sessão do júri e, confiando na sua memória (assim explica Vitrúvio, ao narrar o episódio), foi directamente a algumas estantes bem conhecidas a ele, e pouco depois reapareceu, brandindo os textos originais que aqueles plagiadores haviam tentado impingir como seus.

Calímaco tentou uma classificação geral, com seus Catálogos subdivididos por géneros, correspondentes aos outros tantos sectores da biblioteca: Catálogos dos autores que brilharam em cada disciplina, tal era o titulo do enorme catálogo, que sozinho ocupava uns 120 rolos. Esse catálogo dava uma ideia da ordenação dos rolos. Mas certamente não era uma planta ou um guia, que só muito mais tarde, na época de Dídimo, seriam compilados. Os Catálogos de Calímaco serviam apenas a quem já tivesse prática. E, mesmo assim, por se basear no critério de arrolar somente os autores que haviam brilhado nos diversos géneros, o repertório de Calímaco devia representar uma selecção, ainda que imensa, do catálogo completo. Épicos, trágicos, cómicos, historiadores, médicos, retóricos, leis, miscelâneas são algumas das categorias: seis secções para a poesia e cinco para a prosa. Aristóteles pairava entre aquelas estantes, entre aqueles rolos bem-ordenados, desde que Demétrio ali transplantara a ideia do mestre: uma comunidade de doutos isolados do mundo exterior, guarnecida de uma biblioteca completa e um local de culto às Musas. A ligação se fortalecera com a longa permanência de Estrabão na corte. O método e o génio do Estagirita, escreveu um douto francês, presidiam a distância à organização da biblioteca. Mas eram justamente as estantes destinadas a conter suas obras que davam pena de ver: praticamente apenas as obras divulgadas por Aristóteles em vida, se é que simplesmente não se insinuava alguma falsificação que depois seria dificílimo desalojar». In Luciano Canfora, A Biblioteca Desaparecida, Histórias da Biblioteca de Alexandria, 1986, Companhia das Letras, 1989, ISBN 978-857-164-051-1.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

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segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Jean Plaidy. Lucrécia Bórgia. «Ela olhava para ele como se ele fosse o responsável por aquela coisa estranha. Ela o fez sentir-se poderoso, como fizera desde quando era criancinha e ele rondava seu berço…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Piazza Pizzo di Merlo

«(…) Ela era muito bonita, e as criadas nunca se cansavam de pentear ou adornar aqueles longos cabelos de cor amarelo-ouro que tão raramente se via em Roma. Lucrécia aos dois anos já tinha, tal como os irmãos, era precoce, consciência de seu charme, mas aceitava isso com uma satisfação tranquila, como aceitava a maioria das coisas. Naquele dia havia um silêncio na casa, porque algo importante estava acontecendo, e Lucrécia estava cônscia dos sussurros dos empregados e empregadas e da presença de mulheres estranhas na casa. Ela sabia que aquilo dizia respeito a sua mãe, porque já fazia um dia inteiro que não lhe permitiam vê-la. Lucrécia sorria placidamente enquanto olhava para a praça. Ela acabaria sabendo, de modo que iria esperar que chegasse a ocasião. Seu irmão Giovanni aproximou-se e ficou em pé a seu lado. Estava com seis anos e era um menino bonito, com cabelos castanho, avermelhados como os da mãe. Lucrécia sorriu para ele e estendeu a mão; o irmão sempre era delicado com ela e ela já percebera que cada um deles estava fazendo o possível para ser o seu favorito. Ela já era coquete o bastante para gostar da rivalidade por seus afectos. O que é que está olhando, Lucrécia?, perguntou Giovanni.

Estou vendo as pessoas, respondeu ela. Olhe a mulher gorda com a máscara! Os dois riram juntos porque a mulher gorda bamboleava-se como uma pata, disse Giovanni. Nosso tio vai chegar logo, disse Giovanni. Está esperando por ele, Lucrécia? Lucrécia sacudiu a cabeça, sorrindo. Era verdade que ela sempre esperava o tio Rodrigo. As visitas dele eram o ponto alto de sua vida. Ser levada por aqueles braços fortes, ser erguida acima daquele rosto risonho, sentir o leve perfume que aderia às roupas dele e observar as jóias faiscantes nas suas mãos brancas e saber que ele a adorava, era maravilhoso. Ainda mais maravilhoso do que ser tão amada pelos dois irmãos. Ele virá hoje, Lucrécia, disse Giovanni. Na certa que virá. Está esperando uma mensagem da mãe. Lucrécia prestou atenção, alerta; nem sempre ela compreendia os irmãos; eles pareciam esquecer-se de que ela tinha apenas dois anos, e que Giovanni, que tinha seis, e César, que tinha sete, pareciam adultos, ilustres, grandes e importantes. Sabe porquê, Lucrécia?, disse Giovanni.

Quando ela abanou a cabeça, Giovanni riu, mantendo o segredo, ansioso por contar a ela e no entanto relutando em fazê-lo porque a perspectiva de contar o agradava muito. De repente, ele parou de sorrir para ela e Lucrécia entendeu porquê. César estava em pé atrás deles. Lucrécia voltou-se para sorrir para ele, mas César estava olhando firme para Giovanni. Não tem nada que contar, disse César. Tenho tanto quanto você, retorquiu Giovanni. Eu sou o mais velho. Eu vou contar, declarou César. Lucrécia, não dê atenção ao que ele diz. Lucrécia abanou a cabeça e sorriu. Não, ela não daria atenção ao que Giovanni dizia. Eu vou contar, se eu quiser, berrou Giovanni. Tenho tanto direito de contar quanto você. Mais..., porque fui o primeiro a pensar em contar. César tinha agarrado o irmão pelos cabelos e o estava sacudindo. Giovanni dava pontapés em César. César respondeu, Giovanni gritou e os dois meninos passaram a rolar pelo chão. Lucrécia continuou calma, porque lutas como aquela eram bem comuns na ala infantil, e ela ficava assistindo, contente por eles estarem brigando por ela; quase sempre, ela era a causa daquelas brigas. Giovanni estava gritando de dor; César berrava de raiva. As criadas não tinham coragem de se aproximar deles quando os dois brigavam daquele jeito. Elas tinham medo dos dois meninos. Giovanni, que estava sendo imprensado contra o chão por César, gritou: Lucrécia..., nossa mãe vai... Mas não conseguiu dizer mais nada, porque César tapou com a mão a boca do irmão. Os olhos dele pareciam negros de raiva, e o rosto estava escarlate. Eu vou contar. Sou eu que tenho de contar. Nossa mãe vai ter um filho, Lucrécia. Lucrécia ficou olhando, os olhos arregalados, a macia boca de criança aberta numa expressão de espanto. César, vendo o assombro dela, recuperou a calma. Ela olhava para ele como se ele fosse o responsável por aquela coisa estranha. Ela o fez sentir-se poderoso, como fizera desde quando era criancinha e ele rondava seu berço e ficava olhando os dedinhos dela enroscarem-se no seu polegar.

Ele soltou Giovanni e os dois meninos se levantaram. A briga terminara; era uma das muitas que aconteciam todos os dias na ala infantil. Agora eles estavam prontos para conversar com a irmãzinha sobre o novo bebé, desfilar diante dela e jactar-se de tudo o que sabiam a respeito dos grandes acontecimentos que tinham lugar do lado de fora da ala infantil. Vannozza estava deitada, esperando que o cardeal a visitasse. Daquela vez tinha sido um menino, mas ela estava inquieta. Tinha boas razões para isso. O cardeal continuara suas visitas durante os dois anos em que ela estava casada, mas elas tinham sido menos frequentes e ela ouvira muitos mexericos sobre as encantadoras jovens pelas quais ele se interessava. Giorgio era um homem bom, um homem dócil, como o cardeal dissera; mas até mesmo os mais dóceis dos homens não deixam de ser homens, e Vannozza possuía um charme voluptuoso e irresistível. Tinha havido longos serões no verão, o frescor do anoitecer era a melhor parte do dia, em que eles jantavam no belo vinhedo dela na Suburra, quando os dois conversavam e ficavam sonolentos e depois iam para dentro de casa, cada qual sentindo-se estimulado pela presença do outro». In Jean Plaidy, Lucrécia Borgia, Edição Record, 1996, ISBN 978-850-104-410-5.

 

Cortesia de ERecord/JDACT


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