quinta-feira, 2 de julho de 2020

O Processo. Franz Kafka. «Ora, esta é muito boa!, exclamou K., saltando da cama para vestir rapidamente as calças. Verei que tipos de pessoas são as que estão na peça ao lado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Um belo dia, Josef K., um bem-sucedido gerente bancário, é subitamente preso no seu próprio quarto, sem saber porquê nem por quem. Vê-se então envolvido num labiríntico e absurdo processo que decorre secretamente em obscuras secretarias instaladas em sótãos, conduzido por juízes menores que têm a mera incumbência de o inquirir. Concebido em 1914, o romance O Processo constitui para Kafka a forma ideal para expressar a fragmentação do mundo e da realidade em que vive o homem moderno. A presente tradução é de Álvaro Gonçalves, a primeira em Portugal a ser feita a partir da versão alemã baseada no manuscrito original de Kafka, que anula as alterações introduzidas pelo amigo e testamenteiro do autor, Max Brod, na sua primeira edição de 1925». In Sinopse

«Alguém devia ter caluniado Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã. A cozinheira da senhora Grubach, sua hospedeira, que todos os dias às oito horas lhe trazia o pequeno-almoço, não se apresentou no quarto de K. nessa manhã. Jamais acontecera isso. K. aguardou ainda um poucochinho, olhou, recostado no seu travesseiro, a anciã que morava em frente da sua casa e que o observava com uma curiosidade inteiramente fora do comum; depois, porém, sentindo-se ao mesmo tempo faminto e surpreso, fez soar a campainha. Imediatamente bateram na sua porta, e no dormitório entrou um homem ao qual K. jamais vira antes naquela casa. Era um tipo esbelto, porém de aspecto sólido, que vestia um traje negro e justo, o qual, semelhante a uma roupa de viagem, apresentava diversas pregas, bolsos, abas, botões e um cinto, que emprestavam à veste um ar estranhamente prático sem que, porém, pudesse estabelecer-se claramente para que serviriam todas aquelas coisas.
Quem é você?, perguntou K., erguendo-se a meio no leito. O homem, contudo, ignorou a pergunta, como se se devesse desculpar a sua aparição naquela casa, e limitou-se por sua vez a indagar: você chamou? Ana precisa trazer-me o pequeno-almoço, disse K., procurando estabelecer por conjectura, enquanto permanecia um momento em silêncio, quem seria aquele homem. Este, porém, não ficou muito tempo exposto aos olhares de K., mas, voltando-se para a porta, que entreabriu um pouco, disse a alguém que certamente estava por trás dela: quer que Ana lhe traga o pequeno-almoço. No quarto pegado seguiu-se a isto uma risota por cujo som não se poderia descobrir se correspondia a uma ou a diversas pessoas. Embora essa risota não tivesse dito ao estranho nada que ele ignorasse, este, contudo, disse a K., como um aviso: é impossível.
Ora, esta é muito boa!, exclamou K., saltando da cama para vestir rapidamente as calças. Verei que tipos de pessoas são as que estão na peça ao lado e como a senhora Grubach me explica esta intromissão. No mesmo instante, entretanto, ocorreu-lhe que não devia ter dito isso em voz alta porque assim reconhecia, de certo modo, o direito que o estranho tinha em vigiá-lo; no momento, porém, não deu importância ao facto. De todas as maneiras, o estranho já o entendera assim, pois lhe disse: não acha melhor ficar aqui? Não quero nem ficar aqui nem falar com você até que me diga quem é. Perguntei-lhe com boa intenção, disse o estranho, abrindo então a porta por iniciativa própria. A sala pegada, onde K. penetrou mais lentamente do que teria desejado, tinha à primeira vista quase o mesmo aspecto da noite anterior. Era o salão da senhora Grubach que talvez, com os seus móveis, tapetes, porcelanas, apresentava-se um tanto mais espaçoso que de costume; isso, porém, não se percebia de imediato, tanto mais que a modificação principal era a presença de um homem, sentado à janela, com um livro do qual afastou a vista quando K. se apresentou. Você deveria ter ficado em seu quarto. Franz não lhe disse? Sim, mas que deseja você?, indagou K., desviando o olhar do novo personagem para fixá-lo naquele a quem acabavam de chamar Franz, que permanecia de pé junto à porta, e para tornar a dirigi-lo por fim ao outro. Através da janela aberta tornava-se a ver a anciã vizinha que, apoiada na sua, contemplava a cena com curiosidade verdadeiramente senil, como se nada devesse perder dela». In Franz Kafka, O Processo1914-1925, Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 2019, ISBN 978-972-382-928-0.

Cortesia de ELivrosdoBrasil/JDACT

O Afegão. Frederick Forsyth. «Um de seus companheiros apontou a ausência de sinal no visor do aparelho e explicou o processo de carregamento»

Cortesia de wikipedia e jdact

Stingray
«(…) Mas, caso recebessem qualquer tarefa do chefe do seu clã, morreriam para realizá-la. Naquele Setembro, foram incumbidos de proteger o egípcio de meia-idade que falava árabe nilótico, mas dominava o suficiente do idioma pashto para se comunicar. Um dos quatro jovens era Abdelahi, e seu orgulho e alegria era seu telefone móvel. Infelizmente o aparelho não estava funcionando, porque ele esquecera de recarregar a bateria. Isso foi depois do meio-dia. Uma hora perigosa demais para sair à rua e caminhar até uma mesquita local para rezar. Al Qur dissera todas as suas preces junto com seus guarda-costas, no seu apartamento no andar superior. Tinham feito uma refeição frugal e se recolhido para descansar um pouco. O irmão de Abdelahi vivia a centenas de quilómetros a oeste, na igualmente fundamentalista cidade de Quetta, e a mãe deles estava doente. Em busca de notícias da mãe, tentou falar com ele pelo telemóvel. Não iria falar nada que fosse comprometedor; apenas uma parte dos trilhões de palavras inocentes que viajavam diariamente pelo éter de todos os cinco continentes. Mas seu telemóvel não queria funcionar. Um de seus companheiros apontou a ausência de sinal no visor do aparelho e explicou o processo de carregamento. Então Abdelahi viu o telemóvel sobressalente sobre a mala do egípcio, na sala de estar.
Estava totalmente carregado. Sem ter ideia de como aquilo poderia causar qualquer problema, digitou o número do irmão e ouviu o toque da chamada para Quetta. E na toca de coelho de subterrâneos interconectados em Islamabad, que constituem o departamento de escuta do Centro Antiterrorista do Paquistão, uma pequena lâmpada vermelha começou a piscar. Muitos moradores de Hampshire consideram-no o condado mais bonito da Inglaterra. A costa sul, de frente para as águas do canal, abriga o imenso porto marítimo de Southampton e a doca de Portsmouth. Seu centro administrativo é a cidade histórica de Winchester, dominada por uma catedral com quase mil anos de idade.
No coração do condado, longe de todas as estradas, e até mesmo das rodovias, fica o silencioso vale do rio Meon, um córrego agradável em cujas margens jazem aldeias que datam do tempo dos saxões. Uma única estrada corre de sul a norte, mas o resto do vale é uma rede de alamedas coleantes franjadas com árvores, cercas vivas e prados. É uma região de fazendas como nos velhos tempos, com poucos campos de mais de dez hectares e com um número ainda menor de fazendas de mais de quinhentos hectares. A maioria das casas de fazenda é muito antiga, e algumas servidas por agrupamentos de celeiros grandes, antigos e belos. O homem empoleirado no cume de um dos celeiros desfrutava de um panorama do vale Meon e de uma visão geral da aldeia mais próxima, Meonstoke, que ficava a menos de um quilómetro e meio de distância. No momento em que, a vários fusos horários para leste, Abdelahi fez a última chamada telefónica da sua vida, o telhador enxugou um pouco de suor da testa e reiniciou seu trabalho: remover com cuidado as telhas de barro que tinham sido postas ali havia centenas de anos.
Deveria ter chamado uma empresa especializada em reparo de telhado, que teria envolvido o celeiro inteiro com andaimes. Seria mais rápido e seguro trabalhar desse modo, embora muito mais caro. E o problema era esse. O homem empunhando o martelo de telhador era um ex-soldado, aposentado depois de 25 anos de carreira, e que usara a maior parte do soldo para comprar este sonho; um lugar no campo para chamar de lar. Um lar que já fora um celeiro, e do qual, para chegar à cidade mais próxima, era preciso seguir uma trilha e depois uma estrada». In Frederick Forsyth, O Afegão, Edições ASA, 2008, ISBN 978-989-230-267-6.

Cortesia de EASA/JDACT

quarta-feira, 1 de julho de 2020

O Afegão. Frederick Forsyth. «Durante a busca nas casas e propriedades dos homens-bomba, a polícia encontrou um verdadeiro tesouro que preferiu não revelar à imprensa»

Cortesia de wikipedia e jdact

Stingray
«Se o jovem guarda-costas talibã soubesse que aquela ligação de telefone móvel iria matá-lo, não a teria feito. Mas como não sabia, fez a ligação e morreu em seguida. Em 7 de Julho de 2005, quatro homens-bomba detonaram mochilas carregadas com explosivos no centro de Londres. Cinquenta e duas pessoas morreram, cerca de 700 ficaram feridas e pelo menos cem foram mutiladas. Três dos quatro homens-bomba nasceram e foram criados em solo britânico, porém filhos de paquistaneses. O quarto era um jamaicano naturalizado britânico e convertido ao islão. Ele e um dos outros ainda estavam na adolescência; o terceiro tinha 22 anos, e o líder do grupo, 30. Todos haviam sido radicalizados, ou convertidos ao fanatismo extremo, bem no coração da Inglaterra, depois de frequentar mesquitas extremistas e ouvir pregadores fanáticos. Nas 24 horas que se seguiram às explosões, os homens foram identificados e associados a vários endereços na cidade e arredores de Leeds, norte da Inglaterra. Inclusive, todos haviam falado em intensidades diversas com sotaque de Yorkshire. O líder fora Mohammad Siddique Khan, professor numa escola para alunos com necessidades especiais.
Durante a busca nas casas e propriedades dos homens-bomba, a polícia encontrou um verdadeiro tesouro que preferiu não revelar à imprensa. Quatro recibos demonstravam que um dos integrantes mais velhos comprou telemóveis do tipo descartável, e aparelhos tri-band, que podem ser usados praticamente em qualquer parte do mundo. Cada um dos aparelhos continha um cartão pré-pago no valor de 20 libras esterlinas. Os telemóveis foram pagos em dinheiro e estavam desaparecidos. Mas a polícia logo identificou os números e classificou-os como suspeitos, de modo que seriam identificados caso voltassem a ser utilizados. Também foi descoberto que Siddique Khan e seu parceiro de maior confiança no grupo, um jovem punjabi chamado Shehzad Tanweer, passaram três meses no Paquistão em Novembro do ano anterior. Não foi descoberta pista alguma sobre quem os dois teriam visitado, mas, semanas depois das explosões, a rede de televisão árabe Al Jazeera transmitiu uma gravação de Siddique Khan na qual ele anunciava a sua morte. O vídeo certamente fora gravado durante aquela visita feita a Islamabad.
Foi apenas em Setembro de 2006 que também ficou comprovado que um dos homens-bomba levara, na viagem, um dos inocentes telemóveis desaparecidos e o presenteara ao seu organizador instrutor da al-Qaeda. (A polícia britânica já estabelecera que nenhum dos homens-bomba possuía habilidade técnica para fabricar as bombas sem instrução e auxílio). Independentemente da identidade dessa autoridade superior, esta passara o presente adiante como um sinal de respeito a um membro da comitiva de elite reunida em torno da pessoa de Osama bin Laden, no seu esconderijo nas montanhas do Waziristão do Sul, ao longo da fronteira do Paquistão com o Afeganistão, a oeste de Peshawar. O aparelho seria utilizado apenas para emergências, já que todos os agentes da al-Qaeda são cautelosos no uso de telemóveis. Contudo, o doador não teria como saber que os fanáticos britânicos haviam cometido a estupidez de deixar o recibo do aparelho na sua escrivaninha em Leeds. A comitiva de Bin Laden apresenta quatro divisões, que lidam com as operações, as finanças, a propaganda e a doutrina da organização. Cada divisão possui um director, que responde apenas a Bin Laden e ao seu co-líder, Ayman Al-Zawahiri. Em Setembro de 2006, o chefe de finanças do grupo terrorista era o egípcio Tewfik Al-Qur, conterrâneo de Zawahiri.
Por motivos posteriormente esclarecidos, Tewfik Al-Qur encontrava-se disfarçado na cidade paquistanesa de Peshawar, em 15 de Setembro, e não partia para uma viagem demorada e perigosa para longe do entorno das montanhas, mas retornava de uma. Aguardava a volta do guia que iria levá-lo aos picos waziris, e à presença do xeque em pessoa.
Para protegê-lo em sua breve estada em Peshawar, foram-lhe designados quatro fanáticos locais, pertencentes ao movimento Talibã. Como é normal aos homens originários das montanhas do noroeste, eles eram tecnicamente paquistaneses, mas da tribo dos waziris. Falavam pashto melhor que urdu, e eram leais ao povo pashtun, do qual a tribo waziris é um sub-ramo. Todos foram içados da sarjeta numa madrassa, ou internato corânico de orientação extrema, aderindo à seita wahabi do islão, a mais severa e intolerante de todas. Não tinham conhecimento ou habilidade para qualquer coisa que não fosse recitar o Corão e, portanto, como milhões de jovens criados em madrassas, eram incapazes de obter emprego». In Frederick Forsyth, O Afegão, Edições ASA, 2008, ISBN 978-989-230-267-6.

Cortesia de EASA/JDACT

terça-feira, 30 de junho de 2020

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Ele puxou uma das rédeas, mas Tom continuou segurando o freio. Solte meu cavalo, ordenou William ameaçadoramente. Tom engoliu em seco»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Tom teve ímpetos de dizer: se você tivesse ferido minha filhinha, eu o mataria, mas conteve a raiva. Foi como engolir um sapo. Aproximou-se do cavalo e segurou o freio. Eu sou o construtor, disse tenso. Meu nome é Tom. Esta casa não é mais necessária, disse William. Dispense seus homens. Era o que Tom receava. Mas agarrou-se à esperança de que William estava sendo impetuoso na sua raiva, e poderia ser persuadido a mudar de ideia, com esforço, fez a voz parecer cordial e razoável. Mas tanto trabalho já foi feito! Por que perder o que gastou? Vai precisar da casa um dia. Não me diga como cuidar dos meus negócios, Tom Construtor, disse William. Vocês todos estão dispensados. Ele puxou uma das rédeas, mas Tom continuou segurando o freio. Solte meu cavalo, ordenou William ameaçadoramente. Tom engoliu em seco. Mais um momento e William tentaria puxar a cabeça do cavalo para cima. O construtor enfiou a mão no bolso do avental e tirou o resto do pão que estava comendo. Mostrou-o para o animal, que mergulhou a cabeça e deu uma mordida.
Há mais para ser dito antes que se vá, milorde, retrucou conciliadoramente. Solte meu cavalo, senão cortarei sua cabeça, disse William. Tom olhou directamente para ele, procurando não demonstrar o medo que sentia. Era maior que William mas isso não faria diferença se o jovem lorde desembainhasse a espada. Faça o que o lorde diz, marido, murmurou Agnes, temerosa. Houve um silêncio de morte. Os outros trabalhadores ficaram imóveis como estátuas, observando. Ele sabia que a atitude prudente seria ceder. Mas por pouco o jovem não esmagara a filhinha de Tom, e isso o deixara furioso. Assim, foi com o coração disparado que ele disse: O senhor tem que nos pagar. William puxou as rédeas, mas o construtor segurou o freio com força. Além disso, o cavalo estava distraído, metendo o focinho no bolso do avental de Tom, querendo mais comida. Solicite a meu pai os seus salários!, disse William, furiosamente.
Tom ouviu a voz do carpinteiro, aterrorizada: Faremos isto, milorde, agradecendo-lhe muito. Covarde desgraçado, pensou Tom, mas ele próprio estava tremendo. Mesmo assim, obrigou-se a dizer: se quiser nos dispensar, terá de nos pagar, conforme o costume. A casa de seu pai fica a dois dias de marcha daqui, e quando chegarmos lá poderemos não encontrá-lo. Homens têm morrido por menos que isso, disse William. Seu rosto ficou vermelho de raiva. Com o canto do olho, Tom viu que o escudeiro empunhava a espada. Sabia que deveria desistir agora e humilhar-se, mas havia um obstinado nó de raiva no seu estômago, e assustado como estava não conseguiu obrigar-se a largar o freio do cavalo. Pague primeiro e depois me mate, disse imprudentemente. Pode vir a ser enforcado ou não; mas morrerá, mais cedo ou mais tarde, e aí estarei no céu quando for para o inferno. A expressão de escárnio congelou-se no rosto de William, que empalideceu. Tom ficou surpreso; o que havia assustado o rapaz? Não a referência ao enforcamento, certamente: na verdade não era nada provável que um lorde fosse enforcado pelo assassinato de um artesão. Teria se aterrorizado com o inferno?
Encararam-se por alguns momentos. Tom observou com assombro e alívio quando a expressão de raiva e desprezo de William se dissolveu, para ser substituída por uma ansiedade pânica. Por fim William pegou uma bolsa de couro no cinto e jogou-a para o seu escudeiro, dizendo: pague a eles.
Nesse ponto, Tom forçou a sorte. Quando William puxou as rédeas de novo e o cavalo levantou a cabeça forte e andou de lado, deslocou-se junto, agarrado no freio, e disse: uma semana de salário na dispensa, é este o costume. Ouviu Agnes respirar fundo, logo às suas costas, e não teve dúvida de que ela o achava maluco, por prolongar o confronto. Mas prosseguiu, obstinadamente: isso significa seis pence para o servente, doze para o carpinteiro e cada um dos pedreiros, e vinte e quatro para mim. Sessenta e seis ao todo. Ele era capaz de somar pennies mais depressa do que qualquer pessoa que conhecesse. O escudeiro estava olhando indagadoramente para o seu senhor. Muito bem, disse William, com raiva. Tom largou o freio e recuou. William virou o cavalo e o esporeou com força. O animal saltou em frente, pegando a trilha que cortava o trigal». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Memorial do Convento. José Saramago. «Deitou o padre Bartolomeu Lourenço a bênção ao soldado e à vidente, eles beijaram-lhe a mão, mas no último momento se abraçaram os três, teve mais força a amizade que o respeito…»

jdact

«(…) Sete-Sóis e Sete-Luas, se nome tão belo lhe puseram, bom é que o use, não desceram de S. Sebastião da Pedreira ao Rossio para ver o auto-de-fé, mas não faltou o povo geral à festa, e de alguns que lá estiveram, mais os registos que sempre ficam apesar de incêndios e terramotos, ficou memória do que viram e a quem viram, queimados ou penitentes, a preta de Angola, o mulato da Caparica, a freira judia, os religiosos que diziam missa, confessavam e pregavam sem terem ordens para tal, o juiz de fora de Arraiolos compartes de cristão-novo por ambas as vias, ao todo cento e trinta e sete pessoas, que o Santo Ofício (maldito), podendo, lança as redes ao mundo e trá-las cheias, assim peculiarmente praticando a boa lição de Cristo quando a Pedro disse que o queria pescador de homens. A grande tristeza de Baltasar e Blimunda é não haver uma rede que possa ser lançada até às estrelas e trazer de lá o éter que as sustenta, conforme afirma o padre Bartolomeu Lourenço, que vai partir um destes dias e não sabe quando volta. A passarola, que parecia um castelo a levantar-se, é agora uma torre em ruínas, uma babel cortada a meio voo, cordas, panos, arames, ferros confundidos, nem sequer ficou a consolação de abrir a arca e contemplar o desenho, porque já o padre o leva na sua bagagem, amanhã partirá, vai por mar e sem maior risco que o natural de viagens, porque finalmente foram as pazes com a França apregoadas, com solene procissão de juizes, corregedores e meirinhos, todos muito bem montados, e atrás os trombeteiros, de trombetas bastardas, depois os porteiros do paço com as suas maças de prata ao ombro, e por fim sete reis-de-armas, com as sobrevestiduras ricas, e o último deles levava na mão um papel, que era o pregão das pazes, primeiramente lido no Terreiro do Paço, debaixo das janelas onde estavam as majestades e altezas à vista do mar de povo que enchia a praça, formada a companhia da guarda, e, depois de deitado aqui o pregão, foram deitá-lo outra vez ao adro da Sé e dali terceiro ao Rossio, no adro do hospital, enfim estas pazes com a França estão feitas, agora venham as outras com os mais países, Mas nenhumas me tornam a dar a mão que perdi, diz Baltasar, Deixa lá, tu e eu temos três mãos, isto responde Blimunda.
Deitou o padre Bartolomeu Lourenço a bênção ao soldado e à vidente, eles beijaram-lhe a mão, mas no último momento se abraçaram os três, teve mais força a amizade que o respeito, e o padre disse, Adeus Blimunda, adeus Baltasar, cuidem um do outro e da passarola, que eu voltarei um dia com o que vou buscar, não será ouro nem diamante, mas sim o ar que Deus respira, guardarás a chave que te dei, e como vão partir para Mafra, lembra-te de vir aqui de vez em quando ver como está a máquina, podes entrar e sair sem receio, que a quinta confiou-ma el-rei e ele sabe o que nela está, e tendo dito, montou na mula e partiu. Já lá vai pelo mar fora o padre Bartolomeu Lourenço, e nós que iremos fazer agora, sem a próxima esperança do céu, pois vamos às touradas, que é bem bom divertimento, Em Mafra nunca as houve, diz Baltasar, e, não chegando o dinheiro para os quatro dias da função, que este ano foi arrematado caro o chão do Terreiro do Paço, iremos ao último, que é o fim da festa com palanques ao redor todo da praça, até do lado do rio, que mal se vêem as pontas das vergas dos barcos além fundeados, arranjaram bons lugares Sete-Sóis e Blimunda, e não foi por chegarem mais cedo que os outros, mas porque um gancho de ferro, na ponta de um braço, abre caminho tão fácil como a colubrina que veio da Índia e está na torre de S. Gião, sente um homem tocarem-lhe nas costas, volta-se para trás, é como se tivesse a boca de fogo apontada à cara. A praça está toda rodeada de mastros, com bandeirinhas no alto e cobertos de volantes até ao chão, que adejam com a brisa, e à entrada do curro armou-se um pórtico de madeira, pintada como se fosse mármore branco, e as colunas fingindo pedra da Arrábida, com os frisos e cornijas dourados. Ao mastro principal sustentam-no quatro grandíssimas figuras, pintadas de várias cores e sem avareza de ouro, e a bandeira, de folha-de-flandres, mostra de um lado e do outro o glorioso Santo António sobre campos de prata, e as guarnições são igualmente douradas, com um grande penacho de plumas de muitas cores, tão bem pintadas que parecem naturais e verdadeiras, com que se remata o varão da bandeira. Estão as bancadas e os terrados formigando de povo, reservadamente acomodadas as pessoas principais, e as majestades e altezas miram das janelas do paço, por enquanto ainda andam os aguadores a aguar a praça, oitenta homens vestidos à mourisca, com as armas do Senado de Lisboa bordadas nas opas que trazem vestidas, impacienta-se o povinho que quer ver sair os touros, já se foram embora as danças, e agora retiraram-se os aguadores, ficou o terreiro um brinco, cheirando a terra molhada, parece que o mundo se acabou agora mesmo de criar, esperem-lhe pela pancada, não tardam aí o sangue e a urina, e as bostas dos touros, e os benicos dos cavalos, e se algum homem se borrar de medo oxalá o amparem as bragas, para não fazer má figura diante do povo de Lisboa e de João V». In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

O Enigma de Compostela. AJ Barros. «Parecia que estava seguindo ou fugindo de alguma coisa. Adquiri o hábito de observar detalhes. Ele reconheceu a bandeira brasileira no seu gorro, imagino»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Embora já esperasse por essa resposta, a informação o assustou. Baixou a cabeça e o cheiro de enxofre espalhou-se por toda a paisagem. Passaram-se uns minutos e o inspector mostrou-lhe uma foto da garota. Esta fotografia foi tirada em Majorca, no mês de Julho, onde ela estava de férias com os pais. Uma menina bonita, de biquíni, com o corpo já salientando as curvas da adolescência e cheia de sonhos na sua face sorridente, fazia pose, perto de uma barraca fincada na areia da praia. Só damos valor ao repouso quando estamos cansados. Maurício tirou o gorro de pano verde e amarelo da cabeça e enxugou o rosto com o lenço. Encostado no barranco, sem a mochila nas costas, que vinha carregando como se fosse uma corcunda, olhava para aqueles campos amarelos de trigo já ceifado, sem saber no que pensar. Ao longe, os Pirenéus exibiam seus majestosos picos contra o horizonte, mas o detective não estava interessado em paisagem. Sua percepção no caso é que o assassino pode ter uma missão, pois um tipo violento como ele somente conteria os seus instintos animalescos em relação à menina por alguma razão superior. Se ele ficasse ali para satisfazer seus instintos sexuais, poderia surgir alguém e prejudicar a sua missão. Acho que foi esse o seu raciocínio em Roncesvalles. Maurício não respondeu. Olhava para as elevações no meio do vale, onde pequenos vilarejos pareciam se esconder à sombra de suas imensas igrejas.
Podemos ir conversando, se aceitar minha companhia. Admito que o comandante não gostaria de eu estar aqui, trocando ideias com um peregrino estrangeiro sobre matéria de investigação criminal em curso, mas o seu raciocínio me trouxe questionamentos que não posso desprezar. Havia qualquer coisa de misterioso naquele encontro com o detective, que parecia ao mesmo tempo agradecido e desconfiado. Era melhor tê-lo por perto e conseguir informações.
Caminharam até ao alto do morro, onde uma linha de grandes torres de ventiladores gigantes para a geração de energia eólica, fora instalada no espigão do Monte del Perdon, e ali ficaram como se fossem Quixote e Sancho Pança se preparando para investir contra moinhos de vento. Um estranho monumento, com peregrinos dispostos como se fossem cavaleiros andantes, justificava a inscrição que dizia: o caminho do vento se cruza com o caminho das estrelas. O policial retomou o assunto que o levara àquele encontro: tenho a impressão de que alguma coisa mais o incomoda. Em Roncesvalles, o senhor desenvolveu um raciocínio de quem não estava apenas dando uma opinião. Já temos três homicídios, e a sua conclusão de que o assassino deu o golpe na perna traseira do burrico foi comprovada. Chegou mesmo a adivinhar que era a perna direita. Não estava orgulhoso com os elogios. Um novo perigo, ainda desconhecido, parecia estar surgindo diante dele. Talvez fosse mais prudente cooperar com o Chefe de Investigação do Distrito de Pamplona. Era previsível que ele queria que o burrico caísse no precipício. O animal era muito pesado para um homem sozinho erguê-lo ou mesmo arrastá-lo. Com certeza levantou os corpos do homem e da menina e os jogou no precipício, mas não podia fazer isso com o burrico. Por outro lado, não podia deixar o burrico ali, com a perna cortada porque era arriscado, então ele preparou as coisas de modo que o burrico se arrastasse barranco abaixo. O calor era abrandado por uma brisa fresca que descia o morro e corria pelos prados cultivados.
Ia saindo de Saint-Jean-Pied-de-Port quando ouvi alguém dizer: brasileno, no? Sei que o Caminho é cheio de brasileiros, mas de qualquer forma registei o facto. Depois, uma mulher subiu o morro, no mesmo ritmo que eu, e estava quase morta de cansaço quando paramos. Parecia que estava seguindo ou fugindo de alguma coisa. Adquiri o hábito de observar detalhes. Ele reconheceu a bandeira brasileira no seu gorro, imagino.
A questão é que a bandeira estava do lado oposto, e é um emblema pequeno, difícil de ser identificado na distância em que o espanhol estava, como pode ver. E tirou o gorro da cabeça, passando-o para o detective. Tem razão. Então, em sua opinião, ele já o estava esperando. Mas, porquê? Não sei se era por mim que esperava ou por outra pessoa, mas estava prevenido. Seria interessante saber o que esse padre fez naquele dia. Se, por exemplo, ele teve de visitar algum doente ou executar alguma tarefa que o fez sair da cidade e percorrer uma parte do Caminho. Não pode ter ido a lugar distante. Acredito que ele possa ter visto ou ouvido alguma coisa e o assassino o seguiu para saber quem era aquele intruso. Por acaso está sugerindo que o padre não se afastara muito de Roncesvalles porque, se o tivesse feito teria sido morto fora da cidade? É um raciocínio interessante.
Não era conveniente falar, por enquanto, sobre as suas descobertas com o ferreiro em Zubiri. Estava se intrometendo numa investigação policial em território estrangeiro e já cometera o erro de sugerir que o espanhol estava esperando por ele. Por outro lado, já estava sendo vigiado, como indicava o aparecimento desse detective, e era melhor mostrar cooperação». In AJ Barros, O Enigma de Compostela, Luz da Serra, Geração Editorial, 2009, ISBN 978-856-150-127-3.

Cortesia de GEditorial/JDACT

domingo, 28 de junho de 2020

Os Sete. André Vianco. «Os três estavam começando a curtir a adolescência, e Porto Alegre parecia bem mais interessante do que a pacata cidade litoral. Fazer o quê!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Nobres homens de bem, jamais ouseis profanar este túmulo maldito. Aqui estão sepultados demónios viciados no mal e aqui devem permanecer eternamente. Que o Santo Deus e o Santo Papa vos protejam. Uma caravela portuguesa naufragada com mais de 500 anos é descoberta no litoral brasileiro. Dentro dela, uma estranha caixa de prata lacrada esconde um segredo. Apesar do aviso grafado, com a recomendação de não abri-la, a equipa de mergulhadores que a descobriu decide seguir em frente, e encontra sete cadáveres. Esses corpos misteriosos e cadavéricos são levados para estudos e tudo parece estar sob controle até ao despertar do primeiro deles. Em Os Sete, André Vianco actualiza o mito dos Vampiros, apresentando ao leitor seres poderosos, cada um com uma característica única, mas todos com natureza monstruosa e sanguinária. O resultado é um livro envolvente, repleto de acção e reviravoltas, que em pouco tempo ocupou seu merecido lugar entre os mais importantes livros de terror e fantasia brasileiros». In Sinopse

«Quando eles encontraram aquele navio naufragado, decidiram manter segredo. Outros mergulhadores do vilarejo conheciam o navio, mas o julgavam um amontoado de madeira inútil e podre, sem lhe dar o devido valor. Pensavam que aquela velha caravela não passasse de um reles pesqueiro antigo. Entretanto, Tiago desconfiara do formato daquele amontoado de madeiras. Seu olhar perscrutador, somado a uma intuição inquietante, empurrava-o para um exame mais minucioso. Nos mergulhos seguintes, com a ajuda dos seus companheiros, conseguiu chegar à primeira certeza: aquela embarcação não era um pesqueiro naufragado, pelo menos não um deste século. O mistério alegrou o grupo. Se as expectativas se confirmassem, poderiam se deparar com um tesouro perdido, trancado dentro da velha nave. Precisamos fotografar aquele barco, disse Tiago, tirando os óculos de mergulho. Conhece o Peta? Aquele do bar. Sei. Ele tem câmera fotográfica, câmera de vídeo, tudo para reportagens submarinas. Ele trabalha com isso. Será que ele cobra caro para nos alugar esse equipamento, César? Sei lá. O sujeito é chato, vai querer vir junto. Não, não pode. Se mais gente ficar sabendo... logo vai se armar uma correria em cima do barco velho. César ajudou Tiago a retirar o cilindro das costas, depois foi sua vez de livrar-se do equipamento de mergulho.
Não sei como nunca ninguém se interessou em investigar melhor esse navio. Eu acho que deve ter uma porção de coisas valiosas lá dentro. Tiago deu partida no motor da lancha. César tinha razão. Por outro lado, aquela parte da costa era pouco movimentada. Não tinha nenhum atractivo turístico. E eles só mergulhavam por ali porque era o único lugar que tinham para ir. Raramente sobrava dinheiro para longas excursões. O máximo que podiam fazer era ficar ciscando as pedras das suas próprias praias.
Desde cedo Tiago e César se engraçaram com a prática do mergulho. César nascera ali, em Amarração. Já Tiago chegara à cidade com 12 anos. Seu pai fora destacado para Amarração e teve de trazer toda a família. A mãe, que sempre morara na capital, Porto Alegre, achou a ideia bastante agradável. Já os filhos, nem tanto. Os três estavam começando a curtir a adolescência, e Porto Alegre parecia bem mais interessante do que a pacata cidade litoral. Fazer o quê!
Logo os três se adaptaram. Tiago era o mais novo. Apesar de Tadeu ser seu irmão gémeo, Tiago fora o último a nascer. Sabrina era três anos mais velha. Havia dois anos a irmã estava casada e fazia cinco morava noutro Estado. De vez em quando se falavam por telefone, mas raramente se visitavam. Da família restavam apenas eles dois. O pai fora o delegado titular de Amarração até morrer por complicações coronárias quando Tiago tinha 16 anos. O irmão gémeo morreu dois anos depois, afogado naquela praia. A partir daí a família desmantelou-se.
A mãe morreu de desgosto, definhando mês a mês. Desde a morte de Tadeu, a felicidade sumira-lhe do rosto. Nunca mais voltara a ser a mesma. Tiago também se abalara na ocasião da morte do irmão, mas vendo o estado de sua mãe ficara bastante assustado. Lutava contra a saudade e o desespero, tentando manter a família ainda viva. A irmã fora para São Paulo quando ele tinha 20 anos, ficando sozinho em Amarração. Os tios pagaram a faculdade de Sabrina, deixando-a viver nas suas casas até se casar aos 23, indo morar em Osasco, cidade vizinha a São Paulo. Tiago visitou-a duas vezes, no Natal de 96 e depois em 98, quando seus sobrinhos gémeos nasceram. E aquela fora a última vez em que estiveram frente a frente. Os tios tentaram convencê-lo a migrar para São Paulo também, porém ele não queria deixar seu passado para trás. Sua terra era ali. Não via extraordinárias chances de enriquecimento à frente e também já tinha quase tudo de que precisava. O que tentava a todo custo era lutar contra o tédio que abatia Amarração, tornando-a, invariavelmente, uma cidade apática. Se Tadeu ainda estivesse vivo, certamente estariam se divertindo a valer. Se Tadeu estivesse vivo, os dois estariam completando 25 anos na semana seguinte.
A lancha já havia coberto os dois quilómetros que os separavam da costa. César apagou o motor, deixando a embarcação aproximar-se deslizante, sem barulho. Recolheu a hélice, erguendo o motor. O mar estava bastante calmo, sem muitas ondas. Aproximaram-se da praia com bastante tranquilidade. Pularam da lancha e a arrastaram para a areia. Agarraram as cordas e, com muito esforço, arrastaram-na para longe da água». In André Vianco, Os Sete, 1999, Editora Aleph, 2016, ISBN 978-857-657-339-5.

Cortesia de EAleph/JDACT

Os Sete Pilares da Sabedoria. T.E. Lawrence. «O homem que se entrega à posse de estranhos leva uma vida brutalizada, porque vende a alma a um bruto…»

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«(…) Eu fui enviado a estes árabes como estranho, incapaz de pensar os seus pensamentos, ou de aderir às suas crenças, mas encarregado, pelo dever, de os conduzir à frente, e de desenvolver ao máximo qualquer movimento seu, proveitoso para a Inglaterra, na guerra que se estava travando. Embora eu não pudesse assumir o perfil moral daqueles povos, devia, pelo menos, ocultar o meu, e passar no meio deles sem provocar atritos, nem discórdia, nem crítica, e sim exercendo, tão-somente, despercebida influência. Embora tenha sido companheiro deles, não desejo ser seu apologista, nem defensor. Hoje, envergando as minhas roupas antigas, eu poderia desempenhar o papel de espectador, obediente às sensibilidades do nosso teatro..., mas é mais honesto assinalar que estas ideias e estas acções, então, transcorreram naturalmente. O que agora parece dissoluto ou sádico, parecia, ali, inevitável, ou mera rotina sem importância. Havia sempre sangue em nossas mãos: tínhamos permissão para isto. Ferir e matar pareciam sofrimentos efémeros, tão breve e desaventurada se nos mostrava a vida. Com a tristeza de uma vida tão grandiosa, a tristeza da punição tinha de ser impiedosa.
Vivíamos para o dia, e morríamos por ele. Quando havia razão e desejo de punir, escrevíamos a nossa lição com a carabina, ou vergastávamos imediatamente a carne imunda do sofredor; e o caso pairava acima de qualquer direito a apelo. O deserto não proporcionava as penalidades requintadamente lentas dos tribunais e das masmorras. Como era natural, as nossas recompensas e os nossos prazeres se dissipavam tão rapidamente como os nossos aborrecimentos; mas, para mim, em particular, aqueles se faziam sentir em número muito menor do que estes. O modo de vida dos beduínos era rude, mesmo para os afeitos a ele, sendo, para os estranhos, simplesmente horrível: assemelhava-se à morte em plena vida. Quando se terminava a marcha, ou a operação, eu não tinha mais energia para registar as sensações; nem, durante as mesmas, me sobrava tempo para apreciar o enternecimento espiritual que, por vezes, se apoderava de nós. Nas minhas notas, o cruel, ao invés do belo, encontrava lugar. Gostávamos mais, sem dúvida, dos raros momentos de paz e de esquecimento; mas eu me recordo mais das agonias, dos terrores e dos erros. A nossa vida não se acha condensada no que escrevi (há coisas que não devem ser repetidas a sangue-frio, por muito vergonhosas); mas o que escrevi fez parte da nossa vida. Peço a Deus que os homens, lendo a narrativa, não aspirem, por amor ao brilho das coisas estranhas, a prostituírem-se, a si e aos seus talentos, servindo a outra raça.
O homem que se entrega à posse de estranhos leva uma vida brutalizada, porque vende a alma a um bruto. Ele próprio não pertence aos estranhos. Pode, portanto, permanecer contra eles, persuadindo-se do cumprimento de sua missão, comprando-os e forçando-os a ser alguma coisa que eles, por vontade e acordo próprios, jamais conseguiriam ser. Depois, esse homem se utiliza das forças do seu ambiente natural, fazendo pressão para que os estranhos abandonem o próprio. Ou, de conformidade com o que aconteceu comigo, imita-os tão bem, que eles, espuriamente, passam a imitá-lo por sua vez. A esta altura, tal homem renuncia ao seu ambiente, e pretende integrar-se no deles; e as pretensões são ocas, sem valor. Em nenhum dos casos ele realiza coisas particularmente suas, nem coisa suficientemente limpa para ser sua (sem ideia de conversão), permitindo que os estranhos manifestem a acção ou a reacção que lhes apraz, em face do silencioso exemplo.
No meu caso, o esforço daqueles anos, para viver em trajes árabes, e para imitar a sua feição mental, roubou-me ao meu eu inglês, levando-me a considerar o Ocidente e as suas convenções com novos olhos: e estes destruíram tudo para mim. Ao mesmo tempo, eu não podia vestir, sinceramente, a pele árabe: tratava-se apenas de uma simulação. Com facilidade se torna infiel um homem, mas dificilmente pode ele ser convertido a outra fé. Desvencilhei-me de uma forma, sem adoptar a outra, tornando-se qual ataúde de Mohammed, na nossa lenda, com o resultante sentimento de intensa solidão na vida, e de estranheza, não relativamente aos outros homens, mas a tudo o que eles fazem. Tais alheamentos se verificam, por vezes, no ser exausto em virtude de prolongado esforço físico e de contínuo isolamento. O corpo vagabundeia mecanicamente, enquanto a mente lúcida o abandona e, situando-se do lado de fora, põe-se a olhar para dentro dele mesmo, com espírito crítico, desejando saber o que o fútil traste fez e por quê. Às vezes, estes eus conversam no vácuo; e então, a loucura se encontra muito perto, como creio que deve ter estado junto do homem que pôde ver as coisas, a um só tempo, através dos véus de dois costumes, de duas educações e de dois ambientes». In T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, 1922, 1926, Publicações Europa-América, 2004, ISBN 978-972-100-483-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

O Vale das Bonecas. Jacqueline Susann. «Refugiara-se, então, cada vez mais, nos livros e mesmo ali encontrava uma norma que se repetia: parecia que, virtualmente, todos os escritores que admirava…»

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«(…) Anne riu, e ela continuou: está bem, vai ver. Espere até se ver envolvida com alguns dos Romeus desta cidade. Aposto que volta para Lawrenceville pelo primeiro comboio. E não se esqueça de me apanhar no caminho e de me levar junto. Ela jamais voltaria a Lawrenceville. Não tinha apenas deixado Lawrenceville. Tinha fugido de lá. Fugido de um possível casamento com algum sólido rapaz de Lawrenceville e da sólida e monótona vida de Lawrenceville. Da mesma monotonia em que sua mãe vivia. E a mãe de sua mãe. Da mesmíssima casa em que viveram gerações e gerações de uma boa família da Nova Inglaterra, todas elas sufocadas por emoções disfarçadas sob uma armadura de aço chamada boas maneiras. (Anne, uma senhora nunca ri alto. Anne, uma senhora nunca chora em publico. Mas não estou em público, mãe. Estou chorando aqui, na cozinha. Uma senhora só chora quando esta sozinha. Já não é uma criança, Anne, e sua tia Amy está presente. Agora, vá para o seu quarto).
De alguma forma, Lawrenceville a perseguira até Radcliffe. Lá havia garotas que riam, que choravam, que faziam mexericos, que viviam, enfim, os altos e baixos da vida. Ela nunca fora, porém, convidada a fazer parte daquele mundo. Era como se estivesse usando um emblema que dizia Conserve-se a distância. Tipo frio e reservado da Nova Inglaterra.
Refugiara-se, então, cada vez mais, nos livros e mesmo ali encontrava uma norma que se repetia: parecia que, virtualmente, todos os escritores que admirava haviam deixado as suas cidades natais. Hemingway alternava a Europa com Cuba e Bimini. O pobre e confuso, mas talentoso, Fitzgerald também vivera no estrangeiro. Até o ruivo, com cara de estúpido, Sinclair Lewis, encontrara romance e excitamento na Europa. Fugiria de Lawrenceville. Simplesmente. Anne decidiu-se a isso no seu último ano no colégio e informou a mãe e a tia Amy durante as férias de Páscoa. Mãe, tia Amy…, quando eu sair da escola vou para Nova York. Péssimo lugar para as férias. Pretendo viver lá. Já discutiu isso com Willie Henderson? Não. Porque é que deveria discutir? Bem, têm andado juntos desde que tinha dezasseis anos. Naturalmente, toda a gente imagina… Exactamente. Em Lawrenceville tudo é imaginação suposto. Anne, está levantando a voz, disse-lhe a mais calmamente. Willie Henderson é um óptimo rapaz. E fui colega de escola de seus pais. Mas eu não o amo, mãe.
Nenhum homem pode ser amado, replicou tia Amy. Você não amou o pai, mãe? Não era uma pergunta, era quase uma acusação. É claro que o amei. Sua voz tornou-se áspera. O que sua tia quer dizer é que…, bem, os homens são diferentes. Eles não pensam e não reagem como as mulheres. Veja o exemplo do seu pai. Um homem extremamente difícil de compreender. Era impulsivo e apreciava uma bebida. Se ele se tivesse casado com qualquer outra pessoa, que não eu, teria certamente tido um mau fim». In Jacqueline Susann, O Vale das Bonecas, 1967, Edições Contraponto, 2010, ISBN 978-989-666-078-9.

Cortesia de EContraponto/JDACT

A Demanda do Santo Graal. Manuscrito do Século XIII. «Quando o rei chegou à ribeira e viu a pedra e a espada que nela estava metida, pelo encantamento de Merlim, assim como o conto já referiu, e uma bainha que estava perto dela no meio do ar»

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Na Corte do rei Artur
«(…) Como o escudeiro disse ao rei as novas da pedra. E eles disto falando, eis que vem um escudeiro que disse ao rei: Senhor, eu vos trago as mais maravilhosas novas de que ouvistes falar. - E que novas são?, disse o rei, dizei-no-las. Neste vosso paço, aportou agora uma pedra de mármore, na qual está metida uma espada, e sobre esta pedra, no ar, está uma bainha. E eu vos digo que vi a pedra nadar sobre a água, como se fosse madeira. E o rei, que o teve por chufa, disse-lhe se podia ver esta pedra. Então disse o escudeiro: já estão lá muitos cavaleiros da vossa companhia para ver aquela maravilha. E o rei, assim que isto ouviu, foi logo para lá com a sua companhia de homens bons. E Lancelote, apenas soube o que era, logo foi para lá atrás deles; e Heitor e Persival, que já haviam visto, queriam ver, entre tão grande companhia como lá estava reunida, se haveria alguém que desse cabo agora daquela aventura. Quando o rei chegou à ribeira e viu a pedra e a espada que nela estava metida, pelo encantamento de Merlim, assim como o conto já referiu, e uma bainha que estava perto dela no meio do ar, e o letreiro que Merlim fizera, ficou todo espantado.
E, amigos, disse ele, novas vos direi. Ora, sabei que por esta espada será conhecido o melhor cavaleiro do mundo, porque esta é a prova pela qual se há de saber; e nenhum, se não for o melhor cavaleiro do mundo, poderá sacar a espada desta pedra.

Como o rei disse a Lancelote que tirasse a espada da pedra e Lancelote não quis. Quando os cavaleiros ouviram isto, afastaram-se quase todos os que queriam tentar sacá-la. E o rei disse a Lancelote: dom Lancelote, tirai esta espada, porque ela é vossa, por testemunho de quantos aqui estão que vos têm pelo melhor cavaleiro do mundo. E quando isto ouviu, ficou muito envergonhado e respondeu: Senhor, estes me têm pelo melhor cavaleiro do mundo; certamente, não sou eu que esta espada devo ter, porque muito melhor cavaleiro do que eu a terá e pesa-me que não sou tão bom como vós o cuidais. Disto que Lancelote disse, tiveram muitos pesar, .e mais os da linhagem de rei Bam, que o tinham pelo melhor cavaleiro do mundo. O rei, que percebeu que havia algum pesar, disse: provar vos convém. Porque assim não sois pois culpado se, porventura, fracassardes. Senhor, disse ele, apesar de vossa graça, não me chegarei aí, porque, assim Deus me valha, não valho eu tanto que deva pôr a mão em arma de tal homem como aquele será que esta espada há-de trazer.

Como Galvão provou a espada por ordem do rei. Então disse o rei a Galvão: sobrinho, pois Lancelote receou a espada, provai-a vós e veremos o que acontecerá. Eu, senhor, disse ele, prova-la-ei para cumprir vossa ordem, mas sei que nada é que eu possa conseguir, porque bem sabeis vós e quantos aqui estão que, quando dom Lancelote deixa alguma coisa por míngua de cavalaria, eu nada nisto conseguirei, pois ele é muito melhor cavaleiro do que eu. E ainda assim, disse o rei, prova-la-eis, porque assim me aprazo. Então aproximou-se Galvão e pegou a espada pelo punho e puxou-a o mais que pôde, mas nunca tanto que a pudesse sacar da pedra, e deixou-a então e disse ao rei: Senhor, agora podeis buscar quem a prove, porque eu não porei mais a mão, pois bem vejo que Deus não ma quer outorgar. Dom Galvão, disse Lancelote, o rei fez seu prazer, pois que vo-la mandou provar, mas nesta aventura não deveis entrar, porque não pode demorar muito que não hajais mal por isso, pois recebereis o maior golpe ou ferimento pelo qual tereis pavor da morte ou morrereis. Amigo, disse ele, não pude mais, porque se aqui cuidasse morrer, não deixaria de cumprir a ordem do rei. Pois feito está, disse o rei, não é culpa, apenas míngua. E então perguntou a todos os outros: amigos, há aqui alguém que queira provar esta espada? E calaram-se todos. E quando o rei viu que não faziam mais questão, disse: agora vamos almoçar, porque já é hora, e Deus nos dê quem a esta aventura dê cabo, pois certamente muito me agradaria que chegasse logo». In Manuscrito do Século XII, Heitor Magale, A Demanda do Santo Graal, TA Queiroz, Editora da Universidade de S. Paulo, 1988, CDD 398 46, 1989, ISBN 858-500-874-1.

Cortesia de EUSPaulo/JDACT

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «A única coisa em que pôde pensar foi tentar reduzir a velocidade do cavalo. Passou para a trilha e começou a caminhar na direcção do animal desembestado, com os braços abertos»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O que explica por que não sabe os factos da vida. Mas não vejo porque razão o pai não possa obrigá-la. Parece que ele prometeu uma vez que nunca a obrigaria a desposar alguém que odiasse, disse o escudeiro. Uma promessa tola!, exclamou Tom, furioso. Como um homem poderoso poderia se prender ao capricho de uma garota daquele modo? O casamento dela poderia afectar alianças militares, as finanças baroniais..., e até mesmo a construção desta casa. Ela tem um irmão, comentou o escudeiro, de modo que não é tão importante com quem se case. Mesmo assim... E o conde é um homem inflexível, prosseguiu o escudeiro. Não deixará de cumprir uma promessa, mesmo que tenha sido feita a uma criança. Ele deu de ombros. Pelo menos é o que dizem. Tom olhou para as paredes de pedra, ainda baixas, da casa em construção. Até agora não economizara dinheiro bastante para manter a família no Inverno, pensou com um calafrio. Talvez o rapaz encontre outra moça para compartilhar esta casa com ele. Tem todo o condado para escolher. Por Cristo, acho que é ele, disse Alfred, na sua voz dissonante de adolescente.
Seguindo o olhar do rapaz, todos se voltaram para o campo. Um cavalo vinha da aldeia a galope, levantando uma nuvem de pó e terra. O assombro de Alfred era justificado tanto pelo tamanho quanto pela velocidade do cavalo. Tom já vira animais assim, mas o garoto possivelmente não. Era um cavalo de batalha, com o lombo tão alto quanto o queixo de um homem e a largura proporcional. Aqueles cavalos de batalha não eram criados na Inglaterra; vinham do além-mar e eram extremamente caros. O construtor deixou cair o resto do pão no bolso do avental, semicerrou os olhos para se proteger do sol e se virou para o campo. O cavalo estava com as orelhas viradas para trás e as narinas dilatadas, mas pareceu a Tom que sua cabeça estava bem erguida, sinal de que o cavaleiro não perdera totalmente o controle. Na verdade, quando se aproximou mais, o cavaleiro inclinou o tronco para trás e puxou as rédeas, e o grande animal pareceu reduzir um pouco a velocidade. Tom podia sentir agora o martelar dos cascos no solo, sob seus pés. Virou-se para Martha, pensando em pegá-la e pô-la a salvo. A mãe teve a mesma ideia. A menina, porém não estava à vista em parte alguma. No trigal, disse Agnes, mas Tom já pensara nisso e estava atravessando o terreno da casa em largas passadas. Esquadrinhou o trigo ondulante com medo no coração, mas não conseguiu ver a criança.
A única coisa em que pôde pensar foi tentar reduzir a velocidade do cavalo. Passou para a trilha e começou a caminhar na direcção do animal desembestado, com os braços abertos. O cavalo o viu, ergueu a cabeça para olhar melhor, e reduziu sensivelmente o ritmo do galope. Então, para horror de Tom, o cavaleiro o esporeou. Seu maldito tolo!, berrou Tom, embora o cavaleiro não pudesse ouvi-lo. Foi quando Martha saiu do meio do trigal e apareceu na trilha, a alguns metros de Tom. Por um momento ele ficou imóvel, em pânico. Depois se atirou para a frente, gritando e sacudindo os braços, mas aquele era um cavalo de batalha, treinado para acometer hordas ululantes, e nem vacilou. Martha ficou no meio da trilha estreita, olhando espantada, imóvel, para o animal imenso que se lançava sobre ela. Houve um momento em que Tom percebeu, com desespero, que não poderia alcançá-la antes do cavalo. Ele se desviou para um lado, o braço tocando no trigo alto; no último instante o cavalo desviou-se para o outro lado. Um dos estribos chegou a roçar o cabelo fino de Martha; um casco deixou um buraco redondo no chão, junto do seu pezinho descalço; aí ele seguiu, atirando terra em ambos, e Tom pegou-a e apertou-a contra o peito palpitante.
Ficou imóvel por um momento, esmagado pelo alívio imenso, os membros fracos, interiormente arrasado. Aí então sentiu uma onda de ódio contra a irresponsabilidade daquele jovem estúpido no seu enorme cavalo de batalha. Ergueu os olhos, furioso. Lorde William estava parando o animal agora, sentado na sela com o tronco para trás, as pernas esticadas para a frente, puxando as rédeas. O cavalo desviou-se do local da obra. Sacudiu a cabeça e empinou, mas William permaneceu montado. E reduziu a velocidade para meio galope e depois trote, enquanto o conduzia numa volta larga. Martha estava chorando. Tom entregou-a a Agnes e esperou por William. O jovem lorde era um sujeito alto e vigoroso, de cerca de vinte anos; tinha cabelo louro e olhos acanhados que faziam com que parecesse estar sempre fitando o sol. Usava uma túnica preta escura, calções justos também pretos e sapatos de couro com tiras entrecruzadas até os joelhos. Estava bem sentado na sela e não parecia nem um pouco perturbado com o que acontecera. O garoto bobo nem mesmo sabe o que fez, pensou Tom amargamente. Eu gostaria de torcer-lhe o pescoço. William parou o cavalo em frente à pilha de madeira e olhou para os operários. Quem é o encarregado aqui?, perguntou». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

Memorial do Convento. José Saramago. «Outra contrariedade esperada é o auto-de-fé, não para a Igreja, que dele aproveita em reforço piedoso e outras utilidades, nem para el-rei que, tendo saído no auto senhores…»

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«(…) Que é isso, perguntou Blimunda, É o onde se suspendem as estrelas, E como se há-de ele trazer para cá, perguntou Baltasar, Pelas artes da alquimia, em que não sou hábil, mas sobre isto não dirão nunca uma palavra, suceda o que suceder, Então como faremos, Partirei leve para a Holanda, que é terra de muitos sábios, e lá aprenderei a arte de fazer descer o éter do espaço, de modo a introduzi-lo nas esferas, porque sem ele nunca a máquina voará, Que virtude é essa do éter, perguntou Blimunda, É ser parte da virtude geral que atrai os seres e os corpos, e até as coisas inanimadas, se os libertam do peso da terra, para o sol, Diga isso por palavras que eu perceba, padre, Para que a máquina se levante ao ar, é preciso que o sol atraia o âmbar que há-de estar preso nos arames do tecto, o qual, por sua vez, atrairá o éter que teremos introduzido dentro das esferas, o qual, por sua vez, atrairá os ímanes que estarão por baixo, os quais, por sua vez, atrairão as lamelas de ferro de que se compõe o cavername da barca, e então subiremos ao ar, com o vento, ou com o sopro dos foles, se o vento faltar, mas torno a dizer, faltando o éter, falta-nos tudo. E Blimunda disse, Se o sol atrai o âmbar, e o âmbar atrai o éter, e o éter atrai o íman, e o íman atrai o ferro, a máquina irá sendo puxada para o sol, sem parar. Fez uma pausa e perguntou como se falasse consigo própria, Que será o sol por dentro. Disse o padre, Não iremos ter ao sol, para o evitar lá estarão as velas de cima, que podemos abrir e fechar à vontade, de sorte que pararemos na altura que quisermos. Fez uma pausa também, e rematou, Quanto a saber como será o sol por dentro, levante-se da terra a máquina e o resto virá por acréscimo, querendo nós e não o contrariando insuportavelmente Deus.
É contudo um tempo de contrariedades. Agora sairão as freiras de Santa Mónica em extrema indignação, insubordinando-se contra as ordens de el-rei de que só pudessem falar nos conventos a seus pais, filhos, irmãos e parentes até segundo grau, com o que pretende sua majestade pôr cobro ao escândalo de que são causa os freiráticos, nobres e não nobres, que frequentam as esposas do Senhor e as deixam grávidas no tempo de uma ave-maria, que o faça João V, só lhe fica bem, mas não um joão-qualquer ou um josé-ninguém. Acudiu o provincial da Graça, querendo reduzi-las ao sossego e ao acatamento da real vontade, sob pena de excomunhão se a quebrassem, mas elas num rompante se amotinaram, trezentas mulheres catolicamente enfurecidas por assim as cortarem do mundo, primeira vez o fizeram, segunda vez tornam, agora se verá como forçam portas frágeis mãos femininas, e já saem as freiras, trazem consigo violentamente a madre prioresa, vêm com sua cruz alçada, em procissão pela rua fora, até que ao encontro lhes sai a comunidade dos frades da Graça e lhes rogam que, pelas Cinco Chagas, detenham o motim, e aí temos armado um santo colóquio entre frades e freiras, disputando cada qual suas razões, e foi ele caso que correu o corregedor do crime a el-rei, se havia ou não de suspender-se a ordem, e entre ir, chegar e debater o sucesso se passou a manhã, que, para começar-lhes o dia cedo, de madrugada se tinham levantado as protestativas, e enquanto o corregedor não volta, corregedor vai, corregedor vem, ficaram por ali as freiras, sentadinhas no chão natural as mais vetustas, alertas e vivíssimas as da última safra, a apanhar o bom solzinho da estação que faz subir os corações, olhando quem ia de passagem e por curiosidade parava, que pratos destes não os temos todos os dias, e conversando com quem bem apetecia, em modo de ali se terem fortalecido laços com proibidos visitantes que sabendo acorreram, e em acordos, requebros, horas combinadas, palavras de passe, sinais de dedos ou lencinho foi correndo o tempo até ao meio-dia, e porque enfim estava o corpo querendo alimento, ali mesmo comeram dos doces que traziam nos alforges, quem vai à guerra empadas leva, e ao cabo desta manifestação chegou contra-ordem do paço, que tudo voltava à moralidade primeira, posto o que recolheram vitoriosas as freiras a Santa Mónica entoando jubilosos cantos, ainda por cima consoladas com a absolvição do provincial que a mandou por portador, não em pessoa, porque bem podia apanhá-lo uma bala perdida, que isto de freiras amotinadas é a pior das batalhas. Metem, quantas vezes forçadamente, estas mulheres em reclusão conventual, aí ficas, por esta forma aliviando partições de heranças, favorecendo o morgadio e outros irmãos varões, e, estando assim presas, até o simples apertar de dedos à grade querem recusar-lhes, o clandestino encontro, o suave contacto, a doce carícia, mesmo trazendo ela tantas vezes consigo o inferno, abençoado seja. Porque, enfim, se o sol atrai o âmbar e o mundo a carne, alguém haverá de ganhar alguma coisa com isso, nem que seja para aproveitar os restos daqueles que nasceram para cobrar tudo.
Outra contrariedade esperada é o auto-de-fé, não para a Igreja, que dele aproveita em reforço piedoso e outras utilidades, nem para el-rei que, tendo saído no auto senhores. de engenho brasileiros, aproveita da fazenda deles, mas para quem leva seus açoites, ou vai degredado, ou é queimado na fogueira, vá lá que desta vez saiu relaxada em carne só uma mulher, não será muito o trabalho de lhe pintar o retrato na igreja de S. Domingos, ao lado de outros chamuscados, assados, dispersos e varridos, que parece impossível como não serve de escarmento a uns o suplício de tantos, porventura gostarão os homens de sofrer ou estimam mais a convicção do espírito do que a preservação do corpo, Deus não sabia no que se metia quando criou Adão e Eva. Que se há-de dizer, por exemplo, desta freira professa, que era afinal judia, e foi condenada a cárcere e hábito perpétuo, e também esta preta de Angola, caso novo, que veio do Rio de Janeiro com culpas de judaísmo, e este mercador do Algarve que afirmava que cada um se salva na lei que segue, porque todas são iguais, e tanto vale Cristo como Mafoma, o Evangelho como a Cabala, o doce como o amargo, o pecado como a virtude, e este mulato da Caparica que se chama Manuel Mateus, mas não é parente de Sete-Sóis, e tem por alcunha Saramago, sabe-se lá que descendência a sua será, e que saiu penitenciado por culpas de insigne feiticeiro, com mais três moças que diziam pela mesma cartilha, que se dirá de todos estes e de mais cento e trinta que no auto saíram, muitos irão fazer companhia à mãe de Blimunda, quem sabe se ainda está viva». In José Saramago, Memorial do Convento, Editorial Caminho, O Campo da Palavra, 27ª Edição, 1998, ISBN 972-21-0026-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

sábado, 27 de junho de 2020

O Enigma de Compostela. AJ Barros. «Tão difícil como vencer a subida do Monte dei Perdon era descer os fortes declives escorregadios e pedregosos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Há 403 anos...?! A mesma cerimónia todos os dias?!... Sim. Antes, nós dávamos a volta na catedral, do lado de fora, mas a cidade cresceu e hoje rezamos o Terço aqui dentro. Era um privilégio usufruir da beleza daquele templo e participar de cerimónias centenárias como a que assistira, mas iam fechar a igreja e ele teve de sair. O anoitecer estava chegando e estava cansado. Saiu com a sensação de que 403 anos iriam aumentar o peso da sua mochila. Caminhou até à rua do encierro. Todos os anos, durante as festas de São Firmino, no período de 6 a 24 de Julho, a rua do encierro é palco da famosa corrida de Pamplona, quando pessoas arriscam a vida correndo um trajecto de 800 metros na frente de touros enfurecidos.
Não sabia porque a procissão na catedral não saía da sua cabeça, quando passou em frente de uma livraria. Hesitou uns minutos e entrou. Os livros estavam dispostos por assunto e depois de várias perguntas ao vendedor, comprou um opúsculo sobre as heresias da Idade Média.

No dia seguinte, levantou-se bem cedo porque, embora até Puente la Reina fosse apenas 23,5 quilómetros, era um trecho difícil. Tão difícil como vencer a subida do Monte dei Perdon era descer os fortes declives escorregadios e pedregosos.
Uma das lendas mais bonitas do Caminho teve origem na subida do Perdon. Naquela época, os povoados eram muito distantes uns dos outros, e um peregrino se viu sem água na subida do morro. Já não aguentava mais seguir em frente e se sentia desfalecer sob o sol inclemente. Rezava para que Deus o ajudasse a chegar a uma fonte ou que alguém aparecesse com um pouco de água. Estava esgotado, sem forças, quando o Diabo apareceu diante dele e prometeu que, se renegasse à sua fé e desistisse da peregrinação, uma fonte de água cristalina e fresca ia jorrar daquele lugar. A tentação era grande e o peregrino já quase não aguentava mais o sofrimento, mas resistiu e não aceitou. O Diabo usou de todos os recursos para convencê-lo, mas o peregrino respondia que preferia morrer de sede a renegar a sua fé.
O Diabo ficou furioso e desapareceu no meio de uma explosão, soltando um forte cheiro de enxofre. Depois que o Diabo se foi, o peregrino agradeceu a Deus por ter resistido à tentação. Nesse instante, outro peregrino se aproximou e lhe mostrou a fonte. Sedento e quase sem conseguir andar, arrastou-se até ao lugar e viu a água fresca jorrando de uma pedra. Depois de matar a sede, agradeceu o bondoso peregrino, que sorriu para ele e seguiu o Caminho.
Dias depois, chegou a Compostela. Entrou na igreja para assistir à Missa dos Peregrinos e quando olhou para a imagem de São Tiago reconheceu o peregrino que lhe mostrara a fonte de água. Fora o próprio santo que lhe aparecera, porque não renegara a sua fé e não desistira da peregrinação. A fonte passou a ser conhecida como Fuente del Reniego, Fonte da Renegação.
Maurício também estava cansado e com sede, mas tinha água suficiente. Sabia que a Fuente del Reniego havia secado e o Caminho tinha às vezes longas distâncias, por isso tomava precauções para evitar a fome e a sede em trechos desabitados e longos. Mas o lugar parecia mesmo amaldiçoado e o Diabo estava ali esperando por ele, como se quisesse testá-lo também.
Encostado no barranco, perto de onde antes era a fonte, um peregrino aproveitava a sombra para descansar. E o cheiro forte do enxofre que o Diabo deixara na lenda entrou pela sua alma, assim que o reconheceu. Aproximou-se. O peregrino continuou sentado, sem nada dizer, e o olhava com um sorriso inexpressivo. Maurício chegou mais perto, tirou a mochila das costas, colocou-a no chão e se sentou.
Tinha mesmo a impressão de que ia encontrá-lo pelo Caminho. Mas o senhor escolheu um lugar apropriado para a gente falar do Diabo. Entendi que havia um recado, quando me mandou verificar se o assassino havia judiado da menina. O perfil do assassino. Lembra-se da sua preocupação?
Maurício respirou fundo e respondeu com outras perguntas: O assassino não mexeu na menina? Nem tentou? Descobriram alguma pista? Não há sinais de violência sexual. Nem mesmo a calcinha dela foi tirada». In AJ Barros, O Enigma de Compostela, Luz da Serra, Geração Editorial, 2009, ISBN 978-856-150-127-3.

Cortesia de GEditorial/JDACT

O Enigma de Compostela. AJ Barros. «A vela e o estandarte foram levados até o altar e o grupo sentou-se nos bancos diante do órgão. As luzes da igreja se acenderam, trazendo uma luminosidade suave e fria»

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«(…) Havia muitos bosques e lugares ermos, onde um violador poderia satisfazer seus instintos. Mas, e se a menina fora simplesmente morta sem ter sido tocada? Seria uma informação que não poderia ser desprezada, porque o perfil do assassino não seria de um tarado, mas de alguém que tinha outros planos. Tinha certeza de que saberia isso no fim do Caminho: o começo e o fim. Entre esses dois pontos, o perigo o acompanharia.
A flecha amarela estava bem visível e ele caminhava pensativo, quando passou por um pequeno vilarejo onde viu um homem forjando ferramentas de uso rural. Um raciocínio lhe passou pela cabeça. Aquele peregrino não devia ter comprado o ferro para o cajado em Saint-Jean-Pied-de-Port. O crime contra o espanhol fora cometido em território francês, então seria mais seguro comprar a arma na Espanha, para dificultar as investigações. Precisava chegar a Larrasoana antes do anoitecer, mas a curiosidade foi mais forte.
Chegou ao barracão, onde um homem suado malhava ferros já quentes pelo fogo. Dois rapazes que pareciam seus filhos o ajudavam. Observou o estoque de produtos feitos por eles. A maioria eram vitrais, portões, estribos para arreios, argolas para laços, ferraduras e outros objectos de uso comum na região. Havia também foices, machados, facões, garfos enormes para levantar o capim e colocar no cocho. Reparou melhor na maneira como o cabo de madeira era encaixado no vão superior da foice.
O homem parou de malhar o ferro e limpou a testa suada com um lenço sujo. Maurício aproveitou e cumprimentou-o em português: Boa tarde. Buenas tardes. O senhor poderia, por acaso, me informar se seria difícil afinar o cabo de uma foice dessas e encaixá-la dentro de um bastão mais reforçado?, e fez gestos para facilitar a sua explicação em português. A surpresa foi grande. Não esperava por aquela resposta.
Si, senor. Usted es el segundo que me lo pide en una semana.
Outro peregrino, com um capuz que encobria o rosto, havia pedido para que ele reduzisse a largura de uma foice e a deixasse um pouco mais recta, sem tirar toda a curva. Ele atendeu ao pedido e fixou a ponta da foice no cajado. O peregrino explicara que tinha medo de cachorros.
Devia ser um homem muito forte para carregar um bastão desses por 800 quilómetros, o senhor não acha?
Si, si, era un hombre enorme. Joven, cuarenta anos, hablaba poco e despacio. Usted también quiere uno?
Respondeu que não, agradeceu e seguiu o Caminho ainda mais pensativo. Comprar a arma na Espanha para cometer um crime na França era coerente, porque seria fácil para o assassino sumir naquelas montanhas dos Pirenéus e chegar a algum destino previamente estudado. O que acabara de descobrir, no entanto, era que o assassino comprara a arma em Roncesvalles e fora na direcção contrária à do Caminho, com a intenção de ir à França matar o espanhol. Para Maurício, não fazia sentido ele ter voltado para matar o padre, correndo o risco de ser identificado.
O que o levara a voltar a Roncesvalles? Encontrar-se com alguém para informar sobre a morte do espanhol? Receber novas instruções? Como é que conseguira entrar tão facilmente na Colegiata? E por onde saíra? Eram muitas as indagações que teriam de ser respondidas.
Escurecia, quando Maurício atravessou a Ponte dos Bandidos, na entrada de Larrasoana, um vilarejo do século XI. Instintivamente apressou o passo e foi directo ao albergue onde a animação dos peregrinos o ajudou a encontrar outros assuntos.

Desde Larrasoana até Pamplona, o grande companheiro do peregrino é o rio Arga. A sombra dos arvoredos, suas águas cristalinas seguem a histórica trilha em direcção a Pamplona, a cidade da corrida dos touros, restaurantes e monumentos históricos, fundada 75 anos antes de Cristo, pelo pró-cônsul romano Pompeu, de onde deriva o seu nome.
O albergue ficava perto da catedral, no prédio de um antigo colégio da Irmandade das Adoradoras, que cuidava de moças desajustadas. Depois de acomodar-se, Maurício saiu para visitar a catedral, entrando por uma porta lateral à direita, que dá para o claustro, um grande pátio interno com corredores sustentados por colunas góticas de rara beleza.
Após as cerimónias religiosas na igreja, os monges saíam por essa porta e entravam no claustro por outra porta que ficava no ângulo oposto, quando então cantavam o salmo Pretiosa in conspectu Domini mors sanctorum ejus (A morte dos santos é preciosa no conceito de Deus) e por causa desse salmo a porta ficou conhecida como Preciosa. Em cima dela existe uma moldura que representa a morte e assunção de Nossa Senhora, com os anjos afugentando alguns judeus que queriam profanar o seu corpo já sem vida. Esse simbolismo mostra a divisão que havia na cidade, onde os bairros dos navarros, judeus e burgueses eram separados por muros e pelo ódio. Conflita também com a tradição católica de que Nossa Senhora não morreu, mas caiu num sono profundo (dormitio), aos 72 anos de idade, e foi levada aos céus de corpo e alma.
Depois de visitar o pequeno museu que fica onde antes eram o restaurante e a cozinha do mosteiro, Maurício entrou na igreja e se deslumbrou com sua beleza. Esculturais colunas góticas se elevando até ao alto da nave e vitrais coloridos contrastavam com o silêncio que preenchia todos os espaços. Caminhava devagar para não perder os detalhes dos quadros, das capelas laterais e dos altares com colunas barrocas, e chegou ao altar-mor, onde a imagem da padroeira, Santa Maria Real, era protegida por grades. Absorto no seu deslumbramento, não percebeu o tempo passar e quase se assustou com o som nostálgico de um órgão que substituiu o pesado silêncio da igreja. Um grupo de homens saiu de uma sala que ficava à direita da porta de entrada, em filas de dois, carregando uma vela acesa e um estandarte de Nossa Senhora.
A vela e o estandarte foram levados até o altar e o grupo sentou-se nos bancos diante do órgão. As luzes da igreja se acenderam, trazendo uma luminosidade suave e fria. Um homem de pé, em frente do altar, puxou o Ora pro nobis domine e o Terço cantado, que o grupo respondia ao som do órgão.
O rapaz com a vela e o homem do estandarte encaminharam-se para a lateral da igreja, e as pessoas que estavam nos bancos se levantaram e os acompanharam em procissão. A cena e o cântico despertavam emoções, e assim que terminou a procissão, o coro continuou a ladainha com o miserere nobis. Ao final, quando os cantores começaram a se levantar, Maurício não resistiu e perguntou para um deles sobre a cerimónia. O homem se mostrou solícito: não somos clérigos, mas leigos, e fazemos parte da Congregação do Rosário dos Escravos de Santa Maria. Há 403 anos, nós repetimos essa cerimónia da mesma maneira como o senhor viu». In AJ Barros, O Enigma de Compostela, Luz da Serra, Geração Editorial, 2009, ISBN 978-856-150-127-3.

Cortesia de GEditorial/JDACT