terça-feira, 21 de maio de 2019

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «O padre Villaescusa pareceu hesitar um momento. Depois, respondeu: não entendo a pergunta. O padre Almeida é bastante subtil. Não parece jesuíta»

jdact

«(…) Quando o padre Almeida pediu que lhe permitissem tirar a sotaina, porque fazia muito calor, mais do que com hostilidade, a maior parte dos membros do Supremo fitaram-no atentamente, já não irados, mas estupefactos, e embora quase todos pensassem que conviria examinar aquele desconhecido em matéria de ortodoxia, a maior parte deles tinha admitido, sem graves dificuldades mentais, que não seria necessário o tormento, e que um hábil interrogatório bastaria. E entre eles figuravam bastantes com reputação de hábeis interrogadores. O padre Almeida dobrou cuidadosamente a sotaina e pô-la sobre o seu assento, com o chapéu. Reverendos senhores, não vou citar os santos padres nem os textos sagrados. Apenas me permitirei recordar-vos a unanimidade de todos os moralistas e de todos os teólogos em exigirem, como condição básica do casamento, a liberdade dos cônjuges. Ora bem, seriam os nossos amados Reis livres ao casarem-se? Passeou os olhos à sua volta. Ouviam-no, mas não pareciam dispostos a responder-lhe, salvo o padre Villaescusa. Quem duvida? Foram interrogados de acordo com as formalidades do cerimonial, e ambos disseram que sim. E poderiam dizer que não? Rogo a Vossa Paternidade que medite a resposta.
O padre Villaescusa pareceu hesitar um momento. Depois, respondeu: não entendo a pergunta. O padre Almeida é bastante subtil. Não parece jesuíta. Subtil, diz Vossa Reverência? Pois eu vejo o caso bem claro: trata-se de dois príncipes imbuídos desta condição; trata-se de dois adolescentes, que foram educados na obediência a seus pais, que, além disso, são Reis. Como poderiam dizer que não? No entanto, os seus sins estavam condicionados pelo duplo carácter de príncipes e de adolescentes. Não foram afirmações livres. De entre a massa dos peritos saiu uma voz de cana rachada. Talvez o padre Almeida não se aperceba de que está a pôr em causa o mais antigo dos nossos costumes, o de que os pais concertem o casamento dos filhos, bem como o de solicitar a anuência da Igreja. O padre Almeida voltou-se para o falante, que era um frade velho de uma ordem secundária. Eu não ponho nada em causa. Eu nem sequer julgo. Limito-me a apresentar a Vossas Paternidades factos indiscutíveis, dos quais, para este caso, e só para este caso, me permito tirar ilações. O resto é da incumbência deste Santo Tribunal (maldito), não da minha.
Mesmo supondo que o padre Almeida tivesse razão, a ulterior consumação do casamento legaliza-o e santifica-o. O padre Almeida não precisou de mudar de posição, nem sequer de mexer a cabeça: o seu interlocutor encontrava-se diante dele, bem visível na sua cólera contida, mas evidente. Rogo ao reverendo padre Villaescusa que imagine por um momento que dizem a um adolescente: logo à noite tens que entrar no quarto da Rainha, e fazer isto e aquilo. E que dizem à Rainha: logo à noite, o Rei entrará no teu quarto: não lhe oponhas resistência, porque é a tua obrigação. De facto, padre: era essa a sua obrigação. Quem se atreve a duvidar? A obrigação da esposa é receber o seu esposo no leito e, como Vossa Paternidade diz, não lhe opor resistência. Admito que também fosse a obrigação do Rei; mas quem vai obrigado não vai livre. Se seguíssemos a sua doutrina, a maior parte dos casamentos seriam ilegais. Isso, reverendo padre, não sou eu que tenho que o concluir. Limito-me a mostrar a vossas reverências que os sucessivos acessos do Rei ao corpo da Rainha foram fruto do dever, não da liberdade. Esquece Vossa Mercê a obrigatoriedade do dever conjugal? Do ponto de vista do Rei ou da Rainha?, arguiu rapidamente o jesuíta. Eu entendo-o como recíproco, interveio da sua altura um dominicano do Supremo; ainda que, naturalmente, na maior parte dos casos seja uma obrigação da esposa, que nem sempre está disposta e, no entanto, deve aceder, para evitar males maiores». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «Mas naquela tarde o presidente não pôde dormitar, porque os frades menores gritavam, talvez para que o tom elevado das vozes enchesse de razão as suas ideias»

jdact

«(…) Depois de instalados na sala de reuniões, de acordo com as categorias e seguindo um critério piramidal, ainda se rezaram mais latinórios, estes sem música, e a coisa ficou como num cenário de teatro: o inquisidor-mor no topo, embora a cauda do seu hábito descesse até aos níveis inferiores e estendesse sobre as lajes o triplo triângulo do seu remate; depois vinham os juízes proprietários, o padre Pérez, o padre Gómez, o padre Fernández y Enríquez Hinestrosa, assim até seis, com hábitos brancos, hábitos pretos e hábitos combinados; uns gordos, outros magros, rechonchudos de cara ou chupados, reservados ou expansivos: tudo o que no mundo se sabia de Deus e de tudo o que lhe diz respeito estava armazenado nas cachimónias daqueles seis, que votavam as decisões, e, em caso de empate, desempatava o inquisidor-mor; o qual, além disso, tinha o privilégio de vetar os acordos colegiais e de os substituir pela sua opinião própria, caso que se verificava poucas vezes, sobretudo por causa das más-línguas. Mais abaixo sentavam-se os diferentes peritos: daquela vez, um por cada ordem, incluindo os premonstratenses e algumas ordens novas, como a Societate Iesu, a que pertencia o padre Almeida. Entravam e saíam com discrição, bufos, esbirros e demais gentalha, a que se vedou a entrada um pouco antes do juramento. A partir deste, a grande sala do conselho ficou encerrada para o exterior: ampla e sombria, iluminada por candelabros, era dominada por um Cristo entre duas luzes: pouco Cristo e muitas velas para local tão amplo, onde o que avultava era o presidente. Tão refinado, tão aborrecido, lá em cima, no seu cadeirão, quase nimbado, quase divino sob o barrete de quatro pontas agudas! Costumava ferrar uma soneca depois de receber o juramento dos presentes e fazer o resumo dos temas, ou dos factos que se iam discutir; desta vez acrescentou a notícia de que a suspeita Marfisa, que o Santo Tribunal (maldito) tinha convocado e mandado prender, não tinha sido encontrada. Certamente, alguém a preveniu, e fugiu. E muitos lamentaram-no, sobretudo o padre Villaescusa, capelão do palácio, que suava no nível dos peritos consultores.
Mas naquela tarde o presidente não pôde dormitar, porque os frades menores gritavam, talvez para que o tom elevado das vozes enchesse de razão as suas ideias. Para começar, o padre Villaescusa manifestou o seu desacordo com a exposição que se fizera dos factos, de tal modo redigida que dava a impressão de que se tinham reunido por causa de uns pecados veniais do monarca. Não é que tivessem mentido, ele não dizia isso!, mas tinham-se contado sem intercalar censuras, comentários ou condenações. Nada de pecadilhos! Um verdadeiro adultério e uma verdadeira profanação do santo sacramento do matrimónio! E foi aqui que o padre Almeida, o jesuíta transeunte e destinado ao martírio, se levantou e pediu a palavra. É para manifestar as minhas dúvidas de que se tenha cometido adultério. Vossa Paternidade nega que o Rei passou a última noite nos braços de uma prostituta?, perguntou-lhe o padre Villaescusa, admirado e ao mesmo tempo irritado, e com um tom de voz como se o padre Almeida viesse de outro planeta e se tivesse expressado numa língua desconhecida. Ou será que Vossa Mercê nega a verdade do que acaba de nos ser lido? Diz-se claramente que o Rei passou a noite nos braços dessa tal Marfisa.
Deus me livre de semelhante atrevimento! Então? Qual é a opinião do padre Almeida? Simplesmente, duvido de que Suas Majestades estejam casados, pelo menos perante o Senhor. Todos voltaram os olhos para o jesuíta português, e qualquer coisa como uma rajada de incompreensão colectiva sacudiu aqueles espíritos esclarecidos. Até que o inquisidor-mor, da sua altura indiferente, se dignou examiná-lo com curiosidade, e foi precisamente ele que perguntou: que diz o senhor, padre Almeida? O jesuíta continuava de pé, e aquela convergência de olhares reprovadores não parecia afectá-lo. À pergunta do inquisidor-mor seguiram-se várias vozes. Explique-se, explique-se. E o padre Villaescusa acrescentou: o que acaba de dizer incorre numa dupla sanção, da Igreja e do Estado, porque está a atribuir aos Reis nada menos do que um concubinato. É verdade, ainda que eles o ignorem; mas a Igreja não pode ignorá-lo. Insisto, padre Almeida, que seja mais explícito, rogou, com voz apaziguadora, o do assento eminente». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «Depois, a asfixia do incenso e do calor, de tal modo que alguém desmaiou e foi preciso levá-lo para fora e socorrê-lo com aguardente e ar fresco»

jdact

«(…) Os velhos princípios, Diego, vão perdendo vigência, os tempos mudam e as pessoas pensam de maneira diferente. Não tenho nada contra o nu em privado, sobretudo às escuras, mas levá-lo para a rua é como tirar o sal à comida. Não sei que vai ser de nós. Ao que se diz por aí, e já há algum tempo, abundam os cabr… complacentes; e que acontecerá se a coisa alastra? É o que eu te digo, Diego. Que vai ser de nós? De ti e de mim, por exemplo. No que a mim me toca, Excelência, resta-me pouco tempo de vida, e, desde que haja vinho... Bebeu o que restava no copo. O inquisidor-mor fechou os olhos e recordou os velhos tempos de Roma. A ave passou roçando os vidros da janela e escondeu-se no alto cipreste que ocupava o centro do pátio quadrangular.
Primeiro foi um Te Deum, a quatro vozes mistas, com repetida intervenção do órgão, que umas vezes ficava por baixo, como quem serve de suporte às piruetas melódicas, e, outras, as perseguia na sua complicada ascensão: laudamus, laudamus, laudamus, até chocar e se reflectir nas altas abóbadas; outras, por fim, excluía-as da corrente sonora, e era o único a subir e a encher o espaço com o resfolegar da sua abundante tubagem; uma música de muito mérito, trazida de Roma, concebida para a imensidão do Vaticano, que naquela capela de mediana dimensão ficava um pouco grande: de tal modo que às vezes vibravam as paredes e estremeciam as colunas. Depois, a asfixia do incenso e do calor, de tal modo que alguém desmaiou e foi preciso levá-lo para fora e socorrê-lo com aguardente e ar fresco: era um mercedário seco, especialista na questão De auxilus, que não tinha nada a ver com a ordem do dia, mas que não se podia deixar de fora de uma consulta geral como aquela. Quando terminou o Te Deum, formou-se no claustro a procissão; duas filas de hábitos variados e o inquisidor-mor atrás: muito teso, embora um pouco distraído, indiferente aos pajens que lhe seguravam a cauda. Cantavam o Veni Creator, segundo o cantochão, que lhes era mais acessível do que aquelas polifonias romanas, ainda que o cantassem com vozes frouxas e bastante ásperas. Não saía muito bem, mas tanto fazia. Nem todos os da procissão entraram, só os que tinham assento no Supremo, quer como membros titulares quer como teólogos convidados; ou seja, consultores, e entre estes figurava um jesuíta português, o padre Almeida, bastante novo ainda, mas de rosto queimado pelos sóis brasileiros. O padre Almeida estava de passagem por Madrid: tinham-no destinado a capelão secreto de uma casa de Inglaterra, porque o outro capelão tinha sido justiçado, o que era o mesmo que admitir que não restava muito tempo de vida ao padre Almeida; mas não parecia acabrunhado nem entristecido, nem tão-pouco entusiasmado com o seu futuro martírio: comportava-se com naturalidade, muito mais do que os seus companheiros, apesar da reputação de teólogo sábio que o seu reitor proclamava na carta de apresentação para o inquisidor-mor com que justificava a sua presença. O padre Almeida chocava um pouco entre os restantes clérigos, porque usava por cima da sotaina um colarinho à francesa, e porque, ao desabotoá-la por causa do calor, se lhe tinham visto meias pretas e calção. Mas, como estrangeiro, não lho levavam a mal». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT

A Bela Adormecida Vai à Escola. Gonzalo Ballester. «Pelo torn da voz, o Rei conheceu a magnitude da censura. Sim, Gibbs, já sei. Tu cumpres o teu dever para que eu cumpra o meu»


jdact

A casinha do bosque
«(…) Gibbs sentiu-se defraudado como todas as manhãs. Havia muitos anos que desejava que o Rei respondesse ao seu chamamento e saltasse da cama agilmente, como aqueles gentlemen que ele servira durante os anos de aprendizagem. Mas o Rei empenhava-se em não ser um gentleman, tal como se ernpenhava em não ser bastantes coisas. Diga-se em abono de Gibbs que a sua cara não traduziu o desapontamento porque, se o seu pensamento nâo era muito respeitoso para com o Rei, era-o sempre para com o seu senhor. Limitou-se a pegat nurn velho relógio despertador, a dar-lhe corda e soltá-la muito perto da orelha real. A campainha fez um estrépito horrível e Canuto saltou da cama. Que se passa, Gibbs?, perguntou com voz assustada.
Bom dia, senhor. Está uma excelente manhã. Aquelas palavras bastavam para que o Rei se situasse na realidade quotidiana. Aquilo que Gibbs acrescentava sempre a mesma coisa, contribuia para firrnar a sua situação e dar-lhe uma certa consistência. São oito horas em ponto, sire. Lamento ter-me visto na necessidade de fazer uso do despertador. Está bem, Gibbs. Que horas são? Já lhe disse, Majestade: oito em ponto. O Rei deitou uma olhadela à marrhã. O aspecto cinzento da neblina desanimou-o. Devias deixar-me dormir até às nove, Gibbs. Nas manhãs como esta não há ninguém nas ruas, e o meu passeio é muito aborrecido. Por que é que nem ao menos uma vez te esqueces de me chamar? Ficava-te muito agradecido. Gibbs atreveu-se a olhá-lo com assombro. Majestade!
Pelo torn da voz, o Rei conheceu a magnitude da censura. Sim, Gibbs, já sei. Tu cumpres o teu dever para que eu cumpra o meu. Procurou os chinelos às apalpadelas, e quando os encontrou pôs-se de pé. Gibbs, entretanto, acorrera com a bandeja. O châ, Majestade. A água quente para se lavar e barbear. Como se barbeará hoje Sua Maiestade? Com navalha ou com máquina? Canuto demorou a decidir-se, porque aquele era um dos poucos actos verdadeiramente livres que lhe eram permitidos, e todas as manhãs o gozava com dramática fruição, como se estivesse a escolher entre a vida e a morte. Com navalha, disse finalmente, com o mesmo entusiasmo com que se tivesse decidido continuar a viver. Gibbs pegou numa navalha e assentou-a na palma da mão com movimentos de grande sabedoria, enquanto o Rei, sentado numa cadeira, aproveitava a barba para continuar a sonhar. Mas a água estava fria, e o frio na pele fez-lhe dar um safanão. Que água tão fria, Gibbs! Quando terei eu uma casa de banho como deve ser? Gibbs continuou a ensaboat a real epiderme. Os reis deste país, sire, nunca tiveram casa de banho. É uma tradição e as tradições não se podem alterar. Além disso, o orçamento real não dá para instalar uma casa de banho em condições, com as suas tubagens, as suas torneiras de níquel e todas essas coisas tão brilhantes que se vêem nas lojas do ramo e que nunca se sabe para que servem, mas que são caríssimas.
Canuto suspirou». In Gonzalo Torrente Ballester, A Bela Adormecida Vai à Escola, 1983, Editorial Caminho, Uma Terra Sem Amos, Lisboa, 1996, ISBN 972-21-1052-7.

Cortesia de Caminho/JDACT

domingo, 19 de maio de 2019

Poemas Completos de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. «Que horas que te não tornem da estatura da sombra que serás quando fores na noite e ao fim da estrada»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Palidez do Dia
«(…) A palidez do dia é levemente dourada.
O sol de Inverno faz luzir como orvalho as curvas
Dos troncos de ramos Secos.
O frio leve treme.

Desterrado da pátria antiquíssima da minha
Crença, consolado só por pensar nos deuses,
Aqueço-me trémulo
A outro sol do que este.

O sol que havia sobre o Pártenon e a Acrópole
O que alumiava os passos lentos e graves

De Aristóteles falando.
Mas Epicuro melhor
Me fala, com a sua cariciosa voz terrestre
Tendo para os deuses uma atitude também de deus,
Sereno e vendo a vida
À distância a que está».

Não Tenhas Nada nas Mãos
«Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,

Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.

Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?

Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra

Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.

Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.

Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio».
In Fernando Pessoa, Obra Completa de Ricardo Reis, Tinta da China, 2016, ISBN 978-989-671-345-4.

Cortesia de TintadaChina/JDACT

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Não sei o que pensou Franz Liszt, porque rasguei, sem ler, a carta com que me respondeu. Lamento que tenha sido…»

jdact

«(…) Mandou chamar sua tia, a condessa Prisciliana, mulher de grande experiência; fechou-se com ela e, quando quis explicar-me o combinado pedi-lhe que o mantivesse secreto. Durante a gravidez escreveu vinte cartas a Liszt e recebeu três: não li nenhuma delas. Nasceu a menina e Amélia teve umas febres, que ocultou até já não haver remédio. Disse-me: obrigada, Ferdinando, e perdoa-me, e morreu. Esqueceu-se de me avisar de que a criança deveria chamar-se Myriam, mas eu não o havia esquecido. O meu primo, a Águia do Leste, teve um ataque de riso quando soube do nascimento de Myriam e da morte de Amélia. A Myriam, como presente, mandou-lhe um título de condessa, talvez para que não se visse obrigada, quando atingisse a maioridade, a andar pelo mundo com um nome que não fosse seu. Pois, é verdade, foi um pormenor do Águia! Os títulos do seu império andam muito cotados. Escrevi a Franz Liszt uma carta autógrafa na qual lhe dizia:

Meu caro senhor: há já uns meses que passou umas semanas no meu palácio e deleitou com a sua arte a então princesa reinante, minha esposa Amélia. Lamento ter que lhe comunicar a sua morte, assim como o nascimento da princesa Myriam, cujo desvalimento de mãe o meu povo tenta compensar com o seu entusiasmo. Não se esqueça de que fui seu amigo. Ferdinando Luís.

Não sei o que pensou Franz Liszt, porque rasguei, sem ler, a carta com que me respondeu. Lamento que tenha sido, se o foi, uma carta sublime, dessas que podem completar o retrato de um génio se algum curioso as descobre num arquivo ou num lote de leilão. Quanto a mim, posso dizer que a pequena Myriam me parecia tão indefesa, com a sua grande fronte prematura de músico excepcional, que me propus criá-la como se fosse minha. Rosanna ajudou-me durante muitos anos. Se alguma vez tive ciúmes, foi do amor que mutuamente mostravam, pelo receio de que algum dia me excluíssem dele, quando viessem a saber, inevitavelmente, que o pai delas é tonto. Enganei-me.

Uma vez, a Águia do Leste e eu encontrámo-nos em Marienbad: iam comigo as princesas e desejou conhecê-las. Quando isto sucedeu, se Carlos Frederico Guilherme pensava declarar guerra à França, ainda não o havia manifestado, mesmo que considerasse a guerra ganha. Que maneira ele tinha, num mundo com classe, de conduzir a sua patuda figura de janízaro misto! As minhas filhas saudaram-no com uma reverência impecável e com um desprezo tão discreto que nem ele, constantemente desconfiado, pôde captar, mas que me divertiu. Não assim o que imediatamente me comunicou:

Como Rosanna será tua herdeira, vai-a já preparando para o casamento com o nosso primo Raniero. Raniero pertence à melhor família da Silésia oriental, está na escola militar e, quando a tua filha tiver chegado à idade de casar, Raniero será, pelo menos, comandante. O teu grão-ducado é um dote suficiente, mas também indispensável, de modo que também te conviria ir pensando na abdicação como prenda de casamento.

Viu-se que, mais tarde, mudou de opinião porque não esperou, para nos invadir, pelo casamento de Rosanna e pela minha abdicação, da qual tardiamente veio a saber. Não deixa de ser curioso que Rosanna, muitíssimo parecida com sua mãe, goste de música como gosta e que, pelo contrário, Myriam, que conserva a sua ampla fronte de génio prematuro, mas que é suficientemente bonita, lhe interessem as ciências naturais. Ainda falam de parecenças!» In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Respondi-lhe que lhe agradecia muito, mais aquela prova de lealdade e que, como compreendia a situação dela e a aprovava…»

jdact

«(…) Eu também gostava de o ouvir, a esse mago, quando tocava, e também quando falava e nos contava as suas recordações de pessoas famosas de Paris, umas mortas, como Chopin, outras ainda vivas, como a famosa George Sand (de quem, aliás, se ria). Apercebi-me sem grande esforço da simpatia mútua nascente entre Amélia e Franz Liszt. Pensei na minha mulher: esta criatura pode ver a sua beleza fanar-se sem ficar com uma recordação de amor e saí de casa. Pouco depois de ler a carta de Liszt, Amélia veio, uma noite, aos meus aposentos e confessou-me que estava grávida. Há muitas razões, entre outras, a nossa lealdade mútua, pelas quais ponho nas tuas mãos a solução. Aceito, se for legal, o repúdio, porque tens esse direito; também aceito o divórcio; estou disposta, ainda assim, a partir e a ter um filho secreto, mas será um segredo inevitavelmente relativo, porque ser sabido de todas as más línguas de Viena faz parte do costume e do tolerável. Se te ocorrer alguma outra solução, obedecer-te-ei.
Respondi-lhe que lhe agradecia muito, mais aquela prova de lealdade e que, como compreendia a situação dela e a aprovava, lhe pedia que ficasse no palácio e tivesse o filho como se fosse meu, se não a envergonhasse o facto de a criança usar o meu nome e passar por legítima diante do mundo. Nesse oferecimento vejo a nobreza do teu coração, mas peço-te que me dês algum tempo para pensar. Admitirás, dada a tua magnanimidade, que consulte o pai? Naturalmente, sabes onde está agora? Uma princesa reinante tem sempre um pretexto para passar uns dias em Karlsbad. Avisa-me com antecedência da tua viagem e terei tudo preparado. Foram e vieram cartas entre Amélia e Franz Liszt. Não sei o que ele faria com as que recebia: eu atirei para o fogo as cópias sem as ler porque, não será um direito básico de qualquer pessoa o segredo do seu adultério?
Vou tal dia, disse-me Amélia; e tal dia partiu. Decidimos que o que vier nasça aqui e passe por teu até atingir a maioridade e, então, lhe seja revelado quem é. É esse o teu desejo? Não, respondeu, e começou a chorar; não acho justo dar-te um filho para depois to tirar, e continuou chorando. Por algum gesto involuntário deduzi que a sua entrevista com o génio das melenas escorridas, do estupendo nariz, dos dedos como gaivotas, não tinha sido feliz: Amélia havia-lhe falado da possibilidade de se divorciar, que ele recusou pelo facto de a sua religião não lho permitir. O mais grave, contudo, foi a carta que o meu primo enviou a Amélia. Não te lembras de que eu te proibi de teres mais filhos? A que propósito te passou pela cabeça ficares grávida? Se for menina, sorte vossa, do tonto com quem te casaste e tua; mas, se for varão, negar-lhe-ei, com provas, a legitimidade e não o reconhecerei como herdeiro.
Caramba para a Águia do Leste, como chamava Amélia ao meu primo! Chegou a altura do nascimento de Myriam. Disse-lhe: convém que encarregues alguém da tua inteira confiança de revelar à tua filha quem é, quando chegar o momento, para o caso de qualquer um de nós desaparecer. Pensas morrer?, perguntou-me com susto. Não, mas convém prever tudo». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

A Ronda da Noite. Agustina Bessa Luís. «Os Cunhas eram bons tocadores de viola e cavaquinho, sabiam cantigas completamente graciosas e cozinhavam muito bem»

Cortesia de wikipedia e jdact

Dia de Finados
«(…) Mas Maria Rosa Nabasco, a avó de Martinho, limitou-se a dar à luz um rapaz e uma rapariga a quem pôs o nome de Paula, nome que ainda não existia na família e que ela, a avó, achava indispensável numa genealogia católica. S. Paulo era, entre outros, o seu amigo preferido por razões que ela, dificilmente abordava mas que não eram as mais canónicas. Até aos nove anos, Martinho Nabasco esteve convencido que o mundo era partilhado por pessoas inteligentes, inventivas e criadoras. Quando se apercebeu que havia muita gente parada, como a avó Maria Rosa dizia, isso perturbou-o. Numa família em que até os deficientes mentais eram bem servidos de massa cinzenta que dava origem a anedotas, ditos de espírito e calembures geniais, o facto de se perceber que aquilo não era tudo e que podia haver verdadeiras hordas de brutos e de melancólicos activos e passivos, teve grande efeito em Martinho. Até os Cunhas, que eram por tradição criados dos Nabasco, constituíam uma elite de gente apurada de gostos e de entendimento. Os Cunhas eram sete irmãos e uma irmã chamada Ana. Muito feia, ao contrário dos outros, que eram elegantes e bonitos rapazes, ela detinha o espírito mais elevado e a graça correspondente. Nunca casou e Maria Rosa chamava-a muitas vezes para lhe alegrar o coração, que era dado a súbitas apreensões, como o rei David.
Acho que somos parentes. Também eu gosto de música como remédio e não como prazer, dizia. Os Cunhas eram bons tocadores de viola e cavaquinho, sabiam cantigas completamente graciosas e cozinhavam muito bem. Durante duas gerações foram presentes na casa dos Nabasco e contribuíram para a felicidade dos dias que nem sempre eram de aproveitar. Atrás de Maria Rosa e do neto Martinho ia uma herdeira dos Cunhas e que carregava as flores do dia de finados. Simples crisântemos, novelo, brancos e redondos como nuvens brancas e redondas. A Elisa era uma mulher robusta que vestia um uniforme azul-marinho, ou o que ela fazia parecer um uniforme, com colarinho e um gilet cinzento a completar. O efeito era sóbrio mas parecia uma extravagância numa época em que os costumes eram ditados pelos espaços de pronto-a-vestir. Ela orgulhava-se de não se converter aos jeans, se bem que ao preferir as saias de pregas estava a valorizar o porte de matrona. Ainda havemos de ver o dia em que os homens usem saias. São mais cómodas e mais arejadas, dizia. Estabeleciam-se grandes discussões em volta de questões pequenas, e aquilo despertava o espírito e tornava-o incandescente. Na hora perto do jantar, quando se entrava na cozinha para destapar as panelas e provar os molhos, acontecia aquela variada conversa sobre palavras, hábitos e o que os explicava. Martinho já não conhecera a casa da Rua de Belomonte que tinha a cozinha e a sala de jantar no terceiro andar voltado ao rio. Ao que parecia, era uma casa mítica. Às seis horas da tarde abria-se a porta do quintal aos cães e eles subiam pelas escadas como um esquadrão da guarda. Iam para a cozinha, derrubando cadeiras, abanando as caudas como chicotes. Ganindo de alegria. Eram cães de caça; e embora não houvesse mais caçadores em casa, alimentava-se essa tradição com os setters bonitos, cor de fogo cujo pêlo luzia ao lume do fogão de lenha. Porque até muito tarde se cozinhava a lenha e se usava a lenha para os fogões de sala. Ouvia-se o crepitar das achas secas como um ruído de bom augúrio na manhã enevoada. O rio tinha ainda humores de estação, crescia no Inverno e acumulava nas margens laranjas e traves partidas; e algum cabrito morto vinha na corrente, rápido na flor das ondas já invadidas pelo mar aberto. Tudo isso Martinho não tinha conhecido. Nem a mãe dele, Paula, que se distinguia por ser dessas mulheres enclausuradas ainda, e que aprendem equitação para o caso de ir viver em grande estilo com um senhor das lezírias ou com um lorde inglês. Imaginações que se desvaneciam ao primeiro baile de debutantes, já em declínio mas ainda consultoria de casamentos». In Agustina Bessa Luís, A Ronda da Noite, Guimarães Editores, 2006, ISBN 972-665-513-7, Relógio d'Água, 2017, ISBN 978-989-641-811-3.

Cortesia de GuimarãesE/Rd’Água/JDACT

sábado, 18 de maio de 2019

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Se for menino, chama-lhe Franz. Chamará pouco a atenção, porque na sua linhagem legal figuram vários Franciscos...»

jdact

«(…) A carta de Franz Liszt à minha esposa Amélia, copiada em duplicado pelos esbirros do meu primo, pagos pelo erário público do meu pais, dizia: meu amor, com que força te ergues à minha frente quando executo o Segundo Concerto! Quão próxima ficas, como sinto a tua pele, quando toco os Sonetos! Graças à minha música, poderei reviver constantemente a nossa história tão breve, fá-la-ei tão duradoura como eu próprio e, se além do limite houver música, e eu creio que sim, nela persistirá o nosso amor inesquecível. Deus, que me deu a harmonia, deu-te a maternidade. O que na tua carta descreves das emoções da tua gravidez, é música feita vida. Perguntas como quero que se chame. Se for menina, Myriam, não sei porquê. Ou, melhor, sei: porque nesse nome vejo reunidas todas as virtudes e belezas de uma mulher. Myriam. Se for menino, chama-lhe Franz. Chamará pouco a atenção, porque na sua linhagem legal figuram vários Franciscos...
Convém que eu conte a conversa havida entre mim e Amélia no próprio dia do nosso casamento, quando um monte de sorrisos falsos fechou a por… da nossa intimidade. Veio dizer-me que eu lhe era simpático, que entendia a minha situação e que considerava justo que eu conhecesse a sua. Não me amava nem esperava amar-me nunca. Aceitava o casamento a que a haviam obrigado com a mesma inteireza e sentido do dever com que o aceitavam a maioria das princesas, vimos ao mundo para isso, ainda que, diferente de muitas delas, considerasse, mais leal do que calar-se, ter comigo aquela conversa e fazia-o como uma homenagem, porque me sabia capaz de a compreender, não como tantos brutos que apelam à honra, fazem cenas, e acabam levando com os cor… como qualquer outro. Respondi-lhe que concordava, mas que tinha a obrigação de dar um herdeiro à minha minguada coroa e que só podia conseguir isso com a colaboração dela, se possível de bom grado e não forçada. Chegámos a um acordo e nasceu Rosanna. Agradeceu-me porque, apesar de gerada sem amor, era sua filha e amava-a. Se há, ou não, algum motivo para ter outro filho, já o discutirem. E não houve, porque o meu primo me mandou dizer que, para os seus planos, bastava uma princesa e eu que arranjasse uma amante: que pena que não possa sê-lo eu!, disse, rindo, Amélia, quando lhe dei a ler o ultimato do nosso primo; em vez disso sou tua amiga, a tua boa amiga.
E dedicou-se ao cuidado de Rosanna como mãe excelente. O pior foi que eu me apaixonei por ela sem jamais me atrever a dizer-lho: achava-a tão afectuosa, tão sincera, tão bem disposta comigo, que compreendi a dor que lhe causaria, quem sabe até, se a piedade, ao saber que eu a amava. Foi nesta situação que apareceu Franz Liszt, cuja chegada à minha capital não descrevo porque terei que o fazer com outra semelhante, ainda que convenha recordar que a sua passagem pelas ruas causou mais entusiasmo do que a breve passagem do corso, quando lá esteve; mas temos que ver a diferença: Napoleão, pequenote; Franz Liszt, um galarote entre mulheres. Por outro lado, a música do piano, tocada por Franz Liszt, sempre soa melhor do que a dos canhões, mesmo tocada por Napoleão. O imperador da França entrou no meu palácio como em sua casa e sem saber ao certo onde entrava, para além de num lugar para dormir, e a Franz Liszt convidei-o eu, porque Amélia gostava de música». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

A Ronda da Noite. Agustina Bessa Luís. «O mesmo que Martinho herdara, um pouco fugidio, o que fazia sobressair o nariz avançado e estreito. Um nariz de judeu, e está tudo dito»

Cortesia de wikipedia e jdact

Dia de Finados
«Naquele ano coube a Martinho Dias Nabasco acompanhar o que restava duma família numerosa e abastada, ao cemitério da terra natal. Ainda havia muitos descendentes no estrangeiro, mas a casa em que se reuniam objectos e memórias mais presentes estava praticamente desabitada. Com o mau humor que caracteriza os jovens ao ter que proteger publicamente os velhos, Martinho deu a mão à avó para ela não tropeçar nos seixos levantados da calçada. Um mar de automóveis cobria a estrada. Uns em movimento, outros procurando um lugar mesmo diante dos portões e entradas que prometiam não ser frequentadas na manhã austera de Finados, as carrocerias brilhavam ao sol aberto. O cemitério, que Martinho conhecera ainda meio rural, com alguns jazigos de capela elevando-se sobre as campas de terra, alargara-se, apinhado de sepulturas recentes; os mármores e o granito polido davam ao campo-santo um aspecto de cozinhas bem arrumadas, alegradas por braçadas de flores. Entre a massa de crisântemos, despontavam orquídeas claras. Era um luxo, uma glória prestada aos mortos. E que mortos! Martinho admirava os rostos patéticos em caixilhos dourados e as letras também douradas nas lápides novas em folha.
Parece que morreram todos ao mesmo tempo, disse, ainda a segurar a mão da avó, fria e de dedos esqueléticos e bonitos. Tem compostura e sobretudo não me faças rir. Eu? A avó é que se ri de tudo sem compaixão. Sabe bem que sim. Como o nosso jazigo está estragado! Mas tem dignidade assim como está. O fio da sua camisola pegou-se à balaustrada do jazigo que fora inovador no seu tempo. Era cercado por troncos fingidos de cimento, o que na época devia representar o máximo, se não de bom gosto, pelo menos de ousadia. Começava a época do betão, e o velho engenheiro, de quem Martinho mal sabia o nome, deixava ali a sua marca desafiadora. Era avô do avô, o que para Martinho vinha a dar um parentesco distante e labiríntico. Pelos retratos, via-se que era um homem elegante, no seu fato de pied-de-poule cinzento e a barba que provavelmente lhe escondia o queixo fraco. O mesmo que Martinho herdara, um pouco fugidio, o que fazia sobressair o nariz avançado e estreito. Um nariz de judeu, e está tudo dito. Não deixava por isso de ser bonito, o jovem Martinho. Era doce como o açúcar quando queria e paciente como Cristo. Se bem que, também como Cristo, tivesse súbitas cóleras que só a avó compreendia.
Isto vai passar. É um homem e os homens são imprevisíveis, dizia ela à mãe de Martinho, a sua filha Paula, uma morena de olhos soberbos, quase verdes, e que não tinham perdido ainda o brilho. A avó passara o cabo dos cinquenta anos com alguma dificuldade, e um fibroma que se desenvolvera nessa idade diminuía-a a ponto de a pôr nervosa e pronta a desfazer-se em lágrimas. Consultou em Paris um médico velho e compassivo; passou-lhe uma receita que ela aviou numa farmácia da Praça da Ópera, indo depois comer ostras entre desenganada e ligeira de sentimentos. Como Proust, Martinho Dias Nabasco crescera entre duas mulheres que o amavam. Era um amor sujeito a mudanças, como tudo na vida. Nesse ano, Paula Nabasco demorou mais tempo as férias em Biarritz e não pôde ir florir a campa dos mortos, cada vez mais distante na província que fora o berço dos Nabasco e que se urbanizara até ficar irreconhecível. O que ligava Paula a Biarritz era uma velha história de família; o exílio dos Nabasco nos tempos da República e também a fortuna de que dispunham para se fazerem respeitar sem se olhar ao nome ou à origem. Duma irmandade de muitos irmãos, que mais parecia convento do que lar de proporções normais, os Nabasco tinham-se corrompido a ter poucos filhos, depois da guerra de 14, quando a vida se tornou bizarra e divertida. Ter só um filho ou um casalinho tornou-se um capricho da burguesia bem nascida. O tempo do avô Nabasco, o do jazigo em betão armado, fora o último da procriação natural sem o recurso ao preservativo e ao coito interrompido. Teve nove filhos, dos quais três eram deficientes mentais, de instintos matreiros e pirómanos, e assim por diante». In Agustina Bessa Luís, A Ronda da Noite, Guimarães Editores, 2006, ISBN 972-665-513-7, Relógio d'Água, 2017, ISBN 978-989-641-811-3.

Cortesia de GuimarãesE/Rd’Água/JDACT

sexta-feira, 17 de maio de 2019

A Sibila. Agustina Bessa Luís. «Olha que a minha prima do Soito casou aos onze anos. Aos treze teve dois filhos dum ventre, e criou-os, que ninguém lá foi criar-lhos, ripostava Maria»

jdact

«(…) Com cinco anos, enquanto Estina, calçada com as suas meias de lã parda e branca, corria para a mestra, Quina, ficava sentada no degrau que comunicava a nova cozinha com os outros aposentos, e que era um pequeno caixote oscilante, posto ali para facilitar a subida das crianças. Ela segurava nos braços o mais novo dos irmãos, e cantava com a vozinha trôpega, quadras irreverentes a respeito da Patuleia, em cujas trincheiras combatera o marido de Narcisa Soqueira, um homem bronco até ao inverosímil, herói de muitas histórias galhofeiras. Dos caibros, cujo pinho claro se defumava já, pendiam tranças de cebolas, e a dobadoira, com a meada enfiada nos braços, estava sobre uma prateleira junto à fila de pepinos maduros que se guardavam para semente. No boqueirão da chaminé, que parecia a forma duma pirâmide, brilhavam oleosas fuligens. Chovia. A água repicava de encontro ao zinco que forrava até meio a porta que ficaria depois cheia de entalhaduras a canivete, marca e presságio da futura estatura de todas as crianças da família que ali se mediam aos dois anos, e cuja altura dobrada seria, diziam, a definitiva. O armário embutido ao canto da banca, em triângulo, supurava ainda resina dos seus nós. Aquela era a cozinha nova, a que substituía a dependência térrea onde se cozia o pão, e que ficava no seguimento das cortes do gado, no quinteiro, terreiro muito afofado de matos onde a chuva e a urina do gado empoçavam, e onde a geada fazia efeitos de corais brancos nos gravetos de urze. Por um fenómeno não muito raro no coração das mais extremosas mães, Joaquina Augusta encontrou um terreno de afectos quase totalmente dedicado à primeira filha, Estina. Talvez porque ao nascimento desta se ligassem mais vivos pormenores sentimentais, ou porque a criança ao crescer se revelasse detentora de perfeições e afinidades que seriam réplica da própria mãe, Maria distinguiu-a desde sempre, fosse no desvelo da educação ou no poupar-lhe as canseiras mais pesadas do lar. Entretanto, Quina, desde muito nova, lidava sob o estímulo da mãe, que a exigia activa e responsável, mais do que seria de desejar em menina tão miúda. Mas ela vergava-se àquela seca disciplina, adquirindo uma consciência de adulto, um orgulho de capacidade que seria o remorso de Maria, se esta tivesse ócios disponíveis para tais subtilezas. Deixa-a brincar também, dizia Francisco, tocado pelo azafamado jeito da cachopinha, que corria da adega à horta, acamava a roupa no cortiço da barrela, vedava com bosta húmida à porta do forno, carregava o linho que demolhava nas presas ou corava no limiar do pomar.
Olha que a minha prima do Soito casou aos onze anos. Aos treze teve dois filhos dum ventre, e criou-os, que ninguém lá foi criar-lhos, ripostava Maria. Este argumento da parenta, cujo casamento fora tratado por inculcas entre duas casas fartas, era fatídico. Quina deteve-o como exemplo desde o alvorecer da razão e, quando velha, ouvia ainda a mãe falar daquela heroína prima do Soito, quando alguém aludia à extrema juventude duma noiva ou duma esposa, para desculpar-lhe as leviandades e os feitos ingénuos. Quina chegara a ganhar raiva à pobre criaturinha, agora feita uma mulher gemebunda, a quem os muitos e sucessivos partos tinham abalado o coração. Apenas o pai ela tinha por aliado, somente ele a socorria com o disfarçado conforto dum sorriso, uma palavra, quando Quina passava, os olhos pregados no chão, sob o acicate da mãe sempre implicante, sempre manejando o fueiro e a chinela com uma expressiva agilidade. Entre Quina e o pai foi aos poucos surgindo uma espécie de aliança secreta, uma cumplicidade quase irónica que atingia Maria, caçoando da sua brusquidão, uma vez que não seria possível pôr-lhe cobro. E, naquele lar em que o chefe aparecia apenas para ser servido, para aceitar a escolha do melhor bocado e a servidão feliz de todos os que levavam afinal o fardo das monótonas canseiras, Quina recolhia com gratidão a deferência que o pai, tão admirável, tão estranho, tão difícil, lhe insinuava. O amor por ele tornou-se devoção». In Agustina Bessa Luís, A Sibila, 1954, Relógio d’Água, 2017, ISBN 978-989-641-747-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

A Sibila. Agustina Bessa Luís. «Ele não tinha mudado. As suas aventuras eram inumeráveis, e o lar significava para ele um poiso cujo encanto resultava sobretudo de manter a toda a hora as portas franqueadas sobre o mundo»

jdact

«(…) Se já tinham esmorecido havia muito, as relações com Isidra ficaram desde então definitivamente acabadas. Nem Francisco procurou vê-la mais, nem ela de algum modo se interpôs na sua passagem. O filho que ia nascer preocupava-o, pois conhecia bem aquela mulher a quem a cólera faria rasar todos os crimes. Pagou espiões que a vigiassem na sua própria casa, soube-lhe todos os pensamentos e os diálogos em detalhe com as comadres de confiança; soube que a criança a destinava à roda, contratou cúmplices e sentinelas, esperou, muitas noites, nos esconsos da quinta, que alguém viesse entregar-lhe nos braços o fardo do recém-nascido. E assim aconteceu. Era um menino, que mandou criar cheio de amparo, e a quem a própria Maria recebia mais tarde com deferências, homem probo que muito honrava o nome paterno, e por isso ela lhe dedicou um respeitoso afecto. Isidra foi habitar uma residência no Porto, pertença do avô de Borba que morrera, muito destemperado de génio e blasfemando contra os filhos varões, cujos casamentos tinham resultado estéreis. A moça viveu até à idade madura no casarão sobranceiro ao rio, e cujas velhas salas ela franqueava às pombas. As raras damas que a visitavam entreolhavam-se com espanto perante aquela criatura lívida, cuja arrogância sobressaía até nos seus próprios atavios negros, sem uma garridice, sem uma jóia. Nos damascos esfiados dos estofos, nos mármores róseos das mesas, havia ressequidos excrementos de aves; pelas altas janelas, cujos estores caíam aos pedaços, entrava o sol que desbotava as tapeçarias e a seda cor de palha das paredes. Ela possuía o snobismo da rudeza, não tentou jamais demonstrar cultura ou preferir certas elegâncias volúveis que faziam moda, e não falava melhor do que os caseiros com quem privara desde pequena. Havia nela, porém, um gosto inato de nobreza que a fazia distinta entre todas as mulheres. Tem virtudes de homem, dizia o fidalgo de Lago, muito velho já, e que a admirava sem excluir aversão por ela. Enfim, a sua opulenta trança branqueava quando Isidra casou com um magistrado, homem balofo e sem humor, que foi nomeado pouco depois juiz do Supremo Tribunal. Francisco Teixeira perdeu-lhe o rasto para sempre.
Ele não tinha mudado. As suas aventuras eram inumeráveis, e o lar significava para ele um poiso cujo encanto resultava sobretudo de manter a toda a hora as portas franqueadas sobre o mundo. Maria viveu um inferno de desesperos mudos, e a sua reprovação manifestava-se apenas pelo silêncio, lidava até à exaustão mais profunda, e não comia. Quando Francisco chegava, via-lhe os olhos queimados, os modos secos, aquele cirandar cheiro de dignidade que o vexava e lhe produzia remorsos; então calava-se também, e no seu coração aquela atitude ia roendo até a imaginação a transformar em ofensa e ele acabar por sobrepor-se às suas culpas como a vítima mais lamentável. O seu egoísmo fazia-o infantil, e das dores que ele próprio motivava restava-lhe na consciência um sabor de injustiça por qualquer mínima represália. Assim, os primeiros anos foram muito amargos, se bem que Maria no futuro, os recordasse com uma ternura muito viva, e os achasse, de facto, os mais risonhos da sua vida; três filhos perderam-se, e a criança que logo nasceu em condições de sobreviver deveu-a a Narcisa, conselheira assídua de Maria. Come sempre antes de o teu homem chegar a casa, disse-lhe. Se ele não tiver ceado, comes outra vez com ele; se não, podes deitar o teu caldo na pia, que já não faz falta... Isto desagradava os seus ingénuos pundonores de mulher, e, como Maria só sacrificava a prudência a uma história de honra, conciliando ambas atingia uma satisfação suprema. Um ano depois, nasceu Justina, menina afouta e que prometia ser bela; depois seguiu-se Joaquina Augusta e ainda três rapazes, o último baptizado, por um lapso de registo ou como fora em tempos costume, com o sobrenome da mãe. A família enraizava-se de novo e estendia os seus ramos naquela casa da Vessada que se reedificava lentamente». In Agustina Bessa Luís, A Sibila, 1954, Relógio d’Água, 2017, ISBN 978-989-641-747-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

A Herdeira. Sydney Sheldon. «Neste momento o fictício Rhys Williams nasceu. O verdadeiro Rhys Williams era um rapaz ignorante e sem educação, sem meios, sem tradição, sem passado e sem futuro»

Cortesia de wikipedia e jdact

Istambul, Sábado, 5 de Setembro. 22 horas
«(…) Era aquele o seu mundo, e não havia nada que Rhys não fosse capaz de fazer para entrar nele. Quando completou catorze anos, tinha economizado dinheiro suficiente para comprar uma passagem até Londres. Passou lá os três primeiros dias simplesmente andando pela grande cidade, olhando para tudo e avidamente embebendo-se dos fantásticos espectáculos, sons e cheiros. O seu primeiro emprego foi numa loja de tecidos. Havia dois caixeiros, ambos seres superiores, e uma caixeira que fazia o coração do jovem galês cantar sempre que a olhava. Os caixeiros tratavam Rhys como ele devia ser tratado, isto é, como lixo. Era uma curiosidade. Vestia-se com roupas esquisitíssimas, tinha maneiras abomináveis e falava com um sotaque incompreensível. Não conseguiam sequer pronunciar-lhe o nome direito. A moça teve pena dele. Chamava-se Gladys Simpkins e morava num pequeno apartamento em Tooting com três outras moças. Um dia, ela permitiu que o rapaz a levasse até casa depois do trabalho e convidou-o para entrar e tomar uma xícara de chá. O jovem Rhys estava muito nervoso. Pensava que aquela ia ser a sua primeira experiência sexual, mas quando passou o braço pelo corpo de Gladys, esta olhou muito séria para ele por um momento e depois riu. Não vou dar-lhe nada disso, mas estou disposta a dar-lhe um bom conselho. Se quiser ser alguma coisa, compre roupas melhores, procure instruir-se mais um pouco e aprenda a ter boas maneiras. Olhou o rosto jovem e apaixonado de Rhys, viu os seus profundos olhos azuis e disse com voz suave: até que V. vá ficar um bocado fixe quando crescer... Se quiser ser alguma coisa...
Neste momento o fictício Rhys Williams nasceu. O verdadeiro Rhys Williams era um rapaz ignorante e sem educação, sem meios, sem tradição, sem passado e sem futuro. Mas ele tinha imaginação, inteligência e ardente ambição. Isso era o bastante. Começou a imaginar do que queria conseguir, do que queria ser. Quando se olhava ao espelho, não via o rapaz parvo e desajeitado, de sotaque estranho. A imagem reflectia uma pessoa polida, delicada e bem-sucedida. Pouco a pouco, Rhys começou a responder à imagem que trazia no espírito. Frequentava escolas nocturnas e passava os fins-de-semana em galerias de arte. Rondava as bibliotecas públicas e ia ao teatro, sentava-se nas galerias e reparando nas boas roupas dos homens sentados nas plateias. Fazia refeições frugais para poder, uma vez por mês, ir a um bom restaurante, onde imitava cuidadosamente as maneiras dos outros à mesa. Observava, aprendia e não esquecia. Era como uma esponja que apagava o passado e absorvia o futuro. Em menos de um ano, Rhys aprendeu o bastante para compreender que Gladys Simpkins, a sua princesa, era uma mocinha cockney vulgar, que estava abaixo do seu gosto. Deixou a loja de tecidos e foi trabalhar numa farmácia, que fazia parte de uma grande rede. Tinha quase dezasseis anos, mas parecia mais velho. Estava mais cheio de corpo e mais alto. As mulheres estavam começando a prestar atenção na sua boa aparência morena de galês e a sua conversa fluente e cheia de palavras lisonjeiras. Fazia muito sucesso na farmácia, e havia freguesas que esperavam até que Rhys pudesse atendê-las. Vestia-se bem e falava com correção. Mas, embora soubesse que já estava bem longe de Gwent e Carmarthen, ainda não ficava satisfeito quando se olhava no espelho. Tinha ainda uma longa jornada pela frente. Depois de dois anos, Rhys passou a ser gerente da farmácia. O gerente distrital da rede lhe havia dito: isto é apenas o começo, Williams. Continue a trabalhar assim e um dia você será o superintendente de meia dúzia de casas. Rhys quase deu uma gargalhada.
Pensar que isso poderia ser considerado o máximo da ambição de uma pessoa! Nunca havia deixado de estudar. Estava fazendo cursos de administração de empresas, marketing e direito comercial. Queria mais. Tinha os olhos voltados para o topo da escada e sabia que ainda não chegara nem aos primeiros degraus. Teve a sua primeira oportunidade de subir quando um vendedor de produtos farmacêuticos entrou um dia na farmácia e viu Rhys cercado de mulheres, às quais induziu vários artigos de que elas não tinham qualquer necessidade. V. está perdendo tempo aqui, rapaz, disse ele. Devia estar trabalhando num campo maior. Em que está pensando?, perguntou Rhys. Vou falar com o meu chefe a seu respeito.
Duas semanas depois, Rhys estava trabalhando como vendedor de uma pequena firma de medicamentos. Fazia parte de uma equipa de cinquenta vendedores, mas quando se olhava no espelho, sabia que a verdade não era essa. A verdadeira competição que tinha de enfrentar era consigo mesmo. Já estava se aproximando da sua imagem, do tipo fictício que procurava criar. Um homem inteligente, culto, refinado e encantador. O que ele tentava fazer era impossível. Qualquer pessoa sabia que era preciso trazer essas qualidades do berço. Não podiam ser criadas. Mas Rhys conseguiu o que queria. Tornou-se a imagem que havia elaborado. Viajou pelo interior, vendendo produtos da firma, falando e escutando. Voltava a Londres cheio de sugestões práticas e tratava imediatamente de ir subindo a escada. Três anos depois de haver entrado na companhia, Rhys foi nomeado gerente-geral de vendas. Sob a sua hábil orientação, a companhia começou a expandir-se. Quatro anos depois, Sam Roffe entrou na vida de Rhys e percebeu a fome que o consumia. V. é como eu, disse Sam. Nós queremos conquistar o mundo. E vou mostrar-lhe como fazê-lo. Sam Roffe tinha sido um guia brilhante». In Sydney Sheldon, A Herdeira, Edições ASA, 2018, ISBN 978.989-234-299-3.

Cortesia de EASA/JDACT

quinta-feira, 16 de maio de 2019

A Herdeira. Sydney Sheldon. «Quando as minas foram reabertas, houve outra espécie de inferno. Quase toda a família de Rhys tinha morrido nas minas. Alguns haviam morrido nas entranhas da terra, outros consumiram…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Istambul, Sábado, 5 de Setembro. 22 horas
«(…) Tinha de ser uma comunicação pela imprensa. A notícia ia percorrer os círculos financeiros internacionais como uma crise financeira, era essencial que o impacto da morte de Sam Roffe fosse reduzido ao mínimo. Cabia a Rhys conseguir isso. Rhys Williams conhecera Sam Roffe havia nove anos. Rhys tinha então, vinte e cinco anos e era gerente de vendas de uma pequena firma de produtos farmacêuticos. Era brilhante e gostava de inovar, tendo feito a firma se expandir. Com isso, a sua reputação havia crescido. Recebera uma proposta para trabalhar na Roffe and Sons, e, logo depois de recusá-la, soube que Sam Roffe comprara a companhia em que ele trabalhava e mandara chamá-lo. Ainda se lembrava do poder dominador de Sam Roffe naquele primeiro encontro. O seu lugar é aqui na Roffe and Sons, havia-lhe dito Sam Roffe. Foi por isso que comprei aquela companhia trôpega em que você trabalhava. Rhys sentiu-se lisonjeado e irritado ao mesmo tempo. E se eu não quiser continuar? Sam Roffe sorrira e respondera, cheio de confiança: nós temos uma coisa em comum, Rhys. Somos ambiciosos. Queremos ser donos do mundo. E eu vou mostrar-lhe como se consegue isso. Essas palavras foram mágicas. Representavam a promessa de um banquete para a fome que ardia no íntimo de Rhys. De facto, ele sabia alguma coisa que Sam Roffe desconhecia. Rhys Williams não existia. Era um mito criado pela descrença, pela pobreza e pelo desespero. Nasceu perto das jazidas de carvão de Gwent e Carmarthen, nos retalhos vales vermelhos do País de Gales, onde camadas de arenito e depósitos de calcário e carvão em forma de pires rasgavam a terra verde. Cresceu numa terra fabulosa, onde os próprios nomes exalavam poesias: Penderyn, Brecon, Pen-y Fan, Glyncorrwg e Maesteg.
Era uma terra de lenda, onde o carvão que se achava no fundo da terra se formara duzentos e oitenta milhões de anos antes, onde a paisagem fora, em outros tempos, coberta de tantas árvores que um esquilo poderia viajar do Farol de Brecon até ao mar sem pousar as patas no chão. Mas a Revolução Industrial chegou e as belas árvores verdes foram abatidas pelos produtores de carvão vegetal para alimentar as fornalhas insaciáveis da industria do ferro. O garoto cresceu conhecendo heróis de outro tempo e de outro mundo, como Robert Farrer, queimado na fogueira pela Igreja Católica porque não quisera fazer votos de celibato e abandonar a mulher; como o rei Hywel, o Bom, que levara a lei ao País de Gales no século X; e como o destemido guerreiro Brychen, que gerara doze filhos e vinte e quatro filhas e resistira com bravura a todos os ataques ao seu reino. Era uma terra de histórias gloriosas aquela em que o garoto cresceu Mas nem tudo era glória. Os antepassados de Rhys haviam sido mineiros, e o jovem costumava ouvir os casos de sofrimentos que o seu pai e os seus tios contavam. Lembravam os terríveis tempos em que não havia trabalho, em que as ricas jazidas de carvão de Gwent e Carmarthen foram fechadas em consequência de uma amarga luta entre as companhias e os mineiros e em que estes foram reprimidos por uma pobreza que corroeu a ambição e o orgulho, solapando o espírito e a força dos homens até fazê-los capitular.
Quando as minas foram reabertas, houve outra espécie de inferno. Quase toda a família de Rhys tinha morrido nas minas. Alguns haviam morrido nas entranhas da terra, outros consumiram, tossindo, os pulmões enegrecidos. Poucos tinham passado dos trinta anos de idade. Rhys costumava ouvir o pai e os tios falarem do passado, do desmoronamento, dos mineiros invalidados e das greves. Falaram dos bons e dos maus tempos, e o garoto não via qualquer diferença entre uns e outros. Todos eram maus. A ideia de passar a vida dentro da escuridão da terra o apavorava, e ele sabia que tinha de fugir. Saiu de casa aos doze anos. Abandonou os vales do carvão e foi para a costa, para a baía de Sully Ranny e para Lavernock, para onde corriam os turistas ricos. Foi mensageiro, carregador, ajudava as senhoras a descerem os caminhos escarpados para a praia, carregando cestas de piquenique, dirigiu um carro de póneis em Penarth e trabalhou no parque de diversões de Whitmore Bay. Estava apenas a algumas horas de casa, mas a distância já era incomensurável. A gente do lugar onde ele estava parecia pertencer a outro mundo. Rhys Williams nunca imaginara que as pessoas pudessem ser tão belas ou usar roupas tão magníficas. Toda a mulher lhe parecia uma rainha, e os homens eram elegantes e esplêndidos». In Sydney Sheldon, A Herdeira, Edições ASA, 2018, ISBN 978.989-234-299-3.

Cortesia de EASA/JDACT

A Herdeira. Sydney Sheldon. «Vou tentar, mas não sei se..., murmurou Sophia. Diga-lhe que, se não estiver aqui dentro de uma hora, será despedido. A expressão do rosto dela mudou. Vou ver o que posso fazer…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Istambul, Sábado, 5 de Setembro. 22 horas
«Estava sentado sozinho e no escuro, atrás da mesa de Hajib Kafir, com os olhos voltados para as janelas empoeiradas do escritório e os minaretes intemporais de Istambul. Era um homem que se sentia bem numa dúzia de capitais do mundo, e Istambul era uma das suas favoritas. Não a Istambul para turistas da rua Beyoglu ou do espalhafatoso Bar Lalezab do Hilton, mas a Istambul dos recantos ocultos que só os muçulmanos conheciam: os yalis, os pequenos mercados além dos souks e o Telli Baba, o cemitério onde só uma pessoa estava enterrada e aonde ia gente para rezar na sua intenção. A espera do homem era marcada por uma paciência de caçador e pela absoluta imobilidade de que domina o corpo e as emoções. Era do País de Gales e tinha a beleza enigmática e tempestuosa dos seus antepassados. Cabelos pretos, rosto forte e olhos vivos, de um azul intenso. Tinha mais de um metro e oitenta de altura e o corpo de um homem que se mantinha em boas condições físicas. Os cheiros de Hajib Kafir impregnavam a sala, o seu fumo adocicado, o seu acre café turco e o seu corpo gordo e oleoso. Rhys Williams não dava atenção a esses odores. Estava pensando no telefonema que lhe haviam dado de Chamonix uma hora antes.
Um terrível acidente! Creia que estamos todos arrasados, Williams. Tudo aconteceu com tanta rapidez que não houve chance de salvá-lo. O Roffe morreu instantaneamente. Sam Roffe era presidente da Roffe and Sons, a segunda companhia de produtos farmacêuticos do mundo, uma dinastia de muitos milhões de dólares que se espalhava por todo o globo. Era impossível acreditar na morte de Sam Roffe. O homem sempre fora muito dinâmico, cheio de vida e energia, sempre em movimento, dentro de aviões que o levavam a fábricas e escritórios da companhia através do mundo, onde resolvia problemas que os outros nem podiam enfrentar, criava novos conceitos e fazia todos trabalhassem mais e melhor. Embora houvesse sido casado e tivesse uma filha, o seu único interesse na vida havia sido os negócios. Sam Roffe tinha sido um homem brilhante e extraordinário. Quem poderia substituí-lo? Quem seria capaz de governar o imenso império que ele deixava? Roffe não havia escolhido um herdeiro legítimo. Também não havia pensado em morrer aos cinquenta e dois anos. Sempre pensara que havia tempo de sobra. E agora o tempo estava esgotado. As luzes do escritório se acenderam de repente. Rhys Williams olhou para a porta, ofuscado por um momento.
Williams! Não sabia que havia alguém aqui. Era Sophia, uma das secretárias da companhia, que era sempre designada para servir Williams quando ele estava em Istambul. Turca, na casa dos vinte anos, tinha um belo corpo sensual, estonteante de promessas. Fizera Rhys saber, através de subtis e antigas sugestões, que estava à sua disposição para dar-lhe os prazeres que desejasse, na hora que quisesse, mas Rhys não se interessava. Sophia disse: voltei para acabar algumas cartas para o Kafir. Acrescentou, então, com uma voz bem doce: quem sabe se não posso também prestar-lhe algum serviço... Quando ela se aproximou da mesa, Rhys sentiu o cheiro almiscarado de um animal selvagem no cio. Onde está o Kafir? Sophia abanou a cabeça com pesar. Já foi e não volta mais hoje. Deseja alguma coisa? Alisou com as palmas das mãos macias e hábeis à frente do vestido. Tinha olhos negros e húmidos.
Desejo, sim. Procure-o. Não sei onde ele pode estar... Tente o Kervansaray ou o Mermara. Estaria decerto no primeiro desses lugares, onde uma das amantes de Hajib Kafir apresentava a dança do ventre. Mas Kafir era imprevisível. Poderia até estar em casa junto com a mulher.
Vou tentar, mas não sei se..., murmurou Sophia. Diga-lhe que, se não estiver aqui dentro de uma hora, será despedido. A expressão do rosto dela mudou. Vou ver o que posso fazer, Williams. Encaminhou-se para a porta. Apague a luz quando sair. De qualquer maneira, era mais fácil ficar ali no escuro na companhia dos seus pensamentos. A imagem de Sam Roffe estava presente sempre. A escalada do monte Branco deveria ter sido fácil naquela época do ano, começo de Setembro. Sam tinha tentado a empreitada anteriormente mas as tempestades o haviam impedido de chegar ao cimo. Desta vez vou cravar lá em cima a bandeira da companhia, dissera ele a Rhys. E então houvera o telefonema de há pouco, quando ele se preparava para deixar o Pera Palace, onde estivera hospedado. Ouvia ainda a voz nervosa ao telefone. Estavam atravessando a geleira... Roffe falseara o pé e a sua corda se partira. Caíra numa fenda profunda. Rhys podia visualizar o corpo de Sam na colisão com o gelo implacável e a sua queda no abismo. Procurou então afastar a cena do espírito. Aquilo já era passado. O presente é que surgia repleto de preocupações. Era preciso comunicar a morte às pessoas da família de Sam Roffe, e elas estavam espalhadas por várias partes do mundo». In Sydney Sheldon, A Herdeira, Edições ASA, 2018, ISBN 978.989-234-299-3.

Cortesia de EASA/JDACT

Poemas Completos de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. «Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo, e a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma... Quem dera que houvesse um terceiro estado p’ra alma, se ela tiver só dois...»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Casa Branca Nau Preta
«(…) Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se...
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro...
Não existe manhã para o meu torpor nesta hora...
Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim...
Há uma interrupção lateral na minha consciência...
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par...
Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,
E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma...

Quem dera que houvesse
Um terceiro estado p’ra alma, se ela tiver só dois...
Um quarto estado p’ra alma, se são três os que ela tem...
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir...
As naus seguiram,
Seguiram viagem não sei em que dia escondido,
E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,
Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho...

Árvores paradas da quinta, vistas através da janela,
Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo,
Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las,
Não poder eu fazer qualquer coisa género haver árvores que deixasse de doer,
Não poder eu coexistir para o lado de lá com estar-vos vendo do lado de cá.
E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão...

Que sonhos?... Eu não sei se sonhei... Que naus partiram, para onde?
Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteira
Naus partem, naus não, barcos, mas as naus estão em mim,
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

Quem pôs as formas das árvores dentro da existência das árvores?
Quem deu frondoso a arvoredos, e me deixou por verdecer?

Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele,
Sentir sem auxílio de poder para quando quiser, e o mar alto
E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir... Não há, substância de pensamento na matéria de alma com que penso...
Há só janelas abertas de par em par encostadas por causa do calor que já não faz,
E o quintal cheio de luz sem luz agora ainda-agora, e eu.

Na vidraça aberta, fronteira ao ângulo com que o meu olhar a colhe
A casa branca distante onde mora... Fecho o olhar...
E os meus olhos fitos na casa branca sem a ver
São outros olhos vendo sem estar fitos nela a nau que se afasta.
E eu, parado, mole, adormecido,
Tenho o mar embalando-me e sofro...

Aos próprios palácios distantes a nau que penso não leva.
As escadas dando sobre o mar inatingível ela não alberga.
Aos jardins maravilhosos nas ilhas inexplícitas não deixa.
Tudo perde o sentido com que o abrigo em meu pórtico
E o mar entra por os meus olhos o pórtico cessando.

Caia a noite, não caia a noite, que importa a candeia
Por acender nas casas que não vejo na encosta e eu lá?

Húmida sombra nos sons do tanque nocturna sem lua, as rãs rangem,
Coaxar tarde no vale, porque tudo é vale onde o som dói.
Milagre do aparecimento da Senhora das Angústias aos loucos,
Maravilha do enegrecimento do punhal tirado para os actos,
Os olhos fechados, a cabeça pendida contra a coluna certa,
E o mundo para além dos vitrais paisagem sem ruínas...

A casa branca nau preta...
Felicidade na Austrália...»
In Fernando Pessoa, Poemas Completos de Álvaro de Campos, Tinta da China, 2014, ISBN 978-989-671-232-7.

Cortesia de TintadaChina/JDACT