terça-feira, 19 de março de 2019

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Senhora, guardai-vos de vós que de vós só vos vem veneno; guardai-vos de vós que de vós me guardo e me afasto, transbordando de pasmo por tanta malícia e ódio…»

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«(…)
Carta encontrada entre as páginas de um dos missais de Mariana Alcoforado
Senhora
Guardai o respeito que deveis a vós própria.
Melhor serve o silêncio e a dignidade o amor do que o queixume e a mentira. Pensai que conheço de mais vossos excessos, vossas raivas súbitas e vossos caprichos, por experiência. Bom será para ambos me afastar, não dando ouvidos nem crédito a estratagemas que mal vos fica usar, não sendo eles sequer, vede, de vossa condição e estado.
E se o amor e a paixão invocais, que provas me destes de paixão, senão daquela que alimentais por vós mesma em devoradora chama?
Senhora, guardai-vos de vós que de vós só vos vem veneno; guardai-vos de vós que de vós me guardo e me afasto, transbordando de pasmo por tanta malícia e ódio e egoísmo ter encontrado numa só mulher.
Preferível vos será aceitar o mundo como vos dão e a ele vos moldardes, pois nenhuma fuga vos é possível.
Muito me condoí de vossa vida, Mariana, muito me indignou vossa prisão atrás dessas grades que vos detêm cruelmente o sangue e o riso. Porém, ao conhecer-vos e ao me tomar de amor por vós, entendi que bom só será vos conservar presa e obrigada à recusa do mundo.
Donzela vos tive, não conhecendo no entanto mulher em mais depravado avanço de sentidos, êxtases, ânsias desvairadas. Sob poder me tivestes, e bem o sabíeis, doente de vossa febre que me incendiava o corpo. Desmaiada vos colhi em meus braços, desmaiado eu em vosso ventre, meu precipício e fim, meu absurdo princípio e morte todas as vezes mais rasgada e mais profunda onde me afundava e afundava sob vossos olhos firmes não toldados..., que nunca os olhos, Senhora, vos vi toldados...
Perdido me encontrei por vos amar e achado desamado à força de, mau grado, vos examinar, e em estado de razão me ver forçado a afastar-me, pois morte caberia a um de nós se tal não o fizesse.
Que despeito vos arrebata! Tão baixo por ele vos deixais ir, que usais de modos e fingimentos aprendidos por certo com vossa criada.
Não vos canseis, mais não me vereis, de vós fujo e o confesso, sem qualquer vergonha ou remorso, pois sei até onde me usastes sem em abandono vos entregardes jamais.
Como é possível perder-vos, recusar-me a vos ver, a vos ter, a vos amar...
Permiti que me vá, Mariana. Não estais ainda cansada de assim me atormentardes?
Culpado sou de quê?
Em mim vos vingais de injustiça que vossa mãe comete em violência vos exigindo sacrificada nesse convento...
Se em casa de Deus sereis obrigada a viver, confortai-vos com ele entregando-vos à piedade em vez de vos entregardes ao culto do ódio.
Secai essas lágrimas que sei de despeito e não de amor; recusai invenções de tão pouco engenho e arte que indignas são de vossa inteligência que muita é e de mais para mulher.
Mas se sinceras forem vossas palavras e temores, tranquilizai-vos: estais tão prenha de vós própria, Mariana, que jamais vosso ventre engendraria outra vida que não a vossa e a vossa ainda e sempre.
Atenciosamente
Noel
28/Mar/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Gostaria que dissésseis a meu irmão, muito lhe agradecer o não me tornar a chamar ao parlatório; assim me pouparia a penosa resolução de me negar a vê-lo…»

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«(…)
Carta de Mariana Alcoforado a sua mãe
Senhora Minha Mãe
Não vos podendo ver mais nesse martírio inventado de desgosto e dúvida por mim, vos escrevo logo após vossa partida (hoje precipitada a senti e em desprendimento me foi clara: pois pensais acaso que não?) a dar desta vossa filha conhecimento e das causas que me trazem neste cruel e profundo abatimento ou medo.
Talvez de amor vos fale ou de morte; de clausura (aquela a que desde menina me votastes, tão bem paramentada, em sossego posta), de hábito: aquele que visto e aquele adquirido de mim e através de mim também de outrem, mesmo agora criada tanta distância. Tendo o mar entre nós penso inevitável ser esquecida, eu o esqueça, me esqueça. Deixais de vez vosso susto que já nada mais me pode acontecer neste mundo senão o viver sozinha a imaginar-me, lamentando-me de sorte tão adversa (de braços de homem passei aos meus e talvez por minha única culpa, que mulher não o soube aprisionar, ou repelir a tempo), enganando-me em cartas que tanto mais entendo de meu engenho que de paixão, construídas todas elas em língua não materna (assim vos recuso, de vós me liberto um pouco, ó vingança, ó riso...) tão doce e amarga tornada, desde que da boca dele a ouvi em proveito de meu uso.
Sabei Senhora Mãe: nada do que é vosso me importa, nem pensamentos, nem costumes. Costumes que apesar de tudo e todavia, continuo a aceitar, de lei e cobardia, aceitando este estado onde de acordo com meu pai me pusestes por homem não ter nascido e entrave fazer a meu irmão e minha irmã, de dote, podendo ela assim arranjar marido que a receba apesar de feia, não vos custando eu mais que parto e raivas acesas ao me saberdes por amada e possuída de corpo contra vossas ordens, mando, vontades; apesar mesmo de vossas ameaças.
Mas tranquilizai que abandonada me encontro e isso, sei, vos dá alegria, a verdade foi, enraivecida não me terdes perdoado usufruir da vida o que da vida jamais usufruístes. Agora, inquieta encontro vossa atenção por minha saúde e desgosto por minha apatia..., nada mais me restando senão aceitar essas atenções, fingindo não ver nelas a secreta alegria de me encontrardes repelida, logo vós vingada de minha ousadia em recusar o que generosamente meus pais me haviam dado ao me mandarem para este convento..., castigo sofro por me ter entregue: amante de homem por prazer; entrega nomeada de amor e de amor me haja perdido, diz dona Brites.
Embora..., de prazer me dei e conquistei, desafiando de aparência o mundo e a mim mesma nesse desafio de coragem, inconsciência ou grande tentação de fuga, a única que desde sempre se me deparou. Minha trégua, paz. Limite de mim própria, Senhora Mãe.

Que mulher vós nunca fostes nem eu jamais o serei...
Pouco vos escondo e em nada vós me entendeis. Com esta carta sei apenas conseguir reacender raivas, orgulhos e sentidos de posse sobre mim. Bem me podeis executar, quem me defende? A lei? A que dá aos pais todos os direitos de mordaça, aos machos primazia e à mulher somente o infinitamente menos nada, com dádivas de tudo?
Olhai que não me iludo, Senhora, este convento será meu túmulo, guardião feroz em morte como jamais o foi em meses de fala e agasalho. Que isso lhe é alheio. Me alheio. Permiti-me apenas alheada ficar, só isso peço: deixai-me fiar os dias que me restam com seus fios tecidos hora a hora, em fuso de memória. Assim me encontrastes e quisestes saber os motivos com a certeza deles, primeiro falando-me com azedume, depois com certa brandura, tentando tirar por astúcia aquilo que de mim afinal não consigo esconder. Prefiro o azedume, Senhora Minha Mãe, que a ele estou mais habituada partindo de vossa mercê.
Que mal vos fiz nascendo?
É como se a vossas entranhas tivesse sido obrigada e me gerásseis de culpa, quem sabe..., e bem contrariada, por certo. Gostaria que dissésseis a meu irmão, muito lhe agradecer o não me tornar a chamar ao parlatório; assim me pouparia a penosa resolução de me negar a vê-lo, ou, com total precisão: a ouvi-lo. Os seus assomos de cólera deixam-me num estado de nervos deplorável, não queira ele tornar sua irmã mais desgraçada.
Soubesse ser por amizade que ele o faria..., porém apenas é seu nome que defende, invocando princípios de honra que ora me convencem, ora me aterrorizam.
Comunicai-lhe que o cavaleiro de Chamilly jamais voltará ao nosso país e como de lhe escrever larguei para sempre, não preciso mesmo de meu irmão licença para o fazer, como até aqui; assim ando eu ao mando e ao uso de todos...

Beijo-vos a mão, Senhora Minha Mãe, como prova de grande consideração
Vossa filha dedicada
Mariana
28/Mar/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Fortíssimo perante só o onde ganhar guarida e atingir redondo que o vértice inseguro bem sustenha»

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Sela e Cela
«(…) Eu defendo que na ordem do corpo
o sinal posto brando e alto entre as coxas
não deve levantar-se contra nada.

Palo acendido seco ou mosto (mastro) derramado
as fendas que revolve sempre sangram
e não é nisso o mal.

Exposto é o macho e pode ser de flora sua altura
bolbos de vida tenros os testículos (água de leite vindo)
e tão humildes que a mão os tolhe ou pode decepar.

Fortíssimo perante só o onde
ganhar guarida e atingir redondo
que o vértice inseguro bem sustenha.

Dar de alimento não é ser devorado
e não se volvam por nome do inteiro
a boca de mulher e sua fala em fauces.

Eu defendo
que em tudo está inscrito cunha e cova
na haste e crosta crespa a gota tenra
no redondo do seio o gume de perdê-lo
alguma breve hora.

Assim vos coludindo acaso
esta não sei se ácida per juris causa nostra
baga nova
imponho (tábua ou rosa?):

Amar de amor alguém
côncavo ou exposto
bom montador ou casa (entranha) clausa
é ter em mãos suspensa a sua outra face.
27/Mar/71

Bilhete de Mariana Alcoforado ao cavaleiro de Chamilly
Senhor
Desculpai se vos escrevo sabendo, a razão e o coração mo dizem, quanto alívio sentis em vos afastardes de mim.
Já mar não vos sou nem mesmo mar–iana... nem meu ardor te lembra de fêmea este alentejo aceso ao qual me comparavas o corpo onde passeavas teus dedos em extenuadas tardes...
Porquê meu amor o silêncio a que me votas (de voto estou eu já presa: mordaça posta), silêncio que devoro de angústia. Se de ti não me alimento, que me aguarda?
Desculpai o desvario, desculpai-me a ânsia, não era essa a função deste bilhete, nem foi ele ditado por amor, mas antes imposto pela urgência de pedir que me venhais ver por coisa tão urgente e grave que mais não posso esperar, pois cada dia passado de maior susto me tomo, sem saber como resolver uma situação que não só a mim cabe resolver.
Espero-vos, então, esta noite. Podeis vir tranquilo que não vos aborrecerei com lágrimas ou abraços. Evitarei, juro, as súplicas, a ironia, a memória, meu amor.
Como sempre, esperai junto às grades, dona Brites vos conduzirá até meu quarto, onde aguardarei calma, esperançada que me possais salvar ainda, ou para sempre me condenardes à ira da minha família.
27/Mar/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Senhora Mãe que te achaste sem o saber emprenhada, o ventre vendo crescer…»

jdact

Proposta de mim ao trio
«(…) Meu tudo sei ou sou
de casa e pão
alimento de mim
claridade

Hábito que não visto
de uso ou grão
semente de água pois se de uma
ave

Terra que por posta
vos darei
sabendo bem que dela só se parte
e nada nela cresce se não nasce

Viagem que de mim
vos dou a arte
onde de mim não sei já ser disfarce
24/Mar/1971

Brinco de Freira
mariana ama (o) mal
maria sabe a mar
contra a maré de mariana
quem amaina o sal?

a salto tresmariam malhas
e emigram (dela)
amando mariana queda e mal
marias maridadas cada qual

isolla bella (isolda?) e
teresa da mão leda e
fátima da ácida azinheira

lêem escritos (vaga casa) escrevem marejados
e por ou contra mariana
(asinha como estando com (o) vento
sua cal mareiam.

qual moireja o mal de beja
(paz de jus)
e sua o sal real
a lei das se(i)smarias
léu de povo-rei?

o caldo marinando à vela
desveladas rainhas ramos vigis (por ora) perorando

mariana no horto dado
marias mouras ilhas (telas)
neste sopro de (com) vento airado
dado.
24/Mar/71

Cantiga de Mariana Alcoforado a Sua Mãe

Senhora Mãe eu me sei
em vosso ventre
gerada

gosto de gozo ou silêncio
vossas entranhas gastei
nelas entrando enganada

Ó sina de mágoa imensa
Ó meu labor recordado

Ó sua agonia intensa
Ó vosso parto adiado

medo tristeza e sustento
teu ombro de minha infância

Ausência que foi doendo
como uma pedra engastada
de anel em vosso dedo

Que filha posta em convento
não se quer em sua casa
Senhora Mãe que te achaste
sem o saber
emprenhada

o ventre vendo crescer
sem te sentires
habitada
27/Mar/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

segunda-feira, 18 de março de 2019

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Senhora, a esta hora e neste dia…?! O velho sacerdote não escondia a surpresa por ver Priscila, muito embora a soubesse muito devota e adivinhasse…»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ele não voltará a cometer outra imprudência! Aquela serviu-lhe de lição! Ai estes cristãos! Tão ciosos da sua ética e não são capazes de perdoar! Perdeu o pai…, justificou Flaviano. É compreensível… Mas, no caso, nem de perdão se poderá falar! O meu esposo não cometeu qualquer crime, ninguém imaginaria que um homem tão experimentado pudesse ser tão imprevidente… É verdade…, consentiu, enfadado com o tema. E o bebé, como está hoje?, perguntou, alçando o olho em busca do rosto da criança dormida na alcofa. Quando um novo dia foi fecundado por Hélio, ainda que escondido atrás das intermináveis nuvens grávidas, as rodas de um imponente carro puxado por quatro cavalos estralejaram no piso da Via XIX. Protegida pela cobertura, Priscila entreviu os fios de luz de alguns archotes que se abrigavam por detrás das janelas da mansio de Aseconia, a estalagem à face da estrada que, nas imediações da sua villa, dava guarida aos viajantes. O Império Romano dera ao ocidente uma grande bênção: a rede de vias como nunca houvera conhecido. Fora desenvolvida por necessidades militares e de provimento da posta, e que logo veio a ser aproveitada para o tráfego comercial e social.
Mas não eram as bênçãos do império que motivavam as reflexões de Priscila, Valéria e Flaviano. Dentro do casulo saltitante, os três preocupavam-se em evitar que a chuva entrasse nos precários, embora luxuosos, aposentos e em chegar, rapidamente, a bom porto. A meio de uma manhã pluviosa, como tantas que a precederam, o santuário de Ísis era um lugar praticamente deserto, no cimo de um monte. À medida que se aproximava, ganhava forma um imponente edifício granítico suspenso numa colunata. Priscila conhecia-o de cor. Apreciava o lintel com a figura da deusa e o espaço evocativo da natividade do divino Hórus, com as paredes decoradas com desenhos alusivos às fases desse nascimento junto a várias deidades. Mas, olhando-o de longe, suspenso sobre a vegetação luxuriante e banhada de chuva, pressentiu a magia do lugar, como se houvesse sido ali colocado para lhe tocar a alma. E essa energia irradiava, intensa, daquele espaço sagrado, de intermediação com o divino, despertando o ser espiritual que a habitava.
Quando chegou às portas do templo, apenas se entrevia, sentado, um velho sacerdote calvo, que vivia nas imediações e lhe provia os ofícios e a manutenção. Protegido das fúrias dos céus, soergueu os olhos, em jeito inquisitivo, à chegada dos peregrinos. Fora acordado de um sono profundo pelo tropel dos cavalos governados por Arménio. Recostava-se na cadeira, dentro do edifício principal. Por cima da padieira da porta bailava, ao sabor do vento, uma placa que anunciava: Vendem-se lamparinas, filtros para as libações, filactérios, ex-votos e estatuetas de Ísis. Porém, quando se apercebeu que chegava um carro bem aparelhado, onde reluziam as faleras, os peitorais dos animais, os passa-rédeas de fino recorte, argolas de bronze por onde passavam as oito rédeas do carro, levantou-se como que impelido por uma mola. O sacerdote nunca vira aquela carruagem, uma verdadeira obra-prima, com um elevado nível de perfeição, em que o artista conseguira combinar uma decoração complexa com um vibrante Mercúrio, deus protector dos viajantes. E tinha razão para não a ter visto: fora a prenda que Lucídio Danígico Tácito adquirira para a esposa quando soube da gravidez do primeiro herdeiro. Ela e a criança precisariam de cómodos para viajarem, à altura do prestígio social do dono.
Senhora, a esta hora e neste dia…?! O velho sacerdote não escondia a surpresa por ver Priscila, muito embora a soubesse muito devota e adivinhasse, assim que o enxergou, que aquele carro só aos Danígicos poderia pertencer. É verdade, Feliciano! Os tempos não andam tão favoráveis como esperava… Preciso da ajuda da Senhora dos Céus! Este é o lugar certo! Muito embora o século não esteja lá muito propício aos nossos cultos… Feliciano aproveitou para desfiar o coro das lamentações pelo facto de a seita dos cristãos estar a ganhar cada vez mais adeptos, sobretudo depois da conversão e favores dos imperadores. E de estes se tornarem agressivos opositores dos ancestrais cultos que se velavam naquela terra, desde o tempo em que a velha deusa Nábia fora senhora dos antepassados. E igualmente desde que Ísis ali chegara, vinda do oriente, prometendo aos iniciados a felicidade durante a vida e a salvação na que se lhe seguiria. Essa novidade transformara a deusa que nascera no Egipto numa incansável viajante pelo mundo helénico e romano, adaptando-se permanentemente aos novos tempos, fundindo-se com Demeter de Eleusis, ambas vinculadas ao cíclico renascer da natureza. Aquela que fora a primeira companheira de Osíris, agora de Serápis, mas também infatigável peregrina pelos inúmeros portos do Mare Internum, tocando o coração dos atenienses, gauleses, romanos e, finalmente, dos hispânicos da Península Ibérica, tinha agora concorrência de peso, no que tocava às promessas de salvação para além da morte: a de um outro deus oriental anunciado por um judeu crucificado em Aelia Capitolina, a antiga Jerusalém». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Arménio, a senhora manda aparelhar o carro! Amanhã sairemos bem cedo!, ordenou o ruivo Flaviano, vigoroso, com a mão sobreposta num altar votivo ao deus Júpiter»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Achas mesmo, Valéria? Não tem nada a perder, senhora! Era já minha intenção visitar o santuário de Iria Flavia… Mas tens razão! Apressemos a viagem. Não durmo com receio de perder o meu filho e de desiludir o meu marido. Por aqueles dias, a intempérie estava para durar. A Galécia era pródiga em chuvas, ventos e nevoeiros invernais, mas parecia que Prisciliano convocara para o seu nascimento todas as forças e energias da natureza no estado mais radical. Junto ao mar, Iria Flavia apenas distava doze milhas de Villa Aseconia. Era lá que se erguia o poderoso bastião galaico da deusa egípcia, apesar de ter conhecido melhores tempos, antes da chegada das primeiras baforadas de cristãos à Galécia. Arménio, a senhora manda aparelhar o carro! Amanhã sairemos bem cedo!, ordenou o ruivo Flaviano, vigoroso, com a mão sobreposta num altar votivo ao deus Júpiter. É preciso protegê-la desta maldita chuva. Ainda que jovem, da mesma idade da matrona, Flaviano era o curador da Villa Aseconia.
Nascera na casa de Priscila e o pai fizera questão de que a acompanhasse para a nova residência, juntamente com alguns escravos. Flaviano sempre fora muito chegado à patroa, com quem brincara em criança e que conhecia desde que nascera. Rapidamente conseguiu a confiança de Lucídio, que anuiu à esposa quando esta lhe pediu para o tornar responsável pela administração da villa na sua ausência, após a morte do velho capataz da família. O curador tinha-se levantado do triclínio, após um bem nutrido jentaculum, e atravessara o peristilo, em passos firmes, rumo ao exterior. Sacudindo pedaços de pão agarrados à túnica branca, apressou-se a transmitir as instruções exactas de Priscila a Arménio, o condutor de carros e liteiras.
Está bem!, respondeu, sem entusiasmo. Arménio…!, interpelou Flaviano, com os lábios retorcidos e o cenho franzido. Sim, Flaviano… Esta é a oportunidade de te redimires das tuas imprudências! Não fui imprudente, como sabes! Já discutimos o assunto e terei mais cuidado! Não voltará a acontecer! Arménio era filho de um escravo que morrera tempos antes, depois de atender a uma ordem de Lucídio. O pai subira a uma árvore para retirar um gato que passara dois dias sem comer e beber, num dos galhos mais altos. Quando o tentou apanhar, o ramo quebrou e homem e animal morreram estatelados no chão de pedra. Arménio não mais perdoara ao senhor, remoendo pelos cantos da villa a sua culpa pela morte do pai. Foste, sim! Onde se viu fugir da villa durante tanto tempo?! Sabes que isso é crime e só a boa vontade dos senhores te salvou a pele.
Flaviano decidira manter Arménio debaixo de olho, até porque havia assegurado aos patrões que aquela leviandade não voltaria a acontecer. E a minha palavra?! Não me deixes ficar mal! Não deixarei, descansa! E, como sabes, não viajaste com o senhor para Bracara Augusta, como de costume… Esta é mesmo a tua última oportunidade! Flaviano voltou à sala de estar, onde recebera as ordens de Priscila. A jovem mulher, apesar do parto recente e da debilidade patente no corpo frágil e nos olhos tristes, soergueu a voz, para perguntar em modos suaves, como era o seu timbre: está tudo preparado?! Tudo haverá de ficar preparado, Priscila…, desculpe, senhora! Acabo de garantir que o carro estará pronto à hora certa e que teremos condutor, respondeu o dedicado curador, cobrindo a mulher com um olhar protector. Sim, porque Arménio é o único que temos, de momento… O rapaz está recomposto? Flaviano tossicou para aclarar a voz, mas aproveitou para ajeitar o pensamento à resposta a dar a Priscila». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Um dia, a velha parteira ouviu casualmente as conversas dos escravos. Desde que o pequeno Danígico chegara ao mundo que não parara de chover!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Enquanto os dois irmãos debatiam os valores morais e os princípios a transmitirem aos filhos, um criado veio, silencioso como o vento, anunciar: senhor, está lá fora um enviado de Ithacio com um mandato na mão… Um mandato?! O seu estômago apertou-se e o coração acelerou, enquanto os olhos se abriam e o rosto ruborescia. Um mandato?, continuava a remoer. Algo de grave acontecera ou estaria para acontecer. Sim, ordena que amanhã, depois do prandium, o senhor Lucídio Danígico Tácito se apresente no palácio… Que pretende esse Ithacio?! Nós a falarmos nele e lá aparece a sombra do abutre! O que achas que pode querer, Sabino?! Não sei… Mas coisa boa não será certamente! Esse homem é muito astucioso. Toma cuidado, meu irmão! Lucídio passou a noite em claro. E o caso não era para menos!

Aseconia (Santiago de Compostela)
Iria Flavia (Padrón)
Mais a norte, na Villa Aseconia, a notícia do nascimento do pequeno Prisciliano correra como uma flecha pelas bocas e orelhas dos habitantes. Colonos, criados e escravos bendisseram os deuses pelo bom augúrio dos céus à casa, sinal de descendência para assegurar a grande fortuna dos Danígicos e garantir a vida aos seus habitantes e respectivas gerações. Mas nem todos estavam felizes. Num dos homens da villa habitava um espírito de gosto diferente: o do ódio e da vingança. Passava o tempo a remorder-se com a sua má fortuna e aproveitava as sombras da noite para recorrer à magia negra, conjurando para que a criança não sobrevivesse. Por essa, ou por outras razões certificadas pelo destino, a desgraça abeirou-se, entretanto, da porta de Priscila, tornando-a numa mulher inconsolável. A notícia dos maus presságios correu igualmente por campos e vales, montes e outeiros, até se alojar nos corações dos habitantes da villa com a força de um tição ardente: o pequeno Prisciliano estava doente e definhava, dia após dia.
Valéria, ai que desgraça! Vai morrer o pobre Prisciliano! E nem tenho Lucídio comigo! A anciã suspirou. Afligia-se de remorsos com a cisma de que tivesse cometido alguma imprudência durante o parto e afectado os humores da criança. Mas, recordando cada um dos passos, tudo lhe parecia perfeito! Estava ciente de que, apesar das dificuldades, o parto correra bem. Tal como Priscila, Valéria não mais dormira nas noites que se lhe seguiram. O pequeno, por razões que lhe escapavam, não queria alimentar-se. O pouco leite que engolia era dado à força de muita insistência, e apenas o dos seios maternos. Recusava-se a mamar nos de qualquer escrava, pelo que a mãe vazava o leite para uma tigela de vidro, que Valéria, a muito custo, o fazia engolir.
Um dia, a velha parteira ouviu casualmente as conversas dos escravos. Desde que o pequeno Danígico chegara ao mundo que não parara de chover! Sabendo que Priscila era devota de Ísis, eles murmuravam que tantos dias de chuva só podiam significar as lágrimas da deusa pela má sorte da fervorosa devota e do seu filho. E se Ísis chorava, como chorava desde os tempos primordiais de cada vez que as águas do Nilo transbordavam, lembrando a imensa tristeza pela morte de Osíris, seu eterno esposo, urgia acudir-lhe depressa para apaziguar-lhe os sofrimentos. Talvez fizessem sentido os cicios dos escravos e colonos devotos da deusa oriental, para eles a verdadeira mãe dos deuses, aquela que assegurava a justiça aos pobres e oprimidos e o abrigo aos mais fracos». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

domingo, 17 de março de 2019

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Estivera muito tentado a jogar o jogo dela até ao fim, mas depois poderia ter perdido o alento para a usar da forma que agora pensava fazer. Não conseguiu conter-se. Esticou o braço e acariciou-lhe a face»

Cortesia de wikipedia e jdact

1357
«(…) Agora estaria morto. Não vos ponhais agora com lamechices a fazer-vos de inocente, Melissa. O vosso plano tinha arrojo e coragem, e eu respeito isso. Mas falhastes, o que faz com que a vossa vida me pertença e eu possa dispor dela. Pensei num enforcamento, mas o meu escudeiro convenceu-me que seria um desperdício. Portanto, engendrei um plano para a vossa redenção. Ele aproximou-se e sentou-se no catre, ao lado dela. Como fizestes notar, este cerco tem sido longo e abrasador. Encontram-se aqui muitos homens entediados, e as meretrizes do acampamento…, bem, elas não são a mesma coisa do que ter uma cortesã. Ela arregalou os olhos. Estais a dizer que ides dar-me ao vosso exército? Que esperais que eu… Não ao exército inteiro. Só aos cavaleiros. É asqueroso. O enforcamento também. A expressão dela endureceu de fúria. Ele esperara lágrimas. Ela tinha sangue na guelra. Tinha de admitir isso. Não acredito que o vosso amo, sir Morvan, aprovasse o que planeais. Ele tem reputação de ser um homem honrado. Ele não se importará nem um pouco. Em breve, terei colocado esta torre nas mãos dele e metade do seu exército poderá juntar-se a ele em Harclow. E só isso terá importância. Além disso, salvei-lhe a vida uma vez, portanto está em dívida para comigo.
Ela cerrou os dentes com um controlo vacilante, os seus olhos faiscaram, e depois baixou as pálpebras. Prefiro ser enforcada. Estão ali pelo menos vinte cavaleiros. De qualquer maneira, é provável que me matem. Não se estiverem satisfeitos. De certa forma, estareis a cumprir a vossa missão. Amanhã de manhã rebentaremos com um dos túneis. Até ao meio-dia, eu espero que a torre sucumba ou se renda. Os vossos favores serão recompensa para os meus cavaleiros, e talvez mitiguem a irritação que sentirão por não poderem pilhar aquilo que conquistaram. O olhar dela fixou-se nele. Explodireis o túnel de madrugada? Conto com isso. Estamos a escavar dois. O que fica a sul já chegou à muralha. O olhar dele vagueou até à pele orvalhada do rosto, dos ombros dela e do peito exposto. Ela já não era nenhuma rapariga, mas ele também nunca se interessara muito por raparigas. A ânsia de lamber a sua palidez resplandecente, e a noção de que ela não conseguiria impedi-lo de o fazer, enrijeceram-lhe o corpo. Melissa, a cortesã, estivera certa numa coisa. Ele estava cansado da vida do acampamento e desejava de facto as ilusões do amor cortesão.
Estivera muito tentado a jogar o jogo dela até ao fim, mas depois poderia ter perdido o alento para a usar da forma que agora pensava fazer. Não conseguiu conter-se. Esticou o braço e acariciou-lhe a face. Delicada. Cálida. Inclinou-se e roçou os seus lábios nela. Para uma cortesã, é um castigo leve. Do meu ponto de vista, só há um problema. Ele baixou a cabeça para ela num sorriso. Vós, Melissa, não sois cortesã nenhuma. Sou, pois. Certamente não sois. Já conheci virgens que beijam com mais perícia do que vós. Quem sois vós? Sois da aldeia? Ela assentiu com a cabeça. Então uma jovem matrona decide ser heroína em prol do seu povo. Muito corajoso e notável. O vosso marido sabe que embarcastes neste plano descabido? Sou viúva. Ah! Ainda assim, o vosso homem não vos ensinou grande coisa, pois não? E é esse o problema. O meu escudeiro espalhou a notícia de que tenho aqui uma cortesã. Alguns destes cavaleiros poderiam pensar que estais a insultá-los, ou a guardar o que tendes de melhor para outros. Podem virar-se contra vós. Eu podia explicar o erro, mas então eles podem pensar que eu estou a mentir e que é para mim que vos preservais». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, Edições ASA, 2012, ISBN-978-989-231-672-7.

Cortesia EASA/JDACT

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Ela gemeu e mexeu-se. Ian olhou-a do banco onde estava sentado a comer uma das empadas. Ela estava deitada na enxerga…»

Cortesia de wikipedia e jdact

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«(…) Apócrifos, corrigiu ela absurdamente, com uma voz que parecia vir de muito longe. Não é da Bíblia convencional. É dos evangelhos apócrifos. Que me importa se Deus deu a história a Moisés em pessoa, sua cab… Ele agarrou-lhe no cabelo e pôs-se em pé, obrigando-a a colocar-se de joelhos. Arrastou-a até ao mastro central e atou-a com os braços esticados acima da cabeça. Foi até às peles. Ela tinha a certeza de que ele ia buscar o punhal para lhe cortar o pescoço. O seu coração batia-lhe no peito com uma pulsação de chumbo. Ele regressou com a garrafa de vidro e encostou-a aos lábios dela. Bebei, ordenou.

Ela gemeu e mexeu-se. Ian olhou-a do banco onde estava sentado a comer uma das empadas. Ela estava deitada na enxerga, de braços e pernas afastados e amarrados aos cantos. Ele tinha ponderado tirar-lhe a roupa mas acabara por decidir que poderia ser de mais. Ele queria-a assustada e vulnerável, não paralisada de terror. A luta deles rasgara-lhe o vestido, quase expondo um pequeno e mimoso seio. A saia subira-lhe pelas pernas bem torneadas. Ela tinha um corpo muito bonito, mesmo que algo magro de mais. Pequeno e curvilíneo e compacto e bem-feito como o de Elizabeth era, só que mais jovem. Quando a vira pela primeira vez, em pé à luz ténue, formidável e determinada, com aquele cabelo claro e liso a dar-lhe pelas ancas, pensara por um instante que ela era Elizabeth. Mas o rosto, ainda que bastante belo, nada tinha da perfeição precisa de Elizabeth, e era mais caloroso e expressivo. E o cabelo não era branco como o de Elizabeth, mas de um louro-claro raiado de madeixas prateadas, e a sua pele possuía um agradável brilho rosado. Elizabeth fora branca como a neve. Esta mulher parecia o primeiro sol da madrugada.
Vinte e tais, foi o seu palpite. Adorável e corajosa. Pena ter de a destruir. O seu escudeiro, John, transpôs a entrada da tenda, trazendo consigo um prato de guisado. O jovem tinha tomado o seu tempo para servir a ceia, trazendo uma coisa de cada vez, o que lhe proporcionava uma desculpa para olhar cobiçosamente para a mulher. Os seus olhos voluptuosos examinaram as pernas desnudadas. Era melhor clarificar as coisas agora. Mantém as calças bem apertadas, rapaz. Ela não é para ti. John corou e pousou o guisado. Ian recebeu a pasta sensaborona com uma careta. Felizmente, tinha enchido a barriga com as deliciosas empadas de carne de Melissa. Pegando na última, atirou-a ao escudeiro quando ele saiu. Uma consolação. O prazer que se tira de toda a mulher é muito parecido. O mesmo não se pode dizer da comida. Ela voltou a mexer-se. As suas pálpebras ergueram-se suavemente. Ficou alerta à medida que compreendia a posição em que estava. Deu puxões às cordas que a amarravam, e o movimento fê-la gemer novamente. Então, que tal?, perguntou ele. Nunca ouvi falar de uma poção para dormir que depois não nos desfizesse a cabeça.
O olhar encoberto dela deslizou para o sítio onde ele estava sentado. Por um momento, antes de se recompor, mostrou uma centelha de pânico. Óptimo. Sorte a vossa que não era veneno, acrescentou ele. Eu não tinha uma receita de veneno. Ele resistiu à vontade de rir. Quanta vivacidade. Que pena. Ela conseguiu encolher um pouco os ombros. Já que é óbvio que nunca bebestes uma gota, não teria feito diferença nenhuma. Ela voltou a passar os olhos pelo seu corpo vulnerável. O que ides fazer? Tentou parecer corajosa e imperturbável. Ele sentiu alguma pena dela. Tenho estado a pensar nisso durante estas últimas horas. Estava a postos para vos enforcar quando vós acordastes. Enforcar-me! Sim. Por assassínio. Mas eu não… Tentastes. Não foi bem assim. Perdi a coragem. Tenho um corte no braço que diz que sim. Só porque me atacastes. Se tivésseis ficado a dormir como era devido…» In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, Edições ASA, 2012, ISBN-978-989-231-672-7.

Cortesia EASA/JDACT

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Ele devolveu-lhe o olhar. Olhos negros reluziam perigosos por baixo de copiosas pestanas. Sentiu-se tomada de pânico. Sabendo que agora seria matar ou ser morta…»

Cortesia de wikipedia e jdact

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«(…) Tentou comportar-se como a cortesã experimentada determinada a conduzir o jogo de uma certa maneira. Já acabastes o vosso vinho, disse, fazendo menção de pegar na garrafa de vidro e na taça. Deixai que vos sirva mais um pouco. Carradas dele. Ele lançou-lhe um olhar que dizia que seria à maneira dela, mas não durante muito mais tempo. Regressou para o almofadão e deitou-se. Ela virou-se a tempo de ver a taça nos lábios dele. Tentou impôr controlo ao sangue desassossegado das suas veias. Agora falamos, disse ela com firmeza. Acabai o vosso vinho e dizei-me como viestes aqui parar. Sou eu que falo? Sois vós a treinada na arte da conversação. Sou treinada para ouvir. Os homens gostam de falar deles próprios, e nós ouvimos. Eu não tenho prazer em falar de mim. Falai vós. Eu? Sobre o quê? Podeis falar sobre mim. Podeis dizer-me como sou belo e admirar o meu rosto e o meu corpo. As mulheres fazem sempre isso.
Fazem-no, deveras? Que conveniente ele vir recordar-lhe a sua presunção precisamente quando precisava de ajuda para não gostar dele. Se este garanhão enfatuado esperava vê-la a suspirar pela beleza dele, ele que pensasse outra vez… Ela suspirou, de facto, mas pela inutilidade do rancor que sentia. O vinho devia fazer efeito muito em breve. Deus sabia que ele tinha bebido que chegasse. Com um esgar, virou-se para ele. Os olhos dele aparentavam estar fechados. Ele pegou na mão dela e pousou-a no peito dele, o que fez com que ela se aproximasse um pouco, e ela reparou que as pálpebras dele estavam um tudo-nada abertas e que ele a observava. Não, ela talvez não se importasse minimamente de o matar depois desta humilhação. Ela pôs um sorriso no rosto e começou a traçar com os dedos as linhas dos ombros e dos músculos do peito dele. Dava voltas à cabeça à procura de frases apropriadas. Sem dúvida que sois um homem muito bem-parecido. Olhos muito belos e um sorriso encantador. E o vosso corpo é forte e atlético. Santo Deus, as cortesãs e meretrizes mereciam decididamente cada centavo.
Adormece, seu idiota presunçoso. Não é entroncado e peludo como alguns guerreiros. Do que gostais mais? A voz dele parecia sonolenta e arrastada. Hã…, bem, estas concavidades ao longo da vossa clavícula são muito atractivas. A mão dele ergueu-se, lânguida, e envolveu-se no cabelo dela. Puxou-a delicadamente, encaminhando-lhe a cabeça para baixo. Então beijai-as, senhora. E depois, tudo o resto. Não está o maior talento de uma cortesã na sua boca? Ela apercebeu-se de que o seu rosto estava a centímetros do dele e daqueles olhos ardentes que a olhavam por entre as pálpebras semicerradas. Os seios dela pairavam mesmo acima dele, roçando-o ao de leve, e sentia um formigueiro no seu corpo ridículo, traiçoeiro. Contrariada, dobrou o pescoço e encostou os lábios à concavidade acima da clavícula dele. Pele. Calor. Aquele cheiro masculino inebriante. Uma mão doce, mas dominadora na sua cabeça encaminhava-a mais para baixo, para o peito. Adormece, maldito sejas. Ela beijou-lhe o peito e tentou não prestar atenção à espantosa e assustadora intimidade que tal acção evocava. Ele era o inimigo, um estranho, e ela odiava-o, mas algo dentro dela ignorava isto.
Ele conduziu-a mais para baixo, para o tronco, e barriga… De repente, a mão que tinha na cabeça ficou mole. Ela susteve a respiração e aguardou pela imobilidade absoluta que indicava que ele dormia. Cuidadosa, esgueirou-se para longe do corpo dele. O braço dele caiu, lasso, ao lado do corpo. Puxou para si o cesto e despejou o resto das empadas. Afastou o pano mal cosido que compunha um fundo falso e cravou os olhos no punhal de aço escondido por baixo dele. Por Alice e as outras mulheres. Sim, até por Margery. Por Reginald, e até mesmo por Thomas. Pegou no punhal. Olhou com pena para o belo homem ali deitado como uma vítima sacrificial sob o efeito de drogas. Pareceu-lhe indefeso, assim de repente, a dormir como uma criança e, subitamente, ela imaginou-o como tal, fresco e inocente. Sentiu um aperto no coração, que se revoltava contra o rumo que ela havia traçado para si própria. Ergueu o punhal, agarrando-o com ambas as mãos, a ponta letal apontada ao coração dele. Os braços dela tremiam, o corpo dela tremia, a própria lâmina oscilava no ar. Ela tentou novamente encontrar coragem no medo que sentia pelos amigos. Quando isto não resultou, virou-se para o medo que sentia por si própria. Os olhares de suspeita e as acusações. A carta do bispo. Os livros e plantas e poções. Deixara de ver o punhal, mas este surgiu, de repente, à sua frente, muito real, muito afiado. Ela olhou para os nós dos dedos cerrados à volta do cabo, depois para a ponta, e depois para o peito sólido. Por fim, olhou de relance para o belo rosto.
Ele devolveu-lhe o olhar. Olhos negros reluziam perigosos por baixo de copiosas pestanas. Sentiu-se tomada de pânico. Sabendo que agora seria matar ou ser morta, ergueu-se nos joelhos e fez o punhal seguir o seu curso. Uns braços fortes ergueram-se de rompante e uns dedos de ferro agarraram-lhe os pulsos. Ele atirou-a para o lado e ela caiu. Na luta que se seguiu, a lâmina tocou-lhe e um fio vermelho escorreu pelo braço dele. Ela deu por si deitada de costas e imobilizada. O rosto que via à sua frente estava endurecido pela fúria. Achastes mesmo que eu seria um Holofernes para a vossa Judite?, rosnou ele. Era esse o plano, não era? Como nos evangelhos bíblicos. Matais o general e o exército sem líder dispersa em confusão». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, Edições ASA, 2012, ISBN-978-989-231-672-7.

Cortesia EASA/JDACT