sábado, 21 de outubro de 2017

Mentiras de Guerra. 1133-1134. Domingos Amaral. «Zhakaria acalmou-lhe a angústia: as princesas Fátima e Zaida continuavam vivas, mas também prisioneiras de Ibn Henrik, nome que os muçulmanos davam a Afonso Henriques»

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Serra Morena (perto de Córdova). Fevereiro de 1133
«(…) A morte e a tragédia ensombravam a história dos Benu Ummeya. No presente, restavam apenas as duas princesas, presas em Coimbra. Os épicos sonhos do passado, a quimera de ressuscitar o glorioso califado de Córdova, sempre alimentada por Taxfin e Zulmira, não passava agora de uma fantasia cruel. Aquela espantosa família, que durante trezentos anos reinara em toda a Andaluzia, perdera a força vital, pois o maldito califa Ali Yusuf aniquilara os seus pilares. Que podia Abu Zhakaria contra aquele almorávida asqueroso e vingativo? Ou contra o emergente poder de Afonso Henriques no Condado Portucalense? A sua derradeira esperança era o actual governador de Córdova, Ismar, um árabe andaluz que conhecia os seus esforços para resgatar as princesas. Será que ele ainda se lembraria de Abu Zhakaria, o fiel ajudante de Taxfin? O poder mudava os homens. Sendo Ismar o actual wali de Córdova, não era certo que o auxiliasse, pois provavelmente tinha excelentes relações com Ali Yusuf. Mais um que se vendera? Abu não sabia, mas Ismar era a sua última esperança.
Nas taifas de Badajoz, Mértola ou Sevilha, os governadores eram berberes, almorávidas leais ao califa. Qualquer menção à reabilitação da família Benu Ummeya equivalia a uma condenação à morte. E mesmo noutras cidades, como Beja, Lisboa ou Santarém, eram curtos os apoios para a romântica causa da ressurreição do califado de Córdova, poucos mostravam coragem para se opor ao invencível e aterrorizador califa de Marraquexe. Zhakaria desmontou e apreciou Hisn Abi Cherif. O pequeno castelo estava limpo, as árvores podadas, a lareira acesa, saía fumo da chaminé. O guerreiro cordovês concluiu que a velha criada de Zulmira continuava viva precisamente no momento em que ouviu uma voz, nas suas costas. Não as trazeis de volta. Abu voltou-se, de mão no cabo do alfange, mas logo o largou ao ver que quem lhe falava era uma mulher idosa e curvada, de andar lento e olhar vago, que se aproximou dele e perguntou, preocupada: morreram?
Zhakaria acalmou-lhe a angústia: as princesas Fátima e Zaida continuavam vivas, mas também prisioneiras de Ibn Henrik, nome que os muçulmanos davam a Afonso Henriques. A região a sul de Coimbra estava a ferro e fogo e Zhakaria já não tinha com que pagar aos seus desleais mercenários. Aqui não há ouro, murmurou a criada. Era uma mulher mirrada pelo tempo, com milhares de rugas na pele e o pescoço seco e rugoso, como o de uma galinha. Usava um lenço na cabeça e os seus olhos baços não pareciam fixar o interlocutor, provavelmente já mal o via. Quando Abu manifestou a esperança de convencer Ismar a ajudá-lo, ela deu a sua condordância. É dos nossos. Sentaram-se num banco corrido, no pequeno pátio da alcáçova. O antigo ajudante militar de Taxfin perguntou se era verdade que Sohba, a velha mulher de negro que vivia perto de Soure, era a irmã gémea de Hixam de Hisn, sendo, portanto, tia das princesas. Não sei, há tanto tempo que não a vejo, respondeu a criada. Décadas antes, a gémea de Hixam de Hisn, convencida de que possuía artes mágicas, estivera na origem do acidente que vitimara o seu irmão, pai das princesas. Ao explodir bolas de fogo, assustara o cavalo, que se empinara, atirando ao chão o cavaleiro. A queda partira o pescoço de Hixam de Hisn, que morrera sem sequer soltar um grito, para grande tristeza de Zulmira e suas filhas. A velha criada suspirou: depois desse terrível dia, Sohba fugiu para os píncaros desta serra, a que chamam Morena». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Vitória do Imperador, Casa das Letras, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-461.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Mentiras de Guerra. 1133-1134. Domingos Amaral. «Quando um dia ouviu, no conselho municipal, alguém sugerir que se fizesse a paz com Afonso Henriques, pagando-lhe até um tributo, o cordovês suspeitou»

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Serra Morena (perto de Córdova). Fevereiro de 1133
«Ao entrar pelo portão do Castelo de Hisn Abi Cherif, o cordovês Abu Zhakaria comoveu-se ao reparar nos canteiros de flores que cercavam a pequena torre de menagem. Tal corno da última vez que ali estivera, sete anos antes, continuavam repletos de belas e coloridas plantas, sinal de que alguém os cuidava em permanência. Fora naquele local que Taxfin, segundo marido de Zulmira, o obrigara a prometer que traria de volta Fátima e Zaida, prisioneiras dos cristãos. Desconsolado, o cordovês recordou o seu falhanço. Os fundos que Taxfin lhe colocara ao dispor, tão vastos há sete anos, haviam sido consumidos a alimentar uma companhia de mercenários que, sendo exímia a matar cristãos em campo aberto, não possuía força suficiente para invadir Coimbra e resgatar as princesas.
A somar à fraqueza financeira, a situação política em Santarém alterara-se. A lendária paixão de Abu Zhakaria por Fátima, geradora de admiração e respeito no povo, tinha como alto preço a desconfiança com que o miravam os influentes da cidade. Para forte azar, o seu único aliado, o governador de Santarém, morrera no final do ano passado. O posto de wali de Santarém permanecia vago. Ali Yusuf, que governava o califado a partir de Marraquexe, não parecia preocupado em nomear sucessor, vivendo Santarém ao sabor dos interesses das principais famílias da região, para quem Zhakaria não passava de um inútil subversivo. Abandonado pelos mercenários a quem deixara de pagar e sem apoios relevantes na cidade, Abu depressa percebera que teria de regressar a Córdova, à procura de novos aliados, pois os fossados de Peres Cativo aproximavam-se perigosamente de Santarém, aumentando o alarme social.
Quando um dia ouviu, no conselho municipal, alguém sugerir que se fizesse a paz com Afonso Henriques, pagando-lhe até um tributo, o cordovês suspeitou de que os assustados notáveis da cidade facilmente o entregariam ao príncipe de Portugal, como prove de boa vontade. A fúria perdera-se, concluíra Zhakaria. No Verão anterior, degolara uma companhia inteira de galegos, deixando nove deles empalados junto ao rio Nabão e enviando o décimo até Soure, numa provocação maliciosa aos cristãos. Com essa exibição bárbara e fútil, o seu prestígio em Santarém ensombrara-se e, mal faleceu o governador, viu-se solitário e cercado de hostilidade.
Desanimado, metera-se a caminho de Córdova, sabendo a tristeza que iria causar a Fátima mal ela soubesse do seu abandono. Tantos anos separados e ainda a amava! Desde que ela ficara refém, apenas a vira por duas vezes, em Soure e em Coimbra, quando estivera bem perto de resgatar as duas irmãs mouras. Apesar disso, o amor resistia dentro dele e recordava com intensidade a profecia de Tarfin de que um dia Zhakaria se casaria com Fátima ali, em Hisn Abi Cherif! Pouco antes de chegar ao portão do belo e originai castelo de arenito vermelho, perdido nos contrafortes da serra Morena, passara perto de um pequeno mausoléu, o túmulo dos Benu Ummeya, onde sabia repousarem os restos mortais de vários elementos da família. Lá estavam enterrados Hixam III, o último califa de Córdova, bem como o seu filho, Hixam de Hisn, primeiro marido de Zulmira e pai de Fátima e Zaida. E lá estavam também Taxfin, antigo governador de Córdova e segundo marido de Zulmira, bem como esta última, que, depois de assassinada em Coimbra, fora para ali trazida pelo almocreve Mem». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Vitória do Imperador, Casa das Letras, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-461.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

A Vitória do Imperador. Domingos Amaral. «Falemos de festas! Como será o Natal por cá? Tenho soldadeiras novas com quem me rebolar? Ou preciso de marchar a Coimbra, para convencer a Zaida?»

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Guimarães. Dezembro de 1130
«(…) Zaida e Fátima, duas excêntricas raparigas que nos fascinavam, eram netas do último califa de Córdova e estavam há catorze anos prisioneiras em Coimbra. Se eu casasse com uma delas, os nossos territórios seriam muito mais vastos!, exclamou Afonso Henriques. À volta da mesa, ninguém o apoiou. Tal como, quatro décadas antes, o casamento do imperador Afonso VI com a princesa Zaida de Sevilha fora considerado uma inaceitável blasfémia, também qualquer futuro enlace entre o príncipe de Portugal e uma princesa de Córdova era visto com forte suspeita e julgado uma quimera inviáve1. Só se fosse com a Fátima, a Zaida está cativada! A súbita indignação de Gonçalo Sousa não me surpreendeu: ele há muito que se dizia enamorado da mais nova das princesas mouras, com quem queria casar. Alto mas feio, com um nariz demasiado largo, um queixo volumoso e umas sobrancelhas peludas, Gonçalo combatia a sua desvantagem física com uma impetuosidade atrevida e um humor brejeiro. Sempre que chegava ao pé de algum de nós, perguntava, então, tudo espeta?, o que provocava risos imediatos.
Além disso, apanhava agora o cabelo escuro num rabo-de-cavalo, o que lhe dava um toque de rebeldia e um ar desafiador que seduzia muitas mulheres, apesar de ele dar sempre a primazia à princesa Zaida, que jurava nunca esquecer. Serei o seu primeiro homem!, exclamou, orgulhoso. Um pouco mais nova do que nós, Zaida ainda era virgem e Gonçalo vangloriava-se da promessa que ela lhe dedicara de ele ser o seu desflorador, desde que a levasse de volta à sua Córdova natal. Com a Fátima não me posso casar..., afirmou o príncipe, irritado. Recordei-me do feitio quezilento da irmã mais velha de Zaida, sempre agreste e combativa, que proclamava odiar cristãos. Essa cortava-vos a gaita!, avisou Gonçalo. Este comentário jocoso provocou uma bem-vinda gargalhada geral, mas também a desaprovação de Teresa Celanova e um aviso sobre a inadmissibilidade de tal palavreado. Perante a reprimenda, aquele rezingão justificou-se depois de beber mais um gole do saboroso vinho da Galiza que a esposa de meu pai nos servira: bela Teresa Celanova, desculpai-me, mas estou farto de tanto desgosto! Falemos de festas! Como será o Natal por cá? Tenho soldadeiras novas com quem me rebolar? Ou preciso de marchar a Coimbra, para convencer a Zaida?
Aquelas constantes referências às princesas fizeram-me também recordar a sagrada relíquia da Terra Santa que os templários de Soure procuravam há vários anos. Há novidades do Ramiro?, perguntei. Afonso Henriques abanou a cabeça. Ramiro, o filho bastardo de Paio Soares que se alistara na Ordem do Templo de Salomão, fora encarregue pelo príncipe de descobrir o paradeiro do valioso tesouro de Jerusalém, mas não obtivera quaisquer resultados na sua secreta missão. Além disso, Ramiro fora também incapaz de encontrar a misteriosa Sohba, desaparecida tempos antes. Tia das princesas Zaida e Fátima e filha do último califa de Córdova, Sohba era a mais velha representante da família Benu Ummeya, antiga detentora do trono daquela cidade islâmica. Por obscuras razões que ainda desconhecíamos, a velha mulher de negro era a única a conhecer o esconderijo da relíquia sagrada, mas evaporara-se num golpe mágico». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Vitória do Imperador, Casa das Letras, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-461.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A Vitória do Imperador. Domingos Amaral. «Só me curei com uma longa viagem. Andei três anos pelo mundo, como um sonâmbulo pela noite, contou ele. No mesmo ano em que o conde Henrique morrera…»

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Guimarães. Dezembro de 1130
«(…) Tal como meu pai, meu tio era um homem de média estatura, com os cabelos já acinzentados. Com mais de quarenta anos, nos seus olhos escuros e baços notava-se a desilusão dos tristes, embora o seu sorriso pacífico revelasse uma aceitação serena das agruras com que a vida o brindara. A sua esposa acompanhara-o apenas dois anos e só a Virgem Maria sabia o quanto chorara a sua prematura morte. Vi, pelo canto do olho, meu pai confirmar com um aceno de cabeça. Os irmãos Moniz não só eram fisicamente parecidos, como partilhavam uma solidariedade pesarosa, pois a prematura viuvez de ambos era resultado de doenças inesperadas das respectivas mulheres. Fiquei louco de tristeza, confessou meu tio. Pensei em morrer também, para me juntar a ela no Céu. Associei aquele pensamento lúgubre à partida súbita e fatal de sua filha Raimunda. Talvez esta tivesse herdado do pai uma propensão pelos abismos negros, acrescentando-lhe a trágica vontade para executar um acto tão extreemo que meu tio nunca tivera.
Só me curei com uma longa viagem. Andei três anos pelo mundo, como um sonâmbulo pela noite, contou ele. No mesmo ano em que o conde Henrique morrera, tinha Afonso Henriques três anos e eu quatro, Ermígio Moniz partira para um demorado passeio que o levara primeiro por terras de Hispânia e depois pelos mares mediterrâneos. A vossa prima foi o fruto dessa peregrinação. Trouxe-a no regresso e tentei educá-la, mas também ela se entregou a Deus. Mirou Afonso Henriques e no seu olhar não existia nenhuma recriminação ou indício de atribuição de culpa, pois não considerava o príncipe responsável pelo suicídio de Raimunda. Com um suspiro compreensivo, interrogou-se: quem somos nós para entender o mistério da vida e da morte? Porque se matou Raimunda? Porque não foi bem-amada por mim, seu pai? Talvez... Nunca soube como falar com ela. Meu tio sempre tratara a filha com alguma distância, mas isso era habitual com os bastardos e as bastardas. Agora que ela já não estava entre nós, admitia a possibilidade de lhe ter falhado com algo, carregando a tormenta póstuma de um progenitor alheado.
Não me lembro de a ter abraçado uma única vez, depois, olhando de novo para o príncipe, murmurou: como vedes, não sois o único a sofrer com as mulheres. De repente, Afonso Henriques ergueu a sobrancelha, pois nascera nele um laivo de curiosidade. Como morreu a mãe dela? Meu tio Ermígio torceu o rosto num esgar, como se lhe causasse dor ter de revisitar tempos antigos. Mas respondeu: ao dar à luz. Tanta parcimónia descritiva não satisfez Afonso Henriques, que quis saber quem era ela e onde meu tio a conhecera. O príncipe parecia pela primeira vez interessado numa história exterior a si mesmo e Ermígio Moniz lá acabou por narrar o nascimento de minha prima. Partido de Lamego, meu tio rumara a Compostela, visitara Leão, Sahagún e Toledo. Depois, descera a terras muçulmanas, a Oreja, Jaen, Sevilha, Córdova e Mérida, e por lá conhecera uma rapariga tímida, mas muito carinhosa, a quem se afeiçoara.
Dominado pelos imperativos masculinos, curou com ela uma parcela do seu anterior desgosto e, embalado por aquele doce interregno de ternuras, não pensara em partir até ao dia em que foi surpreendido pelo inesperado desaparecimento da moça. Permanecera semanas no local, sempre à espera de que a jovem reaparecesse, mas, como isso não aconteceu, foi forçado a recomeçar a sua viagem. Conhecida a Andaluzia árabe, subira a Saragoça e a Barcelona, onde apanhara um barco até Roma. Mais de um ano depois, quando se sentiu em paz e aceitou finalmente o seu destino inglório de viúvo, decidiu regressar e, como sempre acontece com os homens tristes que se apegam a uma mulher, voltou à cidade onde se sentira bem. Contudo, o destino presenteou-o com novo desgosto, quando encontrou na casa onde estivera apenas uma velha criada, com uma criança nos braços, órfã da mãe que a gerara.
Foi um segundo e cruel sofrimento. Como a idosa ameaçava entregar a menina, meu tio tomou posse da bastarda e regressou ao Condado Portucalense. Tentei tudo para que Raimunda fosse feliz, a viver convosco, seus primos, disse Ermígio Moniz, olhando para mim. Ainda curioso, o príncipe perguntou: como se chamava a mãe dela? A falecida respondia pelo nome de Aqsa e logo Afonso Henriques quis saber se era moura, o que meu tio confirmou. Antes do desaparecimento, haviam combinado que ela se converteria ao cristianismo, se ficassem juntos, coisa que nunca aconteceu. Ao ouvir isto, o príncipe de Portugal afirmou, num timbre solene que sempre usava quando falava do seu famoso avô: o imperador Afonso VI também casou com uma moura chamada Zaida de Sevilha! Talvez devesse fazer como ele e desposar uma das princesas andaluzas que continuam presas em Coimbra!» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Vitória do Imperador, Casa das Letras, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-461.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

A Vitória do Imperador. Domingos Amaral. «E agora a desmiolada da Chamoa faz-me isto! Emprenha do primo quando finalmente se podia entregar a mim?»

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A profecia da Normanda. 1130-1131
«(…) Jamais vos perdoarei! Ide-vos embora, não vos quero em Guimarães! Ide para Tui, parir junto a quem vos emprenhou! Em passada larga, avançou para a porta do quarto, mas Chamoa, que era uma rapariga orgulhosa e lutadora, embora muitas vezes também uma infantil tola, indignou-se, levantando-se da cama aos gritos: quem sois vós para me tratardes assim, como se fosse um monstro? Não vos lembrais do que haveis feito a meu marido? Ao escutar a acusação que ela lançava, que sabíamos verdadeira, o príncipe parou, de costas voltadas para Chamoa. Maria e eu mantínhamo-nos em silêncio, sem saber o que dizer. Sentindo que talvez o tivesse amansado, a minha cunhada insistiu: perdoai-me, Afonso. Como vos perdoei terdes morto meu marido, Paio Soares. Por isso, vim ter convosco. Se quiserdes, desfaço-me desta criança que cresce no meu ventre! Faço-o por vós, meu amado!
Um arrepio gelado percorreu-me a espinha. Havia quem anulasse os filhos ainda por nascer, mas a ideia horrorizava-me e o meu melhor amigo também não a aprovou, pois declarou, sem sequer encarar Chamoa. Jamais aceitaria o sacrifício de uma criança para ter o vosso amor, mulher desmiolada. Ide-vos embora e depressa! Nessa tarde, uma chorosa Chamoa abandonou Guimarães na companhia de sua irmã e eu fui com elas levá-la a Tui, onde viviam os pais de ambas e os três pequenos filhos da minha cunhada. Aquele vibrante e intenso amor durara apenas uma curta semana e agora o relacionamento entre o príncipe e Chamoa regressava ao estado de trepidação e desequilíbrio que sempre o caracterizara. Desiludido e magoado, o meu grande amigo Afonso Henriques recomeçou a dizer que desprezava as mulheres, o que levou a mulher de meu pai, Teresa Celanova, a resmungar certo dia: por causa de uma, pagamos todas!

Guimarães. Dezembro de 1130
Quando eu e Maria regressámos de Tui, onde havíamos deixado Chamoa, o príncipe de Portugal permanecia macambúzio. Fechava-se longas horas no quarto sem falar com ninguém e dava lentos e solitários passeios de roda da alcáçova, olhando o horizonte com desalento, como se a sua salvação estivesse numa qualquer nuvem, que, porém, se afastava no céu, levada pelo vento da injustiça. Teresa Celanova bem o tentava animar com os seus repastos. Mandava vir marisco do Porto ou pescado de Vila do Conde, assava carnes sumptuosas, caçadas nas serranias do Marão, mas nada minorava as dores amargas de Afonso Henriques, nem sequer a presença do folgazão Gonçalo Sousa, nosso habitual companheiro de patuscadas.
Quando o entristecido príncipe se dignava a falar, o alvo dos seus desanimados queixumes eram as mulheres. Naquela tarde, enquanto trinchávamos um saboroso javali à roda da mesa, saiu-se com esta: também minha mãe me desprezou. Mesmo no dia da sua morte, recusou dar-me a mão! Passada essa funda revolta com a maternidade desleixada de dona Teresa, virou-se contra Deus, que supostamente lhe amaldiçoava os enamoramentos. A somar às peripécias com Chamoa, a minha prima Raimunda, que fora o seu primeiro amor, atirara-se de uma ponte, mas ele nunca se considerara culpado do desgosto da rapariga. Para o meu melhor amigo, mulher que o amasse uma vez tinha de o fazer a vida toda, mesmo que não fosse amada de volta.
E agora a desmiolada da Chamoa faz-me isto! Emprenha do primo quando finalmente se podia entregar a mim? A sua voz enrouqueceu e a raiva foi mitigada por uma névoa de desilusão, que tentou afastar com mais uma proclamação excessiva. Não tenho sorte com as mulheres! Eu não o contestei, pois sabia que os seus desabafos magoados eram o fruto incómodo de uma aguda dor de cor…, que aos vinte e um anos se sobrepunha naturalmente à fina lucidez, mas Teresa Celanova rebateu estes desanimados argumentos, apresentando uma razão religiosa. Tendes de saber perdoar, príncipe, assim nos ensina Deus. O seu pedido caiu em saco roto, pois o meu amigo recusou cumprir as leis terrenas da Providência e persistiu na sua teimosia acintosa. Jamais ficarei com mulher usada por outro!, declarou, acrescentando um novo lamento. As mulheres só me causam sofrimento. Cansado com a permanente repetição desta ladainha, o meu tio Ermígio Moniz tomou coragem para lhe recordar que, antes dele, muitos homens tinham passado por idênticos sofrimentos. Olhai o meu caso, todas as mulheres que amei me morreram, recordou em voz solene». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Vitória do Imperador, Casa das Letras, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-461.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Respondeu-me que não tem outros sonhos. Disse-lhe que tinha agora a oportunidade de aprender a sonhar. Disse-lhe que viajasse»

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«(…) Ou mesmo antes: lia para ela através da barriga da mãe. Leio-lhe os livros de que ela mais gostava: A Sereiazinha, A Rainha das Nevese, A Menina dos Fósforos, de Andersen. Ou O Jardim Misterioso e A Princesinha de Frances Burnett. Ou A Menina do Mar e O Rapaz de Bronze de Sophia de Mello Breyner. Tantas vezes adormeceu antes que eu terminasse. Dou-me bem com as palavras, porque lhes conheço o antídoto: a música. Componho. Sei pôr a música na letra. É isso que me invejam: a melodia. Canto enquanto caminho debaixo da chuva. Gosto da chuva morna de Lisboa, do modo como ela se alia ao vento para combater os seus infiéis, virando guarda-chuvas, fazendo com que as pessoas sejam obrigadas a dançar. Os portugueses, de um modo geral, não gostam de dançar. Mesmo os que dançam, não chegam a desconcentrar-se o suficiente do corpo para poderem levitar. Temem o ridículo. Olham demasiado uns para os outros. O vento de Lisboa ri-se da compostura dos humanos. O vento de Lisboa ri-se no meio do choro da chuva. Foi com ele que aprendi a rir; rio-me porque as minhas mãos salvam, rio-me porque nunca sou eu quem morre, rio-me porque nunca tenho a culpa da morte dos que me morrem nas mãos, já que o cancro pertence ainda à categoria do incurável. O riso brilha mais rodeado pelo seu reverso, o riso brilha ainda mais quando é secreto, como o meu. Digam o que disserem, a luz de Lisboa só é especial quando chove. Com sol, qualquer cidade é bonita, é como a juventude nas mulheres. Difícil é manter o halo da beleza quando a cinza cobre tudo. É esta a dificuldade que Lisboa ultrapassa, como se nada fosse. Canto a sensação do dever cumprido. Canto porque a música não tem segredos para mim. Se tivesse uma grande voz, teria sido só mais um grande cantor. Um canário adestrado, às ordens da populaça. Demorei décadas a construir a minha voz. Um fio de voz, que sabe substituir a amplitude pela densidade. As mulheres dizem-me que a minha voz vem melhorando com a idade. É verdade, mas finjo que não acredito, digo-lhes que é uma ilusão simpática dos seus ouvidos. As mulheres gostam que tudo se relacione com elas. As mulheres gostam que tudo se relacione. Como se não pudessem existir sem relações. Lisboa é muito mulher nesse aspecto: nunca existe sol ou chuva sem vento, nunca existe a beleza pura, sem uma prega humana, um pedaço de lixo a voar, nunca existe uma rua perfeita sem uma casa apodrecida cintilando algures no meio dela como um fio de sangue. É também por isso que gosto tanto de ser homem. Os cabelos brancos favorecem-me. A capacidade de separar a doença da pessoa que a possui joga a meu favor. Ajuda-me a ser melhor médico. Hoje consegui salvar um burlão milionário, coleccionador de relógios de luxo, falências fraudulentas e cargos públicos. Hoje vinguei-me generosamente da rapariga que matou o meu coração de rapazinho tonto. Hoje consegui convencer uma jovem nadadora de que não vale a pena sacrificar-se a tentar melhorar os tempos, porque não lhe resta mais do que um ano de vida. Disse-lhe que aproveitasse para realizar outros sonhos.
Respondeu-me que não tem outros sonhos. Disse-lhe que tinha agora a oportunidade de aprender a sonhar. Disse-lhe que viajasse. Que namorasse. Que cantasse. Disse-lhe que tem uma voz bonita. Cantei com ela. A canção resultou. Resulta sempre. As mulheres gostam de canções. Música e letra. Relação. O barulho das vozes dos amigos sossega-me. Não o que eles dizem. Às vezes nem os ouço. Não é para nos ouvirmos que nos encontramos, apenas para estarmos juntos. Cada um de nós é uma trave mestra da casa que somos todos juntos. Augusto, Guilherme, Filipe, Pedro e eu. Bichos iguais a mim, familiares e contraditórios. Conhecemo-nos há décadas. Nunca entendemos o futuro como uma viagem marcada a um lugar conhecido. É nisso que somos iguais. Repudiamos a filosofia turística que se foi tornando esmagadora neste início de milénio. Gostamos muito de mulheres, o que faz de nós uns bárbaros, agora que as mulheres não podem ser admiradas como enigma e maravilha conjunta. Cada um por si e um minuto de televisão para todos. Somos libertários e conservadores, cavalheiros e carroceiros, apreciamos um sentido de tribo que já não se usa nem se defende, a não ser forrado de penas e cercado por cubatas. Sabemos destrinçar o bem do mal, separar as espinhas de uma cabeça de peixe, dizer se um vinho presta só pela cor e pelo cheiro, chegar ao osso de um leitão. Guiamo-nos por saberes arcaicos sem nos rendermos ao engodo do arcaísmo que encandeia a era em que nos coube nascer. Gozamos o privilégio de existir num país amestrado pela liberdade, embora cerimonioso e parco com ela». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Gosto de simplificar. Os tumores têm essa característica: são simples. Benignos ou malignos. Matamo-los ou matam-nos»

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«(…) Porque detém o privilégio da razão, e não o usa como deve, é o que dizem. Racionalidade é o que demonstra um leão quando mata um veado para se alimentar, a si e à sua família. Trata dos seus interesses e da sua preservação. Um homem que se lança para dentro de um prédio em chamas para salvar desconhecidos, incluindo animais, se os houver, não age racionalmente. Observo mais razão do que sentimentos na acção de um gato. O social é incompatível com o racional, e a sociabilidade dos homens tem aumentado pelo menos tanto quanto o buraco do ozono. Os seres humanos são dependentes uns dos outros. Cada vez mais dependentes. Incluindo os melancólicos ensimesmados, como o meu amigo Pedro, que exibe uma armadura de desdém por qualquer multidão constituída por duas pessoas. Estende a idade pueril sobre as escarpas da sua biografia e pedala na sua bicicleta de rodinhas, imune às desventuras que cobrem as bermas do seu percurso absorto. Desde que se oficializou como fenómeno psicológico, a infância tornou-se duradoura. Substitui-se aos casamentos, que vêm com um arsenal de regras que já ninguém tem paciência para cumprir. É muito mais fácil sermos responsáveis pela qualidade da água e do ar e do solo e não sei mais o quê do que por um juramento de fidelidade. Criámos a era das responsabilidades impossíveis. Da bondade abstracta. As abstracções provocam-me um tédio avassalador.
Gosto de simplificar. Os tumores têm essa característica: são simples. Benignos ou malignos. Matamo-los ou matam-nos. Quanto mais jovem é a vítima, mais veloz é a propagação das células cancerosas. Os tumores mostram-nos as vantagens do envelhecimento. São praticamente a única coisa viva que respeita a idade e desacelera por causa dela. Nos organismos velhos, as células malignas são mais lentas. Essa é uma das belezas da oncologia. A outra é a simplicidade. A heurística médica manda-nos seguir a lei da navalha de William of Occam: quando várias soluções são possíveis, devemos escolher a mais simples. Palavras, conceitos e suposições não devem ser usados mais do que o estritamente necessário. Só um cérebro disciplinado na clareza pode chegar ao diagnóstico exacto. Os erros existirão sempre. São compensados pela gratidão dos doentes que sobrevivem. A forma como se entregam nas nossas mãos. Já só os doentes se sabem entregar, pôr toda a sua esperança e desespero à mercê de alguém.
Por isso pouco me importa que me chamem vaidoso. A vaidade que me atribuem é uma espécie de antecâmara da admiração que os meus pares me dedicam. Custa-lhes admitir que sou de uma competência extrema quando se trata de anunciar a morte aos meus pacientes. Dou prelecções sobre o assunto. Pagam-me para ensinar o melhor método de dizer a uma pessoa que o seu futuro acabou. Tenho aquilo a que a Leonor, ao princípio, chamava o dom da consolação. Ou a habilidade de apontar caminho para a aceitação, que é mais ou menos a mesma coisa. Os calhamaços de medicina não servem para isto. Não é uma questão de palavras. As palavras são sempre pedras, pedaços de fronteiras. Servem para separar, para rasgar. Podem ser plagiadas, decalcadas como passaportes falsos. Nunca enganam por completo. Nunca revelam a verdade toda. Mudam com o sotaque, a voz, a ordem na frase, o esforço. Gosto de ler em voz alta. Leio todos os dias à minha filha um capítulo de um livro. Sei que ela não me ouve. Ouço-me eu, a ler para ela. Comecei a ler-lhe desde que nasceu». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Curei-me por causa do que sofri por esta mulher. Horas infindáveis de solidão com as agulhas do ciúme moendo-me pele e vísceras e crânio e coração»

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«(…) As suas mãos estão a tremer, doutor. Passa-se alguma coisa? Passa-me o bisturi e cala-te. Passa-se que em vez de uma enfermeira experiente, serena, calada, que me ajude, tenho de dar aulas práticas a estagiários como tu, pesporrentes e palradores, ao mesmo tempo que tento livrar do mal a mama de uma mulher. Com cuidado. Com as mamas é preciso um cuidado particular. Não é só uma mama, lembra-te disso, por favor, Afonso. É a minha auto-estima. Por favor, Afonso. Uma das vantagens de se nascer homem é não centrar a auto-estima nas mamas, à mercê de qualquer azar do destino. Um homem não tem de pedir que, por favor, lhe poupem a auto-estima. Um homem ri-se da palavra auto-estima. Auto-estima nem sequer é uma palavra: é um adereço, um postiço de salvação. Um airbag. Em forma de mama. A cabra. A sonsa. A traidora. Agora em versão chorosa. Por favor, Afonso. Em nome do que vivemos. O que vivemos não é para aqui chamado. Se eu quisesse lembrar-me do que vivemos, teria de me lembrar do dia em que tu me disseste que precisavas de um tempo de pousio. E então lembrar-me-ia de que uma semana depois te encontrei pousada no colo de outro. Éramos garotos, Afonso. Foste o meu primeiro amor. Tanto desces por causa de uma mama, Elisa? Tentarei salvar-te a pele. Evitarei as cicatrizes. Sei que é injusto que as mulheres sejam discriminadas pelas cicatrizes. Sei também que é injusto que aos homens se exijam cicatrizes. Para mim, agora, és só uma doente. Mais uma. E isso é bom para ti, bom para a tua auto-estima mamária. Porque eu sou um profissional. Um bom profissional, como tu hoje sabes.
Só aos carniceiros não tremem as mãos, abécula. Olha para o que faço. Aprende alguma coisa. A destreza das mãos começa no cérebro. Que também treme. Pelo menos se estiver vivo. O primeiro amor, o tanas. Irrita-me esse arquivo organizado a que as mulheres chamam romantismo. Como se houvesse segundo, terceiro, quarto, quinto amor. Como se o amor fosse a escada de um prédio de apartamentos. O amor é uma coisa que começa velha, uma forma de demência que nos leva a concentrar os corpos e rostos que desejámos num só. O amor. Esta massa esponjosa, doente, que tanto me excitava. Curei-me por causa do que sofri por esta mulher. Horas infindáveis de solidão com as agulhas do ciúme moendo-me pele e vísceras e crânio e coração. Dias e noites triturando tudo o que eu era, com um rigor de tanque de guerra. Eu era tão pouco. Um garoto deslumbrado com a descoberta do corpo de uma mulher. Acreditava que aquela mulher era única, e que seria minha para sempre. Desculpa, tenho de cortar mais do que pensava, Elisa.
Desconfia dos médicos cujas mãos não tremam. São os que não sentem medo que matam. Tenho medo de deixar de ter medo. De deixar de me importar. De começar a pensar que o que eu faço não é importante, porque todos temos de morrer, um dia ou outro. Substituímos o tempo pelo espaço para não pensarmos na morte. Decretámos o fim da História para podermos trocar o rosto trágico que nos distingue por um rosto belo, sem marcas nem território. O rosto da minha filha, como seria hoje? Desenho-o incontáveis vezes. Acabo sempre por o apagar, porque não o reconheço. Não existe. Hoje é dia de jogo. Dia de jantar com os rapazes. Depois de salvar a mama de Elisa, a rapariga que me iniciou nos prazeres do sexo e na arte da traição. Gostava de não lhe deixar marcas. Um cavalheiro nunca deixa marcas. Mas eu não sou um cavalheiro. Fiz o melhor que podia, Elisa. Depois arranjo-te um excelente cirurgião plástico. Arranjo-te uma mama de silicone, perfeita como sempre gostaste de ser. Chamem-me vaidoso, se isso vos der prazer. O prazer de descobrir gente mais imprestável do que nós, isso que alimenta a literatura. Sou feito de papel e tinta, pelo menos neste momento em que os vossos olhos deslizam sobre esta página. Nem sequer ainda me vislumbraram os contornos, e já sabem que me dedico a aventuras sexuais pouco ortodoxas e que sou vaidoso. O conteúdo antes da forma. A moral de perna ao léu, correndo do fim da história para o seu início, poupando-vos a mariquice das entrelinhas. O caos em vez do corrimão do aforismo. Convém-vos? É-me indiferente o que vos convém, o modo como vos ensinaram a ler. Introdução, desenvolvimento, conclusão. Um enredo amorosamente bordado, capítulo a capítulo, com personagens espreguiçando-se nos lençóis da prosa, despindo-se da banalidade inaugural para nos desvendarem as suas almas repletas de cambiantes até ao clímax, de preferência trágico. A tragédia cai sempre bem, confere-nos umas sombras de sagacidade. Muita palha para criar ambiente, um celeiro cheio de crepúsculos dolentes e episódios marginais. Tralha, comboios de móveis e acessórios. Sou homem, não gosto de ler romances. Fiz de conta que gostava, durante uns anos, para caçar miúdas.
Pensava que aprenderia a caçá-las melhor se lesse o mesmo que elas, como se pudesse penetrar-lhes nos sonhos. Mas os sonhos das mulheres são em geral diferentes dos desejos que rugem dentro delas. Uma espécie de biombo contra a brutalidade que querem, porque ainda são animais. Como nós. Os romances têm princípio, meio e fim, regulação de tempos e temperatura. Fazem dos sentimentos pautas instrumentais convergindo para um concerto de orquestra. Eu não tenho sentimentos desses, que se possam dedilhar, analisar, apreciar e aplaudir. Tenho uma massa suja de nervos e sangue que me serve muito bem. Às vezes dói, às vezes dança. Uma caixa negra que será enterrada comigo, sem chatear ninguém. Não me importa o que pensem ou digam de mim. Estou habituado. Os homens chamam-me vaidoso, as mulheres, egoísta. Não há homem que não pareça egoísta diante do manancial de amor de uma mulher. Multiplicação milagrosa: quanto menos se lhes dá mais elas têm para dar. Gostam de se sentir superiores. Pelo menos as mulheres não têm preconceitos contra a vaidade. Poucas coisas dão tanto prazer à espécie humana como apontar os defeitos dos seus iguais. Para os maus hábitos de qualquer outra espécie arranja-se sempre desculpa. A Humanidade é a única culpada dos males do mundo: eis a grande descoberta da recta final do século XX. Porquê?» In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT 

Nas Tuas Mãos. Inês Pedrosa. «A luz tem os seus desígnios e os seus escolhidos, nasceste marcada por ela, sem essa língua de fogo incendiando o primeiro dos teus corações talvez nunca o tivesses descoberto»

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«(…) Todas as noites da minha vida agradeci a Deus o dom desse sentimento que nunca mudou. À minha volta, muitos casamentos desabaram, outros apodreceram depressa, embalados na música veloz de um tempo cada vez mais aflito. O nosso manteve-se branco e suspenso sobre as convulsões do mundo. No fim da festa, subimos as escadas os três, de mãos dadas, às gargalhadas. Não vai levar a noiva ao colo?, perguntou alguém, e tu respondeste: não. A noiva é que nos leva aos dois pela mão. As raparigas soltaram gritinhos excitados, chamaram-me abafadora e atiraram-me flores. Senti-me estonteada dentro de uma chuva de pétalas, o champanhe subindo até ao extremo mais lúcido da cabeça, abrindo todas as portas que ligam a alma às vísceras. No corredor escuro, a tua voz soou com uma nitidez de espelho: Jennifer, minha filha, a menina dorme no quarto do Pedro. Veja se lhe quer mudar alguma coisa para ficar ao seu gosto. Queremos que se sinta bem cá em casa, minha querida. Depois fizeste-me uma festa no queixo, o Pedro pousou um beijo na minha testa, e os dois entraram no nosso quarto, aquele que tinha a larga cama de dossel da minha avó e os lençóis de linho debruados a frioleiras que ela bordara para celebrar a minha entrada no universo do amor real.
Não percebi porque é que nada sucedia de acordo com as normas, mas nessa noite nem sequer fiquei triste. Estava muito cansada de ter sorrido e dançado o dia inteiro, cansada de ser bonita e espirituosa num vestido pesado de rainha, pensei apenas que me querias proteger, como sempre, ou que simplesmente te agradava prolongar um pouco mais o perverso prazer da espera. Rodei muitas e muitas vezes a aliança no dedo, enchi de beijos o oiro quente e adormeci, já sem medo desse momento de entrega final que tanto me perturbava os sonhos. Nunca contei esta história a ninguém. Não me pareceu que tivesse qualquer interesse, as pessoas aborrecem as histórias felizes e têm razão, a felicidade convoca o que em nós há de mais melancólico e solitário. Comecei agora a escrevê-la sobretudo para Camila, temo que um dia ela descubra a totalidade dos factos e se zangue connosco. Os factos, minha querida Camila, não existem, são peças de loto que inventamos e encadeamos para nos sentirmos vitoriosos ou, pelo menos, seguros. Cada ser tem o seu segredo, cada amor o seu código intransmissível. Do nosso amor nasceste tu, e devo-te um esforço de decifração desse código que é a tua herança, a luz que te é dada para que a transformes na tua particular aparição.
Sobretudo, não procures no amor o caminho que ele não tem. No fim da Guerra, as pessoas descobriram-se entre ruínas e acreditaram que o mundo podia salvar-se através da construção. Os mestres de obras enriqueceram, passaram a chamar-se empreiteiros e tornaram-se exemplos a seguir para tudo. A utilidade fez-se valor dominante, os filósofos estudaram ciências naturais, estenderam as inquietações sociais em mesas, como dantes só se fazia à massa dos bolos, aos animais vivos ou aos cadáveres humanos, e montaram consultórios para resolver as pessoas. E o amor, que não tem resolução, desapareceu. O tempo tomou-lhe o lugar, mas o tempo gira ao contrário da luz, do branco para o negro. Por isso é preciso que gire a uma velocidade cada vez maior, para que a vida passe sem darmos por ela. O amor, Camila, é o único travão da morte, foi isto o que tentei dizer quando um relâmpago te roubou o Eduardo. A crueldade do amor é exactamente essa, imobiliza a vida na eternidade, mas o relâmpago escusava de ser tão literal. Se não tivesse vindo nos jornais ninguém acreditaria que um rapaz pudesse desaparecer assim, saindo do mar, aos vinte anos, rachado por um raio caído do céu.
A luz tem os seus desígnios e os seus escolhidos, nasceste marcada por ela, sem essa língua de fogo incendiando o primeiro dos teus corações talvez nunca o tivesses descoberto. Não penses que estou a dourar o drama da tua existência. Tento, pelo contrário, descrever tranquilamente a possível verdade destes setenta e cinco anos que já vivi. Como sabes, nunca tive que procurar emprego ou desenvolver uma eficiência qualquer. Custa-me tanto ver-te às vezes tão destruída pelo dinheiro, Camila, tu enfureces-te comigo, dizes que é a subserviência das pessoas o que assim te destroça, a facilidade com que se vergam ao poder e abandonam tudo aquilo em que acreditaram juntas, mas é o dinheiro o que assim verga as pessoas, o dinheiro lustroso que as veste da cor do Tempo, um longo manto de retalhos de papel que se confunde com a glória e a felicidade eterna. Respondes rapidamente que sempre assim foi, e é provavelmente verdade, mas eu pertenço à última geração de raparigas poupadas ao flagelo de ganhar a vida. Vi a marquesa de Faya despejando os últimos anéis sobre o pano verde do jogo, vi-a morrer aos pés dos croupiers e ser empurrada para longe da mesa pelos pés ávidos de outros perdedores, mas nunca vi duas amigas degladiando-se pelo favor de um chefe.
Agora que as guerras acabaram, a primeira coisa a que as pessoas parecem capazes de sobreviver é a si mesmas, e é isso o que mais assusta. Se ao menos o teu trabalho não se parecesse tanto com o amor, Camila, mas essa promiscuidade infiltra-se em ti como uma doença. Quiseste viver do teu talento e agora ele tritura-te como uma máquina registadora. Fotografas uma Terra sem Céu; por mais que me fales de necessidade de distanciamento e de registo irónico eu não consigo deixar de ver uma imensa névoa de gelo retraindo os contornos das tuas imagens irrepreensíveis. Pões nas fotografias o rigor que não encontras na vida, sempre que as pessoas te magoam por omissão fechas-te na câmara escura a sublinhar contrastes. Atravessei épocas materialmente complicadas, mas a imobilidade do amor manteve-se inalterada no centro da minha vida». In Inês Pedrosa, Nas Tuas Mãos, Publicações dom Quixote, colecção BIS, 2009, ISBN 978-989-660-000-6.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

domingo, 15 de outubro de 2017

Nas Tuas Mãos Inês Pedrosa. «Segundo a Camila, o amor desesperado faz mal à pele, desfigura e amarelece-nos os contornos, mas connosco nunca, António»

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«(…) Apareciam sempre juntos e nunca demoravam o olhar sobre uma mulher. Falavam de pintura, literatura, viagens, aborreciam a política e os negócios. A combinação entre esses interesses tão raros nos homens do tempo e a vossa suave indiferença às afectações da beleza feminina tornava-vos irresistíveis. Criava-se um zumbido abrasador à vossa entrada, as raparigas apertavam os pulsos umas às outras e segredavam: olha o sol e a lua. Tu, meu querido António, eras a lua intrigante, apesar do teu cabelo aloirado e do teu passo bem mais decidido do que o do Pedro. Ele era o sol de melena escura que sorria continuamente só para encandear. Havia também uma espécie de esplendor circulando em torno dos dois que se extinguia quando se olhava para cada um de vós, individualmente. Tu tinhas para mim uma cintilação própria, António, irradiavas uma luz turva, arroxeada, que me sacudia como uma onda de febre. Seguia os teus passos mecanicamente, enquanto dançávamos. Não conseguia ouvir a música; quase desmaiava de embaraço e prazer escutando a batida do sangue, atroadora, hipnótica, nunca soube se do teu se do meu coração. Ninguém antes te vira dançar. As raparigas rodeavam-me, em enxames, perguntando que bruxedo te fizera eu. As mais afoitas delas, segundo me contaram, tinham tentado vezes sem conta rodopiar nos teus braços ou nos do Pedro, em vão. Cansei-me de vez das conversas de raparigas, nunca tive uma melhor amiga. A cumplicidade de condição parecia-me quase vergonhosa, conhecia-as demasiado bem do colégio, onde a minha mãe me internara durante cinco anos para me instruir e disciplinar, à maneira inglesa que herdara dos pais dela.
Creio que nunca me recompus dos risinhos da Vera no refeitório, antes do Pai Nosso da manhã, sonhei que estava na cama com o Salazar, ai, meninas, acho que estou a precisar de me casar. Quase todas recebiam cartas de amor com assinaturas femininas, minha estremosa amiga, olha esta noite para a lua às nove e meia que eu vou estar a olhar também. Tua muito saudosa Alexandra, e as freiras que tudo liam não estranhavam estes arroubos entre meninas, nunca lhes ocorria que eram os meninos do Colégio Militar quem escrevia as cartas assinadas por Alexandras e Paulas e Júlias. Fardas, as pessoas apaixonavam-se umas pelas outras através do interdito das fardas. Eu tinha um pai morto cheio de condecorações no peito, um pai que morrera sem me ver, em 1917, a bem do futuro de uma Europa inexistente. Tu vestias linho branco ou flanela cinzenta, substituías quase sempre a gravata por lenços de seda que me punham tonta, sôfrega do teu pescoço alto de rapaz. Ninguém sabia bem de que vivias, viajavas muito, negócios, dizias, e mudavas rapidamente de assunto. A minha mãe desvanecia-se com isso a que chamava pudor, um noivo que se apresentava de chaperon e não exibia os seus dotes profissionais era um prodígio. Nem percebo o que é que um rapaz tão exquisit viu em ti, disse-me ela, uma vez, no tom de brincadeira que usava para as verdades mais sentidas. Arranjava sempre maneira de meter uma ou duas palavras em inglês em cada frase, e exquisit era uma das suas favoritas. No dia do nosso casamento passou a tratar-te por tu e a dar-te abraços maternais. Perguntou-te se estavas mesmo disposto a fazer feliz this little lady e tu respondeste-lhe em alemão. Se fosse eu, chamar-me-ia atrevida, e havia de amuar de humilhação. A minha frágil mãe não admitia que o saber alheio a suplantasse, e, aliás, garantiu que eu lhe ficasse sempre atrás. Dá cá isso, eu faço, tu não és capaz. O estribilho repetia-se sempre que eu tentava fazer alguma coisa nova; foi quase à revelia dela que aprendi a tocar piano, larga isso, criança, ainda me desafinas o piano, julgas que podes tapar a tua falta de técnica com a fúria, para ela a fúria era uma prerrogativa de criadores. Já estávamos casados há vários meses quando tu disseste: você é tão intensa, Jennifer, nunca supus que uma mulher pudesse ter tanta intensidade. Foi talvez o maior elogio que recebi de ti, e as hostilidades entre mim e a minha mãe terminaram nesse instante. A minha fúria era afinal um dom, a virtude que te levara a escolher-me como única mulher da tua vida, herdeira do teu nome, senhora de tudo o que era teu.
O Pedro gostava de me escovar os cabelos devagar antes de me fazer as tranças, tu querias ver-me sempre de tranças e laços. Nas repetidas escapadelas do Pedro eu subia a bainha aos vestidos brancos de bordado inglês, punha soquetes e aninhava-me ao teu colo, tu acariciavas-me o rosto, as mãos, as pernas. Uma vez chegaste a deitar-me no chão e encheste-me o peito de dentadas e lágrimas, estiveste quase a possuir-me e depois pediste desculpa, eu disse-te vem para dentro de mim, não tenhas medo, e tu disseste: não posso, meu anjo. Não seria justo para si. Eu sou dele, Jennifer. Se quiser, abandone-me. O abandono não é um acto de vontade mas uma consequência do esquecimento, meu amor. Se amasses outra mulher, o meu orgulho traído encontraria forças para deitar pazadas de terra sobre o buraco escuro do meu peito. Mas o teu amor proibido empurrava-te para o limbo trágico onde o meu amor por ti estava afinal condenado a viver. Nem por um segundo me ocorreu desfazer o nosso casamento. No entanto, preciso de te dizer que existiu mais do que pura paixão e livre entendimento na minha decisão de permanecer contigo para sempre. Houve também altivez, querido António. Não suportaria o desolado desprezo da minha mãe, nem o riso das zumbidoras. A mágoa do teu desamor tornava-me incapaz de encarar semelhantes afrontas.
A pouco e pouco, desenvolvi a capacidade de me cingir à felicidade essencial de ser a tua mulher. Tu, que nem sequer olhavas para uma mulher, tinhas-me escolhido para viver ao teu lado uma vida inteira. O sexo que eu desconhecia não podia roubar-me o êxtase desta aventura. Permaneceria tua namorada, cúmplice do teu amante. Segundo a Camila, o amor desesperado faz mal à pele, desfigura e amarelece-nos os contornos, mas connosco nunca, António. O desespero punha-te o fulgor do oiro, acho mesmo que te transfiguraste no dia em que a Camila apareceu. Como pudeste trair-me tanto, Pedro? Choraste nos braços dele a noite inteira, aos poucos ele convenceu-te a aceitá-la, ofereceu-ta entre pedidos de perdão e juras de amor. Assim me deste a filha que me impediu de enlouquecer. Nesses anos em que o amor todo se concentrava na feroz atracção dos corpos, podia-se viver uma vida só do sabor de uns lábios. Eu, pelo menos, vivi». In Inês Pedrosa, Nas Tuas Mãos, Publicações dom Quixote, colecção BIS, 2009, ISBN 978-989-660-000-6.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT 

sábado, 14 de outubro de 2017

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Não sabeis interpretar as leis civis e fazer política?, não sabeis falar e escrever latim?, não sabeis do estado do mundo para promoverdes a condenação dos ímpios e a glorificação dos crentes?»

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«(…) O fidalgo deu uma gargalhada, também ele se encostou sem cerimónias à parede do salão e só depois, num tom calmo, comentou que mais importante do que o monarca português promover a felicidade do chefe da cúria de Roma, através de oferendas de indiscutível valor, seria convencê-lo a dar novo rumo à Igreja. Para Diogo Pacheco, tornava-se fundamental chamar ao aprisco romano as ovelhas tresmalhadas e oferecer-lhes um novo alimento espiritual, de modo a impedir a continuação da fuga e o desencanto dos fiéis. Entendia que o papa Leão X, a que muitos pela Europa fora chamavam desajustadamente princípe da Renascença, era um dos grandes responsáveis pelos desmandos da Igreja e a depravação herética, ao permitir a prática de actos mesquinhos e interesseiros por parte dos mais influentes clérigos da corte pontifícia. Eram eles, de resto, que dominavam o Sacro Colégio; eram eles também que, sob as vestes taladas, promoviam o ódio e a descrença, a defesa das conveniências próprias e dos pecados do vício. E por isso a fé, uma convicção fundada no testemunho, começava a constituir mais uma diversão mental do que um rasgo de alma ou uma constante sede do infinito. Na opinião do fidalgo, a Igreja caminhava assustadoramente para o fim, já quase sem nenhum prestígio, demasiado enfraquecida no seu poder.
Pois é para tentarmos convencer o papa a corrigir os desvios do clero e a dar um novo impulso à cristandade que vos pedi para virdes aqui, para falarmos e vos fazer uma proposta, esclareceu o rei, após ouvir atentamente o discurso do vassalo. Falais-me de proposta, meu senhor? Vossa Alteza não propõe nada; Vossa Alteza ordena, retorquiu Diogo Pacheco, com um sorriso de satisfação que lhe enchia o rosto. Apesar da manifesta confiança entre o monarca e o nobre, em nenhuma circunstância os dois homens excluíam um tratamento de considerável respeito e cerimónia. O rei chamava ao nobre bom amigo ou distinto fidalgo; o nobre dirigia-se ao rei acolhendo-o por meu Senhor ou Vossa Alteza, ou simplesmente Alteza. Meu bom amigo, continuou o monarca, descruzando as pernas e endireitando o corpo no cadeirão, dizeis, e bem, que sou eu quem manda. Pois assim é e assim continuará até que o Altíssimo me leve deste mundo incomplacente. Na verdade, o que tenho para dizer é muito simples: decidi integrar-vos na embaixada a Roma para serdes vós a proferir na cúria romana a oração de obediência a Sua Santidade. Sei que me fazeis falta aqui, na coroa; sei também que vou sentir a vossa ausência, e por isso ainda hesitei na escolha, mas não descubro ninguém tão dotado quanto o distinto fidalgo que tenho à minha frente para explicar à Igreja as preocupações de el-rei de Portugal sobre o mau caminho que ela está a seguir.
Só vós, com a qualidade do saber e a excelência da palavra, podereis convencer o papa e o seu consistório da necessidade de resolverem os problemas que preocupam todos os reinos cristãos e, em especial, o nosso reino. Emocionado, Diogo Pacheco baixou os olhos, procurou sob o capeirote um refúgio para as mãos trementes e, sem fixar o rosto do monarca, balbuciou: é uma honra, Alteza... ... Uma honra devida a quem goza da fama e do proveito de bem falar sobre a verdade das Escrituras e a urgência da fé. Com a devida vénia, deixai lembrar-vos que sobre tal assunto há em Portugal quem melhor do que eu se possa exprimir adequadamente, atalhou o homem num tom de calculada impostura. Surpreendido, o soberano arregalou os olhos e, elevando os braços, perguntou num tom simultaneamente animoso e tolerante: conheceis as Escrituras? Conheço. Não tendes fé? – Tenho.
Não sabeis interpretar as leis civis e fazer política?, não sabeis falar e escrever latim?, não sabeis do estado do mundo para promoverdes a condenação dos ímpios e a glorificação dos crentes?, não sabeis narrar o feito dos portugueses em terras de além-mar e, perdoai-me a imodéstia, incensar em público este vosso amigo e venturoso rei? Alteza... Ainda não acabei, ilustre senhor, interrompeu Manuel I num tom de voz diferente, já quase sumido. Sei que sois capaz de responder com luzimento ao trabalho que vos peço; que sois capaz de dizer por outras palavras, mais perfeitas até, o que acabastes de expressar. Mas também quero, e por isso vos escolhi sem receio de me arrepender, que saibais brilhar na coroa de Roma como nunca nenhum tribuno alguma vez brilhou.
Tenho a certeza de que com a vossa compostura, o vosso bom aspecto e a qualidade do verbo havereis de impressionar não só o papa e os seus cardeais, mas também os representantes da Europa inteira. Sois muito gentil, Alteza. Não mais do que vós, preclaro doutor. Nas horas que se seguiram, Manuel I e Diogo Pacheco conversaram sobre tudo quanto se relacionava com a embaixada para cuja chefia o rei escolhera, entretanto, Tristão da Cunha, antigo camareiro de João II, duque de Viseu, igualmente amigo do monarca, herói dos mares da Índia e distinto cavaleiro. Aliás, este fidalgo estivera prestes a ocupar, em mil quinhentos e seis, o lugar de primeiro governador da Índia, e tal só não chegou a acontecer porque Manuel I, seduzido pelo discurso da intriga e pelo sentimento de inveja dos seus conselheiros, decidiu mudar de ideias e atribuir a Afonso Albuquerque a tão cobiçada honraria. De qualquer modo, Tristão Cunha era um fidalgo exemplar, um guerreiro valente em terra e no mar, pelo que ninguém como ele se ajustaria à importância daquela grandiosa tarefa política para surpreender e influenciar o papa». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.

Cortesia de OdoLivroE/JDACT

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Se Deus ajudar os marinheiros, e o vento e as ondas continuarem de feição, iremos tê-las cá no próximo mês. Achais, meu senhor? Tenho a certeza»

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«(…) O fidalgo não se sentou nem agradeceu a lhaneza. Com as mãos atrás das costas deu meia dúzia de passos sem destino pelo vasto salão que bem conhecia, olhou para o rio acanhado de naus e caravelas, e só depois foi encostar-se a uma das janelas laterais viradas a sul, para daí observar, contemplativo, o movimento dos pedreiros nas obras do mosteiro dos Jerónimos, à beira-Tejo. Como estava diferente aquele local! Diogo mal se lembrava de que antes de ser lançada a primeira pedra para a construção do monumento, a seis de Janeiro de mil quinhentos e dois, dia dos Reis Magos, existira ali uma capela mandada erigir anos antes pelo infante Henrique, em honra da Virgem de Belém, e que chegara a servir de aconchego religioso aos freires da Ordem de Cristo até que o papa Alexandre VI, através da bula Eximiae Devotionis Affectus, decidiu autorizar Manuel I a converter a ermida e eremitério num mosteiro com igreja, claustros e as oficinas necessárias. Do mesmo modo, sentia um estranho incómodo por já não se recordar exactamente da fisionomia do antigo bairro de marinheiros e pescadores que rodeava a velha igreja, das cores que o pintavam, do seu constante alvoroço, da tradicional desordem entre as suas gentes e que tanta vida dera àquele espaço até à demolição das respectivas casas, por decreto régio de vinte e três de Junho de mil quatrocentos e noventa e seis. Em que meditais? Acaso não é do vosso agrado a magnificência da obra que daqui vedes?, perguntou, irónico, o monarca, acabado de entrar silenciosamente no salão.
É muito bela, meu rei e senhor!, respondeu o fidalgo, surpreendido, antes de os dois homens se enternecerem num apressado gesto de comunhão. Em cada hora que passa mais grandiosa fica. Por alguns momentos, Manuel I e Diogo Pacheco mantiveram-se em silêncio, admirando, lá longe, o movimento dos operários e a arquitectura do mosteiro que, depois de concluído, e se Deus viesse a querer, haveria um dia de funcionar como sede da Ordem de S. Jerónimo, vocacionada para a administração do culto mortuário da dinastia real de Castela. Mas, para o monarca português, mais importante do que instalar ali a ordem religiosa, em obediência a uma promessa antiga que tanto agradara aos reis católicos do país vizinho, talvez fosse o facto de os Jerónimos virem a converter-se no símbolo do seu poder absoluto. E por isso desejava que o mosteiro superasse em grandiosidade obras tão admiráveis quanto as pirâmides do Egipto, os colossos romanos e o próprio templo de Salomão.
Aliás, Manuel I, cuja subida ao trono ficara a dever-se à morte prematura do sobrinho infante Afonso, em consequência da queda de um cavalo enfurecido, tinha a presunção de ter vindo ao mundo para reinar, servir a Deus e por vontade de Deus. E até se remetera à ideia de que, apesar de ter ocupado o sexto lugar na linha de sucessão dinástica, chegara ao ceptro e à coroa porque ninguém seria capaz de desempenhar melhor e mais eficazmente o combate contra os infiéis, em defesa da libertação dos lugares santos. Era esse o seu desígnio. Por este andar, com a ajuda de Deus, o meu mando e o esforço dos pedreiros, o mosteiro ficará pronto antes do tempo, comentou o soberano, interrompendo a abstracção de Diogo. O fidalgo estremeceu ligeiramente, alisou o cabelo com os dedos e comentou: sempre considerei aquele sítio o mais apropriado de todos para a construção do templo, dado que se situa às portas do mar. Mas, pensando melhor, não achais que irá ficar longe da cidade? Descansai dos vossos temores, bom amigo, porque a cidade ainda um dia virá a estender-se até aqui, retorquiu o monarca, com indisfarçável soberba. Deus vos ouça, Alteza. Ad gloriam!
Após trocarem algumas palavras de circunstância sobre o estado do tempo e a boa saúde física de cada qual, os dois homens deslocaram-se de braço dado até outra janela de frente para o Tejo, onde o rei gostava de ver o Sol morrer em cada tarde. De resto, Manuel I tinha o hábito de passar parte do seu tempo nesse salão, grande e luxuoso, em cujas paredes mandara colocar um número considerável de quadros de autoria de pintores ingleses, florentinos e genoveses, além de tecidos de seda pintados na Índia por artistas de indiscutível talento. O mobiliário, constituído por peças da alta Idade Média e outras de vocação renascentista, assentava quase todo sobre grossas tapeçarias persas, de intensas e diversificadas cores. Pouco ou nada fazia sentido na riquíssima sala, mas era assim, na mais insólita desarmonia e ausência de bom gosto, que o rei adorava viver e praticar o seu augusto mando. Quando chegarão as caravelas com os presentes para Sua Santidade?, perguntou subitamente Diogo Pacheco, ao mesmo tempo que olhava enternecido para o rio, onde se espalhavam centenas de naus, galés, batéis e embarcações de pequeno e médio portes.
Se Deus ajudar os marinheiros, e o vento e as ondas continuarem de feição, iremos tê-las cá no próximo mês. Achais, meu senhor? Tenho a certeza. O monarca deu uma palmada nas costas do fidalgo para logo de seguida o convidar a ocupar um banco de pinho, enquanto ele, na lentidão que lhe era própria, se foi sentar na sédia que só o rei podia preencher. Depois, já recostado no espaldar coberto por um manto de cetim vermelho, cruzou as pernas, começou a fazer pequenos círculos com o pé desapoiado, entreteceu os dedos das mãos grandes e poderosas e, calmo como as águas do Tejo nesse dia, prosseguiu a conversa. Como podeis observar por toda a cidade, o povo aguarda com o maior entusiasmo a chegada das naus. Mas ninguém sabe, nem eu mesmo, que coisas trazem. Sei apenas que vêm carregadas de grandes riquezas e de animais estranhos para então levarmos tudo ao papa... Tudo!?, interrompeu, admirado, Diogo Pacheco. ... Bom, tudo não. Quase tudo, corrigiu o rei, apressadamente, antes de continuar: quero oferecer a Sua Santidade, ainda que tanto não mereça, presentes que nunca ninguém lhe deu. E como ele é mais dado ao luxo do que a Deus, e mais vigilante da vida material do que da vida espiritual, certamente ficará muito contente. E eu quero deslumbrá-lo, distinto amigo, quero fazê-lo feliz!» In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.

Cortesia de OdoLivroE/JDACT

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «O que não era normal, e disso todos tinham motivo para desconfiar, é que um monarca privasse com um fidalgo, por mais ilustre e dedicado que ele fosse»

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«A magnífica embaixada do monarca Manuel I ao papa Leão X. Os pecados que o Império não conseguiu esconder. Uma história de amor que venceu a fé dos homens. 1514. Na época áurea dos Descobrimentos Portugueses, Manuel I toma a decisão de enviar ao papa Leão X uma grande embaixada, demonstração viva do seu poderio temporal. Diogo Pacheco, fidalgo da corte, amigo pessoal do rei Venturoso, é encarregado pelo monarca de compor e proferir a Oração de Obediência ao Sumo Pontífice, o momento alto da embaixada. A comitiva parte de Lisboa em cinco embarcações com um tesouro valiosíssimo e animais exóticos trazidos de África e da Índia. Após conturbada viagem o cortejo chega a Roma, onde o papa preparara uma sumptuosa recepção com a presença das mais altas figuras profanas e religiosas da época. No meio do fausto da corte portuguesa e da Cúria dos Medici, contrastante com a dor e a miséria do povo sofredor, ascende à figura de símbolo o amor regenerador de Diogo pela bela judia, Raquel Aboab, a quem aquele salvara da fogueira e da sanha intolerante do antijudaísmo reinante. A época de ouro da história do mundo esconde segredos e pecados inconfessáveis das grandes figuras que comandam os destinos do mundo. Entre a fé e a cegueira do poder, a aparência e a essência da condição humana, o sentido de missão e a vaidade só o amor poderá ser redentor. Aos olhos de Deus as personalidades da história não ficarão impunes. E Deus não jogará aos dados.

Naquela manhã de Novembro de mil quinhentos e treze, cinzenta e fria, o rei Manuel I mandou chamar aos Paços da Casa da Mina um dos mais distintos fidalgos da sua corte: Diogo Pacheco. Queria informá-lo de que decidira incluí-lo na embaixada que dentro de algumas semanas iria enviar ao papa Leão X e, ao mesmo tempo, pedir-lhe para que fosse ele a proferir na Santa Sé a oração de obediência, sempre devida ao Sumo Pontífice. Manuel I reconhecia que Diogo Pacheco, além de gozar de boa aparência e compostura, tinha a fama e o benefício de ser um notável jurisconsulto e latinista, pelo que na ideia incontestada do soberano não havia ninguém no reino português com tantas virtudes quanto aquele homem para desempenhar um papel de tão grande responsabilidade junto de Sua Santidade. Mas não foram apenas as qualidades intelectuais e o aspecto físico do fidalgo que presidiram à escolha do seu nome. A circunstância de o rei decidir nomeá-lo para se dirigir ao papa, na cúria de Roma, em representação de Sua Alteza o Rei de Portugal e dos Algarves de Aquém e de Além Mar, Senhor da Conquista, da Navegação e do Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, ficou igualmente a dever-se ao facto de o soberano cultivar por Diogo Pacheco, desde os primeiros anos da juventude, um desajustado, e por vezes enigmático, sentimento de estima pessoal.
Aliás, a nobreza e o clero, porventura até mais o clero do que a nobreza, não se cansavam de censurar, naquela dissimulada cobardia que lhes era própria, a relação demasiado íntima entre os dois homens. Uns garantiam que o rei e o súbdito tinham o hábito de se encontrar a sós num discreto aposento da sede da coroa, instalada, havia poucos anos, num palácio com galerias de inspiração renascentista, de frente para o Tejo; outros asseveravam que tais encontros incluíam a participação de donzelas de fina linhagem mas de duvidosa conduta. Verdade ou mentira, certo é que nunca ninguém ousou pronunciar na rua uma palavra sobre o assunto, muito menos levantar suspeitas públicas, por mais ténues que se revelassem, acerca do comportamento alegadamente desviante de Sua Alteza Real. Só no conforto da privança dos eclesiásticos em igrejas e nos mosteiros de Lisboa, ou nas festas de bebedeira e luxúria que os nobres organizavam nas suas residências, se comentava, mas sempre com a máxima cautela e total discrição, que o rei e o fidalgo mantinham uma afinidade de contornos imprecisos. E até se dizia, como forma de provocação ou em jeito de graça, que Manuel I decidira abandonar os medievos e desaconchegados paços da Alcáçova do castelo para se instalar nos antigos armazéns da Casa da Mina, em cujo interior, entretanto recuperado e transformado num palácio para acolher a sede da monarquia, persistia o perfume lúbrico da canela e o aroma estimulante da pimenta...
Mas isso acontecia porque tinha sido ali, quando o novo lar da coroa era ainda um entreposto, que se haviam guardado as especiarias provenientes das terras da Guiné, da Índia e do Brasil, bem como outros produtos de luxo, designadamente o algodão e o marfim. De qualquer modo, por ódio ou maledicência, com razão ou sem ela, as dúvidas sobre o estilo de convivência entre o monarca e o fidalgo tinham-se instalado na cidade. É claro que ambos contribuíam, e muito, para o falatório de clérigos e nobres. Em certas ocasiões, em público ou em privado, Manuel I e Diogo Pacheco raramente evitavam um cumprimento de exagerado afecto. Às vezes davam as mãos, mantinham-nas apertadas por alguns instantes, segredavam qualquer coisa e só depois viravam costas. Noutros encontros, observados com frequência por membros da corte, Diogo chegava mesmo a aconchegar a aljuba ao rei, aproveitando a circunstância para lhe massajar os ombros com a ponta dos dedos, ao jeito de quem pretende sacudir das vestes um indesejável cisco.
Claro que nenhum destes gestos podia, por si só, garantir a existência de qualquer ligação emocional entre os dois homens, muito menos justificar o aleive de que ambos eram alvo por parte dos eclesiásticos, quase todos perversos, todos sinistros, e de alguns nobres que nunca se haviam acomodado à ideia de o monarca não ter levado tão longe quanto os reis católicos de Castela a perseguição aos judeus. O que não era normal, e disso todos tinham motivo para desconfiar, é que um monarca privasse com um fidalgo, por mais ilustre e dedicado que ele fosse, como Manuel I o fazia com Diogo Pacheco. Para todos os efeitos, um rei era um rei; um súbdito era um súbdito. Porque se assim não fosse nem Deus no Céu, nem o papa na Terra, tinham perdido tempo a estabelecer e a regular o princípio inelutável da diferença entre os homens. E entre o soberano e o vassalo mal se notava essa imperativa e sagrada dissemelhança. Por isso, algum mistério havia... Logo que entrou nos paços reais, Diogo Pacheco foi imediatamente conduzido pelo privado do rei ao salão nobre do palácio. Sentai-vos, senhor. Sua Alteza Real não demora, declarou o valido num tom de amável simpatia, antes de se retirar e de fazer um respeitoso gesto, inclinando a cabeça». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.

Cortesia de OdoLivroE/JDACT

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «O telefone continua a tocar. Cada toque é uma mão que agarra o corpo da minha mulher e o aperta, que agarra a sua cabeça e a aperta, que agarra o seu coração e o aperta»

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«(…) Quando o italiano se cansou ou quando já não sabia mais como se explicar, eu e o meu tio olhámo-nos para confirmar que tínhamos entendido. O italiano tocava e cantava em bailes. Tinha um piano avariado e alguém lhe dissera que, ali, poderíamos consertá-lo. Com o italiano entre nós, atravessámos a carpintaria e a entrada, caminhámos até à rua e, no topo de uma carroça puxada por duas mulas cansadas, estava um piano de cauda, a reflectir as nuvens no seu brilho negro, atado por cordas que o envolviam. Antes que eu conseguisse dizer alguma coisa, o meu tio olhou para o italiano e, com gravidade, estendeu-lhe a mão e disse: pode deixar que nós consertamos-lhe o piano a tempo de tocar no baile. O italiano ignorou a mão do meu tio, sorriu e, virando-se para mim, disse que o baile seria no sábado à noite. Tínhamos três dias. Virei-me para o meu tio para discutir a decisão, mas fiquei a meio da primeira palavra porque ele tinha já virado as costas e, contornando poças de óleo do mecânico de motorizadas que ficava um pouco mais acima, caminhava apressado na direcção da taberna. Mudo, olhei para o italiano, encolhi os ombros num instante de incompreensão mútua e, com a mesma pressa, o meu tio saiu da taberna, liderando um grupo de homens esfarrapados, trôpegos, velhos, tortos e aleijados. Sob as ordens do meu tio, os homens começaram a desatar o piano. Foi o meu tio que abriu completamente o portão da oficina e que, com um salto, subiu para cima da carroça e começou a empurrar lentamente o piano, que deslizava nas suas pequenas rodas para os braços dos homens.
Aguentem aí. E desceu para ajudá-los. O meu tio contou até três e, num som do interior do peito, disse: upa. Nesse momento, levantaram mais o piano e deram passos que arrastaram o som da poeira no chão. Carregavam o piano como se estivessem a carregar o mundo inteiro. Os corpos dos homens, agarrados ao piano, e as suas pernas, dobradas pelo peso, eram um animal negro, como uma aranha. As suas vozes, abafadas pelo peso: não largues agora, empurra para a tua esquerda: rodeavam o piano. Atravessaram a entrada da oficina e dirigiram-se para a carpintaria. Havia homens que entravam de costas e havia outros que, de frente, levantavam o pescoço para os guiar. Assim que desapareceram na porta da carpintaria, o italiano entregou-me um cartão: pensão Flor de Benfica. Ainda eu tinha o cartão diante dos olhos, quando o italiano me apresentou a mão. Estendi-lhe a minha e ele, veloz, apertou-me o pulso e abanou-me o braço. Sorriu muito, limpou o verniz dos sapatos na parte de trás das calças, subiu para cima da carroça e, com uma palavra em italiano, partiu rua acima.
Quando os homens saíram, como se tivessem visto o mundo todo entre as paredes da carpintaria, escondiam o esforço num sorriso e batiam as mãos, como se as limpassem do pó, esfregavam as mãos nas pernas das calças cheias de nódoas, como se as limpassem. O meu tio vinha com eles, segurava o novelo das suas vozes. Saiu com eles pelo portão, contornaram-me como se fosse invisível, deram passos na estrada de terra e entraram na taberna. O meu tio pousou os cotovelos sobre o balcão de mármore e pagou um copo de vinho a cada um dos homens. Era ainda de manhã. Eu estava sozinho e parado na estrada, frente ao portão aberto da oficina. Tinha os braços estendidos ao longo do corpo e um cartão abandonado numa das mãos. Pedaços de vento traziam badaladas de sinos que assinalavam horas distantes. Tinha vinte e dois anos, tinha os braços estendidos ao lado do corpo, nunca tinha consertado um piano e não me conseguia imaginar a ser capaz de fazê-lo. Diante da porta da sala, sem que parasse realmente, foi como se a minha mulher tivesse parado porque, num único instante, uma imagem, inteira e nítida, suspendeu-se diante de si: a Íris, pequena, sentada, com a boca aberta num grito constante; rodeada de vidros partidos, jarros derrubados, bonecos de loiça sem cabeça; ao lado do móvel de canto, tombado sobre o tapete, como um cadáver velho caído de bruços; e a Íris com a mão levantada, aberta, com a palma da mão coberta de sangue que lhe escorria entre os dedos. Em três passos de vidros a estalarem abafados sob a sola das pantufas, a minha mulher segura-a por baixo dos braços e levanta-a no ar. Os gritos da nossa neta rasgam as paisagens estampadas nos quadros das paredes, cortam a pele do rosto da minha mulher e impedem-na de respirar.
Pronto, diz, enquanto abre a torneira do lavatório sobre a mão da Íris, mas os gritos da menina são reflectidos pelo espelho manchado de ferrugem e pelos azulejos brancos da casa de banho. O telefone começa a tocar. Sobre a mesa de pinho: a gaveta de papéis riscados e de esferográficas que não escrevem: sobre o napperon de renda: a madrinha da minha mulher a escolher novelos de linha na retrosaria: ao lado da moldura cromada: a fotografia que tirámos todos juntos no Rossio: o telefone grita. Com a força do ferro, estende uma urgência constante, que se interrompe durante um fôlego rápido, para voltar logo a seguir, com o mesmo pânico e a mesma autoridade. O telefone continua a tocar. A Íris chora e grita. As lágrimas desenham-lhe riscos de água quente sobre as faces vermelhas. A minha mulher segura-lhe a mão debaixo da torneira aberta. O sangue dilui-se na loiça rachada do lavatório e desaparece. Na palma da mão da Íris, um vidro enterrado numa ferida. Num só gesto, com a ponta dos dedos, a minha mulher puxa-o e sente o interior da carne. Pronto, pronto, diz, ao voltar a pousar-lhe a mão sob a água fria. Os gritos da Íris tornam estridente a luz branca da lâmpada pendurada num fio, tremem os frasquinhos de loções ordenados numa prateleira, entram na banheira e arranham a superfície do esmalte com guinchos.
O telefone continua a tocar. Cada toque é uma mão que agarra o corpo da minha mulher e o aperta, que agarra a sua cabeça e a aperta, que agarra o seu coração e o aperta. Nos seus braços, a voz da Íris começa a encontrar conforto e, lentamente, alguma paz. A minha mulher fecha a torneira, enrola a mão da Íris numa toalha branca do bidé e, levando-a ao colo, sai da casa de banho a correr e avança pelo corredor». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

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