sábado, 26 de setembro de 2020

A Conspiração Franciscana. John Sack. «Frei Conrad franziu a testa, intrigado, ao chegar ao topo da trilha que ziguezagueava até à sua cabana. O esquilo, agitando a cauda e guinchando no parapeito da janela, indicava que havia um visitante lá dentro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Assis. 25 de Março de 1230

«A penumbra da entrada e o som agora abafado da confusão do lado de fora da igreja apaziguaram os seus nervos. Correu os olhos ao redor e viu o rosto pálido do castelão, o desdém franzindo os lábios do mercador, o maxilar contraído do prefeito, e perguntou-se por que cada uma dessas pessoas se teria envolvido naquele sacrilégio. Suspeitava que o comerciante haveria de ficar leito em vender as relíquias, um por um dos ossos santificados, apesar de serem os restos mortais de seu único irmão. Uma voz soou, vinda do fundo da nave central: rápido; tragam o caixão para cá.

Dois frades, o mestre construtor frei Elias e seu lacaio, esperavam em cada lado do altar principal. Um círculo de tochas queimava nos seus suportes, atrás deles, fazendo com que Simone se lembrasse da maldição sobre o fogo do inferno lançada pelo bispo. A luz das tochas projectava a sombra de frei Elias dentro da igreja, tornando-o muitíssimo maior do que o franzino conspirador que tramara o roubo. O calor afogueou o rosto do cavaleiro, apesar do vento gelado que percorria a igreja. Ficou imaginando, se Elias poderia absolvê-lo antes de saírem, ainda que o frade fosse o seu parceiro nesse pecado. Apavorava-lhe a ideia de encarar a multidão que o esperava do lado de tora lendo sua alma em pecado mortal.

Ao chegarem na parte da frente da nave, os quatro homens encontraram o altar-mor deslocado da sua base e uma profunda escavação na rocha abaixo dela. Os homens prenderam o caixão em cordas paralelas ao buraco e, com a ajuda dos frades, abaixaram-no até dentro do sarcófago. Jogaram as cordas sobre o caixão. Então, Elias girou uma das colunas em miniatura, ricamente ornadas, que ficavam na parte traseira do altar, até se ouvir um ruído seco. O bloco maciço moveu-se, rangendo devido à pesada rotação que fazia sobre o buraco. Finalmente, o frade limpou com os pés a poeira que se juntara ao redor da base de mármore, alisando-a depois com a sola da sandália para não parecer que tinha sido tocada. Ontem, os operários começaram a aplicar os ladrilhos no chão da abside, explicou. Vão cobrir esta área amanhã. Não haverá nenhum vestígio. Ninguém saberá onde ele descansa. Dobrou um joelho junto ao altar, inclinando a cabeça vagamente na direcção do sarcófago. Nenhum vestígio, padre Francesco, repetiu, num sussurro satisfeito.

Vosso segredo permanece convosco. Simone recordou-se da reunião no palácio de Giancarlo, quando o próprio frade Elias argumentara que o corpo deveria ser escondido, até mesmo dos fiéis, protegê-lo dos caçadores de relíquias. Havia duvidado das intenções do homem desde o começo. De acordo com a interpretação do cavaleiro, Elias ainda fervia de raiva devido à eleição que perdera depois da morte de São Francisco. A irmandade havia nomeado outro frade para suceder ao santo na função de ministro geral da Ordem; um homem de mais idade, piedoso, porém com menos capacidade administrativa que o dedo mindinho de Elias. Fosse como fosse, Elias resolveu tirar vantagem da derrota quando o papa lhe pediu para que se encarregasse pessoalmente da construção da basílica. Agora, ele usara o seu prémio de consolação contra seus detractores e escondera a mais preciosa relíquia da Ordem onde jamais seria encontrada. Da próxima vez, os irmãos pensariam duas vezes antes de votarem contra ele. Depois de aplainar a área ao redor do altar, Elias fez sinal para o lacaio: frei Illuminato, vá buscar a urna. O rapazote desapareceu, encoberto pelas sombras do transepto. Ao voltar, minutos depois, trazia um pequeno relicário de ouro. Elias suspendeu a tampa e retirou do interior um anel com uma pedra azul-clara entalhada. Enfiou-o no dedo enquanto seu auxiliar distribuía anéis idênticos aos outros. Neste dia está formada a Compari della Tomba, a Fraternidade da Tumba, disse Elias. Vamos fazer o juramento, sob pena de morte, de jamais revelar o local onde os ossos estão enterrados. E, igualmente, jurar de morte qualquer um que descubra o esconderijo por acaso, acrescentou Giancarlo, severo. Deus é nossa testemunha. Deus é nossa testemunha, repetiram os outros. Levantaram as mãos com os anéis à luz dos archotes e juntaram-nas. Cada um segurou com firmeza o punho do que estava ao lado. Amém! Assim seja!, exclamaram em uníssono.

O Grifo. Festa de São Remígio. 1 de Outubro de 1271

Frei Conrad franziu a testa, intrigado, ao chegar ao topo da trilha que ziguezagueava até à sua cabana. O esquilo, agitando a cauda e guinchando no parapeito da janela, indicava que havia um visitante lá dentro, alguém que não era o criado de Rosanna. Quieto, Irmão Cinzento!, ralhou, deixando cair o feixe de lenha que trazia ao ombro. Dê ao estranho as boas-vindas que daria a mim. Ele pode ser um dos anjos do Senhor. O eremita envolveu o esquilo nas suas mãos e depois o soltou com leveza sobre o tronco escuro de um pinheiro que ficava logo adiante. O animal subiu para um galho mais alto enquanto Conrad entrava pela porta. Sem se incomodar com a conversa, o visitante, um frade, dormia com a cabeça aninhada sobre a mesa do eremita, o rosto escondido sob o capuz. Conrad resmungou baixinho, satisfeito. Se tivesse de ser sociável e conversar, pelo menos o assunto seria espiritual. As sandálias de couro e a batina nova, de um cinza cor de rato, que o seu hóspede usava não lhe agradaram tanto. Provavelmente era um Conventual, um daqueles frades mimados cuja vida estava mais próxima dos monges negros enclausurados do que de um filho de São Francisco desenraizado. Torceu para que a conversa não acabasse na velha discussão sobre a essência da verdadeira pobreza. Estava cansado e desconfiado daquele assunto; não lhe havia trazido nada além de sofrimento». In John Sack, A Conspiração Franciscana, 2005, Edição O Quinto Selo, 2006, ISBN 978-989-613-048-0.

Cortesia de EQuintoSelo/JDACT

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quarta-feira, 23 de setembro de 2020

John Sack. A Conspiração Franciscana. «Tudo o que a multidão conseguia era manter o olhar fixo na mesma direcção dos olhos de Simone. Afinal, o cavaleiro viu o incenso queimando na ruela»

 
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 Assis. 25 de Março de 1230

«O cavaleiro Simone della Rocca Paida esquadrinhava a viela onde os frades iriam aparecer. Andem; venham logo, seus ratos de igreja detestáveis. Vamos acabar com essa história infeliz. Empertigou-se sobre a sela e sacou a espada da bainha. Sua língua estava seca como um chumaço de lã. A multidão o irritava. Durante toda a manhã, levas de espectadores tinham acorrido à praça, sem se incomodar com o lixo que lhes chegava aos tornozelos nem com outra chuvarada que parecia prestes a desabar. O administrador-chefe da cidade, prefeito Giancarlo, havia declarado feriado, e não seria uma simples chuva de Primavera, muito menos a barreira erigida durante a noite, que iria estragar o espírito festivo. Os guardas-civis de Giancarlo tinham arrastado pedaços de madeira e blocos de mármore do canteiro de obras da nova basílica superior, ainda incompleta, para levantar um muro baixo que cortava a praça. Agora, os guardas afastavam as pessoas para trás do muro como peixes numa represa, onde elas se acotovelavam para conseguir a melhor vista. O burburinho ia aumentando com a aglomeração. Alguns se esforçavam, inutilmente, para ouvir o canto dos frades no meio do barulho. Tudo o que a multidão conseguia era manter o olhar fixo na mesma direcção dos olhos de Simone. Afinal, o cavaleiro viu o incenso queimando na ruela. Quando a procissão entrou na praça, um grande crucifixo emergia da fumaça e dos solidéus dos meninos que balançavam os incensórios. Tarde demais para hesitações.

Simone havia posicionado seus cavaleiros de frente para o espaço aberto diante da entrada da igreja superior. Fez um sinal de cabeça para os outros, colocou o elmo e alisou o cavanhaque para dar sorte. A mão se contraía sobre o punho da espada. Os joelhos apertaram as costelas do cavalo. Engoliu com força para vencer a secura da garganta e seguiu lentamente com seu animal em direcção ao espaço entre as pessoas e a procissão. Os cascos sugando a lama a cada passada e o suave chacoalhar da armadura do cavaleiro quase não perturbavam a cantoria da fila dupla de cardeais usando chapéu e batina vermelhos, que avançava devagar como uma centopeia brilhante ao longo do muro que cortava a praça. Nem eles nem os bispos com mantos de arminho que vinham em seguida demonstraram o mais leve temor dos cavalos que avançavam aos poucos. Tampouco as pessoas que se benziam e se ajoelhavam atrás da barricada. E porque haveriam de temê-los? Aqueles eram os guerreiros de Rocca Paida, a fortaleza no cume do morro que protegia a cidade. Todos haviam escutado rumores sobre a intenção dos habitantes de Perúgia de sequestrarem os restos mortais do santo. Pelo menos era isso que Simone esperava. O factor surpresa seria o seu melhor aliado. Atrás dos bispos vinham os frades e, bem no meio deles, os carregadores do caixão. Atravessaram a piazza ao longo da mureta da encosta que delimitava o seu lado sul. O crucifixo, os cardeais e os bispos já haviam descido o caminho de terra que levava à igreja inferior e esperavam em formação no pátio externo.

Chegara a hora. Quando o caixão começou a descer a ladeira, ele gritou: Adesso! Agora!, e cravou as esporas na sua montaria. O cavalo investiu contra a fila, distribuindo patadas com os cascos dianteiros, conforme fora treinado para agir durante as batalhas. Com ossos quebrados, um frade foi derrubado gritando de dor; outro saltou para o barranco a fim de se livrar do enorme animal. Simone sorriu sob o elmo e pôs-se a golpear ferozmente com sua espada. Ao girar vagarosamente o seu cavalo, viu os guardas-civis enfrentarem um grupo de homens que tentava escalar a barricada. Proteja o alto do caminho, ordenou ao cavaleiro a seu lado. Dois dos seus cavaleiros já desciam em direcção ao féretro, forçando os carregadores do caixão a se dirigirem para o pátio mais abaixo. A princípio, os frades cooperaram, correndo para o refúgio da igreja e a protecção do prefeito, que aguardava no início da estrada com o restante da guarda civil. Mas os homens de Giancarlo usaram as suas lanças para dispersar os prelados pelo pátio, provocando um alvoroço de mitras e mantos e saias arrebanhadas, cujos donos tentavam fugir em direcção ao caixão. Tarde demais, os frades se deram conta de que haviam caído numa armadilha. Simone açoitou o cavalo e desceu o morro, ao longo da trilha.

Mais em baixo, bem perto dele, um frade agarrara um guarda pelo braço e gritava com voz estridente. O guarda arremessou-o para fora da estrada com um golpe da sua manopla de metal, e o cavalo de Simone teve de saltar por cima do corpo que vinha deslizando ladeira abaixo. O cavaleiro somente olhou para trás quando chegou à base da colina. O capuz do frade voou longe, expondo uma longa trança negra. A viúva romana! Maldita! Ela não tinha nada que sair na procissão com os frades. Escorria sangue da sua face quando finalmente conseguiu se levantar, mas ela parecia não notar nem se importar. Fulminando-o com os seus olhos verdes, ela o desafiou mostrando o punho fechado: como se atreve, Simone? Como tem coragem de roubar o nosso santo? O cavaleiro respirou fundo ao ser acusado pelo próprio nome. Mais uma vez, desejou que o prefeito tivesse contratado guerreiros de outra cidade para fazer aquele trabalho sujo. Simone girou e galopou até a porta da igreja. Os guardas estavam agora com o caixão e arrancavam de cima dele o último frade, pequeno como um menino, que se agarrava a ele com toda a sua força. Por causa do seu tamanho, o cavaleiro presumiu que aquele deveria ser Leo, o anão. Após cercar a caixa de madeira, os homens de Giancarlo postaram-se atrás de Simone, enquanto os membros da igreja atiravam-lhes uma saraivada de pragas e maldições. O cavaleiro apeou e atirou as rédeas para um dos guardas.

Você vai arder no fogo do inferno, Simone!, vociferou alguém bem perto do seu ouvido. Ele se virou e ergueu a espada, mas o bispo de Assis levantou a cruz que levava ao pescoço para fazê-lo parar. Mordendo o lábio inferior, Simone abaixou a cabeça para entrar na igreja. O prefeito veio juntar-se a ele em seguida. Bem no portal da entrada, o mercador de lã estava à espera, ao lado do castelão da comuna de Todi. Ponham o ataúde no chão, ordenou Giancarlo aos seus homens. Depois, mandou que fossem para fora, defender o pátio. Assim que os guardas saíram, ele e o cavaleiro fecharam a porta com uma barra pesada de madeira que ia de um lado a outro. O prefeito encostou-se no painel entalhado, ofegante, enquanto Simone levantava o elmo e secava a testa com a manga de seu gibão de couro acolchoado. Foi somente quando o cavaleiro repôs a espada bainha que notou vestígios de sangue ressecado na lâmina. Cada vez pior, pensou, sombrio». In John Sack, A Conspiração Franciscana, 2005, Edição O Quinto Selo, 2006, ISBN 978-989-613-048-0.

Cortesia de EQuintoSelo/JDACT

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O Crime dos Illuminati. 1787. César Vidal. «Koch se recostou no espaldar de sua cadeira quando escutou aquelas palavras. Naturalmente, toda a história podia ser falsa, mas, se não fosse, o que ele tinha pela frente exactamente?»

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Baviera, 1797

«(…) Mas..., repetiu Koch, tentando ajudar o clérigo a continuar o seu relato. Mas olhou minha letra, sim, olhou minha letra e disse: estupendo, estupendo, o que eu pensava. Estupendo, estupendo, o que eu pensava, repetiu Koch sem tirar os olhos do clérigo. Isso, ele disse isso. Estupendo, estupendo, o que eu pensava. Então me avaliou outro tempinho e, de repente, saiu do aposento, voltou ao final de outro tempinho e me disse: sinto muito, padre, mas acabam de me dizer que o telhado da sua igreja acaba de desabar. Uma desgraça, pensou em voz alta Koch. E como, e como! O senhor poderia jurar, disse com os olhos abertos como pratos o sacerdote. Naquele momento, é claro, eu tentei me levantar, partir, ir embora. O senhor me diga. Com a paróquia em ruínas, que outra coisa eu podia fazer? Koch concordou mas não abriu a boca. Ou o padre estava louco de se internar ou estava prestes a chegar ao cerne da questão. Mas quando tentei me levantar, esse..., esse Lebendig pôs a mão no meu ombro e me disse: padre, eu lhe suplico, escreva alguma coisa. O que for, mas escreva alguma coisa. E o senhor escreveu? Claro..., claro que sim. Não vou esconder. Escrevi. E então..., aí vem o pior... O sacerdote se apoiou na mesa, aproximou o rosto do de Koch e, ao mesmo tempo era que lhe lançava uma baforada de álcool que o policial achou insuportável, disse: ele leu o que eu tinha escrito e disse: o que eu imaginava. O senhor ouviu? Ele disse: o que eu imaginava! Naturalmente, eu aproveitei que ele estava lendo o papel para começar a correr até à minha paróquia... Naturalmente, concordou Koch. Bem, pois cheguei à minha paróquia e o senhor sabe o que estava acontecendo? Não faço a menor ideia, respondeu o policial. Pois nada, disse o clérigo, nada. Nada! A igreja estava como sempre esteve. Sem uma rachadura.

Koch se recostou no espaldar de sua cadeira quando escutou aquelas palavras. Naturalmente, toda a história podia ser falsa, mas, se não fosse, o que ele tinha pela frente exactamente? Uma zombaria com a religião? Não, ninguém tinha perpetrado qualquer escárnio contra Deus, a Virgem nem contra nenhum santo. Uma fraude? Pelo contrário. O padre em questão era quem tinha recebido o dinheiro. Era verdade que a história do tecto da paróquia era falsa, mas isso não podia ser considerado um crime. Noutras circunstâncias, Koch teria prometido ao sacerdote ocupar-se do caso e, acto contínuo, teria tratado de arquivá-lo, mas alguma coisa lhe dizia que o tal Lebendig era uma personagem peculiar, tão peculiar que podia interferir na ordem, impoluta e perfeita, que caracterizava a tranquila cidade de Ingolstadt. Não se preocupe, padre, disse por fim. Dê-me o endereço dessa personagem e eu, pessoalmente, vou-me ocupar de perguntar o que houve. Um sorriso de felicidade paralisou o rosto do clérigo quando ouviu aquelas palavras. Sem dúvida, já estava quase convencido de que ninguém o atenderia. E agora, agora aquele policial tão atencioso, tão ponderado, tão diligente ia lhe dar atenção. Foi embora feliz, risonho, quase entusiasmado. Tanto que resolveu comemorar isso entrando na primeira taberna que cruzou o seu caminho.

Koch não agiu imediatamente. Deixou passar uns dois dias e, finalmente, foi até à casa do tal Lebendig. Ele morava num prédio não muito antigo de uma área quase próspera da cidade. Com apenas algumas varas a mais, a sua casa estaria numa área invejável. De onde se encontrava, tinha apenas que andar alguns minutos para se defrontar com algumas das pessoas mais necessitadas de Ingolstadt. O policial alisou o queixo enquanto corria os olhos pela entrada do prédio, depois respirou fundo e atravessou o umbral. Um cheiro de comida, não exactamente agradável, invadiu as suas narinas enquanto subia os degraus. Não se poderia dizer que a escada estivesse suja, mas Koch teve a sensação de que aquele lugar não contava com toda a limpeza necessária. Era como se os vizinhos não tivessem um interesse especial em manter a dignidade, embora também não se pudesse acusá-los de sujos. Sem deixar de olhar as paredes e os degraus, chegou até ao andar onde o padre tinha dito que aquele estranho indivíduo morava.

Herr Lebendig?, perguntou quando abriam a porta. Sim, herr, respondeu a mulher cuja silhueta aparecia no umbral, ao mesmo tempo em que acompanhava sua breve resposta com um movimento ligeiro de cabeça. Gostaria de vê-lo, disse Koch num tom correcto, mas que deixava claro que não aceitaria uma negativa. Espere, bitte, disse a mulher enquanto fechava a porta. Koch ouviu alguns passos no interior, suficientemente quietos para afastar a hipótese de que alguém quisesse fugir à acção da justiça. Ao fim de alguns instantes, a porta voltou a se abrir, confirmando o seu ponto de vista. Entre, bitte. A mulher foi na frente, ao longo de um corredor peculiar. Não era estreito demais e também não estava mal iluminado, mas num dos seus lados estava apoiada uma estante comprida repleta de livros. Livros! Para que o morador daquela casa podia querer tantos livros? E, sobretudo, como é que o padre não lhe tinha dito nada a respeito?» In César Vidal, O Crime dos Illuminati, 1958, tradução de António Borges, Ediouro Publicações S.A., 2006, Relume Dumará, 2007, ISBN 978-857-316-491-6.

Cortesia de Relume Dumarã/EdoouroPublicações/JDACT

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Raymond Bernard. As Mansões Secretas da Rosacruz.. «Maha me precede e nos sentamos, um frente ao outro, numa elegante mesa rectangular. Maha parece esperar que eu fale. Isso me surpreende, mas decido-me…»

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Amsterdão

«(…) Estranha cidade onde paira a sombra de Rembrandt, onde envelhecem sem envelhecer os históricos canais, onde o mar obstinado vem morrer contra o dique da obstinação humana, cidade de tradição que um grande mestre da Rosacruz do passado, Gustave Merinck, atravessou com as suas lembranças, jamais o fluxo cosmopolita dos negócios que a invadem apagará a história que impregna os muros veneráveis de teus bairros antigos e mesmo que, em algum dia lúgubre, a Natureza em cólera te submergisse para sempre nas ondas torturadas do adversário, o sábio perpetuaria tua lembrança no templo sagrado da secreta sabedoria! Nobre cidade que se faz tristeza para o triste, alegria para o alegre, corrente para o escravo ou liberdade para o livre, tu esposas as aspirações de teu visitante e sabes até ser decepção para o decepcionado! Oh, como eu queria que o adepto verdadeiro, do lado de cá do presente, perscrutasse a eterna presença de todos aqueles que deixaram em ti a marca da alta sabedoria, pois não reservas teus segredos apenas para o clarividente que, com um olhar, apaga o inelutável moderno para melhor ver adiante! Para mim, já eras riqueza abrindo teus cofres repletos de jóias de alquimia. Agora, és mais ainda para mim, porque doravante associo Maha à tua lembrança...

O Hotel Carlton, de Amsterdão, fica próximo do centro da cidade e dá para uma rua movimentada, do lado de arcadas cuja razão de ser nos intriga. À minha chegada, fico sabendo que, contrariamente ao que me assegurou a minha agência, nenhum quarto foi reservado em meu nome. Diante da importância do encontro marcado neste hotel, chamo a agência de Paris ao telefone. Conseguirei a ligação... Após uma hora de espera e, mal terminei, o recepcionista precipita-se na minha direcção para me informar que minha reserva foi encontrada e que um quarto estará à minha disposição…, amanhã! Como o meu encontro está marcado para as dezassete horas, não protesto, e o porteiro encontra-me facilmente um quarto para a noite no Hotel Suíço, na Kalverstraat Nem mesmo abrirei minha bagagem, tanto me apresso em voltar ao local do esperado encontro. No dia seguinte, ao meio-dia, estou instalado no Hotel Carlton e, às 16h30min, estou sentado no pequeno hall, os olhos fixados na porta que deve, daí a pouco, trazer Maha.

Ei-lo! Vejo-o transpor a grande porta envidraçada... Aí está ele diante de mim, e eu diante dele, que permanece de pé, sem me dar conta de que devia fazer um esforço para levantar-me. Como é impressionante sentir, de repente, que se está em algum lugar sem lá ainda estar, que um mundo nos cerca e que não percebemos mais nada..., mais nada, a não ser uns olhos de extrema palidez, nos quais todo o nosso ser se abandona, não para esquecer, mas para conhecer..., e viver! E esse sorriso de uma infinita bondade..., um encorajamento, um apelo à confiança, à humildade, à simplicidade! Em alguns segundos irrompem na minha consciência as impressões passadas: Lisboa... Istambul, a cripta deslumbrante. Tudo é uma coisa só. Quanto tempo dura este estado? Alguns segundos, menos ainda..., eu sei e, afinal, que me importa? Podem noções como o tempo e o espaço ter significado diante da eternidade simbolizada por esse que aí está? Ele não faz nenhum gesto e não dá o sinal que, há algum tempo, eu aguardava. Concluo que nosso encontro não se situará no plano anterior, onde tantas explicações me foram transmitidas sobre a obra do Alto Conselho, do A... Não obstante, aguardo ainda alguma nova revelação. O campo é tão vasto que só um guia esclarecido pode definir seus contornos. Mas não sinto nenhuma curiosidade especial, pois o estado transcende nosso miserável intelecto... Este lugar não convém ao propósito de nosso encontro, diz Maha após alguns instantes. Venha.

Sem uma palavra, eu o sigo. Ele avança até a extremidade da calçada, um carro pára a alguns passos e, mal nos instalamos, parte, silencioso, para o seu destino... Reconheço alguns canais, depois a Leidersplein. Atravessamos a ponte, viramos à esquerda e..., nem olho, mais, pois estou completamente perdido. Conheço bem Amsterdão, mas infinitamente menos seu subúrbio. No entanto, reconheceria a esplêndida residência que nos acolhe. Moradias como esta são raras demais para serem esquecidas. Esta não tem aspecto pesado. Fica situada no coração de um parque verdejante, cujo brilho é realçado pela densa folhagem colorida, e a sua estrutura de tijolos claros lhe confere um vínculo de parentesco com alguns edifícios do subúrbio de Londres. Andamos alguns passos do carro até um pequeno patamar, de onde se tem acesso a um amplo vestíbulo despojado: nas paredes, nenhum quadro; no ângulo oposto, um móvel chinês finamente gravado; no centro, uma mesa baixa e duas elegantes poltronas de estilo; nada mais que possa chamar particularmente a atenção. À esquerda, uma grande porta envidraçada e uma minúscula sala de visitas tão despojada quanto o vestíbulo.

Maha me precede e nos sentamos, um frente ao outro, numa elegante mesa rectangular. Maha parece esperar que eu fale. Isso me surpreende, mas decido-me: um tempo relativamente curto se passou desde o insigne privilégio que o senhor me concedeu, permitindo-me conhecer sua existência e a do Alto Conselho». In Raymond Bernard, As Mansões Secretas da Rosacruz, 2005, Editora Zéfiro, 2005, ISBN 978-972-895-8008.

Cortesia de EZéfiro/JDACT

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terça-feira, 22 de setembro de 2020

As Mansões Secretas da Rosacruz. Raymond Bernard. «Revi Maha e, apenas a esta lembrança, a sua imagem me parece muito próxima; tenho a sensação, sem igual, da sua presença e meu ser estremece com a emoção habitual…»

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Maha

«Revi Maha e, durante nossos encontros em Amsterdão e Viena, não pude evitar, enquanto o esperava, de pensar na volumosa correspondência recebida dos leitores de Encontros com o Insólito. Maha os impressionara e, ao ler tantas cartas, eu sentia a certeza de que, se minha descrição tivesse podido acompanhar, um pouco que fosse, a inolvidável impressão que emana desse ser extraordinário, a descrição, por si só, seria suficiente para comunicar aos outros as emoções que eu sentira. Parecia que, no momento da leitura, um vínculo subtil se estabelecia entre os leitores e Maha. Para muitos, ele não era mais apenas verdadeiro; passava a ser a sua verdade, aquela que está escondida no mais profundo de cada ser e que, às vezes, sob o estímulo imprevisto de uma narração, se eleva, gloriosa, diante de uma consciência deslumbrada. A verdade é uma, sob os múltiplos aspectos de que se reveste no mundo do fenómeno, e é quase um lugar-comum declarar que ela está em cada um de nós. Ora, seres como Maha situam-se no plano da verdade pura, e esse plano está em acordo com o universo da permanência que o homem traz para sempre em si próprio. Assim, não me surpreendia absolutamente constatar que alguns não viam em Maha um estranho, mas, ao contrário, digamos uma noção conhecida, encontrada com toda a sua força e seu vigor em si próprios, como se, de repente, as palavras, as frases, a narração os fizessem tomar consciência de um vínculo jamais rompido. Além disso, a missão planetária do Alto Conselho, do A..., diz respeito a todos os homens. Que existe de surpreendente que alguns tenham podido, por breves instantes, comunicar-se com tais representantes e pôr-se no mesmo diapasão do mais alto deles?...

Revi Maha e, apenas a esta lembrança, a sua imagem me parece muito próxima; tenho a sensação, sem igual, da sua presença e meu ser estremece com a emoção habitual, jamais embotada por este excepcional contacto. Não sei se vocês observaram, nos Encontros com o Insólito, que ele me parecia ter uns quarenta anos, nos retratos que eu observara em Copenhague e em Lisboa. Quando o vi pessoalmente, pela primeira vez, supus que chegara aos cinquenta, e esta impressão subsistiu em Istambul. No entanto, na incerteza, nada mudei na minha narração. Em Amsterdão, pareceu-me mais jovem, em Viena, mais idoso. Não sei como o encontrarei, dentro em breve, em Lisboa, em Madrid e, um pouco mais tarde, em Atenas. Talvez que, terminando esta obra pela descrição destes novos encontros, o que terei a dizer me faça esquecer uma descrição inoportuna! Contarei aqui, de novo, a minha impressão totalmente subjectiva. Se me pedissem para descrever Maha, seria tentado a responder: Ele tem olhos, e verdadeiramente não posso, mesmo agora, usar de mais precisão sem correr o risco de cometer o erro de uma explicação falsa. Creio que os olhos de Maha reflectem um mundo, um universo. Ele poderia comunicar-se unicamente com o olhar e, apesar da infinita bondade que deles emana, as preocupações talvez dêem à pureza dos seus olhos claros uma expressão diferente; de forma que, segundo as circunstâncias, parece ter mais ou menos idade. É, parece-me, a explicação da impressão que dá quanto à idade. Além disso, que podem significar noções como o aspecto físico ou o comportamento externo para semelhantes seres! Para eles, isso não tem interesse e, para quem tem o privilégio de ter-se encontrado com eles, poderia haver outra inalterável lembrança que o facto de ter estado na sua presença, no seu meio magnético e de ter ouvido a sua mensagem... a mensagem!

Creio ser útil fazer aqui uma advertência que estava implícita nos Encontros com o Insólito. Houve, antes da última guerra mundial e, depois dela, até por volta dos anos 50, um personagem bizarro que se atribuía o nome de Maha Chohan. Falou-se dele na França e nos Estados Unidos, onde a imprensa lhe dedicou alguns artigos irónicos. Esse pseudo-rei do mundo não pretendia nada menos que pôr a mão em organizações tradicionais autênticas, por motivos dificilmente confessáveis. Foi rapidamente desmascarado e enviado de volta às suas quimeras; mas, tão curioso quanto pareça, conservou alguns discípulos iludidos. Dele, de qualquer modo, ninguém mais fala. Naturalmente, não há nenhum termo de comparação entre o pseudo-Maha Chohan e o autêntico Maha. O rei do mundo não procura, seguramente, nenhuma publicidade e não se expõe à multidão sobre um estrado, sustentado por artigos e comunicados. Poucas pessoas encontraram Maha sabendo que ele era Maha. O chefe do Alto Conselho dissimula sua identidade verdadeira e sua função. Ele não trombeteia a sua santa condição como o fez esse aventureiro do oculto de que falamos, paramentando-se de uma qualidade prestigiosa e recolhendo, aliás, como fruto de sua audácia, mais que a reprovação, o ridículo. Revi Maha... Maha apenas e, de repente, revi novamente o contacto de Amsterdão, depois o de Viena, esperando, para breve, Lisboa, Madrid, Atenas enfim...» In Raymond Bernard, As Mansões Secretas da Rosacruz, 2005, Editora Zéfiro, 2005, ISBN 978-972-895-8008.

Cortesia de EZéfiro/JDACT

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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Os Cristãos-Novos de Elvas no reinado de João IV. Maria do Carmo T Pinto. «… a navegação holandesa e inglesa das costas da Índia. Nem o dinheiro dos confiscos podia constituir solução, uma vez que o tempo escasseava e não chegaria a tempo»

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Com a devida vénia à doutora Maria do Carmo

Heróis ou Anti-Heróis?

A Governação dos Áustrias em Portugal. Filipe III e a Inquisição (maldita)

«(…) Se analisarmos com algum cuidado a política de Filipe III, facilmente nos podemos aperceber que ocorreram profundas alterações na forma como se desenrolou o relacionamento entre o monarca e o Tribunal do Santo Ofício (maldito) e entre aquele e os cristãos-novos. No início do século XVII, a fazenda real, cuja última quebra tinha ocorrido em 1596, antes da subida de Filipe III ao trono, passava por novos apuros que culminou na bancarrota de 1607. O monarca determinou a imposição aos navios mercantes de um novo tributo, consulado, o qual deveria ser aplicado, exclusivamente, à defesa dos portos e do comércio marítimo. Esta decisão foi cumprida apenas durante alguns anos, uma vez que o produto do recente imposto, tal como já acontecera com a terça dos concelhos destinadas à reparação das fortalezas, depressa foi consumido nas despesas urgentes. O dinheiro arrecadava-se (...) mas os cascos apodreciam desarmados, enquanto os piratas acoutavam os nossos mares. O erário régio exigia reformas profundas que tardavam e o desequilíbrio aumentava. Mesmo o lançamento de um direito novo no valor de 220 réis sobre cada moio de sal exportado veio revelar-se insuficiente para resolver o problema financeiro. Considerando a conjuntura adequada;

No caso da Inquisição de Évora, por exemplo, em 1598, o número de sentenciados atingiu praticamente o seu pico apresentando valores muito superiores aos da Inquisição de Lisboa (maldita), cuja curva de evolução repressiva registou, durante o referido período, algumas hesitações no seu crescimento, e também mais elevados dos registados pela Inquisição de Coimbra.

a uma aceitação das suas exigências, os cristãos-novos tentaram a consciência do príncipe, prometendo-lhe avultadas quantias em troca da recuperação de imunidades que no reinado de Sebastião I lhe tinham sido concedidas e cuja revogação por parte do cardeal-rei Henrique foi confirmada por Filipe II. O desaparecimento de Filipe II e as dificuldades do tesouro nos primeiros anos do reinado de Filipe III aplanaram o caminho aos cristãos-novos. A supplica era audaz, mas a occasião favorecia os requerentes. O principal objectivo dos cristãos-novos era conseguirem, efectivamente, obter o perdão geral que havia muito procuravam alcançar e que, concedido por Clemente VII a 23 de Agosto de 1604, acabaria por ser publicado em 16 de Janeiro de 1605. Porém, até o conseguirem concretizar houve que percorrer um longo caminho, aliás iniciado ainda no reinado de Filipe II.

Assim, logo em 1598, começaram por oferecer à Coroa 675 mil cruzados, além de lhe facultarem um empréstimo no valor de 500 mil ducados, sem juros, a ser aplicado às naus da Índia e cujo reembolso assentava na pimenta que as mesmas trouxessem. Tanto em Portugal como em Castela, a disponibilidade manifestada pelos cristãos-novos para ajudar Filipe III suscitou forte oposição. O impasse acabou por ser ultrapassado com a proposta apresentada pelos Governadores de Portugal, em Fevereiro de 1600, na qual o reino se comprometia a pagar um serviço de 800 mil cruzados, em prestações anuais, como forma de indemnizar a coroa das somas que deixaria de receber, obrigando-se o monarca, em contrapartida, a rejeitar a pretensão dos cristãos-novos ao perdão geral. O governo castelhano aceitou a proposta mas esta acabou por não obter a anuência do Senado da Câmara de Lisboa com base no facto de não terem sido ouvidos os representantes das cidades e lugares do reino com assento nas Cortes, pelo que o acordo ficou sem efeito, pelo Alvará de 30 de Outubro de 1601.

Perante as dificuldades financeiras que teimavam em persistir, Filipe III viu-se, novamente, na contingência de ter de procurar apoio junto dos cristãos-novos. Assim, durante a primeira metade de 1601, a gente de nação obteve a revogação da lei decretada por dom Henrique e confirmada por Filipe II, que os impedia de sair do reino e de venderem os seus bens, mediante um pagamento de 170 mil cruzados, que posteriormente passou a 200 mil, sendo-lhes, igualmente, dada permissão para se fixarem nos territórios portugueses além-mar. Ainda nesse mesmo ano, um alvará régio de 24 de Novembro de 1601 proibia a utilização da designação de cristão-novo, confesso, marrano ou judeu, relativamente a qualquer descendente dos conversos, sob pena de multa e prisão, sendo provável que a promulgação desta lei tenha sido obtida mediante o pagamento pelos cristãos-novos de avultada quantia. Contudo, à vontade expressa da Inquisição (maldita) sobrepunham-se as exigências do erário régio. Os que defendiam que o perdão fosse concedido argumentavam que era necessário organizar uma poderosa esquadra que afastasse, definitivamente, a navegação holandesa e inglesa das costas da Índia. Nem o dinheiro dos confiscos podia constituir solução, uma vez que o tempo escasseava e não chegaria a tempo.

Assim, os cristãos-novos prometiam a Filipe III um serviço voluntário de 1.700.000 cruzados, prescindindo do pagamento de 225 mil cruzados que a fazenda devia a alguns deles, caso o monarca conseguisse obter o perdão geral das culpas de apostasia e judaísmo. Os cristãos-novos estavam tão apostados em garantir que as suas pretensões fossem ouvidas que tinham, inclusivamente, distribuído benesses financeiras, no valor de 100 mil cruzados, por diversas personagens importantes da corte madrilena, entre as quais o próprio duque de Lerma». In Maria do Carmo T Pinto, Os Cristãos-Novos de Elvas no reinado de João IV, Heróis ou Anti-Heróis?, Dissertação de Doutoramento em História, Universidade Aberta, Lisboa, 2003.

Cortesia UAberta/JDACT

JDACT, Maria do Carmo T Pinto, História, Cultura e Conhecimento,

domingo, 20 de setembro de 2020

Laurence Gardner. A Linhagem do Santo Graal.. «Chegando ao trono real por linhagem hereditária em vez de eleições, era importante para os sucessores promover o ideal de serviço. Mas a que os monarcas realmente serviam? Ou melhor, a quem serviam?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Na cultura esotérica do Graal, o cálice e a vinha sustentam o ideal de serviço, enquanto o sangue e o vinho correspondem ao eterno espírito de cumprimento. A busca espiritual do Graal é, portanto, um desejo pelo cumprimento, prestando e recebendo serviço. Aquilo que é chamado de Código do Graal é, em si, uma parábola para a condição humana, da busca de todos nós, por meio do serviço. O problema é que o preceito do código foi sufocado por um complexo avaro da sociedade, baseado na noção da sobrevivência do mais forte. Hoje, é evidente que a riqueza, não a saúde, é um demarcador na trilha dos socialmente fortes, enquanto outro critério seria a obediência à lei. Acima dessas considerações, porém, há outra exigência: submeter-se à disciplina do partido enquanto se serve aos semideuses do poder. Esse pré-requisito nada tem a ver com a obediência à lei ou o comportamento adequado; depende totalmente de não balançar o barco nem se ater a opiniões não conformistas.

Aqueles que quebram as regras são considerados hereges, intrometidos ou criadores de encrenca, e como tais reputados por seu governo elementos socialmente impróprios. Consequentemente, a adequação social é conseguida quando se submete à doutrinação e se abandona a individualidade pessoal para que seja preservado o status quo administrativo. Sob qualquer padrão de reconhecimento, isso dificilmente seria descrito como um modo de vida democrático. O ideal democrático é expressado como Governo pelo povo para o povo. Para facilitar esse processo, as democracias são organizadas com base eleitoral, em que os poucos representam os muitos. Os representantes são escolhidos pelo povo para governar para o povo, mas o resultado paradoxal geralmente é o governo do povo. Isso é contrário a todos os princípios da comunidade democrática e nada tem a ver com serviço. Está, portanto, em oposição directa ao Código do Graal. Em nível nacional e local, os representantes eleitos há muito tempo vêm conseguindo reverter o ideal harmonioso, colocando a si próprios sobre pedestais acima do eleitorado. Em virtude disso, os direitos individuais, as liberdades e o bem-estar são controlados por ditames políticos, que determinam quem é socialmente adequado e quem não é, em todos os momentos. Em muitos casos, isso implica até decisões sobre quem pode ou não sobreviver. Com essa finalidade, há muitos que almejam posições de influência pela pura gana de poder sobre os outros. Servindo a interesses próprios, eles se tomam manipuladores da sociedade, causando o enfraquecimento da maioria. O resultado é que, em vez ser servida da maneira justa, a maioria é reduzida a um estado de servidão. Não é por acaso que, desde a Idade Média, o lema dos Príncipes de Gales tem sido Ich dien (eu sirvo). Tal lema nasceu directamente do Código do Graal durante a Era do Cavalheirismo.

Chegando ao trono real por linhagem hereditária em vez de eleições, era importante para os sucessores promover o ideal de serviço. Mas a que os monarcas realmente serviam? Ou melhor, a quem serviam? De um modo geral (e certamente através das eras feudais e imperiais), eles governaram em conluio com os seus ministros e a Igreja. Governar não é servir, e faz parte da justiça, igualdade e a tolerância do ideal democrático. E portanto incompatível com a máxima do Santo Graal. Assim, A Linhagem do Santo Graal não se restringe em conteúdo a genealogias e histórias de intriga política, mas as suas páginas contêm a chave do Código do Graal essencial: a chave não só de um mistério histórico, mas também de um modo de vida. É um livro a respeito do bom e do mau governo. Explica como o reino patriarcal do povo foi suplantado pela tirania dogmática e pelo domínio ditatorial da Terra. É uma jornada de descobrimento através de eras passadas, com os olhos voltados para o futuro. Nesta era da tecnologia dos computadores, de telecomunicações por satélite e da indústria espacial internacional, o avanço científico acontece a uma velocidade assustadora. À medida que cada estágio de desenvolvimento chega mais rápido, os indivíduos funcionalmente competentes emergirão como os sobreviventes, enquanto o resto será considerado inadequado por um establishment impetuoso que serve às próprias ambições, mas não a seus súbditos». In Laurence Gardner, A Linhagem do Santo Graal, 2004, Editora Madras, 2004, ISBN 978-857-374-882-6.

Cortesia de EMadras/JDACT

JDACT, Laurence Gardner, Literatura, Religião, 

A Linhagem do Santo Graal. Laurence Gardner. «Contudo, para abordarmos esse tema, teremos de considerar primeiramente as histórias bíblicas do Antigo e do Novo Testamento sob uma perspectiva diferente daquela normalmente transmitida»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Após a Revolta dos Judeus em Jerusalém, no I século da era cristã, os senhores romanos teriam destruído todos os registos a respeito do legado de David da família de Jesus, o Messias. A destruição, porém, nunca foi completa, e alguns documentos relevantes foram guardados pelos herdeiros de Jesus, que trouxeram a herança messiânica do Oriente Próximo para o Ocidente. Como confirma a Enciclopédia Eclesiástica de Eusébio, bispo de Cesareia, esses herdeiros eram chamados de Desposyni (antigo termo grego para do Mestre), um título sagrado reservado exclusivamente para aqueles da mesma descendência familiar de Jesus. Eles tinham o legado sagrado da Casa Real de Judá, uma linhagem dinástica existente ainda hoje. No decorrer deste livro, estudaremos a extraordinária história dessa linhagem soberana, desvendando um detalhado relato genealógico do Sangue Real Messiânico (o Sangreal) em descendência directa de Jesus e seu irmão Tiago. Contudo, para abordarmos esse tema, teremos de considerar primeiramente as histórias bíblicas do Antigo e do Novo Testamento sob uma perspectiva diferente daquela normalmente transmitida. Não estaremos reescrevendo a história, mas remodelando relatos conhecidos, levando a história de volta à sua base original, em vez de perpetuar os mitos de estilo estratégico daqueles cujos interesses são tendenciosos. Com o passar dos séculos, uma contínua conspiração governamental e da Igreja tem prevalecido acima do legado messiânico. Essa tendência aumentou quando a Roma Imperial desviou o curso do Cristianismo para servir a um ideal alternativo, e continua até o presente.

Muitos eventos históricos aparentemente não relacionados foram, na verdade, capítulos da mesma e contínua supressão da linhagem. Das guerras judaicas do I século d.C., passando pela Revolução Americana do século XVIII e além, as maquinações têm sido perpetuadas por governos europeus e ingleses, em colaboração com a Igreja Católica Romana e a Igreja Anglicana. Nas suas tentativas de restringir o direito nato real de Judá, os Altos Movimentos cristãos instalaram vários regimes próprios, tal como a própria Casa de Hanover, da Grã-Bretanha, SaxeCoburg, Gotha. Essas administrações foram forçadas a apoiar doutrinas religiosas específicas, enquanto outras foram depostas por pregar a tolerância religiosa. Agora, na entrada de um novo milênio, é hora de reflexão e reforma no mundo civilizado, e para a realização dessa reforma é apropriado considerar os erros e os sucessos do passado. Para essa finalidade, não há registo melhor do que o existente nas crónicas do Sangreal. A definição Santo Graal apareceu pela primeira vez na Idade Média, como um conceito literário, baseado (como veremos mais adiante) numa série de erros de interpretação por parte de escrivões. O termo derivava imediatamente como uma tradução de Saint Grail e das antigas formas San Graal e Sangreal. A antiga Ordem do Sangreal, uma Ordem dinástica da Casa Real Escocesa de Stewart, era directamente aliada à continental Ordem Europeia do Reino de Sion, e os cavaleiros de ambas as Ordens eram adeptos do Sangreal, que define o verdadeiro Sangue Real (o Sang Real) de Judá: a A Linhagem do Santo Graal.

Bem distinto do seu aspecto físico dinástico, o Santo Graal também tem uma dimensão espiritual. Ele tem sido simbolizado por muitas coisas, mas, como objecto material, costuma ser visto como um cálice, especialmente contendo (ou que já conteve) o sangue vital de Jesus. O Graal também já foi retratado como uma vinha, estendendo seus ramos através dos anais do tempo. O fruto da vinha é a uva, e da uva vem o vinho. Nesse sentido, os elementos simbólicos do cálice e o vinho coincidem, pois o segundo há muito é comparado como o sangue de Jesus. Na verdade, essa tradição está presente bem no coração do sacramento da Eucaristia (Sagrada Comunhão), e o sangue perpétuo do Graal, ou do cálice, representa nada menos que a duradoura linhagem messiânica». In Laurence Gardner, A Linhagem do Santo Graal, 2004, Editora Madras, 2004, ISBN 978-857-374-882-6.

Cortesia de EMadras/JDACT

JDACT, Laurence Gardner, Literatura, Religião, 

sábado, 19 de setembro de 2020

A Carta Secreta. Lucinda Riley. «Aparentemente, o nome dela era Samantha. Eles trabalhavam juntos na agência de publicidade. Ela era directora de contas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Apenas poucos dias depois da passagem de um ano que havia começado de modo tão promissor, Joanna estava com a sensação de ter sido jogada do alto do Empire State. Em alta velocidade. Sem aviso. O motivo era Matthew..., o amor da sua vida. Ou, melhor dizendo, desde a véspera, o ex-amor da sua vida. Joanna mordeu com força o lábio inferior, tentando não recomeçar a chorar, esticou o pescoço em direcção aos bancos da frente, mais próximos do altar, e constatou aliviada que os membros da família que todos aguardavam ainda não tinham chegado. Ao olhar novamente para a porta principal, pôde ver que os paparazzi lá fora acendiam cigarros e mexiam nas lentes das câmaras. As pessoas na sua frente começavam a se remexer nos desconfortáveis bancos de madeira, sussurrando algo para quem estivesse ao lado. Ela correu os olhos rapidamente pela multidão e identificou as celebridades mais importantes a ser mencionadas na sua matéria, esforçando-se para distingui-las pela parte de trás da cabeça, a maioria grisalha ou branca. Enquanto rabiscava os nomes no bloco, imagens do dia anterior tornaram a invadir sua mente... De maneira inesperada, à tarde, Matthew tinha aparecido à porta do seu apartamento em Crouch End. Depois das intensas comemorações de Natal e Ano-Novo, os dois haviam concordado que cada um ficaria no próprio apartamento para passar alguns dias tranquilos antes de recomeçar o trabalho.

Infelizmente, Joanna passara esse tempo com seu pior resfriado em anos. Foi abrir a porta para Matthew abraçada a uma bolsa de água quente do Ursinho Pooh, usando um pijama de tecido térmico antiquíssimo e calçando um par de meias de dormir listradas. Percebeu na mesma hora que havia algo errado quando ele permaneceu de pé junto à porta, sem querer tirar o casaco, os olhos se movendo depressa para um lado e para o outro, fitando qualquer coisa, menos ela... Ele então lhe disse que andara pensando. Que não via futuro no relacionamento dos dois. E que talvez estivesse na hora de terminar. Já faz seis anos que estamos juntos, desde o fim da faculdade, disse ele, mexendo nas luvas que ela havia lhe dado no Natal. Sei lá, eu sempre pensei que com o tempo fosse querer-me casar com você..., unir oficialmente as nossas vidas, sabe? Mas esse momento não chegou... Ele deu de ombros sem muita convicção. E, se eu não sinto isso agora, não acho que vá sentir algum dia. Joanna apertou a bolsa de água quente enquanto observava a expressão culpada e cautelosa de Matthew. Enfiou a mão no bolso do pijama até encontrar um lenço de papel húmido e assoou o nariz com força. Então o encarou directamente nos olhos. Quem é ela? O rubor se espalhou por todo o rosto e pescoço de Matthew. Eu não tinha a intenção de que isso acontecesse, balbuciou ele. Só que aconteceu, e não posso mais continuar fingindo. Joanna recordou a noite de réveillon que os dois haviam passado juntos quatro dias antes. Concluiu que ele tinha conseguido fingir muitíssimo bem.

Aparentemente, o nome dela era Samantha. Eles trabalhavam juntos na agência de publicidade. Ela era directora de contas, ainda por cima. Tudo havia começado na noite em que Joanna estava na pesquisa de um deputado do partido conservador por conta de uma pauta sórdida e não chegara a tempo da festa de Natal da agência de Matthew. A palavra clichê ainda rodopiava na sua mente. Mas então ela caiu em si: de onde vinham os clichês, senão dos denominadores comuns do comportamento humano? Eu juro, juro que tentei com toda a minha força parar de pensar na Sam, continuou Matthew. Tentei mesmo, durante todo o Natal. Foi maravilhoso estar com a sua família em Yorkshire. Mas aí estive com ela de novo na semana passada, só para beber alguma coisa rápida, e...

Joanna estava fora do jogo. Samantha estava dentro. Era simples assim. Tudo que ela conseguiu fazer foi encará-lo, com os olhos ardendo de espanto, raiva e medo, enquanto ele continuava a falar: no início eu pensei que fosse só atracção. Mas é óbvio que, se eu sinto isso por outra mulher agora, não me posso comprometer consigo. Então estou fazendo a coisa certa. Ele a encarou, quase suplicando para que lhe agradecesse por sua nobreza. A coisa certa..., repetiu ela com uma voz apática. Então irrompeu numa enxurrada de lágrimas congestionadas provocadas pela febre. De algum lugar muito longe, pôde ouvir a voz de Matthew balbuciando mais desculpas. Forçando-se a abrir os olhos inchados e encharcados de lágrimas, viu-o afundar, pequeno e envergonhado, na poltrona de couro gasto. Vá embora, disse ela por fim, com voz rouca. Seu traidor mentiroso, hipócrita maldito! Vá embora daqui! Vá embora daqui agora! Olhando em retrospecto, o que deixou Joanna realmente mortificada foi que Matthew nem sequer relutou. Ele se levantou, murmurando algo sobre diversos pertences deixados no apartamento dela, e sugeriu que se encontrassem para conversar quando a poeira baixasse. Em seguida, praticamente correu na direcção à porta. Joanna havia passado o restante da noite chorando ao telefone com a mãe, com a secretária eletrónica do seu melhor amigo, Simon, e com os pêlos cada vez mais ensopados da sua bolsa de água quente do Ursinho Pooh». In Lucinda Riley, A Carta Secreta, 2018, Editora Arqueiro, 2019, ISBN 978-858-041-941-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Lucinda Riley, Literatura, MLCT,

Lucinda Riley. A Carta Secreta. «Acenou e ele fez um sinal de OK com o polegar enquanto ela se espremia para passar pela multidão de fotógrafos aglomerada ao redor da celebridade…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Ela entrou devagar na sala e foi até à lareira. Fazia frio, e a sua tosse estava pior. Com o corpo frágil, sentou-se numa cadeira e pegou sobre a mesa a última edição do jornal The Times para ler os obituários junto com seu habitual chá inglês do café da manhã. Pousou a xícara de porcelana, fazendo-a tilintar no pires, ao ver a manchete que ocupava um terço da primeira página:

Morre uma lenda viva

Sir James Harrison, considerado por muitos o maior actor de sua geração, morreu ontem na sua casa de Londres, cercado por familiares. Ele tinha 95 anos. Um funeral só para os mais próximos acontecerá na semana que vem, seguido pela celebração de uma missa na cidade em Janeiro.

O coração dela ficou apertado, e o jornal estremeceu entre os seus dedos com tanta violência que ela mal conseguiu ler o resto. Junto ao texto havia uma imagem dele recebendo da rainha a Ordem do Império Britânico. Com lágrimas borrando a sua visão, ela traçou com o dedo o contorno do perfil marcado, da farta cabeleira grisalha... Será que ela poderia..., será que se atreveria a voltar? Só uma última vez, para se despedir? Enquanto o chá matinal esfriava intocado ao seu lado, ela virou a primeira página para continuar a leitura, saboreando os detalhes da vida e carreira de sir James. A sua atenção foi então atraída por outra pequena matéria mais abaixo:

Corvos somem da torre

Os célebres corvos da Torre de Londres desapareceram. Segundo a lenda, as aves residem no local há mais de quinhentos anos, protegendo a Torre e a família real, conforme decreto de Carlos II. O guardião dos corvos foi alertado ontem no início da noite sobre o sumiço dos pássaros, e uma busca em todo o país encontra-se em andamento.

Que os céus nos ajudem, sussurrou ela, sentindo o medo invadir as velhas veias. Talvez fosse uma simples coincidência, mas ela conhecia muito bem o significado daquela lenda.

Joanna Haslam atravessou Covent Garden correndo a toda a velocidade, com a respiração pesada, arfando de tanto esforço. Esquivando-se de turistas e grupos escolares, por pouco não derrubou um artista em plena apresentação, quando, num movimento, a sua mochila voou para trás dela. Chegou à Bedford Street bem no momento em que uma limusine parava em frente aos portões de ferro forjado que conduziam à igreja de Saint Paul. Fotógrafos cercaram o carro enquanto um chofer saltava para abrir a porta traseira. Droga! Droga! Com o seu último resquício de forças, Joanna correu os poucos metros que faltavam até aos portões que davam para o pátio calçado, e o relógio na fachada de tijolos da igreja confirmou que ela estava atrasada. Já perto da entrada, olhou de relance para o grupo de paparazzi e viu que Steve, seu fotógrafo, ocupava uma óptima posição, no topo da escada. Acenou e ele fez um sinal de OK com o polegar enquanto ela se espremia para passar pela multidão de fotógrafos aglomerada ao redor da celebridade que acabara de saltar da limusine. Uma vez dentro da igreja, viu que os bancos estavam abarrotados, iluminados pela luz suave dos candelabros pendurados no tecto alto. Ao fundo, o órgão tocava uma música soturna. Após mostrar a sua credencial de imprensa ao recepcionista e recuperar o fôlego, ela entrou numa das fileiras de trás e sentou-se agradecida. Seus ombros moviam-se a cada arquejo enquanto ela vasculhava a mochila em busca do bloco e da caneta. Embora fizesse um frio gélido dentro da igreja, Joanna sentiu gotas de suor na testa; a gola rulê do suéter de lã de carneiro que vestira apressada agora grudava desconfortavelmente na pele. Ela pegou um lenço de papel e assoou o nariz. Então, passando uma das mãos pelo emaranhado de cabelos escuros compridos, recostou-se no banco e fechou os olhos para recuperar o fôlego». In Lucinda Riley, A Carta Secreta, 2018, Editora Arqueiro, 2019, ISBN 978-858-041-941-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Lucinda Riley, Literatura, MLCT,

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Lynn Sholes e Joe Moore. O Projecto Hades. «As chamas reflectiram-se no metal polido fazendo parecer que um fogo ardia no seu interior. Ele levou o cálice aos lábios e sorveu um gole»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A descida ao Hades é a mesma a partir de todos os lugares». In Anaxágoras, filósofo grego, 500-428 a.C.

«Depois de perder a grande Batalha do Céu, Lúcifer, o Filho do Amanhecer, e os seus anjos rebeldes foram expulsos do Paraíso, proscritos por toda a eternidade para o mundo das trevas. Obcecado pelo ódio e o desejo de vingança, Lúcifer, que passou a ser conhecido como Satã, maquinou o seu primeiro acto de vingança contra Deus, a tentação de Adão e Eva. Vendo que o Homem era vulnerável, e munido com o conhecimento de que todos os humanos podiam ser tentados, Satã deu início a uma guerra para impedir que as almas entrassem no Reino do Céu. A cada Era do Homem, ele inventava métodos cada vez mais elaborados para induzir a ingénua psique humana a repetir o pecado original de Adão. Para tanto, a Fraternidade dos Caídos de Satã e os seus descendentes, os Nephilim, varreram a Terra em busca de presas, aumentando a sua lista cada vez mais extensa de almas para sempre condenadas às mesmas trevas nas quais o Mal prosperava. Uma única alma compartilhava a sua linhagem sanguínea, mas não a sua danação. Sozinha, ela impedia Satã de alcançar o seu derradeiro objectivo: arrebanhar todas as almas da Terra para o seu Império das Trevas. Ele tinha a capacidade de tentar o Homem, mas ela tinha a força de vontade para detê-lo. Ela era Cotten Stone, a filha do único Anjo Caído perdoado. Deus fizera uma aliança com o pai dela, Furmiel, o Anjo da Décima Primeira Hora. Por ele ter-se arrependido, Deus concedeu a Furmiel a mortalidade e ele teve duas filhas, gémeas. Uma vez que Furmiel não poderia jamais retornar ao Paraíso, Deus levou uma das filhas recém-nascidas para ocupar o lugar do pai no Céu, mas a segunda filha teria de viver na Terra. Assim, ela foi convocada por Deus para lutar em Seu nome. Cotten Stone descobrira o seu legado ao ficar frente a frente com o Filho do Amanhecer. O ódio que ele nutria por ela aumentava a cada confronto. Ela impedira o plano dele de realizar um Segundo Advento profano, e ao compreender que Deus dera o livre-arbítrio ao Homem, a capacidade de criar a sua própria realidade, ela frustrara a tentativa de Lúcifer de levar o Homem a cometer o pecado supremo contra Deus, o suicídio. Ao decifrar uma mensagem inscrita pela mão de Deus sobre uma antiga placa de cristal, ela conduziu os que escolheram viver uma vida pautada no bem para um novo mundo de paz e alegria. Num gesto de abnegação, Cotten Stone então retornou ao velho mundo para continuar a lutar contra o seu inimigo eterno, um mundo onde o bem e o mal estariam sempre em guerra. A cada nova batalha que travava, o Fim dos Tempos ficava cada vez mais próximo. Agora, formavam-se dois exércitos: o Rubi, liderado pelo Grande Impostor; e o Índigo, liderado pela filha de um anjo. Muito em breve, uma nova batalha contra as Forças do Mal seria deflagrada e Cotten Stone seria de novo posta à prova.

Rizben Mace estava de pé no centro do pentagrama entalhado no piso de pedra, as cinco pontas se projectando como lâminas de uma arma antiga. Seis crianças com túnicas pretas estavam ajoelhadas à sua frente, os rostos escondidos por baixo dos capuzes. Trajando uma túnica vermelho-rubi, Mace segurava um cálice dourado numa das mãos e uma adaga incrustada de pedras preciosas na outra. Eu invoco Samael, o Guardião do Portal, disse. Samael, as crianças entoaram em uníssono. Em resposta ao encantamento, um dedo de nuvens densas de vapor flutuou diante da Lua, que brilhava como um pálido holofote. As velas tremeluziam no ar nocturno, as chamas protegidas pelos muros altos, envolvendo o ritual com uma névoa alaranjada. Figuras escuras, vestidas de preto e segurando tochas, circundavam o grande pátio. Eu invoco Azazel, o Guardião da Chama, disse Mace, a Centelha no Olho das Grandes Trevas. De novo, as vozes infantis ecoaram: azazel. Ante a invocação, as tochas se avivaram. Eu invoco a Luz do Ar, o Filho do Amanhecer. Filho do Amanhecer, repetiram as crianças. Uma rajada de vento quente agitou e envolveu as túnicas sobre as formas dos personagens nas sombras. Mace manteve a adaga e o cálice dourado com os braços estendidos. As chamas reflectiram-se no metal polido fazendo parecer que um fogo ardia no seu interior. Ele levou o cálice aos lábios e sorveu um gole. O vinho o aqueceu. Tinha aguardado ansiosamente o momento da cerimônia, a iniciação, a apresentação oficial dos jovens guerreiros a Lúcifer, o Filho do Amanhecer. Eles eram os descendentes dos Anjos Caídos, os mais recentes soldados Nephilim alistados nas fileiras do Exército Rubi, reunidos em torno dos preparativos para o Conflito Final. Uma onda de orgulho correu pelas suas veias enquanto elevava o cálice para que todos vissem. Em nome da vossa espada poderosa e da essência vital abundante que vos confere o poder da conquista, penetrai as mentes, os corações e as almas destes jovens guerreiros e enchei-os da vossa força terrível e esmagadora.

Mace ergueu bem alto os braços e as crianças se levantaram, formando uma fila única. Uma a uma, beijaram a lâmina da adaga e beberam um gole do cálice. Depois que todas foram servidas, elas voltaram para os seus lugares e puxaram os capuzes para trás, revelando os rostos juvenis. Mace abriu os braços num gesto majestoso. Ó grandioso Filho do Amanhecer, contemple os mais novos soldados do vosso triunfante Exército Rubi. Mace saiu do edifício e desceu os três níveis de degraus estreitos até à calçada. Era sempre uma transição desagradável, pensou ele, passar do salão medieval escondido no subsolo central do edifício para a claridade ofuscante da iluminação das ruas de Washington, e da sua túnica cerimonial de volta para o casaco e gravata». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Projecto Hades, 2007, Publicações Europa-América, 2008, ISBN 978-972-105-888-0.

Cortesia de EPEuropa-América/JDACT

Lynn Sholes, Joe Moore, JDACT, Mistério, Conhecimento,

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «Acho que ele precisou dobrar a dose do remédio para a pressão. Estou indo para lá, agora. Tenho uma reunião com ele às nove e meia, e a minha sessão de edição é às dez»

jdact e cortesia de wikipedia

«O príncipe das trevas é um cavalheiro». In Shakespeare

A Fita

«(…) Na manhã seguinte, Cotten fez uma busca na gaveta de cosméticos. Nada de rímel. Encontrou diversas embalagens de base e uma sombra ainda nova. Sombra para os olhos, delineadores e batons, mas nada de rímel. Havia levado ao Iraque o único tubo de que dispunha e o abandonou no deserto. Examinou o rosto no espelho. Os olhos castanho-claros pareciam descuidados. Enrolou a mecha de cabelo rebelde que teimava em se soltar e deu uma última olhada no reflexo. Por um momento, vislumbrou o rosto da mãe no seu. Tocou com a ponta dos dedos a pele sob os olhos e ao redor da boca. Lembranças da vida que havia deixado para trás em Kentucky a assaltaram. Viu rugas e olheiras profundas no rosto das mulheres..., mulheres não muito mais velhas do que ela própria aparentava no momento. Vinte e sete eram quase trinta, e os trinta não ficavam muito longe de... A mãe a chamava de excêntrica, dizendo que ela era uma sonhadora. Era verdade. E nas asas desses sonhos ela havia fugido de uma vida em que as mulheres envelheciam cedo demais, desistiam das esperanças cedo demais..., e morriam muito antes do tempo. Sinto muito, mãe, sussurrou. Cotten borrifou de perfume a parte de trás de cada orelha e fechou a gaveta de cosméticos. Na cozinha, mastigou uma barra de cereais e preparou uma xícara de café instantâneo. Enquanto comia, olhou para o fogão. Tudo parecia bem normal. Só por precaução, pegou uma frigideira do armário e colocou-a no queimador ao lado do bule. Perfeito.

Atravessou os dez quarteirões do apartamento até à sede da SNN. Fazia frio, mas Cotten nem prestou atenção. Ansiava por obter as respostas a algumas perguntas inquietantes. De repente, o telefone móvel vibrou. Alô, atendeu, desviando-se das pessoas na calçada movimentada. Olá, garota. Voltou! Nessi!, Cotten sorriu, contente por ouvir a voz da amiga. Como foi a viagem? Parece que as coisas ficaram bem quentes por lá. Você não vai acreditar em tudo o que passei nos últimos dois dias. Ela começou a contar à amiga mas, de propósito, omitiu a parte em que Archer implorou para que ficasse com a caixa, falando numa língua que não existia para ninguém no planeta além dela. Ninguém compreenderia. Então precisei subornar um oficial para passar pela fronteira com a Turquia. Fiquei chacoalhando num autocarro um dia inteiro com pessoas que fediam como bodes. E acho que contrabandeei uma espécie de artefacto antigo do Médio Oriente para os Estados Unidos. Ela olhou de relance para a manchete do New York Times quando passou por uma banca de jornais: sobe o número de tropas. Tirando tudo isso, foi normal. Sentiu a minha falta? Sempre, afirmou Vanessa Perez. Estava preocupada com você. O seu chefe não ficou zangado?

Acho que ele precisou dobrar a dose do remédio para a pressão. Estou indo para lá, agora. Tenho uma reunião com ele às nove e meia, e a minha sessão de edição é às dez. E quanto ao seu Thorn, hein? Nessi, pega leve. Ele vai estar lá? Acho que sim. Talvez eu esteja com sorte e ele tenha saído para alguma entrevista. É melhor pensar em alguma coisa para dizer quando o encontrar de novo. Estou pensando. Sei, já ouvi isso antes. O estômago de Cotten deu um nó. Nessi tinha mesmo ouvido aquilo antes, mais de uma vez. Ela sempre pensava a mesma coisa, queria acreditar que havia terminado com ele. Mas dessa vez seria diferente. Era um caminho sem volta, doloroso e ponto final. Precisava se convencer de que Thornton era coisa do passado..., um malote despachado para algum lugar distante. Você tem sessão de fotos hoje? Cotten mudou de assunto. Em South Beach..., para um bronzeador... logo você vai me ver nos cartazes com um biquíni minúsculo e um frasco do produto na mão. Cotten deu uma risada. Arrase com eles! Eu sempre arraso. Houve uma pausa incómoda. Então acrescentou: não deixe que ele leve a melhor. Me dê algum crédito. Cotten sentiu uma golfada de ar quente quando passou pelas portas rotatórias da sede da SNN. Ei, é para isso que servem os amigos. Vanessa brincou, recordando uma música que curtiam juntas. O refrão era como um código secreto entre elas. Ainda bem que você é linda, porque não sabe cantar..., disse Cotten entre risos». In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

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Lynn Sholes e Joe Moore. A Conspiração do Graal. «Mal entrou na sala do apartamento onde morava, Cotten deixou uma mensagem na secretária eletrónica de Ted Casselman, informando-o de que havia regressado em segurança»

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«O príncipe das trevas é um cavalheiro». In Shakespeare

Viagem de Volta

«(…) Chegando ao Aeroporto John F. Kennedy, Cotten passou rapidamente pela Alfândega e pela Imigração. Depois de atravessar o terminal lotado, parou numa caixa eletrónica para levantar dinheiro, e em seguida passou pelas portas automáticas para a calçada. O Inverno rigoroso de Nova York atingiu-a em cheio, gelando-lhe as faces. Naquela época do ano, o Nordeste do país não tinha atractivos suficientes que compensassem, pensou. Ainda bem que esteve fora por algum tempo, longe da neve e do doloroso fim de caso com Thornton Graham. Cotten acenou para um táxi e acomodou-se no assento de trás, a sacola pousada no colo. Indicou ao motorista o endereço do apartamento no centro da cidade e então repousou a cabeça no encosto. Lembrou-se dos sonhos inquietantes que a perturbaram durante o voo. Não conseguia tirá-los da memória, os sonhos eram impregnados com o cheiro húmido da câmara antiga, a explosão do disparo da arma de fogo, o sangue ainda quente daquele árabe, a pele descorada e os lábios azulados de Archer, o último suspiro dele no seu ouvido enquanto sussurrava: Geh el crip, você é a única pessoa. Era impossível que ele fosse capaz de pronunciar aquelas palavras. Impossível. E ainda assim ele as pronunciou. Através da janela empoeirada do táxi, Cotten observou o perfil da cidade, que até então estivera fora de foco, ficar mais nítido.

Mal entrou na sala do apartamento onde morava, Cotten deixou uma mensagem na secretária eletrónica de Ted Casselman, informando-o de que havia regressado em segurança. Ela havia ligado para ele de Ankara e também de Londres. Mas o chefe continuava insistindo em saber dela no momento em que chegasse em casa. Um tipo paternal, misto de mentor e amigo, ele estava aborrecido com ela por ter corrido tantos riscos e se preocupava enquanto não pisasse em solo americano. Revigorada, depois de um banho quente de meia hora, Cotten torceu as abas do saca-rolhas e abriu uma garrafa de vinho branco. Encheu a taça pela metade. Nada de vodka essa noite. O vinho sempre a ajudara a dormir melhor, e uma boa noite de sono era o que mais lhe fazia falta. A caixa de Archer descansava no centro da mesa da cozinha. Ela a examinou enquanto se sentava, embalando a taça de vinho na mão. Não se viam sinais exteriores na caixa, nem junções nem dobradiças. Se houvesse alguma fenda, seria visível na superfície de madeira. Cotten esfregou o pescoço. Os músculos doíam, mas o banho a ajudou a aliviar um pouco a tensão. A água quente estava deliciosa, massajando-lhe a nuca e as costas. Felizmente, o aroma adocicado do champo de coco a ajudou a eliminar os odores que pareciam ter-se acumulado no seu corpo e impregnado o nariz adentro. Cotten bebericou o vinho, então soltou a fivela da presilha, permitindo que o cabelo húmido caísse sobre o robe de banho de chenile. Depois de alguns minutos, ela se levantou e atravessou a sala. A pilha de correspondência acumulada jazia sobre a escrivaninha onde o seu senhorio a havia deixado. Coisas inúteis, não sei para que servem, murmurou, tentada a jogar tudo na lata de lixo. Ali dentro, parcialmente oculto sob alguns envelopes antigos, repousava um porta-retrato com a moldura prateada em torno da fotografia de Thornton Graham. Ela o havia jogado no lixo um dia antes de partir para o Iraque. O envolvimento com ele tinha sido um erro.

Cotten afastou os envelopes e descobriu o rosto. Thornton Graham era a nova âncora da SNN, visto em todo o país na hora do jantar. Bonito, confiante, experiente..., e casado. Quando ela recebeu a primeira missão na emissora, ele havia-lhe dedicado uma atenção especial. Sob o efeito do carisma dele, dos seus olhares atraentes e da admiração que lhe despertou, ela se viu totalmente dominada. Cotten lembrava-se da primeira vez que se havia encontrado com Thornton, havia sido no ano anterior, nas vésperas do Natal. Normalmente, ela seguia a pé para o trabalho, mas naquele dia tomou um táxi, porque levava o material de decoração natalina para o escritório. Para evitar mais do que uma viagem de táxi, carregava duas caixas, além da bolsa pendurada no ombro e ainda uma caixa de bombons que pretendia deixar num pote sobre a mesa de trabalho. Conseguiu entrar no prédio com a ajuda do porteiro e chegou até aos elevadores. Mas, ao entrar no elevador, tropeçou na porta o bastante para fazer com que a sacola escorregasse do ombro. Alguém atrás dela segurou a sacola e colocou-a de volta ao ombro. Ela se virou para agradecer, observando a mão que a ajudara, e deparou com o rosto do correspondente mais antigo da SNN, Thornton Granam. Conseguiu agradecer, claro, mas a voz se engasgou e saiu esganiçada. Thornton pareceu sensibilizado pelos encantos dela e desferiu-lhe o seu famoso sorriso. Cotten virou-se de lado, tentando parecer indiferente e não tão obviamente seduzida..., mas não pôde deixar de notar o reflexo dele nas portas de latão polido do elevador. Ao observá-lo, ficou embaraçada ao perceber que ele a examinava. A viagem de elevador pareceu durar uma eternidade. Quando ela saiu do elevador, ele fez o mesmo. Thornton ofereceu-se para levar as caixas e acompanhou-a até a sala dela. Antes de sair, convidou-a para acompanhá-lo no almoço mais tarde. Esse foi o começo daquela que se tornaria uma relação da mais pura paixão física, com quase um ano de duração. Agora estava tudo acabado..., superado e encerrado.

Cotten esvaziou a taça e sentiu o corpo se aquecer pelo vinho. Os músculos do pescoço tinham relaxado e ela experimentava uma leve tontura provocada pelo álcool. Empurrou a pilha de cartas para dentro da lixeira, encobrindo a face de Thornton, e voltou à cozinha caminhando devagar. Lançou um olhar para a caixa de Archer e decidiu que, por precaução, precisava guardá-la num local seguro enquanto não decidisse o que fazer com ela. Cotten lavou a taça vazia. Enquanto a enxugava, inclinou a cabeça e olhou para o bule sobre o fogão. Tendo uma ideia, colocou o bule sobre o balcão, depois levantou a tampa do queimador do fogão eléctrico. Deu uma olhada rápida na caixa, então para o espaço sob a tampa do queimador. Com cuidado, enfiou a caixa entre os elementos de aquecimento e depois fechou a tampa do queimador até ouvir o clique indicando que havia travado na posição. Um lugar tão bom quanto qualquer outro, pensou. Pôs de volta o bule sobre o queimador, apagou as luzes e foi para a cama. Pela primeira vez em anos, sonhou que era criança outra vez, brincando no sítio da família. Não obstante, principalmente, sonhou com a irmã gêmea». In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

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