domingo, 28 de agosto de 2016

A Catedral do Mar. Ildefonso Falcones. «Velha estúpida! Como te atreves a entornar o vinho. A mulher baixou a cabeça em sinal de submissão e, quando o senhor fez menção de lhe dar uma bofetada…»

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Servos da terra. Ano de 1320. Quinta de Bernat Estanyol Navarcles. Principado da Catalunha
«(…) Até os cavalos, quietos, com os seus grandes olhos redondos assestados nele, pareciam aguardar a resposta de Bernat. Ao meu casamento, senhor. Com quem casaste? Com a filha de Pere Esteve, senhor. Llorenç Bellera permaneceu em silêncio, olhando Bernat por cima da cabeça do seu cavalo. Os animais resfolegaram ruidosamente. E?, ladrou Llorenç Bellera. A minha mulher e eu próprio, disse Bernat, tratando de dissimular o seu asco, sentir-nos-íamos muito honrados se sua senhoria e seus acompanhantes tivessem por bem juntar-se a nós. Temos sede, Estanyol, afirmou o senhor de Bellera, como única resposta. Os cavalos puseram-se em movimento sem necessidade de que os cavaleiros os esporeassem. Bernat, cabisbaixo, dirigiu-se para a casa, ao lado do seu senhor. No final do caminho tinham-se juntado todos os convidados, para o receber; as mulheres de olhos no chão, os homens descobertos. Um rumor ininteligível ergueu-se quando Llorenç Bellera se deteve diante deles. Vamos, vamos, ordenou-lhes, enquanto desmontava. Que siga a festa! As pessoas obedeceram e deram meia-volta, em silêncio. Vários soldados aproximaram-se dos cavalos e encarregaram-se dos animais. Bernat acompanhou os seus novos convidados até à mesa a que tinham estado sentados Pere e ele. Tanto as suas escudelas como os seus copos tinham desaparecido. O senhor de Bellera e os seus dois acompanhantes sentaram-se. Bernat afastou-se alguns passos quando estes começaram a conversar. As mulheres acudiram, rápidas, com jarros de vinho, pães, escudelas de galinha, pratos de porco salgado e com o borrego acabado de assar. Bernat procurou Francesca com o olhar, mas não a encontrou. Não estava entre as mulheres. O olhar de Bernat cruzou-se com o do sogro, que já estava junto dos restantes convidados, e este fez sinal com o queixo em direcção às mulheres. Com um gesto quase imperceptível, Pere Esteve abanou a cabeça e deu meia-volta. Continuem com a vossa festa!, gritou Llorenç Bellera com uma perna de borrego na mão. Vamos, venham, avancem! Em silêncio, os convidados começaram a dirigir-se para as brasas, onde os borregos tinham sido assados. Só um grupo permaneceu quieto, a salvo dos olhares do senhor e dos seus amigos: Pere Esteve, os filhos e mais alguns convidados. Bernat avistou o branco da camisa de linho entre eles, e aproximou-se. Vai-te embora daqui, estúpido!, rosnou o sogro. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, a mãe de Francesca aproximou-se, colocou-lhe um prato de borrego nas mãos e sussurrou-lhe: trata de atender ao senhor e não te aproximes da minha filha. Os camponeses começaram a dar conta do borrego, em silêncio, olhando de soslaio para a mesa. No terreiro só se ouviam as gargalhadas e os gritos do senhor de Navarcles e dos seus amigos. Os soldados descansavam, afastados da festa.
Antes, ouvia-vos rir, gritou o senhor de Bellera. De tal forma que me espantaram a caça. Riam, malditos sejam! Ninguém o fez. Bestas rústicas, disse para um dos seus acompanhantes, que receberam o comentário com gargalhadas. Os três saciaram o apetite com o borrego e o pão branco. O porco salgado e as escudelas de galinha ficaram abandonados na mesa. Bernat comeu de pé, um pouco afastado, e olhando de soslaio para o grupo de mulheres, entre as quais se escondia Francesca. Mais vinho!, exigiu o senhor de Bellera, levantando o copo. Estanyol, gritou de repente, procurando-o por entre os convidados, da próxima vez que me pagues o censo das minhas terras, terás de me trazer vinho como este, e não a zurrapa com que o teu pai me andou a enganar até agora. Bernat escutou-o, atrás dele. A mãe de Francesca aproximava-se com mais um jarro. Estanyol, onde estás tu? O cavaleiro bateu na mesa quando a mulher aproximava o jarro para lhe encher de novo o copo. Algumas gotas de vinho salpicaram a roupa de Llorenç Bellera. Bernat já se aproximara dele. Os amigos do senhor riam-se da situação e Pere Esteve levou as mãos ao rosto. Velha estúpida! Como te atreves a entornar o vinho. A mulher baixou a cabeça em sinal de submissão e, quando o senhor fez menção de lhe dar uma bofetada, fugiu e caiu por terra. Llorenç Bellera voltou-se para os amigos e desatou a rir, vendo como a anciã se afastava, gatinhando, Depois, recuperou a seriedade e dirigiu-se a Bernat: ai estás aqui, Estanyol. Vê só o que fazem as velhas inúteis. Por acaso pretendes ofender o teu senhor? Serás tão ignorante que não sabes que os convidados devem ser atendidos; pela senhora da casa? Onde está a noiva?, perguntou, passeando o olhar pelo terreiro. Onde está a noiva?, gritou, perante o silêncio de Bernat». In Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, 2006, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-511-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

Mistérios Sombrios do Vaticano. Paul Jeffers. «… depois de ter sobrevivido a invasões bárbaras, perseguições, inúmeras pragas e cismas ocasionais, o papado agora enfrenta um problema da era moderna: um profundo aperto financeiro»

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Os Tesouros do Vaticano
«(…) Centro geográfico da Igreja Católica Romana, o Vaticano possui algumas das mais preciosas obras de arte do mundo, e muitos acreditam que seja a organização mais rica do planeta. Num livro sobre os tesouros do Vaticano, The Vatican Billions (Os bilhões do Vaticano), Avro Manhattan observou que a Igreja Católica é o maior poder financeiro, maior acumuladora de riquezas e a maior proprietária de terras actualmente. Possui mais riquezas materiais do que qualquer outra instituição, corporação, banco, truste gigantesco, governo ou estado do mundo inteiro. O papa, como governante desse imenso acúmulo de riquezas, é, consequentemente, o indivíduo mais rico do século XX. Ninguém tem condições de dizer precisamente quanto ele vale em termos de bilhões de dólares. Segundo o autor, a Santa Sé tinha grandes investimentos com os Rothschild na Inglaterra, França e Estados Unidos, e no Hambros Bank e Credit Suisse em Londres e Zurique. Nos Estados Unidos, tem holdings com o Morgan Bank, Chase-Manhattan Bank, First National Bank of New York, Bankers Trust Company e outros. Entre seus investimentos estão bilhões de acções das mais poderosas corporações internacionais, como Gulf Oil, Shell, General Motors, General Electric, IBM e outras. Segundo uma estimativa conservadora, a quantidade de investimentos é superior a 500 milhões de dólares só nos Estados Unidos. Num comunicado publicado recentemente, a rquidiocese de Boston declarou activos no valor de US$ 635.891.004, o que representava 9,9 vezes o seu passivo. Com isso restava um património líquido de US$ 571.704.953. Não é difícil descobrir a riqueza absolutamente impressionante da igreja, disse Manhattan, quando somamos as riquezas das vinte e oito arquidioceses e 122 dioceses nos Estados Unidos, algumas das quais são ainda mais ricas que a de Boston. Pode-se ter uma ideia das propriedades e outras formas de riqueza controladas pela Igreja Católica pela declaração de um membro da Conferência Católica de Nova Iorque, segundo a qual sua igreja provavelmente só perde para o governo dos Estados Unidos no volume de compras anuais.
Essas estatísticas indicavam que a Igreja Católica Romana, uma vez calculados todos os activos, era o corrector mais incrível do mundo. A Santa Sé, independentemente do papa que estivesse ocupando o cargo, foi se voltando cada vez mais para os Estados Unidos. Um artigo do Wall Street Journal disse que os negócios financeiros do Vaticano só nos Estados Unidos eram tão grandes, que frequentemente envolviam a compra ou venda de ouro em lotes de um milhão de dólares ou mais de cada vez. Segundo a United Nations World Magazine, o tesouro do Vaticano chegava a vários bilhões de dólares em ouro. Boa parte dele estava armazenada em lingotes no Federal Reserve Bank dos Estados Unidos, e o restante em bancos da Suíça e Inglaterra. A riqueza do Vaticano apenas nos Estados Unidos era maior do que a das cinco corporações mais ricas do país. Mas, em 1987, a revista Fortune noticiou que apesar de todo o seu esplendor, o Vaticano está praticamente falido. O artigo dizia: depois de ter sobrevivido a invasões bárbaras, perseguições, inúmeras pragas e cismas ocasionais, o papado agora enfrenta um problema da era moderna: um profundo aperto financeiro. Os custos da burocracia crescente do Vaticano superam em muito os seus recursos. No ano anterior, a Santa Sé captou 57,3 milhões de dólares de fontes tão diversas quanto taxas de cerimónias; receitas de publicações, anúncios em jornais e vendas de videocassetes; e modestos ganhos de investimento de 18 milhões de dólares. Com investimentos da ordem de 500 milhões de dólares, o Vaticano controlou menos recursos financeiros do que muitas universidades norte-americanas. Na Primavera de 2008, o Vaticano informou que seus contabilistas haviam registado uma perda em suas contas anuais pela primeira vez em quatro anos. O relatório dizia que a Santa Sé perdera quase 10 milhões de euros depois de investir em dólares antes da queda acentuada da moeda norte-americana em relação ao euro. E o buraco no orçamento teria sido ainda pior, disse uma fonte, se a Igreja não tivesse elevado os contratos das suas propriedades em Roma, sobre as quais não paga impostos ao estado italiano.
Os aumentos nos contratos teriam provocado grande polémica em Roma, pois a Igreja teria ameaçado despejar os inquilinos que não pagassem. O prejuízo também foi atribuído ao péssimo desempenho dos meios de comunicação do Vaticano, incluindo um jornal e uma estação de rádio, que haviam perdido aproximadamente 15 milhões de euros no ano anterior. Em 2007, o Vaticano reportou uma receita geral de 236,7 milhões de euros, enquanto as despesas totalizaram 245,8 milhões de euros. Boa parte da receita do Vaticano vem de doações de membros da Igreja em todo o mundo. Os católicos norte-americanos contribuem com cerca de 80 milhões de dólares. Especialistas avaliaram que a riqueza total do Vaticano em 2008 superava os 5 bilhões de euros». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, tradução de Elvira Serapicos, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

Cortesia de EJLivros/JDACT

sábado, 27 de agosto de 2016

A Mancha Humana. Philip Roth. «… fez a confidência acerca de Faunia Farley e do segredo de ambos foi, por curiosa coincidência, aquele em que o segredo de Clinton se tornou conhecido nos mais ínfimos…»

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«Foi no Verão de 1998 que o meu vizinho Coleman Silk, que, antes de se reformar dois anos antes, fora professor de estudos clássicos no Athena College durante vinte e tal anos, além de ter servido dezasseis como reitor da faculdade confidenciou que, aos 71, tinha um caso com uma empregada de limpeza de 34, que trabalhava na universidade. Duas vezes por semana também fazia a limpeza do posto dos correios rural, uma pequena construção de madeira que poderia ter abrigado uma família Okie dos ventos da Dust Bowl (Okie era o nome dado na época, em geral depreciativamente, aos trabalhadores agrícolas migrantes, sobretudo de Oklahoma; Dust Bowl é uma região que os ventos, as tempestades de areia e a seca tornam árida) nos anos 30 e que, solitária e desamparada defronte da estação de serviço e do armazém-geral, hasteia abandeira americana no cruzamento das duas estradas que assinala o centro comercial desta cidade da encosta da montanha. Coleman vira-a pela primeira vez a lavar o chão do posto dos correios quando lá fora ao fim de um dia, poucos minutos antes da hora de encerramento, buscar a sua correspondência. Era uma mulher alta, magra e angulosa, com o cabelo louro a encanecer puxado para trás e preso num rabo-de-cavalo e o género de feições duramente vincadas que costumamos relacionar com as donas de casa dominadas pela igreja e sobrecarregadas de trabalho que sofreram as agruras dos duros primeiros tempos da Nova Inglaterra, colonas austeras, tolhidas pela moral vigente e obedecendo-lhe. Chamava-se Faunia Farley e, fossem quais fossem os sofrimentos que suportava, escondia-os atrás de um daqueles inexpressivos rostos ossudos que não escondem nada e denunciam uma imensa solidão. Vivia num quarto numa herdade leiteira local, onde ajudava na ordenha para pagar a renda. Frequentara a escola secundária durante dois anos.
O Verão em que Coleman me fez a confidência acerca de Faunia Farley e do segredo de ambos foi, por curiosa coincidência, aquele em que o segredo de Clinton se tornou conhecido nos mais ínfimos e mortificantes pormenores, nos mais ínfimos pormenores reais em que tanto a realidade como a mortificação supuravam da pungência dos dados específicos. Não tínhamos uma estação assim desde que alguém descobrira, por acaso, a nova Miss América nua num número antigo da Penthouse, em fotografias que a mostravam em elegantes poses de joelhos e de costas e tinham forçado a jovem a abdicar da coroa e a tornar-se uma grande estrela pop. O Verão de 98 foi, em Nova Inglaterra, um verão de calor e sol intensos; no basebol, um verão de combate mítico entre um deus do home-run que era branco e outro que era acastanhado, e na América o verão foi caracterizado por um enorme regabofe de devoção, um regabofe de virtude, quando ao terrorismo, que destronara o comunismo como ameaça predominante à segurança do país, sucedeu o brochismo e um presidente viril, vigoroso e de meia-idade e uma impetuosa e enfeitiçada funcionária de 21 anos, desaforados no Salão Oval como dois putos adolescentes num parque de estacionamento, ressuscitaram a mais antiga paixão comunal da América, historicamente talvez, até, o seu prazer mais pérfido e subversivo: o êxtase da beatice hipócrita. No Congresso, na imprensa e nas televisões os farisaicos paladinos encartados da moral e dos bons costumes, sôfregos por censurar, deplorar e punir, apareciam em todo o lado numa estridente campanha moralizadora: todos eles num furor deliberado e com aquilo que Hawthorne (que, na década de 1860, morava a relativamente poucos quilómetros da minha porta) identificou, no país incipiente de há muito tempo, como o espírito persecutório; todos eles ansiosos por porém em prática os cáusticos rituais de purificação que excisariam a erecção do ramo executivo, tornando assim as coisas suficientemente cómodas e seguras para que a filha de 10 anos do senador Lieberman pudesse voltar a ver televisão com o seu embaraçado papá. Não, quem não viveu no ano de 1998 não sabe o que é a indignação hipócrita. O colunista conservador William Buckley escreveu: quando Abelardo o fez, foi possível impedir que voltasse a acontecer, insinuando assim que a prevaricação do presidente, aquilo a que, noutro lugar, Buckley chamou a carnalidade incontinente de Clinton, poderia ser mais justamente punida com algo que não fosse tão incruento como a impugnação, mas, antes, com o castigo do século XII aplicado ao cónego Abelardo pelos companheiros de faca em punho do colega eclesiástico daquele, o cónego Fulberto, por ter seduzido e casado secretamente com a sobrinha deste, a virgem Heloísa». In Philip Roth, A Mancha Humana, 2000, Publicações dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-206-034-9.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

Na Esfera do Mundo. António Borges Coelho. «O pessoal dirigente e militar ficava sujeito a três anos de serviço pago. Levavam madeira lavrada e acertada para na India montar duas galés e um bergantim»

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Cochim, o cais da pimenta
«(…) Duarte Pacheco Pereira regressou a Lisboa no dia l1 de Junho de 1505, integrado na sexta armada, comandada por Lopo Soares Albergaria. Eram doze naus grossas carregadas de pimenta. Manuel recebeu Duarte Pacheco Pereira como um herói romano. Na procissão do triunfo, da Sé a São Domingos. Caminhou debaixo do pálio ao lado do rei. As procissões estenderam-se ao Algarve e às principais cidades e vilas. O mundo urbano e marítimo aprovava a aventura da Ásia. Veneza mobilizava secretamente o novo sultão do Egipto para a luta contra os portugueses. Estrangulavam a rota de Alexandria. Em 1505 chegou a Lisboa, vindo de Roma, onde se avistara com o papa, frei Mauro, monge de Santa Catarina do Monte Sinai. Se o rei Manuel I não desistisse, o sultão do Egipto ocuparia os Lugares Santos e proibiria as peregrinações e o culto cristão. Em resposta ao apelo de frei Mauro, Manuel I enviou embaixadores a Henrique VII de Inglaterra e a França, Flandres e Roma. Propunha-lhes uma nova cruzada com destino a Alexandria e daí para a Terra Santa. Pelo seu lado, a armada portuguesa da Índia viria pelo Mar Vermelho até ao Suez.
Boas contas se faziam em Lisboa, ainda não sabiam o que era o Mar Vermelho. Pelo seu lado, os reis indianos e os mercadores mouros instavam com o sultão do Egipto: levante uma armada no Suez. Juntos, expulsaremos os portugueses da Índia. Quando frei Mauro chegou a Lisboa, já a sétima esquadra, a de Francisco Almeida, partira com 22 velas e 1500 homens de armas, gente limpa, em que entravam muitos fidalgos e 400 moradores registados nos livros do rei. Manuel I delegava os seus poderes em Francisco Almeida que na Índia assumiria o título de vice-rei. O pessoal dirigente e militar ficava sujeito a três anos de serviço pago. Levavam madeira lavrada e acertada para na India montar duas galés e um bergantim. E ferro, breu, pregos, alcatrão, linho, lonas, panos de Vila do Conde, âncoras, fateixas, remos, armas e muita artilharia e munições. Em cada nau, havia botica bem provida, barbeiro sangrador, mestre para curar e dois capelães para confessar.
João Nova, alcaide pequeno de Lisboa e comandante da terceira armada que se dirigiu à Índia, repetia a viagem e um Lopo Deus era simultaneamente capitão e piloto. Embarcaram carpinteiros, calafates, ferreiros, cordoeiros e degredados que viam perdoada parte substancial dos degredos. Os cronistas esqueceram-se dos escravos. Assalto a Quíloa e a Mombaça O ouro de Quíloa e Sofala aguçava a gula de Lisboa. Dobrado o Cabo da Boa Esperança, os nautas lusos fundearam, a 22 de Julho, em Quíloa, a cidade do ouro, ligada pelo comércio e pelos laços de sangue às cidades do Mar Vermelho, do Golfo Pérsico, de Cambaia e da Índia. Francisco Almeida mandou um recado ao rei: pague as párias a que foi obrigado por Vasco da Gama. Não quero ser vassalo do rei de Portugal.
Os atacantes desembarcaram ao som das bombardas e das trombetas. As ruas estreitas estavam desertas. Os moradores esperavam-nos nos eirados das casas com pedras e setas. Espingardeiros e besteiros lusos despejaram-nos das janelas e entraram nos eirados. O rei fugiu. Substituíram-no pelo mouro que ficara refém de Vasco da Gama. Puseram-lhe na cabeça a coroa que destinavam ao rei de Cochim. Usaram-na e levaram-na. De Quíloa seguiram para Mombaça. Um português renegado gritava de terra: estes não são os de Quíloa que se entregaram ao som das bombardas. Na madrugada de Nossa Senhora de Agosto, os assaltantes, organizados em três corpos, atacaram. O primeiro tomou as naus de Cambaia, fundeadas no porto. Os outros dois avançaram pelas ruas estreitas. Dos terraços e janelas choviam pedras que, favorecidas pelo declive, saltitavam pelas ruas abaixo». In António Borges Coelho, Na Esfera do Mundo, Editorial Caminho, 2013, ISBN 978-972-212-642-7.

Cortesia Caminho/JDACT

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «O escrito foi lido em todos os púlpitos. Deus destrói nações por coisas como as que trouxe este grupo malvado, que adultera a tradição…»

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Filósofos Orientais
«(…) Ibn Masarra, Muhammad b. Abd Allah b. Masarra Al-Djabati (Córdova 883-Córdova 931). Seu pai Abd Allah ibn Masarra (+Meca 899) introduziu o mutazilismo na península e transmitiu ao filho os seus ensinamentos. Este, aos dezassete anos, retirou-se com os seus discípulos para a Serra de Córdova. Suspeito de heresia, partiu para o Oriente. Deteve-se em Meca e Medina. Regressou a Córdova durante o governo de Abderramão III e aí morreu rodeado de discípulos. Nenhum dos seus escritos chegou aos nossos dias. Para reconstituir a sua doutrina, temos de recorrer a Said al-Andalusi, a Ibn Hazm e a Ibn Al-Arabi, o seu mais conhecido herdeiro, por intermédio do movimento dos Muridines e do seu imã Ibn al-Kasi. Baseado nas indicações dos diferentes autores, Asin Palacios delineou as possíveis linhas do seu ensino e prática ascética. No seguimento do Pseudo-Empédocles, defendeu que o ser espiritual está sob a influência do princípio do amor puro enquanto o corpo, como todos os seres corporais, está submetido à acção da discórdia. A filosofia provoca na alma o desejo de partir deste mundo porque a alma não pertence cá abaixo, está prisioneira do corpo. O fim do homem é a purificação e a libertação da alma. Os caminhos para atingir esse fim são a pobreza voluntária, a mortificação, o silêncio e a prática da humildade, do perdão das ofensas, do amor dos inimigos. O exame quotidiano de consciência elevava a alma à estação mística da Sinceridade. Ibn Hayyan conservou-nos, num contexto condenatório, algumas informações sobre a doutrina de Ibn Masarra. A seita do suspeitoso Muhammad b. Abdallah b. Masarra, que aparentava piedade ocultando secretos desígnios e embustes de sedição, tinha-se propagado entre a gente no começo do reinado do califa an-Nasir (Abderramão III). Atraía-os graças ao ascetismo e piedade que aparentava, sendo mui rigoroso nos méritos do crente e negando a benevolência divina. Apartava-se das gentes e preferia afastar-se delas, aferrando-se na sua propriedade numa alqueria de Córdova… Com a sua doçura de expressão, solidez dialéctica, penetração exacta dos conceitos e variados conhecimentos arrebatava as mentes sem cuidar do caminho direito… Compôs livros excelentes, difundiu acertadas epístolas e elaborou artigos devastadores cuja intenção oculta cobriu com os véus do equívoco, difundindo o cumprimento das promessas e ameaças divinas e a falta de autoridade dos hadices sobre a intercessão, dando por inverosímil a benevolência e a misericórdia… Dispôs as Mudawwana maliquitas, pilar da Suna, por concomitâncias, dividindo-as, ao nosso querer, com a mais clara traça e criando secções extratadas excelentes, declaradas unanimemente, até pelos seus opositores, como melhores, mais resumidas e claras que qualquer outro compêndio da dita obra. Graças à solidez da sua extensa ciência e à sua paciência para confundir o adversário atraía e capturava os corações.
Os seguidores de Ibn Masarra foram condenados pelo califa Abderramão III que mandou ler uma proclamação em todos os pontos do Andaluz. Deus, exaltada seja a sua acção e glorificada a sua menção, fez do Islão a melhor religião, sustendo-a, enaltecendo-a e não aceitando nem querendo outra para seus servos, pois diz em sua excelente revelação: quem siga outra religião que não o Islão não se aceitará… Fostes a melhor nação que saiu da gente, pois ordenais o bom e condenais o reprovável. Ele vos estatuiu a religião que recomendara a Noé e que te temos inspirado e que recomendamos a Abraão, Moisés e Jesus: cumpri a religião e não discrepeis dela… Empenharam-se na sua ignorância, perderam-se no seu extravio e deram de cabeça no ódio da comunidade pia, professando aborrecê-la, declarando lícito o derramamento do seu sangue e justificável a violação de suas esposas e o cativeiro dos seus filhos: o ódio apareceu nas suas bocas, mas maior era o oculto em seus corações. O escrito foi lido em todos os púlpitos. Deus destrói nações por coisas como as que trouxe este grupo malvado, que adultera a tradição, ataca o grande Corão e os hadices do fiel Profeta. E Ibn Hayyan acrescenta. Al-Farabí, na sua obra sobre os sábios do Andaluz, diz dele que era grande conhecedor de história e das versões das obras e de variados conhecimentos: filósofo, sábio, médico, astrónomo, astrólogo, literato excelente, poeta, orador, cuja ciência era acompanhada pela habilidade dialéctica e domínio da gramática e o vocabulário do árabe… É sobejamente conhecido que a opinião de Ibn Masarra se separava de muitas crenças dos sunitas». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de I.Camões/JDACT

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Os filhos do Graal. Peter Berling. «Quanto tempo durará isso?, falou Esclarmonde, dirigindo-se novamente ao visconde. O comandante da fortaleza parecia mergulhado em profunda reflexão. Frederico não nos abandonará à nossa sorte...»

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Montségur. 1243
«(…) Leve-a você mesmo! Se continuar soprando à medida que subir para o castelo, e se a Virgem Santíssima lhe emprestar seu alento, não se apagará! Como o legado não fizesse o gesto de aceitar o ramo, o senescal devolveu-o à fogueira e retirou-se. Seus súbditos, já acostumados a tais rompantes, reprimiam o riso a duras penas. Com o entardecer, eram acesas fogueiras por todo lado. As cantineiras enchiam os caldeirões, e os soldados faziam girar a carne trespassada; haviam conseguido muitas peças com a caça nos bosques de Corret e o saque das fazendas de Taulat. Não fosse essa sorte grande, teriam de conformar-se com as glandes de carvalho e com as castanhas, e o pão seco que os forrageadores repartiam. A tropa compunha-se em sua maioria de mercenários. Os cavaleiros templários, seus senhores, eram nobres procedentes do norte do país e que não viam de que forma se opôr ao desejo de seu soberano Luís; havia os que lá estavam para conseguir favores do rei; e também simples aventureiros que, depois de perderem seus feudos e benefícios, prometiam a si mesmos algum lucro procedente dos saques ou outras vantagens, já que além do mais a Igreja prometera, a cada participante, o perdão por seus pecados. As muralhas do Montségur, cujo flanco mais pronunciado formava um ângulo obtuso bem em cima do acampamento, douravam-se com os raios de sol em seu ocaso.
Quantos devem ser?, perguntou Esclarmonde Perelha, a jovem filha do senhor e dono do castelo, que, se aproximando sem medo algum da encosta da muralha, deteve-se para observar o vale. Seis mil? Dez mil? O visconde Pierre-Roger Mirepoix, cunhado de Esclarmonde e comandante da fortaleza, sorriu. Isso não deverá preocupar-nos, enquanto eles não forem capazes de fazer subir mais de cem nestas muradas. Mas vão nos deixar morrer de fome... Até o momento, cada um desses senhores armou a barraca como bem quis, bem separados uns dos outros, e Mirepoix apontou na direcção do prado, montanha e vales. Essa arrogância estúpida, aliada a um território acidentado e pouco visível e à escuridão dos bosques, para os que temem, têm para nós uma consequência favorável: o cerco a que pretendem submeter-nos tem mais buracos que o queijo dos Pirenéus que recebemos fresco toda semana. Era evidente que desejava fazer-se de importante. O nome de baptismo de Esclarmonde o obrigava a considerar o exemplo daquela outra cátara, a mais famosa de todas, chamada também irmã de Parsifal, que há quarenta anos restaurara e reabilitara a fortaleza de Montségur. Como ela, a jovem Esclarmonde era uma parfaite, uma virgem pura. Se a montanha da salvação não resistisse, correria o maior perigo. Mas não parecia gostar de riscos. Jamais conhecerão o Santo Graal, retrucou em voz baixa, externando assim sua única preocupação ao visconde
Jamais cairá em suas mãos. Duas crianças pequenas tinham chegado vagarosamente. O rapaz rodeou com seus bracinhos as pernas da jovem, enquanto a menina, de estatura pequena e delicada, aproximou-se com bastante atrevimento da encosta do muro. Lançando uma pedra ao abismo, escutou com atenção e entusiasmo o barulho que anunciava o fim de seu voo. Foi esse barulho que atraiu a atenção do comandante. Vou proibi-los de vir até aqui em cima, exclamou enquanto já via a aia subindo pela íngreme escada de pedra que seguia pelo pátio interior do castelo. Depois de dar uma leve palmada na menina, agarrou-a pelo pescoço e entregou-a à criada. Esclarmonde acariciou o cabelo do rapaz, que seguiu, obediente, à menina. Quanto tempo durará isso?, falou Esclarmonde, dirigindo-se novamente ao visconde. O comandante da fortaleza parecia mergulhado em profunda reflexão. Frederico não nos abandonará à nossa sorte..., mas sua voz não conseguia esconder de todo a dúvida. O germano não duvidaria em pisotear o que fosse de mais sagrado, replicou a menina com cepticismo, mas sem amargura, em seu próprio proveito ou de sua estirpe. Não devem confiar nele, pelo bem dessas crianças!, e lançou um olhar em direcção às duas crianças, que faziam o quanto podiam para dificultar a descida da aia pela íngreme escada de pedra. Mas posso dizer com toda certeza que existe um poder superior, e posso jurar-lhe, Esclarmonde, de que eles se salvarão! Venha aqui! Aproximou-se do lado oriental, onde estava o observatório coberto. Por este lado, onde o rio Lasset atravessa os montes Tabor, onde suas águas cortam o desfiladeiro profundo, não há vigilância nem pode haver. Esclarmonde uniu as palmas das mãos para saudar os anciãos, vestidos de branco, parfaits como ela, que da plataforma observavam o curso dos astros cujas luzes iam se acendendo. Além da pouca disciplina que caracteriza nossos inimigos, prosseguiu Mirepoix, favorece-nos também o facto de que muitos dos mercenários, no fundo, simpatizam connosco. Por exemplo, os de Camón, que são antigos vassalos de meu pai, e que estão acampados exactamente debaixo do Roc de la Tour, buscava assim dar ânimo à jovem. Enquanto esta rocha estiver em nossas mãos, a comunicação com o mundo exterior não será interrompida, e assim sempre poderemos ter esperanças...». In Peter Berling, Os filhos do Graal, 1991, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1996, ISBN 978-972-231-982-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Os filhos do Graal. Peter Berling. «Faidits!, resmungou o arcebispo. Traidores infiéis e rebeldes! Sem falar do senhor feudal desta região, o visconde de Foix, a quem não pareceu sequer necessário apresentar-se para cumprimentar-nos»

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Montségur. 1243
«Montségur é uma rocha cnica de encostas escarpadas que´se ergue de uma planície tortuosa, a ponto de à primeira vista parecer uma ilusão longínqua, qualquer coisa não pertencente a este mundo. Parece estar lá para acolher os exércitos de anjos que, de sua perspectiva seráfica, talvez sejam capazes de descobrir aquele palmo de patamar plano onde possam apoiar uma escada celestial. O invasor humano que se aproxima a partir do norte parece ter o monte ao alcance da mão, como um capacete que alguém retirou da cabeça, mas que, depois, uma mão mágica vai elevando mais e mais à medida que os pés do caminhante se aproximam de algum de seus flancos. Caso chegue do leste, abandonando-se ao engano de um suave declínio da montanha, o escudo erguido do Roc de la Tour o fará retroceder, quiçá arrojar-se sem mais nem menos à espumosa garganta do rio Lasset, tão profundamente cortada na rocha que de lá em baixo sequer se vê o cume da montanha e menos ainda o castelo. Apenas pelo sudoeste se oferece, após ultrapassar um declive harmonioso, uma encosta coberta por bosque; mas, no momento em que o alpinista arquejante abandone a protecção da mata selvagem, verá que a parede restante, composta por uma pedra nua, ascende quase verticalmente. Verá, então, os muros da fortaleza assomarem-se por cima dele, seu coração se entregará a um galope selvagem, sua respiração se tornará mais difícil, o ar escasseará; no alto dos Pirenéus, uma luz violeta e azulada iluminará o caminho, mostrando seus picos que, naquele verão de San Martin, de 1243, apareciam já cobertos de neve. O vento sacode ruidosamente as folhas do buxal. O invasor não chegará a ouvir o silvo da flecha que lhe abrirá a garganta deixando-o pregado ao tronco de um arbusto, e o sangue brotará da ferida como faria a fonte refrescante que tanto desejava encontrar durante a subida. Acompanhando as batidas de seu coração, que desfalece, o sangue continuará jorrando, até que as acinzentadas rochas lá de cima confundam-se com as muralhas, enchendo-se de uma luz clara como o céu, e os sentidos o abandonarão antes que caia de costas em direcção ao verde-escuro do bosque, do qual nunca deveria ter se afastado. A ordem era montar acampamento no prado cuja suave encosta situava-se a uma boa distância do penhasco, suficientemente longe para evitar as bestas. No centro do acampamento foram armadas as barracas para os dois capitães: a de Pierre Amiel, arcebispo de Narbona e enviado do papa que, possuído de um feroz fanatismo, tinha por objectivo destruir aquela sinagoga de Satanás; e, a uma conveniente distância, embora sem especial intenção, a de Hugues des Areis, senescal de Carcassone, a quem o rei nomeara chefe militar da missão. Como fazia a cada manhã, o senescal havia oficializado a missa diante do exército completo, embora tivesse preferido assaltar rapidamente a fortaleza dos hereges, encabeçando seus homens, munidos de escadas e torres de assalto; e novamente ajoelhara-se diante de sua barraca, também como sempre, enquanto tocavam os sinos do Angelus, rodeado dos três capelães de campanha, entre os quais William de Roebruk. O arcebispo, considerando que rezavam muito e lutavam pouco, esperou com enorme impaciência o fim daquela prece: deveriam buscar o bem de vossas almas não tanto na paz com Deus, mas na luta contra seus inimigos! O senescal preferiu ainda não levantar o joelho, que mantinha fincado na terra, e permaneceu com os olhos fechados e as mãos juntas, os punhos apertados até mostrar os nós dos dedos, mas não respondeu. Já faz muito tempo que o conde de Tolosa sustenta essa espécie de cerco atenuado, e meu senhor, o papa... Eu sirvo ao rei de França, interrompeu-lhe nesse instante Hugues des Areis, que tinha conseguido restabelecer seu equilíbrio interior e não hesitou em fazer sentir a seu concorrente sacerdotal, sem perturbar-se nem um pouco, o desgosto que lhe provocava sua presença, e, se Deus assim o quiser, executarei fielmente suas ordens: conquistarei o Montségur!

Levantou-se e dispensou seus capelães com um gesto brusco de mão. A perseguição dos hereges que tanto afecta seus corações deve seguir submetida à primazia de minhas ordens. Esperar que o conde de Tolosa cumpra essa tarefa revela uma pobre visão política, posto que os defensores do castelo são seus antigos vassalos, inclusive em muitos casos seus parentes próximos. Faidits!, resmungou o arcebispo. Traidores infiéis e rebeldes! Sem falar do senhor feudal desta região, o visconde de Foix, a quem não pareceu sequer necessário apresentar-se para cumprimentar-nos. O senescal iniciou a retirada: faz tempo que designou sucessor: Guy de Levis, filho do companheiro de armas do grande Monfort. Pretende-se ser este que lhe tire do fogo... Pierre Amiel seguiu-o bem de perto, espumando de raiva. Falam de fogo? Isso é o que vocês devem prender lá em cima: incendeiem esse ninho de víboras malignas, e que a fumaça e as chamas os carreguem ao Inferno! O senescal, muito calmo, inclinou-se para tirar um ramo que queimava numa das fogueiras. A tocha da Inquisição (maldita)!, disse, ironizando, entregando a madeira que ardia ao surpreso arcebispo». In Peter Berling, Os filhos do Graal, 1991, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1996, ISBN 978-972-231-982-9.



Cortesia de EPresença/JDACT

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «… reina nesses tempos de incerteza um estranho personagem a que chamam Danishmend, “o Sábio”, um aventureiro de origem desconhecida que ao contrário dos emires turcos, que na maioria eram analfabetos, é instruído nas mais diversas ciências»

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A Invasão. 1096-1100
«(…) Embriagado pelo sucesso, Kilij Arslan quer ignorar as informações que se sucedem, no Inverno seguinte, a respeito da chegada de novos grupos de franj em Constantinopla. Para ele, e mesmo para os mais sábios de seus emires, não há mais nada com que se preocupar. Se outros mercenários de Aléxis ousassem ainda transpor o Bósforo, seriam feitos em pedaços como aqueles que os precederam. No espírito do sultão, é tempo de voltar às preocupações cruciais do momento, isto é, à luta sem mercê que trava desde sempre contra os príncipes turcos, seus vizinhos imediatos. E ali, e em nenhum outro lugar, que será decidido o destino de seu domínio. Os confrontos com os rum ou seus estranhos auxiliares franj nunca passarão de um intermédio. O jovem sultão está bem colocado para sabê-lo. Não foi num desses intermináveis combates de chefes que seu pai Suleiman perdeu a vida em 1086? Kilij Arslan tinha então apenas sete anos, e deveria ter assumido a sucessão sob a regência de alguns emires fiéis, mas fora afastado do poder e levado para a Pérsia sob pretexto de que sua vida corria perigo. Adulado, cercado de cuidados, servido por uma legião de escravos atenciosos, ainda que estreitamente vigiado, com interdição formal de visitar seu reino. Seus hospedeiros, ou melhor, seus carcereiros, não eram senão os membros de seu próprio clã: os seldjúcidas.
Se há, no século XI, um nome que ninguém ignora, das fronteiras da China ao longínquo território dos franj, é esse. Vindos da Ásia Central com milhares de cavaleiros nómades de longos cabelos trançados, os turcos apossaram-se em alguns anos de toda a região que se estende do Afeganistão ao Mediterrâneo. Desde 1055, o califa de Bagdad, sucessor do Profeta e herdeiro do prestigioso império abássida, e apenas um boneco dócil em suas mãos. De Ispahan a Damasco, de Niceia a Jerusalem, seus emires ditam a lei. Pela primeira vez em três seculos, todo o Oriente muçulmano está reunido sob a autoridade de uma única dinastia que proclama sua vontade de devolver ao Islão sua glória passada. Os rum, esmagados pelos seldjúcidas em 1071, nunca se recuperaram. A Ásia Menor, a mais vasta de suas províncias, foi invadida; sua própria capital não esta mais em segurança; seus imperadores, entre os quais o próprio Alexis, não cessam de enviar delegações ao papa de Roma, chefe supremo do Ocidente, suplicando-lhe que convoque a Guerra Santa contra esse ressurgimento do Islão.
Kilij Arslan não se sente pouco orgulhoso por pertencer a uma família tão prestigiosa, mas também não se ilude quanto a aparente unidade do império turco. Entre os primos seldjúcidas não se conhece solidariedade alguma: é preciso matar para sobreviver. Seu pai conquistou a Ásia Menor, a vasta Anatólia, sem a ajuda de seus irmãos, e foi por ter querido estender-se para o sul, em direcção à Síria, que ele foi morto por um de seus parentes. E, enquanto Kilij Arslan era mantido à força em Ispahan, o domínio paterno foi despedaçado. Quando, em fins de 1092, o adolescente foi solto graças a uma contenda entre seus carcereiros, sua autoridade não se exerce além das muralhas de Niceia. Ele tinha então apenas 13 anos. Depois, foi graças aos conselhos de emires do seu exército que pode, por meio da guerra, do crime ou da astúcia, recuperar uma parte do legado paterno. Hoje, ele pode se gabar de ter passado mais tempo sobre a sela de seu cavalo do que em seu palácio. No entanto, quando chegam os franj, nada ainda está definido. Na Ásia Menor seus rivais continuam poderosos, mesmo que, felizmente para ele, seus primos seldjúcidas da Síria e da Pérsia estejam mergulhados em seus próprios conflitos.
Notadamente, a leste, nas alturas desoladas do planalto da Anatólia, reina nesses tempos de incerteza um estranho personagem a que chamam Danishmend, o Sábio, um aventureiro de origem desconhecida que ao contrário dos emires turcos, que na maioria eram analfabetos, é instruído nas mais diversas ciências. Ele vai em breve tornar-se herói de uma epopeia célebre, intitulada A Gesta do Rei Danishmend, que descreve a conquista de Malatya, uma cidade arménia situada a sudeste de Âncara e cuja queda é considerada pelos autores da narrativa como a curva decisiva da islamização da futura Turquia. Nos primeiros meses de 1097, quando se deu a chegada em Constantinopla de uma nova expedição franca, era anunciada a Kilij Arslan que a batalha de Malatya já se abrira. Danishmend cerca a cidade, e o jovem sultão recusa a ideia de que este rival, que se aproveitou da morte de seu pai para ocupar todo o Nordeste da Anatólia, possa alcançar uma vitória tão prestigiosa. Determinado a impedi-lo, dirige-se à frente de seus cavaleiros para as cercanias de Malatya e instala seu acampamento próximo ao de Danishmend a fim de intimidá-lo. A tensão aumenta, as escaramuças multiplicam-se, cada vez mais mortais». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Afonso. 4º conde de Ourém. Alexandra Barradas. «Barcelona onde esteve seis semanas não seria uma novidade para ele. O relato assinala o local onde terá ficado instalado: ... na praçaa de Santa Anna, que era a paa[r] donde pousava o Conde ... No actualmente denominado Bairro Gótico, a toponímia regista uma Rua de Santa Ana»

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«(…) Esta viagem pela península itálica que levou o conde de Ourém até Basileia permitiu-lhe contactar com um ambiente completamente diferente daquele que tinha visto na Flandres. Frequentemente, o relato assinala conflitos latentes e situações de insegurança, demonstrativos do ambiente instável que se vivia nalgumas cidades-estado. E esta luta travava-se não só no campo de batalha, mas também nos edifícios públicos de reunião e administração comunal, cuja construção era promovida e paga pelas associações comerciais e/ou artesanais, e nos que o senhor patrocinava, paços, capelas privadas ou outras construções, ricamente decoradas com pinturas e esculturas. Naqueles territórios, no início do século XV, uma cultura mecenática estava em germinação e dava já passos seguros no sentido de uma atitude de valorização e enriquecimento cultural e artístico que foi levada a cabo, a partir do início do século XV, por inúmeros encomendadores privados, naquela zona tão particular da Europa mediterrânica.
Tudo o que ficou assinalado nos textos e que expressamente é referenciado, constitui um conjunto bastante interessante de obras de arquitectura que o conde de Ourém viu: vários paços régios e outros de natureza mais modesta, estaus, castelos e alcáçovas e edifícios de carácter religioso: Catedral de Tarragona, Mosteiro de Montserrat em Barcelona, Catedral e Baptistério de Pisa, Catedral, Torre e Baptistério de Florença, Basílica de S. Petrónio em Bolonha, Catedral de Milão, Mosteiro de São Bernardo nos Alpes e as catedrais de Basileia, Ruão, Estrasburgo, Colónia e Mosteiro de São Francisco e das Onze Mil Virgens, na mesma cidade. Mas, certamente, outros edifícios igualmente importantes e que o texto não assinala, devem ter sido observados. Esta afirmação fundamenta-se no facto de, sendo as estadas do 4º Conde de Ourém por vezes prolongadas e sendo aqueles edifícios marcos significativos nas cidades, decerto foram vistos. Podemos afirmar que em Valencia, Afonso terá, pelo menos, visto a respectiva Catedral, construída entre meados do século XIV e o início do seguinte, que já apresentava o seu campanário, el Miquelete, uma torre octogonal que se erguia a mais de 51m, concluída em 1429.
Barcelona onde esteve seis semanas não seria uma novidade para ele. O relato assinala o local onde terá ficado instalado: ... na praçaa de Santa Anna, que era a paa[r] donde pousava o Conde ... No actualmente denominado Bairro Gótico, a toponímia regista uma Rua de Santa Ana, junto à Praça da Catalunha. Decerto esta é uma designação recente, pelo que se apresenta provável que Afonso tenha pousado num edifício desta praça, que no século XV deveria evocar o nome da mãe de Nossa Senhora. O relato descreve com pormenor os encontros que Afonso teve com a rainha de Castela que estava acompanhada da irmã, no paço onde pousavam. O texto não assinalou o nome pelo qual era conhecido, mas pela importância e posição de quem nele se hospedou só poderia tratar-se do palácio real, localizado próximo da catedral, confirmando assim que Afonso conheceu, com algum detalhe (a passagem do relato do encontro descreve-o demorado) este importante paço de Barcelona e teve oportunidade de admirar novamente a magnífica arquitectura gótica daquela cidade. Relativamente à estada em Florença que ocorreu entre 8 e 21 de Julho, julgamos que se terá revelado muito significativa, não tanto pelas questões relacionadas com a missão diplomática do conde de Ourém mas porque nesta tão importante cidade da Toscânia se vivia um singular momento: no final do mês seguinte ou seja a 30 de Agosto de 1436 seria sagrada a cúpula do Duomo, ainda não rematada pelo lanternim que mais tarde a coroou, em 1461. Por estes tempos, a fama de Brunelleschi deveria ecoar pela cidade e com ela a renovação da arquitectura florentina. Sabemos que o estaleiro da catedral, onde estariam algumas das máquinas concebidas/inventadas por aquele arquitecto e que possibilitaram o fecho da cúpula, passados mais de sessenta anos sobre a conclusão das obras, ainda era ponto de atracção e passagem obrigatória de viajantes curiosos. O que não seria em 1436 a um mês da inauguração da grande obra?» In Alexandra Leal Barradas, D. Afonso, 4º conde de Ourém, Revista Medievalista, director Vasconcelos Sousa, Ano 2, Nº 2, Instituto de Estudos Medievais, FCSH-UNL, FCT, 2006, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «A chave foi dada por uma das ninfas de Primavera, Chloris, pintada com um ramo de trepadeira saindo de sua boca. Era o símbolo inequívoco da “linguagem verde” dos alquimistas»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Dediquei-me à mensagem ali mesmo. Não havia dúvidas de que a carta havia sido escrita pela mesma pessoa que as anteriores: os mesmos cabeçalhos e caligrafia delatavam seu autor. Leia-a, irmão!, insistiu. Logo compreendi tanta insistência. O Áugure revelava, mais uma vez, algo que ninguém esperava ouvir. Retrocedia quase sessenta anos, aos tempos do papa Eugénio IV, quando o patriarca de Florença, Cosme de Medici, chamado o Velho, decidira financiar um concílio que poderia ter mudado para sempre o rumo da cristandade. Era uma velha história. Ao que parece, Cosme promovera um infrutífero encontro entre delegações diplomáticas muito díspares, que durara vários anos, com o qual pretendia conseguir a reunificação da Igreja oriental e a de Roma. Os turcos ameaçavam, então, estender sua influência sobre o Mediterrâneo e era preciso detê-los de qualquer maneira. O velho banqueiro tivera a estranha ideia de unir todos os cristãos sob uma mesma cabeça e enfrentar o inimigo comum com a força da fé. Mas seu plano fracassara. Ou não.
O que o Áugure revelava naquela mensagem é que existiu uma agenda secreta por trás do concílio. Um objectivo mascarado, cujos efeitos ainda se faziam sentir seis décadas depois em Milão. Segundo ele, além das discussões políticas da época, Cosme Medici empregou boa parte de seu tempo em negociar com as delegações provenientes da Grécia e de Constantinopla a compra de livros antigos, instrumentos ópticos e até manuscritos, atribuídos a Platão ou a Aristóteles, considerados perdidos. Mandou traduzir todos, sem excepção, e com eles aprendeu coisas surpreendentes. Assim, descobriu que já em Atenas acreditavam na imortalidade da alma e sabiam que os céus eram responsáveis por tudo o que se movia na Terra. Entendamos bem: os atenienses não acreditavam em Deus, e sim na influência dos corpos celestes. Segundo aqueles desprezíveis tratados, os astros influenciavam a matéria graças a um calor espiritual, parecido ao que conecta corpo e alma nos seres humanos. Aristóteles falou disso depois de aprender nas crónicas da Idade do Ouro, e Cosme ficou fascinado com suas lições. Segundo o Áugure, o velho banqueiro fundou uma academia no estilo das antigas, só para ensinar esses segredos aos artistas. Por causa daquelas leituras, tinha certeza de que o desenho de obras de arte era uma ciência exacta. Uma obra realizada de acordo com certos códigos subtis actuaria como reflexo das forças cósmicas e poderia ser utilizada para proteger ou destruir quem a possuísse.
Então? Já se deu conta, frei Agustín?, a pergunta de Gozzoli me tirou do aturdimento. O Áugure diz que a arte pode ser empregada como arma! De facto. Um parágrafo mais abaixo, a mensagem falava da força da geometria. O número, a harmonia, o som, eram elementos que podiam ser aplicados a uma obra de arte para que irradiasse influências benéficas à sua volta. Pitágoras, um dos gregos defensores da Idade do Ouro que deslumbrou Cosme Medici, dizia que os únicos deuses comprováveis são os números. O Áugure amaldiçoava todos. Uma arma, murmurei. Uma arma que o Mouro pretende esconder em Santa Maria delle Grazie. Exacto! Gozzoli estava orgulhoso. É exactamente o que diz. Não é incrível?
Eu estava começando a entender o repentino interesse de mestre Torriani por tudo isso. Anos atrás, nosso amado superior geral havia condenado os trabalhos do pintor Sandro Botticelli por causa de uma suspeita similar. Acusara-o de empregar imagens inspiradas em cultos pagãos para ilustrar obras da Igreja, mas sua denúncia encerrava algo mais. Graças aos informantes de Betânia, Torriani soube que Botticelli, em Villa di Castello, da família Medici, havia representado a chegada da Primavera utilizando uma técnica mágica. As ninfas que dançavam no quadro haviam sido dispostas como as peças de um gigantesco talismã. Mais tarde, Torriani descobriu que Lorenzo di Pierfrancesco, patrão de Botticelli, havia lhe pedido um amuleto contra o envelhecimento. O quadro era o remédio mágico solicitado. Na realidade, encerrava todo um tratado contra a passagem do tempo, que incluía metade das divindades do Olimpo dançando contra o avanço de Cronos. E pretendiam fazer passar por devota uma obra assim, propondo-a como decoração para uma capela florentina!
Nosso superior geral descobriu a infâmia a tempo. A chave foi dada por uma das ninfas de Primavera, Chloris, pintada com um ramo de trepadeira saindo de sua boca. Era o símbolo inequívoco da linguagem verde dos alquimistas, desses buscadores da eterna juventude, embebidos de ideias espúrias que o Santo Ofício (maldito) perseguia onde quer que despontassem. Embora em Betânia jamais tenhamos conseguido decifrar os detalhes dessa misteriosa linguagem, a suspeita bastou para que o quadro nunca fosse mostrado em uma igreja. Mas agora, se o Áugure estivesse certo, essa história ameaçava se repetir em Milão. Diga-me, irmão Giovanni, sabe por que o mestre Torriani me pede que analise esta mensagem? Meu assistente, que já havia se sentado a uma mesa contígua e se distraía olhando um livro de horas recentemente ilustrado, fez cara de quem não entendera a pergunta: Como? Não chegou ao fim da carta? Tornei a fixar os olhos nela. No último parágrafo, o Áugure falava da morte de Beatrice d’Este e do quanto isso aceleraria a consecução do plano mágico do Mouro. Não vejo nada de particular, querido Giovannino argumentei. Não lhe chama a atenção o facto de que cite a morte da duquesa em termos tão explícitos? E por que haveria de me chamar a atenção? O padre Gozzoli bufou: porque o Áugure datou e enviou esta carta em 30 de Dezembro. Três dias antes do infausto parto de donna Beatrice». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

Os Banqueiros de Deus. Gerald Posner. «Nas primeiras vinte e quatro horas do seu papado, Roncalli demonstrou que não pretendia ser um mero gestor. No final do conclave, entregou o chapéu vermelho a monsenhor Alberto di Jorio o prelado responsável pelo IOR»

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Não é papa nenhum
«(…) Pio passou a dizer estar pronto para ir para o Céu. Os jornais italianos reforçavam a sensação de que algo não estava bem quando noticiaram as alegadas alucinações descritas pelo papa. Numa delas, via uma réplica do movimento giratório do Sol em Fátima e, noutra, Jesus surgiu-lhe no quarto para assegurar que o seu pontificado não tinha ainda chegado ao fim. Foi a primeira vez em mil anos que um papa afirmava ter visto o Filho de Deus. Alguns cépticos consideraram que, ao afirmar ter tido visões divinas, Pio fazia campanha pela sua canonização póstuma. Outros consideravam que seriam efeitos da doença e da idade avançada. Os leigos que herdaram o IOR e a Administração Especial afastaram-se de quaisquer rumores de bastidores acerca do papa. Sabiam que, independentemente do estado de saúde de Pio, a sua idade avançada significava que seria apenas uma questão de tempo até haver um novo papa. Porque a maioria nunca tinha trabalhado sob outro pontífice, essa possibilidade era suficiente para gerar uma angústia considerável. Apesar da especulação acerca da saúde de Pio, muitos elementos bem colocados manifestaram-se, mesmo assim, surpreendidos e entristecidos quando souberam que o papa sofrera um enfarte catastrófico no dia 6 de Outubro de 1958. Apesar das suas limitações e peculiaridades, liderara a igreja através de tempos difíceis. Durante o seu pontificado de dezanove anos, promovera o papado como posição de poder centralizado e inquestionável, um monarca divino que fazia recordar os papas mais arrojados de gerações anteriores. Três dias após o enfarte, o pontífice morria, vitimado por algo que o Vaticano descreveu como um fenómeno circulatório.
O conclave que começou a reunir-se era diferente do que tinha eleito Pio em 1939. Pacelli fora então o principal favorito. A eleição que o tornara papa foi a mais rápida em trezentos anos. Depois da sua morte, não havia favoritos. E, para grande consternação no Vaticano, a imprensa especulava pela primeira vez acerca do conclave como se fosse uma eleição secular. O próprio Spellman era referido como candidato destacado. Não tinha qualquer hipótese. Tinha demasiados inimigos na Cúria, que criaram o termo spellmanismo para referirem uma condição em que alguém tinha um ego demasiado grande e uma ambição demasiado evidente. Depois do início do conclave, os oitenta cardeais, vinte e nove dos quais eram italianos, dividiram-se por campos ideológicos. Os sucessores de Pio eram os conservadores, fortemente anticomunistas e autoritários, que acreditavam num papado todo-poderoso. Reuniam-se em torno de Giuseppe Siri, cardeal de Génova, o prelado em cuja arquidiocese o padre croata Draganovic gerira uma das suas rotas de fuga de criminosos de guerra do seu país. Os progressistas queriam reduzir o papel activo da Igreja na Guerra Fria e aceitariam algumas reformas modernistas. Estavam divididos entre viários candidatos, com o cardeal de Bolonha Giacomo Lercaro, parecendo deter uma vantagem momentânea.
A divisão entre cardeais tornou-se evidente para as multidões que enchiam a Praça de São Pedro. Durante três dias, fumo negro indicando que o papa não fora eleito saiu dez vezes da chaminé erigida sobre a sua sala de reuniões. O fumo branco seguiu-se à décima primeira votação. O compromisso do conclave divisão? O patriarca de Veneza, Angelo Roncalli, a um mês de completar o seu septuagésimo sétimo aniversário. Há mais de duzentos anos que não era eleito um papa acima dos setenta anos. Tinham-se reunido à sua volta como gestor de curto prazo. Afável e anafado, Roncalli era a antítese do seu antecessor reservado e esquivo. Apesar de não ter integrado quaisquer listas de favoritos, acreditava pessoalmente ser um candidato de peso. Quando a sua eleição foi anunciada para o exterior do conclave, retirou do bolso das suas vestes um longo discurso de aceitação que tinha escrito em latim. Quanto ao seu nome papal surpreendeu os colegas anunciando sem hesitar que seria João, um nome que todos os papas tinham evitado porque o ultimo João fora um antipapa fraturante em 1410 (Roncalli apreciava o nome por ser o da igreja paroquial em que fora batizado).
Nas primeiras vinte e quatro horas do seu papado, Roncalli demonstrou que não pretendia ser um mero gestor. No final do conclave, entregou o chapéu vermelho a monsenhor Alberto di Jorio o prelado responsável pelo IOR. Di Jorio fora o secretário do conclave e, elevando-o à dignidade de cardeal, Roncalli retomava a prática abandonada pelos dois papas anteriores. Acabando de colocar as vestes papais, anunciou que monsenhor Domenico Tardini seria o seu secretário de Estado, ocupando uma posição que Pio deixara vazia durante catorze anos. Roncalli era o terceiro de treze filhos, o rapaz mais velho, de uma família camponesa pobre da aldeia de Sotto Il Monte no Norte de Itália. Os seus pais tinham-no matriculado num seminário local quando tinha apenas onze anos. Um padre trazia algum prestígio às famílias. Era também uma boca a menos para alimentar. Aos dezanove anos, obteve uma bolsa para estudar na Accademia dei Nobili de Roma, um seminário que funcionava como centro de recrutamento da Cúria». In Gerald Posner, Os Banqueiros de Deus, 2015, Editora Self-Desenvolvimento Pessoal, 2015, ISBN 978-989-878-155-0.

Cortesia de Self/JDACT

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Policarpo. «A menos que optasse por entrar pela “pequena Porta da Traição”, tão famosa nos castelos portugueses e que ainda hoje se pode ver aberta na muralha da segunda praça»


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O castelo de São Jorge. Um gigante de vigia à cidade
«(…) Destacando-se dentro do castelo, o castelejo é hoje uma imponente visão. De origem islâmica, foi construído no século XI mas as sucessivas reconstruções cristãs não permitem hoje saber com exactidão a cronologia de cada torre, pano de muralha ou escada. Construído como último reduto de uma alcáçova invadida, acabou por nunca exercer a sua função original mas toda a sua construção faria dele um local muito difícil de conquistar. Quem tentasse conquistar o castelejo teria de começar por dar a volta ao edifício, já que a entrada actual e a ponte de acesso foram obra dos anos 30. Na verdade, o invasor teria de entrar pelo lado direito e, além de transpor o fosso e conseguir passar a ponte levadiça, teria ainda de conquistar a porta aberta na barbacã, uma primeira muralha equipada com seteiras que protegia o lado mais acessível do castelejo. Uma vez lá dentro, ainda era necessário conquistar mais uma porta para entrar no castelejo, e esta estava do outro lado da fortaleza, pelo que havia que dar novamente a volta ao edifício.
Chegando à entrada para o coração do castelejo entrava-se num pequeno pátio e ainda seria preciso transpor uma terceira porta para conseguir entrar numa das duas praças que compunham o castelejo. Todo este processo seria feito debaixo de uma chuva de setas, pedras e qualquer outro objecto à mão de quem defendia a praça do topo das torres e ao longo do adarve, o caminho que percorria as muralhas. A divisão do interior do castelejo em duas praças permitia um maior controlo, já que possibilitava uma melhor comunicação entre as várias torres e criava ainda mais uma dificuldade ao invasor, que teria de abrir mais uma porta para chegar à segunda praça. A menos que optasse por entrar pela pequena Porta da Traição, tão famosa nos castelos portugueses e que ainda hoje se pode ver aberta na muralha da segunda praça.
O castelejo seria protegido por 10 torres que assumiam especial importância no lado da entrada para proteger a barbacã, e que eram a principal defesa do lado Norte juntamente com o declive acentuado da colina. O acesso a um ponto de água era assegurado por uma torre couraça, que estava afastada do corpo principal do castelo mas ligada a ele através de uma muralha. Esta torre tem hoje o nome de Torre de São Lourenço, e acabou por ser integrada da Muralha Fernandina do século XIV. Quem se detém na ponte de pedra vê à sua frente a Torre de Ulisses, ou Torre do Tombo, onde hoje funciona a Camara Obscura, um periscópio que permite ver a cidade a 360 e ao perto. À sua esquerda está a Torre do Paço, assim chamada pois ainda esteve integrada no paço real, tal como o edifício que preenchia o espaço entre as duas. É por isso que, hoje em dia, um olhar mais atento percebe que as ameias que as ligam são na verdade parapeitos das janelas que ainda restam deste edifício, que também chegou a albergar o Arquivo Régio.
À direita da Torre de Ulisses encontra-se a Torre de Menagem, a mais importante dos castelos medievais por ali estar hasteada a bandeira do seu senhor. Ali foi instalado, em 1779, o primeiro observatório Astronómico de Lisboa com o patrocínio de dona Maria I e da Academia das Ciências de Lisboa. No seguimento da Torre de Menagem estava a Torre da Cisterna, no canto do castelejo, onde ainda é possível ver a água que ali se armazena. Em todo este conjunto é impossível ignorar a magnífica vista sobre a cidade. Quem hoje atravessa os caminhos de ronda ou se aventura nas escadas da torre de São Lourenço tem a oportunidade de olhar para baixo e imaginar a cidade medieval encavalitada na colina, rodeada dos verdes campos, que, entretanto, foram sendo reclamados pela cidade e os seus habitantes». In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O Reino dos Sonhos. Exército Negro. Santiago Garcia Clairac. «Vejo-o ao fundo da sala, inclinado sobre a grande mesa de madeira, rodeado de livros e de folhas de papel, segurando na pena com firmeza, falando sozinho, ou com os livros, que é quase a mesma coisa»

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A Fundação. Arquimaes, o sábio dos sábios
«(…) Um leve sorriso indica que ele compreendeu a minha mensagem. Sem dizer mais nada, roda nos calcanhares e começa a subir as escadas. Sombra é como se fosse o meu segundo pai, se bem que às vezes tenho a sensação de que ele me compreende melhor. É uma personagem especial. Que tenhas um bom dia, deseja-me enquanto se afasta, arrastando a sua vassoura. Detenho-me no segundo andar e entro na biblioteca principal. Há ali grandes estantes repletas de volumes extraordinários e irrepetíveis que temos vindo a coleccionar desde há imensos anos. A Fundação é uma extraordinária biblioteca cheia de livros sobre a Idade Média. Passei aqui a maior parte da minha vida. Este é o meu mundo. Aproximo-me de uma prateleira e coloco o livro de Artur no seu sítio. Antes de sair, procuro outro sobre a rainha Ginevra que já li muitas vezes e meto-o na minha pasta. A sua história apaixona-me e propus-me escrever um conto com essas personagens..., dentro de alguns anos.
Logo depois, entro no gabinete do papá. Vejo-o ao fundo da sala, inclinado sobre a grande mesa de madeira, rodeado de livros e de folhas de papel, segurando na pena com firmeza, falando sozinho, ou com os livros, que é quase a mesma coisa. Está com um aspecto horrível. Parece um desses sábios que aparecem nas histórias de fantasia, com o cabelo revolto e uma barba de vários dias, febril e embrenhado na sua actividade, como se não houvesse mais nada no mundo; alheio ao que se passa em seu redor. Papá, como estás?, pergunto-lhe, aproximando-me. Um pouco surpreendido pela minha presença, ele levanta a cabeça e olha para mim: Arturo, filho, que fazes aqui a uma hora destas? Papá, são quase nove horas... Já amanheceu. Como uma criança que foi apanhada a fazer alguma travessura, o meu pai levanta-se e corre os grandes cortinados da janela. Uma cascata de luz branca que o ofusca entra violentamente e obriga-o a proteger os olhos. Estou bem, filho. De verdade. Ontem à noite tinhas febre. Deverias tomar alguma coisa, ou vais piorar.
Não precisas preocupar-te. Eu estou bem. Além disso, agora não posso ficar doente, pois tenho de terminar este trabalho... Estou prestes a chegar ao fim! Gostaria de saber sobre que trata esse trabalho de investigação que andas a fazer há tanto tempo, interessei-me. Quando tiver algo de concreto para explicar, asseguro-te que serás o primeiro a sabê-lo. Prometes? Prometo, filho, prometo. Papá, fico preocupado ao ver-te ofuscado e transtornado com este assunto. É como..., como se estivesses a ficar louco. O meu pai levanta-se e afaga-me a cabeça, coisa que faz sempre que quer falar comigo. Em seguida, passa a mão sobre as manchas que tenho na cara, como se tentasse apagá-las. Arturo, não estou louco; eu sei que pareço, mas não estou. Não deves pensar isso.
Eu sei, mas as pessoas normais não se comportam dessa maneira. Escuta, filho, nós sabemos coisas que as outras pessoas ignoram. Não somos bruxos, nem magos... Somos estudiosos e investigadores. Sabemos que neste mundo existem forças desconhecidas que agem sobre nós sem que possamos impedi-lo. E já sabes também que não me refiro a feitiçaria, nem nada dessas coisas; falo do que pensamos, do que sentimos e do que sabemos. E tudo isso está aqui!, diz ele levantando a mão e apontando para as estantes de madeira, repletas de exemplares. Tudo isso está nos livros! Não estás a exagerar um pouco, papá? O que não está nos livros não existe, disse ele com uma firmeza que me assombra. O que não está escrito nos livros não é digno de menção. Os livros são a alma e a memória do mundo. Não me atrevo a discutir. Sei de sobra que a paixão do meu pai pelos livros supera qualquer argumento. Vive por e para os livros...» In Santiago Garcia Clairac, O Reino dos Sonhos, O Exército Negro, 2006, tradução de Ana Maria Silva, Planeta Manuscritos, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-657-020-0.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

1Q84. Haruki Murakami. «Muito obrigado. A propósito..., indagou o motorista, virando um pouco a cabeça para o lado em que ela estava: está com pressa? Tenho um compromisso em Shibuya. Foi por isso que pedi para o senhor…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Eis o mundo do espectáculo em que tudo é fantasia; mas, se você acreditar em mim, real ele se tornará»

Não se deixe enganar pelas aparências (Aomame)
«(…) Aomame concordou e, novamente, se recostou no assento. O jeito de o motorista falar a incomodava. Era como se ele sempre deixasse algo muito importante por dizer. Por exemplo (e esse é apenas um exemplo), era como se ele dissesse que não tinha nenhuma reclamação quanto ao isolamento acústico dos carros da Toyota, mas deixava implícito que outros requesitos ainda tinham algo a ser melhorado. Quando ele falava, pairava no ar uma pequenina, mas significativa massa de silêncio. Massa silenciosa a flutuar como uma minúscula nuvem imaginária no interior do carro. E isso a deixava incomodada. Realmente. É silencioso, disse Aomame, como que para afugentar essa pequenina nuvem. O aparelho de som parece ser de óptima qualidade! Tive de criar coragem na hora de comprá-lo, disse o motorista. Ele falava como um oficial aposentado do Estado-Maior comentando sobre as estratégias de guerra do passado. Como passo muitas horas dentro do carro, quero ouvir um bom som e... Aomame aguardou a continuação da conversa. Mas a espera foi em vão. Ela novamente fechou os olhos para apreciar a música. Aomame não tinha nenhuma ideia de como teria sido Janáček pessoalmente, mas de uma coisa ela sabia: ele nunca imaginou que em 1984 alguém escutaria sua música em Tóquio, dentro de um silencioso Toyota Crown Royal Saloon, em plena via expressa totalmente congestionada. Mas o mais incrível era o facto de Aomame saber prontamente que a música era a Sinfonietta de Janáček, e que havia sido composta em 1926. Ela nunca fora muito fã de música clássica e, tampouco, tinha alguma lembrança pessoal relacionada a Janáček. Mesmo assim, bastou ouvir os acordes iniciais para que inúmeros conhecimentos surgissem espontaneamente. Era como uma revoada de pássaros a adentrar pela janela aberta de um quarto. A música também provocava em Aomame uma estranha sensação, como se estivesse sendo retorcida. Sem dor, sem sofrimento. Uma sensação única, como se seu corpo estivesse sendo espremido lenta e firmemente. Aomame não sabia o que estava acontecendo. Será que a Sinfonietta é que provocava essa sensação estranha? Janáček, disse Aomame, espontaneamente. E logo se arrependeu de tê-lo dito. O que disse? Janáček. Foi quem compôs essa música. Nunca ouvi falar. É um compositor checo, disse Aomame. Ah é?, exclamou o motorista, parecendo admirado. O táxi é seu?, perguntou Aomame para mudar de assunto. É sim, respondeu o motorista e, um tempo depois, comentou: sou autónomo e este é o meu segundo carro. É muito confortável!
Muito obrigado. A propósito..., indagou o motorista, virando um pouco a cabeça para o lado em que ela estava: está com pressa? Tenho um compromisso em Shibuya. Foi por isso que pedi para o senhor pegar a via expressa. A que horas é o encontro? Quatro e meia, respondeu Aomame. Agora são três e quarenta e cinco. Creio que não chegaremos a tempo. O congestionamento está tão ruim assim? Parece que houve um acidente grave lá na frente. Esse congestionamento não é normal. Já faz um bom tempo que estamos aqui, praticamente sem sair do lugar. Aomame achou estranho o motorista ainda não ter procurado se informar sobre o trânsito pelo rádio. Normalmente, quando ocorre algum congestionamento que trava a via expressa, os taxistas costumam sintonizar a rádio numa frequência especial para obterem informações sobre o ocorrido. Dá para saber, mesmo sem ouvir as informações do trânsito?, perguntou Aomame.
Não se pode confiar nessas informações, respondeu o motorista, num tom de voz imparcial. Metade do que dizem é mentira. As concessionárias que administram essas rodovias públicas só informam o que lhes convêm. O único jeito de saber o que realmente está acontecendo é ver com os próprios olhos e tirar suas conclusões. Então, pelas suas conclusões, este congestionamento não vai melhorar tão cedo. Tão cedo, acho difícil, disse o motorista, maneando calmamente a cabeça, de modo afirmativo. Isso eu posso garantir. A via expressa, quando está desse jeito, fica um inferno. E..., esse seu compromisso é muito importante? Aomame pensou um pouco antes de responder: É. E muito. Vou me encontrar com um cliente. Sinto muito, mas acho que você não vai conseguir chegar a tempo. Dito isso, o motorista movimentou lentamente a cabeça como que para relaxar a rigidez dos músculos. As rugas detrás do pescoço mexiam como se fossem seres pré-históricos. Enquanto Aomame observava as rugas em movimento, de súbito, lembrou-se de que, no fundo de sua bolsa, havia um objecto extremamente pontiagudo. As palmas de suas mãos começaram a transpirar. Se é assim, o que o senhor acha que devo fazer? Não há o que fazer. Estamos numa via expressa e, até chegarmos à próxima saída, não tem jeito. Se estivéssemos numa via comum, bastaria descer do carro e pegar o comboio na estação mais próxima». In Haruki Murakami, 1Q84, 2009, Alfaguara, Editora Objectiva, 2012, ISBN 978-857-962-187-1.

Cortesia de EObjectiva/Alfaguara/JDACT

Uma Sombra sobre Florença. Sylvain Reynard. «Mas foi a recordação dos seus olhos verdes que o manteve imóvel enquanto Julianne beijava o marido e regressava para o seu quarto. Raven tinha uns olhos enormes que transbordavam de sentimento»

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«(…) Localizar Gabriel Emerson e a sua família fora fácil. O professor e a mulher, Julianne, eram os proprietários da casa que se erguia majestosamente numa colina e cujas luzes nas janelas alegravam a escuridão. O conflito do príncipe não residia em encontrar os Emerson ou em escapar aos braços da princesa. Não, o seu conflito derivava de uma promessa. Raven Wood era humana, bela de uma forma não convencional, e muito corajosa. Tinha também tendência para proteger os outros, incluindo desconhecidos. Num momento de ternura, fizera-o prometer que pouparia a vida dos Emerson. O príncipe fizera a promessa de boa-fé, não apenas porque desejava que ela lhe confiasse o seu misterioso passado, mas porque gostava dela e desejava fazê-la feliz. Mas, uma vez que Raven o deixara, tornando claro que não podia aceitar o facto de ele ser incapaz de amar, sentia-se tentado a recuar na sua promessa e a castigar o professor por ter tido a ousadia de se declarar legítimo proprietário de objectos de arte roubados. O facto de o ter feito inadvertidamente não constituía desculpa. O príncipe desejava vingança, e, agora que o único ser humano no mundo que o podia convencer a entregar-se à misericórdia o rejeitara, não tinha razão para não satisfazer o seu desejo. E era por isso que se encontrava agora junto à casa, a ouvir Katherine Picton, uma amiga da família, a dar as boas-noites aos seus anfitriões e Clare, a pequena filha dos Emerson, a ser deitada no quarto dos pais.
Esperou impacientemente enquanto os Emerson se entregavam ao prazer numa banheira de hidromassagem instalada na varanda do seu quarto. O príncipe franziu o nariz, à medida que a sua união marital se estendia indefinidamente. Parecia que, sempre que os encontrava, estavam envolvidos em relações sexuais. Bateu com a bota no chão, desejando que o casal se apressasse. Era uma noite sem estrelas, escura e imóvel. O céu era um arco de veludo acima dele, e a brisa de verão sussurrava-lhe ao ouvido. Enquanto ouvia Julianne gritar de prazer, recordou-se de como Raven fizera a mesma coisa, enquanto ele a amava ternamente. Cerrou o maxilar. Amor,um delicado eufemismo para a junção de corpos para prazer físico. No entanto, não conseguia desdenhar daquela palavra quando aplicada a Raven. Passara quase um mês desde que conhecera o prazer com uma mulher, quase um mês desde que tivera Raven na sua cama. Ainda sentia o calor da sua pele sob as mãos, as curvas suaves do seu corpo quando a acariciava, o cheiro do seu sangue a encher-lhe as narinas. Mas foi a recordação dos seus olhos verdes que o manteve imóvel enquanto Julianne beijava o marido e regressava para o seu quarto. Raven tinha uns olhos enormes que transbordavam de sentimento. Nunca te cansas da morte? A voz dela interrompeu-lhe os pensamentos. A verdade é que, de facto, se cansava da morte. Naquele preciso momento, o príncipe sentia-se em conflito. Mas calcou as suas indecisões e escalou a parede da villa, ansioso por surpreender o professor enquanto estava sozinho. E surpreendeu-o, sem dúvida.
E encontramo-nos de novo. O tom conversacional do príncipe contrastava com a sua figura ameaçadora. Sobressaltado, Gabriel ergueu-se no jacuzzi, o corpo nu molhado e a brilhar à fraca luz que vinha do quarto. O que deseja?, vociferou, cerrando as mãos. Desejo que se cubra, para começar. O príncipe atirou uma toalha próxima ao homem, olhando-o com aversão. O professor enrolou a toalha à volta da cintura e saiu da água. Colocou o corpo entre o príncipe e a porta do quarto, que fechou rapidamente. Eu perguntei o que deseja. A postura do professor era decididamente defensiva. Quero que o que é meu permaneça na minha posse. Quero que pare de me tirar coisas e as exiba em público como se fossem suas. O professor olhou o príncipe com incredulidade. Não tenho nada seu. Saia. Já. O olhar do príncipe desviou-se rapidamente por cima do ombro do professor e viu, do outro lado da janela, Julianne a aninhar a filha nos braços. Tem muitas riquezas. Seria melhor cuidar delas e não ir atrás do que não lhe pertence. O professor franziu o sobrolho. Peço-lhe, novamente, que saia. O ser sobrenatural abanou a cabeça, olhando o homem com os frios olhos cinzentos. Disseram-me que tem dificuldade em seguir instruções. Estou a ver que é verdade. Eu mandei-o sair. Também não me parece estar a ouvir, replicou o professor. O senhor roubou as minhas ilustrações. Ao primeiro som de protesto do professor, o príncipe ergueu uma mão para o silenciar. Sei que não as roubou pessoalmente. Mas as ilustrações pertenciam-me, antes de caírem nas mãos da família suíça que lhas vendeu. Recuperei-as e vão ficar comigo. Para sempre. O senhor está a mentir. As ilustrações estavam naquela família há quase um século». In Sylvain Reynard, Uma Sombra sobre Florença, 2016, Edições Chá das Cinco, Saída de Emergência, 2016, ISBN 978-989-710-241-7.

Cortesia de ECdasCinco/SdeEmergência/JDACT