sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «Classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, repetiam os degraus à medida que os subia e a enfermaria se aproximava dele tal um urinol de estação de um comboio»

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«O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante: a quotazinha da Sociedade, senhor doutor. Pu… que pariu os psiquiatras organizados em esquadra de polícia, pensava sempre ao procurar os cem escudos na complicação da carteira, pu… que pariu o Grande Oriente da Psichiatria, dos etiquetadores pomposos do sofrimento, dos chonés da única sórdida forma de maluquice que consiste em vigiar e perseguir a liberdade da loucura alheia defendidos pelo Código Penal dos tratados, pu… que pariu a Arte Da Catalogação Da Angústia, pu… que me pariu a mim, rematava ele ao embolsar o rectângulo impresso, que colaboro, pagando, com isto, em lugar de espalhar bombas nos baldes dos pensos e nas gavetas das secretárias dos médicos para fazer explodir, num cogumelo atómico triunfante, cento e vinte e cinco anos de idiotia pinamaniquesca. O olhar intensamente azul do porteiro-cobrador, que assistia sem entender a uma maré-baixa de revolta que o transcendia, embrulhava-o num halo de anjo medieval apaziguante: um dos projectos secretos do médico consistia em saltar a pés juntos para dentro dos quadros de Cimabue e dissolver-se nos ocres desbotados de uma época ainda não inquinada pelas mesas de fórmica e pelas pagelas da Sãozinha: lançar mergulhos rasantes de perdiz, mascarado de serafim nédio, pelos joelhos de virgens estranhamente idênticas às mulheres de Delvaux, manequins de espanto nu em gares que ninguém habita. Um resto agonizante de fúria veio girar-lhe ao ralo da boca: senhor Morgado, pela saúde dos seus e meus tomates não me lixe mais com o car… das quotas durante um ano e diga à Sociedade de Neurologia e Psiquiatria e amanuenses do cerebelo afins que metam o meu dinheiro enroladinho e vaselinado no sítio que eles sabem, obrigadíssimos e tenho dito ámen. O porteiro-cobrador escutava-o respeitosamente (este gajo deve ter sido na tropa o pide favorito do sargento, descobriu o médico) reinventando as leis de Mendel à medida do seu intelecto de dois quartos com serventia de cozinha: topa-se logo que o senhor doutor é filho do senhor doutor: uma ocasião o paizinho amandou o fiscal fora do laboratório pelas orelhas. De azimute voltado para o livro do ponto e um seio de Delvaux a esfumar-se no canto da ideia, o psiquiatra apercebeu-se de súbito da admiração que as proezas bélicas do progenitor haviam disseminado, por aqui e por ali, na saudade de certas barrigas grisalhas. Rapazes, chamava-lhes o pai. Quando vinte anos atrás o irmão e ele se iniciaram no hóquei do Futebol Benfica, o treinador, que partilhara com o pai Aljubarrotas áureas de pauladas no toutiço, retirou o apito da boca para os avisar com gravidade: espero que saiam ao João, que quando tocava a Santos era lixado para a porrada. Em 35, no rinque da Gomes Pereira, foram três da Académica da Amadora para São José. E acrescentou baixinho com a doçura de uma recordação grata: fractura de crânio, no tom de voz em que se revelam segredos íntimos de paixão adolescente, conservada na gaveta da memória que se dedica às inutilidades de pacotilha que dão sentido a um passado. Pertenço irremediavelmente à classe dos mansos refugiados em tábuas, reflectiu ele ao assinar o nome no livro que o contínuo lhe estendia, velho calvo habitado pela paixão esquisita da apicultura, escafandrista de rede encalhado num recife de insectos, à classe dos mansos perdidos refugiados em tábuas a sonharem com o curro do útero da mãe, único espaço possível onde ancorar as taquicárdias da angústia. E sentiu-se como expulso e longe de uma casa cujo endereço esquecera, porque conversar com a surdez da mãe afigurava-se-lhe mais inútil do que socar uma porta cerrada para um quarto vazio, apesar dos esforços do sonotone através do qual ela mantinha com o mundo exterior um contacto distorcido e confuso feito de ecos de gritos e de enormes gestos explicativos de palhaço pobre. Para entrar em comunicação com esse ovo de silêncio o filho iniciava uma espécie de batuque zulu ritmado de guinchos, saltava na carpete a deformar-se em caretas de borracha, batia palmas, grunhia, acabava por afundar-se extenuado num sofá gordo como um diabético avesso à dieta, e era então que movida por um tropismo vegetal de girassol a mãe erguia o queixo inocente do tricot e perguntava: hã?, de agulhas suspensas sobre o novelo à laia de um chinês parando os pauzinhos diante do almoço interrompido. Classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, repetiam os degraus à medida que os subia e a enfermaria se aproximava dele tal um urinol de estação de um comboio em marcha, chefiada por uma vaca sagrada que a fim de descompor as subordinadas retirava a dentadura postiça da boca, como quem arregaça as mangas, para aumentar a eficácia dos insultos. A imagem das filhas, visitadas aos domingos numa quase furtividade de licença de caserna, atravessou-lhe obliquamente a cabeça num desses feixes de luz poeirenta que os postigos de sótão transformam numa espécie triste de alegria. Costumava levá-las ao circo na tentativa de lhes comunicar a sua admiração pelas contorcionistas, entrelaçadas em si próprias como iniciais em ângulo de guardanapo e detentoras da beleza impalpável comum aos hálitos de gaze que anunciam nos aeroportos a partida dos aviões e às meninas de saias de folhos e botas brancas a desenharem elipses às arrecuas no rinque de patinagem do Jardim Zoológico, e desiludia-o como uma traição o estranho interesse delas pelas damas equívocas, de cabelos loiros com raízes grisalhas, que amestravam cães melancolicamente obedientes e uniformemente horrorosos, ou pelo rapazinho de seis anos a rasgar listas telefónicas no riso fácil dos guarda-costas em botão, futuro Mozart do cassetete. Os crânios daqueles dois seres minúsculos que usavam o seu apelido e lhe prolongavam a arquitectura das feições surgiam-lhe tão misteriosamente opacos como os problemas de torneiras da escola, e espantava-o que sob cabelos que possuíam o mesmo odor dos seus grelassem ideias diversas das que penosamente armazenara em anos e anos de hesitações e dúvidas». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1979, 1983, Publicações dom Quixote, BIS, Grupo Leya, 1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Um Longo Caminho para o Infinito. Os Números Primos. Enrique Gracián. «Quando os chineses falavam das dez mil estrelas que há no céu, não queriam dizer que as tinham contado todas. Num simples relance, o nosso cérebro só é capaz de reconhecer um máximo de cinco objectos»

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Nada mais natural do que um número natural. Nos alvores da aritmética
«Como tudo na vida, também os números primos tiveram uma origem, um nascimento que temos de procurar no próprio início dos sistemas de numeração. Chegaram como números naturais, mas rapidamente se destacaram como números especiais.
Deus criou os inteiros, tudo o resto é obra do homem. Leopold Kronecker (1823-1891), o matemático alemão a quem se atribui esta afirmação, referia-se aos números  naturais, que são os que utilizamos ra contar: 1, 2, 3, 4, 5,…  Kronecker pretendia com isto dizer que grande parte do edifício matemático se constrói a partir da aritmética elementar. Mas afirmar que Deus nos deu os dez primeiros números é o mesmo que dizer, à parte do contexto religioso, que não há nada mais natural do que um número natural, isto é, que estes números sempre estiveram presentes como parte da natureza que nos rodeia. Não seria muito arriscado supor que o processo de contar se iniciou quando o ser humano abandonou o estado de caçador / colector para iniciar o seu longo percurso como agricultor / criador. Nesse momento, numerosos bens, como grãos de trigo, cabeças de gado ou recipientes, deixaram de ter um uso imediato, para passarem a ser produtos, o que tornou necessário inventar diversos processos de contagens. Imaginemos um pastor que leva o seu rebanho a pastar. Ao regressar, tem de se assegurar de que entram no estábulo tantas cabeças de gado quantas saíram. A forma mais natural de o fazer, se não se dispuser de um sistema de numeração, é arranjar um monte de pedrinhas e ir colocando num saco uma pedra por cada ovelha que sai. Mais tarde, ao regressar, só se tem de ir tirando da bolsa uma pedra por cada ovelha que entra e verificar se as contas batem certas. Trata-se de um processo primitivo de cálculo (recordemos que cálculo vem do latim calculis, pedra) que não requer o conceito de número. Em termos matemáticos actuais, diríamos que o pastor estabelece uma aplicação bijectiva ou biunívoca entre o conjunto de ovelhas e o conjunto de pedras. Se pensarmos que, em matemática, o conceito de aplicação biunívoca entre dois conjuntos só se estabeleceu de forma precisa no século XIX, poderá parecer paradoxal considerar o processo de contar como sendo o mais natural que existe. Na verdade, afirmamos que qualquer coisa é natural, temos a obrigação, pelo menos neste contexto, de estabelecer algumas precisões. Poderíamos entender por natural um processo mental que surge de forma imediata, sem necessidade de reflexão prévia. Mas não é de todo certo que o sistema de contagem com uma bolsa cheia de pedras não requeira em absoluto uma reflexão prévia. Seja como for, o que caracteriza esse sistema é o seu imediatismo quanto ao uso, a finalidade prática a que se destina. Tentar avaliar o grau de reflexão exigido por um processo mental para o classificar ou não como natural pode, portanto, revelar-se uma tarefa demasiado complexa. Neste contexto, ser-nos-á mais útil falar de níveis de abstracção. Quando os chineses falavam das dez mil estrelas que há no céu, não queriam dizer que as tinham contado todas. Num simples relance, o nosso cérebro só é capaz de reconhecer um máximo de cinco objectos. Com quantidades superiores, necessita de encontrar uma estratégia para os contar. A introdução de um sistema de numeração implica um forte processo de abstracção, a ponto de muitos especialistas considerarem que, a par da aprendizagem da linguagem, é um dos maiores esforços mentais que o ser humano realiza ao longo da sua vida. Quando dizemos três, podemos estar a referir-nos tanto a três ovelhas como a três pedras, três casas, três árvores ou três coisas quaisquer. Se tivéssemos de utilizar palavras diferentes para numerar cada um dos objectos a que nos referimos, a sociedade agropecuária teria colapsado à nascença. Três é um conceito abstracto, Uma pura imagem mental que, para subsistir como tal num grupo social, requer uma única palavra e um símbolo como veícu1os de comunicação». In Enrique Gracián, Os Números Primos, Um logo caminho para o infinito, o mundo é matemático, RBA, 2010, ISBN 978-844-737-022-1.

Cortesia de RBA/JDACT

Compreensão do Surrealismo em Portugal. António Cândido Franco. «… noite maravilhosa que, em seu ventre, dilatado, sentia germinar um braseiro de sóis, donde saíam, como extintas faúlhas a voar, grandes lágrimas de água e terra escura. […]»

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Das Experiências de Além Mundo ao Supra-real
«(…) Depois de tecer algumas considerações sobre o sonho, de permeio com outras sobre a realidade e a consciência acordada, que com o sonho contrasta, Breton tem a seguinte exclamação: Creio na resolução futura destes dois estados, na aparência tão contraditórios, que são o sonha e a realidade, numa espécie de realidade absoluta, de surrealidade, se assim se pode dizer. Espantoso, não posso deixar de exclamar! Antes mesmo de falar de surrealismo Breton fala de surrealidade, quid do surrealismo. E que diz ele? Que a surrealidade é uma realidade absoluta, que resulta da conciliação entre a realidade sensível, da primeira consciência, e o sonho, que é a realidade, mesmo que disfarçada ou travestida, da segunda consciência. Novalis falou dum real absoluto e Frederico Schlegel dum real autêntico por contaste com o real sensível. Como não ver essa espécie de realidade absoluta de que fala Breton, resultante da conciliação entre a realidade dos sentidos e o sonho, como o real absoluto de Novalis, de resto citado no texto de 1924 a partir do paralelismo, mas não da homologia, entre séries ideais de acontecimentos e séries reais. E já agora como não ligar, ao menos por um cordão de luz, essa surrealidade ao mundo das ideias platónicas e à topografia do extra-mundo, com um litoral próximo e bem demarcado e um oceano distante e indefinível, tal como a regista um platónico como Sohravardi? A coincidência não deixa dúvida, para insistir nela. Ainda assim paga a pena acrescentar que a surrealidade está referida ao surreal e que este se entende como supra-real, quer dizer, como além munda, tal o encontrei nas experiências do sujeito lírico de Teixeira de Pascoaes no livro Sombras.
Sombras, noto agora? Sim, espera do entardecer do dia, anseio crepuscular, e exaltação febril da noite escura pelo autor que pouco depois, no seguimento deste livro de 1907, escreverá Senhora da Noite (1909). Quer ver um exemplo desta exaltacão? Pois aí tem o poema Sombra de Deus: noite maravilhosa que, em seu ventre, dilatado, sentia germinar um braseiro de sóis, donde saíam, como extintas faúlhas a voar, grandes lágrimas de água e terra escura. […] Ó noite imensa feita de sóis, de pedras, de alvoradas! Ó noite criadora! Ó noite escura! Ó tenebrosa mãe de Satanás! […]
A noite apaga a realidade sensível e revela o além-mundo, o supra-real, o real autêntico e absoluto; a noite é o lugar de origem, um mundo de anti-matéria, de vazios, de incandescências solares. Experiências de além-mundo, experiências de surrealidade só de noite se experimentam. Sem essa câmara escura, exterior ou interior, impossível contemplar as estrelas ou as ideias. As viagens ao supra-rea1 são nocturnas, quer dizer, a resolução da oposição entre a realidade sensível e o sonho necessita dum estado crepuscular, translúcido, em que as tinturas profundas da noite se misturem ao brilho opaco e esmaltado do dia. Vejo agora que esta resolução a favor dessa nova realidade absoluta que é o supra-real tem tradução em linguagem freudiana. Assim: resolver a oposição entre o sensível e o sonho imaterial, chegar ao estado translúcido crepuscular, é permitir e incentivar o pacto e a ponte entre as duas consciências. É a mascarada dos símbolos a invadir a primeira consciência, a poesia a tomar cona da lógica do real,
a noite a beber o dia». In António Cândido Franco, Notas para a Compreensão do Surrealismo em Portugal, Lisboa, Peniche, Évora, Editora Licorne, 2012, ISBN 978-972-8661-90-8.

Cortesia de Licorne/JDACT

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «Para a imagem, hoje bastante questionada, da Roma assassinada pelos bárbaros, os saques visigodo e vândalo parecem funcionar como duas facadas iniciais»

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«(…) Do primeiro grupo de análises indicado, aquele que metaforiza o Império Romano como um grande ser vivo, tornou-se célebre e emblemática a frase do historiador Piganiol, que costumava afirmar que a civilização romana não morreu de morte natural; foi assassinada. A grande crise económica, política e militar do século III, marcada por intensas guerras civis, para Piganiol teria dado origem a uma nova concepção de poder imperial que se consolidaria no futuro Império Bizantino. A parte ocidental, contudo, não teria resistido aos avanços bárbaros, para utilizar esta expressão do próprio historiador, de modo que aqui a explicação da queda do Império é direccionada para os factores externos. Nesta mesma esteira, Arther Ferril (1989) defende a ideia de que o grande marco da queda seria o ano 476, por ocasião da deposição de Rómulo Augusto, o último imperador romano do Ocidente, por Odoacro, o que teria contribuído decisivamente para destruição do poderio militar romano. Guardemos esta primeira posição: ela nos revela o olhar do corte que vem de fora, da ruptura mais imediata. Outras datas importantes para este tipo de leitura da passagem que privilegia os eventos bélicos podem ser buscadas nos momentos emblemáticos em que povos não latinos saqueiam Roma, berço e símbolo máximo do poderio do Império Romano. Neste sentido, o saque de Roma pelos visigodos sob o comando de Alarico, em 410 d.C., vivido de maneira particularmente traumática pelos habitantes de Roma e de modo mais geral pelos cidadãos do Império nas diversas províncias, bem como o saque de Roma pelos vândalos em 455 d.C., parecem prenunciar de uma certa óptica este acontecimento aparentemente mais definitivo que é a deposição de Rómulo Augusto por Odoacro, rei dos hérulos, em 476 d.C.. Para a imagem, hoje bastante questionada, da Roma assassinada pelos bárbaros, os saques visigodo e vândalo parecem funcionar como duas facadas iniciais, e de facto pode-se dizer que de algum modo estes acontecimentos contribuíram significativamente para ferir irremediavelmente, no âmbito simbólico, a ideia de uma Roma inexpugnável. Mas daí a situar acontecimentos como estes na centralidade de um processo que por suposto teria conduzido abruptamente ao desaparecimento do mundo romano vai uma distância maior, e, em vista de um posicionamento crítico em relação à centralidade dos acontecimentos militares que teriam promovido todo um fim de uma época, surgiram concomitantemente novas interpretações, conforme veremos mais adiante. Por ora, vale lembrar ainda que mesmo a leitura do assassinato do Império Romano permite-se a examinar este que seria o fatídico momento ou o processo do assassinato, se assim podemos dizer, de modo bem mais complexo, e neste caso o acontecimento das invasões bárbaras pode ser lido não necessariamente como um saque em destaque ou uma invasão específica, mas sim como todo um conjunto de acontecimentos relacionados às invasões ou migrações germânicas. Neste sentido, fariam parte de um mesmo acontecimento-pacote, entre outros itens, os confrontos que se dão entre povos germânicos e romanos a partir do século III d.C., bem como eventos mais específicos, como o facto de que os godos já tinham aniquilado legiões romanas em Adrianópolis em 378 d.C., os saques visigodo de 410 d.C.. e vândalo de 455 d.C., fechando-se o pacote, finalmente, com a deposição de Rómulo Augusto em 476 d.C. Estes, naturalmente, são apenas alguns exemplos, e o acontecimento-pacote ao qual nos referimos engloba certamente muito mais eventos, alguns que possivelmente sequer passaram à história registada, mas que devem ter trazido a sua contribuição atomizada para o resultado geral que em um tempo relativamente curto mudou a face da história do mundo antigo». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereges na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

A noite de Babilónia. Juliette Benzoni. «Tal como na câmara dourada do Entemenanki, esperava-os uma mulher que dormira no templo e que devia acolher no seu corpo o faraó, filho preferido de Amon-Ré e seu substituto nas núpcias divinas»

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Ao princípio eram os deuses…
O harém de Amon…
«(…) Tal como Karnak, Ipt-resit era dedicado não apenas a Amon, o senhor dos deuses, representado na sua forma humana com duas grandes plumas na cabeça e o sexo erecto do deus Min, simbolizando a sua força fecundadora, mas também à sua esposa Mut e ao seu filho Khonsu. Mut, corpo de mulher e cabeça de abutre, tinha a coroa dupla do Alto e do Baixo Egipto. Quanto a Khonsu, era venerado sob a sua forma habitual: embrulhado num sudário e com o disco lunar na cabeça. No dia indicado, sempre na mesma data do mês de Paochi, a estátua de Amon deixava, aos ombros de uma centena de carregadores, a nave do grande templo e descia até ao Nilo para tomar lugar na sagrada e multicolorida nave dourada. Seguiam-no Mut, depois Khonsu e por fim o próprio faraó. Cada um dos membros da família sagrada era depositado numa barca quase tão magnífica como a de Amon. O trono dourado do faraó ocupava a popa. As quatro barcas divinas subiam então o Nilo até ao novo templo, erguido num terreno sobre-elevado para fugir às cheias. Os deuses abandonavam então as suas verdadeiras embarcações por navios simbólicos feitos de madeira dourada e munidos de esticadores, aos quais se atrelavam os sacerdotes mais vigorosos. Ao som dos tambores sagrados e dos cânticos religiosos, Amon, Mut, Khonsu e o faraó eram então levados para as profundezas do templo, cujas portas de cedro incrustadas a ouro se fechavam durante dez dias, ao mesmo tempo que cada uma das barcas-cadeiras era guardada numa capela particular.
Tal como na câmara dourada do Entemenanki, esperava-os uma mulher que dormira no templo e que devia acolher no seu corpo o faraó, filho preferido de Amon-Ré e seu substituto nas núpcias divinas, mulher que, dizia-se, não fizera comércio com mais nenhum homem. O povo sonhava com o destino da criatura, que só podia ter uma beleza ideal e que, após dez dias de amor com o deus, viveria apenas das suas recordações. De facto, o papel de esposa divina pertencia a maior parte do tempo à própria rainha do Egipto ou a uma das numerosas esposas que povoavam o imponente harém do faraó, mas a Grande Esposa real podia estar grávida no momento da festa, levando a que o faraó desejasse outra companheira. Calcula-se que o efectivo do harém de um faraó por norma constituído fosse de mais ou menos trezentas e vinte mulheres. Assim, a virgem, do templo podia ser uma das princesas estrangeiras cujos pais, reis vencidos, enviavam para o Egipto para se tornarem esposas do faraó, caso da princesa Tadukhipa, filha do rei Tushratta de Mitanni, que foi oferecida a Amen-hotep IV (e que conheceu as dez noites de amor de Lucsor) e que alguns historiadores associaram a Nefertiti, A Bela Chegou.
Uma vez fechadas as portas, iniciava-se um cerimonial secreto, infinitamente mais complicado e mais estranho do que o praticado nos zigurates mesopotâmicos. O faraó e a sua esposa não caíam assim, sem mais nem menos, nos braços um do outro durante dez noites e dez dias. O ritual exigia que a identificação dos reis com os deuses fosse completa. Amon despia-se da sua divindade ao apoderar-se do corpo do faraó e este, no momento em que se transformava em Amon, devia vestir o traje e os atributos do deus: o toucado de plumas, a cruz ank, símbolo da vida, e o ceptro em forma de cabeça de chacal. À sua volta os sacerdotes e as sacerdotisas cobriam os rostos com máscaras representando as diversas divindades animais que escoltariam Amon ao leito real para a consumação do casamento místico e carnal segundo o texto da lei sagrada. Assim falou Amon-Ré, rei dos deuses, senhor de Karnak, supremo soberano de Tebas, ao assumir a forma deste macho (aqui o nome do faraó em exercício), rei do Alto e do Baixo Egipto, distribuidor da vida, ao encontrar a rainha quando ela repousava no esplendor do seu palácio. O perfume suave do deus acordou-a e encantou-a. Sua Majestade aproximou-se, apoderou-se dela, penetrou-a com o seu coração e revelou-lhe a sua forma divina. A beleza do deus arrebatou-a e o amor espalhou-se-lhe por todos os membros porque o odor e o bafo do deus cheiravam aos perfumes de Punt... A rainha, honrada, devia mostrar-se reconhecida: que a tua força seja duas vezes grande! Sublime de contemplar é o teu rosto quando me concedes a graça de te unires a mim. O teu orvalho fecunda-me os membros... De uma maneira geral, a. festa da fertilidade e as núpcias divinas culminavam com o nascimento de um príncipe ou de uma princesa, filho ou filha de deus, sem que alguém se atrevesse a pôr em causa uma tão augusta paternidade...» In Juliette Benzoni, Na Cama dos Reis, Noites de Núpcias, 2010, tradução de Nuno Lorena, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012/2013, ISBN 978-989-657-351-5.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

A noite de Babilónia. Juliette Benzoni. «Ipt-resit. Assim chamava a Tebas das Cem Portas ao novo templo de Lucsor que o faraó Amen-hotep III acabava de mandar construir na margem oriental do Nilo»

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Ao princípio eram os deuses…
«(…) O senhor feudal, porque bravo entre os bravos (ou maligno entre os malignos), tomou o lugar da divindade. As coisas, claro, foram-se alterando ao longo dos dias e das noites. O direito sagrado dos primeiros tempos transformou-se depressa num privilégio aplicado em exclusivo às raparigas mais belas, mas entretanto os pretendentes também começaram a deixar de querer ver os mais corajosos do que eles abrirem a porta misteriosa por trás da qual esperava o templo da fecundação. Mas voltemos aos tempos em que os deuses estendiam o seu poder pelos quatro pontos cardeais. Esplêndida, portanto, era a noite que a Babilónia oferecia ao seu deus. Bastante mais austera, porém, era a que a severa Assíria oferecia, em Kalah e depois em Ninive, ao seu deus Nabn, no terceiro dia do mês de Igyar. Não havia orgias nem virgens divinas oferecidas nuas ao desejo de Nabn porque nenhum humano era digno de o encarnar incluindo o rei. Quem entrava na câmara, a meio caminho do céu, onde a esperava uma sacerdotisa, era a sua estátua de ouro e esmalte. Naquele dia o seu leito era consagrado na cidadela, o deus penetrava na câmara e regressava ao seu lugar no dia seguinte..., sem, entretanto, ter feito grande coisa.
Após a consagração do leito e a apresentação das oferendas rituais, a sacerdotisa pegava numa cana, mergulhava-a em óleo perfumado, purificava os pés da imagem divina, em seguida aproximava-se do leito, perfumava-o três vezes, ia beijar os pés da estátua e por fim sentava-se, após o que os sacerdotes regressavam para consagrar madeiras aromáticas, queimá-las e fazer libações com as cinzas. Em seguida vinha o banquete nupcial: longas e sumptuosas mesas em honra dos cruéis deuses do panteão assírio, mas só as efígies de ouro ou de prata é que tomavam assento, servidas com respeito e reverência. Por fim, a noite terminava com uma oração pelo rei, para que os deuses aceitassem abençoar as suas armas, sempre mais ou menos prontas a servi-los. Ao nascer do Sol o pobre Nabn era levado a casa em procissão. Instalavam-no num carro ao lado do condutor e levavam-no a dar uma volta até um certo bosque sagrado, onde ele recebia as homenagens e os sacrifícios de mais sacerdotes barbudos, mas onde não encontrava qualquer bacante, atraente ou não, disposta a brincar com ele, após o que o reintegravam, durante mais um ano, no seu templo obscuro, onde as únicas distracções eram as salmodias dos sacerdotes, os fumos do incenso, os sacrifícios e o sangue dos animais degolados, alternando com alguns banhos de pés oleosos e, nos dias de jejum, com o massacre ritual de alguns prisioneiros de guerra ou de alguns escravos quando o inimigo não estava pelos ajustes...
Têm-se os deuses que se merecem. Nabn não era um deus alegre. Em 612 a. C., o império assírio, rapace e guerreiro por natureza, desmoronou-se sob os golpes dos Medos e dos Babilónios, deixando atrás de si os gigantescos touros androcéfalos alados, os baixos-relevos do palácio de Sargon, em Khorsabad..., e também a morte fantasista de Sardanapale, obra do pincel romântico e genial, mas pouco documentado, de Eugène Delacroix, eternizando na memória dos homens a recordação dos Jardins Suspensos de Babilónia, o sonho de Sémiramis e a espantosa cultura das asas de tijolo nascida na aurora do mundo com os Sumérios e que ofuscou os séculos à custa de vários povos escravizados, mas que também concebeu a matemática e a ciência do Céu antes de se perder, pela mão de Deus, nas areias do deserto...

O harém de Amon…
Ipt-resit. Assim chamava a Tebas das Cem Portas ao novo templo de Lucsor que o faraó Amen-hotep III acabava de mandar construir na margem oriental do Nilo a pedido de Tié, a sua amada Grande Esposa real, para ali celebrar todos os anos as núpcias de Amon-Ré com a terra do Egipto, fecundada pela sua semente divina para ainda maior riqueza e felicidade do povo. Como grande construtor que era, Amen-hotep III mandara também construir na outra margem do rio, a dos mortos, porque era nela que o Sol se punha, um palácio gigantesco, do qual só restam, infelizmente, as famosas colunas de Memnon, para nele viver e reinar sob a protecção da Eternidade, para além de ter mandado ampliar e embelezar, na margem da vida e do Sol nascente, o grande templo de Karnak, templo principal de Amon, cujo novo santuário era apenas uma dependência». In Juliette Benzoni, Na Cama dos Reis, Noites de Núpcias, 2010, tradução de Nuno Lorena, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012/2013, ISBN 978-989-657-351-5.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «… os valores greco-romanos que futuramente se tornariam uma base para a cultura burguesa, e o cristianismo, que se tornaria a religião predominante no Ocidente…»

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«Delimitar um grande período historiográfico no tempo, separando-o de um que se estende atrás dele e de outro que começa depois, é uma operação que traz indeléveis marcas ideológicas e culturais que nos falam da sociedade na qual está mergulhado o próprio historiador, dos seus diálogos intertextuais, de visões de mundo, que de resto estende-se para muito além do historiador que está estabelecendo seus recortes para a compreensão da história. Os próprios desenvolvimentos da historiografia, os novos campos históricos e domínios que surgem, a emergência de novas relações interdisciplinares, os enfoques a abordagens que se sucedem como novidades ou como reapropriação de antigas metodologias, trazem obviamente uma contribuição importante para que a cada vez se veja o problema da passagem de um a outro período histórico sob novos prismas. Examinaremos sob esta perspectiva a questão da Antiguidade e de sua oscilação de fronteiras temporais em relação à Idade Média, quando se tem em vista uma periodização da história no Ocidente. Será oportuno partir da constatação de que o acontecimento fundamental que rege muito habitualmente esta fronteira, ainda que se discutindo qual o momento mais emblemático a ser considerado, é recorrentemente o fim do Império Romano, ou o fim da civilização greco-romana, para considerar o problema em uma perspectiva mais ampla. Este acontecimento, que de resto não teria maior importância para as diversas histórias possíveis de serem construídas em relação às espacialidades não europeias, busca colocar precisamente em relevo a importância do Ocidente na história do mundo. De igual maneira, aqui temos um acontecimento-demarcador que também favorece uma historiografia cristã específica, pois o mundo antigo vai cedendo lugar ao mundo medieval à medida que a Igreja Cristã vai-se afirmando como força política importante, como aspecto definidor de uma nova civilização e, sobretudo, de uma nova cultura. É interessante observar, aliás, que a Antiguidade e a Idade Média são parceiras no projecto de fornecerem ao Ocidente Moderno e ao Contemporâneo dois de seus principais traços definidores de identidade: os valores greco-romanos que futuramente se tornariam uma base para a cultura burguesa, e o cristianismo, que se tornaria a religião predominante no Ocidente. Identitariamente, o Ocidente poderia ser apresentado simultaneamente como filho de Aristóteles e filho de Cristo, para falar em termos metafóricos. Por outro lado, se o fim do Império Romano, tomado como signo do próprio fim do mundo antigo, é habitualmente proposto como evento demarcatório entre os dois períodos, é relevante destacar que entre o desaparecimento do mundo antigo e a emergência da Idade Média existe uma grande zona temporal repleta de ambiguidades, por assim dizer, onde se confrontam intensamente as rupturas e permanências entre estas duas fases da história europeia. Por isso, esse grande período de alguns séculos, que alguns situam entre os séculos IV e VIII, ou mesmo entre os séculos III e VIII, tem sido perspectivado de maneira diferente pelos vários grupos de historiadores, gerando inclusive denominações distintas. Alguns dos historiadores da Antiguidade chamam-no de Antiguidade Tardia. Já alguns dos medievalistas preferem-no chamar de Alta Idade Média ou de Primeira Idade Média. Vale dizer que muitos dos medievalistas costumam ver neste período um começo, o início de uma nova era, e incorporam-no como seu território historiográfico. Reconhecendo as permanências trazidas da Antiguidade, que só lentamente se desfazem, centram contudo o principal de suas atenções sobre as rupturas, sobre o que este período traria de singularmente novo para a história. A posição no campo dos antiquistas é bastante dividida. Uma das dicotomias mais tradicionais, de certo modo já superada pela historiografia recente, é aquela que se estabelece no seio do grupo de historiadores que comparam a civilização greco-romana a um organismo vivo. De um lado teremos aqueles que investem no imaginário de que a civilização greco-romana teria desaparecido abruptamente; de outro, teremos aqueles que investem na ideia de que a civilização greco-romana foi definhando ou decaindo mais ou menos gradualmente. À parte isto, já veremos, seria possível visualizar o Império Romano não como organismo vivo, e sim como algo que a partir de certo momento vai se transformando nas novas realidades civilizacionais que se afirmariam no período medieval, de um lado o Império Bizantino, de outro a civilização ocidental cristã partilhada pelos novos reinos europeus. Por fim, a visualização do Império Romano não como organismo, mas como um outro tipo de sistema complexo, permitiria examinar o seu rápido ou gradual desaparecimento, conforme a perspectiva do analista, como uma desagregação das forças que o sustentavam e que lhe davam a sua especificidade». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereges na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

As Viúvas de dom Rufia. Carlos Campaniço. «De presenças fugazes, os soldados causavam sempre grande reverência às gentes do campo; era como se a República e os novos tempos acompanhassem a patrulha ocasional»

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«(…) Nisto, com a alentejana pronúncia de pôr graça até nas situações mais adversas, um dos presentes descuidou as palavras na língua: está visto que fica tudo em águas de bacalhau. De imediato se ouviu uma gargalhada gorda por cima da multidão. Ora, o viril cabo, disciplinador até no aprumo dos seus homens, determinou prontamente a prisão de Marcelino Piolho por não admitir zombarias com o seu nome, tampouco conclusões apressadas sobre a investigação. Do pó da multidão ficou apenas Armindo Costureira, imune às ordens do cabo. Armindinho, Armindinha, Costureira ou Costureirinha, todos os nomes na boca do povo lhe assentavam como as roupas femininas com que andava por casa: justas e de outra natureza. Numa terra de homens rudes, fingia-se um deles e punha seu colete e sua cinta, colonizando-se, e seu chapéu e sua jaqueta. Só os gestos mais pronunciados o denunciavam entre os demais homens daquele coro curioso. Tinha os olhos emudecidos, humedecidos também, preso à terra por um medo que não sabia descrever. O mando do cabo não chegou até si, porque as suas boas atenções estavam no passado vivido com o morto. Foi preciso um bom grito de um dos guardas e um aceno de indignação para que acordasse do seu letargo de saudades. Então lá foi, campo fora, que a aldeia se fazia escura, dando desacostumados passos em terra tão crua. Enquanto se afastava com sua jaqueta escura e o seu corpo magro, o cabo Catarino Bacalhau olhava-o a desaparecer-se entre os cabeços, fixando-lhe a melancolia. Naquele tempo, Fernão Baixo não tinha Guarda, pelo que os zelosos soldados vieram todos da vila de Moura, mandados chamar à pressa, visto ser coisa rara haver um morto matado nos chãos do concelho. De presenças fugazes, os soldados causavam sempre grande reverência às gentes do campo; era como se a República e os novos tempos acompanhassem a patrulha ocasional. Como o carteiro, que trazia pedaços de outros mundos dentro do saco, a Guarda trazia a esperança de que melhores tempos, por melhores ideias, estariam para chegar, ainda que se lhe notassem já alguns autoritarismos. Porém, naquele dia em que apareceram na aldeia com Marcelino Piolho preso de mãos, para o levarem para os calabouços de Moura, à custa de graça tão vulgar, os olhares e os modos não foram já os mesmos. Metia dó ver o Piolho atado ao rabo do cavalo com pavor das patas altas do bicho, coisa que um verdadeiro piolho ou afim na arte de parasitar certamente não teria. Dois guardas ficaram encarregados de fazer a vigília a dom Rufia até meio da noite, os outros dois cumpriram a outra metade, enquanto o cabo Bacalhau deitara seu rabo, que pelo que se pôde assistir não era de fiel-amigo, numa cama de ocasião nas acomodações da Junta de Freguesia. Os restantes dois soldados passaram a noite a vigiar o Piolho numa devoluta prisão da Guarda Real, um anexo da mesma casa da Junta de Freguesia. Se aquela fosse gente instruída, conhecedora das histórias dos homens desde a antiguidade, poderia ter pensado que a vigília militar ao cadáver era a mais inútil das acções desde os dias em que Ícaro tentara subir aos céus. Dir-nos-ia, com esta comparação de mostrar sabedoria, que dali não fugiria o morto, muito menos haveria quem o quisesse em sua própria casa. Esta afoiteza, por não ter existido, nunca chegou aos ouvidos do temido cabo. A casa do falecido que se abrira, de porta em par, para receber o velório sem morto tinha cada vez mais veladores, como era o hábito de então. Dom Rufia tinha uma irmã algures no mundo, mas esta e os seus pretensos filhos não o podiam chorar neste dia. Ela havia emigrado muito nova para lá do oceano, julgando-se estar em terras argentinas, mas não era isso certeza para uma teima. Assim, os únicos parentes do falecido eram os tios maternos, Homero Dente d'Alho e sua irmã Maria Teresina. À luz das velas, e apertados nas cadeiras que tinham trazido para a casa do morto, os rostos amarelados dividiam-se quanto à proveniência do tiro. De marido cabrão era a convicção geral, pois bem poucos achavam que fosse paga de negócio. Num desses instantes em que ninguém diz palavra e se pode ouvir o ruído do pensar alheio, um homem já de idade, que se esfregava de sono na face, disse qualquer coisa para se acordar e lamentou que, no dia da sua morte, se continuasse a chamar dom Rufia ao malogrado. Se Rufia fora nome bem merecido em vida, naquela fria posição campestre o homem devia designar-se apenas pelo nome próprio ou pela sua condição de morto». In Carlos Campaniço, As Viúvas de dom Rufia, 2016, Casa das Letras, Grupo Leya, 2016, ISBN 978-989-741-491-6.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

As Viúvas de dom Rufia. Carlos Campaniço. «Logo depois taparam dom Rufia com uma manta que lhe deixou os sapatos à mercê do escuro. Pelo meio, o único interrogatório possível foi o da velhinha Chica Laura…»


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«Estava o céu murcho no dia em que morreu dom Rufia. Ninguém julgou que se conciliava a meteorologia com uma certa tristeza divina, porque até o mais poucachinho dos homens percebera a vontade de um Inverno firme. A luz diurna, intimidada pelo negro das nuvens, sombreava as gentes que se comichavam à porta do defunto. Das ruas vizinhas, das casas mais distantes, de toda a aldeia de Fernão Baixo, vinha gente, em passo aberto, empunhando aquela curiosidade difícil de disfarçar. Depressa a casa se encheu de géneros humanos, de idades e de profissões. Para o velório, para aquele imprevisto velório, faltava apenas o morto, que dormia demoradamente num chão frio em terras de campo. Não o podem trazer para casa sem autorização da Guarda, prevenia o padre Xermano, enquanto acomodava as carnes ricas em sestas numa cadeira que alguém lhe trouxera até ao começo de uma mão estendida. Mesmo que os que cacarejavam a desventura do morto ficassem sob o telhado do céu, ainda aceso por uma luzinha de tarde, o padre preferiu o da casa baixinha do infeliz, pois mesmo aquela impotente claridade lhe fazia comichões insuportáveis, gatanhando a pele macia de uma Galiza de homens claros. A habitação pouco asseada, como eram as dos homens sozinhos daquela época, tinha uma sala de entrada pequena; um quarto onde só podia pertencer um enxergão de palha e uma mesa-de-cabeceira; e uma divisão interior destinada ao lume e às refeições, na qual havia cinza suficiente para emparedar a aldeia. Ao fundo, estava uma porta baixinha, luxuosa em buracos e fabricos de aranha, donde se podia adivinhar o quintal. Se por aí se saísse, impunha-se um mato de décadas, ervas virgens e esplendorosas que subiam o mais que podiam sem o acanho das visitas humanas. Apenas uma clareira, onde se supunha que dom Rufia aliviava as águas, parecia não prosperar entre aquele festival de salubridade silvestre. Quando o padre abriu a porta do quintal, fazendo caso da sua bexiga, urinou no preciso local das ervas baixas e então percebeu a fidelidade do morto àquele santuário, que permitia um alívio sem picadelas. O Sol, agasalhando-se como é sua obrigação, deixava, entretanto dom Rufia à mercê de uma geada implacável, que haveria de vitrificar as poças de água, de murchar as folhas das laranjeiras e de reduzir a salsa a um seco de inutilidade. Mas o que preocupava as gentes tranquilizaria, certamente, o falecido, uma vez que se supõe que os ossos desempregados de vida não temem temporais. Não obstante se adivinhar que o frio congelaria tudo, os seis soldados da Guarda Nacional Republicana não deixaram que se levantasse o corpo enquanto não ficassem apuradas as circunstâncias do assassinato. Mediram a distância a que eventualmente se dera o disparo, deram passos largos com medidas de metro, indo um comprovar o cálculo do anterior, estudaram o desenho das pegadas, mas tantas as vezes o fizeram que só sobrou o das botas negras da novel República, perguntaram a gentes de montes e de caminhos quem haviam visto por ali, mas tanto esforço em vão deixava-as divididas sobre de quem ter mais compaixão, se do morto, se dos investigadores. Foi assim até a noite mandar mais do que a persistência humana. Logo depois taparam dom Rufia com uma manta que lhe deixou os sapatos à mercê do escuro. Pelo meio, o único interrogatório possível foi o da velhinha Chica Laura que nessa manhã o achara dormido para sempre, sem mugir dor ou acção, misturando o último sangue com a água nocturna das ervas, dando-se isso quando recolhia uns ramos de azinho para o lume. A velhota, enfadada com as perguntas, tentando desenvencilhar-se daqueles homens obrigatórios, declarou que, com efeito, a melhor testemunha do caso era o Alfaiate, que com suas ventas de cão encontrara morto dom Rufia. Porém, logo retorquiu o cabo que, para o bem ou para o mal, os donos tinham sempre de responder pelos seus animais. Sonolenta e velha, Chica Laura encolheu os ombros, encolheu-se e disse e redisse o que podia: encontrara-o assim e logo que avistara Fernão Baixo chamara a vizinhança. Os seis homens, dos melhores soldados às ordens do cabo Catarino Bacalhau, desabafavam com as gentes que a República estabelecia a ordem até no mais recôndito alqueive da nação. Os curiosos aldeões, embora com uma fome de palmo, não arredaram pé até o cabo tirar uma prepotência da boca, decretando aos presentes que fossem imediatamente para suas casas». In Carlos Campaniço, As Viúvas de dom Rufia, 2016, Casa das Letras, Grupo Leya, 2016, ISBN 978-989-741-491-6.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

101 Lugares para ter Medo em Portugal. Vanessa Fidalgo. «Que o medo andou sempre de mãos dadas com a ignorância e a dúvida razoável, todos sabemos. Mas sabendo-o, esquecemo-lo…»

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«O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis». In Fernando Pessoa

«(…) Mas além de mensurável e real, o medo é irracional. Uma espécie de monstro adormecido, que pode ser acordado inadvertidamente por qualquer fenómeno incompreensível e adensado pelo turbilhão complexo que é a mente humana em uso da imaginação. Por causa destas características intrínsecas ao próprio medo, é fácil perceber porque é que a história de Portugal e das suas gentes é também feita de medos que perduram até aos dias de hoje. Uma vez, até se falou num monstro que habitaria as profundezas das águas da lagoa Escura, na serra da Estrela! Houve aldeias no Norte banidas do mapa por pragas de bichos e epidemias desconhecidas, passagens de corpos celestes que fizeram o povo temer o fim do Mundo, terras onde nada mais cresceu e transformaram-se em campos de fome e tantas e tão estranhas bizarras coincidências que até em Oeiras se temiam as engrenagens de um relógio!
O medo do desconhecido é quase uma reminiscência ancestral. Desde que o mundo é mundo, a Humanidade sempre temeu o que não domina, o que não consegue apreender nem explicar. E esses medos podem tornar-se barreiras intransponíveis na vida das pessoas e das comunidades, reconhece o especialista. Ou marcá-las para sempre. Mesmo quando há uma explicação científica, esta nem sempre é credível junto das comunidades ou tarda muito em chegar. E em abono da verdade, na maior parte dos medos as explicações podem nem sequer ter nada que ver com a sua verdadeira razão. Por se saber que um rato é inofensivo não se elimina o medo que pode provocar e o mesmo acontece, por exemplo, com as aves. O medo continua irracional, mesmo quando se conhecem os seus motivos. O medo do sobrenatural, ou melhor, do que não se conhece, obedece às mesmas regras. O que explica isto são motivos evolutivos ou filogenéticos. O medo é o nosso alarme natural, temos medo daquilo que ameaça a espécie humana, explica Batista, com palavras que encontram eco em muitas das histórias que se contam.
Casos assim, inexplicáveis, transformam-se facilmente em mitos e misturam-se com referências ao sobrenatural ou ao divino. Noutros casos, a alusão ao sobrenatural serve apenas para explicar o próprio medo, não sendo a sua causa mas, pelo contrário, o remédio, ainda que imprevidente, que o tenta apaziguar. A explicação do desconhecido por um agente sobrenatural é a explicação mais fácil e por vezes a única possível. Tempos houve em que as explicações sobrenaturais aplicaram-se a tudo e não apenas àquilo que metia medo!. ilustra o psicoterapeuta. Que o medo andou sempre de mãos dadas com a ignorância e a dúvida razoável, todos sabemos. Mas sabendo-o, esquecemo-lo, sobretudo quando estamos cara a cara com ele! O coração salta do peito, a racionalidade fica de parte e vence a precaução. Depois, mais tarde talvez no recato de casa ou entre amigos. a maioria jura a pés juntos que não acredita, mas, pelo sim, pelo não, decide não passar nem perto de certos lugares deste Portugal assustador...» In Vanessa Fidalgo, 101 lugares para ter medo em Portugal, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-467-3.

Cortesia de AEdosLivros/JDACT

101 Lugares para ter Medo em Portugal. Vanessa Fidalgo. «Mas nem tudo é mau no medo. Há um medo que impele e alavanca o homem, como quando este procura pela ciência a cura para um mal universal»

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«O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis». In Fernando Pessoa

«(…) Os medos, por mais variados que sejam os motivos, nas suas finalidades últimas, enraízam num medo maior, total e omnipresente, que é o medo de morrer. Basta que saibamos que o primeiro sinal da existência de actividade humana foi dado pelo encontro de um túmulo. O fascínio pelo oculto, por aquilo que não se conhece e desejamos comandar, a omnipresença da morte, favorece crenças, mitos, medos, a necessidade de pesquisar o futuro incerto e, até, o Além. Os locais do medo são, de certa forma, uma geografia de testemunhos da morte e passados muitos anos essa impressão mantém-se no imaginário colectivo. Um caso exemplar é o do Aqueduto das Águas Livres onde, há cento e cinquenta anos, Diogo Alves defenestrava as suas vítimas. Hoje é um local que continua a remeter para essa memória longínqua mas que persiste como um medo de morrer, exemplifica Moita Flores. Apesar disso, os cientistas garantem que nascemos apenas com dois medos inatos: o medo de cair e o medo do barulho. Todos os outros são adquiridos no contexto evolutivo da própria espécie humana. Ironicamente, por ser um sentimento de tamanha complexidade, o medo também atrai o homem, quer seja pelo prazer de o dominar quer seja por puro entretenimento. Alguns desafiam-no em actividades radicais, embora a maioria de nós se fique pelas páginas inquietantes de um livro ou sem sair da zona de segurança frente ao televisor! Por isso, o medo é também um dos instrumentos favoritos da ficção, diz o actor e argumentista Martinho. Segundo ele: o acto principal e mágico de um autor é criar uma história em que as pessoas acreditem absolutamente, vivida por personagens que gostaríamos que fossem nossas conhecidas. A quem pudéssemos dar um conselho ou um parecer, que nos pudessem fazer comungar das suas alegrias, tristezas, entusiasmos ou temores. Mas o medo deve ter sempre um ponto de partida e uma conclusão. Um desfecho ou uma explicação que lhe dê valor, sobretudo. É um ingrediente difícil de usar.
O pior é quando o elenco da própria novela é atacado por forças sobrenaturais a meio das gravações e fica espavorido e cheio de medo, como aconteceu em 2003, quando as filmagens de O Teu Olhar no assombrado castelo de Montemor-o-Velho tiveram de ser interrompidas quando os actores sucumbiram ao medo! É caso para dizer que se virou o feitiço contra o feiticeiro. Em Portugal, de lés a lés, o que também não falta é uma cultura popular riquíssima, que com as suas pragas e mau-olhado, histórias de fantasmas, bruxas e aparições, continua a propagar o medo. Tais relatos são sempre em lugares suficientemente próximos para que pudessem ter acontecido a qualquer um de nós, apesar de a maioria destas paragens ser obra e arte do inconsciente: se todos os outros animais agem por instinto, o homem é o único que tem a capacidade de reflectir. Mas isso que aparentemente é a sua maior ventagem torna-se também o seu maior obstáculo, porque o papel da imaginação modifica a realidade.
Mas nem tudo é mau no medo. Há um medo que impele e alavanca o homem, como quando este procura pela ciência a cura para um mal universal. Esse é o lado bom do medo. Já para não falar que o medo deixa-nos mais alerta, protege-nos da ameaça, desafia-nos a vencê-lo. O medo ensina a viver o seu oposto, a coragem, garante Flores. Em tempos de instabilidade e mudança a todos os níveis, vale a pena reflectir sobre esta dualidade, pois, como diz uma certa verdade essencial de cariz universal: o bravo não é aquele que não tem medo. É aquele que, mesmo assim, avança. E, já agora, o melhor é começar a falar sobre o medo, pois é meio caminho andado para o perder e, em última instância, até para começar a rir dele...

Mistérios, fenómenos inexplicáveis e assustadoras coincidências
O medo é uma emoção poderosa que se desencadeia perante a percepção de algum tipo de risco, perigo ou ameaça, garante o psicólogo Batista, especialista em emoções e fundador da A. P. T. do Comportamento. Para mal de todos os nossos pecados, é também uma emoção fácil de desencadear e só isso justifica porque é que um simples pensamento é capaz de causar arrepios. A sua intensidade varia do medo comum e normal às fobias, que são instâncias extremas de medo. Quando se manifesta causa tremores, suores, tolda a respiração e outros sintomas possíveis de observar e agrupar em escala». In Vanessa Fidalgo, 101 lugares para ter medo em Portugal, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-467-3.

Cortesia de AEdosLivros/JDACT

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «… a Igreja quer, a Igreja não quer; a Igreja permite, a Igreja não permite; a Igreja ordena, a Igreja obriga; a Igreja aprova, a Igreja desaprova; a Igreja proíbe, a Igreja admite; a Igreja confirma aquele fenómeno, a Igreja não encontra nada de sobrenatural naquela aparição ou naquela pessoa…»

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A Igreja não é o Vaticanismo
«(…) Muitas vezes, porém, esta perspectiva sofre desvios e é feita em pedaços pela plebe e pela autoridade hierárquica. Por isso, quando se fala de Igreja, facilmente se resvala para se referir apenas o seu vértice, como se fosse a única expressão constitutiva e selectiva desejada e querida por Nosso Senhor, balanceando no ar como uma estalagmite. Não só os teólogos do Renascimento, mas também os do nosso tempo gostam de pensar a base dos fiéis como um amorfo rebanho de ovelhas, curvado humildemente perante o pastor. Assim, quando se fala de Igreja, tal referência tem mais que ver com o vértice hierárquico composto pelo conjunto de papa, cardeais, bispos, cúria romana e altos prelados, investidos de autoridade e de poder, que se gastam em nada na erosão do tempo e que muito frequentemente se esquecem de se pôr em questão, confrontando a sua missão com a de Cristo que se anulou na cruz exactamente para servir a humanidade. Elipse teológica em voga a que correspondem expressões erradas: a Igreja quer, a Igreja não quer; a Igreja permite, a Igreja não permite; a Igreja ordena, a Igreja obriga; a Igreja aprova, a Igreja desaprova; a Igreja proíbe, a Igreja admite; a Igreja confirma aquele fenómeno, a Igreja não encontra nada de sobrenatural naquela aparição ou naquela pessoa. E quando assim falam, sabem que estão a referir-se a certos homens e eclesiásticos que exercem e manobram as alavancas do poder naquela altura e que, como protagonistas que julgam ser, já demonstraram muitas vezes estar a pronunciar-se erroneamente sobre certas verdades históricas respeitantes a fenómenos e a pessoas.
Mas é aqui que está a dicotomia do pensamento. Por um lado, afirma-se que a Igreja somos nós todos juntos, autoridades e fiéis e, por conseguinte, qualquer ferida infligida a um dos seus membros é infligida-directamente a todo o seu corpo místico. Mas, por outro lado, quando alguns dos seus membros, profetas de qualquer maneira interessados na compaixão do Cristo místico, denunciam a infecção cancerígena, são apostrofados como insubordinados e rebeldes, suspeitos heréticos, semeadores de cizânia, homens e mulheres a silenciar, não obstante vir a reconhecer-se, à distância do tempo e com arrependimentos inúteis e perdões tardios, terem-se enganados nos seus juízos. Mas a quem faz jeito calar a todos para que ninguém intervenha? Não é certamente para deixar tudo como antes, para que quem erra continue a errar? Pelo contrário, a Igreja ou é tudo em conjunto, base, lados e vértice, ou não é a Igreja que Cristo desejou. Cristo não fundou a sua Igreja com um poder de governo de dominação incontrolada. A Igreja de Cristo tem apenas um modo de governar: colocar-se ao serviço. Os dignitários, os cardeais, os príncipes, se de príncipes se pode falar, não deveriam ter qualquer outra ambição, alguma outra aspiração e nenhuma outra pretensão: entre vós, porém, o exercício do poder não é assim, mas aquele que quer ser grande entre vós faça-se vosso servidor, e quem quer ser o primeiro entre vós seja o servo de todos.
A Igreja de Jesus, quando se torna serva, é a mais completa obra divina, colocada como protecção de toda a sociedade humana. Não pode, todavia, ser infinita como Deus, sendo Sua obra ad extra. Por princípio teológico, Deus é o infinito. A Igreja, pelo contrário, é obra divina, mas finita. Por isso, não tem o carisma de poder reconhecer todos os infinitos carismas de Deus. Se conhecesse a omnipotência infinita de Deus, isso significaria ser o seu contentor, por abranger o Infinito. Eis que os céus e os céus dos céus não podem conter-te, ainda menos esta casa que eu construí. Não é possível, nem mesmo a Deus, criar uma instituição contingente e ao mesmo tempo capaz de circunscrever a sua infinitude: criaria, por absurdo, um outro deus dominador. Os nossos esquemas, infinitamente estreitos, mesmo os da Igreja, não poderiam conter num invólucro a infinita omnipotência do Criador». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «Certo é que a organização da Igreja de Jesus é, sociologicamente, em pirâmide: o papa indissociavelmente unido aos bispos, aos sacerdotes e aos fiéis; separá-los em blocos seria forçar a sua natureza, isto é, desvirtuá-la»

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A Igreja não é o Vaticanismo
«(…) Este plano universal de Deus para a salvação do género humano não se concretiza apenas numa forma, por assim dizer secreta, na mente dos homens, que procuram Deus de modo vário no esforço de o atingir, talvez às apalpadelas, e de encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós..., iniciativas que podem constituir sempre um encaminhamento pedagogicamente válido para o verdadeiro Deus ou preparação para a mensagem do Evangelho. Assim diz o Vaticano II. Pelo contrário, os padres do Ocidente deixaram-se condicionar bastante pela escultural definição agostiniana que inexoravelmente estabelecia: Extra Ecclesiam nulla salus, fora da Igreja não há salvação, asserção teologicamente válida mas não exclusivamente única. O axioma tornou-se dogma insubstituível para todos os tempos e a razão pela qual os nossos teólogos latinos, com vista a conseguir salvar os outros quatro biliões de não baptizados, recorreram ao expediente do baptismo de desejo que os tornaria inconscientemente cristãos. No Ocidente recorre-se a isto para salvar o conceito, teologicamente incompleto, de que sem a Igreja, contentora de Deus e dos homens, não nos salvamos. Jesus, quando pensou fundar a sua Igreja, por exemplo, quando prometeu a Pedro conferir-lhe o primado sobre ela (Tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; a ti enquanto responsável máximo, darei as chaves do edifício do Reino dos céus; tudo o que ligares e desligares dentro e nos lados poligonais desta construção social, pelos séculos, tudo será confirmado pelo meu Pai que está nos céus, certamente que a imaginou construída sobre uma rocha única e compacta, referindo-se a uma figura geométrica poligonal precisa, sobre cujo vértice faria sentar Pedro, Seu Vigário.
Na Sua memória estava a recordação de infância daquelas maravilhosas pirâmides que continuarão a desafiar os séculos futuros, cuja figura geométrica, segundo a teoria de Luís Alvarez, prémio Nobel, era e é um poderoso acumulador cósmico de energia unitiva e coesivo, característica já conhecida dos antigos egípcios e persas. Jesus, emigrante no Egipto desde os primeiros anos da sua meninice, antes de voltar para Nazaré terá sido levado por São José e Sua Mãe a ver as gigantescas e fmosas pirâmides dos faraós, meta de turismo internacional até hoje. Como acontece com todas as crianças, também na criança Jesus, homem e Deus, terá ficado indelevelmente gravada, na Sua mente e na Sua memória, aquela maravilha. pensando em comunicar aos outros homens, sob forma plástica, a ideia da Sua Igreja instituenda, terá encontrado naquela forma geométrica das pirâmides a melhor referência para a Sua obra divina em razão de ser também plasticamente expressão de unidade e de coesão de toda a família humana.
A Igreja, em forma de pirâmide, respondia melhor aos traços que Cristo lhe conferia através do Espírito Santo, sintetizados nas características, todas elas essenciais, de una santa, católica e apostólica. É uma hipótese que poderá ser mais ou menos compartilhada. Certo é que a organização da Igreja de Jesus é, sociologicamente, em pirâmide: o papa indissociavelmente unido aos bispos, aos sacerdotes e aos fiéis; separá-los em blocos seria forçar a sua natureza, isto é, desvirtuá-la. A Igreja é, pois, uma estrutura viva, essencialmente una e indivisível. Foi este o magnífico papel dos  padres da Igreja e da Idade Média cristã, de que às maravilhosas catedrais foram exemplos plásticos. Para as erguer, recortadas nas alturas, contribuíram o engenheiro, o técnico, o pintor, o escultor, os artistas das artes murais, os geólogos, os físicos, os doutores em teologia, os sacerdotes, a hierarquia, a fé do povo, a arte dos poetas, a arte dos músicos, as preces dos santos, numa amálgama harmoniosa e compacta. Desde então até aos nossos dias, o louvor e a glória à unidade e à trindade de Deus criador são constantes. De resto, também o mistério da Santíssima Trindade se refere à figura geométrica de um triângulo equilátero, geralmente piramidal». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT

Madre Paula. Patrícia Muller. «Dentro do meu novo espaço eu era outra pessoa que não Madre Soror Rameira. Era um animal. Andava despida o tempo todo, o cabelo caído e revolto, ia e vinha com comida, com bebida, com pedidos, reclamações, ciúmes»

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«(…) Francisco sempre foi o fantasma que assombrou o rei, o seu duplo, o desenho que o seguia pelas paredes dos corredores da corte. O pavor de ser substituído pelo irmão era tão forte que dominou o carácter de João. Deixou para trás mulheres atrás de mulheres para ter a certeza de que nunca seria o contrário. Eu, nesse número. Vejo-o deitado nu, no leito do quarto de cima, a cabeça apoiada na palma da mão, o cotovelo fincado no colchão, durante toda a noite, sem dormir, só a ver-me, como um abutre à espera da presa inanimada ou morta, sem que isso fizesse a mínima diferença. Se me deixas, mato-te, disse-me no aposento mais luxuoso de Odivelas, o mais sumptuoso da casa que o rei construiu para engaiolar o nosso amor. O que é meu teve o que de mais bonito Deus sonhou e o homem ergueu. A luz das velas bruxuleava, tudo ficava banhado a amarelo, duplamente dourado, duplamente quente, o sol do fim de dia, o suor da dobra interna dos joelhos.
Quero-te nua. Dizia-me isto já eu estava despida há muito. O meu leito, inspirado na última moda, tinha quatro apoios com santos em ouro maciço. Porque até os santos devem estar aos teus pés, Paula. Dentro do meu novo espaço eu era outra pessoa que não Madre Soror Rameira. Era um animal. Andava despida o tempo todo, o cabelo caído e revolto, ia e vinha com comida, com bebida, com pedidos, reclamações, ciúmes. Ele deitado na cama, sorria. Ouvi dizer que tens muitas outras no Paço, aias da rainha, fidalgas. É verdade? Só te amo a ti, Paula. Mas tomas outras, entreténs-te com muitas ao mesmo tempo. Não te dou tudo? Cala-te. E levantava-se, vinha atrás de mim e suportava os meus gritos e o meu gesticular, imobilizava-me e levava-me para a cama, o peso dele em cima de mim, a mão dele a tapar-me a boca.
Não grites que estamos num convento. Eu tentava falar. A casa de Deus não é para ser conspurcada. E a outra mão dele já estava bem longe da minha boca e eu já não queria gritar, só gemer. E João continuava a sussurrar. E agora? As duas mãos, delicadas e inquisidoras, com nenhum outro propósito a não ser regar-me como se eu fosse uma planta à procura de água. João foi buscá-la dentro de mim de todas as vezes que fizemos amor. E depois entrava sem pedir licença, já sem meiguice, Porque sabia que eu o desejava até ao fundo, se pudesse não o deixaria sair nunca mais, abraçava-o e apertava-o até o impedir de se mexer. O que é que estás afazer, cigana? Adorava que me chamasse cigana. Depois, quando descobri que Sua Majestade andava a fornicar uma verdadeira cigana, Margarida do Monte, proibi-o de deslocar o epíteto. Não queres que me mexa, cigana? E levantava-me no ar, sentava-me em cima dele e exigia que o olhasse nos olhos enquanto os nossos corpos se moviam ao mesmo ritmo e compasso. Mais fundo, meu amor? Se era dia em que eu precisava que me mostrassem quem é que mandava, João ainda me virava de costas na cama e, sem pudor, puxava-me o cabelo até eu desfalecer de dor e prazer e gratidão. Os lençóis de puro algodão manchados de lixo de desejo.

A janela pareceu-me demasiado estreita para deixar passar um só raio de sol ou de esperança. Comparável a esta cela, só a da minha Luz. Quando eu entrei, ela já havia professado. Era a monja mais solitária que este mundo já viu. As outras troçavam porque era pobre, debaixo do hábito não espreitavam sedas nem laços, os sapatos estavam rotos e sem salvação. A entrada para a quinta de Vale de Flores precede o largo D. Dinis, rei que mandou construir o mosteiro depois de ter visto a sua vida poupada num feroz combate com um urso. O pai sabia muito sobre as desventuras e os esquivanços da monarquia e não se cansava de nos contar essas histórias. O monarca Dinis e a rainha Santa Isabel passavam temporadas nas termas de Monte Real e o rei aproveitava para caçar nas redondezas. Um dia, saiu cedo e sozinho, a cavalgar pelo mato, à procura de alvo sério. A meio do caminho, sem saber como nem porquê, foi surpreendido por um enorme urso que, com a sua pata imensa, o derrubou do cavalo e se lhe lançou em cima. Debaixo do animal, o rei não podia mexer-se. Num instante, lembrou-se de São Luís, príncipe que passou sete anos em cativeiro e depois desistiu de honras e títulos para tomar o hábito religioso, chegando a Bispo de Tolosa, e pediu ajuda a este santo. São Luís ouviu o pedido de socorro do rei e apareceu-lhe, lembrando-o do punhal que tinha na cintura. O rei puxou-o e devolveu a surpresa ao animal. Foi a correr ter com a Rainha Santa Isabel e relatou-lhe o milagre. Mandou escudeiros irem buscar o urso morto e passeá-lo pelas ruas de Monte Real. A história rendeu-lhe toda a região... O rei mandou construir um mosteiro na quinta de Vale de Flores e doou-o às monjas bernardas». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

Rosalía de Castro. Poema. «Dicen que no hablan las plantas, ni las fuentes, ni los pájaros, ni el onda con sus rumores, ni con su brillo los astros, lo dicen, pero no es cierto, pues siempre cuando yo paso»


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«Hora tras hora, día tras día,
entre el cielo y la tierra que quedan
eternos vigías,
como torrente que se despeña
pasa la vida.

Devolvedle a la flor su perfume
después de marchita;
de las ondas que besan la playa
y que una tras otra besándola expiran
recoged los rumores, las quejas,
y en planchas de bronce grabad su armonía.

Tiempos que fueron, llantos y risas,
negros tormentos, dulces mentiras,
ay!, en dónde su rastro dejaron,
en dónde, alma mía?»




«Dicen que no hablan las plantas, ni las fuentes, ni los pájaros,
ni el onda con sus rumores, ni con su brillo los astros,
lo dicen, pero no es cierto, pues siempre cuando yo paso,
de mí murmuran y exclaman:
ahí va la loca soñando
con la eterna primavera de la vida y de los campos,
y ya bien pronto, bien pronto, tendrá los cabellos canos,
y ve temblando, aterida, que cubre la escarcha el prado.

Hay canas en mi cabeza, hay en los prados escarcha,
mas yo prosigo soñando, pobre, incurable sonámbula,
con la eterna primavera de la vida que se apaga
y la perenne frescura de los campos y las almas,
aunque los unos se agostan y aunque las otras se abrasan.

Astros y fuentes y flores, no murmuréis de mis sueños,
sin ellos, ¿cómo admiraros ni cómo vivir sin ellos?»
 

Adios, rios; adios, fontes
«Adios, ríos; adios, fontes;
adios, regatos pequenos;
adios, vista dos meus ollos:
non sei cando nos veremos.

Miña terra, miña terra,
terra donde me eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei,

prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento,
paxariños piadores,
casiña do meu contento,

muíño dos castañares,
noites craras de luar,
campaniñas trimbadoras
da igrexiña do lugar,

amoriñas das silveiras
que eu lle daba ó meu amor,
camiñiños antre o millo,
¡adios, para sempre adios!

¡Adios gloria! ¡Adios contento!
¡Deixo a casa onde nacín,
deixo a aldea que conozo
por un mundo que non vin!

Deixo amigos por estraños,
deixo a veiga polo mar,
deixo, enfin, canto ben quero...
¡Quen pudera non deixar!...

Mais son probe e, ¡mal pecado!,
a miña terra n'é miña,
que hastra lle dan de prestado
a beira por que camiña
ó que naceu desdichado.

Téñovos, pois, que deixar,
hortiña que tanto amei,
fogueiriña do meu lar,
arboriños que prantei,
fontiña do cabañar.

Adios, adios, que me vou,
herbiñas do camposanto,
donde meu pai se enterrou,
herbiñas que biquei tanto,
terriña que nos criou.

Adios Virxe da Asunción,
branca como un serafín;
lévovos no corazón:
Pedídelle a Dios por min,
miña Virxe da Asunción.

Xa se oien lonxe, moi lonxe,
as campanas do Pomar;
para min, ¡ai!, coitadiño,
nunca máis han de tocar.

Xa se oien lonxe, máis lonxe
Cada balada é un dolor;
voume soio, sin arrimo...
Miña terra, ¡adios!, ¡adios!

¡Adios tamén, queridiña!...
¡Adios por sempre quizais!...
Dígoche este adios chorando
desde a beiriña do mar.

Non me olvides, queridiña,
si morro de soidás...
tantas légoas mar adentro...
¡Miña casiña!,¡meu lar!»
Rosalía de Castro, in “Cantares Gallegos” (1863)
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Ernestina. Rentes de Carvalho. «… devorava-os ele como se, juntamente com a sua, tivesse de saciar também a fome de saber dos antepassados que o destino fizera nascer e viver no negrume da ignorância. Zé Maria lia, relia, decorava»

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«(…) Continuava festejeiro, tocava guitarra, bebia o seu copo, mas quando ao fim dos quatro anos de tropa a grande maioria dos camaradas foi de volta para as aldeias, ele, seguro do que tinha aprendido, fez concurso para a Guarda Fiscal. No exame ganhou o primeiro lugar, outra razão de orgulho. Mas doeu-lhe que em vez de o deixarem ficar na cidade que tanto lhe agradava, o mandassem desterrado ganhar prática em Esmoriz, uma aldeia na costa. Duas ruas de casebres. Barcos frágeis encalhados na areia. Redes estendidas sobre varais à espera de remendo. Pescadores tão pobres que no Inverno, quando o mar embravecia, ficavam sem sustento e iam a pedir esmola por longe. Vinte e cinco anos, chefe de posto. O prédio ainda lá está. Embora pequeno, era de cantaria, uma imponência entre as choupanas de madeira. Bandeira desfraldada, o distintivo e as letras douradas sobre a porta. Sentado a uma escrivaninha de pinho, ou fazendo as suas rondas, o jovem Zé Maria comandava aí quatro homens que patrulhavam a beira-mar e de madrugada apareciam na lota a recolher o imposto sobre o pescado. O comandante, que própria e alheia conhecera a miséria de perto dizia-lhes que de vez em quando fechassem os olhos, não fossem severos no peso do peixe. Recomendação supérflua. Esse era o costume, e quando a pesca rendia os pescadores não esqueciam o favor, pelo que nunca nas casas da autoridade faltava a sardinha ou a faneca, os camarões do mar próximo, o polvo que vivia agarrado aos penedos, as raias e os congros que eles iam buscar às águas longínquas donde se não via a costa. Em 1886, casado havia ano e pouco com Maria dos Santos, uma rapariga de Estevais, assistiu com ela no Porto aos grandes festejos da inauguração da ponte de D. Luís. Como era a vida nesse tempo? No comboio que nos levava a ambos de viagem para ir a aldeia, minha avó olhou-me surpreendida. Precoce, pouco mais fazendo que ler, aos oito ou nove anos as minhas frases ganhavam por vezes uma seriedade adulta. A vida era boa, respondeu ela, com uma expressão melancólica que recordo bem. Às vezes pesada, mas ia-se aguentando. Palavras de conforto para não magoar a inocência da criança que ela me julgava e eu no corpo ainda era. Mas só no corpo, porque a cabeça, essa, pelas razões misteriosas que as circunstâncias do viver engendram, funcionava acelerada e já pouco tinha de infantil. O mundo entrava-me em catadupas para o cérebro e cada cena, cada conversa, por vezes uma simples observação, bastava para que numa torrente de sentimentos se me revelassem episódios inteiros das existências que me rodeavam. A avó tinha mentido por caridade. Acabada de casar, longe do conchego da família e da aldeia, para a rapariguinha que nunca tinha conhecido mais que as ladeiras em redor, e alguma ida a Mogadouro para a feira de ano, a vida não seria leve. Criada na serenidade da montanha, nunca ela se habituou ao marulhar das ondas, à ventania constante, à areia onde se caminhava a cambalear. Mais tarde, contando o passado, diria muitas vezes que a saudade e a tristeza é que lhe tinham feito perder o primeiro filho, uma menina que só viveu horas. Mas, maior sombra que o afastamento da casa paterna, lhe causavam por certo as aventuras do homem que ela, naquele tempo de submissão, tinha de aceitar calada, fingindo não ver. Porque, infelizmente, de namorador Zé Maria passara a galaroz. Figura desempenada, ar marcial, a autoridade de comandante e o poder que lhe dava a lei sobre aquela gente pobre, as mulheres corriam para ele como moscas para o mel. Não ficaram detalhes nem provas, só murmúrios, retalhos de conversas ouvidas por acaso e que findavam súbitas ao eu chegar, mas de vez em quando uma ou outra fatalmente emprenhava e pelas aldeias da costa há-de haver mais de um ignorado tio meu. Contudo, as aventuras, discretas bastante para nunca ser apanhado em flagrante, devem ter sido para ele apenas um passatempo. Paixão funda só a tinha pelo estudo e pela leitura. Jornais, livros, os panfletos que os partidos distribuíam aos milhares, devorava-os ele como se, juntamente com a sua, tivesse de saciar também a fome de saber dos antepassados que o destino fizera nascer e viver no negrume da ignorância. Zé Maria lia, relia, decorava». In José Rentes de Carvalho, Ernestina, 2001, Quetzal Editores, Lisboa, 2009, 2014, ISBN 978-989-722-171-2.
Cortesia de QuetzalE/JDACT