quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Mil Dias na Toscânia. Marlena Blasi. «Deixamos Veneza para trás sob a luz pálida e violácea da aurora e seguimos os quatro albaneses amontoados no grande caminhão azul da Gondrand que transportava todos os nossos bens materiais»


Cortesia de wukupedia e jdact

«(…) Ainda sem ter tomado banho depois da viagem da manhã e do trabalho da tarde, estou feliz e salgada como as flores de abobrinha que ofereço às pessoas, que as aceitam sem cerimónia. Sinto a mesma familiaridade à medida que cada um sorri ou me dá um tapinha nas costas, dizendo grazie, bella, obrigado, minha linda, como se eu tivesse lhes servido flores de abobrinha quentes e crocantes a vida toda. Gosto disso. Por um instante, penso em sair correndo com a cesta para um canto escuro da piazza para devorar eu mesma as flores restantes, os olhos semicerrados num êxtase sensual em meio às sombras. Mas não faço isso. Algumas pessoas não conseguem esperar que eu chegue até elas e se aproximam, pegam uma flor enquanto tomam um gole de vinho ou falam com alguém olhando para trás. As pessoas estão se reunindo à minha volta, aves de rapina que só param de dar os seus rasantes quando sobram apenas migalhas crocantes e ainda quentes, as quais recolho com a ponta do dedo antes de levá-lo à boca. Dirijo-me a um pequeno grupo que está elogiando o dono da fazenda onde aquelas delícias foram colhidas pela manhã. Ele diz que haverá mais no dia seguinte, que, se alguém quiser pegar algumas, vai deixar um carregamento de flores na casa de Sérgio às sete horas.
Seguem-se três conversas separadas e simultâneas sobre a melhor maneira de preparar flores de abobrinha. Recheá-las ou não? Recheá-las com mozzarella e anchovas salgadas, recheá-las com uma pequena fatia de ricotta salata, recheá-las com ricota fresca e algumas folhas de manjericão, preparar a mistura para empanar com cerveja ou com vinho branco, acrescentar azeite ou não? E a pergunta mais importante de todas: fritar as flores em óleo de amendoim ou em azeite extra-virgem? Distraída por essas conversas, não ouço alguém me chamando do outro lado da pequena piazza. Chou-Chou, diz Bice, batendo exasperadamente o pé esquerdo na entrada do bar, com outra bandeja sobre os braços esticados. Dessa vez, navegando por entre a multidão com mais agilidade, distribuo as flores fumegantes em tempo recorde. Embora eu não tenha sido apresentada à maioria daquelas pessoas, todas parecem saber que Fernando e eu acabamos de nos mudar para a casa dos Lucci, descendo a colina. Essa informação é apenas um primeiro indício da eficiência do sistema de comunicação interna do vilarejo, activado, sem dúvida, pelo pequeno batalhão de san cascianesi que se reuniram mais cedo na porta de nossa casa para nos dar as boas-vindas. Uma coisa leva a outra, mas..., como um aperitivo de boas-vindas se transformou num grande jantar e por que estou segurando com tanta força esta bandeja vazia?
Deixamos Veneza para trás sob a luz pálida e violácea da aurora e seguimos os quatro albaneses amontoados no grande caminhão azul da Gondrand que transportava todos os nossos bens materiais. Estamos nos mudando para a Toscana. A 11 quilómetros do nosso destino, um grupo de elegantes carabinieri usando botas altas e carregando metralhadoras automáticas fez nosso pequeno comboio parar no entroncamento com a estrada 321. Fomos detidos, interrogados e revistados durante quase duas horas. Dois dos quatro albaneses, sem documentos, foram presos. Dissemos à polícia militar que estávamos nos mudando para uma das casas de fazenda dos Lucci e que precisaríamos da ajuda, e da força, de todos os quatro. Eles entraram na sua van e falaram pelo rádio. Ficaram muito tempo lá dentro. Quando saíram do veículo, conversaram mais uma vez, no acostamento. Alguns dizem que os carabinieri são escolhidos por causa de sua beleza física, que eles representam a glória do Estado italiano. Aqueles policiais certamente faziam jus a essas afirmações; as suas sobrancelhas escuras e olhos claros foram uma distracção estética durante a espera. Finalmente, um deles disse: muito bem, mas é nosso dever acompanhá-los.
Formando agora uma carreata mais grandiosa, despertámos a desconfiança dos poucos veículos de fazenda com que cruzamos até o grande caminhão azul e o furgão da polícia pararem atrás do nosso velho BMW no quintal da casa. Mãos à obra. Fizemos um acordo bastante claro com a signora Lucci de que a casa estaria limpa e vazia. Mas ela não está nem uma coisa nem outra. À medida que os albaneses clandestinos começam a trazer os nossos pertences para dentro, peço que os carabinieri me ajudem a levar para fora os presentes de boas-vindas da signora, todos inegavelmente sob a forma de lixo: armários com portas amassadas, mesas e cadeiras que, para ficarem em pé, estão engenhosamente apoiadas umas nas outras. Há seis beliches. Deixamos tudo no celeiro. No nosso quarto, estou tirando o pó de uma bela gravura de uma estradinha ladeada por ciprestes com uma moldura de cobre batido. O quadro balança na sua alça de arame e atrás dele descubro um cofre embutido na parede. Esta casa, um estábulo que mal foi restaurado, sem aquecimento central, sem telefone e com uma instalação elétrica que não é suficiente nem para um eremita cego, tem um cofre. E não é um daqueles pequenos, encontrados em quartos de hotel, mas um objecto grandioso, de aparência formal, com duas fechaduras e um relógio. Chamo Fernando para dar uma olhada. Obviamente é novo, algo que os Lucci instalaram durante a reforma. Acho que não devemos usá-lo, diz Fernando. Mas para que eles precisariam de um cofre aqui? Um na vila onde moram não seria suficiente? Acho que deve ser para uso dos inquilinos. Vamos ver se conseguimos abri-lo». In Marlena Blasi, Mil Dias na Toscânia, 2004, Editora Sextante, 2011, ISBN 978-857-542-650-0.

Cortesia de ESextante/JDACT

A Escolha de Yasmeena. Jean Sasson. «Depois de entrar na cela, o homem enfiou a chave no bolso da calça antes de tentar sentar-se com as pernas cruzadas sobre o fino colchão abandonado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Não há vencedores no inferno. Mesmo vencendo, você perde. Dá tudo na mesma. Você está no inferno. Quando Yasmeena foi escolhida pelo capitão, ela sabia que não ganhara um prêmio. Ganhara um lugar num inferno feito pelos homens. Por diversos e longos momentos, ela espreitava cuidadosamente por entre as barras da sua cela. Não via ninguém, apesar de escutar o ruído abafado de vozes masculinas e femininas. Finalmente, sentou-se no fino colchão colocado no centro da cela mal iluminada. Olhava para o vazio, com rosto imóvel e mente activa, imaginando como poderia sair do inferno. Pressentia que sofreria horrivelmente nas mãos do homem que a havia reclamado como sua, caso não conseguisse escapar. O aterrorizante pesadelo de Yasmeena tornou-se subitamente mais real quando o capitão apareceu para tomar o que havia declarado como seu. Ele não olhou para ela quando destrancou a porta da cela. Na verdade, parecia estar com outras coisas na cabeça, talvez a sua família lá no Iraque, ou algum desjejum especial que prepararia no dia seguinte. O comportamento calmo do homem disparou os alarmes da intuição de Yasmeena e ela recuou até ao canto da cela, vagarosa e silenciosamente, como um vigilante treinador de animais, sem querer despertar a atenção da besta que poderia mudar da tranquilidade para uma postura traiçoeira a qualquer instante.
Depois de entrar na cela, o homem enfiou a chave no bolso da calça antes de tentar sentar-se com as pernas cruzadas sobre o fino colchão abandonado por Yasmeena momentos antes. Quando finalmente olhou para ela, a ausência de sentimentos humanos nos seus olhos acentuou o medo crescente. Ele finalmente falou, de forma suave, com voz seca e sem emoção, ordenando calmamente: dispa-se… Yasmeena enrijeceu. Apesar de ter 23 anos, era virgem. Jamais havia beijado um homem, apesar de, certa vez, ter permitido que um belo homem que conhecera em Paris segurasse a sua mão. A voz grave do soldado era baixa e calma, com ligeiras hesitações suavizando os seus modos. A voz gentil parecia fazer dele uma pessoa suave, mas Yasmeena sabia que a voz era uma fachada. Ele tossiu e pigarreou, voltando-se para cuspir num canto: um homem a quem jamais haviam ensinado boas maneiras. Então, com aquela mesma voz calma, ele lançou uma mensagem mais alarmante: tire tudo ou mando os meus homens despirem você. E isso não será muito agradável, minha querida.
Yasmeena conseguiu unir forças para usar a voz, apesar de sair falhada e apenas um pouco mais audível do que um sussurro. Por favor, não faça isso. Eu sou árabe. Você é árabe. Eu sou muçulmana. Você é muçulmano. Por favor, não faça isso. Ele a olhou calmamente, como se ela não houvesse dito nada importante, talvez algo trivial, como preferir ovos cozidos em vez de mexidos. O seu tom ficou mais duro quando ordenou: tire as suas roupas. Todas. Quero vê-la. Por favor. Pense na sua irmã ou na sua mãe. Você não iria querer que isso acontecesse com elas. Por favor. Não. Nenhum de seus argumentos conseguiu comovê-lo. Ele permanecia distante e inabalado pelos aterrorizados pedidos. O seu rosto impassível estava talhado em granito, e ele disse: então, vai ser assim. Nesse momento, ele avançou até ela. Um passo largo bastou para que ele a agarrasse pelo pescoço com força, usando a outra mão para arrancar as roupas, até deixá-la nua, sem se importar em fazer isso com delicadeza, rasgando-as». In Jean Sasson, A Escolha de Yasmeena, Edições ASA, 2014, ISBN 978-989-232-798-3.

Cortesia de EASA/JDACT

terça-feira, 15 de outubro de 2019

A Chave para Rebecca. Ken Follett. «Finalmente, o sol começou a pôr-se. O homem contemplou a carga que o camelo levava, perguntando-se quanto poderia carregar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Tobruk
«O último camelo desabou ao meio-dia. Era o macho branco de cinco anos comprado em Gialo, a mais jovem e forte das três bestas e que não tinha tão mau génio. Gostava do animal tanto quanto um homem pode gostar de um camelo, o que equivale a dizer que só o odiava um pouco. Subiram a sotavento uma colina pequena, marcando, homem e camelo, grandes e lerdas pisadas na areia instável. No cume se detiveram. Olharam adiante e só viram outra colina, e depois dessa, mil mais. Foi como se o camelo houvesse perdido a esperança. Em primeiro lugar as suas patas dianteiras se dobraram; depois baixou os quartos traseiros, e assim ficou, no alto da colina, como um monumento olhando fixamente para o deserto vazio com a indiferença dos moribundos. O homem tirou a rédea. A cabeça do camelo adiantou-se e o pescoço se estirou, mas o animal não se levantou. O homem se aproximou dele pelas costas e, com todas as suas forças, deu-lhe três ou quatro pontapés nas ancas. Finalmente, pegou numa faca de beduíno, curva e de ponta aguda, afiada como uma navalha, e com ela lhe feriu na anca. O sangue fluiu, porém o camelo nem sequer olhou para trás.
O homem compreendeu o que ocorria. Os músculos do animal, privados de alimento, simplesmente haviam deixado de funcionar, como uma máquina sem combustível. Havia visto camelos desabarem como este, nos arredores de um oásis, rodeados de uma folhagem vivificante da qual não ligavam, carentes de energia para comer. Podia ter tentado mais dois truques. Um era verter água no nariz do animal, até que começasse a se afogar. O outro consistia em acender fogo debaixo dos seus quartos traseiros. Porém, não podia desperdiçar água para o primeiro, nem lenha para o segundo, e, por outro lado, nenhum dos dois métodos oferecia grandes possibilidades de êxito. De qualquer maneira, era hora de parar. O sol estava alto e ardia. Logo começaria o longo Verão do Saara e a temperatura chegaria, ao meio-dia, a quarenta e três graus à sombra.
Sem descarregar o camelo, o homem abriu uma das suas bolsas e tirou a sua tenda. Olhou de novo ao redor, mecanicamente: não havia sombra nem abrigo à vista; nenhum lugar era pior que qualquer outro. Montou a tenda junto ao camelo moribundo, ali, no cume da colina. O homem sentou-se com as pernas cruzadas na entrada da tenda, para preparar o chá. Alisou a areia num quadrado pequeno, colocou uns poucos e preciosos galhinhos secos em forma de pirâmide e acendeu o fogo. Quando a água da pequena chaleira ferveu, preparou o chá ao estilo nómada, passando-o da chaleira à xícara, agregando-lhe açúcar, logo voltando a jogá-lo na chaleira, e assim várias vezes. A infusão resultante, muito forte e bastante melosa, era a bebida mais tonificante do mundo. Mastigou algumas tâmaras e contemplou a morte do camelo enquanto esperava que o sol começasse a declinar. A sua calma era fruto da experiência. Havia feito uma longa viagem por aquele deserto, mais de mil e seiscentos quilómetros. Dois meses antes havia partido do Ágela, sobre a costa mediterrânea da Líbia, e viajado rumo ao sul percorrendo oitocentos quilómetros, via Gialo e Kufra, para o vazio coração do Saara. Depois havia virado para o leste, cruzando a fronteira do Egipto, sem ser visto por homem ou animal algum. Havia atravessado o páramo rochoso do deserto Ocidental e seguido rumo norte, perto de Kharga; já não estava longe do seu destino. Conhecia o deserto mas o temia. Todo o homem inteligente o temia, inclusive os nómadas, que passavam ali toda a sua vida. Contudo nunca permitiu que o medo o dominasse e o fizesse cair presa do pânico, que esgotava as energias do sistema nervoso. Sempre havia catástrofes: erros de orientação que desviavam o rumo dois ou três quilómetros e impediam de encontrar um poço de água; cantis que gotejavam ou arrebentavam; camelos aparentemente saudáveis que adoeciam depois de alguns dias de caminho. O único remédio era dizer Inshallah: é a vontade de Deus.
Finalmente, o sol começou a pôr-se. O homem contemplou a carga que o camelo levava, perguntando-se quanto poderia carregar. Havia três pequenas maletas europeias, duas pesadas e uma leve, todas importantes; um saco pequeno com roupas, um sextante, os mapas, a comida e o cantil. Era muito: teria que abandonar a tenda, o jogo de chá, a panela, o almanaque e a sela. Fez um pacote com as três maletas e por cima atou a roupa, a comida e o sextante prendendo tudo com um pedaço de tecido. Pôde passar os braços debaixo das faixas de pano e colocar o pacote nas costas como uma mochila. Pendurou o cantil de pele de cabra no pescoço, e diante dele». In Ken Follett, A Chave Para Rebecca, 1980, Bertrand Editora, 2010, ISBN 978-972-252-097-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Casa Senhorial do Infante D. Luís (1506-1555). Hélder Carvalhal. «… depreende que a percentagem respectiva ao assentamento de Luís deveria andar entre os 10% e os 20%, o que confirma a dificuldade extrema em estimar uma renda total a partir do assentamento doado pela Coroa»

Cortesia de wikipedia e jdact

O ducado de Beja: uma reordenação do poder?
«(…) Os exemplos aqui explanados, exceptuando o caso de Jorge, cuja acumulação de direitos e mercês régias, à custa das vicissitudes inerentes ao reinado de João II (morte do seu filho legítimo Afonso e consequente concentração de benesses neste seu filho bastardo), forma um caso incomum na primeira metade de Quinhentos, espelham percentagens extremamente baixas no que toca à importância dos assentamentos em função do rendimento geral destas casas aristocráticas, sendo que estes nunca excedem, grosso modo, os 5%. Já em 1525, o infante Luís detinha um assentamento régio anual de quase 2.000.000 de reais. Embora não se comparasse aos montantes homólogos das rainhas dona Catarina e dona Leonor (irmã de dona Manuel I, ainda viva, à época), tal quantia era adequada ao estatuto que detinha na família real, tanto como herdeiro presuntivo ao trono, à falta de descendência legítima de seu irmão, João III, algo que aconteceu por duas vezes entre 1521 e 1527, ou mesmo pelo desempenho formal de um dos cargos mais importantes do Reino, o de Condestável, que só lhe é confirmado em 1527, não obstante o exercer simbolicamente desde pelo menos a aclamação de D. João III, visto que, vinte anos antes, Manuel I doava anualmente 2 contos (2.000.000 reais) para a mantença do então Condestável, o seu sobrinho Afonso de Viseu.
Caso o assentamento de Luís significasse 5% do seu rendimento total, este então seria de 38 contos (38.000.000 reais), algo irrealista visto que não se encontra minimamente equilibrado com os réditos gerais das outras casas ducais portuguesas (Bragança e Coimbra). Para além disso, seria muito superior ao rendimento total do próprio Manuel enquanto duque de Beja (27.000.000 reais). Portanto, facilmente daqui se depreende que a percentagem respectiva ao assentamento de Luís deveria andar entre os 10% e os 20%, o que confirma a dificuldade extrema em estimar uma renda total a partir do assentamento doado pela Coroa.

Dimensão e composição da estrutura curial
Decorrente do aumento espacial das suas jurisdições e aliado às necessidades que tais estruturas administrativas implicavam, a família (o conceito de família aqui usado abrange não só aqueles que possuem um grau de parentesco com o senhor em questão, mas igualmente toda uma gama de indivíduos relacionados com a administração e serviço doméstico da casa.) do infante Luís aumentou progressivamente desde a implementação do ducado até à morte deste titular, transitando a maior parte dos seus clientes para a esfera da Casa Real após esta data. Com efeito, os livros de moradores que chegaram ao presente revelam uma criadagem que andaria por volta de 500 indivíduos na segunda metade da década de 1530, sendo que este número compreende já uma soma superior às seis centenas em 1555, ano em que o infante Luís falece e a grande maioria dos seus criados requere filiação na Casa Real.
Era, portanto, a casa senhorial portuguesa com maior número de dependentes durante a primeira metade de Quinhentos, ultrapassando as restantes casas aparentadas directamente com a Coroa (casos do senhorio do infante Fernando ou do infante Duarte) ou mesmo as pertencentes à mais alta fidalguia do Reino (exemplo da Casa de Bragança e seu titular, Teodósio I). Enquadrando estes valores na escala das casas nobiliárquicas europeias, à época, diga-se que o número de dependentes do infante Luís é comparável, senão superior, ao das maiores casas reais europeias, incluindo as cúrias de membros da família real francesa e as casas condais inglesas de meados do século XV, apenas sendo superada em alguns casos pelas cúrias espanholas, como é o caso do ducado de Medinaceli ao sustentar 700 criados no último quartel do século XVII». In Hélder Carvalhal, A Casa Senhorial do Infante D. Luís (1506-1555), Dinâmicas de construção e consolidação de um senhorio quinhentista, Revista 7 Mares, Nº 4, Dossié, Junho de 2014, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A Casa Senhorial do Infante D. Luís (1506-1555). Hélder Carvalhal. «Desta maneira, sabe-se que o assentamento dado a membros da Casa de Bragança (inclui-se aqui o duque Jaime, a duquesa e o então duque de Guimarães, Teodósio), por volta de 1527, constituía 3,7% …»

Cortesia de wikipedia e jdact

O ducado de Beja: uma reordenação do poder?
«(…) Outro ponto de interesse que convém aqui realçar prende-se com a nomeação de oficiais, competência onde o infante protagoniza um papel amplo, já que lhe é consagrado o direito de nomear todos os ofícios para os referidos lugares e vilas (incluindo cargos militares como alcaide-mor ou cargos do foro judicial como ouvidores ou juízes), bem como para os padroados das igrejas situadas nestes territórios, tendo apenas que respeitar os indivíduos que, ao momento, exerciam funções por investidura anterior do monarca.
Voltando à questão dos rendimentos que estes senhores poderiam auferir, diga-se que as rendas oriundas das jurisdições afectas a este príncipe constituíam apenas uma parte dos ingressos na fazenda senhorial, sendo que uma boa porção era oriunda das tenças e assentamentos que o monarca anualmente conferia aos membros da família real. Com efeito, o volume significativo destes montantes chegava por vezes a representar um valor superior a um quinto do total de despesas da Casa Real. No que diz respeito ao infante Luís, o seu assentamento anual cresceu de 1.900.000 reais, em 1527, para 6.966.700 reais em 1534, recebendo por volta de 1552 uma soma cifrada nos 8.299.033 reais. O aumento destas verbas pode ser explicado pela hierarquia que o infante Luís ocupava no seio da família régia, em cada um dos contextos em que estes montantes foram atribuídos. Assim se explica que a sua dotação em 1527 fosse superior à do infante Fernando (970.000 reais), mas inferior à da Excelente Senhora (1.570.000 reais) e à da rainha dona Catarina (4.000.000 reais).
Aplicando o mesmo princípio aos rendimentos totais destes indivíduos, afigura-se como possível a tentativa de estimar uma ordem de grandeza plausível aproximada aos montantes do rendimento anual total do infante Luís, comparando-o com os casos coevos que mais dados providenciam. Tome-se como exemplo, a renda de Jorge, duque de Coimbra e Mestre das Ordens de Avis e Santiago, estudado por João Cordeiro Pereira. Segundo este autor, o rendimento total deste príncipe ascenderia quase a 11 contos (11.000.000 reais), contribuindo para este montante as rendas do mestrado de Santiago (3.992.000 reais), as rendas da Ordem de Avis (3.882.000 reais), o rendimento do ducado de Coimbra (1.520.000 reais) e, por fim, o assentamento régio anual de 1.579.768 reais.
Analisando estes montantes de modo proporcional, repara-se que o dito assentamento representava 14,4% do rendimento total do duque de Coimbra, Jorge. Dada esta proporção, existe uma questão a colocar. Será que pela análise aos restantes assentamentos de membros da alta nobreza é possível estabelecer um padrão hierárquico com vista à estimativa das rendas totais em função do estatuto do titular? À partida, esta indagação pode parecer demasiado ambiciosa, tendo em conta o grande volume de rendas que são contabilizadas e a própria natureza das mesmas, cuja heterogeneidade é atestada pela alta disparidade dos réditos relativos aos domínios fundiários, aos padroados eclesiásticos e a toda uma gama de jurisdições e direitos sobre os meios de produção. Do mesmo modo, o facto de o assentamento dos condes (maior número de titulares que recebiam esta mercê, por parte da Coroa) apenas ter sido uniformizado em 1556, levanta dúvidas legítimas sobre a exequibilidade deste raciocínio. Não obstante, vale a pena levar a cabo este exercício, pois caso exista um padrão intencional de atribuição dos assentamentos face às rendas de cada titular da alta nobreza, sujeito à política régia e ainda que não regulamentado, de forma declarada, será possível uma extrapolação, para o caso do infante Luís, com base no assentamento que a Coroa anualmente lhe conferia.
Desta maneira, sabe-se que o assentamento dado a membros da Casa de Bragança (inclui-se aqui o duque Jaime, a duquesa e o então duque de Guimarães, Teodósio), por volta de 1527, constituía 3,7% do rendimento total da Casa de Bragança. O caso de Francisco Coutinho, conde de Marialva, por volta deste período, era de 102.873 reais, representando 2,15% da renda total do mesmo, ao passo que o assentamento dado ao conde de Penela (140.000 reais) não ultrapassava os 4,37% do seu rendimento anual». In Hélder Carvalhal, A Casa Senhorial do Infante D. Luís (1506-1555), Dinâmicas de construção e consolidação de um senhorio quinhentista, Revista 7 Mares, Nº 4, Dossié, Junho de 2014, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Al-Uryani, Abu Yafar (século XII). Camponês, natural de Loulé, não sabia ler nem escrever mas foi o primeiro…»

jdact

Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Abu Mohammad Ibn Sara Assantarini (o santareno) (+1123) comparava os relâmpagos a um abissínio que ri com as suas lágrimas. Cantou o papeleiro, a laranjeira, a beringela, o tanque com tartarugas que lembravam soldados cristãos com os seus escudos de alce. Cantou a estrela cadente, cavaleiro a quem, na rapidez do galope, se lhe desatasse o turbante/ e o arrastasse atrás de si como um véu que flutua.
Uma ética hedonista e céptica transparece nalguns versos, por exemplo no Poema da Serra Nevada:

Quando sobre a vossa terra sopra o vento norte
que felicidade para um pobre pecador
gozar as fornalhas do inferno…

Se um dia entrar nos tormentos do inferno
será num dia tão rigoroso
em que até o inferno há-de ser bom.

Ou no claro poema:

Quando me visitou senti desejo de beijá-lo
e duas vezes o beijei em cada face.

Disse depois: por favor, deixa que beije
a tua boca
prefiro as brancas margaridas às rosas vermelhas.

Noutro poema tomou o amor udri como companheiro e afirmava que a castidade é virtude/ quando aquele que a observa/ tem a plenitude física. E apontava como guia da acção o binómio facto-consequência. O sul de Portugal foi terra de sufis, os místicos muçulmanos. Ibn Kasi, Abu 1-Kasim Ahmad b. Husayn (+1152). De origem moçárabe nasceu no termo de Silves. Durante a mocidade só pensou nos prazeres do mundo. Depois abraçou a vida ascética. Deu em esmola os seus bens e percorreu o Andaluz a pregar o desprezo pelos bens deste mundo. Em Almeria conheceu o sufi Ibn Al-Arif (+Marraquexe 1141) quando este embarcava para Marrocos.
Regressado à aldeia natal dedicou-se à leitura dos livros de Al-Gazallí espalhando as suas doutrinas. Em breve tomou o título de mahdi (o imã encoberto). Perseguido, conseguiu escapar mas alguns dos seus seguidores foram presos pelos almorávidas em Sevilha. Em 539, os seus seguidores, os muridun (os adeptos, aspirantes à vida mística) assenhorearam-se da praça forte de Mértola. Évora, Silves, Beja, Huelva e Niebla apoiaram o mahdi. Mais tarde, Ibn Wazir, senhor de Évora e Beja e a seguir de Badajoz e a quem os lisboetas cercados pediram auxílio em 1147, subleva-se contra Ibn Kasi que se dirige a África a incitar o desembarque dos almóadas. Regressa com o exército africano e torna-se governador de Silves.
Pouco depois quer sacudir o domínio dos almóadas e pede auxílio a Afonso Henriques que lhe manda um cavalo, um escudo e uma lança. Descontentes, os habitantes de Silves usam um ardil para entrar no Alcácer das Varandas. Entrados, cortam a cabeça do sufi e exibem-na na ponta de uma lança: eis aqui o mahdi dos cristãos!
Escreveu o livro Os dois Sapatos Descalços de que existe um manuscrito na biblioteca de Constantinopla. Segundo os seus detractores, afirmava que fizera a peregrinação a Meca durante uma noite; transmitia mentalmente o pensamento; gastava dinheiro do tesouro de Deus, só que este dinheiro levava o cunho dos almorávidas.
Al-Uryani, Abu Yafar (século XII). Camponês, natural de Loulé, não sabia ler nem escrever mas foi o primeiro e um dos mais importantes mestres de Ibn Al-Arabi em Sevilha. Quando falava da ciência da unificação, não havia outra coisa a fazer senão ouvir. Com a sua só intenção fixava as ideias como se as consignara por escrito e com a sua palavra punha a descoberto a realidade positiva dos seres. Dedicava o tempo à oração mental, previamente purificado pela ablução ritual e voltado para Meca». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

A Canção de Aquiles. Madeline Miller. «Não respondi à notícia do meu pai. Aquilo não tinha nenhum significado para mim. Meu pai limpou a garganta e rompeu o silêncio da sala: faremos bem em tê-la na família»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Afora isso, só me ocorrem imagens dispersas daquele tempo: meu pai sentado no trono, com olhar carrancudo, um engenhoso cavalinho de brinquedo do qual eu gostava muito, minha mãe na praia contemplando o Egeu. Nessa última lembrança, estou atirando seixos à superfície da água, plaf, plaf, plaf. Ela parece gostar do modo como as ondas se encrespam e em seguida desaparecem. Ou talvez goste do próprio mar. Na sua têmpora, vê-se uma mancha em forma de estrela, branca como marfim, a cicatriz da época em que seu pai a golpeou com o punho da espada. Seus pés vão deixando pegadas na areia, e procuro não desfazê-las enquanto apanho pedras. Escolho uma e atiro-a, contente por saber fazer isso muito bem. É a única lembrança que conservo da minha mãe e é tão bela que quase tenho certeza de tê-la forjado. Afinal, é pouco provável que meu pai nos permitisse ficar juntos a sós, o filho imbecil e a esposa palerma. E onde teria sido? Não reconheço a praia, o litoral. Muita coisa aconteceu desde então.

Fui chamado pelo rei. Lembro-me de ter odiado aquilo, a longa caminhada até à sala do trono. Ao chegar lá, ajoelhei-me no chão de pedra. Alguns reis costumavam mandar estender tapetes diante do trono para os mensageiros que ali precisavam ficar muito tempo transmitindo as suas notícias. Meu pai não. A filha do rei Tíndaro finalmente está pronta para o casamento, anunciou ele. Eu conhecia aquele nome. Tíndaro era rei de Esparta e possuía vastas extensões de terra fértil no sul, do tipo que meu pai cobiçava. Ouvira falar também da filha, considerada a mulher mais bela das redondezas. Sua mãe, Leda, teria sido possuída por Zeus, o rei dos deuses em pessoa, disfarçado de cisne. Nove meses depois, saíram do seu ventre dois pares de gémeos: Clitemnestra e Castor, filhos do marido mortal; e Helena e Polideuces, os cisnezinhos divinos. Mas bem se sabe que os deuses são pais avarentos; Tíndaro devia garantir o património de todos.
Não respondi à notícia do meu pai. Aquilo não tinha nenhum significado para mim. Meu pai limpou a garganta e rompeu o silêncio da sala: faremos bem em tê-la na família. Você partirá e se apresentará como pretendente. Não havia mais ninguém por ali e só ele ouviu o meu murmúrio de surpresa. Porém eu não era tão tolo a ponto de dar mostras de descontentamento. Meu pai sabia o que eu poderia dizer: que só tinha 9 anos, que era feio, sem futuro, indiferente. Partimos na manhã seguinte, os alforjes repletos de presentes e provisões para a jornada. Soldados nas suas melhores armaduras nos escoltavam. Não me lembro de muita coisa da viagem, foi por terra, atravessando paisagens que não me deixaram nenhuma impressão. À frente da comitiva, meu pai ia ditando novas ordens aos secretários e mensageiros, que disparavam em todas as direcções. Baixei os olhos para as rédeas de couro de minha montaria, que eu alisava com o polegar. Não entendia bem o que estava fazendo ali. Era uma situação incompreensível, como quase todas as que meu pai provocava. Meu burro balançava e eu balançava com ele, contente por ter pelo menos aquela distracção. Não fomos os primeiros pretendentes a chegar à cidadela de Tíndaro. Os estábulos já estavam cheios de cavalos e mulas, com servos correndo de um lugar para outro. Meu pai não parecia nada contente com a recepção: surpreendi-o, de cenho franzido, esfregando a mão na pedra da lareira do nosso quarto. Eu levara de casa o meu cavalinho de brinquedo, cujas pernas se moviam. Levantei uma pata, depois outra, imaginando que viajara montado nele e não no burro. Um soldado se compadeceu de mim e emprestou-me os seus dados. Fiquei jogando-os ao chão até que apresentaram todos, num só lance, a face de seis». In Madeline Miller, A Canção de Aquiles, 2011 / 2012, Editora Jangada, 2015, ISBN-978-856-485-037-8.

Cortesia de EJangada/JDACT

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Acaso te deixarás conduzir pela tristeza até à morte quando o alaúde e o vinho fresco estão aí à tua espera?»

jdact

Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Um outro texto, Al-Mann Bil-Imama do bejense Ibn Sahib Al-Sala aborda a história dos almóadas e de algum modo um pouco da história política no actual Alentejo e Algarve. Escreveu também o Kitab al-Muridin (Livro dos Adeptos), hoje perdido e que seria indispensável para o estudo do movimento dos muridines no sul do nosso território e no ocidente peninsular.
Os poetas perdem-se como abelhas ao redor do favo do poder. Mas alguns erguem-se a grande altura. Cantam os saraus nocturnos, o vinho, o amor, os jardins, a água, a paisagem humanizada. Aqui e ali ensaiam a especulação filosófica. No século XI sopra uma brisa de audácia e de liberdade com toda a ambiguidade que esta palavra carrega. Almutamide (+1095), natural de Beja, governador de Silves e rei de Sevilha entre 1069 e 1091, rodeou-se de literatos, historiadores, poetas como o seu amigo Ibn Amar, a sua mulher Itimad Romaiquia (ex-escrava de Romaiq) e seu filho Arradi ibn al-Mutamid, governador de Mértola.
A vida do rei poeta originou toda uma epopeia. Na batalha de Zalaca foi ferido seis vezes e não arredou pé até à vitória. Pouco depois, os seus aliados almorávidas, com o favor dos alfaquis de Sevilha, conquistaram a cidade e degolaram-lhe dois filhos à sua vista. A nora Zaida tornou-se concubina de Afonso VI de Leão e de Castela enquanto o filho Arradi era morto à traição pelos almorávidas em Mértola. Almutamide morre cativo em Agmat, no Atlas sobranceiro a Marraquexe. A caminho do desterro escreveu o poema:

Saíram para pedir a chuva e disse-lhes:
Pudessem
as minhas lágrimas substituir a chuva
que reclamais.
Responderam-me: é verdade, nas tuas lágrimas
encontraríamos
o bastante. Mas de que nos serviriam elas
se estão misturadas com sangue?

Noutro dos seus poemas, propõe uma ética dos prazeres, que certamente haveria de chocar os alfaquis, ao mesmo tempo que esclarecia a sua ideia do sábio:

Acaso te deixarás conduzir pela tristeza
até à morte
quando o alaúde e o vinho fresco
estão aí à tua espera?
Que as preocupações não se tornem
senhoras de ti
enquanto a taça for uma espada cintilante
na tua mão.
Conduzir-se como sage é deixar-se assaltar
pelas preocupações até ao mais fundo
de si mesmo:
Ser sage para mim é não ser sage.

Ibn Mucana Alisbuni Alcabdaq (o lisboeta, o de Alcabideche) (+pouco depois de 1068) cantou os bois de lavra, os javalis que assolavam as hortas, as abóboras, as cebolas, os moinhos de vento». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

domingo, 13 de outubro de 2019

A Canção de Aquiles. Madeline Miller. «Meu pai quer que estes sejam os melhores jogos da sua geração. Lembro-me bem dos corredores, os seus corpos bronzeados e besuntados de azeite…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Meu pai era rei e filho de reis. Homem de baixa estatura, como a maioria de nós, mas de ombros imponentes e com a constituição de um touro. Desposou minha mãe quando ela tinha 14 anos e recebera das sacerdotisas a garantia de que seria fértil. Foi um bom arranjo: a noiva não passava de uma criança e a fortuna do seu pai iria para o marido. Ele só descobriu que ela era meio parva no dia do casamento. O pai insistira em manter o seu rosto velado até à cerimónia e o noivo não se importara. Se a esposa fosse feia, sempre haveria escravas e jovens criados. Dizem que minha mãe sorriu quando, por fim, o véu foi retirado. Souberam então que ela era mesmo bastante tola; noivas não sorriem. Quando nasci, um menino, meu pai me tirou dos braços de minha mãe e me entregou a uma ama. A parteira, sentindo pena da minha mãe, deu-lhe um travesseiro para que o envolvesse nos seus braços, já que ela não podia abraçar-me. E minha mãe o abraçou. Ela nem notou a troca que havia sido feita. Logo me tornei uma decepção: pequeno, franzino. Não era esperto. Não era forte. Não sabia cantar. O melhor que se poderia dizer de mim era que tinha saúde. Os resfriados e as cólicas que afligiam as outras crianças não me molestavam. Isso só deixou meu pai ainda mais desconfiado. Seria eu um mutante, uma criatura não humana? Ele me olhava com ar zangado. Minha mão tremia, sentindo o seu olhar. E minha mãe ficava lá, babando vinho sobre si mesma.
Tenho 5 anos, e é a vez de meu pai patrocinar os jogos. Homens vêm de longe, até da Tessália e de Esparta, e os nossos armazéns ficam repletos de ouro. Uma centena de servos trabalha durante vinte dias, preparando a pista de corrida e limpando-a para que fique livre de pedras. Meu pai quer que estes sejam os melhores jogos da sua geração. Lembro-me bem dos corredores, os seus corpos bronzeados e besuntados de azeite, estirando-se ao sol. Misturam-se homens de ombros largos, jovens imberbes e meninos, em cujas panturrilhas se desenham os músculos vigorosos. O touro foi morto, derramando as últimas gotas de sangue na areia e em vasos de bronze escuro. Morreu suavemente, bom augúrio para os jogos que logo começarão.
Os corredores se reúnem diante do trono em que o meu pai e eu nos sentámos, tendo em volta os prémios que serão dados aos vitoriosos. Há taças de ouro para misturar o vinho, trípodes de bronze forjado, lanças de freixo com preciosas pontas de ferro. Porém o prémio de verdade está nas minhas mãos: uma coroa de folhas de louro, recém-colhidas, lustradas pelo meu polegar. Meu pai relutara em deixá-la comigo. Mas tranquilizou-se, pois eu só iria segurá-la. Os mais novos correrão primeiro. Esfregando os pés na areia, eles aguardam o sinal do sacerdote. Ainda estão na primeira fase de crescimento, os seus ossos longos e finos desapontam sob a pele esticada. Meus olhos surpreendem uma cabeça loura no meio de dezenas de cabeleiras negras, desgrenhadas. Inclino-me para ver melhor. O cabelo reluz como mel ao sol e, por entre as mechas, um brilho de ouro, o diadema de um príncipe. É mais baixo que os outros, e o seu corpo, ao contrário do deles, ainda tem os contornos roliços da infância. O cabelo comprido está preso atrás com uma tira de couro, contrastando com a pele nua e escura das costas. Quando ele se vira, percebo que seu rosto é sério como o de um adulto. Depois que o sacerdote golpeia o chão com o ceptro, ele se adianta aos corpos vigorosos dos garotos mais velhos. Move-se com desenvoltura, tem os calcanhares rosados como línguas. Ele vence. Meu pai ergue a coroa do meu colo e coloca-a na cabeça do garoto. As folhas parecem quase negras contra a luminosidade de seus cabelos. O pai do vencedor, Peleu, vem buscá-lo sorridente e orgulhoso. O reino de Peleu é menor que o nosso, mas conta-se que a sua esposa é uma deusa e o povo o ama. Meu pai observa com inveja. A mulher dele é tola, e o filho, lento demais para competir até mesmo no grupo mais jovem. Então ele se vira para mim e diz: é assim que um filho deve ser. Sinto as mãos vazias sem a coroa. Vejo o rei Peleu beijar o seu filho, que atira a coroa para o alto e apanha-a novamente. Está sorrindo, o seu rosto tem o brilho da vitória». In Madeline Miller, A Canção de Aquiles, 2011 / 2012, Editora Jangada, 2015, ISBN-978-856-485-037-8.

Cortesia de EJangada/JDACT

A Cabana. William P. Young. «É claro que as tempestades também interrompem negócios, e, embora umas poucas empresas tenham um ganho extra, outras perdem dinheiro, o que significa que existem os que não sentem júbilo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«[…]
O que acontece é que as coisas que ele diz causam um certo desconforto num mundo onde a maioria das pessoas prefere escutar o que está acostumada a ouvir, o que frequentemente não é grande coisa. Os que o conhecem geralmente gostam muito de Mack, desde que ele mantenha guardados os seus pensamentos. Porque as coisas que Mack diz nem sempre deixam as pessoas muito satisfeitas com elas mesmas. Uma vez Mack me contou que quando era jovem costumava abrir-se com mais liberdade, mas admitiu que a maior parte dessas conversas era um mecanismo de sobrevivência para encobrir as suas feridas. Frequentemente acabava derramando a dor sobre quem estivesse por perto. Disse que tinha prazer em apontar as falhas das pessoas e humilhá-las para manter o seu sentimento de falso poder e controle. Nada muito elogiável. Enquanto escrevo estas palavras, reflicto sobre o Mack que sempre conheci: um sujeito bastante comum e certamente sem nada de especial, a não ser para os que o conhecem de verdade. Vai fazer 56 anos e não chama a atenção, está ligeiramente acima do peso, é meio careca, baixo e branco, uma descrição que serve para muitos homens dessas redondezas. Provavelmente não o notaria numa multidão nem se sentiria incomodado sentado ao seu lado enquanto ele dormitava no comboio que o leva à cidade para a reunião semanal de vendas. Faz a maior parte do seu trabalho num pequeno escritório na sua casa na Wildcat Road, Vende alguma engenhoca de alta tecnologia que eu não pretendo entender: trecos eletrónicos que de algum modo fazem tudo andar mais depressa, como se a vida já não fosse rápida demais. Você só percebe como Mack é inteligente quando, por acaso, escuta diálogo dele com um especialista. Já vivi algumas situações dessas quando a língua falada mal parecia com a nossa e eu me via lutando para captar os conceitos que jorravam como um rio de jóias despencando de uma cachoeira. Ele consegue falar com inteligência sob quase tudo e, apesar da força de suas convicções, Mack tem um modo gentil e respeitoso que deixa manter as suas [...]» In Prefácio

«Duas estradas se bifurcaram no meio da minha vida, ouvi um sábio dizer. Peguei a estrada menos usada. E isso fez toda a diferença cada noite e cada dia. Março desatou uma torrente de chuvas depois de um Inverno de secura anormal. Uma frente fria desceu do Canadá e foi contida por rajadas de vento que rugiam pelo desfiladeiro, vindas do leste do Oregon. Ainda que a Primavera certamente estivesse logo ali, depois da esquina, o deus do Inverno não iria abandonar sem luta o seu domínio conquistado com dificuldade. Havia um cobertor de neve recente nas Cascades, e agora a chuva congelava ao bater no chão do lado de fora da casa. Motivo suficiente para Mack se enroscar com um livro e uma sidra quente, aconchegando-se no calor do fogo que estalava na lareira. Mas, em vez disso, ele passou a maior parte da manhã no computador. Sentado confortavelmente no escritório de casa, usando calças de pijama e uma camiseta, ele deu telefonemas de vendas. Parava com frequência, ouvindo o som da chuva cristalina tilintar na janela e vendo o acúmulo vagaroso mas constante do gelo lá fora. Estava tornando inexoravelmente prisioneiro do gelo na sua própria casa, e com muito prazer. Há algo agradável nas tempestades que interrompem a rotina. A neve ou a chuva gélida nos liberam subitamente das expectativas, das exigências de resultados e da tirania dos compromissos e dos horários. Ao contrário da doença, esta é uma experiência mais colectiva do que individual. Quase podemos ouvir um suspiro de alívio erguer-se em uníssono na cidade próxima e no campo, onde a natureza interveio para dar uma folga aos exaustos seres humanos. Todos os afectados pela tempestade são unidos por uma desculpa mútua. De súbito e inesperadamente o coração fica um pouco mais leve. Não serão necessárias desculpas por não comparecer a algum compromisso. Todos entendem e compartilham a mesma justificativa, e a retirada súbita de qualquer pressão alegra a alma.
É claro que as tempestades também interrompem negócios, e, embora umas poucas empresas tenham um ganho extra, outras perdem dinheiro, o que significa que existem os que não sentem júbilo quando tudo fecha temporariamente. Mas é impossível culpar alguém pela perda de produção ou por não conseguir chegar ao escritório. Mesmo que a situação só dure um ou dois dias, de algum modo cada pessoa se sente dona do seu mundo simplesmente porque aquelas gotinhas de água congelam ao bater no chão. Até as actividades comuns se tornam extraordinárias. Acções rotineiras se transformam em aventuras e frequentemente são vivenciadas com maior clareza. No fim da tarde, Mack se encheu de agasalhos e saiu para lutar com os quase 100 metros da comprida entrada de veículos que vai até à caixa de correio. O gelo havia convertido magicamente essa tarefa simples do dia-a-dia numa batalha contra os elementos: levantou o punho em contestação à força bruta da natureza e, num acto de desafio, riu na cara dela. O facto de que ninguém notaria nem se incomodaria com o seu gesto pouco importava para ele, só o pensamento o fez rir por dentro». In William Paul Young, A Cabana, 2007, Porto Editora, 2009, 2018, ISBN 978-972-004-178-4.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

A Cabana. William P. Young. «Pelo pouco que Mack me contou, sei que o seu pai não era o tipo de alcoólatra que cai num sono rápido e feliz, e sim um bêbado perverso que batia na mulher…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Quem não duvidaria ao ouvir um homem afirmar que passou um fim de semana inteiro com Deus e, ainda mais, numa cabana? Principalmente naquela cabana. Conheço Mack há pouco mais de 20 anos, desde o dia em que nós dois fomos à casa de um vizinho para ajudá-lo a enfardar feno para as suas poucas vacas. A partir de então nós estávamos compartilhando um café, ou, para mim, um chá tailandês superquente, com soja. As nossas conversas nos dão um gosto profundo e são sempre salpicadas de muito riso e de vez em quando de uma ou duas lágrimas. Francamente, quanto mais velhos ficamos, mais nós nos damos bem, se é que me entende. O nome completo dele é Mackenzie Allen Phillips, mas a maioria das pessoas chama-o de Allen. É uma tradição de família: todos os homens têm o primeiro nome igual, mas são conhecidos pelo nome do meio, provavelmente para evitar a ostentação do I, II e III ou Júnior e Sénior. Assim, ele, o avô, o pai e agora o filho mais velho têm o nome de Mackenzie, mas só Nan, a mulher dele, e os amigos íntimos o chamam de Mack. Ele nasceu numa fazenda do Meio-Oeste, numa família irlandesa-americana de mãos calejadas e regras rigorosas. Ainda que aparentemente religioso e exageradamente rígido,o seu pai bebia muito, sobretudo quando a chuva não vinha ou quando vinha cedo demais, e quase sempre entre uma coisa e outra. Mack nunca fala muito sobre o pai, mas quando o menciona a emoção abandona o seu rosto, como se fosse uma maré vazante, deixando seus olhos sombrios e sem vida. Pelo pouco que Mack me contou, sei que o seu pai não era o tipo de alcoólatra que cai num sono rápido e feliz, e sim um bêbado perverso que batia na mulher e depois pedia perdão a Deus. A coisa, chegou a tal ponto que, aos 13 anos e com certa relutância, Mack abriu o coração para um líder da igreja durante um encontro de jovens. Dominado pelo clima do momento, Mack confessou chorando que nunca fizera nada para ajudar a mãe nas várias vezes em que testemunhara o pai bêbado lhe dar uma surra até deixá-la inconsciente. O que Mack não pensou foi que o seu confessor frequentava a mesma igreja que o seu pai. Quando chegou em casa, o pai esperava-o na varanda e a mãe e as irmãs não estavam. Mais tarde, Mack ficou sabendo que elas tinham sido mandadas à casa da tia May para que o pai pudesse ter liberdade para dar ao filho rebelde uma lição inesquecível. Durante quase dois dias, amarrado ao grande carvalho nos fundos da casa, ele foi castigado com um cinto e com versículos da Bíblia todas as vezes que o pai acordava da sua bebedeira e largava a garrafa. Duas semanas depois, quando enfim conseguiu ficar em pé, Mack simplesmente se levantou e foi embora de casa. Mas antes de partir colocou veneno de rato em cada garrafa de bebida que conseguiu encontrar na fazenda. Depois desenterrou de perto da latrina externa a pequena lata onde guardava todos os seus tesouros: uma foto da família em que o pai estava meio afastado, uma figurinha de beisebol do Luke Easter de 1950, uma garrafinha com mais ou menos 30ml de Ma Griffe, o único perfume que a sua mãe havia usado, um carrinho de linha e duas agulhas, um pequeno jacto F-86 da Força Aérea americana em metal fundido e todas as economias de sua vida: 15 dólares e 13 centavos. Esgueirou-se pela sala e enfiou um bilhete debaixo do travesseiro da mãe, enquanto o pai roncava, curtindo mais uma bebedeira. O bilhete dizia simplesmente: um dia espero que me possa perdoar. Jurou que nunca mais olharia para trás e não olhou, durante um longo tempo. Treze anos é muito pouco, porém Mack não tinha muitas opções e se adaptou rapidamente. Ele não fala muito sobre os anos seguintes. A maior parte foi passada fora do país, trabalhando pelo mundo, mandando dinheiro para os avós, que o repassavam à mãe. Acho que num desses países distantes chegou a pegar em armas e participar de algum conflito terrível; desde que o conheço, ele odeia a guerra com um fervor sinistro. Seja lá o que for que tenha acontecido, aos 20 e poucos anos foi parar num seminário na Austrália. Quando Mack se fartou de teologia e filosofia, retornou aos Estados Unidos, fez as pazes com a mãe e as irmãs e mudou-se para o Oregon, onde conheceu Nannete A. Samuelson e se casou com ela. Neste mundo de faladores, Mack é pensador e fazedor. Não diz muita coisa, a  não ser que alguém pergunte, o que pouca gente faz. Quando fala, dá a impressão de ser uma espécie de alienígena que vê a paisagem das ideias e experiências humanas de modo diferente de todas as outras pessoas […]». In Prefácio

In William Paul Young, A Cabana, 2007, Porto Editora, 2009, 2018, ISBN 978-972-004-178-4.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

A Caminho de Jerusalém. Jan Guillou. «Vamos andar devagar, na direcção das brincadeiras, para não ficarmos aqui quietos, como se déssemos a entender que estamos zangados um com o outro. Eu vou explicar tudo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Cruzadas
«(…) Tal como havia previsto, ele parou de repente e olhou primeiro para o rosto dela, inquiridor, procurando por aquele sorriso que ela exibia ao falar brincando, à sua maneira toda especial. Mas ele entendeu logo que ela falava sério e, então, a raiva se apossou dele com tal intensidade que por pouco não lhe deu uma bofetada, que seria a primeira, se eles não estivessem entre amigos e inimigos e todo aquele povão. Você está fora de si, mulher! Se não fosse pelo facto de ter herdado Varnhem, ainda hoje estaria apodrecendo no mosteiro. E foi por causa de Varnhem que nos casámos. Foi no último momento que ele se conteve e acabou falando baixo, mas entre dentes, os lábios fortemente contraídos. Sim, isso é verdade, meu querido marido, respondeu ela, com o olhar virtuosamente baixo. Se eu não tivesse herdado Varnhem, os seus pais teriam escolhido outra pretendente. Nesse caso, é verdade, eu seria agora uma freira, mas é verdade também que nem Eskil nem essa nova vida que carrego abaixo do meu coração existiriam se não fosse por Varnhem. Magnus não respondeu. Parecia estar pensando na escolha das palavras certas para expressar a sua raiva. E, nesse momento, chegou Sot, trazendo pela mão Eskil, que imediatamente correu na frente e pegou a mão da sua mãe e começou a falar rápido e alto de tudo o que tinha visto lá dentro na catedral. Depois de ter sido obrigado a ficar calado e quieto por tanto tempo, ele falava agora como se as palavras jorrassem como a água de uma represa quando é aberta na Primavera, impossível de conter. Magnus pegou o seu filho nos braços, acariciou os seus cabelos com amor, ao mesmo tempo que encarava a esposa com hostilidade. Mas, de repente, ele largou o menino no chão e ordenou a Sot, quase que de maneira desagradável, que levasse Eskil para ver as brincadeiras e que logo em seguida se veriam de novo. Sot, surpresa, pegou o menino pela mão e puxou-o para longe, enquanto este, contrariado, choramingava e resistia. Mas, como você sabe, meu caro marido, continuou Sigrid, rápido, para que fosse ela a conduzir a conversa e não deixando que ele prosseguisse, encolerizado, antes voltasse ao bom senso e à calma. Sempre desejei receber Varnhem de presente de casamento, embora tenha sido eu que herdei a propriedade, e que consegui que a herança ficasse registada com o sigilo real, e ainda que, para mim, bastem o manto que trago sobre os meus ombros agora e apenas um pouco de ouro para me enfeitar. É, isso também é verdade, respondeu Magnus, ainda mal- humorado. Mas, ao mesmo tempo, Varnhem representa um terço do nosso património em comum, um terço que agora você acaba de tirar de Eskil. O que não consigo entender é como você foi capaz de fazer uma coisa dessas, mesmo que tivesse direito a fazê-lo.
Vamos andar devagar, na direcção das brincadeiras, para não ficarmos aqui quietos, como se déssemos a entender que estamos zangados um com o outro. Eu vou explicar tudo, disse ela, oferecendo o braço para ele. Magnus olhou em volta preocupado, reconheceu que ela tinha razão, sorriu com esforço e pegou-a pelo braço. Bem, disse ela, hesitante, após uns segundos. Vamos começar pelas coisas terrenas, as que mais enchem a sua cabeça neste momento. Evidentemente, vou levar para Arnäs todos os animais e os servos. Varnhem tem, sem dúvida, as melhores construções, mas Arnäs, por isso mesmo, vai possibilitar que a gente construa a partir do terreno, especialmente agora, quando vamos receber tantas mãos para trabalhar mais. Dessa maneira, vamos ter um lugar melhor para morar, em especial durante o Inverno. Mais animais significam mais barricas de carne salgada e mais peles, que agora já podemos mandar para Lõdõse de barco. Você sempre quis muito negociar com Lõdõse, e isso poderá fazer a partir de Arnäs, com muito mais facilidade, tanto no Inverno quanto no Verão. Isso seria mais difícil de fazer a partir de Varnhem. Magnus andava ao seu lado, silencioso e inclinado para a frente, mas ela viu que ele se tinha acalmado e começava a escutar com interesse, e então concluiu que não era mais uma questão de guerra com palavras. Viu tudo bem claro diante de si, como se tivesse levado muito tempo para planear as coisas, quando, na verdade, a ideia toda não tinha mais do que uma hora de vida. Mais peles e mais barricas com carne salgada para Lõdõse significavam mais moedas de prata, e mais moedas de prata significavam mais sementes. Mais sementes significavam que mais servos poderiam conquistar a sua liberdade através da preparação de novos campos para sementeira, de empréstimos em sementes pagas pelo dobro em centeio que, mandadas para Lõdõse, seriam trocadas por mais moedas de prata. E, então, seria possível encomendar as muralhas que Magnus sempre havia pensado em erguer, já que Arnäs era difícil de defender, em especial durante o Inverno, quando o gelo facilitava a passagem. Através da unificação de todos os esforços em Arnäs, em vez de os partilhar por dois lugares, seria possível para eles dois ficarem mais ricos, com todos os terrenos novos compondo uma propriedade maior, edificar um lar mais quente e seguro e deixar para Eskil uma herança maior do que se poderia imaginar antes. Quando chegaram bem na frente da multidão, tiveram que forçar a passagem, é claro, e, sem dar quaisquer sinais, Magnus se manteve silencioso e pensativo. Sot chegou aos pulos, trazendo Eskil nos braços, e levantou-o diante de si para que o povo pudesse ver as roupas dele e que, com ele nos braços, também ela, uma escrava, tinha direito a forçar a passagem, e aí o garoto pulou para o chão e colocou-se em frente da mãe que suavemente colocou as suas mãos nos seus ombros, acariciou a sua face e corrigiu a posição do gorro cheio de penas. Os artistas diante deles estavam vestidos com roupas engraçadas, de cores fortes e com pequenas campainhas penduradas nas pernas e nos punhos, de modo que todos os seus movimentos se misturavam com o som das campainhas». In Jan Guillou, A Caminho de Jerusalém, As Cruzadas, Editora Bertrand Brasil, Grupo Editorial Record, 2002, ISBN 978-852-860-896-0.

Cortesia de EBertrandB/GERecord/JDACT

sábado, 12 de outubro de 2019

A Caminho de Jerusalém. Jan Guillou. «Quando chegou à sua frente, ele fez uma vénia e pediu a ela para pegar o seu manto enquanto ele envolvia o próprio corpo com o seu grande manto azul-celeste…»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Cruzadas
«(…) O jovem refreou o seu cavalo bem junto dela e falou com ela, e ela ouviu todas as palavras, entendeu tudo, mas ao mesmo tempo não entendeu nada. Mas Sigrid sabia que o que ele disse significava que ela teria de dar a Deus um presente, que, no momento, era a atitude mais necessária, neste condado, onde o rei Sverker reinava, isto é, dar um bom lugar para os monges de Lurõ. Mais tarde, ela observou bem os monges, à medida que saíam lentamente, após a sua longa apresentação. Não pareciam nem um pouco perturbados pelo milagre que tinham acabado de provocar. Parecia mais como se eles tivessem terminado um turno de trabalho, de quebrar pedra, um entre tantos outros turnos na Götaland Ocidental, como se eles, agora, estivessem pensando mais na ceia do que em qualquer outra coisa. Tinham conversado por um momento, coçado por um momento as manchas vermelhas que muitos deles exibiam nas carecas grosseiramente raspadas. Em muitos a pele era enrugada no rosto e no pescoço. Para eles, as coisas não eram muito fáceis em Lurõ, qualquer um podia ver isso, e o Inverno, certamente, não lhes fora muito benigno. Portanto, a vontade de Deus não era difícil de entender, aqueles que conseguiam cantar milagres precisavam receber um lugar melhor para viver e para trabalhar. E Varnhem era um lugar muito bom. Quando saiu pela escada da catedral, a sua mente clareou por efeito do vento fresco que soprava, e ela entendeu, num golpe repentino de inspiração, quase como se estivesse ainda possuída pelo Espírito Santo, o que e como devia dizer para o marido que vinha na sua direcção naquela confusão toda, com os mantos no braço. Ela examinou-o, com um sorriso meio discreto, mas totalmente seguro. Ela mantinha essa relação porque ele era um marido tranquilo e um pai extremoso, embora não fosse o tipo de homem para ser venerado ou admirado. Era difícil acreditar que ele, de facto, fosse neto de um homem totalmente diferente, o fortíssimo Folke, o Gordo. Magnus era um homem magro e, se não fossem as roupas estrangeiras que no momento ele vestia, as pessoas poderiam dizer que se tratava de um qualquer no meio da multidão.
Quando chegou à sua frente, ele fez uma vénia e pediu a ela para pegar o seu manto enquanto ele envolvia o próprio corpo com o seu grande manto azul-celeste, forrado com pele de marta, prendendo-o ao pescoço com uma fivela norueguesa de prata. Depois, ajudou-a, ensaiando uma carícia com suas mãos delicadas, que não eram as mãos de um guerreiro, e perguntou como é que tinha podido aguentar por tanto tempo as louvações ao Senhor no seu bem-aventurado estado. Ela respondeu que não tinha passado por nenhuma dificuldade, já que, em parte, tinha trazido Sot para ampará-la e, por outro lado, o Espírito Santo dignou-se aparecer para ela. Disse isso de uma maneira que costumava usar quando dava a entender que não falava a sério. Ele sorriu da sua esposa, acreditando que se tratava de mais uma das habituais brincadeiras, e procurou em seguida pelo escudeiro que vinha na sua direcção com a espada trazida da sala de armas. Quando meteu a espada por baixo do manto e começou a colocá-la no cinturão, os seus cotovelos ficaram por baixo do manto, o que fez com que o seu corpo parecesse largo e forte, coisa que ele não era. Então, ofereceu à mulher o seu braço e perguntou se ela queria dar uma voltinha pela praça diante deles e ver o espectáculo ou queria ir imediatamente descansar.
Sigrid respondeu logo que gostaria de esticar um pouco as pernas, sem precisar cair de joelhos a toda a hora, e ele sorriu timidamente de mais essa piada atrevida dela e comentou que seria até divertido ver todos esses jogos para os quais o rei os convidou. No centro da praça actuavam acrobatas franceses e um homem que vomitava fogo, tocavam-se flautas e gaitas e, mais além, de uma das grandes barracas de cerveja escutava-se o som surdo de tambores. Os dois avançaram cuidadosamente entre a multidão onde os mais conceituados visitantes da igreja agora se misturavam com o povo e os servos. Depois de um curto momento, ela inspirou profundamente e disse tudo de uma vez, sem desvios: Magnus, meu querido marido, espero que você se possa manter superiormente calmo e digno, ao escutar agora aquilo que acabo de fazer, começou ela e, fazendo nova inspiração, continuou rápido, antes que ele tivesse tempo de responder: Dei a minha palavra ao rei Sverker de que ofereceria de presente aos monges cistercienses de Lurõ a nossa propriedade de Varnhem. Jamais poderei retirar a minha palavra dada ao rei, é irrevogável. Vamos-nos encontrar com ele amanhã no castelo, para que isso seja escrito e ractificado com o sigilo real». In Jan Guillou, A Caminho de Jerusalém, As Cruzadas, Editora Bertrand Brasil, Grupo Editorial Record, 2002, ISBN 978-852-860-896-0.

Cortesia de EBertrandB/GERecord/JDACT

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Naturalmente, obedeci, que outra coisa podia fazer? Cheguei a Milão passada a noite dos Reis Magos»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) O mestre indicou o pergaminho que encabeçava aqueles papéis. Nele, em caracteres grandes escritos com tinta vermelha, lia-se o enigma que continha a assinatura de nosso informante. Eu o havia visto muitas vezes, fechava cada uma das cartas do Áugure; mas, até esse momento, não lhe havia dado atenção. A minha vista quis se ofuscar ao pairar sobre aquelas sete linhas e sentir que se haviam transformado no meu principal problema. Diziam:

Oculos ėjus ḋinumera,
ṡed noli voltum ȧdspicere.
In latere nominis
mei notam rinvenies.
Contemplari et contemplata
aliis ṫradere.
Veritas

Naturalmente, obedeci, que outra coisa podia fazer? Cheguei a Milão passada a noite dos Reis Magos. Era uma dessas manhãs de sábado nas quais o brilho da neve nos cega e o ar limpo esfria sem piedade as nossas entranhas. Eu havia cavalgado sem descanso para chegar a meu destino, dormindo três a quatro horas em pousadas nauseabundas, intumescido e húmido em razão de uma viagem de três dias no meio do Inverno mais cruel de que tinha lembrança. Mas nada disso importava. Milão, a capital da Lombardia, a sede de intrigas palacianas e disputas territoriais com a França e os condados vizinhos, sobre a qual eu tanto havia estudado, já descansava aos pés da minha montaria. O lugar era impressionante. A cidade dos Sforza, a maior ao sul dos Alpes, ocupava o dobro da extensão de Roma; oito grandes portas franqueavam uma muralha impenetrável que contornava uma urbe de planta redonda que, vista do céu, devia parecer o escudo de um guerreiro gigantesco. Contudo, não foram as suas defesas que me impressionaram: aquele era um burgo novo, limpo, que transmitia uma intensa sensação de ordem. Os cidadãos não urinavam em cada esquina, como em Roma, nem as prostitutas assaltavam os transeuntes, oferecendo-se. Ali, cada canto, cada casa, cada edifício público parecia pensado para uma função suprema. Até a sua orgulhosa catedral, de aspecto frágil e esquelético, oposta em tudo aos maciços edifícios do Sul italiano, derramava as suas benéficas influências sobre o vale. Vista das colinas, Milão parecia o último canto do mundo onde pudessem se arraigar a desordem e o pecado». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT