sábado, 24 de setembro de 2016

Contemporâneo. Oliveira Martins. «Pinta com cores verdadeiras, prossegue o meu critico, esta dissolução do regimen monarchico parlamentar, mas é injusto lançando á conta do organismo da nação o que é produzido pelo corpo estranho da realeza e dos políticos vendidos»

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«Eu bem affirmava que este livro não satisfaria a ninguém!... Acoimado de miguelismo, Portugal condemnado como espirito azedo e pessimista, tive a sorte que esperava, e os motivos d’esta minha espectativa provaram fundados. Levou-se a mal, como era de suppor, que eu procurasse deslindar da teia de lendas absurdas ou risíveis o caracter pessoal do infante Miguel: chamou-se a isso uma apologia. Nem um facto, nem uma inducção legitima, foram, todavia, contestados, o que me leva a não alterar o retrato d’esse príncipe, sympathico para mim na sua infelicidade. E tenho até a vaidade de acreditar na perspicácia d’este sentimento, parecendo-me que, se de futuro a historia voltar a occupar-se de Miguel, ha de concordar mais commigo do que com os auctores do retrato do monstro. Esses auctores escreviam com a penna molhada no fel amargo do ódio. Disse-se-me também que eu reduzia a muito pouco o alcance ou o valor da Carta de 20; e sem concordar com a critica, achando todavia útil desenvolver mais certos pontos, retoquei essa parte da obra. Mas quando se allega ser erro o notar eu a exclusão dos morgados do pariato, pois, sendo livre do rei a nomeação dos pares, a Carta ninguém exclue, devo responder que a Carta, com effeito, não os excluia (nem eu jamais o disse), mas excluia-os o monarca Pedro não os nomeando, e até a própria força das cousas impedindo a entrada de uns milhares de nobres menores na camara alta. Eram em numero demasiado. Outros reparos, a que não alludo para não ser extenso, vão ou não vão attendidos no texto, conforme se me affiguraram fundados ou mal cabidos.
Não me surprehenderam as censuras dos nossos jacobinos mais do que as dos liberaes: prevía-as egualmente. O meu livro, disseram, é um quadro pittoresco, mas falta-lhe o principio orgânico, a linha lógica, porque eu anão soube ou não quiz vêr na tradição revolucionaria de 20, esse movimento em que pela primeira vez se revelou a classe média de advogados, jurisconsultos e coronéis. Pinta com cores verdadeiras, prosegue o meu critico, esta dissolução do regimen monarchico parlamentar, mas é injusto lançando á conta do organismo da nação o que é produzido pelo corpo estranho da realeza e dos políticos vendidos. Ora eu, não sendo individualista, nem até politicamente liberal, não podia achar na tradição de 20 a linha lógica; e pensando que as nações teem sempre aquelle governo que querem ou que merecem, não podia tampouco ter na conta de corpo estranho a realeza nem os políticos. Ella e elles e o povo e todos pareceram-me antes efeitos do que causas. Se pretendi mostrar por quanta entrava nas misérias da nossa historia contemporânea a fraqueza dos caracteres, a apathia ou a loucura das populações, o desvairamento dos chefes: patenteei, parece me, quanto esses males sociaes provinham, não só dos legados da historia, como da influencia deprimente e desorganizadora das theorias do naturalismo individualista, herdado da philosophia do século XVIII e popularizado pela revolução franceza. Sob o nome indefinível de liberalismo, essas doutrinas, nos seus aspectos successivos, vieram terminar afinal no materialismo pratico, fazendo dos melhoramentos materiaes o pensamento exclusivo do povo, e do governo uma agencia de caminhos de ferro. Como se nós valêssemos absolutamente mais por andarmos em doze horas, em vez de trinta ou trinta e seis, a distancia de Lisboa ao Porto! Mas o que offendeu sobretudo liberaes e jacobinos foi o tora pessimista, ao que dizem, da obra. Eu tinha-a por justiceira apenas, e até ás vezes caridosa. Fica- se com a cara a uma banda.
Pois fique-se. Concordo que a attitude é desagradável, mas, na rainha missão de critico, não posso alterar a significação dos factos, sem poder também acreditar que tamanhos males venham apenas da circumstancia de haver sobre um estrado de alguns degraus um homem de manto e coroa com as mãos atadas pelos políticos de espadim e farda. Elles governarão o rei, mas quem os escolhe a elles é o povo: se são maus, porque os prefere? Não. A culpa é portanto nossa, de todos nós, que não valemos grande cousa, fique se embora com a cara a uma banda!» In J. Oliveira Martins, Portugal Contemporâneo, Livraria António Pereira, Lisboa, 1895, University of Toronto, 2000.

Cortesia de LAPereira/UToronto/JDACT

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Histórias de um Portugal Assombrado. Vanessa Fidalgo. «Não está sozinho, o barão da Glória, num país que, de lés-a-lés, tem personagens e histórias assombradas para contar: no Castelo de Almourol ou no de Bragança, amores incompreendidos deixaram espectros a pairar nas suas torres e ameias»


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«Por todos os preconceitos, desconfianças e crenças que o assunto revolve, entabular conversa sobre fantasmas e casas assombradas não é desafio fácil. Nas aldeias, os velhos ainda contam as histórias que lhes povoam os lugares da memória com naturalidade, mas nas grandes cidades as referências são escassas e fugazes, os narradores fugidios. Ainda assim, há fantasmas ao virar da esquina. Uma certa tarde de pesquisa no Gabinete de Estudos Olisiponenses, divisão da Câmara Municipal de Lisboa que tem como intuito cooperar com a comunidade científica para o estudo e a reflexão sobre a cidade, comprovou-o. Uma cidade que pode ter muitas dimensões. Algumas delas escondidas. Como aquela, que logo ali se desvendou. Histórias de fantasmas na cidade?, quer saber o historiador Ernesto Jana, técnico superior do gabinete. Olhe que nós, por acaso, temos um aqui. É o barão da Glória! O barão que arrasta grossos volumes de livros e caixotes de documentos pelo Palácio do Beau Séjour fora, e que pôs os funcionários da Câmara com os cabelos em pé à procura do espólio perdido. O mesmo espólio que muitos dias de procura depois se encontrava exactamente no local onde tinha sido deixado, por obra e graça do tal barão que também faz tilintar as chávenas em cima das mesas e soar as campainhas da quinta de São Domingos de Benfica, onde viveu, morreu e amou a arte. Não está sozinho, o barão da Glória, num país que, de lés-a-lés, tem personagens e histórias assombradas para contar: no Castelo de Almourol ou no de Bragança, amores incompreendidos deixaram espectros a pairar nas suas torres e ameias. Na Serra de Sintra sobram razões para ter medo, tantos são os relatos e os testemunhos. No Porto, há espectros a discutir a herança pela calada da noite e apartamentos que, afinal, contra todas as razões da lógica, não estão vazios como aparentam. Em Castro Marim, as mouras ainda andam à solta, e em Penafiel os sustos marcam o ritmo dos dias na Quinta da Juncosa, que há séculos foi palco de um crime hediondo. As situações mais insólitas, como a da inacabada casa em Langarinhos, Gouveia, obra que nenhum proprietário consegue finalizar, causam um friozinho no estômago a uns, sorriso trocista a outros, mas estão longe de ser únicas, num fenómeno cultural global. Lá fora, há poucos meses, a notícia encheu os títulos gordos dos jornais: Cláudia Schiffer e o marido, Matthew Vaughn, tinham acabado de se mudar com os três filhos para uma tradicional casa de campo vitoriana em Suffolk, East Anglia, Inglaterra, quando se sentiram atormentados pelo fantasma de Penélope, uma antiga dama da corte, aparentemente pouco disposta a dividir o seu secular tecto com os forasteiros. A mansão foi alvo da intervenção de especialistas em exorcismos e, só depois disso, a família de Schiffer pôde então desfazer as malas sossegada. O caso mais ilustre diz respeito à Casa Branca, onde vários presidentes norte-americanos e as suas famílias se viram importunados pelos fantasmas dos seus antecessores! Jenna Bush, filha do presidente George W. Bush, confessou mesmo ter ouvido música clássica sair da lareira, do seu quarto na Casa Branca. Ouvi ópera a sair da minha lareira. Quando disse à minha irmã Barbara, ela não acreditou. Mas voltou a acontecer na semana seguinte, desta vez com música dos anos 50, confessou numa entrevista à Texas Monthly. Depois do episódio, nunca mais voltou a dormir na mais poderosa residência oficial do mundo. O site da Casa Branca (www.whitehouse.gov) dedica uma página inteira aos seus respeitáveis fantasmas, onde pode ler-se, por exemplo, que ao longo de várias décadas o staff governamental viu Abraham Lincoln divagar pelos corredores do número 1600 da Pennsylvania Avenue. Winston Churchill recusou-se mesmo a dormir no quarto de Lincoln, depois de ali ter avistado o seu vulto. Harry Truman, em 1946, garantia numa carta dirigida à mulher, Bess: este lugar está assombrado, tão certo como dois e dois serem quatro. O Reino Unido, o país que clama mais fantasmas por metro quadro do que qualquer outro, tem igualmente o seu séquito de espectros notáveis e lugares (muitos) assombrados, incluindo monumentos mundialmente famosos, como a Torre de Londres ou o Castelo de Old Wardour. Mas afinal de onde vêm as histórias sobre fantasmas, intemporais e universais, e o que as torna tão impressionantes ao ponto de perdurarem através dos séculos? Que medos e preocupações desvendam e como têm evoluído desde os tempos mais remotos da história dos povos até aos nossos dias, nas suas modernas versões urbanas? E de que forma todas estas histórias, que em abono da verdade dão pelo nome de lendas, podem encaixar num universo ainda maior e de formidável riqueza, que é o da literatura oral? Que papel desempenham na sociedade?» In Vanessa Fidalgo, Histórias de um Portugal Assombrado, 2012, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-371-3. 
Cortesia de EdosLivros/JDACT

Um Postal de Detroit. João Ricardo Pedro. «… em certas noites de Maio, junto aos desfiladeiros das Portas de Ródão, maravilharam-se com o mesmo reflexo da Lua sobre o Tejo, e sempre que chegaram à estação de Santa Apolónia»

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«Longe de imaginar o quanto aquela notícia nos dizia respeito, e os efeitos devastadores que teria nas nossas vidas, demorei a adormecer. Ainda hoje, trinta anos depois, seis internamentos depois, centenas de caixas de comprimidos depois, sessões de psicanálise, mesas de pé-de-galo, sanatórios, termas, casas de repouso, choques eléctricos, dou por mim deitado na cama, de olhos pregados no tecto, a pensar nesses dois pobres maquinistas, frente a frente, sem tempo para uma travagem de emergência, sem tempo para saltarem das locomotivas e rolarem como cowboy sobre um manto de feno, sem tempo sequer para se questionarem acerca das circunstâncias insólitas, colossais, em que se encontravam, aos comandos dos seus exércitos indomáveis, semelhantes a dois generais inimigos que se reunissem entre as linhas avançadas para negociações de última hora, para uma tentativa de entendimento que evitasse a derrota e a chacina, e, porém, absolutamente conscientes da sua impotência para anularem o confronto, para o adiarem até, nem que fosse por breves segundos. escassíssimos segundos, os segundos suficientes para dizerem, em desolado uníssono: estamos metidos numa alhada!
Poderiam depois trocar duas ou três palavras de conforto, histórias antigas, o amor aos comboios. Talvez um deles, o de temperamento mais caloroso, começasse por confessar que, em miúdos, ele e o irmão se entretinham a apanhar escaravelhos, gafanhotos, lesmas, grilos, lagartixas, toda a espécie de bichos que saltam ou rastejam, e que, quais vítimas de um sacrifício que aplacasse a fúria dos deuses, os colavam com resina ao ferro dos carris, momentos antes da passagem do Rápido proveniente da Guarda ou dos vagões carregados de volfrâmio das minas da Panasqueira, comboios demasiado importantes para efectuarem paragem no pequeno apeadeiro cujo nome inscrito em azulejos testemunhava o domínio islâmico sobre aquelas terras até meados do século XI, altura em que os devotos das santas chagas de Cristo, sob os comandos de Fernando I, rei de Leão e Castela, expulsaram os Sarracenos da faixa circunscrita pelos rios Douro e Mondego. Novecentos anos volvidos sobre tão ilustre peleja, seria nesse apeadeiro que o pai do maquinista, humilde funcionário dos Correios e amante de banda desenhada, aguardaria, duas vezes por semana, a chegada do Regional que vinha de Lisboa e, em troca de dez ou quinze tostões, receberia das mãos do revisor uma revista com as mais recentes aventuras do Capitão Meia-Noite, do Flash Gordon, do Mandrake, do Barão de Dorset, do Kit Carson.
Chegado a este ponto, é bem possível que o maquinista fizesse uma pausa, uma dessas pausas que, quando acompanhadas de um movimento descendente do olhar, quase sempre antecedem uma ligeira inflexão na voz, colocando-a dois ou três tons mais abaixo, e revelam, por parte de quem se prepara para prosseguir o rumo de uma confidência, o receio de vir a ser condenado pelo juízo moral do interlocutor. Claro que este receio pode adquirir diferentes matizes e significados, dependendo não só da matéria de que se constitui a confidência, mas, sobretudo, da relação que já existe, ou está prestes a existir, entre quem fala e quem ouve. No caso destes maquinistas, estamos perante dois estranhos, dois homens que não se conhecem; no entanto, é provável que se tenham cruzado inúmeras vezes, a altíssimas velocidades, em circunstâncias que não permitiram mais do que um simples aceno; é provável até que tenham ambos a vaga memória de um encontro fortuito ocorrido há muitos anos, ao balcão de um desses cafés que existem no interior das grandes estações terminais; ou numa casa de banho pública, aliviando-se em urinóis adjacentes, trocando desabafos acerca do cheiro a mijo, do tempo, do futebol, enquanto os olhos repousavam, distraídos, na superfície polida da pedra mármore. Durante anos partilharam as mesmas linhas-férreas; viram repetidamente as mesmas paisagens; tentaram cumprir à risca os mesmos horários e os mesmos procedimentos de segurança; sentaram-se com zelo aos comandos das mesmas locomotivas, e os gestos mecanizados de um foram os gestos mecanizados do outro; em certas noites de Maio, junto aos desfiladeiros das Portas de Ródão, maravilharam-se com o mesmo reflexo da Lua sobre o Tejo, e sempre que chegaram à estação de Santa Apolónia, a abarrotar de Amélias e magalas, sentiram a mesma melancolia, a mesma vontade imensa e inexplicável de chorar». In João Ricardo Pedro, Um Postal de Detroit, 2016, Publicações dom Quixote, Leya, 2016, ISBN 978-972-205-949-7.

Cortesia PdonQuixote/JDACT

Proibida. Nana Pauvolih. «A criança berrou de novo, um som que demonstrava medo, desespero, sofrimento: mãe! Mãe! Foi o mais rápido possível até ela e viu que era uma menina, descalça, com uma camisola branca suja de barro»


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«Muitos sons podiam ser ouvidos durante o amanhecer na Fazenda Falcão Vermelho. O relincho dos cavalos, o mugir do gado, o cantarolar do galo, os primeiros trabalhadores acordando e se preparando para mais um dia na lida. Mas não o que o velho cozinheiro Cicinho ouviu ao se dirigir para o grande refeitório num galpão ao lado de uma das margens do sulco que cortava as terras verdejantes. O sol nem tinha nascido, mas todas as manhãs ele fazia aquele trajecto, saindo da casa em que morava junto das outras reservadas aos empregados, até ao refeitório onde era o cozinheiro oficial e preparava o café da manhã. Mesmo tendo famílias ali, o café da manhã e o almoço eram oferecidos por Mário Falcão para que todos tivessem uma alimentação decente durante o trabalho duro. Além de todos os direitos trabalhistas reservados e aquela alimentação, o salário era digno e havia também escola primária para os filhos dos funcionários. Durante muitos anos Cicinho trabalhou cuidando dos cavalos, mas uma queda deixou-o manco e com dor nos quadris. Foi transferido para a cozinha, já que sempre gostou de preparar as refeições quando ficavam longe por alguns dias nos campos remarcando o gado. Para ele foi bom, pois teria morrido se não tivesse nada para fazer. Aquele dia frio de Junho seria como outro qualquer e ele caminhava pensando se seu ajudante, Rosendo, teria já preparado a massa do pão e colocado para assar. Rosendo era maluquinho, nasceu com problemas mentais e ria de tudo. Não dava para lidar com gado, se atrapalhava todo. Tinha vinte e um anos e era órfão. Todos acharam que seria mandado embora, pois não tinha utilidade ali. Mas Theo Falcão, o filho mais velho da família, de vinte e cinco anos, arrumou uma ocupação para ele como ajudante de cozinheiro no refeitório. Para surpresa de todos e até de Cicinho, Rosendo mostrou-se um padeiro de mão cheia. E óptimo cozinheiro. Ele o ajudava muito. O duro era aguentar as suas risadas a manhã inteira, sem mais nem menos. Cicinho sacudiu a cabeça, paciente. E foi quando ouviu o choro estridente, que o fez parar. Passou os olhos em volta dos campos e árvores, do caminho de terra batida até o refeitório não muito longe. À direita, mais para frente, podia se ver o enorme casarão branco da residência dos Falcão, suas telhas vermelhas recortando o céu da madrugada que começava a ganhar luz. E foi então que ele viu a trouxinha branca se arrastando em sua lateral, perto da entrada do refeitório. Sua visão já não era boa aos 72 anos, mas pareceu uma criança. Franziu o sobrolho e, mancando, se aproximou dela, tentando lembrar qual dos empregados tinha um filho tão pequeno. A criança berrou de novo, um som que demonstrava medo, desespero, sofrimento: mãe! Mãe! Foi o mais rápido possível até ela e viu que era uma menina, descalça, com uma camisola branca suja de barro, cabelos ruivos desgrenhados até aos ombros. Tomou cuidado para não assustá-la: olá, menina... Ah... Gritou, virando-se de um pulo, olhando-o apavorada. Seu rosto com sardas estava manchado de lágrimas e barro, como se tivesse estado no chão e se esfregado nele. Voltou a chorar: quero a mãe... Claro, vamos procurar a sua mãe. Agachou-se um pouco, seus ossos rangendo, a droga do quadril doendo. Preocupado, percebeu que a criança devia ter entre dois ou três anos e parecia muito assustada. Evitou tocá-la para que não saísse correndo, pois era óbvio que estava com muito medo. Onde está a sua mãe? Sabe o nome dela? mãe... Esfregou os olhinhos, chorando muito, estremecendo. Ele se encheu de pena e estendeu a mão. Vem com o avô, vou ajudar-te a encontrar a sua mãe. Ela fitou-o com os olhos castanhos claros vermelhos e inchados, molhados. Devia ser uma menina boazinha, pois deu uns passos em sua direcção. Mas mesmo assim continuava assustada, soluçando, o catarro escorrendo do nariz. Na mesma hora Cicinho tirou seu lenço do bolso e, cuidadoso, limpou seu rostinho. Ela ficou quieta, tão pequenininha e suja que dava pena. Ele sempre amou crianças, pena que nunca casou nem teve filhos e netos. Guardou o lenço de volta e segurou a mãozinha dela, garantindo com carinho: vamos procurar a sua mãe. Sabe o nome dela? Parecia confusa. Murmurou: mãe... Vivi... Sua mãe é Vivi? Quero a Vivi... Voltou a chorar. Vem aqui. Compadecido e vendo a garotinha descalça no chão com pedrinhas, ele pouco ligou para as suas dores. Abaixou-se com dificuldade, pegou-a no colo e, manquando, voltou pelo caminho, em direcção ao casarão da fazenda. Ela se segurou em seu ombro, fungando, tão pequenininha e perdida que dava pena. Conta p’ra mim o nome do seu pai...» In Nana Pauvolih, Proibida, Série Segredos, Brasil, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «… o século das “bastides” (cidades fortificadas). Como o nome indica, o fenómeno é essencialmente um facto meridional, um fenómeno do Sudoeste. Ele afecta principalmente o Toulousain, o Albigeois, o Agenais e o Péri-gord»

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1150-1330. O povoamento urbano
«(…) Com excepção de Estrasburgo, a maioria dessas cidades alsacianas surgiu na Idade Média, como Lille ou Montpelher, a primeira a partir de um castelo feudal, a segunda a partir de um posto de parada numa estrada de peregrinação, O cami roumieu (caminho de Roma), que se torna no século XI uma aglomeração de carácter comercial. Mas o crescimento urbano exprime-se também por criações propriamente ditas. No entanto, a maioria delas, pelo menos depois de 1150, não origina verdadeiras cidades, apesar de algumas realizações dos templários, que fundam aglomerações ao lado de algumas de suas comendadorias, como, em 1192, La Couvertoirade (Aveyron), cuja muralha circular, com suas portas e torres, acha-se bem conservada. Uma grande realização é Montauban, fundada em 1144 pelo conde de Toulouse, Alphonse Jourdain, defronte do burgo do mosteiro de Montauriol, cujos habitantes o abandonaram em massa para ir morar na nova cidade. Em pouco tempo Montauban cresceu e tornou-se importante. O papa de Avignon João XXII, elevou-a a bispado em 1317. O século XIII, após as sauvetés (aldeolas francas criadas durante o feudalismo, por iniciativa dos mosteiros, para servir de refúgio e proceder ao arroteamento) do século XII, é, na ordem das criações de aglomerações, o século das bastides (cidades fortificadas). Como o nome indica, o fenómeno é essencialmente um facto meridional, um fenómeno do Sudoeste. Ele afecta principalmente o Toulousain, o Albigeois, o Agenais e o Péri-gord. As bastides são antes de tudo criações de grandes personagens. Em primeiro lugar, seguindo o exemplo do conde de Toulouse, Raymond VII (criador, notadamente, de Cordes em 1222), os reis da França, São Luís, Filipe III, o Ousado,
Filipe IV, o Belo, o primeiro sobretudo através de seu irmão, Afonso de Poitiers, conde de Toulouse de 1249 a 1271, os outros por intermédio de Eustache de Beaumarchais, senescal de Toulouse de 1272 a 1294. Um documento de 1271 atribui a Afonso de Poitiers quarenta e cinco criações ou recriações (fecit, fecit fieri, fecit ãe novo, criou, fez criar, criou de novo), especialmente Sainte-Foy-la-Grande (c. 1250), Villeneuve-sur-Lot (1253), Villefranche-de- Rouergue (1256), Villefranche-de-Lauraguais (1271). No reinado de Filipe, o Ousado, e no início do reinado de Filipe, o Belo, aparecem outras, como Montréjeau, Revel (1280), Mi-rande (1282), Grenade-sur-Garonne (1290), Beaumont de Lomagne, etc. Os reis da Inglaterra, a oeste, fundam também suas bastides, entre as quais Créon, Libourne (1269), Beaumont-en-Périgord (1272), Monpazier (1285). Em menor grau, os grandes senhores da região, e em primeiro lugar os condes de Armagnac e os condes de Foix-Béarn, foram também fundadores de bastides. A última onda de bastides atingiu o Périgord entre 1261 e 1306 e, embora representem apenas 4% do habitat da região, as 23 bastides ali criadas forneceram 9 das 60 sedes de distrito de castelanias, ou seja, 15%. O que significa o fenómeno das bastides? Houve quem as considerasse o canto do cisne do movimento comunal, mas as lutas sociais não parecem ter desempenhado nenhum papel em sua criação. Foram vistas também como uma expressão do impulso demográfico do período, mas num momento em que esse impulso parece bastante atenuado. O aspecto militar nessa zona fronteiriça onde reis da França e da Inglaterra disputam asperamente o terreno também chamou a atenção, e é provável que os soberanos tenham visto aí pontos de apoio estratégicos, mas a maioria dessas bastides não foi fortificada durante longo tempo.
Finalmente, o grande especialista da questão, Charles Higounet, pensa que se trata sobretudo de uma Organização da ocupação do solo e de um agrupamento da população. Assim as bastides permanecem muito inseridas no tecido campesino, constituindo antes burgos rurais do que cidades propriamente ditas. Talvez seja sobretudo pela regularidade de sua planta, por uma certa ideia urbanística de sua estrutura, à qual voltaremos, que as bastides  trouxeram sua contribuição para a formação da França urbana. Mas pode ser que essa estrutura esteja igualmente ligada à dos solos. Sua presença na França urbana é, salvo excepções, marginal. Ao lado da criação de bastides, São Luís está na origem de duas realizações urbanas do Sul, entre o Ródano e o Garonne; Carcassonne e Aigues-Mortes. Carcassonne, fundada em 1247, após a destruição do subúrbio consecutiva à revolta de Raymond Trencavel, foi cercada de muralhas, em pedra somente do lado do rio, contra as inundações, o resto em terra batida, por ordem de Filipe, o Ousado, em 1276. Aigues-Mortes, concebida em 1240, dotada de um foral em 1246 e onde os genoveses tinham cônsules já em 1249, foi criada como base de partida para a cruzada. Só a torre de Constance foi construída no reinado de São Luís. O essencial das muralhas data do reinado de Filipe III e foram terminadas por Filipe, o Belo». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Os filhos do Graal. Peter Berling. «Os montanheses limitaram-se a manter a cabeça-de-ponte conquistada. No entanto, o poder de suas máquinas não alcançava nada além da barbacã, a potente defesa exterior do Montségur. Impossível aproximar-se da murada do castelo!»

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Montségur. 1243
«(…) Seu riso soava sarcástico e eu continuava tão ignorante como antes, embora agora pudesse imaginar onde estava situado o Roc de la Tour: na ponta mais extrema da parte noroeste do pog, onde o dorso da montanha desce, deixando novamente em liberdade o rio Lasset. Por que não atravessamos a garganta, que parece o caminho mais curto? Muito simples, porque ali já estão instalados os templários, e terão avisado os de cima de nossa chegada! Mas os templários são cavaleiros cristãos, retruquei indignado. Como pode pensar que se relacionam com os hereges? Não tinha perguntado pelo Graal, jovem franciscano? Pois essa é a resposta!, e acelerou seus passos dando-me a entender que não diria mais nada. Chegamos rapidamente ao pé da rocha onde acampava o grupo que vinha de Camon. A recepção foi fria, para não dizer pouco amistosa. Cumprimentaram formalmente o senescal e ignoraram os bascos. Traidores, escutei-os vociferar entre dentes. A noite estava chegando. O senescal proibiu que fossem acesas fogueiras para evitar sermos descobertos, mas esta ordem não ajudou a melhorar o ambiente. Por cima de nós, escondendo-se detrás de nuvens desgarradas que deslizavam com rapidez, erguia-se o peitoril da fortaleza dos hereges, em noite sem lua. Os montanheses haviam pintado os rostos morenos com fuligem para escurecê-los ainda mais e não levavam armaduras ou armas pesadas, apenas casacos cintados, de couro, e punhais de fio duplo cujos cabos se viam por cima do ombro ou pelo cano das botas.
O senescal ordenou-me que desse a bênção a cada um deles, e quando foi a vez de Gorka, sussurrei-lhe, ao colocar-lhe o sinal-da-cruz: que a Mãe de Deus o proteja... Mas ele, sem mover-se, tirou da cintura uma pata negra de gato e murmurou: cospe em cima disso, por favor. Simulei um acesso de tosse e fiz o que ele me pediu. Os montanheses moviam-se, de facto, como gatos selvagens, entendiam-se por meio de sons de animais, e tão logo enfiaram-se entre as rochas, desapareceram de nossas vistas. Passei o resto da noite bebendo em companhia do senescal. Mantivemo-nos calados e atentos a qualquer ruído que pudesse chegar até nós. Não sei agora se foi invenção minha ou se eu me achava ainda sobre o efeito das palavras de Gorka; de qualquer forma, eu via através de minha imaginação o que acontecia como se o estivesse presenciando: os montanheses alcançaram rapidamente as alturas do Roc de la Tour e ali ficaram presos às escarpadas rochas, imóveis, até que chegou a madrugada. A vanguarda da fortaleza eram besteiros catalães que passaram a noite com o olhar fixo na escuridão, e não se escondeu deles a chegada dos bascos. Quando o dia finalmente clareou, parecia-lhes que tinham superado o perigo. Relaxaram a tensão das pálpebras e assim transcorreu, em meio a um silêncio traiçoeiro, o tempo que se leva para rezar uma avé-maria, e então os montanheses atacaram os defensores esgotados enquanto se apossavam de seus punhais. Ouviram-se gritos, gemidos, o barulho da queda de alguns corpos e o silvo das bestas, enquanto desprendiam-se pedras das rochas, até que os catalães decidiram retirar-se pelos bosques e refugiar-se atrás dos muros protectores do castelo. Os bascos não se atreveram a segui-los. A certa distância, tinham os besteiros mais oportunidade de defender-se, mas como ainda reinava um certo claro-escuro, desistiram de afugentar os montanheses de novo.
Dessa forma, ao menos pelo que sabíamos, foi cortada a última comunicação dos sitiados com o mundo exterior, e o cerco em torno do Montségur fechou-se. Dias depois, voltei a encontrar Gorka no acampamento e ele contou-me o resto do ocorrido. Em baixo, no vale, o hábil monsenhor Durand, que na realidade era bispo de Albi, estava entregue à tarefa de desmontar as suas famosas catapultas de lançamento, que os bascos começaram a subir peça por peça com a ajuda de cordas. Mas os defensores puderam equilibrar essa vantagem graças à inventiva de outro genial catapultador, Bertrand Beccalaria. Este engenheiro de Capdenac, quando soube da situação de emergência pela qual passavam seus amigos, não hesitou em abandonar espontaneamente a construção da catedral de Montauban, obra que então dirigia, e conseguiu, no último minuto, chegar secretamente à fortaleza com seus ajudantes. Suas catapultas transportáveis estavam instaladas no Pas de Trébuchet, e responderam tão efectivamente aos atacantes que não cabia pensar em algum ulterior avanço. O alto do monte era coberto pelo bosque e atravessado por sendeiros que ficavam ocultos no meio das rochas, ora passando por baixo ora por cima do terreno; um conjunto de pedras e terra que, além do mais, mostrava-se esburacado por covas com saídas secretas, seguiam em poder dos catalães. Os montanheses limitaram-se a manter a cabeça-de-ponte conquistada. No entanto, o poder de suas máquinas não alcançava nada além da barbacã, a potente defesa exterior do Montségur. Impossível aproximar-se da murada do castelo! E por que não enviar reforços, eu queria saber, ao mesmo tempo que me sentia como deve se sentir um eminente estrategista, e acabar de uma vez com esse ninho de víboras do Inferno? Gorka rangiu os dentes e respondeu: porque nem o senhor senescal nem o senhor arcebispo, e muito menos seus medrosos mercenários, são bons alpinistas!, e pôs-se a rir. Além disso, já cumprimos com nossa tarefa! E, de facto, a partir daquele dia foi possível escutarmos como as máquinas de monsenhor Durand arrojavam cegamente, dia e noite, suas pedras assassinas por cima do bosque, em direcção às muralhas dos últimos baluartes exteriores, para grande felicidade do legado. Esses hereges morrerão na barbacã como se estivessem sendo esmigalhados num morteiro, alegrava-se Gorka». In Peter Berling, Os filhos do Graal, 1991, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1996, ISBN 978-972-231-982-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Um estranho em Goa. José Eduardo Agualusa. «Aquele era o Rio Quanza. As casas, adormecidas ao sol, repetiam o claro desenho das ruas do Dondo. Atordoado pelo calor, voltei a experimentar o estranho sentimento de me encontrar num lugar esquecido»

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Plácido Domingo contempla o Mandovi
«(…) Logo que o vi soube que era ele. Trouxera comigo velhas fotografias. Numa delas Plácido Domingo estava vestido de camuflado e estudava um mapa. Era um homem bonito, alto e sólido, de bigode e pêra ao estilo da época, todos os homens queriam ficar parecidos com Lenine. Numa outra fotografia aparecia encostado a um jipe, sorrindo, rodeado por jovens guerrilheiros. Havia ainda uma imagem preciosa: Plácido Domingo, com uma metralhadora a tiracolo, ao lado de Agostinho Neto e Mário Pinto Andrade. Coloquei as fotografias em cima da mesa: comandante Maciel? Ia a dizer, presumo, mas contive-me. O velho olhou para mim sem surpresa: demorou muito, meu jovem. Trouxe as fotografias comigo. Espalho-as sobre a cama. Conheço de cor cada uma delas. Existe de facto essa imagem preciosa: Plácido Domingo, com uma metralhadora a tiracolo, ao lado de Agostinho Neto e Mário Pinto Andrade. Continuemos: eu estava em Corumbá há uma semana. Viajara durante dois dias, de autocarro, entre o Rio de Janeiro e Campo Grande. Em Campo Grande entrevistei o poeta Manoel Barros. Já a caminho de Corumbá, enquanto o autocarro seguia aos solavancos por uma estrada de terra, tive tempo para reler a minha colecção de artigos sobre o comandante Maciel. Pouca gente conhecia o seu verdadeiro nome: Plácido Afonso Domingo.
Em 1962 ele era capitão do exército português. Nesse ano, numa operação cujo escândalo o regime de Salazar não conseguiu sufocar, desviou um avião para Brazaville e juntou-se aos guerrilheiros do MPLA. Desaparecia o capitão Afonso Domingo e nascia um mito: o comandante Maciel. Após a Revolução de Abril desembarcou no aeroporto de Luanda, com outros dirigentes do movimento, e foi levado em ombros por uma multidão febril. Num dos artigos que eu trouxe, um recorte do jornal Diário de Luanda, com a data de 15 de Agosto de 1974, há uma fotografia que mostra a chegada a Luanda de alguns dirigentes do MPLA. Um dos homens, em primeiro plano, parece intrigado e receoso. Consigo escutar, à distância de vinte e cinco anos, o coração dele: Chegámos, minha mãe, chegámos onde? No artigo não se faz menção ao comandante Maciel, este também não é, evidentemente, o seu verdadeiro nome de guerra, mas disseram-me que veio com aquele grupo. Podia ser o tipo que aparece de costas, no canto superior esquerdo, abraçando uma mulher. A estrada corria por entre lagoas brilhantes. Vi os jacarés adormecidos ao sol. Vi uma sucuri enrolada num pau. Pouco a pouco o céu mudou de cor, e as árvores encheram-se de pássaros: garças de asas luminosas, araras vermelhas, bandos de periquitos. As primeiras luzes de Corumbá brilhavam na noite quando me lembrei da velha cidade do Dondo (Plácido Domingo era do Dondo). Na manhã seguinte, ao contemplar o rio, compreendi o que levara o velho guerrilheiro a ficar ali. Aquele era o Rio Quanza. As casas, adormecidas ao sol, repetiam o claro desenho das ruas do Dondo. Atordoado pelo calor, voltei a experimentar o estranho sentimento de me encontrar num lugar esquecido. O mundo passara por aquelas ruas, e fora-se embora. O branco casario do porto pertencia a uma outra era, quando o futuro começava em Corumbá. Um velho pescador, limpando o suor do rosto com a ponta da camisa, contou-me que a cidade já fora o maior porto da América Latina. Eu conhecia a história. Primeiro a opulência, o fausto, a seguir a notícia de que o comboio avançara do litoral até uma cidade próxima, deixando o rio de ser o principal caminho. E depois o abandono. Risquei a segunda pergunta do meu caderno de apontamentos: por que decidiu viver em Corumbá? A primeira pergunta, na verdade, é que me fizera percorrer aquela distância toda: o senhor saiu de Angola em 1975 e não regressou. O que aconteceu? Plácido Domingo estava à espera que eu lhe perguntasse aquilo. Acho que esperara vinte anos: muito provavelmente você vai-se arrepender de me ter feito essa pergunta...» In José Eduardo Agualusa, Um Estranho em Goa, 2000, Livros Cotovia, Lisboa, colecção Série Oriental, Viagens, 2000, Fundação Oriente, ISBN 978-972-842-385-8.

Cortesia FOriente/LCotovia/JDACT

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A Trança Feiticeira. Henrique Fernandes. «Não confiou em ninguém a aventura vivida. Nem a Abelha-Mestra a quem solicitava conselhos e advertências. As amigas à noite estranharam. Não costumava ter aquele ar ausente»

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«(…) Se visse a roupa que tinha e a quantidade de sapatos. Nisto, era muito exigente. Queria as calças bem vincadas, as camisas sem a mais pequena nódoa, os sapatos sempre lustrosos. Mas não berrava. Dizia o que queria. na sua amabilidade, e não era necessário repetir. Todos se esforçavam para lhe satisfazer os gostos. Mais baixinho. em coro, acrescentavam: o menino era uma jóia ao contrário dos outros. As senhoras, de língua afiada, impertinentes, sempre a descobrir e apontar defeitos. Todas umas preguiçosas que até obrigavam as criadas a deixarem as suas tarefas, para erguer do chão um lenço, caído aos pés delas. E o patrão movia-se nas mesmas águas, desabrido nas suas ordens que queria cumpridas rigorosamente, sob pena de violenta censura ou sumário despedimento.
A-Leng, já refeita do abalo, estava agora cheia de curiosidade. Até se esquecera doutras encomendas de água. Fazia perguntas, aceitava a lengalenga, sem desconto dos exageros. por qualquer prevenção íntima, não revelou que o Menino a sequestrava. Bebeu duas tigelas de chá, em vez duma, e comeu uma fatia de bolo, feito
na véspera, que a senhora distribuíra às criadas. Quando saiu, ia, de facto, abalada. O conceito sobre o homem até então perverso, modificara-se. Não confiou em ninguém a aventura vivida. Nem a Abelha-Mestra a quem solicitava conselhos e advertências. As amigas à noite estranharam. Não costumava ter aquele ar ausente, o pensamento muito longe. Não se intrometia nas conversas, num silêncio distraído. Durante a noite inteira, a imagem do rapaz não a largou. Isto desesperou-a, porque estava mesmo a pensar demasiado nele, no tratamento gentilíssimo de siu-tché e no facto de deixá-la entrar primeiro através da porta. Com outro tipo de cara, não era nada feio, ao contrário do que a princípio achara.
À hora de levar a água da fonte, para a casa dele, enervara-se toda. O que sucederia nesse dia? Nada e teve uma desilusão. Não o viu, durante três dias. Guardou admirada outras tantas decepções. Ter-se-ia arrependido de conhecê-la, agora que era a aguadeira da casa? Temeria que ela fizesse alguma queixa? Mas se queixa houvesse, seria logo no primeiro dia. O que não adivinhava era que tudo fora planeado. Adozindo, com notável paciência queria que meditasse nele. No quarto dia, tivera um dia cansativo. Por mais que se empenhasse não chegaria à hora precisa, na casa do rapaz. Caminhava a passo regular, o corpo teso, as ancas a bambolear, ao ritmo pendular dos baldes. Nas axilas e nas costas, grandes manchas de suor. Na franja das calças e nos pés nus, lama. A única coisa limpa e apresentável, a trança negra, o seu incontestável orgulho. No cruzamento de duas ruas estreitas, parou, na sombra precária, para tomar alento. O sol de Junho refulgia implacável. Esfregou o rosto suarento, com o lenço pendurado na abertura da cabaia, junto à anca, devassando as artérias. Uma voz soou atrás. Boa-tarde. Estremeceu. Afinal, não a esquecera. Ele ali estava asseado, a camisa muito alva, o rosto cheirando a perfume que mais tarde aprendeu ser água de Colónia. Na mão direita, sangravam duas rosas aveludadas. O bem-estar dele era flagrante. Ela teve, pela primeira vez, a dolorosa noção de que estava suja, coberta de poeira, o corpo emanando a suor. Oferecendo as rosas, Adozindo disse: toma. Colhia-as para ti. São do meu jardim. Não posso aceitar. Tenho as mãos ocupadas. Queres que as deite fora? Não. São muito bonitas». In Henrique Senna Fernandes, A Trança Feiticeira, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-80-8.

Cortesia da FOriente/JDACT

O Legado do Vento. CG Fleck. «A maioria preferia as brincadeiras que misturavam meninos e meninas como jogos com bolas ou brincar às escondidas. Mas Rand já estava cansado desses jogos infantis, o que ele queria era se juntar aos meninos mais velhos que faziam torneios de lutas»

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Ano 188
«(…) Rand estremeceu ao ouvir aquilo. Ele temia seu tio Milfred mais do que qualquer coisa e com certeza não faria nada que forçasse uma visita inesperada do tio. Assim Rand assentiu pela última vez antes de deixar a casa. Ele saiu pela porta da frente e atravessou o belo jardim da mansão Arns. Sua família vivia em Gorland a mais antiga cidade da Liga e uma das maiores e mais ricas das sete capitais. Gorland era uma bela cidade que ficava ao lado do grande rio Gör e no passado fora a capital do povo Gormano, mas atualmente era dividida não só pelo relevo, mas também em ideais. Rand, porém, ignorava tal fato naquele momento de sua vida, para o menino a cidade se restringia as belas casas e prédios da Cidade Alta, onde a elite gorlandesa vivia. Em sua curta vida, raras vezes ele descera o platô para conhecer a Cidade Baixa, onde o restante da população habitava. Quando Rand chegou ao parque viu que muitas crianças já se encontravam por lá. Os menores brincavam com os empregados da família ou acompanhantes, enquanto as maiores ficavam em grupos para se divertiram em jogos ou brincadeiras. A maioria preferia as brincadeiras que misturavam meninos e meninas como jogos com bolas ou brincar às escondidas. Mas Rand já estava cansado desses jogos infantis, o que ele queria era se juntar aos meninos mais velhos que faziam torneios de lutas, andavam livremente pelas ruas e às vezes desciam até à Cidade Baixa. Rand viu Silas Nuond sentado em um banco sob a sombra de uma árvore. Ele correu até lá e deu bom dia ao amigo. Os dois haviam nascido com alguns dias de diferença e viviam juntos desde então, mesmo que as suas famílias não concordassem com isso. Mas tudo mudara algumas semanas antes, quando Silas começara a andar com seu irmão mais velho, deixando Rand com as outras crianças no parque. Será que hoje eu posso ir com vocês?, indagou Rand, com tamanha ansiedade que esqueceu o cumprimento. Silas olhou para Rand de soslaio e deu de ombros. Você poderia pedir para ele, insistiu Rand. Para ele me expulsar? Você não lembra como foi difícil para eu ser aceite? Tive até que envolver meu pai, respondeu Silas demonstrando irritação. Mas eu não aguento mais ficar brincando com as meninas, resmungou Rand. Você sabe o que tem que fazer, só precisa passar pelo teste. Silas respondeu com impaciência. Mas eu não posso descer... Você sabe disso, respondeu Rand, que sem perceber corou. Por isso eles te chamam de bundão. Todo mundo sabe que você é um filhinho da mamã, disse Silas sem compaixão. Rand se calou, pois naquele momento Kevin e os outros se aproximavam. Kevin Nuond tinha três a mais do que Rand e Silas. Em breve o rapaz entraria para a Guarda onde seria treinado para ser um oficial. Ele seria um bom soldado, era forte e alto, o corpo truncado e braços cheios de músculos apesar da pouca idade. Mas o que mais chamava atenção em sua fisionomia era o seu olhar. Olhar de cachorro louco como diziam pelas suas costas, um olhar de quem era capaz de fazer coisas que as pessoas normalmente temeriam sequer imaginar. Kevin estava sempre acompanhando por seus amigos Aran, Owen, Liam e Niall, que o seguiam sem hesitação. Ei Silas, você vem ou não?, indagou o Nuond mais velho, sem ao menos notar a presença de Rand. Vou sim, respondeu o irmão mais novo, evitando olhar para Rand. Enquanto o amigo se levantava, a mente de Rand começou a trabalhar alucinadamente e num ímpeto que misturava coragem e desespero ele falou: Kevin, eu posso ir com vocês? Todos os meninos ficaram em silêncio por um segundo. Até que Liam e Niall explodiram em risos. Sem demora os demais acompanharam as gargalhadas e Rand se enfureceu, pois sabia o motivo do escárnio. Porém Kevin não ria. Com a voz séria e seu olhar estranho perguntou: você quer vir Arns? Mas o que a sua mãe vai dizer a respeito disso? Eu não quero problemas com ela, já ouvi o suficiente nos últimos dias, e lançou um olhar venenoso para Silas. Novos risos, até mesmo Silas estava rindo, pois não havia percebido a inferência do irmão. Somente Kevin e Rand estavam em silêncio. Ela não vai dizer nada, respondeu Rand. Ela não precisa saber. E eu vou quebrar a cara do próximo que rir da minha mãe. Rand lançou a ameaça com um olhar sério e a voz firme. Mas os outros não respeitaram as suas palavras de imediato. Aran, Niall, Liam continuaram rindo até perceberam o olhar fixo dele e pouco a pouco o riso morreu. Nesse momento quem riu foi Kevin, mas era o seu riso soou como o de um louco e assustou os demais. Ele concordou com a cabeça e fez um sinal para Rand segui-los. Ao todo eram sete rapazes, que agora se dirigiam para um dos caminhos que dava acesso às escadarias que levavam à Cidade Baixa. Os meninos alcançaram a passagem e lá encontraram dois guardas sentados ao redor de uma diminuta mesa de madeira. Um estava de costas para a rua enquanto o outro observava com o canto do olho as crianças que se aproximavam. Os dois pareciam entretidos com um jogo de ossos e não deram muita atenção ao grupo que passava pelo portão. Rand tinha a certeza de que se tentasse passar por ali sozinho estaria sendo conduzido para a sua casa nesse exacto momento». In CG Fleck, Legado do Vento, Wikipédia. 
Cortesia de Wikipedia/JDACT

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os filhos do Graal. Peter Berling. «No final do Outono, chegou o corpo de montanheses procedente do distante país basco. Meu senhor, o senescal, não quis que acampassem entre os outros, por isso conduziu-os pessoalmente…»

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Montségur. 1243
«(…) Por favor, Pierre-Roger, a jovem colocou a mão em seu ombro, não espere nada do mundo exterior, pois que só o que se consegue assim é fechar os olhos diante da visão das portas do Paraíso. O Paraíso é a certeza que ninguém pode nos tirar! E despediu-se com um sorriso alegre. Entretanto, o Montségur ficara envolto nas trevas da escuridão nocturna, ao mesmo tempo que as estrelas luziam com um brilho mais claro. Em baixo, no vale, as fogueiras ardiam, mas as canções obscenas, os gritos das prostitutas e as blasfémias dos soldados entretidos no jogo de dados e com a bebida não chegavam até o alto da montanha. O ambiente no acampamento deixava muito a desejar. Aproximava-se o Outono. Há mais de meio ano estavam acampados naquele lugar, e embora nos primeiros dias alguns atrevidos tivessem pretendido assaltar o monte, confiando em suas próprias forças, fracassaram em todas as tentativas. Sua situação estratégica e as poderosas defesas da fortaleza vinham resistindo durante mais de duas gerações a todos os ataques. O senescal sabia disso e mantinha-se na expectativa apesar das contínuas pressões do legado, mas também Hugues des Areis mostrava-se cada vez mais irritado conforme transcorriam os entediantes dias de espera ao pé do pog. Ordenou aos seus capelães que rezassem missa várias vezes ao dia, como se suas orações pudessem melhorar a situação militar. Certa noite em que se apresentara ao franciscano, para rezar com ele, teve uma súbita revelação. Caçadores da montanha do país basco!, alfinetou William, que, obedecendo ao costume, já ajoelhara. Deveríamos contratá-los de imediato, ainda que nos custem muito dinheiro, mesmo que seja quase impossível que entrem num acordo antes de terem recolhido suas colheitas. Santificado seja o nome do Senhor e da Santíssima, começou William. Levanta esse traseiro flamengo, retrucou o senescal, e dê-me a jarra. A ideia merece um brinde!

Os montanheses. Montségur, Inverno de 1243-44
No final do Outono, chegou o corpo de montanheses procedente do distante país basco. Meu senhor, o senescal, não quis que acampassem entre os outros, por isso conduziu-os pessoalmente para além do pog, debaixo do Roc de la Portaille, onde a parede rochosa ascende tão verticalmente que de baixo apenas se pode antever a grande torre central do Montségur. Ao chegar, permitiu que descansassem. Fui o único escolhido para acompanhá-los, o que provocou inveja em meus companheiros. À tarde voltámos a empreender a marcha, deslizando um por um debaixo da parede norte, protegidos de qualquer olhar devido aos altos pinheiros do bosque de Serralunga, cujos limites chegam até o mesmo rochedo. Caminhando atrás de Gorka, um dos chefes bascos, a duras penas conseguia manter-me ao ritmo de seus passos e ao mesmo tempo sustentar uma conversa na qual nos servíamos de uma mistura de vozes italianas e latinas. Não tinha a mínima ideia da direcção que tomava nossa expedição secreta. Roc de laTour, informou-me Gorka sem mais rodeios. Ofegante, eu tropeçava pelo caminho. Para quê? Para cortar o chouriço, é preciso atá-lo primeiro. Parece que se esqueceram desse detalhe. Calei-me. Por um lado, porque suas palavras me fizeram sentir fome imediatamente, e por outro também porque a mesma ideia da comida me fez pensar de imediato no Santo Graal, de quem todos estavam falando no acampamento, mas sobre o qual ninguém conseguia dar uma resposta minimamente satisfatória. Devia tratar-se de alguma coisa superior a um tesouro, de uma espécie de bebida reconfortante que já não fazia sentir sede nunca, de um maná celestial que livraria um pobre frade como eu de toda fadiga terrena. Não estamos buscando um tesouro, o tal do Graal?, prossegui, indagando com certo recato, pois me dava vergonha não saber melhor das coisas e porque vira diversas vezes as reacções mais estranhas de enfado quando um de nós perguntava pelo motivo real daquela cruzada. Pois não, William, sorriu Gorka. Vamos à conquista de um monte de pedras que não valem nada, com que até a presente data ninguém se preocupou, razão pela qual elas se converteram, para os defensores do Montségur, numa cómoda abertura pela qual recebem as suas provisões. Mas nós somos o gato que a partir de agora vigiará essa ratoeira!» In Peter Berling, Os filhos do Graal, 1991, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1996, ISBN 978-972-231-982-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Contos. Um Drama. Júlio Dantas. «Está aí o portador da carta?, perguntei eu ao criado. Está sim, senhor doutor. Mande entrar. O António, tipo de escudeiro de casa nobre provinciana, vestido de preto…»

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«(…) Os melhores romances são, evidentemente, aqueles que nunca se chegam a escrever. Ontem, recolhi mais cedo a casa. Abri, ao acaso, um livro de Vaschide e Vurpas sobre a Lógica Mórbida, aborreci-me vinte vezes, vi outras vinte vezes o relógio, atirei-me sobre o meu velho Récamier de mogno e bronze doirado onde é tradição que dormia a sesta Junot, e ia, por fatalidade histórica, a adormecer também, quando bateram as sete horas. Devia estar às sete e meia no Avenida Palace. Este inevitável jantar do Paço de Souza, com o seu bric-a-brac e as suas aventuras de Londres, oprimia-me como uma trovoada próxima. Vesti a casaca, fatigado, sonolento, amarrotei nas mãos um execrável par de luvas novas, embrulhei-me no meu quimono inglês, e ia a acender o cigarro para sair, quando o criado entrou com uma carta. Está o portador à espera. De quem é? Não disse, senhor doutor. Vi o sobrescrito: letra de mulher. Voltei-o: havia, sobre o lacre doirado, vestígios de um sinete de armas Pattes de mouche rápidas, nervosas, convulsas. O perfume pareceu-me conhecido. Pus-me a adivinhar a proveniência. Não atinei. Era uma carta de mulher. Abri.
Meu amigo. Hesitei muito antes de me resolver a escrever-lhe esta carta. Parto hoje para Bruxelas, inesperadamente. Não, meu amigo, não queria saber porquê. Escrevo-lhe com os olhos vermelhos de chorar e tão turvos de lágrimas, que mal vejo as pobres letras que lhe mando. Há de ouvir falar muito de mim. Hão de dizer-lhe da sua pobre amiga todas as ignomínias e todas as torpezas. Acredite-os. Deve ser tudo verdade. Eu nem já tenho o direito de exigir que me respeitem. Esqueci tudo, perdi tudo de abdiquei de tudo. Aqui me tem, com as minhas pobres mãos nas suas, a dizer-lhe adeus e a pedir-lhe o que só a um grande amigo pediria. Deixo-lhe, confiando à sua guarda, um pouco da minha alma e da minha vida. De todas as afeições que me restam, fiéis nos bons e nos maus momentos, escolhi-o a si. Perdoe-me. Disse-me um dia, brincando, que queria ser o padrinho dele. A ninguém melhor o poderia confiar, neste doloroso e delicioso instante em que deixo Lisboa, talvez para sempre. Entrego-o ao seu coração, à sua bondade, à sua ternura. Trate-o bem. Seja amigo dele. Leva ainda, nas mãozitas brancas, os meus últimos beijos e as minhas últimas lágrimas. Quanto me custou a deixá-lo, pobre amor! Aí o tem. É seu. Quis ainda que ele fosse comigo, mas era impossível. Como havia de fazer esta longa viagem até Bruxelas impertinente e doentinho como está! E depois, que será amanhã a minha vida, que serei eu própria, amanhã? Não me esqueci de nada. Vão com ele os seus brinquedos predilectos. O portador, que é o meu velho criado António, leva ordem de lhe entregar tudo. Receba-o e fale-lhe. Que atracção que nós outras, mulheres, temos para o abismo, e como eu me sinto, neste instante em que lhe escrevo, horrivelmente feliz e deliciosamente desgraçada! Adeus. Beijo as suas mãos amigas. Dê-lhe, ao pobre querido, o meu último beijo. A cabeça escalda-me, sinto vertigens. É a hora do Sud. Uma vez ainda, adeus. Sua amiga. Luisa.
Está aí o portador da carta?, perguntei eu ao criado. Está sim, senhor doutor. Mande entrar. O António, tipo de escudeiro de casa nobre provinciana, vestido de preto, os olhos inflamados de chorar, surgiu à porta. Trazia nos braços uma espécie de berço de verga, acolchoado e coberto com um açafate. Aproximei-me, inquieto e abri. Era um gato francês, branco e desdenhoso, soberbo e indiferente, que me olhou com estranheza e se espreguiçou, ronronando, entre uma grande bola de celulóide e uma cabeça vermelha de Polichinelo». In Iba Mendes, Contos Portugueses, I volume, Livro 239, Projecto Livro Livre, Júlio Dantas, 2014, Poeteiro Editor Digital.

Cortesia de PoeteiroED/JDACT

A Cruz de Esmeraldas. Cristina Torrão. «Otmar atirou com a tenaz para cima de uma mesa e vociferou: e o que esperas atingir com uma história dessas? As cruzadas são a minha única possibilidade, minha e do Johann, de alcançar glória e riqueza»

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Lusbuna. Verão de 1142
«(…) Deus havia dado ao ferreiro mais famoso de Colónia seis filhas, mas nenhum herdeiro, e ele alimentava a esperança de que o jovem casasse com uma das duas ainda solteiras e um dia lhe tomasse conta da ferraria. Apesar da família dele ter caído em desgraça, Konrad nascera fidalgo, o que, como Otmar costumava dizer, saltava aos olhos de qualquer um. Só um cavaleiro poderia emanar tanta autoridade, como se nada nem ninguém fosse capaz de o amedrontar ou surpreender. Além disso, o ferreiro pretendia evitar que alguma das suas moças se precipitasse, pois notava como elas pareciam derreter perante os olhos que tanto eram cinzentos como azuis, conforme a luminosidade, e os longos cabelos castanhos. Konrad admitia que ter a ferraria como herança não era uma má perspectiva. Os outros dois ajudantes invejavam-no por isso. E quando se imaginava a casar com a loira Hildrun, uma das raparigas, a tentação era grande... Mas não cederia! Era filho de nobre e não passaria a sua vida a suar à boca do forno! Da sua herança perdida, conseguira salvar duas espadas, um punhal, um capelo e a cota de malha do seu pai, que ele tratava com desvelo. Nos seus tempos livres, tinha construído dois escudos, um para ele e outro para o Johann. Além disso, treinava-se na arte de combater com jovens da baixa nobreza, aspirantes a cavaleiros, que o tinham aceite no seu grupo. Nos primeiros tempos de trabalho na ferraria, planeara juntar dinheiro para comprar um bom cavalo, que lhe permitisse participar em torneios e ganhar grandes quantias ou até um feudo..., se houvesse outro doido, que, como o seu pai, apostasse o seu património!
Teve no entanto que desistir de tais planos, ao dar-se conta que só dali a uns cinco anos de poupanças drásticas possuiria o suficiente para averbar um bom animal. E depois, de quanto tempo precisaria até atingir todos os seus objectivos? Tinha sobretudo que pensar no Johann. O rapaz já completara quinze anos, não aprendia as artes da guerra e brevemente nada mais lhe restaria do que tornar-se monge. Konrad não se conseguia imaginar a viver num convento e pretendia salvar o irmão de tal destino. Ultimamente, surgira-lhe uma nova ideia: tomar o sinal da cruz! A cidade de Edessa, na Terra Santa, caíra há dois anos em poder dos turcos. Bernardo Claraval, o monge cisterciense mais famoso da Cristandade, mentor do próprio papa, tinha, nesse ano do Senhor de 1146, pregado a favor de novas cruzadas em toda a França, Borgonha, Lotaríngia e Flandres. Konrad ainda não tinha informado Otmar sobre estes planos. Agora, fosse porque o mestre o enervava, fosse por não mais poder adiar a questão, disse: Bernardo Claraval vai pregar pelas cruzadas na catedral de Speyer, no Natal. Não só por isso ele irá lá, replicou Otmar, que depositava novos pedaços de ferro no forno. O nosso arcebispo Arnold pediu-lhe para acabar com a matança dos judeus. O culpado é esse monge Radulf, opinou um dos ajudantes, enquanto dava ao fole. Ele é de opinião que a gente devia acabar com os inimigos de Deus aqui na nossa terra, antes de partir para a Terra Santa.
Um grande disparate!, retorquiu Otmar, que entre os seus clientes contava com judeus ricos. As cruzadas servem para tornar os caminhos e os lugares santos mais seguros aos nossos peregrinos. Ora, o que é que os judeus que aqui moram têm a ver com isso? Mas os pobres gostam de ouvir o monge Radulf pregar, insistiu o outro, desesperados como estão, depois do desastre das colheitas. Konrad também não via sentido nestas matanças de judeus, mas a história desviava a conversa do seu objectivo e anunciou: gostaria de ir a Speyer no Natal. Dás-me uns dias livres? O que te leva lá?, perguntou Otmar. Quero ouvir a pregação do monge Bernardo, para melhor me poder decidir. Decidir? Sim..., talvez embarque nas cruzadas. O quê? O mestre aprontava-se para tirar um pedaço de ferro do forno, mas interrompeu-se. Tu sabes desde o início que esta não é a vida que tenciono levar. Otmar atirou com a tenaz para cima de uma mesa e vociferou: e o que esperas atingir com uma história dessas? As cruzadas são a minha única possibilidade, minha e do Johann, de alcançar glória e riqueza. Esqueceste de que vos espera um empreendimento cheio de perigos? Eu sou um cavaleiro e não tenho medo da guerra! Um cavaleiro? Se não fosse eu, não tinhas sequer um prato de papa bolorenta por dia para forrar o estômago. Konrad esforçou-se por manter a calma: estou-te eternamente grato, mestre. Mas eu sou um homem livre e tenho o direito de fazer da minha vida o que muito bem entender. E queres levar o enfezado do Johann contigo? Ele nem sequer sabe o que é uma espada. Infelizmente é verdade. Mas a viagem dura meses, ele terá oportunidade de treinar. Se não morrer antes de cansaço. Não posso permitir que o rapaz apodreça num convento. Otmar sabia que não lhe adiantava opor-se a um homem que havia sido armado cavaleiro. Mas ainda disse: eu confio em ti, que diabo, e tinha tantas esperanças... Encontrarás outro. Quem não quer trabalhar para o famoso ferreiro Otmar? Quando se tornar conhecido que procuras um novo ajudante, forma-se logo uma bicha à porta da ferraria. E quando é que os cruzados se fazem ao caminho? Ainda não sei. Por isso quero ir a Speyer». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 18 de setembro de 2016

Os Versículos Satânicos. Salman Rushdie. «A cadeira de rodas ficou vazia no meio dos estúdios silenciosos; sua ausência revelando o mau gosto da artificialidade dos cenários; de um a quatro, inventaram desculpas para a ausência da estrela»

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«A reencarnação sempre foi um assunto importante para Gibreel, durante quinze anos o maior astro da história do cinema indiano, mesmo antes de derrotar miraculosamente o Vírus Fantasma que todo mundo começara a acreditar que ia pôr um fim em seus contratos. Alguém, portanto, devia ter sido capaz de prever, só que ninguém previu, que quando ele se levantasse e voltasse à activa conseguiria por assim dizer transformar em sucesso o fracasso dos germes e abandonar para sempre sua velha vida, uma semana depois de seu quadragésimo aniversário, desaparecendo, puf!, como num truque, sumindo no nada. Os primeiros a notar sua ausência foram os quatro membros da equipa de sua cadeira de rodas no estúdio de cinema. Muito antes da doença, ele tinha adquirido o hábito de ser transportado de cenário para cenário, no grande estúdio de DW Rama, por esse grupo de velozes e confiáveis atletas, porque um homem que chega a fazer onze filmes simultâneos precisa preservar suas energias. Guiados por um complexo código de traços, círculos e pontos que Gibreel recordava de sua infância passada entre os famosos entregadores de almoço de Bombaim, os homens da cadeira de rodas o transportavam de personagem para personagem, entregando-o pontualmente e sem erro, da mesma forma que seu pai costumava entregar almoços. E, depois de cada tomada, Gibreel voltava para a cadeira e era empurrado em alta velocidade até ao próximo cenário, para receber novos figurinos, nova maquilhagem e novas falas. Uma carreira no cinema falado de Bombaim, ele dizia à sua leal equipa, parece mais uma corrida de cadeira de rodas com uma-duas paradas no box durante o trajecto. Depois da doença, do Germe Fantasma, da Moléstia Misteriosa, do Vírus, voltou ao trabalho, cuidando-se mais, só sete filmes de cada vez..., e então, sem mais nem menos, não estava mais lã. A cadeira de rodas ficou vazia no meio dos estúdios silenciosos; sua ausência revelando o mau gosto da artificialidade dos cenários. Os empurradores da cadeira de rodas, de um a quatro, inventaram desculpas para a ausência da estrela quando os executivos cinematográficos caíram em fúria sobre eles: Ji, deve estar doente, sempre foi famoso pela pontualidade, não, por que a crítica?, maharaj, grandes artistas têm o direito de ser temperamentais de vez em quando, na, e por causa desses argumentos transformaram-se nas primeiras vítimas do inexplicável passe de mágica de Farishta, sendo despedidos, quatro três dois um, ekdumjaldi, chutados para fora dos portões do estúdio, de forma que uma cadeira de rodas ficou abandonada, juntando poeira debaixo dos coqueiros pintados em torno de uma praia de serragem de madeira. Onde estava Gibreel? Os produtores cinematográficos, deixados sete vezes na mão, entraram em custoso pânico. Está vendo, ali, o campo de golfe do Willingdon Club?, só nove buracos hoje em dia, os arranha-céus brotaram dos outros nove como gigantescas ervas daninhas, ou, digamos, como lápides marcando o local onde jaz o corpo esquartejado da cidade velha, ali, bem ali, executivos de alto-escalão, errando até as tacadas mais simples; e, olhe para cima, tufos de cabelos angustiados, arrancados de cabeças importantes, esvoaçando das janelas dos níveis superiores. A agitação dos produtores era fácil de entender, porque naqueles dias de plateias declinantes e da criação de novelas históricas e donas de casa contemporâneas batalhando na rede de televisão, havia um único nome que, colocado acima do título do filme, podia ainda ser um tiro certo, uma garantia cem por cento de um ultra-triunfo, de um super sucesso, e o dono do citado nome tinha partido, para cima, para baixo ou para o lado, mas seguramente e inquestionavelmente tinha se escafedido... Por toda a cidade, depois que telefones, motociclistas, policiais, homens rãs e dragas raspando o fundo da baía em busca de seu corpo trabalharam exaustivamente, mas sem sucesso, epitáfios começaram a ser pronunciados em memória do astro que se tinha apagado. Num dos sete impotentes cenários do Rama Studios, miss Pimple Billimoria, a última deusa apimentada, ela não é nenhuma senhorita frívola e falante, é uma explosão de dinamite, sim senhor, desvestida com os véus de uma dançarina do templo e posicionada debaixo das contorcidas representações em papelão de figuras tântricas copulantes do período Chandela, e percebendo que a sua grande cena não aconteceria, que sua grande chance se espatifara, apresentou suas desdenhosas despedidas a uma plateia de operadores de som e electricistas que fumavam seus cínicos bidis. Assistida por uma ayah tonta de tristeza, toda atrapalhada, Pimple tentou o desprezo. Meu Deus, que sorte!, disse. Pois hoje era a cena de amor, chhi chhi, e eu estava desesperada pensando como ia aguentar aquela boca com aquele hálito de merda de barata podre». In Salman Rushdie, Os Versículos Satânicos, 1989, Publicações dom Quixote, 2001, colecção Ficção Universal, ISBN: 978-972-200-746-7

Cortesia PdQuixote/JDACT

A Cruz de Esmeraldas. Cristina Torrão. «Porque é que o destino lhe fora tão cruel? Também ele nascera no seio de uma família fidalga e, no entanto, era obrigado a fabricar armas e a ferrar os cavalos dos ricos e poderosos para sobreviver»

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Lusbuna. Verão de 1142
«(…) Zubaida libertou-a. Pela segunda vez nesse dia, presenteou-a com um dos seus raros sorrisos e disse, enquanto lhe afagava os caracóis: não tenhas medo! Deus nunca te abandonará! O sol de Dezembro mais não era do que uma estrela distante e fria a espalhar a sua luz desmaiada na praça da catedral de Colónia, onde decorria o mercado. Depois de ter passado horas a suar na ferraria, Konrad aconchegava-se enregelado na sua capa de lã grosseira. Ainda assim, o frio evitava que chapinhasse em lama, ao não permitir que a neve derretesse. Uma caneca de vinho quente, temperado com canela, cravinho e pimenta, aquecer-lhe-ia as entranhas... mas não seria melhor poupar o dinheiro? Na verdade, um ajudante de ferreiro nem se podia queixar, tinha mais na sua bolsa do que a maioria do povo. Konrad alimentava, contudo, planos ambiciosos e precisava de todas as moedas que ganhasse. Reparou num grupo de fidalgos que segurava canecas fumegantes nas mãos e o cinzento azulado dos seus olhos congelou, como se tivesse engolido a neve. Munidos de mantos forrados a peles, os fidalgos não precisavam de se encolher do frio. Barretes, igualmente forrados, protegiam-lhes as cabeças e as botas grossas, ao contrário das suas sapatas finas de couro de cabra, evitavam que o gelo se lhes entranhasse nos pés. Riam-se, satisfeitos. Konrad cerrou os dentes e afastou-se. Porque é que o destino lhe fora tão cruel? Também ele nascera no seio de uma família fidalga e, no entanto, era obrigado a fabricar armas e a ferrar os cavalos dos ricos e poderosos para sobreviver. Não fora seu pai um parvo, que perdera o património num torneio de cavalaria! Konrad não se lembrava bem de sua mãe, morrera tinha ele cinco anos, nem da irmã, que não sobrevivera à infância. O seu pai, Lothar, um cavaleiro com castelo próprio, começou, depois da morte prematura da esposa, a beber e a desleixar-se nas suas obrigações para com o senhor a quem prestava vassalagem. Com oito anos, Konrad mudou-se, como era hábito, para o castelo de um nobre conhecido, a fim de iniciar a sua educação. Começou como pajem, com catorze anos passou a escudeiro e com vinte foi armado cavaleiro. Entretanto, o pai tornou a casar, o que restabeleceu a ordem na sua vida. A nova esposa deu-lhe outro filho, Johann, mas mais uma vez o azar bateu à porta da família. Depois de alguns desmanchos, a senhora morreu ao dar à luz uma criança, que não sobreviveu sequer uma semana, e Lothar tornou a deixar-se dominar pela bebida.
Há três anos atrás, cheio de dívidas, o homem apostara o seu património num torneio de cavalaria e perdera tudo. Morrera pouco depois, ao envolver-se numa rixa de taberna, onde fora afogar o seu desespero. Konrad, que acabara de ser armado cavaleiro, viu-se de um momento para o outro destituído de herança. Ele e o irmão foram rejeitados pelo próprio nobre que o educara, não tinham sequer onde morar e viram-se obrigados a pedir ajuda a Otmar, o melhor ferreiro de Colónia, que havia trabalhado para o pai. Otmar ferrava os cavalos dos melhores clientes, mas a sua especialidade eram as armas. Usava um aço especial para espadas, um segredo só dele, que as fazia muito cobiçadas. Também manufacturava cotas de malha, um trabalho de filigrana, que poucos dominavam: milhares de pequenas argolas eram produzidas uma a uma e depois fundidas ou entrelaçadas umas nas outras. Otmar não hesitou em empregar o atlético Konrad, mas para o irmão magrinho, de doze anos, não havia trabalho na sua oficina. A única solução que o mais velho encontrou foi confiar o rapazito à guarda dos monges beneditinos de Deutz, mosteiro situado na margem direita do Reno, em frente à cidade de Colónia. Os monges prontificaram-se a ficar com Johann, na condição de que o rapaz trabalhasse em todo o lado, onde dele precisassem, fosse na cozinha, na ervanária, nos estábulos, no hospital ou na casa de hóspedes. A Konrad custou-lhe deixar o irmão entre os monges, mas estava decidido a, assim que pudesse, o ir buscar e fazer dele um bom cavaleiro.
Depois da sua volta pelo mercado, Konrad regressou à ferraria. Aí, libertou-se da capa, da túnica e até da camisa interior, pôs o avental de couro em cima do tronco nu e amarrou os cabelos castanho-claros num rabo-de-cavalo. Com a ajuda de uma tenaz, tirou o pedaço de ferro, que antes da pausa do almoço deixara no forno e começou a martelá-lo. Tudo fez sem dizer palavra e Otmar comentou: a volta pelo mercado parece que não te fez muito bem! Konrad não respondeu. Continuou a martelar aquilo que mais tarde seria a ponta de uma lança, como se quisesse desfazer a bigorna que lhe servia de apoio. O ferreiro trocou um olhar com os seus outros dois ajudantes e perguntou: tornaste a sonhar com coisas que não podes pagar? O jovem parou de martelar e fitou o mestre. Os seus olhos, que na parca iluminação da oficina eram cinzentos como a fuligem, escondiam a revolta que o devorava, e ele limitou-se a replicar: isso é comigo. Otmar abanou a cabeça: devias aceitar o teu destino, homem. Enquanto sonhares com uma vida de cavaleiro glorioso, não encontrarás paz. Konrad respirou fundo, a fim de não agredir o único homem que o ajudara na fase mais difícil da sua vida, e retomou o seu trabalho. Mas o mestre insistiu: o teu futuro não é tão negro como isso. És forte, esperto e trabalhador, podes ser ainda melhor ferreiro do que eu. E tu sabes que eu deposito a máxima confiança em ti... Konrad sabia aonde ele queria chegar». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Erotismo Queirosiano. Ana Luísa Vilela. «A quase totalidade da produção não-ficcional de Eça de Queirós, no início da sua actividade literária, materializou-se na sua colaboração n’ O Distrito de Évora»


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A Construção Ideológica
«Da vasta publicação não-ficcional de Eça de Queirós pode emergir, dialogando com a obra romanesca, a construção simbólica de um imaginário erótico. Essa construção é veiculada pela abordagem de uma série temática, de motivação fortemente afectiva, que pode constituir um conglomerado de motivos e uma enunciação de princípios valorativos que terão um elevado poder estruturante, tanto na ficção como no discurso não-ficcional. Constituíram o material de análise os textos deliberadamente não ficcionais publicados na Imprensa, como as crónicas jornalísticas ou os prefácios, ou os textos não publicados pelo autor, como as cartas, recolhidas e publicadas sem a sua presença. Se a motivação jornalística é real em grande parte dos textos, o certo é que, na sua ampla diversidade, todos os textos analisados possuem uma mesma e singular condição de enunciação: a do lugar de mediação e interferência entre as instâncias disjuntas do homem e do autor, do escritor e do leitor. O registo não-ficcional queirosiano traduz, pois, nos seus diferentes modos, o fluente devir de uma subjectividade enunciativa, profunda e ostensivamente comprometida. Assim, a fixação e encadeamento de uma simbólica do eros nestes textos, que actualizam as transformações figurativas e retóricas da subjectividade, poderá mostrá-los, igualmente, como uma reorganização sintagmática de estados de alma, a tradução movente da competência passional de um sujeito enunciador. Também por isso, a análise destes textos integra uma geral indagação do processo queirosiano de enunciar o desejo.
Deste vasto conjunto textual, destacam-se, desde a década de 67, pela sua recorrência e global coerência, dois conjuntos temáticos cuja unicidade simbólica tentarei elucidar: a representação da figura feminina, caracterizada por uma saturação mítica e por uma central dissociação; e a representação da decadência, caracterizada pela perda de um sentido original, pela perturbação de uma ordem e pela aniquilação do vigor consciente. Ambos os conjuntos mantêm cingidas relações entre si e com a crítica literária e social; a desordem feminina e a decadência são as figuras em que, de forma sistemática, se encarna o investimento dos valores, quer estéticos, quer ideológicos. A quase totalidade da produção não-ficcional de Eça de Queirós, no início da sua actividade literária, materializou-se na sua colaboração n’ O Distrito de Évora, jornal de que foi, entre Janeiro e Agosto de 1867, director e principal redactor. Da variada temática desta sua extensa colaboração avulta, e talvez  predomine, o discurso do moralismo social, em que é insistente a referência reprobatória à prostituição e à obscenidade.
Integram a preocupação morigeradora três outros veios temáticos: a representação sarcástica das mulheres, a crítica à decadência literária e a rejeição da vida moderna. De facto, este último constitui o tema englobante e como que explicativo, contextual. Assim, prevalece desde logo uma aguda consciência da decadência que caracteriza o tempo presente. A leitura de Cheiros de Paris, de Louis Veuillot (simultânea aliás à de Taine e à de Victor Hugo) é talvez o ponto de partida factual para a sistemática representação da actualidade cultural como uma época crepuscular e degenerescente. Já presentes nesta época, a artificialidade da cultura urbana e o seu afastamento em relação à Natureza consubstanciam, neste momento, uma fusão curiosa de reflexões e leituras: o romantismo de Heine e Hugo, o áspero e apocalíptico catolicismo de Veuillot, o sentimento de indigenato e a aguda observação de Taine em Voyage en Italie. Será particularmente marcante a imagem de Paris, tipificação da vertiginosa e decadente cidade-civilização, à qual se opõe a doce, indolente e voluptuosa vida meridional. Assim, a representação de Lisboa recupera traços da vã agitação do Paris de Veuillot e traços da preguiça da Nápoles de Taine. A crítica literária constitui outro domínio íntima e explicitamente associado ao moralismo social. Um mesmo quadro da decadência, de que a literatura é um dos mais efectivos sintomas, integra tanto a banal e amaneirada literatura romântica como a literatura exclusivamente retórica de Mallarmé, de Baudelaire, Leconte de l’Isle, Catulle Mendès.
O sexo mercantil, a emancipação feminina, a desagregação dos valores matrimoniais (amor livre), o rebuscamento formal e a consagração literária da paixão ilícita constituem pois, desde 1867, motivos da representação da decadência, integrando uma série simbólica caracterizada pela inversão e artificialidade: isto é, pela perda. Inquieto e ressentido, o discurso da perda processa duas noções básicas: a noção de que o curso da História está inflectido por uma falsificação, uma perversão irremediável; e a noção da aproxima­ção assimptótica de uma catástrofe - que está sempre iminente, mas nunca mais chega: “Hoje em quase toda a Europa se dá o mesmo: na véspera de grandes factos sociais, de terríveis transformações, por toda a parte, na França, na Espanha, na Inglaterra, em Portugal, a literatura decai.
Enquanto a desejada catástrofe não chega, e Eça encenou, por várias maneiras, a sua chegada, a representação do presente enquanto véspera da catástrofe caracteriza-se pelas figuras da estagnação e do torpor que, sempre de uma forma ou de outra associado à languidez e à lascívia, atravessando como um leit-motiv toda a ficção queirosiana, está no Distrito de Évora já plenamente configurada. A reflexão sobre esse vazio interior abre de resto caminho à representação deliciada da influência do clima meridional, a qual, muito provavelmente, terá encontrado uma impressiva sugestão em Taine e nas suas descrições da indolência sensual dos lazzaroni napolitanos». In Ana Luísa Vilela, Erotismo Queirosiano, Universidade de Évora, ContraNatura, Wikipedia.

Cortesia de ConttaNatura/Wikipedia/JDACT

sábado, 17 de setembro de 2016

Herege. Ayaan Hirsi Ali. «Devo odiar o cientista que descobriu a cura da malária? Devo ensinar minha filha a odiar pessoas apenas porque a religião delas é diferente? Por que transformamos nossa religião em uma religião de ódio…»

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«(…) Voltarei a tratar desse grupo negligenciado e, em grande medida, desconhecido. Por ora, basta dizer que escolhi identificar-me com os dissidentes. Aos olhos dos muçulmanos de Medina, somos todos hereges, pois tivemos a temeridade de questionar a aplicabilidade de ensinamentos do século VII ao mundo do século XXI. Entre os dissidentes incluem-se pessoas como Abd Al-Hamid Al-Ansari, ex-decano de direito slâmico da Universidade do Catar, que condenou o ódio às religiões não islâmicas. Ele citou na íntegra uma mulher saudita que indagou por que sua filha devia ser ensinada a odiar não muçulmanos: eles querem que eu odeie o cientista judeu que descobriu a insulina, que uso para tratar minha mãe? Devo ensinar minha filha que ela tem de odiar Edison, o inventor da lâmpada elétrica que ilumina o mundo islâmico? Devo odiar o cientista que descobriu a cura da malária? Devo ensinar minha filha a odiar pessoas apenas porque a religião delas é diferente? Por que transformamos nossa religião em uma religião de ódio contra quem difere de nós? Al-Ansari cita então a resposta de um eminente clérigo saudita: isso não é da sua conta e a cooperação com os infiéis é permitida, mas só como recompensa por serviços, e não por amor. Al-Ansari propõe tornar o discurso religioso mais humano. E é precisamente nisso que reformistas residentes no Ocidente, como Irshad Manji, Maajid Nawaz e Zuhdi Jasser, se empenham. Eles têm em comum a tentativa de modificar, adaptar e reinterpretar a prática islâmica a fim de tornar o discurso religioso mais humano.
Quantos muçulmanos pertencem a cada grupo? Mesmo se fosse possível responder decisivamente essa questão, não sei se isso tem importância. No rádio e televisão, na comunicação social, em muitíssimas mesquitas e, obviamente, no campo de batalha, os muçulmanos de Medina chamam a atenção do mundo. Mais perturbador é o crescimento abrupto do número de jihadistas muçulmanos nascidos no Ocidente. Uma estimativa da ONU em Novembro de 2014 diz que cerca de 15 mil combatentes estrangeiros de no mínimo oitenta países viajaram para a Síria para se juntar aos jihadistas radicais. Mais ou menos um quarto deles provém da Europa Ocidental. E não são apenas homens jovens. De 10% a 15% dos oriundos de alguns países ocidentais que viajaram para a Síria são mulheres, segundo estimativas do grupo de pesquisa ICRS. Há estatísticas ainda mais preocupantes. Segundo estimativas do Pew Research Center, as projecções mostram que a população muçulmana dos Estados Unidos crescerá de aproximadamente 2,6 milhões actuais para 6,2 milhões em 2030, principalmente em consequência de imigração e de fecundidade acima da média. Embora em termos relativos isso venha a representar menos de 2% da população norte-americana total (1,7% para ser mais exacta, em comparação com cerca de 0,8% hoje), em termos absolutos essa população será mais numerosa que a de qualquer país da Europa Ocidental com excepção da França. Sendo imigrante de origem somali, não tenho objecção alguma a que milhões de outras pessoas do mundo muçulmano venham para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor para si mesmas e suas famílias. O que me preocupa são as atitudes que muitos desses novos muçulmano-americanos trarão consigo. Aproximadamente dois quintos dos imigrantes muçulmanos entre hoje e 2030 provirão de apenas três países: Paquistão, Bangladesh e Iraque. Outro estudo do Pew, sobre a opinião no mundo muçulmano, mostra quantas pessoas nesses países têm ideias que a maioria dos ocidentais consideraria extremistas. Três quartos dos paquistaneses e mais de dois quintos dos bengaleses e iraquianos pensam que as pessoas que deixam o islão merecem a pena de morte. Mais de 80% dos paquistaneses e dois terços dos bengaleses e iraquianos acham que a lei da sharia é a palavra de Deus revelada. Proporções semelhantes dizem que o entretenimento ocidental fere a moralidade. Só minúsculas fracções dessa população não se incomodariam caso suas filhas se casassem com cristãos. Apenas uma minoria considera que matar mulheres nunca se justifica por motivo de honra. Um quarto dos bengaleses e um dentre oito paquistaneses acha que as explosões suicidas em defesa do islão são frequentemente ou às vezes justificadas». In Ayaan Hirsi Ali, Herege, tradução de Laura Motta e Jussara Simões, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2015, ISBN 978-854-380-373-9.

Cortesia de ESchwarcz/CLetras/JDACT