terça-feira, 17 de setembro de 2019

Isabel I. O Anoitecer de um Reinado. Margaret George. «Achei que essa fosse a sua função, disse Drake. Walsingham ficou mais tenso e disse: faço o melhor que posso com o que está ao meu dispor»

Cortesia de wikipedia e jdact

Isabel. Maio de 1588
«(…) Toda a frota?, perguntou Charles Howard. Isso nos deixaria desprotegidos. Se a Armada conseguir escapar, entrará aqui sem resistência alguma, afirmou, arqueando as sobrancelhas para expressar a sua preocupação. Charles era um homem calmo, diplomático, que conseguia lidar com personalidades difíceis, o que fazia dele um alto comandante ideal. Mas Drake era difícil de ser controlado e acalmado. Nós os encontraremos, disse. E, quando o encontrarmos, não poderemos ter poucos navios. Robert Dudley, conde de Leicester naquele ambiente formal, irritou-se com a afirmação e disse: preocupa-me mandar todos os navios de uma só vez. V parece uma velhota falando!, bradou Drake. Então somos duas velhotas, disse Knollys. Ele era reconhecidamente cauteloso e tinha muitos escrúpulos. Se fosse um monge, usaria uma camisa de silício com frequência para punir a si mesmo. A sua militância pelo protestantismo foi um bom substituto. Somos três, disse Burghley, unindo-se aos demais. William Cecil sempre defendeu uma estratégia defensiva, tentando manter tudo dentro das fronteiras inglesas. Tudo depende de recebermos informações precisas sobre quando a Armada sairá de Lisboa, disse o secretário Walsingham. Caso contrário, será um risco inútil e perigoso.
Achei que essa fosse a sua função, disse Drake. Walsingham ficou mais tenso e disse: faço o melhor que posso com o que está ao meu dispor. Mas não há meios para transmissão instantânea de notícias. Os navios são mais rápidos do que meus mensageiros. Ah, posso ver portos distantes, disse Drake com uma risada.
V não sabia disso? Sei que os espanhóis creditam a El Draque, o dragão, esse feito, disse Walsingham. Mas eles são ingénuos e simplórios em geral. Concordo! Chega dessa conversa. Quais são as outras opções de defesa? Proponho dividirmos a frota em duas: esquadrão oeste para vigiar a entrada do Canal e esquadrão leste para vigiar o estreito de Dover, explicou Charles Howard. Sei qual é o plano do inimigo, disse Drake, interrompendo Charles. A Armada não está vindo para lutar. O exército de Parma de Flandres fará isso, a Armada os escoltará pelo Canal. Vão vigiar os barcos cheios de soldados a fim de encurtar a travessia. São somente trinta e poucos quilómetros. O exército inteiro poderia fazer a travessia entre oito e doze horas. Esse é o plano deles! Drake bradou, olhando em redor com os olhos claros penetrando nas dúvidas dos conselheiros, e continuou a argumentar: devemos desarmar a frota. Devemos impedi-los de aportar na Costa de Flandres. Os nossos aliados holandeses nos ajudarão. Eles já vêm impedindo Parma de conseguir um porto para ancorar há anos e podem atrapalhar quando tentarem usar os canais menores. A imensa frota da Armada, destinada a assegurar uma travessia segura, pode ser também a sua ruína.
Ele fez uma pausa e continuou a dizer: claro que um plano alternativo seria conquistar a Ilha de Wight do nosso lado do Canal e construir uma base lá. Mas, se passarem por ela, só avistarão um porto novamente quando chegarem a Calais. O nosso papel é apressá-los. Isto é, obviamente, supondo que consigam chegar lá. Agora, se seguirmos o meu plano original para interceptá-los... Levantei a mão para calá-lo por um instante e disse: mais tarde. Por enquanto temos que decidir a implantação dos nossos recursos gerais. Assim, almirante Howard, V recomenda dois esquadrões separados de navios? Não seria melhor posicioná-los todos na entrada do Canal?» In Margaret George, Isabel I, O Anoitecer de um Reinado, tradução de Lara Freitas, Geração Editorial, 2012, ISBN 978-858-130-076-4.

Cortesia de GeraçãoE/JDACT

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Procurai a Minha Face. John Updike. «A jovem, uma lâmina fina e nova no velho e fofo revestimento da cadeira, lê com a sua entrecortada voz nova-iorquina, uma voz que se inclina na direcção de Hope…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Deixe-me começar lendo para V, diz a jovem vestida de preto, uma figura esguia, sentada tensa e empertigada na beira da espreguiçadeira de um tecido xadrez grosseiro e desbotado, os braços de carvalho cor de laranja envernizados, que Hope conheceu inicialmente no solário em Germantown, onde seu avô se instalava para ler o jornal, com a cabeça reclinada para trás para usufruir as vantagens das grossas bifocais, sim, isso há mais de setenta anos, uma declaração sua tirada do catálogo ds sua última exposição, em 1996. Quando criança Hope sentava-se na cadeira tentando sentir como era ser adulta, apoiando seus pequenos cotovelos nos braços largos, espalhando os dedos, um anel de gordura em volta de cada articulação, na ponta da cavilha, que era encaixada no braço ligeiramente curvo, uma espécie de cunha de madeira com uma barra, a extremidade do assento fixando a cavilha. Os braços da cadeira eram separados demais para ela apoiar mais de um cotovelo e uma mão ao mesmo tempo. Devia ter, quanto?, uns cinco, seis anos. Mesmo quando nova, na década de 1920 ou ainda antes, a cadeira devia ter sido uma coisa desajeitada, deselegante, um tipo de mobília de verão torrando no calor do fundo do solário envidraçado, com o filodendro plantado no vaso e o descanso inclinado para os pés, e a parte de cima dividida como uma torta em longas fatias de couro triangulares de diferentes cores.
Quando a morte da avó nos anos 1950 provocou, por fim, a desmancha da casa de Germantown, Hope desejou a velha cadeira e, não havendo objecção do seu bem-humorado irmão sobrevivente, trouxe-a para Long Island, onde foi colocada no andar superior, no seu assim chamado estúdio, no qual às vezes ela tentava ler junto à janela que dava para o norte, a janela corrediça que deixava penetrar o vento que vinha do estreito de Block Island, enquanto lá em baixo Zack ouvia discos de jazz, Armstrong, Benny Goodman, um arranhado Beiderbecke, alto demais; e de lá para o apartamento com Guy e as crianças na East Seventy-ninth, no quarto extra dos fundos com as suas paredes pardas, ao lado do aquecedor que estalava como um prisioneiro demente enquanto ela tentava determinar o seu próprio ritmo com o pincel carregado de tinta; e dali para Vermont, onde ela e Jerry haviam comprado e reformado uma casa e lá se enfurnado no seu último reduto na vida, uma cadeira transportada da mormacenta Pensilvânia para um clima mais frio, mais alto, todavia dificilmente incongruente nesta saleta da frente despojada, afectada, de tecto baixo, os pés dianteiros redondos da cadeira pousados sobre o tapete oval de retalhos trançados em espiral, os pés traseiros quadrados sobre as tábuas do piso colorindo o reluzente preto-avermelhado de cerejeira, os marrons, os verdes e os estreitos carmins do tecido xadrez desbotando ainda mais num tom pálido, aqui na esparsa luz montanhosa do começo de Abril. Estranho, Hope pensava, como as coisas nos seguem de lugar em lugar, mais leais que amigos de carne e osso, que nos abandonam quando morrem. A casa de Germantown tornara-se grande demais nos últimos e solitários anos da sua avó, as suas grossas paredes de pedra foram abocanhadas até os peitoris do segundo andar por um sombrio matagal, hortênsias e azevinho e um pau-rosa cujos galhos se quebravam a cada tempestade de gelo ou neve, a caiação descascando e o reboco caindo em longos fragmentos quebradiços que se perdiam entre os caules de peónias, as raízes do pau-rosa. Ela tinha adorado morar lá quando pequena, mas depois que seus pais se mudaram para Ardmore, as visitas à casa davam uma sensação estranha, a gigantesca cicuta de ramos caídos ficara sinistra, o quintal com sua relva macia com um cheiro quente e estagnado, como o ar de uma estufa, a balança que o seu activo avôzinho, a primeira pessoa cuja morte Hope conheceu, tinha pendurado no galho de uma nogueira apodrecendo, as cordas e a tábua de um jeito eternamente negligenciado que a assustava.
A jovem, uma lâmina fina e nova no velho e fofo revestimento da cadeira, lê com a sua entrecortada voz nova-iorquina, uma voz que se inclina na direcção de Hope com uma pressão de ansiedade mas também com o que parece ser, sob esta luz trémula de um período tardio da vida, uma espécie de afectação filial, por um longo tempo vivi como reclusa, temendo as muitas evidências da não existência de Deus abundantes no mundo. O mundo veio-me lentamente, é a colcha de retalhos do Diabo, colorida em vez de imaculada. Restrinjo minhas atuais telas a tons de cinza cada vez mais juntos um do outro, como que na pré-aurora, antes de a luz começar a alçar as arestas para a existência. Estou tentando, pode ser, pintar a santidade. Suponho que deveria ficar lisonjeada quando alguns críticos chamam esta de minha melhor fase, eles escrevem que finalmente me livrei da sombra do meu primeiro marido. Mas miraculosamente, pode-se dizer, parei de me importar com o que eles pensam, ou que imagem tenho aos olhos de estranhos. Fim da citação. Isso foi há cinco anos. V diria que isto ainda é verdade? Hope tenta desacelerar a jovem, arrastando a sua própria voz como se fosse um pensamento. Bastante verdade, diria eu, apesar de soar num tom de autodramatização. Talvez temer seja forte demais. Sentir horror e desgosto em relação a ter sido mais acurado, e apropriado.
Hope sente um nó na garganta com a presença dessa intrusa nervosamente agressiva, com a sua face urbana branca, suas longas mãos de unhas escuras e o seu traje dogmaticamente preto, gola preta, jaqueta de couro sintético preta com um grande zíper central, cabelos pretos presos acima das orelhas por dois pentes curvos prateados e que caíam sobre as costas como um leque solto e sedoso, e o sinistro acabamento de um calçado grosseiro de bico quadrado, os cadarços passando por uma dúzia ou mais de ilhoses como duas escadinhas pretas subindo e sendo cobertas pelas bocas largas das suas calças, as quais eram feitas de um tecido finamente canelado, um pouco brilhante, que Hope nunca viu antes, um tecido sem nome. As botas, com aquele novo tipo de salto alto, largo para os lados mas estreito no sentido do comprimento, não aparentavam ser muito confortáveis, a não ser que agora o aspecto masculino fosse considerado confortável». In John Updike, Procurai a Minha Face, 2002, Civilização Editora, 2015, ISBN 978-972-262-409-1.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

domingo, 15 de setembro de 2019

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio P. Couto. «Ou uma cópia do famoso Pergaminho de Chinon, documento que prova que o papa Clemente V absolveu secretamente o último grão-mestre, Jacques de Molay»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…)
A abertura dos Arquivos
Depois pela própria importância histórica dos documentos lá guardados. Afinal, onde mais há ainda conservada uma cópia da carta de Henrique VIII ao papa Clemente VII, de 1530, pedindo a anulação do seu casamento com Catarina de Aragão? Ou uma cópia do famoso Pergaminho de Chinon, documento que prova que o papa Clemente V absolveu secretamente o último grão-mestre, Jacques de Molay, e os demais líderes dos Templários, em 1308, das acusações feitas pela Inquisição (maldita) de heresia e que levou ao fim da Ordem dos Templários? É claro que, justamente pelo seu alto valor histórico, o Vaticano aproveita para levantar recursos à custa dos interessados em manter esses documentos em colecções particulares ou mesmo em acervos de bibliotecas e museus espalhados por vários países. Por exemplo, a carta de Henrique VIII teve 200 cópias produzidas e vendidas pela módica quantia de 50 mil euros, o que significou uma soma considerável para os cofres do Vaticano. O anúncio da venda das cópias da carta ganhou a imprensa internacional. Abaixo a reprodução da notícia publicada em 2009 pela BBC Brasil:

O Arquivo Secreto do Vaticano anunciou que irá publicar cópias da carta de 1530 em que nobres e religiosos ingleses pedem ao papa para anular o casamento do rei inglês Henrique VIII com Catarina de Aragão para que ele pudesse se casar com Ana Bolena. O documento original, arquivado no Vaticano com o nome de Causa Anglica, O atribulado caso matrimonial de Henrique VIII, contribuiu para desencadear o cisma entre a Igreja Anglicana e a Igreja Católica. O original e um fac-símile, a partir do qual serão feitas outras cópias, foram apresentados para a imprensa na última terça-feira, na sede do Arquivo Secreto do Vaticano. O lançamento oficial das cópias do documento está marcado para o dia 24 de Junho, durante as comemorações dos 500 anos da ascensão de Henrique VIII ao trono da Inglaterra. O texto é considerado uma das páginas fundamentais da história inglesa. Nele, 85 nobres e religiosos ingleses se dirigem ao papa Clemente VII pedindo a anulação do casamento do rei com Catarina de Aragão, a primeira das seis esposas de Henrique VIII. Para se casar com Catarina, o rei da Inglaterra, que subiu ao trono em 1509, já tinha pedido uma autorização especial do pontífice, porque ela era viúva de seu irmão. A primeira cópia da carta vai ser dada ao papa Bento XVI, que deve visitar a Inglaterra até ao final do ano. As demais publicações serão vendidas a museus, institutos de cultura e coleccionadores privados. Os interessados deverão desembolsar cerca de 130 mil reais (??? no Brasil) para comprar uma das cópias e, provavelmente, comprometer-se a expô-la a um público mais amplo. Até agora, o documento podia ser visto apenas por chefes de Estado, ou outras autoridades, em visita oficial ao Vaticano. Segundo o director do Arquivo Secreto do Vaticano, monsenhor Sergio Pagano, o dinheiro arrecadado com as vendas vai ser usado para restaurar parte do acervo da instituição, um dos mais ricos do mundo.

O imaginário popular pensa que se documentos históricos tão importantes encontraram um lar na sede mundial da Igreja Católica, o que mais poderá haver por lá para precisar de ser tão bem guardado?» In Sérgio P. Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Da Inquisição à renúncia de Bento XVI, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

Cortesia de EGutenberg/JDACT

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio P. Couto. «No século XVII os arquivos foram retirados da biblioteca do Vaticano, até então seu local sede, e permaneceram fechados para pessoas não autorizadas até ao fim do século XIX, quando passaram a ser abertos parcialmente pelo papa Leão XIII»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…)
Indexação das informações
Entre 1781 e 1782, a história dos Arquivos foi dominada por Giuseppe Garampi, o principal criador, entre outras coisas, do famoso sistema de índice que leva o seu nome. Ele manteve muitas aquisições, depósitos e conseguiu muitas transferências de material, inclusive cerca de 1.300 livros da câmara. Em 1783, tudo o que ainda restava em Avignon foi levado para o Vaticano, incluindo uma série de registos chamados de Regista Avenionensia. Em 1798, os registos que estavam no Castelo Sant’Ângelo também foram transferidos para lá, e Garampi já havia assumido como arquivista do Vaticano e do castelo. Assim, o acervo foi acrescido de 81 documentos com selos de ouro, entre os quais constava um diploma de Friedrich Barbarossa ou Frederico I, sacro imperador romano-germânico (1122-1190), que datava de 1164. Em 1810, por ordem de Napoleão Bonaparte, quando da sua invasão à Itália, os arquivos foram levados para Paris e apenas voltaram para o seu local original entre 1815 e 1817, o que causou a perda de vários documentos. Quando as tropas italianas conquistaram Roma, em 1870, os arquivos encontrados fora dos muros vaticanos foram confiscados pelo então recém-nascido estado italiano, que assim formou o núcleo dos arquivos de estados de Roma.
No século XVII os arquivos foram retirados da biblioteca do Vaticano, até então seu local sede, e permaneceram fechados para pessoas não autorizadas até ao fim do século XIX, quando passaram a ser abertos parcialmente pelo papa Leão XIII. Desde então, o acervo tornou-se um dos mais importantes do mundo. Em 1892, uma parte enorme da Dataria Apostolica, um dos cinco Ufficii di Curia, órgão da cúria romana anexo à chancelaria apostólica, foi criada no século XII e extinta no século XX durante o pontificado de Pio X. Durante o século passado, bem como em partes modernas dos arquivos da Secretaria de Estado, apareceram também arquivos da secretaria de comunicados da rota romana, tribunal com lei própria, também chamado de tribunal da rota romana ou tribunal rotae romanae, que funciona como instância superior no grau de apelo junto à sé apostólica para tutelar os direitos na Igreja de várias congregações, do palácio apostólico, do primeiro Concílio do Vaticano e até de famílias ligadas à história da cúria, incluindo Borghese, Boncompagni, Rospigliosi, Ruspoli, Marescotti, Montoro, entre outras.
No ano 2000, o arquivo completo sobre o Concílio do Vaticano II foi transferido pelo papa Paulo VI (1897-1978), que abriu o acesso a cientistas e investigadores num limite além do normalmente imposto para consultas. Hoje em dia, a documentação mantida nos Arquivos Secretos está em constante crescimento e cobre cerca de 800 anos de história, de 1198 em diante, com alguns documentos isolados pertencentes aos séculos X e XI. O item mais antigo conservado pelo arquivo é o Liber Diurnus Romanorum Pontificum, um antigo livro com as declarações da chancelaria papal que remontam ao século VIII.

A abertura dos Arquivos
Talvez não haja um anúncio de maior expectativa, principalmente para o mundo dos cientistas, que a abertura total ou parcial dos Arquivos Secretos do Vaticano ao público. Imagine-se ter acesso a milhares de documentos históricos, num acervo que é comparável ao de grandes museus do mundo, como o Museu Britânico ou o Louvre, mas composto apenas e tão-somente por papéis inéditos, que não veem a luz do dia há séculos. Não é à toa que, a cada anúncio de abertura de uma parte dos Arquivos Secretos do Vaticano, o mundo noticia esse facto com destaque. O Vaticano conhece o fascínio que os seus arquivos exercem nas pessoas. Os últimos períodos de abertura foram:

Em 1966: textos do período do pontificado de Pio XI, de 1846 a 1878;
Em 1978: textos do período do pontificado de Leão XIII, de 1878 a 1903;
Em 1985: textos do período dos pontificados de Pio X, de 1903 a 1914, e de Bento XV, de 1914 a 1922.

Em 2003, o papa João Paulo II abriu a documentação referente ao arquivo histórico da Secretaria de Estado (segunda seção), que possui textos que narram as perigosas interacções do Vaticano com a Alemanha durante o nazismo. O meio académico sempre se interessou, motivo pelo qual Pio XI se manteve de certa maneira inerte à perseguição realizada contra os judeus, o que levou à especulação de que o papa teria alguma espécie de acordo secreto com Hitler. A abertura total dos Arquivos Secretos do Vaticano seria um acontecimento ímpar. Primeiro, por ter um dos acervos mais antigos e em excelente estado de conservação, graças aos esforços dos especialistas que lá trabalham, em geral ligados à Igreja ou ao próprio clero». In Sérgio P. Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Da Inquisição à renúncia de Bento XVI, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

Cortesia de EGutenberg/JDACT

Cem Anos de Solidão. Gabriel García Márquez. «Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o seu pai o levou para conhecer o gelo»

jdact

«Considerado um dos melhores livros de literatura latina já escritos, a sua história passa-se numa aldeia fictícia e remota na América Latina chamada Macondo. Esta pequena povoação foi fundada pela família Buendía–Iguarán. A primeira geração desta família peculiar é formada por José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán. Este casal teve três filhos: José Arcadio, que era um rapaz forte, viril e trabalhador; Aureliano, que contrasta interiormente com o irmão mais velho no sentido em que era filosófico, calmo e terrivelmente introvertido; e por fim, Amaranta, a típica dona de casa de uma família de classe média do século XIX. A estes, juntar-se-á Rebeca, que foi enviada da antiga aldeia de José Arcadio e Ursula, sem pai nem mãe. A história desenrola-se à volta desta geração e dos seus filhos, netos, bisnetos e trinetos, com a particularidade de que todas as gerações foram acompanhadas por Úrsula (que viveu entre 115 e 122 anos). Esta centenária personagem dará conta que as características físicas e psicológicas dos seus herdeiros estão associadas a um nome: todos os José Arcadio são impulsivos, extrovertidos e trabalhadores enquanto que os Aurelianos são pacatos, estudiosos e muito fechados no seu próprio mundo interior. Os Aurelianos terão ao longo do livro a missão de desvendar os misteriosos pergaminhos de Melquíades, o Cigano, que foi amigo de José Arcadio Buendía. Estes pergaminhos têm encerrada em si a história dramática da família e apenas serão decifradas quando o último da estirpe estiver às portas da morte». In Wikipédia

«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de Março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos. Primeiro trouxeram o imã. Um cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava de a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedónia. Foi de casa em casa arrastando dois lingotes metálicos, e todo o mundo se espantou ao ver que os caldeirões, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam do lugar, e as madeiras estalavam com o desespero dos pregos e dos parafusos tentando-se desencravar, e até os objectos perdidos há muito tempo apareciam onde mais tinham sido procurados, e se arrastavam em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades. As coisas têm vida própria, apregoava o cigano com áspero sotaque, tudo é questão de despertar a sua alma.
José Arcadio Buendía, cuja desatada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da natureza, e até mesmo além do milagre e da magia, pensou que era possível servir-se daquela invenção inútil para desentranhar o ouro da terra. Melquíades, que era um homem honrado, preveniu-o: para isso não serve. Mas José Arcadio Buendía não acreditava, naquele tempo, na honradez dos ciganos de modo que trocou o seu jumento e um rebanho de cabritos pelos dois lingotes imantados. Úrsula Iguaráni, sua mulher, a que contava com aqueles animais para aumentar o raquítico património doméstico, não conseguiu dissuadi-lo. Muito em breve vamos ter ouro de sobra para assoalhar a casa, respondeu o marido. Durante vários meses empenhou-se em demonstrar o acerto das suas conjecturas. Explorou palmo a palmo a região, inclusive o fundo do rio, arrastando os dois lingotes de ferro e recitando em voz alta o conjuro de Melquíades. A única coisa que conseguiu desenterrar foi uma armadura do século XV, com todas as suas partes soldadas por uma camada de óxido, cujo interior tinha a ressonância oca de uma enorme cabaça cheia de pedras. Quando José Arcadio Buendía e os quatro homens da sua expedição conseguiram desarticular a armadura, encontraram um esqueleto calcificado que trazia pendurado no pescoço um relicário de cobre com um cacho de cabelo de mulher. Em Março os ciganos voltaram. Desta vez traziam uns óculos ao alcance e uma lupa do tamanho de um tambor, que exibiram como a última descoberta dos judeus de Amsterdão. Sentaram uma cigana num extremo da aldeia e instalaram o binóculo na entrada da tenda. Mediante o pagamento cinco reais, o povo aproximava-se do binóculo e via a cigana ao alcance da mão. A ciência eliminou as distâncias, apregoava Melquíades. Dentro em pouco, o homem poderá ver um assunto em qualquer lugar da terra, sem sair de sua casa. Num meio-dia ardente, fizeram uma assombrosa demonstração com a lupa gigantesca: puseram um montão de seco na metade da rua e atearam fogo nele pela concentração dos raios solares». In Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, 1967, Edições dom Quixote, Colecção Ficção Universal, ISBN 978-972-206-388-3.

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

sábado, 14 de setembro de 2019

Amantes de Buenos Aires. Alberto S. Santos. «Cleide tinha um volume no regaço e chamou a neta para junto de si. Raquel reparou que as mãos o afagavam como se fosse algo precioso, uma parte da avó»

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Buenos Aires, 2009
«Sempre que podia, Raquel Contreras recolhia-se no gabinete de trabalho a observar as novidades. Era um ritual que repetia desde o primeiro dia em que fora admitida na livraria El Ateneo Grand Splendid para se tornar numa simples vendedora de livros. Comovia-se cada vez que chegava um título novo dos seus autores preferidos. Afagava a capa, passava os olhos pela sinopse e abria uma página ao acaso. Lia-a e ficava a pensar no modo como o texto se relacionava com a sua própria vida e nos ensinamentos que poderia recolher para aquele dia ou para o futuro. Era algo que a avó Cleide lhe havia ensinado desde criança. Naquela manhã de Março de2009, quando desembrulhou as novidades, sentiu um aperto no estômago. Estremeceu, enfeitiçada pela capa da reimpressão da primeira edição de Cem Anos de Solidão, do autor que mais amava. A memória logo voou para aquela tarde primaveril, na casa de veraneio da avó, sobranceira ao imenso rio da Prata. Quando não lia, a avó Cleide, já muito entrada na idade, passava horas a fio a olhar para o imenso lago salgado, o rio que, afinal, era estuário, como se esperasse que ele lhe trouxesse respostas a algo que a vida não revelara. Pensou na avó e naquele momento que gravara para sempre na memória. Fechou os olhos e recordou-o, com saudade
Cleide tinha um volume no regaço e chamou a neta para junto de si. Raquel reparou que as mãos o afagavam como se fosse algo precioso, uma parte da avó. Acabei de ler este livro. Gostaria de oferecer-to, minha querida. A neta pressentiu que os olhos da avó lutavam para reprimir que a emoção transbordasse em lágrimas. De que fala esse livro, avó? Da solidão, como revela o título. A solidão é uma doença que, quando ataca, nos impede de ser completos e felizes. Imagina uma família inteira, geração atrás de geração, condenada a sofrer deste mal, explicou a anciã, com a voz trémula Raquel pegou no livro com delicadeza. Tratava-se da mítica primeira edição. Virou a capa e deteve-se na dedicatória escrita em letra elegante e firme: Para Cleide, com afecto, para que nunca sintas as dores da solidão nem ouses viver mais de cem anos. Naquele momento, apetecera-lhe interrogar a avó com a pergunta que lhe queimava a garganta: se ela também sofria ou sofrera de solidão, apesar de nunca a ter visto isolada de gente. Família e amigos balanceavam habitualmente, e muitos, à sua volta. Gostaria ainda de saber porque Gabriel García Marquez lhe escrevera tão estranha dedicatória. Mas não o fez, e arrependeu-se para sempre de não lhe ter perguntado. Desde os primórdios da infância, Raquel achava que a avó escondia um grande segredo, um mistério insondável, como o dos Buendía, a gente que povoava o livro que a anciã ternamente lhe oferecera naquele momento e cuja memória não mais se lhe apagara. Abre ao acaso, minha filha! Vamos lá ver o que dá...

O sobressalto de Raquel na sala da livraria El Ateneo não podia ser maior. Cheirou o papel e acariciou a capa dura, fascinada com o galeão azul a navegar contra um bosque espectral e os lírios amarelos. Antes de o abrir numa página à sorte, fechou os olhos e lembrou-se da curta conversa, anos antes, com o seu autor, na Feira do Livro de Buenos Aires. Não mais esquecera as palavras eternas que gravara no coração durante a palestra, quando ele afirmou que a vida não era como uma pessoa a vivera, mas como ela a recordava, ou como a recordava para a poder contar. Desde esse dia, jurou que jamais aderiria aos livros electrónicos, pois não concebia uma mostra onde os volumes não se pegassem com as mãos, não entendia livros que não pudessem ser acariciados, folheados e cheirados, ou que não fossem guardados na mesinha de cabeceira, ou empilhados por vários recantos da casa. Livros que se podiam perder no metropolitano e ficar com a esperança de que tocassem o coração de quem os encontrasse. Receava ainda que o fim dos livros de papel provocasse a extinção das feiras do livro, e os autógrafos dos autores que guardava como as relíquias mais preciosas». In Alberto S. Santos, Amantes de Buenos Aires, Porto Editora, 2019, ISBN 978-972-003-177-8.

Cortesia de PortoE/JDACT

A Maldição de Afonso II. Maria Antonieta Costa. «O rei manteve-se afastado. Nem sequer cheirastes os seus pés fedidos!, gracejou. Entre duas dores, a jovem soberana continuou, com dificuldade: se o meu primeiro filho tivesse nascido varão...»

jdact

«Querida Toda, cessai já com esse rodopio, por favor! Fico terrivelmente agoniada só de olhar para vós..., como se não me bastasse esta dor excruciante que me trespassa as entranhas... Não olheis, senhora. Concentrai-vos na vossa bem árdua tarefa e deixai-me com a minha, respondeu-lhe a condessa, que não parava de cirandar pela alcova. Dulce fechou os olhos. Vivera sete dos nove meses daquela gravidez na penumbra dos seus aposentos privados, quase como se fosse cega. Nada de horrível poderia ser vislumbrado. Topar com um cadáver caído algures causaria a morte do feto, deparar com um ser humano feio e repugnante provocaria o mesmo efeito. As janelas haviam sido cobertas com tapeçarias de forma a bloquear ao máximo a luz do exterior, um perigo para os olhos da futura mãe. O essencial, para que a gestação fosse bem-sucedida; era manter o ventre quente, no escuro e no silêncio. No dia em que fora afastada e da convivência, o bispo de Coimbra celebrara um elaborado serviço litúrgico em que pedira a Deus a bênção para o nascimento de um varão. Depois do culto e das orações do clero, haviam-na fechado. Rigorosamente igual aos partos anteriores. Gerar um filho era um tormento! Sempre que o físico lhe dava a certeza de estar de novo prenhe, privavam-na da liberdade. E nas seis últimas semanas reduziam-lhe ainda mais o movimento, obrigando-a a permanecer deitada.
Um novo desconforto fê-la abrir os olhos, que se cravaram no tapete pendurado frente ao leito, como se fosse uma abertura para o mundo. Aquela cena de caça de volataria, uma bela paisagem bordada em tons suaves, constituíra a única visão permitida durante todo aquele tempo. Um maravilhoso azul-celeste, que preenchia grande parte da sua dimensão, era cruzado por um ágil e nobre falcão que tentava apoderar-se de uma lebre fugitiva. Era um jogo, masculino a embelezar um espaço feminino onde os homens, incluindo o rei, estavam proibidos de entrar, porque aquilo era um assunto de mulheres. De mulheres que os físicos pensavam ser homens cujo sexo não se formara convenientemente, permanecendo embutido nas entranhas, tornando-as uma versão inferior. E eram esses seres mal-acabados que pululavam pela câmara real: as amas da rainha, a parteira e serviçais.
Aaaaghhh!, gemeu dona Dulce, rebolando-se no leito. A condessa Toda Palacín continuava às voltas pelo aposento. Liderava as servas no manuseamento dos castiçais, dos panos, das caldeiras de água quente. Tinha muita experiência em partos. Com duas filhas, assistira a muitos nascimentos, inclusive ao das primeiras infantas resultantes da união entre o ainda infante Sancho, primogénito de Afonso Henriques, e Dulce de Aragão, de quem era dama de companhia, uma infanta formosa e doce, como o nome indicava. Toda!, chamou de novo a parturiente. E se for outra menina? O seu rosto e colo transpiravam suor, como se pulverizados por pequenas gotas de orvalho. Tinha a tez pálida pela exaustão de tantas horas de sofrimento, de desgaste. Mas, naquele momento, as suas pupilas, muito negras, exprimiam o receio que tal desilusão causaria ao real esposo, coroado há poucos meses, e, sobretudo, ao reino. Não! Desta vez não!, assegurou-lhe a aia em tom exaltado. O rei manteve-se afastado. Nem sequer cheirastes os seus pés fedidos!, gracejou. Entre duas dores, a jovem soberana continuou, com dificuldade: se o meu primeiro filho tivesse nascido varão..., teria agora dez anos. Sou uma má esposa...
A rainha sabia bem a importância da continuidade do poder na Península dos cinco reinos cristãos. Conflitos políticos envolviam as relações entre Portugal, Leão, Castela, Navarra e Aragão. A ascensão do califado almóada, comprometido em revigorar a hegemonia muçulmana na Ibéria, ocupava já grande parte do Al-Andalus. Sois fecunda, senhora..., sois fecunda, rematou a dama, em voz baixa, mas encorajadora. A criança já está formada, é homem e vai nascer, não tarda. E se fiz alguma coisa mal?, lastimou-se ainda». In Maria Antonieta Costa, A Maldição de Afonso II, 2019, Clube do Autor, 2019, ISBN 978-989-724-483-4.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Poesia. Matilde Campilho. «… o pássaro suspenso olhando a via rápida e catando caca debaixo da unha temendo o gira girar da pequena roda que circula sorte e azar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Explicação do sopro
«(…) Século XXI. Certos homens se fecham em quartos de hotel
porque nos lugares anónimos é muito possível ficar encosta-
do numa parede branca vendo a água correr no chão do chu-
veiro. Dois rapazinhos pegam as bicicletas e pedalam quatro-
centos e vinte quilómetros até achar a costa. Ao alcançá-la,
tiram suas roupas e não mergulham: só encostam a zona lom-
bar na areia e repetem até ao infinito a ladainha da tabuada
do sete. Um bombeiro termina seu turno de vinte e quatro
horas e entra no boteco junto à estátua de São Tarso. Pede um
conjunto de sete pães de queijo e nos espaços entre cada um
dos pães ele fica procurando por algum pedaço da túnica de
Deus. O motorista do autocarro sabe perfeitamente que dentro
da mala da senhora de rosto limpo tem uma caixa de joias
que contém uma caixa de medicamentos que contém uma
caixa de anel que contém uma bala. O tocador de kalimba
está muito consciente de que hoje o mantra nasce da mistura
de um cântico de procissão com o latir do cachorro, e está
consciente também de que todo o desenho acha sua acústica
perfeita nas pequenas eremitas. Aquele que pinta a natureza,
o ladrão de ossos, sabe que deve empreender seu trabalho em
posição horizontal, de corpo muito junto ao chão. E se por
acaso o observarmos no processo por mais de sete minutos,
podemos reparar que sua caixa torácica constantemente toca
a tela, sempre na mesma cadência. A moça de vinte e sete
anos ainda está sentada ao toucador, de frente para o próprio
rosto, absolutamente indecisa sobre qual dos objetos esco-
lher. Entre o batom alaranjado, a carabina calibre 12, o pó d
e arroz e o crucifixo em miniatura vai uma distância de dois
passos a galope.

um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego

no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas

fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar

um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade

um dia você diz que me a….
eu a….-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento
da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta».

In Matilde Campilho, Jóquei, Coordenador da colecção Pedro Mexia, Lisboa, Edições Tinta-da-China, 2014, ISBN 978-989-671-213-6.

Cortesia de ETintadaChina/JDACT

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Marina. Carlos Ruiz Zafón. « Estava prestes a dar alguma resposta engenhosa, quando uma sombra imensa se espalhou sobre a mesa como uma nuvem de tinta. Minha anfitriã levantou os olhos e sorriu»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A menção daquele nome invocou a visão da figura enorme de cabeleira branca que me surpreendeu na galeria do casarão dias antes. Germán? Meu pai.
E você é...?, perguntei. Filha dele. Quero dizer, como é o seu nome? Eu sei perfeitamente o que você queria dizer, replicou a menina. Sem uma palavra, montou na bicicleta e cruzou o portão da entrada. Antes de se perder no jardim, virou-se brevemente. Aqueles olhos estavam rindo da minha cara às gargalhadas. Suspirei e fui atrás dela. Um velho conhecido me deu as boas-vindas. O gato olhava para mim com o desprezo habitual. Desejei ser um dobermann. Atravessei o jardim escoltado pelo felino. Fui desviando daquela selva até chegar à fonte dos querubins. A bicicleta estava encostada na fonte e a sua dona tirava uma bolsa do cesto que ficava na frente do guiador.
Cheirava a pão fresco. A menina tirou uma garrafa de leite da sacola e ajoelhou-se para encher uma tigela que estava no chão. O animal correu disparado para o seu café da manhã. Dava a impressão de que aquilo era um ritual diário. Pensei que seu gato só comesse passarinhos indefesos, disse. Não, ele só caça. Não come. É uma questão territorial, explicou como se estivesse falando com uma criança. Ele gosta é de leite. Não é verdade, Kafka, que você gosta de leite? O kafkiano felino lambeu os dedos em sinal afirmativo. A menina sorriu calorosamente, enquanto acariciava o dorso do animal. Quando fez isso, os músculos das suas costas se desenharam nas dobras do vestido. Exactamente nesse instante, ela se virou e me surpreendeu olhando para ela e lambendo os lábios.
E você? Já tomou seu café da manhã?, perguntou. Neguei com a cabeça. Então deve estar com fome. Todos os bobos têm fome, disse. Venha, entre e coma alguma coisa. E bom estar de estômago cheio quando for explicar a Germán porque roubou o relógio dele. A cozinha era uma sala grande situada na parte de trás da casa. Os croissants que a jovem tinha comprado na pastelaria Foix, na Plaza Sarriá, constituíram a minha inesperada refeição. Trouxe também uma xícara enorme de café com leite e sentou-se na minha frente enquanto eu devorava aquele banquete com avidez. Olhava para mim como se tivesse recolhido um mendigo faminto da rua, com uma mescla de curiosidade, pena e medo. Ela mesma não tocou na comida. Já tinha visto você por aí algumas vezes, comentou sem tirar os olhos de cima de mim. Você e aquele garoto pequeno com cara de susto. Costumam atravessar a rua à tarde quando o internato dá uma folga. Às vezes, você vem sozinho, cantarolando distraído. Aposto que passam muito bem naquela masmorra...
Estava prestes a dar alguma resposta engenhosa, quando uma sombra imensa se espalhou sobre a mesa como uma nuvem de tinta. Minha anfitriã levantou os olhos e sorriu. Eu fiquei imóvel, com a boca cheia de croissant e os pulsos batendo como um par de castanholas. Temos visita, anunciou ela, divertida. Pai, esse é Oscar Drai, contumaz ladrão de relógios. Oscar, esse é Germán, meu pai. Engoli de uma só vez e me virei lentamente. Uma silhueta que me pareceu altíssima se erguia bem na minha frente. Vestia um terno de alpaca, com colete e gravata. Uma cabeleira branca penteada caprichosamente para trás caía sobre os seus ombros. Um bigode branco pintava o rosto marcado por ângulos cortantes ao redor dos olhos escuros e tristes. Mas o que realmente o definia eram as mãos. Mãos brancas de anjo, de dedos finos e intermináveis. Germán... Não sou ladrão, senhor..., articulei nervosamente. Tudo isso tem explicação. Se me atrevi a penetrar na sua casa foi porque pensei que estava desabitada. Mas uma vez dentro, não sei o que me deu, ouvi aquela música, vou, não vou, o caso e que fui e vi o relógio. Não pretendia pegá-lo, juro, mas me assustei e quando percebi que tinha carregado o relógio comigo já estava bem longe daqui. Quer dizer, não sei se expliquei direito...» In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT