sábado, 25 de janeiro de 2020

A Eternidade e o Desejo. Inês Pedrosa. «Som e sentido, continente e conteúdo dilacerando-se, hoje como sempre, até que nada reste sob a superfície hiperbólica da realidade. Dizes que aquilo a que eu chamo estatuto pode também chamar-se ânsia de eternidade»

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«(…) Vieira não precisava de nada nem de ninguém. No fundo, acho que lhe bastava a consciência de que tinha Deus dentro de si, ou a eternidade, ou o conhecimento, como preferires. Era um precursor; fervia-lhe no peito uma verdade e só com ela tinha ligação. Essa verdade libertava-o da dor comum, sentia as injustiças e ofensas, e não foram poucas as que lhe fizeram. Vingava-se, convertendo em palavras escritas a experiência da mesquinhez humana. Vingava-se, gritando do púlpito esses sermões irados, consciente de que não conseguiria reformar os costumes do seu tempo, mas ainda mais consciente de que esses textos, ateados por uma raiva íntima e incendiados pela lucidez genérica que consagra as paixões particulares, lhe sobreviveriam. Trabalhava como se vivesse no futuro, e por isso escreveu coisas que ainda hoje são arrumadas no altar dos prodígios, e adoradas pelo exterior do seu entendimento. Eu própria o adorava assim, pela pintura do texto e pela música da sintaxe, aquele amor reverente, escolar, cheio de presunção e desconhecimento, que se vota às ruínas do passado. Até que me apareceu outro António, o António que trouxe Vieira para dentro da minha vida, mas ainda é cedo para essa confidência. Como poderei falar-te, a ti, menino solene, mimado pelo aborrecimento do universo, desse olhar impermeável à ofuscação das lágrimas, no olhar de uma criança sem tédio?
O círculo do tempo pára numa nova idade barroca, trabalhamos o supérfluo, a ideia de arte vale mais do que a arte, a ideia de cultura separa-se da cultura possível e particular de cada um, em rendilhados infinitos, citação da citação da citação, fragmento do fragmento do fragmento, intermitências de luz cosidas em  brocados de sombra, a religião da ironia substituindo perfeitamente a religião dos deuses. Tornas a dizer que exagero, que há uma diferença essencial entre o livre arbítrio e a sujeição a livros sagrados, entre o ritual da irrisão e o ritual da oração, mas, talvez porque estou cega, ouço um mesmo rasgar de sedas, um mesmo uivar de andrajos, um mesmo pavor animal gemendo sob a aparência humana. Pois não sentes a irracionalidade que grita no desejo de dominação humano? Não sentes a sede de domínio atrofiando todas as possibilidades de prazer? Não sentes que temos a cabeça a prémio?
Não me entendes, caríssimo Sebastião; dizes que misturo tudo. Dizes que é incomparável a liberdade de que hoje dispomos para imaginar, escolher, criar, viver. Pelo menos na nossa civilização, dizes. E eu rio-me do que tu dizes, e tu zangas-te com o meu riso, cuidando, como tanto se cuida naquilo a que chamas a nossa civilização, que me rio de ti. Querido Sebastião, rio-me porque aquilo a que chamas a nossa civilização ainda nem sequer começou. Importa-me a liberdade, sim, mas vejo que a usamos ainda e apenas como uma outra espécie de grilhão. Vestimos a liberdade como outrora vestíamos a submissão; ela não é mais do que um traje de baile, com um carnet em que apontamos os nomes daqueles com quem dançaremos para brilhar diante dos outros. Democratizou-se o anseio de estatuto, mas não conseguimos ainda sair dele. É isso que vejo, Sebastião.
Som e sentido, continente e conteúdo dilacerando-se, hoje como sempre, até que nada reste sob a superfície hiperbólica da realidade. Dizes que aquilo a que eu chamo estatuto pode também chamar-se ânsia de eternidade. Mas eu vejo tão pouca eternidade nos sonhos das pessoas, Sebastião. A eternidade que somos conduzidos a aspirar é a da juventude, o lugar mais rápido, inseguro e variável da existência humana. O lugar do querer ser. Não vês o contra-senso que isto representa? A violência? A prisão? Não, não vês, como eu não via. Pertencer a um país que de antigo se tornou velho também não ajuda a ver. Só através dos olhos desse António que veio do Brasil eu comecei a ver. Nos olhos dele aprendi a ler Vieira, como no seu corpo aprendi a saborear o desejo infinito, o desejo como experiência da eternidade. Para essa experiência não tenho palavras. Nem sequer silêncio. Dessa experiência, sobrou-me o que sou. A tudo o que te vou dizendo sobre a superfície lisa do Barroco e a superfície barroca do nosso tempo aparentemente liso respondes-me com o discurso contemporâneo do progresso relativo, a música electrónica do humanismo de salão. Tolerância, dizes, tudo passa pela educação para a tolerância. Sim, Sebastião, és um homem de bem, de esquerda, um guardador de valores perdidos e de amanhãs desvirtuados». In Inês Pedrosa, A Eternidade e o Desejo, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-495-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Sim, lembro-me do ciclone que fustigou Lisboa naquela noite de 15 de Fevereiro de 1941. As rajadas ultrapassaram os 120 quilómetros por hora! Os barómetros caíram na vertical, e em pouco tempo, até aos 718 milímetros…»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995
Mary
«(…) Sim, lembro-me do ciclone que fustigou Lisboa naquela noite de 15 de Fevereiro de 1941. As rajadas ultrapassaram os 120 quilómetros por hora! Os barómetros caíram na vertical, e em pouco tempo, até aos 718 milímetros, coisa nunca vista em Portugal, e subiram depois, com idêntica rapidez, a 750. Em menos de 24 horas, desceram 40 milímetros e subiram mais de 30! O Tejo revoltou-se em tremendas vagas. Em terra, árvores foram derrubadas, voaram telhados e coberturas de zinco, e nos subúrbios chegaram a morrer pessoas, sugadas pela força dos ventos, que deixavam no chão enormes crateras. Dizem que certas almas reflectem o estado do tempo, alegrando-se quando está sol ou entristecendo-se quando chove. Terá sido esse o caso de Mary, cujo turbilhão sentimental parecia espelhar o ciclone? Já a tinha visto umas vezes, por ocasião dos cocktails que o embaixador Campbell oferecia, mas apenas trocara com ela palavras breves de cortesia. Naquela noite, fiquei sentado a seu lado à mesa do jantar. Certamente falámos de Hitler, Tobruk, dos japoneses a avançarem no Pacífico, e claro que falámos de Salazar. Falava-se sempre de Salazar nos jantares ingleses, e normalmente em tom crítico. Mas o que verdadeiramente recordo é o seu pedido surpreendente, à saída da Embaixada, quando o jantar acabou. Podias dar-me uma boleia... Estávamos à porta do edifício, e o vento zumbia com fúria. Devo ter feito uma cara ligeiramente contrariada, por causa do vento, mas Mary deve ter pensado que fora o seu pedido que me incomodara, pois exclamou: não faças essa cara, eu chamo um táxi! Desfiz-me em desculpas. Entre as inglesas tinha reputação de cavalheiro, e aquele mal-entendido obrigava-me a desfazer o equívoco, para evitar um possível dano à minha fama. Eu levo-te. Vamos, disse eu. Ela fechou o casaco e enfiou um chapéu. Saímos pelo portão da Embaixada, sem falar, de braço dado e encostados um ao outro, numa intimidade forçada pela tempestade. Subimos a rua, e virámos para a Rua do Sacramento, onde deixara o carro.
Quando me sentei ao volante do meu Citroen azul, perguntei: o coronel Bowles não está cá? Mary sorriu e observou o cruzamento com a Rua do Pau da Bandeira. Depois suspirou: hoje, não há ninguém a ver ninguém, Jack Gil. Agora que estou aqui, a passear numa noite quente da Lisboa de fim de século, não posso deixar de estranhar esta calma da Lapa, só quebrada pela passagem de um ocasional carro. Há 50 e tal anos, este era um dos cruzamentos mais animados de Lisboa. Viam-se homens encostados aos carros, às soleiras das portas; táxis parados, com os condutores lá dentro a fumarem; e até vendedores ambulantes a apregoarem os seus produtos. Vigilantes. Controladores. Portugueses a soldo de terceiros, a fingirem que eram portugueses que estavam ali por acaso, mas sem enganarem ninguém. Uns pagos pelos alemães, outros pagos pelos ingleses, para espiarem as entradas e as saídas das embaixadas. Era uma ironia do destino que as duas principais embaixadas beligerantes daquela guerra, a alemã e a inglesa, ficassem praticamente a lado, separadas por menos de 500 metros. Um mundo de distâncias e apenas umas calçadas portuguesas de permeio! Era quase cómico. Mas também o ambiente de Lisboa, em 1941, era quase cómico. Por momentos, pensei em dizer tragicómico, mas o trágico seria exagero. Trágico era o que se passava em Inglaterra, com os bombardeamentos das cidades. Trágico era o que se passava no Norte de África, com a guerra no deserto. Ali, nas ruas de Lisboa, a guerra não era A GUERRA, com mortos e feridos. Era uma guerra diferente: era o eco de uma guerra, eram os despojos de uma guerra, eram os absurdos políticos e económicos de uma guerra, era a psicologia negra de uma guerra, mas não era A GUERRA.
Sim, confirmei, olhando para o cruzamento, hoje não há ninguém. O vento era tão forte que afastara a resolução dos homens portugueses em espiarem os estrangeiros. Não lhes pagam o suficiente para andarem na rua com este tempo, comentou Mary. Desci a Rua do Pau da Bandeira, e depois subi a de São Caetano. Mary, nervosa, acendera um cigarro mal entrara no carro. O que sabia eu sobre ela? Pouco. Sabia que trabalhava na Embaixada, provavelmente para o MI9. O meu amigo Michael contara-me que ela ia muitas vezes ao Alentejo ou ao Algarve recolher pilotos ingleses que passavam a fronteira de Espanha, ou que vinham de barco de Marrocos, e que depois organizava os regressos deles a Inglaterra.
E sabia que Mary era a mulher do coronel James Bowles. Se eu tivesse sabido antes da sua infelicidade, teria podido explicar a razão de a sua alma me parecer afectada pelo ciclone. Mas, naquela noite, ali dentro do Citroen, na Rua de Buenos Aires, não sabia que ela era infeliz. O James nunca cá está, afirmou Mary. Soltou a frase não como um lamento, apenas como a notícia tranquila de um facto. Mais tarde, vim a perceber que esta indiferença de Mary era uma mistificação. Ela forçava-se a declarações frias, isentas de sentimentos, para esconder o que lhe ia no coração. Típico de inglesa. Anda pelo Alentejo, acrescentou». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «São oito da noite e estou lúcido como há muito não me sentia. Um homem, quando chega a esta idade, 85 anos bem vividos, quase só sente agitação na memória»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995
«Nunca esperei regressar a esta rua, e nunca esperei que o meu velho coração sentisse tanta emoção ao pisar os passeios da Lapa. Quando saí do táxi em frente ao hotel foi como se uma bola de demolição tivesse chocado comigo. Fiquei sem respiração por momentos, invadido por sentimentos, memórias de cheiros, imagens e vozes. Não me lembro sequer de ter pago o táxi, nem me recordo das palavras do porteiro, a dirigir-me com cortesia para a recepção. Nada, de repente, existia. A não ser Lisboa, 50 anos atrás. A minha Lisboa, onde amei tanto e tantas vezes. A minha Lisboa, das pensões e dos espiões, dos barcos ingleses e dos submarinos alemães; a Lisboa das ligas da Mary em cima de um lençol branco; a Lisboa dos cocktails no Aviz enquanto eu perseguia Alice; a Lisboa do penteado à refugiada da minha noiva, a Carminho; a Lisboa dessa menina linda, frágil e alemã, Anika, por quem eu arrisquei o pescoço; a Lisboa de Michael... Ó amigo, ó grande amigo de tão épicas horas, de tão tremendas lealdades e silêncios! Tinha tanta vontade de partilhar contigo um brandy, de te ver a descascar uma maçã com a tua fantástica faca Randall, americana (eu sei, meu malandro, não me esqueço, tu sempre gostaste delas americanas), às seis da manhã, na Rocha do Conde de Óbidos, dentro do meu Citroen azul-escuro. Os dois a ver partir um navio, a rirmos como os patifes que éramos, e tu a proferires a nossa senha de felicidade: e nós aqui enquanto Salazar dorme! Sim, e nós ali, a viver, a contar façanhas, a exibir troféus, ou a resmungar sobre a guerra, as manias do embaixador Campbell, os truques dos alemães, os subornos aos portugueses, as belas pernas das refugiadas que invadiam Lisboa. Uma guerra que, na capital, se tentava vencer com planos mirabolantes, espiões inventados e ideias loucas, como aquela de convencer os miúdos a escrever nas paredes, a giz, os VV da vitória dos Aliados, ou a baterem palmas no cinema sempre que apareciam as tropas inglesas. Truques e mais truques de propaganda, e denúncias, muitas denúncias, boatos que se punham a correr, puro terrorismo psicológico de guerra, muito eficaz nessa Lisboa que estava fora e dentro dela ao mesmo tempo. Local único da Europa, linda e cheia de luz, mas também de medo, a Lisboa onde vivi tanto que por mais que viva, e muito foi depois, nunca mais vivi como ali, aqui, nesta Lisboa.
E nós aqui, enquanto Salazar dorme..., dizia o meu amigo Michael. E era mentira e era verdade, porque ele não dormia, ele controlava o país, dizia-se que sabia tudo; controlava as pastas das Finanças, da Guerra, dos Negócios Estrangeiros; falava todos os dias com o capitão Agostinho Lourenço, o chefe da PVDE (chamava-se assim, Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), e ele queria saber tudo e muitas vezes soube também de nós. Nós, os que vivíamos mais à noite, por vezes furtivos, por vezes só na boa vida dessa Lisboa onde o turbilhão de emoções da época fazia subir as saias das mulheres mais depressa. Não fosse o mundo acabar amanhã, o Hitler invadir a Península Ibérica, os americanos invadirem os Açores, os comunistas de Estaline darem cabo do Ocidente, tudo era possível! Estávamos em guerra, e ela era mundial, e mexia com os corações e com os desejos, e tu, Michael, cortavas a casca das maçãs muito fina, com a tua faca Randall sempre afiada, e a Carminho ia ao cabeleireiro para me entusiasmar, e a Alice ia conhecendo as suítes do Aviz, mulher dos diabos, imparável, e a Mary sofria, e bebia brandy, muito brandy, porque o marido nunca chegava, o coronel Bowles nunca chegava, e as coisas ainda iam correr mal, e ela agarrava-se a mim desesperada, e eu tirava-lhe as ligas, atirava-as para cima do lençol e amava-a o melhor que sabia. Era melhor que tu, Michael, desculpa lá mas tens de reconhecer que podias ser admirado como um actor de cinema, mas era eu quem tinha mais jeito com elas, era por mim que elas chamavam, mesmo as alemãs, essa é que te foi difícil de engolir, mas até uma alemã eu seduzi, enquanto Salazar dormia... Agora, sentado na cama deste quarto do Hotel da Lapa, 50 anos depois, dou por mim a pensar que Lisboa sempre esteve comigo, e que nunca parti completamente. Quando saí de cá, em finais de 45, pensava que nada me prendia a esta cidade. Nunca planeei voltar. Corri o mundo e trabalhei em mais de dez cidades, cortesia da minha companhia de navegação. Singapura, Montevideu, Cairo, Los Angeles, Tóquio, Rio de Janeiro, Hamburgo, Atenas, e até, horror dos horrores, Nairobi. Mas nunca vivi como aqui. E nunca quis voltar. Quando o Paul, meu neto, me disse que ia casar com uma portuguesa, sorri. E vou casar em Portugal, avô. Em Portugal... Não soube o que lhe dizer. E quero que tu vás, exigiu o meu neto. Resmunguei e protestei: 85 anos, dores nas costas, aviões, aeroportos, malas. Desculpas.
Na verdade, o meu coração sabia que, um dia, eu ia ter de voltar. Voltar à minha Lisboa, entre a Embaixada inglesa, aqui ao lado, na Rua de São Domingos à Lapa, e a Embaixada alemã, aqui ao lado também, na Rua do Pau da Bandeira. Voltar ao homem que fui, bom e mau, culpado e inocente, cavalheiro e bandido, amante e traidor, amigo e inimigo. Voltar àquela luz de Lisboa. Foram as histórias do avô que me fizeram apaixonar por uma portuguesa. Gosto deste meu neto, o Paul. Bom rapaz, trabalhador, MBA na London School of Economics, apaixonado por uma portuguesa. Mas não sabe quase nada. Contei-lhe muitas histórias da minha vida em Lisboa, mas só as que podia contar. As outras não podia. É difícil explicar o que eu fazia a um rapaz dos anos 90. Eles compreendem o heroísmo dos pilotos da RAF, a abnegação das enfermeiras, a coragem da Resistência francesa, até o espírito dos discursos de Churchill. Compreendem o horror de Auschwitz ou Dachau, a Cortina de Ferro, as bombas atómicas. Mas dificilmente compreendem a mistificação, o suborno, a guerra psicológica, a arte de enganar, as guerras surdas que se passavam em Lisboa. Não sabem o que são espiões. Por outro lado, julgam que o sexo começou agora. Falam dele com autoridade e consideram-se especialistas técnicos. Acham que têm muito prazer, e que antes ninguém o tinha. Não podem compreender um dos segredos da humanidade, um segredo estranho e perturbador: em tempo de guerra, o desespero toma conta das almas e as pessoas amam como loucas. Em Lisboa, amei como um doido. Conheci e dormi com mulheres que amavam como possessas e nunca mais amei assim porque nunca mais ninguém me amou assim. E isso o meu neto não pode compreender, pois a sociedade e a época marcam os homens, e a boa vida e a abundância dos anos 90, no mundo ocidental, não produzem esse tipo de desespero.
São oito da noite e estou lúcido como há muito não me sentia. Um homem, quando chega a esta idade, 85 anos bem vividos, quase só sente agitação na memória. Estou-me a apagar aos poucos, numa lenta mas imparável degradação. Às vezes desato a gritar com a criada, lá em casa, em Inglaterra. Têm de me aturar, mas sei de casos bem piores. Um tipo que conheço já não consegue fazer as necessidades sozinho. É uma humilhação. Eu ainda consigo vir a Lisboa sozinho num avião, meter-me num táxi, e fazer o check-in no Hotel da Lapa. Apesar de continuar a ter pensamentos de homem, a maior parte das minhas memórias não são sujas. Enquanto Salazar dormia, não havia só regabofe com as mulheres. Havia muito mais. Guerras, espionagem, diplomacia. Lembro-me de todos. Dos embaixadores e das secretárias. Dos polícias e das criadas de quarto. Dos milionários e dos judeus refugiados. Dos jornalistas e dos militares. Dos faroleiros e dos taxistas. E lembro-me do ciclone...» In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «No final daquela primeira folgança, quando se deitaram lado a lado, a rainha devia estar espantada com as habilidades do amante, pois perguntou: onde haveis aprendido tantos truques?»

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Coimbra, Julho de 1117
«(…) Fernão Peres Trava contestou-a, dizendo que ela e Bermudo nunca se haviam casado na igreja, não existira bênção nupcial, aos olhos de Deus não eram marido e mulher. Acercou-se de uma pequena mesa, onde estavam pousados dois vasos e um jarro de barro, encheu os vasos de vinho, ofereceu um a dona Teresa e, depois de beber, mirou o recipiente, desagradado. Prefiro o vinho da Galiza, este tem água a mais! De seguida, afirmou: meu pai sempre disse que o Bermudo era bom homem, mas sem carácter. A gente grita-lhe e ele encolhe-se! Fingindo-se ofendida, dona Teresa cumpriu formalmente a obrigação de defender o homem com quem ainda vivia: pelo menos não é como o Afonso de Aragão, que dá sovas na minha irmã! E também não maltrata as minhas filhas ou o meu filho. Ao ouvir falar de Afonso Henriques, Fernão queixou-se, de forma leve e intencionalmente distraída. Colocou um pé em cima duma arca, como se admirasse os seus belos sapatos vermelhos, de bom cabedal. Vosso filho não simpatiza comigo. A rainha não deu importância àquela queixa do Trava, alegando que o filho só pensava em matar mouros e que saía ao pai, antipático. Sentando-se na beira da cama novamente, perguntou: há pouco, haveis sugerido que me afaste de vosso irmão?
Malicioso, o Trava murmurou: dizem-me que não é só a guerrear que fraqueja... Dissimulando nova ligeira indignação, por ver a sua intimidade invadida, dona Teresa repreendeu-o: vede lá como falais, jovem Trava! Quem vos contou tais mentiras? Ele riu-se e ela, sem a negar, mudou subtilmente o palco da desilusão, dizendo não ter quem lhe mandasse nas tropas, desde que Paio Soares se afastara. Desolada, lamentou-se: o mundo é duro para uma mulher. Os nobres e os bispos acham que somos tolas e não servimos para governar. Farejando uma oportunidade para a lisonja, o Trava interrompeu-a: não penso isso de vós. Agradada, ela sorriu de novo. Então, o que achais vós, jovem Trava? Que sou louca, como a minha irmã Urraca? Que sou mal namorada pelo meu marido? O Trava aproximou-se da cama e avançou a sua opinião. Acho-vos mal..., rodeada.
Estava de pé em frente dela, obrigando-a a olhar de baixo para cima. Sob o efeito subjugante daquela poderosa presença física, dona Teresa estremeceu e, para afastar o óbvio fascínio que já sentia, esboçou uma careta dengosa e questionou-o: vós quereis-me..., rodear, jovem Trava? Fernão Peres manteve os olhos postos nela e murmurou: uma mulher tão bela como vós necessita de ajuda. No comando do Condado e não só... Fez então uma festa ternurenta à rainha, passando no rosto dela os seus dedos. Dona Teresa corou de imediato. O seu peito desatou a subir e a descer rapidamente, a sua respiração agitou-se e pediu: então ajudai-me, amigo. Dormi comigo, pois estou enamorada! No final daquela primeira folgança, quando se deitaram lado a lado, a rainha devia estar espantada com as habilidades do amante, pois perguntou: onde haveis aprendido tantos truques?» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

Obra Poética Reunida (1950-1996). Hilda Hilst. «Eu sou Medo. Estertor. tu, meu Deus, um cavalo de ferro colado à futilidade das alturas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Via Espessa
[…] XVII
«Minha sombra à minha frente desdobrada
Sombra de sua própria sombra? Sim. Em sonhos via.
Prateado de guizos
O louco sussurava um refrão erudito:
Ipseidade, Samsara. Ipseidade, senhora.

E enfeixando energia, cintilando
Fez de nós dois um único indivíduo».

Via Vazia
I
«Eu sou Medo. Estertor.
Tu, meu Deus, um cavalo de ferro
Colado à futilidade das alturas.

II
Movo-me no charco. Entre o junco e o lagarto.
E Tu, como Petrarca, deves cantar tua Laura:

Le Stelle, il cielo, caldi sospiri
E nem há lua esta noite. Nascidas deste canto
Das palavras, só há borbulhas n’água.

III
Rato d’água, círculo no remoinho da busca.
Que sou teu filho, Pai, me dizem. Farejo.
Com a focinhez que me foi dada
encontro alguns dejectos. Depois, estendido
Na pedra (que dizem ser teu peito) , busco um sinal.
E de novo farejo. Há quanto tempo. Há quanto tempo.

IV
À carnem aos pêlos, à garganta, à língua
A tudo isso te assemelhas?
Mas e o depois da morte, Pai?
As centelhas que nascem da carne sob a terra
O estar ali cintilando de treva.
À treva te assemelhas?

V
Dá-me a via do excesso. O estupor.
Amputado de gestos, dá-me a eloquência do Nada
Os ossos cintilando
Na orvalhada friez do teu deserto.

VI
Que vertigem, Pai.
Pueril e devasso
No furor da tua víscera
Trituras a cada dia
Meu exíguo espaço».
[…]

Hilda Hilst, Obra Poética Reunida (1950-1996), 1998, organização Costa Duarte, Literatura brasileira século XX, Wikipédia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Meu pai acha que dona Urraca é doida, nunca se sabe o que vai fazer, e tem toda a razão! Diz-se que foi ela quem envenenou vosso marido…»

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Coimbra, Julho de 1117
«(…) A minha prima Raimunda era danada. Naquela noite, viu Fernão Peres Trava entrar suavemente pelo quarto de dona Teresa, para que ninguém o visse. No canto do varandim daquela casa de Coimbra, havia uma viga que suportava o tecto do alpendre, e Raimunda trepou até ao telhado, rápida e silenciosa. Movimentou-se em cima das madeiras que cobriam o edifício, até encontrar o que procurava: uma pequena falha entre duas tábuas. Espreitou. Dali via perfeitamente o quarto de dona Teresa. Lá em baixo, a rainha estava sentada numa cama luxuosa, com três colchões de lã sobrepostos, e perguntava ao Trava como se lembrara de envenenar as águas dos muçulmanos. Haveis aprendido a usar venenos na corte de dona Urraca?, perguntava dona Teresa. Fernão Peres era um homem bonito. Tinha a testa alta, o cabelo ralo, uns olhos negros e brilhantes e um porte distinto. Pela forma serena como falava, ninguém diria que tinha apenas dezassete anos. Esperto, torturou a rainha portucalense com o seu silêncio. Haveis conhecido minha irmã?, insistiu ela. Dona Teresa tinha ciúmes de Urraca, além de uma clara consciência da sua inferioridade na linhagem. A irmã era rainha dos três reinos, ela era apenas a condessa portucalense. Embora se intitulasse também rainha, não o era e sabia-o. Para a acalmar, o Trava disse: falei com ela só por duas vezes. Meu pai acha que dona Urraca é doida, nunca se sabe o que vai fazer, e tem toda a razão!
Diz-se que foi ela quem envenenou vosso marido, o conde Henrique. Agitada, dona Teresa deu uns passos pelo quarto. Não sei, não sou curandeira! Ele não estava bem de saúde. E, desde que meu pai o baniu de Toledo, parecia doido de todo! Com pena de si própria, resmungou: tenho má sorte com os homens. Ao conde Henrique, mal o entendia, só falava francês. Estava sempre a ir-se embora, para a Terra Santa, ou para uma batalha qualquer! E agora calha-me este... Pelo seu tom de voz, era claro que Bermudo não a satisfazia e por isso Fernão Peres comentou, sibilino: este não é vosso marido. De súbito animada, dona Teresa mirou-o. Quando os seus olhos brilhavam e a cara se alegrava, era uma mulher muito bonita. Fizemos os esponsais, há pública fama!, exclamou». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Imperatriz dona Leopoldina Marsilio Cassotti. «O arquiduque Carlos, irmão mais novo do imperador e um militar brilhante, conseguiu entre Agosto e Setembro desse ano duas importantes vitórias sobre a França revolucionária»

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O sonho de uma imperatriz, 1797
«(…) Após a morte, em 1792, do imperador que antes havia sido grão-duque da Toscana, a ascensão ao trono imperial de seu filho, a partir de então Francisco II, foi abençoada com uma nova gravidez da sua esposa, que deu como resultado, em Abril de 1793, o nascimento de Fernando, o ansiado filho homem; infelizmente, esse menino, destinado a sucedê-lo no trono, sairia meio fraco mentalmente. A morte da rainha Maria Antonieta da França, ocorrida em Outubro desse mesmo ano, foi para o imperador Francisco II um facto mais desagradável que doloroso, pois ele nunca havia sentido muita estima por essa tia. Mas serviu-lhe para perceber que o carácter alegre da sua mulher era uma espécie de bálsamo para a sua mente, especialmente num momento em que os revolucionários franceses haviam decidido levar a liberté também aos territórios italianos pertencentes ao seu império. Por sua vez, a imperatriz confirmou nos factos a suposição de que seria tão fértil quanto sua mãe, pois, depois do herdeiro, deu ao marido duas meninas, nascidas respectivamente em 1794 e 1795, e continuaria parindo um filho por ano, até chegar ao número de doze. Por volta da última semana de Abril de 1796 a imperatriz Maria Teresa engravidou, pela quinta vez, daquela que seria Leopoldina. Os primeiros meses dessa gestação foram agridoces por conta das notícias da frente de guerra que chegavam à corte de Viena.
O arquiduque Carlos, irmão mais novo do imperador e um militar brilhante, conseguiu entre Agosto e Setembro desse ano duas importantes vitórias sobre a França revolucionária. Mas a revelação na cena italiana do general Bonaparte, após a vitória dos franceses nos campos de Rivoli, havia começado a pôr em xeque os territórios do norte daquela península. Foi por essa razão que, enquanto a imperatriz Maria Teresa se esforçava no trabalho de parto, seu marido não conseguia parar de pensar na situação de Mântua, sitiada pelas tropas desse pequeno general corso que possuía o dom de se fazer amar quase cegamente pelos seus soldados, algo precioso para um militar. Finalmente, Maria Teresa deu à luz a futura imperatriz do Brasil, a quarta filha que dava a seu marido. Três dias depois, o jornal mais importante da capital do império, o Wiener Zeitung, comunicava aos habitantes de Viena que: às sete e meia da manhã de domingo, dia 22, Sua Majestade a imperatriz deu à luz uma arquiduquesa. A essa altura, a menina já havia recebido as águas baptismais, e com elas o nome Carolina Josefa Leopoldina Fernanda Francisca. Uma semana depois do sacramento de Leopoldina, como seria chamada em família essa menina, a cidade de Mântua caiu nas mãos dos franceses. Esse triunfo militar consolidou a carreira de Napoleão, que, a despeito de ter nascido numa das ilhas mais pobres do Mediterrâneo e ser filho de um simples advogado, tornar-se-ia o homem mais poderoso da Europa e se casaria com Maria Luísa da Áustria, irmã mais velha de Leopoldina.
Uma arquiduquesa cuja infância e juventude transcorreu durante o período no qual a Europa foi abalada por um fenómeno natural em forma de génio militar como não experimentara havia séculos. Embora seus pais fizessem todo o possível para manter Leopoldina e os seus irmãos longe das guerras que seriam travadas na Europa durante aqueles anos, a maior parte das arquiduquesas, mais inteligentes e sensíveis que os filhos homens, não seriam imunes às influências das mudanças revolucionárias que a acção de Napoleão produziria nas leis, nos costumes e até no modo de pensar. No momento do nascimento de Leopoldina, para Bonaparte não restava mais que colher os frutos das suas vitórias; Rívoli e Mântua haviam semeado o pânico nos pequenos e grandes Estados italianos. De facto, depois da queda de Mântua, em Viena já se começava a temer a chegada dos exércitos franceses. Francisco II lançou mão de todos os meios ao seu alcance para evitar isso; mas, quando o risco aumentou, acabou aceitando um armistício com os seus inimigos, firmado em meados de Abril de 1797, quando a arquiduquesa Leopoldina ainda não havia completado três meses.
Dois meses antes de ela completar um ano de vida, seu pai fez algo mais surpreendente aos olhos dos seus súbditos. Para escândalo de sua sogra, a rainha Maria Carolina de Nápoles, que odiava os franceses por considera-los responsáveis pelo martírio da sua irmã, o imperador rubricou com os herdeiros dos assassinos da sua tia a Paz de Campofórmio. Enquanto isso, a futura primeira imperatriz do Brasil, que herdaria o pragmatismo paterno, crescia, como o resto dos seus irmãos, protegida pela família, pelo menos das incertezas que as ambições napoleónicas geravam nas casas reinantes europeias do Antigo Regime. Dizem, porém, que desde os seus primeiros meses de vida Leopoldina desenvolveu uma espécie de ansiedade, chegando a ferir os mamilos da sua ama de leite por conta da intensidade com que se prendia a seus peitos quando era amamentada». In Marsilio Cassotti, Imperatriz D. Leopoldina, tradução de Sandra Dolinsky, Manuscrito Editora, 2015, ISBN 978-989-881-803-4.

Cortesia de ManuscritoE/JDACT

A Vida Secreta das Princesas Árabes. Jean Sasson. «Em certa ocasião, disse-me que a viagem representara o fim da sua juventude, pois era demasiado nova para compreender o que a esperava no final da longa deslocação»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A minha mãe casou com o meu pai aos doze anos. Ele tinha vinte. Estava-se em 1946 o ano em que a Segunda Guerra Mundial interrompera a produção petrolífera, O petróleo, a força vital da Arábia Saudita do presente, ainda não trouxera, na altura, grande riqueza à família de meu pai, os AISaud, no entanto o impacto que tinha sobre os seus membros fazia-se sentir em pequenos pormenores. Os chefes das grandes nações haviam começado a prestar vassalagem ao nosso rei. Winston Churchill, o primeiro-ministro inglês, presenteara o rei Abdul Aziz com um luxuoso Rolls Royce. Verde-metalizado, com um banco traseiro que fazia lembrar um trono: o automóvel refulgia como uma jóia ao sol. Apesar de imponente, algo no automóvel o desiludiu nitidamente, pois o rei ofereceu-o, depois de o inspeccionar, a Abdullah, um dos seus irmãos preferidos. Abdullah, que era tio e amigo chegado de meu pai, colocou-lhe o automóvel à disposição para a sua viagem de lua-de-mel a Gidá. Ele aceitou, para grande deleite de minha mãe, que nunca conhecera semelhante meio de transporte. Em 1946 deixando para trás séculos incontáveis , o camelo era o meio de transporte habitualmente usado no Médio Oriente. Passar-se-iam três décadas antes de o saudita médio trocar o dorso de um camelo pelo conforto de um automóvel. Assim, os meus pais atravessaram alegremente o deserto, durante sete dias e sete noites, até chegarem a Gidá. Malogradamente, o meu pai, na sua pressa em partir de Riade, esquecera-se da sua tenda; este descuido e a presença constante de vários escravos levou a que o seu casamento só fosse consumado depois de chegarem a Gidá.
Aquela viagem poeirenta e cansativa tornou-se uma das recordações mais felizes de minha mãe. Depois dela, dividiu sempre a sua vida entre a altura anterior à viagem e a altura a seguir à viagem. Em certa ocasião, disse-me que a viagem representara o fim da sua juventude, pois era demasiado nova para compreender o que a esperava no final da longa deslocação. Seus pais haviam morrido durante uma epidemia de febre, deixando-a órfã aos oito anos. Aos doze casara com um homem temperamental, propenso a crueldades tenebrosas. Não estava preparada para fazer outra coisa na vida que não fosse servi-lo. Após uma breve estada em Gidá, meus pais regressaram a Riade, pois era aí que a família patriarcal dos AISaud dava continuidade à sua dinastia. O meu pai revelou-se um homem impiedoso, e, como não podia deixar de ser, minha mãe tornou-se uma mulher melancólica. A sua união trágica acabou por dar origem a dezasseis filhos, dos quais onze sobreviveram a infâncias perigosas. Hoje, as suas dez filhas levam vidas controladas pelos homens com quem casaram. O único filho sobrevivente, um importante príncipe e homem de negócios saudita com quatro esposas e numerosas amantes, leva uma vida de grande fausto e prazer.
As minhas leituras levaram-me a saber que sucessores mais civilizados de culturas antigas sorriem diante da ignorância dos seus antepassados, à medida que a civilização avança, o medo da liberdade individual é ultrapassado pelo esclarecimento. A sociedade humana apressa-se, ansiosamente, a ir ao encontro do saber e da mudança. Surpreendentemente, na terra dos meus antepassados pouco mudou desde há um milhar de anos. É certo que surgiram edifícios modernos, os cuidados de saúde mais avançados estão à disposição de todos, no entanto a consideração pelas mulheres e pela sua qualidade de vida continua a ser alvo de um encolher de ombros displicente. É incorrecto, porém, atribuir à nossa fé islâmica a responsabilidade pela posição subalterna que a mulher ocupa na nossa sociedade. Embora o Alcorão determine que a mulher vem a seguir ao homem, muito à semelhança da Bíblia, em que o homem é autorizado a exercer o seu domínio sobre a mulher, o nosso profeta Maomé só preconizou o bem e a justiça para quem pertence ao meu sexo. Os homens que vieram depois de Maomé é que preferiram seguir os costumes e tradições da Idade das Trevas, em vez de seguirem as palavras e o exemplo do Profeta. Este desprezava a prática do infanticídio, um costume vulgar no seu tempo, segundo o qual as famílias se livravam das meninas indesejadas. As próprias palavras do Profeta transmitem veementemente a sua preocupação perante a possibilidade de as mulheres serem alvo de maus tratos e indiferença: que Deus conceda o Paraíso a quem teve uma filha e não a enterrou viva nem a desprezou ou preferiu os filhos varões a ela». In Jean Sasson, A Vida Secreta das Princesas Árabes, 2012, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-674-1.

Cortesia de EASA/JDACT

A Vida Secreta das Princesas Árabes. Jean Sasson. «Os primeiros AISaud eram homens cujos sonhos não os levaram além da conquista de terras desérticas circunstantes e da aventura que eram os ataques nocturnos a tribos vizinhas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Sou princesa numa terra onde os reis ainda governam. Devem conhecer-me apenas por Sultana. Não posso revelar o meu nome verdadeiro, pois receio que possa acontecer algo de mal a mim e à minha família pelo que vos irei contar. Sou uma princesa saudita, membro da família real da Casa de AISaud, os actuais governantes do Reino da Arábia Saudita. A minha qualidade de mulher num país governado por homens não me permite falar-vos directamente. Pedi a uma amiga e escritora americana, Jean Sasson, que me ouvisse e, posteriormente, contasse a minha história. Nasci livre, no entanto hoje estou presa por grilhões. Invisíveis, mantiveram-se lassos e passaram despercebidos até a idade da razão reduzir a minha vida a um estreito segmento de medo. Não me restam recordações dos primeiros quatro anos. Imagino que tenha rido e brincado como todas as outras crianças pequenas, abençoadamente alheia ao facto de o meu valor, dada a ausência de um órgão reprodutor masculino, não ser significativo na minha terra natal. Para compreenderem a minha vida, é necessário conhecerem aqueles que vieram antes de mim. Nós, os AISaud do presente, somos a sexta geração que descende dos primeiros emirados do Nadj, as terras beduínas que hoje fazem parte do Reino da Arábia Saudita. Os primeiros AISaud eram homens cujos sonhos não os levaram além da conquista de terras desérticas circunstantes e da aventura que eram os ataques nocturnos a tribos vizinhas. Em 1891, a calamidade abateu-se sobre o clã AISaud quando este foi derrotado em batalha e se viu obrigado a abandonar o Nadj. Abdul Aziz, que um dia seria meu avô, era uma criança na altura. Foi com dificuldade que sobreviveu às agruras daquela fuga pelo deserto. Mais tarde, recordaria a profunda vergonha que sentira quando o pai lhe ordenara que se enfiasse num alforge grande que depois foi pendurado na sela do seu camelo. Nura, sua irmã, ia encolhida num alforge pendurado no outro lado do camelo que transportava seu pai. Amargurado por ser demasiado jovem para combater e ajudar, assim, a salvar o seu lar, o jovem espreitou, irado, pela abertura do saco, enquanto ia balançando ao ritmo das passadas do animal. Humilhado pela derrota sofrida pela família, ao ver desaparecer de vista a beleza assombrosa da sua terra natal, contaria, mais tarde, que aquele momento representara um ponto de viragem na sua jovem vida. Após dois meses de travessia nómada do deserto, a família dos AISaud encontrou refúgio no país do Kuwait. A vida de um refugiado era tão detestável para Abdul Aziz que este jurou, ainda muito novo, reconquistar as areias do deserto que outrora haviam sido o seu lar.
Assim, em Setembro de 1901, Abdul Aziz, então com vinte e cinco anos, regressou à nossa terra. A 16 de Janeiro de 1902, depois de meses de grandes provações, ele e os seus homens derrotaram estrondosamente os Rashid, seus inimigos. Nos anos que se seguiram, a necessidade de consolidar a lealdade das tribos do deserto levou Abdul Aziz a desposar mais de trezentas mulheres, as quais, a seu tempo, deram à luz mais de cinquenta filhos varões e oitenta filhas. Os filhos das esposas favoritas foram honrosamente distinguidos; esses filhos, agora adultos, constituem o próprio centro do poder na nossa terra. A mais amada de todas as esposas de Abdul Aziz foi Hassa Sudairi. Os filhos de Hassa estão hoje à cabeça das forças combinadas dos AISaud e governam o reino formado pelo pai. Fahd, um desses filhos, é hoje o nosso rei. Muitos filhos e filhas desposaram primos dos ramos proeminentes da nossa família, tal como os AITurki, os Jiluwi e os AIKabir. Os príncipes que resultaram destas uniões e chegaram aos nossos dias encontram-se entre o número dos AISaud mais influentes.
Presentemente, corre o ano de 1991, a nossa numerosa família é formada por cerca de vinte e um mil membros. Deste número, aproximadamente mil são príncipes e princesas que descendem directamente do nosso grande líder, o rei Abdul Aziz. Eu, Sultana, sou uma dessas descendentes directas. A minha primeira recordação nítida é de violência. Tinha eu quatro anos de idade quando fui esbofeteada no rosto pela minha mãe, uma mulher que, normalmente, era meiga. Porquê? Porque imitara o meu pai nas suas orações. Em vez de orar a Meca, filo ao meu irmão de seis anos, Ali. Tomei-o por um deus. Como poderia imaginar que não era? Já lá vão trinta e um anos e não esqueci ainda a dor pungente que aquela bofetada me provocou e o início das dúvidas na minha cabeça: se o meu irmão não era um deus, porque o tratavam como tal?
Numa família de dez filhas e um filho, o medo imperava na nossa casa: medo de que a morte levasse o único varão vivo; medo de que não viessem mais filhos varões; medo de que Deus tivesse amaldiçoado a nossa família com filhas. A minha mãe vivia cada gravidez aterrorizada, rezando por um filho macho, receando que viesse uma filha. Estas foram nascendo, umas atrás das outras, até perfazerem dez. O maior receio da minha mãe tornou-se realidade quando o meu pai procurou uma esposa mais jovem com a finalidade de esta lhe dar mais filhos preciosos. A nova esposa presenteou-o com três rapazes que nasceram mortos, antes de ele se divorciar dela. Finalmente, no entanto, a quarta esposa ofereceu a meu pai uma abundância de varões. O meu irmão mais velho, porém, seria sempre o primogénito e, como tal, o chefe supremo. Eu, à semelhança das minhas irmãs, fingia venerá-lo, mas a verdade é que o odiava como só os oprimidos sabem fazer». In Jean Sasson, A Vida Secreta das Princesas Árabes, 2012, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-674-1.

Cortesia de EASA/JDACT

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Frida. Biografia. Hayden Herrera. «Em 1936, Frida retratou o seu lugar de nascimento e a sua árvore genealógica na deliciosamente estranha e extravagante pintura Meus avós, meus pais e eu»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Casa Azul na rua Londres
«(…) De facto, Limantour escolheu bem: Guillermo Kahlo era um técnico obstinado, com um ponto de vista teimosamente objectivo acerca daquilo que via; nas suas fotografias, assim como nas pinturas da sua filha, não há lugar para truques, efeitos nem ofuscações românticas. Ele tentava transmitir o máximo possível de informações sobre a estrutura arquitectónica do lugar que registava com suas lentes, seleccionando cuidadosamente o seu ponto de observação e usando luz e sombra para delinear a forma. Um anúncio publicitário do seu trabalho, impresso em inglês e espanhol, prometia: Guillermo Kahlo, especialista em paisagens, edificações, interiores, fábricas etc., tira fotografias sob encomenda na capital ou em qualquer outro lugar da República. Embora ocasionalmente fizesse belos retratos de membros do governo Díaz e da sua própria família, ele afirmava não querer fotografar pessoas, pois não desejava melhorar o que Deus criara feio. Difícil afirmar se Guillermo tinha consciência do humor contido numa frase como essa, mas, quando os contemporâneos de Frida fazem referência ao pai da artista, quase sempre é das suas declarações que eles se lembram, e em geral são máximas a um só tempo directas, sardónicas, e, de maneira maravilhosamente fria e nem um pouco emotiva ou sentimental, engraçadas.
Isso não quer dizer que o pai de Frida fosse um homem alegre, de coração leve. Pelo contrário, era homem de poucas palavras, cujos silêncios tinham uma poderosa ressonância, e envolto numa aura de amargura. Ele jamais se sentiu realmente à vontade no México e, embora ansiasse por ser aceito como mexicano, nunca perdeu o forte sotaque alemão. Com o passar dos anos, foi se ensimesmando cada vez mais. Frida se recordava de que o pai tinha apenas dois amigos. Um era um velho largote [homem alto], que sempre deixava o chapéu em cima do armário. Meu pai e o velho passavam horas tomando café e jogando xadrez. Em 1936, Frida retratou o seu lugar de nascimento e a sua árvore genealógica na deliciosamente estranha e extravagante pintura Meus avós, meus pais e eu. Ali ela aparece como uma menininha (dizia ter por volta de dois anos de idade), nua, calma e controlada, de pé no pátio da sua casa azul; a sua cadeirinha está a seus pés, e ela segura uma fita vermelha, o seu sangue, que escora a árvore genealógica com a mesma facilidade de um balão preso a um barbante. O retrato dos pais é baseado n sua fotografia de casamento, em que o casal flutua no céu feito dois anjos, emoldurados por uma auréola de nuvens. Essa antiquada convenção fotográfica deve ter agradado a Frida: na sua tela, ela aninha o retrato dos avós em nuvens semelhantes. Os avós maternos de Frida, o índio Antonio Calderón e a gachupina (de origem espanhola) Isabel González y González, estão situados acima da mãe da pintora. Do lado paterno há um casal europeu, Jakob Heinrich Kahlo e Henriette Kaufmann Kahlo. Acerca da característica física mais notável de Frida não pode pairar dúvida: ela herdou da avó paterna as sobrancelhas espessas e unidas. A pintora dizia ser fisicamente parecida tanto com o pai como com a mãe: tenho os olhos do meu pai e o corpo da minha mãe. Na tela em questão, Guillermo Kahlo tem um olhar inquieto, penetrante, o mesmo olhar que, em toda a sua intensidade perturbadora, apareceria novamente nos olhos da sua filha.
Frida copiou fielmente da fotografia original cada prega, cada dobra, cada costura e cada laço do vestido de casamento da mãe, criando um jocoso realce para o feto cor-de-rosa, já bastante desenvolvido, que ela situou na virginal bainha branca. O feto é Frida; o facto de que pode também ser uma referência à possibilidade de que sua mãe já estava grávida quando se casou é uma ilustração do típico prazer que Frida sentia pelos múltiplos significados. Abaixo do feto há um falso retrato de casamento: um enorme espermatozoide, seguido por um cardume de competidores menores, penetra um óvulo: Frida no momento da concepção. Ao lado, outra cena de fecundação: um cacto carmesim, em formato de U, abrindo-se para receber o pólen carregado pelo vento.
Frida situa a sua casa não no subúrbio, mas na planície salpicada de cactos do platô central mexicano. À distância se estendem montanhas rasgadas por ravinas, invariavelmente a mesma paisagem dos seus autorretratos; logo abaixo da imagem de seus avós paternos vê-se o oceano. Os avós mexicanos são simbolizados pela terra, Frida explicou; os avós alemães, pelo mar. Contíguo à casa da família Kahlo, há um humilde lar mexicano; além, num campo, vê-se uma habitação ainda mais primitiva, uma choça indígena de adobe. Numa visão infantil, a artista incluiu todo o distrito de Coyoacán na sua própria casa, e depois apartou-a da realidade, num ermo. A sensação é que Frida está de pé no meio da casa, no meio do México, no meio do mundo». In Hayden Herrera, Frida, A Biografia, 1983, tradução de Renato Marques, Editora Globo, 2011, ISBN 978-852-505-353-4.

Cortesia de EGlobo/JDACT

Obra Poética Reunida (1950-1996). Hilda Hilst. «Telhas, calhas cordas de luz que se fizeram palavra alguém sonha a carne da minha alma»

Cortesia de wikipedia e jdact

Via Espessa
[…] XIII
« Querer voar, Samsara? Queres trocar o moroso das pernas
Pela magia das penas. e planar coruscante
Acima da demência? Porque te vejo às tardes desejosa
De ser uma das aves retardatárias do pomar.
Aquela ali talvez, rumo ao poente.

Pois pode ser, lhe disse. Santos e lobos
Devem ter tido o meu mesmo pensar. Olhos no céu
Orando, uivando aos corvos.

Então aproximou-se rente ao meu pescoço:
Esquece texto e sabença: as cadeias do gozo.
E labaredas do intenso te farão o voo».

XIV
«Telhas, calhas
Cordas de luz que se fizeram palavra
Alguém sonha a carne da minha alma.

Ecos, poço
O esquecimento perseguindo um corpo
Aqui me tens entre a vigília e o encanto

Cativa da loucura
Perseguindo o louco».

XV
«Eram azuis as paredes do prostíbulo
Ela estendeu-se nua entre os arcos da sala
E matou-se devassada de ternura.
Que azul insuportável, antes gritou.
Como se adulta um berço me habitasse

Foi esta a canção de Natal cantada pelo louco
Quando me deu a Hilde: a porca que levava sobre o dorso».

XVI
«Não percebes, Samsara, que Aquele que se esconde
E que tu sonhas homem, quer ouvir teu grito?
Que há uma luz que nasce da blasfémia
E amortece na pena? Que é a cinza a cor do teu queixume
E o grito tem a cor do sangue Daquele que se esconde?

Vive o carmim, Samsara. A ferida.
E terás um vestígio do Homem na tua estrada».
[…]

Hilda Hilst, Obra Poética Reunida (1950-1996), 1998, organização Costa Duarte, Literatura brasileira século XX, Wikipédia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

Frida. Biografia. Hayden Herrera. «Aos 24 anos, Matilde, que havia muito já passara da idade usual do casamento, talvez estivesse particularmente susceptível depois de um caso amoroso anterior, de desfecho trágico»

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A Casa Azul na rua Londres
«(…) Ele chegou à Cidade do México quase sem dinheiro. Por meio de contactos com outros imigrantes alemães, arranjou emprego como caixeiro na Cristalería Loeb, loja de artigos de cristal. Depois, foi vendedor numa livraria. Por fim, trabalhou numa joalharia chamada La Perla, de propriedade de conterrâneos seus, alemães com quem ele tinha viajado para o México. Em 1894, Guillermo casou-se com uma mexicana que morreu quatro anos depois, ao dar à luz a segunda filha do casal. Depois apaixonou-se por Matilde Calderón, colega de trabalho na joalharia La Perla. A própria Frida contou assim a história: na noite em que a sua mulher morreu, meu pai chamou minha avó Isabel, que chegou trazendo minha mãe. Minha mãe e meu pai trabalhavam juntos. Ele se apaixonou profundamente por ela, e depois os dois acabaram casando. Não é difícil imaginar porque Guillermo amava Matilde Calderón. Fotografias dela na época do casamento mostram uma mulher impressionantemente bonita, com enormes olhos pretos, lábios carnudos e queixo resoluto. Ela parecia um sininho de Oaxaca, definiu Frida certa vez. Quando ia ao mercado, ela apertava bem a cinta, marcando graciosamente a cintura, e carregava a cesta com ar coquete. Nascida em Oaxaca, Matilde Calderón y González era a mais velha de doze filhos de Isabel González y González, criada em convento e filha de um general espanhol, e Antonio Calderón, fotógrafo de ascendência indígena nascido na cidade mexicana de Morelia. De acordo com Frida, a sua mãe era inteligente, embora analfabeta: o que lhe faltava em educação formal ela compensava em devoção religiosa.
É um pouco mais difícil imaginar por que a devota Matilde Calderón se encantou por Guillermo. O imigrante de 26 anos era judeu de nascimento, ateu por convicção, e sofria de epilepsia. Por outro lado, a pele clara e a educação europeia devem ter tido certo apelo, numa época em que qualquer coisa que vinha da Europa era considerada superior a tudo que fosse mexicano. Além disso, ele era inteligente, trabalhador e bastante bonito, apesar das enormes e proeminentes orelhas. Tinha cabelos castanhos crespos, uma boca formosa e delicada, um bigodinho de pontas finas viradas para cima e um corpo esbelto e ágil, ele era muito interessante e, quando caminhava, movia o corpo de maneira elegante, disse Frida. Se o seu olhar era um pouco intenso demais, e com o passar dos anos os seus enormes olhos castanhos ficariam cada vez mais inquietos, era também um olhar romântico.
Aos 24 anos, Matilde, que havia muito já passara da idade usual do casamento, talvez estivesse particularmente susceptível depois de um caso amoroso anterior, de desfecho trágico. Frida se lembrava de que, quando tinha onze anos de idade, a mãe mostrou-lhe um caderno de capa em couro russo em que ela guardava as cartas do seu primeiro namorado. Na última página, o caderno dizia que o remetente das cartas, um jovem alemão, se suicidara na presença dela. Esse homem continuava vivo na lembrança dela. É natural que a jovem mulher se sentisse atraída por outro alemão, e, se não amava Guillermo, Frida dizia que não, Matilde pelo menos achava que encontrara um bom partido. Foi Matilde Calderón de Kahlo quem convenceu o marido a seguir a carreira de fotógrafo, profissão do pai dela. Frida disse que o avô emprestou uma câmara a Guillermo e que a primeira coisa que os dois fizeram foi viajar pelo país. Eles produziram uma colecção de fotos da arquitectura indígena e colonial e voltaram para abrir a sua primeira loja, na avenida 16 de Septiembre.
As fotografias foram encomendadas por José Ives Limantour, secretário do Tesouro do ditador Porfirio Díaz, e ilustrariam uma série de publicações de luxo, em formato grande, para a celebração do centenário da independência mexicana. A empreitada levou quatro anos para ser concluída. De 1904 a 1908, usando excelentes câmaras alemãs e mais de novecentas placas de vidro que ele mesmo preparava, Guillermo registou a herança cultural do México e fez por merecer o elogioso epíteto de o primeiro fotógrafo oficial do património cultural do México». In Hayden Herrera, Frida, A Biografia, 1983, tradução de Renato Marques, Editora Globo, 2011, ISBN 978-852-505-353-4.

Cortesia de EGlobo/JDACT