terça-feira, 11 de junho de 2024

Dr José Maria Rodrigues. Camões. A Infanta D. Maria (1521-1577). «E vendo-se depennndo. De puro penado morre. Se a queixumes se soccorre, lança no fogo mais lenha. Não há mal que lhe não venha»

Cortesia de Publicações Foriente

 

Com a devida vénia ao Dr. José Maria Rodrigues (3.1761-06184643-2), Coimbra, 1910


«Entre as encantadoras redondilhas de Camões figuram as duas voltas ao mote:

Perdigão perdeo a penna",

Não ha mal que lhe não venha.

Dizem ellas, num tom de accentuada melancholia:

Perdigão, que o pensamento

Subio a um alto logar,

Perde a penna do voar,

Ganha a pena do tormento.

Não tem no ar, nem no vento,

Asas com que se sostenha.

Não ha mal que lhe não venha !

Quis voar a uma alta torre,

 

Mas achou-se desasado;

E vendo-se depennndo.

De puro penado morre.

Se a queixumes se soccorre,

I.ança no fogo mais lenha.

Não há mal que lhe não venha !

 

O próprio perdigão depenado, que nem ao menos se podia queixar, sem lançar mais lenha no fogo, sem aggravar a sua situação, era o próprio Camões. O alto logar até onde subio o seu pensamento, a alta torre a que quis voar, era uma das mais nobres e mais sympathicas figuras femininas que teem vivido sob este bello sol de Portugal:

era a filha mais nova del-rei Emanuel, a infanta D. Maria (1).

NOTA: (1)

«É muito interessante a monographia de D. Carolina Michaelis de Vasconcellos a respeito da infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas datnas (Porto, 1902).

Della transcrevo aqui a seguinte passagem: «De sangue real, herdeira da coroa, se não morresse um anno antes da catastrophe de Alcacer-Quebir, pertence á historia e teve biographos conscienciosos. Em creança e na flor da edade viu refulgir diante de seus olhos a coroa de França ; foi escolhida repetidas vezes para o throno imperial, orbis destinata império, outras tantas para o império de Hespanha. Acariciando sempre, no intimo do coração, este ultimo projecto, ficou ainda assim innupta, uma triste sempre-noiva. Este estado tragicomico que lhe foi imposto, mas que afinal acceitou com sublime altivez, aparentando tê-lo escolhido livremente, despertou a dolente sympathia dos coevos. E ainda hoje é capaz de suscitar a dos pósteros».

(2) Basta citar por agora os sonetos 27 e 193:

NOTA:

«Males, que contra mim vos conjurastes,

Quanto ha de durar tão duro intento ?

Se dura, porque dure meu tormento,

Baste-vos quanto já me atormentastes.

Mas, se assi porfiais, porque cuidastes

Derribar o meu alto pensamento,

Mais pôde a causa delle, em que o sustento,

Que vós, que delia mesma o ser tomastes.

E, pois vossa tenção com minha morte

E de acabar o mal destes amores,

Dai já fim a tormento tão comprido.

Assi de ambos contente será a sorte :

Em vós, por acabar-me, vencedores ;

Em mim, porque acabei de vós vencido».

 

«Erros meus, má fortuna, amor ardente.

Em minha perdição se conjuraram.

Os erros e a fortuna sobejaram,

Que para mi bastava amor somente.

Tudo passei. . . Mas tenho tão presente

A grande dòr das cousas que passaram,

Que já as frequências suas me ensinaram

A desejos deixar de ser contente.

Errei todo o decurso de meus annos ;

Dei causa a que a fortuna castigasse

As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.

Oh ! Quem tanto pudesse, que fartasse

Este meu duro gcnio, de vinganças !»


In Dr José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta D. Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Príncipe Real Luís Philippe (3 1761 06184643.2), PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do AHistórico/UCoimbra/JDACT

Camões, Didácticas, Infanta D. Maria, JDACT, Dr José Maria Rodrigues, Universidade de Coimbra, 500 Anos  de Camões,

sexta-feira, 31 de maio de 2024

No 31. Idade Média. Umberto Eco. «… para que as cidades se mantenham como importantes centros organizativos e administrativos dos respectivos territórios circundantes, apesar da derrocada institucional e das transformações da sociedade, com o poder sempre crescente das estruturas eclesiásticas»

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Sés episcopais

«Com profundas transformações como o desaparecimento das cúrias e das magistraturas citadinas no século VI, os centros urbanos continuam a ser, na alta Idade Média, núcleos de poder reconhecível, em particular por efeito da presença dos bispos, autoridades cada vez mais influentes no campo político e administrativo. A decisão de instalar os bispos nas cidades administrativamente mais importantes do império, concretizada ainda na época romana segundo a orientação de Orígenes (c. 185-c. 253), contribui para que as cidades se mantenham como importantes centros organizativos e administrativos dos respectivos territórios circundantes, apesar da derrocada institucional e das transformações da sociedade, com o poder sempre crescente das estruturas eclesiásticas.

Do mesmo modo, de um ponto de vista urbanístico e construtivo, não no sentido da construção de igrejas, mas no da criação de novos espaços centrais e de uma completa reorientação urbanística, a cristianização das cidades é exactamente o mais forte sinal de transformação e de descontinuidade entre a cidade clássica e a cidade medieval. Ainda que sejam as diferenças locais a alcançar a supremacia e que estas transições ocorram com ritmos próprios nas diversas áreas, é possível indicar, de um modo geral, como momento de viragem crucial neste processo, os decénios da passagem do século VI para o seguinte.

Declínio e transformação

Devemos reconhecer a importância do papel desempenhado neste campo, especialmente a partir dos anos 70 do século XIX, pela arqueologia medieval, que por meio da identificação das estruturas edificadas possibilitou uma definição mais correcta dos espaços urbanos e da sua suposta retracção, não só com a identificação cada vez mais precisa de vestígios extremamente frágeis, como os furos de estacas e pilares, mas também com uma ampla revisão das cronologias até então utilizadas. A discussão deslocou-se, pois, do declínio para a transformação e, ao mesmo tempo, noutros aspectos, para a continuidade: os três são na realidade legitimamente utilizáveis para simples aspectos arquitetónicos, habitacionais ou sociais, mas dificilmente podem ser reunidos num quadro global.

Transformação e sobrevivência da cidade romana

É um dado de facto inelutável ter havido nas cidades da Antiguidade tardia uma mudança estrutural e funcional: a partir do século III, as magistraturas locais e as cúrias perdem visibilidade, as hierarquias eclesiásticas ganham-na e, com a construção ou reconstrução das cinturas muradas e a inserção das novas sedes do poder religioso e civil, o aspecto físico dos centros urbanos modifica-se. Ao mesmo tempo, vai-se perdendo gradualmente a especificidade administrativa e jurídica das cidades, que lhes é já homologada no âmbito de uma autoridade central mais forte, que no final do século III lhes retira, por exemplo, o direito de cunhar moeda autonomamente. Demonstra-o o facto de Menandro de Laodiceia, na época diocleciana, numa obra destinada a definir o modo correcto de escrever o elogio de uma cidade, e que atesta, portanto, uma prática retórica ligada à celebração das estruturas citadinas, ainda florescente, sublinhar que todas as cidades, já governadas por uma só lei, são por isso todas iguais». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento,

No 31. Idade Média. Umberto Eco. «Em 476, não tendo obtido do magister militum Orestes (?-476) o estatuto de foederati, os soldados estacionados em Itália elegem Odoacro como rex (c. 434-493) e procedem à deposição do filho de Orestes, Rómulo Augústulo (459-476, imperador desde 475)»

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Da Queda do Império Romano do Ocidente a Carlos Magno

A instalação dos bárbaros

«No campo do direito, embora promulguem leis autónomas, os regna fazem-no num esforço de conciliação do seu direito consuetudinário com o ius romano: a uma primeira fase de coexistência de dois direitos diferentes para duas populações, segue-se a codificação em latim das leis, que já vencem limitações de aplicação e são entendidas como destinadas a toda a população. Ficam-nos como monumentos significativos o Breviarium Alaricianum (506), com que o rei visigodo Alarico II (?-507), soberano desde 484), dá ao seu povo (o primeiro para quem é produzida lei escrita com o Codex Euricianus, de c. 470) um resumo do Código Teodosiano, e as Variæ de Cassiodoro (c. 490-c. 583), que também retomam as formas do édito e do rescrito para testemunhar a actividade legislativa de Teodorico, o Grande. A própria presença de Cassiodoro, de Boécio e de outros membros da elite romana na sua corte já é apontada como sinal do desejo de integração do soberano ostrogodo.

A deposição de Rómulo Augústulo

Em 476, não tendo obtido do magister militum Orestes (?-476) o estatuto de foederati, os soldados estacionados em Itália elegem Odoacro como rex (c. 434-493) e procedem à deposição do filho de Orestes, Rómulo Augústulo (459-476, imperador desde 475). Este acontecimento, que é mais ou menos uma queda sem ruído, como lhe chama Arnaldo Momigliano (1908-1987), está inserido numa trama de longa duração e traz na sua esteira uma história de fragmentação regional, aquisição e desejo de autonomias cada vez mais acentuadas e de uma organização mediterrânica inicialmente integrada, que se desagrega numa série de regiões ávidas de auto-suficiência política e económica.

Ver também: História As migrações dos bárbaros e o fim do Império Romano do Ocidente, Justiniano e a reconquista do Ocidente; O Império Bizantino até ao período do iconoclasmo

Da Cidade ao Campo

A historiografia tradicional vê como um dos sinais do fim da Antiguidade o abandono das cidades e a preferência pelo campo. A realidade das estruturas urbanas tardo-antigas e alto-medievais é bastante mais complexa e deve ser explicada mais em termos de transformação do que de declínio: e facto, motivos propagandísticos, políticos, económicos e eclesiásticos  entrelaçam-se na determinação de um reposicionamento da cidade e do campo nas suas relações recíprocas.

O abandono das cidades

A historiografia tradicional do século XIX considerava o abandono das cidades e a transferência da população para os campos, para os latifúndios dos aristocratas, em conexão com a origem teórica do novo modo de produção feudal, também chamado sistema da curtis, fortemente baseado na auto-subsistência e com o declínio da actividade comercial, um dos traços distintivos da passagem para a Idade Média. Os centros urbanos iriam, portanto, despovoar-se e transformar-se parcialmente em simples aldeias com grandes extensões de áreas rurais até no interior dos muros.

Além disso, a transferência dos ofícios e do comércio para as zonas rurais envolveria a perda da especificidade económica das cidades. Ao contrário do mundo antigo, fortemente urbanizado, em que a cidade, símbolo da vida civil e em sociedade, é o centro de consumo e expedição dos bens produzidos no território circundante (quer se fale de cidade parasitária quer de cidade produtiva, o mundo da alta Idade Média seria, principalmente, rural. Em suma, é necessária uma definição a montante de cidade, não focada unicamente na sua construção, mas na componente política e social: é evidente que certos edifícios típicos da cidade antiga, como o teatro e o anfiteatro, desaparecem, mas este dado é significativo no aspecto cultural, não na definição das instalações urbanas». ». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.

 Cortesia de PdQuixote/JDACT

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sábado, 18 de maio de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«Uma coisa é escrever umas palavras num computador e que a máquina procure o mesmo texto nas bases de dados, e outra é cotejar duas imagens de um objecto…»

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«Por que precisamente sete e não oito, ou cinco ou quinze, por exemplo? Por que todas diferentes? Por que todas envoltas por formas geométricas, como claraboias medievais? Por que todas encimadas por uma pequena coroa raiada...? Jamais poderíamos descobrir, me dizia compungida, era demasiado complexo e absurdo. Levantava o olhar das fotografias e dos croquis e a pousava na silhueta de papel, para ver se a distância das cruzes no corpo me dava a pista; mas não via nada, ou, ao menos nada que me ajudasse a resolver o hieroglífico, assim descia de novo os olhos até a mesa e me concentrava no estudo de cada uma das peculiares cicatrizes coroadas.

Glauser-Róist apenas pronunciou uma palavra durante aqueles dias; passava as horas mortas teclando no computador e eu sentia nascer em meu interior um rancor absurdo contra ele por perder o tempo tonteando daquela maneira enquanto minha cabeça ia se convertendo lentamente em pasta de papel.

A passos gigantescos se aproximava o domingo, 19 de Março, dia de São Giuseppe, e se impunha começar a preparar minha viagem a Palermo. Ia pouco a casa, apenas duas ou três vezes ao ano, mas, como boa família siciliana, os Salinas permaneciam indissoluvelmente unidos, para bem ou para mal, inclusive além da morte. Ser a penúltima de nove irmãos, daí meu nome, Otávia, a oitava, tem muitas vantagens quanto ao aprendizado e uso das técnicas de sobrevivência; sempre há algum irmão ou irmã mais velha disposta a torturar ou a humilhar debaixo do peso de sua autoridade, suas coisas são do primeiro que as apanha, seu espaço é invadido pelo primeiro que chegar, seus triunfos ou fracassos já foram os triunfos ou fracassos dos que vieram antes, etc...

Com certeza, a união entre os nove filhos de Filipa e Giuseppe Salina era indestrutível: apesar de minha ausência de vinte anos, da de Pierantónio, franciscano na Terra Santa, e da de Lúcia, dominicana residente na Inglaterra, contavam connosco para organizar qualquer festejo familiar, comprar qualquer presente para nossos pais ou adoptar qualquer decisão colegiada que afetasse à família.

Um dia antes da minha partida, o capitão Glauser-Róist voltou do almoço nos barracões da Guarda Suíça com um estranho brilho metálico em seus olhos cinzentos. Eu continuava totalmente enfrascada na leitura de um tedioso tratado sobre a arte cristã dos séculos VII e VIII, com a vã esperança de encontrar qualquer alusão ao desenho de alguma das cruzes.

Doutora Salina, murmurou após fechar a porta às suas costas. Tive uma ideia. Estou escutando, respondi, afastando de mim, com as duas mãos, o pesado compêndio. Precisamos de um programa de computador que coteje as imagens das cruzes do etíope com todos os ficheiros de imagens do arquivo e da biblioteca. Levantei as sobrancelhas em um gesto de estranheza. É possível fazer isso? Perguntei. O serviço de informática do arquivo pode fazê-lo. Fiquei pensando uns instantes. Não sei... Objectei pensativa. Deve ser muito complicado. Uma coisa é escrever umas palavras num computador e que a máquina procure o mesmo texto nas bases de dados, e outra é cotejar duas imagens de um objecto que podem estar arquivadas em tamanhos diferentes, em formatos incompatíveis, tomadas de ângulos distintos ou, inclusivé, com uma qualidade tão ruim que o programa não possa reconhecê-las como parecidas. Glauser-Róist me olhou com pena». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

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quarta-feira, 8 de maio de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«… a tarefa se resumia na explicação dos signos, independentemente do que todos eles juntos queriam dizer, assim não havia outro remédio do que seguir adiante, sem sair do caminho assinalado, e esclarecer por fim o significado das sete cruzes»

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«Nas origens do cristianismo, e por surpreendente que possa parecer, a Cruz não foi objecto de adoração. Os primeiros cristãos ignoraram completamente o Instrumento do Martírio, preferindo outros elementos ornamentais mais alegres se de representar sinais e imagens. Além disso, durante as perseguições romanas, escassas, já que se reduziram à conhecida actuação de Nero após o incêndio de Roma no ano 64 e, segundo Eusébio (260-341, bispo de Cesárea), aos dois anos da mal chamada Grande Perseguição de Diocleciano (de 303 a 305), durante as perseguições romanas, como disse, a exibição e adoração pública da Cruz seria, indubitavelmente, muito perigosa, de modo que nas paredes das catacumbas e das casas, nas lápidas dos sepulcros, nos objectos pessoais e nos altares, apareciam símbolos tais como o cordeiro, o peixe, ou a pomba.

A representação mais importante, com certeza, era o Lábaro, o monograma formado pelas primeiras letras gregas do nome de Cristo, XP, ji e rho, que foi usado profusamente para decorar os lugares sagrados. Existiam múltiplas variações da imagem do Lábaro, em função da interpretação religiosa que se queria dar: por exemplo, sobre as tumbas dos mártires se representavam Lábaros com uma rama de palma em lugar da letra P, simbolizando a vitória de Cristo, e os monogramas com um triângulo no centro, expressavam o Mistério da Trindade.

No ano 312 de nossa era, o imperador Constantino o Grande, adorador do deus sol, na noite anterior à batalha decisiva contra Magêncio, seu principal rival pelo trono do Império, sonhou que Cristo aparecia e lhe dizia que gravasse essas duas letras, XP, na parte superior dos estandartes de seus regimentos. No dia seguinte, antes do combate, diz a lenda que viu aparecer o dito selo, adicionado de uma barra transversal formando a imagem de uma Cruz, sobre a esfera segadora do sol e, abaixo, as palavras gregas En-Toutoi-Nika, mais conhecidas em sua tradução latina de In hoc signo vinces, Com este signo vencerás. Como Constantino, inquestionavelmente, derrotou Magêncio na batalha da Ponte Milvio, seu estandarte com o Lábaro, chamado mais tarde Labarum, se converteu na bandeira do Império. Este símbolo, pois, adquiriu uma importância extraordinária no restante do Império Romano e, quando a parte ocidental do território, Europa, caiu em poder dos bárbaros, continuou sendo utilizada na parte oriental, Bizâncio, ao menos até ao século VI, momento em que, como já disse, desapareceu por completo da arte cristã.

Então, o Lábaro que nosso etíope exibia no torso era precisamente este que o imperador viu no céu antes da batalha; este com o travessão horizontal e não outra de suas variações, e não deixava de ser um dado curioso, e, mais que curioso, estranho, porque deixara de ser utilizada há catorze séculos, como bem testemunhava o Papa da Igreja São João Crisóstomo, que, em seus escritos, afirmava que, por fim, nos finais do século V, o dito símbolo fora substituído pela autêntica Cruz, exposta agora publicamente com orgulho e prodigalidade.

É certo que ao longo dos períodos românico e gótico os lábaros reapareceram como motivos ornamentais, mas com outras formas diferentes à simples e concreta do Monograma de Constantino. Bem, outro mistério aparentemente resolvido. Mas a palavra STAUROS repartida em letras pelo corpo continuava nos deixando na perplexidade mais absoluta. Cada dia que se passava o desejo de desenredar todo aquele embrulho, de compreender o que aquele estranho cadáver estava tentando nos indicar, ficava mais e mais angustiante. Com certeza, a tarefa se resumia na explicação dos signos, independentemente do que todos eles juntos queriam dizer, assim não havia outro remédio do que seguir adiante, sem sair do caminho assinalado, e esclarecer por fim o significado das sete cruzes». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

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segunda-feira, 29 de abril de 2024

Maria Velho da Costa. Cravo.«De ferros, de burel, estamenha e lã cardada, de patas e pés nus só enrolados, traça da mão e cuspo em tudo e tudo, eu vi o punho cheio a pôr-se em terra, a inteirar-se»

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Crónica dos idos

«E eu vi deles a primeira dinastia. Tinha-se muito recta pela madrugada e velava. Os céus estavam cerrados alto e os ginetes faziam outras pequenas nuvens pelas narinas, fora do horto da ermida, casqueando manso nos penedos seu sono de pé, enquanto eles lá dentro velavam seu sagrar-se à desmesura, a sempre nova guerra.

Virgens, o olho à escuta e raiado de sangue, os tão novos passavam a mão nos peitos luzidos de orvalho, ainda só disso, e esperavam, montariavam golpes lá no rosar das nuvens do clarear, estremeciam no dentro do dentro da sua novidão, Passavam a água em barros e pão ázimo, queriam suster e viam e ouviam, sua língua de argila, os sons de muco e chão. Vos digo claramente que não sabiam que nada, era só um mais ser, a princesia, ir descendo nas terras um coro de ser eu.

De ferros, de burel, estamenha e lã cardada, de patas e pés nus só enrolados, traça da mão e cuspo em tudo e tudo, eu vi o punho cheio a pôr-se em terra, a inteirar-se. Ninguém não era irmão e era cedo. Como do cru ao cru, todo o ar era tenro. Bestas e gente tinham cheiro, gemia um só vagido e era a língua, o rude afago dela. Cera silvestre neles, bosta quente, coalhado leite, dedos sem escrita, mãos de derramar. Todos eram primeiros, grossos, unos.

Mais vi: as casas, os caminhos e as fontes, o gado são, entrarem pelas barcas ao meio-dia. Vi os segundos como corvos e tudo tendo a medo, conservando. Tinham seus paços postos sobre estacas e em baixo eram o ouro fosco e a pimenta grumosa, restos de maresia, o agougar dos caranguejos. Vi-os de negro e chapelão maldizerem as águas e os ares, montados sobre as mais altas pontas de terra, espumando ao mar as suas próprias espumas. Vi as mulheres, a enegrecer de trapos o todo corpo delas, gementes e chorantes em nome de uns nomes ou de outros.

E vi-os engodar a própria morte, tecer vaidades dela. E' ouvi a antiga renegada faladando vozes de mando por cima desses brados altos. Até que se deitaram pelo chão, pelas terras todas e ficaram à escuta do seu ronco. Até que se deitaram para as águas cuspindo os dentes e mordendo as redes. Vi-os erguerem-se e só comerem estevas e roerem as mãos até aos punhos para de novo ter nome.

Mais vi as armas que empunhavam, os chuços e ancinhos para sempre. Vi-os ir de uma a outra casa, sempre sagradas santas, a demandar caminhos, sem ninguém que ficasse em nome deles. Puseram-se então a triturar o membro a todos os meninos, para que não fossem mais Por sobre a terra.» In Maria Velho da Costa, Cravo, 1976, Morais Editores, 2024, Porto Editora, Assírio & Alvim, ISBN 979-972-572-579-5.

Cortesia de A&Alvim/JDACT

JDACT, Maria Velho da Costa, Liberdade, 25 de Abril, Narrativa,

domingo, 28 de abril de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«… o monograma do Nome de Cristo que o etíope tatuara sobre o peito e o estômago, correspondia a uma variedade conhecida como Monograma de Constantino e que seu uso na arte cristã desaparecia a partir do século VI de nossa era»

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«Às nove da noite estávamos mortos de cansaço. Glauser-Róist localizara algumas pobres referências às cicatrizes. Explicou-me, que tentou uma pesquisa religiosa circunscrita a uma franja da África Central na que, por desgraça para nós, não ficava a Etiópia. Nessa área, pelo que entendi, as tribos primitivas se acostumaram a friccionar com certa mistura de ervas as incisões da pele, feitas geralmente com umas pequenas canas tão afiadas como facas. Os motivos ornamentais podiam chegar a ser muito complexos, mas, em essência, respondiam a formas geométricas de simbologia sagrada, muitas vezes com relação a algum rito religioso.

Isso é tudo...? Perguntei desenganada, ao vê-lo fechar a boca após o exíguo relatório. Bom, há algo mais, mas não é importante. Os queloides, ou seja, as cicatrizes mais grossas e avolumadas são um autêntico atractivo sexual para os varões quando as mulheres as exibem. Ah...! Respondi com um gesto de estranheza. Isso tem graça! Jamais me teria ocorrido.

De modo que... Prosseguiu indiferente. Que continuamos sem saber por que essas cicatrizes estão no corpo desse homem. Acho que foi então quando me fixei, pela primeira vez, que seus olhos eram cinza claro. Outro dado curioso, ainda que também irrelevante para nosso trabalho, é que ultimamente esta prática está em moda entre os jovens de muitos países. Chamam-na body art ou performance art, e um de seus defensores é o cantor e actor David Bowie.

Não posso crer... Suspirei, esboçando um sorriso. Quer dizer que deixam fazer esses cortes por gosto? Bem... Murmurou tão desconcertado como eu. Tem algo a ver com o erotismo e a sensualidade, mas não saberia explicar. Nem tente, obrigada dispensei, extenuada, me pondo de pé e dando por terminada aquela primeira e esgotadora jornada de trabalho. Vamos descansar capitão. Amanhã vai ser outro dia muito longo.

Permita-me que a leve a sua casa. Estas não são horas para que ande sozinha pelo burgo.

Estava demasiado cansada para negar, assim arrisquei de novo minha vida dentro daquele carro tão espectacular. Ao nos despedir, agradeci, com algo de má consciência por minha forma de tratá-lo, e rechacei educadamente sua oferta para vir me apanhar na manhã seguinte; estava há dois dias sem ouvir missa e não estava disposta a deixar passar nem um mais. Levantaria cedo e, antes de recomeçar o trabalho, iria à Igreja de Sant Michele e Magno. Ferma, Margherita e Valéria estavam vendo um velho filme na televisão quando entrei pela porta. Tiveram o detalhe de guardar o jantar quente no micro-ondas, de modo que tomei um pouco de sopa, sem muita vontade; vira demasiadas cicatrizes nesse dia, e pensava ficar um tempo na capela antes de ir dormir. Mas, naquela noite não pude me concentrar na oração, e não só porque estivesse demasiado cansada, e estava, mas, também porque três de meus oito irmãos resolveram telefonar da Sicília para me perguntar se eu iria à festa de São Giuseppe, que organizávamos todos os anos para o nosso pai. Disse aos três que sim e fui para a cama, desesperada.

O Capitão Glauser-Róist e eu vivemos umas semanas frenéticas a partir daquele primeiro dia. Fechados em meu escritório desde as oito da manhã até as oito ou nove da noite, de segunda a domingo, repassávamos os poucos dados que tínhamos à luz das escassas informações que íamos obtendo dos arquivos. Resolver os problemas das letras gregas e do Lábaro foi relativamente simples em comparação com o titânico esforço de resolver o enigma das sete cruzes.

No segundo dia de trabalho, ao chegar ao escritório, quando fechei a porta e vi a silhueta de papel colada na madeira, a solução das letras gregas me golpeou o rosto como a luva de um desafiode honra. Era tão evidente, que não podia crer que na noite anterior não o tivesse visto, ainda que me justificasse lembrando o muito cansado que estava: lendo da cabeça até as pernas, da direita para a esquerda, as sete letras formavam a palavra grega STAUROS, cujo significado era, obviamente, CRUZ. A essas alturas, era inquestionável que tudo o que havia naquele corpo estava relacionado com o mesmo tema.

Alguns dias mais tarde, após estudar várias vezes do direito e do revés, sem êxito; consultar a história da velha Abissínia (Etiópia); conferir a mais variada documentação sobre a influência grega na cultura e na religião no dito país; após ficarmos longas horas examinando cuidadosamente dezenas de livros de arte de todas as épocas e estilos, extensos relatórios sobre seitas remetidos pelos diferentes departamentos do Arquivo Secreto e exaustivos informes sobre lábaros que o capitão conseguiu através do  computador, nós fizemos outra descoberta significativa: o monograma do Nome de Cristo que o etíope tatuara sobre o peito e o estômago, correspondia a uma variedade conhecida como Monograma de Constantino e que seu uso na arte cristã desaparecia a partir do século VI de nossa era». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

JDACT, Matilde Asensi, Literatura, Vaticano, Conhecimento,                      

sexta-feira, 26 de abril de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«… todas tinham algo em comum: estavam encerradas, ou protegidas, por quadrados, círculos e retângulos, como pequenas janelas ou janelas medievais, com a mesma pequena coroa raiada na parte superior…»

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«Encontrei outras seis letras gregas espalhadas pelo corpo: no braço direito, sobre o bíceps, uma tau, no esquerdo, uma ípsilon, no centro do peito sobre o coração, uma alfa, no abdomen, uma rho, no músculo direito, sobre o quadríceps, uma omicrom e no esquerdo, em idêntico lugar, outra sigma. Justo debaixo da letra alfa e por cima da rho, na área dos pulmões e do estômago, se via um grande Lábaro, o conhecido monograma, tão habitual nos tímpanos e altares das igrejas medievais, formado pelas duas primeiras letras gregas do nome de Cristo, ji e rho, superpostas. Este Lábaro, com certeza, apresentava uma curiosa peculiaridade: haviam adicionado uma barra transversal que ajudava a compor a imagem de uma cruz. O restante do corpo, exceptuando as mãos, os pés, as nádegas, o pescoço e o rosto, estava cheio de outras cruzes da mais original feitura que tinha visto em minha vida.

O Capitão Glauser-Róist ficara longo tempo sentado frente ao computador, teclando sem descanso misteriosas instruções, mas, de vez em quando, aproximava sua cadeira da minha e olhava em silêncio a evolução de minhas análises. Por isso, quando, subitamente, me perguntou se seria de ajuda conseguir um desenho do corpo humano em tamanho natural para ir assinalando as cicatrizes, me sobressaltei. Antes de responder, fiz um par de exageradas afirmações e negativas com a cabeça para aliviar minhas doloridas cervicais.

É uma boa ideia. Por certo, capitão, até onde está autorizado a me informar sobre este pobre homem? Monsenhor Tournier comentou que fez estas fotografias. Glauser-Róist se levantou de sua cadeira e se dirigiu até ao computador.

Não posso dizer nada. Apertou várias teclas rapidamente e a impressora começou a crepitar e a expulsar papel. Preciso saber algo mais, protestei, esfregando a ponta do nariz por baixo dos óculos. Quem sabe conheça detalhes que poderiam me facilitar o trabalho.

A Rocha não se deixou comover por meus pedidos. Com pedaços de fita adesiva que cortava com os dentes, foi pregando na porta, o único espaço que ficara livre em meu pequeno escritório, as folhas que saíam da impressora até formar a silhueta completa de um ser humano. Posso ajudá-la em alguma outra coisa? Perguntou ao terminar, se voltando para mim. Olhei-o desdenhosamente.

Você pode consultar as bases de dados do Arquivo Secreto desse computador? Desse computador posso consultar qualquer base de dados do mundo. O que deseja saber? Tudo o que possa encontrar sobre cicatrizes. Pôs mãos à obra sem perder um segundo e eu, de minha parte, apanhei um punhado de rotuladores de cores de uma gaveta de minha mesa e me plantei com decisão em frente à silhueta de papel.

Ao cabo de meia hora, havia conseguido reconstruir com bastante fidelidade o doloroso mapa-múndi das feridas do cadáver. Perguntei-me por que um homem forte e são, de uns trinta e tantos anos, havia se deixado torturar daquela maneira. Era muito estranho. Além das letras gregas, encontrei um total de sete belíssimas cruzes, cada uma completamente diferente das demais: de forma latina, na parte interior do antebraço direito, e de feitura latina, com o travessão curto na metade da viga, no esquerdo; nas costas, uma cruz de troncos sobre as vértebras cervicais, outra, ansata egípcia, sobre os dorsais e uma última, sobre as lombares. As duas cruzes restantes, até completar as sete, eram das chamadas decussadas (em xis) gregas, e estavam situadas na parte posterior dos músculos. A variedade era admirável ainda que, com certeza, todas tinham algo em comum: estavam encerradas, ou protegidas, por quadrados, círculos e retângulos, como pequenas janelas ou janelas medievais, com a mesma pequena coroa raiada na parte superior, em forma de dentes de serra e sete pontas». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

JDACT, Matilde Asensi, Literatura, Vaticano, Conhecimento,

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Manuel António Pina. Poesia. «É pelo hálito que te conheço no mesmo escultor modelou os teus ouvidos e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos…»

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OS TEMPOS NÃO

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.

Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).

As palavras esmagam-se entre o silêncio

que as cerca e o silêncio que transportam.

 

É pelo hálito que te conheço no

mesmo escultor modelou os teus ouvidos

e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos

fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

 

Falo contigo de mais assim me calo e porque

te pertence esta gramática assim te falta

e eis por que não temos nada a perder e por que é

 cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

In Manuel António Pina, Ainda não é o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas um Pouco Tarde,  Assírio & Alvim, 1974,  ISBN: 978-972-079-293-8.

Cortesia de Assírio&Alvim/JDACT

JDACT, Liberdade, Manuel António Pina, 25 de Abril, Democracia,

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Poesia. Nuno Júdice. «Deuses… vós sois animais destruidores… invoco a memória de um fruto amargo, a sabedoria corrompida nos labirintos da inteligência»

jdact

Exílio

«As planícies áridas de uma inspiração antiga deram-me a conhecer

O seguinte, que eu era um poeta único, o Anunciado, o Iluminador das tardes

Violetas do Bósforo e Antineia… e que ninguém, durante os anos

Criadores de uma imaginação múltipla, regressaria às fórmulas arcaicas

Que os medíocres ousaram, furiosos de Resto…

E eles! Devoradores de impressão, que zelo sustenta ainda

Os seus corpos? Antes os influenciasse Saturno, o criador de Obscuridade

Divina… ou ouvissem os horóscopos pronunciados nas margens

Tempestuosas do sul… ou ainda voltassem a um lugar abrigado

A elucidar as profecias e comentários de um povo áugure… mas eles

Não ouviram, nunca, asmatemáticas polares do sonho!...»

[…]

In Nuno Júdice, 50 Anos de Poesia, Antologia Pessoal (1972-2022), Publicações Dom Quixote, 2022, ISBN 978-972-207-457-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, Nuno Júdice, Poesia, Cultura, 

A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «… durante a viagem de autocarro através da Turquia nem a verificou no trajecto de Ancara a Londres. E, no voo para os Estados Unidos, teria visto a fita se ela tivesse caído no chão da casa de banho do avião. Era a única que faltava... A cripta»

jdact e cortesia de wikipedia

A Fita

«O básico, retrucou Thornton. A maioria informações da ficha dele na comunicação social. Ele apoiou o lápis sobre a borracha da outra extremidade. É um industrial rico, novato na cena política e está conquistando um bom número de admiradores. A plataforma dele se baseia nos valores familiares e em um carácter moral elevado. Até agora, parece não ter defeitos..., o candidato perfeito. Thornton passou para a página seguinte do seu onipresente computador de mão. É um homem dedicado à família e generoso com a própria riqueza. Um dos seus projectos preferidos é uma organização nacional que patrocina acampamentos modelos para delinquentes juvenis urbanos. E não é só com jovens problemáticos que ele trabalha. Wingate tem sido da maior importância na manutenção de alguns capítulos da Ordem DeMolay em diversas regiões do país, especialmente na Flórida, o estado natal dele. Ele tem se pronunciado vivamente contra os maus-tratos infantis e...

Espere um pouco, interrompeu Casselman. O que é DeMolay? Thornton ergueu os olhos.

A versão da Maçonaria para jovens. É uma organização para garotos entre 12 e 21 anos. Mais alguma coisa?, indagou Casselman. Não consegui descobrir grande coisa sobre ele. Wingate apareceu de repente no cenário político, como se tivesse vindo do nada. Aparentemente, tem uma considerável máquina financeira que o apoia. Ted Casselman coçou o queixo.

Vamos descobrir o que torna Wingate tão perfeito. Separe um segmento sobre ele para o domingo à noite. Vou colocar o meu pessoal nisso, prometeu Thornton. Reuniu os seus apontamentos, levantou-se e deu a volta na mesa de reuniões até onde Cotten se encontrava. Se tiver um tempinho, dê uma passada na minha sala depois da sessão de edição. Vou ver, prometeu Cotten, levantando os olhos para ele. Como foram as filmagens?, quis saber Casselman depois que Thornton deixou a sala. Muito melhor do que eu esperava. Acredite em mim, Ted, as sanções e os embargos internacionais tiveram pesadas consequências sobre as crianças e os idosos iraquianos. Vai ser uma história emocionante. Mas não vou ganhar muitos pontos com o Departamento de Estado, agora que eles estão preparando uma outra guerra.

Bom, isso quase garante uma pontuação alta nas pesquisas de audiência. Ele se levantou. Vamos, vou acompanhá-la até a sua sessão de edição. Ele pôs o braço no ombro dela, conduzindo-a à porta. Você me deu muitas noites de insônia, mocinha. Mas também mostrou coragem. Uma ciscadora. Gosto disso. Agora, quero ver o que tenho em troca de mais alguns cabelos brancos. Não vai se arrepender, Ted. Cotten gostava de Casselman e o respeitava. Sentia muito por fazê-lo preocupar-se tanto com ela. E ele era alguém que podia ajudá-la a galgar rapidamente dois degraus de uma vez na escada hierárquica da carreira.

Entraram na sala B de edição. O ambiente estava às escuras, a não ser pelo brilho suave da parede de monitores e das luzes indicadoras nas bancadas dos controles eletrónicos. Fiz cópias do roteiro e dos meus apontamentos, informou ela, estendendo uma pasta para Casselman e outra para o editor. Por enquanto, podemos gravar uma fita de rascunho para editarmos e deixar para introduzir a locução mais tarde. Ela sorriu para o editor-assistente. Vamos precisar de algumas inserções da biblioteca de sonoplastia... temas dramáticos, sombrios. Ah, e algumas informações históricas sobre o povo. Médio Oriente. Em seguida, Cotten descarregou a sacola de filmes. Todos os vídeos estavam numerados e ela os empilhou em ordem.

Ah, droga!, exclamou. Desfez a pilha de filmes, verificando cada rótulo outra vez. O que foi?, Casselman desviou o olhar do roteiro. Eu... Ele deixou a pasta de lado. Cotten? Vocês terão de começar sem mim, disse ela.

Tyler

Cotten escancarou a porta do apartamento e correu para o quarto. Lembrava-se de ter ficado sentada na cama na noite anterior, esvaziando a sacola e tirando a caixa. Essa tinha sido a única ocasião em que o videocassete que faltava poderia ter caído. De gatinhas, ela levantou a colcha e examinou por baixo da cama. Nada ali.

Sentou-se e correu os dedos pelos cabelos, examinando o resto do tapete que cobria a maior parte do piso do dormitório. Ela não tinha aberto a sacola durante a viagem de autocarro através da Turquia nem a verificou no trajecto de Ancara a Londres. E, no voo para os Estados Unidos, teria visto a fita se ela tivesse caído no chão da casa de banho do avião. Era a única que faltava... A cripta». In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia do CdoAutor/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério, Médio Oriente, 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «Bem, você é uma moça de sorte, disse, levantando-se para beijá-la no rosto. Tente mais uma aventura arriscada dessas e vou providenciar para que o único trabalho que consiga seja o de garota do tempo…»

jdact e cortesia de wikipedia

A Fita

«Seguia-se uma entrevista com um arqueólogo da equipe do Museu de História Natural de Nova York. O homem sorria de modo condescendente, chamando Archer de um fanático pelas próprias teorias. Às vezes, afirmava, o entusiasmo leva a melhor sobre o doutor. Ele tem muitas ideias extravagantes. O arqueólogo deu crédito a Archer por muitas descobertas notáveis, incluindo uma obra sobre a busca da Arca de Noé, mas disse que as excentricidades dele diminuíam-lhe a credibilidade. Havia mais algumas entrevistas tratando de Archer. Uma, em especial, chamou a atenção de Cotten: o doutor John Tyler, um padre católico, historiador bíblico e arqueólogo, referia-se afavelmente a Archer. Tyler havia estudado com Gabriel Archer e dizia que o arqueólogo era dedicado ao trabalho, mencionando que muitas das descobertas dele haviam esclarecido muitos aspectos da história bíblica.

Tyler aparentava ter cerca de 35 anos, era alto, de cabelos escuros, e exibia o rosto enrugado de alguém acostumado a passar muito tempo ao ar livre. E que belos olhos, observou Cotten. Ela rebobinou a fita e repetiu a parte de Tyler. Ele falava macio, mas o seu tom era confiante, autoritário. Ele tem muitas aspirações, comentava Tyler sobre Archer. Gosto bastante dele. Cotten tomou nota do nome da faculdade onde Tyler leccionava. Como era em Nova York mesmo, poderia ser uma boa fonte de informações. Ela pensou sobre o que Archer lhe havia sussurrado na cripta e com que facilidade havia citado a Bíblia. Mateus 26, 27, 28. Ele devia estar se referindo a uma passagem da Bíblia. Consultou o relógio: faltavam quinze minutos para a reunião com Ted Casselman.

Concluindo as pesquisas nos arquivos, Cotten voltou para o saguão de entrada do andar, enfiando a cabeça em uma das salas de edição. Alguém tem uma Bíblia? Voltou religiosa do Médio Oriente, Cotten?, ironizou o editor de vídeo, fitando-a por sobre o ombro. Tente o criado-mudo de um quarto de hotel, acrescentou um assistente. Cotten sorriu com sarcasmo. Muito engraçadinhos. Vamos lá, gente. Verdade, alguém faz ideia de onde possa encontrar uma Bíblia?

Com o correspondente de Religião, informou o editor, e voltou aos seus monitores. Claro!, admitiu ela, imaginando por que não havia pensado nisso. Mas, então, religião não era algo em que passasse muito tempo pensando. Consultou o relógio de novo enquanto se encaminhava para a sala. Qual versão?, a secretária do correspondente perguntou. Não sei... não existe uma versão padrão? A secretária indicou a porta atrás de si e se levantou. Cotten a acompanhou. Em uma parede, erguia-se uma estante do chão ao tecto. A secretária retirou da prateleira a versão inglesa do rei Jaime. Por favor, guarde no mesmo lugar depois que consultar, declarou, antes de sair.

Obrigada, agradeceu Cotten, sem desviar o olhar. O que Archer dissera mesmo? Mateus? Mateus ficava no Novo Testamento, pelo menos isso ela sabia. Mateus, Marcos, Lucas e João. Até esse ponto chegara na escola de catecismo. Vinte e seis, vinte e sete, vinte e oito..., ela disse, enquanto folheava as páginas. Correndo o dedo em cada página, ela parou no Evangelho de Mateus, capítulo 26, e leu os versículos 27 e 28 em voz alta: A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele, todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.

Jesus, ela sussurrou, e então compreendeu a charada. Será que tudo aquilo tinha a ver com o cálice da Última Ceia? Será que era isso o que havia na caixa dentro do fogão dela? Archer disse que estava procurando pelo maior tesouro dos céus. Ela deu um suspiro ao pensar que poderia estar envolvida com uma história da maior importância. Tirando o pedaço de papel do bolso, pegou o telefone da mesa e ligou para o serviço de informações da lista telefónica. Depois de obter o número da faculdade onde o doutor Tyler leccionava, discou-o.

Sim, estou tentando localizar um reverendo doutor John Tyler. Sei que ele lecciona aí. Escutou por alguns instantes e a sua expressão foi de espanto. Bem, e a senhora sabe para onde ele foi designado? Outra pausa e ela acrescentou: Vou lhe deixar o meu número. Cotten desligou, pegou as suas coisas e correu para a sala de Ted Casselman, o chefe de reportagem da SNN. Bateu na porta. Entre.

Casselman estava sentado à cabeceira de uma mesa de reuniões, um punhado de pastas espalhadas à frente. Duas cadeiras ao lado do chefe de reportagem já se achava sentado Thornton Graham. Thornton sorriu calorosamente quando Cotten atravessou a sala. Ted Casselman levantou os olhos. Era um negro de 42 anos de idade, com estatura mediana, unhas perfeitamente bem-cuidadas, alguns cabelos brancos que atenuavam o tom escuro da pele.

Bem, você é uma moça de sorte, disse, levantando-se para beijá-la no rosto. Tente mais uma aventura arriscada dessas e vou providenciar para que o único trabalho que consiga seja o de garota do tempo em uma cidadezinha do interior. Ele relanceou para o relógio de parede. E está atrasada.

Desculpe-me, Ted, falou Cotten, forçando o seu melhor sorriso juvenil. — Precisei fazer uma pequena incursão nos arquivos. Ah, é? Imagino que tenha concluído a sua pesquisa. Só tenho umas pontas soltas. Sente-se e relaxe. Estamos quase acabando aqui. Casselman voltou à cadeira e abriu uma das pastas. Depois de ler algumas linhas no alto, dirigiu-se a Thornton: E o que você sabe sobre Robert Wingate?» In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia do CdoAutor/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério, Médio Oriente,