quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Por muito tempo os muçulmanos têm maculado o solo espanhol, mas eles serão expulsos. Há, porém, no nosso meio, aqui, dentro dos nossos corações e dos nossos lares…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

«(…) O que pretende fazer quando esses dados aparecerem?, exigiu saber o pai. Vai descobrir que haverá quem aproveite a oportunidade para se vingar de uma antiga dívida ou contar mentiras sobre um vizinho contra quem têm uma rixa. Eu os interrogarei muito cuidadosamente. Isso será uma dificuldade para aqueles que não têm um motivo verdadeiro para as suas denúncias. Pretende iniciar uma Inquisição (maldita) na cidade? Pretendo. Ontem à noite, disse-me que estava apenas de passagem e me pediu que providenciasse acomodações enquanto esperava transporte num navio que o levará a Almería. Mudei de ideia, disse o padre Besian. E onde pretende realizar seus interrogatórios e julgamentos? Meu pai deu uma risada. Esta não é uma cidade grande. A cadeia é o subsolo de um prédio de um andar, e a minha assim chamada corte dos magistrados é esse pequeno andar acima. O padre Besian reclinou-se na cadeira. Olhou pela janela para os edifícios da nossa fazenda e depois à sua volta, pela sala. Sorriu. Tem uma casa muito bem equipada, dom Alonso. Usarei as suas instalações para executar essa obra de Deus. Minha casa! Meu lar! Meu pai recuou, chocado. Não! Isso é impossível! Não permitirei. Devo lembrar-lhe, dom Vicente, a voz do padre tornou-se gelada, que, como o magistrado local, está obrigado por lei a me auxiliar de qualquer modo que eu julgue necessário. O padre Besian levantou-se, e percebi subitamente que ele era mais alto do que o pai e, embora muito mais magro, a sua presença pareceu fazer meu pai encolher.

A Santa Inquisição (maldita) foi instituída pela rainha Isabel de Castela e pelo rei Fernando de Aragão como parte de sua gloriosa missão de estabelecer o reino cristão de Espanha. Esses dois monarcas de reinos separados dentro do território espanhol estão unidos, tanto em casamento quanto em mente, para guiar todas as outras províncias e distritos sob seu domínio. Mesmo agora lutam para tomar Granada dos infiéis e substituir a bandeira da lua crescente pela da cruz. Eu, como agente da Inquisição (maldita), possuo total autoridade sobre a Igreja e o Estado. Não deve tentar impedir de nenhuma maneira o meu trabalho. Frequentemente, tenho verificado que quem costuma fazer isso tem algo errado ou..., inconsistente..., dentro da própria família para esconder. O padre olhou para meu pai e então abruptamente girou a cabeça para abarcar Lorena e a mim no seu olhar. O efeito dessas palavras no meu pai foi impressionante. A cor sumiu de seu rosto como acontece com a luz no céu quando uma nuvem passa pelo sol. Ele cambaleou e agarrou o encosto de uma cadeira próxima para se apoiar.

Além de pregar avisos pela cidade, prosseguiu o padre Besian, informo-o agora que pretendo proclamar, para todos, a mesma mensagem do púlpito durante o meu sermão na missa de amanhã. Espero vê-lo, sua família e todos os membros de sua casa no branco da frente da igreja. Uma pessoa importante como o magistrado deve dar o exemplo para o resto da comunidade. E, assim, estávamos lá no dia seguinte, eu, pai e Lorena, apropriada e sobriamente vestidos. Antes de a cerimônia começar, minha tia Beatriz se juntou a nós. Um véu drapejava até abaixo do seu nariz, e o capuz do seu traje cobria a cabeça e as laterais do rosto, como era costume das Irmãs de Compaixão sempre que saíam em público. Meu pai tinha-se distanciado da sua cunhada ao se casar com Lorena. Embora minha tia nunca tivesse revelado os seus sentimentos por ele ter tomado uma nova esposa tão pouco tempo após a morte da irmã, eu acreditava que essa era a causa do afastamento entre eles. Agora ele lhe concedeu um olhar de gratidão pela presença naquela manhã.

Enquanto o padre Besian insultava hereges, judeus, muçulmanos e todos aqueles que ele afirmava que ameaçavam a igreja e a segurança da Espanha, nós nos forçávamos a ficar calmos e atentos. Nossos monarcas, a virtuosa rainha Isabel de Castela, unida em matrimónio com o igualmente honrado rei Fernando de Aragão, tiveram por propósito juntar os reinos e províncias visando tornar a Espanha um país unificado. Este será um país católico, unido. Para isso, eles têm empreendido uma guerra santa, uma cruzada contra todos os incrédulos. Mesmo agora eles se encontram em batalha contra os infiéis que mantêm o Reino de Granada e que não cedem à ordem cristã de suas majestades. Por muito tempo os muçulmanos têm maculado o solo espanhol, mas eles serão expulsos. Há, porém, no nosso meio, aqui, dentro dos nossos corações e dos nossos lares, a quem também devemos expulsar. E esses são os que conseguem ser mais traiçoeiros. Os tais, que precisamos desenraizar como se faria com uma hera, que sufoca plantas boas e frutíferas». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

Dan Brown. O Símbolo Perdido. «Agora, ao chegar diante da mesma porta de aço, Katherine percebeu o enorme caminho que havia percorrido desde aquela primeira noite»

jdact

«(…) Katherine não conseguia imaginar o que um gigantesco galpão vazio poderia proporcionar no sentido de auxiliar a sua pesquisa, mas tinha a sensação de que estava prestes a descobrir. Eles haviam acabado de chegar a uma porta de aço com letras grossas gravadas: ARMAZÉM 5

Seu irmão inseriu o cartão de acesso e um teclado eletrónico acendeu-se. Ele ergueu o dedo para digitar o código de segurança, mas se deteve, arqueando as sobrancelhas com o mesmo ar travesso de quando era menino. Tem a certeza de que está pronta? Ela aquiesceu. Meu irmão, sempre perfeito no comando do espectáculo. Para trás. Peter apertou as teclas. A porta de aço se abriu com um silvo alto. Além da soleira havia apenas um breu total..., um imenso vazio. Um gemido oco parecia ressoar das profundezas. Katherine sentiu uma corrente de ar frio emanar lá de dentro. Era como olhar para o Grand Canyon à noite. Imagine um hangar vazio esperando uma frota de Airbus, disse-lhe o irmão, e vai ter uma ideia geral. Katherine deu um passo para trás.

O armazém em si é grande demais para ser aquecido, mas o seu laboratório é uma sala de concreto, mais ou menos no formato de um cubo, com isolamento térmico. Ela está situada bem lá no fundo do armazém, para ficar o mais afastada possível. Katherine tentou visualizar aquilo. Uma caixa dentro de uma caixa. Esforçou-se para enxergar na escuridão, mas esta era impenetrável. A que distância ela está? A uma boa distância..., um campo de futebol caberia facilmente aqui dentro. Mas devo avisar que o trajecto é um pouco perturbador. É excepcionalmente escuro. Katherine espiou pela quina, hesitante. Não tem interruptor? O armazém 5 não tem eléctricidade. Mas..., então como é que um laboratório pode funcionar aí dentro? Ele deu uma piscadela. Gerador de hidrogénio. O queixo de Katherine caiu. Está de brincadeira, não é? Energia limpa suficiente para abastecer uma cidade pequena. O seu laboratório está totalmente isolado das ondas de rádio emitidas pelo restante complexo. Além disso, toda a parte externa do armazém é revestida de membranas foto-resistentes de modo a proteger da radiação solar os artefactos no seu interior. Basicamente, este armazém é um ambiente isolado e neutro do ponto de vista energético. Katherine estava começando a entender o atractivo do Armazém 5. Como grande parte do seu trabalho consistia em quantificar campos energéticos anteriormente desconhecidos, suas experiências precisavam ser feitas num local isolado de qualquer radiação externa ou ruído branco. Isso incluía interferências tão subtis quanto radiações cerebrais ou emissões de pensamento geradas por pessoas próximas. Por esse motivo, um laboratório situado num campus universitário ou num hospital não daria certo, mas um armazém deserto no CAMS não poderia ser mais perfeito.

Vamos até lá dar uma olhada. Peter estava sorrindo ao adentrar a vasta escuridão. É só seguir-me. Katherine ficou parada na soleira da porta. Mais de 100 metros na escuridão total? Quis sugerir uma lanterna, mas seu irmão já havia desaparecido no abismo. Peter?, chamou. Dê o salto da fé, disse ele lá da frente, com a voz já começando a sumir. Vai encontrar o caminho. Confie em mim. Está de brincadeira, não é? O coração de Katherine batia disparado enquanto ela avançava poucos metros além da soleira, tentando ver alguma coisa no escuro. Não enxergo nada! De repente, a porta de aço sibilou, fechando-se atrás dela com um baque e fazendo-a mergulhar nas trevas. Não havia uma só centelha de luz em lugar nenhum. Peter? Silêncio. Vai encontrar o caminho. Confie em mim. Hesitante, ela foi avançando vagarosamente, às cegas. Salto da fé? Katherine não conseguia sequer enxergar a própria mão diante do rosto. Continuou seguindo em frente, mas em poucos segundos ficou totalmente perdida. Para onde estou indo? Isso fazia três anos.

Agora, ao chegar diante da mesma porta de aço, Katherine percebeu o enorme caminho que havia percorrido desde aquela primeira noite. Seu laboratório, apelidado de Cubo - havia se tornado seu lar, um santuário nos recônditos do armazém 5. Exactamente como Peter previra, ela havia encontrado o seu caminho no meio da escuridão naquela noite, e em todos os outros dias desde então, graças a um sistema de direccionamento engenhosamente simples que seu irmão lhe permitira descobrir sozinha. Muito mais importante, a outra previsão de Peter também se havia realizado: as experiências de Katherine tinham produzido resultados impressionantes, sobretudo nos últimos seis meses, avanços que iriam alterar paradigmas inteiros de pensamento. Katherine e o irmão haviam concordado em guardar segredo total quanto aos resultados até suas implicações ficarem mais claras. Mas ela sabia que um dia, em breve, divulgaria algumas das revelações científicas mais transformadoras da história humana». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Washington DC, Dan Brown, Literatura, Maçonaria,

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Dan Brown. O Símbolo Perdido. «É o meu trabalho. O Smithsonian foi criado para promover o avanço do conhecimento científico. Como secretário, devo levar a sério esse dever. Eu acredito que as experiências que propôs têm potencial para expandir as fronteiras da ciência…»

jdact

«(…) Porque Peter não atende?, perguntou-se Katherine Solomon enquanto desligava o telemóvel. Onde ele está? Durante três anos, Peter Solomon sempre tinha sido o primeiro a chegar aos seus encontros semanais às sete da noite de domingo. Aquele era o ritual familiar deles, uma forma de permanecerem em contacto antes do início de uma nova semana e de Peter se manter actualizado em relação ao trabalho de Katherine no laboratório. Ele nunca se atrasa, pensou ela, e sempre atende o telefone. Para piorar, Katherine ainda não tinha a certeza do que iria dizer ao irmão quando ele finalmente chegasse. Como vou perguntar-lhe sobre o que descobri hoje?

O clicar ritmado dos seus passos ecoava pelo corredor de cimento que percorria o CAMS como uma espinha dorsal. Conhecido como A Rua, o corredor interligava os cinco imensos galpões de armazenagem do edifício. A 12 metros do chão, um sistema circulatório composto de tubos laranja latejava com as batidas do coração do complexo, os sons pulsantes de milhares de metros cúbicos de ar filtrado que circulavam pelo ambiente.  Em geral, durante a caminhada de quase 400 metros até ao laboratório, Katherine sentia-se tranquilizada pelos ruídos da respiração do complexo. Naquela noite, entretanto, a pulsação a deixou nervosa. O que ela descobrira a respeito do irmão deixaria qualquer um perturbado, mas, como Peter era seu único parente na face da Terra, Katherine sentia-se especialmente incomodada ao pensar que ele pudesse estar lhe escondendo algum segredo. Até onde ela sabia, o irmão só ocultara algo dela uma vez..., um segredo maravilhoso escondido no final daquele corredor. Três anos antes, Peter havia conduzido Katherine por ali, apresentando-a ao CAMS enquanto lhe exibia alguns dos objectos mais incomuns do complexo: o meteorito de Marte ALH-84001, o diário pictográfico de Touro Sentado, uma colecção de jarros lacrados com cera de abelha contendo espécimes originais colectados por Charles Darwin. Em determinado momento, os dois passaram por uma porta pesada com uma pequena janela. Katherine viu de relance o que havia atrás dela e levou um susto. Mas o que é isso? Seu irmão deu uma risadinha e continuou andando.

Galpão 3. É o que chamamos de Galpão Molhado. Bem inusitado, não é? Aterrorizante, eu diria. Katherine apertou o passo para alcançá-lo. Aquele complexo parecia outro planeta. O que eu realmente quero lhe mostrar é o Galpão 5, disse Peter enquanto a conduzia pelo corredor aparentemente sem fim. É o nosso mais novo anexo. Foi construído para abrigar artefactos do porão do Museu Nacional de História Natural. A colecção está programada para ser transferida para cá daqui a uns cinco anos, o que significa que o Galpão 5 está vazio no momento. Katherine olhou naquela direcção. Vazio? Então por que estamos indo para lá? Os olhos cinzentos de seu irmão exibiram um brilho travesso familiar. Pensei que, já que ninguém está usando o espaço, talvez você pudesse usá-1o. Eu? Claro. Imaginei que você gostaria de ter um laboratório exclusivo..., um lugar onde possa de facto realizar alguns dos experimentos sobre os quais vem teorizando durante todos esses anos. Chocada, Katherine encarou o irmão. Mas, Peter, essas experiências são teóricas! Realizá-las seria quase impossível! Nada é impossível, Katherine, e este lugar é perfeito para você. O CAMS não é apenas um depósito de tesouros; é um dos centros de pesquisa científica mais avançados do mundo. Frequentemente pegamos alguma peça da colecção para examiná-la usando as melhores tecnologias quantitativas que o dinheiro pode comprar. Teria à sua disposição todo o equipamento de que pudesse vir a precisar. Peter, as tecnologias necessárias para fazer essas experiências estão... Bem aqui. Ele deu um largo sorriso. O laboratório está pronto. Katherine parou onde estava. Seu irmão apontou para o final do longo corredor. Estamos indo para lá agora. Katherine mal conseguia falar. Você ..., você construiu um laboratório para mim?

É o meu trabalho. O Smithsonian foi criado para promover o avanço do conhecimento científico. Como secretário, devo levar a sério esse dever. Eu acredito que as experiências que propôs têm potencial para expandir as fronteiras da ciência a territórios inexplorados. Peter parou, olhando-a bem nos olhos. Quer fosse ou não minha irmã, eu me sentiria obrigado a apoiar essa pesquisa. Suas ideias são brilhantes. O mundo merece ver aonde elas podem chegar. Peter, eu não posso de jeito nenhum... Tudo bem, relaxe ..., eu paguei do meu próprio bolso, e ninguém está usando o Galpão 5 neste momento. Quando terminar as suas experiências, pode desocupá-lo. Além disso, o Galpão 5 tem propriedades singulares que são perfeitas para o seu trabalho». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Washington DC, Dan Brown, Literatura, Maçonaria,

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Enterrei isso bem fundo dentro de mim e nunca falei a respeito. Eu agora suava. Esses pensamentos se acumularam em minha mente, ao mesmo tempo que os passos de padre Besian ressoavam acima de minha cabeça»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) Ao apanhar a comida, minha sensação de intranquilidade aumentou. Porque Ardelia ficou tão transtornada e porque o pai queria que eu permanecesse no meu quarto? Não me importei muito com isso, em parte porque ele impôs o mesmo a Lorena, mas também porque fiquei contente por não ter de me encontrar com o padre Besian. A ideia de me confessar com ele começava a me perturbar. Não muito tempo depois de ter me recolhido para dormir, ouvi o rangido de tábuas no soalho acima da minha cabeça. O padre Besian devia estar se preparando para dormir. Se eu tivesse de me confessar com ele, o que deveria dizer? Eu detestava Lorena. Isso era um pecado contra a tolerância. Eu contara isso numa confissão ao nosso sacerdote, o padre Andrés, e ele dissera que era por causa da grande dor que eu ainda carregava pela perda de minha mãe. Esses pensamentos ruins eram sentimentos naturais, mas eu precisava superá-los. Ele me garantiu que desapareceriam, principalmente depois que Lorena tivesse um bebê, o que, sem dúvida, aconteceria em pouco tempo. Então eu amaria essa criança e passaria a aceitar Lorena melhor. Eu dissera a Serafina, mulher de Garci, que desgostava muito de Lorena, e ela, com a cabeça curvada sobre o fogão, murmurou: Não tanto quanto eu. Isso me fez rir, mas sabia que não era a reacção de que a mãe teria gostado, e eu tentava viver como ela gostaria que eu vivesse. Quando meus ânimos estavam baixos e esses pensamentos ameaçavam-me dominar, eu ia ao convento-hospital de minha tia Beatriz e procurava um bálsamo para a minha alma.

Zarita, disse-me ela, você não é a sua mãe. Ela era uma santa mulher, mais santa do que eu jamais consegui ser, e sou freira. Embora esta ordem que fundei não seja reconhecida por qualquer decreto formal do papa, fiz votos a mim mesma e a Deus para preservar certas virtudes. Mas saiba disto: eu não fui a criança boa de minha família. Na minha juventude, na corte, levei uma vida mais desenfreada do que era julgado apropriado para uma garota daquela época. Minha irmã, sua mãe, era quem tinha a verdadeira bondade dentro de si. Existem poucas pessoas capazes de rivalizar com ela. Tia Beatriz puxou-me para perto dela, alisou meu cabelo e me tranquilizou. Tem de ser você mesma, Zarita. Não pode ser outra pessoa. Além disso, porém, pesando em minha consciência havia um outro pecado, bem maior, que eu não havia confessado a ninguém: a ocasião em que virei o rosto para Deus porque Ele não poupara a vida de minha mãe e de meu irmãozinho bebê.

Enterrei isso bem fundo dentro de mim e nunca falei a respeito. Eu agora suava. Esses pensamentos se acumularam em minha mente, ao mesmo tempo que os passos de padre Besian ressoavam acima de minha cabeça. Havia em mim uma forte convicção de que, se eu ocultasse algo desse padre numa confissão, ele saberia. Resolvi evitar confessar-me com ele. Fracamente, ouvi o entoar de preces enquanto ele recitava seu ofício nocturno, e mergulhei num sono agitado.

Zarita

Na manhã seguinte, Lorena e eu estávamos tranquilamente tomando o pequeno-almoço na companhia do padre Besian quando meu pai entrou a passos largos na sala. Quero falar com você! Ele se dirigiu rispidamente ao padre. Em particular, acrescentou. O padre Besian olhou-o atentamente e disse: Não há nada que não possa ser falado na frente de sua esposa e de sua filha. Você ordenou que estes panfletos fossem distribuídos e pregados por toda a minha cidade? Meu pai abriu um pedaço de papel que trazia amassado na mão e o entregou ao sacerdote. O padre Besian pegou no papel, colocou-o sobre a mesa e alisou-o calmamente. Sim, ordenei, disse ele. Inclinei a cabeça para tentar ler as palavras que estavam escritas no papel. Você não tem o direito de convocar as pessoas desta cidade para dar informações umas das outras dessa maneira. A voz do pai tremia de raiva. Pelo contrário, retrucou o padre Besian, o Chefe Inquisidor, Tomás Torquemada, garante a mim, como agente da Santa Inquisição (maldita), o direito de fazer isso. É vital que erradiquemos a heresia e descubramos se algum dos proclamados convertidos do judaísmo ainda mantém suas antigas práticas religiosas. Descobri que há judeus e muçulmanos vivendo nesta cidade. Suas influências são potencialmente corruptoras. Pela minha experiência, bons resultados são obtidos quando apelamos à população para ficar vigilante e servir como testemunhas. Há meia dúzia de famílias judias confinadas na parte mais pobre da cidade, perto das docas, e alguns poucos pescadores muçulmanos que amarram seus sambucos no píer mais distante. Eles nunca nos causaram problemas. Eu sou o magistrado desta cidade, de forma que você deveria ter falado primeiro comigo antes de divulgar proclamações que podem incitar agitação. O padre Besian deu um gole na sua xícara de leite morno e então a pousou diante de si. A única agitação que se seguirá às minhas instruções será nos corações dos incrédulos». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

Beije-me onde o Sol não Alcança. Mary del Priore. «Corri para a pilha de Le Miroir Parisien que o trem traz regularmente até Piraí. Vi a crónica: mortes na aristocracia. Os pequeninos filhos da rainha Maria Cristina de Espanha…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A bordo do Équateur, Novembro de 1864

«(…) Informaram que o tio de Luís César, certo marquês de Caxias, acaba de ser indicado comandante-geral das Forças Brasileiras e que se prepara uma guerra contra o pequeno Paraguai. O presidente Lopez quer uma saída para o mar e ameaça constantemente Argentina, Brasil e Uruguai. Os três uniram suas forças meses atrás por meio de um acordo conhecido como a Tríplice Aliança. Antes, Lopez já aprisionara um vapor brasileiro e invadira uma longínqua província, certa Mato Grosso: pântanos e índios. Saberei mais quando chegar a terra. Há dez anos, a França assinava o Tratado de Paris, pondo um fim à guerra da Crimeia que fez a fortuna do pai e do nosso tio Garfinkel. Não sou supersticioso, mas gostaria que essa guerra também fizesse a minha. Luís César vai nos apresentar à família. Tudo indica que se trata de gente muito abastada: barões do café. Só não acredito em antecedentes aristocráticos. Os brasileiros gostam de inventar que têm sangue azul. Uma noiva é tudo de que preciso. Alguém que me abra portas. Eu sei, maman. Sangue, património, propriedades. Tudo isso conta. Talvez haja algum problema com a religião. Veremos…

Por fim, peço-lhe: não estrague a educação de Eugène com mimos. Se o pai estivesse vivo não o deixaria tão ocioso. Leve-o para fazer equitação no Bois de Boulogne. A Casa Michaux vende bicicletas em madeira. Aos dezasseis anos, ele já pode conduzi-los. Está tornando-se um jovem balofo e preguiçoso. Soube que já faz apostas entre os colegas do colégio. Será isso defeito de nosso sangue? E, insisto, não vá ao Palais-Royal aos domingos. É dia em que os bilhetes são doados. Não fica bem. Agora o barco dança sobre as ondas e o rumor das vagas golpeia o casco. Vou apagar a vela. Escreverei quando chegar ao Rio de Janeiro. Hoje atravessamos baías e estuários cujos nomes custo a memorizar: Goytacazes, Quissamã, Carapebus, Macaé. Sonharei com tais terras. Bonne nuit, maman. Seu filho, Maurice.

 

1864

Esta manhã, a mãe deu-me um terço de prata. Pediu-me que orasse pelo pai. Quase um ano de luto e ela continua muito abatida. Toda de negro, me assusta quando surge de supetão. Caía uma chuva enquanto eu escrevia. Depois, nada fiz. Entediei-me. Cruzei o terreiro de café e fui até ao hospital dos pretos ajudar tia Maria Gata. Ela perdeu um dedo no monjolo, tem olhos amarelos, e, conhecedora de ervas, cura cambras amarrando barbante vermelho na canela da gente. Gosto de ficar lá, vendo a negra fazer remédio para a botica dos escravos e ouvindo o ranger dos carros de boi que vêm e vão. Juntas, preparamos água da rainha da Hungria com uma tintura de alecrim e outra de lavanda. Tem que macerar um mês, resmungou ela com voz grossa e os beiços tremendo. Contou-me que a receita tinha sido oferecida a certa dona Isabela, por um anjo disfarçado de ermitão. Velha, ela quase não podia andar. Tomou a poção, ficou boa, jovem, linda e o rei da Hungria se casou com ela. Tia Maria Gata sabe tudo. Às quatro horas fui passear, esperando que o dia se acabe. Ele me pareceu bem longo. Comecei a fiar depois do jantar. A mãe leu em voz alta a carta do primo Luís César e recordou que sua mãe, Emiliana, morreu menina em trabalho de parto. Tenho pavor de ter filhos e morrer tão bestamente. Ele chegou de Paris com a esposa russa! Russa, não. Ela é parisiense, mas de família russa. Riquíssimos, dizem. Casa perto do Arco do Triunfo, carruagem e criados de libré.

Corri para a pilha de Le Miroir Parisien que o trem traz regularmente até Piraí. Vi a crónica: mortes na aristocracia. Os pequeninos filhos da rainha Maria Cristina de Espanha, a princesa Czartoryska, o duque de La Rochefoucault. A loja mais frequentada é a Maison Giroux, de onde saem candelabros, móveis e quadros de nomes célebres da arte moderna, seja lá o que isso queira dizer. A moda é a popelina de Irlanda e a lã de cabra com impressão de vasos etruscos. Na Opéra-Comique levam Lara. Céus! Nada terei para conversar com ela. E sobre a Rússia? Pouco sei. Um czar, cidades de sonho sobre planícies geladas, trenós e neve que só conheço de quadros! Primo Luís César explicou que tem uma cunhada, Hélène, casada com um filho do general Magnan, gente muito ligada ao imperador Napoleão III. Luís Bonaparte valeu-se da sua energia de militar para, com a ajuda de um partido, dar o golpe de Estado. Dizem que o general colaborou na revolução governamental, da conspiração à execução. O 2 de Dezembro de 1851, foi obra sua. E na repressão contra a dissolução da Assembleia não poupou ninguém: deixou os resistentes organizarem barricadas, que esmagou de um único golpe. Parece que não gastou nem duas horas no massacre. Na Corte francesa há muitos aristocratas russos. Hélène e Vera são lindas!, insiste a mãe. Têm rostos de madona, mais parecem bonecas de porcelana de Saxe. Não é como o meu, magro, em que saltam olhos de ameixa em calda. Elas, louras, eu, morena. Com essa cara, nunca chegarei a Paris. Saímos ao jardim à noite. Encontramos um vaga-lume. A mãe tinha dor de garganta. Cantei um pouco e a fiz rir». In Mary del Priore, Beije-me onde o Sol não Alcança, 2015, Editora Planeta, 2015, ISBN 978-854-220-588-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

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segunda-feira, 29 de novembro de 2021

O Concelho de Óbidos na Idade Média Manuela Santos Silva. «O grande concelho de Óbidos conheceria a sua primeira grande cisão em 1371 com a formação do Concelho do Cadaval. Mas para além deste novo município também a geografia política periférica e interna era mais complicada…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«O desafio de descrever como era o Concelho de Óbidos na Idade Média era, de facto, o único que me estava a faltar. Em 1987 escrevera sobre a vila de Óbidos Medieval, sobretudo no tocante às suas Estruturas Urbanas e Administração Concelhia. Dez anos mais tarde defendi na Universidade de Lisboa uma dissertação defendendo a existência de uma Região de Óbidos na Baixa Idade Média, que funcionava com base na vila régia e incorporava os concelhos medievais de Lourinhã, Atouguia, Vila Verde dos Francos e, naturalmente o Cadaval, transformado em concelho autónomo nos finais do século XIV. Faltava-me, de facto, desenhar os contornos deste grande concelho do período pós-Reconquista até finais do século XV. A área ocupada pelo Concelho de Óbidos nesta época era bastante mais extensa do que a actual. À excepção do contacto com a hoje chamada Concha de São Martinho, e do efectuado através da Lagoa de Óbidos, não tinha, porém, ligação directa ao mar. E não era fácil chegar a Salir do Porto e a Atouguia para comerciar, mas, sobretudo, convencer as autoridades financeiras e eclesiásticas, para além dos pescadores locais, a acederem ao abastecimento do concelho com o qual procuravam ter uma relação distante. O grande concelho de Óbidos conheceria a sua primeira grande cisão em 1371 com a formação do Concelho do Cadaval. Mas para além deste novo município também a geografia política periférica e interna era mais complicada do que pode parecer à primeira vista, pois escapavam à jurisdição do concelho vastas áreas florestais, fluviais e até povoações inteiras. O actual concelho do Bombarral era uma fértil área em larga medida aproveitada pelo Mosteiro de Alcobaça que, também, a Norte, guerreava com o concelho, as Rainhas e o próprio Rei pelo aproveitamento de zonas de maior fertilidade e produtividade. Nunca deixando de estar sujeito à jurisdição da Coroa do Reino de Portugal, Óbidos conheceu também a faceta de Senhorio de várias Rainhas, de todas, aliás, a partir dos finais do século XIV. Para o Rei era também um sustentáculo importante; o símbolo da autoridade unificadora real no Oeste estremenho». In Prólogo

 

Introdução

«Não é tarefa fácil tentar buscar as origens do concelho de Óbidos. Aliás, se quiséssemos levar a nossa ânsia de rigor ao extremo não aventaríamos qualquer hipótese, nem tentaríamos apresentar qualquer data nem explicação quer para a formação da circunscrição territorial quer para o nascimento dos principais agregados populacionais que a compõem, tais são as dúvidas que subsistem. E apesar de partilhar um espaço e uma História com outras povoações, nem por isso as nossas dificuldades em fazer afirmações definitivas são menores. A atitude mais cómoda a tomar seria sem dúvida proceder à citação pura e simples dos grandes mestres no que ao passado muçulmano e ao período de Reconquista da Estremadura diz respeito, apresentar - embora apenas a título de curiosidade, algumas conjecturas lendárias acerca da tomada dos castelos e povoações estremenhas, e aproveitar sem discussão a opinião de Ruy Azevedo que estabelece a continuidade a nível físico e administrativo entre as sedes e territórios correspondentes da antiga província muçulmana de Balata e os novos concelhos cristãos surgidos na Estremadura após 1147. Segundo o reputado diplomatista e historiador, a explicação para o fenómeno da constituição, logo nos anos subsequentes à conquista das cidades e praças da linha do Tejo, de diversos concelhos na faixa litoral da Estremadura, precisamente com sede em Santarém, Lisboa, Óbidos, Torres Vedras, Alenquer e Sintra, encontrar-se-ia no facto de estas povoações representarem, já no período anterior, os principais pontos de referência da organização administrativa local e, presumivelmente, de agremiação humana.

Esta opinião torna-se tanto mais atraente quanto nos fornece uma hipótese para um facto reconhecido para o qual ainda não foi encontrada explicação segura. Segundo Ruy Azevedo, a persistência dessas unidades e de suas divisórias tradicionais explica-nos a falta completa de diplomas régios sobre a sua criação e de respectivos estatutos de orgânica local e limites, expedidos nas primeiras décadas que se seguiram à reconquista. Na realidade, diversos historiadores têm já notado com estranheza a falta de interesse por parte dos monarcas portugueses em atribuir prontamente forais às povoações estremenhas. Entre a sua conquista e o reconhecimento jurídico através de uma carta de foral decorreram quase sempre várias décadas se exceptuarmos o praticamente único caso de Sintra, agraciado com um foral logo sete anos após a sua tomada pelo exército cristão. Aparentemente a questão do povoamento rápido da região não preocupava o monarca. A defesa da Estremadura não seria uma questão prioritária em 1147, ou as condições naturais do território teriam sido suficientes para atrair povoadores sem necessidade de outorga de privilégios adjuvantes? Ou a explicação será antes outra?

Os dados que possuímos para a Estremadura da segunda metade do século XII parecem de facto comprovar que a ausência de documentos jurídicos escritos reconhecendo as agremiações municipais não foi de modo algum desmotivadora, pois as povoações que nomeámos e as aldeias das áreas envolventes não tardaram em fornecer dados inequívocos de uma grande procura por parte de novos habitantes. A multiplicação das paróquias urbanas e a construção de perímetros amuralhados de dimensões consideráveis, parecem demonstrá-lo de forma dificilmente contrariável. Curiosamente, talvez possamos apontar como forais precoces para esta região dois diplomas outorgados por particulares, mas confirmados pelo rei, destinados aos povoadores precisamente de duas póvoas litorais cujas aspereza do terreno e demasiada proximidade do mar, talvez não fossem, na altura, muito convidativas a quem procurava segurança e sobrevivência fáceis. Estamos a referir-nos aos forais concedidos pelos donatários Francos da Atouguia e da Lourinhã aos seus conterrâneos e a outros povoadores de outras nacionalidades, ao que se pensa, pelo menos num dos casos, em 1167». In Manuela Santos Silva, O Concelho de Óbidos na Idade Média, Faculdade Letras da Universidade de Lisboa, Centro de História da Universidade de Lisboa, 2008, Wikipedia.

Cortesia de FLUL/CHULisboa/JDACT

 JDACT, Manuela Santos Silva, Cultura e Conhecimento,

Lucrécia Borgia. Jean Plaidy. «Lucrécia sentiu uma ponta de inveja. Todos estariam dizendo: essa Giulia Farnese é mais bonita do que Lucrécia. A jovem ajoelhou-se diante de Adriana e chamou-a de mãe…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Monte Giordano

«(…) Orsino estava de pé ao lado de sua mãe. Adriana falara seriamente com ele sobre o seu dever, e o pobre Orsino estava mais pálido do que nunca no seu traje preto espanhol, e não parecia nada um futuro marido; seu estrabismo estava mais aflitivo do que nunca; nos momentos de tensão, ele sempre parecia mais pronunciado, e o frio olhar de sua mãe estava sempre repreendendo-o. Lucrécia também estava de preto, mas no seu vestido havia bordados em ouro e prata. Ela preferia que nem sempre eles tivessem de seguir os costumes espanhóis. Os espanhóis gostavam muito do preto para todas as ocasiões cerimoniosas, e Lucrécia adorava o escarlate vivo e em especial o tom de azul-escuro que fazia com que os seus cabelos parecessem mais dourados do que nunca. Mas o preto fazia um belo contraste com os seus olhos claros e seus cabelos louros, de modo que quanto a isso ela se achava afortunada. E enquanto ela esperava, Giulia Farnese entrou no salão. O irmão, Alessandro, um jovem de seus vinte anos, a levara. Ele era orgulhoso, tinha uma aparência distinta, e estava esplendidamente vestido; mas foi Giulia que atraiu a atenção de Lucrécia e de todos os que estavam ali reunidos, porque era bonita, e seus cabelos eram tão dourados quanto os de Lucrécia. Estava vestida à moda italiana, numa túnica azul e dourada, e parecia uma princesa de uma lenda e bonita demais para aquele clã sombrio dos Orsini.

Lucrécia sentiu uma ponta de inveja. Todos estariam dizendo: essa Giulia Farnese é mais bonita do que Lucrécia. A jovem ajoelhou-se diante de Adriana e chamou-a de mãe. Quando Orsino foi empurrado para a frente, ele caminhou desajeitadamente e foi titubeante e sem graça na saudação que fez. Lucrécia observou o adorável rosto à procura de um sinal da repulsa que sem dúvida a jovem devia estar sentindo, e esqueceu-se da inveja ao ter pena de Giulia. Mas Giulia não demonstrou emoção alguma. Foi recatada e graciosa, tudo o que se esperava dela. As duas ficaram amigas logo. Giulia era vivaz, bem-informada, e muito pronta a prestar atenção a Lucrécia quando não havia homens por perto. Giulia disse a Lucrécia que estava com quase quinze anos. Lucrécia ainda não completara dez; e aqueles anos a mais davam a Giulia uma grande vantagem. Ela era mais frívola do que Lucrécia e não estava tão disposta a aprender, nem tão ansiosa por agradar. Quando ficaram a sós, ela disse a Lucrécia que achava a senhora Adriana muito rigorosa e solene. A senhora Adriana é uma mulher muito boa, insistiu Lucrécia. Eu não gosto de mulheres boas, disse Giulia, soltando uma gargalhada. Será que é porque elas fazem com que todas nós nos sintamos muito más?, sugeriu Lucrécia. Eu prefiro ser má do que boa, disse Giulia, com uma risada. Lucrécia voltou a cabeça para trás e olhou por cima do ombro para a imagem da Virgem com o Menino Jesus, à frente da qual havia uma lamparina acesa. Oh, disse Giulia, rindo, há muito tempo para se arrepender. O arrependimento é para gente velha.

Há algumas freiras jovens no convento de San Sisto, disse Lucrécia. Aquilo fez com que Giulia soltasse uma gargalhada. Eu não fui feita para ser freira. Nem você. Ora, olhe para você! Veja como é bonita..., e vai ficar ainda mais bonita. Espere até ter a idade que eu tenho. Talvez então, Lucrécia, você fique tão bonita quanto eu e vá ter amantes, muitos amantes. Era desse tipo de conversa que Lucrécia gostava. Trazia ecos de um passado de que ela não conseguia lembrar-se. Fazia quatro anos desde que ela deixara a animação da casa de sua mãe para ir para a rígida etiqueta e a depressão espanhola de Monte Giordano. Giulia mostrou a Lucrécia como caminhar com um andar sedutor, como dar brilho aos lábios e como dançar. Giulia possuía conhecimentos secretos e permitia que Lucrécia a provocasse para revelá-los.

Lucrécia estava um tanto preocupada com Giulia; tinha medo de que se Adriana descobrisse o que ela era na realidade a mandasse embora e ela, Lucrécia, perdesse aquela emocionante companheira. Elas não deviam deixar que Adriana visse o carmim nos seus lábios. Não deviam aparecer a ela com os cabelos soltos no penteado que Giulia arrumara. Giulia nunca deveria usar nenhum dos vestidos estonteantes mas ousados que trouxera consigo. Giulia soltava risadinhas e tentava ficar cerimoniosa diante da sogra em perspectiva. Orsino nunca as perturbava, e Lucrécia percebeu que ele parecia ter mais medo da noiva do que a noiva dele. Giulia tinha uma natureza radiosa; disse a Lucrécia que saberia como lidar com Orsino quando chegasse a hora. Estava claro que todos os vestidos bem-decotados, a atenção à aparência que parecia absorver Giulia, não eram para Orsino. Lucrécia achava que Giulia devia ser muito depravada. Mas eu acredito, dizia ela para si mesma, que gosto mais de gente depravada do que de gente bem-comportada. Eu ficaria desolada se Giulia fosse embora, mas não me importaria muito se a senhora Adriana fosse». In Jean Plaidy, Lucrécia Borgia, Edição Record, 1996, ISBN 978-850-104-410-5.

 

Cortesia de ERecord/JDACT

 

JDACT, Jean Plaidy, Itália, Literatura,

domingo, 28 de novembro de 2021

A Casa do Pó. Fernando Campos. «Já a bordo, da amurada olho a multidão que acena com lenços. Boa viagem! Que Deus vos acompanhe! Tende cuidado convosco!, é a voz forte e timbrada do padre Bonifácio que vem lá de baixo…»

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Roma... Veneza... Trento

«(…) Dom frei João Soares entregava-me, para a guardiania da Terra Santa, trinta moedas de ouro em memória dos trinta dinheiros de Judas. Em breve farei também minha peregrinação e visitar-vos-ei em Jerusalém. O arcebispo de Braga, dom frei Bartolomeu dos Mártires, também estava, ao pé de frei Bonifácio de Aragusa. Que também ele partia, dizia-me abraçando-me, mas em sentido contrário, caminho da sua diocese. O seu rebanho, as suas ovelhas, compreendia? Já a bordo, da amurada olho a multidão que acena com lenços. Boa viagem! Que Deus vos acompanhe! Tende cuidado convosco!, é a voz forte e timbrada do padre Bonifácio que vem lá de baixo, do cais. Entre as muitas cabeças, vislumbro o olhar curioso de Joseph, é dia de Santa Bárbara, quatro de Dezembro de 1562, uma sexta-feira ao romper da alva.

 

A Tempestade

Cá vamos!, murmurou emocionado frei Zedilho, o rosário de grandes camândulas entre os dedos. Estávamos debruçados na amurada apinhada de passageiros e rodeados dos seis irmãos franciscanos que se haviam atrasado e tinham embarcado connosco. A terra começava a alongar-se, a fugir, a perder a nitidez de cores e formas, a tornar-se uma diluída mancha inflada. Era todavia a paisagem interior que me ocupava. Ao partir, em vez de sentir saudades de uma terra que não era a minha e que se afastava e esbatia nas brumas do amanhecer, apurava os olhos da esperança na expectativa de ver aproximar-se finalmente, vindo dos nevoeiros dos caminhos desconhecidos, esse algo indefinido de que eu tinha uma necessidade esfomeada desde que me conhecia. Cá vamos!, sussurrei também. Soprava um próspero vento de poente e a nau, grande e formosa, chamada Sanuda, sulcava as ondas com rapidez e leveza. Assim passamos a Istria quase toda, mas quando começamos a costear a Dalmácia acudiu-nos vento do sudoeste, tão áspero e forte que fomos constrangidos a procurar abrigo. Fizemo-lo num lugar de nome Cabeça de São Pedro, do lado da Istria, Albânia, Grécia. No Adriático são pouquíssimos, no espaço de duzentas léguas, os portos que se podem tomar da parte da Itália, apenas Ancona, Brundísio e Otranto oferecem segurança, mas ainda assim as naus só os buscam quando têm neles que negociar. O vento ia em crescimento, tornava-se ciclónico quando a noite caiu. Embrulhado na minha manta, sentia-o zunir pelas frinchas, assobiar nas enxárcias. Zimbrava o barco da popa à proa, rangendo e guinchando. Principiei a sentir-me agoniado. Levantei-me, saí do meu camarote aos apalpões, tropeçando aqui e ali nos colchões dos companheiros de viagem que dormiam na coberta. Subi as escadas que levavam ao convés: precisava de alijar carga. Cá fora o vento fustigava e era necessário arrimar-me bem às paredes, ao que encontrava, para não ser arrastado. Estava escuro, mas a espaços as nuvens que doidejavam no céu numa correria infrene deixavam lampejar uns clarões de luar. O vomito assomava-me à garganta, cheguei-me à amurada, tremendo e cheio de suores frios, ourado. Assim que lancei, permaneci uns momentos muito quieto, ofegante. Perto de mim senti um arfar desassossegado, angustioso. Pensei vagamente que alguém, como eu, estaria agoniado. Pouco e pouco o meu corpo recuperava o equilíbrio, a respiração tornou-se normal e calma, o mal-estar desaparecia. Soergui-me apurando o ouvido. Aquele arfar continuava, agora mais apressado, mas de súbito dei conta de que havia dois ritmos e timbres diferentes nesse respirar e suspirar doloroso.

É mais que uma pessoa que está mal disposta, pensei eu, procurando ver no escuro. Por instantes o luar apareceu e eu pude, num relance, distinguir dois vultos que junto de um rolo de cordas se enlaçavam. A escuridão recaiu e os gemidos aumentavam confundindo-se com a ventania. Tolerante, por experiência, com aqueles que se amam, dispunha-me a retirar-me quando um clarão mais forte tornou nítidas as formas: um jovem estava de borco sobre as cordas e um homem abraçando-o pelas costas sodomizava-o!... Corri para as escadas e, como pude, meti-me na cama a tentar adormecer. Onde estavam as amuradas para o vomito da alma?...» In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

 A Arte da Escrita, Fernando Campos, JDACT, Literatura, 

sábado, 27 de novembro de 2021

A Casa do Pó. Fernando Campos. «Na minha pressa, na minha impaciência, procurava razão de peso. Que havia três anos a família franciscana da Terra Santa estava sem recursos, não via frei Bonifácio?»

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Roma... Veneza... Trento

«(…) Reparasse que eu era talvez a única pessoa, e de certeza o único padre, a quem ele poderia sem receio dar tal notícia... E, se não tivesse por acaso entrado ali, ele já tencionava procurar-me, pois sabia da minha presença ... Porque confiais assim tanto em mim? Conheço-vos muito bem e sei que sois amigo dos judeus. Como me conheceis tão bem? Começou a desviar a conversa, lá o estava eu a sentir. Ora! Conhecia-me, era tudo! Fosse a Corfu... Fosse a Corfu!... Calava-se Joseph e, apesar da minha insistência, só me respondia fazendo com o polegar e o indicador sinal de que tinha os lábios cerrados. Seria eu judeu?, perguntava a mim próprio. Aquela estrela não seria o sino-saimão?... Em silêncio Joseph acompanhava-me amavelmente até à porta, como a convidar-me a sair. Apoderou-se então de mim uma pressa febril de embarcar, de ir embora... Levantavam-se obstáculos. Era costume, que já vinha dos Romanos, não se navegar entre quinze de Novembro e a oitava da Epifania. Havia grandes penas, quer-me parecer que também a da excomunhão, para quem sem licença fizesse o contrário e só se abria excepção quando o patrão de um barco manifestava necessidade muito urgente, como aconteceu com o patrão de uma nau que estava prestes a partir e na qual frei Bonifácio, eu e frei Antônio Zedilho nos preparávamos para embarcar. Todavia, com grande arrelia minha, mandou a Senhoria chamar o padre Bonifácio e terminantemente lhe ordenou que não embarcasse, que era já Inverno e os mares do Levante muito perigosos. Sentiu muito o guardião de Jerusalém tal impedimento e, por mais razões que desse, nenhuma lhe foi admitida porque todos os senhores venezianos lhe tinham muito amor e reverência, tanto por sua muita virtude e sabedoria como porque havia já sido, uns sete anos guardião de monte Sião, com grande exemplo de sua vida e não menos proveito dos lugares santos. Mas se a insistência de frei Bonifácio junto da Senhoria não surtiu efeito, a minha junto de frei Bonifácio era preciso que não falhasse. Na minha pressa, na minha impaciência, procurava razão de peso. Que havia três anos a família franciscana da Terra Santa estava sem recursos, não via frei Bonifácio?

Urgia partir quanto antes a levar-lhe apoio e conforto. Não me importava de correr o risco da própria vida ... Não era sincero e a mim próprio me soava a falso a minha voz. Acreditou frei Bonifácio? Não sei. Deu-me muitos agradecimentos pela boa vontade revelada e procurou dissuadir-me de tal propósito e de tais trabalhos e canseiras, pondo-me diante os mesmos perigos a si postos pela Senhoria veneziana, prometendo-me que logo que fossem baptizadas as águas nos partiríamos todos na primeira nau que saísse. O baptismos das águas eram certas cerimónias que se faziam nas pias de baptizar, na vigília da Epifania, ao tempo da missa de terça, com ladainha e muitas orações e preces apropriadas àquele ofício, como véspera de Páscoa ao ofício das fontes. Eram em memória do baptismos de Cristo e dali por diante todos têm liberdade para navegarem como lhes parece. Não desisti, nem por isso, da minha determinação e finalmente, a muito custo e com muito rogo, ele consentiu e logo mandou me fosse entregue toda a provisão e matalotagem que para si e para os mais estava feita. Que mal chegasse a Chipre entregasse ao nosso síndico a provisão para a Terra Santa e o fosse esperar à nau que partiria de Veneza depois da bênção das águas... Outra, porém, era a mola que me impelia e não descansei enquanto não senti que levantavam a âncora e começávamos a zarpar. No cais, em Malamoch, diziam-me adeus, além de frei Bonifácio, importantes personagens que desceram de Trento a despedir-se de mim. Ali estava um venerado e doutíssimo padre da Ordem dos Pregadores, teólogo de nomeada, por nome frei Luís de Sottomaior, leitor em Lovaina, chamado a Trento a substituir o padre Pinheiro, da mesma ordem, subitamente falecido em Roma antes do começo das sessões.

Frei Pantaleão, abraçava-me,, trazendo-vos Nosso Senhor a Portugal..., já sei: quereis uma relíquia de Terra Santa. Não mais que qualquer pequena de terra ou pedra da que acheis nas ruas ou caminhos públicos, que todo esse chão até ao abismo está santificado pelas pegadas de Cristo. Assim farei, frei Luís. Bem me custa não embarcar convosco, mas neste momento a minha saúde não mo permite». In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

A Arte da Escrita, Fernando Campos, JDACT, Literatura,

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O Pintor das Almas. Ildefonso Falcones. «As mulheres explodiram em gritos de vitória, enquanto os poucos passageiros que ousaram utilizar o transporte e viajavam na parte superior do vagão, ao ar livre, sentados ao sol…»

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Barcelona, Maio de 1901

«(…) Não havia muitos anos, quatro ou cinco, Dalmau cometeu o mesmo desplante perante a polícia; a mãe atrás dele, a gritar, exigindo justiça ou melhorias sociais, encorajando-o à luta, como fazia a maioria das mães que interpunham os filhos em defesa de causas que consideravam superiores, inclusivamente a sua própria integridade física. Por instantes, os gritos das mulheres provocaram em Dalmau uma embriaguez semelhante à que viveu quando fez frente à polícia. Na altura, sentiam-se deuses. Lutavam pelos operários! A Guarda Civil ou o exército carregaram sobre eles algumas vezes, mas hoje nada disso iria acontecer, disse Dalmau para si, desviando o olhar para as grevistas que faziam frente ao eléctrico. Não. Aquele dia não estava destinado a que a força pública atacasse as mulheres; pressentia-o, sabia-o.

Dalmau não tardou a localizá-las. Na primeira fila, à frente de todas, com o olhar desafiante, como se fosse o suficiente para deter o eléctrico da linha de Gràcia que se aproximava. Dalmau sorriu. O que não conseguiriam aqueles olhares? Montserrat e Emma, a sua irmã mais nova e a sua noiva, ambas inseparáveis, unidas pela infelicidade, unidas pela luta operária. O eléctrico aproximava-se fazendo soar a campainha; o sol que se infiltrava por entre o arvoredo das Ramblas arrancava centelhas às rodas e aos restantes elementos metálicos do vagão. Uma ou outra mulher recuou; poucas, muito poucas. Dalmau esticou-se. Não temia por elas; o eléctrico iria parar. Mães e polícias calaram-se, atentos. Muitos curiosos retiveram a respiração. O grupo de mulheres que se encontrava em cima dos carris pareceu crescer sobre si mesmo, firme, tenaz, disposto a ser atropelado.

Parou.

As mulheres explodiram em gritos de vitória, enquanto os poucos passageiros que ousaram utilizar o transporte e viajavam na parte superior do vagão, ao ar livre, sentados ao sol, desciam aos tropeções para fugirem, depois de o condutor e os revisores, todos fura-greves, terem saltado do eléctrico antes mesmo de este parar. Dalmau contemplou Emma e Montserrat, as duas com o punho crispado erguido para o céu, sorridentes, a celebrarem, eufóricas, a vitória com as suas companheiras. Ainda não tinha passado um minuto quando aquelas centenas de mulheres se aproximaram do eléctrico. Vamos! Vamos a ele! A Guarda Civil quis reagir, mas a barreira com as crianças avançou para os agentes. Foram muitas as mãos que se apoiaram na parte lateral do vagão. Outras tantas, as que não alcançavam a máquina, apoiaram-se às costas das grevistas que estavam à frente. Empurrem!, gritaram várias ao mesmo tempo. Com mais força! O eléctrico balançou em cima das rodas de ferro. Mais! Mais, mais… Um, dois… O vaivém aumentou ao ritmo do alento que davam umas às outras. Por fim, um rugido que surgiu daquelas centenas de gargantas precedeu a queda do vagão. O estrondo confundiu-se com o ruído dos estilhaços, o entrechocar dos ferros e uma nuvem de pó que envolveu o eléctrico e as mulheres. Um brado quebrou o silêncio relativo que se tinha instalado depois de o vagão ter embatido no solo. Saúde e revolução! Viva a anarquia! Greve geral! Morte aos frades! Mais trabalho e melhores salários. Reduzir as jornadas extenuantes. Acabar com o trabalho jovem. Pôr fim ao poder da Igreja. Maior segurança. Casas decentes. Expulsão das ordens religiosas. Saúde. Ensino laico. Alimentos acessíveis… Mil reivindicações troaram na Rambla das Flores, de Barcelona, para serem partilhadas por uma mole de gente humilde, cada vez mais numerosa, que se ia reunindo e aplaudia fervorosamente aquelas mulheres trabalhadoras». In Ildefonso Falcones, O Pintor das Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

Cortesia de SumadasLetras/JDACT

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O Pintor das Almas. Ildefonso Falcones. «O eléctrico que cobria a linha de Barcelona para Gràcia, que começava na Rambla de Santa Mónica, junto ao porto, aproximava-se»

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Barcelona, Maio de 1901

«Os gritos de centenas de mulheres e crianças ecoavam nas vielas da cidade velha. Greve! Fechem as portas! Parem as máquinas! Baixem as persianas! O piquete de mulheres, muitas delas com filhos pequenos nos braços ou a tentarem mantê-los seguros pela mão, apesar dos seus esforços para fugirem e juntarem-se aos que eram um pouco mais velhos, não sujeitos a controlo, percorria as ruas da cidade velha, incitando os trabalhadores e os comerciantes, que ainda mantinham abertas as oficinas, fábricas e lojas, a interromperem a actividade de imediato. Os bastões e barrotes que empunhavam convenciam a maioria, embora não fosse rara a quebra dos vidros das montras e uma ou outra rixa. São mulheres!, gritou um velho da varanda de um primeiro andar, mesmo por cima da cabeça de um comerciante furioso que fazia frente a algumas delas. Anselmo, eu… O comerciante olhou para cima.

A sua desculpa foi emudecida pelos insultos e vaias proferidos por muitos dos que observavam a cena das varandas daquelas casas velhas e apinhadas, morada de trabalhadores e gente humilde, com as fachadas rachadas, descascadas e com manchas de humidade. O homem cerrou os lábios, abanou a cabeça e fechou a loja, enquanto catraios maltrapilhos e sujos cantavam vitória e troçavam dele. Alguns dos que assistiam à cena sorriam abertamente perante a chacota do grupo de grevistas precoces; o comerciante não era querido no bairro. Confeccionava e vendia alpercatas. Não vendia fiado. Não sorria, e tampouco saudava quem quer que fosse. A catraiada continuou na chacota até que a polícia, que seguia o piquete de mulheres, se aproximou. Então, desatou a correr em busca da marabunta que continuava a deslocar-se pelas ruelas da Barcelona medieval, tão sinuosas quanto sombrias, pois a maravilhosa luz primaveril daquele mês de Maio não conseguia penetrar na estreita malha urbana, apenas nos andares mais altos dos edifícios que se erguiam no empedrado. Os vizinhos das varandas calaram-se à passagem dos guardas-civis, alguns a cavalo, com os sabres embainhados, a maioria com o rosto contraído, uma tensão que se sentia nos seus movimentos sincopados. Uns e outros tinham consciência do conflito com que aqueles homens se debatiam: a sua obrigação era impedir os piquetes ilegais, mas não estavam dispostos a carregar contra as mulheres e crianças.

A história da revolução operária em Barcelona estava ligada às mulheres e aos seus filhos. Eram elas quem, em inúmeras ocasiões, exortavam os seus homens a permanecerem afastados das acções violentas. Connosco não se atreverão, e somos suficientes para conseguirmos o encerramento, argumentavam. E assim era também naquele mês de Maio de 1901, quando os operários foram para as ruas depois de, no final de Abril, a Companhia de Eléctricos ter despedido os trabalhadores em greve e contratado fura-greves para os substituir. A greve geral pretendida pelas associações de operários em defesa dos trabalhadores dos eléctricos estava muito longe de se concretizar e, apesar de algumas acções violentas, a Guarda Civil parecia ter a situação controlada na cidade. De repente, um clamor surgiu nas bocas das centenas de mulheres porque se propagou entre elas a notícia de que um eléctrico estava a circular pelas Ramblas. Ouviram-se insultos e gritos de ameaça: Fura-greves!, Filhos da pu…!, Vamos a eles!

As grevistas acorreram com o passo apressado, algumas quase a correr, à Rua da Portaferrissa para chegarem à Rambla das Flores, acima do mercado da Boqueria, uma lota que, ao contrário de todas as outras em Barcelona, como a de Sant Antoni, a do Born ou a da Concepció, não é fruto de um projecto concreto mas da ocupação, por parte dos vendedores, da Praça de Sant Josep, um magnífico espaço porticado; por fim, venceram os mercadores e a praça cobriu-se com toldos e telhados provisórios, tendo os pórticos dos edifícios, que a rodeavam, sido transformados nas paredes do novo mercado. As tradicionais paradas de venda de flores, estruturas de ferro semelhantes a quiosques colocadas frente a frente ao longo do passeio, estavam fechadas, embora as floristas, muitas delas com as mãos nas ancas, desafiantes, permanecessem junto aos respectivos estabelecimentos, dispostas a defendê-los. Em Barcelona só se vendiam flores naquela zona das Ramblas. No mercado da Boqueria, um número infindável de carroças de transporte, com os seus toldos e cavalos, esperavam estacionadas em fila, lado a lado, a escassos passos dos carris do eléctrico. Os animais reagiram nervosamente à gritaria e à avalancha das mulheres. Poucas prestaram atenção ao alvoroço de cavalos empinados, carregadores e comerciantes a correrem de um lado para o outro. O eléctrico que cobria a linha de Barcelona para Gràcia, que começava na Rambla de Santa Mónica, junto ao porto, aproximava-se.

Dalmau Sala tinha seguido o piquete durante o seu itinerário pela cidade velha, juntamente com muitos outros homens, em silêncio, atrás da Guarda Civil. Agora, numa zona ampla como era a das Ramblas, tinha uma visão mais completa. O caos era absoluto. Cavalos, carroças e comerciantes. Cidadãos a correrem, curiosos; polícias em formatura perante o grupo de mulheres com os filhos que se colocaram diante deles, a formar uma barreira humana que pretendia separar todas as outras que se tinham apinhado em cima dos carris do eléctrico para deter a máquina.

Um calafrio percorreu Dalmau de cima a baixo quando viu que algumas mulheres erguiam os filhos e exibiam-nos perante os guardas-civis. Outros catraios, um pouco mais crescidos, permaneciam agarrados às saias das mães, assustados, com os olhos muito abertos, esquadrinhando o espaço em busca de respostas que não encontravam, enquanto os adolescentes, ensoberbecidos pelo ambiente, chegavam a desafiar os polícias». In Ildefonso Falcones, O Pintor das Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

Cortesia de SumadasLetras/JDACT

JDACT, Barcelona, Ildefonso Falcones, Literatura, A Arte, 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Só se Ama uma Vez. Johanna Lindsey. «Medindo cuidadosamente as palavras, disse calmamente: O baile, Nicky. Tenho estado a falar sobre isso, mas não estás a prestar atenção. Se quiseres, mudo de assunto, mas só se me prometeres que não chegas atrasado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Regina Ashton já recusou tantos pretendentes à sua mão que a alta-sociedade londrina a considera uma snob sem coração. Não podiam estar mais enganados. Órfã desde cedo, Regina é a sobrinha superprotegida de lord Edward e lady Charlotte Malory, a quem é muito difícil agradar. Aos olhos dos tios, nenhum dos jovens candidatos é suficientemente bom. Cansada de tão infrutífera busca, a jovem sai de casa numa noite escura, decidida a informá-los de que não pensa casar…, nunca! Mas o seu plano coloca-a no sítio errado à hora errada, e é raptada por engano. A sua ira perante a arrogância do raptor, Nicholas Eden, vai inesperadamente dar lugar a sentimentos contraditórios de paixão e vergonha. Aquela noite não mais lhe sairá da cabeça. O visconde Nicholas Eden também tinha um plano: dar uma lição à sua amante descontente, raptando-a ao abrigo da noite. Não contava enganar-se na pessoa e arruinar a reputação de uma menina de família. Mas agora, movido pelo desejo mais desenfreado que alguma vez sentiu, é a custo que reconhece que nunca poderá casar com Regina, apesar do escândalo que paira sobre eles. Implacável, é o destino que os uniu a afastá-los irremediavelmente, ainda que ambos saibam que um amor assim só se vive uma vez…» In Resumo

Londres 1817

«Os dedos que seguravam a garrafa de cristal com brandy eram longos e delicados. Selena Eddington tinha muito orgulho das suas mãos. Exibia-as sempre que surgia uma oportunidade, como naquele momento. Levou a garrafa de cristal a Nicholas, em vez de pegar no copo dele para o encher de brandy. Esta acção deliberada também possuía uma outra finalidade: permitia-lhe ficar de pé à frente dele, que se encontrava recostado num sumptuoso sofá azul, com a luz da lareira nas costas, delineando-lhe de forma provocadora a figura através do fino vestido de noite de musselina. Nem mesmo um libertino inveterado como Nicholas Eden podia deixar de apreciar um belo corpo feminino. Um rubi enorme cintilava-lhe na mão esquerda enquanto segurava o copo de Nicholas e servia o brandy. Era a aliança de casamento. Ainda a usava com orgulho, embora já tivesse enviuvado há dois anos. O seu pescoço estava rodeado por mais rubis, mas nem o mais extraordinário dos rubis podia relegar para segundo plano o seu decote, extraordinariamente descido, o que significava uns meros dez centímetros de tecido antes de a cintura alta cingida do vestido de estilo império se precipitar em linhas direitas até aos seus calcanhares elegantes. O vestido era de uma cor magenta carregada e escura que condizia maravilhosamente com os rubis e com a própria figura de Selena. Estás a ouvir o que estou a dizer, Nicky? Nicholas exibia aquela expressão pensativa irritante que ela reconhecia cada vez mais nele ultimamente. Não estava a ouvir absolutamente nada do que ela dizia, mas estava absorto em pensamentos que decerto não a incluíam. Nem sequer a tinha mirado de relance enquanto ela lhe servia o brandy. Francamente, Nicky, não é nada simpática a forma como te ausentas e me abandonas quando estamos juntos na mesma divisão sem mais ninguém. Deixou-se ficar diante de Nicholas até ele erguer o olhar para ela. O que foi que disseste, minha querida? Os olhos cor de avelã dela faiscaram. Teria começado a bater o pé, se se atrevesse a deixá-lo ver o seu terrível mau génio. Ele estava tão provocador, tão indiferente, tão..., impossível! Se não fosse tão bom partido... Medindo cuidadosamente as palavras, disse calmamente: O baile, Nicky. Tenho estado a falar sobre isso, mas não estás a prestar atenção. Se quiseres, mudo de assunto, mas só se me prometeres que não chegas atrasado quando me vieres buscar amanhã. Que baile? Selena abriu a boca, verdadeiramente espantada. Ele não estava a tentar baralhá-la nem a fingir indiferença. Aquele homem exasperante realmente não fazia a menor ideia do que ela estava a falar.

Não brinques comigo, Nicky. O baile dos Shepford. Tu sabes o quanto tenho estado a aguardá-lo. Ah, sim, disse ele secamente. O baile que irá superar todos os outros, apesar de ainda estarmos no início da temporada. Ela fingiu não reparar no seu tom de voz. Também sabes quanto tempo eu esperei por um convite para um dos bailes da duquesa de Shepford. Este promete ser o seu baile mais grandioso dos últimos anos. Praticamente todas as pessoas que importam vão estar presentes. E depois? Selena contou lentamente até cinco. E depois ficarei para morrer se chegar nem que seja um minuto atrasada. Os lábios dele arquearam-se num sorriso trocista familiar. Ficas para morrer demasiadas vezes, minha querida. Não devias levar a lufa-lufa social tão a sério. Devia ser mais como tu? Se pudesse, ela voltava atrás. O seu mau génio estava muito perto de explodir e isso seria desastroso. Sabia o quanto ele condenava o excesso de emoção em qualquer pessoa, embora fosse perfeitamente aceitável dar largas ao seu próprio mau génio, que podia ser bastante desagradável.

Nicholas limitou-se a encolher os ombros. Podes chamar-me excêntrico, minha querida, um dos poucos que se está a marimbar para toda aquela gente. Aquela era uma grande verdade. Ele ignorava e insultava quem lhe apetecia. De igual modo, também escolhia os amigos como queria, mesmo bastardos publicamente conhecidos que eram desprezados pela sociedade. E nunca tentava agradar a ninguém. Era tão arrogante como todos diziam que era. Mas também conseguia ser devastadoramente charmoso, quando queria. Milagrosamente, Selena conseguiu controlar o seu mau génio. Não obstante esse facto, Nicky, prometeste que me acompanhavas ao baile dos Shepford. Prometi?, perguntou ele indolentemente. Sim, prometeste, conseguiu responder-lhe com calma. E vais prometer-me que não te vais atrasar quando me vieres buscar, certo?» In Johanna Lindsey, Só se Ama uma Vez, Edições ASA, 2015, ISBN 978-989-233-033-4.

Cortesia de EdiçõesASA/JDACT

JDACT, Johanna Lindsey, Literatura, 

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «O pedido de Caridad rompeu o silêncio da noite. Fazia um tempo que já não se ouvia seu cantarolar; havia-se ido apagando como uma brasa»

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Porto de Cádiz. 7 de Janeiro de 1748

«(…) Estava sentada com as costas contra a laranjeira, como se buscasse refúgio na árvore. Tinha o olhar perdido, alheio à sua presença, e continuou cantarolando, em voz baixa, monotonamente, repetindo vezes seguidas o mesmo estribilho. Melchor verificou que, apesar do frio, tinha o rosto perolado de suor. Tiritava. Sentou-se a seu lado. Não entendia o que dizia, mas aquela voz cansada, aquele timbre, a monotonia, a resignação que impregnava sua voz deixavam transparecer uma dor imensa. Melchor fechou os olhos, rodeou os joelhos com os braços e deixou-se transportar pela canção.

Água.

O pedido de Caridad rompeu o silêncio da noite. Fazia um tempo que já não se ouvia seu cantarolar; havia-se ido apagando como uma brasa. Melchor abriu os olhos. A tristeza e a melancolia da canção haviam conseguido trasladá-lo, uma vez mais, ao banco da galé. Água. Quantas vezes havia tido de pedir água ele mesmo? Acreditou sentir que os músculos de suas pernas, de seus braços e de suas costas se tensionavam como quando o comitre aumentava o ritmo da voga em perseguição de alguma nau sarracena. O torturante apito do comitre aguilhoava seus sentidos enquanto arrancavam a chicotadas a pele de suas costas nuas para que remasse com mais e mais força. O castigo podia durar horas. Ao final, com os músculos de todo o corpo a ponto de rebentar e com as bocas ressecadas, das fileiras de bancos só surgia uma súplica: água! Sei o que é a sede, murmurou para si. Água, implorou de novo Caridad.

Vem comigo. Melchor levantou-se com dificuldade, entorpecido após quase uma hora sentado ao pé da laranjeira. O cigano se esticou e tentou orientar-se para encontrar o caminho da Cartuxa. Dirigia-se aos hortos do mosteiro, onde viviam muitos dos ciganos de Triana, quando o cantarolar havia chamado sua atenção. Vens ou não?, perguntou a Caridad. Ela tentou levantar-se agarrando-se ao tronco da laranjeira. Estava com febre. Estava com fome e frio. Mas sobretudo estava com sede, muita sede. Conseguiu erguer-se quando Melchor já se havia posto em marcha. Dar-lhe-ia água se o seguisse ou a enganaria como haviam feito tantos outros ao longo dos dias que estava em Triana? Caminhou atrás dele. A cabeça lhe dava voltas. Quase todos o haviam feito; quase todos se haviam aproveitado dela. Uma série de luzes provenientes de umas choças amontoadas no caminho iluminou a jaqueta de seda azul-celeste do cigano. Caridad fez um esforço por seguir seu passo. Melchor não se preocupava com ela. Andava lentamente mas erguido, altivo, apoiando-se sem necessidade no bordão de duas pontas próprio do chefe de uma família; às vezes se lhe ouvia falar à noite. A mulher arrastava os pés descalços atrás dele. À medida que se aproximavam da ciganaria, a quinquilharia que adornava as vestiduras de Melchor e o debrum de prata de suas meias refulgiram. Caridad percebeu um bom presságio naqueles brilhos: aquele homem não a havia tocado. Iria proporcionar-lhe beber água». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, Bertrand Editora, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

Amizade, Espanha, Ildefonso Falcones, JDACT, Liberdade,