domingo, 11 de abril de 2021

Poesia. Sonetos. Monforte. «Busquei-te no deserto longamente... Como Rebeca outrora, condoída, surgiste, calma, na poeira ardente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Velho Motivo

«Soneto de Jacob, pastor antigo,
soneto de Raquel, serrana bela...
Oh! quantas vezes o relembro e digo,
pensando em ti, como se foras Ela!

O que eu servira para viver contigo,
tão doce, tão airosa e tão singela!
Assim, distante do teu rosto amigo,
em torturar-me a ausência se desvela!

E vou sofrendo a minha pena amarga,
pena que não me deixa nem me larga,
bem mais cruel que a de Jacob pastor!

Raquel não era dele, e sempre a via,
enquanto que eu não vejo, noite e dia,
aquela que me tem por seu senhor!»

No Deserto
«Chegaram os camelos junto ao poço,
Quando Rebeca tinha a urna cheia.
Foram momentos esses de alvoroço,
Bem raros de encontrar em terra alheia.

Também meu coração, menino moço,
Nos cardos do caminho se golpeia.
Ouço-te os passos, dentro de alma eu ouço
O eco dos teus passos sobre a areia.

Busquei-te no deserto longamente...
Como Rebeca outrora, condoída,
Surgiste, calma, na poeira ardente.

De ânfora baixa, à boca da cisterna,
Ficaste assim, para toda a tua vida,
Matando a minha sede, que é eterna!»
Sonetos de António Sardinha, in CHUVA DA TARDE, 1923

Cortesia de PVercial/JDACT

António Sardinha. Alto Alentejo, Poesia, Monforte, A Arte, 

Poemas. «Eu sei que não se ama sozinho, talvez, devagarinho, possas voltar a aprender. O que a gente faz agora? Quando já não há o que falar, apaga a luz, deixa somente a dos teus olhos…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Amar pelos dois

«Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi pra te amar
Antes de ti, só existi
Cansado e sem nada p’ra dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Meu bem, ouve as minhas preces

Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Se o teu coração não quiser ceder
Não só ter paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois»

Poema de Luísa Sobral, in Universal Music Publishing Group

O que a gente faz agora

«O que a gente faz agora?
Quando já não há o que falar
Apaga a luz
Deixa somente a dos teus olhos
P’ra me acender

Sonhos pelo céu-da-boca
Qual estrela deve ser você?
Na imensidão
Onde a paixão da gente mora

Num beijo seu
Num sonho meu
Será que o nosso filme tem final feliz?

E aconteceu
Você e eu
Ninguém sabe dizer como você me diz
Apaga a luz
Deixa somente a dos teus olhos

O que a gente faz agora?

Quando já não há o que falar
Apaga a luz
Deixa somente a dos teus olhos
P’ra me acender

Sonhos pelo céu-da-boca
Qual estrela deve ser você?
Na imensidão
Onde a paixão da gente mora

Num beijo seu
Num sonho meu
Será que o nosso filme tem final feliz?

E aconteceu
Você e eu
Ninguém sabe dizer como você me diz
Apaga a luz
Deixa somente a dos teus olhos

O que a a gente faz agora?»

Poema de Marina Elali e de Carlos Falcão, in Midia Hits Ltda

Cortesia de Wikipedia/MHits/UMPGroup/JDACT

JDACT, Marina Elali, Luísa Sobral, A Arte, Poesia, 

Beije-me onde o Sol não Alcança. Mary del Priore. «Enviarei, sem remetente, uma poesia ao Pirahí. Trabalharei as quadras ao gosto do tempo, misturando fanatismos de amor, palpites de morte, melancolia de Outono…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Piraí, sede de O Pirahí. Março de 1893

«(…) Deus levou Nicota numa tarde de Verão. Seu rosto expressava tristeza serena. Ela morreu com essa tristeza. Morreu quietamente, como se cala um passarinho ao fim do seu bem voado dia. Depois que acabou o estertor e o corpo se esvaziou, dizem que remoçou: linda, novamente. Deus seja louvado por essa graça. O próprio cura, tio da moça, não queria acreditar, pois ungiu-a hesitante, como se ungisse a própria mãe. No dia em que o enterro saiu, a condessa adormecida num caixão com alças de bronze, a família, os amigos, os ex-escravos, criados e empregados da fazenda, todos faziam as mesmas perguntas. Porque nunca teve descendência, quando tantos sobrinhos, crianças e jovens seguiam o cortejo? Porque se casou com o estrangeiro, quando irmãos e irmãs se uniram aos primos e tios como era tradição na terra? Alguém lhe viu a alma sair do corpo? Deixou qualquer sinal? Para mim, Nicota foi só qualidade. Ninguém lhe pronunciava o nome sem emoção. Alegre, respeitada, caridosa, seu riso nunca foi licença. Todas as bocas mastigaram orações por sua alma. O cortejo entoou O Senhor amado. Cantei junto.

Dor tranquila e sombria a do viúvo. Afinal, a morte era a morte. O conde russo, por sua vez, arrastava uma reputação sulfurosa. Rumores o cercavam. Não faltava curiosidade sobre o prestígio do seu título, sua liberalidade, as intrigantes viagens a Paris, de onde voltava para sacudir letargias. Caloroso, ele agradava, seduzia. Acenando com a ideia de um grande amor, tirou Nicota da gaiola. Mas foi só para jogá-la na tristeza, comentava o povo no cortejo do enterro. Serei eu a fazer o necrológio para o jornal de Piraí. O que contar? Queria dizer que essa foi a história de uma esposa infeliz, de um marido infiel e de sua amante. De infidelidades feitas de feridas minúsculas, de humilhações, de remorsos e solidão. Do uso e abuso de máscaras. Infidelidades feitas não só de deslealdade amorosa, mas de mentiras. Mentiras sobre quem se é. Mentiras sobre de quem se gosta. As dele, as dela. Mas na pedra do túmulo vai estar escrito: Tributo do amor conjugal. Essa é uma história triste, sobre a qual todos acham que sabem muito. E nada ou quase nada conhecem. Vontade de embebedar-me. Brindar à morte, talvez, murmurando: Celebrarei na minha flauta amena, teus olhos, morena. Hei-de procurar em Musset ou Byron algumas linhas que falem da dor da perda. Perda de um coração de ouro. Enviarei, sem remetente, uma poesia ao Pirahí. Trabalharei as quadras ao gosto do tempo, misturando fanatismos de amor, palpites de morte, melancolia de Outono e tristezas da separação. Feita de versos gastos, será minha homenagem anónima:

É chegado o momento de partir

Dor e luto se apossam do meu ser

Longe de ti, ó anjo feiticeiro

A vida é treva, não posso viver.

A bordo do Équateur, Novembro de 1864

Chère Maman

Estou saudoso. Lembro-me de lhe dar o braço até à rua Daru. No frio Inverno, os oito braços das cruzes apoiados em meias-luas, as flechas e os bulbos dourados da igreja de São Alexandre Nevski guiavam o nosso caminho. Reunidos com a mais profunda veneração na cela do seu guia espiritual, fomos abençoados pelo homenzinho magro de olhos brilhantes. À frente de numerosos ícones de revestimento cintilante, uma Virgem de grandes dimensões e reproduções de pintores italianos, se prosternou aos seus pés, cabeça no chão, à russa. Que grande santo esse starets! Aliviou minha alma e lhe beijar as mãos descarnadas. Maman, reze por mim e para que essa viagem me traga o tesouro que procuro. Graças à conjunção de vapor e vela, o Équateur entra, rapidamente, nas águas do Brasil. O Cruzeiro do Sul cintila entre farrapos de nuvens. Respiro o cheiro das matas tropicais. É diferente do odor das nossas florestas de pinheiros, da imensidão dos campos de feno cobertos de um véu azul que parece preso ao céu por pregos prateados. Longe da agitação de Paris, mergulho no silêncio das noites no Hemisfério Sul. Silêncio só quebrado pelo riso de Vera e Luís César na cabine ao lado. Ah, os recém-casados! Tranquilize-se. O diplomata brasileiro faz minha irmã feliz!» In Mary del Priore, Beije-me onde o Sol não Alcança, 2015, Editora Planeta, 2015, ISBN 978-854-220-588-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

JDACT, Mary del Priore, Literatura, Narrativa,

Beije-me onde o Sol não Alcança. Mary del Priore. «Quem não se lembrava da jovem de longos cabelos, olhos grandes, mãos e pés de fada, arrebatada pelo estrangeiro? Há vidas mortas, mas não esquecidas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Fazenda Bela Aliança. Março de 1893

«(…) Quem está ao pé do leito se curva, une as mãos, se abraça, troca palavras com Maurice. Fragilizados pelo meu fim próximo, vão encontrar reconforto nos gestos e palavras, fortificando o mundo dos vivos. Tais ritos protegem os que ainda estão nele. Bruscamente compreendi: como são importantes, uns para os outros, aqueles que seguem vivendo. Não, não haverá milagre, nem vou sentar no caixão como fez a moça que julgavam finada, na matriz de Nossa Senhora das Dores de Piraí. Fecharei os olhos para sempre. Hoje mesmo. Agora, tudo escuro. Frio. Muito frio. O Senhor é meu Pastor, nada me faltará. Mal consigo acompanhar as preces e mexo os lábios com dificuldade. As palavras não têm som. Sinto os toques da extrema-unção: nos olhos, orelhas, nariz, boca e mãos, instrumentos do pecado. Quero despedir-me de Maurice. Dizer-lhe que o amei. Não, que o amo. Mas o odeio, também. O amor: foi mais fácil fazer do que viver. Beije-me, Maurice, beije-me Maurice, beije-me onde o sol não alcança. Silêncio. Mais frio. Novamente, a boca que mais parece um buraco negro.

Piraí, sede de O Pirahí. Março de 1893

Eu a conhecia desde criança. Nascida Ana Clara Breves Moraes, Nicota, condessa Haritoff, neta do barão de Piraí, fechou os olhos. Jovem, tinha quarenta e três anos ao falecer. Do que morreu? Falaram muito: tristeza, histeria, envenenamento. O corpo frágil, pois Nicota era miúda, foi repousar no cemitério da família, na fazenda Três Saltos, a sede dos potentados da região. A pequena colina coberta de túmulos ao lado da igreja particular, dedicada a São Joaquim, dorme tranquila, abraçada aos seus mortos. Piraí e seus arredores se cobriram de luto. Da serra do Sinfrónio a São João Baptista do Arrozal, de Rio Claro a São João da Barra, de Vassouras a Valença, os sinos chamaram para as missas em sufrágio da sua alma. Às margens do rio Piraí, rio dos peixes ou do Paraíba, mar ruim, à hora das avé-marias, recomendou-se a falecida à ultima misericórdia. Alfaiates, seleiros, sapateiros, ferreiros, boticários, bilhares e até fogueteiros fecharam suas portas na cidade. Casas de secos e molhados fizeram o mesmo. Nos becos do Gil, do Alexandre, do Camarão, as mulheres emudeceram e rezaram o terço. A família distribuiu esmolas entre os mais pobres. Era o costume. Em toda a parte, a gente perguntava: o que a levou?

Quem não se lembrava da jovem de longos cabelos, olhos grandes, mãos e pés de fada, arrebatada pelo estrangeiro? Há vidas mortas, mas não esquecidas. Nicota cresceu nos terreiros de café, brincando com as molecas, festejando São João, bordando roupinhas para o Menino Jesus da matriz de Sant’Ana. Vi seus peitinhos nascerem atrás da camisa e, depois, vir a doença. Todos conheciam a filha do coronel de polícia Silvino José, a irmã do futuro visconde de Benevente, a sobrinha dos reis do café, Joaquim José e José Souza Breves. O avô virou barão de Piraí vinte anos antes do casamento de Nicota com o conde russo. Embora ostentassem títulos, os membros da família tinham raízes nas classes mais humildes dos lugares de onde saíram para o vale fluminense, e, apesar de ostentarem fulgurantes brasões, eram oriundos das periferias. Não vieram de mais que as terceiras, quartas ou quintas linhas da pequena nobreza portuguesa. Muitos queriam esquecer as suas próprias origens. Delas despontavam avós negras e cativas.

O primeiro deles a chegar à região de São João Marcos foi o patriarca António Souza, que adoptou por alcunha familiar o Breves, e ficou conhecido por António Cachoeira. Ele é o tronco dos dois ramos que, posteriormente, de forma curiosa, se denominavam e separavam pela riqueza, com os epítetos de Breves Graúdos e Miúdos. Ainda que, pela força da origem insulana, fossem todos miúdos. Todos descendentes de Maria Oliveira, mulher solteira, e de pai incógnito.

O pai, coronel Silvino, mandava em todos, do padre à força policial, e se encarregava de manter a ordem nas terras da família. Negro fujão, quilombola, ladrão, roubo de gado, invasão de terras? O couro comia. Protegia o comércio de víveres e escravos feito pelo cunhado, Joaquim Breves, do litoral de Marambaia e Itacuruçá para o alto da serra. Contrariá-lo, ninguém se atrevia. Sua mulher, Ana Clara, era um dos nove filhos sobreviventes de quinze, dos barões de Piraí. Bela? Não. Um rosto oval, regular e severo emoldurado pelos cabelos em trunfa. A boca era um traço descendente. O casal possuía três fazendas, Bela Aliança, Botafogo e Bela Vista, em Piraí, além de cinco sítios. Muito feio, Silvino tinha uma cabeça simiesca, olhos apertados, lábios grossos e grande distância entre o nariz e a boca, cabeça que repousava sobre um tronco atarracado. Além de Nicota, tiveram mais cinco filhos: José Feliciano, a graciosa Cecília, Caetano, Manuel Eugênio e Rita Belmira». In Mary del Priore, Beije-me onde o Sol não Alcança, 2015, Editora Planeta, 2015, ISBN 978-854-220-588-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

JDACT, Mary del Priore, Literatura, Narrativa, 

sábado, 10 de abril de 2021

A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém. Tiago Moita. «Depois da criação da paróquia, os moradores de Vale de Figueira não apenas levantaram a pia do baptismo, sinal indelével da sua autonomia, como se começaram a organizar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

História e Património

«(…) Neste período, o lugar de Vale de Figueira, e a sua ermida, pertenciam à paróquia e freguesia de São Vicente do Paúl. Entretanto, o crescimento populacional, necessidades de ordem pastoral, e as inspirações do Concílio de Trento, alteraram este quadro.

O nascimento de uma paróquia (1571)

Num manuscrito conservado no Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa (Expediente 1848, Caixa 1) encontramos um treslado, com a data de 12-04-1848, realizado a partir de um documento antigo, no qual se relata as circunstâncias da criação da paróquia de Vale de Figueira (Anexo I). De acordo com este testemunho, a freguesia de São Domingos de Vale de Figueira foi desmembrada da de São Vicente do Paúl por ocasião da visitação feita pelo licenciado Marcos Teixeira no ano de 1570. Esta alteração administrativa e de fronteiras chocou, naturalmente, com inúmeras resistências, colidindo com privilégios e direitos adquiridos, e hábitos seculares. A decisão do visitador foi por isso contestada por Pêro Costa, Prior de São Vicente do Paúl, no Tribunal da Relação Eclesiástica de Lisboa, que escutou também os moradores de Vale de Figueira. Esgrimindo as partes argumentos contrários, que o treslado documenta, consideremos as razões apresentadas pelos habitantes de Vale de Figueira, naturalmente favoráveis à criação da paróquia. Em primeiro lugar, lamentavam-se estes da distância que tinham de percorrer para poder assistir às celebrações na Matriz de São Vicente, dificultosa sobretudo para as pessoas de mais idade e para as mulheres. Em segundo lugar, deploravam não serem assistidos devidamente pelo Prior de São Vicente, especialmente por ocasião de cheias no rio Alviela, que inundavam a ponte de pedra, ainda hoje existente, impedindo a passagem para a Matriz de São Vicente, e impossibilitando a participação nos sacramentos, com dano para as crianças, que ficavam por baptizar, e para os defuntos, que não tinham enterro condigno. Depois de ouvir as partes, o Tribunal da Relação Eclesiástica de Lisboa confirmou a decisão da visitação por Carta de Sentença dada a favor dos fregueses da Ermida de São Domingos de Vale de Figueira, publicada pelo Doutor João Lorena Homem, Desembargador, em audiência de 16 de Agosto de 1571, e lavrada a 12 de Dezembro do mesmo ano. Em todo o caso, embora podendo levantar pia baptismal na Ermida de Vale de Figueira, a nova paróquia permanecia com estatuto de curato filial da Matriz de São Vicente, ficando responsável o Prior de São Vicente por nomear o cura da paróquia de Vale de Figueira, que dele dependia, situação que se conservou até 1834, conforme o documento que vimos a comentar. Depois da criação da paróquia, os moradores de Vale de Figueira não apenas levantaram a pia do baptismo, sinal indelével da sua autonomia, como se começaram a organizar para ampliar o espaço de culto, erguendo a Igreja Matriz no lugar da ermida.

A edificação da Igreja Matriz

A Igreja Matriz de Vale de Figueira, dedicada a São Domingos de Gusmão, encontra-se edificada em situação altaneira, em plataforma artificial formando um adro fechado por muro em alvenaria, junto ao principal eixo viário da povoação. Desconhece-se a data da sua edificação, mas as características formais do edifício, projectado em estilo-chão, permitem-nos enquadrar a sua construção no decurso do século XVII. A igreja estaria pronta nos começos do século XVIII, quando recebe, em 1708, o retábulo-mor e os retábulos laterais, entalhados e dourados, bem como o cruzeiro paroquial, edificado no centro da escadaria principal de acesso ao adro, conforme as inscrições patentes nestes bens». In Tiago Moita, A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém, 2019, Design Gráfico e Paginação, David Matos Branco, Depósito Legal 453685/19.

Cortesia de DGePaginação/DavidMBranco/JDACT

JDACT, Tiago Moita, São Domingos de Vale de Figueira, Património, Cultura, Santarém,

A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém. Tiago Moita. «Permanecendo no terreno da conservação e restauro, sublinhe-se o artigo de Carlos Costa (2017) sobre o restauro da escultura com a imagem do padroeiro, São Domingos Gusmão»

Cortesia de wikipedia e jdact

História e Património

«A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, concelho de Santarém, oferece aos seus visitantes a presença de um património artístico de grande interesse. Para além da arquitectura do seu templo, inclui numerosíssimas peças de vários géneros artísticos, desde imaginária em madeira, terracota, e marfim, pintura a óleo e a fresco, retabulística, azulejaria, paramentaria, mobiliário, pratas e alfaias litúrgicas, entre outras. Significativamente, parte deste património é oriundo do antigo Convento de Santa Maria de Jesus de Vale de Figueira, da Província da Arrábida, fundado no século XVII por Henrique de Portugal, e sua mulher, dona Ana Ataíde, e extinto em 1834, na sequência da revolução liberal.

O património religioso de que aqui falamos tem vindo a ser beneficiado na última década com intervenções de conservação e restauro, quase sempre realizadas por profissionais qualificados e respeitadores das boas práticas, que lhe têm vindo a devolver valor e autenticidade. Estes trabalhos de beneficiação não seriam possíveis sem a sensibilidade da comunidade local, e da sua enorme generosidade, que fazem de Vale de Figueira um caso singular no que respeita à salvaguarda patrimonial. Entendemos que a recém-valorização deste conjunto de obras de arte impõe agora a necessidade de um estudo sistemático e da sua divulgação. Este livro visa cumprir esse objectivo, analisando o património artístico da Igreja de Vale de Figueira sob o ponto de vista da História da Arte, sensibilizando as pessoas para a sua fruição, não apenas enquanto peças ligadas ao culto, mas como autênticas obras de arte que se devem estimar e apreciar. A análise empreendida segue, naturalmente, a metodologia própria da História da Arte, integrando a investigação dos arquivos (em muitos casos, trazendo à luz documentos inéditos), os dados resultantes das intervenções de conservação e restauro, e o estudo estilístico, iconográfico e comparativo das obras de arte.

Importa referir que embora praticamente desconhecido no contexto da historiografia da arte portuguesa, o património de arte sacra da paróquia de São Domingos de Vale de Figueira mereceu referências pontuais em publicações científicas que devemos mencionar. Em primeiro lugar, encontram-se as notícias de Gustavo Matos Sequeira no tomo do Inventário Artístico de Portugal da Academia Nacional de Belas Artes dedicado ao Distrito de Santarém, de 1949, com um recenseamento superficial das existências. Os demais estudos dignos de registo são sobretudo análises sectoriais, referentes ao património azulejar e retabulístico da igreja. No que se refere ao primeiro destacam-se as palavras de João Miguel Santos Simões, na obra pioneira Azulejaria em Portugal no século XVIII, publicada em 1979, sem esquecer o recente contributo de Maria Rosário Salema Carvalho, na sua tese de doutoramento, ainda inédita (Carvalho, 2012, Anexo B: 1260-1267). No campo da retabulística merece referência o estudo colectivo orientado por Irina Crina Anca Sandu (2012), com uma análise multidisciplinar das técnicas e materiais utilizados no douramento do retábulo-mor e dos retábulos laterais.

Permanecendo no terreno da conservação e restauro, sublinhe-se o artigo de Carlos Costa (2017) sobre o restauro da escultura com a imagem do padroeiro, São Domingos Gusmão. Para além destes trabalhos, registe-se a ficha de inventário do património arquitectónico do SIPA/IHRU com o número IPA.00006781, da autoria de Paula Figueiredo, e o inventário dos bens móveis realizado pela Comissão Diocesana para os Bens Culturais da Igreja, da Diocese de Santarém, elaborado por Eva Raquel Neves. Embora apoiado nos estudos destes pesquisadores, o presente livro resulta, sobretudo, de um estudo aturado de novas fontes de informação, em alguns casos virgens de aproveitamento e ricas de informação histórica e artística, e da investigação pessoal.

Embora os primeiros registos de ocupação humana no território que hoje é conhecido como Vale de Figueira, no concelho de Santarém, nos reportem a períodos recuados do Paleolítico, do Calcolítico, da Idade do Bronze, da Idade do Ferro e da época Romana, que se localizam especialmente no campo arqueológico de Chões de Alpompé, é somente nos começos do século XIV que vamos encontrar referências explícitas a um pequeno povoado no lugar de Vale de Figueira, no termo de Santarém. Nascido provavelmente à sombra das numerosas quintas e casais que vieram a existir neste espaço, propriedades das elites urbanas, continuará a crescer ao longo do tempo, quando em 1527 assume estatuto de aldeia, com número populacional ascendendo a mais de duas centenas de habitantes. É possível que os frades dominicanos, residindo em Santarém, onde fundaram convento no século XIII, tenham incrementado a vida religiosa neste lugar, razão pela qual se ergueu ermida, dedicada ao Patriarca São Domingos, no local onde hoje se situa a igreja paroquial. Na recolha que pudemos apurar, a mais antiga referência a esta ermida, e seu orago, remonta ao ano de 1537, numa Mercê de João III aos mordomos de São Domingos do termo de Santarém de uma ração (ANTT, Núcleo Antigo 887)». In Tiago Moita, A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém, 2019, Design Gráfico e Paginação, David Matos Branco, Depósito Legal 453685/19.

Cortesia de DGePaginação/DavidMBranco/JDACT

JDACT, Tiago Moita, São Domingos de Vale de Figueira, Património, Cultura, Santarém,

terça-feira, 6 de abril de 2021

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Não menos de quinze homens a vigiavam, espetando com espadas os sacos de cereal que as carroças queriam desembarcar perto das cozinhas»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure

«(…) Um trecho antes de chegar à Porta Ticinese, o mais nobre dos acessos desse burgo, um amável mercador se ofereceu para me acompanhar até a torre de Filarete, a entrada principal da fortaleza do Mouro. Situado num dos extremos da urbe, o castelo dos Sforza parecia uma réplica em miniatura das enormes muralhas da cidade. O mercador riu ao ver minha cara de espanto. Disse que era curtidor em Cremona, um bom católico, e que me acompanharia com prazer até ao interior da fortaleza em troca da minha bênção para ele e sua família. Aceitei o acordo. O bom homem me deixou diante do castelo do duque exactamente à hora nona. Aquele lugar era ainda mais magnífico do que eu havia imaginado. Bandeirolas com a terrível insígnia dos Sforza, uma espécie de serpente gigante devorando um pobre infeliz, pendiam das ameias. Fitas azuis ondulavam ao vento, ao passo que meia dúzia de enormes chaminés, cravadas em algum lugar do interior da fortaleza, exalavam grandes lufadas de uma fumaça negra e densa. A entrada de Filarete constava de uma ameaçadora ponte levadiça e duas comportas rebitadas de bronze, dobradas sobre si mesmas. Não menos de quinze homens a vigiavam, espetando com espadas os sacos de cereal que as carroças queriam desembarcar perto das cozinhas.

Um daqueles homens uniformizados me indicou o caminho. Devia dirigir-me ao extremo oeste da torre, já dentro da fortaleza, e perguntar pela área de recepção de visitantes e o gabinete de luto que havia sido instalado para receber as delegações que viriam ao funeral de donna Beatrice. Meu cicerone de Cremona já me havia advertido de que toda a cidade pararia quando chegasse esse momento. E, de facto, a essa hora não havia muita actividade. Fiquei surpreso ao ver que o secretário do Mouro, um espigado cortesão de rosto inexpressivo, não demorou a me receber. O servidor se desculpou por não poder conduzir este servo de Deus até ao seu senhor. Ainda assim, examinou minha carta de apresentação com ar céptico, comprovou que o selo pontifício era verdadeiro e a devolveu acompanhada de um gesto de desolação. Lamento, padre Leyre, Marchesino Stanga, assim se chamava, desmanchou-se numa torrente de desculpas. Deve entender que o meu senhor não receba ninguém após a morte da sua esposa. Suponho que possa imaginar o difícil momento que atravessamos e a necessidade que tem o duque de ficar sozinho. Claro, assenti com fingida cortesia.

Não obstante, acrescentou, quando passar o luto, eu lhe transmitirei a notícia da sua presença na cidade. Eu teria gostado de poder olhar nos olhos do Mouro e deduzir, como em tantos interrogatórios que havia presenciado, se ocultavam ou não as sinistras sombras da heresia ou do crime. Mas aquele servidor com um adorno de cabeça grená guarnecido de peles e gibão de veludo, que falava com ares de mesquinha superioridade, estava decidido a me impedir: também não podemos abrigá-lo, como é nosso costume, disse com secura.

O castelo está fechado e não recebemos hóspedes. Eu vos rogo, padre, que reze pela alma de donna Beatrice e que regresse passados os funerais. Então, nós o receberemos como o senhor merece. Requiescat in pace, murmurei enquanto me persignava. Assim farei. Também rezarei por vocês. Tive uma sensação estranha. Sem possibilidade de me acomodar perto do duque e sua família, frustrado no meu propósito de deambular com mais ou menos liberdade pelo seu castelo, minhas primeiras investigações tomariam mais tempo. Tinha de conseguir um alojamento discreto que me garantisse algum ambiente de estudo. Com os documentos de Torriani queimando na minha bolsa, precisaria de calma, três pratos de comida quente ao dia e uma boa dose de sorte para conseguir decifrar o seu segredo. Não era sensato que um frade buscasse pousada entre os laicos, de modo que minhas opções logo se reduziram a duas: ou me instalava no veterano convento de Santo Eustórgio ou no novíssimo de Santa Maria delle Grazie, onde a possibilidade de cruzar com o Áugure excitava a minha imaginação. Depois, com o tecto resolvido, teria tempo de me dedicar ao enigma que o mestre Torriani havia me entregue em Betânia.

Reconheço que a Divina Providência fez um trabalho exemplar. Santo Eustórgio logo se revelou como a pior das opções. Situado muito perto da catedral, junto ao mercado, costumava estar cheio de curiosos que não tardariam a se perguntar que tipo de assunto mantinha ali um inquisidor romano. Embora a sua localização pudesse dar-me certa perspectiva sobre as actividades do Áugure, poupando-me do risco de encontrá-lo cara a cara sem saber de quem se tratava, também sabia que me oferecia mais inconvenientes que vantagens. Quanto à outra opção, a de Santa Maria delle Grazie, além de ser o suposto refúgio do meu objectivo, só apresentava outro pequeno, mas superável, defeito: ali iam ser celebradas as multitudinárias exéquias de donna Beatrice. Sua igreja, reformada havia pouco tempo por Bramante, estava prestes a se transformar no foco de todos os olhares». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

JDACT, Javier Sierra, Literatura, Florença, Conhecimentos, 

domingo, 4 de abril de 2021

O Projecto Hades. Lynn Sholes e Joe Moore. «A mão forte do presidente agarrou-a pelo braço, obrigando-a a se levantar. Venha por aqui! Fique baixa! Mas o que está acontecendo? Quem está atirando em nós? Podem ser os rebeldes chechenos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A descida ao Hades é a mesma a partir de todos os lugares». In Anaxágoras, filósofo grego, 500-428 a.C.

A Tumba

«(…) Eles fizeram uma parada diante da iconóstase, uma colecção de 69 ícones pintados que se estendia do chão ao tecto. A história da Bíblia desde o Velho Testamento até ao Julgamento Final está ilustrada aqui. O presidente estendeu o braço direito num movimento amplo. Bem, agora acredito que já vimos tudo. Senhor Presidente, não sei como agradecer por ter compartilhado o espantoso esplendor destas magníficas igrejas com os nossos telespectadores da SNN. Este é o património da Mãe Rússia, observou ele. Temos orgulho de mostrá-lo. E o senhor deve orgulhar-se bastante. Cotten estendeu a mão para apertar a dele exactamente quando o ensurdecedor estrondo de uma explosão abalou o interior da Catedral da Assunpção, uma explosão tão forte que a atirou ao chão. No mesmo instante, os candelabros se apagaram, mergulhando o interior cavernoso da igreja na escuridão. Uma fileira intermitente de luzes de emergência tremulou no perímetro da igreja. Cotten levantou a cabeça, atordoada. Viu o cameraman da SNN no chão, o reflector montado sobre a câmera espatifara-se. Pequenas faíscas de luz cintilavam de diversos lugares da igreja, clarões de descargas de armas de fogo. As armas deviam ter silenciadores, pois ela só ouvia o ruído do impacto chocante das balas ao penetrar a carne macia das pessoas ao seu redor. O cameraman deu um grito, mas a escuridão impediu Cotten de ver a gravidade do ferimento dele. Foi atingido?, ela o chamou. Mas não houve resposta. Os agentes do SSP gritaram ordens, sacaram as armas e revidaram o fogo. Outra granada a alguns metros dali fez a catedral estremecer, e de maneira tão violenta, que Cotten esperou o tecto desabar e as colunas sagradas ruírem.

A mão forte do presidente agarrou-a pelo braço, obrigando-a a se levantar. Venha por aqui! Fique baixa! Mas o que está acontecendo? Quem está atirando em nós? Podem ser os rebeldes chechenos. Assassinos. As balas cravavam-se no mármore, arrancando farpas de pedra que atingiam as pernas dela enquanto ele a empurrava para trás de uma das colunas enormes. Atrás dele estavam dois agentes do SSP, descarregando as suas armas. Ela olhou por cima do ombro no momento de ver o seu sonoplasta levantar-se do chão para segui-la, apenas para ser derrubado por uma barreira de balas. O cameraman jazia imóvel numa montanha disforme. Ao lado dele estavam os corpos de três oficiais da segurança russa. Um dos dois agentes do SSP voltou-se para o seu comandante e falou rapidamente, o seu russo soando com uma gravação tocada em velocidade dobrada. O segundo agente disparou uma rajada de tiros na direcção dos atacantes.

Abaixem a cabeça! Os quatro saíram correndo o mais rápido possível pelo espaço vazio até à coluna seguinte. Eles se aglomeraram atrás do grosso pilar enquanto uma salva de tiros arrancou flocos de mármore da obra de arte de quinhentos anos de idade mais acima. Outra granada explodiu, uma supernova na escuridão, a onda de choque reverberando nos ossos de Cotten. O agente principal tentou falar pelo rádio. Não houve resposta. O presidente voltou-se para Cotten. Estamos sem comunicação, e eles bloquearam as saídas. Como vamos sair daqui? Uma torrente de balas chocou-se violentamente contra a coluna, fazendo chover mais lascas da antiga obra de arte. Vamos rezar com o czar, avisou ele, depois instruiu os agentes. Antes que Cotten pudesse pedir uma explicação, eles estavam correndo para um canto da catedral. Mergulhada em um estranho mundo das sombras produzido pelas minúsculas luzes de emergência, Cotten viu uma construção com cerca de seis metros de altura rodeada por uma grade de metal. A base da estrutura devia medir uns três metros quadrados. Com as flechas da cobertura apontadas para cima, ela lembrava uma catedral em miniatura semelhante a um pagode chinês, a sua superfície branca esculpida com motivos decorativos complicados.

Enquanto corriam na direcção do pagode, o presidente gritou sobre o ombro: a capela de Ivã, o Terrível. Os dois agentes começaram a cobrir o fogo enquanto Cotten e o presidente pulavam a grade. Por aqui, instruiu o presidente, guiando-a através do espaço exíguo por trás do local de orações do czar e a parede. Ali, ele abriu um portão e conduziu-a para dentro de uma catedral em miniatura. Ela viu a cadeira isolada onde o czar se instalava durante a missa. O presidente empurrou a cadeira para o lado, revelando um alçapão no soalho. Um dos agentes que os acompanhavam caiu bruscamente, segurando o queixo enquanto o sangue jorrava entre os seus dentes. Um segundo depois, as balas atingiram o outro agente, arremessando-o contra a grade, a parte de trás da cabeça transformada numa massa de sangue e tecidos. Com um ruído seco, a sua arma caiu sobre o piso ao lado da cadeira de orações.

O presidente escancarou o alçapão. Enquanto o alçapão caía de encontro ao piso de madeira, ele caiu de joelhos, uma bala atingindo-o no braço. Pegue a pistola, ordenou ele para Cotten, a voz entrecortada. Com as balas ricocheteando por todo lado na construção toda ornamentada e a madeira rachando ao seu redor, ela agarrou a arma do agente morto. Quando se voltou, o presidente já estava na abertura. Depressa!, gritou ele. Cotten sentou-se na borda da entrada e sentiu com a sola do pé o primeiro degrau da escada enquanto o ar ao seu redor zumbia por causa das balas e dos detritos arrancados. Encontrou o degrau com o dedão e deixou-se cair. Depois de uma dezena de degraus mais ou menos, ela chegou a uma plataforma. O presidente inclinou-se de encontro à parede. Ele gemeu e disse: encontre o interruptor de luz. Cotten correu a mão ao longo da pedra fria e localizou um pequeno interruptor redondo instalado na parede. Ela o ligou, fazendo uma luz sob a plataforma se acender. Viu então uma escadaria que levava para baixo». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Projecto Hades, 2007, Publicações Europa-América, 2008, ISBN 978-972-105-888-0.

Cortesia de EPEuropa-América/JDACT

Lynn Sholes, Joe Moore, JDACT, Mistério, Conhecimento,

sexta-feira, 2 de abril de 2021

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «Mal me viria, porém, e mal-empregado o espaço desta página, se hoje me desse só para falar de tais coisas. A marquise não é mais do que uma varanda protegida do sol e da chuva, e as marquesas…»

jdact

A Velha Senhora dos Canários

«(…) Se não fosse o ancestral respeito que nos tolhe familiaridades diante dos grandes deste mundo, chamaríamos marquesas àquelas varandas cobertas e envidraçadas que geralmente os arquitectos instalam nas traseiras dos prédios, concluindo assim o perímetro isolador das casas e facilitando, quantas vezes, a resolução dos problemas de dormida da criada ou de um parente que veio da província. Mas as marquesas, agora poucas e de pouca influência para fora dos círculos intangíveis da sociedade, ainda transportam consigo o prestígio dos tempos em que marquês era logo abaixo de duque, e este a seguir a rei. Por isso, chamamos àquelas varandas marquises, que significa o mesmo, mas disfarçado de francês. Realmente não seria correcto dizer, em casa de marquesa, que a marquesa estava mal arrumada ou a precisar de espanador: põe-se no lugar da marquesa a marquise, e é logo como quem fala doutra coisa. As palavras têm destas habilidades.

Mal me viria, porém, e mal-empregado o espaço desta página, se hoje me desse só para falar de tais coisas. A marquise não é mais do que uma varanda protegida do sol e da chuva, e as marquesas, se vivem, vivem nas salas da frente, sem nada terem que ver com estes canários que, na marquise, começam justamente agora a dar sinal da sua presença. Um deles tem a asa esquerda ligeiramente descaída, pesa-lhe, e inclina a cabeça de modo a ver-me melhor. Olho-me miniaturizado no círculo brilhante que de vez em quando se cobre, de baixo para cima, com uma rápida pálpebra acinzentada. Meto um dedo entre os arames da gaiola e suporto as bicadas débeis com que a ave recebe a invasão. Irá esvoaçar assustada quando a mão inteira pairar lá dentro, como um dragão. Então o coração agita-se aterrorizado e as asas atiram pancadas contra os arames. E se a mão se transforma em ninho e envolve a ave como um casulo, o contacto dá-lhe calma, embora interrompida por sobressaltos pouco convictos. O outro canário é mais novo. Prefere o poleiro alto, ou o baloiço, e ali, de cabeça erguida, fazendo oscilar bruscamente as penas longas da cauda, tem a vida toda à sua frente, e sabe-o. Se repito a manobra de introduzir os dedos pelos arames, dispara uma bicada única, violenta, e afasta-se ao longo do poleiro, com o ar de ter ganho a batalha logo na primeira escaramuça. Se fosse uma pessoa, diria dele que não dá confiança. Tão sensível ao medo como o companheiro, exprime-o lutando a frio. E se o agarro, sacode-se sem parar, inconformado. Logo que se apanha a salvo, atira um grito de cólera enquanto espaneja as penas desalinhadas.

Não vai mais longe a minha relação com estas aves. Uma ou duas vezes por semana dou-lhes meia dúzia dos meus segundos, distraidamente. Sei que não me estimam nem respeitam, sobretudo desde o dia em que vi a dona dos canários tratar deles, com gestos tão firmes e serenos, que as aves não esvoaçavam: limitaram-se a mudar de lugar, também serenamente, permitindo que a mão rugosa e sábia retirasse o comedouro e o bebedouro de faiança branca e os repusesse frescos e cheios, com os mesmos gestos sossegados. E a porta das gaiolas fechou-se com um pequeno estalido de mola protectora. Por isto que vi, posso imaginar certas horas na casa silenciosa. A dona dos canários vive sozinha. É já muito velha, mas firme como os seus gestos, e anda sem ruído, calma, eficiente. Tem quase sempre um fito, um pequeno trabalho que a ocupa, mas, com tanta idade, tem também horas de pausa, que seriam repouso se não fossem antes contemplação de um passado que se amplia constantemente, abrangendo, além da vida própria, também as múltiplas vidas que por muito ou pouco tempo interferiram na sua.

Então, a senhora dos canários vai sentar-se numa cadeira da marquise, com as mãos abandonadas no regaço, meio abertas e voltadas para cima como cascas de amêndoa, como barcas encalhadas. Fica muito direita, enquanto as recordações começam a afluir em vagas mansas que a submergem e escorrem por ela, pelos olhos brandos, pelas faces ainda lisas entre os sulcos fundos das rugas, até caírem nas mãos que são como taças de um jardim fechado. A casa, nestes momentos, parece cobrir-se de musgo. Um dos canários lança um trinado tímido. O outro responde. E como na casa nada se mexe e a senhora olha fixamente não se sabe o quê, as aves arremetem um canto interminável, rio sonoro que alastrasse em mil braços numa planície de silêncio. A senhora não se move. Talvez não ouça os pássaros, mas eles cantam, cantam, cantam». ». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1969, Editorial Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, Crónica, José Saramago, Nobel, Cultura, Arte, 

quarta-feira, 31 de março de 2021

No 31. Serena. Ian McEwan. «Numa semana eu já tinha lido O primeiro círculo, de Soljenítsin. O título vinha de Dante. O seu primeiro círculo do inferno ficava reservado para os filósofos gregos e consistia…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O meu declínio foi precipitado pelos cinquenta minutos que eu passei com Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, de Alexander Soljenítsin, na nova tradução de Gillon Aitken. Eu comecei a ler o livro assim que acabei Octopussy de Ian Fleming. A transição foi dura. Eu não sabia nada dos campos de trabalho soviéticos e nunca tinha ouvido a palavra gulag. Tendo crescido numa catedral, o que é que eu sabia dos cruéis absurdos do comunismo, ou de como homens e mulheres corajosos em lúgubres colónias penais afastadas de tudo eram reduzidos a pensar dia a dia em nada além da sua própria sobrevivência? Centenas de milhares transportados para as estepes siberianas por terem lutado pelo seu país numa terra estrangeira, por terem sido prisioneiros de guerra, por terem irritado um executivo do Partido, por serem executivos do Partido, por usarem óculos, por serem judeus, homossexuais, camponeses donos de uma vaca, poetas. Quem estava denunciando a perda de toda essa parcela da humanidade? Eu nunca me tinha incomodado com política antes. Não sabia nada das discussões e da desilusão de uma geração mais velha que a minha. E também não tinha ouvido falar da oposição de esquerda. Além da escola, a minha educação tinha-se limitado a um pouco mais de matemática e pilhas de romances em edições baratas. Eu era uma inocente e a minha sensação de ultraje era moral. Eu não usava, e não tinha sequer ouvido, a palavra totalitarismo. Eu provavelmente teria pensado que tinha alguma coisa a ver com totalidades. Achava que estava vendo o mundo através de um véu, que estava desbravando novas fronteiras enquanto mandava as minhas mensagens de um front obscuro.

Numa semana eu já tinha lido O primeiro círculo, de Soljenítsin. O título vinha de Dante. O seu primeiro círculo do inferno ficava reservado para os filósofos gregos e consistia, a bem da verdade, num agradável jardim murado cercado por um sofrimento infernal, um jardim de onde era proibido fugir para entrar no paraíso. Eu cometi o erro do entusiasta, de presumir que todos compartilhavam a minha ignorância anterior. A minha coluna virou uma arenga. Será que a presunçosa cidade de Cambridge não sabia o que tinha acontecido, ainda estava acontecendo, a cinco mil quilómetros a leste, será que ela não tinha percebido o dano que aquela utopia fracassada de filas para comida, roupas horríveis e viagens restritas estava causando ao espírito humano? O que é que se podia fazer? Quis? tolerou quatro rodadas do meu anticomunismo. Os meus interesses se estenderam até O zero e o infinito, de Koestler, Bend Sinister, de Nabokov, e aquele belo tratado que é The Captive Mind, de Miłosz. Também fui a primeira pessoa do mundo a entender 1984 de Orwell. Mas o meu coração ficava sempre com o meu primeiro amor, Alexander. A testa que se erguia como uma cúpula ortodoxa, a barbinha passa-piolho, a autoridade austera que o gulag tinha-lhe conferido, a sua teimosa imunidade aos políticos. Nem as convicções religiosas dele conseguiam me deter. Eu o perdoei quando ele disse que o homem tinha esquecido Deus. Ele era Deus. Quem podia estar à altura dele? Quem podia negar-lhe o prémio Nobel? Encarando a fotografia dele, eu queria ser a sua namorada. Eu teria sido uma criada dele como a minha mãe foi do meu pai. Guardar as meias dele? Eu teria caído de joelhos para lavar os pés daquele homem. Com a língua!

Naquele tempo, martelar as iniquidades do sistema soviético era coisa rotineira para os políticos do Ocidente e os editoriais de quase todos os jornais. No contexto da vida e da política estudantil, era só um tantinho de mau-gosto. Se a CIA estava contra o comunismo, devia ter alguma coisa boa no regime. Certas secções do Partido Trabalhista ainda tinham algum amor pelos monstros de cara quadrada lá no Kremlin e pelo seu projectinho macabro, ainda cantavam a Internacional na conferência anual, ainda mandavam estudantes em programas de intercâmbio. Nos anos de pensamento binário da Guerra Fria não era possível ver-se concordando sobre a União Soviética com um presidente americano que estava em guerra no Vietname. Mas naquele chá no Copper Kettle, Rona, sempre tão educadinha, tão perfumada, tão precisa, disse que não era a política da minha coluna que estava incomodando. O meu pecado era ser franca. A próxima edição da revista dela não tinha mais o meu texto. O meu espaço foi ocupado por uma entrevista com a Incrível Banda de Cordas. E aí a Quis? Fechou». In Ian McEwan, Serena, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-121-2.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

JDACT, Ian McEwan, Literatura, Narrativa,

O Segredo de Helena. No 31. Lucinda Riley. «Tornando a entrar no corredor, ri do Alex que eu era. E me encolhi diante do meu eu anterior, aos 13 anos, um completo egocêntrico e perfeito pé no saco»

Cortesia de wikipedia e jdact

Pandora, Chipre. 19 de Julho de 2016

«Comecei a ver a casa à medida que fui contornando com o carro os perigosos buracos, ainda não tapados, mesmo depois de dez anos, e cada vez mais fundos. Sacolejei mais um pouco, depois parei e contemplei Pandora, achando que não era assim tão bonita, ao contrário das requintadas fotos de imóveis de classe alta que vemos em sites que alugam para temporadas. Em vez disso, ao menos vista pelos fundos, era uma casa sólida, sensata e quase austera, como sempre imaginei que teria sido seu habitante anterior. Construída com pedras locais de tom claro e quadrada como as casas de Lego que eu montava quando menino, Pandora erguia-se da terra árida e pedregosa que a cercava e que, até onde a vista alcançava, estava coberta de tenras vinhas que começavam a brotar. Tentei conciliar a realidade com a imagem que eu levava na mente havia dez verões e concluí que a memória me prestara bons serviços. Depois de estacionar o carro, contornei as paredes maciças até à frente da casa e o terraço, que é o que coloca Pandora acima do lugar-comum e a inclui numa espectacular categoria própria. Atravessando o terraço, fui até à balaustrada erguida na sua borda, no ponto exacto que antecede o início do declive suave do terreno: uma paisagem repleta de vinhedos, uma ou outra casa pintada de branco e extensos olivais. Ao longe, uma linha de um azul-turquesa cintilante separava a terra e o céu.

Notei que o sol dava uma verdadeira aula magna ao se pôr, penetrando com os seus raios amarelos no azul e o transformando em ocre. É interessante, pois sempre achei que a combinação de amarelo e azul resultava em verde. Olhei à direita, para o jardim abaixo do terraço. Os bonitos canteiros, tão cuidadosamente plantados por minha mãe dez anos antes, não tinham sido bem tratados e, sedentos de atenção e água, foram dominados pela terra árida e suplantados por um mato feio e espinhoso. Mas ali, no centro do jardim, tendo ainda presa a ela uma ponta da rede em que a mãe costumava se deitar, as cordas parecendo espaguete velho e esfiapado, erguia-se a velha oliveira. Velha foi o apelido que lhe dei na época, por ter sido informado pelos adultos que me cercavam de que ela o era. De facto, enquanto tudo ao redor morrera e fermentara, ela parecia haver crescido em estatura e majestade, talvez roubando a força vital dos seus vizinhos botânicos depauperados, decidida, ao longo de séculos, a sobreviver.

Era muito bonita: uma vitória metafórica sobre a adversidade, com cada milímetro do tronco nodoso a exibir orgulhosamente a sua luta. Perguntei-me porque os seres humanos odeiam o mapa da sua vida que transparece no próprio corpo, enquanto uma árvore como essa, ou uma pintura desbotada, ou uma construção desabitada, quase em ruínas, são enaltecidas pela sua antiguidade. Pensando nisso, voltei-me para a casa e fiquei aliviado ao ver que, pelo menos por fora, Pandora parecia ter sobrevivido ao seu abandono recente. Na entrada principal, tirei do bolso a chave de ferro e abri a porta. Ao percorrer os cómodos na penumbra, protegidos da luz pelas persianas cerradas, percebi que as minhas emoções estavam entorpecidas, e talvez fosse melhor assim. Não me atrevi a começar a sentir coisas, porque esse lugar, talvez mais do que qualquer outro, guarda a essência dela... Meia hora depois, eu já tinha aberto as janelas do térreo e tirado os lençóis de cima dos móveis do salão. Parado numa bruma de partículas de poeira que captavam a luz do sol poente, lembrei-me de ter pensado, na primeira vez em que vi a casa, que tudo parecia muito velho. E me perguntei, ao olhar para as poltronas afundadas e o sofá puído, se, tal como a oliveira, o velho e ultrapassado em certo ponto se torna simplesmente velho, sem continuar a envelhecer de modo visível, como os avós grisalhos para uma criança pequena.

A única coisa na sala que tinha mudado de forma a ficar irreconhecível era eu, é claro. Nós, humanos, completamos a maior parte da nossa evolução física e mental em nossos primeiros anos no planeta Terra, de bebés a adultos plenos num piscar de olhos. Depois disso, ao menos por fora, passamos o resto da vida mais ou menos com a mesma aparência, apenas nos transformando em versões mais flácidas e menos atraentes do nosso eu jovem, à medida que os genes e a gravidade fazem o que sabem fazer de pior. Quanto à dimensão afectiva e intelectual das coisas..., bem, devo acreditar que há algumas vantagens que compensam o lento declínio do nosso envoltório externo. Estar de volta a Pandora me mostrou com clareza que elas existem. Tornando a entrar no corredor, ri do Alex que eu era. E me encolhi diante do meu eu anterior, aos 13 anos, um completo egocêntrico e perfeito pé no saco». In Lucinda Riley, O Segredo de Helena, 2016, Editora IN, 2018, ISBN 978-989-776-064-8.

Cortesia de EIN/JDACT

JDACT, Lucinda Riley, Literatura, Chipre, 

No 31. A Bailarina de Auschwitz. Edith Eva Eger. «Ela é capaz de ajudar outras pessoas a se recuperar porque conseguiu passar sozinha do trauma à vitória. Ela descobriu como usar sua experiência com a crueldade humana para levar aos outros…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Numa Primavera, a convite do psiquiatra-chefe da Marinha dos Estados Unidos, a dra. Edith Eva Eger embarcou num avião de combate sem janelas para um dos maiores navios de guerra do mundo, o porta-aviões USS Nimitz, fundeado ao largo da costa da Califórnia. O avião desceu em direcção a uma pista curta de 150 metros e aterrsou com o solavanco do gancho de retenção da cauda, encaixando no cabo de travamento, que o impediu de cair no oceano. Única mulher a bordo, a dra. Eger foi acomodada na cabine do capitão. Qual era a sua missão? Ela estava lá para ensinar cinco mil jovens marinheiros a lidar com a adversidade, o trauma e o caos da guerra. Em incontáveis ocasiões, a dra. Eger foi a especialista clínica designada para tratar dos soldados, incluindo os das Forças de Operações Especiais, que sofriam de transtorno de stress pós-traumático e lesões cerebrais. Antes de conhecer a dra. Eger pessoalmente, telefonei para convidá-la a fazer uma palestra no curso de Psicologia do Controle da Mente ministrado por mim em Stanford. Sua idade e o seu tom de voz me levaram a imaginar uma vovozinha do Velho Mundo com um lenço amarrado na cabeça por um laçarote por baixo do queixo. Quando ela se dirigiu aos meus alunos, percebi seu poder de cura. Com um sorriso radiante, brincos brilhantes, cabelos dourados, vestindo Chanel da cabeça aos pés (conforme minha esposa me contou depois), ela descreveu tenebrosas e angustiantes histórias de sobrevivência nos campos de extermínio nazistas de maneira bem-humorada, exalando uma presença que só consigo descrever como pura luz.

A vida da dra. Eger foi pontuada por tragédias. Ela foi presa em Auschwitz quando era apenas uma adolescente. Apesar da tortura, da fome e da constante ameaça de morte, conservou a liberdade mental e espiritual. Não se deixou abater pelos horrores que sofreu e saiu fortalecida pela experiência. Na realidade, a sua sabedoria é resultado dos episódios mais traumáticos que viveu.

Ela é capaz de ajudar outras pessoas a se recuperar porque conseguiu passar sozinha do trauma à vitória. Ela descobriu como usar sua experiência com a crueldade humana para levar aos outros a chance de encontrar a própria luz. Seus ensinamentos já ajudaram militares (como aqueles a bordo do USS Nimitz), casais tentando reencontrar a intimidade, pessoas que foram negligenciadas, agredidas, que são viciadas ou doentes, que perderam entes queridos ou simplesmente a esperança. E podem ajudar a todos nós que enfrentamos diariamente as decepções e os desafios da vida. Sua mensagem nos inspira a fazer as nossas próprias escolhas e a nos libertar do sofrimento. No fim da palestra, todos os meus trezentos alunos se levantaram espontaneamente para aplaudir. Depois, pelo menos cem jovens lotaram o pequeno palco, esperando sua vez para agradecer e abraçar essa mulher extraordinária. Em todas as minhas décadas como professor, nunca vi um grupo de estudantes tão entusiasmado.

Ao longo dos vinte anos em que eu e Edie trabalhamos e viajamos juntos, essa é a reacção que me acostumei a testemunhar de cada público ao qual ela se dirige. Desde um encontro motivacional numa cidade de Michigan, nos Estados Unidos, quando conversamos com um grupo de jovens que enfrenta pobreza, desemprego e um conflito racial crescente, até Budapeste, na Hungria, local em que muitos dos seus parentes morreram e onde ela falou para centenas de pessoas que tentavam recuperar-se de um passado doloroso, eu vi isso acontecer repetidas vezes: as pessoas se transformam na presença de Edie. […]

Prisão. Eu tinha um segredo que me aprisionava

Eu não sabia da arma carregada escondida sob a camisa, mas, no momento em que o capitão Jason Fuller entrou no meu consultório, em El Paso, num dia de Verão de 1980, senti um aperto no estômago e uma fisgada na nuca. A guerra tinha-me ensinado a perceber o perigo antes mesmo que eu fosse capaz de explicar porque estava com medo. Jason era alto, tinha o físico magro de um atleta, mas o seu corpo era tão rígido que ele mais parecia um pedaço de madeira do que um ser humano. Seus olhos azuis eram distantes, o queixo era duro e ele não falava, ou não conseguia falar. Eu o encaminhei para o sofá branco, onde ele se sentou recto, com as mãos nos joelhos. Eu não conhecia Jason e não tinha ideia do que havia desencadeado o seu estado catatónico. Seu corpo estava próximo o suficiente para ser tocado, e sua angústia era quase palpável, mas ele estava longe, perdido. Nem parecia notar Tess, minha cachorrinha poodle cinza, que continuava parada, atenta, perto da mesa, como uma segunda estátua viva na sala.

Respirei fundo e procurei uma maneira de começar. Às vezes, começo a primeira sessão com o paciente me apresentando e contando um pouco da minha história e da abordagem que utilizo. Às vezes, pulo directo para a parte de identificar e investigar os sentimentos que trouxeram o paciente ao meu consultório. Com Jason, parecia essencial não pressionar com informações demais ou pedir que ficasse vulnerável. Ele estava completamente travado. Eu precisava encontrar uma maneira de lhe oferecer a segurança de que ele precisava para arriscar-se a me mostrar o que mantinha tão fortemente guardado. Eu precisava prestar atenção ao sistema de alerta do meu corpo sem deixar meu senso de perigo encobrir a obrigação de perguntar: como posso ser útil?» In Edith Eva Eger, A Bailarina de Auschwitz, 2017, Editora Desassossego, 2018, ISBN 978-989-889-218-8.

Cortesia de EDesassossego/JDACT

JDACT, Edith Eva Eger, Guerra, Literatura, Conhecimento,

domingo, 28 de março de 2021

O Pirata. Walter Scott. «Este magnate das ilhas Setland, que, como já dissemos, descendia, pelo lado de seu pai, de uma antiga família norueguesa, devido ao casamento de um dos seus avoengos com uma dama dinamarquesa…»

jdact

O Estranho Desejo do Homem Estranho

«(…) Esta descoberta fez-se quase à força, porque Mertoun nunca estava disposto a falar de lugares-comuns nem dos seus próprios assuntos. Mas era, por vezes, arrastado a discussões que faziam reconhecer nele, quase sem ele dar por isso, o sábio e o homem de sociedade. Outras vezes, como reflexo da hospitalidade que recebia, ele parecia fazer um esforço sobre si próprio para entrar em conversação com os que o cercavam, sobretudo se a conversa era de tom grave, melancólico e satírico, o que melhor convinha à feição do seu espírito. Em todo o caso, a opinião geral dos setlandeses era de que ele devia ter recebido uma excelente educação, mas descurada num ponto muito importante, pois o senhor Mertoun mal sabia distinguir a proa de um barco da sua popa, e uma vaca não poderia ser mais ignorante em tudo o que se relacionasse com a condução de um navio. Tinham pena de que uma ignorância tão crassa da arte mais necessária à vida (pelo menos nas ilhas Setland) estivesse ligada aos largos conhecimentos que ele evidenciava em tantos outros assuntos. No entanto, essa era a verdade.

Excepto quando conseguiam fazê-lo sair da sua reserva pela maneira que citámos, o senhor Basil Mertoun mantinha-se sombrio e concentrado. As mulheres gostam sempre de penetrar os mistérios e de suavizar a melancolia, sobretudo quando se trata de um homem desempenado e que ainda não ultrapassou a boa idade da vida. É, portanto, possível que entre as filhas de Tule, de cabelos louros e olhos azuis, este estrangeiro pensativo tivesse encontrado alguma que se encarregasse de o confortar, se ele mostrasse alguma disposição para receber esse caridoso serviço; mas, bem longe de proceder assim, ele até parecia fugir da presença daquele sexo ao qual recorremos em todas as nossas aflições de corpo e de espírito, para obter piedade e consolação. A estas singularidades, juntava o senhor Mertoun uma outra particularidade desagradável ao seu hospedeiro Magnus Troil. Este magnate das ilhas Setland, que, como já dissemos, descendia, pelo lado de seu pai, de uma antiga família norueguesa, devido ao casamento de um dos seus avoengos com uma dama dinamarquesa, estava profundamente convencido de que um copo de genebra ou de aguardente eram uma panaceia infalível contra todas as preocupações e todas as aflições do Mundo. O senhor Mertoun nunca recorrera a este remédio; não bebia senão água, água pura, e não havia súplicas que o decidissem a provar outra bebida que não proviesse de uma límpida fonte. Ora, era o que Magnus Troil não podia tolerar; era ultrajar as antigas leis de sociabilidade do Norte, que ele, por seu lado, sempre respeitava tão rigorosamente. E, embora Magnus Troil tivesse o costume de afirmar que nunca se deitara embriagado, o que não era verdade senão no sentido que ele emprestava à palavra, seria impossível provar que alguma vez tivesse recolhido ao leito no uso pleno e livre do seu juízo. Perguntar-se-á em que poderia o convívio deste estrangeiro compensar Magnus do desprazer que lhe causavam os seus hábitos de sobriedade. Primeiro, ele tinha aquele ar de importância que denuncia um homem de alguma consideração, e pobre. Tinha, aliás, algum talento de conversação, quando se dignava fazer uso dele, como já o demos a entender; e a sua misantropia, ou aversão pelos assuntos e relações sociais, exprimiam-se por vezes de maneira a passar por pessoa espirituosa, num local onde o espírito era raro. Acima de tudo, a história do senhor Mertoun parecia impenetrável, e a sua presença tinha todo o interesse de um enigma, que se gosta de ler e reler precisamente porque não se consegue adivinhar nem uma palavra.

Apesar de todas estas particularidades favoráveis, Mertourn diferia do seu hospedeiro em pontos tão essenciais, que depois de ele ter passado algum tempo na sua casa, Magnus Troil ficou agradavelmente surpreendido quando, uma noite, depois de permanecerem juntos durante duas horas em silêncio absoluto, a beber aguardente e água, isto é, Magnus o álcool e Mertoun o líquido puro, Mertoun pediu ao seu hóspede licença para ocupar, como locatário, a sua casa abandonada de Jarlshof, no extremo do território denominado Dunrossness, e situado no promontório Sumburgh. Vou desembaraçar-me dele da maneira mais correcta, pensou Magnus. A sua partida vai, no entanto, arruinar-me em limões, porque bastava um dos seus olhares para dar acidez a um oceano de punch. No entanto, o generoso e bom setlandês opôs desinteressadamente objecções a Mertoun sobre a solidão a que ia condenar-se e acerca dos inconvenientes que devia esperar. Apenas se encontram nessa velha cas, disse ele, os móveis indispensáveis. Não há convivência em várias milhas em redor. Não encontrará outras provisões senão sillocks (pequenos peixes próprios daquelas paragens) salgados, e não terá por companhia mais do que gaivotas e outras aves marinhas. Meu bom amigo, respondeu Mertoun, se quisesse fazer-me preferir esse local a outro, não andaria melhor do que assegurando-me que lá estaria longe do convívio dos homens e que o luxo não poderia lá penetrar. Um reduto onde a minha cabeça e a do meu filho possam estar ao abrigo das intempéries é tudo o que desejo. Fixe a renda que lhe devo pagar, senhor Troil, e permita-me que seja seu locatário em Jarlshof. A renda!, exclamou o setlandês. Não pode ser muito avultada por uma velha casa que ninguém habita desde a morte de minha mãe, que Deus tenha em descanso. Quanto a um abrigo, as velhas paredes são grossas, e podem ainda aguentar muito pé de vento. Mas, em nome do céu, senhor Mertoun, pense no que vai fazer. Um homem nascido entre nós que quisesse ir estabelecer-se em Jarlshof faria um projecto extravagante, com mais forte razão o senhor, que nasceu noutro país, quer seja a Inglaterra, a Escócia ou a Irlanda, é o que ninguém sabe dizer...» In Walter Scott, O Pirata, 1822, tradução de Mário Domingues, 2ª edição, Edição Romano Torres, Lisboa, 1953-1956, Obras Escolhidas de Autores Escolhidos, nº 21.

Cortesia de ERomanoTorres/JDACT

JDACT, Walter Scott, Literatura, Século XIX, Cultura, A Arte,