sexta-feira, 22 de junho de 2018

A Princesa Determinada. Catarina de Aragão. Philippa Gregory. «… possa viver tranquilamente e com amor-próprio, uma vez que todos somos Povos do Livro. O seu erro foi que pretendiam essas tréguas, e confiaram nelas, e nós, como se verificou, não»

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«(…) O meu pai reúne-se com emissários estrangeiros na Sala dos Embaixadores, leva-os para a sala dos banhos para manterem conversações, como qualquer sultão ocioso. Aminha mãe senta-se de pernas cruzadas no trono dos Nasrid que reinaram aqui por várias gerações, os seus pés despidos, metidos em chinelos de pele macia, o tecido elo seu kamiz caindo em seu redor. Ouve os emissários do próprio Papa, numa sala de audiências cujas paredes esteio revestidas de ladrilhos coloridos e onde oscila uma luz pagã. Para ela, é como estar em casa, pois foi criada o Alcazar de Sevilha, outro palácio mouro. Passeamos nos seus jardins, banhamo-nos no seu hammam, calçamos os seus chinelos de pele macia perfumados e vivemos uma vida mais refinada e luxuosa do que poderiam sonhar em Paris, Londres ou Roma. Vivemos graciosamente. Vivemos, tal como sempre aspirámos virer, como mouros. Os nossos compatriotas cristãos criam cabras nas montanhas, rezam à Nossa Senhora em monumentos à beira da estrada, vivem aterrorizados pelas superstições e cheios de doenças, vivem no meio da sujidade e morrem jovens. Nós fomos ensinados pelos professores muçulmanos, examinados pelos seus médicos, estudamos as estrelas no céu, a que eles deram nome, contamos pelos seus números que começam no zero mágico, comemos os seus frutos doces e deleitamo-nos nas águas que correm pelos seus aquedutos. A sua arquitectura agrada-nos, a cada virar de esquina sabemos que riremos no meio da beleza. Agora, o seu poder protege-nos; o Alcazaba é, de facto, invulnerável a ataques, aprendemos a sua poesia, rimo-nos dos seus jogos, deliciamo-nos nos seus jardins, com os seus frutos, tomamos banho nas águas que fizeram fluir. Somos os vitoriosos, mas eles ensinaram-nos conto reinar. Por vezes, penso que nós é que somos os bárbaros, como os que vieram depois dos Romanos ou dos Gregos, que podiam invadir os palácios e capturar os aquedutos e, depois, sentar-se como macacos num trono, brincando com a beleza sem a compreender.
Pelo menos, não mudámos de fé. Todos os empregados do palácio têm de respeitar os credos da Única Igreja Verdadeira. As cornetas da mesquita foram silenciadas, não haverá mais chamamentos para as orações aos ouvidos da minha mãe. E se alguém discordar, pode partir para a África de imediato, converter-se de imediato, ou encarar as fogueiras da Inquisição (maldita). Não nos deixamos amolecer com os espólios da guerra, nunca nos esquecemos de que somos os vitoriosos e de que conquistámos a nossa vitória, pela força das armas e pela vontade de Deus. Fizemos uma promessa solene ao pobre rei Boabdil, de que o seu povo, os Muçulmanos, ficaria tão seguro sob o nosso governo como os cristãos estavam sob o seu. Prometemos a convivência, um modo de vivermos em conjunto e eles acreditam que construiremos uma Espanha onde qualquer pessoa, mouro, cristão ou judeu, possa viver tranquilamente e com amor-próprio, uma vez que todos somos Povos do Livro. O seu erro foi que pretendiam essas tréguas, e confiaram nelas, e nós, como se verificou, não». In Philippa Gregory, Catarina de Aragão, A Princesa Determinada, Livraria Civilização Editora, 2006, ISBN 978-972-262-455-8.

Cortesia CivilizaçãoE/JDACT

quinta-feira, 21 de junho de 2018

A Princesa Determinada. Catarina de Aragão. Philippa Gregory. «… a querida do harém onde me ensinam a brincar, a dançar e a cantar, e a favorita da cozinha, onde me deixam vê-los a preparar os bolos e pratos doces com mel e amêndoas da Arábia»

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«(…) Em seguida, voltou-se para ver os empregados domésticos do palácio aproximando-se lentamente, de cabeça inclinada. Eram liderados pelo grão-vizir, cuja altura era enfatizada pelas roupas fluidas, os olhos negros penetrantes encontraram os seus observando o rei Fernando ao seu lado, e a família real atrás: o príncipe e as quatro princesas. O rei e o príncipe estavam vestidos ao estilo faustoso dos sultões, vestindo túnicas ricamente bordadas por cima das calças, a rainha e as princesas usavam as túnicas kamiz tradicionais, fabricadas com as melhores sedas, por cima de calças de linho brancas, com véus dependurados na cabeça, presos atrás por filetes de ouro. Vossa Alteza Real, é minha honra e dever dar-vos as boas-vindas ao Palácio de Alhambra, afirmou o grão-vizir, como se fosse a coisa mais natural do mundo entregar o mais belo palácio da Cristandade a invasores armados. A rainha e o marido trocaram um breve olhar. Podeis levar-nos para dentro, afirmou. O grão-vizir fez uma vénia e indicou o caminho. A rainha olhou para trás, para os seus filhos. Venham, meninos, disse e foi à sua frente, passando pelos jardins que rodeavam o palácio, descendo alguns degraus e passando pela discreta porta de entrada. Esta é a entrada principal?, hesitava em frente da pequena porta, aberta numa parede disfarçada. O homem fez uma vénia. É sim, Vossa Alteza. Isabel não disse nada, mas Catarina viu-a levantar as sobrancelhas como se não gostasse muito da ideia, e todos entraram.
Mas a pequena porta de entrada é como um buraco de fechadura que dá para uma arca do tesouro composta por caixas, uma abrindo-se a partir da outra. O homem conduz-nos através delas, como um escravo abrindo portas para um tesouro. Os seus nomes são um poema: a Sala Dourada, o Pátio dos Mirtilos, a Sala dos Embaixadores, o Pátio dos Leões ou a Sala das Duas Irmãs. Levaremos semanas a encontrar o caminho de uma sala decorada com ladrilhos sofisticados para outra. Demoraremos meses a deixar de nos maravilhar com o prazer do som da água a correr pelos regos de mármore nos quartos, fluindo para uma fonte de mármore que está sempre a transbordar, com a mais límpida e fresca água das montanhas. E nunca me cansarei de olhar através do rendilhado de estuque branco para a planície lá longe, as montanhas, o céu azul e as colinas douradas. Cada janela é como uma moldura de um quadro, foram concebidas para nos fazer parar, observar e maravilharmo-nos. Todas as molduras das janelas são como bordados de tenda branca, o estuque é tão fino, tão delicado, como trabalho de açúcar feito por pasteleiros, não se assemelha a nada que seja real. Passamos ao harém por ser uma das salas mais cómodas e convenientes para mim e as minhas irmãs, e os empregados do harém acendem as brasas nas noites frias, e espalham as ervas de cheiros, orno se fôssemos as sultanas que viveram esquecidas por trás dos biombos, durante tanto tempo. Sempre usámos roupas mouras em casa e, por vezes, em grandes ocasiões de Estado, por isso, ainda lá se ouve um murmúriode sedas e o bater dos chinelos no chão de mármore, como se nada se tivesse alterado. Agora, estudamos onde as escravas liam, passeamos nos jardins que foram plantados para deleitar as favoritas do sultão. Comemos os seus frutos, adoramos o sabor dos seus gelados, prendemos as suas flores em guirlandas para enfeitar as nossas cabeças, e corremos pelas suas alamedas onde o forte perfume a rosas e a madressilvas é doce pela frescura da manhã.
Banhamo-nos no hammam, permanecendo imóveis como estátuas, enquanto os empregados nos ensaboam todo o corpo com um sabão rico, que cheira a flores. Depois, vertem jarros dourados de água quente, um a seguir ao outro, molhando-nos dos pés à cabeça. Somos hidratadas com óleo de rosas, embrulhadas em finos lençóis e deitamo-nos, semiembriagadas de tanto prazer sensual, na mesa morna de mármore que domina a sala, sob o tecto dourado cujas aberturas, em forma de estrela, deixam passar os raios estonteantes de sol para a sombreada paz do lugar. Uma rapariga arranja-nos as unheis dos pés, enquanto outra trabalha as nossas mãos, limando-nos as unhas e pintando padrões delicados de henna. Deixamos a mulher mais velha acertar-nos as sobrancelhas e pintar-nos as pálpebras. Somos servidas como se fôssemos sultanas, com todas as riquezas da Espanha e todos os luxos do Oriente, e rendemo-nos completamente ao prazer do palácio. Cativa-nos, somos rapidamente submetidos; os denominados vitoriosos. Mesmo Isabel, que chora a morte do marido, recomecei a sorrir. Até Joana, normalmente tão mal-humorada e rabugenta, está em paz. E eu torno-me a mascote da corte, a preferida dos jardineiros, que me deixam apanhar os pêssegos das árvores, a querida do harém onde me ensinam a brincar, a dançar e a cantar, e a favorita da cozinha, onde me deixam vê-los a preparar os bolos e pratos doces com mel e amêndoas da Arábia». In Philippa Gregory, Catarina de Aragão, A Princesa Determinada, Livraria Civilização Editora, 2006, ISBN 978-972-262-455-8.

Cortesia CivilizaçãoE/JDACT

Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «Não vejo tal afronta nas intenções do poeta, Alteza, esse assunto particular já se deu há um ror de anos, nem Luís Vaz era nascido..., desculpou-o Paula Vicente»

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Catarina Ataíde. Paço Real de Almeirim. 5 de Outubro. 1548
«(…) Contou-me a infanta dona Maria, cuja cultura não poderá ser contestada, que o auto trata da resignação do velho rei da Síria, Seleuco. Acaba ele por ceder uma das suas esposas ao filho e herdeiro, pois que este está perdidamenre apaixonado pela madrasta. E há pior: parece que Luís Vaz no prelúdio menciona uma certa Catarina Real. Dona Maria repetiu-me a deixa tal como a ouviu: e entra logo Catarina Real com uns poucos de parvos numa joeira; e semeá-los-á pela casa, de que nascerá muito mantimento de riso.
Eu própria tremi. Luís Vaz tinha dado um passo arriscado. Todas as que ali estávamos reunidas na sala, sobre o Terreiro, sabíamos que o monarca João III por muito tempo acreditara poder vir a casar-se com a terceira mulher de seu pai, a bela Leonor de Áustria, mãe da infanta dona Maria. E como era galante! João III, para onde quer que fosse, fazia-se sempre acompanhar do retrato de dona Leonor de Áustria, pintado por Joos van Cleve. Sendo Leonor mãe da infanta dona Maria, o retrato fazia já parte da mobília. Era, de facto, de uma beleza invulgar: rosto esguio e olhos bem latinos, cor de amêndoa, testa alta e a pele..., de uma alvura sem par. Ainda antes de Manuel I, seu pai, se casar em terceiras núpcias com dona Leonor de Áustria, já João a desejava para si. Tai não sucedeu e foi dona Catarina a desposá-lo, uma segunda e remota escolha. Tenho muita consideração e respeito por dona Catarina. A pobre foi criada, no Convento de Tordesilhas, por uma mãe às portas da loucura. Cresceu cosida com as saias de Joana, a Louca nas sombras geladas daquele hospício e só viu a luz do Sol aos dezassete anos, quando o irmão, Carlos V, negociou o seu casamento com o Rei de Portugal. Muito sã de espírito e robusta de corpo era Sua Majestade para o que tinha passado, ainda mais tendo visto morrer os filhos, um por um. Só João Manuel vivia ainda. Não era, pois, de estranhar a tremura que levava nas mãos, o tom baço da pele e os humores melancólicos ou enraivecidos que a vinham tomando.
Não vejo tal afronta nas intenções do poeta, Alteza, esse assunto particular já se deu há um ror de anos, nem Luís Vaz era nascido..., desculpou-o Paula Vicente. Tenho para mim que o poeta não quis outra coise senão imitar os clássicos, fazer renascer os gregos e os romanos, como dita a moda. E sabeis bem que a infanta dona Maria não morre de amores por ele. Dona Catarina cerrou os lábios com força e arqueou as sobrancelhas. Reparei que ostentava uma gargantilha de várias fiadas de pérolas com um enorme rubi pendente. Vingava agora na profusão de jóias a míngua do Convento de Tordesilhas. Corpulenta e pesada como andava, foi penosamente que se levantou do estrado. Pousou o bordado numa almofada de seda e, seguida pelo seu Bejayo, pôs-se a caminhar pela sala, para trás e para diante, como fera enjaulada. De quando em vez parava, arquejante, saltando-lhe os olhos das pinturas de Jorge Afonso e Gregório Lopes para os novos guadamecis com cenas de caça que enfeitavam as paredes. Ganhava tempo e, quando assim era, o melhor era prepararmo-nos para o pior. Calámo-nos todas.
Não me interessa ouvir-te! Luís Vaz ridicularizou-me, desrespeitou-me, usou os dramaturgos antigos com a firme intenção de me desafiar, reacendendo os meus fantasmas. Escutai esta deixa: meu pai era clérigo, e os clérigos sempre chamam aos filhos sobrinhos; e daqui me ficou a mim, ser filho de meu tio. Acaso a achais galante a apropriada? Pois a mim não me deu vontade alguma de rir. Não me bastava assistir à morte prematura de toda a minha família, não me bastava ter de enfrentar este tempo conturbado de falta de fé, com as blasfémias de Lutero, não me bastava a incerteza da sucessão do Reino, para ter ainda de me sujeitar a semelhante desfaçatez! Com franqueza, senhoras!» In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.
                                                                                           
Cortesia de OdoLivro/JDACT

quarta-feira, 20 de junho de 2018

O Palácio da Traição. Jason Matthews. «Retomou a marcha e Dominika acompanhou-lhe o passo. Um jovem moreno, de barba por fazer, deixou os amigos encostados a uma janela a escorrer vapor de um restaurante asiático de massas»

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«A capitã Dominika Egorova, do Serviço de Informações Estrangeiras russo, o SVR, puxou para baixo a bainha do seu pequeno vestido preto ao serpentear por entre a multidão de peões do bombardeante caos de néon vermelho do Boulevard de Clichy, em Pigalle. Avançava de queixo erguido, fazendo estalar os saltos negros no passeio parisiense, sem tirar os olhos da cabeça grisalha do coelho que ia à sua frente, tratava-se de uma vigilância de seguimento a solo de um alvo apeado, uma das especialidades mais difíceis das artes de rua ofensivas. Dominika cobria-o de forma irregular, ora seguindo paralelamente a ele pela placa central do boulevard, ora colando-se atrás dos peões do anoitecer para lhe examinar o perfil. O homem parou a fim de comprar um kebab esturricado, caracteristicamente de carne de porco, naquele bairro cristão, a um vendedor ambulante que ateava o lume de uma pequena braseira com um pedaço de cartão dobrado, lançando de vez em quando uma fagulha sobre a multidão de transeuntes e envolvendo a esquina em nuvens de fumo rescendentes a coentro e pimentão. Dominika abrandou a marcha, ocultando-se atrás de um poster era pouco provável que o coelho estivesse a usar a paragem para comer qualquer coisa rápida como meio de verificar se vinha alguém atrás dele, nos três últimos dias tinha-se mostrado desatento na rua, mas ela queria evitar que ele desse pela sua presença cedo demais. Já tinha havido bastantes outras criaturas na rua a olhar para ela ao passar pelo meio da multidão, pernas de bailarina, seios imponentes, olhos azuis-claros de arco voltaico, a tirarem-lhe a pinta, a farejarem à procura de força ou debilidade.
Com duas olhadelas hábeis. Dominika examinou o jardim zoológico de rostos, mas não sentiu aquele formigueiro na nuca que significava o preâmbulo de complicações. O coelho, um persa, acabou de arrancar as tiras de carne com os dentes e atirou o pauzinho do kebab para a sarjeta. Aparentemente aquele muçulmano xiita não tinha rebuço em comer carne de porco, nem, aliás, em chafurdar com a cara entre as pernas de prostitutas. Retomou a marcha e Dominika acompanhou-lhe o passo. Um jovem moreno, de barba por fazer, deixou os amigos encostados a uma janela a escorrer vapor de um restaurante asiático de massas, veio colar-se a Dominika e passou-lhe um braço por cima do ombro. Je bande pour toi, disse naquele francês macarrónico do Magrebe; ela dava-lhe um grande tes… Só me faltava esta! Não tinha tempo para aquilo; sentiu a onda latente no estômago a subir-lhe até aos braços. Não. Faz-te de gelo. Va voir ailleurs si j’y suis, vai ver se eu estou lá fora, respondeu por cima do ombro. O jovem parou de chofre, fez um gesto obsceno e cuspiu no passeio». In Jason Matthews, O Palácio da Traição, 2015, Lua de Papel, LeYa, 2016, ISBN 978-989-233-595-7.

Cortesia de LuadePapel/LeYa/JDACT

Filhas da Tempestade. Philippa Gregory. «A resmungar, o guarda-portão correu a portinhola e desceu ao portão. Os viandantes esperaram do lado de fora, na derradeira luz dourada do dia, e ouviam-no a queixar-se amargamente…»

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Picolo. Itália, Novembro de 1453
«(…) Do lado da terra, a pequena vila piscatória estava circundada por muralhas altas com um único portão que se fechava oficialmente ao pôr do sol. Freize chamou o guarda-portão, o qual abriu uma portinhola e meteu nela a cabeça a barafustar que os viandantes deviam ter mais respeitinho pelo regulamento, e não podiam entrar na vila depois de tocar o sino do recolher obrigatório e de as portas se fecharem para passar a noite. - O sol nem acabou de se pôr! Refilou Freize. O céu ainda está alumiado! Já se pôs, retorquiu o guarda-portão. Como é que hei-de saber quem vocês são? Porque, como ainda não está noite cerrada, podes ver muito bem quem somos, contrapôs Freize. Agora deixa-nos entrar, senão vai ser pior para ti. O meu amo é inquiridor do próprio Santo Padre, nós não podíamos ser mais importantes se fossemos cardeais.
A resmungar, o guarda-portão correu a portinhola e desceu ao portão. Os viandantes esperaram do lado de fora, na derradeira luz dourada do dia, e ouviam-no a queixar-se amargamente conforme alijava o portão ruidoso para eles entrarem. Finalmente, passaram todos debaixo do arco. A vila não tinha mais que umas ruas estreitas do monte até ao cais. Os viandantes desceram das suas montadas e levaram-nas pela arreata até ao lado do cais, avançando com prudência no empedrado muito gasto. Tinham entrado pela porta oeste da muralha do perímetro que circundava toda a vila, onde havia uma porta trancada do lado norte e outra igual virada a sul. No caminho até ao porto viram, de frente para o mar escurecido, a única estalagem da vila com uma porta acolhedora escancarada, e janelas bem alumiadas pela luz das velas.
Os cinco viandantes levaram as montadas para o pátio dos estábulos, entregaram-nas ao moço de estrebaria, e rumaram ao átrio da estalagem. Pelas janelas entreabertas ouvia-se ondas a bater nas muralhas do cais, e entrava o cheiro a maresia e a redes de pesca. Piccolo era um porto concorrido com quase uma dúzia de barcos no pequeno cais, uns ancorados e balouçantes na baía, outros amarrados a argolas na muralha do porto. A vila tinha movimento mesmo com a noite outonal a cair. Os pescadores rumavam a suas casas, os últimos viandantes desembarcavam das embarcações mercantis que atravessavam o mar cada vez mais escuro. A Croácia ficava a menos de 150 quilómetros a leste e quem entrava na estalagem, a soprar nos dedos enregelados, queixava-se de um vento contrário que lhes prolongara a viagem em quase dois dias e os deixara gelados até aos ossos. Não tardaria a ser Inverno, e seria tarde para viagens por mar para todos, menos os destemidos. Ishraq e Isolde ficaram com o último quarto particular da casa, um espaço exíguo debaixo do tecto inclinado.
Ocasionalmente, ouvia-se ratos a correr pelo soalho, e talvez também ratazanas, mas as duas donzelas não se deixaram afectar por isso. Estenderam as capas de montar em cima da cama e lavaram mãos e rosto na pequena bacia de barro. Freize, Luca e o irmão Peter ficariam no quarto do sótão em frente, com mais meia dúzia de homens, como era habitual quando havia muitos viandantes e a estalagem estava cheia. O irmão Peter e Luca fizeram moeda ao ar pelo último lugar na cama grande e Luca perdeu, teria de se contentar com um colchão de palha nas tábuas. A estalajadeira pediu desculpas a Luca, cujo ar bem-parecido e boas maneiras chamavam a atenção onde quer que ele fosse, mas disse que a estalagem estava cheia nessa noite, e na noite seguinte ainda seria pior, pois corria o boato de que iria chegar à vila uma romaria impressionante». In Philippa Gregory, Filhas da Tempestade, 2013, Topseller, 20/20 Editora, 2015, ISBN 978-989-849-173-2.

Cortesia de Topseller/20/20E/JDACT

Filhas da Tempestade. Philippa Gregory. «Isolde já se tinha recomposto quando o irmão Peter finalmente a contemplou. Continuou de olhos baixos, com o cuidado de não mirar Luca»

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«(…) O velho não se dignou responder ao criado. Com o grupinho expectante, quebrou os lacres em silêncio e desdobrou um papel cheio de goma. Leu, e eles viram-no soltar um suspiro de desapontamento. Voltar a Roma, não! Pediu Freize, que não aguentava nem mais um momento de espera. Diga-me que não temos de dar meia volta e regressar à vida antiga! Freize viu o olhar divertido de Ishraq. A inquirição é um dever difícil, corrigiu-se ele a tempo, mas eu não quero deixá-la incompleta. Tenho o sentido do dever, das minhas obrigações. Tu preferes qualquer coisa a voltar ao mosteiro e a ser moço de cozinha, disse ela, e não se enganava. Tal como eu prefiro estar aqui a servir de aia num castelo isolado. Pelo menos, estamos livres, e a cada dia acordamos a saber que qualquer coisa pode acontecer. Devo lembrar-lhes de que não viajamos por lazer, disse o irmão Peter, muito severo, sem ligar nenhuma aos comentários deles. Temos ordens para rumarmos à vila piscatória de Piccolo, de passarmos o mar até Split e de avançarmos para Zagreb. Depois tomamos o caminho dos romeiros até às capelas de São Jorge e São Martinho, na igreja de Nossa Senhora nos arredores de Zagreb. Isolde soltou uma exclamação abafada.
Zagreb! Um pequeno gesto de Luca a estender a mão para ela, e depois a recolhê-la logo, pois lembrara-se de que não lhe devia tocar, denunciou-o também. Viajamos no caminho da Isolde, disse ele, a alegria na voz evidente para todos. Podemos continuar juntos. A centelha de concordância nos olhos azuis-escuros dela passou despercebida ao irmão Peter, absorto com as novas ordens. Devemos inquirir pelo caminho de tudo o que pareça fora do comum, leu ele. Devemos parar e montar inquirição se encontrarmos algo que indique obras de Satanás, surgimento de medos do desconhecido, provas da maldade dos homens, ou do fim dos tempos. Ele parou de ler e dobrou a carta oulra vez, a mirar os quatro jovens. Assim parece que, portanto, sendo Zagreb a caminho de Budapeste, e dado as senhoras insistirem terem de ir a Budapeste procurar o conde Ladislau, é o próprio Deus a ditar que viajemos na mesma estrada que estas jovens senhoras.
Isolde já se tinha recomposto quando o irmão Peter finalmente a contemplou. Continuou de olhos baixos, com o cuidado de não mirar Luca. Claro que ficaríamos gratas pela vossa companhia, disse ela com timidez. Mas trata-se de um caminho de romeiros. Não faltará quem siga o mesmo rumo. Podemos ficar com outras pessoas, não é preciso sermos fardo vosso. O rosto rejubilante de Luca indicava-lhe que ela não era fardo nenhum, mas o irmão Peter retorquiu, antes que mais alguém pudesse fa1ar. Certamente. O meu conselho é que, assim que encontrarem um grupo de senhoras com destino a Budapeste, se juntem a elas. Nós não podemos ser guias e guardiães vossos. Estamos ao serviço de uma grande missão; e as senhoras são jovens: por mais que tentem conduzir-se com modéstia, não podem evitar ser uma distracção e um desvio.  Salvaram-nos o rancho em Vittorito, observou Freize em voz baixa, e apontou com a cabeça para Ishraq. Ela sabe lutar e disparar uma flecha, e também sabe de curativos. Custa a encontrar alguém mais útil para companheiro de viagem. Custa a encontrar melhor camarada numa jornada perigosa.
Claramente distracções, repetiu o irmão Peter severamente. Como já disseram, elas deixam-nos quando encontrarem um grupo adequado, decretou Luca. O encanto por ficar na companhia de Isolde mais uma noite, e outra depois dessa, mesmo que fossem apenas mais algumas noites, era evidente para todos, especialmente para ela. Os olhos azuis-escuros de Isolde encontraram os olhos cor de avelã dele num olhar longo e silencioso. Nem sequer perguntas o que temos de fazer no recinto sagrado? Indagou o irmão Peter em tom de censura. Nas capelas? Nem sequer queres saber que há relatos de heresia que temos de descobrir? Com certeza que sim, disse Luca rapidamente. Deves dizer-me o que temos de ver. Eu estudarei. Terei de reflectir nisso. E criarei uma inquirição completa, e tu escreverás o relato a enviar ao mestre da nossa ordem, para o Papa ver. Faremos a nossa incumbência, como mandou o nosso mestre, o Papa e o próprio Deus. Melhor ainda, podemos comer um bom jantar em Piccolo, salientou Freize alegremente, a mirar o sol poente. E amanhã de manhã teremos tempo de nos ralarmos com o barco que nos levará à Croácia». In Philippa Gregory, Filhas da Tempestade, 2013, Topseller, 20/20 Editora, 2015, ISBN 978-989-849-173-2.

Cortesia de Topseller/20/20E/JDACT

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Os Cinco Templários de Jesus. Didier Convard. «Em lágrimas, Hélène desceu a escada. Sentia dificuldade para respirar, trevas de areia na sua garganta. Cada degrau representava um esforço, uma dor inaudita...»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Primeira Cruz. Dezembro de 1107
«(…) Entrando na casa, seguiu por um corredor escuro percorrido por uma corrente de ar gelada, escalou uma escada, como um gato, e dirigiu-se para a porta do escritório de Arcis Brienne, sob a qual passava uma réstia de luz; tirou o machado da cintura, segurou-o firmemente com a mão direita e, devagar, bem devagar, empurrou a porta com a mão esquerda. Ele observou o escritor sentado de costas, debruçado sobre a escrivaninha, a cabeça calva brilhando à luz da lamparina a óleo. Por um instante, ele permaneceu imóvel, abarcando a cena no seu conjunto e verificando cada detalhe... Arcis Brienne, sem dúvida, ouviu estalar uma tábua do soalho e virou-se, pensando que era a mulher que vinha ao seu encontro; abriu bem os olhos para vê-la, pois tinha de se habituar à penumbra da sala. Hélène? No entanto, aquele vulto grande não era Hélène. Na verdade, ele não viu que o visitante que avançava com dois passos na sua direcção estava segurando um machado.
Compreendeu tarde demais. Num instante suspenso a arma erguia-se acima dele e era agarrado pela garganta com um aperto implacável. Numa fracção de eternidade... A lâmina iluminada rasgou o espaço. Arcis Brienne sufocou, olhou o gume do machado, ouviu o próprio grito de animal desesperado. O berro preencheu a casa e chegou até Hélène Brienne, que estava dormindo. A mulher ergueu-se na cama, tentando voltar à realidade, ainda embaçada por um sonho interrompido. Arcis!
O grito do marido cessou bruscamente. Hélène procurou o lampião e o acendedor em cima da arca ao lado da cama, em seguida, iluminou o quarto e dirigiu-se para a porta. Outro grito, mais fraco. Parecido com um estertor, com um gemido de moribundo. Hélène sentiu medo. Deu alguns passos no corredor, segurando o lampião à sua frente, que mal iluminava. Os pés descalços no lajeado fizeram-na tremer. Precisava chegar ao andar de cima, ao escritório de Arcis. Subir os degraus de madeira com farpas aguçadas. Arcis... Frio. Uma violenta corrente de ar. Uma janela foi aberta! Subir... Galgar a escada com uma bola de angústia alojada no peito, um nó no estômago, as pernas pesadas. O patamar. A porta do escritório de Arcis estava escancarada. Hélène aproximou-se, evitando acelerar o passo. Uma luz bruxuleante desenhava um retângulo pálido no piso do corredor. Ela entrou no escritório, esticando o pescoço para a frente, atenta, inquieta. Arcis, meu querido! O marido tinha sido lançado para fora da cadeira e jazia no chão num mar de sangue, entre manuscritos e rolos dispersos, pisoteados, rasgados. Ela avançou, sem se preocupar com os documentos espalhados, pisando-os, totalmente focada no corpo estendido de Arcis. No sangue que se espalhava como uma corola em volta dele. Ele estava com os olhos abertos, mas não a via. Nunca mais a veria. Estava morto, com uma expressão de terror que lhe deformava o rosto. Com o próprio sangue, haviam sido traçados na sua testa um número e uma cruz: 1 +
Em seguida, Hélène descobriu que o punho direito de Arcis havia sido cortado. A mão que usava o largo anel com a pedra vermelha havia desaparecido. Invadida pela repugnância, a mulher não pôde conter a bile amarga e vomitou, sacudida por espasmos. Sufocada e aterrorizada, pensou que o assassino ainda podia estar na casa e temeu pela própria vida. Em pânico, esquadrinhou a sombra da sala e não detectou nenhuma presença. Um pouco mais calma, saiu do escritório com o lampião que abria um caminho circular reduzido à sua frente. Toda a casa se tornara uma ameaça. Precisava descer para o primeiro andar, seguir pelo corredor e pela segunda escada que levava para fora. Será que o assassino a estaria esperando em algum canto daquela casa enorme? Quem era o assassino? Por que havia atacado o marido e lhe arrancado a mão direita?
Em lágrimas, Hélène desceu a escada. Sentia dificuldade para respirar, trevas de areia na sua garganta. Cada degrau representava um esforço, uma dor inaudita... A noite furava as paredes de cal e se movimentava em fiapos macabros que acompanhavam a descida da mulher. Chegando ao primeiro andar, apesar da angústia que lhe esmagava o coração, ela aventurou-se pelo corredor. Avançou com cautela, o mais silenciosamente possível. Dizia a si mesma que, quando chegasse ao canto do corredor, começaria a gritar para pedir socorro aos vizinhos. Faltava apenas descer um lanço de degraus para sair para a rua. Porém, de repente, uma porta abriu-se violentamente e lhe bateu no ombro, projectando-a para trás e fazendo com que perdesse o equilíbrio... Com a ampla capa abocanhando alguns rápidos clarões da lamparina, um vulto negro saltou na frente de Hélène: uma forma espectral brandindo um machado ensanguentado na mão direita e o coto de Arcis na esquerda. Um brilho fugidio se iluminou no largo anel do membro amputado. Hélène evitou o golpe do machado. A lâmina feriu a parede bem em cima da sua cabeça, fazendo uma larga fissura no gesso. O assassino preparou-se para atacar uma segunda vez, mas a mulher, bem mais jovem que o marido, esgueirou-se rapidamente pelo corredor, lançou-se na escada e desceu os degraus pedindo ajuda. O assassino foi atrás dela, atingindo tudo em volta, destruindo o corrimão, quebrando os tijolos da parede, arquejando como um carniceiro». In Didier Convard, O Triângulo Secreto, Os Cinco Templários de Jesus, 2006, Editora Bertrand Brasil, 2013, ISBN 978-852-861-663-7.

Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

domingo, 17 de junho de 2018

Os Cinco Templários de Jesus. Didier Convard. «… os fundamentos da Santa Igreja. Dissimulada sob esse vocábulo estava a Chave do Conhecimento. A Equação da imortalidade»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Primeira Cruz. Dezembro de 1107
«A neve havia chegado com a noite, pesada, espessa, cobrindo rapidamente as ruas e os telhados. Das chaminés, elevavam-se finas volutas de fumaça agitadas pelo vento. No segundo andar de uma casa alta, uma luz filtrava através dos entalhes de uma veneziana de madeira. Num pequeno quarto da água-furtada, um homem de uns quarenta anos escrevia num pergaminho lenta e calmamente, esforçando-se para formar bem as letras. Um braseiro aquecia o quarto cheio de rolos e manuscritos; uma lamparina a óleo em cima de uma arca espalhava uma luz alaranjada que dançava com leve corrente de ar. O escritor usava roupão grosso e mitenes. A parte frontal da cabeça era calva; os cabelos que restavam, longos, louros e brancos, caíam pelo pescoço. Os pés estavam apoiados num banquinho cuidadosamente trabalhado. Adornando o anular da mão direita, havia um anel gravado com uma pedra vermelha, que fragmentos de luz faziam brilhar de quando em quando de maneira fugidia.
Concentrado, sereno, ele não parava de escrever no papel velino grosso. Redigia as suas memórias. A história extraordinária de cinco cavaleiros que haviam partido três anos antes, em busca do mais improvável dos mistérios... Cinco irmãos unidos por um indescritível Segredo. Ele chamava-se Arcis Brienne, companheiro de Hugues Champagne, de Hugues Payns, de Geoffroy Saint-Omer e de Basile Harnais. E ele lembrou-se da terra ocre e escaldante de Jerusalém, do céu estrelado, dos odores apimentados... Do povoado dos leprosos, do Túmulo. O Túmulo! A mão tremeu um pouco com essa lembrança. Um pouco. Pois havia aprendido a controlar as emoções, obrigando a mente e o coração a não se deixarem invadir por pensamentos que, na época, o teriam abalado. Agora, ele sabia. Descobrira a verdade, a mentira da Igreja. A impostura... Por isso, escrevia, debruçado sobre a mesa, com os olhos cansados que se franziam a cada palavra nova e o rosto, que se tornara gordo, petrificado como uma máscara de cera.
Ele já fora magro e anguloso. O tempo havia coberto os seus ossos de gordura, o que lhe dava o aspecto de um senador romano. Por trás das venezianas, a neve abafava qualquer ruído, por menor que fosse. Até o vento estava mudo. Esse pesado silêncio convinha a Arcis Brienne, que se abandonava às recordações. Elas impunham-se por si mesmas, precisas como nos primeiros dias. Os seus pensamentos não podiam se dirigir a Deus, mesmo que quisesse rezar naquele momento. A sua alma estava vazia, casca seca que perdera a sua seiva na expedição à Terra Santa. Uma alma morta... Os restos de uma fé antiga e fervorosa. Por isso, ele escrevia, por medo de que, um dia, a memória fraca esquecesse os despojos de um homem jovem, com furos nos punhos e nos pés e o flanco ferido... Escrevia para si mesmo. Isso o tranquilizava um pouco. Ele escrevia... Esforçado e metódico, lembrando as quatro letras que os romanos haviam traçado numa cartela em cima da cruz daquele que se fez passar por Cristo: INRI (Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum... Jesus de Nazaré, rei dos judeus.
Mas Arcis Brienne, assim como os seus quatro companheiros, agora sabia que esse acrónimo escondia uma mensagem oculta cuja revelação poria abaixo os fundamentos da Santa Igreja. Dissimulada sob esse vocábulo estava a Chave do Conhecimento. A Equação da imortalidade.
O vulto avançava na cumeeira do telhado da casa de Arcis Brienne, uma forma tornada indefinida pela neve e pelo vento e transformada por uma larga capa em imensa ave de rapina. Era, de facto, com o que se parecia essa presença ágil, desafiando o equilíbrio e enfrentando as telhas cobertas de gelo. Um capuz dissimulava o seu rosto. Um machado estava preso à sua cintura. Era um fantasma na sombra, voando de uma parte à outra do telhado, segurando-se numa chaminé, deslizando ao longo de uma das calhas da fachada que dava para o pátio interno da casa, pulando na sacada de uma grande janela fechada por uma veneziana (complemento da janela) de madeira. Nesse momento, parou por um instante, recuperou rapidamente o fôlego e tirou um punhal da bainha pendurada do lado esquerdo da cintura. E, então, começou a arrombar a fechadura da veneziana. Em menos de um minuto, conseguiu forçar a lingueta, que cedeu sem ruído». In Didier Convard, O Triângulo Secreto, Os Cinco Templários de Jesus, 2006, Editora Bertrand Brasil, 2013, ISBN 978-852-861-663-7.

Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

O Triângulo Secreto. Didier Convard. «Na época, eu considerava as façanhas de Jesus uma grande e magnífica epopeia. Seis horas de catecismo por semana!»

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As Lágrimas do Papa
«(…) A refeição havia sido animada, calorosa e ruidosa. O vinho deixara alguns espíritos exaltados. As vozes elevavam-se. Por vezes, irrompiam algumas risadas. Sobretudo as de um irmão gordinho, de faces rosadas, um tabelião que não cessava de fazer brindes. Descobrindo vários pontos em comum, Francis Marlane e Didier Mosèle entrincheiraram-se numa conversa particular, apesar do burburinho da sala. Vinte minutos depois, Marlane exclamou: os rolos do mar Morto? Está trabalhando neles? Achei que era especialista em manuscritos medievais e outros palimpsestos! Nem todos são rolos de cobre. Em Khirbet Qumran também foram encontrados pergaminhos... Alguns com três quartos roídos pelos ratos, que neles afiaram os dentes! Metros e metros de manuscritos que prefiguram os Evangelhos, respondeu Mosèle. E o seu trabalho, nesse caso? A Fundação na qual trabalho, sob a tutela da Escola Bíblica de Jerusalém, me encarregou da restauração de dois rolos numerados, 4Q456-458, explicou Mosèle. Datados pelo geneticista Henri Squaller da universidade Rockefeller, esses pergaminhos teriam sido redigidos algumas dezenas de anos depois da morte presumida do Cristo; não podemos ter cem por cento de certeza da data exacta. Eles foram descobertos no famoso sítio do mar Morto e, inegavelmente, despertam um interesse inédito. Estão incluídos na longa sequência de decodificação desse tesouro enigmático, iniciada em 1947, quando Qumran ainda estava sob jurisdição palestina.
É como se me falasse do Graal, Didier! É muito sonhador, Francis... Eles não passam de longas litanias religiosas ou de códices severos, redigidos pelos austeros essénios no famoso mosteiro de Qumran. Abandonei por um tempo os trabalhos que fazia na restauração de um magnífico livro de salmos do século XIV, para me dedicar a essa tarefa. E não me arrependo! Hertz dava a impressão de se interessar por uma discussão entre alguns irmãos iniciada à sua direita, a respeito das últimas decisões do Convento. Na realidade, acompanhava a conversa entre Mosèle e Marlane, absorvendo cada palavra. Se estiver interessado, propôs Mosèle, eu o convido a visitar o meu departamento esta semana. Li os seus livros; talvez pudesse dar-me uma ajuda. O aval de um especialista nas Sagradas Escrituras, vai alegrar os meus directores. É mesmo verdade? Leu os meus livros? Li, sim. Não concordo necessariamente com todas as suas teorias, mas senti um grande prazer em estudá-las. Algumas das suas interpretações rodaram por toda a Fundação e, aliás, você tem alguns admiradores por lá.
Quanto a mim, não compartilho das suas hipóteses... Elas exalam um odor de enxofre que, em outros tempos, o teriam mandado directo para a fogueira. Marlane enrubesceu e ergueu-se na cadeira para reagir, enumerando as palavras: não são hipóteses! São certezas... Estou dizendo: certezas! Em seguida, depois de um longo momento de reflexão, ele acrescentou: Jesus não era esse carpinteiro pobre que representam, barbudo, louro e de pele branca! Acha realmente que o Filho de Deus poderia parecer-se com um vulgar actor californiano de filmes de TV? Jesus tinha a pele morena, cabelos castanhos, e nasceu numa família relativamente rica! Ah, é claro, com isso, o símbolo vai por água abaixo, não é?
Surpreso de que um homem com a inteligência de Marlane, que acreditava num Deus revelado, pudesse fazer tais afirmações, Mosèle continuou a provocá-lo durante toda a ceia. Divertia-se quando Marlane se exaltava, tentando demonstrar a legitimidade das suas teorias a respeito da família, dos filhos, do irmão do Cristo... Marlane havia sido um cristão fervoroso antes de entrar para a franco-maçonaria. Quanto a mim, disse Mosèle, também posso vangloriar-me de possuir um bom conhecimento dos Evangelhos, o que devo aos óptimos padres de uma escola particular de Amiens, na qual passei a minha adolescência. João, Lucas, Mateus e Marcos me distraíram muito e permitiram que eu me evadisse através da imaginação. Na época, eu considerava as façanhas de Jesus uma grande e magnífica epopeia. Seis horas de catecismo por semana! Preciso dizer mais, Francis?» In Didier Convard, O Triângulo Secreto, As Lágrimas do Papa, Editora Bertrand Brasil, 2012, ISBN 978-852-861-550-0.

Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

A Mensagem dos Construtores de Catedrais. Christian Jacq. «O demiurgo bíblico desempenha assim a mesma função que o deus egípcio Thot que separa as línguas de país em país»

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Do Tempo das Pirâmides ao Tempo das Catedrais. Viagens ou Comunhão de Espírito?
«(…)
O Egipto e a Bíblia
A Bíblia foi um livro de referência para os imagineiros da Idade Média. A Bíblia no seu sentido mais alargado, uma vez que os livros ditos apócrifos, fundamentalmente por razões de propaganda dogmática, foram também largamente utilizados como livros canónicos. O sábio alemão Siegfried Morenz, que se debruçou sobre o problema das relações entre a Bíblia e o Egipto, considerava que a contribuição egípcia para o livro sagrado dos cristãos era bastante considerável. Quando os escultores faziam nascer na pedra os temas bíblicos, prolongavam desse modo o pensamento egípcio sob a forma que lhes era própria. Em certos casos, as passagens da Bíblia, nomeadamente no domínio dos Hinos, dos Salmos ou dos tratados relativos à Sabedoria, são adaptações, ou melhor, traduções de originais egípcios. Pensemos, por exemplo, na adaptação bíblica do grande hino do faraó Akhenaton, na glória do poder divino que anima todos os seres criados. Para interpretar a Bíblia à luz do Egipto, seriam necessários, sem dúvida, vários volumes.

O Coração dócil de Salomão
O princípio de realeza hebraico não pode ser entendido sem referência à realeza egípcia. O orientalista Frankfort demonstrou claramente que o abandono do princípio real pelos hebreus isolou-os da grande corrente tradicional. Quando reza, o grande Salomão faz um pedido particular ao Senhor: ter um coração dócil. Expressão de cariz muito egípcio. Na simbólica faraónica, o coração é, o símbolo da consciência. Nos hieróglifos, a palavra coração á representada por um vaso. É entendido como o receptáculo interior do homem, o lugar, onde acolhe as directivas divinas. O coração dócil de Salomão não é mais que a inteligência do coração, a intuição das causas de que o rei das tradições antigas se serve para fazer do seu reino uma terra celeste. Somos também levados a pensar num dos aspectos da simbólica do Graal, por vezes considerado como um cálice tão precioso que contém os segredos do universo; e igualmente evocamos o sagrado coração, de Cristo onde os fiéis encontram refúgio.

A Sombra do Senhor
É no Rei-Deus, concebido não como um indivíduo mas como uma entidade simbólica à medida do cosmos, que os indivíduos encontram equilíbrio e segurança, As Lamentações mostram que as nações vivem na sombra do senhor, que é o sopro das narinas, ou seja, o princípio vital que anima os seres. Ora o faraó Ramsés II era evocado nesses termos: tu que és o sopro das nossas narinas, falcão que protege os seus súbditos com as asas e sobre eles derrama a sombra. A sombra pode, por conseguinte, ter um valor positivo. Não é o peregrino, no interior da catedral, protegido pela sombra das abóbadas para que o sol nele renasça?

A Torre de Babel
Jeová, inquieto pelos conhecimentos ostentados pela comunidade dos construtores, estabelece a confusão das línguas para impedir que os Irmãos se compreendam e levem a bom termo a construção da torre de Babel. O demiurgo bíblico desempenha assim a mesma função que o deus egípcio Thot que separa as línguas de país em país». In Christian Jacq, Le Message des Constructeurs de Cathédrales, Éditions du Rocher, 1980, A Mensagens dos Construtores de Catedrais, Instituto Piaget, Romance e Memória, Lisboa, 1999, ISBN 972-771-129-4.

Cortesia  de IPiaget/JDACT

sábado, 16 de junho de 2018

Um Pedacinho de Céu. Júlia Quinn. «Sim, sim podia. Porque estava é claro sozinha, a chuva levou trinta segundos para ir de um ligeiro gotejar a um aguaceiro»

Cortesia de wikipedia e jdact

Março de 1824. Cambridge, Inglaterra
«Honoria Smythe-Smith estava desesperada. Desesperada por um dia ensolarado, desesperada por um marido, desesperada pensou, com um suspiro exausto, enquanto olhava as suas sapatilhas arruinadas, por um novo par de sapatos. Sentou pesadamente no banco de pedra fora da Loja de Tabaco para cavalheiros exigentes do Senhor Hilleford e recostou-se contra a parede atrás dela, desesperadamente. Aí estava essa horrível palavra de novo, tentando apertar o seu corpo inteiro sob a marquise. Estava chovendo a cântaros. Não estava chuviscando, não somente chovia, mas sim chovia gatos, cães, ovelhas e cavalos. Nesse ritmo, não ficaria surpresa se um elefante caísse do céu. E fedia. Honoria pensara que os porcos produziam o aroma que menos gostava, mas não, o mofo era pior, e a Loja de Tabaco para Cavalheiros do Senhor Hilleford, a quem não importava se os seus dentes se tornassem amarelos, tinha uma substância branca suspeita arrastando-se pela sua parede exterior que cheirava como a morte.
Realmente, ela podia estar em pior situação? Bem, sim. Sim, sim podia. Porque estava é claro sozinha, a chuva levou trinta segundos para ir de um ligeiro gotejar a um aguaceiro. O resto da sua companhia de compras havia cruzado a rua, felizmente observando o quente e acolhedor Império Extravagante de Fitas e Bagatelas da Senhorita Pilaster, que além de ter todo o tipo de diversão e mercadoria com folhetos, cheirava muitíssimo melhor que o estabelecimento do Senhor Hilleford. A Senhorita Pilaster vendia perfumes. A Senhorita Pilaster vendia pétalas de rosa secas e pequenas velas que cheiravam a baunilha. O Senhor Hilleford colhia mofo. Honoria suspirou. Assim era a sua vida. Permanecera muito tempo na janela de uma livraria, assegurando para as suas amigas que as encontraria na loja da Senhorita Pilaster num ou dois minutos. Dois minutos que se converteram em cinco e, depois, justamente quando estava preparando-se para atravessar a rua, o céu abriu-se e Honoria não teve mais opção, que buscar refúgio sob a única marquise aberta no lado sul da Cambridge High Street.
Observou aflita a chuva, vendo-a golpear a rua. As gotas estavam golpeando os paralelepípedos com uma força tremenda, salpicando e orvalhando de volta ao ar como pequenas explosões. O céu estava mais escuro a cada segundo, e se Honoria fosse qualquer juiz do clima inglês, o vento iria virar a qualquer momento, dando completa inutilidade ao seu patético lugar sob a marquise do Senhor Hilleford. A sua boca deslizou num franzido abatido, e entrecerrou os olhos para o céu. Os seus pés estavam húmidos. Sentia frio.
E nunca antes, na sua vida inteira, deixara os limites da Inglaterra, o que significava que era mais que boa julgando o clima inglês, e em aproximadamente três minutos ia ser inclusive mais infeliz do que estava agora. O que realmente não acreditara ser possível. Honoria? Piscou, levando o olhar do céu para a carruagem que estacionou na frente dela. Honoria? Ela conhecia essa voz. Marcus? Oh, santo céu, a sua miséria só parecia aumentar. Marcus Holroyd, o conde de Chatteris, feliz e seco na sua luxuosa carruagem. Honoria sentiu a sua mandíbula afrouxar, embora realmente, não soubesse por que deveria estar surpresa. Marcus vivia em Cambridgeshire, não muito longe da cidade. Além disso, se alguém iria vê-la enquanto parecia como uma desalinhada e molhada criatura da variedade roedora, seria ele. Deus Santo, Honoria, disse, franzindo o cenho para ela naquela maneira desdenhosa dele, deve estar congelando. Aprumou-se para escolher os ombros. Sim está um pouco fresco. O que está fazendo aqui? Arruinando sapatos. O quê? Compras, disse ela, apontando para outro lado da rua, com amigas. E primas. Não que as suas primas não fossem também amigas. Mas tinha tantas primas que quase pareciam uma categoria em si mesma. A porta abriu-se mais. Entre, disse ele». In Julia Quinn, Um Pedacinho de Céu, Edições ASA, 2017, ISBN 978-989—233-846-0.

Cortesia EASA/JDACT

O Mistério das Catedrais. Interpretação Esotérica dos símbolos herméticos. Fulcanelli. «Ora, deve notar-se que este termo é vizinho de Absoluto, que é o nome pelo qual os alquimistas antigos designavam a pedra filosofal»

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«(…) O labirinto das catedrais, ou labirinto de Salomão, é, diz-nos Marcellin Berthelot, uma figura cabalística que se encontra no começo de certos manuscritos alquímicos e que faz parte das tradições mágicas atribuídas ao nome de Salomão. É uma série de círculos concêntricos interrompidos em certos pontos, de maneira a formarem um trajeto bizarro e inextricável. A imagem do labirinto oferece-se-nos, então, como emblemática do trabalho completo da Obra, com as suas duas dificuldades maiores: a da via que convém seguir para atingir o centro, onde se trava o rude combate das duas naturezas, e a outra, a do caminho que o artista deve seguir para sair. É aqui que o fio de Ariana se lhe torna necessário, se não quer errar entre os meandros da obra sem chegar a descobrir a saída. A nossa intenção não é de escrever, como fez Batsdorff, um tratado especial para ensinar o que é o fio de Ariana que permitiu a Teseu cumprir o seu desígnio. Mas, apoiando-nos na cabala, esperamos fornecer aos investigadores sagazes algumas precisões acerca do valor simbólico do famoso mito.
Ariana é uma forma de airagne (em francês, araignée: aranha) por metátese do i. Em espanhol, ñ pronuncia-se nh (araignée, airagne, aranha) pode então ler-se arahnê, arahni, aranhe. Não é a nossa alma a aranha que tece o nosso próprio corpo? Mas esta palavra apela ainda para outras formações. O íman, a virtude encerrada no corpo que os Sábios chamam a sua magnésia. Prossigamos. Em provençal, o ferro é chamado aran e iran, segundo os diferentes dialectos. É o Hiram maçónico, o divino Carneiro, o arquitecto do Templo de Salomão. A aranha, entre os félibres, diz-se aranho e iranho,
airanho; em picardo, arègni.
Ariana, a aranha mística, desaparecida de Amiens, apenas deixou no pavimento do coro o traçado da sua teia... Lembremos, de passagem, que o mais célebre dos labirintos antigos, o de Cnossos, em Creta, que foi descoberto em 1902 por Evans, de Oxford, era chamado Absolum. Ora, deve notar-se que este termo é vizinho de Absoluto, que é o nome pelo qual os alquimistas antigos designavam a pedra filosofal.
Todas as igrejas têm a sua ábside virada para sueste e a sua fachada para noroeste, enquanto os transeptos, formando os braços da cruz, estão orientados do nordeste para o sudoeste. Trata-se de uma orientação invariável, de tal maneira que fiéis e profanos, entrando no templo pelo Ocidente, caminhem em direcção ao santuário, a face voltada para o lado onde o sol se ergue, na direcção do Oriente, a Palestina, berço do Cristianismo. Saem das trevas e dirigem-se para a luz. Por causa desta disposição, uma das três rosáceas que ornamentam os transeptos e o grande portal nunca é iluminada pelo sol; é a rosácea setentrional, que se abre na fachada do transepto esquerdo. A segunda incendeia-se com o sol do meio-dia; é a rosácea meridional, aberta na extremidade do transepto direito. A última ilumina-se com os raios coloridos do sol-pôr; é a grande rosácea, a do portal, que ultrapassa em superfície e em brilho as suas irmãs laterais. Assim se desenvolvem no frontão das catedrais góticas as cores da Obra, segundo um processo circular que vai das trevas, figuradas pela ausência de luz e pela cor negra, à perfeição da luz rubra, passando pela cor branca, considerada como intermédia entre o negro e o vermelho.
Na Idade Média, a rosácea central dos portais chamava-se Rota, a roda. Ora a roda é o hieróglifo alquímico do tempo necessário à cocção da matéria filosofal e, por consequência, da própria cocção. O fogo constante e igual que o artista mantém dia e noite durante essa operação é chamado, por essa razão, fogo de roda. No entanto, além do calor necessário à liquefação da pedra dos filósofos, é necessário ainda um segundo agente, dito fogo secreto ou filosófico. É este último fogo, excitado pelo calor vulgar, que faz girar a roda e provoca os diversos fenómenos que o artista observa no seu vaso:

De ir por este caminho, e não por outro, eu te autorizo;
Nota apenas os traços da minha roda,
E para dar por toda a parte calor igual.
Demasiado perto de terra e céu não subas nem baixes.
Porque, subindo demasiado, o céu queimarás.
E, descendo muito baixo, a terra destruirás.
Mas se pelo meio o teu caminho ficar,

A viagem é mais unida e a via mais segura».
In Fulcanelli, 1926, Le Mystère des Cathédrales, 1964, O Mistério das Catedrais, Interpretação Esotérica dos símbolos herméticos, Edições 70, colecção Esfinge, 1975.

Cortesia E70/JDACT

O Mistério das Catedrais. Interpretação Esotérica dos símbolos herméticos. Fulcanelli. «Quanto ao labirinto de Chartres, vulgarmente chamado La lieue (por le lieue, o lugar) e desenhado sobre o pavimento da nave, compõe-se de uma série de círculos concêntricos que se enroscam uns nos outros»

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«(…) A cruz é um símbolo muito antigo, usado em todas as épocas, em todas as religiões, por todos os povos, e seria errado considerá-lo como símbolo especial do Cristianismo, como o demonstra sobejamente o abade Ansault. Diremos mesmo que o plano dos grandes edifícios religiosos da Idade Média, pela junção de uma ábside semicircular ou elíptica ligada ao coro, adopta a forma do signo hierático egípcio da cruz de argola, que se lê ank e designa a Vida universal oculta nas coisas. Pode ver-se um exemplo no museu de Saint-Germain-en-Laye, num sarcófago cristão proveniente das criptas arlesianas de Saint-Honorat. Por outro lado, o equivalente hermético do signo ank é o emblema de Vénus ou Cypris (em grego impura), o cobre vulgar que alguns, para velar ainda mais o sentido, traduziram por bronze e latão. Branqueia o latão e queima os teus livros, repetem-nos todos os bons autores. O sábio encontrará a nossa pedra até no excremento, escreve o Cosmopolita, enquanto o ignorante não poderá pensar que ela esteja no ouro.
E é assim que o plano do edifício cristão nos revela as qualidades da matéria-prima e a sua preparação através do sinal da Cruz; o que resulta, para os alquimistas, na obtenção da Primeira pedra, pedra angular da Grande Obra filosofal. Foi sobre esta pedra que Jesus construiu a sua Igreja; e os franco-maçons medievais seguiram simbolicamente o exemplo divino. Mas antes de ser talhada para servir de base à obra de arte gótica, tal como à obra de arte filosófica, atribuía-se muitas vezes à pedra bruta, impura, material e grosseira a imagem do diabo. Notre-Dame de Paris possuía um hieróglifo semelhante, que se encontrava sob o púlpito, no ângulo do termo do coro. Era uma figura de diabo abrindo uma boca enorme e na qual os fiéis vinham apagar os círios; de tal modo que o bloco esculpido aparecia sujo de estearina e de negro de fumo. O povo chamava a essa imagem Maistre Pierre du Coignet, o que não deixava de embaraçar os arqueólogos. Ora esta figura, destinada a representar a matéria inicial da Obra, humanizada sob o aspecto de Lúcifer (que traz a luz, a estrela da manhã) era o símbolo da nossa pedra angular, a pedra do canto, a pedra mestra do Coignet. A pedra que os construtores rejeitaram, escreve Amyraut, foi transformada na pedra mestra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da construção; mas que é pedra de embaraço e pedra de escândalo, contra a qual eles se batem para sua ruína. Quanto ao talhe dessa pedra angular, queremos dizer, a sua preparação, podemos vê-lo representado num bonito baixo-relevo da época, esculpido no exterior do edifício, numa capela absidal do lado da rua do Cloître-Notre-Dame.
Enquanto se reservava ao talhador de imagens a decoração das partes salientes, atribuía-se ao ceramista a ornamentação do solo das catedrais. Este era normalmente lajeado ou ladrilhado com placas de terra cozida, pintadas e cobertas com esmalte plumbaginoso. Esta arte tinha adquirido na Idade Média perfeição bastante para assegurar aos temas historiados suficiente variedade de desenho e de colorido. Utilizavam-se, igualmente, pequenos cubos de mármore multicores, à maneira dos artistas bizantinos do mosaico. Entre os motivos mais frequentemente usados convém citar os labirintos, traçados no chão, no ponto de intersecção da nave com os transeptos. As igrejas de Sens, Reims, Auxerre, Saint-Quentin, Poitiers, Bayeux conservaram os seus labirintos. No de Amiens via-se ao centro uma grande laje com uma barra de ouro e um semicírculo do mesmo metal incrustados, representando o nascer do sol acima do horizonte. Mais tarde, substituiu-se o sol de ouro por um sol de cobre e este desapareceu por seu turno, sem nunca ter sido substituído. Quanto ao labirinto de Chartres, vulgarmente chamado
Ia lieue (por le lieue, o lugar) e desenhado sobre o pavimento da nave, compõe-se de uma série de círculos concêntricos que se enroscam uns nos outros com uma variedade infinita. No centro dessa figura via-se outrora o combate de Teseu e do Minotauro. É ainda uma prova da infiltração dos temas pagãos na iconografia cristã e, consequentemente, a de um sentido mítico-hermético evidente. No entanto, não há razão para estabelecer qualquer relação entre estas imagens e as famosas construções da Antiguidade, os labirintos da Grécia e do Egipto». In Fulcanelli, 1926, Le Mystère des Cathédrales, 1964, O Mistério das Catedrais, Interpretação Esotérica dos símbolos herméticos, Edições 70, colecção Esfinge, 1975.

Cortesia E70/JDACT

O Mistério das Catedrais. Interpretação Esotérica dos símbolos herméticos. Fulcanelli. «Com raras excepções, o plano das igrejas góticas, catedrais, abadias ou colegiadas, apresenta a forma de uma cruz latina estendida no solo. Ora a cruz é o hieróglifo alquímico do crisol»

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«(…) Nada inventamos, nada criamos. Tudo existe. O nosso microcosmos é apenas uma partícula ínfima, animada pensante, mais ou menos imperfeita, do macrocosmos. O que nós julgamos descobrir apenas pelo esforço da nossa inteligência existe já em qualquer parte. Que nos faz pressentir o que existe; é a revelação que nos dá a prova absoluta. Muitas vezes passamos ao lado do fenómeno, até mesmo do milagre, sem dar por ele, cegos e surdos. Quantas maravilhas, quantas coisas insuspeitadas descobriríamos se soubéssemos dissecar as palavras, quebrar-lhes a casca e libertar o espírito, divina luz que eles encerram! Jesus exprimia-se somente por parábolas; poderemos nós negar a verdade que elas ensinam? E, na conversação corrente; não serão os equívocos, os pouco mais ou menos, os trocadilhos ou assonâncias que caracterizam as pessoas de espírito, felizes por escaparem à tirania da letra e mostrando-se, à sua maneira, cabalistas sem o saberem?
Acrescentemos, por fim, que o argot é uma das formas derivadas da Língua dos Pássaros, mãe e decana de todas as outras, a língua dos filósofos e dos diplomatas. É o conhecimento dela que Jesus revela aos seus apóstolos, enviando-lhes o seu espírito, o Espírito Santo. É ela que ensina o mistério das coisas e desvenda as verdades mais recônditas. Os antigos Incas chamavam-na Língua da corte porque era familiar aos diplomatas, a quem fornecia a chave de uma dupla ciência: a ciência sagrada e a ciência profana. Na Idade Média, qualificavam-na de Gaia ciência ou Gaio saber, Língua dos deuses, Deusa-Garrafa. A tradição assegura-nos que os homens falavam-na antes da edificação da torre de Babel, causa da perversão e, para a maioria, do esquecimento total desse idioma sagrado. Hoje, fora do argot, encontramos as suas características nalgumas línguas locais como o picardo, o provençal etc. e no dialecto dos ciganos. A mitologia pretende que o célebre adivinho Tirésias tenha possuído perfeito conhecimento da Língua dos Pássaros, que Minerva lhe teria ensinado, como deusa da Sabedoria. Ele partilhava-a, diz-se, com Tales de Mileto, Melampus e Apolónio de Tiana, personagens fictícios cujos nomes falam eloquentemente na ciência que nos ocupa e bastante claramente para que tenhamos necessidade de os analisar nestas páginas.
Com raras excepções, o plano das igrejas góticas, catedrais, abadias ou colegiadas, apresenta a forma de uma cruz latina estendida no solo. Ora a cruz é o hieróglifo alquímico do crisol que outrora se chamava cruzol, crucible e croiset (na baixa latinidade, cricibulum, crisol, tem por raiz crux, crucis, cruz, segundo Ducange).
Com efeito, é no crisol que a matéria-prima, como o próprio Cristo, sofre a Paixão; é no crisol que ela morre, para ressuscitar em seguida, purificada, espiritualizada, já transformada. Não exprime aliás, o povo, guardião fiel das tradições orais, a provação humana terrestre por parábolas religiosas e semelhanças herméticas, levar a sua cruz, subir o seu calvário, passar no crisol da existência, são outras tantas locuções correntes em que reencontramos o mesmo sentido sob um mesmo simbolismo. Não esqueçamos que, à volta da cruz luminosa, vista em sonho por Constantino, apareceram essas palavras proféticas que ele fez pintar no sem labarum: in hoc signo vinces, vencerás por este sinal. Lembrai-vos também, alquimistas meus irmãos, que a cruz tem a marca dos três pregos que serviram para imolar o Cristo-matéria, imagem das três purificações pelo ferro e pelo fogo. Meditai igualmente nesta clara passagem de Santo Agostinho, no seu Diálogo com Trifon (Dialogus cum Tryphone): O mistério do cordeiro que Deus tinha ordenado que se imolasse na Páscoa diz ele, era a figura de Cristo, com a qual aqueles que crêem tingem as suas moradas, ou seja, eles próprios, pela fé que têm nele. Ora, este cordeiro, que a lei prescrevia que se fizesse assar inteiro, era o símbolo de cruz que o Cristo devia suportar. Porque o cordeiro, para ser assado, é colocado de modo a figurar urra ztjz: um dos ramos atravessa-o de lado a lado, da extremidade inferior até à cabeça; o outro atravessa-lhe as espáduas e prendem-se nela os membros anteriores do cordeiro, em grego, as mãos». In Fulcanelli, 1926, Le Mystère des Cathédrales, 1964, O Mistério das Catedrais, Interpretação Esotérica dos símbolos herméticos, Edições 70, colecção Esfinge, 1975.

Cortesia E70/JDACT