sexta-feira, 22 de outubro de 2021

El Baile de Las Locas. Victoria Mas. «O dr. Charcot mantém a Cidade Luz fascinada com suas exibições de hipnose em mulheres consideradas loucas, histéricas e alienadas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Um romance poderoso e emocionante, O baile das loucas desnuda a condição feminina no século XIX. Obra que inspirou o filme do Prime Video. Hospital de la Salpêtrière, Paris, 1885. O dr. Charcot mantém a Cidade Luz fascinada com suas exibições de hipnose em mulheres consideradas loucas, histéricas e alienadas…»

3 de marzo de 1885

«Es la hora, Louise. Geneviève levanta con una mano la manta que tapa el cuerpo dormido de la adolescente, ovillada en el estrecho colchón. Su espesa cabellera negra cubre toda la superficie de la almohada y parte de su rostro. Louise ronca suavemente con la boca entreabierta. No oye a las otras mujeres, que ya están de pie a su alrededor en el dormitorio. Entre las hileras de camas de hierro, las figuras femeninas se desperezan, se recogen el pelo en un moño, se abotonan los vestidos negros encima de los camisones claros y, con paso cansino, se dirigen al comedor bajo la atenta mirada de las enfermeras. Unos tímidos rayos de sol atraviesan las ventanas empañadas. Louise es la última en levantarse. Todas las mañanas va a despertarla una enfermera u outra paciente. La muchacha recibe el crepúsculo con alivio y se deja caer en unas noches tan profundas que no sueña. Dormir le permite no preocuparse por lo que pasó y no angustiarse por lo que ha de venir. Dormir es su único respiro desde los sucesos que hace tres años la llevaron allí. En pie, Louise, te están esperando. Geneviève le sacude un brazo, y la chica termina por abrir un ojo. Al principio, se sorprende al ver a la mujer a quien las locas llaman la Veterana esperando al pie de la cama. Luego, grita: Tengo lección! Arréglate, ya has dormido bastante. Sí! La chica salta con los dos pies fuera de la cama y coge el vestido de lana negra de la silla. Geneviève da un paso a un lado y la observa. Su mirada sigue los movimientos apresurados de la adolescente, los gestos inseguros de su cabeza, su respiración agitada. Ayer sufrió un ataque; sólo faltaría que tuviera otro hoy antes de la clase. Louise se abotona el cuello del vestido a toda prisa y se vuelve hacia Geneviève. La supervisora, con el pelo rubio recogido en un moño y el cuerpo permanentemente erguido bajo la bata blanca del uniforme, la intimida. Con los años, Louise ha aprendido a sobrellevar su rigidez. No se puede decir que la Veterana sea injusta o mala; simplemente, no inspira afecto. Así está bien, señora Geneviève? Suéltate el pelo. El doctor lo prefiere. Louise alza los torneados brazos hacia el moño que se ha hecho a toda prisa y lo desanuda. Mal que le pese, es una adolescente. Tiene dieciséis años, pero su entusiasmo es infantil. Su cuerpo se ha desarrollado demasiado deprisa. El pecho y las caderas, manifestados ya a los doce años, no consiguieron advertirle de las consecuencias de su repentina sensualidad. La inocencia há desaparecido un poco de sus ojos, pero no del todo. Eso es lo que hace que aún se pueda esperar lo mejor para ella. Estoy nerviosa. Haz lo que te digan, y todo irá bien. Sí.

Las dos mujeres avanzan por un pasillo del hospital. La luz de esa mañana de marzo penetra por las ventanas y se refleja en el suelo de baldosas; es una luz suave, que anuncia la primavera y el baile de Media Cuaresma, una luz que te da ganas de sonreír y confiar en que pronto saldrás de allí. Geneviève nota que Louise está nerviosa. La adolescente respira agitadamente y camina con la cabeza gacha y los brazos rígidos junto al cuerpo. A las mujeres de la unidad siempre les produce ansiedad encontrarse cara a cara con Charcot, y más aún si han sido elegidas para participar en una sesión. Es una responsabilidad que las supera, un protagonismo que las angustia, una muestra de interés tan poco habitual para ellas, a quienes la vida nunca ha puesto en primer plano, que casi las desestabiliza, una vez más. Varios pasillos y puertas de vaivén más tarde, entran en la sala contigua al anfiteatro. Un puñado de médicos e internos varones la están esperando. Con el cuaderno y la pluma en la mano, los bigotes cosquilleándoles el labio superior y el cuerpo erguido bajo el traje negro y la bata blanca, se vuelven todos como un solo hombre hacia el caso de estudio del día. Sus ojos clínicos atraviesan a la muchacha: parecen ver a través de su ropa. Esas miradas voyeristas acaban obligándola a bajar los párpados. Louise sólo reconoce un rostro: el de Babinski, el ayudante del doctor, que se acerca a Geneviève. La sala se ha llenado rápido. Empezaremos de aquí a diez minutos. Necesitan algo en particular para Louise? Babinski mira a la paciente de arriba abajo. Así está bien. Geneviève asiente y se dispone a abandonar la sala. Louise da un paso angustiado tras ella. Vendrá a buscarme, verdad, señora Geneviève? Como siempre, Louise». In Victoria Mas, El Baile de Las Locas, Narrativa, Salamandra, 2021, O Baile das Loucas, Verus, 2021, ISBN 978-655-924-024-1.

Cortesia de Narrativa/Salamandra/Verus/JDACT

JDACT, Victoria Mas, Literatura, Século XIX, 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O Tombo de Diu. 1592. Artur Teodoro Matos. «Dando cumprimento a uma determinação régia de 19 de Março de 1591, que mandava fazer hum liuro de todas as rendas, foros e propriedades que pertencerem a sua fazenda […]»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Em 1914 Jerónimo Quadros iniciava em O Oriente Portuguez a edição do Tombo da fortaleza de Dia, elaborado em 1592 pelo provedor-mor dos Contos de Goa Francisco Pais, com a colaboração do contador da mesma repartição Diogo Vieira. Interrompida a publicação em 1914, retomá-la-ia em 1932 para a terminar cinco anos depois. Mas, apesar desta divulgação, não surgiu, até ao presente, qualquer estudo respeitante à história económico-financeira de Diu que se valesse da riqueza informativa de tal fonte.

Verdade se diga também que, embora se deva relevar o esforço de Jerónimo Quadros, que à história de Diu consagrou a maior parte do seu labor historiográfico, a transcrição editada é, infelizmente, inaproveitável, não só pelas gralhas que contém mas, muito especialmente, pelas omissões e muitos lapsos de transcriçã.

Daí a obrigatoriedade de ter de recorrer-se ao original até que uma nova edição, assente numa transcrição correcta e minimamente anotada, pudesse ser divulgada, o que agora acontece. Dando cumprimento a uma determinação régia de 19 de Março de 1591, que mandava fazer hum liuro de todas as rendas, foros e propriedades que pertencerem a sua fazenda […] nas fortalezas de Chaul, Baçaim, Damão e Dio, o vice-rei Matias de Albuquerque encarregaria dessa missão Francisco Pais, a quem conferiu alçada de vedor da Fazenda.

É que havia chegado ao conhecimento da Coroa algumas situações irregulares, tanto na cobrança dos foros como na posse indevida de terras. O exagerado número de aldeas forras e outras propriedades pertencentes à Fazenda Real, o diminuto quantitativo de foros cobrados, acrescido do facto de haver terras cujos rendeiros as trazem portanto suas, que nem os foros dellas querem pagar de que se pode seguir sonegaremsse e perpetuaremsse na posse dellas de maneira que haja depois difficuldade em se requerer contra elles justiça, induziram a Coroa a ordenar que se fizesse sem dillaçam alguma um tombo.

Nele, segundo o monarca, seriam lançadas todas as aldeias, terras e propriedades que pertencerem a minha fazenda e forem foreiras a ella, com a indicação das pessoas que as trazem e foros que dellas pagão e quando e como lhe forão dadas e por quem. As confrontações também deveriam ser registadas para se não poderem desencaminhar em tempo algum, indagando-se se andão algumas sonegadas» In Artur Teodoro Matos, O Tombo de Diu, 1592, Centro de Estudos Damião de Góis, 1999, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, ISBN 972-832-592-4.

Cortesia de CNCDP/CEDGóis/JDACT

JDACT, Artur Teodoro Matos, História, Diu, Conhecimento, 

José Rodrigues dos Santos. O Último Segredo. « voz da mãe lhe soou no aparelho no habitual queixume inquieto. Filho, quando volta para casa? Já faz tanto tempo... Mãe, já lhe disse que estou fora do país, explicou Tomás…»

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«(…) Levantou a cabeça e apreciou a lua cheia lá no alto, irradiando um halo prateado sobre a majestosa Coluna de Trajano. A noite era sem dúvida o momento que mais apreciava para trabalhar ali no centro de Roma; de dia o trânsito tornava tudo caótico. O clamor das buzinas e o ronco furioso das britadeiras revelavam-se absolutamente infernais. Consultou o relógio. Já era uma da manhã, mas estava determinado a aproveitar a pausa que o sono dos motoristas romanos lhe havia concedido durante a noite para adiantar o máximo de trabalho. Só sairia dali às seis da manhã, quando os carros começassem a atrapalhar o movimento das ruas e o concerto das buzinas e das britadeiras recomeçasse. Nessa altura iria dormir no seu pequeno hotel na Via del Corso. O telefone móvel  tocou  no bolso das calças, arrancando-lhe uma expressão inquisitiva. Àquela hora? Quem diabo lhe ligaria à uma da manhã? Verificou o visor do telemóvel  e, depois de identificar o autor da chamada, apertou o botão verde.

O que houve?

A voz da mãe lhe soou no aparelho no habitual queixume inquieto. Filho, quando volta para casa? Já faz tanto tempo... Mãe, já lhe disse que estou fora do país, explicou Tomás, enchendo-se de paciência; era a terceira vez que lhe dizia a mesma coisa nas últimas vinte e quatro horas. Mas volto na próxima semana, está bem? Vou visitá-la aí em Coimbra. Onde está, rapaz? Em Roma. Teve vontade de acrescentar que era a milésima vez que o repetia, mas conteve a irritação. Fique tranquila, logo que voltar a Portugal vou vê-la. Mas o que está fazendo em Roma? Limpando pedras, quis responder. E não estaria mentindo, considerou, lançando um olhar ressentido ao pincel. Vim ao serviço da Gulbenkian, acabou por esclarecer. A fundação está envolvida na restauração das ruínas do fórum e dos mercados de Trajano, aqui em Roma, e vim acompanhar os trabalhos. Mas desde quando é arqueólogo? Era uma boa pergunta! Apesar do Alzheimer que por vezes lhe nublava o discernimento, a mãe fizera uma pergunta bem certeira. Não sou. Acontece que o fórum  tem duas grandes bibliotecas e, sabe como é, quando se fala em livros antigos…

A conversa não durou  muito e, no instante em que desligou, Tomás sentiu-se incomodado por um sentimento de culpa por quase ter se irritado durante o telefonema. A mãe não tinha responsabilidade nenhuma pelos acessos de amnésia provocados pela doença. Umas vezes melhorava e outras piorava; ultimamente andava pior e fazia mil vezes as mesmas perguntas. Os seus lapsos de memória tornavam-se enervantes, mas teria de ter mais paciência. Pegou de novo o pincel, aproximou-o da pedra e voltou a escovar. Quando viu a nuvem libertar-se daquele pedaço de ruína pensou que, como um minerador, já deveria estar com os pulmões carregados do miserável pó marrom que se

entranhara por toda a parte. Da próxima vez traria uma máscara, como as dos cirurgiões. Ou talvez o melhor fosse escapar daquele trabalho e se dedicar aos relevos que decoravam a Coluna de Trajano. Levantou os olhos para o monumento. Sempre tivera curiosidade de observar as cenas da campanha na Dácia, gravadas na coluna e que apenas conhecia dos livros. Já que estava ali, porque não as estudar ao vivo e de perto? Escutou um burburinho atrás de si e virou a cabeça. Viu o responsável pelas obras de restauração, o professor Pontiverdi, falando alto com um homem engravatado e, com gestos espalhafactosos e uma voz estridente, mandá-lo ficar quieto. Depois aproximou-se de Tomás e esboçou um sorriso obsequioso. Professore Norona… Noronha, corrigiu Tomás, divertindo-se por ninguém conseguir acertar a pronúncia correcta do seu nome. Diz-se nhe, como em bagno. Ah, certo! Noronha! Isso!» In José Rodrigues dos Santos, O Último Segredo, 2011, Edições Gradiva, 2011, ISBN 978-989-616-446-1.

 Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Vaticano, Literatura,

domingo, 17 de outubro de 2021

O Último Segredo. José Rodrigues dos Santos. «Onde diabo se metera o empregado? Quem estaria fazendo os ruídos que ela escutara? Se era o empregado, porque não respondia? Signore!»

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«(…) O silêncio era absoluto. Patricia ainda considerou a possibilidade de permanecer sentada e prosseguir com a consulta do manuscrito, rodeada pelo ambiente denso daquele lugar opressor, mas a verdade é que os sons inesperados e o silêncio pesado que os envolvia a enervaram. Onde diabo se metera o empregado? Quem estaria fazendo os ruídos que ela escutara? Se era o empregado, porque não respondia? Signore! Mais uma vez, ninguém respondeu. Tomada por uma inquietude que não conseguia explicar, a historiadora ergueu-se com um movimento repentino, como se esperasse que a brusquidão afugentasse o próprio medo. Tinha de tirar aquilo a limpo. Além do mais, acrescentou para si mesma, era a última vez que aceitaria se trancar sozinha numa biblioteca à noite. Sob os contornos da penumbra, tudo lhe parecia sinistro e ameaçador. Ainda se tivesse o seu Manolo ao lado!... Deu uns passos e cruzou a porta, decidida a esclarecer o mistério do desaparecimento do empregado. Entrou na Sala Inventario Manoscritti, que se encontrava mergulhada na escuridão, e notou uma mancha branca a seus pés. Baixou o olhar para ver o que era. Tratava-se de uma simples folha de papel pousada no chão. Intrigada, ajoelhou-se e, sem pegar nela, inclinando-se como se a quisesse cheirar, estudou-a com uma expressão intrigada.

O que diabo é isso?, interrogou-se. Nesse instante percebeu um vulto sair da sombra e cair sobre ela. O coração disparou com o susto e Patricia quis gritar, mas uma enorme mão tapou-lhe a boca com força e tudo o que conseguiu fazer foi emitir um gemido de horror, rouco e abafado. Tentou fugir. Contudo, o desconhecido era pesado e impediu-lhe os movimentos. Virou a cabeça para tentar identificar o agressor. Não conseguiu encará-lo, mas notou confusamente algo cintilando no ar. No derradeiro instante compreendeu que se tratava de uma lâmina. Porém, não teve tempo de raciocinar sobre o que estava acontecendo porque sentiu uma dor lancinante rasgar-lhe o pescoço e o ar lhe faltou de imediato. Tentou gritar, mas não tinha ar. Agarrou o objecto frio que lhe furava o pescoço, num esforço desesperado para impedi-lo, mas ele era manejado com demasiada força e a energia começava a se esvair do seu corpo. Um líquido quente jorrou-lhe sobre o peito em golfadas e, no estertor da aflição, tomou consciência de que era o seu próprio sangue. Foi a última coisa em que pensou, porque de imediato a visão se encheu de luzes e depois de escuridão, como se um interruptor a tivesse desligado para sempre.

 


O pincel escovou a terra que ao longo dos séculos se acumulara sobre a pedra, entranhando-se nos poros mais minúsculos. Quando a nuvem de pó acastanhado se desvaneceu, Tomás Noronha aproximou os olhos verdes da pedra, como um míope, e inspeccionou o trabalho. Porra! Ainda havia terra para retirar. Suspirou fundo e passou as costas da mão pela testa, ganhando embalo para mais umas escovadelas. Aquele decididamente não era o tipo de tarefa que mais apreciava, mas resignou-se; sabia que na vida não se faz sempre aquilo de que se gosta. Antes de recomeçar, todavia, ofereceu a si mesmo um momento de repouso». In José Rodrigues dos Santos, O Último Segredo, 2011, Edições Gradiva, 2011, ISBN 978-989-616-446-1.

 Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Vaticano, Literatura, 

sábado, 16 de outubro de 2021

O Último Segredo. José Rodrigues dos Santos. «Ah, aqui está!, exclamou. Phanerón. Era extraordinário. Já tinham lhe falado naquele vocábulo, mas uma coisa era conversar sobre o assunto à mesa da cantina da faculdade…»

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«O som abafado atraiu a atenção de Patricia. Quem está aí? Pareceu-lhe que o barulho tinha vindo da Sala Inventario Manoscritti, bem ao lado da Sala Consultazioni Manoscritti, onde ela se encontrava, mas não viu nada de anormal. Os livros permaneciam em silêncio nas prateleiras ricamente trabalhadas daquela ala da Biblioteca Apostólica Vaticana, como adormecidos pela sombra que a noite projectava sobre as lombadas poeirentas. Aquela podia ser a mais antiga biblioteca da Europa, e talvez também a mais bela, mas à noite o local respirava uma atmosfera soturna, quase intimidante, como se uma ameaça oculta pairasse por ali. Ay, madre mia!, murmurou, estremecendo para debelar o medo irracional que se apossara dela por alguns momentos. Estou vendo filmes demais!... Deve ter sido o empregado passando, pensou. Espiou o relógio; os ponteiros marcavam quase onze e meia da noite. Não eram as horas normais de expediente na biblioteca, mas Patricia Escalona tornara-se amiga pessoal do prefetto, monsenhor Luigi Viterbo, que recebera em Santiago de Compostela durante o Xacobeo de 2010. Acometido por uma crise mística, monsenhor Viterbo decidira então percorrer a pé o Caminho de Santiago e, graças a um amigo comum, fora bater à porta da historiadora. Em boa hora o fez, porque ela cobriu-o de atenções quando o recebeu em casa, um belo apartamento convenientemente localizado numa ruela logo atrás da catedral. Por tudo isso, quando chegou a Roma para consultar aquele manuscrito, Patricia não hesitou em cobrar o favor. O facto é que o prefetto da Biblioteca Apostólica Vaticana se mostrara à altura do pedido e, retribuindo as honras que o haviam rodeado em Compostela, mandou abrir à noite a Sala Consultazioni Manoscritti especialmente para que sua amiga galega fizesse com absoluta tranquilidade o trabalho que pretendia. Mas fez mais do que isso. O prefetto mandou buscar o próprio original para ela consultar. Caramba, não era preciso tanto!, respondera então Patricia, quase embaraçada. Os microfilmes teriam servido perfeitamente. Mas não, monsenhor Viterbo fizera questão de mimá-la. Para uma historiadora do seu gabarito, insistira ele, apenas o original seria o suficiente! E que original.

A pesquisadora galega passou as mãos enluvadas pelos caracteres castanhos desenhados à mão com meticulosidade de copista piedoso, sobre folhas de pergaminho bastante envelhecido e manchado por nódoas do tempo que os arquivistas haviam guardado em placas de material transparente. O manuscrito era composto de uma maneira que lhe fazia lembrar o Codex Marchalianus ou o Codex Rossanensis. A diferença é que era muito mais valioso. Respirou fundo e sentiu-lhe o cheiro adocicado. Ah, que maravilha! Como adorava o perfume quente que o papel antigo exalava!... Passeou os olhos enamorados pelos caracteres pequenos e muito bem-arrumados, sem ornamentos nem maiúsculas, o grego corrido numa linha contínua, as letras arredondadas e equidistantes, as palavras sem nada as separando, como se cada linha fosse na verdade um único verbo, interminável e misterioso, um código arcano soprado por Deus na génese do tempo. A pontuação era rara, havendo aqui e ali espaços em branco, diéreses e abreviaturas dos nomina sacra e aspas invertidas para as citações do Antigo Testamento, a exemplo do que ela já vira no Codex Alexandrinus. Mas o manuscrito que tinha à frente era o mais precioso de todos que já manuseara. Só o título, aliás, impunha respeito: Bibliorum Sacrorum Graecorum Codex Vaticanus B.

O Codex Vaticanus.

Custou a acreditar, mas a verdade é que o funcionário da Biblioteca Apostólica Vaticana, agindo sob ordens do prefetto, lhe pusera na mesa o célebre Codex Vaticanus. Aquela relíquia de meados do século IV era o mais antigo manuscrito sobrevivente da Bíblia praticamente completa em grego, o que fazia dela o maior tesouro da Biblioteca Apostólica Vaticana. E, vejam só, havia-lhe sido confiada. Que coisa incrível. Alguém na universidade iria acreditar?

Virou a página com extremo cuidado, quase como se receasse danificar o pergaminho, apesar de ele estar protegido pela placa de material transparente, e mergulhou quase instantaneamente no texto. Percorreu o primeiro capítulo da Carta aos Hebreus; o que procurava estava por ali, perto do início. Passou os olhos pelas linhas, os lábios murmurando as frases em grego como se entoasse uma ladainha, até por fim chegar à palavra que buscava. Ah, aqui está!, exclamou. Phanerón. Era extraordinário. Já tinham lhe falado naquele vocábulo, mas uma coisa era conversar sobre o assunto à mesa da cantina da faculdade e outra vê-lo diante dos olhos em plena Biblioteca Apostólica Vaticana, desenhado por um copista do século IV mais ou menos na época em que Constantino adoptou o cristianismo e em que se realizou o Concílio de Niceia, onde o essencial da teologia cristológica ficou enfim definido. Sentia-se em êxtase. Ah, que sensação! Só de pensar que… Mais um barulho.

Com um salto de susto, Patricia voltou ao presente e fixou a atenção de novo na Sala Inventario Manoscritti, à direita, de onde mais uma vez lhe pareceu ter vindo o som. Tem alguém aí?, perguntou, com voz trémula. Ninguém respondeu. A sala parecia deserta, embora fosse difícil ter a certeza, considerando todas aquelas sombras e a penumbra. Será que o barulho tinha vindo da Leonina? O grande salão da biblioteca encontrava-se para lá do seu campo de visão, por isso não tinha como se certificar. Sob o manto da noite aquele lugar lhe dava calafrios. Signore!, chamou ela no seu italiano espanholado, em voz alta, buscando o empregado que o prefetto havia designado só para atendê-la. Per favore, signore!» In José Rodrigues dos Santos, O Último Segredo, 2011, Edições Gradiva, 2011, ISBN 978-989-616-446-1.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Vaticano, Literatura,

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

A Rosa. Luísa Sobral, Rancho De Cantadores De Aldeia Nova De São Bento. «Quando vires um mal me quer que só sabe o que é bem querer, sabe que tem coração de rosa, que tem coração de rosa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Rosa

«A rosa não quer ser mais rosa
Vestiu se de mal me quer
Porque uma rosa sem amor
Não tem perfume de flor
E morre ao nascer
Porque uma rosa sem amor
Não tem perfume de flor
E morre ao nascer

Quando vires um mal me quer
Que só sabe o que é bem querer
Sabe que tem coração de rosa
Que tem coração de rosa
Que não deixa de bater
Sabe que tem coração de rosa
Que tem coração de rosa
Quer amar ate morrer

Oh rosa, se queres ser rosa
Deixa te estar em botão
Aberta caem te as folhas
Aberta caem te as folhas
E assim fechadinha não
Aberta caem te as folhas
Aberta caem te as folhas
E assim fechadinha não

A rosa não quer ser mais rosa
Vestiu se de mal me quer
Porque uma rosa sem amor
Não tem perfume de flor
E morre ao nascer

Quando vires um mal me quer
Que só sabe o que é bem querer
Sabe que tem coração de rosa
Que tem coração de rosa
Que nao deixa de bater
Sabe que tem coração de rosa
Que tem coração de rosa
Quer amar ate morrer»

Poema de Luísa Sobral, Rancho De Cantadores De Aldeia Nova De São Bento.2016

Cortesia de wikipedia/JDACT

JDACT, Luísa Sobral, Rancho De Cantadores De Aldeia Nova De São Bento, Poesia,

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Domingos Amaral. Por Amor a uma Mulher. «… deitou-se primeiro em cima dele, e da segunda vez dobrou os joelhos e afundou a cara na almofada. Eu era dele, toda dele, dir-me-ia mais tarde»

 

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

1126

Viseu, Sexta-Feira Santa, Abril de 1126

«(…) Fizemos os dois juntos a viagem de volta, e estávamos quase a chegar a casa quando perguntei ao meu melhor amigo: Que vos pareceu a Maria Gomes? Afonso Henriques sorriu-me. Bonita. E calma. A irmã é mais estouvada. Nesse momento, atrevi-me a dizer: Chamoa está encantada por vós. Disse-mo a Maria. O príncipe limitou-se a encolher os ombros e entrámos sem fazer barulho, evitando acordar os meus irmãos mais novos. Afonso Henriques dirigiu-se para a escada e subiu. O seu quarto era lá em cima, enquanto nós ficávamos no piso térreo. Depois de se despir, deitou-se, e recordou o agitado dia. Reza a lenda que foi nessa noite que teve a ideia de se armar cavaleiro a si próprio, como faziam os reis, mas não estou certo disso, pois minha prima Raimunda contou-me que, mal o ouvira subir, entrara no quarto. Sois vós?, perguntara ele, em voz baixa. Das sombras, um vulto magro avançou na sua direcção, enquanto despia o saiote e a camisa. Afonso Henriques levantou a colcha e deixou que minha prima Raimunda, já nua, entrasse na cama. Ela amava-o tanto! Nessa noite, tal como no passado vira dona Teresa fazer ao Trava, deitou-se primeiro em cima dele, e da segunda vez dobrou os joelhos e afundou a cara na almofada. Eu era dele, toda dele, dir-me-ia mais tarde.

Serra Morena, Córdova, Abril de 1126

Muitos anos depois, Abu Zhakaria contou-nos que foi uma ferida profunda que comoveu o rei dos muçulmanos. Taxfin fora atingido fortemente, numa batalha nos desertos africanos, e o califa Ali Yusuf veio visitá-lo à sua tenda, onde ele gemia de dores e febres, e destinou os seus melhores curandeiros para o tratarem, mas até ele foi obrigado a reconhecer que, golpeado daquela forma, nunca mais Taxfin seria o guerreiro de outrora. Por isso, o califa disse-lhe que era melhor regressar a Córdova, pois ali já não tinha nada a fazer. Nove anos depois, Ali Yusuf, o carregado de pérolas, o que batia as alpercatas no chão para matar formigas, e que cheirava a âmbar mesmo no deserto, deixara-o finalmente partir. A viagem de regresso fora um tormento. Primeiro os desertos africanos, depois o mar Mediterrâneo, por fim as estradas hispânicas desde a costa até Córdova. Taxfin sofreu dores inimagináveis, mas cerrou os dentes e aguentou calado. Regressava à sua terra, era tudo o que queria, e mais valia isso do que estar algemado ao califa por uma ordem que, nove anos antes, parecera vitalícia.

Chegados a Córdova, rapidamente ele e Zhakaria perceberam que a cidade lhes era hostil. Taxfin fora destituído há nove anos, e o actual governador, que já era o terceiro wali depois dele, não gostou de saber que um antecessor regressara. Embora Taxfin já não tivesse direito a habitar no Azzahrat, amealhara riquezas suficientes para viver com esplendor, ou para instigar revoltas locais. O incumbente do palácio, temeroso, mandou os seus guardas vigiarem-no, e por isso, duas semanas depois, um dorido Taxfin decidiu rumar à serra Morena, para se instalar no belo castelo de Hisn Abi Cherif, cuja linda cor, o arenito vermelho, o distinguia num verdejante vale, e que pertencia há séculos à família do primeiro marido de Zulmira. Com ele, levou apenas Abu Zhakaria, que aos vinte e sete anos era um portento de agilidade, força e sabedoria, um dos melhores guerreiros que Taxfin alguma vez vira, e que o seguia com uma dedicação inultrapassável». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «De onde sois? Ela olhou-o, sem sorrir, e disse: Nasci perto de Viseu. O meu pai morreu há uns meses e tive de arranjar ofício. Antes aqui que num mosteiro»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

1126

Viseu, Sexta-Feira Santa, Abril de 1126

«(…) Gonçalo referiu que também seu pai se sentia desconsiderado. Pelo menos estais cá, murmurou o príncipe. Irritado, o Braganção enxofrou-se: Sabeis o que se diz? Paio Soares vai a mordomo-mor, o traidor! E vosso pai, amigo Lourenço, será governador de Lamego! Questionado sobre a aceitação de tais benesses, Afonso Henriques respondeu: Já sabem ao que vão. É Fernão Peres quem manda. Perante tal evidência, Gonçalo reforçou a ira da família Sousa: É o Trava que meu pai abomina! Paio Soares e Egas só servirão para rabiscar documentos! Zangado, o Braganção vociferou que o vinho nunca mais chegava! O taberneiro justificou-se, com tanta clientela fora necessário deitar mais água nas pipas! Gonçalo exigiu-lhe também dados e toucinho, pois o dia santo já findara e estava esfomeado. Mal chegaram os pedidos, e trincadas as primeiras fatias, o príncipe afirmou: O sonho de minha mãe é o mesmo de meu pai. Unir a Galiza e reinar nela. Era esse o pacto de meu pai com meu tio Raimundo. À volta da mesa, todos conheciam o antigo acordo entre primos borgonheses, que nunca fora aceite nem pelo imperador, nem pela filha, dona Urraca. O Condado Portucalense jamais se unira em definitivo à Galiza, quimera que dona Teresa desejava ressuscitar. O Raimundes vai querer ser rei de tudo!, exclamou o Braganção. E eu serei sempre o primeiro a levar com ele!

As terras de Bragança confinavam com os reinos hispânicos daquele que em breve tomaria o nome de Afonso VII. Agastado, o Braganção pegou nos dados, perguntando antes de os lançar: Vossa mãe vai a Ricobayo prestar vassalagem a vosso primo. E vós? O príncipe esperou os resultados dos dados e só depois afirmou: O meu sonho é o mesmo de meus pais. Mas não me agrada continuar a ser governado por um Trava. Os outros apoiaram-no, em coro, mas subitamente emudeceram, pois apareceu uma mulher alta e loira, que transportava uma bandeja com dois jarros de vinho e quatro vasos. Os amigos apreciaram a imponente figura que percorria a sala. Parecia uma estrangeira e, não sendo perfeita de feições, pois tinha uma cara arredondada e o nariz largo, impressionava pela voluptuosidade do corpo. Por debaixo das saias e da camisa, pressentiam-se uns seios cheios e fofos, umas ancas largas e um traseiro firme. Enquanto ela pousava o vinho, Afonso Henriques perguntou-lhe como se chamava, e a rapariga, mais velha do que o príncipe, talvez com vinte e cinco anos, disse que o seu nome era Elvira. E quanto cobrais por levar nessa bela pei…?, excitou-se o Braganção. Não sou soldadeira, respondeu a rapariga sem pestanejar. O Braganção duvidou:

Ora, ora! Deves ter vindo com os jograis que vão cantar amanhã! Para bailar e cantar, e para te pores de quatro também! Olhando em volta, perguntou se ela tinha rufião. Havia homens que colocavam as mancebas nas estalagens, ganhando com os serviços que elas prestavam aos cavaleiros, mas Elvira negou que trabalhasse em tal regime, o que levou Gonçalo a indignar-se: Casaste com o taberneiro e sois-lhe fiel? Que desperdício! Ganhais mais a chupar gai… do que a servir vinho! A rapariga agarrou no tabuleiro vazio, ignorando mais uma ignomínia. Parecia habituada àquelas piadas, e preparava-se para se afastar quando Afonso Henriques a interrogou: De onde sois? Ela olhou-o, sem sorrir, e disse: Nasci perto de Viseu. O meu pai morreu há uns meses e tive de arranjar ofício. Antes aqui que num mosteiro. O príncipe fez uma pequena vénia aprovadora e comentou: Não pareceis de cá, tão alta e com essa cor de cabelo tão bonita. Pela primeira vez, um leve sorriso trespassou a cara de Elvira. Sou descendente de normandos. Daqueles que pilhavam as vilas e entravam pelos rios adentro.

Gonçalo franziu a testa. Vikings? Há mais de cem anos que não aparecem por cá! Convicta das suas origens, Elvira retorquiu-lhe: A minha mãe, e a mãe dela, e a mãe da mãe dela eram como eu. Ficou-nos no sangue. Colocou o tabuleiro vazio debaixo do braço e avisou o príncipe: As soldadeiras já aviaram quem tinham de aviar. O Braganção, vendo que os já saciados cavaleiros-vilões se encaminhavam para a porta, logo tratou de assobiar às duas moças, chamando-as para junto deles, enquanto Elvira se afastava. Algum tempo depois, já bebidos dois jarros de vinho, Gonçalo e ele perguntaram ao príncipe se podiam tomar a dianteira, ao que Afonso Henriques respondeu que assim deviam fazer, uma vez que iria regressar aos seus aposentos, pois sentia-se ensonado». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

As Mulheres do Deserto. Alice Hoffman. «Não posso reconsiderar a minha fé, Yaya. Então considere a sua vida, foi a minha resposta. Para me provocar, Amram riu imitando uma galinha, empertigando o corpo magro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ainda assim, saí em busca do meu irmão, encontrando-o no mercado com os amigos. As mulheres desacompanhadas não eram vistas com frequência entre os homens que se dirigiam àquelas passagens estreitas; as que não tinham escolha a não ser sair desacompanhadas dirigiam-se às pressas à rua dos Padeiros ou às barracas que ofereciam cerâmica e jarros feitos do barro de Jerusalém, e depois, rapidamente, corriam de volta para casa. Eu usava um véu e a minha túnica estava apertada com força. Havia zonnoth no mercado, mulheres que se vendiam para o prazer dos homens, que não cobriam os braços ou o cabelo. Uma delas zombou de mim enquanto passava apressada, o rosto soturno abrindo-se num sorriso quando me viu correndo pelo beco. Você acha que é diferente de nós?, gritou. Você é apenas uma mulher, assim como nós. Puxei o meu irmão para longe dos amigos para que pudéssemos ficar debaixo de um flamboyant. As flores vermelhas exalavam o cheiro do fogo e pensei que isso era um presságio, que o meu irmão conheceria o fogo. Preocupava-me com o que aconteceria com ele quando a noite chegasse e os sicários se reunissem sob os cedros, local em que faziam seus planos. Pedi-lhe para renunciar aos meios violentos que adoptara, mas meu irmão, jovem como era, ardia por justiça e uma nova ordem na qual todos os homens fossem iguais. Não posso reconsiderar a minha fé, Yaya. Então considere a sua vida, foi a minha resposta. Para me provocar, Amram riu imitando uma galinha, empertigando o corpo magro e forte e debruçando-se, enquanto batia asas imaginárias. Você quer que eu fique em casa no galinheiro, onde possa me trancar por dentro e ter certeza de que estou seguro?

Ri, apesar dos meus temores. Meu irmão era corajoso e bonito. Não admirava que o meu pai o favorecesse. Tinha o cabelo dourado, os olhos escuros, mas salpicados de luz. Nesse momento, vi que a criança de quem cuidara como uma mãe tornara-se um homem, um homem puro em suas intenções. Eu não poderia fazer mais do que questionar o caminho que escolhera. No entanto, estava determinada a agir em seu benefício. Quando meu irmão voltou para junto dos amigos, continuei para dentro do mercado, chegando até ao fundo das ruas tortuosas, por fim contornando para um beco pavimentado com tijolos cinzentos empoeirados. Ouvira dizer que era possível comprar boa sorte nas proximidades, ali havia uma loja misteriosa de que sussurravam as mulheres do bairro. Em geral, elas interrompiam a conversa quando eu me aproximava, mas ficara curiosa e ouvira dizer que, se uma pessoa seguisse a imagem de um olho rabiscada dentro de um círculo, seria levada a um lugar de medicamentos e magias. Tomei o caminho do olho até chegar à casa de keshaphim, um tipo de magia praticada por mulheres, sempre perseguido em segredo. Bati na porta e apareceu uma velha que me examinou atentamente. Irritada com a minha presença, ela perguntou porque eu estava ali. Como hesitasse, ela começou a fechar a porta contra mim, resmungando. Não tenho tempo para alguém que não sabe o que quer, murmurou. Protecção para o meu irmão, consegui dizer, nervosa demais para informar mais que isso.

No Templo praticava-se a magia dos sacerdotes, homens santos ungidos pela oração, escolhidos para oferecer sacrifícios, tentar milagres e realizar exorcismos, expulsando o mal de que muitas vezes os homens poderiam estar possuídos. Nas ruas praticava-se a magia das minim, menosprezadas pelos sacerdotes, chamadas de charlatãs e impostoras por alguns, muito embora respeitadas por muitos. As casas de keshaphim, no entanto, eram consideradas os lugares em que se praticava o tipo mais desprezível de magia, um trabalho de mulheres, nocivo, vingativo, praticado por aquelas que eram acusadas de bruxas. Mas uma min que realizasse feitiços e maldições jamais falaria com uma garota como eu se não tivesse prata para entregar e um pai ou irmão para me recomendar. E se tivesse procurado um dos sacerdotes em busca de um amuleto, eles o negariam a mim, porque era filha de alguém que lhes fazia oposição. Até eu sabia que não merecia os seus favores». In Alice Hoffman, As Mulheres do Deserto, Editora Planeta, 2011, 2013, ISBN 978-854-220-122-2.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

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domingo, 10 de outubro de 2021

As Mulheres do Deserto. Alice Hoffman. «Por essa época eu tinha começado a perceber o que ele fazia quando saía para se encontrar com os companheiros durante a noite»

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«(…) Quando me tornei mulher, não tive mãe para me dizer o que fazer com o sangue que veio com a lua ou para me acompanhar na mikvah, o banho ritual que teria me purgado com uma imersão total na pureza. A primeira vez que sangrei pensei que estivesse morrendo, até que uma velha que era minha vizinha teve pena de mim e me disse a verdade sobre os ciclos mensais das mulheres. Baixei os olhos enquanto ela falava, envergonhada de ser informada de tais detalhes íntimos por uma estranha, sem acreditar muito no que ela dizia, imaginando porque o nosso Deus faria com que eu me tornasse impura. Mesmo agora, acho que poderia estar certa por tremer de medo no dia em que sangrei pela primeira vez. Talvez o facto de me tornar mulher fosse o fim para mim, por ter nascido no sangue e merecer ser tirada da vida do mesmo modo. Não me incomodei em contornar os meus olhos com kohl ou esfregar óleo de romã nos pulsos. Não perfumei o meu cabelo, em vez disso prendi as tranças na nuca e depois cobri a cabeça com um xaile de lã do tecido mais simples que pude encontrar. Meu pai só se dirigia a mim quando me chamava para trazer a sua refeição ou lavar as suas roupas. Por essa época eu tinha começado a perceber o que ele fazia quando saía para se encontrar com os companheiros durante a noite.

Geralmente ele envolvia os ombros com um manto cinza-claro, que se dizia ter sido tecido com os fios de uma teia de aranha. Eu tocara a sua bainha uma vez. Era tão sinistro quanto belo, concedendo ao seu portador a capacidade de se dissimular. Quando o meu pai saía, desaparecia, porque tinha o poder de desaparecer mesmo ele estando à sua frente. Eu ouvira meu pai ser chamado de assassino pelos nossos vizinhos. Franzira a testa e não acreditara, mas, quanto mais analisava as suas idas e vindas, mais sabia que era verdade. Ele fazia parte de um grupo secreto de homens que carregavam a adaga encurvada dos sicários, zelotes fanáticos que escondiam as facas afiadas sob seus mantos e as usavam para punir aqueles que se recusavam a lutar contra Roma, especialmente os sacerdotes que aceitassem sacrifícios da legião e seus favores ao Templo. Os assassinos eram implacáveis, até eu sabia disso. Ninguém estava a salvo da sua ira; os outros zelotes os repudiavam, contestando os seus métodos brutais. Dizia-se que os sicários lutavam contra os judeus que se curvavam demais a Roma, e que Adonai, o nosso grande Deus, nunca perdoaria o assassinato, especialmente de irmão contra irmão. Mas os judeus eram uma fraternidade dividida, em conflito na prática e nas orações. Os que pertenciam aos sicários riam-se da ideia de que Deus não desejava outra coisa senão que todos os homens fossem livres. O preço era de nenhuma consequência. Seu objectivo era um só governante, não imperadores, não reis, só o Rei da Criação. Somente ele governaria quando tivessem terminado o seu trabalho na terra.

Meu pai fora um assassino por tanto tempo que os homens que ele matara eram como folhas de uma árvore de salgueiro, muitas para contar. Porque ele possuía uma habilidade que poucos homens tinham e afirmava ter o poder da invisibilidade, era capaz de entrar numa sala como uma sombra e despachar o inimigo antes que a vítima estivesse mesmo ciente de que uma janela se abrira ou que uma porta se fechara. Para a minha tristeza, o meu irmão seguiu o caminho do nosso pai assim que teve idade suficiente para se tornar um discípulo da vingança. Amram era perigosamente susceptível a seus estilos violentos, pois na sua pureza via o mundo como bom ou mau, sem gradação entre os extremos. Sempre os espiava juntos, meu pai falando no ouvido do meu irmão, ensinando-lhe as regras do assassinato. Um dia, enquanto reunia as túnicas e a capa de Amram para lavar no poço, encontrei uma adaga, já marcada por uma linha carmesim. Teria chorado se fosse capaz, mas tinha abandonado as lágrimas. Não afogaria mais ninguém como afogara a minha mãe, de dentro para fora». In Alice Hoffman, As Mulheres do Deserto, Editora Planeta, 2011, 2013, ISBN 978-854-220-122-2.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

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Alcazaba. Jesús Sanchez Adalid. «Judit, conocida por todos como la Guapísima por su extraordinaria belleza, aún no ha cumplido los veinticinco años cuando enviuda de Aben Ahmad al-Fiqui…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«Judit, conocida por todos como la Guapísima por su extraordinaria belleza, aún no ha cumplido los veinticinco años cuando enviuda de Aben Ahmad al-Fiqui, un musulmán con el que su padre la casó por conveniencia. Tras su muerte, Judit, de origen judío, decide buscar nuevo marido, pero es rechazada tanto por musulmanes como por judíos debido a la situación extrema que se vive en Mérida, una ciudad donde imperan las revueltas y las rencillas y donde todos se toleran pero se temen. La calma tensa que preside la relación entre árabes, beréberes, muladíes, judíos y cristianos muy pronto se resquebrajará. La rivalidad y el miedo, además de la codicia de los gobernantes y los feroces tributos anuales que deben rendir a Córdoba hará que se rebelen contra el poder central de Abderramán II. Unidos por su odio hacia el emir de Córdoba se aliarán para derrocar el poder detentado en Mérida por el gobernador Marwán y liberarse de su yugo, pero Abderramán II mandará uno de los mayores ejércitos jamás vistos para someter a sangre y fuego a la ciudad… Destruiré aquella Mérida orgullosa y rebelde. Iré allá y desharé sus murallas contumaces; a cenizas y polvo las reduciré! Solo habrá allí desolación y piedras… En esta épica y colosal novela se entrecruzarán las vidas de personajes inolvidables como Muhamad, el hijo de Marwán, que reparte su amor entre Judit, la Guapísima, y Adine, la prima de Judit; el duc Claudio, máximo representante de los cristianos, o el emir Abderramán II, un monarca culto y refinado a la par que cruel y vengativo».

«Todos los parientes, amistades y buenos conocidos de Aben Ahmad al-Fiqui se reunieron en su casa cuando se enteraron de que había muerto. Las mujeres hacían manifestación de duelo con alaridos y alabanzas al difunto. Cada vez que una de ellas gritaba, enseguida era contestada por las demás y se organizaba el llanto. Se agolpaban a la puerta de la alcoba, sin atreverse a entrar, y contemplaban el cadáver derramando lágrimas y exhibiendo muecas de dolor. Mirad al desdichado! Qué poca cosa es para los mortales, pero qué grande para la misericordia de Allah! Grande es Dios! Paz y misericordia para Aben Ahmad al-Fiqui! Allah irhamo! (Dios sea misericordioso) Allah isalmek! (Dios otorgue la paz). El muerto yacía de costado, encogido, de manera que las rodillas se le juntaban con el pecho. Tenía aún los ojos abiertos y una hilera de babas se le descolgaba desde el labio inferior hacia la barba canosa y lacia. El cuerpo tan seco apenas abultaba bajo la sábana que lo cubría. Junto al lecho solo estaba la viuda, la única de las mujeres que permanecía en silencio: Judit al-Fatine, conocida por todo el mundo en Mérida como la Guapísima, por su belleza verdaderamente extraordinaria; aún no había cumplido los veinticinco años y era alta, de hermosa piel trigueña, cabellos dorados, ojos color miel y un aspecto tan sano como el pedernal. Incluso allí, junto a la penosa imagen del cadáver de su marido, admiraba verla, vestida con una sencilla juba de lino crudo y un velo color canela.

Sería por esta presencia deslumbrante de Judit y porque atraía todo tipo de miradas por lo que el anciano Ferján, tío del difunto, se acercó a ella y le dijo entre dientes: Anda, mujer, sal de la alcoba y ve a recogerte, que los hombres debemos ocuparnos del cuerpo. Ella, obediente, se puso en pie y salió exhibiendo la amenidad plena de su esbelto talle, la delicadeza de su caminar y una expresión pálida y ausente en el preciosíssimo rostro. Hombres y mujeres se apartaron en el corredor para dejarla pasar entre ellos, mientras meditaban sobre lo afortunado que debía de haber sido Aben Ahmad, aun habiendo tenido una vida colmada de desdichas. Porque el difunto marido de Judit fue siempre un hombre común, corriente y nada extraordinario; feo, canijo, que no contaba siquiera con patrimonio o dinero para merecer a una mujer así. Hasta se decía por ahí que no había reunido a lo largo de su miserable vida otra cosa que deudas. Sobre todo desde que, para colmo de infortunios, se cayó del tejado y se destrozó la espalda, quedándose permanentemente e hecho un cuatro, como ahora yacía muerto en su tálamo. No es de extrañar, pues, que los asistentes al duelo pareciesen estar con el deseo de recibir las explicaciones de la Guapísima, acerca de si era verdad o no que esse tullido alfeñique se había pasado todas las noches de su matrimonio envuelto en sudores de amor, gozando de tan extraordinaria mujer, como alardeaba cada día en el hamman sin ningún pudor, dejando a jóvenes y viejos babeando de envidia. Y también querían saber qué haría a partir de ahora la viuda, sin una herencia que le garantizase una vida digna y feliz, después de haber tenido que cuidar durante años al enfermo.

Pero, con el muerto reciente, no había de momento tiempo para otra ocupación que no fuera cumplir con la piadosa tarea de prepararlo para la sepultura. Así que un par de vecinos de buena fama entraron en la alcoba y se pusieron a las órdenes del anciano Ferján para iniciar los rituales de limpieza que exige la tradición muçulmana antes del entierro. Cerraron primeramente los orificios del cuerpo con algodón perfumado y lavaron y secaron el cadáver antes de envolverlo con el sudário derramando incienso en cada vuelta. Les costaba mucho trabajo enderezar las piernas y tuvieron que hacer uso de unas gruesas cañas y un rollo de vendas a modo de entablillado. Cuando hubieron terminado estos trabajos, descorrieron la cortina y los presentes que abarrotaban la casa pudieron ver a Aben Ahmad, amortajado ya con dignidad y colocado sobre las angarillas que lo trasladaron a la mejor estancia de la casa. De nuevo las mujeres prorrumpieron en gritos, alaridos y alabanzas, mientras se retiraban para dejar que los hombres rodearan al difunto». In Jesús Sanchez Adalid, Alcazaba, Premio de Novela Historica Alfonso X El Sabio, Premio 2012, Epublibre, Ebookelo.com, Polifemo7-24-08-13.

Cortesia de Epublibre/JDACT

JDACT, Jesús Sanchez Adalid, Literatura,

sábado, 9 de outubro de 2021

Lenda da Fonte. Poesia. Sérgio Nunes. «A lenda é antiga, mas há quem a conte que descia o monte uma rapariga p'ra beber na fonte…»

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Lenda da Fonte

«Maria do monte, nascida e criada

Na encruzilhada que fica defronte para a fonte sagrada
A lenda é antiga, mas há quem a conte
Que descia o monte uma rapariga
P'ra beber na fonte
E aquela hora por ela marcada de noite ou de dia
O Chico da Nora na encruzilhada esperava a Maria
Seguiam depois, bem juntos os dois, ao longo da estrada
Matar de desejos, a sede com beijos
Na fonte sagrada
Mas um certo dia, como era esperada
Na encruzilhada não veio a Maria à hora marcada
Seus olhos divinos p'ra sempre fechou
Aldeia rezou, tocaram os sinos
E a fonte secou
E aquela hora por ela marcada de noite ou de dia
O Chico da Nora na encruzilhada esperava a Maria
Mas oh santo Deus, escureceram- se os céus, finou-se a beldade
E diz-se no monte que a velhinha fonte
Secou de saudade»

Poema de Sérgio Nunes, D.r., fonte de Musixmatch

Cortesia de Wikipedia/JDACT

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A Casa dos Espíritos. Isabel Allende. «Nessa Quinta-Feira Santa, Severo passeava pela sala preocupado com o escândalo que a filha tinha dado na missa. Argumentava que só um fanático…»

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«(…) Estas palavras do padre Restrepo permaneceram na memória da família com o peso de um diagnóstico e, nos anos seguintes, tiveram ocasião de as recordar variadas vezes. A única que não voltou a pensar nelas foi a própria Clara, que se limitou a anotá-las no seu diário para logo as esquecer. Os pais, em contrapartida, não puderam ignorá-las, apesar de concordarem que a possessão demoníaca e a soberbia eram dois pecados demasiado grandes para uma criança tão pequena. Temiam a maldição do povo e o fanatismo do padre Restrepo. Até esse dia, não tinham posto nome às excentricidades da filha mais nova nem as haviam relacionado com influências satânicas. Tomavam-nas como uma característica da menina, como o coxear era a de Luís e a beleza a de Rosa. Os poderes mentais de Clara não causavam incómodo a ninguém e não produziam desordem de maior; manifestavam-se quase sempre em assuntos de pouca importância e na estrita intimidade do lar. Algumas vezes, à hora da refeição, quando estavam todos reunidos na grande sala de jantar da casa, sentados em absoluta ordem de dignidade e hierarquia, o saleiro começava a vibrar e deslocava-se depois pela mesa fora entre copos e pratos, sem ter havido para isso nenhuma fonte de energia conhecida nem truque de ilusionista. Nívea dava um puxão às tranças de Clara e com esse sistema conseguia que a filha abandonasse a distracção lunática e devolvesse a normalidade ao saleiro, que acabava por recuperar a imobilidade. Os irmãos tinham-se organizado para que, no caso de haver visitas, aquele que estivesse mais perto deter com a mão o que estivesse andando sobre a mesa antes que os estranhos dessem conta disso e apanhassem um susto. A família continuava a comer sem comentários. Também se tinham habituado aos presságios da irmã mais nova. Ela anunciava os tremores de terra com alguma antecipação, o que resultava muito útil naquele pais de catástrofes, porque dava tempo de pôr a salvo a baixela e deixar ao alcance da mão as pantufas para sair noite dentro. Aos seis anos Clara previu que o cavalo havia de deixar cair Luís, este negou-se a dar-lhe ouvidos e desde então tinha um quadril deslocado. Com o tempo, encurtou-se-lhe a perna esquerda e teve de usar um sapato especial com uma grande sola que ele próprio fabricava. Nessa ocasião Nívea inquietou-se, mas a Ama tranquilizou-a dizendo que há muitos meninos que voam como as moscas, que adivinham os sonhos e falam com as almas, mas que tudo isso lhes passa quando perdem a inocência.

Nenhum chega a grande nesse estado, explicou. Espere que à menina lhe chegue a demonstração e vai ver que perde a mania de andar a mover os móveis e a anunciar desgraças. A Ama preferia Clara. Tinha-a ajudado a nascer e era a única pessoa que compreendia a natureza extravagante da menina. Quando Clara saiu do ventre da mãe, a Ama embalou-a, lavou-a e desde esse momento amou desesperadamente a frágil criança com os pulmões cheios de expectoração, sempre à beira de perder o alento e pôr-se roxa, que tinha feito reviver com o calor dos seus grandes peitos quando lhe faltava o ar, porque sabia que era esse o único remédio para a asma, muito mais eficaz que os folhados aguardentados do doutor Cuevas.

Nessa Quinta-Feira Santa, Severo passeava pela sala preocupado com o escândalo que a filha tinha dado na missa. Argumentava que só um fanático como o padre Restrepo podia acreditar em possessos em pleno século vinte, o século das luzes, da ciência e da técnica, no qual o demónio tinha ficado definitivamente desprestigiado. Nívea interrompeu-o para dizer que não era essa a questão. O que era grave é que, se as proezas da filha transcendiam as paredes da casa e o padre começava a investigar, toda a gente iria saber. Vai começar a chegar gente para a ver como se ela fosse um fenómeno, disse Nívea. E o Partido Liberal vai para o car…, rematou Severo, que via o prejuízo que podia ser para a sua carreira política ter uma possessa na família. Estavam nisto quando chegou a Ama arrastando as chinelas, com o frufru de saiotes engomados, a anunciar que no pátio estavam uns homens a descarregar um morto. Assim era. Entraram com uma carroça de quatro cavalos, ocupando todo o primeiro pátio, pisando as camélias e sujando de trampa o empedrado reluzente, num turbilhão de pó, num empinar de cavalos e maldições de homens supersticiosos que faziam gestos contra o mau olhado. Traziam o cadáver do tio Marcos com toda a sua bagagem. Aquele tumulto era dirigido por um homenzinho melífluo, vestido de negro, de labita e chapéu demasiado grande, que iniciou um discurso solene para explicar as circunstâncias do caso, mas que foi brutalmente interrompido por Nívea, que se lançou sobre o ataúde empoeirado que continha os restos do seu irmão mais querido. Nívea gritava que abrissem a tampa, para o ver com os próprios olhos. Já em ocasião anterior havia sido encarregada de o enterrar, e por isso mesmo tinha o direito de duvidar que dessa vez fosse verdadeira a sua morte. Os seus gritos atraíram a multidão de criados da casa e todos os filhos, que acudiram correndo ao ouvir o nome do tio pronunciado com lamentações de luto». In Isabel Allende, A Casa dos Espíritos, 1982, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-004-445-7.

Cortesia de PEditora/JDACT

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A Casa dos Espíritos. Isabel Allende. «Pst! Padre Restrepo! Se o conto do inferno for pura mentira chateamo-nos... O dedo indicador do jesuíta…»

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«(…) Rosa, no entanto, não tinha pressa em casar-se, quase esquecera o único beijo que haviam trocado na despedida e também a cor dos olhos desse noivo tenaz. Por influência das novelas românticas, que eram a sua única leitura, gostava de o imaginar com botas de cabedal, a pele queimada pelos ventos do deserto, cavando a terra em busca de tesouros de piratas, dobrões espanhóis e jóias dos Incas, e era inútil que Nívea a tentasse convencer de que as riquezas das minas estavam metidas nas pedras, porque para Rosa era impossível que Esteban Trueba recolhesse toneladas de penhascos na esperança de que, ao submetê-los a iníquos processos crematórios, cuspissem um grama de ouro. Entretanto, esperava por ele sem se aborrecer, imperturbável na gigantesca tarefa que tinha imposto a si própria: bordar a toalha maior do mundo. Começou com cães, gatos e borboletas, mas logo a fantasia se apoderou do seu trabalho e foi surgindo um paraíso de animais impossíveis que nasciam da agulha em frente dos olhos preocupados do pai. Severo considerava que era tempo da filha sair da modorra e de ter os pés assentes na terra, de aprender algumas tarefas domésticas e preparar-se para o matrimónio, mas Nívea não compartilhava dessa inquietação. Preferia não atormentar a filha com exigências terrenas, pois pressentia que Rosa era um ser celestial, que não tinha sido feito para durar muito tempo no bulício grosseiro deste mundo, por isso deixava-a em paz com os seus fios de bordar e não comentava aquele jardim zoológico de pesadelo.

Uma barba do espartilho de Nívea quebrou-se, cravando-se-lhe uma ponta entre as costelas. Sentia-se sufocar dentro do vestido de veludo azul, com a gola de renda demasiado alta, as mangas muito estreitas, a cintura tão apertada que, quando tirava o cinto, passava uma boa meia hora com retorcidelas de barriga até as tripas se acomodarem na sua posição normal. Tinham discutido isso muitas vezes, ela e as amigas sufragistas, e haviam chegado à conclusão de que, enquanto as mulheres não encurtassem as saias e o cabelo e não despissem os saiotes, tudo ficava na mesma, mesmo que pudessem estudar medicina ou tivessem direito a voto, porque de modo algum teriam coragem de o fazer; ela própria não tinha coragem para ser das primeiras a abandonar a moda. Notou que a voz da Galiza tinha deixado de martelar-lhe o cérebro. Estava numa dessas grandes pausas do sermão que o padre empregava com frequência, por conhecer bem o efeito de um silêncio incómodo. Os seus olhos ardentes aproveitavam esses momentos para observar os paroquianos um por um. Nívea largou a mão de Clara e procurou um lenço na manga para enxugar uma gota de suor que lhe escorria pelo pescoço. O silêncio tornou-se pesado, o tempo pareceu parar dentro da igreja, mas ninguém se atreveu a tossir ou a ajeitar-se no banco, para não atrair a atenção do padre Restrepo. As suas últimas frases ainda vibravam entre as colunas.

E nesse momento, como Nívea recordou anos mais tarde, no meio da ansiedade e do silêncio, ouviu-se com toda a nitidez a voz da pequena Clara: Pst! Padre Restrepo! Se o conto do inferno for pura mentira chateamo-nos... O dedo indicador do jesuíta, que já estava no ar para assinalar novos suplícios, ficou suspenso como um pára-raios sobre a sua cabeça. As pessoas deixaram de respirar e os que estavam cabeceando acordaram. Os esposos del Valle foram os primeiros a reagir ao sentir que o pânico os invadia e ao ver que os filhos começavam a agitar-se nervosos. Severo compreendeu que devia actuar antes que rebentasse o riso geral ou se desencadeasse algum cataclismo celestial. Pegou na mulher pelo braço e em Clara pelo pescoço e saiu arrastando-as a grandes passadas, seguido pelos outros filhos, que se precipitaram em tropel para a porta. Conseguiram sair antes que o sacerdote pudesse invocar um raio que os transformasse em estátuas de sal, mas do umbral da porta ouviram a sua terrível voz de arcanjo ofendido: Endemoninhada! Soberba endemoninhada!» In Isabel Allende, A Casa dos Espíritos, 1982, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-004-445-7.

Cortesia de PEditora/JDACT

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