terça-feira, 16 de julho de 2019

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «És tu a Primavera que eu esperava, a vida multiplicada e brilhante…»

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«(…) Jardim verde e em flor, jardim de buxo
Onde o poente interminável arde
Enquanto bailam lentas as horas da tarde.
Os narcisos ondulam e o repuxo,
Voz onde o silêncio se embala,
Canta, murmura e fala
Dos paraísos desejados,
Cuja lembrança enche de bailados
A clara solidão das tuas ruas».

Promessa
«És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante».

In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

A Rainha Liberdade. A Guerra das Coroas. Christian Jacq. «O Afegão e o Bigodes treparam a colina com a vivacidade de combatentes habituados às expedições perigosas. Menos de meia hora depois, estavam de regresso»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ao crepúsculo, pareceu-lhe distinguir o seu mensageiro ao longe. O avanço era hesitante, o voo mais pesado do que o habitual. No entanto, era realmente ele! Larápio poisou no ombro de Ah-hotep. Com o flanco direito coberto de sangue, estendeu orgulhosamente a pata direita à qual estava preso um pequeno papiro selado. A Rainha felicitou-o acariciando-o docemente, retirou a missiva e confiou o corajoso mensageiro a Teti, a Pequena. Deve ter sido ferido por uma flecha. Trata dele com cuidado. É superficial considerou a Rainha-Mãe, depois de ter examinado a ferida. Daqui a alguns dias o Larápio estará de perfeita saúde. Segundo o curto texto de um resistente da região de Assiut, a cidade fora quase completamente destruída, com excepção dos túmulos antigos. Tinha apenas uma pequena guarnição hicsa, que recebia as mercadorias provenientes dos oásis de Khargeh e Dakhla. A caminho decidiu Ah-hotep.
De madrugada, o navio acostou ao porto de Assiut. Viajar de noite era perigoso, porque havia o risco de encalhar num banco de areia ou incomodar hipopótamos, cuja cólera era arrasadora. Mas, de dia, o Nilo não era seguro. Os hicsos rondavam por todos os lados. Outrora muito activo, aquele porto estava ao abandono. Velhos navios e uma barcaça esventrada apodreciam. Nem Risonho nem Vento do Norte detectaram qualquer presença inquietante. O molosso desembarcou primeiro, seguido pelo burro, a Rainha, o Afegão, o Bigodes e uma dezena de jovens archeiros bem alerta. Aliada de Ah-hotep, a Lua iluminava a paisagem. A cidade estendia-se ao abrigo de uma falésia na qual tinham sido escavados os túmulos, entre os quais o de um Sumo Sacerdote de Up-uaut, o Abridor dos caminhos, detentor da enxó indispensável para ressuscitar a múmia. Se eu fosse o comandante hicso considerou o Afegão seria exactamente neste lugar que colocaria as minhas sentinelas. Não há melhor ponto de observação. Vamos verificar isso declarou o Bigodes. Se tiveres razão, sempre serão alguns hicsos a menos. O Bigodes era um egípcio do Delta, arrastado quase involuntariamente para a resistência, que se tornara a sua razão de viver.
Espoliado pelos invasores, o Afegão apenas sonhava restabelecer o comércio de lápis-lazúli com um Egipto novamente respeitador das leis comerciais. Os dois homens tinham corrido juntos muitos perigos. Admiradores incondicionais da Rainha Ah-hotep, a mulher mais bela e mais inteligente que tinham conhecido, bater-se-iam ao lado dela até ao fim, fosse ele qual fosse. O Afegão e o Bigodes treparam a colina com a vivacidade de combatentes habituados às expedições perigosas. Menos de meia hora depois, estavam de regresso. Quatro sentinelas definitivamente adormecidas disse o Bigodes. O caminho está livre.
Como Ah-hotep seguia o mesmo treino dos soldados, não teve qualquer dificuldade em subir a encosta. Vários túmulos tinham sido profanados e o do Sumo Sacerdote Up-uaut fazia infelizmente parte deles. Os hicsos armazenavam nela armas e mantimentos. Com a raiva no coração, a Rainha explorou os destroços à luz de uma tocha. Atingiu a pequena sala situada próximo do fundo do túmulo, onde o ritualista tinha o costume de depositar os objectos mais preciosos. Jaziam no chão fragmentos de cofres e de estátuas. A Rainha revistou aquele caos. E, por baixo de um cesto contendo alimentos mumificados, encontrou a enxó de ferro celeste utilizada durante os rituais de ressurreição. A porta do túmulo de Seken fechou-se e foi o seu filho mais velho, auxiliado pelo intendente Qaris, que colocou o selo da necrópole. Depois de Ah-hotep ter aberto os olhos, a boca e as orelhas da múmia, a alma do Faraó deixou de estar presa à terra. Temos de falar da situação, Majestade sugeriu Qaris. Mais tarde. Deveis interromper o mais rapidamente possível a vossa estratégia». In Christian Jacq, A Rainha Liberdade, A Guerra das Coroas, ISBN 978-852-861-216-5, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-281-7.

Cortesia de BEditora/JDACT

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Alberto Caeiro. O Pastor Amoroso. «O pastor amoroso perdeu o cajado, e as ovelhas tresmalharam-se pela encosta, e, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar»

Cortesia de wikopedia e jdact

Quando eu não te tinha
«(…) Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrade por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as cousas,
E cada cousa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado do sol seca as lágrimas pequenas que não posso deixar de ter.
Como o campo é grande e o amor pequeno!
Olho, e esqueço, como o mundo enterra e as árvores se despem.
Eu não sei falar porque estou a sentir.
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz cousas que não há nas palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.

O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu... Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo:
Os grandes vales cheios dos mesmos vários verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem,
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito».
In Alberto Caeiro, O Pastor Amoroso, digitalizado por Eduardo Lopes O. Silva, Rio de Janeiro, 2006, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

O Pastor Amoroso. Alberto Caeiro. «Amar é pensar. E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela. Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela»

Cortesia de wikopedia e jdact

Quando eu não te tinha
«(…) Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações,
Não sei o que hei-de ser comigo.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.

Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém.

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Passei toda a noite, sem saber dormir, vendo sem espaço a figura dela
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la,
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
E prefiro pensar dela, porque dela como é tenho qualquer medo.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só pensar ela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar».
[…]
In Alberto Caeiro, O Pastor Amoroso, digitalizado por Eduardo Lopes O. Silva, Rio de Janeiro, 2006, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

O Pastor Amoroso. Alberto Caeiro. «Não me arrependo do que fui outrora porque ainda o sou. Só me arrependo de outrora te não ter amado»

Cortesia de wikopedia e jdact

Quando eu não te tinha
«Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima.
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu não me mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para ao pé de mim.
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.

Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Só me arrependo de outrora te não ter amado.

Está alta no céu a lua e é primavera.
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelos campos,
E eu andarei contigo pelos campos a ver-te colher flores.

Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Mas quando vieres amanhã e andares comigo realmente a colher flores,
Isso será uma alegria e uma novidade para mim.

Agora que sinto amor
Tenho interesse nos perfumes.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver».
[…]
In Alberto Caeiro, O Pastor Amoroso, digitalizado por Eduardo Lopes O. Silva, Rio de Janeiro, 2006, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

O Mito de Portugal nas suas Raízes Culturais. Manuel C. Pimentel. «Se, com António José Saraiva, concordo em que os mitos históricos contêm paradigmas da posição e vontade de um povo na história do mundo, com ele discordo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O Mito é o nada que é tudo». In Fernando Pessoa

Antelóquio
«(…) Haverá um horizonte unitário de vivência e de vida colectivas, de apreensão e de representação do mundo que, na projecção e introjecção dessas glórias e misérias, permita falar de um mito: o mito de Portugal? Consistirá este mito na tradução estável de uma verdade, que possui sentido em si e por si? Não se supõe para a figura de Portugal a ideia de uma unidade, estrutural ou até mesmo de força genésica, a propósito da qual se fala de mito? Se não quisermos dar a esta noção de mito, por minoração de realidades, o significado vago do que é puramente imaginativo, cumpriria, em primeiro lugar, compreender o que poderá estar em jogo de coexistências no que aqui se designa por mito de Portugal, respondendo às duas primeiras questões que formulei, e, em segundo lugar, apreender a arquitectura de espírito que assinala no mito o próprio sentido do ser e do estar de Portugueses, com réplica para a última interrogação.
No que ao primeiro problema diz respeito, o mito de Portugal, compreendido na sua substância de encarnação de ideais colectivos, tem conteúdo histórico e existencial, por nele se exprimirem, por forma contínua e variada, os sentimentos, as paixões e as aspirações de um povo, a par das suas narráveis acção, visão, compreensão e capacidade de transformação do mundo. Como fenómeno cultural, o mito conserva, ou melhor, coincide com os ideais da nacionalidade, do ser português na origem para a sua vocação tardia: nasce com a consciência do povo português, corporiza-lhe o sentimento terrantês, ou matricial, e a emoção colectiva da pertença pátria, insinua a união da gesta com a esperança e a promessa, mas também a contradição da vida gloriosa com os páramos árduos da decadência.
O mito de Portugal, tal como aqui o interpreto, constitui um sistema de representações vitais, uma organização de valores mentais, afectivos, gnosiológicos, éticos e espirituais que se foi formando sob o efeito das injunções da história e ao longo das circunstâncias dos Portugueses na história, que se confunde com a ideia da nacionalidade e sua permanência no tempo. Daí a resposta ao segundo problema. O núcleo vivo do mito de Portugal está na permanente abertura de si à hermenêutica das gerações, e à sua epifania deve regressar continuamente o português, a braços com a sua própria imagem e nas crises de identidade nacional.

História concisa do mito de Portugal
«Os mitos históricos são uma forma de consciência fantasmagórica com que um povo define a sua posição e a sua vontade na história do mundo». In António José Saraiva

Para definir o mito de Portugal basta tão-só a História de Portugal, pelo que ele é extensivo no espaço e intensivo no tempo. Extensivo, por não coincidir com a geografia do cantão peninsular, seja embora este a terra da formação do mito e da sua gestação, antes tendo por fronteiras os limites físicos do próprio mundo. Intensivo, porque ao longo das aportações históricas que foi recebendo do imaginário português, o tempo cronológico, que marca o ciclo das culturas e das civilizações, foi sendo progressivamente substituído pelo tempo do espírito, pelo qual se concebem os possíveis e o futuro.
O mito de Portugal é um mito de origem e destino colectivos. É, sobretudo, o mito de Portugal como império, cujo estrato cultural enraíza na noite dos tempos, se formou nos transes mais complexos da história nacional e evoluiu por alargamento sucessivo da sua primeira matriz, para cujo sincretismo de conteúdos tanto contribuíram a política de Portugal no concerto das nações e a efabulação das ideologias políticas, principais responsáveis pelo privilégio sacral do próprio mito enquanto fautor da consciência nacional e fonte legitimadora do lugar autêntico dos Portugueses no mundo.
Se, com António José Saraiva, concordo em que os mitos históricos contêm paradigmas da posição e vontade de um povo na história do mundo, com ele discordo em que sejam formas de consciência fantasmagórica, um modo hipercrítico de dizer que reduz a simples flatus vocis as significações do mito e destrói a ontologia de sentido da sua construção colectiva. A constelação de valores que há nos mitos históricos, que coincide com a verdade que exprimem ou querem exprimir, adapta-se e combina-se no recontro directo com as circunstâncias da própria história, porque nos mitos fala aquela parte que sempre neles se conserva, a identidade cultural de uma comunidade. Se morrem e incompreensivelmente ressuscitam, é por mor daquela identidade, que não é intemporal, nem sequer transversal ao tempo, mas agente no tempo, memória que conserva o passado e cinge o futuro. A eles regressam as gerações, ainda quando, e sobretudo, a nudez do tempo e a crueldade da história desmintam os seus anseios, os seus sonhos e as suas glórias». In Manuel Cândido Pimentel, O Mito de Portugal nas suas Raízes Culturais, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia. Agostinho da Silva. Luís Carlos R. Santos. «… e as estrelas tais e tantas terei decerto cumprido meu destino e com que sorte para gozar de uma vida já ressurecta da morte»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia a Luís Carlos R. Santos

«Se eu chegasse a ser dum Outro
mas de mim não me perdendo
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo
não só homens mas também
os animais e as plantas
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas
terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurecta da morte».
In Agostinho da Silva, 1990

As Primeiras Obras (1906-1944)
«George Agostinho Baptista da Silva, filho de Francisco José Agostinho da Silva e Georgina do Carmo Baptista da Silva, nasceu na cidade do Porto a 13 de Fevereiro de 1906. Mas logo, pouco tempo depois, com seis meses de idade, por destacamento profissional de seu pai foi viver para Barca D’Alva, lugar fronteiriço do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, distrito da Guarda. Aqui passou parte da sua infância, até aos seis anos de idade, altura em que regressaria ao Porto. Em 1986, com oitenta anos de idade, Agostinho da Silva produziu um manuscrito com o título de Caderno de Lembranças, onde nos lega uma descrição sobre os seus primeiros tempos de vida. Curioso é que o início desta sua narrativa recua ao ano de 1905, altura em que o autor começa a dar conta de que irá nascer. E é tão interessante a descrição que não deixamos de a transcrever em parte, neste arranque de elaboração da nossa tese: lá por 1905, mas nada há mais difícil do que relacionar tempo e eternidade, ou fixar-se simultâneo nos dois planos, os grandes pintores o fazem no olhar de suas figuras, mas, enfim, por essa altura, comecei a tomar atenção no belo globo que rolava diante de nós, e a tentar descobrir lugar aonde me agradasse descer para principiar minha vida. A meu lado, outros faziam o mesmo, e até discutíamos os méritos de um e outro ponto, mas sem voz, tanto quanto me lembro, porque o nascer tira muito a memória (…) Quando, voluntária ou involuntariamente, quem o sabe, gostei de, a cada volta do globo, ver surgir de novo nossa península ibérica, deu-se, fenómeno curioso, o mesmo que, maquinado pelos homens, se veio a chamar zoom: À outra volta, a península estava maior, só havia uma nesga de mar, de um lado e outro, e uma cadeia de montanhas, bem em relevo, a limitando para o norte; ou eu a estou a ver agora assim, porque, donde eu a contemplava, não havia nada que fosse acima ou abaixo: simplesmente era. Na outra volta, a metade que posso dizer agora de meu lado direito desaparecera, como desaparecera toda a faixa do sul. Fixava-me, de facto, no que aprendi a chamar Portugal (…).
Ao olharmos atentamente para o percurso biográfico de Agostinho da Silva verificamos que ele compreende três grandes períodos distintos. Um primeiro, que situamos entre 1906-1944, balizado entre o seu nascimento e o ano de partida para o auto exílio no Brasil; um segundo, entre 1944-1969, que abrangerá todo o período de vida que passa, sobretudo, em território brasileiro; e o terceiro, 1969-1994, que se inicia com o regresso a Portugal e se estende até à data do seu falecimento.
Estes três grandes períodos constituirão para nós o grande eixo de referência para análise do seu pensamento filosófico e educacional, temas estruturantes de toda a sua obra. Correspondendo a fases muito distintas na vida de Agostinho da Silva, com inevitáveis importantes reflexos na sua obra, aproveitaremos esta divisão para mais claramente darmos conta da forma como foram evoluindo as suas ideias. Depois de sólida formação no ensino secundário, Agostinho da Silva ingressou na Faculdade de Letras do Porto, onde se licenciou em Filologia Clássica, em 1928, com uma tese sobre a poesia de Catulo. Logo de seguida fez o Curso de Doutoramento, em 1929, num curto espaço de tempo, dado o anúncio de encerramento da Faculdade por parte do Governo. Hernâni Cidade, Leonardo Coimbra e Teixeira Rego são os professores que lhe deixaram maiores referências.
O título da tese de doutoramento foi O Sentido Histórico das Civilizações Clássicas, onde desenvolveu algumas ideias críticas a Oswald Spengler que pretendia provar que a civilização grego latina viveu sempre sem o sentido histórico, sem preocupação do passado e do futuro(…), tese com que o nosso autor não concordou. Agostinho da Silva, nesta sua tese, centra a atenção sobre um conjunto de acontecimentos históricos que ocorreram na Grécia Antiga, nomeadamente, sobre as diferentes formas de organização política que caracterizavam as cidades-estado de Atenas e de Esparta, e nos elogios de escritores como Eurípedes e Tucídides às boas qualidades dos atenienses, ou de Platão e Xenofonte que não se pouparam em bons predicados ao sentido de dever e sobriedade dos espartanos». In Luís Carlos R. Santos, Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia, Agostinho da Silva, U de Lisboa, F de Letras, D de Filosofia, Tese de Doutoramento, 2014, Wikipedia.

Cortesia de ULisboa/FLetras/DFilosofia/JDACT

domingo, 14 de julho de 2019

Júlio Dinis. Poesias. Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho). «O poeta morreu! E o Sol e os astros que ele cantou, e a abóbada celeste de lutuosas trevas se não veste…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A meu irmão
[…]
«E então, ó Senhor, com a fé mais pura
Eu ansiarei pelo supremo instante
Em que, livre da humana desventura,
Demandar tua estância radiante.

Deixa que o amigo ao amigo só revele
Os segredos que a morte lhe confia,
Esta incerteza..., em vão a fé repele,
A dúvida cruel continuo a cria.

Porque negas, Senhor, ao peregrino
Que vai cumprindo só esta romagem,
Um raio ao menos do saber divino,
Que lhe brade na dúvida: Coragem!?

Porque não há de a lousa funerária
Erguer-se à voz saudosa da amizade,
Para falar à alma solitária
Que anela por saber toda a verdade?

Porquê?...Mas, Deus, perdoa!, eu creio!, eu creio!
No seu leito de morte o conheci:
Sim, nesse instante de tormentos cheio,
No peito a voz da crença bem ouvi!

E por isso prostrei-me de joelhos,
E os lábios murmuravam a oração,
E cri então no Deus dos Evangelhos,
E a dúvida deixou-me o coração.

Repousa, irmão, à sombra do cipreste;
Não repousar na terra é desventura.
Dorme no mundo e acorda à luz celeste,
Cruzando o limiar da sepultura».

A morte do poeta
«Calou-se a lira! E a criação nos coros
De menos uma voz aos céus revoa!
Na imensa harpa, em que o universo entoa
Seus cânticos, de menos uma corda!
Que foi?, que nota falta às harmonias?
Que foi?, que mão deixou quebrar a lira?
O poeta morreu, o canto expira,
Cessam seus hinos do sepulcro à borda!

Morreu o teu cantor, ó Armamento!
Teu sacerdote ardente, ó poesia!
Ó Deus, ó Pátria, a última agonia
Gelou a voz que hosanas vos sagrara!
Crente inspirado, os brados do entusiasmo
Não lhe esfriou dos homens a indiferença,
E a venenosa taça da descrença
Dos generosos lábios arrojara!

O poeta morreu! E o Sol e os astros
Que ele cantou, e a abóbada celeste
De lutuosas trevas se não veste;
E tu, ó Pátria, que ele amava tanto,
Tu dormes inda esse gelado sono?!
Não te acorda o seu último gemido?
Sente-lhe a morte, se não hás sentido
De animação e glória o eterno canto».
[…]
In Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho), Poesias, 1859, Publicações Europa-América, 2010, ISBN 978-972-104-585-9.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

A Estranha Ordem das Coisas. António Damásio. «Porque seriam capazes os sentimentos de levar a mente a agir de forma tão sensata e vantajosa? Um dos motivos advém daquilo que os sentimentos realizam na mente e fazem à mente»

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Da condição humana. Uma ideia simples
«Eis a ideia simples que tenho vindo a considerar. Se nos ferimos e sentimos dor, seja qual for a causa do ferimento ou o perfil da dor, temos a possibilidade de remediar o problema. A variedade de situações que podem causar sofrimento humano inclui não só as lesões físicas, mas também o tipo de dor que resulta da perda de um ente querido ou de uma humilhação. A recuperação constante de memórias associadas mantém e amplifica o sofrimento, porque a memória ajuda a projectar a situação para um futuro imaginado e permite-nos antever as consequências. Seja qual for a causa, os seres humanos seriam capazes de reagir ao sofrimento tentando compreender esse seu calvário e inventando compensações, correcções ou soluções de eficácia radical.
A par da dor, os seres humanos seriam também capazes de viver o seu oposto, prazer e entusiasmo, numa grande variedade de situações, desde as simples e banais às sublimes, desde o prazer que constitui a reacção a paladares e cheiros, comida, vinho, sexo e confortos físicos, ao espanto e à iluminação que advêm da contemplação de uma paisagem, ou à admiração e ao afecto profundos sentidos em relação a outra pessoa. Os seres humanos também terão descoberto que exercer poder, dominar e até destruir os outros, provocando caos puro e saqueando, podia proporcionar prazer. Também nestes casos os seres humanos poderiam empregar tais sentimentos com um objectivo prático: como motivo para questionar a razão por que a dor existe, e talvez para se fascinarem com o facto bizarro de que, em determinadas circunstâncias, o sofrimento dos outros pode ser gratificante. Talvez usassem os sentimentos relacionados, entre eles medo, surpresa, fúria, tristeza e compaixão, como guia para imaginarem formas de contrariar o sofrimento e as suas origens. Aperceber-se-iam de que entre a variedade de comportamentos sociais disponíveis, alguns, a pertença a um grupo, a amizade, o carinho, o amor, representavam o oposto da agressividade e da violência, estando directamente associados não só ao bem-estar dos outros, mas também ao bem-estar próprio.
Porque seriam capazes os sentimentos de levar a mente a agir de forma tão sensata e vantajosa? Um dos motivos advém daquilo que os sentimentos realizam na mente e fazem à mente. Em circunstâncias normais, a cada momento, os sentimentos indicam à mente, sem que profiram qualquer palavra, o bom ou mau rumo dos processos da vida no interior do respectivo corpo. Ao fazê-lo, os sentimentos estão naturalmente a qualificar o processo vital como sendo ou não conducente ao bem-estar e ao desenvolvimento.
Outro motivo por que os sentimentos seriam bem-sucedidos onde as simples ideias falham tem a ver com a sua natureza particular. Os sentimentos não são uma fabricação independente do cérebro. Eles resultam de uma colaboração entre corpo e cérebro, os quais interagem graças a moléculas químicas e vias nervosas. Esta relação única entre corpo, e cérebro, em geral ignorada, garante que os sentimentos perturbem aquilo que, na sua ausência, seria um fluxo mental indiferente. É a vida na corda bamba, entre o florescimento e a morte, que dá origem ao sentimento. Consequentemente, os sentimentos são perturbações mentais, preocupantes ou gloriosas, gentis ou intensas». In António Damásio, A Estranha Ordem das Coisas, Da condição Humana, 2017, Temas e Debates, Bertrand Editora, Círculo de Leitores, 2017, ISBN 978-989-644-334-4.

Cortesia de TeD/CL/BertrandE/JDACT

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «Ó dia de hoje, ó dia de horas leves bailando na doçura e na amargura…»

jdact

«(…)
As Rosas
«Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas».

Dia de Hoje
«Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
Florindo nas ondas, cantando nas florestas,
No teu ar brilham transparentes festas
E o fantasma das maravilhas raras
Visita, uma por uma, as tuas horas
Em que há por vezes súbitas demoras
Plenas como as pausas dum verso.

Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
Bailando na doçura
E na amargura
De serem perfeitas e de serem breves».

Abril
«Vinhas descendo ao longo das estradas,
Mais leve do que a dança
Como seguindo o sonho que balança
Através das ramagens inspiradas.

E o jardim tremeu,
Pálido de esperança».
In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT