segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A Casa Senhorial do Infante D. Luís (1506-1555). Hélder Carvalhal. «Desta maneira, sabe-se que o assentamento dado a membros da Casa de Bragança (inclui-se aqui o duque Jaime, a duquesa e o então duque de Guimarães, Teodósio), por volta de 1527, constituía 3,7% …»

Cortesia de wikipedia e jdact

O ducado de Beja: uma reordenação do poder?
«(…) Outro ponto de interesse que convém aqui realçar prende-se com a nomeação de oficiais, competência onde o infante protagoniza um papel amplo, já que lhe é consagrado o direito de nomear todos os ofícios para os referidos lugares e vilas (incluindo cargos militares como alcaide-mor ou cargos do foro judicial como ouvidores ou juízes), bem como para os padroados das igrejas situadas nestes territórios, tendo apenas que respeitar os indivíduos que, ao momento, exerciam funções por investidura anterior do monarca.
Voltando à questão dos rendimentos que estes senhores poderiam auferir, diga-se que as rendas oriundas das jurisdições afectas a este príncipe constituíam apenas uma parte dos ingressos na fazenda senhorial, sendo que uma boa porção era oriunda das tenças e assentamentos que o monarca anualmente conferia aos membros da família real. Com efeito, o volume significativo destes montantes chegava por vezes a representar um valor superior a um quinto do total de despesas da Casa Real. No que diz respeito ao infante Luís, o seu assentamento anual cresceu de 1.900.000 reais, em 1527, para 6.966.700 reais em 1534, recebendo por volta de 1552 uma soma cifrada nos 8.299.033 reais. O aumento destas verbas pode ser explicado pela hierarquia que o infante Luís ocupava no seio da família régia, em cada um dos contextos em que estes montantes foram atribuídos. Assim se explica que a sua dotação em 1527 fosse superior à do infante Fernando (970.000 reais), mas inferior à da Excelente Senhora (1.570.000 reais) e à da rainha dona Catarina (4.000.000 reais).
Aplicando o mesmo princípio aos rendimentos totais destes indivíduos, afigura-se como possível a tentativa de estimar uma ordem de grandeza plausível aproximada aos montantes do rendimento anual total do infante Luís, comparando-o com os casos coevos que mais dados providenciam. Tome-se como exemplo, a renda de Jorge, duque de Coimbra e Mestre das Ordens de Avis e Santiago, estudado por João Cordeiro Pereira. Segundo este autor, o rendimento total deste príncipe ascenderia quase a 11 contos (11.000.000 reais), contribuindo para este montante as rendas do mestrado de Santiago (3.992.000 reais), as rendas da Ordem de Avis (3.882.000 reais), o rendimento do ducado de Coimbra (1.520.000 reais) e, por fim, o assentamento régio anual de 1.579.768 reais.
Analisando estes montantes de modo proporcional, repara-se que o dito assentamento representava 14,4% do rendimento total do duque de Coimbra, Jorge. Dada esta proporção, existe uma questão a colocar. Será que pela análise aos restantes assentamentos de membros da alta nobreza é possível estabelecer um padrão hierárquico com vista à estimativa das rendas totais em função do estatuto do titular? À partida, esta indagação pode parecer demasiado ambiciosa, tendo em conta o grande volume de rendas que são contabilizadas e a própria natureza das mesmas, cuja heterogeneidade é atestada pela alta disparidade dos réditos relativos aos domínios fundiários, aos padroados eclesiásticos e a toda uma gama de jurisdições e direitos sobre os meios de produção. Do mesmo modo, o facto de o assentamento dos condes (maior número de titulares que recebiam esta mercê, por parte da Coroa) apenas ter sido uniformizado em 1556, levanta dúvidas legítimas sobre a exequibilidade deste raciocínio. Não obstante, vale a pena levar a cabo este exercício, pois caso exista um padrão intencional de atribuição dos assentamentos face às rendas de cada titular da alta nobreza, sujeito à política régia e ainda que não regulamentado, de forma declarada, será possível uma extrapolação, para o caso do infante Luís, com base no assentamento que a Coroa anualmente lhe conferia.
Desta maneira, sabe-se que o assentamento dado a membros da Casa de Bragança (inclui-se aqui o duque Jaime, a duquesa e o então duque de Guimarães, Teodósio), por volta de 1527, constituía 3,7% do rendimento total da Casa de Bragança. O caso de Francisco Coutinho, conde de Marialva, por volta deste período, era de 102.873 reais, representando 2,15% da renda total do mesmo, ao passo que o assentamento dado ao conde de Penela (140.000 reais) não ultrapassava os 4,37% do seu rendimento anual». In Hélder Carvalhal, A Casa Senhorial do Infante D. Luís (1506-1555), Dinâmicas de construção e consolidação de um senhorio quinhentista, Revista 7 Mares, Nº 4, Dossié, Junho de 2014, Wikipedia.

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Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Al-Uryani, Abu Yafar (século XII). Camponês, natural de Loulé, não sabia ler nem escrever mas foi o primeiro…»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Abu Mohammad Ibn Sara Assantarini (o santareno) (+1123) comparava os relâmpagos a um abissínio que ri com as suas lágrimas. Cantou o papeleiro, a laranjeira, a beringela, o tanque com tartarugas que lembravam soldados cristãos com os seus escudos de alce. Cantou a estrela cadente, cavaleiro a quem, na rapidez do galope, se lhe desatasse o turbante/ e o arrastasse atrás de si como um véu que flutua.
Uma ética hedonista e céptica transparece nalguns versos, por exemplo no Poema da Serra Nevada:

Quando sobre a vossa terra sopra o vento norte
que felicidade para um pobre pecador
gozar as fornalhas do inferno…

Se um dia entrar nos tormentos do inferno
será num dia tão rigoroso
em que até o inferno há-de ser bom.

Ou no claro poema:

Quando me visitou senti desejo de beijá-lo
e duas vezes o beijei em cada face.

Disse depois: por favor, deixa que beije
a tua boca
prefiro as brancas margaridas às rosas vermelhas.

Noutro poema tomou o amor udri como companheiro e afirmava que a castidade é virtude/ quando aquele que a observa/ tem a plenitude física. E apontava como guia da acção o binómio facto-consequência. O sul de Portugal foi terra de sufis, os místicos muçulmanos. Ibn Kasi, Abu 1-Kasim Ahmad b. Husayn (+1152). De origem moçárabe nasceu no termo de Silves. Durante a mocidade só pensou nos prazeres do mundo. Depois abraçou a vida ascética. Deu em esmola os seus bens e percorreu o Andaluz a pregar o desprezo pelos bens deste mundo. Em Almeria conheceu o sufi Ibn Al-Arif (+Marraquexe 1141) quando este embarcava para Marrocos.
Regressado à aldeia natal dedicou-se à leitura dos livros de Al-Gazallí espalhando as suas doutrinas. Em breve tomou o título de mahdi (o imã encoberto). Perseguido, conseguiu escapar mas alguns dos seus seguidores foram presos pelos almorávidas em Sevilha. Em 539, os seus seguidores, os muridun (os adeptos, aspirantes à vida mística) assenhorearam-se da praça forte de Mértola. Évora, Silves, Beja, Huelva e Niebla apoiaram o mahdi. Mais tarde, Ibn Wazir, senhor de Évora e Beja e a seguir de Badajoz e a quem os lisboetas cercados pediram auxílio em 1147, subleva-se contra Ibn Kasi que se dirige a África a incitar o desembarque dos almóadas. Regressa com o exército africano e torna-se governador de Silves.
Pouco depois quer sacudir o domínio dos almóadas e pede auxílio a Afonso Henriques que lhe manda um cavalo, um escudo e uma lança. Descontentes, os habitantes de Silves usam um ardil para entrar no Alcácer das Varandas. Entrados, cortam a cabeça do sufi e exibem-na na ponta de uma lança: eis aqui o mahdi dos cristãos!
Escreveu o livro Os dois Sapatos Descalços de que existe um manuscrito na biblioteca de Constantinopla. Segundo os seus detractores, afirmava que fizera a peregrinação a Meca durante uma noite; transmitia mentalmente o pensamento; gastava dinheiro do tesouro de Deus, só que este dinheiro levava o cunho dos almorávidas.
Al-Uryani, Abu Yafar (século XII). Camponês, natural de Loulé, não sabia ler nem escrever mas foi o primeiro e um dos mais importantes mestres de Ibn Al-Arabi em Sevilha. Quando falava da ciência da unificação, não havia outra coisa a fazer senão ouvir. Com a sua só intenção fixava as ideias como se as consignara por escrito e com a sua palavra punha a descoberto a realidade positiva dos seres. Dedicava o tempo à oração mental, previamente purificado pela ablução ritual e voltado para Meca». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

A Canção de Aquiles. Madeline Miller. «Não respondi à notícia do meu pai. Aquilo não tinha nenhum significado para mim. Meu pai limpou a garganta e rompeu o silêncio da sala: faremos bem em tê-la na família»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Afora isso, só me ocorrem imagens dispersas daquele tempo: meu pai sentado no trono, com olhar carrancudo, um engenhoso cavalinho de brinquedo do qual eu gostava muito, minha mãe na praia contemplando o Egeu. Nessa última lembrança, estou atirando seixos à superfície da água, plaf, plaf, plaf. Ela parece gostar do modo como as ondas se encrespam e em seguida desaparecem. Ou talvez goste do próprio mar. Na sua têmpora, vê-se uma mancha em forma de estrela, branca como marfim, a cicatriz da época em que seu pai a golpeou com o punho da espada. Seus pés vão deixando pegadas na areia, e procuro não desfazê-las enquanto apanho pedras. Escolho uma e atiro-a, contente por saber fazer isso muito bem. É a única lembrança que conservo da minha mãe e é tão bela que quase tenho certeza de tê-la forjado. Afinal, é pouco provável que meu pai nos permitisse ficar juntos a sós, o filho imbecil e a esposa palerma. E onde teria sido? Não reconheço a praia, o litoral. Muita coisa aconteceu desde então.

Fui chamado pelo rei. Lembro-me de ter odiado aquilo, a longa caminhada até à sala do trono. Ao chegar lá, ajoelhei-me no chão de pedra. Alguns reis costumavam mandar estender tapetes diante do trono para os mensageiros que ali precisavam ficar muito tempo transmitindo as suas notícias. Meu pai não. A filha do rei Tíndaro finalmente está pronta para o casamento, anunciou ele. Eu conhecia aquele nome. Tíndaro era rei de Esparta e possuía vastas extensões de terra fértil no sul, do tipo que meu pai cobiçava. Ouvira falar também da filha, considerada a mulher mais bela das redondezas. Sua mãe, Leda, teria sido possuída por Zeus, o rei dos deuses em pessoa, disfarçado de cisne. Nove meses depois, saíram do seu ventre dois pares de gémeos: Clitemnestra e Castor, filhos do marido mortal; e Helena e Polideuces, os cisnezinhos divinos. Mas bem se sabe que os deuses são pais avarentos; Tíndaro devia garantir o património de todos.
Não respondi à notícia do meu pai. Aquilo não tinha nenhum significado para mim. Meu pai limpou a garganta e rompeu o silêncio da sala: faremos bem em tê-la na família. Você partirá e se apresentará como pretendente. Não havia mais ninguém por ali e só ele ouviu o meu murmúrio de surpresa. Porém eu não era tão tolo a ponto de dar mostras de descontentamento. Meu pai sabia o que eu poderia dizer: que só tinha 9 anos, que era feio, sem futuro, indiferente. Partimos na manhã seguinte, os alforjes repletos de presentes e provisões para a jornada. Soldados nas suas melhores armaduras nos escoltavam. Não me lembro de muita coisa da viagem, foi por terra, atravessando paisagens que não me deixaram nenhuma impressão. À frente da comitiva, meu pai ia ditando novas ordens aos secretários e mensageiros, que disparavam em todas as direcções. Baixei os olhos para as rédeas de couro de minha montaria, que eu alisava com o polegar. Não entendia bem o que estava fazendo ali. Era uma situação incompreensível, como quase todas as que meu pai provocava. Meu burro balançava e eu balançava com ele, contente por ter pelo menos aquela distracção. Não fomos os primeiros pretendentes a chegar à cidadela de Tíndaro. Os estábulos já estavam cheios de cavalos e mulas, com servos correndo de um lugar para outro. Meu pai não parecia nada contente com a recepção: surpreendi-o, de cenho franzido, esfregando a mão na pedra da lareira do nosso quarto. Eu levara de casa o meu cavalinho de brinquedo, cujas pernas se moviam. Levantei uma pata, depois outra, imaginando que viajara montado nele e não no burro. Um soldado se compadeceu de mim e emprestou-me os seus dados. Fiquei jogando-os ao chão até que apresentaram todos, num só lance, a face de seis». In Madeline Miller, A Canção de Aquiles, 2011 / 2012, Editora Jangada, 2015, ISBN-978-856-485-037-8.

Cortesia de EJangada/JDACT

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Acaso te deixarás conduzir pela tristeza até à morte quando o alaúde e o vinho fresco estão aí à tua espera?»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Um outro texto, Al-Mann Bil-Imama do bejense Ibn Sahib Al-Sala aborda a história dos almóadas e de algum modo um pouco da história política no actual Alentejo e Algarve. Escreveu também o Kitab al-Muridin (Livro dos Adeptos), hoje perdido e que seria indispensável para o estudo do movimento dos muridines no sul do nosso território e no ocidente peninsular.
Os poetas perdem-se como abelhas ao redor do favo do poder. Mas alguns erguem-se a grande altura. Cantam os saraus nocturnos, o vinho, o amor, os jardins, a água, a paisagem humanizada. Aqui e ali ensaiam a especulação filosófica. No século XI sopra uma brisa de audácia e de liberdade com toda a ambiguidade que esta palavra carrega. Almutamide (+1095), natural de Beja, governador de Silves e rei de Sevilha entre 1069 e 1091, rodeou-se de literatos, historiadores, poetas como o seu amigo Ibn Amar, a sua mulher Itimad Romaiquia (ex-escrava de Romaiq) e seu filho Arradi ibn al-Mutamid, governador de Mértola.
A vida do rei poeta originou toda uma epopeia. Na batalha de Zalaca foi ferido seis vezes e não arredou pé até à vitória. Pouco depois, os seus aliados almorávidas, com o favor dos alfaquis de Sevilha, conquistaram a cidade e degolaram-lhe dois filhos à sua vista. A nora Zaida tornou-se concubina de Afonso VI de Leão e de Castela enquanto o filho Arradi era morto à traição pelos almorávidas em Mértola. Almutamide morre cativo em Agmat, no Atlas sobranceiro a Marraquexe. A caminho do desterro escreveu o poema:

Saíram para pedir a chuva e disse-lhes:
Pudessem
as minhas lágrimas substituir a chuva
que reclamais.
Responderam-me: é verdade, nas tuas lágrimas
encontraríamos
o bastante. Mas de que nos serviriam elas
se estão misturadas com sangue?

Noutro dos seus poemas, propõe uma ética dos prazeres, que certamente haveria de chocar os alfaquis, ao mesmo tempo que esclarecia a sua ideia do sábio:

Acaso te deixarás conduzir pela tristeza
até à morte
quando o alaúde e o vinho fresco
estão aí à tua espera?
Que as preocupações não se tornem
senhoras de ti
enquanto a taça for uma espada cintilante
na tua mão.
Conduzir-se como sage é deixar-se assaltar
pelas preocupações até ao mais fundo
de si mesmo:
Ser sage para mim é não ser sage.

Ibn Mucana Alisbuni Alcabdaq (o lisboeta, o de Alcabideche) (+pouco depois de 1068) cantou os bois de lavra, os javalis que assolavam as hortas, as abóboras, as cebolas, os moinhos de vento». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

domingo, 13 de outubro de 2019

A Canção de Aquiles. Madeline Miller. «Meu pai quer que estes sejam os melhores jogos da sua geração. Lembro-me bem dos corredores, os seus corpos bronzeados e besuntados de azeite…»

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«Meu pai era rei e filho de reis. Homem de baixa estatura, como a maioria de nós, mas de ombros imponentes e com a constituição de um touro. Desposou minha mãe quando ela tinha 14 anos e recebera das sacerdotisas a garantia de que seria fértil. Foi um bom arranjo: a noiva não passava de uma criança e a fortuna do seu pai iria para o marido. Ele só descobriu que ela era meio parva no dia do casamento. O pai insistira em manter o seu rosto velado até à cerimónia e o noivo não se importara. Se a esposa fosse feia, sempre haveria escravas e jovens criados. Dizem que minha mãe sorriu quando, por fim, o véu foi retirado. Souberam então que ela era mesmo bastante tola; noivas não sorriem. Quando nasci, um menino, meu pai me tirou dos braços de minha mãe e me entregou a uma ama. A parteira, sentindo pena da minha mãe, deu-lhe um travesseiro para que o envolvesse nos seus braços, já que ela não podia abraçar-me. E minha mãe o abraçou. Ela nem notou a troca que havia sido feita. Logo me tornei uma decepção: pequeno, franzino. Não era esperto. Não era forte. Não sabia cantar. O melhor que se poderia dizer de mim era que tinha saúde. Os resfriados e as cólicas que afligiam as outras crianças não me molestavam. Isso só deixou meu pai ainda mais desconfiado. Seria eu um mutante, uma criatura não humana? Ele me olhava com ar zangado. Minha mão tremia, sentindo o seu olhar. E minha mãe ficava lá, babando vinho sobre si mesma.
Tenho 5 anos, e é a vez de meu pai patrocinar os jogos. Homens vêm de longe, até da Tessália e de Esparta, e os nossos armazéns ficam repletos de ouro. Uma centena de servos trabalha durante vinte dias, preparando a pista de corrida e limpando-a para que fique livre de pedras. Meu pai quer que estes sejam os melhores jogos da sua geração. Lembro-me bem dos corredores, os seus corpos bronzeados e besuntados de azeite, estirando-se ao sol. Misturam-se homens de ombros largos, jovens imberbes e meninos, em cujas panturrilhas se desenham os músculos vigorosos. O touro foi morto, derramando as últimas gotas de sangue na areia e em vasos de bronze escuro. Morreu suavemente, bom augúrio para os jogos que logo começarão.
Os corredores se reúnem diante do trono em que o meu pai e eu nos sentámos, tendo em volta os prémios que serão dados aos vitoriosos. Há taças de ouro para misturar o vinho, trípodes de bronze forjado, lanças de freixo com preciosas pontas de ferro. Porém o prémio de verdade está nas minhas mãos: uma coroa de folhas de louro, recém-colhidas, lustradas pelo meu polegar. Meu pai relutara em deixá-la comigo. Mas tranquilizou-se, pois eu só iria segurá-la. Os mais novos correrão primeiro. Esfregando os pés na areia, eles aguardam o sinal do sacerdote. Ainda estão na primeira fase de crescimento, os seus ossos longos e finos desapontam sob a pele esticada. Meus olhos surpreendem uma cabeça loura no meio de dezenas de cabeleiras negras, desgrenhadas. Inclino-me para ver melhor. O cabelo reluz como mel ao sol e, por entre as mechas, um brilho de ouro, o diadema de um príncipe. É mais baixo que os outros, e o seu corpo, ao contrário do deles, ainda tem os contornos roliços da infância. O cabelo comprido está preso atrás com uma tira de couro, contrastando com a pele nua e escura das costas. Quando ele se vira, percebo que seu rosto é sério como o de um adulto. Depois que o sacerdote golpeia o chão com o ceptro, ele se adianta aos corpos vigorosos dos garotos mais velhos. Move-se com desenvoltura, tem os calcanhares rosados como línguas. Ele vence. Meu pai ergue a coroa do meu colo e coloca-a na cabeça do garoto. As folhas parecem quase negras contra a luminosidade de seus cabelos. O pai do vencedor, Peleu, vem buscá-lo sorridente e orgulhoso. O reino de Peleu é menor que o nosso, mas conta-se que a sua esposa é uma deusa e o povo o ama. Meu pai observa com inveja. A mulher dele é tola, e o filho, lento demais para competir até mesmo no grupo mais jovem. Então ele se vira para mim e diz: é assim que um filho deve ser. Sinto as mãos vazias sem a coroa. Vejo o rei Peleu beijar o seu filho, que atira a coroa para o alto e apanha-a novamente. Está sorrindo, o seu rosto tem o brilho da vitória». In Madeline Miller, A Canção de Aquiles, 2011 / 2012, Editora Jangada, 2015, ISBN-978-856-485-037-8.

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A Cabana. William P. Young. «É claro que as tempestades também interrompem negócios, e, embora umas poucas empresas tenham um ganho extra, outras perdem dinheiro, o que significa que existem os que não sentem júbilo…»

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«[…]
O que acontece é que as coisas que ele diz causam um certo desconforto num mundo onde a maioria das pessoas prefere escutar o que está acostumada a ouvir, o que frequentemente não é grande coisa. Os que o conhecem geralmente gostam muito de Mack, desde que ele mantenha guardados os seus pensamentos. Porque as coisas que Mack diz nem sempre deixam as pessoas muito satisfeitas com elas mesmas. Uma vez Mack me contou que quando era jovem costumava abrir-se com mais liberdade, mas admitiu que a maior parte dessas conversas era um mecanismo de sobrevivência para encobrir as suas feridas. Frequentemente acabava derramando a dor sobre quem estivesse por perto. Disse que tinha prazer em apontar as falhas das pessoas e humilhá-las para manter o seu sentimento de falso poder e controle. Nada muito elogiável. Enquanto escrevo estas palavras, reflicto sobre o Mack que sempre conheci: um sujeito bastante comum e certamente sem nada de especial, a não ser para os que o conhecem de verdade. Vai fazer 56 anos e não chama a atenção, está ligeiramente acima do peso, é meio careca, baixo e branco, uma descrição que serve para muitos homens dessas redondezas. Provavelmente não o notaria numa multidão nem se sentiria incomodado sentado ao seu lado enquanto ele dormitava no comboio que o leva à cidade para a reunião semanal de vendas. Faz a maior parte do seu trabalho num pequeno escritório na sua casa na Wildcat Road, Vende alguma engenhoca de alta tecnologia que eu não pretendo entender: trecos eletrónicos que de algum modo fazem tudo andar mais depressa, como se a vida já não fosse rápida demais. Você só percebe como Mack é inteligente quando, por acaso, escuta diálogo dele com um especialista. Já vivi algumas situações dessas quando a língua falada mal parecia com a nossa e eu me via lutando para captar os conceitos que jorravam como um rio de jóias despencando de uma cachoeira. Ele consegue falar com inteligência sob quase tudo e, apesar da força de suas convicções, Mack tem um modo gentil e respeitoso que deixa manter as suas [...]» In Prefácio

«Duas estradas se bifurcaram no meio da minha vida, ouvi um sábio dizer. Peguei a estrada menos usada. E isso fez toda a diferença cada noite e cada dia. Março desatou uma torrente de chuvas depois de um Inverno de secura anormal. Uma frente fria desceu do Canadá e foi contida por rajadas de vento que rugiam pelo desfiladeiro, vindas do leste do Oregon. Ainda que a Primavera certamente estivesse logo ali, depois da esquina, o deus do Inverno não iria abandonar sem luta o seu domínio conquistado com dificuldade. Havia um cobertor de neve recente nas Cascades, e agora a chuva congelava ao bater no chão do lado de fora da casa. Motivo suficiente para Mack se enroscar com um livro e uma sidra quente, aconchegando-se no calor do fogo que estalava na lareira. Mas, em vez disso, ele passou a maior parte da manhã no computador. Sentado confortavelmente no escritório de casa, usando calças de pijama e uma camiseta, ele deu telefonemas de vendas. Parava com frequência, ouvindo o som da chuva cristalina tilintar na janela e vendo o acúmulo vagaroso mas constante do gelo lá fora. Estava tornando inexoravelmente prisioneiro do gelo na sua própria casa, e com muito prazer. Há algo agradável nas tempestades que interrompem a rotina. A neve ou a chuva gélida nos liberam subitamente das expectativas, das exigências de resultados e da tirania dos compromissos e dos horários. Ao contrário da doença, esta é uma experiência mais colectiva do que individual. Quase podemos ouvir um suspiro de alívio erguer-se em uníssono na cidade próxima e no campo, onde a natureza interveio para dar uma folga aos exaustos seres humanos. Todos os afectados pela tempestade são unidos por uma desculpa mútua. De súbito e inesperadamente o coração fica um pouco mais leve. Não serão necessárias desculpas por não comparecer a algum compromisso. Todos entendem e compartilham a mesma justificativa, e a retirada súbita de qualquer pressão alegra a alma.
É claro que as tempestades também interrompem negócios, e, embora umas poucas empresas tenham um ganho extra, outras perdem dinheiro, o que significa que existem os que não sentem júbilo quando tudo fecha temporariamente. Mas é impossível culpar alguém pela perda de produção ou por não conseguir chegar ao escritório. Mesmo que a situação só dure um ou dois dias, de algum modo cada pessoa se sente dona do seu mundo simplesmente porque aquelas gotinhas de água congelam ao bater no chão. Até as actividades comuns se tornam extraordinárias. Acções rotineiras se transformam em aventuras e frequentemente são vivenciadas com maior clareza. No fim da tarde, Mack se encheu de agasalhos e saiu para lutar com os quase 100 metros da comprida entrada de veículos que vai até à caixa de correio. O gelo havia convertido magicamente essa tarefa simples do dia-a-dia numa batalha contra os elementos: levantou o punho em contestação à força bruta da natureza e, num acto de desafio, riu na cara dela. O facto de que ninguém notaria nem se incomodaria com o seu gesto pouco importava para ele, só o pensamento o fez rir por dentro». In William Paul Young, A Cabana, 2007, Porto Editora, 2009, 2018, ISBN 978-972-004-178-4.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

A Cabana. William P. Young. «Pelo pouco que Mack me contou, sei que o seu pai não era o tipo de alcoólatra que cai num sono rápido e feliz, e sim um bêbado perverso que batia na mulher…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Quem não duvidaria ao ouvir um homem afirmar que passou um fim de semana inteiro com Deus e, ainda mais, numa cabana? Principalmente naquela cabana. Conheço Mack há pouco mais de 20 anos, desde o dia em que nós dois fomos à casa de um vizinho para ajudá-lo a enfardar feno para as suas poucas vacas. A partir de então nós estávamos compartilhando um café, ou, para mim, um chá tailandês superquente, com soja. As nossas conversas nos dão um gosto profundo e são sempre salpicadas de muito riso e de vez em quando de uma ou duas lágrimas. Francamente, quanto mais velhos ficamos, mais nós nos damos bem, se é que me entende. O nome completo dele é Mackenzie Allen Phillips, mas a maioria das pessoas chama-o de Allen. É uma tradição de família: todos os homens têm o primeiro nome igual, mas são conhecidos pelo nome do meio, provavelmente para evitar a ostentação do I, II e III ou Júnior e Sénior. Assim, ele, o avô, o pai e agora o filho mais velho têm o nome de Mackenzie, mas só Nan, a mulher dele, e os amigos íntimos o chamam de Mack. Ele nasceu numa fazenda do Meio-Oeste, numa família irlandesa-americana de mãos calejadas e regras rigorosas. Ainda que aparentemente religioso e exageradamente rígido,o seu pai bebia muito, sobretudo quando a chuva não vinha ou quando vinha cedo demais, e quase sempre entre uma coisa e outra. Mack nunca fala muito sobre o pai, mas quando o menciona a emoção abandona o seu rosto, como se fosse uma maré vazante, deixando seus olhos sombrios e sem vida. Pelo pouco que Mack me contou, sei que o seu pai não era o tipo de alcoólatra que cai num sono rápido e feliz, e sim um bêbado perverso que batia na mulher e depois pedia perdão a Deus. A coisa, chegou a tal ponto que, aos 13 anos e com certa relutância, Mack abriu o coração para um líder da igreja durante um encontro de jovens. Dominado pelo clima do momento, Mack confessou chorando que nunca fizera nada para ajudar a mãe nas várias vezes em que testemunhara o pai bêbado lhe dar uma surra até deixá-la inconsciente. O que Mack não pensou foi que o seu confessor frequentava a mesma igreja que o seu pai. Quando chegou em casa, o pai esperava-o na varanda e a mãe e as irmãs não estavam. Mais tarde, Mack ficou sabendo que elas tinham sido mandadas à casa da tia May para que o pai pudesse ter liberdade para dar ao filho rebelde uma lição inesquecível. Durante quase dois dias, amarrado ao grande carvalho nos fundos da casa, ele foi castigado com um cinto e com versículos da Bíblia todas as vezes que o pai acordava da sua bebedeira e largava a garrafa. Duas semanas depois, quando enfim conseguiu ficar em pé, Mack simplesmente se levantou e foi embora de casa. Mas antes de partir colocou veneno de rato em cada garrafa de bebida que conseguiu encontrar na fazenda. Depois desenterrou de perto da latrina externa a pequena lata onde guardava todos os seus tesouros: uma foto da família em que o pai estava meio afastado, uma figurinha de beisebol do Luke Easter de 1950, uma garrafinha com mais ou menos 30ml de Ma Griffe, o único perfume que a sua mãe havia usado, um carrinho de linha e duas agulhas, um pequeno jacto F-86 da Força Aérea americana em metal fundido e todas as economias de sua vida: 15 dólares e 13 centavos. Esgueirou-se pela sala e enfiou um bilhete debaixo do travesseiro da mãe, enquanto o pai roncava, curtindo mais uma bebedeira. O bilhete dizia simplesmente: um dia espero que me possa perdoar. Jurou que nunca mais olharia para trás e não olhou, durante um longo tempo. Treze anos é muito pouco, porém Mack não tinha muitas opções e se adaptou rapidamente. Ele não fala muito sobre os anos seguintes. A maior parte foi passada fora do país, trabalhando pelo mundo, mandando dinheiro para os avós, que o repassavam à mãe. Acho que num desses países distantes chegou a pegar em armas e participar de algum conflito terrível; desde que o conheço, ele odeia a guerra com um fervor sinistro. Seja lá o que for que tenha acontecido, aos 20 e poucos anos foi parar num seminário na Austrália. Quando Mack se fartou de teologia e filosofia, retornou aos Estados Unidos, fez as pazes com a mãe e as irmãs e mudou-se para o Oregon, onde conheceu Nannete A. Samuelson e se casou com ela. Neste mundo de faladores, Mack é pensador e fazedor. Não diz muita coisa, a  não ser que alguém pergunte, o que pouca gente faz. Quando fala, dá a impressão de ser uma espécie de alienígena que vê a paisagem das ideias e experiências humanas de modo diferente de todas as outras pessoas […]». In Prefácio

In William Paul Young, A Cabana, 2007, Porto Editora, 2009, 2018, ISBN 978-972-004-178-4.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

A Caminho de Jerusalém. Jan Guillou. «Vamos andar devagar, na direcção das brincadeiras, para não ficarmos aqui quietos, como se déssemos a entender que estamos zangados um com o outro. Eu vou explicar tudo…»

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As Cruzadas
«(…) Tal como havia previsto, ele parou de repente e olhou primeiro para o rosto dela, inquiridor, procurando por aquele sorriso que ela exibia ao falar brincando, à sua maneira toda especial. Mas ele entendeu logo que ela falava sério e, então, a raiva se apossou dele com tal intensidade que por pouco não lhe deu uma bofetada, que seria a primeira, se eles não estivessem entre amigos e inimigos e todo aquele povão. Você está fora de si, mulher! Se não fosse pelo facto de ter herdado Varnhem, ainda hoje estaria apodrecendo no mosteiro. E foi por causa de Varnhem que nos casámos. Foi no último momento que ele se conteve e acabou falando baixo, mas entre dentes, os lábios fortemente contraídos. Sim, isso é verdade, meu querido marido, respondeu ela, com o olhar virtuosamente baixo. Se eu não tivesse herdado Varnhem, os seus pais teriam escolhido outra pretendente. Nesse caso, é verdade, eu seria agora uma freira, mas é verdade também que nem Eskil nem essa nova vida que carrego abaixo do meu coração existiriam se não fosse por Varnhem. Magnus não respondeu. Parecia estar pensando na escolha das palavras certas para expressar a sua raiva. E, nesse momento, chegou Sot, trazendo pela mão Eskil, que imediatamente correu na frente e pegou a mão da sua mãe e começou a falar rápido e alto de tudo o que tinha visto lá dentro na catedral. Depois de ter sido obrigado a ficar calado e quieto por tanto tempo, ele falava agora como se as palavras jorrassem como a água de uma represa quando é aberta na Primavera, impossível de conter. Magnus pegou o seu filho nos braços, acariciou os seus cabelos com amor, ao mesmo tempo que encarava a esposa com hostilidade. Mas, de repente, ele largou o menino no chão e ordenou a Sot, quase que de maneira desagradável, que levasse Eskil para ver as brincadeiras e que logo em seguida se veriam de novo. Sot, surpresa, pegou o menino pela mão e puxou-o para longe, enquanto este, contrariado, choramingava e resistia. Mas, como você sabe, meu caro marido, continuou Sigrid, rápido, para que fosse ela a conduzir a conversa e não deixando que ele prosseguisse, encolerizado, antes voltasse ao bom senso e à calma. Sempre desejei receber Varnhem de presente de casamento, embora tenha sido eu que herdei a propriedade, e que consegui que a herança ficasse registada com o sigilo real, e ainda que, para mim, bastem o manto que trago sobre os meus ombros agora e apenas um pouco de ouro para me enfeitar. É, isso também é verdade, respondeu Magnus, ainda mal- humorado. Mas, ao mesmo tempo, Varnhem representa um terço do nosso património em comum, um terço que agora você acaba de tirar de Eskil. O que não consigo entender é como você foi capaz de fazer uma coisa dessas, mesmo que tivesse direito a fazê-lo.
Vamos andar devagar, na direcção das brincadeiras, para não ficarmos aqui quietos, como se déssemos a entender que estamos zangados um com o outro. Eu vou explicar tudo, disse ela, oferecendo o braço para ele. Magnus olhou em volta preocupado, reconheceu que ela tinha razão, sorriu com esforço e pegou-a pelo braço. Bem, disse ela, hesitante, após uns segundos. Vamos começar pelas coisas terrenas, as que mais enchem a sua cabeça neste momento. Evidentemente, vou levar para Arnäs todos os animais e os servos. Varnhem tem, sem dúvida, as melhores construções, mas Arnäs, por isso mesmo, vai possibilitar que a gente construa a partir do terreno, especialmente agora, quando vamos receber tantas mãos para trabalhar mais. Dessa maneira, vamos ter um lugar melhor para morar, em especial durante o Inverno. Mais animais significam mais barricas de carne salgada e mais peles, que agora já podemos mandar para Lõdõse de barco. Você sempre quis muito negociar com Lõdõse, e isso poderá fazer a partir de Arnäs, com muito mais facilidade, tanto no Inverno quanto no Verão. Isso seria mais difícil de fazer a partir de Varnhem. Magnus andava ao seu lado, silencioso e inclinado para a frente, mas ela viu que ele se tinha acalmado e começava a escutar com interesse, e então concluiu que não era mais uma questão de guerra com palavras. Viu tudo bem claro diante de si, como se tivesse levado muito tempo para planear as coisas, quando, na verdade, a ideia toda não tinha mais do que uma hora de vida. Mais peles e mais barricas com carne salgada para Lõdõse significavam mais moedas de prata, e mais moedas de prata significavam mais sementes. Mais sementes significavam que mais servos poderiam conquistar a sua liberdade através da preparação de novos campos para sementeira, de empréstimos em sementes pagas pelo dobro em centeio que, mandadas para Lõdõse, seriam trocadas por mais moedas de prata. E, então, seria possível encomendar as muralhas que Magnus sempre havia pensado em erguer, já que Arnäs era difícil de defender, em especial durante o Inverno, quando o gelo facilitava a passagem. Através da unificação de todos os esforços em Arnäs, em vez de os partilhar por dois lugares, seria possível para eles dois ficarem mais ricos, com todos os terrenos novos compondo uma propriedade maior, edificar um lar mais quente e seguro e deixar para Eskil uma herança maior do que se poderia imaginar antes. Quando chegaram bem na frente da multidão, tiveram que forçar a passagem, é claro, e, sem dar quaisquer sinais, Magnus se manteve silencioso e pensativo. Sot chegou aos pulos, trazendo Eskil nos braços, e levantou-o diante de si para que o povo pudesse ver as roupas dele e que, com ele nos braços, também ela, uma escrava, tinha direito a forçar a passagem, e aí o garoto pulou para o chão e colocou-se em frente da mãe que suavemente colocou as suas mãos nos seus ombros, acariciou a sua face e corrigiu a posição do gorro cheio de penas. Os artistas diante deles estavam vestidos com roupas engraçadas, de cores fortes e com pequenas campainhas penduradas nas pernas e nos punhos, de modo que todos os seus movimentos se misturavam com o som das campainhas». In Jan Guillou, A Caminho de Jerusalém, As Cruzadas, Editora Bertrand Brasil, Grupo Editorial Record, 2002, ISBN 978-852-860-896-0.

Cortesia de EBertrandB/GERecord/JDACT

sábado, 12 de outubro de 2019

A Caminho de Jerusalém. Jan Guillou. «Quando chegou à sua frente, ele fez uma vénia e pediu a ela para pegar o seu manto enquanto ele envolvia o próprio corpo com o seu grande manto azul-celeste…»

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As Cruzadas
«(…) O jovem refreou o seu cavalo bem junto dela e falou com ela, e ela ouviu todas as palavras, entendeu tudo, mas ao mesmo tempo não entendeu nada. Mas Sigrid sabia que o que ele disse significava que ela teria de dar a Deus um presente, que, no momento, era a atitude mais necessária, neste condado, onde o rei Sverker reinava, isto é, dar um bom lugar para os monges de Lurõ. Mais tarde, ela observou bem os monges, à medida que saíam lentamente, após a sua longa apresentação. Não pareciam nem um pouco perturbados pelo milagre que tinham acabado de provocar. Parecia mais como se eles tivessem terminado um turno de trabalho, de quebrar pedra, um entre tantos outros turnos na Götaland Ocidental, como se eles, agora, estivessem pensando mais na ceia do que em qualquer outra coisa. Tinham conversado por um momento, coçado por um momento as manchas vermelhas que muitos deles exibiam nas carecas grosseiramente raspadas. Em muitos a pele era enrugada no rosto e no pescoço. Para eles, as coisas não eram muito fáceis em Lurõ, qualquer um podia ver isso, e o Inverno, certamente, não lhes fora muito benigno. Portanto, a vontade de Deus não era difícil de entender, aqueles que conseguiam cantar milagres precisavam receber um lugar melhor para viver e para trabalhar. E Varnhem era um lugar muito bom. Quando saiu pela escada da catedral, a sua mente clareou por efeito do vento fresco que soprava, e ela entendeu, num golpe repentino de inspiração, quase como se estivesse ainda possuída pelo Espírito Santo, o que e como devia dizer para o marido que vinha na sua direcção naquela confusão toda, com os mantos no braço. Ela examinou-o, com um sorriso meio discreto, mas totalmente seguro. Ela mantinha essa relação porque ele era um marido tranquilo e um pai extremoso, embora não fosse o tipo de homem para ser venerado ou admirado. Era difícil acreditar que ele, de facto, fosse neto de um homem totalmente diferente, o fortíssimo Folke, o Gordo. Magnus era um homem magro e, se não fossem as roupas estrangeiras que no momento ele vestia, as pessoas poderiam dizer que se tratava de um qualquer no meio da multidão.
Quando chegou à sua frente, ele fez uma vénia e pediu a ela para pegar o seu manto enquanto ele envolvia o próprio corpo com o seu grande manto azul-celeste, forrado com pele de marta, prendendo-o ao pescoço com uma fivela norueguesa de prata. Depois, ajudou-a, ensaiando uma carícia com suas mãos delicadas, que não eram as mãos de um guerreiro, e perguntou como é que tinha podido aguentar por tanto tempo as louvações ao Senhor no seu bem-aventurado estado. Ela respondeu que não tinha passado por nenhuma dificuldade, já que, em parte, tinha trazido Sot para ampará-la e, por outro lado, o Espírito Santo dignou-se aparecer para ela. Disse isso de uma maneira que costumava usar quando dava a entender que não falava a sério. Ele sorriu da sua esposa, acreditando que se tratava de mais uma das habituais brincadeiras, e procurou em seguida pelo escudeiro que vinha na sua direcção com a espada trazida da sala de armas. Quando meteu a espada por baixo do manto e começou a colocá-la no cinturão, os seus cotovelos ficaram por baixo do manto, o que fez com que o seu corpo parecesse largo e forte, coisa que ele não era. Então, ofereceu à mulher o seu braço e perguntou se ela queria dar uma voltinha pela praça diante deles e ver o espectáculo ou queria ir imediatamente descansar.
Sigrid respondeu logo que gostaria de esticar um pouco as pernas, sem precisar cair de joelhos a toda a hora, e ele sorriu timidamente de mais essa piada atrevida dela e comentou que seria até divertido ver todos esses jogos para os quais o rei os convidou. No centro da praça actuavam acrobatas franceses e um homem que vomitava fogo, tocavam-se flautas e gaitas e, mais além, de uma das grandes barracas de cerveja escutava-se o som surdo de tambores. Os dois avançaram cuidadosamente entre a multidão onde os mais conceituados visitantes da igreja agora se misturavam com o povo e os servos. Depois de um curto momento, ela inspirou profundamente e disse tudo de uma vez, sem desvios: Magnus, meu querido marido, espero que você se possa manter superiormente calmo e digno, ao escutar agora aquilo que acabo de fazer, começou ela e, fazendo nova inspiração, continuou rápido, antes que ele tivesse tempo de responder: Dei a minha palavra ao rei Sverker de que ofereceria de presente aos monges cistercienses de Lurõ a nossa propriedade de Varnhem. Jamais poderei retirar a minha palavra dada ao rei, é irrevogável. Vamos-nos encontrar com ele amanhã no castelo, para que isso seja escrito e ractificado com o sigilo real». In Jan Guillou, A Caminho de Jerusalém, As Cruzadas, Editora Bertrand Brasil, Grupo Editorial Record, 2002, ISBN 978-852-860-896-0.

Cortesia de EBertrandB/GERecord/JDACT

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Naturalmente, obedeci, que outra coisa podia fazer? Cheguei a Milão passada a noite dos Reis Magos»

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O Áugure
«(…) O mestre indicou o pergaminho que encabeçava aqueles papéis. Nele, em caracteres grandes escritos com tinta vermelha, lia-se o enigma que continha a assinatura de nosso informante. Eu o havia visto muitas vezes, fechava cada uma das cartas do Áugure; mas, até esse momento, não lhe havia dado atenção. A minha vista quis se ofuscar ao pairar sobre aquelas sete linhas e sentir que se haviam transformado no meu principal problema. Diziam:

Oculos ėjus ḋinumera,
ṡed noli voltum ȧdspicere.
In latere nominis
mei notam rinvenies.
Contemplari et contemplata
aliis ṫradere.
Veritas

Naturalmente, obedeci, que outra coisa podia fazer? Cheguei a Milão passada a noite dos Reis Magos. Era uma dessas manhãs de sábado nas quais o brilho da neve nos cega e o ar limpo esfria sem piedade as nossas entranhas. Eu havia cavalgado sem descanso para chegar a meu destino, dormindo três a quatro horas em pousadas nauseabundas, intumescido e húmido em razão de uma viagem de três dias no meio do Inverno mais cruel de que tinha lembrança. Mas nada disso importava. Milão, a capital da Lombardia, a sede de intrigas palacianas e disputas territoriais com a França e os condados vizinhos, sobre a qual eu tanto havia estudado, já descansava aos pés da minha montaria. O lugar era impressionante. A cidade dos Sforza, a maior ao sul dos Alpes, ocupava o dobro da extensão de Roma; oito grandes portas franqueavam uma muralha impenetrável que contornava uma urbe de planta redonda que, vista do céu, devia parecer o escudo de um guerreiro gigantesco. Contudo, não foram as suas defesas que me impressionaram: aquele era um burgo novo, limpo, que transmitia uma intensa sensação de ordem. Os cidadãos não urinavam em cada esquina, como em Roma, nem as prostitutas assaltavam os transeuntes, oferecendo-se. Ali, cada canto, cada casa, cada edifício público parecia pensado para uma função suprema. Até a sua orgulhosa catedral, de aspecto frágil e esquelético, oposta em tudo aos maciços edifícios do Sul italiano, derramava as suas benéficas influências sobre o vale. Vista das colinas, Milão parecia o último canto do mundo onde pudessem se arraigar a desordem e o pecado». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Torriani abriu a porta do estúdio e desceu a escada até ao portão de entrada, sem responder. Saiu ao pátio das cavalariças e procurou a sua mula…»


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O Áugure
«(…) Confuso, eu me persignei diante do funesto panorama que o prior geral traçava. Girolamo Savonarola era, como Roma inteira sabia, o grande problema de Torriani naquela época. Todo o mundo falava dele. Persistente leitor do Apocalipse, esse dominicano de verbo brilhante e grande capacidade de sedução havia acabado de instaurar uma república teocrática em Florença, para preencher o vazio deixado pela fuga da família Medici. De seu novo púlpito, arremetia contra os excessos de Alexandre VI. Savonarola era um louco, ou ainda pior um temerário. Fazia ouvidos moucos às reprimendas que recebia dos seus superiores e ignorava deliberadamente a legislação canónica. Os Dictatus Papae, que desde o século XI eximiam o pontífice e a sua cúria da possibilidade de errar, não o preocupavam, e, desafiando inclusive a sua 19ª sentença (Ninguém pode julgar o papa), gritava no altar que era preciso detê-lo em nome de Deus. O nosso prior geral se desesperava. Não só havia sido incapaz de deter a sede de grandeza daquele exaltado, como também a atitude de Savonarola comprometia toda a ordem perante Sua Santidade. O rebelde, orgulhoso como Sansão perante os Filisteus, havia rejeitado o capelo cardinalício que lhe ofereceram para calar as suas críticas, e havia inclusive recusado abandonar a sua tribuna no convento florentino de San Marco, alegando que tinha uma missão divina mais importante a cumprir. Essa e não outra era a razão pela qual o padre Torriani não queria que a lealdade dos pregadores de São Domingos fosse questionada em Milão. Se o Áugure era um dominicano e tinha razão ao advertir acerca dos planos pagãos do Mouro na nossa nova casa na cidade, nossa ordem seria de novo questionada.
Tomei uma decisão, irmão, sentenciou o prior geral, muito sério, depois de meditar um instante. Temos de afastar qualquer sombra de dúvida sobre as obras de Santa Maria delle Grazie, recorrendo à força do Santo Ofício (maldito), se for preciso. Pater! Não está pensando em julgar o duque de Milão, não é?, perguntei alarmado. Somente se for necessário. Você sabe que nada apraz mais os príncipes seculares que descobrir as debilidades de nossa Igreja e usá-las contra nós. Por isso, somos obrigados a nos antecipar aos seus movimentos. Outro escândalo como o de Savonarola e a nossa casa ficaria muito mal perante os Estados Pontifícios, compreende? E como pretende, se é que posso perguntar, chegar até ao Áugure, comprovar as suas afirmações e reunir a informação necessária para julgá-lo sem levantar suas suspeitas? Pensei muito nisso, meu querido padre Agustín, conjecturou enigmático. Você sabe melhor que eu que, se enviasse um dos nossos inquisidores, intempestivamente, o tribunal de Milão faria muitas perguntas e quebraria a discrição que o caso requer. E, se existir um complô de tanto alcance, todas as provas seriam ocultadas com celeridade pelos cúmplices do Mouro. E então?
Torriani abriu a porta do estúdio e desceu a escada até ao portão de entrada, sem responder. Saiu ao pátio das cavalariças e procurou a sua mula, dando por encerrada aquela reunião de urgência. A tempestade continuava recrudescendo com força lá fora. Diga-me, o que pretende fazer?, repeti. O Mouro previu que daqui a dez dias serão celebrados os funerais oficiais pela duquesa, respondeu por fim. Chegarão a Milão representações de todos os lugares, e então será fácil infiltrar-se em Santa Maria para fazer as averiguações pertinentes e localizar o Áugure. Não obstante, acrescentou, não podemos enviar um religioso qualquer. Deve ser alguém criterioso, que entenda de leis, de heresias e de códigos secretos. A sua missão será encontrar o Áugure, confirmar uma por uma as suas acusações e deter a heresia. E esse deve ser um homem desta casa. De Betânia.
O mestre olhou receoso para o caminho que estava prestes a empreender. Com sorte, levaria uma hora para percorrê-lo, e, se a mula não o derrubasse sobre alguma placa de gelo, chegaria a casa no calor do meio-dia. O homem que necessitamos, disse como se fosse anunciar algo importante, é você, padre Leyre. Nenhum outro resolveria com maior eficácia este assunto. Eu? Aquilo me deixou perplexo. Ele havia pronunciado o meu nome com mórbido deleite, enquanto procurava algo nos alforjes de sua montaria. Mas o senhor sabe que tenho trabalho aqui, obrigações… Nenhuma como esta! E extraindo um grosso maço de papéis amarrados com seu selo pessoal, entregou-o a mim, com sua última ordem: você partirá com presteza para Milão. Hoje mesmo, se possível. E, com isto, olhou o maço de documentos que eu já segurava nas mãos, identificarás o nosso informante, averiguará quanta verdade há por trás desse novo perigo e tratará de remediá-lo». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

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A Feiticeira de Florença Salman Rushdie. «O clandestino ouvia pacientemente a adoradora louvação dos olhos da dama, dos seus lábios, dos seus seios, quadris, barriga, ancas, pés»

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«(…) Hawkins havia deixado um olho em Valparaíso e metade de uma perna em Nombre de Dios, e cantava, toda a noite, lamentosos fados portugueses em honra a uma donzela num balcão no bairro da Ribeira no Porto, acompanhando-se ao som de uma espécie de violino cigano. Benza-Deus chorava copiosamente ao cantar e Uccello entendeu que o bom médico estava imaginando a si próprio cor…, invocando, para se torturar, imagens da sua amada bebedora de vinho do porto na cama com homens que ainda eram inteiros, pescadores fedendo às barbatanas das suas presas, lúbricos monges franciscanos, fantasmas dos primeiros navegadores e homens vivos de toda variedade e cor, gringos e ingleses, chineses e judeus. Um homem vítima de um encantamento de amor, pensou o clandestino, é um homem fácil de distrair e conduzir. Enquanto o Scáthach singrava pelo Chifre da África, pela ilha de Socotra, enquanto carregava suprimentos em Maskat e depois deixava a costa persa a bombordo e, soprado pelo vento da monção, seguia em direcção sul para o porto português de Diu na costa sul do lugar que o dr. Hawkins chamou de Guzerat, lorde Hauksbank desse Nome continuava a dormir pacificamente, um sono tão calmo, benza Deus, segundo o desamparado Hawkins, que prova que a consciência dele está limpa assim como a sua alma ao menos está em boa saúde, pronta para encontrar o seu Criador a qualquer momento. Deus nos livre, disse o clandestino. Benza Deus, que ele não seja levado ainda, o outro concordou prontamente. Durante sua longa vigília ao lado da cama, Uccello muitas vezes perguntou ao doutor sobre a sua amada portuguesa. Hawkins precisava de pouco estímulo para discutir o assunto. O clandestino ouvia pacientemente a adoradora louvação dos olhos da dama, dos seus lábios, dos seus seios, quadris, barriga, ancas, pés. Ele aprendeu os termos carinhosos que ela usava no acto amoroso, termos não mais secretos agora, e ouviu as suas promessas de fidelidade e o sussurrado juramento de eterna união. Ah, mas ela é falsa, falsa, o médico chorou. Sabe disso com certeza?, o viajante perguntou, e então o lacrimoso Benza-Deus sacudiu a cabeça e disse: faz tanto tempo e agora eu não sou mais que meio homem, portanto tenho de concluir o pior, então Uccello o conduziu de novo à alegria. Bom, vamos agora dar graças a Deus, Benza-Deus, porque você está chorando sem razão! Ela é sincera, tenho a certeza; e está à sua espera. Eu não duvido; e se você tem uma perna de menos, bom, então ela vai ter amor sobrando, o amor que era para essa perna pode ir para outras partes; e se você não tem um olho, o outro vai regalar-se duas vezes mais com ela que se conservou fiel, e ama você tanto quanto você a ama! Basta! Louvado seja Deus! Cante alegre e não chore mais.
Dessa maneira, ele dispensava Benza-Deus Hawkins todas as noites, garantindo que a tripulação ficaria desolada se não ouvisse o seu canto, e todas as noites, quando estava sozinho com o milorde inconsciente, depois de esperar alguns momentos, fazia uma busca completa nas acomodações do capitão, procurando todos os seus segredos. Um homem que constrói uma cabine com uma cavidade secreta construiu uma cabine com duas ou três pelo menos, raciocinou e, quando avistaram o porto de Diu, ele havia depenado lorde Hauksbank como uma galinha, tinha descoberto sete câmaras secretas nos painéis das paredes e todas as jóias das caixas de madeira encontradas ali estavam em segurança nas suas novas moradas no casaco de Shalakh Cormorano, porque o Mouro de Veneza de olhos verdes conhecia o segredo de deixar sem peso quaisquer bens segredados dentro daquela roupa mágica. Quanto aos outros objectos de virtude, eles não interessavam ao ladrão. Deixou-os aninhados onde estavam, para chocar os pássaros que pudessem». In Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença, Publicações dom Quixote, 2008, ISBN 978-972-203-692-4.

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A Biblioteca Desaparecida. Luciano Canfora. «Esses doutos foram os únicos, num certo período da história da biblioteca, a usufruir da visão deslumbrante, que viria a ser o sonho de escritores fantásticos, dos livros de todo o mundo»

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A Biblioteca Universal
«(…) Dá também a entender que era aquele Aristeu autor de um livro chamado Quem são os judeus, então em circulação, totalmente baseado, assegura ele, em informações de sacerdotes egípcios, exactamente como o excurso das Histórias do Egipto de Hecateu de Abdera. E, enfim, também tenta dessa maneira, mas aqui é realmente difícil dar-lhe crédito, fazer-se passar por um gentio. Em casos do género, como se sabe, é difícil avaliar se as expressões que falam em colaboracionismo são exageradas e injustas ou se, pelo contrário, contêm uma parcela de verdade. Evidentemente, se se raciocinasse pelo critério, que a alguns parece útil, dos resultados obtidos, teríamos de dizer que a iniciativa então amadurecida foi, para os judeus, das mais favoráveis. Mas também não se pode ocultar a vantagem que os dominadores acabavam tendo, por conhecerem melhor os seus súditos. Ao dizer que também os livros da lei hebraica mereciam ser traduzidos para o grego, Demétrio estava implicitamente afirmando que este não era o primeiro trabalho do género que se faria na biblioteca. De cada povo, informa um tratadista bizantino, recrutaram-se doutos que, além do domínio sobre a sua língua, conheciam profundamente o grego; a cada grupo foram confiados os respectivos textos, e assim preparou-se uma tradução grega de tudo. A tradução dos textos persas atribuídos a Zoroastro, com mais de 2 milhões de versos, era lembrada, mesmo séculos depois, como um empreendimento memorável. Na época de Calímaco, que compilava os catálogos dos autores gregos divididos por armários, Hermipo, seu aluno, pensou em imitá-lo, e talvez intimamente quisesse superá-lo, preparando os índices desses 2 milhões de versos, diante dos quais as poucas dezenas de milhares de hexémetros da Ilíada e da Odisséia pareciam minúsculos breviários. Esses doutos foram os únicos, num certo período da história da biblioteca, a usufruir da visão deslumbrante, que viria a ser o sonho de escritores fantásticos, dos livros de todo o mundo.
Ânsia de totalidade e vontade de domínio, não diversas do impulso que, segundo as palavras de um antigo retórico, levava Alexandre a tentar ultrapassar os confins do mundo. E também se dizia que ele pretendera uma biblioteca de dimensões imponentes em Nínive, para a qual mandara preparar traduções dos textos caldeus. Portanto, o objectivo almejado pelos Ptolomeus e executado pelos seus bibliotecários não era apenas a aquisição dos livros do mundo inteiro, mas também a sua tradução para o grego. Naturalmente, podiam ser reelaborações e compêndios em grego, como, por exemplo, as Histórias egípcias de Maneton, um sacerdote oriundo de Sebenito (uma região do Delta) e actuante em Heliópolis. Maneton reelaborou dezenas e dezenas de fontes, rolos conservados nos templos, listas de soberanos e suas proezas, tal como fizera Megástenes, embaixador do rei Seleuco da Síria na corte indiana de Pataliputra, com tantas fontes indianas. Com as armas dos macedónios, em poucos anos os gregos tornaram-se a casta dominante em todo o mundo conhecido: da Sicília à África do Norte, da península balcânica à Ásia Menor, do Irão à Índia e ao Afeganistão, onde se detivera Alexandre. Os gregos não aprenderam a língua dos seus novos súbditos, mas compreenderam que, para dominá-los, era preciso entendê-los, e que para entendê-los era necessário traduzir e reunir os seus livros. Assim nasceram bibliotecas reais em todas as capitais helénicas: não apenas como factor de prestígio, mas também como instrumento de dominação. Nessa obra sistemática de tradução e aquisição, coube um lugar de destaque aos livros sagrados dos povos dominados, por ser a religião, para quem pretendia governá-los, como que a porta de suas almas.

Deixo os livros para Neleu
Quando morreu Teofrasto, num ano entre 288 e 284 a.C., descobriu-se no seu testamento uma cláusula bastante estranha: deixo todos os livros para Neleu. Aos outros alunos deixava como herança o jardim e a alameda coberta, e os edifícios próximos ao jardim. (Isso lhe era possível graças a Demétrio, que, como senhor de Atenas, conseguira que Teofrasto, mesmo não sendo cidadão ateniense, entrasse finalmente em posse do terreno onde se situava a escola). Os livros, pelo contrário, destinavam-se apenas a Neleu. Porque esse privilégio, e que livros eram? Neleu, natural da cidadezinha asiática de Scepsi, na Tróade, então era provavelmente o último aluno vivo de Aristóteles». In Luciano Canfora, A Biblioteca Desaparecida, Histórias da Biblioteca de Alexandria, 1986, Companhia das Letras, 1989,ISBN 978-857-164-051-1.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Metamorfoses do Espaço Termal. O Caso das Termas de S. Pedro do Sul. Ana Patrícia Carriço. «… elaborar-se-à um documento que poderá ser a base de um manual ou código técnico, a propor às entidades vinculadas ao tema da investigação, nomeadamente às entidades que tutelam o sector do termalismo»

Cortesia de wikipedia, dona helena almeida e jdact

Com a devida vénia à doutora Ana Patrícia Silva Carriço

«(…) Os projectos para estâncias termais, como as obras construídas, não nascem da pura recreação de um autor, artista, ou estudante. Estes projectos são concebidos no seio de uma formação académica ou prática profissional, e respondem a uma necessidade real ou imaginada objetivada num programa. Programa e projecto encontram-se, assim, indissoluvelmente ligados, contrariamente (aparentemente) à produção noutras áreas artísticas. Os programas de arquitectura termal, condicionadores de representações, mas por outro lado motivadores, devem abordar o espaço, na construção e gestão, com diferentes pontos de vista dos vários profissionais envolvidos, como arquitectos, engenheiros, sociólogos, etc., que façam funcionar os espaços criados. Esta lógica de conjunto permite que saúde, ambiente e espaço convivam em perfeita harmonia. A estação termal constitui-se assim, como expressão arquitectónica do meio favorável para a cura, acompanhando de perto as formas de sentir e pensar tanto na medicina como na arquitectura. Este facto está presente na transformação das termas na transição para o século XX: o clima como veículo de cura e a aclimatação como terapêutica.
Numa primeira parte do trabalho, é desse tempo que se vai tratar. Tendo como fio condutor a história, esta tese visa compreender melhor a arquitectura termal no âmbito da evolução legislativa, do planeamento dos espaços, na contribuição e melhoria das condições e experiência dos seus utilizadores. Visa analisar/compreender também o confronto entre o carácter técnico, funcional e o carácter simbólico que moldaram as instituições termais especializadas no tratamento (e mais recentemente no lazer). Numa segunda parte do trabalho, e através da observação de fotografias antigas, de projectos e edifícios que fizeram a história e que têm gravadas histórias, serão à luz do tema da presente tese, analisadas as metamorfoses do espaço termal, mais concretamente o caso das Termas de S. Pedro do Sul, onde serão examinados os Balneários existentes como: o balneário romano, o balneário onde se banhou Afonso Henriques, o Balneário Rainha dona Amélia e o Balneário Afonso Henriques (ou Centro Termal) em funcionamento actualmente, tendo em atenção a sua arquitectura peculiar, a sua história e os seus efeitos, bem como a possibilidade da manutenção e melhoria das estâncias termais do futuro. Serão ainda analisadas as implicações das características destes espaços na relação entre as pessoas e o seu meio ambiente, e as implicações no espaço social construído, com o claro objectivo de reformular as estruturas arquitectónicas que na actualidade servem para o uso termal. Tendo em atenção o mundo cada vez mais sequioso de progresso e cada vez com mais ofertas na área do lazer, analisar-se-ão os espaços, as práticas, os rituais e os seus percursos até hoje, bem como o seu reaparecimento com uma nova projecção.
Por fim, e numa terceira e última parte, salienta-se que, a partir de todos os estudos efetuados, elaborar-se-à um documento que poderá ser a base de um manual ou código técnico, a propor às entidades vinculadas ao tema da investigação, nomeadamente às entidades que tutelam o sector do termalismo.

Metodologia de Trabalho
Decorrente das características dos objectos de pesquisa e das opções que os delimitaram e tendo em vista atingir os objectivos fixados na secção anterior, a metodologia foi programada de forma a encadear o processo de investigação, de uma maneira lógica, activa e crítica, consistente com as questões, chave, tendo privilegiado uma abordagem interdisciplinar, procurando explicitar e compatibilizar conceitos de diferentes origens, sem esquecer o ponto de vista do território da prática do arquitecto». In Ana Patrícia Carriço, Metamorfoses do Espaço Termal, O Caso das Termas de S. Pedro do Sul, Tese para obtenção do Grau de Doutor em Arquitectura, Universidade da Beira Interior, Faculdade de Engenharia, Covilhã, 2013.

Cortesia de UBeiraInterior/JDACT