terça-feira, 20 de novembro de 2018

A Criada do conde Henrique. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «… voltando lá passados três anos, para o levantar e entregar nas mãos de Paio Soares. O conde Henrique, Martinho de Soure e o vosso primeiro marido sempre confiaram em mim»

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A Criada do conde Henrique. 1147
Coimbra, Outubro de 1147
«(…) Mal o conde morreu, a maldosa dona Urraca acusou Egas Moniz de ter trocado o aleijadinho Afonso Henriques por Lourenço Viegas, dizendo que o milagre que curara as enfermidades do menino era uma invenção! Para se proteger contra a eventualidade de alguém descobrir o seu bastardo secreto, que sabia afinal vivo, pois o conde lho dissera no auge da discussão, a rainha Urraca lançou uma cortina de fumo que sujava a reputação do conde Henrique, de dona Teresa e do pequeno Afonso Henriques. Que maldade!, indignou-se Chamoa. Apesar dos veementes desmentidos de Egas Moniz, o objectivo da velhaca Urraca fora atingido. A intriga de Compostela, colou e uma desconfiada dona Teresa nunca mais apreciou o filho com os mesmos olhos. Com um suspiro piedoso, Afonso VII recordou: a minha tia Teresa sempre suspeitou de que Afonso Henriques não era seu filho. Decerto, por isso, nunca o amou.
O que nenhuma das duas irmãs soube é que, antes de falecer, o moribundo conde Henrique se confessara a Martinho Soure, que lhe dera a extrema-unção e ouvira dele um desejo final. Temendo que dona Urraca descobrisse o esconderijo do bastardo, o conde Henrique pediu ao pároco de Cárquere que entregasse o menino a um nobre da sua confiança. Quem era esse portucalense?, perguntou Chamoa. Afonso VII suspirou, antes de responder: o vosso primeiro marido, Paio Soares. O coração da minha cunhada quase explodiu e ela sentiu-se invadida por um mal-estar doloroso. Ramiro, o bastardo do seu primeiro marido, supostamente gerado num encontro deste com uma deslavada soldadeira, não era afinal filho dele, mas sim da rainha Urraca?
Atarantada de perplexidade, balbuciou: o meu primeiro marido sabia quem era a mãe de Ramiro? Afonso VII admitiu essa possibilidade. Após os obscuros acontecimentos de Astorga, o alferes Paio Soares afastara-se para o seu castelo, na Maia, temendo a fúria vingativa de dona Urraca. - Vosso marido só regressou à corte portucalense depois da morte de minha mãe, recordou o imperador. Tinha medo dela. Portanto, o seu meio-irmão Ramiro, filho de dona Urraca, vivera anos como bastardo de Paio Soares. E o único que conhecia esta verdade era Martinho, o pároco de Cárquere e mais tarde de Soure. Quem vos contou tal coisa?, perguntou Chamoa. O imperador esclareceu-a: como sabeis, o padre Martinho foi torturado e morto pelo príncipe Ismar, em Córdova. Foi este quem me contou a verdade sobre Ramiro, quando veio a Toledo falar comigo. Curiosamente e a partir desse dia, Afonso VII desinteressara-se da intriga de Compostela. Afinal, Afonso Henriques nunca fora trocado por Lourenço Viegas, escusava de tentar miná-lo com essa falsa trapaça! Subitamente amputado da arma política com que tentara denegrir o primo portucalense, esquecera o assunto até porque julgava o seu meio-irmão Ramiro já morto. Só em Abril deste ano soube que ainda vivia, adiantou Afonso VII.
Alguém viera a Toledo, informá-lo de que o antigo templário se encontrava em Lisboa, onde usava o falso nome de Orimar. O morto-vivo?!, aterrou-se Chamoa. O imperador acalmou-a, garantindo-lhe que o seu espião já regressara a Lisboa, com ordens para matar Ramiro. Afonso Henriques sabe disso?, perguntou ela. Afonso VII abanou a cabeça, era óbvio que não. Por fim, com um sorriso malicioso, perguntou se ela não desejava saber quem era a misteriosa criada do conde Henrique. A mulher que foi ao Mosteiro de Cárquere?, perguntou Chamoa. Divertido, Afonso VII contou que, em Astorga, ainda havia quem se recordasse de uma antiga criadita que aos vinte anos abandonara o castelo dias depois da morte do conde Henrique. O seu nome era Ana Justa, ironizou o imperador. A vossa ama.
Dona Justa era a criada do conde Henrique, a mulher que fora a Cárquere deixar e buscar Ramiro, o bastardo de Urraca! Chamoa nem queria acreditar: a única depositária viva dos segredos do conde Henrique estivera sempre perto dela, cuidando dos seus seis filhos! Virgem Santíssima..., murmurou, atordoada. Depois de a deixar recuperar a calma, o imperador puxou-a e começou a tocá-la nos seios. Contara-lhe tudo, agora queria mais. E, apesar de atarantada com o que soubera, Chamoa deu-se, pois sentia-se grata. Ele merecia, revelara-lhe a intriga de Compostela. Quando, já no final de Setembro, a minha cunhada regressou a Coimbra, chamou a ama e contou-lhe o que descobrira. Porque nunca haveis falado comigo?, perguntou. Dona Justa, sempre serena, suspirou. Até hoje, ninguém me perguntou nada. Depois, confirmou que quase quarenta anos antes ajudara dona Urraca a dar à luz o bastardo, em Astorga, após o que fora a Cárquere com o conde Henrique depositar Ramiro, voltando lá passados três anos, para o levantar e entregar nas mãos de Paio Soares. O conde Henrique, Martinho de Soure e o vosso primeiro marido sempre confiaram em mim». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.
                    
Cortesia da CasadasLetras/JDACT

A Criada do conde Henrique. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «De cabeça perdida, o sogro expulsou o conde Henrique de Toledo e este abandonou a capital desiludido com a esposa e com a cunhada, profetizando uma guerra próxima entre cristãos»

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A Criada do conde Henrique. 1147
Coimbra, Outubro de 1147
«(…) Minha mãe quis matar o menino... Incapaz de tal crime, o conde Henrique prometeu cumprir as instruções recebidas, mas mal a cunhada partiu para Leão levou o recém-nascido para Portugal e depositou-o no Mosteiro de Cárquere. Então o menino era filho de dona Urraca?, espantou-se Chamoa. Mas quem era o pai dele? O monarca leonês encolheu os ombros: o progenitor era incógnito, podia ser qualquer um dos amantes de Urraca. Aliás, nada mais teria acontecido nessa triste história não fosse o destino ter dado um salto imprevisto. Dona Urraca e o conde Henrique zangaram-se!, contou Afonso VII. O motivo da discórdia fora a sucessão imperial. Perto do final desse ano, o velho Afonso VI convocou para Toledo a filha dona Urraca, o casal Teresa e Henrique e também Afonso de Aragão, que aguardavam o óbvio: a divisão tripartida do império hispânico.
Sem nenhum varão a quem deixar o trono, pois o seu único filho, Sancho, morrera às mãos dos mouros, o amargurado Afonso VI certamente cumpriria a tradição visigótica, distribuindo os reinos pelos familiares. Assim, dona Urraca esperava herdar Leão e Castela, dona Teresa ambicionava reinar na Galiza e em Portugal, e Afonso de Aragão era a solução óbvia para este reino e para o de Navarra. Contudo, fiel à ideia de unificação dos Cinco Reinos que agregara debaixo da sua coroa imperial, o amargurado Afonso VI impôs outra solução, tão imaginativa quanto perigosa. A minha mãe, Urraca, casaria com Afonso de Aragão, ficando ambos regentes do império até gerarem um filho, o futuro imperador da Hispânia!, enxofrou-se Afonso VII. Chamoa apercebeu-se de que, mesmo passados tantos anos, a decisão do avô ainda o incomodava, pois alterava a linha de sucessão, retirando-lhe os seus direitos de primogénito de dona Urraca. Mas só uma pessoa se indignou! Dona Urraca, manhosa como sempre, calara-se. Afonso de Aragão também, embora abominasse a mulher que era obrigado a desposar. E mesmo dona Teresa acanhou-se perante o pai. O único que se enfureceu foi o conde Henrique, pois assim o seu filho, Afonso Henriques, nunca seria rei da Galiza e de Portugal! Meu avô jamais lhe perdoou...
De cabeça perdida, o sogro expulsou o conde Henrique de Toledo e este abandonou a capital desiludido com a esposa e com a cunhada, profetizando uma guerra próxima entre cristãos. E mal Afonso VI faleceu a previsão sombria concretizou-se. Ainda nem um ano passara e já os recém-casados Urraca e Afonso de Aragão se agrediam. A guerra começou na cama deles e espalhou-se pela Hispânia..., recordou o imperador.
Os nobres dos vários reinos escolheram lados, mas o conde Henrique não quis tomar partido e decidiu rumar à Terra Santa, onde os templários lhe entregariam a famosa relíquia sagrada, a Lança de Cristo. Quando regressou, dona Urraca desejou fazer as pazes, pois precisava dele na luta contra o marido. E, apesar de relutante, o conde Henrique dirigiu-se a Astorga, o local onde Urraca se refugiara, três anos antes, para dar à luz o seu bastardo, coisa que certamente mexeu com os humores de ambos. Por mais que dona Teresa tentasse, não se entenderam e a implacável Urraca decidiu envenenar o cunhado. Em poucos dias, o conde fraquejou...
A peçonha é um veneno de efeitos lentos, mas inexoráveis e, percebendo que estava condenado, o conde Henrique mandou chamar à pressa Egas Moniz e o filho Afonso Henriques, que tinha à época apenas três anos, bem como o seu confessor, Martinho Soure, e o seu alferes portucalense, Paio Soares. Foi nesses dias que minha mãe inventou uma patranha espantosa, murmurou Afonso VII». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.
                    
Cortesia da CasadasLetras/JDACT

A Criada do conde Henrique. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Mal entrou no salão do rei dos Cinco Reinos, sentiu nos olhos deste a flâmula do macho acesa. A rainha leonesa estava fora, em Sahágun, a rezar pela vitória em Almeria»

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A Criada do conde Henrique. 1147
Coimbra, Outubro de 1147
«Queridos filhos e netos, para vos contar como Chamoa desvendou os intrincados meandros da intriga de Compostela é necessário recuar aos últimos dias de Agosto, a uma manhã em que a cidade de Coimbra acordou muito quente e Chamoa também. Se, em Lisboa, os soldados sofriam sem mulheres, a ela custava-lhe a ausência de Afonso Henriques e de Mem. Um era o seu rei, o outro o amigo. A arder de carência, Chamoa concluiu que só permanecia na corte para proteger os seus dois filhos reais e Pêro Pais. Por isso aqui estou, a aturar a minha nova amiga.
Em Coimbra e partido o rei, Mafalda da Sabóia anulara a rivalidade ciumenta e as duas passavam horas juntas. Quase todos os dias, a rainha ia rezar à Sé, e Chamoa acompanhava-a, sem saber bem porquê. Nunca fora de muitas rezas e embirrava com o cheiro a incenso das igrejas e com os cantos dolentes dos padres.
Não são bem homens, nem olham para mim.
Naquela acalorada manhã, só lhe apetecia pecar. Sentia falta do cheiro de um macho, de mãos duras que a afagassem. Suspirou e divagou até o seu espírito aterrar na intriga de Compostela. Um beco sem saída. Ninguém sabia nada, a não ser... De repente, estremeceu. O que lhe havia dito Afonso VII, no último Natal?
Podeis sempre visitar-me em Toledo, no final do Verão…
O coração dela acelerou. E se fosse lá dar-se ao imperador? Anos antes, em Zamora, estivera quase a fazê-lo e, em Compostela, o primo direito de Afonso Henriques voltara a mostrar-se interessado. Nunca a filhara, mas sempre sonhara com isso...
É desta!
Saltou da cama invadida por uma energia imparável, juntou roupas numas sacas e chamou dois dos seus filhos, o mais novo dos três de Paio Soares e o que tivera de Mem Tougues. Mandou-os irem aprontar três cavalos e só a dona Justa explicou aonde iam. A Toledo?, espantou-se a ama. Nossa Senhora! Chamoa viu-a benzer-se, como se ela fosse ao inferno, mas logo a tranquilizou. Estivera presa em masmorras, nada lhe metia medo. Só não queria que a rainha soubesse do seu paradeiro. Dizei à francesa que fui a Tui, visitar a minha mãe. Sem hesitar, correu na direcção das cavalariças e cavalgou para norte com os dois filhos, a caminho de Viseu, onde tomaram a estrada que os levou a Salamanca, depois a Ávila e por fim a Toledo. A viagem demorou duas semanas e a sorte bafejou Chamoa, ao chegar à capital do império hispânico. Um único dia de atraso e Afonso VII teria partido para Almeria sem a ver.
Virgem Santíssima, será que me recebe?
Na hospedaria onde se instalaram, Chamoa vestiu uma bela dalmática azul-clara, penteou a farta cabeleira loira e perfumou-se. Continuava muito bela e sabia-o, mas Afonso VII já se desinteressara dela uma vez. Teria de usar todas as suas armas.
Quando me empenho, nenhum me resiste.
Mal entrou no salão do rei dos Cinco Reinos, sentiu nos olhos deste a flâmula do macho acesa. A rainha leonesa estava fora, em Sahágun, a rezar pela vitória em Almeria. Ele podia tomá-la. A que devo a visita?, perguntou o imperador. Chamoa justificou-se: há muito que tinham pendente um encontro, que infelizmente nunca se concretizara. Porém, Afonso VII era uma águia fina e percebeu porque ela ali viera. Sois mesmo curiosa..., murmurou. Jantaram primeiro, beberam vinho aragonês e depois o imperador conduziu-a até à cama, onde a despiu, a beijou e a tomou. E ela deu-se, para que ele se sentisse grandioso, mas sobretudo para que lhe contasse o que queria saber. Vamos a isso..., anunciou Afonso VII. Sentaram-se, nus, em cima dos lençóis e, quando Chamoa lhe perguntou sobre a troca de Afonso Henriques por outra criança, o imperador de Leão recuou quarenta anos, até à data em que morrera o seu pai, Raimundo da Borgonha. Como muitas vezes acontece, a viúva desvairou-se... De comportamento errático, dizia-se que a irrequieta dona Urraca desconfiava até da própria sombra, mas era a tendência para a devassidão que não a recomendava. Falecido o marido, coleccionava amantes , para grande incómodo do pai dela, o imperador Afonso VI. Meu avô e também de Afonso Henriques, lembrou Afonso VII.
Tanta balbúrdia na cama deu mau resultado. Certo dia, dona Urraca apresentou-se em Astorga grávida. Temendo que o pai a expulsasse de Toledo, decidira refugiar-se num castelo do único homem em quem confiava: o conde Henrique, marido da sua irmã dona Teresa. Perante a cara pasmada de Chamoa, Afonso VII contou que o amável conde prometera manter sigilo absoluto do pecadilho da cunhada. Aliás, meses depois, quando a criança nasceu, o bom do conde Henrique retornou a Astorga para solucionar o sarilho, mas espantou-se com a crueldade de dona Urraca». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.
                    
Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Os Reféns. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Misturando-se com o povo, atravessaram a almedina, subindo e descendo a muralha exterior de Silves, no mesmo local por onde Mem entrara…»

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Os Reféns. 1147
Silves, Agosto de 1147
«(…) Inimigo vencido, sempre exibido.
Ao verem o chefe morto, os últimos soldados do sufi renderam-se, mas a deposição das armas de nada lhes valeu, pois um a um foram também eliminados, empapando o chão do jardim de sangue vermelho. Para celebrar a vitória, os assassins colocavam as cabeças nos topos das lanças, mas de repente pararam, quando o seu chefe apareceu. Cercai a cidade e não deixeis a princesa escapar!, ordenou Ibn Wasir.
Cautelosos, Mem, Zaida e Maryam mantiveram-se no túnel e só o abandonaram quando a noite chegou. Misturando-se com o povo, atravessaram a almedina, subindo e descendo a muralha exterior de Silves, no mesmo local por onde Mem entrara, à tarde. Depois, atravessaram os arrabaldes, mas a dado momento Zaida disse a Mem que Maryam estava cansada. Ficar é morrer. Temos de fugir, replicou ele. Fizeram-no através dos campos paralelos ao rio Arade, mas quando o dia nasceu tiveram azar. Os soldados que os descobriram eram quatro, dois a cavalo, dois a pé. Patrulhavam a zona à procura deles, pois Wasir não desistira. Rápido, o antigo almocreve tirou uma flecha da aljava e disparou. Um dos cavaleiros tombou morto, Mem atirou uma segunda flecha e o primeiro peão também caiu, mas o outro cavaleiro deu meia-volta e afastou-se, desatando a tocar uma trompeta, enquanto Mem lançava a terceira flecha e matava o último peão mouro. O cavalo!, gritou ele, correndo.
Montou o animal do soldado morto, ajudou Zaida a subir e colocou Maryam no meio dos dois. Apressados, cavalgaram pela floresta, acompanhando o rio e ouvindo os gritos dos perseguidores. Depois de uma pequena elevação, Mem viu finalmente o barco do amigo, mas um grupo de dez mouros estava agora demasiado perto. Vai, vai!, gritou. Mem forçou o cavalo a entrar na água, mas já estavam na mira das flechas, era perigoso continuarem montados. Sem aviso, Mem atirou Zaida e Maryam para a água e depois lançou-se também, sempre com as mãos nas rédeas do animal, para não o perder. O cavalo seria o escudo para os proteger das flechas, que começaram a cair perto deles. Mas não era fácil obrigá-lo a avançar e, como ele tinha de segurar Maryam com uma das mãos, Zaida teria de nadar debaixo de água algum tempo, até perto do barco.
Não consigo, gemeu a princesa. A criança começou a chorar, quando caíram as primeiras flechas incendiárias e foi isso que fez Zaida mergulhar. Porém, o barco continuava longe. Então, Mem largou o cavalo e nadou também, levando Maryam. Estou aqui!, gritou Zaida, tentando acalmar a filha. Quando se juntou a. Zaida, Mem percebeu que era impossível o barco aproximar-se, as flechas podiam atingi-lo. Temos de aproveitar a corrente, disse. Agarrou os braços dela, como se dançassem, e colocou Maryam no meio, deixando a força do rio levá-los. Apesar do pânico da criança, lograram afastar-se, a maré estava a descer, iam para o mar. Mais à frente, o rio alargou e o piloto atirou-lhes uma corda. Não foi fácil subirem a bordo, os soldados continuavam a atirar flechas, e o piloto alarmou-se quando uma delas atingiu a vela. Mer…, vai pegar fogo!» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.
                    
Cortesia da CasadasLetras/JDACT

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Os Reféns. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Temendo não ter tempo, Mem aproximou-se da varanda do palácio até onde, um dia, tinha subido para salvar a vida a Zaida»

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Os Reféns. 1147
Silves, Agosto de 1147
«Quando os exércitos de Ibn Wasir entraram finalmente em Silves, Mem temeu um destino trágico para a princesa Zaida e obrigou-se a uma manobra perigosa. Arriscaria a vida por ela. Era essencial, pois Wasir sempre a odiara desde a primeira vez que haviam chegado a Mértola, há oito anos.
Homem com rancor, vinga-se com ardor.
Já apoiado pelos almóadas africanos, Ibn Wasir controlava agora uma enorme taifa, um vasto reino muçulmano, cuja sede era em Badajoz e que incluía também Alcácer, Évora, Beja, Cáceres e a recentemente reconquistada Mértola. E Silves estava por fim a cair-lhe nas mãos. Ibn Qasi, o fanático sufi, perdera a gente do Al-Gharb. Chegado de Lisboa já com Silves cercada, Mem escondera-se nos arrabaldes, sem conseguir falar com Zaida, que nunca saía do palácio. Desprovido de um plano, esperou a resolução final da luta. O momento certo para avançar surgiu quando ruiu parte da muralha, no sueste da povoação. Centenas de soldados de Ibn Wasir entraram aos gritos e as tropas de Qasi, em vez de recuarem para a alcáçova, tentaram pelejar nas ruelas, cometendo um erro clamoroso, pois depressa foram dizimadas pelas hordas numerosas do antigo alcaide de Mértola.
Emir sem talento, final sangrento.
Rápido, Mem correu para a zona norte da povoação, quase deserta e isenta de escaramuças. Laçou a corda num adarve e içou-se até ao topo da muralha exterior, descendo do outro lado e avançando pelas ruas da almedina encostado às paredes, como se fosse um assustado habitante, magro devido à penúria alimentar gerada pelo cerco.
Povo esfomeado, mais facilmente é vergado.
História repetida, menos apetecida. As gentes de Silves rendiam-se sem drama e o habilidoso emir de Badajoz não promovia carnificinas inúteis. Os soldados ignoravam o povo, o que ajudou Mem a chegar perto do palácio. Já ali estivera antes e recordou-se da ribeira que passava por debaixo da muralha interior. De cabeça baixa, com o arco e a aljava de flechas a tiracolo, entrou na água, e atravessou uma galeria, saindo do outro lado. Não viu ninguém, mas escutou gritos no interior do palácio. Um estrondo violento ecoou, quando os portões da alcáçova caíram. Temendo não ter tempo, Mem aproximou-se da varanda do palácio até onde, um dia, tinha subido para salvar a vida a Zaida.
Como da primeira vez, trepou pela parede e, ao avançar na varanda, viu Zaida no quarto, sentada na cama com Maryam ao lado. As duas rezavam. Zaida, temos de fugirl!,gritou ele. O olhar da princesa revelou o caleidoscópio de emoções contraditórias que lhe habitava a alma: a responsabilidade de uma mãe angustiada, o desgosto pela perdição da cidade, a esperança na salvação ao vê-lo. Mas a tudo se sobrepunha uma profunda descrença, um terror sinistro de Ibn Wasir. Mem, são muitos, só podemos rezar, gemeu ela. O antigo almocreve, para lhe dar confiança, apenas disse: vinde comigo. Por instantes, ela acreditou, mas logo abanou a cabeça. Wasir vai matar-nos.
Empenhado, Mem empurrou-as para a varanda. No jardim, os primeiros soldados de Wasir apareciam. Onde é a escada?, perguntou Mem. A princesa apontou para um canto da varanda e os três desceram os degraus de pedra por onde as moças do harém subiam, quando vinham satisfazer Ibn Qasi. Chegaram a uma pequena sala, onde havia uma porta para o exterior. Mem pegou ao colo em Maryam e avançou sem hesitar. Vamos! Já no jardim, apontou para a galeria subterrânea e acelerou o passo, seguido por Zaida. Enquanto corria, o cavaleiro de Almourol viu dezenas de guardas aparecerem e, de repente, distinguiu Ibn Qasi.
Mau combatente, morre sem gente.
Rodeado pelos seus últimos fiéis, de alfange na mão, o sufi lutava contra vários feddayins. Com um gesto rápido, Mem obrigou a princesa e a filha a desviarem o olhar, forçando-as a esconderem-se no riacho subterrâneo. Ficai quietas, ordenou. Não as ia deixar ver Qasi morrer e só ele observou o marido de Zaida a ser atingido na barriga, que se abriu em sangue e vísceras. Depois de cair, Qasi foi degolado por um assassin, que pegou na cabeça do sufi pelos cabelos e a levantou no ar, com uma alegria doentia». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.
                    
Cortesia da CasadasLetras/JDACT

O Cerco. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Fátima fora a luz do mundo de Zhakaria, a labareda viva que dera sentido à sua existência, e o sofrimento da princesa amada diminuía-o»

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O Cerco. 1147
Lisboa, Junho de 1147
«(…) Feita a combinação que com ele queria fazer, Mem dirigiu-se à casa onde, muitos anos antes, conhecera Raimunda. Fora ali que reencontrara Sohba, a velha mulher de negro e estava certo de que era lá que Raimunda e a Pústula se escondiam.
Cama conhecida, sempre preferida.
Estavam três feddayins à porta, os últimos Mantos Vermelhos. A maioria dos assassins, vendo que a saúde de Orimar se degradava e abominando Raimunda, tinha ido a Badajoz oferecer-se a Ibn Wasir. Os três presentes, os mais dedicados, eram certamente os menos ferozes e capazes.
Bom coração, falhas na mão.
Resguardado atrás de um muro, Mem viu Raimunda vir à porta. A antiga esposa de Ismar mantinha os traços físicos, magra e tensa, mas o aspecto geral alterara-se. Parecia imitar Sohba, de quem era neta. Andava curvada, apresentava os cabelos desgrenhados e o manto que a cobria era velho, negro e poeirento. Mas Mem conhecera Sohba, aquela pantomina era falsa. Ao contrário da velha mas bondosa mulher de negro, Raimunda continuava odiosa, o olhar gélido carregado de ira não enganava. Estava em Lisboa para matar Afonso Henriques. Satisfeito, o antigo almocreve regressou ao casão e informou os companheiros de que estava na hora de irem ao palácio de Zhakaria. Quando lá chegaram, pediram para falar com o wali, que logo se enfureceu por ver ali Mem. Malik ainda ergueu o alfange, mas o cavaleiro de Almourol deu um pronto grito: sei onde está a vossa filha! Que dizeis?, balbuciou Zhakaria. Mem explicou-se, enquanto apreciava o envelhecido governador. Os cabelos tinham-se acinzentado, as rugas multiplicado, as olheiras aprofundado. Zhakaria já, não era o guerreiro implacável que Mem conhecera. Algo se danificara dentro dele, uma sombra nascera no fundo dos seus olhos.
Amor a morrer, alma a enegrecer...
Fátima fora a luz do mundo de Zhakaria, a labareda viva que dera sentido à sua existência, e o sofrimento da princesa amada diminuía-o. Mas a raiva ainda existia dentro dele. Devia cortar-vos a cabeça!, rosnou Zhakaria. Mem enganara-o, visitara-o em Santarém fingindo preocupações falsas, só para vistoriar as fraquezas da cidade. Estes nem dão luta..., incentivou Malik. O antigo almocreve deixara as armas em casa, para melhor convencer o wali das suas boas intenções, mas temeu não ser capaz de conter tanto ódio. Em silêncio, amaldiçoou Giraldo, a besta à solta. Nunca desejara ferir Fátima, por isso apresentou um pedido de desculpas. Morremos quando Alá quer, ripostou Zhakaria. Não estava interessado em pedir satisfações pelo engodo. Guerra era guerra, teria feito o mesmo. A sua única preocupação era a filha. Seria possível trazê-la para Lisboa? A minha mulher quer vê-la, antes de morrer. Mem explicou que a menina estava bem, mas não a podia entregar aos pais. Afonso Henriques jamais aceitaria devolver a criança antes de as lutas terminarem em Lisboa.
O que quer o vosso rei?, perguntou o arguto Zhakaria, que relembrou não ter autoridade na cidade. Se o conselho de notáveis entregasse Orimar, Raimunda e a Lança, disse Mem, os cristãos não saqueavam a cidade. E deixam partir os governantes com vida. Abu Zhakaria meditou em silêncio, medindo as implicações da proposta. Depois, perguntou: Afonso Henriques está convencido de que é fácil conquistar Lisboa?
Amargurado, concedeu que perdera a sua Santarém quando propusera umas tréguas ao rei de Portugal. Desde essa data, passara a ser olhado de lado pelos muçulmanos. Muitos homens recusaram-se a combater nas suas fileiras e por isso Santarém ficara exposta e enfraquecida. Mas Lisboa não. Têm mais de quinze mil soldados a defendê-la, os cristãos vão morrer como moscas!, exclamou. Mem concedeu que a luta seria imprevisível. Contudo, relembrou que um padrão se repetia na Andaluzia. Sem os africanos para os ajudar, os muçulmanos da Hispânia perdiam as guerras. Afonso VII estava a chegar a Almeria e Afonso Henriques encontrava-se às portas de Lisboa. A quem ireis pedir reforços? A Ibn Wasir? A Ibn Qasi, de quem ninguém gosta?, questionou Mem». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

O Cerco. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Os actuais emires andaluzes eram uns incapazes, o avanço militar de Afonso VII aprofundara-se e ninguém conseguia organizar uma defesa conjunta, quanto mais salvar Lisboa»

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O Cerco. 1147
Lisboa, Junho de 1147
«Em Lisboa, um frenesim assustado tomara conta das gentes. Temia-se a chegada das tropas cristãs, rumores e pavores corriam pelas ruelas mais depressa do que cães. Mem e as três irmãs conseguiram entrar na cidade, mas haviam sido interrogados pelos guardas diversas vezes. A desconfiança é uma condição essencial para a sobrevivência e eles viram vários suspeitos serem executados.
Medo permanente, mata muita gente.
Cessara completamente a libertinagem do passado, de que Mem usufruíra. Os mais de cem mil lisboetas tinham suspenso a festa de encontros furtivos e o trabalho das soldadeiras era discreto, fosse porque o conselho de notáveis impusera regras apertadas, ou porque o medo fechava as pernas às mulheres e abatia o ânimo aos homens.
Guerra por perto, pior que deserto.
Naquele Verão, os lisboetas sabiam só poder contar consigo próprios. Em Córdova, já não existia nenhum príncipe Ismar que corresse a defendê-los, como cinco anos antes. Os actuais emires andaluzes eram uns incapazes, o avanço militar de Afonso VII aprofundara-se e ninguém conseguia organizar uma defesa conjunta, quanto mais salvar Lisboa.
Sobram inimigos, faltam amigos.
Os únicos que talvez pudessem fazê-lo eram Ibn Qasi e Ibn Wasir. Porém, o marido de  Zaida, cada vez mais inflexível nos seus éditos religiosos, copiados dos almóadas de Marrocos, continuava reduzido às cidades de Mértola e Silves, com receio de um ataque de Ibn Wasir. Um temor justificado, pois este jurara fidelidade aos almóadas e tinha como objectivo a reconquista de Silves, não o auxílio à distante Lisboa.
Perda sofrida, desforra prometida.
Mem vivia preocupado com as notícias provenientes do Al-Gharb, temendo pelo futuro de Zaida. A princesa permanecia em Silves, juntamente com a filha Maryam, e o cavaleiro de Almourol queria partir para lá antes que as tropas de Wasir atacassem a povoação.
Amor em perigo, conta comigo.
Só a lealdade a Afonso Henriques o fazia adiar a viagem. Tinha uma missão: viera ali para falar com Abu Zhakaria. Depois, podereis salvar Zaida, relembrou Ália. As três irmãs, dirigidas por Mem e Martim Mohab, efectuaram uma contagem das forças muçulmanas. Lisboa dispunha de mais de quinze mil soldados, incluindo milhares de arqueiros e besteiros, colocados estrategicamente ao longo das muralhas, cuja forte espessura e excelente estado permitiam aguentar um cerco prolongado. As vinte e cinco torres da cidade, construídas quase todas pelos cristãos no século anterior, seriam duras de tomar.
Cidade avisada, está bem preparada.
Lisboa ia vender cara a derrota e, apesar de não ter um líder forte a chefiá-la, o previdente conselho de notáveis organizara a povoação para um longo período de atribulações, apostando que, se resistissem durante o Verão, no princípio do Outono os cristãos perderiam o ímpeto e os cruzados seguiriam para a Terra Santa. Têm provisões para meses, informou Ília, que acabara de descobrir os grandes armazéns onde os sitiados guardavam o trigo, as frutas e as carnes secas. Realizado este levantamento, só faltava a Mem o encontro com Abu Zhakaria. Já o tinham visto, acompanhado por Malik, que o servia com lealdade idêntica à que devotara ao príncipe Ismar. É tempo de falar com ele, insistiu Élia. O cavaleiro de Almourol prometeu que assim faria, mas primeiro pediu às raparigas e a Martim Mohab que permanecessem recolhidos num casão. De manto à cabeça, para que ninguém o reconhecesse, caminhou pelas ruelas da almedina lisboeta até à morada do seu amigo piloto, o mesmo que nos levara e a Afonso Henriques, anos antes, até ao rio Arade». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

domingo, 18 de novembro de 2018

As Crianças de Cárquere. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Não estava mais ninguém em Astorga?, insistiu a minha cunhada. Como meu pai baixou os olhos, cansado de tanto falar, Teresa Celanova pediu-nos que terminássemos…»

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As Crianças de Cárquere. 1146
Lamego, Agosto de 1146
«(…) Egas Moniz morreu no terceiro dia do mês de Agosto desse ano e no seu enterro, em Lamego, além do meu melhor amigo e da rainha Mafalda da Sabóia, compareceram os principais notáveis da corte portucalense: Peres Cativo, Gonçalo Sousa, João Peculiar, os bispos de Coimbra e do Porto, o prior Teotónio, Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, e muitos outros nobres portucalenses. Durante as solenes exéquias, causou-me curiosidade ver, perto do túmulo, um monge do Mosteiro de Cárquere. Quando questionei a viúva de meu pai, Teresa Celanova, esta disse-me que o indivíduo era uma presença habitual em Lamego, sendo o confessor de meu pai, a quem dera a extrema-unção. Observei-o com atenção, sabendo já que se chamava Leopoldo. Com cerca de quarenta anos, apresentava um andar curvado e um aspecto assaz frágil. Não tinha idade para conhecer o conde Henrique, mas, por ser tão próximo de Egas Moniz e monge em Cárquere, reacendeu as minhas dúvidas, que meu pai tentara extinguir dois dias antes.
Cientes de que a saúde de Egas Moniz estava imparavelmente degradada, Chamoa e eu tínhamos corrido a Lamego. Quando nos aproximámos da cama de meu pai, notei que, mesmo moribundo, se desagradava com a presença da minha cunhada. Que faz ela aqui?, gemeu Egas Moniz. Desculpei-me por ter de sujeitá-lo a uma série de perguntas e, com amável serenidade, expliquei-lhe a dúvida que Afonso VII lançara sobre a identidade de Afonso Henriques. Diz que não é o filho do conde Henrique e de dona Teresa. Meu pai encolheu-se, siderado com o que ouvia. Lourenço Viegas, que falsidade! Sem esmorecer, insisti. A criança nascera aleijadinha, tolhida de pernas, mas o meu melhor amigo era agora um gigante. O rei dos Cinco Reinos não acreditava em tal transformação e suspeitava de que o débil menino tivesse sido trocado por um saudável e viçoso. E que sabe ele disso, acaso vivia por cá?, indignou-se meu pai. Apesar das dificuldades em respirar, logo ali nos garantiu que essa infame patranha fora inventada pela mãe do imperador, dona Urraca, cuja malícia era infinita.
Sempre nos quis prejudicar, espalhou esse disparate para tramar dona Teresa! A custo, interrompendo cada frase para ganhar forças, Egas Moniz contou-nos que, no próprio dia da morte do conde Henrique, em Astorga, a rainha de Leão insinuara que o pequeno Afonso Henriques não era o filho da irmã e do conde. Só que ninguém dera qualquer importância às suas maldosas aleivosias. Dona Urraca envenenou o conde Henrique, matou-o com peçonha! E mesmo depois disso continuava a denegri-lo! Era uma criatura vil!, barafustou meu pai. E o filho dela sai à mãe! Depois de uma pequena pausa, que lhe permitiu acalmar a respiração, perguntei-lhe quem mais estava em Astorga e ele nomeou Martinho de Soure. Mas o último confessor do conde nunca quebrara o silêncio a que estava obrigado pelas leis da Igreja. E o meu primeiro marido?, perguntou Chamoa. Egas Moniz olhou-a de soslaio, garantindo que Paio Soares só chegara a Astorga já com o conde morto. Além disso, meu pai nunca havia falado com ele sobre a vil intriga lançada por Dona Urraca.
Não estava mais ninguém em Astorga?, insistiu a minha cunhada. Como meu pai baixou os olhos, cansado de tanto falar, Teresa Celanova pediu-nos que terminássemos, pois ele precisava de repousar. Contudo, não me afastei. Urgia confrontá-lo com os meus terrores íntimos, mas foi de coração apertado que declarei: o imperador Afonso VII suspeita de que haveis sido vós a trocar as crianças. Não acredita no milagre de Cárquere! Magoado, Egas Moniz olhou-me: Lourenço Viegas, achais-me capaz de tal fraude?» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

As Crianças de Cárquere. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. « A seu lado, Mem orgulhou-se da amiga, a mais bela da igreja, envolta numa dalmática púrpura lindíssima, com os cabelos longos a caírem-lhe pelas costas e um decote ousado…»

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As Crianças de Cárquere. 1146
Coimbra. Páscoa de 1146
«(…) Mulheres..., riu-se o rei, fazendo uma careta de desdém. Nunca se pode confiar nelas! Ajustadas estas contas de alcova, Afonso Henriques quis motivar o almocreve. Se ele convencesse Chamoa, oferecia-lhe uma propriedade e um novo estatuto. Sereis Mem Ramires, cavaleiro de Almourol, um castelo que podereis recuperar! Era uma doação irrecusável. Anos antes, Mem pensara em tornar-se cavaleiro, mas a sua turbulenta vida não o permitira. Agora, para sê-lo, bastava-lhe persuadir Chamoa. Com vinho e cantiga acalma-se qualquer amiga!, exclamou o eufórico almocreve, de forma surpreendente, pois costumava guardar os ditos espirituosos só para si. Assim, no Domingo de Páscoa, lá estava Chamoa na Sé, numa fila secundária para ninguém dar por ela, como se tal fosse possível. A seu lado, Mem orgulhou-se da amiga, a mais bela da igreja, envolta numa dalmática púrpura lindíssima, com os cabelos longos a caírem-lhe pelas costas e um decote ousado, que obrigava os homens a mirá-la e o bispo Bernardo a franzir a testa, em desaprovação extática.
Peitos gostosos, incomodam os religiosos.
Apesar de apetitosa por fora, Chamoa estava destroçava por dentro, obrigada ao castigo extremo de assistir àquele matrimónio, que a derrotava em definitivo como candidata a rainha de Portugal. E ainda mais desagradada ficou quando, durante a ceia, que decorreu no pátio da Sé, debaixo da enorme tenda ali montada para o efeito, os bobos da corte a escolheram como alvo principal de gozação.
Piadas maldosas, mulheres ardilosas.
No final da festa, Mem soube que fora a rainha Mafalda, em conluio com Gonçalo Sousa, a industriar os cómicos para uma representação teatral infame, onde uma mulher meio enlouquecida dormia com vários homens e também com uma moura. Depois de tanta desbragada folgança, da barriga dela saíam seis rapazes aos pulos, enquanto um indivíduo alto e forte, vagamente semelhante a Afonso Henriques, coçava uns cor… que tinha pousados na testa, e outro, parecido com Afonso VII, se masturbava sentado num trono.
Filho a proteger, mãe a sofrer.
Era evidente em quem se inspirava tamanha boçalidade, mas Mem valorizou o facto de Chamoa se ter humilhado calada, em nome do futuro de Pêro Pais. Terminada a festa, o almocreve acompanhou-a a casa, seguido pelo filho. A estaferma da francesa vai fazer-me a vida negra!, barafustou Chamoa, sofrendo com a chalaça. Mem aconselhou-a a ser resiliente e a esquecer as parvoíces dos bobos, pagos para espalharem enormidades. A serenar aos poucos, Chamoa disse ao filho que ele podia ir-se. E vós, ficais aqui?, perguntou Pêro Pais, olhando Mem de soslaio. Calmo e sério, o almocreve colocou-lhe a mão no ombro. Talvez devêssemos trocar de casa. O filho de Chamoa atrapalhou-se. Nunca lhe passara pela cabeça que Mem sabia das suas ternuras com as três moçárabes. Porém, logo se sentiu aliviado, pois o almocreve não o hostilizara. Pelos vistos, não levava a mal. Assim seja, aceitou Pêro Pais, que depois se virou para a mãe e a relembrou de algo essencial. Tendes de falar com Egas Moniz antes que ele morra! Com um suspiro, Chamoa prometeu ao filho uma ida a Lamego, na minha companhia. Satisfeito, Pêro despediu-se e ela caiu por fim nos braços de Mem.
Menina abalada, sempre muito dada.
Um momento ímpar, o mais grave da minha vida, aproximava-se. Meu pai morria, era imperioso falar com ele. Egas Moniz tinha de nos contar a verdade! Ele estivera em Astorga com Martinho de Soure, os dois haviam assistido à morte do conde Henrique, eram os únicos com quem este falara antes de falecer. Por mais que o admirasse e considerasse íntegro, tornava-se por demais evidente que meu pai conhecia segredos muito antigos e tinha de os revelar antes do seu encontro com Deus. Mais que não fosse, para me acalmar. Fora o meu melhor amigo quem vencera a batalha de São Mamede; quem ousara declarar-se independente de Afonso VII depois de o vencer em Cerneja; fora ele a ser reconhecido rei em Zamora e quem derrotara cinco emires mouros, em Ourique! Como seria possível, num golpe absurdo do destino, alguém declará-lo um reles usurpador?
Esta ideia arrepiava-me, mas pior ainda era a possibilidade de carregar com o peso do nome dele. Não me sentia preparado para herdar o seu cargo e as suas responsabilidades! Não o desejava, pois não tinha qualquer vocação para rei! E nem me queria sequer zangar com ele, era o meu melhor amigo, não o ia trair ou decepcionar! Por tudo isto, que era já tanto, só as palavras de meu pai, sempre sereno e seguro, podiam fechar a ferida aberta no meu peito». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

As Crianças de Cárquere. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Mem, garanto-vos que o Pêro não petisca só a Ília! Com requintada maldade e evidente gozo, o nosso esperto rei executou assim a sua fria vingança…»

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As Crianças de Cárquere. 1146
Coimbra, Março de 1146
«(…) Tantos homens me desejaram, até o imperador! De súbito, Chamoa sentiu uma inesperada revolta. Não aceitava aquele desatino submisso, tanta perna aberta para nada! Prometeu agir e dona Justa franziu a testa, preocupada.

Coimbra. Páscoa de 1146
Uma semana antes do casamento real, Chamoa anunciou que não iria comparecer, pois tencionava rumar ao Mosteiro de Pombeiro para passar o Domingo de Páscoa com o pai, Gomes Nunes, que lá se exilara a mando de Afonso VII. Antes assistir à tristeza de meu pai do que presenciar o triunfo da francesa! Logo que Afonso Henriques soube destas intenções, mandou chamar à sua presença Mem e pediu-lhe: tendes de convencê-la a assistir à boda! De início, o almocreve recusou. Mas o rei de Portugal não foi em conversa fiada. Mem, escusais de fingir, sei que a filhais! Espantado, arqueei as sobrancelhas e por momentos temi que Afonso Henriques fosse soltar as suas lendárias fúrias, sentindo-se encornado por Mem. No entanto, a cólera não lhe surgiu, pelo contrário. Compreendia Chamoa, que necessitava de um ombro onde carpir as mágoas, agora que ele ia casar. E Mem era amigo dela há muitos anos. Ela contou-me o que se passou durante o cativeiro, na serra Morena, adiantou Afonso Henriques, como se aceitasse algo inevitável. Nunca soube estar sozinha. Aceitava a existência de um amante, mas não que se ausentasse do casamento real, pois isso ofenderia a francesa, que jamais a deixaria voltar a Coimbra.
Chamoa sempre quis ser rainha, não podeis obrigá-la a assistir ao vosso casamento!, contestou Mem. Isso é uma tolice!, ripostou o rei de Portugal. O matrimónio real não passava de um arranjo para agradar ao Papa e lhe dar a ele uma descendência legítima. Bem mais importantes seriam as semanas seguintes! Egas Moniz está a morrer...
Subitamente pesaroso, Afonso Henriques recordou o agravamento da doença de meu pai, que não voltara a sair de Lamego. A sua esperada morte impunha mudanças na corte e para substituir o mordomo do reino o candidato mais consensual era Peres Cativo, nascido na Galiza, coisa que provocava desconforto em alguns. Sobretudo em Gonçalo Sousa. Vai levar a mal!, avisei.
O nosso alferes sempre fora dado a amuos intempestivos. Embora tivesse recebido inúmeros castelos no Entre Douro e Minho, como paga pelos préstimos guerreiros, não tinha os desejos de grandeza satisfeitos e iria revoltar-se se fosse preterido na nomeação para mordomo, demitindo-se prontamente do cargo de alferes. Também me parece, murmurou Afonso Henriques. Seria, portanto, necessário escolher um novo comandante das tropas e a tradição portucalense apontava para a nomeação de um jovem. Pêro Pais tem dezanove anos, é bom com a espada e sabe comandar. Será o próximo alferes, anunciou o rei. Mas, se Chamoa ofendesse a rainha com a sua ausência no casamento real, a nomeação do filho tornar-se-ia impossível.
Assim, cabia a Mem a tarefa árdua de a convencer, para a qual podia contar com um relevante aliado. Pêro Pais deseja o posto de alferes. E também quer permanecer em Coimbra por razões menos nobres..., afirmou o rei, com um sorriso matreiro. O filho mais velho de Chamoa, a despontar como macho impetuoso, aproveitara a prolongada ausência de Mem para alimentar uma forte amizade com as irmãs moçárabes, Ália, Élia e Ília. Ele não se amigou com as três, só o fez com a Ília! enxofrou-se o almocreve. Afonso Henriques soltou uma sonora gargalhada. Mem, garanto-vos que o Pêro não petisca só a Ília! Com requintada maldade e evidente gozo, o nosso esperto rei executou assim a sua fria vingança, mostrando ao rival que, se o encornava às escondidas, tal não o livrava de ser também enganado pelas moçárabes e por um jovem». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

sábado, 17 de novembro de 2018

A Conquista de Santarém. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Queridos filhos e netos, os dias que antecederam a partida rumo a Santarém foram confusos para mim. Hoje, quando os recordo, concedo que a minha intranquilidade…»

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Santarém. Fevereiro de 1147
«(…) No salão, o wali saudou-o com cordialidade e Fátima, mulher de Abu Zhakaria, apresentou-lhe a filha, também chamada Fátima e com menos de um ano. Devo-a aos conselhos de Chamoa!, recordou ela. Enquanto se deliciavam com tâmaras e presuntos, Mem contou que Zaida vivia infeliz em Silves, sob o jugo intolerante de Ibn Qasi. Sabedor de que Ibn Wasir preparava um ataque ao palácio do sufi, o cavaleiro de Almourol tencionava raptar a princesa nesse momento. Quero roubá-la ao marido, declarou Mem, antes de perguntar: aceitais vossa irmã aqui, se eu a trouxer? Depois de suspirar, Fátima respondeu que o seu antigo acinte contra Zaida desinflamara. Haviam sido Afonso Henriques, primeiro, e depois Ismar e Raimunda a intrometerem-se entre elas, mas esses tempos já lá iam. Agora, desejava a paz familiar e aprovou o regresso da irmã. Quando ides buscá-la?, perguntou. O ataque de Ibn Wasir a Silves é esperado para o Verão, disse Mem. Desejo-vos boa sorte, rematou Fátima. Despediram-se com abraços genuínos, mas mal passou a porta do palácio um agudo desconforto apoderou-se de Mem. Mentir não lhe estava na natureza e enganara o wali e a esposa. Viera falar-lhes de Zaida e em breve estaria a trepar as muralhas daquele castelo. Ajudaria os portucalenses a conquistar Santarém e depois correria a Silves, donde traria Zaida. Mas não para a entregar à irmã.
Em tempo de guerra, a verdade se enterra.

Coimbra. Março de 1147
Queridos filhos e netos, os dias que antecederam a partida rumo a Santarém foram confusos para mim. Hoje, quando os recordo, concedo que a minha intranquilidade interior: dramatizava qualquer situação, mas os comportamentos alheios também não ajudaram. Nos últimos tempos, Afonso Henriques mantivera-me à margem das decisões guerreiras, e foi só através do meu sobrinho Pêro Pais que soube estar para breve uma segunda tentativa de tomar Lisboa. Os cruzados estão a caminho?, espantei-me. O meu melhor amigo já não me incluía no seu grupo de conselheiros, agora formado por Peres Cativo, Pêro Pais e o arcebispo João Peculiar. Tantos anos de lealdade haviam terminado sem uma explicação razoável. Teria sido o novo mordomo-mor, um galego, a colocar-me de fora? Ou o arcebispo de Braga determinara o meu afastamento? Foi Chamoa quem finalmente me explicou as razões da distância real: dona Mafalda não gosta de vós! Desde Dijon que antipatizara com a rainha, destinando-lhe apenas frios cumprimentos. Agora, pagava o preço: para acalmar a esposa, o rei de Portugal afastara-me. Descansai, Lourenço Viegas, não sois o único que a francesa abomina!, garantiu-me a minha cunhada». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

A Conquista de Santarém. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Como tinha falta de braços em Almourol, Mem decidiu aceitar o repto de Giraldo, mas avisou-o de não queria um assassino descontrolado, tinha de cumprir ordens»

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Santarém. Fevereiro de 1147
«(…) Rabinho solteiro, sonha com parceiro.
Foi tal o corrupio de gente a cumprimentá-lo que Mem teve de reter-se em conversas demoradas e de provar repastos oferecidos, numa ou noutra casa. Porém, o seu olho atento não parou de mirar as muralhas na tentativa de descobrir uma fraqueza. A dada altura, enquanto examinava uma frecha por reparar, escutou uma voz inesperada, que lhe provocou temor de ter sido descoberto. É por ali que se ataca! Quando se virou para trás, Mem viu um jovem, talvez com vinte anos, de cabelos longos. Musculado e alto, de olhar vivo, o indivíduo transbordava confiança, mas também uma espécie de intensidade enlouquecida, própria dos amantes da violência. Era irrequieto e mexia muito os braços, como se precisasse constantemente de os exercitar. E devia ser pouco dado à prudência, pois logo perguntou: sois Mem, o cavaleiro de Almourol?
Sempre que o chamavam assim, o antigo almocreve sentia que a vida lhe sorrira. O outro apresentou-se: Giraldo, guerreiro e moçárabe como vós! De imediato, começou a gabar-se, lamentando que Abu Zhakaria não estivesse a mobilizar exércitos, pois precisava de espadeirar e cortar cabeças. Via-se que gostava disso e o sabia fazer. Era um animai impetuoso, difícil de ser domesticado. E Afonso Henriques? Junta tropas? perguntou. Mem referiu que os cristãos estavam sempre precavidos. A Andaluzia andava a ferro e fogo, olho vivo era essencial. Até ele, em Almourol, reconstruíra um agora sólido castelo. Precisais de um bom punho por lá?, questionou Giraldo. Sem parar para ouvir a resposta, garantiu mestria no uso da espada. Mostrou os reluzentes dentes e jurou a Mem que já degolara mouros e cristãos, acrescentando: mas os sarracenos vão perder, já não vale a pena lutar por eles.
Como tinha falta de braços em Almourol, Mem decidiu aceitar o repto de Giraldo, mas avisou-o de não queria um assassino descontrolado, tinha de cumprir ordens. Assim farei, se me deres guarida e comida, jurou Giraldo. Combinaram encontrar-se no dia seguinte, quando Mem regressasse a Coimbra. Antes de abalar, sempre com os olhos de águia bravia a brilharem, o outro apontou para o local na muralha que vira Mem observar e repetiu: é por ali que se ataca!
Um ligeiro incómodo apoderou-se do cavaleiro de Almourol ao ver Giraldo afastar-se. Aquele agitado exibia uma alegria facínora e precipitada, que facilmente se sobreporia a qualquer lealdade. Só que um castelo de fronteira precisava de homens duros, para quem a decência não existia. Tinha de arriscar.
Cavaleiro vencedor, precisa de um matador.
Nessa noite, Mem foi ao castelo de Abu Zhakaria. Fosse quem fosse que tivesse construído a alcáçova, era gente merecedora de admiração. O palácio de Santarém assentava no topo de uma elevação e, devido à espantosa situação, alguém o baptizara como o Ninho das Águias. Inatacável do lado do rio, onde uma empinada escarpa funcionava como uma defesa natural, do alto das suas torres topava-se qualquer movimento de tropas a enorme distância. A única forma de tomar aquele íngreme fortim era um ataque às muralhas a partir da estrada principal, mas uma operação dessas, se fosse mal preparada, daria tempo aos habitantes de se refugiarem na alcáçova, onde podiam aguentar-se durante meses.
Povo avisado, ataque malparado». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

A Conquista de Santarém. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «O antigo almocreve chegou a Santarém ao final de uma manhã e descobriu uma cidade vibrante, onde abundava o comércio. A paz com os cristãos e a distância das guerras…»

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Santarém. Fevereiro de 1147
«Regressado a Coimbra, Mem notou a forte agitação bélica que sacudia Afonso Henriques, claramente preparado para iniciar uma importante campanha. Embora ele e eu ainda não o soubéssemos, o nosso rei já tinha informações seguras de que uma armada de cruzados, vinda do Norte da Europa, iria ajudar-nos a tomar Lisboa, no Verão. João Peculiar, arcebispo de Braga, encontrara-se novamente com Bernardo de Claraval, patrono dos templários e grande promotor das cruzadas, que o avisara dos preparativos. E o forte empenho do nosso rei crescera também, pois Afonso VII conquistara Calatrava e aproximava-se de Almeria. Se o primo direito atingisse o mar mediterrânico, Afonso Henriques precisava de um troféu semelhante, para não se deixar ofuscar.
Rival em esplendor, provoca muita dor.
Mem pressentia que tomar Lisboa era agora possível, pois a convulsão andaluza, cujo zénite sangrento se atingira com a morte de Ismar, resultara num vasto território dividido por inúmeros e fracos emires, que dominavam pequenas taifas independentes. Granada, Almeria, Cáceres, Sevilha, Córdova, Badajoz e Mértola viviam de costas voltadas, facilitando a vida aos cristãos.
Desunião a alastrar, derrota a chegar.
No Al-Gharb, por exemplo, o regressado Ibn Qasi, marido da princesa Zaida, dominava Mértola e Silves, mas o férreo jugo religioso que impunha não seduzia os locais, tornando a sua expansão para norte impossível, pois, centrado em Badajoz e dominando Évora e Beja, o hábil Ibn Wasir caíra nas boas graças dos almóadas africanos.
Ao esperto traidor, muitos dão valor.
Em Santarém, também o governador Abu Zhakaria se encontrava numa situação de fragilidade evidente. Não dispunha de exércitos vastos, nem conseguira impor a sua autoridade em Lisboa, que se governava a si própria, embora os fanáticos Mantos Vermelhos tivessem perdido a sua aura letal, pois Orimar, a Pústula, estava doente e só lhe restavam Raimunda e três feddayins.
Erva daninha, morre sozinha.
Com tanta trapalhada muçulmana e sem um poder forte e capaz de as auxiliar, Santarém e Lisboa estavam à mercê dos cristãos. Há longos meses que Afonso Henriques o sabia, mas só agora ficara em condições de lançar um ataque demolidor, como confirmou a Mem no dia em que nomeou Pêro Pais alferes portucalense. É tempo de guerra.
A primeira prioridade era, no entanto, Santarém, e antes de romper as tréguas com Abu Zhakaria, acordadas no ano anterior, Afonso Henriques desejava ter fiáveis informações sobre as defesas da cidade. Como Mem se dava bem com o governador e sua mulher, Fátima, o rei de Portugal atribuiu-lhe uma missão especial. Ide e falai com o wali, mas abri bem o olho, ordenou.
O agora cavaleiro e dono de Almourol, cujas obras estavam praticamente terminadas, tinha uma adicional razão para visitar Santarém: queria relatar a Fátima a infelicidade que assolava a existência da irmã, a princesa Zaida.
Mulher de um louco, vive muito pouco.
Corriam rumores de que os almóadas se preparavam para apostar apenas em Ibn Wasir, deixando cair Ibn Qasi, e esse era o pretexto de que Mem precisava para sondar Fátima sobre a possibilidade de Zaida, depois de fugir de Silves, se refugiar, em Santarém, junto da irmã. Irei raptá-la, declarou Mem. O rei de Portugal relembrou-o de que não podia esquecer o objectivo último da ida a Santarém. Os seus desejos privados não se podiam sobrepor às necessidades do reino. Descansai, assim farei, prometeu o novo cavaleiro.
O antigo almocreve chegou a Santarém ao final de uma manhã e descobriu uma cidade vibrante, onde abundava o comércio. A paz com os cristãos e a distância das guerras da Andaluzia haviam permitido a bonança e a prosperidade. Viam-se alguns soldados, nos portões e na muralha, mas pelas ruas da agitada almedina poucos caminhavam, pois os exércitos de Zhakaria tinham sido desmobilizados. Se o ataque portucalense fosse furtivo e intenso, dificilmente Santarém poderia sustê-lo.
Com esperta manha, atinge-se uma façanha.
Pelas ruas e ruelas, muitos o reconheceram. Como almocreve, Mem construíra uma excelente reputação de fornecedor fiável, sendo também recordado pelas mulheres corno um meigo galanteador. Algumas, ao verem-no vestido de cavaleiro, agitaram-se, esperançadas». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

As Princesas de Córdova. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Se perco Chamoa, o rei de Portugal dá cabo de mim. Foi isso que Zhakaria explicou a Ismar, nos claustros do Azzahrat, tendo apenas Malik como testemunha»

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As Princesas de Córdova. Silves, 1145
«(…) Sibilino, Ibn Qasi afirmou que uma princesa não andava nua em frente de soldados, mas desta vez ela não lhe replicou. Apenas sorriu, convencida de que a cidade onde nascera o obrigaria a engolir aquele moralismo enervante. Porém, o sufi surpreendeu-a, mostrando-lhe que possuía bons espiões. O vosso amigo Mem está preso em Córdova. Ou fazeis o que eu mando, ou mato-o quando lá chegar!

Córdova, Janeiro de 1145
Ao passear pelos corredores do Azzahrat, Abu Zhakaria teve a premonição de que os dias gloriosos de Ismar estavam a terminar.
Já nem os criados o respeitam...
Dois anos antes, ele e Fátima tinham-no deixado nos píncaros do poder, mas no presente, mesmo depois da vitória obtida em Soure, a autoridade de Ismar já era curta. O povo de Córdova não estimava aquele príncipe e muitos na Andaluzia já recusavam o seu mando. Na opinião largamente maioritária dos súbditos, Ismar fizera um acordo inaceitável com o imperador Afonso VII e esse dramático momento marcara o início da sua lenta degradação. Dois meses antes, Almeria e Granada haviam-lhe virado as costas, e mesmo os sevilhanos, normalmente leais, tinham-se recusado a manter as tropas em Córdova, impondo a desmobilização habitual do Inverno, o que nas circunstâncias equivalia a uma traição.
Ibn Qasi está a chegar...
Abu Zhakaria receava que o marido de Zaida se apoderasse de Chamoa, de Mem e de Martinho de Soure, presos nas masmorras do Azzahrat, o que o prejudicaria, pois os reféns portucalenses eram a única garantia de que Afonso Henriques não atacaria Santarém.
Se perco Chamoa, o rei de Portugal dá cabo de mim.
Foi isso que Zhakaria explicou a Ismar, nos claustros do Azzahrat, tendo apenas Malik como testemunha. Para que pudesse usá-la numa futura negociação com o rei de Portugal, tinha de levar Charnoa para Hisn Abi Cherif, antes que fosse tarde! Temeis a minha derrota?, questionou-o o príncipe. Abu Zhakaria recordou que as tropas de Ibn Qasi e Ibn Wasir eram mais numerosas do que as de Córdova. Sem a ajuda de Sevilha, Granada ou Almeria, Ismar podia ser derrotado. Zaida não me vai vencer!, ripostou este. O wali de Santarém admirou-o em silêncio, impressionado com a transformação que notava nele. Os seus olhos raiados de sangue eram um sinal claro de que dormia pouco, aflito com a situação vulnerável em que se encontrava. Era já um príncipe perdido, mas não o aceitava, continuava convencido da sua aura.
Onde estão as tropas que vos exigi?, perguntou ele. Abu Zhakaria justificou-se: mantinha três mil soldados a defenderem Santarém, pois temia uma investida vingativa de Afonso Henriques. Em Córdova, permaneciam apenas os trezentos homens que trouxera. Chamoa e Mem são meus prisioneiros!, insistiu Abu. Enervado, Ismar ameaçou-o: prometi-vos um vasto território no Oeste. Parti hoje e destituo-vos do cargo de wali de Santarém! Receoso, Abu Zhakaria tentou acalmá-lo. Não vou fugir! Vou levá-los para Hisn com a Fátima. Tenho de proteger a minha mulher! E de defender Santarém. Porém, Ismar contestou-o: a princesa Zaida jamais mataria a irmã, não era uma sanguinária! E Ibn Wasir estava do seu lado, preparava-se para trair Ibn Qasi. Wasir é um falso e um frouxo!, lembrou o desconfiado Abu Zhakaria. Tal como o governador de Sevilha!» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

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