segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Lucrécia Borgia. Jean Plaidy. «Mas com o quarto aniversário veio o primeiro indício de que a vida era menos simples do que ela acreditava que fosse, e que não continuava para sempre no mesmo padrão agradável»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Piazza Pizzo di Merlo

«(…) As criadas não podiam deixar de abraçá-la, dar palmadinhas no seu rosto ou acariciar os belos cabelos. Querida madonazinha, murmuravam elas, e sussurravam juntas sobre os encantadores occhi bianchi que iriam fazer de sua pequenina madona uma mulher sedutora. Ela sentia-se feliz com a afeição delas; aconchegava-se nelas, dando amor em troca de amor; e ansiava por uma carreira de sedutora com o máximo de prazer. A pequena Lucrécia, até então, acreditava que o mundo tinha sido feito para o seu prazer, os irmãos sentiam a mesma coisa com relação a eles, mas, porque Lucrécia era, por natureza, serena, estava sempre contente e só podia sentir-se agradada quando agradava a outros, seu carácter era inteiramente diferente do de seus irmãos. A vida jovem de César e de Giovanni era obscurecida pela inveja que cada um tinha do outro; Lucrécia não sabia o que era aquele tipo de sentimento. Era a rainha da ala infantil, com a certeza do amor de todos. E assim, até o quarto aniversário, a garotinha ficou fechada no seu mundo de contentamento que a envolveu como um confortável casulo.

Mas com o quarto aniversário veio o primeiro indício de que a vida era menos simples do que ela acreditava que fosse, e que não continuava para sempre no mesmo padrão agradável. A princípio, ela percebeu a agitação nas ruas. Havia muitas idas e vindas pela ponte. Todos os dias, grandes cardeais, acompanhados de suas comitivas, chegavam a Roma nas suas mulas. As pessoas ficavam por ali em pequenos grupos; algumas conversavam calmamente, outras gesticulavam, iradas. O dia todo ela esperara uma visita do tio Roderigo, mas ele não viera. Quando César entrou na ala infantil, ela correu para ele e segurou-lhe as mãos, mas até César havia mudado; não parecia tão interessado nela quanto antes. Foi até a loggia e, paciente, se pôs ao lado dele, como um pequeno pajem, humilde, esperando suas ordens, como ele gostava que ela fizesse; no entanto, ele nada disse: ficou quieto, observando as multidões nas ruas.

Tio Roderigo não nos veio visitar, disse ela, tristonha. César abanou a cabeça. Ele não virá, irmãzinha. Hoje, não. Ele está doente? César abriu um sorriso lento. Ela viu que as mãos dele estavam fechadas e que sua fisionomia estava tensa, como tantas vezes ficava quando estava zangado ou decidido quanto a alguma coisa. Ela ficou no degrau que lhe permitia ficar com altura suficiente para chegar ao ombro dele e colocou o rosto perto do dele, para que pudesse estudar a sua expressão. César, disse ela, está zangado com o tio Roderigo? César agarrou o pescoço dela com as suas mãos fortes; aquele golpe dele doía um pouco, mas ela gostava porque sabia o que significava: veja como eu sou forte. Veja como eu poderia machucá-la, pequena Lucrécia, se quisesse; mas não quero, porque você é minha irmãzinha e eu a amo porque você me ama..., mais do que qualquer outra pessoa no mundo..., mais do que a nossa mãe, mais do que o tio Roderigo, melhor, sem dúvida de que melhor, do que Giovanni. E quando ela gritou e mostrou pela expressão do rosto que ele a estava machucando, só um pouquinho, aquilo queria dizer: sim, César, meu irmão. Eu te amo mais do que a qualquer outra pessoa no mundo. E ele compreendeu e seus dedos tornaram-se delicados. Não se fica zangado com o tio Roderigo, disse César a ela. Isso seria uma tolice, e eu não sou tolo. Não, César, não é tolo. Mas está zangado com alguém? Ele abanou a cabeça. Não. Eu estou contente, irmãzinha. Diga porquê. Você ainda é uma criança. O que poderia saber sobre o que se passa em Roma?» In Jean Plaidy, Lucrécia Borgia, Edição Record, 1996, ISBN 978-850-104-410-5.

 

Cortesia de ERecord/JDACT

 

JDACT, Jean Plaidy, Itália, Literatura,

Lucrécia Borgia. Jean Plaidy. «Ela sabia que era bonita e que ninguém podia deixar de perceber isso, por causa dos seus cabelos amarelos e dos seus olhos claros, de um tom azul-acinzentado»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Piazza Pizzo di Merlo

«(…) Afinal de contas, estavam casados, e as visitas de Roderigo eram muito infrequentes. Aquilo era de se esperar, é claro, muito embora tivesse sido estabelecida a regra de que Giorgio deveria apenas compartilhar dos aposentos públicos da casa dela. Será que Roderigo poderia culpá-la? Ela achava que não. Mas se houvesse uma dúvida de que o filho fosse dele, ele poderia sentir-se menos inclinado a fazer por ele o que planeava fazer pelos outros. Quando uma mulher segurava um filho nos braços, um filho nascido há poucas horas, como poderia evitar que por um curto momento aquele filho lhe parecesse mais precioso do que qualquer outra coisa sobre a Terra? César sempre estaria em primeiro lugar nas suas afeições; mas naquele momento em que ela jazia exausta na cama, o pequenino recém-chegado, o seu Goffredo, por ser o mais frágil de sua ninhada, tinha, decidiu ela, de ter as mesmas oportunidades que os irmãos. Ele parecia exactamente com os outros quando nasceram; na verdade, poderia ser a pequena Lucrécia que estava nos seus braços agora, um bebezinho de quatro horas de idade; e não havia dúvida de quem era o pai. Goffredo podia ser filho de Roderigo. Com um amante e um marido vivendo sob o seu tecto, até mesmo Vannozza não podia ter certeza. Mas deveria fazer tudo ao seu alcance para deixar o cardeal certo de que era ele o pai da criança. Ele agora estava se dirigindo para a cama em que ela se encontrava. As amas recuaram, em temerosa reverência, enquanto ele se aproximava.

Vannozza, minha cara! A voz dele parecia terna como sempre, mas ele raramente demonstrava raiva, e ela não conseguiu entender quais eram os sentimentos dele para com a criança. Desta vez foi um menino, meu senhor. Ele se parece muito com Lucrécia..., e acho que verei sua Eminência nesta criança todos os dias. Uma rechonchuda mão branca, brilhando de jóias, tocou a face da criança. Era um gesto carinhoso, paternal, e o ânimo de Vannozza voltou. Ela agarrou o filho e estendeu-o para o cardeal, que o tomou das suas mãos; ela viu a fisionomia dele abrandar-se numa expressão de orgulho e alegria. Não era de admirar, pensou ela então, que muita gente gostasse de Roderigo; seu amor pelas mulheres e pelas crianças fazia com que elas ficassem ansiosas por agradá-lo e servi-lo. Ele andou de um lado para o outro com a criança, e nos seus olhos havia um olhar distante, como se estivesse vendo o futuro. Claro que aquilo significava que ele fazia planos para o menino recém-nascido. Ele não desconfiava. Devia ter-se comparado com Giorgio e se perguntado como uma mulher poderia pensar no pequeno funcionário apostólico, quando devia compará-lo com o encantador e poderoso cardeal.

Roderigo colocou o menino de novo nos braços dela e ficou por uns instantes sorrindo benignamente para ela. Então, com ironia, disse: e Giorgio? Está contente? Houve um período na vida de Lucrécia do qual ela iria lembrar-se até ao dia da sua morte. Ela estava com apenas quatro anos de idade, mas a recordação era tão vívida que ficou marcada na sua mente. Em primeiro lugar, fora o começo da mudança. Antes daquela época, ela levara a vida da ala infantil, segura no amor de sua mãe, aguardando ansiosa as visitas do tio Roderigo, deliciando-se com a batalha dos irmãos pelo seu afecto. Tinha sido um pequeno mundo feliz aquele em que Lucrécia vivera. Todos os dias, ela tomava a sua posição na loggia e ficava observando o mundo cheio de cores passar, mas tudo o que acontecia fora da casa de sua mãe lhe parecia apenas quadros para o seu deleite ocioso; havia uma irrealidade com relação a tudo o que acontecia do outro lado da loggia, e Lucrécia estava segura no seu aconchegante mundo de amor e admiração.

Ela sabia que era bonita e que ninguém podia deixar de perceber isso, por causa dos seus cabelos amarelos e dos seus olhos claros, de um tom azul-acinzentado; as pestanas e as sobrancelhas eram escuras e tinham sido herdadas dos ancestrais espanhóis, segundo diziam; e aquela combinação, em parte por ser muito rara, era muito atraente. Ela possuía os traços cativantes de uma pessoa que era apenas uma parte italiana, e também uma parte espanhola. Os irmãos também tinham aquele charme». In Jean Plaidy, Lucrécia Borgia, Edição Record, 1996, ISBN 978-850-104-410-5.

 

Cortesia de ERecord/JDACT

 

JDACT, Jean Plaidy, Itália, Literatura, 

domingo, 24 de janeiro de 2021

A História de uma Serva. Margaret Atwood. «O sino que mede o tempo está tocando. O tempo aqui é medido por sinos, como outrora nos conventos de freiras»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Uma cadeira, uma cama, um abajour. Acima no tcto branco, um ornamento em relevo em forma de coroa de flores, e no centro dele um espaço vazio, coberto de emboço, como o lugar num rosto onde o olho foi tirado fora. Outrora deve ter havido um lustre, um candelabro. Eles tinham removido qualquer coisa em que pudesse amarrar uma corda. Uma janela, duas cortinas brancas. Sob a janela, um assento com uma pequena almofada. Quando a janela está parcialmente aberta, ela só se abre parcialmente, o ar pode entrar e fazer as cortinas se mexerem. Posso sentar na cadeira ou no banco pegado à janela, as mãos com os dedos entrelaçados, e observar isso. A luz do sol também entra pela janela e bate no soalho, que é feito de madeira, em ripas estreitas, muito bem enceradas. Há um tapete no chão, oval, feito de retalhos trançados. Esse é o tipo de toque de que eles gostam: arte folclórica, arcaica, feita por mulheres, nas suas horas livres, de coisas que não têm mais utilidade. Um retorno aos valores tradicionais. Quem tudo economiza tem tudo que precisa. Não estou sendo desperdiçada. Porque ainda preciso?

Na parede acima da cadeira, um quadro, emoldurado, mas sem vidro: uma estampa de flores, íris azuis, guache. Flores ainda são permitidas. Será que cada uma de nós tem a mesma estampa, a mesma cadeira, as mesmas cortinas brancas, eu gostaria de saber? Distribuídas pelo governo? Pense nisso como estar servindo no exército, dizia tia Lydia. Uma cama. De solteiro, colchão de dureza média, coberto por uma colcha aveludada branca. Nada acontece na cama senão o sono; ou a falta de sono. Tento não pensar demais. Como outras coisas agora, os pensamentos têm que ser racionados. Há muita coisa em que não é produtivo pensar. Pensar pode prejudicar suas chances, e eu pretendo durar. Sei porque não há nenhum vidro, na frente do quadro de íris azuis, e por que a janela só se abre parcialmente e porque o vidro nela é inquebrável. Não é de fugas que eles têm medo. Não iríamos muito longe. São daquelas outras fugas, aquelas que pode abrir em si mesma, se tiver um instrumento cortante. Muito bem. Excepto por esses detalhes, isso poderia ser um quarto de hóspedes de uma faculdade, para os visitantes menos importantes; ou um quarto de pensão, de tempos antigos, para senhoras em reduzidas condições de vida. Isso é o que somos agora. As condições de vida foram reduzidas; para aquelas dentre nós que ainda têm condições de vida. Mas uma cadeira, luz do sol, flores: essas coisas não devem ser descartadas. Estou viva, eu vivo, respiro, estendo minha mão para fora, aberta, para a luz do sol. Estar onde estou não é uma prisão e sim um privilégio, como dizia tia Lydia, que era apaixonada por ou isto ou aquilo.

O sino que mede o tempo está tocando. O tempo aqui é medido por sinos, como outrora nos conventos de freiras. Também como nos conventos, existem poucos espelhos. Eu me levanto da cadeira, avanço meus pés para a luz do sol, nos sapatos vermelhos, sem salto para poupar a coluna e não para dançar. As luvas vermelhas estão sobre a cama. Pego-as, enfio-as nas minhas mãos, dedo por dedo. Tudo, excepto a touca de grandes abas ao redor de minha cabeça, é vermelho: da cor do sangue, que nos define. A saia desce à altura dos meus tornozelos, rodada, franzida e presa a um corpete de peitilho liso que se estende sobre os seios, as mangas são bem largas e franzidas. As toucas brancas também seguem o modelo padronizado; são destinadas a nos impedir de ver e também de sermos vistas. Nunca fiquei bem de vermelho, não é a minha cor. Apanho a cesta de compras e a enfio no braço.

A porta do quarto, não do meu quarto, eu me recuso a dizer meu, não está trancada. Na verdade, ela não se fecha direito. Saio para o corredor bem encerado, que tem uma passadeira no centro, de um tom rosa-acinzentado. Como uma trilha aberta em meio à floresta, como um tapete para a realeza, mostra-me o caminho. O tapete faz uma curva e desce a escadaria da frente e sigo por ele, com uma das mãos no corrimão, outrora uma árvore, abatida e transformada noutro século, polida até adquirir um brilho intenso. Do fim do período vitoriano, a casa é uma residência de família, construída para uma família rica e numerosa. Há um relógio de pé no vestíbulo, que distribui o tempo em quinhões, e então a porta que dá para a maternal sala-de-estar da frente, com seus tons rosados e pequenos toques sugestivos. Uma sala onde nunca me sento, apenas fico de pé ou me ajoelho. No final do vestíbulo, acima da porta da frente há uma bandeira semicircular de vidro colorido: flores vermelhas e azuis». In Margaret Atwood, A História de uma Serva, 1985, Bertrand Editora, 2013, ISBN 978-972-252-577-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Margaret Atwood, Literatura, Crónica, 

sábado, 23 de janeiro de 2021

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Esta diferença é necessária enquanto existam dois tipos humanos diferenciados: o comum dos homens e os sábios»

jdact

Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente

«(…) No primeiro livro, de finalidade teológica, segue os cépticos gregos acerca da impossibilidade da verdade absoluta. Segundo ele, as opiniões reflectem o modo de ser dos homens nas suas diferenças físicas, raciais, éticas e ideológicas. Mas estas desigualdades aumentam devido a oito causas:

1ª o uso de termos equívocos;

2ª a interpretação literal ou metafórica;

3ª o múltiplo conteúdo semântico dos termos por causa do sentido geral;

4ª tomar o do particular e vice-versa;

5ª o excessivo uso do argumento de autoridade;

6ª a utilização abusiva dos argumentos analógicos;

7ª o esquecimento de textos que invalidam outros anteriores;

8ª as naturais diferenças em matérias opináveis.

No Livro das Questões defende a possibilidade da concordância da razão e da fé pois a filosofia e a religião coincidem no seu objecto, que é a verdade, e no seu fim, que é a felicidade humana. Só se separam quanto ao método, discursivo racional na primeira e convencimento na segunda. Esta diferença é necessária enquanto existam dois tipos humanos diferenciados: o comum dos homens e os sábios.

No Livro dos Círculos propõe-se discutir sete teses dos filósofos:

lª a ordem em que os seres procedem da Causa Primeira parece-se a um círculo ideal e o lugar de retorno do círculo reside na forma do homem;

2ª a essência do homem atinge, depois da morte, o termo a que chegou a sua ciência durante a vida e essa ciência parece-se também com um círculo ideal;

3ª na potência do entendimento particular está o informar-se com a forma do entendimento universal;

4ª o número é um círculo ideal, por exemplo, o círculo das unidades, o das dezenas, o das centenas e o dos milhares;

5ª os atributos do Criador não podem predicar-se dele a não ser por via da negação;

6ª o Criador não conhece outra coisa senão a si mesmo;

7ª qual a prova apodítica da sobrevivência da alma racional depois da morte.

O texto toma as suas cautelas: espero em Deus que me preservará do erro e diz que fala como mero informador dos propósitos e intenções dos filósofos, embora se sirva de termos aproximados, diferentes dos que eles usam. Os seres emanam da Causa Primeira, Primeiro Agente ou Causa das Causas, usando a linguagem dos filósofos. O exemplo mais aproximado para explicar essa emanação ou como do Criador procede o ser dos entes é o modo como procede do 1 o ser dos números ainda que não seja lícito comparar o Criador, exaltado seja!, com coisa alguma bem como os seus atributos e operações…» In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

 

JDACT, Algarve, António Borges Coelho, Conhecimentos, História, Filosofia, Ciências, Isaura Borges Coelho, MLCT, 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Maria José Travassos Bento. Convento de Cristo. 1420 – 1521. «O infante Henrique nasceu no Porto a 4 de Marco de 1394 e teve como ama-de-leite Mecia Lourenco, mulher de um cavaleiro da Ordem de Cristo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Maria José Travassos Almeida Jesus Bento

A Ordem e os Regedores. Mais de um século

«(…) Desde a fundação da Ordem e, por diversas vezes, a coroa e o clero recompensaram os Mestres da Ordem de Cristo e das demais Ordens militares pelos preciosos serviços que haviam prestado ao reino a expensas próprias, com os seus cavalos e armas. As Ordens Militares de Cristo, Santiago, Avis e Hospital mantiveram uma posição de destaque no poder militar que detinham, durante muito tempo após a reconquista da Península, e permaneceram bem armados, encavalgados e observando rigorosas normas de conservação do equipamento militar guardado no interior das fortalezas que os comendadores tinham debaixo da sua tutela. No inicio de Quatrocentos, estas Ordens eram responsáveis pelo fornecimento de mais de 10% do equipamento defensivo pesado de Portugal.

O Infante Henrique. 1º Regedor e Administrador da Ordem de Cristo

Durante os séculos XIV e XV as ordens militares tinham-se transformado em poderosas detentoras de grandes concentrações de propriedades fundiárias e de riqueza mobiliária, afastando-se das funções político-religiosas que as tinham gerado. A Ordem de Cristo, assim como todas as outras ordens militares, transformaram-se em forças sócio-económicas capazes de promover acções a par com a Coroa. Numa tentativa de contrariar esta politica de engrandecimento das ordens, a Coroa portuguesa, em conjunto com todas as outras casas reais europeias, iniciou um processo de apropriação das Ordens Militares. Seguindo esta política, e numa clara acção de centralização de poder, o monarca João I distribuiu pelos seus filhos as principais Ordens Militares do Reino, começando pela de Santiago em 1418, que atribui ao infante João, seguida pela Ordem de Cristo atribuída ao infante Henrique em 1420, e, por último, a Ordem de Avis entregue ao infante Fernando em 1434.

As negociações que existiram entre João I e o papa Martinho V para que este concedesse as prerrogativas de Administrador da Ordem de Cristo ao infante Henrique duraram cerca de seis meses mas, só um ano depois, em 1421, o infante receberia a confirmação régia de todos os privilégios concedidos aos Mestres seus antecessores e a própria Ordem. A atribuição do Mestrado da Ordem a um Administrador laico obrigou a alterações na estruturação da mesma em termos de hierarquia e atribuições, nomeadamente na substituição do titulo de Mestre, anteriormente atribuído a um frei-cavaleiro eleito em capítulo, pelo titulo de Governador e Administrador da Ordem que poderia ser atribuído a um secular.

O infante Henrique nasceu no Porto a 4 de Marco de 1394 e teve como ama-de-leite Mecia Lourenco, mulher de um cavaleiro da Ordem de Cristo, Fernando Alvares que, por sua vez, foi aio do infante e de seus irmaos. Mas a convivência desde a primeira hora com a Ordem não terminava aqui. Lopo Dias Sousa interveio e acompanhou também a sua educação, potenciando estreita e permanente ligação aos membros da Ordem. Esta relação estendeu-se também ao património pertencente à sua Casa que abrangia as áreas de Viseu, Guarda e Lamego, regiões fronteiras com o domínio Senhorial da Ordem de Cristo que se localizava maioritariamente na região beirã. Sob a orquestração de João I, e até 1420, o poder da Casa do Infante cresceu em sã convivência com a Ordem de Cristo». In Maria José Travassos Bento, Convento de Cristo, 1420 – 1521, Mais de um século, 2016, Tese de Doutoramento, Estudo Geral, Repositório Científico, Universidade de Coimbra, FLUC,  http://hdl.handle.net/10316/26539.

Cortesia de FLUC/JDACT

JDACT, Maria José Travassos Bento, História, Doutoramento, Caso de estudo, Cultura e Conhecimento,

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

O Símbolo Perdido. Dan Brown. «Impossível. O sr. Solomon está preso num lugar nada agradável. O homem fez uma pausa. Ele está no Araf»

jdact

«(…) Robert Langdon parou na soleira da porta do Salão Nacional das Estátuas, petrificado, e estudou a surpreendente cena à sua frente. A sala era exactamente como ele se lembrava, um semicírculo harmonioso, construído no mesmo estilo de um anfiteatro grego. As graciosas paredes curvas de arenito e marmorino italiano eram pontuadas por colunas de breccia multicolorida, entremeadas pela colecção nacional de estátuas, esculturas em tamanho natural de 38 norte-americanos importantes, dispostas ao redor de um vasto espaço revestido com ladrilhos de mármore preto e branco. Tudo estava do mesmo jeito que no dia da palestra que assistira ali. Excepto por um detalhe. Desta vez, o salão estava deserto. Nada de cadeiras. Nada de espectadores. Nada de Peter Solomon. Apenas um punhado de turistas zanzando para lá e para cá, alheios à entrada triunfal de Langdon. Será que Peter quis dizer na Rotunda? Ele espiou pelo corredor sul na direcção da Rotunda e viu turistas circulando por lá também. Os ecos das badaladas do relógio haviam silenciado. Agora Langdon estava oficialmente atrasado. Ele voltou às pressas para o corredor e encontrou um guia turístico. Com licença, onde será a palestra do evento do Smithsonian hoje à noite? O guia hesitou. Não saberia dizer, senhor. Quando vai começar? Agora! O homem balançou a cabeça. – Não estou sabendo de nenhum evento do Smithsonian hoje à noite..., pelo menos não aqui.

Atarantado, Langdon voltou depressa para o meio do salão, correndo os olhos por todo o espaço. Será que isso é algum tipo de brincadeira de Solomon? A hipótese lhe parecia inimaginável. Pegou no telefone móvel e o fax recebido naquela manhã e discou o número de Peter. O telefone levou alguns segundos para captar um sinal dentro do imenso prédio. Por fim, começou a tocar. O conhecido sotaque sulista atendeu. Escritório de Peter Solomon, Anthony. Em que posso ajudar? Anthony!, disse Langdon, aliviado. Que bom que você ainda está aí. Aqui é Robert Langdon. Parece que está havendo alguma confusão em relação à palestra. Estou no meio do Salão das Estátuas, mas não há ninguém aqui. A palestra foi transferida para alguma outra sala? Acho que não, professor. Deixe-me verificar. O assistente fez uma pausa. O senhor confirmou directamente com o sr. Solomon? Langdon ficou confuso. Não, eu confirmei com o Anthony. Hoje de manhã! Sim, eu me lembro disso. Houve um silêncio na linha. Foi um pouco descuidado da sua parte, não acha, professor? Àquela altura, Langdon estava totalmente alerta. Como disse? Pense no seguinte..., disse o homem. O senhor recebeu um fax pedindo-lhe que ligasse para um número de telefone, o que fez sem titubear. Falou com um total desconhecido que se apresentou como assistente de Peter Solomon. Em seguida, o senhor embarcou por livre e espontânea vontade num jacto particular para Washington e entrou num carro que o estava aguardando. Correto?

Langdon sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Quem está falando, droga? Onde está Peter? Infelizmente, acho que Peter Solomon não tem a menor ideia de que o senhor está em Washington hoje. O sotaque sulista do homem desapareceu, e a sua voz se transformou num sussurro mais grave, açucarado. O senhor está aqui, professor Langdon, porque eu quero que esteja.

No Salão das Estátuas, Robert Langdon pressionou o telefone móvel contra a orelha e pôs-se a andar de um lado para o outro num círculo fechado. Quem é você, droga? A resposta do homem veio num sussurro sedoso, calmo. Não fique alarmado, professor. O senhor foi convocado a vir aqui por um motivo. Convocado? Langdon sentiu-se como um animal enjaulado. Que tal sequestrado? Não é bem assim. A voz do homem era de uma serenidade sinistra. Se eu quisesse machucá-lo, o senhor agora estaria morto dentro daquele Lincoln. Ele deixou as palavras pairarem no ar por alguns instantes. As minhas intenções são as mais nobres possíveis, posso garantir. Eu gostaria simplesmente de lhe fazer um convite.

Não, obrigado. Desde as suas experiências na Europa nos últimos anos, a indesejada celebridade o transformara num ímã de malucos, e aquele ali havia acabado de ultrapassar os limites. Olhe aqui, não sei que diabos está acontecendo, mas vou desligar... Eu não faria isso, disse o homem. A sua janela de oportunidade é muito pequena se deseja salvar a alma de Peter Solomon. Langdon puxou o ar com força. O que foi que você disse? Tenho certeza de que o senhor me ouviu. A forma como aquele homem pronunciara o nome de Peter deixou Langdon petrificado. O que você sabe sobre Peter? Neste exacto momento eu conheço os mais profundos segredos dele. O sr. Solomon é meu convidado, e eu sei ser um anfitrião persuasivo. Isto não pode estar acontecendo.

Você não está com Peter. Eu atendi o telemóvel dele. Isso deveria fazer o senhor parar e pensar. Vou chamar a polícia. Não precisa, disse o homem. As autoridades estarão com o senhor daqui a pouco. Do que esse louco está falando? O tom de Langdon ficou mais ríspido. Se está com Peter, ponha ele na linha agora mesmo. Impossível. O sr. Solomon está preso num lugar nada agradável. O homem fez uma pausa. Ele está no Araf». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Dan Brown, Washington D.C., Literatura, Maçonaria,

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Dan Brown. O Símbolo Perdido. «Então andou até ao detector de metais e esvaziou os bolsos. Ao tirar do pulso o Cartier de ouro, sentiu a costumeira pontada de tristeza. O relógio fora presente da mãe…»

jdact

«(…) As badaladas de um relógio começaram a ecoar pelos corredores do Capitólio. Sete horas. Àquela altura, Robert Langdon estava correndo. Isso é o que eu chamo de entrada dramática. Ao passar pelo corredor de ligação da Câmara, viu a entrada do Salão Nacional das Estátuas e se encaminhou directo para lá. Ao se aproximar da porta, diminuiu o passo até um ritmo descontraído e respirou fundo várias vezes. Abotoando o casaco, ergueu o queixo só um pouquinho e fez a curva bem na hora em que soava a última badalada. Hora do show. Ao entrar no salão, o professor Robert Langdon ergueu os olhos e abriu um sorriso caloroso. Um segundo depois, o sorriso evaporou. Ele estacou na hora. Alguma coisa estava muito, muito errada.

Katherine Solomon atravessou apressada o estacionamento sob a chuva fria, desejando estar usando algo mais do que uma calça jeans e um blusa de caxemira. Ao se aproximar da entrada principal do complexo, o ronco dos gigantescos purificadores de ar ficou mais alto. Ela mal os escutou, pois os seus ouvidos ainda estavam zumbindo por causa do telefonema que acabara de receber. Aquilo que seu irmão acredita que está escondido na capital... pode ser encontrado. Katherine achava isso quase impossível. Ela e a pessoa do telefone ainda tinham muito a conversar e haviam combinado fazer isso mais tarde naquela noite. Quando chegou à entrada principal, ela se viu invadida pela mesma empolgação que sempre sentia ao entrar no edifício gigantesco. Ninguém sabe que este lugar existe. A placa na porta dizia: Centro de Apoio dos Museus Smithsonian (CAMS)

Apesar de contar com mais de uma dúzia de enormes museus no National Mall, o Instituto Smithsonian possuía uma colecção tão descomunal que apenas 2% do acervo podia ser exibido ao mesmo tempo. Os outros 98% precisavam ser guardados em algum lugar. E o lugar..., era ali. Não era de espantar que aquele complexo abrigasse uma colecção de artefactos surpreendentemente diversificada: Budas gigantes, códices escritos à mão, dardos envenenados da Nova Guiné, facas incrustadas de jóias, um caiaque feito de osso de baleia. Igualmente de cair o queixo eram os tesouros naturais do complexo: fósseis de plesiossauro, uma colecção de meteoritos de valor inestimável, uma lula gigante e até mesmo uma colecção de crânios de elefante trazida por Teddy Roosevelt de um safari na África. Mas não fora por nenhum desses motivos que o secretário do Smithsonian, Peter Solomon, havia levado sua irmã ao CAMS três anos antes. Ele a chamara até ali não para ver maravilhas científicas, mas sim para criá-las. E era exactamente isso o que Katherine vinha fazendo.

Bem lá no fundo desse complexo, na escuridão de seus recantos mais remotos, havia um pequeno laboratório científico diferente de todos os outros do mundo. As recentes descobertas feitas ali por Katherine no campo da ciência noética tinham ramificações em todas as disciplinas, da física à história, à filosofia e à religião. Logo tudo irá mudar, pensou ela. Quando Katherine chegou ao saguão, o guarda que ocupava o balcão da entrada guardou rapidamente o rádio e arrancou das orelhas os fones de ouvido. Sra. Solomon! Ele deu um largo sorriso. Redskins? Ele corou, parecendo culpado. O jogo ainda não começou. Ela sorriu.

Então andou até ao detector de metais e esvaziou os bolsos. Ao tirar do pulso o Cartier de ouro, sentiu a costumeira pontada de tristeza. O relógio fora presente da mãe no seu aniversário de 18 anos. Quase 10 anos já haviam transcorrido desde que a mãe morrera de forma violenta..., seu corpo aninhado nos seus braços. Então, sra. Solomon?, sussurrou o guarda em tom de brincadeira. Algum dia vai contar a alguém o que está fazendo lá atrás? Ela ergueu os olhos. Algum dia, Kyle. Hoje não. Por favor, insistiu ele. Um laboratório secreto..., dentro de um museu secreto? A senhora deve estar fazendo alguma coisa bacana. Muito mais que bacana, pensou Katherine enquanto juntava os seus pertences. A verdade era que ela estava praticando uma ciência tão avançada que nem sequer parecia mais ciência». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Dan Brown, Washington D.C., Literatura, Maçonaria,

Ildefonso Falcones. A Rainha Descalça. «Sorte, repetiu antes de empreender a volta correndo muito. Uma vez sozinha, Caridad reparou no convento, o lugar indicado por don Damián»

jdact

Porto de Cádiz. 7 de Janeiro de 1748

«(…) Atracada a tartana, Caridad, tal como havia sucedido em Cádiz, deteve-se e hesitou na estreitíssima faixa de terreno que se abria entre a margem do rio e a primeira linha de edifícios de Triana, alguns deles com os alicerces à mostra pela acção das águas do Guadalquivir, tal era sua proximidade. Um dos carregadores lhe gritou que se afastasse para descarregar um grande saco. O grito chamou a atenção do capitão, que meneou a cabeça lá da borda. Seu olhar cruzou com o do grumete, também atento a Caridad; ambos conheciam o seu destino. Tens cinco minutos, concedeu a este. O rapaz agradeceu a permissão com um sorriso, saltou a terra e puxou Caridad. Corre. Segue-me, urgiu-a. Estava consciente de que o capitão o deixaria em terra se não se apressasse.

Superaram a primeira linha de edifícios e chegaram até à igreja de Santa Ana; seguiram afastando-se do rio mais duas quadras, o grumete nervoso, puxando Caridad, esquivando-se das pessoas que os observavam estranhando, até se encontrarem diante da Cava. Essas são as Mínimas, indicou o rapaz apontando uma construção na margem oposta da Cava. Caridad olhou na direcção que apontava o dedo do grumete: uma construção baixa, caiada, com uma igreja humilde; depois dirigiu o olhar para o antigo fosso defensivo que se interpunha no seu caminho, afundado, repleto de lixo em muitos pontos, precariamente aplanado em outros. Tens alguns lugares para atravessar, acrescentou o rapaz imaginando o que passava pela cabeça de Caridad, há um em São Jacinto, mas fica algo afastado. As pessoas atravessam por qualquer lugar, vês? E apontou para algumas pessoas que desciam ou subiam pelos lados do fosso. Tenho de voltar à embarcação, advertiu-a ao ver que Caridad não reagia. Sorte, negra. Caridad não disse nada.

Sorte, repetiu antes de empreender a volta correndo muito. Uma vez sozinha, Caridad reparou no convento, o lugar indicado por don Damián. Atravessou o fosso por um caminhinho aberto entre os montes de lixo. Na veiga não havia lixo, mas em Havana, sim; tinha tido oportunidade de vê-lo quando o senhor a havia levado à cidade para entregar as folhas de tabaco ao armazém do porto. Como podiam os brancos jogar fora tantas coisas? Alcançou o convento e empurrou uma das portas. Fechada. Bateu. Esperou. Nada aconteceu. Voltou a bater, com timidez, como se não quisesse incomodar. Assim não, negra, disse-lhe uma mulher que passava a seu lado e que, quase sem parar, puxou uma corrente que fez soar uma sineta. Pouco depois se abriu um postigo gradeado numa das portas. A paz do Senhor esteja contigo, ouviu que dizia a porteira; pela voz, uma mulher já velha. Que é o que te traz à nossa casa? Caridad tirou o chapéu de palha. Embora não chegasse a ver a monja, baixou os olhos para o chão. Don Damián me disse que viesse aqui, sussurrou. Não te entendo. Caridad havia falado rápido, atropeladamente, como faziam os boçais cubanos ao dirigir-se aos brancos.

Don Damián…, esforçou-se, ele me disse que viesse aqui. Quem é don Damián?, inquiriu a porteira depois de uns instantes de silêncio. Don Damián…, o sacerdote da embarcação, d’ A Rainha. A rainha? Que dizes da rainha?!, exclamou a monja. A Rainha, a embarcação de Cuba. Ah! Uma embarcação, não sua majestade. Pois…, não sei. Don Damián, disseste? Espera um momento. Quando o postigo voltou a abrir-se, a voz que surgiu dele era autoritária, firme. Boa mulher, o que te disse esse sacerdote que devias fazer aqui? Só me disse que viesse. A monja não voltou a falar senão depois de alguns segundos. E o fez com voz doce. Somos uma comunidade pobre. Dedicamo-nos à oração, à abstinência, à contemplação e à penitência, não à caridade. Que poderias fazer tu aqui? Caridad não respondeu. De onde vens? De Cuba. És escrava? E teus senhores?

Sou…, sou livre. Além disso, sei rezar. Don Damián a havia instado a que dissesse isso. Caridad não chegou a ver o resignado sorriso da monja. Escuta, disse esta: tens de ir à Confraria de Nossa Senhora dos Anjos, entendes? Caridad permaneceu em silêncio. Para que don Damián me fez vir aqui?, perguntou-se. A Confraria dos Negritos, explicou a monja, a tua. Eles te ajudarão…, ou te aconselharão. Escuta: caminha até à igreja de Nossa Senhora dos Anjos, perto da Cruz do Campo. Segue toda a Cava para o norte, para São Jacinto. Ali poderás atravessar a Cava, entra à direita e continua pela rua de Santo Domingo até chegar à ponte de barcos, cruza-a e depois… Caridad deixou as Mínimas tentando reter na mente o itinerário. Dos Anjos. Haviam-lhe dito que tinha de ir ali. Dos Anjos. Iriam ajudá-la. Na Cruz do Campo, recitava em voz baixa. Absorta nos seus pensamentos, caminhou alheia ao olhar das pessoas: uma negra voluptuosa, vestida com farrapos cinzentos e segurando uma pequena trouxa, e que não cessava de murmurar. No Altozano, assombrada diante do monumental castelo de São Jorge no início da ponte, chocou-se com uma mulher. Tentou desculpar-se, mas as palavras não surgiram; a mulher a insultou, e Caridad fixou os olhos em Sevilha, na outra margem. Dezenas de carros e cavalgaduras cruzavam a ponte num sentido ou no outro; a madeira rangia sobre os barcos. Aonde pensas que vais, negra?» In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, Bertrand Editora, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

Amizade, Espanha, Ildefonso Falcones, JDACT, Liberdade,

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «Ana virou o rosto para o lugar pelo qual José havia desaparecido depois de sua breve troca de palavras sobre Melchor. Ao contrário de seu pai, seu esposo…»

jdact

Porto de Cádiz. 7 de Janeiro de 1748

«(…) Mas Melchor Vega superou a tortura. Ana secou os olhos com a manga da camisa. Sim, havia sobrevivido. E um dia, quando já ninguém o esperava, reapareceu em Triana, consumido, esfarrapado, alquebrado, destroçado, arrastando os pés, mas com a altivez intacta. Nunca voltou a ser aquele pai que lhe remexia o cabelo quando ela ia até ele após alguma altercação infantil. Isso era o que fazia: remexer-lhe o cabelo para depois olhá-la com ternura recordando-lhe em silêncio quem era ela, uma Vega, uma cigana! Era a única coisa que parecia importar no mundo. O mesmo orgulho de raça que Melchor havia tentado inculcar à sua neta Milagros. Pouco depois do seu regresso, quando a menina tinha apenas alguns meses de vida, seu pai esperava que Ana concebesse um varão. Para quando o menino?, interessava-se sempre. José, seu esposo, também perguntava com insistência: já estás grávida? Era como se todo o Beco de San Miguel desejasse um varão. A mãe de José, suas tias, suas primas…, até as mulheres Vegas da ciganaria! Todas a assediavam, mas não foi possível.

Ana virou o rosto para o lugar pelo qual José havia desaparecido depois de sua breve troca de palavras sobre Melchor. Ao contrário de seu pai, seu esposo não havia sido capaz de sobrepor-se ao que para ele constituía um fracasso, um escárnio, e o pouco carinho e respeito que haviam reinado num casamento pactuado entre as duas famílias, os Vegas e os Carmonas, foram desaparecendo até serem substituídos por um rancor latente que se mostrava na aspereza do trato que se dispensavam. Melchor verteu todo o seu carinho em Milagros e, uma vez resignado a não ter um varão, também o fez José. Ana se converteu em testemunha do embate dos dois homens, sempre do lado de seu pai, a quem amava e respeitava mais que ao esposo. Havia anoitecido, o que estaria fazendo Melchor? O rasgado de uma guitarra a devolveu à realidade. As suas costas, no beco, ouviu o barulho do corre-corre das pessoas, do arrastar das cadeiras e dos bancos.

Festa!, anunciou aos gritos a voz de um menino. Outra guitarra se juntou à primeira procurando as notas. Logo se ouviu o repique oco de umas castanholas, e outras e outras, e até o de algum velho crótalo de metal, preparando-se, sem ordem nem harmonia, como se pretendessem despertar aqueles dedos que mais tarde acompanhariam danças e canções. Mais guitarras. Uma mulher limpou a garanta; voz de velha, quebrada. Uma pandeireta. Ana pensou no seu pai e enquanto ele gostava dos bailes. Sempre volta, tentou convencer-se então. Por acaso não era verdade? Ele também era um Vega! Quando saiu ao beco, os ciganos se haviam disposto em círculo ao redor de um fogo.

Vamos lá!, animou um velho sentado numa cadeira diante da fogueira. Todos os instrumentos se calaram. Uma só guitarra, nas mãos de um jovem de pele quase negra e colete apertado, atacou os primeiros compassos de um fandango. O grumete a quem havia convidado a fumar a acompanhou. Atracaram num embarcadouro de Triana, passado o porto de camaroeiros, para descarregar umas mercadorias com destino ao arrabalde. Aqui desces tu, negra, ordenou-lhe o capitão da tartana. O menino sorriu para Caridad. Haviam fumado um par de vezes mais durante a travessia. Devido ao efeito do tabaco, Caridad até havia chegado a responder com algum acanhado monossílabo a todas as perguntas que lhe fizera o rapaz, rumores que circulavam pelo porto sobre aquela terra distante. Cuba. Era verdadeira a riqueza de que se falava? Havia muitos engenhos de açúcar? E escravos, eram tantos como se dizia? Algum dia viajarei numa dessas grandes embarcações, assegurava ele, deixando voar a imaginação. E serei o capitão! Atravessarei o oceano e conhecerei Cuba». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, Bertrand Editora, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

Amizade, Espanha, Ildefonso Falcones, JDACT, Liberdade, 

Vestígios da Vida de Hipácia de Alexandria. Loraine Oliveira. «… andar térreo é destinado às lojas ou a moradias mais nobres, também chamadas de domus; os andares seguintes se dividem em apartamentos de vários tamanhos, habitados pelas famílias menos abastadas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) E o facto de ter sido uma mulher sábia, que foi destroçada pelos seus assassinos, fez dela uma mártir lembrada ao longo dos séculos. Não por acaso, Hipácia vem atraindo círculos feministas nos séculos XX e XX. Ademais, tornou-se uma figura lendária, que ocupou vários autores a partir do século XVIII na Europa (DZIELSKA, 2009). Mas afinal, do ponto de vista histórico filosófico, o que se sabe dela? Os traços que chegaram até nós provêm do olhar de homens. Eles se ligam bastante aos elementos públicos da sua vida, e talvez porque naquele contexto ela não devesse transitar pelo público, mais se escreveu sobre a sua morte, do que sobre sua vida.

Este artigo, por sua vez, propõe interpretar a vida de Hipácia no âmbito da ordem normativa que começa a se estabelecer em Alexandria, na viragem do século IV para o século V a.C., período em que ela viveu. Porque os vestígios da sua vida são escassos nas fontes antigas, percebe-se que os comentadores, em boa parte mulheres, nem sempre concordam ao interpretar tais fontes. Com efeito, a produção histórica e filosófica hodierna em torno a Hipácia, mostra quão difícil é tentar reconstruir a vida dessa figura. Visando interpretar os dados lacunares antigos que chegaram aos nossos dias, pessoas estudiosas incorrem em generalizações e em desacordos acerca de alguns aspectos, como por exemplo, a genealogia filosófica à qual pertencia Hipácia. Mas isso se deve ao facto que, dos antigos, foram recebidas diferentes genealogias, sendo impossível saber o que Hipácia realmente leu e ensinou. Longe de exaurir tal querela, no seu primeiro momento, o presente estudo visa pontuar algumas discordâncias e incertezas sobre o tema, posicionando-se a favor de uma fonte antiga: a História Eclesiástica de Sócrates Escolástico. Um ponto não menos turbulento é o carácter público do ensino de Hipácia, comentado na segunda parte deste artigo. Embora se tenha discutido o sentido dessa publicidade, é quase acordo geral que Hipácia dava suas aulas publicamente em plena rua. De interesse dos estudos de género, há que se revisar a dicotomia público/privado, porquanto:

1. Na época de Hipácia as mulheres ocupavam o espaço público, basta lembrar as sacerdotisas, as vendedoras nas feiras, as meretrizes, e mesmo as mulheres filósofas, como Temistoclea e Hipárquia, por exemplo;

2. Sem um espaço privado, onde estudar e realizar as suas pesquisas, sem um tecto todo seu, para usar a expressão de Virginia Woolf, e sem os meios materiais necessários, como resultado Hipácia não teria condições de ministrar os seus ensinamentos. De modo que ela circulava entre o público e o privado.

Todavia, há-de se observar que quando insisto na necessidade de um espaço privado, não se trata de um espaço de desempoeiramento. Muito pelo contrário, e por isso a remissão à Virginia Woolf: trata-se de um espaço onde as mulheres pudessem se retirar dos afazeres comezinhos estabelecidos para a dona de casa, um espaço adequado ao exercício do pensamento e da escrita. Woolf fala de um quarto reservado para isso, mas também admite a dificuldade que as mulheres elisabetanas tinham de possuir este espaço privado. Imagino que talvez Hipácia tivesse esse espaço interior de poder, uma vez que a sua família era da elite aristocrática, o que significa que vivesse numa casa grande, e não numa casa pequena, como as famílias menos abastadas viviam (penso aqui a partir do modelo das residências típicas das cidades mediterrâneas por volta do século III a.C., onde ao redor dos monumentos se encontrava uma multidão de casas, divididas entre as domus e as insulae; as primeiras são as casas individuais, com um ou dois andares, abertas para os espaços internos; são reservadas para as famílias ricas e ocupam um terreno precioso (em torno de 800-1000 m2); já as insulae são habitações colectivas, com um grande número de cómodos abertos para o exterior, com janelas e balcões; o andar térreo é destinado às lojas ou a moradias mais nobres, também chamadas de domus; os andares seguintes se dividem em apartamentos de vários tamanhos, habitados pelas famílias menos abastadas).

Com efeito, aqui é preciso evitar a falsa dicotomia público/privado, que se estabeleceu na historiografia desde o século XIX. Segundo LISSARAGUE (2002), este é um dos pontos que chamou atenção do debate sobre o estatuto das mulheres na Grécia. Como qualificar o que parece para a maioria dos comentadores uma obrigação: devemos com alguns pensar que elas assim estão protegidas, ou, seguindo nossos próprios valores, considerar que existe aí um limite para a sua autonomia? Ou que este espaço possa ser também de empoderamento? Lançando a questão para o mundo alexandrino, se propõe analisá-la a partir da noção de liberdade social e pessoal». In Loraine Oliveira, Vestígios da Vida de Hipácia de Alexandria, 2016, Revista Perspectiva Filosófica, volume 43, nº 1, Wikipedia.

Cortesia de RPFilosófica/Wikipedia/JDACT

JDACT, Loraine Oliveira, Hipácia,

O Mágico de Auschwitz.. «… política de apaziguamento em relação às novas exigências alemãs sobre a Polónia, dizendo que à luz destes acontecimentos a minoria alemã em Danzig poderá ser tentada a seguir o exemplo dos alemães dos Sudetas e...»

jdact e cortesia de wikipedia

Prólogo

«(…) Bertie!, chamou Gerda. Olha as notícias! Depois do frenesim dos apelos à calma na véspera, a telefonia passara toda essa manhã de 16 de Março de 1939 a emitir música clássica, decerto requiems pelo país que acabava de morrer. Mas pelos vistos o defunto ainda mexia porque havia novidades. Ou então era a oração fúnebre. Abandonando a janela, Levin encaminhou-se apressadamente para o quarto da costura, onde a mulher preparava os trajes especiais para os espectáculos de magia. Gerda terminava o vestido dourado da princesa Karnac, um número espectacular que ele andava a planear para a nova temporada. Sentou-se ao lado dela, junto a um enorme aparelho de rádio de cujos altifalantes jorrava a voz de um locutor checo. O casal, que só começara a aprender a língua quando para ali fora viver, tinha de se concentrar para compreender o que era dito. ... depois de o presidente Hácha ter assinado em Berlim um documento a solicitar ao exército alemão que ponha o destino do país e do povo checo nas mãos do Führer, noticiou o locutor no tom monocórdico de quem não se queria comprometer com nada. O senhor Hi… prepara-se para anunciar a transformação do nosso país num protectorado da Alemanha, o Protectorado da Boémia e da Morávia. O primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, reagiu em Londres para sublinhar que não houve nenhuma agressão alemã, uma vez que a invasão teve a aquiescência da Checo-Eslováquia. No entanto, o senhor Chamberlain observou que pela primeira vez a Alemanha ocupa o território de uma população que não é germânica. Vários membros do Parlamento britânico perguntaram ao governo do senhor Chamberlain se manterá a política de apaziguamento em relação às novas exigências alemãs sobre a Polónia, dizendo que à luz destes acontecimentos a minoria alemã em Danzig poderá ser tentada a seguir o exemplo dos alemães dos Sudetas e... Os Levin seguiam as notícias e os comentários sobre as ramificações geoestratégicas dos acontecimentos, mas o que verdadeiramente os preocupava eram as implicações para as suas vidas. Sendo judeus, não ignoravam as ideias dos nacional-socialistas. Fora por isso que tinham saído de Berlim e ido viver para o único país democrático da Europa Central. E agora aquela mesma gente seguira-os até ali. Tentavam convencer-se a si mesmos de que a perseguição aos judeus aconteceria só na Alemanha; nos outros países não haveria problemas pois os nazis apenas não queriam os judeus na Alemanha. O que lhes importava que houvesse judeus na Checo-Eslováquia ou em qualquer outra terra? Decerto tudo iria correr bem.

Depois de pentear o filho com um pente molhado, Levin vestiu-lhe o casaco e olhou para o relógio; eram dez e meia da manhã. Passara duas horas no Hokus-Pokus, a loja de ilusionismo que abrira anos antes, mas o movimento nesses dias era lento. Tudo por causa da guerra. Havia já alguns meses que os alemães tinham entrado em Praga e ali estavam eles outra vez ao ataque. Dessa feita o alvo fora a Polónia, invadida havia dois dias. Ansioso com as novidades, fora buscar Peter para um passeio que o pusesse na rota das notícias. Onde vamos, papá? Queres ir ao Reino dos Comboios? O menino arregalou os olhos, como se lhe prometessem um chocolate. Que’o, que’o! Levin sorriu. Não havia melhor sítio em Praga para entreter uma criança que o grande parque temático da cidade. Abotoou o casaco ao filho e pegou-lhe ao colo. Quando se dirigia para a saída passou pela cozinha e espreitou para o interior. A mulher estava de avental à roda dos tachos a preparar o almoço. Vamos dar uma voltinha, anunciou. Voltamos daqui a pouco, está bem? Tenham, tenham cuidado. Apesar de ainda ser Setembro, soprava uma brisa fresca pelo bairro de Holešovice. Dando a mão ao filho, encaminhou-se para a Veletržní mas lembrou-se que as autoridades tinham acabado de interditar a circulação de judeus por essa rua. O melhor seria seguir pela bem mais discreta Šimáčková. Que soubesse, ainda podia caminhar por ali. Teria era de ser cuidadoso quando cruzasse a rua, porque de um dia para o outro os alemães haviam mudado o sentido da condução e os carros vinham da direcção contrária; da esquerda, a condução passara para a direita. Quando viraram para a Šimáčková cruzaram uma pastelaria com pastéis na montra; viam-se cestos de trdelník, medovník, koláče e outras iguarias, e sabiam que no interior havia ainda strudel e crepes palačinky. Que’o um bouo. O olhar de Levin desviou-se para a tabuleta na porta a  dizer Juden verboten. Os judeus estavam proibidos de entrar. Aquilo  era outra novidade trazida pelas forças de proteção. Então também já não se podia entrar nas pastelarias? Em boa verdade, as primeiras iniciativas contra os judeus tinham surgido ainda antes de os alemães marcharem sobre o país. No meio da crise, o governo democrático de Edvard Beneš demitira-se e fora substituído por um executivo autoritário que estabelecera a censura e afastara os judeus da função pública e do quadro médico dos hospitais. Novas medidas surgiram dois dias depois da entrada dos alemães em Praga, quando o governo checo, já tutelado pelos nazis, limitara a actividade de advogados e gestores judeus». In José Rodrigues dos Santos, O Mágico de Auschwitz, 2020, Edições Gradiva, 2020, ISBN 978-989-616-884-1.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, Guerra, Nazismo, Literatura,

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Hypatia. Charles Kingsley. «… In the four hundred and thirteenth year of the Christian Era, some three hundred miles above Alexandria, the young monk Philammon was sitting on the edge of a low range…»

Cortesia de wikipedia e jdact

New Foes With an Old Face

Preface

«A picture of life in the fifth century must needs contain much which will be painful to any reader, and which the young and innocent will do well to leave altogether unread. It has to represent a very hideous, though a very great, age; one of those critical and cardinal eras in the history of the human race, in which virtues and vices manifest themselves side by side--even, at times, in the same person, with the most startling openness and power. One who writes of such an era labours under a troublesome disadvantage. He dare not tell how evil people were; he will not be believed if he tells how good they were. In the present case that disadvantage is doubled; for while the sins of the Church, however heinous, were still such as admit of being expressed in words, the sins of the heathen world, against which she fought, were utterly indescribable; and the Christian apologist is thus compelled, for the sake of decency, to state the Church's case far more weakly than the facts deserve.

Not, be it ever remembered, that the slightest suspicion of immorality attaches either to the heroine of this book, or to the leading philosophers of her school, for several centuries. Howsoever base and profligate their disciples, or the Manichees, may have been, the great Neo-Platonists were, as Manes himself was, persons of the most rigid and ascetic virtue.

For a time had arrived, in which no teacher who did not put forth the most lofty pretensions to righteousness could expect a hearing. That Divine Word, who is 'The Light who lighteth every man which cometh into the world,' had awakened in the heart of mankind a moral craving never before felt in any strength, except by a few isolated philosophers or prophets. The Spirit had been poured out on all flesh; and from one end of the Empire to the other, from the slave in the mill to the emperor on his throne, all hearts were either hungering and thirsting after righteousness, or learning to do homage to those who did so. And He who excited the craving, was also furnishing that which would satisfy it; and was teaching mankind, by a long and painful education, to distinguish the truth from its innumerable counterfeits, and to find, for the first time in the world's life, a good news not merely for the select few, but for all mankind without respect of rank or race.

[…]

The Laura

«In the four hundred and thirteenth year of the Christian Era, some three hundred miles above Alexandria, the young monk Philammon was sitting on the edge of a low range of inland cliffs, crested with drifting sand. Behind him the desert sand-waste stretched, lifeless, interminable, reflecting its lurid glare on the horizon of the cloudless vault of blue. At his feet the sand dripped and trickled, in yellow rivulets, from crack to crack and ledge to ledge, or whirled past him in tiny jets of yellow smoke, before the fitful summer airs. Here and there, upon the face of the cliffs which walled in the opposite side of the narrow glen below, were cavernous tombs, huge old quarries, with obelisks and half-cut pillars, standing as the workmen had left them centuries before; the sand was slipping down and piling up around them, their heads were frosted with the arid snow; everywhere was silence, desolation-the grave of a dead nation, in a dying land. And there he sat musing above it all, full of life and youth and health and beauty, a young Apollo of the desert. His only clothing was a ragged sheep-skin, bound with a leathern girdle. His long black locks, unshorn from childhood, waved and glistened in the sun; a rich dark down on cheek and chin showed the spring of healthful manhood; his hard hands and sinewy sunburnt limbs told of labour and endurance; his flashing eyes and beetling brow, of daring, fancy, passion, thought, which had no sphere of action in such a place. What did his glorious young humanity alone among the tombs?» In Charles Kingsley, Hypatia, New Foes With an Old Face, 1853, Project Gutenberg, 1971, 2002-2004, 10ª Edition, Fonthill Media, 2016,ISBN 978-178-155-546-0.

Cortesia de EFonthill/Wook/JDACT

JDACT, Charles Kingsley, Literatura, Filosofia, Matemática, Cultura, 

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «Talvez o senhor devesse insistir. Samuel não se mexeu. Esse homem que o senhor descobriu sabe alguma coisa sobre o trabalho de nossos tradutores?»

jdact e wikipedia

Cambridge, Inglaterra

«(…) O outro respondeu sem hesitação: ele é um intelectual. Digamos que será tutor de sua filha. Tutor de Anne? Marbury tossiu. Mas ela é adulta, 20 anos. Já bem passada de tutela. Solteira. A palavra única fora feita de chumbo. E imagina-se uma filósofa religiosa. O primeiro impulso do ministro foi perguntar como aquele homem saberia alguma coisa sobre Anne, mas achou melhor não perguntar nada. E filha do pai. O tom nem de longe era de desculpas. E não aceitará tutor. Deram-nos a entender que ela se interessa pelos costumes da cultura grega, além de Teologia. Marbury deu um suspiro. Decerto aqueles homenzinhos saberiam das tendências religiosas da moça. Ela as expressara com bastante frequência em público. Talvez se interesse por uma coisa dessas, reconheceu. Talvez o senhor devesse insistir. Samuel não se mexeu. Esse homem que o senhor descobriu sabe alguma coisa sobre o trabalho de nossos tradutores?, perguntou o pastor, elevando a voz. Porque isso é tão importante para o senhor?, perguntou Isaiah, igualando o volume. Anne tem um interesse agudo por tradução. O ministro não podia tornar a falar mais alto. Se esse homem pudesse saber um pouco sobre a obra, isso talvez ajudasse a fazê-la aceitá-lo mais depressa. Ele sabe o que saberia qualquer pessoa na posição dele, cortou o outro. O rei James reuniu uma equipa de cerca de cinquenta e quatro intelectuais. Oito moram com o senhor em Cambridge. Só restam cinquenta e três agora, lembrou Isaiah. O importante, prosseguiu Samuel, mais irritado, é que estão traduzindo a Bíblia a partir de fontes originais. O conhecimento de grego do nosso homem é o que interessa tanto em relação à tradução quanto à sua filha. Pois muitos dos originais estão em grego...

Um pouco de conhecimento, interrompeu-o Marbury, na esperança de cortar outra discussão, não enganará nossos homens de Cambridge nem convencerá Anne... Ele é um intelectual superior, explodiu o outro. O pastor ouviu a ameaça nessas palavras. Combateu o impulso de cortar a discussão e deixar o quarto o mais rapidamente possível, percebendo que devia ter cuidado com aqueles homens. Melhor seguir adiante com os planos deles, mas acautelar-se para não confiar em tudo. Formulou, e abandonou, várias perguntas antes de decidir-se pelas mais básicas. Como, então, vou encontrá-lo? Curvou-se para a frente, disposto a sair. Vai chegar amanhã de manhã e apresentar-se ao senhor no diaconato. Samuel moveu uma resma de papel amarrada com barbante de açougueiro em direcção ao pastor. Por qual nome devo chamá-lo? Irmão Timon. A voz do outro pareceu rouca por um momento. O ministro notou que Daniel, que não falara, tremeu durante um breve instante. Quem lhe deu esse nome?, quis saber, sem evitar uma fracção de diversão nas suas palavras.

Os três homens entreolharam-se, obviamente sem resposta para a pergunta. Só pergunto porque acho o nome interessante. E, os senhores entendem, de uma peça que conheço. O nome de uma personagem que odeia todo mundo..., porque os homens foram ingratos com as suas boas obras. Os três permaneceram calados. Muito bem. Marbury levantou-se e puxou a capa em volta do corpo, apalpando em busca do cabo da adaga escondida. Que seja Timon. Espero encontrá-lo. Sem outra sílaba, dirigiu-se à porta, mal dando as costas aos três vultos. Tinha os ouvidos sintonizados para captar o menor sinal de movimento deles ao deslizar para fora». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesia de Prumo/JDACT

JDACT, Phillip Depoy, Literatura,

domingo, 17 de janeiro de 2021

Dan Brown. O Símbolo Perdido. «Centenas de anos atrás, há quem diga que em 1703, foi fundado um braço feminino chamado Estrela do Oriente»

jdact

«(…) Pelo contrário. Um dos pré-requisitos para se tornar maçom é que precisa acreditar numa força superior. A diferença entre a espiritualidade Maçónica e uma religião organizada é que os maçons não impõem a esse poder nenhuma definição específica ou nomenclatura. Em vez de identidades teológicas definitivas como Deus, Alá, Buda ou Jesus, os maçons usam termos mais genéricos como Ser Supremo ou Grande Arquitecto do Universo. Isso possibilita a união de maçons de crenças diferentes. Parece meio esquisito, comentou alguém. Ou, quem sabe, estimulante e libertador? – sugeriu Langdon. Nesta época em que culturas diferentes se matam para saber qual é a melhor definição de Deus, poderíamos afirmar que a tradição maçónica de tolerância e liberdade é louvável. Langdon caminhou pelo tablado. Além do mais, a Maçonaria está aberta a homens de todas as raças, cores e credos, e proporciona uma fraternidade espiritual que não faz qualquer tipo de discriminação.

Não faz discriminação? Uma integrante da Associação de Alunas da universidade se levantou. Quantas mulheres têm permissão para serem maçons, professor Langdon? Langdon ergueu as mãos, rendendo-se. Bem colocado. As raízes tradicionais da Franco-maçonaria são as guildas de pedreiros da Europa, o que a tornava, portanto, uma organização masculina. Centenas de anos atrás, há quem diga que em 1703, foi fundado um braço feminino chamado Estrela do Oriente. Essa organização possui mais de um milhão de integrantes. Mesmo assim, disse a mulher, a Maçonaria é uma organização poderosa da qual as mulheres estão excluídas. Langdon não sabia ao certo quão poderosos os maçons ainda eram e não estava disposto a enveredar por essa seara. As opiniões sobre os maçons modernos iam de um bando de velhotes inofensivos que gostavam de se fantasiar..., até um conluio secreto de figurões que controlava o mundo. A verdade estava sem dúvida em algum lugar entre essas duas concepções.

Professor Langdon, disse um rapaz de cabelos encaracolados na última fileira, se a Maçonaria não é uma sociedade secreta, nem uma empresa, nem uma religião, então o que é? Bem, se perguntasse isso a um maçom, ele daria a seguinte definição: a Franco-maçonaria é um sistema de moralidade envolto em alegoria e ilustrado por símbolos. Isso me parece um eufemismo para seita de malucos. Malucos, disse? É isso!, disse o aluno, levantando-se. Sei muito bem o que eles fazem dentro desses prédios secretos! Rituais esquisitos à luz de velas, com caixões, forcas e crânios cheios de vinho para beber. Isso, sim, é maluquice! Langdon correu os olhos pela sala. Alguém mais acha que isso é maluquice? Sim!, entoaram os alunos em coro. Langdon deu suspiro fingido de tristeza. Que pena. Se isso é maluco demais para vós, então sei que nunca vão querer entrar para a minha seita. Um silêncio recaiu sobre a sala. A integrante da Associação de Alunas pareceu incomodada.

O senhor faz parte de uma seita? Langdon assentiu com a cabeça e baixou a voz até um sussurro conspiratório. Não contem para ninguém, mas, no dia em que o deus-sol Rá é venerado pelos pagãos, eu me ajoelho aos pés de um antigo instrumento de tortura e consumo símbolos ritualísticos de sangue e carne. A turma toda fez uma cara horrorizada. Langdon deu de ombros. E, se algum de vós quiser se juntar a mim, vá à capela de Harvard no domingo, ajoelhe-se diante da cruz e faça a santa comunhão. A sala continuou em silêncio. Langdon deu uma piscadela. Abram a mente, meus amigos. Todos nós tememos aquilo que foge à nossa compreensão». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Dan Brown, Washington D.C., Literatura, Maçonaria,