quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A Princesa Guerreira. Barbara Erskine. «Enquanto o velho Ford Ka subia aos solavancos a ladeira que conduzia à casa, Jess espreitou pelo vidro da frente para a pequena herdade da irmã…»

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«(…) Com mãos hesitantes, retirou o cartão e abriu-o.

Nós os dois, que nos comprámos à custa de tantos milhares de suspiros, somos miseravelmente vendidos no mesquinho espaço de um só. Neste momento, o tempo malfazejo, à pressa como os ladrões, entrouxa, desordenadamente, a rica presa que fez; reduz a um só e mísero adeus aqueles outros que, tantos como as estrelas do céu, tinham, um a um, os seus suspiros e os seus beijos; e separa-nos com um breve e faminto ósculo dessaborido com as nossas lágrimas. (In Trólio e Créssida, William Shakespeare)

Obrigado por tudo, bem-haja,
Ash.
Por baixo, escrevinhara:
A porta estava aberta. É triste sentir a tua falta. A x.

Ash estivera no seu apartamento. Não Will. Ash, citando Tróilo e Créssida. Ele devia ter ficado à espreita, aguardando que ela saísse para poder entrar à socapa. Jess fechou os olhos, arrepiada. Levou dez minutos a carregar o carro, descendo e subindo as escadas a correr, com as malas e os caixotes, numa obsessiva atenção aos passeios. Por fim, conseguiu meter tudo lá dentro. Regressando ao apartamento uma última vez, deu uma vista de olhos pela casa, para ver se se esquecera de alguma coisa. Só das flores. Com um esgar de repulsa, pegou nelas e enfiou-as, de cabeça para baixo, no caixote do lixo. Depois, deitou fora o cartão, saiu à pressa, fechou a porta atrás de si, trancou as duas fechaduras e meteu-se dentro do carro. Empurrando os trincos da porta para baixo com violência, afundou-se atrás do volante e respirou fundo várias vezes, para tentar acalmar o pânico. Acabou. Ele não está aqui. Não vai saber para onde vou. Ficarei em segurança. Soprava as palavras em voz alta no momento em que enfiou a chave na ignição e a rodou.

Enquanto o velho Ford Ka subia aos solavancos a ladeira que conduzia à casa, Jess espreitou pelo vidro da frente para a pequena herdade da irmã, que se estendia, aninhada, na encosta arborizada, e sentiu um rasgo de alegria e alívio. O sentimento esmoreceu um pouco quando ela virou para o pátio e desligou o motor. Onde estava o carro de Steph? A casa parecia vazia. Chegara tarde de mais. Steph já tinha partido, caso contrário, por que estaria a porta da rua fechada? Nunca a vira fechada desde que a irmã ali vivia, nem mesmo no Inverno. Jess saiu do carro, dorida das longas horas de condução, e perscrutou o espaço em redor. Contendo um brusco aperto de solidão, foi à procura da chave. Encontrou-a no esconderijo habitual, no alpendre, presa num casulo de teias de aranha, prova da escassez de uso, por debaixo de um vaso de terracota. Quando se curvou para recolhê-la, uma andorinha indignada voou para fora do ninho, oculto na sombra, um pouco mais acima, deixando uma fila de crias rabugentas, ainda incapazes de voar, a querer saltar para fora, debruçadas na borda, fulminando-a com o olhar.
Jess introduziu a chave na fechadura e, rodando-a com dificuldade, abriu a porta e entrou. A casa estava estranhamente silenciosa. Steph era uma mulher sociável. No passado, quando Jess a visitara, deparara-se sempre com uma multidão, artistas e escritores fugindo da cidade, ex-namorados e ex-maridos que se mostravam todos de surpreendentes boas relações com a irmã, colegas da Escola de Arte de West London, onde Steph dera aulas durante dez anos, antes de se afastar para se dedicar à cerâmica, pessoas que ela conhecera em viagem, animais que a seguiam até casa, crianças abandonadas que a mãe recolhera nos seus périplos e conduzira despreocupadamente à quinta da filha, no País de Gales. Enquanto descarregava o carro, começando cautelosamente a explorar a casa que seria o seu reino durante o Verão, Jess esperava ver, a qualquer momento, uma cara sonolenta a espreitar de um dos quartos, um gato vadio, um cordeiro órfão, um artista sem-abrigo. Mas não apareceu ninguém. A casa estava limpa, arrumada e deserta». In Barbara Erskine, A Princesa Guerreira, 2008, tradução de Catarina Almeida, Grupo Planeta, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2009/2010, ISBN 978-989-657-113-9.

Cortesia de PManuscrito/JDACT

A Princesa Guerreira. Barbara Erskine. «Com uma mão trémula, procurou as chaves no bolso. Antes mesmo de tentar introduzir a primeira chave na fechadura, a porta abriu-se. Sustendo a respiração, espreitou para o interior»

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«(…) Jess deixou cair o auscultador no descanso, com um gemido de medo. O sacana divertia-se com aquilo. Pois bem, ela não lhe daria essa satisfação. Olhou de relance para o relógio. Podia partir nessa noite. De imediato. Não havia nada que a prendesse ali um minuto que fosse. Já tinha mesmo encontrado um inquilino para ficar algumas semanas, a tomar conta do apartamento. E, se saísse naquele momento, ainda punha a conversa em dia com Steph antes de a irmã partir para Roma. No País de Gales, estaria segura. Ninguém descobriria o seu paradeiro. Olhou para o telefone móvel. Para aquele número, ele ainda não lhe ligara. Com sorte, não o saberia, mais uma razão para ela pensar que não devia ser Will. Will sabia o seu numero de telemóvel; sabia o endereço de Steph, chegara mesmo a visitar Ty Bran. Sabia tudo o que havia para saber a seu respeito. Não podia ser Will quem andava a atormentá-la. Se fosse ele, estaria perdida. Will adivinharia logo para onde ela tinha ido. Dan era o elo mais fraco do seu plano. A única pessoa que sabia, de facto, para onde ela ia. Ele atendeu-lhe o telefone ao terceiro toque da chamada. Dan, se alguém perguntar, diz que fui para Itália passar o Verão com Steph e Kim, está bem?
Ao ouvi-lo rir, Jess sorriu, sem vontade. Afinal, talvez viesse mesmo a ser verdade. Se Kim não se importasse, era muito possível que ela seguisse Steph. E, pelo sim pelo não, não faria mal nenhum enfiar o passaporte dentro da mala. Fechando-a, deteve-se, à porta. O conteúdo do frigorífico fora arrumado num caixote de cartão e num saco isotérmico; os papéis espalhados sobre a secretária, guardados na pasta de documentos, juntamente com o portátil; por último, as suas duas, ameaçadas, plantas de interior e os materiais e cadernos de esboços que abandonara durante tanto tempo, por falta de oportunidade, já tinham sido postos num outro caixote de cartão.
Cautelosa, abriu a porta e espreitou para o patamar. Já deixara uma chave sobressalente com a senhora Lal, que prometera vigiar o apartamento até o inquilino chegar. O carro estava estacionado a duas ruas de distância dali. Pegando nas chaves que se encontravam sobre o balcão da cozinha, correu pelas escadas abaixo. Ainda era cedo, e as ruas continuavam inundadas de Sol enquanto as pessoas regressavam a casa, no fim do seu dia de trabalho. Jess ouviu ecos de música, sobrepondo-se ao ruído do trânsito, e sentiu o aroma picante e fumarento da came cozinhada no restaurante tandoori, perto da estação de metro.
Alguém, provavelmente a senhora Lal, deixara a porta do prédio fechada no trinco. Hesitando, espreitou para a rua, à esquerda e à direita, e puxou a porta, deixando-a destrancada para a velha senhora entrar, enquanto contornava a praça a correr, à procura do carro. Estava bem apertado, como era hábito, e o tejadilho fora generosamente borrifado com excrementos de pássaro, caídos do plátano por debaixo do qual o estacionara. Com uma manobra minuciosa, conseguiu tirar o carro e conduzir de volta ao apartamento, parando em segunda fila. A porta do prédio continuava aberta. Franzindo o sobrolho, olhou de relance para cima e para o fundo da rua. Não via a senhora Lal, nem nenhum dos inquilinos dos andares de cima. Um bando de rapazes demorara-se na esquina; alguns empreiteiros carregavam escadas e latas de tinta para dentro de uma carrinha; duas raparigas africanas, com vestidos coloridos, dirigiam-lhes risinhos; mais além, conseguia ver um par de mulheres com lenços pretos na cabeça. Não havia ninguém perto da entrada do prédio; ninguém que pudesse ter ido a sua casa. Empurrando a porta com cuidado, perscrutou o átrio. Tudo estava calmo. Subiu a correr, galgando os degraus dois a dois, e parou no patamar do primeiro andar, mergulhado na penumbra, a lâmpada de novo fundida. Olá?, chamou, com nervosismo. Está aí alguém? Não obteve resposta.
Com uma mão trémula, procurou as chaves no bolso. Antes mesmo de tentar introduzir a primeira chave na fechadura, a porta abriu-se. Sustendo a respiração, espreitou para o interior. As malas e os caixotes continuavam alinhados no lugar onde ela os deixara. O apartamento estava em silêncio, mas algo tinha mudado. Estivera ali alguém; sentia-o. Cheirava-o. Fungou. Aftershave. E suor. Will? Não era a marca que Wili usava, mas ele era a única pessoa que Jess sabia que tinha a chave. A menos que ela tivesse deixado a porta aberta. Mas não tinha deixado. Sabia que não tinha deixado. Ou teria? Will, estás aí?, perguntou, com um tremor na voz, toda ela tensa, pronta a fugir. Não houve resposta. Com cautela, espreitou para a sala de estar. Um enorme ramo de flores jazia sobre a mesa de centro. Jess sentiu um baque. Paralisada, como um coelho encadeado pela luz dos faróis, olhou em redor para o resto da sala. Will? A voz tremia-lhe. Não se ouvia um som. Mesmo no seu pânico, ela sentia o apartamento vazio. Will?
Com a boca seca, dirigiu-se a porta do quarto, em bicos de pés. Não encontrou ninguém. A cama impecavelmente feita, as superfícies limpas, os cortinados meio corridos estavam exactamente como ela os deixara. Virando-se, foi espreitar a cozinha e a casa de banho. Ambas vazias. Nada indicava que alguém passara por ali. Os caixotes que deixara à entrada não pareciam mexidos. Quem quer que tivesse entrado no apartamento, durante o curto intervalo de tempo em que ela se ausentara, já se fora embora. Fechando a porta da rua, Jess respirou fundo e aproximou-se do ramo de flores. Um cartão fora metido no meio das pétalas rosadas e azuis dos crisântemos, comprados numa florista, embrulhados com uma fita em papel de celofane cor-de-rosa». In Barbara Erskine, A Princesa Guerreira, 2008, tradução de Catarina Almeida, Grupo Planeta, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2009/2010, ISBN 978-989-657-113-9.

Cortesia de PManuscrito/JDACT

A Princesa Guerreira. Barbara Erskine. «Jess aquiesceu, num torpor. Queres que eu vá até aí? Não. Não, Dan. Não te preocupes. Eu estou bem. Bem, sabes onde encontrar-me, se precisares de mim»

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«(…) Metodicamente, Jess começou a fazer as malas, organizando a burocracia, desfazendo os laços com o colégio e os amigos. Só durante o Verão, explicou. Quero afastar-me para estar um pouco sozinha, comigo própria. Talvez aproveite a oportunidade para pintar alguma coisa. Não disse para onde ia. Cultivou o ar de mistério. De diversão. De solidão. Não era uma coisa definitiva. Ela adorava o apartamento onde vivia. Não queria vendê-lo. Só precisava de espaço. De um lugar seguro. Um lugar onde ele não pudesse encontrá-la. Quando o telefone tocou, acabara de abrir a porta e entrar, atendeu sem a mais pequena suspeita, esperando que fosse a secretária do director, Jane, com mais burocracias para pôr em ordem. Sim? Naquele momento, estava a segurar no auscultador, na mala, nas compras e a tentar pousar as coisas em cima da mesa, com a porta da rua ainda aberta atrás dela. Como estás, Jess? Recuperada? Era uma voz abafada; profunda. Não a reconhecia. Quem fala? Os sacos das compras tinham caído no chão. Virando-se, deu os dois passos que a separavam da porta e fechou-a com estrondo, estendendo o braço para enfiar a corrente na ranhura. Will, és tu? Will telefonara-lhe duas ou três vezes, e ela recusara-se a falar com ele. Não obteve resposta. Durante alguns segundos, a ligação manteve-se; ela sentia-o, fosse ele quem fosse, do outro lado, à escuta. Depois, desligou.
Quando pousou o auscultador, Jess tinha a mão escorregadia, de suor. Sentando-se à mesa, com a cabeça enterrada nos braços, tentou acalmar a respiração. Ligar à polícia. Devia ligar à polícia naquele preciso instante. Mas como? Tomara a decisão de não contar a ninguém e manter-se-ia firme. Num movimento brusco, levantou-se e, pegando novamente no auscultador, marcou o 1471, com as mãos a tremer. Quem lhe ligara ocultara o número. Meia hora depois, o telefone voltou a tocar. Jess ficou a olhar para baixo, para o aparelho, vários minutos antes de atender. Jess? Queria confirmar contigo se tinhas recebido a papelada toda da secretária do director. Era Dan. A ligar-lhe do colégio. Como ela não respondeu de imediato, a voz dele tornou-se cortante. Jess? O que se passa? O que aconteceu?
Tenho recebido telefonemas, Dan. Quando atendo, ninguém responde. Desta vez, ele perguntou como eu me sentia. Depois, desligou. Reconheceste a voz? Não. Então, não era Will? Não, não creio. Não sei. Não disseste nada a Will a respeito do lugar para onde eu vou, pois não, Dan? Dan era a única pessoa a quem Jess confiara aquela informação; afinal, ele conhecia Steph há tanto tempo como a conhecia a ela. Tinham andado juntos na universidade. Tu obrigaste-me a prometer que eu não o faria. E não estava a brincar. Jess mordeu o lábio. - Se não foi Will, replicou ele, com lentidão, pode ter sido Ash. Jess respirou fundo, um momento. Não. Sim. Não sei. Ash é um actor. Sabe certamente disfarçar a voz, Jess. É certo que não deveria saber o teu número de telefone. Mas qualquer um seria capaz de descobrir. Pode tê-lo procurado enquanto esteve no teu apartamento. Seguiu-se uma pausa. Porque ele esteve no teu apartamento, não foi, Jess? Como ela não respondeu, Dan continuou. Ou podia tê-lo procurado no escritório de Jane, aqui no colégio. Sei que os miúdos não são autorizados a entrar, mas entram.
Jess aquiesceu, num torpor. Queres que eu vá até aí? Não. Não, Dan. Não te preocupes. Eu estou bem. Bem, sabes onde encontrar-me, se precisares de mim. Quando partes? Dentro de um dia ou dois. Assim que acabar de tratar da burocracia. Está bem, cuida de ti. Eu telefono-te amanhã, certo? A mala de viagem ficara aberta em cima da cama. Jess estava a dobrar o resto das roupas e a arrumá-las dentro da mala quando ouviu, de novo, o telefone a tocar. Deteve-se um momento, com o coração disparado, inclinando-se para chegar à mesinha-de-cabeceira e atender. Ninguém falou do outro lado. Está? Começou a tremer. Quem é? Mais vale dizer-me! Ash, és tu? Não houve resposta. Está! Abanou o auscultador. Está! Quem está aí? Do outro lado da linha, chegou uma gargalhada sufocada. Uma voz masculina. Profunda. Anónima». In Barbara Erskine, A Princesa Guerreira, 2008, tradução de Catarina Almeida, Grupo Planeta, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2009/2010, ISBN 978-989-657-113-9.

Cortesia de PManuscrito/JDACT

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O Senhor do Falcão. Valeria Montaldi. «Aparentemente despreocupada com os entediantes discursos dos arautos, a multidão prosseguia nos seus afazeres: debaixo do enorme pórtico que constituía o rés-do-chão do palácio comunal»

Cortesia de wikipedia e jdact

Milão. 1243
«(…) Enquanto ia ruminando estes pensamentos, Matthew transpôs a Porta Cumana, que conduzia ao Broletto Novo: aqui, sobrepondo-se à algazarra da multidão, erguiam-se, fortíssimas, as vozes de dois arautos da comuna que, empoleirados num banquinho montado em frente do palácio, apregoavam, à vez, as habituais interdições que a população deveria respeitar. ... e além disto ordena-se que nenhum homem jogue ou empreste dinheiro para jogos de azar, sob pena de ter de pagar sessenta soldos de multa. Também se impõe a proibição de jogar qualquer jogo, mesmo que considerado lícito, de noite, nas estradas, nas tabernas ou em outro qualquer lugar, sendo permitido jogar apenas durante as horas do dia. No que respeita aos delitos, foi estabelecido que, independentemente do sexo a que pertencer, qualquer pessoa maior de doze anos que cometa um furto de um objecto de valor superior a seis denários pagará uma multa de vinte soldos. Alguém que prenda o ladrão e não o entregue ao arcipreste ou ao seu enviado será multado em sessenta soldos...
Aparentemente despreocupada com os entediantes discursos dos arautos, a multidão prosseguia nos seus afazeres: debaixo do enorme pórtico que constituía o rés-do-chão do palácio comunal, mercadores ricamente vestidos faziam contratos entre si, misturados com tabeliões e meirinhos provenientes dos cárceres vizinhos da Malastalla. Ajaezados com as insígnias da podestà, seis cavalos esperavam, presos aos pilares de sustentação dos arcos do pórtico, sinal de que, naquele preciso momento, estava a decorrer uma reunião de notáveis na sala superior. Os olhos de Matthew detiveram-se no relevo de pedra que uns vinte anos antes fora colocado na fachada do palácio dedicado ao regedor que dera início à construção do Broletto. O homem era representado a cavalo, numa severa atitude guerreira: a inscrição, em baixo, identificava-o como Oldrado Tresseno, sublinhando a sua importância como perseguidor de hereges. Catharos, ut debuit, uxit, citava a epígrafe: apesar da tepidez da jornada estival, o frade arrepiou-se ao ler aquelas palavras, que, mais uma vez, o faziam recuar no tempo. Até aqui, como, aliás, nas terras de França, no vale Augusta, onde quer que fosse, enfim, se falava de heresias, de homens e mulheres torturados e mortos por se terem afastado da fé de Roma.
O abade de San Simpliciano, embora não conhecendo o verdadeiro motivo que levara o frade a Itália desde a longínqua Inglaterra, recomendara-lhe cautela com os contactos pessoais que iria fazer na cidade: nestes tempos, havia-lhe dito, não era preciso muito para se ser acusado de heresia. Até os próprios membros da ordem dos humilhados haviam sofrido a censura por parte do papa, com consequentes imposições de uma nova regra canónica, dado que os seus hábitos de vida comunitária cheiravam a heresia: e, no entanto, acrescentara Arnolfo, tratava-se de confrades digníssimos que se dedicavam às mais duras tarefas agrícolas e à produção de lã, na qual eram mestres. Matthew ficara estupefacto com as palavras piedosas do abade, sabendo bem que, frequentemente, as várias ordens religiosas estavam em desacordo entre si. Arnolfo, como é evidente, apesar das suas importantes ligações com os mais variados membros do poder milanês, era um homem justo, capaz de distinguir a boa da má-fé, atento sobretudo à saúde espiritual das almas que lhe haviam sido confiadas. Nutria uma certa desconfiança relativamente aos frades menores, que, encarregados pelo arcebispo Leone da Perego de perseguir a heresia, procuravam com cruel determinação e denunciavam todo aquele que, em Milão, fosse suspeito de discordar da regra da Igreja de Roma. Com o desenvolvimento deste ingrato trabalho inquisitório colaboravam também os dominicanos: o abade havia recomendado a Matthew que se mantivesse longe dos membros destas duas ordens durante o desenrolar das pesquisas, para evitar o risco de se ver envolvido, contra a sua vontade, em manobras obscuras e perigosas». In Valeria Montaldi, O senhor do Falcão, 2003, Casa das Letras/Editorial Notícias, 2005, ISBN 978-972-461-618-6.

Cortesia de CdasLetras/Editorial Notícias/JDACT

O Senhor do Falcão. Valeria Montaldi. «A prostituta sorria, girando entre os lábios semiabertos a ponta da língua: os seios, quase completamente descobertos, emergiam, redondos e firmes, do enorme decote do vestido»

Cortesia de wikipedia e jdact

Milão. 1243
«(…) Quanto ao facto de poder ser confundido com um espião, o abade tranquilizara-o: não sendo o facto a investigar um caso político, mas tratando-se essencialmente de um episódio privado, ninguém iria poder suspeitar do que quer que fosse. Enquanto ia ruminando com amargura quão duro era o voto de obediência e como isso marcara pesadamente os últimos anos da sua vida, Matthew viu-se quase derrubado por um rapazinho que corria como louco na sua direcção. Seguia-o, gritando impropérios bem expressivos, uma mulher enfurecida. A bolsa do dinheiro, desgraçado..., roubou-me a bolsa com o dinheiro! Agarrem-no, por Deus, agarrem esse filho da pu…! Os gritos da mulher confundiam-se com a algazarra de fundo. O frade virou-se para ver do rapaz, mas já não o viu, desaparecido, provavelmente por uma das ruelas que atravessam a cidade. Apesar de o seu furto não o justificar, Matthew sorriu para consigo, contente pelo facto de o ladrãozinho não ter sido apanhado. A expressão que vira estampada no rosto da mulher não prometia nada de bom e, no lugar do ladrãozinho, ele próprio teria fugido a sete pés.
Debaixo das arcadas que ladeavam a rua a todo o comprimento adensavam-se as oficinas e as bancas: peras, maçãs, hortaliças, frangos, queijos de vários tamanhos, garrafas de vinho, peças de lã, objectos de barro, facas, sacos de areia, lenha, e tudo aquilo que podia ser útil no dia-a-dia se expunha em bancadas, à atenção dos compradores, que entupiam o caminho. Enquanto a multidão se adensava na direcção do Broletto Novo, para onde também se dirigia, observou que o aspecto das pessoas que ia encontrando era diverso: misturados com os populares, os carregadores, os comerciantes e os servos, outras personalidades ricamente vestidas movimentavam-se entre eles. Despreocupados com o pó que os seus factos apanhariam ao roçar o chão, passeavam em pequenos grupos e falavam ininterruptamente entre si, se bem que a algazarra circundante não permitisse compreender qual era o assunto das conversas. O frade, que, apertado entre a multidão, caminhava ao lado de dois homens, ouviu um pequeno fragmento da sua conversa: pelas palavras que apanhara a custo, pareceu-lhe compreender que se tratava de um nobre e de um eclesiástico. Os seus fatos não eram diferentes: sobre a saia, de tecido fino, a túnica de um pano leve era cingida à cintura com um cinto de couro incrustado com motivos de prata em relevo. Ambos usavam meias com sola e cobriam as costas com um manto de seda.
Só uma pequena cruz de prata suspensa do pescoço e quase invisível entre as inúmeras pregas das vestes identificava um deles como sendo um homem da Igreja. Enquanto o frade se questionava por que razão muitos padres de Milão teriam preferido ao hábito talar as vestes dos laicos, os dois homens encontraram uma senhora que vinha em sentido contrário. Elegantíssima e orgulhosa, vestia um fato comprido de seda bordada, cujas mangas, debruadas a todo o comprimento com uma fila de botõezinhos de prata, eram de tal forma estreitas que não lhe permitiam qualquer movimento dos braços: um lindíssimo toucado de linho branco envolvia-lhe delicadamente a cabeça, deixando fugir, aqui e ali, maliciosos caracóis louros. Uma criada muito jovem seguia-a de perto, levantando-lhe a cauda do vestido para não arrastar pelo chão. Os dois homens pararam à sua frente e, depois de terem feito uma vénia, começaram a falar de modo cerimonioso. Matthew, curioso, teria parado de bom grado para os ouvir, mas foi empurrado inexoravelmente pela multidão que avançava. Ao ver aquela imensidão de gente que percorria as ruas, qualquer um pensaria que, naquela manhã, todos os Milaneses se dirigiam para o centro da cidade. Evitando por um triz mergulhar no tanque de peixes vivos que um comerciante expusera fora da sua banca, o frade chegou finalmente próximo do Broletto.
Queres companhia, irmãozinho? Olha que sou boa e para os homens da Igreja faço um preço especial... Matthew sentiu qualquer coisa que lhe roçava pelas costas ao mesmo tempo que ouviu aquela voz rouca e sensual: virando-se bruscamente, viu-se em frente de um rosto pesadamente pintado, contornado por uma espessa cabeleira avermelhada. A prostituta sorria, girando entre os lábios semiabertos a ponta da língua: os seios, quase completamente descobertos, emergiam, redondos e firmes, do enorme decote do vestido. O frade corou e abanou a cabeça num gesto negativo: a mulher, que não mostrava ter mais de vinte anos, deslizou delicadamente a mão pela sotaina numa evidente carícia lasciva e depois, sempre a sorrir, dirigiu-se a outro possível cliente. Não era a primeira vez que Matthew recebia este tipo de propostas: Milão pululava de prostitutas que exibiam os seus dotes em qualquer esquina.
O abade tinha-lhe contado que o seu número aumentara consideravelmente desde que a guerra com o imperador começara. As mulheres, depois de sofrerem a incursão dos exércitos nos seus campos, tinham vindo para a cidade e engrossado o número de meretrizes que nela residiam; além disso, a imensidão de soldados, que alternavam continuamente fora e dentro de Milão, favorecera o crescimento daquele triste comércio. Como lhe acontecia após um encontro deste tipo, Matthew experimentava uma profunda ansiedade: o seu pensamento voara até Marthine, que vira pela última vez em Rochester, havia quase dois anos, em condições de miséria semelhantes. Teria fugido, teria conseguido libertar-se daquela vida indigna? Vítima inocente de uma situação absurda, a mulher fora obrigada a deixar à sua aldeia na sequência de uma infame acusação de bruxaria e refugiara-se numa cidade onde ninguém a conhecia. Aí, não tendo outro meio de sustento, vira-se constrangida a prostituir-se para não morrer de fome. Aquela mesma acusação havia causado a morte de uma outra inocente, Mary, que Matthew, na sua simplicidade, não pudera salvar. Embora tivesse já passado muito tempo, o frade não conseguia libertar-se da sua sensação de culpa, que, longe de enfraquecer, se mostrava cada vez maior e mais dilacerante». In Valeria Montaldi, O senhor do Falcão, 2003, Casa das Letras/Editorial Notícias, 2005, ISBN 978-972-461-618-6.

Cortesia de CdasLetras/Editorial Notícias/JDACT

O senhor do Falcão. Valeria Montaldi. «Em todos os mosteiros onde se acolhera ao longo da sua viagem, desde o vale Augusta até à planície, a desconfiança face à sua pessoa manifestara-se de uma forma mais ou menos explícita…»

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Milão. 1243
«(…) Embora já tivesse atravessado por várias vezes aquela entrada, Matthew  não parava de se surpreender com o contínuo vaivém de gente, carros, cavalos, mulas, envolvidos, todos eles, numa actividade incessante e frenética. A vozearia dos carregadores misturava-se à dos comerciantes assomados às portas das lojas, ao latido dos cães presos, às gargalhadas estridentes dos criados carregados de cestos cheios de comida. De cada vez que entrava na cidade, o frade não parava de pensar quão mais tranquila era a vida em San Simpliciano, o mosteiro onde vivia há já um tempo. O edifício situava-se do lado de fora das muralhas mas relativamente próximo delas e muito perto da Porta Comacina, mas tanto lá como aqui, os dias eram marcados pelo trabalho: os monges e os seus rendeiros ocupavam-se do funcionamento dos moinhos, do tratamento dos animais, da tosquia da lã, das sementeiras e dos enxertos, das pontes que tinham de construir sobre os canais, das estradas que deveriam cobrir com saibro. E, no entanto, apesar do fervor laborioso das pessoas, o ar, os cheiros, os rumores eram os mesmos dos do campo; fora exactamente esta atmosfera de paz e tranquilidade, semelhante, nos ritmos, àquela em que Matthew vivera durante tantos anos, no seu primeiro mosteiro de St. Albans na longínqua Inglaterra, que o haviam convencido a ficar em Milão. Em todos os mosteiros onde se acolhera ao longo da sua viagem, desde o vale Augusta até à planície, a desconfiança face à sua pessoa manifestara-se de uma forma mais ou menos explícita, seguramente facilitada também pelo clima de suspeição que, nesses últimos anos, envolvia qualquer estrangeiro. Muitas haviam sido as batalhas entre o imperador Frederico e os senhores daquelas terras férteis e ricas, para os habitantes e até mesmo os próprios religiosos poderem confiar em qualquer pessoa que falasse um outro idioma: qualquer forasteiro, incluindo um frade, podia ser um espião enviado pelo legado pontifício ou pelo próprio imperador para desvendar planos, tramas e traições.
Matthew, que pensava que o seu já longo tempo de vida lhe permitia desembaraçar-se de estratégias e acontecimentos provocados por outros, ficara estupefacto ao constatar as difíceis condições das gentes que povoavam as terras que fora encontrando pelo caminho. Quão mais limitadas e simples não haviam sido as escaramuças entre os senhores feudais do vale Augusta comparadas com esta infinita e tormentosa guerra de planura que opunha o imperador, a Igreja de Roma e os governos das cidades! Frei Stephen, camerlengo junto do Hospital Scotorum, próximo de Vercelli, onde Matthew estivera durante o Inverno precedente, passara longas horas a explicar-lhe as razões daquele conflito, mas, apesar do seu esforço, nem tudo se lhe mostrara claro. O que levara o papa a excomungar o imperador, o que levara algumas cidades a apoiá-lo enquanto outras o contestavam, que papel poderia ter a vontade de Deus em todas estas disputas geradoras de carnificinas inúteis? E, no entanto, Federico, pelo que lhe haviam contado, mostrara-se um soberano liberal, amante das letras e das artes e promotor de éditos magnânimos: como era, então, possível que o próprio pontífice estivesse contra ele? O abade de San Simpliciano, Arnolfo Sala, por conta de quem, neste momento, estava a chegar a esta cidade, tentara explicar-lhe a situação particular de Milão: esta gente, dissera-lhe, sente-se livre e quer viver sem senhores. A Comuna nascera para isto, muitos anos antes, e a partir de então os Milaneses não iriam tolerar o jugo de um novo imperador: já lhes bastara a experiência tão penosa da submissão a um outro Federico, que, quase um século antes, tinha arrasado a cidade, impondo o seu poder pela força. A própria Igreja, acrescentara Arnolfo, tivera e continuava a ter a sua quota-parte de responsabilidade nestas disputas: o papa não tinha menos aspirações quanto ao poderio de toda a Itália do que aquelas que o imperador nutria, enquanto a Igreja metropolita de Milão, pelo seu lado, procurava livrar-se de compromissos, com o objectivo preciso de salvaguardar a sua própria autonomia. Como era óbvio, numa situação de conflito permanente como esta, quem mais sofria sempre eram os mais miseráveis. Frei Matthew tinha visto camponeses privados das suas próprias terras serem enviados para combater contra este ou aquele inimigo, aldeias inteiras incendiadas, mulheres e crianças mortas barbaramente, frades e padres em fuga rumo a outros mosteiros. E logo agora, num momento tão delicado, o abade de San Simpliciano o havia encarregado, a ele, humilde frade inglês, do cumprimento de uma missão tão secreta e complexa: Justificara-se afirmando que, exactamente por ser forasteiro e, portanto, completamente insuspeito de pertencer a esta ou àquela facção, iria poder indagar, mais discretamente do que qualquer outro, sobre o caso que tanto o preocupava». In Valeria Montaldi, O senhor do Falcão, 2003, Casa das Letras/Editorial Notícias, 2005, ISBN 978-972-461-618-6.

Cortesia de CdasLetras/Editorial Notícias/JDACT

O Pêndulo de Foucault. Umberto Eco. «A razão aparente daquela presença era que o grupo figurava inteiramente realizado em pasta de vidro, porém a sua razão emblemática devia ser bem outra... Procurava lembrar-me onde já havia contemplado aquela imagem»

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Keter
«(…) E que era aquele aparelho para estudar a fermentação pútrida, de 1781, bela alusão aos putrefactos bastardos do Demiurgo? Uma sequência de tubos vítreos que saindo de um útero em forma de bola passam por esferas e condutos, sustentados por forquilhas, para dentro de duas ampolas, e transmitem uma essência qualquer de uma para outra através de serpentinas que desembocam no vácuo... Fermentação pútrida? Balneum Mariae, sublimação do hidrargírio, mysterium conjunctionis, produção do Elixir!
E a máquina para estudar a fermentação (de novo) do vinho? Um conjunto de arcos de cristal, que vai de atanor a atanor, saindo de um alambique para terminar em outro? E aqueles óculos minúsculos, a diminuta clepsidra e o reduzido electroscópio, a lente, o bisturi de laboratório que lembra um dos caracteres cuneiformes, a espátula com alavanca de expulsão, a lâmina de vidro, o cadinho de terra refractária de três centímetros para produzir um homúnculo do tamanho de um gnomo, útero infinitesimal para clonações, os estojos de acaju cheios de pacotinhos brancos, iguais aos papelotes dos boticários do interior, envoltos em pergaminhos vincados de caracteres intraduzíveis, como espécimes mineralógicos (assim se diz), mas na verdade fragmentos da Síndrome de Basilides, relicários com o prepúcio de Hermes Trismegisto, e o martelo de tapeceiro comprido e fino para bater o início de um brevíssimo dia de juízo, uma hasta de quintessências a realizar-se entre o Pequeno Povo dos Elfos de Avalon, o inefável e miniatural aparelho para analisar a combustão dos óleos, os glóbulos de vidro dispostos em pétalas de quadrifólios, e outros quadrifólios coligados uns aos outros por tubos de ouro, e os quadrifólios a outros tubos de cristal, e estes a um cilindro de cobre, e ainda, a prumo em baixo, um outro cilindro de ouro e vidro, e mais tubos, descendentes, apêndices pênseis, testículos, glândulas, excrescências, cristas... É esta a química moderna? E por causa disto acontecia guilhotinarem o autor, quando se sabe que nada se cria e tudo se transforma? Ou o matavam para fazê-lo calar sobre aquilo que fingia revelar, como Newton, que estendeu-nos tantas asas, mas que continuava a meditar sobre a Cabala e as essências qualitativas?
A sala Lavoisier do Conservatoire é uma confissão, uma mensagem cifrada, um epitome do próprio conservatório, irrisão do orgulho do forte pensamento da razão moderna, sussurro de outros mistérios. Jacopo Belbo tinha razão, a Razão estava errada. Devia apressar-me, iminente a hora. Lá estavam o metro, o quilo, as medidas, falsas garantias de garantia. Eu aprendera com Aglié que o segredo das Pirâmides é revelado não pelos cálculos em metros, mas pelos cúbitos antigos. Eis as máquinas aritméticas, triunfo fictício do quantitativo, na verdade promessa das qualidades ocultas dos números, retorno à origem do Notarikon dos rabinos em fuga pelas landes da Europa. Astronomia, relógios, autómatos, gritos e sussurros a entreter-me em meio àquelas novas revelações. Prestes estaria penetrando no cerne de uma mensagem secreta em forma de Theatrum racionalista, exploraria depois, entre a hora de fechar e a meia-noite, aqueles objectos que à luz oblíqua do ocaso assumiriam o seu verdadeiro vulto, figuras, e não instrumentos.
Em cima, atravessando as salas dos ofícios, da energia, da electricidade, não encontrei vitrina em que pudesse esconder-me. Agora que pouco a pouco ia descobrindo ou intuindo o sentido daquelas sequências, vi-me tomado de ânsia por não haver tempo para encontrar um esconderijo de onde pudesse presenciar a revelação nocturna da sua razão secreta. Movia-me agora como um homem perseguido, pelo relógio e pelo avanço hórrido do número. A terra girava inexorável, a hora chegava, em breve estariam à minha procura. Foi aí que, atravessando a galeria de instrumentos eléctricos, cheguei à saleta dos vidros. Que razão ilógica havia disposto para que houvesse, além dos aparelhos mais avançados e custosos do engenho moderno, uma zona reservada a práticas conhecidas pelos fenícios, milénios atrás? Era uma sala de colecções, onde se alternavam as porcelanas chinesas e os vasos andróginos de Lalique, cerâmica, maiólicas, faianças e muranos, e ao fundo, num escrínio enorme, em tamanho natural e a três dimensões, um leão que esmaga uma serpente. A razão aparente daquela presença era que o grupo figurava inteiramente realizado em pasta de vidro, porém a sua razão emblemática devia ser bem outra... Procurava lembrar-me onde já havia contemplado aquela imagem. Logo recordei. O Demiurgo, odioso produto da Sophia, o primeiro arconte, Ildabaoth, responsável pelo mundo e sua radical imperfeição, tinha a forma de uma serpente e um leão, e os seus olhos emitiam luz de fogo. Era bem possível que o Conservatoire inteiro fosse uma imagem do processo infame pelo qual, da plenitude do princípio primitivo, o Pêndulo, e do fulgor do Pleroma, de éon em éon, o Ogdóade se desprende e alcança o reino cósmico, onde reina o Mal. Mas agora aquela serpente, e aquele leão, estavam-me dizendo que minha viagem iniciática, pobre de mim, à rebours, havia então terminado, e dentro em pouco eu iria rever o mundo, não como devesse ser, mas como de facto é. Com efeito, notei que no ângulo direito, contra uma janela, estava a guarita do Periscópio». In Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault, 1988, tradução de José Barreiros, Sicidea (Difel), 2008, ISBN 978-846-125-726-3.
                    
Cortesia de Sicidea/Difel/JDACT

domingo, 13 de janeiro de 2019

O Pêndulo de Foucault. Umberto Eco. «Ocorre porém que a galeria dos transportes vai desembocar no átrio de Lavoisier, fronteiro à grande escadaria que leva aos pisos superiores. Aquele conjunto de redomas»

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Keter
«(…) Decidi prosseguir. Saí da igreja dobrando à esquerda junto à estátua de Gramme e entrando por uma galeria. Estava na secção de caminho-de-ferro, e as miniaturas de locomotivas e vagões me pareceram tranquilos brinquedos, trechos de uma Bengodi, de uma Madurodam, de uma Disneylândia em tamanho reduzido... Agora já estava me habituando àquela alternância de angústia e confiança, terror e desencanto (não se trata de facto de um início de doença?) e pensei que as visões da igreja me haviam perturbado porque chegara a elas seduzido pelas páginas de Jacopo Belbo, que as decifrara à custa de tantos volteios enigmáticos, e que no entanto sabia fictícios. Estava num museu da técnica, dizia para mim, estás num museu da técnica, uma coisa honesta, talvez um pouco obtusa, mas num reino de mortos inofensivos, sabe como são os museus, ninguém jamais foi devorado pela Gioconda, monstro andrógino, Medusa só para estetas, e muito menos serás devorado pela máquina de Watt, que só podia espaventar os aristocratas ossiânicos e neogóticos, e por isso surge assim tão pateticamente comprometedora, todas as funções e elegâncias coríntias, manivela e capitel, caldeira e coluna, roda e tímpano. Jacopo Belbo, embora distante, estava procurando arrastar-me na trampa alucinatória que o havia perdido. É preciso, eu dizia, comportar-me como um cientista. Porventura o vulcanólogo queima-se como Empédocles? Frazer fugiria perseguido no bosque de Nemi? Ora, tu és o Sam Spade, não é mesmo? Deves explorar apenas os bas-fonds, é mister. A mulher que te conquistou deve morrer antes do fim, possivelmente pela tua mão. Adeus, Emily, tudo foi bom, mas eras um autômato sem entranhas.
Ocorre porém que a galeria dos transportes vai desembocar no átrio de Lavoisier, fronteiro à grande escadaria que leva aos pisos superiores. Aquele conjunto de redomas, aquela espécie de altar alquímico ao centro, aquela liturgia de civilizada macumba setecentista, não eram resultantes de uma disposição casual, mas antes um estratagema simbólico. Em primeiro lugar, a abundância de espelhos. Se há espelho, é estágio humano quereres ver-te nele. Mas nestes não te vês. Tu te procuras, buscas a tua posição no espaço na qual o espelho te diga estás aqui, e és tu mesmo, e acabas danando-te todo, te aborrecendo, porque os espelhos de Lavoisier, sejam côncavos ou convexos, te desiludem, escarnecem de ti: arredando-te, tu te encontras, mas depois te deslocas e te perdes. Aquele teatro catóptrico fora disposto para tolher-te toda a identidade e fazer com que te sintas inseguro do teu lugar.
Como se te dissesse: não és o Pêndulo nem estás no lugar do Pêndulo.
E te sentes não apenas inseguro de ti mas igualmente dos objectos colocados entre ti e outro espelho. É verdade que a física sabe o que é e porque isso ocorre: basta colocar um espelho côncavo que recolha os raios emanados do objecto, neste caso um alambique sobre uma panela de cobre, e o espelho reenviará os raios incidentes de modo que não vejas o objecto, bem delineado, dentro do espelho, mas tenhas dele uma intuição fantomática, evanescente, a meio-termo, e invertido, fora do espelho. Naturalmente bastará que te movas um pouco para que o efeito desvaneça. Mas, de repente, me vi, invertido noutro espelho. Insustentável.
Que pretendia dizer Lavoisier, que buscariam sugerir os registos do Conservatoire? Desde a Idade Média árabe, desde Al-Hazen, que conhecemos todas as magias dos espelhos. Valia a pena fazer a Enciclopédia, e o Século das Luzes, e a Revolução, só para afirmar que basta flectir a superfície de um espelho para se precipitar no imaginário? E no caso do espelho normal, não será igualmente ilusório este outro que te olha de dentro, condenado a um mancinismo perpétuo todas as manhãs quando te barbeias? Valeria a pena dizer-te apenas isto, nesta sala, ou não o teria dito para sugerir-te que observes de maneira distinta todo o resto, as vitrinas, os instrumentos que simulam celebrar os primórdios da física e da química iluminista? Máscara de couro para protecção do rosto nas experiências de calcinação. Mas, de facto? Será mesmo que o senhor dos círios se enfiava naquela fantasia de rato de cloaca, naquele capacete de invasor ultraterreno, apenas para não irritar os olhos? Oh, how delicate, doctor Lavoisier. Se queria estudar a teoria cinética dos gases, para que haveria de reconstituir tão minuciosamente a pequena eolípila, um canudinho sobre uma esfera que, aquecida, roda vomitando vapor, quando a primitiva eolipila foi construída por Héron de Alexandria, no tempo da Gnose, como subsídio para as estátuas falantes e outros prodígios dos sacerdotes egípcios?» In Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault, 1988, tradução de José Barreiros, Sicidea (Difel), 2008, ISBN 978-846-125-726-3.

Cortesia de Sicidea/Difel/JDACT

O Número de Deus. José L. Corral. «E o que vos traz por cá, senhor bispo? O cónego la Tour acompanhara Maurício e o abade de regresso à pousada, e estes tinham-no convidado a cear com eles»

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O Algarismo e o Número
«(…) A catedral de Chartres surgiu entre os campos de trigo, já amarelecidos pelo estio, como o esqueleto de uma enorme baleia varada numa praia de dunas douradas. À distância, o templo parecia completamente acabado. Os arcobotantes destacavam como as cavernas de um navio ou as gigantescas costelas de um animal fabuloso. Conforme dom Maurício e os seus acompanhantes se aproximavam, a catedral de Chartres, situada no alto de uma colina, parecia crescer para o céu, agudizando o seu perfil estriado e difuso.
Aquele era o último dia da Primavera, um dia muito assinalado, pois a nova catedral de Chartres tinha sido construída como um verdadeiro monumento à luz, e o sol alcançaria no dia seguinte o seu ponto mais alto de todo o ano. O bispo de Burgos, dizeis?, perguntou o estalajadeiro a quem dom Maurício, o abade de Arlanza e os quatro soldados da escolta pediram pousada. Sim, Burgos, em Castela. Ouvi falar dessa cidade; alguns dos meus clientes fizeram a peregrinação ao túmulo do apóstolo Santiago de Compostela. Pareceis um senhor importante, mas perdoai-me, se vos peço que me pagueis adiantado. Maurício indicou ao abade de Arlanza que assim procedesse; a cara do estalajadeiro iluminou-se quando viu o brilho prateado das moedas.
Dirigiram-se de imediato à catedral, que, tal como lhes havia parecido ao longe, estava praticamente terminada. Afinal, a catedral está quase acabada. Acreditais, Senhor Abade, que alguma vez teremos uma como esta em Burgos? Se vos propuserdes a isso, Eminência, certamente que sim. Os dois clérigos entraram na catedral. A tarde começava declinar e o sol rasante inundava o espaço com uma luz irisada. Através dos janelões, os feixes luminosos desdobravam-se por todo o interior do templo, numa catarata furta cores.
O bispo Maurício não pôde reprimir a emoção. Uniu as mãos, levantou os braços ao céu e caiu de joelhos no meio da nave central. Os seus olhos pasmados contemplavam a sinfonia de cores filtradas pelos vidros dos janelões como se estivessem a presenciar o primeiro amanhecer do universo. Uma personagem vestida com roupas talares aproximou-se dos castelhanos. Sois estrangeiros?, perguntou-lhes em latim. Somos castelhanos, respondeu o abade de Arlanza, enquanto o bispo Maurício continuava de joelhos, de braços levantados, olhos assombrados e boca aberta. Sua Eminência, o bispo de Burgos, e quem vos fala, o abade de San Pedro de Arlanza. Eu sou Jean de la Tour, cónego da catedral de Chartres. Sede bem-vindos à casa de Deus e de sua Madre Santíssima. Mas Maurício não ouvia nada, todos os seus sentidos, naquele momento, estavam absortos na luz da catedral.
                    
E o que vos traz por cá, senhor bispo? O cónego la Tour acompanhara Maurício e o abade de regresso à pousada, e estes tinham-no convidado a cear com eles. Vamos buscar a futura esposa do rei de Castela, a princesa Beatriz da Suávia. Pois haveis-vos desviado do vosso destino. Decidimos visitar antes Paris e Chartres, para contemplarmos as suas catedrais. Tenho intenção de construir uma igreja em Burgos, neste novo estilo. Essa é agora a ideia da maioria dos bispos cristãos. Desde que o abade Suger encomendara a construção da sua nova igreja em honra de São Dionísio e indicara ao seu mestre-de-obras que o templo devia ser a casa da luz, todos desejavam imitar Suger.
Vós sois clérigo, um ministro do Senhor, deveis saber bem que se Deus é a luz, a sua casa tem de ser a casa da luz. Se achardes por bem vir amanhã à catedral, comprová-lo-eis. Amanhã? Precisamente amanhã. Se o que buscáveis era luz, haveis chegado no melhor dia do ano para isso. Espero-vos um pouco antes do meio-dia na entrada ocidental. Sereis testemunhas de algo extraordinário, se o dia não amanhecer encoberto». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

O Mito Maçónico. Jay Kinney. «Icke identifica, pois, a Franco-Maçonaria como a sucessora de uma velha fraternidade babilónica: sábios que, originalmente, procuraram libertar a consciência da humanidade…»

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«(…) Diz-se que nesse texto ele anexou as origens da Franco-Maçonaria a Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, hoje conhecida pelo nome oficial de Ordem Soberana Militar e Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta (ou, simplesmente, Ordem de Malta ou Cavaleiros de Malta), uma das várias ordens de cruzados medievais. Nenhuma prova foi avançada para fortalecer a teoria de Ramsay, mas o romantismo desta sugestão fez com que ela fosse desenvolvida por outros, estando na origem de relatos diversificados. O mais popular é aquele que diz que existe um forte elo de ligação entre a Franco-Maçonaria e a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (Ordem do Templo ou Cavaleiros Templários).
Dois dos mais influentes maçons do século XIX, Albert Gallatin Mackey e Albert Pike, brincaram com a noção de que a Franco-Maçonaria era herdeira, se não fosse mesmo descendente directa, dos Mistérios da Antiguidade: um sistema iniciático de sabedoria arcana que constituiu uma importante parte do substrato espiritual da humanidade. Estas interpretações, mais subjectivas que objectivas, foram examinadas de modo rigoroso por Mackey nos seus livros History of Freemasonry, Encyclopedia of Freemasonry e outros ensaios. Pike, por outro lado, discorreu sobre estas ideias num volumoso compêndio intitulado Morals and Dogma, assim como em variadíssimos ensaios e conferências. Nenhum destes autores acreditou, verdadeiramente, na teoria sobre a Franco-Maçonaria ser herdeira dos Mistérios da Antiguidade, mas encontraram semelhanças intrigantes entre uma coisa e outra. Com efeito, aquilo que Mackey e Pike fizeram foi usar a Franco-Maçonaria como uma pedra de toque, com a qual especularam e estudaram uma série de temas que, à luz do que sabemos hoje, podemos apelidar de estudo comparado sobre religiões. O trabalho deles inspirou certos maçons a explorar os campos do esoterismo, da filosofia clássica e da história da antiguidade. Por outro lado, também providenciaram aos críticos antimaçónicos um manancial de materiais que estão na base de muitas das acusações de satanismo e paganismo.
Sobre isto, tomemos como exemplo as sinistras teorias da conspiração elaboradas por David Icke. Este indivíduo carismático, em cujo passado se contam actividades tão heterogéneas como relatador de futebol e porta-voz do partido britânico Os Verdes, descobriu a galinha dos ovos de ouro com uma série de livros, autopublicados, sobre a relação de que toda a gente se encontra dominada por uma raça reptiliana de mutantes inter-dimensionais. Os livros de Icke são um êxito de vendas em certos círculos de inspiração New Age e em outros com ligações políticas à extrema-direita.
Icke identifica, pois, a Franco-Maçonaria como a sucessora de uma velha fraternidade babilónica: sábios que, originalmente, procuraram libertar a consciência da humanidade da influência vampírica dos reptilianos. O secretismo de que essa fraternidade necessitava para conduzir os seus trabalhos transformou-se, ao longo dos séculos, numa forma corrupta de manipulação e controlo de poder, levando a que a dita fraternidade fosse absorvida pelos alienígenas. No seu sítio da Net, Icke alega que existem túneis secretos por baixo de cada loja maçónica, de maneira a facilitar as reuniões com os reptilianos.

Telefones Luciferinos
Estas histórias são reminiscentes da extravagante e muitíssimo popular fraude antimaçónica perpetrada em França, nas últimas duas décadas do século XIX, por Gabriel Jogand-Pagès, que escreveu sob o pseudónimo de Leo Taxil. Taxil começou a carreira literária como escrevinhador de panfletos anticlericais e evoluiu para autor de panfletos de pornografia anticlerical, tais como o título The Secret Love Life of Pope Pius IX. Também fundou a Liga Anticlerical, em 1881. Em meados de 1885 fingiu converter-se ao catolicismo e escolheu um novo saco de pancada: a Franco-Maçonaria. Passou a escrever propaganda antimaçónica para ser lida pelos católicos». In O Mito Maçónico, Jay Kinney, 2009, tradução de David Soares, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-176-0.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sábado, 12 de janeiro de 2019

O Mito Maçónico. Jay Kinney. «De acordo com as palavras de Hall, a Franco-Maçonaria data dos tempos imemoriais em que a ilha da Atlântida, supostamente, existia, recheada de antiga e avançada sabedoria»

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Rufiões do Púlpito
«(…) Apesar de a Franco-Maçonaria actual se distanciar do espírito revolucionário desses tempos inaugurais, ainda conserva muitos ideais iluministas, como a ideia de uma fraternidade entre os homens, na qual confluem indivíduos de religiões distintas, uma regra que faz com que aqueles que pretendem reformar o mundo de acordo com uma visão ou ideologia monoteísta observem a Franco-Maçonaria como sendo uma ameaça.

Babilónia-Mistério
Muitas das suspeitas sobre o Ofício relacionam-se com interrogações suscitadas pelas suas origens nebulosas. Desde que a primeira Grande Loja foi fundada em Londres, no ano de 1717, que as diversas teorias concorrentes sobre as origens da Franco-Maçonaria têm sido problemáticas para os historiadores. Já existiam lojas maçónicas em actividade antes dessa data; e foram quatro dessas lojas de pedreiros de Londres que se organizaram numa espécie de federação a que chamaram de Grande Loja, com o objectivo de regular e sistematizar o trabalho da Franco-Maçonaria. Mesmo assim ainda é difícil dizer-se que a moderna Franco-Maçonaria, que se assume como especulativa (filosófica e ética), evoluiu directamente da maçonaria operativa (as comuns confrarias de pedreiros), cujas oficinas se popularizaram na Europa durante a Idade Média. Tantas conjecturas deram azo a que florescessem inúmeras hipóteses diferentes sobre as origens da Maçonaria. Elas vão, invariavelmente, na direcção do passado, a uma época anterior à idade do Iluminismo. O sabor deste género de teorias românticas pode ser provado, por exemplo, nesta transcrição de um livro escrito por Manly Palmer Hall, um autor prolífico que estudou temas místicos e esotéricos:

A Maçonaria é uma universidade que ensina as artes liberais e as ciências da alma a todos aqueles que se mostrem sensíveis às suas palavras. É uma sombra da grande Escola Atlante de Mistérios, que, em todo o seu esplendor existiu na Cidade dos Portões Dourados, no local em que, agora, o Oceano Atlântico se agita em marés inquebrantáveis.

De acordo com as palavras de Hall, a Franco-Maçonaria data dos tempos imemoriais em que a ilha da Atlântida, supostamente, existia, recheada de antiga e avançada sabedoria. Quando ela se afundou, é lógico que os sacerdotes atlantes encontraram um modo de escapar ilesos para a terra seca do Egipto e foram eles os verdadeiros precursores dos Mistérios Egípcios. Isto segundo Hall... Que a existência da ilha da Atlântida nunca tenha sido provada, nem sequer demonstradas as pretensas ligações que teria com o Egipto, não interessa nada.
Mesmo assim, a hipótese atlante não é muito mais fantasiosa do que a origem tradicional que a Franco-Maçonaria oferece de si mesma. A história oficial da Franco-Maçonaria, escrita nas Constituições da primeira Grande Loja de Londres, em 1723 e 1738, pelo reverendo John Anderson, traçam a origem da Franco-Maçonaria ate à pia linhagem de Adão, descrito nesses documentos como sendo o primeiro sábio maçónico. Em 1737, Andrew Michael Ramsay (o Chevalier Ramsay), um maçon escocês que vivia em França e que apoiava a campanha que desejava devolver o trono à casa de Stuart, compôs um famoso discurso (Discurso de Ramsay) que, alegadamente, queria entregar à Grande Loja de França (fundada em 1732)». In O Mito Maçónico, Jay Kinney, 2009, tradução de David Soares, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-176-0.

Cortesia de SEmergência/JDACT

O Mito Maçónico. Jay Kinney. «Fosse de propósito ou, simplesmente, porque andavam no ar, várias ideias maçónicas sobre os valores do individualismo, fraternidade e igualdade produziram impacto nas esferas políticas»

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A um Oceano de Distância
«(…) De modo coincidente, o período e o espaço em que ocorreu o escândalo
do rapto e assassinato de Morgan foi o ano de 1826, mesmo no meio do condado mais incendiário do Estado de Nova Iorque, acalorado pelas sucessões entusiastas de revivalismos evangélicos que assolaram a área naquela altura. A Franco-Maçonaria andava a ser atacada do alto do púlpito e era somada à lista interminável de pecados mortais. O cheiro a enxofre impregnava o ar. Por mais estranho que possa parecer, aquele também foi o Estado em que nasceu o Mormonismo. Foi ali que Joseph Smith descobriu as Placas Douradas de que fala o Livro de Mórmon: encontradas em 1827, no monte de Cumorah Hill, na vizinhança da cidade de Manchester, a pouco mais de quinze quilómetros de distância do sítio onde Morgan foi raptado. Aliás, grande parte dos primeiros seguidores de Smith foi composta por franco-maçons descontentes com o Oficio. Anos depois, em 1842, Smith e Brigham Young adoptariam a Franco-Maçonaria com entusiasmo, interpretando os seus rituais como sendo resquícios de antigas iniciações bíblicas. Quando Smith introduziu a prática da poligamia entre os crentes do seu culto, uma das mulheres com quem ele se casou foi a viúva de Morgan.

Rufiões do Púlpito
A conexão turbulenta entre ansiedade antimaçónica e fervor evangélico ainda persiste nos Estados Unidos. Hoje, os pastores cristãos são líderes proeminentes do antimaçonismo, tal como os seus antepassados o foram nos tempos que serviram de palco ao incidente com Morgan. No seio da vicejante subcultura fundamentalista norte-americana, os livros de conteúdo antimaçónico são grandes sucessos nas livrarias de índole cristã; e muitos pastores evangélicos pregam propaganda antimaçónica, dando a ouvir histórias sobre abusos maçónicos e satânicos, como se combater essas heresias fosse o dever de cada paroquiano.
O evangelista norte-americano Pat Robertson, conhecido pelos seus programas televisivos religiosos, publicou, em 1991, um livro intitulado A Nova Ordem Mundial, no qual acusa a Franco-Maçonaria norte-americana de ser uma parte fundamental das forças que conspiram para instaurar o Governo Mundial Único (de matriz anticristã e cujas sementes foram plantadas durante a Revolução Americana). Robertson pergunta:

Será possível que meia dúzia de eleitos tenham um plano, revelado no Grande Selo adoptado como insígnia na fundação dos Estados Unidos, para criar não só o país que os pais fundadores e os campeões da nossa liberdade envisionaram, mas também um mundo radicalmente diferente, sob os desígnios de uma religião misteriosa e inventada para substituir as velhas ordens cristãs da Europa e da América?

Robertson refere-se, neste excerto, à ideia instituída de que o Grande Selo dos Estados Unidos, que se pode encontrar no verso de uma vulgar nota de um dólar, é, com efeito, um emblema maçónico. Este assunto é matéria de muitas análises, mas as desconfianças de Robertson sobre o significado do símbolo denunciam uma mentalidade que está longe de se reconciliar com os tempos modernos. Não há dúvida de que a Franco-Maçonaria contemporânea é um produto do Iluminismo britânico. As lojas do século XVIII reuniram-se nos pisos superiores de bares, lugares abertos, mas privados, que possibilitavam encontros em que indivíduos pertencentes a diferentes classes pudessem falar de igual para igual e manter discussões filosóficas (não-sectárias) regadas com boa cerveja. Fosse de propósito ou, simplesmente, porque andavam no ar, várias ideias maçónicas sobre os valores do individualismo, fraternidade e igualdade produziram impacto nas esferas políticas.
Indubitavelmente, esta nova era de ciência, razão e valores universais ameaçou os alicerces do poder instituído, mantido pela Igreja e pela Coroa. Um efeito colateral da emergência do novo paradigma foi o desenvolvimento da hostilidade dirigida contra a Franco-Maçonaria pelos representantes dos vários regimes conservadores. Tudo começou em 1738, o ano em que o Vaticano condenou a Franco-Maçonaria por considerá-la uma organização com aspirações de controlo político e religioso. A Maçonaria representava um milieu social que não respondia perante a igreja católica e a questão do seu secretismo entrava em conflito com a primazia da prática da confissão. Hoje muitos norte-americanos que têm ligações de destaque com a facção mais à direita do espectro religioso, como o referido Pat Robertson, apresentam argumentos similares a estes. (Por ironia, também Estaline os usou, para fortalecer a doutrina do controlo do Estado e não era um político de direita)». In O Mito Maçónico, Jay Kinney, 2009, tradução de David Soares, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-176-0.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O Perfume Secreto. Fiona McIntosh. «Era faustoso, sem dúvida absurdamente caro, ostentativo com as suas cores vivas, exigindo atenção. A sua forma era estranha e provocava já em mim…»

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1 de Agosto de 1914
«(…) Que cancelemos tudo por um papel? Olhou-me com raiva. Vais desiludir a cidade inteira, todo o povo reunido para celebrar aquele que será, sem dúvida, o casamento mais importante dos últimos tempos ou mesmo de sempre em Grasse? Duas das suas famílias de elite formalmente unidas. É um sonho, Fleurette. Não arruínes o sonho, o optimismo, quando todos os homens capazes da cidade estarão prestes a marchar para servir o seu país. Precisamente! Como poderemos ter a certeza da oficialização dos documentos legais sem a presença de Aimery? Suspeitei que não teria uma resposta pronta para aquilo. Era o meu último esforço. A minha última defesa. Chocou-me perceber que estava mais do que pronto para mim, com a voz repleta de desdém.
A declaração de guerra será bravata alemã. Teremos de cumprir os nossos deveres de mobilização, mas suspeito que voltaremos para casa dentro de uma semana. Duas, no máximo. Durará pouco e Aimery voltará para casa, mas, por agora, quer deixar Grasse como homem casado, possivelmente com um herdeiro já semeado. E assegurar-te-ás da concretização de todas as expecptativas. É o teu dever. A repulsa fez-me fechar os olhos. Falava do meu corpo como se fosse uma terra pronta para ser lavrada e... Era demasiado medonho para contemplar.
Era impossível responder àquela tirada do meu irmão. Fiquei muda. Arregalei os olhos e fixei as mãos enluvadas e o pequeno volume sob a luva no terceiro dedo da mão esquerda. O brilho carmesim desafiava-me. Era um rubi de meio quilate colocado entre curvas de diamantes de corte simples e em rosa. O resultado era um anel com a forma de um olho..., e olhava-me por baixo da renda com um brilho acusador. Aimery não podia pedir-me em casamento com um anel herdado. Não tinha nada da sua mãe e suspeitei que, mesmo que tivesse alguma coisa sua, tê-la-ia ignorado. Aquele anel tinha sido desenhado com grande despesa em Paris, mas sem o meu envolvimento, claro. E, por isso, reflectia apenas Aimery... Era faustoso, sem dúvida absurdamente caro, ostentativo com as suas cores vivas, exigindo atenção. A sua forma era estranha e provocava já em mim a consciência sinistra de que me espiaria sem cessar. Odiava-o, mas também era verdade que todos os pormenores daquele casamento me pareciam desesperantes.
Uma dor estranha, aguda e agoniante, envolvia-me na carruagem claustrofóbica. Estávamos no pino do Verão e as flores que segurava e que me enfeitavam o cabelo podiam murchar. Fora esse o motivo avançado para não viajarmos num landau aberto. Trocista, decidi que o verdadeiro motivo seria, provavelmente, a preocupação de Henri com o seu cabelo e com a brilhantina cuidadosamente aplicada. A dor intensificou-se. Talvez entrasse em pânico como quando Felix cortou os dedos com uma foice de alfazema ou como na manhã do piquenique de Junho, quando caí do cavalo e as vozes de todos me pareciam demasiado distantes..., ou como no dia em que morreu a minha mãe, um acontecimento para além da minha compreensão de criança, recordando, mesmo assim, o corpo do meu pai parecendo perder a solidez, como um saco de pétalas de rosa, sem conseguir compreender porquê.
Não costumava sucumbir a caprichos e, em minha defesa, estas memórias pertenciam a acontecimentos isolados e emocionalmente intensos que conseguia conjurar com sinceridade. A ansiedade daquele dia não me parecia algo que passasse ou que alguém pudesse tornar melhor com a sua vinda. Aquele dia era o início de uma vida nova que me assustava. O desejo de desaparecer de tudo aquilo era suficientemente avassalador para parecer que tentava libertar parte de mim..., o meu corpo e o meu íntimo precisavam de se separar para conseguir suportar o dever que esperavam que cumprisse». In Fiona McIntosh, O Perfume Secreto, 2015, Quinta Essência, Oficina do Livro, 2016, ISBN 978-989-741-578-4.

Cortesia de QEssência/OdoLivro/JDACT

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O Perfume Secreto. Fiona McIntosh. «Tenho a minha moral... Esquece isso, Fleurette, afirmou, sacudindo pó imaginário das calças. Avançamos para uma guerra com a Alemanha!»

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1 de Agosto de 1914
«Odiava o homem com quem me devia casar naquele dia. Uma mão foi estendida e cobriu-me o pulso. Não tinha pelos e as unhas estavam aparadas e bem cuidadas. Tranquila, Fleurette. Não percebera como estava inquieta. Recompõe-te, continuou o meu irmão. O nosso pai quereria que estivesses composta nesta representação tão pública da família. Henri ergueu-me o queixo sob o véu que, apesar de diáfano, me esconderia o suficiente para camuflar a expressão angustiada. A referência intencional de Henri ao nosso amável pai exigia a minha obediência. E, acima de qualquer coisa, era obediente. Diz-se que todos fazemos escolhas nas nossas vidas, mas nasci numa família que fez praticamente todas as escolhas da minha vida por mim. Em sua defesa, não tive grandes motivos de queixa. Era a filha preciosa, amada e admirada como um tesouro. No entanto, só recentemente tinha compreendido que não se tratava apenas de uma imagem encantadora. Era realmente o tesouro da família e podia ser trocada como se fosse moeda, negociada como dinheiro humano. Era tão impotente como um soberano de ouro reluzente passado de uma mão para outra. Um negócio fechado. Uma transacção assegurada. E, depois de concluído o acordo, bastando apenas o ritual para confirmar a sua existência ao mundo, a minha angústia de nada importaria. Fiz outra tentativa para invocar razões legais, o meu último reduto, o único aspecto daquela união maldita atrás do qual poderia tentar esconder-me. Parecia-me que a guerra poderia ser minha aliada.
Henri, aos olhos da lei permaneceremos solteiros. Sem o certificado do presidente da câmara, o padre não poderá casar-nos legalmente. Dizia a verdade. Não comeces outra vez com isso, irmãzinha. Asseguro-te que o presidente da câmara e os seus conselheiros têm mais com que se preocupar do que um casamento da alta sociedade. Insisti pessoalmente há uma hora e nem mesmo o nosso nome, e o peso que tem, ou as minhas ameaças e também as de Aimery, conseguiram convencer o seu assistente a interromper as reuniões municipais em que se discute a guerra. Além disso, o presidente da câmara e o seu adjunto nem sequer estão em Grasse, explicou, parecendo exasperado por saber que este último facto era do meu conhecimento.
Era verdade. Deveríamos ter tido a nossa cerimónia civil no dia anterior, mas com a França à beira da guerra, esperando apenas a declaração formal, nenhuma câmara municipal no país inteiro se teria mostrado inclinada a preocupar-se com a formalização legal de um casamento, mesmo que envolvesse famílias como as nossas.
Quando regressa o presidente da câmara? Henri ergueu um ombro impotente. Amanhã, espero. A reunião de emergência em Nice, na prefeitura, terminará hoje, com sorte, com a formalização de uma declaração de guerra. Não poderá outra pessoa... Não, interrompeu. Não será bem visto que um representante subalterno queira realizar um casamento hoje com a nação no alvoroço em que se encontra. Mesmo que fosse autorizado a fazê-lo. Quis insistir no meu argumento, mas Henri estava preparado. Vamos, continuou, cortando o ar com uma mão erguida. Basta. Foi difícil convencer o padre a avançar, mas, uma vez que acedeu, suspeito que não terás autoridade superior à sua.
Tenho a minha moral... Esquece isso, Fleurette, afirmou, sacudindo pó imaginário das calças. Avançamos para uma guerra com a Alemanha! As circunstâncias não são as adequadas. Deus perdoar-te-á. É apenas uma formalidade e, seja como for, a cerimónia civil realizar-se-á mesmo assim. Quando? O presidente da câmara mandou dizer que fará um esforço por nós. Esperamos que seja amanhã. A raiva acumulada deixava-o corado e vi-o passar um dedo entre o colarinho e o pescoço, dirigindo-me um esgar de desagrado. Nem eu nem a família De Lasset te perdoaremos se atrapalhares esta união tão importante. Não poderemos cancelar após meses de preparação. A cidade precisa deste casamento. Além disso, as nossas ordens de mobilização chegarão a qualquer momento. Vamos assegurar pelo menos o casamento religioso. Os deveres civis poderão ser resolvidos discretamente. Sei que não é o normal curso dos acontecimentos. Sei que sim. Mas preciso que toleres a discrepância. Se a nossa igreja pode fazê-lo, tu também poderás. Por favor, pensa em todos os outros... Pensa em qualquer pessoa além de ti própria, para variar.
A repreensão magoou-me. Não era egoísta, mas estava irritada com o padre por vergar as regras da nossa fé, as leis do nosso país, apenas porque as famílias mais ricas o exigiam. Sem dúvida que Henri ou o meu futuro marido, igualmente insensível, teriam coagido o padre... Talvez com a promessa da nova janela para a abside? Henri, deitar-me-ei com um homem que não será legalmente o meu marido, protestei. Não será teu marido aos olhos da lei, mas isso será resolvido. Que esperas?» In Fiona McIntosh, O Perfume Secreto, 2015, Quinta Essência, Oficina do Livro, 2016, ISBN 978-989-741-578-4.

Cortesia de QEssência/OdoLivro/JDACT