sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Bibliotecário. AM Dean. «Verás um número de telefone impresso no reverso desta carta. Termina de a ler e marca-o. Prometo-te que em breve tudo ficará mais claro»

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«(…) Introduziu delicadamente o dedo por baixo da dobra do envelope e abriu-o. Uma única folha, dobrada ao meio, caiu-lhe no regaço. Desdobrou a folha. Se as primeiras impressões deixavam marca, ponderou Emilv, aquela nota pretendia dar uma imagem de luxo. O suave papel de cor creme era de primeira qualidade, obviamente dispendioso e, se não estivesse equivocada, exalava um ligeiro aroma a madeira de cedro. Aquilo que leu no cabeçalho da folha provocou-lhe um nó no estômago. Numa elegante letra gravada a relevo podia ler-se:
Gabinete do professor Arno Holmstand. Licenciado em História e Letras. Doutorado em História. Oficial da Ordem da Império Britânico.
Arno Holmstrand, o homem assassinado na noite anterior. O grande professor. O defunto professor. O texto por baixo captou toda a sua atenção. Querida Emily, começava a nota, escrita com a mesma elegante e a mesma tinta castanha do envelope. Sem dúvida que a minha morte antecedeu esta carta.

«Querida Emily,
Sem dúvida que a minha morte antecedeu esta carta, que escrevo com pleno conhecimento do que vai acontecer e com ainda maiar certeza de que irás desempenhar um papel importante no que está para vir. Existe algo que devo deixar a ti para descobrires, Emily. Uma coisa que coloca todos os meus restantes trabalhos na sombra e os reduz ao pó da insignificância. Conheço a localização de uma biblioteca. Da Biblioteca. Uma biblioteca erguida por um rei que te é familiar graças às tuas investigações. A Biblioteca de Alexandria. Existe, tal como a Sociedade que a acompanha. Nenhuma delas se perdeu. Está em jogo muito mais do que uma simples curiosidade arqueológica. Quando receberes esta missiva eu terei sido morto por causa disso. Este conhecimento não pode perder-se, Emily. A tua ajuda é agora necessária. Verás um número de telefone impresso no reverso desta carta. Termina de a ler e marca-o. Prometo-te que em breve tudo ficará mais claro. Tu e eu não nos conhecíamos muito bem, e lamento-o, mas acredito que te escrevo com sinceridade e premência.
Respeitosamente, Arno»

Nova Iorque. 10h35 EST (9h35 CST)
O Secretário levantou o auscultador antes que tivesse terminado de soar o primeiro toque. Sim? Está feito, tal como ordenou, informou a voz do outro lado da linha com um tom glacial e seco. O Guardião está morto? Vi-o com os meus próprios olhos. A noite passada. A polícia encontrou-o esta manhã. O Secretário reclinou-se na cadeira, invadido por uma sensação de poder e contentamento. Haviam cumprido um objectivo nobre e garantiram o futuro do projecto. Ao longo da história, poucos homens tinham tentado aquilo a que eles agora se propunham. E menos haviam atingido os seus propósitos. Mas seriam bem-sucedidos e ninguém iria atravessar-se no seu caminho, tal como demonstrava o avanço conseguido na semana anterior. O Secretário passou os dedos pelos cabelos grisalhos. Estava à nossa espera, continuou o interlocutor. Isso era previsível. A morte do Ajudante na semana anterior havia sido um assunto público. Não era possível disparar sobre um empregado de uma organização de patentes no seu gabinete em Washington sem que os meios de comunicação social dessem conta disso. Ainda assim, o objectivo do Conselho não havia sido ocultar a eliminação do sujeito. Esses crimes acabariam por ser classificados como homicídios pela maioria, excepto pelas pessoas a quem se destinavam, que os considerariam mensagens. Avisos». In AM Dean, O Bibliotecário, 2012, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

O Bibliotecário. AM AM Dean, JDACT, LiteraturaDean. «O seu nome aparecia escrito no anverso com uma letra muito elegante. Não tinha selo nem remetente»

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«(…) O jovem não retorquiu. Pegou no livro e examinou-o com uma intensidade qie ia muito para além da frustração que Al sentia. Parecia…, zangado. Escuta, rapaz. Não sei o teu nome. Nunca te vi por aqui. Estás há muito tempo nas Cidades?, inquiriu Al. Os detectives das cidades gémeas de Minneapolis e Saint Paul, o núcleo das forças da lei e da ordem na zona meridional do estado, conheciam-se quase todos, nem que fosse apenas de vista. Não sou daqui. Foi tudo o que respondeu e não deu sinais de querer prosseguir com tais cortesias profissionais. Virou o livro e voltou a olhar para as folhas queimadas no cesto dos papéis. Al não estava ainda disposto a deixar o assunto morrer. Não és da polícia local? Então, és da estatal? O que faz aqui a polícia estatal?
Este é um caso para a polícia local. Maldita seja a polícia estatal. O homem mais jovem ignorou a persistência de Al e não respondeu às suas perguntas, acabando por colocar o livro sobre a mesa. Alisando o fato, virou-se para o detective com um ar de eficiência. Pela primeira vez, em toda a conversa, olhou directamente para os olhos de Al. Lamento. Já tenho o suficiente para elaborar o meu relatório. Foi um prazer conhecê-lo, detective. Um relatório? Aquele comentário displicente já passava  das marcas. Um livro e uns papéis queimados eram relevantes, claro, mas não suficientes para um relatório. Johnson olhou em redor da sala. Havia impressões digitais, manchas de sangue, marcas de sapatos. Tudo aquilo dava um relatório. E aquele janota parecia não lhe prestar a menor atenção. Mostrara unicamente interesse pelo livro e as folhas queimadas. Como se o resto da cena do crime não existisse. Não era um comportamento normal, nem mesmo para um polícia estatal. Voltou-se para o agente desconhecido com uma réplica sarcástica, contudo, não tardou a descobrir que o tipo se havia esfumado, deixando-o a falar sozinho.

Se atacaram e assassinaram um dos nossos colegas aqui, no campus, então quem é o próximo? Os colegas de Emilv tinham ido dar aulas e ela ficara sozinha no seu gabinete, cogitando sobre os estranhos contornos da conversa. As palavras de Emma Ericksen ecoavam na sua cabeça. As questões sem resposta associadas à morte de Arno Holmstrand não eram a única coisa que contribuía para o medo incómodo que sentia. Havia também a presença ominosa da própria morte. Um colega havia sido assassinado a poucos metros do seu gabinete. Existiria um perigo maior? Correriam todos perigo?
E eu? Emily descartou a ideia com a mesma velocidade com que esta chegara. Transformar aquilo numa situação pessoal era irracional e servia apenas para alimentar o medo. Teria de combater aquelas divagações dedicando-se a alguma outra actividade: trabalhando e encarregando-se das pequenas tarefas pendentes antes de abandonar o campus e ir ter com Michael.
Olhou para a pilha de correio que retirara da caixa. Naquele momento era a fonte de distracção mais imediata. Lixo, lixo, lixo. Emily ganhara a reputação de recolher tarde o seu correio, e aquela era a razão. Numa das mãos segurava a correspondência de quase duas semanas, e a maior parte do que recebera acabaria no lixo. Um envelope de uma editora a publicitar um livro que ela não pensava ler. Uma circular sobre os direitos dos animais, igual à que recebera na semana anterior e idêntica à que receberia na semana seguinte. Um memorando que alertava para a existência de um novo código de acesso para a fotocopiadora do departamento, escrito pela secretária com o mesmo secretismo e a solenidade que teria usado se estivesse a dar os códigos das armas nucleares. A vida de um académico podia ser intelectualmente cativante, mas não era nada excitante. Emilv atirou o memorando para o lixo, juntamente com o resto da publicidade. Por baixo de tudo encontrava-se um solitário sobrescrito amarelo de papel texturizado e claramente dispendioso. O seu nome aparecia escrito no anverso com uma letra muito elegante. Não tinha selo nem remetente.
Algo chamou a atenção de Emily. Notou a elegante caligrafia e a tinta castanha. As letras desenhadas com desenvoltura apresentavam os inconfundíveis traços típicos de quem usa uma caneta de tinta permanente. Virou o envelope e ficou a olhar para o reverso em branco. Não exibia carimbo nem remetente, pelo que devia ter sido colocado directamente na sua caixa de correio. Talvez se tratasse de um convite para uma festa ou um evento, embora, a julgar pelo aspecto do sobrescrito, tivesse de ser um acto de maior nível social do que aqueles a que estava habituada a frequentar». In AM Dean, O Bibliotecário, 2012, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

Goa ou O Guardador da Aurora. Richard Zimler. «Fechei o punho e brandi-o na direcção dele, como que para confirmar que era o vilão de um drama escrito para mim por um inimigo secreto, a pessoa que me traíra e provocara a minha prisão»

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«(…) Quem afirma que as pessoas nunca podem realmente mudar nunca esteve numa prisão, não conheceu esse miserável caminho de reclusão que acaba necessariamente na morte. Cerrou os lábios com força como se não quisesse exprimir uma terrível verdade, e percebi o que já se devia estar mesmo a ver, eu é que era a pequena criatura sem alma de que ele tinha pena. Ri-me pela primeira vez desde há uma eternidade; ser mais digno de pena do que um insecto esmagado parecia um feito considerável. Se o meu espírito não me tivesse quase abandonado, havia de encontrar uma maneira de nos matar aos dois, disse-lhe. Pôs-se a fitar-me, com aqueles olhos negros cheios de dó. Eu desprezava a sua prontidão em sentir tanto por alguém de quem não sabia nada.
E que tal se eu te batesse, gostavas?, disse eu, pondo-me de pé. Ainda te preocupavas assim tanto comigo? O impulso de o castigar irrompeu em mim com a força destruidora de uma casa a ruir. Posso muito bem dar cabo de ti e ninguém aqui virá deter-me. Até ficam satisfeitos. Fechei o punho e brandi-o na direcção dele, como que para confirmar que era o vilão de um drama escrito para mim por um inimigo secreto, a pessoa que me traíra e provocara a minha prisão. As mãos do jaina ergueram-se-lhe num repente para proteger a face, e nesse gesto percebi que, além de o queimarem, o tinham agredido. Afastei-as à punhada e foi como se uma corda se tivesse rompido cá dentro e eu estivesse a cair para fora de mim, desamparado. Continuei a bater-lhe até lhe fazer espirrar o sangue da boca.
Logo, porém, o horror ante aquilo em que me transformara fez-me soçobrar. Murmurei uma desculpa e recolhi-me à cama, encostando os joelhos ao peito. Fechei os olhos e durante horas não disse nada, tentando imaginar o que o meu pai gostaria que eu fizesse, mas a voz dele desaparecera de dentro de mim. Ao crepúsculo, ajoelhei-me junto ao meu companheiro de cela. Mata-me, murmurei. Não posso. É-me proibido. Por favor, não percebes. Não poderia suportar ser queimado ou obrigado a engolir água até sufocar. Se for torturado, poderei revelar os nomes de pessoas que me ajudaram a mim e ao meu pai. Se morrer, a minha noiva poderá casar com outro homem. Segurei-lhe no ombro. Asfixia-me de noite, quando estiver a dormir. Dou-te tudo o que tenho por esse acto de bondade. Digo-te aonde hás-de ir quando te libertarem, e poderás ir buscar os meus pertences à minha irmã e ao meu tio.
Abanou a cabeça. Afastei-o com um empurrão. Nessa noite, veio a rastejar deitar-se a meu lado. Tomou-me a mão e apertou-a com força. Perdoa-me ter-te falhado, murmurou. Mil perdões. Empurrei-o, mas ele agarrou-se a mim com força. Era muito mais forte do que eu pensava. Por mim, tinha a certeza de que a persistência dele era sinal de loucura, mas um sinal abençoado, pois assim ficávamos em pé de igualdade nesse período que passaríamos juntos.
Ficámos calados. Recordei a minha irmã aos quatro anos, com os olhos reluzentes de alegria; dentro do cesto que lhe estendia estava uma borboleta que apanhara, não do tipo que o jaina dissera, mas outra, escarlate e dourada. Adejando, foi pôr-se na borda do cesto e flectiu as asas, refulgindo ao sol como um fragmento de vitral. A minha irmã pôs-se a rir quando me viu cheirá-la. Quando a borboleta levantou voo, ergueu as mãos e gritou de alegria. De pé por trás dela, pus-lhe as mãos nos ombros, pesando-lhe com o meu amor, como aprendera com Nupi, a nossa cozinheira e criada. Tinha a certeza de que ficaríamos sempre juntos. O jaina acariciou-me a face. Difusamente, sabia que estava a pedir-me os meus pensamentos. Ou, então, se calhar, a solidão em que vivera durante um ano levava-me a querer acreditar que todos os gestos dele eram um convite a que falasse do meu passado. A borboleta que apanhei não era do tipo que disseste, confessei. E não a matei. Apenas queria mostrá-la à minha irmã. E cheirá-la, embora agora isso pareça muito estranho. Pôs-se a rir docemente. Virei-me de lado para ele. Sentia a sua respiração húmida contra a face. Parecia-me o vento de Deus que me faltara. A escuridão da nossa cela não me permitia ver mais do que as formas esfumadas da minha imaginação, mas acreditava que ele estava a espreitar para algo muito fundo dentro de mim. Senti a inquirição como uma pedra no peito. Apeteceu-me abraçá-lo, mas sabia que começaria a soluçar se o fizesse». In Richard Zimler, Goa ou O Guardador da Aurora, 2005, Gótica 2000, Difel, 2005, ISBN 978-972-792-145-0.

Cortesia de Gótica/Difel/JDACT

A Misteriosa Chama da Rainha Loana. Umberto Eco. «E foi..., é, ..., será ainda um avô maravilhoso. E foi também um bom pai. E..., sou um bom marido? Paola ergueu os olhos para o céu: ainda estamos aqui, não?»

Cortesia de wikipedia e jdact

A área de Broca
«(…) Tóquio. Bomba atómica em Hiroshima. O general MacArtbur... Chega, chega. É como se recordasse tudo aquilo que se aprende por ter lido em algum lugar ou ouvido dizer, mas não o que está associado às suas experiências directas. Sabe que Napoleão foi derrotado em Waterloo, mas tente me dizer o que se lembra da sua mãe. Mãe só tem uma, mãe é mãe... Mas de minha mãe não me lembro. Imagino que tive uma mãe porque sei que é uma lei da espécie, mas..., aí está..., a névoa. Estou mal, doutor. É horrível. Preciso de alguma coisa para dormir de novo. Vou-lhe receitar, já exigi demais do senhor. Deite-se bem, assim, assim... Repito, acontece, mas tem cura. É preciso muita paciência. Mandarei que lhe tragam alguma coisa para beber, um chá por exemplo. Gosta de chá? Talvez sim, talvez não.
Trouxeram-me o chá. A enfermeira fez-me sentar apoiado nos travesseiros e colocou um carrinho na minha frente. Colocou água fumegante numa xícara com um envelope pequeno dentro. Devagar que queima, disse. Devagar como? Cheirava a taça e sentia um cheiro, como dizer, de fumaça. Queria provar o sabor do chá ou infusão, agarrei a xícara e engoli. Atroz. Um fogo, uma chama, uma bofetada na boca. Então é isso o chá fervente. Deve ser assim também com o café e a camomila de que tanto falam. Agora sei o que quer dizer queimar. Todos sabem que não se deve tocar o fogo, mas eu não sabia em que momento se pode tocar em água quente. Tenho que aprender a entender o limite, o momento no qual antes não pode e depois pode. Mecanicamente soprei o líquido, depois mexi com a colherinha, até decidir que já podia tentar outra vez. Agora o chá estava morno e bom de beber. Não estava certo de qual era o gosto do chá, qual o do açúcar, um deveria ser áspero e o outro doce, mas qual é o doce e qual o áspero? Juntos porém me agradavam. Beberei sempre chá com açúcar. Mas não fervente. O chá me deu uma sensação de paz e relaxamento e peguei no sono.
Acordei de novo. Talvez porque no sono eu estava coçando a virilha e o escroto. Debaixo das cobertas suei. Chagas de decúbito? Avitilha é húmida, mas passando-se a mão nela de modo demasiado enérgico, depois de uma primeira sensação de prazer violento, sente-se uma fricção desagradável. Com o escroto é melhor: passando-o por entre os dedos, delicadamente devo dizer, sem chegar a apertar os testículos, sente-se algo de granuloso e levemente peludo: é bom coçar o escroto, não é que a coceira suma logo, torna-se aliás mais forte, mas dá mais gosto de continuar. O prazer é a cessação da dor, mas a coceira não é uma dor, é um convite a se dar prazer. A comichão da carne. Transigindo-se com isso comete-se pecado. O jovem prevenido dorme supino com as mãos cruzadas no peito para não cometer actos impuros no sono. Coisa estranha, o prurido. E os meus tom…. Você é um escroto. Aquele sim tem os tom… roxos.
Abri os olhos. Na minha frente há uma senhora, não muito jovem, mais de cinquenta, me parece, com pequenas rugas em torno dos olhos, mas com um rosto luminoso, ainda fresco. Algumas mechas brancas, quase imperceptíveis, quase como se ela as tivesse clareado de propósito, uma socialite, como quem dissesse não quero passar por uma mocinha mas suporto bem a minha idade. Era bonita, mas quando jovem deve ter sido belíssima. Acarinhava minha testa. Yambo, disse-me. Lambo quem, senhora? O senhor é Yambo, é assim que todos o chamam, E eu sou Paola. Sou sua mulher. Me reconhece? Não senhora, desculpe, não Paola, sinto muito, o doutor deve ter lhe explicado.
Explicou, Não sabe mais o que aconteceu com você, mas ainda sabe muito bem o que aconteceu com os outros. Como eu faço parte da sua história pessoal, não sabe mais que somos casados há mais de trinta anos, Yambo, querido. E temos duas filhas, Carla e Nicoletta, e três maravilhosos netos. Carla casou cedo e teve dois filhos, Alessandro de cinco anos e Luca de três, Giangio, Giangiacomo, o filho de Nicoletta, também tem três. Primos gêmeos, costumava dizer. E foi..., é, ..., será ainda um avô maravilhoso. E foi também um bom pai. E..., sou um bom marido? Paola ergueu os olhos para o céu: ainda estamos aqui, não? Digamos que em trinta anos de vida há altos e baixos. O senhor sempre foi considerado bonitão... Esta manhã, ontem, faz dez anos, vi uma cara horrenda no espelho. Com tudo o que lhe aconteceu, é o mínimo. Mas foi, ainda é um homem bonito, tem um sorriso irresistível e algumas não resistiram. Nem o senhor, que dizia sempre que se pode resistir a tudo menos às tentações. Peço desculpas. Veja só, como os que lançavam mísseis inteligentes sobre Bagdad e depois se desculpavam quando morriam alguns civis. Mísseis em Bagdad? Não está nas MU e urna noites.
Houve uma guerra, a Guerra do Golfo, agora já acabou, ou não, talvez. O Iraque invadiu o Kuwait, os estados ocidentais intervieram. Não lembra de nada? O médico disse que a memória episódica, que parece que entrou em tilt, é ligada às emoções. Talvez os mísseis sobre Bagdad tenham sido uma coisa que me emocionou. E como! O senhor sempre foi um pacifista convicto e essa guerra o deixou em crise. Quase duzentos anos atrás, Maine de Biran distinguia três tipos de memória, ideias, sensações e hábitos. O senhor lembra de ideias e hábitos, mas não de sensações, que no entanto são as coisas mais suas. Como é que sabe de todas essas coisas? Sou psicóloga de profissão. Mas espere um momento: você acabou de dizer que a sua memória episódica deu tilt. Por que usou essa expressão? É assim que se diz». In Umberto Eco, A Misteriosa Chama da Rainha Loana, tradução de Eliana Aguiar, 2004, Editora Record, 2005, ISBN 978-850-107-143-9.

Cortesia de Difel/ERecord/JDACT

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Número Zero. Umberto Eco. «O senhor, sem querer ofender, vai ser um nègre. Dumas tinha um, não entendo por que eu não possa ter. E por que escolheu a mim? Porque o senhor tem dotes de escritor...»

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«(…) Em suma, não foi uma grande vida. E, com cinquenta anos completos, chegou-me o convite de Simei. Por que não? Enfim, valia a pena tentar mais aquela.
O que faço agora? Se ponho o nariz para fora, me arrisco. Melhor esperar aqui, no máximo estão lá fora esperando que eu saia. E eu não saio. Na cozinha há vários pacotes de biscoito de água e sal e latas de carne. De ontem à noite também sobrou meia garrafa de uísque. Pode servir para ajudar a passar um dia ou dois. Despejo duas gotas (e depois talvez outras duas, mas só à tarde, porque bebida de manhã atordoa) e tento voltar ao início dessa aventura, sem necessidade nenhuma de consultar a disquete porque lembro tudo, pelo menos por enquanto, com lucidez. O medo de morrer dá alento às lembranças.

Segunda-feira, 6 de Abril de 1992
Simei tinha a cara de um outro. Quero dizer, nunca me lembro do nome de quem se chama Rossi, Brambilla e Colombo, ou mesmo Mazzini ou Manzoni, porque tem o nome de outro, só lembro que teria o nome de outro. Pois bem, da cara de Simei não era possível lembrar porque parecia a cara de alguém que não era ele. De facto, ele tinha a cara de todos. Um livro?,  perguntei-lhe. Um livro. As memórias de um jornalista, o relato de um ano de trabalho para preparar um jornal que nunca sairá. Por outro lado título do jornal deveria ser Amanhã, parece um lema para os nossos governos: cuidamos disso amanhã. Portanto o livro deverá chamar-se Amanhã: ontem. Bonito, não? E quer que eu o escreva? Por que o senhor não o escreve? É jornalista, não? Pelo menos, visto que está em vias para dirigir um jornal... Ser diretor não quer dizer saber escrever? Ser ministro da Defesa não quer dizer saber atirar uma granada. Naturalmente que, durante todo o ano que vem, discutiremos o livro dia após dia, terá de lhe pôr o estilo, a pimenta, mas as grandes linhas controlo as eu. Quer dizer que o livro será assinado pelos dois, ou como entrevista de Colonna e Simei? Não, não, caro Colonna, o livro vai ser publicado com o meu nome, o senhor, depois de escrevê-lo, deverá desaparecer. O senhor, sem querer ofender, vai ser um nègre. Dumas tinha um, não entendo por que eu não possa ter. E por que escolheu a mim? Porque o senhor tem dotes de escritor...
Obrigado. …, mas nunca ninguém reparou. Obrigado, mais uma vez. Se me permite, até agora escreveu apenas para jornais da província, andou a fazer fretes culturais nalgumas editoras, escreveu um romance para outra pessoa (não me pergunte como, mas ele veio parar nas minhas mãos e funciona, tem ritmo) e, com os seus cinquenta anos, veio correndo quando ficou sabendo que eu talvez tivesse um trabalho para lhe dar. Portanto, sabe escrever e sabe o que é um livro, mas vive mal. Não deve sentir-se envergonhado. Eu também, se estou para dirigir um jornal que nunca vai sair, é porque nunca fui candidato ao prémio Pulitzer, dirigi apenas um semanário desportivo e uma revista mensal só para homens, ou para homens sós, veja lá...
Poderia ter dignidade e recusar. Não o fará, porque lhe ofereço seis milhões por mês durante um ano, por fora. É muito para um escritor falhado. E depois? Depois, quando me entregar o livro, digamos no prazo de seis meses a partir do término da experiência, outros dez milhões, a pronto, em dinheiro. E, esses, vão sair do meu bolso. E depois? E depois é com o senhor. Se não gastar tudo em mulheres, cavalos e champanhe, terá ganho, em um ano e meio mais de oitenta milhões livres de impostos. Poderá ficar calmamente a olhar para o ar. Deixe-me ver se entendi. Se me dá seis milhões, sabe-se lá com quantos vai ficar, desculpe, além disso haverá outros redactores, e os custos de produção, impressão e distribuição, e diz-me que alguém, um editor, suponho, está disposto a pagar durante um ano esta experiência para depois não fazer nada com ela?
Eu não disse que não vai fazer nada com ela. Ele vai ter seu retorno. Mas eu não, se o jornal não sair. Naturalmente não posso excluir a possibilidade de no fim o editor decidir que o jornal vai sair de verdade, mas nessa altura o negócio vai ficar grande e eu me pergunto se ele ainda vai querer que eu cuide dele. Portanto, eu me preparo para o facto de, passado esse ano, o editor decidir que a experiência já deu os frutos esperados e que ele pode fechar a loja. Assim eu me preparo: se tudo for por água abaixo, publico o livro. Vai ser uma bomba e render-me-á uma boa quantia em termos de direitos de autor. Ou, então, mas falo por falar, alguém não deseja que o publique e dá-me um xis. Livre de impostos». In Umberto Eco, Número Zero, 2015, tradução de José Vaz Carvalho, Gradiva Publicações, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-616-643-4.

Cortesia de Gradiva/JDACT

Fernando Pessoa. Sónia Louro. «Continuo, pois gosto de pensar que sou eu quem escolho as ilhas onde aporto, mas lembro-me e relembro-me e vejo que o mar que nado não me pertence»

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Cai chuva do céu cinzento
«(…) A luz baça de dia em que choveu ou trovejou era a mesma dos meus sonhos acordados, mas o comandante não me podia parecer mais vago do que seria se sonhado, apesar do aspecto robusto, gordo até, do rosto quadrado e do bigode tão cheio quanto as suas carnes. Aquela imagem contrastava com o ar etéreo de quem pertence já a outro mundo, como o meu pai, mas era o comandante que me parecia onírico, pensei, desembarcando com o Chevalier de Pas, apertando a minha mão na dele. Tal como não me recordava do olhar do Taco para mim aquando da despedida naquele cais, também não me lembrava do do comandante, que passei a chamar papá. Apenas me recordava do da mamã e dolorosamente me lembrava de que ela estava feliz. Para ser completamente franco, havia um certo prazer neste sofrimento, pois eu não podia ser alheio à felicidade da mamã. Ela estava cansada de estar só e agora já não continuaria só. O que me causava dor, o que me esfrangalhava os nervos, era a minha companhia não ser suficiente para ela não sentir esse cansaço de estar só. E eu fiquei ainda mais cansado.
Como já disse, não me lembrava dos olhares do Taco ou do comandante, mas também havia coisas que não me recordava ter escrito. Por exemplo, encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio. Era isso. Era como se me desconhecesse até nas minhas lembranças.
Houve também quem sentisse as emoções da minha infância perdida em África, muitas vezes pensava que não fui eu. Tenho a impressão que toda a minha infância está em Lisboa, mas mesmo essa já não sei quem a sentiu. Ainda hoje não sei quem sente o que eu estou sentindo. Mesmo as minhas recordações me parecem ser de outras pessoas. Talvez por isso existissem coisas que recordo e tantas que me fugiam nas malhas da memória, mesmo quando estava a comer um bombom de chocolate ou a beber um copo de absinto, há muito que não bebia absinto, fazia-me mal ao fígado. Havia os acontecimentos de África: não sabia se os tinha esquecido ou se apenas os atirara para o fundo de um poço sem fundo. A frase parece absurda, mas apenas significava que essas lembranças continuavam em queda dentro de mim, talvez ainda me fosse possível apanhar algumas. Sabia que nada disto tinha qualquer sentido, por isso mesmo continuava.
Seria de esperar que o tempo provocasse o esquecimento progressivo, mas já percebi que esse esquecimento é selectivo, embora não sinta qualquer intervenção nessa escolha. Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Tudo. Mas há acontecimentos, locais, nomes de ruas que aparecem na minha memória como que a flutuar na massa escorregadia das outras recordações que se perdem e que não sei ao certo se são minhas, do Ricardo Reis, do Álvaro de Campos ou do Alberto Caeiro, ou se são aquelas que, desde que se criaram, continuam em queda para o fundo do tal poço que não tem fundo. Esqueço-me indefinidamente, esqueço mais do que podia lembrar.

Há dias, melhor, há noites, em que as memórias me
afogam no mar que é a minha cama e sinto-me um
náufrago agarrado como última esperança ao meu
cobertor como a um toco. O Chevalier de Pas não
vem em meu auxílio porque já não sou criança,
embora me sinta maís indefeso do que então. Mas
nessa altura era feliz porque não tinha consciência
de nada, da minha fragilidade, da minha solidão
e do amor que era meu e me levaram. Sou mais
indefeso agora porque sei que o sou, era feliz então
porque não sabia que o era.
Náufrago das minhas próprias memórias, nado por
Elas como se dormisse, mas estou acordado e contorno-
as como a ilhas onde habitassem piratas cruéis
ou feras terríveis de várias cabeças com o dom de
dormirem e despertarem à vez. Continuo, pois gosto
de pensar que sou eu quem escolho as ilhas onde
aporto, mas lembro-me e relembro-me e vejo que o
mar que nado não me pertence, as memórias não
são minhas e tudo não passa de uma insónia sem
fim. Afinal não escolho nada e desperto como se
tivesse dormido».

In Sónia Louro, Fernando Pessoa, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-674-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

Fernando Pessoa. Sónia Louro. «Pelo meio de paisagens perplexas que eu julgava serem as africanas, entre personagens dramáticas, rios cujo nome ignorava, e continuei ignorando»

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Cai chuva do céu cinzento
«(…)… São as cabeças, os corpos, eles todos por inteiro,
são o Caeiro, o Reis e o Campos. Podem ser sem
vida os olhos dos dois primeiros, pois são sempre
sem vida os olhos de um morto e os de um exilado
da pátria, mas os do Campo são vivos, porque
são vivos os olhos de um vencedor e ele vence-me.
Sempre me vence».

Em Janeiro do ano seguinte, em 1896, partimos para Durban: a mamã, eu e o Chevalier de Pas. o tio Gualdino também foi, mas se não fosse o Chevalier de Pas, os trinta dias de viagem ter-me-iam parecido trezentos. Deixava um lugar para chegar a outro e nessa linha que unia Lisboa a Durban sentia em mim a vertigem do novo, a náusea do desconhecido e quem sabe do mar. Em verdade, era a náusea causada pela opressão do mar e do céu, que se uniam até ao infinito, e a do abandono do lar onde eu era a pessoa em torno da qual as outras se moviam. Percorri a bordo do Harwaden Castle, nome muito apropriado para a companhia do Chevalier de Pas, essa linha móvel que separava o mundo conhecido do desconhecido ao mesmo tempo que sentia a minha infância a passar. Restava-me o consolo de pensar: quantas crianças terão visto a sua infância passar a bordo de um castelo e na companhia de um cavaleiro? Apenas eu. Era apenas eu... Tremia então só de pensar na viagem, tremo ainda hoje ao recordá-la. O arrepio do medo daqueles trinta dias ainda me assombravam, por vezes, as noites de insónia.
Qual cavaleiro, o tio Gualdino acompanhou-nos até Durban para proteger a reputação da minha mãe. O meu cavaleiro acompanhou-me também toda a viagem para proteger o resto da minha infância que partia em alto-mar, deitada pela chaminé com o fumo do vapor. A minha mãe estava demasiado enlevada nos seus devaneios de novamente recém-casada e na expectativa de reencontrar o seu marido por procuração. Recordava o olhar da minha mãe nessa altura, era como se estivesse sempre distante, os olhos dela chegaram a Durban antes de o Harwaden Castle. Não conseguia recordar os do tio Gualdino, Taco para mim, no momento da despedida, em Durban. Recordava, contudo, a cor das flores, o comprimento das sombras mortas sobre o alinhamento de calçadas, casas e bancos de jardim pelas ruas que iam dar ao circo onde todos os domingos o Taco me levava porque eu lhe pedia. Ele e a minha tia Maria Xavier não tinham filhos e já tinham passado da idade em que ainda existe essa possibilidade. Afeiçoaram-se, por isso, à ideia de me terem assim que souberam que a mamã se casaria. Isso não me magoava, mas entristecia-me saber que a mamã ponderou começar sozinha uma vida nova, como se eu fosse um empecilho para a sua felicidade. Eu que deveria ser toda a razão da mesma.
Durante a viagem, a mamã apertou muitas vezes o seu rosto contra o meu, quando o meu maior desejo era que me apertasse contra o seu coração. Deveria ter percebido então que ela não me amava. Se eu não poderia viver senão acarinhado, por que deitaram fora o meu carinho? Contudo, na minha desolação de criança triste, que nem isso sabia ser então, havia a consolação de me ser permitido estar a seu lado. De facto, podia dizer que ganhei essa permissão. Com o Taco e a tia Maria Xavier a quererem-me para si, com a tia Anica a desejar o mesmo, como poderia não ser esse também o desejo da mamã? Porque não me queria ela para si? No momento em que ela me consultou, soube que era uma batalha de vida ou de morte e, instilado de coragem pelo Chevalier de Pas, escrevi:

«À minha querida mamã:
eis-me aqui em Portugal,
nas terras onde eu nasci,
por muito que goste dela,
ainda gosto mais de ti».

Pedi-lhe perdão depois por tê-la tuteado no poema, mas nunca pedi perdão à criança por tê-la enganado e tê-la feito entrar numa batalha que julgava ser de vida ou de morte, quando na realidade era de morte ou de morte. A criança que eu era morreria sempre naquele campo de batalha. A mamã beijou-me na testa e, mais uma vez, encostou o seu rosto ao meu. Eu acabava de conquistar o direito de estar com ela e esse era o maior prémio que a minha poesia algum dia me daria. Durante toda a viagem, sonhei com o comandante, o marido da minha mãe, aquele que me preferia longe, em suma, o meu novo papá. Ele não ocupava os sonhos que eu tinha dormindo, mas os que eu sonhava acordado. Pelo meio de paisagens perplexas que eu julgava serem as africanas, entre personagens dramáticas, rios cujo nome ignorava, e continuei ignorando, e luzes baças de dia em que choveu ou trovejou, eu sonhava o comandante. Já o tinha visto, mas não me lembrava dele. O Harwaden Castle tinha um calado muito fundo para poder entrar no porto de Durban, fazendo com que as praias e o cais longínquos se mantivessem inalcançáveis por mais tempo. O Chevalier de Pas conseguiu ocupar o ultimo lugar disponível na chalupa que nos levaria para terra. Olhei para a margem na minha frente, não reconheci na floresta brilhante o casario branco de Lisboa e as pequenas hortas para o lado da Amadora. Apesar do sol mais quente, do recorte das praias na costa, da cor e do som de várias aves que eu já conseguia ouvir o meu olhar estava mais saudoso do que curioso naquele momento em que a chalupa calcorreava a pequena ondulação até ao cais. Quando desembarquei, percebi que era melhor, e até mais real, sonhar com o comandante à espera no cais, do que desembarcar nesse mesmo cais junto ao comandante». In Sónia Louro, Fernando Pessoa, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-674-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Rocha Branca. Fernando Campos. «Passadas as pontes, em cada extremo do canal seu porto. O do norte, protegido por forte molhe, serve a pescadores, a barcos de mercadores e aos que ligam a ilha às cidades costeiras da Eólia»

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«(…) Triste espectáculo para os nossos olhos magoados! Ali jazia ele, ensanguentado o corpo nu, despojado do armamento. No peito traspassado, a funda chaga violácea da lança. Cara, braços, pernas, toda aquela carne de um belo homem de vinte e poucos anos golpeada e macilenta. No jardim florido, em frente da casa, já os criados erguem a pira. Os sacerdotes fazem as libações ao deus. Minha mãe Cléis chora, agarram-se-lhe às saias, de olhos aterrorizados, os meus três irmãozinhos. É então que eu, antes de erguerem o corpo hirto e o depositarem na pira, me desligo da mão de minha mãe e, aproximando-me, deixo desabrochar o meu pranto sobre o querido cadáver. Arrancam-me dali e não tarda que as chamas reduzam a cinzas o herói…
Nessa hora, ante a crueza real da morte, aquela ausência concreta da figura do pai, na sua cadeira, à escrivaninha, onde descansam adormecidos e inertes os utensílios de seu uso, vazio o seu lugar à mesa das refeições, a falta do calor dos seus braços a pegarem-me ao colo, o silêncio da sua voz a ecoar-me nos ouvidos, alaga-me a solidão como onda a espraiar-se no areal deserto, sou tempo, vento, animal selvagem, águia, condor, gerifalto, e me nasço em mim esta alma inquieta e ansiosa de vida, me estremece todo o ser, as carnes e o miolo dos ossos, se me desabotoam os sentidos, o olhar, o ouvir, o cheirar, o paladar, sou desejo, paixão, delírio. Cores, sons, perfumes, gostos, ritmos, todas as inefáveis maravilhas da terra, do céu e do mar acordam em mim sonho de infância para sempre..., e o temor e veneração dos deuses imortais...
Para protecção sua e dos filhos e por conselho de Eurígies, rico irmão que vive em Mitilene, minha mãe parte connosco para aquela cidade resguardada a sueste da ilha. Trajecto penoso de cerca de trinta e um estádios, em carroça tirada por muares, as almas tristes aos solavancos da estrada de montanha, ela, a pobre viúva, silenciosa olhando a paisagem sem a ver, a dormirem ao colo das aias os meninos. Só eu, os meus sentidos despertos retêm tudo o que de fora vem, ao perto e ao longe, o acre cheiro dos pinhais, no descer das colinas a cinza das oliveiras. Passa por nós a marcha pesada de guerreiros a caminho dos campos de batalha. Contornamos agora caminho pelas margens do golfo de Pirra, guinamos a sueste, vê-se ao longe, à direita, o alto do Olimpo lésbio dourado de sol. Mais montanha e, lá em baixo, a cidade e o mar, tão perto que apetece mergulhar naquele límpido azul. Soutos de castanhais e carvalhais, aqui e ali espetados do esguio verde--negro dos ciparissos, a serra vem quase beijar as ondas. A oeste, a acrópole, em pequena ilha separada da terra montanhosa por estreito canal, o Euripo, atravessado por pontes de pedra branca, e a ágora rodeada de casinhas. Para cá, à beira-mar e nas vertentes inferiores das colinas, se estende a cidade.
Passadas as pontes, em cada extremo do canal seu porto. O do norte, protegido por forte molhe, serve a pescadores, a barcos de mercadores e aos que ligam a ilha às cidades costeiras da Eólia, a cerca de dezassete estádios; o do sul, guardado por dois paredões fortificados, abriga uma frota de cinquenta navios de guerra. Para baixo, pela orla da praia, as vivendas abastadas, em meio de jardins viçosos. O tio Eurígies acolhe-nos à porta, já a criadagem descarrega as carroças bagageiras. Entramos. No pátio, o boi paciente, atrelado ao timão do engenho, caminha eternamente em volta do gargalo do poço. Gira gemente a grande roda de madeira, de que apenas se vê metade, e cantam os baldes de barro a escorrerem água cintilante para a calhe que a leva ao tanque.
E o murmúrio do mar trazido pela brisa e a melopeia do ranger do madeiro, misturados ao vozear das gentes que passam lá fora, ficam para sempre nos meus ouvidos de menina e esforço-me por que ressoem nos meus versos... Durante a guerra, onze anos, faço-me mulher. As regras vêm-me aos doze. Fico aflita ante aquele escorrer de sangue.  Mãezinha, vou morrer! Que dizes, filha? Mostro-lhe. Queridinha! Ela sorri aquele sorriso triste que lhe ficou da morte de meu pai e levemente revela-me o segredo das luas mensais. Menina, não se alarme!, também Cleonice me explica o fenómeno. Isso quer dizer que, daqui em diante, pode ser mulher. Daqui em diante? Para uma rapariga se considerar mulher, será necessário..., e segreda-me ao ouvido o milagre da vida. Faço agora dezasseis anos. Aprendo as tarefas próprias de quem terá a seu cargo dirigir casa, tecer, cozinhar, ler, escrever e contar, tocar o bárbito e a cítara, cantar e dançar nas cerimónias religiosas. Rapazes, atarefados no serviço militar, quase não temos convívio com eles. E eu e as minhas aias, Cleonice, Íole e Cléofis, juntamo-nos, cantamos e dançamos, como dantes. Vamos correr ao luar!, desafio-as. A noite está quente. Passearemos sob as árvores, ao gorjeio de rouxinóis e pintassilgos, ao zingarreio metálico das cigarras, à luz da lampadazinha intermitente dos pirilampos...» In Fernando Campos, A Rocha Branca, Editora Objectiva, Alfaguara, 2011, ISBN 978-989-672-111-4.

Cortesia de EObjectiva/Alfaguara/JDACT

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Rocha Branca. Fernando Campos. «Haviam-no os criados trazido da batalha numa improvisada padiola de ramos de tamariz»

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«(…) Suspende Pítaco o discurso por momentos e, com facécia nos olhos e no ricto dos lábios, acrescenta: basta o arroto deles para deitar por terra um batalhão inimigo... Os circunstantes riem. O orador continua: não descuidaremos serviços auxiliares; sinais de fogo no alto das montanhas, os hemeródromos que correrão o dia inteiro a levar mensagens, os terapeutas de campanha para acudir aos feridos, os adivinhos para nos aconselharem... Os veteranos, com os efebos e os metecos, manter-se-ão a defender a ilha, peitos às armas esforçados, lanças em riste apercebidas contra o invasor ateniense. Defenderemos a nossa terra, as nossas mulheres, as nossas virgens, o nosso sangue, os nossos bens, o nosso pão, o nosso vinho... Avante, cidadãos! A hora é de heroísmo! Assim falou e logo crepitam aplausos a coroar-lhe as palavras voadas do experto peito. Está encontrado o general de Lesbos. Mitilene, cidade aristocrática e a mais importante da ilha, é, com a concordância de todas as outras, investida na direcção da defesa.
Por toda a parte se aparelha a guerra. No porto está pronta a armada, carros de batalha seguem os guerreiros por estradas e caminhos em direcção ao litoral. Estafetas correm com ordens e avisos às populações. Em Éreso, meu pai Escamandrónimo prepara os seus homens. A enorme casa resplandece de bronzes, ondeiam os brancos penachos de crinas de cavalo, brilham as cnémidas dos hoplitas, envolvem-se os dorsos com as couraças de linho novo, as cotas de malha da Lídia, empunham-se na esquerda os côncavos escudos, na direita o dardo potente, dos cinturões pendem espadas e punhais de Cálcis.
Fora das muralhas aguarda o exército. Escamandrónimo, rutilante em seus trajos de guerra, surge à porta de casa com nossa mãe e connosco. Lembrado da despedida de Heitor a Andrómaca, prefere contenção de palavras. Apenas diz, como o herói homérico: pobrezinha! Não atormentes o coração. Contra o destino nenhum mortal me poderá lançar ao Hades, beija a mulher, afaga-nos. Vá! Entra e dedica-te às tuas tarefas. A guerra é para os homens.
Cléis, os olhos em lágrimas, leva-nos para dentro. Ainda olho atrás. Ele desce, sai a porta da muralha a juntar-se aos guerreiros. Partem. Com seu exército meu pai vigia muralhas, porto, praia, habitações e campos. E, um dia, pelo meio da manhã, surge ao longe, no azul de mar e céu, a frota inimiga... Tinha eu seis anos, o meu choro regou os osso
s de meu pai. Haviam-no os criados trazido da batalha numa improvisada padiola de ramos de tamariz». In Fernando Campos, A Rocha Branca, Editora Objectiva, Alfaguara, 2011, ISBN 978-989-672-111-4.

Cortesia de EObjectiva/Alfaguara/JDACT

O Fundador. Aydano Roriz. «O que é preciso, se me permite a ousadia, Sereníssimo, é Vossa Alteza tornar-se senhor de verdade daquela “vossa conquista”»

Cortesia de wikipedia e jdact

Para entender a História
«(…) Naturalmente, Sereníssimo, e fazendo um gesto entre cortês e humilde, como se pedindo desculpas. Mas é facto que o povo sofre, Sereníssimo. Gentes morrem de fome pelo Reino inteiro. E o que é que tu queres que eu faça, Castanheira?, retrucou o rei, reassumindo o seu ar de Piedoso. É a sina do povo. Sempre se morreu de fome no mundo, e sempre se morrerá. O Brasil pode ser a solução, Alteza!, contrapôs com algum entusiasmo o conde. Se colonizarmos verdadeiramente aquela vossa conquista, poderemos dar um trato de terra para essa gente e colher muito açúcar. O rei esboçou um pálido sorriso cúmplice. Adorava que lhe chamassem as novas terras como sua conquista. Encorajado, Castanheira prosseguiu. Defendeu que, pagando vinte e cinco por cento de juros anuais, e com uma dívida equivalente a mais de dois anos de receitas, o déficit do Tesouro era como uma bola de neve que rolava serra abaixo: à medida que o tempo passava, só crescia. Urgia encontrar novas fontes de receitas para o Reino. E os empréstimos compulsórios que me induzistes a decretar?, espicaçou o rei, com um meio sorriso nos lábios. Têm ajudado, Sereníssimo. Mas não resolvem o problema, aduziu Castanheira um pouco constrangido, uma vez que ele próprio, como fidalgo, havia sido dispensado da medida. Já o Brasil...
O Brasil, ora, o Brasil!, interrompeu o rei, um tom acima do normal. Não mandámos para lá Martim Afonso? Não gastámos trezentos mil cruzados com a expedição dele? E de que adiantou? Dinheiro deitado à rua, isso sim! Concordo, Sereníssimo. Mas isso foi há quinze anos! Agora, o facto é que os franceses estão a mexer-se outra vez. E se Vossa Alteza não tomar medidas rigorosas, corremos o risco de perder Santa Cruz, e colocando-se na ponta do estofado, de modo a ficar mais próximo à mesa, o vedor da Fazenda argumentou que era preciso povoar verdadeiramente aquela colónia, e não simplesmente mandar degredados para lá. Que urgia levar a justiça D'el-rei para a província, para acabar com os desentendimentos entre os capitães-donatários e os povoadores. O que é preciso, se me permite a ousadia, Sereníssimo, é Vossa Alteza tornar-se senhor de verdade daquela vossa conquista. É a única maneira que vejo de manter os franceses longe do Brasil. O rei cruzou as mãos por cima do ventre rechonchudo e ficou a girar os dedos polegares, ora num sentido, ora no outro. Eh, o Diogo Gouveia, quando era reitor na Universidade de Paris, insistiu muito nisso comigo, concordou João III, desalentado. Mas o que se há de fazer! Volta e meia não estamos a combater os corsários? Não mandei já não sei quantos protestos para Francisco de França, e agora para o filho dele, esse menino aí... o Henrique? Não firmei já tratados? Não me comprometi já a pagar dez mil cruzados ao capitão-mor da armada de França, para que ele próprio combata os piratas da Bretanha e Normandia? Não comprei até a carta de corso, que o salafrário do Francisco de França deu ao Jean Ango?
O vexame acontecera no mesmo ano em que Martim Afonso fora mandado para iniciar a colonização do Brasil. De modo a evitar confrontos com a França, o rei de Portugal submetera-se a pagar quatro mil ducados, ou catorze quilos de ouro, para que Jean Ango, visconde de Dieppe, parasse de roubar pau-de-tinta nas Terras de Santa Cruz. Mas também... Jean Ango era mesmo poderoso! Dono de mais de cem navios, o riquíssimo visconde francês ficara indignado com a morte, pelos guarda-costas portugueses, de uma boa centena de homens seus no Brasil. Em represália, ameaçara bloquear o porto de Lisboa e declarar, pessoalmente, guerra a Portugal. Não dividi já aquelas terras, continuou o rei, do mesmo modo que dividimos os Açores e a Madeira? Está bem. Concordo que as rusgas entre os capitães e os colonos me estão a enfadar um pouco. Mas Portugal precisa é de ouro, Castanheira! Ou de mercadorias que possa trocar por ouro. Terra, temos de sobra. Tanto no Algarve, quanto em África e nas índias. É exactamente aí onde eu queria chegar, Sereníssimo, ajuntou o conselheiro, com inflexão de voz especialmente respeitosa. A terra do Algarve não é boa. As índias, como Vossa Alteza sempre diz, têm-se mostrado um sumidouro de gentes e de dinheiros. E em África os mouros não nos dão sossego. Anos atrás Vossa Alteza não decidiu até abandonar as praças-fortes de Arzila e Alcácer Ceguer, por ser muito caro mantê-las? Então... É certo que as tais capitanias hereditárias não são exactamente um sucesso no Brasil. Das quinze, só duas renderam alguma coisa. Mas Vossa Alteza sabe porquê? Na opinião deste vosso humilde conselheiro, porque o Brasil não é os Açores, e muito menos a Ilha da Madeira. É uma terra tão grande, que é quase impossível guardar. E tão longe, que muitos dos donatários nem para lá foram, e os que foram sentiram-se desamparados. Perdoe-me, Ataíde, mas isto não me parece justo, reagiu António Carneiro, secretário-geral do Reino. Então alguns capitães não levaram para Santa Cruz esquadras bem apetrechadas, colonos, artífices de várias profissões?... Não, o problema não é esse, meu amigo. O problema é que aquilo é uma terra selvagem. Os gentios brasis não comeram o Francisco Pereira Coutinho!» In Aydano Roriz, O Fundador, Saída de Emergência, colecção a História de Portugal em Romance, 2015, ISBN 978-989-637-740-3.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

O Fundador. Aydano Roriz. «Com gestos de cabeça, o Piedoso aprovava a intervenção do conselheiro. E com a fuga de alguns dos melhores dos nossos judeus»

Cortesia de wikipedia e jdact

Para entender a História
«Não estava a ser fácil, para os reis de Portugal, fazer valer a posse das terras que haviam encontrado do outro lado do Atlântico em 1500. Com a abertura do caminho marítimo para as Índias eram poucos os súbditos da Casa de Avis que se dispunham a trocar o fascínio da riqueza fácil no Oriente, pelo desbravamento dos trópicos selvagens. Mas, nem por isso, a Coroa deixou de mandar para a nova província expedições regulares, que faziam cartas de navegação e portulanos, onde iam desenhando o contorno da costa e baptizando os rios, baías e outros acidentes geográficos. Mesmo assim, por quase meio século, o Brasil era tido apenas como mais uma posse. Uma, no vasto colar de terras que a Coroa portuguesa conquistara pelo mundo, em mais de setenta anos de insistentes tentativas de descobrir um caminho marítimo para as especiarias das Índias. Em todo o caso, não queriam perder a Terra de Santa Cruz. Até porque, embora ouro e prata não tivessem sido encontrados, concluíram que podiam levar daquela província valiosas peles de onça, aves palradoras de plumagem colorida e muita madeira nobre. Sobretudo uma que, depois de triturada, misturada com água e fermentada, resultava num corante avermelhado muito bem aceite nas tecelagens da Europa. Difícil era manter em segredo a origem daqueles artigos exóticos. E da boca de um marinheiro para outro, de um porto para outro, a notícia foi-se espalhando. Espalhando, e atraindo para o Brasil navios corsários e os chamados entrelopos, mercadores aventureiros, principalmente franceses, que não tinham escrúpulos em fazer frente ao monopólio português assegurado pelo papa.
O mês era o de Maio. O ano, o de 1548. Sentado à cabeceira da comprida mesa de carvalho, com a sua cara de monge e a expressão beata que lhe valera a alcunha de o Piedoso, o rei de Portugal afagou a volumosa barba negra e perguntou com voz de confessionário: e quanto a ti, Castanheira? António Ataíde, o conde de Castanheira, despertou do torpor e empertigou-se na poltrona. A longa explanação do marquês de Cadaval, contando das festividades que estava a programar para a próxima temporada de Verão, quando a corte mudasse para Sintra, haviam-no entediado. Por mais que, nos últimos vinte anos, volta e meia se visse obrigado a ouvir tolices de toda a monta, ainda não se habituara. Continuava a considerar um despropósito discutirem-se futilidades como aquela num Conselho Real. Receio que as novidades não sejam boas, Sereníssimo, falou em tom protocolar, atraindo as atenções para si. Recebi mensagem daquele nosso jogral, infiltrado nos palácios da Citu de Paris. Segundo ele, os franceses estariam a preparar uma nova investida contra o Brasil. Pelo sangue de Cristo! Vão começar com isso outra vez?! Receio que sim, Sereníssimo. E desta feita em larga escala, e apoiando com elegância as mãos entrelaçadas sobre a mesa: ao que consta, tão logo consigam sufocar a rebelião na Aquitânia, aquela por causa do imposto do sal, devem voltar as atenções para a vossa província de Santa Cruz. João III, o terceiro João a sentar-se no trono português, girou no dedo o anel de diamantes que lhe mandara de presente o rajá de Narsinga, nas Índias.
Castanheira parecia mesmo o arauto das más notícias, pensou. As más notícias era sempre ele quem as trazia primeiro. E aquela falta de tacto, aquela inapetência para fazer rodeios, aquele estilo directo do conselheiro às vezes aborreciam um pouco. De todo o modo, tinha de reconhecer: António Ataíde era dos poucos que nunca lhe escondiam nada. Por isso confiava nele. E tu acreditas nisso, Castanheira? Acredito, Sereníssimo. Na verdade, penso que se Vossa Alteza não tomar uma atitude decisiva, vamos acabar por perder aquelas terras para Henrique de França. Que se perca!, retrucou o príncipe João Manuel, filho do rei, obrigado pelo pai a participar em algumas reuniões do Conselho, ainda que não tivesse completado onze anos. Aquilo nunca nos rendeu coisa alguma. Não é bem assim, Alteza, argumentou Castanheira em tom professoral, procurando mostrar-se tolerante com o jovem candidato a rei. Com o pau-de-tinta tem-se ganho uns cem mil cruzados por ano. Da Nova Lusitânia tem vindo bastante açúcar. Um pouco de São Vicente também. E o dízimo de tudo é sempre recolhido à Real Fazenda. Muito pouco, se comparado com o que nos rendem as índias, contrapôs Francisco Portugal, camareiro-mor do pequeno príncipe, indo em socorro do seu pupilo, o herdeiro presumível do trono. Ataíde perscrutou o estado de espírito do rei e, como lhe parecesse que o monarca estivesse a apoiar os seus pontos de vista, continuou: o lucro com as índias não vai durar para sempre. Se Vossa Mercê se lembra, não é de hoje que falo nas reuniões do Conselho estarem os proveitos a diminuir, desde que os mercadores e financistas judeus começaram a fugir cá do Reino. Que o meu irmão Henrique não te ouça dizer isso, Castanheira, interpôs o monarca João, em tom de brincadeira. O principezinho emitiu um risinho tonto de menino fraquito, tão satirizado às escondidas na corte e por detrás dos reposteiros. É verdade, Sereníssimo, aquiesceu o conde de Castanheira, aderindo ao gracejo real. Um dia, quem sabe, Sua Eminência, o cardeal Henrique, mude de ideia. De todo o modo, até lá, Vossa Alteza sabe melhor do que ninguém: os judeus são tão necessários a um país quanto os padeiros. Com gestos de cabeça, o Piedoso aprovava a intervenção do conselheiro. E com a fuga de alguns dos melhores dos nossos judeus, por receio do Santo Ofício (maldito) continuou Castanheira, reduziu-se grandemente o comércio cá na Metrópole. Resultado: estamos a dever mais de dois milhões de cruzados. Oitocentos mil, só de juros atrasados. Ora, Castanheira... ,replicou um pouco irritadiço o monarca, fincando os cotovelos na mesa, para apoiar o queixo com os punhos. Não é preciso que me lembres isso a cada dia. Como vedor da Fazenda, sabes muito bem que herdei um tesouro arruinado. Sabes que tivemos secas tremendas. Que sofremos a pestilência e até um terramoto em Lisboa!» In Aydano Roriz, O Fundador, Saída de Emergência, colecção a História de Portugal em Romance, 2015, ISBN 978-989-637-740-3.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A Garota Italiana. Lucinda Riley. «Sem responder, Rosanna deixou o quarto de banho e desceu a íngreme escada de madeira. No pé da escada, abriu a porta e entrou na cantina»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nápoles. Itália. Agosto de 1966
«Rosanna Antonia Menici apoiou-se na pia e ficou na ponta dos pés para se olhar no espelho. Teve de se inclinar um pouquinho para a esquerda, pois uma rachadura distorcia os traços do seu rosto. Assim, só conseguia ver metade do olho e da bochecha direitos, e nada do queixo; mesmo na ponta dos pés, ainda não tinha altura suficiente para enxergá-lo. Rosanna! Saia já do quarto de banho! A menina suspirou, largou a pia, atravessou o chão de linóleo preto e destrancou a porta. A maçaneta girou na mesma hora, a porta se abriu e Carlotta passou por ela com truculência. Que história é essa de trancar a porta, sua criança boba? O que tem para esconder? Ela abriu as torneiras da banheira e, em seguida, com gestos experientes, prendeu no alto da cabeça os longos cabelos escuros e cacheados. Rosanna deu de ombros, encabulada, e desejou que Deus a tivesse feito tão bonita quanto a irmã mais velha. Mamma tinha-lhe dito que Deus dava um presente a cada um, e o de Carlotta era a beleza. Observou com humildade a moça despir o roupão e revelar o corpo perfeito de pele branca e lisinha, os seios fartos e as pernas compridas. Todos que entravam na cantina elogiavam a linda filha de mamma e papà e comentavam como ela um dia daria um bom partido para um homem rico. O vapor começou a tomar conta do pequeno banheiro. Carlotta fechou as torneiras e entrou no banho. Rosanna sentou-se na borda da banheira. Giulio vai vir hoje à noite?, perguntou à irmã. Vai, sim. Acha que vai se casar com ele? Carlotta começou a se ensaboar. Não, Rosanna. Não vou me casar com ele. Mas achei que gostasse dele. Eu gosto dele, mas não... ah, você é nova demais para entender. Papà gosta dele. É, eu sei que papà gosta dele. A família do Giulio é rica. Carlotta arqueou uma das sobrancelhas e deu um suspiro dramático. Mas ele me cansa. Se papà pudesse, me faria subir ao altar com ele amanhã mesmo, mas antes quero me divertir um pouco, aproveitar a vida. Mas eu pensei que casar fosse divertido, insistiu Rosanna. Você vai poder usar um vestido de noiva bem bonito, vai ganhar vários presentes, vai ter o seu próprio apartamento e... Um bando de crianças sempre aos berros e uma cintura bem grossa, concluiu Carlotta, alisando distraidamente com o sabonete as curvas esbeltas do corpo enquanto falava. Seus olhos escuros relancearam na direcção da irmã menor. Porque me está encarando? Saia daqui, Rosanna, me deixe em paz por dez minutos. Mamma está precisando da sua ajuda lá em baixo. E feche a porta ao sair!
Sem responder, Rosanna deixou o quarto de banho e desceu a íngreme escada de madeira. No pé da escada, abriu a porta e entrou na cantina. As paredes haviam sido caiadas recentemente, e acima do bar nos fundos do salão um retrato de Nossa Senhora dividia a parede com um poster de Frank Sinatra. As mesas de madeira escuras brilhavam de tão enceradas e velas haviam sido postas em cima de cada uma delas, dentro de garrafas de vinho vazias. Ah, você está aí! Onde foi que se meteu? Chamei-a várias vezes. Venha-me ajudar a pendurar esta faixa. Em pé sobre uma cadeira, Antonia Menici segurava uma das pontas do tecido de cor viva. A cadeira balançava perigosamente sob o seu peso considerável. Sim, mamma. Rosanna puxou outra cadeira de madeira de baixo de uma das mesas e a arrastou até ao arco no centro da cantina. Ande logo, menina! Deus lhe deu pernas para correr, não para se arrastar feito uma lesma! Rosanna segurou a outra ponta da faixa e subiu na cadeira. Pendure essa argola no prego, instruiu Antonia. Rosanna obedeceu. Agora venha ajudar sua mamma a descer da cadeira para ver se ficou recto. Rosanna desceu da cadeira e correu para ajudar Antonia a fazer o mesmo em segurança. As palmas das mãos de sua mamma estavam húmidas, e ela pôde ver gotas de suor na sua testa. Antonia ergueu os olhos para a faixa, satisfeita. Bene, bene, comentou. Rosanna leu as palavras em voz alta: feliz trinta anos de casados, Maria e Massimo! Antonia enlaçou a filha e lhe deu um raro abraço. Ah, que surpresa vai ser! Eles acham que vêm aqui jantar só com o seu papà e eu. Quero ver a cara deles quando virem todos os amigos e parentes. Seu rosto redondo estava radiante de prazer. Ela soltou a filha, sentou-se na cadeira e enxugou a testa com um lenço. Então inclinou-se para a frente e acenou para a menina vir na sua direcção». In Lucinda Riley, A Garota Italiana, 2014, Editora Arqueiro, 2016, ISBN 978-858-041-565-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «Do casamento de Grácia com Francisco nasceu uma única menina, de nome de baptismo Ana, do nome bíblico Hanna, equivalente hebraico de Grácia, a quem chamavam Reina»

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Se eu fosse rei de Lisboa,..., seria rei do mundo
«(…) Em meados do século XVI, nasce o Bairro Alto, primeiro bairro moderno, de Lisboa. Os ares considerados mais saudáveis das suas colinas e a construção da igreja de S. Roque pelos jesuítas, onde o rei e os nobres se reuniam, tornam o Bairro Alto na zona mais aristocrática da cidade. Até ao terramoto de 1755, o Bairro Alto distingue-se pelos seus bailes, teatros ao ar livre e tertúlias literárias, que caracterizavam a vida da nobreza lisboeta. É pouco provável que Francisco e Grácia habitassem o Bairro Alto. Devido ao comércio das especiarias a que se dedicava Francisco, talvez morassem perto das Alfândegas, nomeadamente a Alfândega Nova, do lado ocidental do Terreiro do Paço. Ou ainda com maior probabilidade na Rua Nova, na paróquia da Madalena, nas casas de quatro e cinco andares, de fachadas austeras rasgadas por janelas de venezianas e persianas de madeira, habitadas pelos grandes financeiros portugueses e estrangeiros. Com efeito, a rua Nova situava-se perto da antiga judiara grande, a qual apesar das conversões ainda era habitada por muitos cristãos-novos. A rua Nova também não ficava longe das judiarias da Teracenas ou Alfama, ambas situadas em frente da zona do porto e dos estaleiros navais.
Do casamento de Grácia com Francisco nasceu uma única menina, de nome de baptismo Ana, do nome bíblico Hanna, equivalente hebraico de Grácia, a quem chamavam Reina, um nome usado pelos sefarditas da época e até hoje. Mas poucos anos depois, em 1535, Francisco Mendes morre, ficando Grácia e o seu irmão Diogo, que dirigia a filial em Antuérpia, como gestores da sua imensa fortuna. A sua morte dá-se num momento dramático da vivência dos cristãos-novos. Em 1515, Manuel I pedira ao papa a instalação do tribunal da Inquisição (maldita) em Portugal para julgar os hereges, projecto que abandona em seguida. O seu filho e sucessor João III começou por aplicar a política de assimilação de Manuel I. Mas a vitalidade da prática judaizante de muitos cristãos-novos e o zelo religioso da rainha dona Catarina, irmã de Carlos V e neta dos Reis Católicos, foram progressivamente convencendo o rei a pedir ao papa Clemente VII a autorização de estabelecimento de um tribunal segundo o modelo espanhol.
Houve um elemento que terá contribuído para influenciar o rei nesse sentido: em 1525 chegara a Faro uma estranha personagem de nome David Reubéni, que se apresentava como emissário das dez tribos perdidas do Oriente, a fim de propôr ao rei uma aliança judaico-cristã para combater os Turcos. Portador de cartas de recomendação do papa, veio para Lisboa passando por Beja, Évora e Santarém e desencadeando à sua passagem um intenso fervor religioso entre a massa de cristãos-novos que o aclamavam como o Messias. Um funcionário da coroa, Diogo Pires, foi mesmo ao ponto de se circuncidar a si próprio e de o seguir mais tarde, mudando o seu nome para Salomão Molkho. Acabaram os dois nas fogueiras da Inquisição (maldita), Reubéni em Badajoz ou em Évora e Molkho em Mântua, mas este acontecimento que se enquadrava num messianismo crescente entre os cristãos-novos, terá provavelmente alertado João III para os perigos do seu alastramento não só entre os cristãos-novos, mas também entre a própria população cristã-velha, e contribuído para a sua decisão de instalar em Portugal a Inquisição (maldita). Graças a hábeis negociações e a uma política de donativos e subornos levadas a cabo por cristãos-novos, entre os quais Francisco e Grácia Mendes, a implantação do tribunal foi sendo adiada. Por pouco tempo: em 1536, a bula Cum ad Nihil Magis, assinada pelo papa Paulo III a 23 de Maio, estabelecia a Inquisição (maldita) em Portugal. O inquisidor geral era Henrique, o próprio irmão do rei...
Francisco Mendes deve ter previsto os acontecimentos e tentado salvar a família e o seu império das garras da Inquisição, porque em 1531 conseguiu obter do papa um breve de protecção para a sua família contra qualquer eventual acusação de heresia, mas morreu prematuramente. À sua morte, a fortuna familiar foi alvo da cobiça real que concebeu o plano de casar a filha de ambos, Ana, com um elemento do Paço, o que lhe permitiria apossar-se de metade da herança. Escreve H. P. Salomon: em 12 de Maio de 1537, o rei declarou explicitamente o seu desejo que a criança fosse imediatamente levada para a casa da rainha para nela estar, e se criar, e aprender todos os bons costumes […] e daí, com a fazenda que lhe seu pai leixou, a casará com uma pessoa honrada [...] Grácia acabara de fazer vinte e sete anos. Mas era dotada de uma personalidade forte e determinada, e o seu ardente apego às tradições ancestrais judaicas que partilhava com o marido nunca lhe permitiria aceitar tal plano, mesmo que ele significasse uma protecção para a sua família. Por outro lado, o próprio facto de o marido a nomear, em testamento, gestora da sua fortuna juntamente com o irmão Diogo era um indício provável de confiança no seu talento para os negócios e de alguma experiência neste campo». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

O Erotismo. Georges Bataille. «Tudo nos leva a crer que, essencialmente, o “sagrado” dos sacrifícios primitivos é o análogo ao “divino” das religiões actuais»



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«(…) Para além das possibilidades precárias, dependendo de acasos favoráveis que asseguram a posse do ser amado, a humanidade se esforçou desde as mais remotas eras para alcançar, fora desses acasos, a continuidade que a liberta. O problema surgiu diante da morte, que precipita aparentemente o ser descontínuo na continuidade do ser. Esta maneira de ver não se impõe desde o princípio ao espírito, entretanto a morte, sendo a destruição de um ser descontínuo, não afecta em nada a continuidade do ser, que existe, geralmente, fora de nós. Eu não esqueço que, no desejo de imortalidade, o que entra em jogo é a preocupação de assegurar a sobrevivência na descontinuidade, a sobrevivência do ser pessoal, mas eu deixo a questão de lado. Insisto no facto de que, a continuidade do ser estando na origem dos seres, não é atingida pela morte, é independente dela, e mesmo até manifestada por ela. Este pensamento me parece ser a base da interpretação do sacrifício religioso, que pode ser comparado, como eu disse há pouco, à acção erótica. Esta, dissolvendo os seres que nela se engajam, lhes revela a continuidade, lembrando o desenrolar das águas tumultuosas. No sacrifício, não há somente desnudamento, há imolação da vítima (ou se o objecto do sacrifício não for um ser vivo, há, de alguma maneira, destruição desse objecto). A vítima morre, enquanto os assistentes participam de um elemento que revela a sua morte. Este elemento é o que se pode chamar, com os historiadores das religiões, de sagrado. O sagrado é justamente a continuidade do ser revelada àqueles que fixam a sua atenção, num rito solene, na morte de um ser descontínuo. Há, devido à morte violenta, ruptura da descontinuidade de um ser: o que subsiste e que, no silêncio que cai, os espíritos ansiosos sentem é a continuidade do ser, a que a vítima é devolvida. Só um sacrifício espectacular, operado em condições que determinam o carácter sério e colectivo da religião, é susceptível de revelar o que de hábito escapa à atenção. Não poderíamos, por outro lado, imaginar o que aparece no mais secreto do ser dos assistentes se não pudéssemos nos referir às experiências religiosas que fizemos pessoalmente, mesmo que sejam as de nossa infância. Tudo nos leva a crer que, essencialmente, o sagrado dos sacrifícios primitivos é o análogo ao divino das religiões actuais. Disse há pouco que falarei do erotismo sagrado; eu me teria feito compreender melhor se tivesse falado desde o começo de erotismo divino. O amor de Deus é uma ideia mais familiar, menos desconcertante que o amor de um elemento sagrado. Não o fiz, repito, porque o erotismo, cujo objecto se situa para além do real imediato, está longe de ser redutível ao amor de Deus. Preferiria ser pouco inteligível a ser inexacto. Essencialmente, o divino é idêntico ao sagrado, restrição feita à descontinuidade relativa da pessoa de Deus. Deus é um ser compósito, tendo no plano da afectividade, mesmo de uma maneira fundamental, a continuidade do ser de que estou falando. A representação de Deus não está menos ligada, tanto pela teologia bíblica quanto pela teologia racional, a um ser pessoal, a um criador distinto da totalidade daquilo que é. Da continuidade do ser, limito-me a dizer que ela não é, do meu ponto de vista, conhecível mas a sua experiência nos é dada sempre, em parte, sob formas aleatórias, contestáveis. A experiência negativa só serve, a meu ver, para chamar a atenção, mas é uma experiência rica. Nunca devemos esquecer que a teologia positiva se desdobra numa teologia negativa, fundada na experiência mística.
Se bem que sejam coisas bem diferentes, a experiência mística é dada, parece-me, a partir da experiência universal que é o sacrifício religioso. Ela introduz, no mundo que é dominado pelo pensamento ligado à experiência dos objetos (e ao conhecimento do que desenvolve em nós a experiência dos objectos), um elemento que não ocupa um lugar nas construções desse pensamento intelectual, a não ser negativamente, como uma determinação de seus limites. Com efeito, o que a experiência mística revela é uma ausência de objecto. O objecto se identifica com a descontinuidade, e a experiência mística, na medida em que temos em nós a força de operar uma ruptura de nossa descontinuidade, introduz em nós o sentimento da continuidade. Ela o introduz por outros meios sem ser o do erotismo dos corpos ou dos corações. Mais exactamente, ela se priva de meios que não dependem da vontade. A experiência erótica ligada ao real é uma espera do aleatório, é a espera de um ser dado e das circunstâncias favoráveis. O erotismo sagrado, dado na experiência mística, quer somente que nada perturbe o indivíduo». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972 608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT