domingo, 17 de fevereiro de 2019

O Espião de João II de Portugal. Deana Barroqueiro. «Fizera-se um silêncio pesado de ameaças, apenas ferido pelo choro das moças, no horror de se verem disputadas como peças de um saque»

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O corsário de Malabatr
«(…) Como se chama a estriga? Brisa da Madrugada - responde, com um suspiro, afastando-se com ela sob um coro de gargalhadas. Capitão, e as outras mulheres?, quer saber o lugar-tenente, quando o riso sossega. Se calhar, também têm jóias escondidas... Elas entregaram os cofres e as bolsas, diz Timoja com secura. O que fizeste aos outros serviu de lição. Queremos ver o que escondem! As mulheres são nossas. Temos esse direito! Tirem-lhes os véus! Dispam-lhes os panos!, bradam muitas vozes. Sim! Sim! Queremos vê-las! Pêro pressente a inquietação de Timoja ao ouvir o clamor dos piratas e compreende que o capitão procurara, com o entremez (de cariz cómico) da matrona e os castigos de alguns mercadores, satisfazer os instintos dos seus homens e gastar-lhes a fúria sem grandes custos em vidas, mas os corsários ainda não estão fartos.
Senhoras, estais a ouvi-los?, diz Timoja, dirigindo-se às seis mulheres. Tirai o vosso roubend e soltai o hyader, se não quereis que vo-los tirem à força. Por entre protestos indignados dos prisioneiros, que os piratas contêm a custo com pancadas e ameaçando-os com as armas, as seis mulheres soltam os mantos e retiram os véus, baixando as cabeças para ocultar a vergonha. Duas moças persas e uma árabe no melhor da sua juventude e beleza são um espectáculo capaz de tocar qualquer coração, mesmo os acostumados a bater mais ao som de guerra que de amor. Brilhantes como azeviche, as cabeleiras soltam-se dos barretes de tela de ouro que sustêm o véu e envolvem-nas como um manto de seda, emoldurando os rostos muito brancos das persas e moreno da árabe, onde se rasgam os mesmos olhos negros de um veludo de Meca. As outras três mulheres, de idade madura e honesta condição, são decerto mães ou governantas das donzelas, como o indicam os cuidados com que as rodeiam e os olhares de escândalo e ódio lançados aos corsários.
Como são belas!, murmura Schaban, contorcendo as cordas dos pulsos. Malditos sejam! Que lhes vão fazer? Não sei! Podem querer vendê-las ou ficar com elas. Não sei! Como posso ajudá-las, assim atado de pés e mãos? Não desesperes, que enquanto há vida há esperança, acode Pêro, voltando a sua atenção para Timoja e as prisioneiras. Quereis o adorno do nariz da minha Nurunnihar?, inquire com altivez a dama persa. Tomai-o e deixai a donzela cobrir o rosto, se tendes alguma honra em vossos corações. As duas moças levam a mão à argola de ouro muito bem lavrada, presa à asa do nariz, mas Timoja faz-lhes sinal para a deixar no lugar. Cobri-vos, ordena-lhes e, apesar dos protestos dos seus homens, as mulheres velam os rostos das donzelas e escondem a formosura dos seus corpos no sudário dos mantos.
As mulheres são parte do saque, meu capitão, desafia o piloto corsário. Quatro são velhas e as três moças não chegam para todos. Pensais em vendê-las? O melhor quinhão para os mais bravos, protesta o homem de tronco nu, coberto de escaras, avançando para o grupo. Tenho primazia na escolha... Eu fui o primeiro na abordagem, grita um tomba-lobos, barrando-lhe o passo, de sabre desembainhado. Ousas disputar-me o galardão? Não sois os únicos interessados, rosna Marakkar, metendo-se entre ambos. As fêmeas devem ser sorteadas, alvitra um mocetão que aguça o punhal contra a lâmina de uma espada curta. Ou irem a leilão. Timoja que decida. Querem as donzelas para eles!, murmura Schaban. Com os ânimos assim acesos, se Timoja recusar, arrisca-se a um motim.
Fizera-se um silêncio pesado de ameaças, apenas ferido pelo choro das moças, no horror de se verem disputadas como peças de um saque. Timoja ergue a mão para falar e todos os olhos se pregam nele, os gestos tensos, à espera. Pêro admira o moço corsário pelo poder que tem sobre esta chusma, curtida no medo e na morte, que lhe obedece com uma fé cega, quando ele a conduz ao assalto de um navio ou povoação. Combatestes bem e mostrastes como no Malabar ainda há homens livres que lutam para libertar a sua nação do jugo dos usurpadores estrangeiros. Tendes direito a uma parte do saque, sendo a outra parte destinada, como sabeis, a construir mais navios e manter esquadras cada vez mais fortes para expulsar os mouros das nossas terras. Por isso, jurámos que o nosso corso seria nobre, sem mortes desnecessárias e sem violações ou ofensas a donzelas e mulheres honestas. No entanto, se persistis em querer as prisioneiras, mesmo contra minha vontade e o nosso juramento, tereis de lutar por elas, segundo as leis da nossa nação, lançando os vossos desafios a quem as deseje defender. Como vai ser?» In Deana Barroqueiro, O Espião de D. João II, na Demanda dos Segredos do Oriente e do Misterioso Reino do Preste João, Ésquilo, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-809-258-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Mateus Vilaverde tinha nascido em 1800, ali mesmo no Porto. O pai, comerciante de largo trato, soubera erigir e manter uma casa farta…»

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O Mistério da Foz
«(…) Soltou um grito agudo quando um dos rapazes lhe acertou acidentalmente uma pedrada numa perna. Ai, canalha.., ides ver, ides ver, ameaçou, de punho cerrado. Mas logo retomou a sua conversa com Vilaverde: só se for a criada... Quem? A criada do senhor Bessa. Mora ali abaixo e estava prenhe. Dizem que está de cama. Está, está, confirmou alguém do grupo de vizinhos, que, entretanto, se acercara. Então, cá pra mim foi o amásio dela que fez este lindo serviço, sentenciou Eufrásia. Vilaverde assentiu com a cabeça e concluiu, virando-se para o cabo de polícia que o acompanhava: bom, já temos uma suspeita. Interroguem a criada. Eu não tenho mais nada a fazer aqui. Fez um aceno enquanto subia para a sela e já com o cavalo em andamento atirou um rápido cumprimentos ao senhor comissário, afastando-se sem olhar para trás.
O cabo arrebitou a arma e fez uma continência desajeitada. Era um homem esquelético e idoso que parecia deslocado, quase grotesco, naquele arremedo de saudação militar. Vilaverde lamentava aquela gente tosca que, sem remuneração alguma, se prestava a patrulhar as ruas infestadas de criminosos. E lamentava ainda mais os homens velhos que, ali no Porto, eram usados para o serviço da noite. Quando o sol se punha lá iam aqueles pobres de Cristo nas suas rondas, ao ritmo do seu passo arrastado e escudados nas suas armas ferrugentas, sem fechos nem pederneiras. Às vezes eram espancados e roubados. Ser cabo de polícia era um mau negócio para o bolso e para o corpo porque as isenções oferecidas pela lei não compensavam as agruras do serviço.
Os comissários de bairro também não ganhavam nada com a função, mas desses ele não tinha qualquer pena. Eram uns completos inúteis que o chamavam por tudo e por nada, para investigar e deslindar as coisas mais óbvias e comezinhas. Infelizmente não tinha outro remédio senão comparecer à chamada. Havia dois anos que estava, por ordem superior, em missão especial ao serviço da Polícia do Porto, subordinado ao Juiz do Crime e disponível para actuar em qualquer parte da cidade e arredores, da Campanhã até à Foz e da Ribeira à Igreja da Lapa. E que trabalho duro e insano, o seu! Para além da investigação criminal, no terreno, cabia-lhe verificar os relatos que periodicamente os comissários dos bairros enviavam à autoridade superior. Estava farto daqueles papéis ensebados, escritos com má caligrafia e fórmulas repetitivas, e ainda mais farto das vidas sórdidas que eles devassavam e expunham. Já tinha a sua conta de homens esfaqueados e de mulheres espancadas ou abusadas. Ainda anteontem vira morrer nos braços do facultativo a pequena Rosa, uma menina loura e triste que vivia na Bainharia. Dizia-se que o pai abusava dela e Mateus chegara a apertar com o homem e a interrogar os vizinhos.
Mas todos negaram e as suspeitas adormeceram até ao momento em que o chamaram de urgência, juntamente com o médico. Rosinha desfazia-se em sangue, pois o pai dera-lhe uma mezinha qualquer para afazer desmanchar. Uma mulher da vida chamou-o de uma porta com ditos e provocações: tenho aqui uma coisa para ti, lindinho. Olha qu’isto é melhor que seda... Ele ignorou-a e pôs o cavalo a trote, afastando-se dali. Não gostava da Rua de Santa Catarina. Mesmo nos dias luminosos aquelas casas cinzentas entremeadas de granito, nos sítios onde ainda não se edificara, tinham um ar lúgubre, demasiado pesado e escuro para quem queria começar bem o dia. Aquela rua era triste e ele estava cansado de tristezas, saturado da miséria humana com que quotidianamente lidava ali no lodo da sociedade. E, em bom rigor, nada daquilo lhe competia. Apesar do pomposo título de inspector, e de lhe terem permitido manter a farda, o cavalo e um impedido às ordens, a sua era uma missão menor e menorizante, um castigo encapotado a que a sua vida o levara e continuava a levar.

Mateus Vilaverde tinha nascido em 1800, ali mesmo no Porto. O pai, comerciante de largo trato, soubera erigir e manter uma casa farta, acolhedora, confortável, e foi num ambiente próspero e carinhoso que ele viveu até aos nove anos de idade. De súbito, sem pré-aviso, todo o mundo feliz e despreocupado da sua infância ruiu como um castelo de cartas quando as tropas de Soult invadiram a cidade e os seus pais e irmãos se perderam no desastre da ponte das Barcas. Acolhido em Trancoso por um tio materno, coronel de milícias, passou os anos seguintes a dissipar o pungente luto no ar áspero das serranias e a fazer-se homem, sob a enérgica orientação daquele parente de grande coração e imponentes bigodes marciais. Aos dezasseis anos foi para Lisboa assentar praça como cadete no Regimento de Cavalaria 1, aquartelado em Alcântara. O tio encorajou-o a dar esse passo e ele deu-o sem saber exactamente porquê. Talvez para se livrar de Trancoso, que era, podia jurá-lo, uma das mais tristes vilas de Portugal. Ou então, para agradar ao tio para quem os valores militares se sobrepunham a quaisquer outros. Ou, se calhar, para exorcizar, na atmosfera dos quartéis, o desastre de guerra que marcara tão cruelmente a sua vida. Não sabia». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Eufrásia, que chegava ávida de atenção, estacou como se tivesse embatido numa parede. Mas depressa se recompôs, varreu a decepção do rosto…»

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O Mistério da Foz
«(…) O inspector Vilaverde conduziu o cavalo, a passo, pela Rua de Santa Catarina e quando chegou à casa vinte e oito desmontou, sem pressas. Juntara-se ali uma pequena multidão atraída pela desgraça e ele ordenou ao cabo de polícia que dispersasse a gente que rodeava o cadáver. Era um recém-nascido, parecia de tempo e a sua carinha inocente e engelhada, estava aterradoramente lívida. O inspector pôs-se de cócoras e esteve alguns segundos a observar o solo, como um camponês que meditasse sobre as duras incertezas dos seus torrões. Depois, pegou com cuidado naquele corpo pouco maior do que a sua mão e com um dedo indicador ergueu-lhe o queixinho, vencendo a rigidez da nuca. Havia uma marca avermelhada em redor do pescoço que sugeria um estrangulamento. Aquela pobre alminha nascera viva e fora assassinada aos primeiros respiros. E, pior ainda, as várias equimoses indicavam que tinha sido batida ou, pelo menos, atirada violentamente para aquele pátio.
Mateus Vilaverde ergueu-se devagar com um esgar de repulsa na cara. Era um homem relativamente magro, de corpo flexível e bastante mais alto do que os circundantes, e talvez por isso parecesse que não mais parava de se erguer. O cabelo, curto e negro, reforçava-lhe o ar descrente e a tristeza atormentada no olhar. Usava o uniforme de tenente da Guarda Real de Polícia, casaca azul, calça branca e bota alta, que complementava com um chapéu claro, de aba larga. Uma faixa de algodão, de um vermelho pálido, já desbotado, cingia-lhe a cintura e, sobre ela, um cinto de cabedal de onde pendia uma pistola. Acendeu um cigarro, que arrumou displicentemente a um canto da boca, e esteve alguns segundos de pálpebras fechadas, virado para o sol da manhã. Gostava de ficar assim com o fumo a subir-lhe pela cara e a causticar-lhe a pele, enquanto deixava que a luz avermelhada lhe atravessasse as pálpebras e viesse aquecer-lhe as ideias. Não precisava de ver mais nada para imaginar o que ali se passara. Daí para a frente seria apenas o desfiar das perguntas de rotina: sabes quem fez isto?, perguntou, descerrando os olhos e virando-se para o dono da casa.
O homem fitou-o com ar assustado. Era uma criatura baixa e soprada, de barriga rotunda, barba por fazer e aspecto muito sujo. Abriu os braços num misto de impotência e de ignorância, e respondeu: não, senhor. Eu cá não sei, meu senhor. Pensa bem... Não viste gente por aqui? Não ouviste barulhos? O homem encolheu os ombros e oscilou a cabeça de um lado para o outro, como se negasse, mas confidenciou que ouvira qualquer coisa no quintal, um baque, um ruído, uma restolhada, mas não ligara. Só há pouco é que vimos o santinho aqui no chão. A Eufrásia estava à minha beira, disse, indicando a mulher. Eufrásia era uma figura volumosa, de gestos largos, carrapito oleoso e bigodeira negra, quase masculina. Contava as coisas com grande minúcia, como se tivesse presenciado tudo, passo a passo, e de tempos a tempos lançava as mãos à cabeça e atroava os ares com lamúrias e gritos exaltados. Junto a ela, em semicírculo, um grupo numeroso de vizinhos inteirava-se da ocorrência. Alguns escutavam a mulher com a indiferença de quem já se habituara aos dramas do quotidiano. Outros, sorviam-lhe as palavras, indignavam-se com o que ouviam, davam opiniões. Mais afastado, um bando de rapazes ria e atirava pedras aos gatos, alheio às preocupações dos adultos.
Eufrásia chega-te aqui, mulher. Ora conta tu, ordenou-lhe o marido. Obedecendo ao chamamento, ela virou costas aos vizinhos e dirigiu-se ao inspector numa corridinha pesadona. Trazia um brilho voraz no olhar e vinha pronta a recomeçar a sua narrativa desde o princípio. Mas Vilaverde não precisava de uma nova versão daquele triste acontecimento e, para atalhar caminho, perguntou-lhe directamente, enquanto apagava o cigarro: vossemecê sabe quem foi? Eufrásia, que chegava ávida de atenção, estacou como se tivesse embatido numa parede. Mas depressa se recompôs, varreu a decepção do rosto e limpando as mãos ao avental, negou, com toda a veemência da sua voz esganiçada: eu não, Jesus, credo! Se eu soubesse quem era matava-a. Eu desgraçava-me, mas matava-a com estas mãos, prometeu, mostrando as mãos vermelhas e rudes, de dedos sapudos, muito abertos. Fazer isto ao santinho... Ai, valha-me Deus, Virgem Santa... Aqui na rua não há gente dessa, não senhor!» In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «… finalmente, exclamou triunfante: são oitenta e quatro libras e vinte e sete soldos! É este o valor que tendes de pagar à chancelaria…»

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«(…) O cardeal Sadoleto sorriu de escárnio, fez uma curta pausa, meneou a cabeça várias vezes e questionou-o sobre o sentido exacto daquela frase. Foi isso mesmo, monsenhor, estive com ela sim, mas por pouco tempo. Mas introduzistes o membro erecto no corpo dela, não foi? Foi, respondeu, quase a chorar. Até vos satisfazerdes... Sim, confessou ainda, num tom sussurrado, após demorados instantes. O velho cardeal levantou-se da cadeira, benzeu-se, Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, rodopiou sobre si mesmo com os olhos virados ao Céu, e de seguida, com o dedo apontado na direcção de Petrini, que entretanto se ajoelhara a seus pés, de mãos postas, proclamou: pecastes, meu filho, pecastes! Pequei sim, monsenhor, e por isso estou aqui a rogar a salvação da minha alma. E tendes dinheiro? Tenho, respondeu ele de imediato, já com a voz mais firme. Sem mais palavras, o confessor voltou-se para o confesso, fez-lhe um gesto com a mão anelada para que se mantivesse de joelhos e, sempre em silêncio, saiu da sala. Mas não demorou. Trago aqui a tarifa da chancelaria apostólica da nossa cúria, proclamou o cardeal secretário, elevando ao alto, e antes de regressar à cadeira, três folhas de pergaminho que fora buscar à antecâmara do Papa. É a lista com a venda de indulgências concebida pelo Santo Padre e aprovada pelo consistório. Abanando várias vezes a cabeça, Petrini foi concordando. Como sabeis, a lista ainda não entrou oficialmente em vigor e, quando entrar, competirá ao bondoso monge dominicano Johannes Tietzel fazer uso dela, pô-la em prática...
Eu sei, garantiu o outro. Pois bem, meu filho, dado que os delitos que cometestes são muitos e muito graves, deveis desde já dar o exemplo, comprando à chancelaria o perdão pelos vossos crimes. E quanto me custa isso? O clérigo confessor olhou em silêncio para a lista, acompanhou a leitura com a ponta de um dedo até se deter no artigo correspondente a um dos pecados cometidos por Petrini. E então leu em voz alta:

Todo o eclesiástico que incorrer em pecado carnal, quer seja com freiras, com primas, sobrinhas ou afilhadas, ou enfim com qualquer outra mulher, será absolvido mediante o preço de sessenta e sete libras e doze soldos.

Aqui tendes o primeiro!, proclamou Sadoleto, antes de continuar a pesquisa, sempre sorridente. E aqui está o outro, quase gritou, de tanto entusiasmo.

Pelo assassinato de um irmão, de uma irmã, do pai ou da mãe o praticante pagará dezassete libras e quinze soldos.

De seguida, o confessor semicerrou os olhos, fixou-os no tecto do aposento em estado de pura abstracção, fez as contas de cabeça, enganou-se várias vezes e, finalmente, exclamou triunfante: são oitenta e quatro libras e vinte e sete soldos! É este o valor que tendes de pagar à chancelaria apostólica de Sua Santidade. Sim, monsenhor, concordou o bispo, levando de imediato a mão à bolsa escondida sob as suas vestes. Uma vez liquidada a dívida, que resgatou o eclesiasta dos pecados cometidos, Francesco soergueu-se, esfregou os joelhos para os aliviar da dor, abraçou emocionado o velho cardeal, deu-lhe um beijo na face e prometeu, num tom de voz esforçadamente perturbado, que jamais voltaria a ofender a Deus ou a desprezar os mandamentos da Santa Madre Igreja. E juntos, enfim, como dois irmãos do pecado à descoberta dos caminhos da redenção, oraram em coro um Pater noster.
Agora ide em sossego, meu filho. Ide na santa paz de Deus, já limpo de espírito e das impurezas demoníacas. Que o Senhor vos ilumine, pois. Aménela de Sant’Angelo a ler as Escrituras e a rezar a Deus, e quando não lia nem rezava deslocava-se às vielas imundas e fétidas da cidade ao encont, respondeu o outro. E benzeu-se. No mês que se seguiu, Francesco Petrini revelou-se um bispo exemplar, um eclesiasta devotado apenas à Igreja, ao Altíssimo e ao Papa. Passava horas numa capro dos pobres e dos mendigos para os confortar ou lhes fornecer alimentos. A tamanho fervor a Deus Pai Todo-Poderoso e a tanta devoção aos outros, sobretudo aos mais desfavorecidos, ninguém ficava indiferente». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
Cortesia de OdoLivroE/JDACT

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Não a violastes? Quereis dizer que o vosso pai vos acusou de um crime que não cometestes?, prosseguiu Sadoleto, antes de lhe transmitir um avisado conselho…»

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«(…) Desejava que nada faltasse aos visitantes, que fossem atendidos com alardo, glória e emoção; mas também queria que os organizadores do préstito soubessem gerir os respectivos gastos com parcimónia, alguma inteligência e muita imaginação. Chegada pois a hora, não esqueceu o conselho que lhe fora dado anos antes pelo pai quando, ainda muito jovem, subiu ao cardinalato: gasta mais dinheiro na manutenção de um estábulo bem montado e criados de classe superior do que em pompa e circunstância. Ora, talvez por isso, no dia catorze de Fevereiro, durante uma reunião do consistório, constituído por vinte e cinco cardeais, alguns muito jovens, o chefe da cristandade foi claro nos seus objectivos:

Cabe-nos receber a comitiva do bondoso Manuel, piíssimo rei de Portugal, com o testemunho da nossa infinita gratidão, a nossa fé em Cristo e em Deus Pai Todo-Poderoso, mas devemos ser contidos nas despesas do programa. As libras estão muito caras e a cúria precisa delas.

Nesse conclave, destinado praticamente à discussão dos principais aspectos relativos aos festejos, o Papa decidiu nomear um bispo de sua confiança, Francesco Petrini, para dirigir o grupo, entretanto já formado, de acompanhamento da realização das cerimónias protocolares, nas suas vertentes religiosa e profana. Francesco Petrini, de vinte e nove anos, era reconhecido como um dos clérigos mais espertos e crentes do governo da Santa Sé; mas era igualmente tido como um dos maiores pecadores daquele conselho de ministros do culto. Além de libertino, corrupto, e malfeitor, o bispo era ainda assassino. Dois meses antes de o Papa o escolher para orientar o grupo de trabalho, que incluía mais de duas dezenas de romanos e cinco portugueses, Petrini matou o pai a golpes de machado só por ele o ter visto a espancar e a roubar um comerciante do bairro onde morava, depois de lhe violar a filha. O assassínio causou na altura um enorme alvoroço entre a vizinhança e o autor, temendo o castigo de Deus, ou, pior ainda, qualquer acto de vindicta por parte de familiares das vítimas, correu à pressa a refugiar-se no castelo de Sant’Angelo, para aí, a coberto do poder imune dos hábitos talares, pedir o perdão ao Sumo Pontífice por interposto eclesiástico da cúria romana.
Que fizestes, meu filho!?, perguntou-lhe o cardeal Sadoleto, um dos mais fiéis secretários do Papa, depois de Petrini falar da perseguição a que estava sujeito por parte dos moradores do bairro. Matei sem querer o meu extremoso pai por me ter acusado injustamente, à frente de populares, de violar a filha de um comerciante, amigo dele. Sentado na poltrona do aposento, desconfortável e frio, o cardeal Sadoleto ia rodando com a ponta dos dedos o anel de sinete da mão direita, ao mesmo tempo que ouvia com aparente atenção os queixumes de Petrini. E foi só isso, meu filho?, voltou a perguntar o outro, com um sorriso cínico no rosto. Matastes o vosso pai sem querer, apenas por ele ter visto e criticado o cometimento de um grave pecado que, bem sabeis, merece o castigo do Altíssimo?
Também me acusou, e de igual maneira sem motivo, de roubar o comerciante, acrescentou o confesso, com os olhos presos ao chão. Oh, Santo Deus!, exclamou o cardeal Sadoleto. Fez o sinal da cruz sobre o rosto, com a cabeça curvada rezou em silêncio uma avé-maria, e só então voltou a fazer outra pergunta. Que quereis agora, meu filho? O perdão de Deus e a absolvição de Sua Santidade, monsenhor, respondeu sem pestanejar o jovem bispo. Salodeto colocou a mão direita no peito, sobre o coração, e sempre com a voz calma e pausada continuou interrogativo: matastes o vosso pai, espancastes e roubastes o comerciante, violastes-lhe a filha e ainda assim vos quereis livrar desses pecados de inspiração demoníaca? Não violei a mulher, defendeu-se o bispo atabalhoadamente, alarmado com tantas acusações.
Não a violastes? Quereis dizer que o vosso pai vos acusou de um crime que não cometestes?, prosseguiu Sadoleto, antes de lhe transmitir um avisado conselho: peço que não vos esqueçais de que o perjúrio é também um delito grave e condenável, que ofende a Deus Nosso Senhor e à Santa Madre Igreja. Nesse momento Francesco Petrini voltou a baixar os olhos, tentou a custo emocionar-se e, em tom sumido, concedeu: sim. Estive com a mulher. E então? Foi só por pouco tempo, desculpou-se». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
Cortesia de OdoLivroE/JDACT

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Filho de Lorenzo de Medici, o Magnífico, Giovanni di Lorenzo de Medici recebeu a tonsura aos sete anos, e aos oito foi transformado em abade de Font Douce, em França. Aos nove alcançou a abadia de Passigano…»

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«(…) Ao mesmo tempo que decorriam em Lisboa os preparativos para a largada das naus com os presentes destinados ao Sumo Pontífice, procedia-se em Roma aos trabalhos de recepção à comitiva do rei de Portugal. Segundo ordem do Papa, nenhum cardeal do consistório, nenhum bispo do governo da Santa Sé, sequer o mais desprezível sacerdote da cúria romana, estava autorizado a permanecer à margem da preparação da festa de acolhimento à embaixada portuguesa. Para o chefe da cristandade, todos tinham o dever e a obrigação de trabalhar na causa e, chegada a hora, de receber os portugueses com a dignidade devida a quem, ido de longa distância, se propunha contribuir para a expansão territorial da Igreja e o reforço da sua extraordinária fortuna e o da respectiva família. E ameaçou com severa punição pelo cometimento de pecado de ofensa, a si e a Deus, todo aquele que incorresse no delito de desobediência.
Embora nunca se houvessem visto ou contactado, a verdade é que Leão X sabia como poucos que Manuel I, tal como ele próprio, tinha tanta devoção à Igreja e ao Altíssimo, quanto amor ao poder e à luxúria. Para ambos, a fartura e os prazeres da vida sobrepunham-se em qualquer circunstância às exigências do ascético rigor moral, divino e humano. E se, de igual modo o monarca português estava convencido de que viera ao mundo para servir a Deus, e por vontade de Deus governar um reino, também o Sumo Pontífice de Roma não duvidava da intervenção do Espírito Santo na escolha da sua pessoa para assistir a Igreja e dela se prover. Aliás, não terá sido por acaso que o homem, logo após ter ocupado a cátedra de S. Pedro e recebido do consistório a poderosa tiara, anunciou ao mundo cristão o lema que lhe serviria de base à sua vida de pastor de almas: uma vez que Deus nos confiou o pontificado, vamos aproveitá-lo!
A frase, proferida sob o sintoma de incontrolável estado de ebriedade mental, chocou profundamente os que naquela altura, embora poucos mas corajosos, como Erasmo ou Lutero, consideravam a cúria de Roma uma repulsiva estrumeira sobre a qual se alimentavam e se governavam bispos e cardeais simoníacos, sacerdotes arruaceiros, sacerdotes rapaces, sacerdotes homossexuais, sacerdotes corruptos, todos eles promotores da ofensa; todos eles fomentadores do vício e da intriga. Críticos, acríticos e partidários perceberam também e de imediato, como sinais divinos na clareza dos céus, que o Papa recém-eleito iria empenhar-se mais no auxílio ao esplendor obsceno da Igreja e ao abono da sua enorme fortuna do que desviar a Igreja da desordem dos séculos ou fornecer aos fiéis um novo e purificador alimento espiritual, em ordem a evitar o desencanto e o tresmalho de muitas ovelhas do rebanho.
Filho de Lorenzo de Medici, o Magnífico, Giovanni di Lorenzo de Medici recebeu a tonsura aos sete anos, e aos oito foi transformado em abade de Font Douce, em França. Aos nove alcançou a abadia de Passigano; aos onze entregaram-lhe a lendária abadia de Monte Cassino; aos catorze, em segredo, foi elevado à condição de bispo, pelo Papa Inocêncio VIII. Além de tantos e tão sagrados benefícios que lhe couberam em sorte, Giovanni soube ainda colher da sua família o gosto pelo fausto. Foi de resto pelo dinheiro que os Medici ascenderam ao mais alto patamar da nobreza florentina; foi pela condição económica que se sentaram algumas das suas mulheres em tronos reais; foi enfim pela riqueza que instalaram na cátedra pontifícia, a nove de Março de mil quinhentos e treze, o jovem Giovanni Medici, com apenas trinta e sete anos de idade...
Por tudo isto não constituiu espanto que o Sumo Sacerdote começasse por anunciar a intenção, embora implícita, de sobrepor o seu interesse material e o do grémio da cristandade ao valor da fé, da exaltação da glória a Cristo e de honra a Deus. E por tudo isto também não causou surpresa que tivesse exigido à cúria romana, a todos quantos dela faziam parte, a entrega sem limites ao acolhimento da comitiva portuguesa. Leão X podia desconhecer o que Manuel I lhe ia enviar pelos seus representantes; mas não lhe restavam dúvidas de que a monta dos presentes do monarca português ultrapassaria, e muito, o das ofertas que os reis da Europa costumavam mandar-lhe por intermédio de comitivas menores e de embaixadores medíocres. Sabendo pois da generosidade do ocupante do trono de Lisboa e da intenção de esse soberano em assombrar a Igreja, em particular, e a Europa, em geral, com o ofertamento de bens raros e preciosos, como se os tivesse em excesso ou não fizessem falta ao reino de Portugal, Leão X tomou-se de cuidados e, com a soberba frialdade que o caracterizava, deu instruções ao clero para que se unisse e preparasse uma recepção aos estrangeiros jamais vista na Cidade Santa». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
Cortesia de OdoLivroE/JDACT

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Ao dito duque meu primo, encomendo e rogo que honre e trate bem a Excelente Senhora minha prima, e que sempre a tenha bem e honradamente como pertence a pessoa que é, e que foi»

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«(…) A poucos dias de morrer, quando o rei João II, já totalmente debilitado, chamou aos aposentos Aires Silva e Antão Faria, dois fiéis servidores, e o moço de escrivaninha, Garcia Resende, para lhes ditar o testamento, a rainha, apercebendo-se da situação, pediu a outro amigo, também ele seu indefectível apoiante, frei João Póvoa, que se introduzisse na antecâmara e tentasse perceber se o moribundo cumpria a promessa de nomear o cunhado duque Manuel seu sucessor, conforme lhe jurara dias antes, ou se alguém por ele codificava o documento. Honrando, porém, a palavra, destroçado pela chantagem da mulher e convencido da teoria de uns tantos conselheiros, segundo a qual Jorge era novo demais para se defender dos poderosos inimigos que o próprio rei, enquanto homem saudável, só pôde vencer com o recurso aos mais violentos processos, João II pediu enfim para lhe escreverem as disposições testamentárias que, muito a custo e com enorme sofrimento físicos e emocional, ele menos desejava:

Conhecendo eu como a serviço de Deus e ao bem destes meus reinos e senhorios, cumpre, se eu falecer da vida deste mundo antes de passar um ano da feitura deste testamento, que o duque Manuel, meu muito amado e prezado primo e cunhado, os haja e possua. Não tendo eu filho ou filha legítimos e, portanto, de meu moto próprio certa ciência de livre vontade, ao dito duque meu primo e cunhado deixo todos os reinos e senhorios de que Deus me fez Rei e Senhor. Com a bênção Dele, a minha e de todos os nossos avós, encomendo-lhe a justiça e o bom regimento deles.

Assim estava feita a vontade a dona Leonor; assim chegava Manuel ao cobiçado trono.
Mas apesar de vencido pelas circunstâncias, João II não deixou de acrescentar ao testamento uma série de cláusulas que de algum modo lhe atenuavam os sentimentos de culpa por não ter sido capaz de se impor à mulher nos derradeiros momentos da sua vida. Nesse sentido, doava a Jorge o ducado de Coimbra que pertencera ao avô, infante Pedro, e rogava ao futuro rei que cedesse ao jovem o mestrado da Ordem de Cristo, de modo a acrescentá-lo aos de Sant’Iago e de Aviz de que era detentor há muito tempo. Além disso, pedia a Manuel, mui amado e prezado primo e cunhado, que adoptasse Jorge e o nomeasse herdeiro do trono, no caso de Deus não lhe consentir filhos legítimos. E mais: se em vez de filhos o Altíssimo entendesse dar-lhe apenas filhas, que uma delas casasse com Jorge.
Quanto aos traidores do reino que tinham fugido de Portugal e se haviam homiziado no estrangeiro, recomendava que os mantivesse proscritos, bem como os seus familiares directos. Finalmente, apelava à benevolência de Manuel para com a desventurada princesa dona Joana, antiga noiva de Afonso V, efémera rainha de Portugal, antiga regente do reino, tutora de Jorge, e, naquela altura, já dada ao hábito por amor a Deus no mosteiro de Jesus de Aveiro. Este fora, aliás, o último pedido de João II passado a testamento:

Ao dito duque meu primo, encomendo e rogo que honre e trate bem a Excelente Senhora minha prima, e que sempre a tenha bem e honradamente como pertence a pessoa que é, e que foi.

Dias mais tarde, a vinte e cinco de Outubro de mil quatrocentos e noventa e cinco, o rei João II, assistido pelo bispo de Lisboa, Diogo Ortiz Vilhegas, morria em Alvor, para onde fora conduzido uma semana antes em estado de profunda debilidade física. Tinha quarenta anos». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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As Luzes de Leonor. Maria Teresa Horta. «Mariana Bernarda!, chamam-me. E eu sobressalto-me, enquanto elas continuam: aproximam-se tempos sem misericórdia…»

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«(…) Desde sempre as mulheres da família dos Távora foram dadas a pressentimentos, a anjos e a cintilações, a negrumes e visões, a premonições, a adivinhamentos e sonhos; dom maligno que, ao longo dos anos tendo trato com as profecias, vêem sem rebuço entretecer a realidade em que vivem com o lado sombrio do seu mundo interior: o quotidiano que habitam, o futuro que intuem, adivinham, antecipando caladas mais as desgraças e os desgostos do que os aprazimentos e as alegrias. A verdade, aceite por quem as rodeia e de certo modo as teme, é terem conhecimento das raízes de tudo o que nasce e brota das tempestades a montante do nada, daquilo que acontece antes de ter acontecido, evitando todavia passar essa premonição aos outros, neles não desejando acrescentar o receio e a angústia que eternamente cai sobre quem prevê a queda, a morte, a vertigem. Franja de espuma nocturna, obstinada na tentativa de invadir a mente e o coração dos que pressagiam os estigmas da alma, os espinhos do cardo, as silvas da torpeza, o ocaso que a febre levanta nos abismos do peito, as garras do mal gerado por Satanás na sua ronda em torno das mortes e dos partos, no uso de manhas e artes, feitiços e artifícios; insidiosa tentativa de nos convocar, de nos rodear, de nos fascinar, até nos afastar por completo da brancura e da maior pureza, dos caminhos do bem.
Eu, Mariana Bernarda Lorena, condessa de Atouguia e filha dos marqueses de Távora, jamais soube separar a visitação dos arcanjos da aparição dos negrumes, nem destrinçar a plenitude onde reside o adormentado gosto do mel, do êxtase onde explode o acre sabor a fel e a salitre, salobre e amaro. Travo que guardo na boca desde o terramoto, numa premonição de desgraça vil que de mim não se afasta em momento algum, a tornar pesados e sem remédio os lentos dias arrastados das matinas às completas, de sol a sol rastejando a demorar-se pelos hortos, pelos vinhedos, pelos cemitérios, de rojo pelas sombrias matas onde vigiam as víboras. Pressentimentos de enredos maléficos que ultimamente não cessam um único segundo, apesar de eu tentar com empenhamento aliviar-me com missas e orações, rezas e terços, leitura de livros místicos, cabeceando de sono madrugada adentro, na vã tentativa de defender os meus e a mim própria naquilo que posso, e nesse sentido usando promessas e velas acesas às santas mais poderosas, exercícios de S. Ignácio, mandrágoras e incenso, água benta e Rosa Divina, esmolas e castigos do corpo, cilícios atados nas carnes macias da cintura. Pobre tentativa de silenciar as vozes que de noite me falam baixo ao ouvido. Mariana Bernarda!, chamam-me. E eu sobressalto-me, enquanto elas continuam: aproximam-se tempos sem misericórdia, desprovidos de compaixão e temperança: patíbulo e morte, grilhões de degredo, ferros de tortura e prisões fétidas, passarão por ti e encontram-se contidos nos destinos dos teus mais chegados! Sem forças vou cosendo o choro escondido de quem me rodeia, e diante da senhora minha mãe não consigo deixar de mil vezes indagar agoniada: encontra-se Vossa Excelência de boa saúde? E ela, desconfiando da mesma interrogação repetida infinito, olha-me no precipício dos olhos e, dando conta da minha aflição, contrapõe a sua igual resposta em forma de pergunta: qual é o desgosto oculto ou o segredo recolhido que a minha filha tanto guarda? E eu tento rir, a contragosto, evitando a resposta sustentada pela mais deslavada mentira, e para não a atormentar, em disfarce de invenção medíocre, digo-lhe, sonsa: ora, Vossa Excelência tem coisas…, apressando-me a discorrer de seguida sobre mesquinharias da Corte ou da justa apreensão dos jesuítas pelo manifesto ódio do ministro de Estado de El-Rei pela Companhia de Jesus, à conta do qual Sebastião José afastou o padre Malagrida, confessor da minha família». In Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, Publicações dom Quixote, 2011, Prémio D. Dinis I, ISBN 978-972-204-733-3.
                                                         
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As Luzes de Leonor. Maria Teresa Horta. «Quando se aproxima devagar do fim do álbum, dá-se conta de que a madrugada fizera esmorecer a luz cada vez mais fraca da vela…»

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«(…) Mas aquele é o lugar certo para ela começar o dia que desponta, revendo desde o princípio as gravuras do livro que a custo largara ao fim da tarde da véspera. Assim, tremendo com o frio da madrugada, dirigiu-se afoita à escrivaninha que a avó Leonor Távora lhe deu no Natal e a mãe quisera encostar à parede grande, do lado direito da janela, diante da qual crescem a perder de vista as magnólias, os cedros e as tílias. Mais tarde o sol cairá nas suas copas, soltando os odores dolentes e doces a temperarem as essências ásperas, ácidas, a fazer piscar os seus olhos toldados pelas longas pestanas. Leonor prefere a fulva tonalidade da glicínia, que contamina o fundo do jardim com um rubor intenso, trepando pelo muro alto, quase a chegar ao ferro do portão que abre para a mata. Senta-se na cadeira alta e abeira-se do tampo da escrivaninha onde na véspera cuidara de dissimular o livro, debaixo de papéis e cadernos que tirara da mesa da biblioteca. Antes de o abrir afaga-lhe a capa castanha de pele macia. Lá dentro encontram-se os mapas celestes, tal como lhos mostrara o pai, debruçado sobre eles tardes inteiras na procura de respostas para as dúvidas de ambos. Folheia uma após outra as páginas preciosas, detendo-se nas gravuras que conhece de cor, na esperança de descobrir nelas um pormenor diferente, na esfera armilar ou no astrolábio de que tanto gosta de repetir o nome, no desenho onde se vê o sol ao centro com planetas girando à sua volta. No cimo de muitos dos desenhos estão figuras de anjos num curto voo parado, dando a ver a toda a largura dos seus braços abertos faixas com frases escritas em latim. Em baixo, pensativa, encontra-se a deusa da sabedoria, com a lira, os livros, enquanto marca equívoca da passagem dos séculos.
Quando se aproxima devagar do fim do álbum, dá-se conta de que a madrugada fizera esmorecer a luz cada vez mais fraca da vela, não sabendo há quanto tempo a distracção a impede de ouvir os ruídos da casa que desperta: os sons abafados vindos do sótão onde fica a ala dos criados, a água que corre do jarro para uma bacia de louça, um objecto caindo no desamparo do chão, o chiar áspero de gonzos a amordaçar o cochicho das vozes à mistura com os frouxos de riso mal contidos pela palma das mãos gretadas, logo seguido de um demorado arrastar de pés descalços, pesados de sono. Escuta depois o estalar dos degraus que levam à cozinha, de onde não tardará a subir o cheiro acre do café amargo, do leite fervido e das natas, das papas de aveia e da aletria, do pão escuro aquecido em cima das brasas tiradas do borralho das cinzas. Apercebendo-se de como começa a ficar tarde, Leonor fecha a contragosto A Revolução Dos Orbes Celestes de Nicolau Copérnico, escorrega da cadeira, agarra o xaile e embrulha-se nele. Apaga em seguida o que resta do coto da vela, agarra no castiçal com a mão miúda e, silenciosa, corre de volta ao quarto onde Maria ainda dorme, enrolada nas mantas, cabeça debaixo da almofada de penas». In Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, Publicações dom Quixote, 2011, Prémio D. Dinis I, ISBN 978-972-204-733-3.
                                                         
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As Luzes de Leonor. Maria Teresa Horta. «Mas Leonor não pode ainda entender esses gestos de anseio e eternidade, instruída apenas na beleza loura e pura do Menino, que imagina estar a abençoá-la»

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«(…) Escuridade feita de rolos de pó a desprenderem-se da caliça, do estuque, do entulho e também dos fumos dos incêndios ateados pelas velas acesas que, sacudidas dos candelabros e palmatórias, tombam das mesas dos quartos interiores e das bibliotecas, dos oratórios e dos altares, a rolarem pelos soalhos de madeira velha e vulnerável de igrejas, capelas e conventos. Pelos tapetes persas e de Arraiolos dos palácios, flamejando com gosto os cortinados de veludo por onde trepam, lambendo as franjas douradas, os panos de arrás, no devorar dos quadros e das tapeçarias. Chamas num rastejar silvante, um pouco por todo o lado, com preferência pelos cetins, as sedas puras e as rendas de bilros, os livros e os damascos de revestir as paredes, demorando-se em seguida nas imagens antigas dos santos de devoção, e por fim nos móveis: multiplicando-se nos toucadores, nas escrivaninhas, nas camas, nas cómodas de ébano, nos contadores com embutidos, encarniçando-se com afinco no estilhaçar dos espelhos, das louças e dos vidros.
Aterrada, Leonor empurra a irmã para trás no instante preciso em que a terra se imobiliza mais uma vez, curtos segundos em que as duas se sentem colhidas pela cintura, braços fortes a erguê-las à altura do peito do pai, a apertá-las num abraço de susto, quase sem darem conta da voz trémula da mãe, numa mescla de reza entoada, ladainha e palavras de premonição, num imbricado de português e latim: litania que o ruído sombrio das asas e dos gritos estridentes das gaivotas aflitas quase apaga. Antes de se levantarem as rajadas de vento forte que ajudarão a incendiar Lisboa, o ar imobiliza-se numa espécie de odor turvo e pestilento, cheiro acre a enxofre e a lodo estagnado do rio, a que se mistura o gosto salgado do mar, a acidez apodrecida do suor do medo, mas igualmente do vómito, das fezes e da urina.

De manhã, Maria gosta de ficar na cama, entorpecida, amodorrada na quentura dos sonhos, magrinha e sumida no ninho dos cobertores e dos lençóis de linho fino com renda na dobra larga, que ela puxa a esconder-se, antecipando-se à ama que todos os dias abre as janelas, portadas de madeira para trás a deixar entrar o ar fresco do começo da manhã. Leonor, pelo contrário, ergue-se de madrugada pelo gosto de acordar no silêncio da casa à escuta do sono dos outros, mais livre para inventar, poder fazer o que mais lhe apetece. Levanta-se pois de manso, pés miúdos e brancos debruçados de um dos lados do leito, enquanto se espreguiça alteando o corpo franzino escondido pela camisa de cambraia bordada a ponto de cruz na gola de abotoadura, cabelo frisado, caracóis de mel caídos em desalinho nos ombros miúdos. E quando finalmente ganha coragem para enfrentar a escuridão, desliza para o soalho de lustro puxado, embrulha-se arrepiada no xaile esquecido na véspera pela mãe quando lhes fora dar a boa-noite, silhueta delgada a curvar-se à luz bruxuleante da pequena lamparina do oratório: pavio amarelado a vogar aceso e devagar no cimo do azeite, diante da imagem do Menino Jesus vestido de pano branco, faixa debruada a ouro, dois dedos da mão direita soerguidos, enquanto com a esquerda aponta o próprio coração, como quem impõe a pureza no sítio onde se demora o negrume. Mas Leonor não pode ainda entender esses gestos de anseio e eternidade, instruída apenas na beleza loura e pura do Menino, que imagina estar a abençoá-la.
É nessa tremeluzente chama do oratório de talha que acende a vela da palmatória da sua mesa-de-cabeceira, e em seguida, dominando a custo a vontade de largar numa corrida tumultuada pelo corredor cheio de sombras ameaçadoras que parecem persegui-la, segue pé ante pé e de olhos franzidos. Por cada porta que se mantém fechada suspira de alívio, a caminho do gabinete escolhido nesse ano para sua sala de estudo, onde entretanto aprendera a ler sozinha. E quando lá chega pousa no chão a palmatória, estica ambos os braços finos até conseguir agarrar o puxador de louça. Ao entrar olha em torno, desconfiada, a perscrutar os possíveis perigos, sobretudo onde a fraca chama do círio não alcança». In Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, Publicações dom Quixote, 2011, Prémio D. Dinis I, ISBN 978-972-204-733-3.

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Ainda só se passaram dois meses e já estou farta disto, desta casa, desta gente, de Pombeiro, do miserável traste que o meu estimado tio me destinou»

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«(…) Era lá, enfim, que morava João Lourenço Cunha, descendente dos fundadores, e aí passou também a morar Leonor Teles, depois do casamento. Os primeiros dias em Pombeiro foram tumultuosos para ela. Passava o tempo na câmara, estendida no leito, debaixo dos cobertores, ora chorando de infelicidade, ora rezando pela sua própria salvação. Não havia maneira de esquecer o passado, a infância, os primeiros anos da adolescência, muito menos a dolorosa viagem entre Barcelos e Pombeiro. Com um sentimento misto de horror e nojo, não conseguia esquecer igualmente o instante em que se prometeu ao marido para toda a vida, sequer o momento em que João Lourenço Cunha entrou na liteira a ajeitar grosso pénis com a mão esquerda, para depois, já sentado no banco a seu lado, colocar a mão direita nas coxas dela, cobertas, entretanto, por um manto que as resguardava do intenso frio. Fora a noite mais sofrida da sua vida; fora a mais longa e demorada viagem que até então fizera. Vinte pessoas, entre as quais se incluíam criados, pajens, um sacerdote, um curandeiro, duas amas e dois feiticeiros, além de Briolanja Mendes, acompanharam o casal nessa aventura em carroças puxadas por duas bestas ou no dorso de imponentes mulas, nalguns casos de porte quase idêntico às que aparelhavam a liteira.
Pior, no entanto, que a primeira zanga do matrimónio, foi a segunda. E ela ocorreu duas noites após o casamento, justamente quando João Lourenço se apercebeu de que a mulher já não era virgem. O morgado ficou louco de raiva e quis saber na mesma hora quem fora o homem que a desvirgindou, e quem para além do primeiro, se outros houve, se deitou com ela. Humilhada e ofendida com o que acabara de ouvir, Leonor Teles ameaçou João Lourenço de que regressaria a Barcelos no dia seguinte se ele prosseguisse nas ofensas à sua honra, à honra do seu estimado tio, à honrosa memória dos seus dignos antepassados. Mas, cobarde como era, o senhor de Pombeiro deu logo o assunto por encerrado, com um pedido de desculpas, para realizar, então, atabalhoadamente e sem demora, a função da primeira noite com a jovem dama, sua esposa.
Certa manhã, depois de João Lourenço sair para uma caçada de dois dias na região de Cantanhede, a senhora mandou chamar Briolanja Mendes aos seus aposentos para mais uma conversa e umas tantas revelações. Não sei o que fazer, desabafou, logo que a velha entrou no quarto. Ainda só se passaram dois meses e já estou farta disto, desta casa, desta gente, de Pombeiro, do miserável traste que o meu estimado tio me destinou. Tenho vontade de fugir para longe, às vezes apetece-me morrer para não enfrentar esta supliciada vida em que apenas me vou cumprindo nos espaços que competem ao ódio e desamor... Encostada à parede, de mãos cruzadas sobre o peito, Briolanja Mendes ia ouvindo os queixumes de Leonor com a costumada atenção.
Vê lá tu que, logo no primeiro dia de chegarmos aqui, me vi obrigada a dizer ao meu desalmado esposo que iria embora se ofendesse a minha honra como chegou a tentar. Já não sei porquê mas quis discutir comigo, tentou humilhar-me e, através de mim, atingir a digna memória dos meus antepassados. Eu sei, senhora. Ouviste a discussão? Foram as estrelas que mo disseram, respondeu a velha com indisfarçável cinismo. Leonor Teles percebeu que a ama lhe estava a mentir e por isso sorriu com ternura. Sem, no entanto, levar o caso a consideração, aconselhou num tom de voz baixinho, sussurrado: é tempo de começares a pensar nos filtros de amor de que um dia me falaste em Barcelos. Briolanja cerrou os olhos, benzeu-se e, quase num murmúrio, disse: estou já a pensar nisso...» In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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Poesia num dia de Fevereiro. Maria Tereza Horta. «… e que me iludem me rasgam curam e descuram me vestem de amor e de ventura»


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Intervalo
«No silêncio que guardo
Quando partes
Que escondes sob
Os dedos
Que se prende
Que me deixa no corpo
Este calor
Da falta do teu corpo como sempre»


Os Teus Olhos
«Direi verde
do verde dos teus olhos
de um rugoso mais verde
e mais sedento
Daquele não só íntimo
ou só verde
daquele mais macio
mais ave
ou vento
Direi vácuo
volume
direi vidro
Direi dos olhos verdes
os teus olhos
e do verde dos teus olhos vício
Voragem mais veloz
mais verde
ou vinco
voragem mais crespada
ou precipício»


As Tuas Mãos
«As tuas mãos
compridas e serenas
de pele esticada sobre os dedos
as tuas mãos macias
como vales
que prendem me prendem e desprendem
as tuas mãos
sedentas
mais profundas de secretas razões
e que se afundam
nas partes fundas
do meu corpo
que me fazem gemer
e que me iludem
me rasgam
curam e descuram
me vestem de amor e de ventura»
Poemas de Maria Tereza Horta, in ‘As Palavras do Corpo

In Maria Tereza Horta, As Palavras do Corpo, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-204-903-0.

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Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Ao ouvir a frase do irmão, Beatriz, que tinha assistido em silêncio à conversa entre ambos, levantou-se de um salto da borda da cama e, resmungando palavras imperceptíveis…»

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«(…) Afonso Peres Sousa enrubesceu, inclinou a cabeça em sinal de respeito e assentimento, pediu desculpa pela maçadoria da conversa a que sujeitara o monarca e prosseguiu: infelizmente, não ouvi muitas conversas porque o senhor conde, por especial deferência a sua alteza real, levou-me para casa e lá me deixou até à hora do casamento, longe dos convidados. Só durante a boda é que soube de alguém, cujo nome e origem me ocultaram, que terá considerado um perigo para a soberania do nosso país se sua alteza real vier a intrometer-se nos negócios políticos de Castela. Outros houve, porém, e julgo tratar-se da maioria, que defenderam o contrário...
Atento à conversa, Fernando I, muito calmo, interrompeu de novo o relator. Não sabeis quem foi o reles traidor que afirmou isso? Não faço ideia, alteza. Ninguém me revelou nomes. E que mais sabeis do que lá se passou? Sei também que os lentes de Coimbra discutiram o teor das últimas cartas régias e que a maioria está manifestamente contra a que proíbe o alcaide de apreender aos estudantes as bestas que transportam os alimentos. Essa é boa!, exclamou o rei, indignado. O que é que eles querem? Argumentam que uma medida dessas pode determinar a perda de influência e de autoridade do alcaide. Isso foi criticado pelos lentes? É verdade, senhor, eles criticaram sua alteza real. São todos umas bestas..., gritou exasperado, enquanto batia com os calcanhares no leito.
Depois, e após uma breve pausa, o rei levantou-se da cama, deu um suave beijo no rosto da irmã e dirigiu-se a uma das janelas para espreitar lá fora o tempo, o Tejo e a cidade. O tempo estava cinzento e triste; o Tejo, cumulado de barcos cheios de sal, fruta, pescado e vinho, corria manso; a cidade, essa, plasmada como sempre de imundície, fervilhava de catalães, genoveses, biscainhos, aragoneses, milaneses, galegos, castelhanos, corsos e muitos outros vindos de distantes paragens, acotovelando-se nas ruas e vielas, nos cais de escambo, na alfândega, na Corredoura e no Rossio de São Domingos. Com a mão esquerda apoiada no parapeito da janela e com a direita coçando a cabeça como se com tal gesto quisesse afastar da lembrança os seus críticos e detractores, Fernando I perguntou subitamente sem nunca desviar os olhos do Tejo e da cidade: e que tal achastes a noiva?
Afonso Peres Sousa voltou a corar, de novo respirou fundo e, algo constrangido, disse apenas: é formosa, muito bela... O rei Fernando abriu-se num largo sorriso e comentou: quereis dizer que só pela noiva valeu a pena a estafa da viagem. Para qualquer homem, alteza, a formosura da senhora dona Leonor Teles valeria sempre o cansaço de uma longa viagem. Se um dia passar por terras da Beira talvez venha a conhecê-la, comentou o rei, meneando a cabeça.
Ao ouvir a frase do irmão, Beatriz, que tinha assistido em silêncio à conversa entre ambos, levantou-se de um salto da borda da cama e, resmungando palavras imperceptíveis, saiu aparentemente zangada e à pressa dos aposentos. Fernando I não ligou à atitude da infanta ou, pelo menos, deu a ideia de não ligar. E continuou: sabeis se eles já foram para Pombeiro? Acho que partiram nessa mesma noite. Surpreendido com o que acabara de ouvir, o rei levou as mãos à cabeça e voltou a inquirir num tom de voz forte, alto, cadenciado: e passaram a noite do casamento numa liteira?!...
Foi precisamente por terem passado a noite numa liteira que dona Leonor Teles Menezes e João Lourenço Cunha tiveram a primeira zanga matrimonial. Ela queria ficar em Barcelos e seguir para Pombeiro ao outro dia; ele, pelo contrário, desejava partir depois da boda, sob o estúpido argumento de que o céu estava a toldar-se de espessas nuvens que pareciam anunciar uma forte tempestade para a manhã seguinte. De nada valeu à jovem esposa ter-se queixado de fadiga e do medo da noite escura, mesmo que o caminho a percorrer fosse iluminado por fachos e tochas flamejantes a transportar pelos três criados. De nada lhe valeu o protesto.
Vergada ao peso da aliança e do poder do seu senhor, chorosa e triste, Leonor Teles não teve outra alternativa senão ceder às pretensões do marido e deixar-se levar na rota do seu próximo destino: Pombeiro. Pombeiro era uma localidade situada a sul da serra do Caramulo, a poente dos Montes Hermínios, a norte das serranias da Lousã e a nascente de Coimbra e dos vastos campos do Mondego que se estendiam até ao mar. Era lá que se encontrava a residência da família de João Lourenço, um imponente solar construído nvância monástico-litúrgica de Cluny; foi lá, depois de sucessivas heranças e doações, que os So reinado de Sancho II. Foi lá que viveu, embora por pouco tempo, uma casta de beneditinos de obserousas, família poderosa de infanções e ricos-homens, passaram a residir como chefes de linhagem, desempenhando, uns atrás de outros, o cargo de mordomo-mor da corte». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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