segunda-feira, 25 de março de 2019

Redescobrir Manuel da Fonseca. Paula Graça Rodrigues. «Após ter conhecido um enorme êxito em Espanha, o romance picaresco expandiu-se por toda a Europa através de traduções…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à dra Paula Rodrigues

Resumo
«O principal objectivo desta dissertação é aprofundar o conhecimento do romance Cerromaior, da autoria de Manuel da Fonseca, perceber a sua importância e significado no contexto histórico-literário do neorrealismo português, assim como evidenciar que o referido romance se enquadra nas características do subgénero literário romance de formação. Demonstra-se que, para além de se tratar de um romance que se enquadra nos pressupostos da ficção neorrealista tradicional, Cerromaior já traz também uma perspectiva mais aberta do próprio conceito de realismo, o que lhe permite dialogar com a tradição modernista (sobretudo na valorização de aspectos estéticos), sem trair o compromisso social, ético e político, essencial ao neorrealismo dos anos 40. Voltado para a problematização de aspectos psicológicos, Cerromaior, ao centrar-se numa personagem em evolução que vai desafiando a narrativa conforme a sua tomada de consciência, pode ser considerado como romance de formação. A nível estrutural, esta dissertação é constituída por três capítulos. No primeiro capítulo, apresenta-se a fundamentação teórica do romance de formação/bildungsroman, a sua origem, evolução e caracterização. No segundo capítulo, estabelecendo a relação entre a obra de Manuel da Fonseca e o seu contexto histórico-literário, apresenta-se as principais coordenadas estéticas e ideológicas do neorrealismo português, enquadrando Cerromaior como romance de formação. No último capítulo, faz-se uma análise estrutural de Cerromaior dialogando com a perspectiva lukacsiana sobre o romance de formação. São destacados ainda os aspectos histórico e social, a representação da sociedade rural no universo da narrativa, tendo em conta os valores, atitudes e comportamentos das personagens e a sua influência no percurso formativo/de aprendizagem do herói».

Romance de formção / bildungsroman: campo conceptual
Origem e evolução do conceito
«Desde os horizontes da literatura picaresca até ao bildungsroman, o romance de formação é herdeiro de uma longa filiação de textos narrativos. Como tal, é importante determo-nos um pouco na evolução deste subgénero literário, de modo a compreender os elementos fundadores da obra que será objecto do nosso estudo. Tal como as noções de romance de educação ou romance de aprendizagem, a noção de romance de formação é de emprego relativamente recente na pena dos críticos de obras literárias, surgindo estas noções pela primeira vez no século XVIII. É importante referir que estes géneros romanescos só passaram a ser utilizados a partir do século XIX e entraram em uso corrente a partir de 1945. Explorando a plurissignificação do conceito, podemos dizer, por exemplo, que um exame atento do léxico francês apresenta as três noções utilizadas como sinónimos. A nível diacrónico, no decurso do século XVI surge em Espanha o romance picaresco, caracterizado, inicialmente, pela presença da personagem de um jovem que narra na primeira pessoa as aventuras de uma vida airada, que se desenrolam muitas vezes em façanhas nada abonatórias. Reforçando o lado transgressor do herói do romance picaresco, ao longo da narrativa multiplicam-se encontros e farras de uma personagem destituída de estatuto social, geralmente um mendigo, cuja pobreza impede de se fixar num lugar ou numa sociedade definida. Deste modo, como observam os especialistas deste subgénero, o romance picaresco aparece marcado pela mesma instabilidade da personagem da qual narra múltiplas aventuras. Após ter conhecido um enorme êxito em Espanha, o romance picaresco expandiu-se por toda a Europa através de traduções, de imitações, ou actualizações paródicas. Deste modo, numerosos romances de formação reivindicam uma filiação picaresca.
Contudo, estabelecendo as diferenças entre os subgéneros já citados, enquanto a personagem pícara experimenta uma série de aventuras, de encontros, de mudanças de estado ou de destino sem a preocupação de reflectir sobre o que lhe está a acontecer, o herói do romance de formação, por sua vez, é marcado pelo espírito reflexivo. Esforça-se por gerir o seu destino e está dotado de capacidade de análise psicológica que falta à personagem pícara. Assim, o romance de formação, contrariamente ao picaresco, introduz, por vezes, pausas narrativas (redacção de uma carta, exames de consciência, etc.), ao longo das quais a personagem reflecte sobre o modo como deve ou pode comportar-se. Tal como o pícaro, o herói do romance de formação também é um homem jovem que, preso à tutela da sua família, percorre o mundo e a sociedade ao sabor de numerosas aventuras. Da tradição picaresca, este subgénero actualiza, portanto, uma temática de viagem e, sobretudo, as características de uma personagem socialmente móvel, dotada de grande profundidade psicológica, qualidade que, como já foi sublinhado, falta ao pícaro da tradição espanhola. Quem pela primeira vez utiliza a designação de romance de formação ou Bildungsroman são os críticos que fazem da literatura alemã o seu domínio de estudo privilegiado e servem-se do conceito para designar obras germânicas como Les années d’apprentissage de Wilhelm Meister, de Goethe, Heinrich d’Ofterdingen, de Novalis, Henri le vert, de Keller.
A primeira dificuldade com que se confrontam os estudiosos do romance de formação é, precisamente, a questão da sua origem. De facto, apesar de surgirem, como já referimos, no início do século XVIII as primeiras referências ao termo, este subgénero só se afirmará no século XIX, com a já citada obra Wilhelm Meister, de Goethe, vista por muitos críticos como o seu modelo regenerador. É o caso de Morgenstern que, em 1820, caracteriza o Bildungsroman como um subgénero romanesco ocidental. Segundo ele, a ideia central de Bildung (formação, criação) retoma e seculariza a ideia de criação divina aplicando-a ao homem: formar-se e educar-se em contacto com a realidade é, no século XVIII, o dever essencial do indivíduo, levado a expandir as suas potencialidades à luz da sua razão visando, sobretudo, uma perfeita harmonia entre a sua alma e o seu corpo». In Paula da Graça Rodrigues, Redescobrir Manuel da Fonseca, Cerromaior como Romance de Formação, Dissertação apresentada à Universidade Autónoma de Lisboa, Departamento de Línguas e Literaturas Modernas, Tradução e Interpretação, para a obtenção do grau de Mestre em Estudos Portugueses, Lisboa, 2012.

Cortesia de UAdeLisboa/JDACT

Isabel I. O Anoitecer de um Reinado. Margaret George. «Sou sempre leal e estou sempre presente. Mas um pouco de encenação dá um tempero à vida e mantém os meus inimigos em alerta»

Cortesia de wikipedia e jdact

Isabel. Maio de 1588
«(…) Os aromas misturados estavam particularmente doces naquela tarde. Enganei-me ao chamá-la de lírio, explicou Vejo agora que as rosas reflectem melhor a sua verdadeira natureza. Há tantos tipos diferentes, assim como a senhora tem tantas facetas. Mas o meu lema pessoal é Semper eadem, Sempre a mesma, nunca mudar. Eu tinha escolhido tal lema por considerar que a imprevisibilidade num soberano era um grande fardo para os súbditos. Não seria assim que os seus conselheiros a descreveriam. Nem seus pretendentes. Ele desviou o olhar e acrescentou: eu deveria saber disso, já que vivi as duas situações. Ainda bem que não pude ver o rosto dele para interpretar o que quis dizer com aquele, mas acabei explicando. Apenas brinco de ser imprevisível, por dentro sou firme como uma rocha. Sou sempre leal e estou sempre presente. Mas um pouco de encenação dá um tempero à vida e mantém os meus inimigos em alerta. E os amigos também, Majestade. Até mesmo sendo os seus olhos há muito tempo, às vezes não sei se devo acreditar no que vejo. Pode sempre perguntar-me, Robert. Sempre lhe responderei. Prometo-lhe.
Robert Dudley: a única pessoa para a qual poderia revelar minha alma, com quem conseguia ser a pessoa mais honesta possível. Há muito tempo, amei-o desesperadamente, do jeito que uma mulher só consegue amar apenas uma vez na vida. O tempo mudou esse amor, transformando-o em uma coisa mais resistente, espessa, forte e silenciosa, assim como dizem que acontece com casamentos muito longos. Os russos dizem: o martelo estilhaça vidro, mas forja o aço. Certa vez, disse a um embaixador que se eu me casasse algum dia seria como rainha e não como Elizabeth. Se algum dia eu fosse convencida de que um casamento era uma necessidade política, então levaria a situação adiante, apesar da minha relutância pessoal. Mas, na minha coroação, prometi aceitar a própria Inglaterra como meu esposo. Permanecendo virgem, não me doando a ninguém a não ser ao meu povo, era o sacrifício visível que ele teria como prémio e honra e nos manteria unidos. E foi isso que aconteceu. E, apesar de poupá-los dos horrores do enlace estrangeiro e do fantasma da dominação, deixei-os com a mesma coisa que fez meu pai virar o reino de cabeça para baixo para evitar que acontecesse: nenhum herdeiro para me suceder. Não posso dizer que isso não me preocupa. Mas tenho outras decisões mais importantes a tomar, de igual ou maior urgência para a sobrevivência do meu país.
Francis Drake levou a maior parte da semana para atravessar os mais de 300 quilómetros que separavam Plymouth de Londres. Mas agora ele estava diante de todo o Conselho Privado, e eu, na sala de reunião no Whitehall. Não quis descansar, e sim vir directamente a nós. Vê-lo sempre fazia com que me sentisse mais segura. Ele tinha tal optimismo que conseguia convencer qualquer um a ouvir os seus planos e mostrar que todos eram realizáveis e sensatos. O grupo agora estava maior. Não era composto apenas do trio interno: Burghley, Leicester e Walsingham. Tínhamos também sir Francis Knollys; Henry Carey, o lorde Hunsdon; e John Whitgift, o arcebispo de Cantuária; bem como Charles Howard, o novo lorde almirante.
Seja bem-vindo, disse a Drake. O que acha da nossa situação? Ele olhou em redor. Era um homem atarracado, parecia um barril. Conveniente para alguém que destruiu as aduelas dos barris da Armada no ano passado. A cabeleira loira ainda era espessa, e, embora o rosto apresentasse marcas de expressão, parecia jovem. Estava avaliando uma possível oposição no Conselho antes de falar. Finalmente disse: sabíamos que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. E é chegada a hora. Não havia como contradizê-lo. E a sua recomendação, qual é?, perguntei. A senhora sabe a minha recomendação, amável rainha. É sempre melhor atacar o inimigo e desarmá-lo antes que ele alcance a nossa costa. Uma acção ofensiva é mais fácil de ser controlada do que uma acção defensiva. Portanto, proponho que nossa frota zarpe das águas inglesas, navegando até interceptar a Armada antes que ela chegue aqui». In Margaret George, Isabel I, O Anoitecer de um Reinado, tradução de Lara Freitas, Geração Editorial, 2012, ISBN 978-858-130-076-4.

Cortesia de GeraçãoE/JDACT

Isabel I. O Anoitecer de um Reinado. Margaret George. «Chegamos ao jardim das rosas, onde os canteiros eram feitos de acordo com a cor e a variedade. Havia madressilvas-dos-bosques, com pétalas cor-de-rosa abertas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Isabel. Maio de 1588
«(…) Até nós sabemos disso. Navegar em próprias águas, atacando a mais de mil quilómetros da base inglesa, foi um acto insolente e impensado. Pelo menos, os espanhóis não pensavam ser possível. Agora todos têm medo dele. Um capitão espanhol que foi capturado, e que eu mesmo interroguei, acreditava que Drake tinha poderes sobrenaturais e conseguia ver os portos mais distantes. Não tirei a ilusão dele. Certamente, Drake parece ter a misteriosa capacidade de adivinhar onde está o tesouro, quais locais possuem sentinela e quais não. E ele desloca-se com a habilidade
surpreendente de uma cobra prestes a dar o bote. Divertido, não é? Ele parece tão inofensivo, com aquele rosto redondo e as bochechas rosadas. Os seus navios são as suas garras. Ele os usa como um homem comum usa a própria mão ou o próprio pé, parecem fazer parte do próprio corpo, afirmou Robert, balançando a cabeça, admirado. Chegámos ao relógio de sol, um cubo com várias faces que informava a hora de trinta maneiras conforme o sol reflectia em cada superfície. Fora um presente da rainha Catarina de Médici quando os seus filhos príncipes, um de cada vez, vieram cortejar-me. Acho que ela pensou que, talvez, um presente grandioso, vindo da mãe dos dois, causaria uma impressão maior do que vários pequenos presentes. Era um mecanismo engenhoso.
Uma das faces marcava as horas até durante a noite à luz do luar, caso a lua brilhasse o suficiente. Marcava 4 da tarde numa das suas faces. Hoje não iria anoitecer antes das 9 da noite, um daqueles doces crepúsculos prolongados da Primavera. Havia até uma face em que se podia ver a hora conforme a última luz diminuía, um indicador de crepúsculo. Robert se aproximou de uma das faces do relógio de sol e perguntou: não gostou do lírio? Gostei, respondi, sentindo-me mal pela forma como recebi a flor. Mas não cabia a ele naquele momento oferecê-la a mim. Foi um gesto típico seu. Ele olhou em volta do jardim e perguntou novamente. Porque a senhora não tem rosas aqui? Como o jardim de uma Tudor não tem rosas? Elas são muito altas para o gradil. Atrapalhariam a ordem do jardim. Mas, perto do pomar, há muitas delas. Mostre-me. Nunca as vi. Saímos do pequeno jardim fechado e seguimos pelo caminho que conduz ao pátio dos torneios medievais e suas arquibancadas. Suportes de ferro cercavam o muro para que tochas fossem encaixadas durante os torneios. Robert já havia participado de muitos, mas agora não lutava mais. Percebi que ele estava sem fôlego na nossa curta caminhada e então lembrei-me de algo. Você renunciou ao posto de mestre da cavalaria, disse. Porquê, Robert?
Todas as coisas são efémeras, respondeu subtilmente. Mas Burghley ainda me serve! Vocês dois foram as minhas primeiras nomeações, na minha primeira reunião do Conselho! Ainda a sirvo, minha Be..., Majestade. Só não mais como mestre de cavalaria. Embora ainda crie cavalos. Então..., quem é o mestre agora? Um jovem que descobri, Christopher Blount. Ele saiu-se bem nos Países Baixos. Ficou ferido. Eu o condecorei. A senhora ficará satisfeita com ele, tenho a certeza. Esse título pertence-lhe. Não mais. Na minha cabeça será sempre seu. A nossa mente vê coisas que os nossos olhos não conseguem ver. Creio que permanecem vivas enquanto a mente que as vê continua existindo. Sim, o jovem e belo Robert Dudley existia agora apenas na mente de Elizabeth e nos retratos. Você está certo.
Chegamos ao jardim das rosas, onde os canteiros eram feitos de acordo com a cor e a variedade. Havia madressilvas-dos-bosques, com pétalas cor-de-rosa abertas como molduras; pequenas rosas marfim almiscaradas, protegidas pelos seus arbustos espinhosos; vigorosos arbustos com rosas damasco com muitas pétalas vermelhas e brancas, e rosas da província; canteiros de rosas amarelas e vermelhas, exalando canela». In Margaret George, Isabel I, O Anoitecer de um Reinado, tradução de Lara Freitas, Geração Editorial, 2012, ISBN 978-858-130-076-4.

Cortesia de GeraçãoE/JDACT

domingo, 24 de março de 2019

Isabel I. O Anoitecer de um Reinado. Margaret George. «Nós dois demos uma boa gargalhada, assim como já fizéramos tantas vezes juntos, nos mais diferentes lugares. A risada dele ainda era jovial. Nenhuma?»


Cortesia de wikipedia

Isabel. Maio de 1588
«(…) Ele suavizou um pouco a expressão sombria. Parecia sempre tão sisudo aquele meu mestre da espionagem. Não celebrava nem as vitórias. Ele apenas concordou com a cabeça e declarou: ela acabou com isso. Eu só expus os seus planos e mentiras. Hoje a Inglaterra ainda é a maior ameaça ao triunfo da contra-reforma. Roma mudou de rumo e passou a reverter as vitórias protestantes, retomando territórios. No entanto, somos o único país em que a oposição à Roma pode ficar segura, construindo uma carreira e uma vida. Por essa razão, eles precisam eliminar-nos. Tem cunho religioso, mas também político, disse Burghley. E há alguma diferença?, perguntou Leicester. Quanto tempo acha que temos antes de nos atacarem?, perguntei a Walsingham. Quanto tempo temos para nos preparar? Reformamos os faróis e consertamos as fortalezas costeiras durante todo o Inverno, respondeu Burghley. Mas todos sabemos, e podemos falar com franqueza aqui, que não temos castelos que consigam enfrentar o cerco da artilharia espanhola. Provavelmente, aportarão em Kent, vindos de Flandres. Kent é uma região aberta e de fácil travessia. Não temos armas suficientes, e as que temos são muito antigas. E há também muita coisa que não sabemos. E os ingleses católicos? Eles lutarão contra os espanhóis? A quem são fiéis? Por essas razões, meus bons conselheiros, a nossa única esperança de vitória está em não permitir que os espanhóis atraquem aqui, repeti.
Convoquem Drake, disse Burghley. Onde ele está?, perguntou Leicester. Em Plymouth, disse Walsingham. Mas virá imediatamente.

Quando se levantaram para ir embora, acenei para Robert Dudley, o lorde Leicester, que colocava o chapéu. Ele parou e aguardou. Venha, vamos dar uma volta no jardim, convidei, ou ordenei. Quase não o vejo desde que voltou dos Países Baixos no Inverno passado. Ele sorriu e disse: claro, eu adoraria, e virou-se para me acompanhar. Voltamos ao jardim da rainha, três jardineiros trabalhavam muito ocupados, plantando ervas nos canteiros, bem curvados e concentrados na sua tarefa. Será que deveria pedir para eles saírem? Eles poderiam ouvir o conteúdo da nossa conversa e, sem dúvida, repeti-lo. Não, era melhor que ficassem. Não planeava dizer nada que não pudesse ser repetido. Você parece bem, disse para começar a conversa. Entenderei isso como um elogio, mas estive doente e a minha aparência estava lastimável quando retornei. Então, qualquer melhora é visível. É verdade, comentei, fitando-o e percebendo que o seu rosto voltava a ter as cores e o semblante que os Países Baixos lhe haviam roubado. No entanto, ele ainda não parecia saudável. E nunca mais seria jovem nem bonito novamente. O tempo fora cruel com ele, a quem considerava os meus olhos, o homem que chegou a ser a criatura mais gloriosa do meu país há trinta anos. O cabelo castanho e espesso havia diminuído e agora estava grisalho; o bigode e a barba antes exuberantes, elegantes e cheios de brilho, agora eram ralos e pálidos. Os profundos olhos castanhos penetrantes agora pareciam lacrimejantes e suplicantes. Talvez não tenha sido apenas os Países Baixos que acabaram com ele, mas sim os dez anos vividos ao lado da famosa e exigente Lettice Knollys, sua esposa.
Os Países Baixos foram cruéis para consigo, disse. E comigo também. Pensei no quanto aquilo me custara sem que nada fosse resolvido. Tantas mortes, tanto desperdício dos recursos do país. Ele parou o nosso lento passeio pela grama e disse: sem nosso auxílio, os espanhóis já teriam acabado com os rebeldes protestantes. Por isso, não pense que fora em vão. Às vezes penso que tudo o que fizemos foi dar aos espanhóis a oportunidade de treino em batalhas, ajudando-os a se aperfeiçoarem para nos atacar aqui. Retomámos nossa caminhada, seguindo para o relógio de sol no meio do jardim, a peça central do ambiente. Fui o primeiro a ver o exército do duque de Parma e é realmente tudo o que dizem ser. Você quer dizer, o melhor exército da Europa? Sim, eu sei disso. Mas está desfalcado por doenças e deserções como qualquer outro. Começou com 30 mil homens e dizem que hoje conta com apenas 17 mil. Incluindo os mil ingleses exilados que lutam contra o seu próprio país. Os olhos dele se arregalaram lembrando o Robert que fora na juventude. Também lhes falta dinheiro e não terão mais nada até que a próxima frota de tesouro venha da América. Juntei-me a ele num sorriso malicioso. E que os nossos leais corsários tentarão interceptar. Você estava fora do país, mas sabia que, devido às incursões de Drake na última metade de 1586, os espanhóis não tiveram acesso à prata alguma? Nós dois demos uma boa gargalhada, assim como já fizéramos tantas vezes juntos, nos mais diferentes lugares. A risada dele ainda era jovial. Nenhuma?, perguntou. Nada mesmo, confirmei. Nem uma barrinha. E, além disso, o ataque liderado por ele em Cádiz na Primavera passada acabou com os navios e os suprimentos deles de tal maneira, que ele sozinho conseguiu atrasar a navegação da Armada num ano. Isso fez com que houvesse mais mortes e deserções para os homens de Parma». In Margaret George, Isabel I, O Anoitecer de um Reinado, tradução de Lara Freitas, Geração Editorial, 2012, ISBN 978-858-130-076-4.

Cortesia de GeraçãoE/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. «Dirigiu-se ao armazém, sabendo que meio-dia era boa hora para uma visita. Estariam todos lá e, embora os olhos de todos fossem acompanhá-la quando entrasse, o barulho e os ruído…»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Quando saiu do quarto, sua mãe e seu pai já estavam de pé e comiam a refeição da manhã, de pão e queijo. Olharam-na com ansiedade; já a esperavam com impaciência. Sentou-se rapidamente à mesa e pegou num pedaço de pão. E então?, perguntou seu pai. Percebeu que sua mãe olhava para ele como se dissesse Natã, não se atrapalhe! Concordo em ser a mulher de Joel, disse ela. Parecia a coisa certa a fazer; e estava exaurida pela luta interior e pelo exame de consciência que fizera. Devia casar-se e Joel parecia tão bom quanto qualquer outro e melhor que a maioria. As suas ambições iriam diminuir em mais um ano ou dois e talvez se visse forçada a casar com um viúvo mais velho. Além disso..., talvez esta casa estivesse assombrada por um espírito maligno que parecia tê-la escolhido, e seria melhor que fosse para outro lugar. Algo a estava expulsando dali. Poderia não ter nada a ver com o velho ídolo de marfim que estava no baú, poderia ser outra força. Como ter certeza? Maria já vira os possuídos, que, na verdade, deveriam ser chamados despossuídos, pois tinham perdido tudo na vida, perambulando pelo mercado, com todos olhando fixamente para eles e evitando-os. Ninguém saberia dizer por que motivo um demónio escolhia uma pessoa ou outra; isso ocorria com pessoas das melhores famílias. E agora parecia que a própria casa de Maria tinha sido invadida. Era seu dever deixar a casa e levar o espírito consigo, protegendo assim a sua família, ou livrando-se dele.
Maria... Isso é maravilhoso!, disse a sua mãe. Aparentemente, ela esperava por uma discussão interminável sobre o assunto. Cedendo com facilidade, Maria dera-lhes um presente inesperado. Estou tão feliz. É verdade, disse Natã. Consideramos Joel um homem recomendável. Ficaremos felizes de recebê-lo como filho. Maria, a mãe levantou-se e abraçou-a. Estou tão..., contente. Quer dizer aliviada, pensou Maria. Aliviada por não ter de carregar a desgraça de uma filha não casada. Assim, cumpriram os seus deveres. Sim, mãe, disse, dando-lhe um abraço de verdade, puxando-a contra si. E agora eu os deixarei, pensou. Não, hoje, mas em breve. E, de certa forma, as despedidas já começaram. Sentia-se desolada, como se estivesse sendo descartada. Por isso, deixará o homem seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher, diziam as escrituras. De novo, só se referiam ao homem e ao que ele fazia, pensou Maria. Nenhuma menção à mulher de quem depende ou aos seus sentimentos. Devo falar com ele hoje?, perguntou Maria. Ou o senhor prefere falar primeiro com ele? Você mesma deveria falar com ele, disse o seu pai. Seria melhor que falassem a sós, um com o outro. Afinal, somos pessoas modernas. E ele sorria, claramente feliz.
Maria preparou-se para ir ao armazém. Vestiu-se devagar, escolhendo um vestido que lhe caía bem, branco, com uma risca no colarinho. Penteou o cabelo, atando-o atrás com uma presilha. Imagino que depois de casar terei de usá-lo amarrado com tranças. E coberto. Que pena. Mas era um pensamento fugaz. Todo mundo sabia que mulheres casadas tinham de cobrir a cabeça. Era parte do preço a pagar por ser uma esposa respeitável. Nenhum outro homem podia ver o seu cabelo. Isso também significava, naturalmente, que ninguém poderia ver o seu cabelo fora da sua casa, nem crianças, ou amigas ou homens mais velhos. E assim perdia o mundo exterior um pouco de beleza. Escolheu umas sandálias de pele, macias, e uma mantilha leve, de lã. Afinal, supõe-se que este seja o dia mais feliz da minha vida, pensou. Por isso, devo pôr uma roupa especial para este dia, uma roupa que me leve a lembrar, quando voltar a vesti-la: essa é a mantilha que usei no dia em que... E talvez até conte isso para minha filha e lhe mostre a mantilha. Suspirou. Já estou me sentindo esquisita, imaginando o que vou contar à minha filha, pensou.
Dirigiu-se ao armazém, sabendo que meio-dia era boa hora para uma visita. Estariam todos lá e, embora os olhos de todos fossem acompanhá-la quando entrasse, o barulho e os ruídos lá dentro iriam abafar o que ela e Joel viessem a dizer um ao outro. O armazém da família ficava perto do cais onde os pescadores descarregavam o peixe pescado no lago de Magdala, para além do passeio de pedras e do mercado, onde se vendia e comprava o peixe. O peixe era abundante no lago, o que proporcionava uma boa dieta alimentar às 16 cidades que ficavam na sua orla. Mas o peixe também era altamente perecível e não podia ser enviado para longe sem ser, de alguma forma, tratado e preservado. A família de Maria criara um negócio especializado que fazia os três tipos conhecidos de tratamento de peixe: o da secagem, o da defumação e o da curtição pelo sal». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

sábado, 23 de março de 2019

A Verdadeira História. Margaret George. «Como poderá ela saber? Como poderia ela saber desse segredo, desse desejo meu?, pensou Maria. Mulheres. Homens. Casamento. Amor e desejo. Filhos. Toda a mulher quer ser Raquel…»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Mas podia ter sido deslocado por qualquer pessoa, pensou Maria. Abriu a tampa lentamente, como se receasse que uma cobra pulasse para fora. Mas não havia ali nada senão túnicas de linho, dobradas, e alguns xailes de lã grossa. Debaixo deles, alguns textos gregos que ela escondera, como se fossem perigosos. Agora com mais coragem, enfiou a mão e foi sentindo o que ali se encontrava. Nem cobras, nem escorpiões, nada de perigoso. Sentiu algo saliente e segurou-o, puxando-o para fora. Era algo embrulhado em várias camadas de pano, algo extremamente íntimo. Desfez o embrulho lentamente, apreensiva. As camadas de pano foram saindo e surgiu o rosto sorridente de Asera. Maria sentiu um sobressalto. A beleza atrevida do ídolo, que a impedira de destruí-lo, agora parecia zombar dela.
Você não tem coragem de se livrar de mim, parecia dizer. Todos aqueles profetas homens, os Jeremias, os Oseias, teriam logo acabado comigo. Mas você é mulher, e entende melhor. Entende que somos irmãs e devemos ajudar-nos uma à outra. Você me ajudou e agora eu a ajudarei. Darei tudo o que me permita dar o meu poder.
E o que seria isso?, perguntou Maria mentalmente. O que querem as mulheres? É sempre o mesmo. Querem beleza, poder sobre os homens em consequência da beleza, e garantia de segurança. É muito simples. Mas eu quero mais do que isso, pensou Maria. Quero reflectir a glória de Deus na minha pessoa, quero ser o que fui criada para ser. Não quero ser impedida de fazê-lo por coisas pequenas. Mas seduzir os homens pela beleza era tão mais natural, da parte de uma mulher. Era a tentação. Era uma ambição muito menor, e, no entanto, muito mais desejada, de várias maneiras. Nada pode acrescentar à minha beleza, nem subtrair, disse Maria em voz alta. Eu sou do jeito que sou e nada irá mudá-lo. Responda-me, diga alguma coisa diferente!, desafiou. Mas eu posso mudar a forma pela qual os outros a veem, sussurrou Asera na sua cabeça. Eles irão vê-la como a misteriosa e bela Magdalena, ou simplesmente como a Maria da família de peixeiros de Magdala? Independentemente do que eu possa ou não querer, a verdade é que a minha vida já foi decidida, respondeu Maria. E as pessoas me veem como sempre viram.
Posso mudar tudo a partir deste instante, prometeu Asera. Posso dar-lhe a beleza de uma deusa. Pelo menos, aos olhos dos outros. Então não pode mudar as minhas feições, os meus olhos ou o meu nariz?, perguntou Maria. Um homem me procurou e me escolheu, com o que viram seus olhos. Agora é tarde demais. Asera suspirou. Nunca é tarde demais, murmurou. Os mortais não compreendem isso. Para Deus, nunca é tarde demais. Javé diz que mil anos são como um dia aos seus olhos. Mas não é assim, para mim, respondeu-lhe Maria, continuando o diálogo mental. Você é uma mulher, sussurrou Asera. Eu sou uma deusa de mulheres e escolhi-a. Posso satisfazer os seus sonhos, os sonhos de ser desejável a seu marido.
Como poderá ela saber? Como poderia ela saber desse segredo, desse desejo meu?, pensou Maria. Mulheres. Homens. Casamento. Amor e desejo. Filhos. Toda a mulher quer ser Raquel, quer ser a noiva desejada. Como eu mesma quero. Todos os meus sonhos..., todos os meus desejos de beleza, conceda-os!, ordenou em voz áspera, sarcástica. Apertou os dedos em volta do ídolo, como se o asfixiasse, para lhe lembrar que detinha o poder de destruí-lo. Parecia tão leve na palma da sua mão. Faça-me bonita, faça meu marido amar-me mais do que qualquer coisa!, ordenou de novo. Então, empurrou-o para dentro do baú, bateu a tampa e arrastou-o de volta contra a parede. Não sou bonita, pensou, endireitando-se. Sei que não sou bonita. Mas como gostaria de ser, nem que fosse por um dia! Como gostaria que alguém, talvez com um novo modo de ver, me visse dessa maneira!» In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. «Estupefacta, descobriu que os braços estavam cheios de arranhões, arranhões que constituíam uma espécie de desenho e doíam ao serem tocados»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Ou será que o que conta é o que ele não disse, ou o que os outros não dizem sobre ele? Então, você mesma conversa com ele!, mandou Natã. É isso! Da próxima vez que ele estiver no armazém, você vai lá e fala com ele! E, no meio tempo, o que devo dizer-lhe? Diga..., diga-lhe que eu gostaria de saber sobre ele tanto quanto sei sobre o jumento da família... Não vou fazer isso! Você terá de se decidir!, disse o pai. Basta destas tolices. Você terá de decidir hoje. Não irá falar com ele. Se você falar com ele, vai assustá-lo! Pronto, agora ele tinha dito o que pensava. Estavam loucos para que ela casasse e ficaram delirantes de felicidade quando o homem de Naim pedira sua mão, pensou Maria. Tornara-se um estorvo, solteira, aos 16 anos. Essa poderia ser a sua última chance. Eu... Eu vou ter... Tenho de pensar sobre isso pelo menos até amanhã, disse. Façam-me esse favor. Afinal de contas, esperamos até mais quando compramos o... Basta de falar no jumento!, explodiu Natã.
A noite mal começara e o sono parecia chegar, sono que lhe faltara por tantas noites. Ao entardecer sucedeu-se logo a escuridão, com aquele cheiro peculiar do azeite queimando na lamparina, assinalando o cair da noite sobre a casa. Finalmente, chegara a hora de se deitar. Maria deitou-se na cama estreita do quarto frio, surpreendentemente frio, apesar do Inverno ainda não ter chegado. Puxou mais cobertas até à cabeça e fechou os olhos. Queria fugir do mundo real. Porém, o sono parecia agora deixá-la, por perversidade. Tinha plena consciência de cada uma das sombras no seu quarto, de cada som e da luz da lua brilhando num dos cantos, como o olho de um deus implacável, penetrante. O que se está passando comigo?, perguntou a si mesma numa vozinha submissa. Parece que não consigo mais pensar, nem pareço eu mesma. Quase via a sua respiração no quarto. Lentamente, expirou e, sim!, dava para ver uma nuvenzinha contra o luar. Era impossível. Estava mais quente lá fora. Não era possível que estivesse frio dentro de casa.
E a opressão na sua mente, como se alguém a estivesse empurrando para baixo, fazendo pressão sobre ela. E aquele homem..., Joel... Tente pensar em Joel, ordenou a si própria. Ele quer casar, levá-la para a casa dele. Imagine o seu rosto. Tentou pensar nele, invocar o seu rosto, mas não conseguia. Parecia ter sumido da sua memória. De repente, pensou ouvir um rangido dentro do quarto. Sentando-se, inteiramente acordada, esforçou-se para ver do que se tratava. A escuridão era total e ela não conseguia penetrá-la. Então, lentamente, algo pareceu tomar forma na escuridão, um pequeno baú. Que se mexia, fazendo um rangido ao se deslocar pelo chão de pedra. Olhou-o, com medo, enquanto o baú se deslocava para onde batia a luz do luar. Ou seria o luar que o movera? Queria orar, mas vinham aos seus lábios palavras sem sentido, confusas, que desconhecia. O que haveria no baú?, perguntou a si própria. Mas estava tão apavorada que não iria sair da sua cama para ver. Em vez disso, ficou olhando, ansiosa, para o baú.
Embora fosse forçada a ficar numa posição completamente rígida, na cama, acabou adormecendo, o que era estranho. Teve sonhos curiosos e detalhados: sonhou com cavernas negras, que ficavam na colina por trás da cidade, que se estendiam, profundas, e pareciam não ter fim. Pareciam a própria noite. Mas quando se anunciava a aurora e ela já ouvia os barulhos de passos, do lado de fora, e de pescadores remando seus barcos para começar o seu trabalho, ela saiu do seu sonho caverna e voltou para o seu quarto. Imediatamente, olhou para o chão para ver onde estava o baú. Sabia que tudo isso era só um sonho, um baú que se movia. Mas ele estava lá... Não exacztamente onde estava antes, mas também não estava no centro do quarto. Talvez sua mãe o tivesse trazido para lá e ela não tivesse reparado, ou então poderia tê-lo visto rapidamente, e depois sonhado com ele. Ou teria o baú tornado a mover-se depois que ela adormecera? Sem uma palavra, levantou-se. O quarto ainda estava muito frio. Pegou num xale, colocou-o em volta dos ombros e esfregou os braços, para aquecê-los. Estupefacta, descobriu que os braços estavam cheios de arranhões, arranhões que constituíam uma espécie de desenho e doíam ao serem tocados.
Quase deu um grito, mas conseguiu abafá-lo. Estendeu os braços e olhou para as marcas. Pareciam arranhões feitos com espinhos. Tentou relembrar tudo o que fizera no dia anterior. Seria possível que tivesse chegado perto de cardos? Ou teria ficado sonâmbula? Já tinha havido na cidade o caso de um menino que caminhava dormindo; saía andando, em plena noite, e na manhã seguinte não se lembrava de nada. Seus pais tiveram que amarrá-lo à cama para evitar que saísse para a rua. Ficava apavorada só de pensar que poderia ter saído de casa, desprevenida e exposta aos perigos. Abaixou-se junto ao baú e passou as mãos sobre a tampa, uma superfície lisa, construída pelo carpinteiro local, decorada com algumas tachas. Tocou-o com as pontas dos dedos. Não tinha rodas nem qualquer outra coisa que permitisse movê-lo com facilidade. Pelo contrário; os pinos fortes da base estavam solidamente grudados ao chão, tornando difícil deslocá-lo. Mas, e aí, a respiração pareceu parar, aqueles pinos fariam um ruído de rangido, se o baú fosse arrastado pelo soalho! E, na verdade, pequenos traços no chão, atrás do lugar onde o baú se encontrava, provavam que ele havia sido deslocado». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Traidora do Trono. Alwyn Hamilton. «Mas não precisava de uma arma para derrubar doze homens. Era quase engraçado. Eles haviam usado uma corda para me prender, não o ferro que me tornaria tão humana quanto eles»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Príncipe Estrangeiro
«(…) Um burburinho percorreu a multidão. Estaria mentindo se dissesse que isso não me deixou arrepiada. E mentir era pecado. Fazia quase seis meses que eu estivera em Fahali com Ahmed, Jin, Shazad, Hala e os gêmeos Izz e Maz. Nós sete contra dois exércitos e Noorsham, um demdji transformado em arma pelo sultão, e que por acaso era meu irmão. Enfrentámos forças muito maiores que nós e um ser devastadoramente poderoso. Mas sobrevivemos. A história da batalha de Fahali viajou pelo deserto mais rápido do que a dos jogos do sultim. Eu a ouvi dezenas de vezes, contada por pessoas que não sabiam que a rebelião estava ali. As nossas proezas ficavam maiores e menos plausíveis cada vez que eram recontadas, mas o relato sempre terminava do mesmo jeito, com a sensação de que a história ainda não tinha acabado. De um jeito ou de outro, o deserto não seria o mesmo após aquela batalha.
A lenda da Bandida de Olhos Azuis havia crescido para além desse relato, até eu me transformar numa história que mal reconhecia. Diziam que a Bandida de Olhos Azuis era uma ladra, e não uma rebelde. Que seduzia pessoas para obter informações para o príncipe. Que havia assassinado o próprio irmão no campo de batalha. Essa era a versão que eu mais odiava. Talvez porque, por um momento, com o dedo no gatilho, ela quase se tivesse tornado realidade. Mas eu o deixara escapar. O que era tão ruim quanto matá-lo. Ele estava em algum lugar, com todo aquele poder. Mas, diferente de mim, não tinha outros demdjis para ajudá-lo. Às vezes, tarde da noite, depois de todos irem dormir, eu dizia em voz alta que ele estava vivo, só para saber se era verdade ou não. Até então, conseguira pronunciar as palavras sem pestanejar. Mas tinha medo de que chegasse o dia em que não seria assim. Isso significaria que era mentira, que meu irmão havia morrido, sozinho e assustado, em algum lugar do deserto impiedoso e devastado pela guerra.
Se ela é tão perigosa quanto dizem, deveríamos matá-la de uma vez, alguém da multidão gritou. Era um homem com uma faixa militar amarela brilhante cruzando o peito. Parecia que tinha sido costurada a partir de farrapos. Notei que outros também a vestiam. Deviam ser os recém-nomeados guardas de Saramotai, já que a guarda real havia sido assassinada. O homem que falou segurava uma arma apontada para a minha barriga. Feridas naquela região não eram nada legais. Matavam lentamente. Mas se ela for a Bandida de Olhos Azuis, trabalha para o príncipe rebelde, outra pessoa falou. Isso não significa que está do nosso lado? Essa era a pergunta de um milhão de pessoas. Jeito curioso de tratar um aliado, disse, exibindo as mãos atadas. Um burburinho percorreu a multidão. Aquilo era bom. Significava que eles não eram tão unidos quanto pareciam de fora da sua muralha impenetrável. Então, já que somos todos amigos, que tal me desamarrar para podermos conversar? Bela tentativa, Bandida. Hossam segurou-me mais firme. Não vamos dar-te a chance de botar as mãos numa arma. Ouvi dizer que matou uma dúzia de homens com uma única bala. Eu tinha certeza de que isso não era possível. Mas não precisava de uma arma para derrubar doze homens. Era quase engraçado. Eles haviam usado uma corda para me prender, não o ferro que me tornaria tão humana quanto eles. Daquele jeito, eu poderia erguer todo o deserto contra aquelas pessoas. O que significava que era capaz de causar mais dano de mãos atadas do que com uma arma. Mas o plano não era causar estrago nenhum». In Alwyn Hamilton, A Traidora do Trono, A Rebelde do Deserto 2, 2016/2017, Editora Seguinte, Companhia das Letras, ISBN 978-855-534-029-1.

Cortesia de ESeguinte/CdasLetras/JDACT

sexta-feira, 22 de março de 2019

A Traidora do Trono. Alwyn Hamilton. «Ikar pareceu desapontado. Era apenas uma criança, ansioso para acreditar em todas aquelas histórias, assim como eu quando tinha a sua idade, embora parecesse mais novo do que eu jamais lembrava ter sido»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Príncipe Estrangeiro
«(…) Hossam, disse um homem mais velho do que meus captores, abrindo caminho e analisando com olhos sérios o meu estado lastimável. Ele me encarou de igual para igual, diferente dos demais, sem se deixar cegar pela ansiedade. O que aconteceu? Nós a capturámos nas montanhas. Hossam aproximou-se do homem. Tentou emboscar-nos quando estávamos voltando da negociação pelas armas. Orgulhosos, dois dos homens que nos acompanhavam soltaram as bagagens cheias de armas, como se quisessem mostrar que eu não os havia impedido. Elas não tinham sido fabricadas em Miraji. Eram de Amonpour. Pareciam ridículas, ornadas e esculpidas, feitas por mãos em vez de máquinas, custando o dobro do preço porque alguém se tinha dado ao trabalho de enfeitá-las. Não importava o quanto uma arma era bonita, ela te mataria do mesmo jeito. Aprendi isso com Shazad. Só ela?, perguntou o homem de olhos sérios. Sozinha? Seu olhar voltou-se para mim, como se pudesse extrair a verdade. Como se uma garota de dezassete anos realmente pensasse que poderia enfrentar e vencer meia dúzia de homens com nada além de um punhado de balas. Como se a famosa Bandida de Olhos Azuis fosse idiota. Eu preferia imprudente. Mas mantive a boca fechada. Quanto mais falasse, maior era a probabilidade de dizer algo que se voltaria contra mim.
Fique em silêncio, faça cara feia e tente continuar viva. Se tudo der errado, concentre-se na última parte.
Você é realmente a Bandida de Olhos Azuis? Ikar perguntou, chamando a atenção de todos. Ele havia descido de seu posto de observação para me olhar com cara de idiota junto aos demais. Inclinou a cabeça para a frente por cima do cano da arma, ansioso. Se ela disparasse, arrancaria as suas mãos e parte do seu rosto junto. É verdade o que dizem a seu respeito?
Fique em silêncio. Faça cara feia. Tente continuar viva.
Depende do que dizem. Droga. Não resisti muito tempo. E você não deveria segurar a arma desse jeito. Ikar ajeitou a arma distraído, sem desgrudar os olhos de mim. Dizem que você consegue acertar na testa de um homem no escuro a quinze metros de distância. Que atravessou uma saraivada de balas em Iliaz e saiu de lá com os planos secretos de guerra do sultão. A minha lembrança dos eventos em Iliaz era um pouco diferente. P’ra começo de conversa, eu tinha levado um tiro. E que seduziu uma das esposas do emir de Jalaz enquanto elas visitavam Izman. Aquilo era novidade. Já havia escutado uma versão na qual eu seduzia o próprio emir. Talvez a esposa também gostasse de mulheres. Ou talvez a história tivesse mudado no leva-e-trás, já que muitos boatos julgavam que eu era um homem. Eu já não me vestia como garoto, mas aparentemente precisava ganhar mais algumas curvas para convencer as pessoas de que era mulher. Matou uma centena de soldados gallans em Fahali, prosseguiu Ikar. Suas palavras se atropelavam, ignorando o meu silêncio. E ouvi que escapou de Malal nas costas de um roc azul gigante depois de inundar uma casa de oração. Você não devia acreditar em tudo o que escuta por aí, disse quando ele finalmente parou para respirar, os olhos arregalados como dois louzis de tanto entusiasmo.
Ikar pareceu desapontado. Era apenas uma criança, ansioso para acreditar em todas aquelas histórias, assim como eu quando tinha a sua idade, embora parecesse mais novo do que eu jamais lembrava ter sido. Ele não devia estar ali, segurando uma arma daquela maneira. Mas era isso que o deserto fazia. Transformava as pessoas em sonhadores armados. Passei a língua pelos dentes. E a casa de oração em Malal foi um acidente…, mais ou menos». In Alwyn Hamilton, A Traidora do Trono, A Rebelde do Deserto 2, 2016/2017, Editora Seguinte, Companhia das Letras, ISBN 978-855-534-029-1.

Cortesia de ESeguinte/CdasLetras/JDACT

A Traidora do Trono. Alwyn Hamilton. «Era engraçado como ser bem-sucedida e ser capturada despertavam exactamente a mesma sensação. Hossam empurrou-me à sua frente pela abertura estreita dos portões»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Príncipe Estrangeiro
«(…) Fiz uma careta de dor. Não precisava gritar tão alto. Abra os portões agora mesmo, ou juro por Deus que vou obrigar o teu pai a bater-te com mais força do que ele bate nas ferraduras, até entrar um pouco de juízo na sua cabeça. Hossam? Ikar não baixou a arma de imediato. Parecia muito nervoso, um péssimo sinal para alguém com o dedo no gatilho. Quem é essa aí? Ele apontou a arma na minha direcção, o cano balançando loucamente. Virei o corpo por instinto. Ikar não seria capaz de acertar nem um roc se tentasse, mas eu não podia descartar a hipótese de ser atingida por acidente. Se ele atirasse, era melhor que acertasse no meu ombro do que no meu peito. Essa aqui…, uma ponta de orgulho tremulou na voz de Hossam enquanto erguia o meu rosto como se eu fosse um animal, é a Bandida de Olhos Azuis. Aquilo soou mais impressionante do que costumava ser, deixando um rasto de silêncio. Ikar encarou-nos do alto do muro. Mesmo àquela distância, vi a sua boca abrir e pender por um momento, depois fechar. Abram os portões!, ele finalmente gritou, então desceu correndo. Abram os portões! As enormes portas de ferro moveram-se terrivelmente devagar, lutando contra a areia que se havia acumulado durante o dia. Hossam e os homens que nos acompanhavam empurraram-nos com pressa enquanto as antigas dobradiças gemiam. Os portões não se abriram por completo, apenas o suficiente para passar um de cada vez. Mesmo após milhares de anos pareciam tão fortes quanto nos primórdios da humanidade. Eram de ferro sólido, tão espessos quanto o comprimento dos braços de um homem, e funcionavam graças a algum sistema de pesos e engrenagens que nenhuma outra cidade conseguira duplicar. Não havia como derrubá-los. E não havia como escalar a muralha. Todos sabiam disso.
Parecia que a única forma de entrar na cidade era como uma prisioneira, arrastada pelos portões com alguém segurando o seu pescoço. Que sorte a minha. Saramotai ficava a oeste das montanhas centrais. O que significava que era nossa. Ou pelo menos deveria ser. Após a batalha de Fahali, Ahmed declarou o território como seu. A maioria das cidades tinha jurado fidelidade rapidamente, expulsando das suas ruas os invasores gallans que haviam ocupado aquela metade do deserto por tanto tempo. Conquistámos a confiança das outras sem muita dificuldade. Ali era outra história. Saramotai havia criado as suas próprias leis, levando a rebelião um passo além. Ahmed falava bastante sobre igualdade. O povo local havia decidido que o único modo de alcançá-la era derrubar quem estava acima deles. O único jeito de ficar rico era tomar a riqueza alheia. Então os pobres se voltaram contra os ricos usando o discurso da igualdade de Ahmed como justificativa. Mas Ahmed sabia reconhecer um golpe. Sabíamos pouco a respeito de Malik Al-Kizzam, o homem que tomara Saramotai, além do facto de ter sido um servo do emir. Agora, Malik vivia no palácio e o emir estava morto. Então enviámos pessoas para descobrir mais. E fazer algo, se não gostássemos das notícias. Elas não retornaram.
Aquilo era um problema. Outro problema era como entrar lá para procurá-las. Por isso eu estava ali, com as mãos tão fortemente atadas atrás das costas que já perdiam a sensibilidade, e com uma ferida recém-aberta na clavícula, causada por uma faca que errara por pouco o meu pescoço. Era engraçado como ser bem-sucedida e ser capturada despertavam exactamente a mesma sensação. Hossam empurrou-me à sua frente pela abertura estreita dos portões. Cambaleei e estatelei-me de cara na areia, o cotovelo batendo dolorosamente no ferro enquanto eu desabava. Aquilo doía mais do que eu julgara possível. Um gemido de dor escapou enquanto eu rolava para o lado. A areia grudou em minhas mãos onde o suor se havia acumulado sob as cordas. Então Hossam me agarrou, me botou de pé e continuou empurrando. O portão fechou-se rápido atrás de nós. Era quase como se estivessem com medo. Uma pequena multidão já se havia reunido para observar. Metade portava armas. Uma parte considerável delas estava apontada para mim. A minha reputação realmente me precedia». In Alwyn Hamilton, A Traidora do Trono, A Rebelde do Deserto 2, 2016/2017, Editora Seguinte, Companhia das Letras, ISBN 978-855-534-029-1.

Cortesia de ESeguinte/CdasLetras/JDACT

quinta-feira, 21 de março de 2019

Poesia. António Botto. «Dizes-me adeus? E porquê? Quando voltas? Quando vens?»

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Bebe mais vinho

De Curiosidades Estéticas (1924)

«Bebe mais vinho
E põe
Mais ruge
Na tua boca delgada;
E fuma,
E cai no brocado azul
Desta enorme almofada.
Tens, por vezes,
Um sorriso
Desenhado com tamanha segurança
Como de quem tudo sonda,
Tudo alcança…
Cigarros? Pronto, amor: aqui os tens!
Dizes-me adeus? E porquê?
Quando voltas? Quando vens?»

Conversando a sós contigo

De Piquenas Esculturas (1925)

«Conversando a sós contigo,
Desfruto o prazer imenso
De não pensar no que digo
E de dizer o que penso.
E mais uma vez
Afirmo
Sem receio de que seja desmentido:
A maior felicidade
É ser-se compreendido».
In António Botto

In António Botto, Poesia, Assírio & Alvim, 2018, ISBN 978-972-372-067-9

Cortesia de A&Alvim/JDACT

Poesia. António Botto. «Anda, vem…, porque te negas, carne morena, toda perfume? Porque te calas, porque esmoreces»

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Quem é que abraça o meu corpo
De Canções (1921)
«Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?
És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido».


Anda, vem…, porque te negas
De Canções (1921)
«Anda, vem…, porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha, rosa de lume?
Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.
Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!
E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!
Anda, vem!… Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos…
Tenho saudades da vida!
Tenho saudade dos teus beijos!»
In António Botto

In António Botto, Poesia, Assírio & Alvim, 2018, ISBN 978-972-372-067-9

Cortesia de A&Alvim/JDACT

Poesia. Os Fabulosos. «Este vinho tem valor põe a cabeça contente dá pé leve ao prior…»

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Moda do sr. Prior
«Ai tento, amor não caias
Repara tens pouca escolha
Um anda atrás da saia
Outro descalça a bota
A moça em tudo encalha
Elas têm pouca roda.

Este percebe da poda
Já provou este licor
Dão saias que andam na moda
Ela é de senhor prior
A moça em tudo encalha
Mas não ficou ao dispôr.

Este vinho tem valor
Põe a cabeça contente
Dá pé leve ao prior
Quer bailar com toda a gente.

Escapou-se-lhe o amor
Por entre os dentes de um pente»
In Vitorino

In Os Fabulosos Tais Quais, Edição Sony Music Portugal,

Cortesia de SMPortugal/JDACT

A Fugitiva. Anais Nin. «O basco foi muito gentil. Depositou a sua pequena dádiva em cima da mesa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

(…) Então, de repente, num espasmo, ficava parada. E isso, perversamente no meio da fúria crescente deles, esfriava-os tanto que o desenlace era retardado. Ela tornava-se uma massa de carne tranquila. Começava gentilmente, como se comece um rebuçado antes de adormecer. Então a sua letargia os irritava. Eles tentavam inflamá-la de novo, tocando-a em todos os lugares, beijando-a. Ela se submetia, impassível. O basco aguardava a hora certa. Observou as abluções cerimoniosas de Viviane. Naquele dia, ela estava inchada das muitas investidas. Não importava quão pequena fosse a quantia de dinheiro depositada em cima da mesa para ela, jamais se soube de ela ter impedido um homem de se satisfazer. Os lábios grandes e fartos, excessivamente esfregados, estavam ligeiramente distendidos, e uma leve febre queimava-a. O basco foi muito gentil. Depositou a sua pequena dádiva em cima da mesa. Despiu-se. Prometeu-lhe um bálsamo, um algodão, um legítimo alívio. Aquelas delicadezas fizeram-na baixar a guarda. O basco lidava com ela como se ele fosse uma mulher. Apenas um toquezinho ali, para atenuar, para aplacar a febre. A pele dela era escura como a de uma cigana, muito lisa e limpa, até empoada. Os dedos dele eram sensíveis. Tocou-a apenas por acaso, um roçar, e deitou o sexo em cima da barriga dela como um brinquedo, para ela apenas admirar. O sexo reagiu ao ser abordado. O ventre dela vibrou ao peso dele, ondulando suavemente para senti-lo ali. Como o basco não demonstrava impaciência para deslocá-lo para onde ficaria abrigado, envolvido, ela deu-se ao luxo de se expandir, de ceder. A gula dos outros homens, o seu egotismo, a sua ânsia de se satisfazerem a si mesmos sem considerá-la deixavam-na hostil. Mas o basco era galanteador. Comparou a pele dela a cetim, o cabelo a musgo, o cheiro a perfume de madeiras preciosas. Então colocou o sexo na abertura e disse ternamente: dói? Não vou forçá-lo para dentro se dói. Tamanha delicadeza comoveu Viviane. Ela respondeu: dói só um pouquinho, mas tente. Ele avançou apenas um centímetro de cada vez. Dói? Ofereceu-se para tirar. Então Viviane teve que insistir: só a ponta. Tente de novo. Então a ponta deslizou uns três centímetros, a seguir fez uma pausa. Isso deu a Viviane bastante tempo para sentir a presença, tempo que os outros homens não lhe davam. Entre cada minúsculo avanço para dentro dela, Viviane tinha uma folga para sentir o quanto aquela presença era agradável entre as paredes macias de carne, como se encaixava, nem muito apertada, nem muito frouxa. Ele esperou de novo, depois avançou mais um pouquinho. Viviane teve tempo de sentir como era bom ser preenchida, como a fenda feminina era adequada para prender e manter. O prazer de ter algo ali para prender, trocando calor, misturando as duas humidades. Ele mexeu-se de novo. Suspense. A percepção do vazio quando ele recuou, a carne dela murchou quase que imediatamente. Ela fechou os olhos. A entrada gradual emitia radiações por tudo à volta, correntes invisíveis alertando as regiões mais profundas do ventre sobre a explosão que estava a caminho, algo feito para encaixar-se no túnel de paredes macias e ser devorado pelas suas profundezas famintas, onde nervos inquietos esperavam. A carne dela rendeu-se mais e mais. Ele seguiu em frente. Dói? Ele tirou. Ela ficou decepcionada e não quis confessar como murchava por dentro sem a presença expansiva. Foi forçada a suplicar: enfie de novo. Então ele colocou até a metade do caminho, onde ela podia sentir e, contudo, não podia apoderar-se dele, onde não podia prendê-lo de verdade. Ele agiu como se fosse deixá-lo ali no meio do caminho para sempre. Ela queria mexer-se na direcção dele e engolfá-lo, mas se conteve. Teve vontade de gritar. A carne que ele não tocava estava ardendo pela proximidade. No fundo do ventre jazia a carne que exigia ser penetrada. Curvava-se para dentro, aberta para sugar. As paredes de carne moviam-se como anémonas do mar, tentando arrastar o sexo para dentro pela sucção, mas ele estava perto o bastante apenas para enviar correntes de prazer excruciante. Ele mexeu-se de novo, observando o rosto dela. Então viu a boca aberta. Agora ela queria erguer o corpo, pegar o sexo dele por completo, mas esperou. Por meio daquela lenta provocação, ele a deixara à beira da histeria. Ela abriu a boca como que para revelar a receptividade do ventre, a fome, e só então ele arremeteu até ao fim e sentiu as contracções dela». In Anais Nin, A Fugitiva, L&PM Pocket, Brasil, 2012, ISBN 978-852-542-654-3.

Cortesia de L&PM/JDACT