sábado, 7 de dezembro de 2019

A Princesa Determinada. Catarina de Aragão. Philippa Gregory. «Oh, não sei... Tenho a certeza de que todos repararão no belo rapaz que sois, elogiou ela, enquanto ele parecia satisfeito. Todos gritam sempre mais alto por mim…»

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«(…) É evidente que a princesa não pode montar hoje, decidiu o duque de Buckingham. Como vos disse. Ela tem de ir na liteira. Henrique encolheu os ombros. Bem, não sabia. Ninguém me disse o que iríeis vestir. Então posso ir à frente? Os meus cavalos serão muito mais rápidos do que as mulas. Podeis ir à frente, mas não desaparecer de vista, decidiu Catarina. Já que devíeis escoltar-me, deveis estar comigo. Tal como eu disse, observou o duque de Buckingham tranquilamente, trocando um pequeno sorriso com a princesa. Esperarei em todos os cruzamentos, prometeu Henrique. Vou escoltar-vos, não vos esqueçais. E no dia do vosso casamento, irei escoltar-vos novamente. Tenho um fato branco com costuras douradas. Que bonito que ides estar, disse ela, vendo-corar e prazer. Oh, não sei... Tenho a certeza de que todos repararão no belo rapaz que sois, elogiou ela, enquanto ele parecia satisfeito. Todos gritam sempre mais alto por mim, confidenciou. E agrada-me saber que as pessoas gostam de mim. O Pai diz que a única forma de manter um trono é ser amado pelo povo. Foi o erro do rei Ricardo, diz o Pai. A minha mãe diz que a única forma de mantermos o trono é fazermos a obra de Deus. Oh, suspirou ele, claramente pouco impressionado. Bem, países diferentes, calculo. Devemos, então, viajar juntos, disse ela. Vou dizer aos que me acompanham que estamos prontos para prosseguir. Eu digo-lhes, insistiu ele. Sou eu quem vos escolta. Eu darei as ordens e vós deveis descansar na liteira, lançou-lhe um olhar rápido de soslaio. Quando chegarmos a Lambeth, devereis permanecer na vossa liteira, até eu vos chamar. Eu abrirei as cortinas e levar-vos-ei para dentro, e vós devereis segurar a minha mão. Gostaria muito, garantiu-lhe e voltou a ver o seu rosto enrubescer. Voltou-se bruscamente e o duque fez-lhe uma vénia, sorrindo.
É um rapaz muito inteligente, muito impaciente, afirmou. Tendes de perdoar o seu entusiasmo. Foi muito mimado. É o preferido da mãe?, perguntou ela, pensando na adoração que a sua própria mãe sentia pelo único filho. Pior ainda, respondeu o duque com um sorriso. A mãe adora-o de forma adequada; mas é o menino absoluto dos olhos da avó, e é ela quem manda na corte. Felizmente é um bom rapaz e tem bons modos. Tem uma natureza demasiado boa para se deixar estragar com mimos e a mãe do rei equilibra os seus favores com reprimendas. É uma mulher indulgente?, perguntou ela. Ele deu uma risada. Só com o filho, afirmou. Os restantes consideram-na mais majestática do que mãe. Podemos voltar a falar em Lambeth?, pediu Catarina, tentada a saber mais sobre esta família de que iria fazer parte. Em Lambeth e Londres, terei todo o orgulho em servir-vos, disse o jovem, com os olhos calorosos de admiração. Tendes de me dar as ordens que entenderdes. Serei vosso amigo na Inglaterra, podeis contar comigo.

Tenho de ter coragem, sou filha de uma mulher audaz e preparei-me para isto toda a vida. Quando o jovem duque falou comigo, daquela forma tão simpática, não deveria ter sentido vontade de chorar, foi um disparate. Tenho de me controlar e sorrir. A minha mãe disse-me que, se eu sorrir, ninguém saberá que sinto saudades de casa ou medo, vou sorrir e sorrir, por muito adversa que a situação pareça. E apesar de esta Inglaterra agora me parecer estranha, habituar-me-ei. Aprenderei os seus costumes e sentir-me-ei em casa aqui. Os seus modos diferentes tornar-se-ão os meus modos, e as piores coisas, as que não suporto mesmo, mudá-las-ei, quando for rainha. E de qualquer modo, será melhor para mim do que foi para Isabel, a minha irmã. Só esteve casada alguns meses e, depois, teve de voltar para casa, viúva. Será melhor para mim do que para Maria, que teve de seguir Isabel para Portugal, melhor para mim do que para Joana, que está doente de amor pelo marido, Filipe. Terá de ser melhor para mim do que foi para João, o meu pobre irmão, que morreu tão cedo após encontrar a felicidade. E será sempre melhor para mim do que para a minha mãe, cuja infância foi passada no fio da navalha.
É evidente que a minha história não será como a dela. Eu nasci numa época muito menos emocionante. Espero entender-me com o meu marido Artur e com o seu estranho e estridente pai, e com o seu pequeno irmão, doce e fanfarrão. Esperarei que a sua mãe e avó me amem ou pelo menos, me ensinem como ser uma Princesa de Gales ou uma Rainha de Inglaterra. Não terei de cavalgar em ataques desesperados durante a noite, de uma fortaleza cercada para outra, como a minha mãe. Não terei de empenhar as minhas próprias jóias para pagar a soldados mercenários, como ela. Não terei de partir a cavalo de armadura para unir as minhas tropas. Não serei ameaçada pelos cruéis Franceses, de um lado, e pelos hereges Mouros, por outro, como a minha mãe. Casarei com Artur, e quando o pai dele morrer, que deverá acontecer breve, porque ele é tão velho e tão mal-humorado, seremos Rei e Rainha da Inglaterra e a minha mãe reinará na Espanha, enquanto eu reino na Inglaterra e ver-me-á manter a Inglaterra na aliança com a Espanha, como lhe prometi vai ter-me a manter o meu país num tratado inquebrável com o seu vera que estarei em segurança para sempre». In Philippa Gregory, Catarina de Aragão, A Princesa Determinada, Livraria Civilização Editora, 2006, ISBN 978-972-262-455-8.
                                                                                      
Cortesia CivilizaçãoE/JDACT

Portugal Terra de Mistérios. Paulo Alexandre Loução. «Conta a estoria que, despois que se dom Egas Moniz foy pera Tolledo, que o principe se partyo de Guymarõaes e andou per toda sua terra e requereo todas suas fortellezas e açalmouas de guisa…»

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O Mistério da Cruz Templária
«(…) Na exposição que faremos de seguida, daremos relevo à procura da origem dos cinco escudetes em cruz e aos besantes em aspa que se encontram em cada um deles. Os castelos foram incluídos nas armas nacionais por Afonso III, devido a ser neto de Afonso VIII de Castela, que tinha por brasão precisamente um castelo. Este facto foi devidamente demonstrado por Menéndez-Pidal Navascués. Segundo as regras da heráldica, o conde de Bolonha, ao tornar-se rei de Portugal, devia abdicar dos castelos nas armas, mas não o fez. Segundo os heraldistas modernos, as cores do campo do escudo, prata, dos escudetes, azul, e dos besantes, prata, terão origem na ascendência capetiana (francesa) dos primeiros reis portugueses. O termo quina deriva da palavra latina que designava cinco, no plural neutro; e é citado pela primeira vez no século XV, numa das crónicas breves de Santa Cruz de Coimbra. Veremos mais adiante que o vocábulo besante, também ele tardio, significa moeda de ouro (ou de prata) bizantina.

Segundo uma tradição tardia e, portanto, não conclusiva, as cinco quinas teriam tido origem na célebre Batalha de Ourique, durante a qual teria acontecido a aparição de Jesus Cristo a Dom Afonso Henriques. Faremos uma breve síntese histórica da evolução documental relativa ao milagre de Ourique. Antes, porém, queremos deixar claro mais uma vez que a nossa postura filosófica de procura da verdade (buscamo-la, não a detemos) está naturalmente livre de quaisquer crenças religiosas ou de movimentos historiográficos de cariz político, o que não exclui o nosso respeito pelas convicções de cada indivíduo. Por essa razão, a par com a transmissão do nosso ponto de vista sobre o mito de Ourique e a origem das armas nacionais, procuraremos divulgar, de forma muito sintética, a evolução do mesmo até ao início do século XVII, com o objectivo de o leitor poder tirar as suas próprias conclusões, o que aliás é escopo de todos os nossos ensaios.
Vários documentos coevos (século XII) comprovam a existência da Batalha de Ourique e o seu forte impacto na época. Na Vida de S. Teotónio, redigida por um frade crúzio na segunda metade do século XII, podemos ler:

Da mesma maneira o fes el Rey quando com aiuda do mui alto Sñor e socorro do beauinturado apostolo Santiago, cuia solemnidade emtaõ era, no campo Dourique, desbaratou sinco Reis mouros, com infinita barbara multidaõ dalem, e daquem mar que comsigo confederada traziaõ, pera de todo o destruirem (...).

A batalha terá acontecido no dia 25 de Julho de 1139 (Dia de Santiago), precisamente no ano em que Afonso Henriques passa a designar-se como Rex nos documentos do reino, facto que está sumamente comprovado. Paralelamente a esta versão clerical, é natural que outra fonte narrativa contemporânea, A Gesta de D. Afonso Henriques, divulgasse a versão nobiliárquica. É, no entanto, plausível que Pedro Afonso, conde de Barcelos, tivesse recolhido dessa Gesta os elementos para narrar o episódio de Ourique na sua Crónica Geral de Espanha de 1344, que foi escrita dois séculos após o facto histórico. Vamos citar o episódio da célebre contenda, tendo por base a segunda redacção desta crónica, efectuada em 1400:

Como o principe dom Affomso foy feito rey e venceeo a batalha d'Ourique:
Conta a estoria que, despois que se dom Egas Moniz foy pera Tolledo, que o principe se partyo de Guymarõaes e andou per toda sua terra e requereo todas suas fortellezas e açalmouas de guisa que nuca lhe acontecesse outro tal desavisamento. E, despois que todo esto ouve feito, ajuntou todas suas gentes e foy sobre os mouros e correolhes a terra toda des Coimbra ataa Santaretn e desy passou o Tejo e correo toda a terra ataa campo d’Ourique, honde achou el rey Ismar que a essa razõ era rey da Estremadura cõ cinquo reys que o viinhã buscar, sabendo o grande dãpno que lhes fazia em sua terra. E entrou com elles em batalha no logar que he dito Crasto Verde e venceos e matou e prendeo a mayor parte de todas suas gentes».
[…]
In Paulo Alexandre Loução, Portugal Terra de Mistérios, Edição Ésquilo, 2001, ISBN 972-860-504-8.

Cortesia de EÉsquilo/JDACT

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Portugal Terra de Mistérios. Paulo Alexandre Loução. «… algumas das propriedades geométricas da cruz orbicular. Por agora, cabe-nos recordar que a sua construção geométrica resulta da intersecção de um círculo central com quatro círculos laterais»

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O Mistério da Cruz Templária
«(…) Como é óbvio, ambos se referiam à geometria e matemática sagradas, de síntese e profundamente simbólicas. Como em muitas outras facetas da ciência das coisas divinas, uma parte deste conhecimento foi assimilada pelos cristãos dos primeiros séculos. Isto aconteceu de tal forma que os cristãos da facção mais fanática se viram obrigados a afirmar que a ciência milenar dos mistérios foi uma invenção do Diabo que se quis antecipar a Deus. O Abade Martigny não hesitou em afirmar: não há dúvida de que, nas Santas Escrituras, em razão do duplo sentido que encerram, os números têm frequentemente um significado simbólico. Podemos invocar aqui o testemunho de Filon, o Judeu, assim como o de S. Clemente de Alexandria, a epístola atribuída a São Barnabé, e o do Pastor de Hermas. Quem não sabe que Santo Ambrósio e Santo Agostinho empregavam a cada passo, nas suas homilias, o simbólico sentido dos números? Prova evidente de que tal linguagem era familiar à maior parte dos fiéis, pois, se assim não fosse, as explicações evangélicas dos doutores da Igreja teriam sido carta fechada para eles.
Já focámos, em obras anteriores, algumas das propriedades geométricas da cruz orbicular. Por agora, cabe-nos recordar que a sua construção geométrica resulta da intersecção de um círculo central com quatro círculos laterais.

A Origem das Cinco Quinas e o Milagre de Ourique
No momento em que escrevemos estas linhas, as altas individualidades de Portugal estão empenhadas em distribuir massivamente, nas escolas, um chamado kit patriótico que contém os símbolos da nação: a bandeira e o hino. Estamos de acordo com o director de um dos chamados diários de referência, quando sugere que a esta iniciativa outras se poderiam suceder no sentido de uma mais ampla divulgação da história de Portugal. De facto, só com uma real consciência histórica, a começar pelos líderes, é que acções como esta perderão o seu ar ridículo. E, por exemplo, talvez não se tenha hoje a devida consciência de que, nos nossos dias. Portugal é praticamente o único país da Europa que tem uma bandeira com símbolos multisseculares, um dos quais, as cinco quinas, é utilizado nas armas do reino logo desde o século XII. Cabe perguntar: porquê? Porque tudo aquilo que não tem uma forte carga mítico-espiritual acaba por se diluir no tempo como pó da história.
Outro símbolo importantíssimo que a bandeira actual contém é a esfera armilar, que analisaremos posteriormente. A origem das cinco quinas é um mistério. Existem várias teorias, mas nenhuma delas é conclusiva. Contudo, pelo menos a partir do reinado de Sancho I, jamais as cinco quinas deixaram de ser o símbolo por excelência da nação portuguesa, figurando em todas as bandeiras. Foram esculpidas na grande maioria dos monumentos nacionais e, em conjunto com a Cruz de Cristo, foram levadas pelos portugueses aos quatro cantos do mundo. Este símbolo foi considerado um talismã mágico-religioso pelos portugueses da Idade Média e Renascimento». In Paulo Alexandre Loução, Portugal Terra de Mistérios, Edição Ésquilo, 2001, ISBN 972-860-504-8.

Cortesia de EÉsquilo/JDACT

A Feiticeira de Florença. Salman Rushdie. «Ao amanhecer, os assombrosos palácios de arenito da nova cidade da vitória de Akbar, o Grande, pareciam feitos de fumaça vermelha. A maior parte das cidades começa dando a impressão de ser eternas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mas mesmo ao final de seu grande furto Uccello não estava contente, porque o maior tesouro de todos lhe escapara. Era tudo o que podia fazer para esconder a sua agitação. O acaso havia colocado uma grande oportunidade ao seu alcance e ele não podia deixar que escapasse. Mas onde estava a coisa? Ele tinha olhado cada centímetro dos aposentos do capitão e ela continuava escondida. Maldição! Será que o tesouro estava sob encantamento? Teria sido feito invisível para assim escapar dele? Depois da breve parada do Scáthach em Diu, o navio partiu depressa para Surat, de cuja cidade (recentemente alvo de uma visita punitiva do próprio imperador Akbar) lorde Hauksbank planeava iniciar a sua viagem por terra à corte Mogol. E na noite em que chegaram a Surat (que estava em ruínas, ainda fumegante da ira do imperador), quando Benza-Deus Hawkins cantava com toda alma e a tripulação estava bêbada de rum, celebrando o fim da longa viagem por mar, o buscador debaixo do convés por fim encontrou o que procurava: o oitavo painel, um a mais que o número mágico, sete, um a mais do que qualquer ladrão podia esperar. Por trás dessa porta derradeira estava a coisa que ele procurava. Então, depois de um último acto, ele se juntou aos festejadores no convés e cantou e bebeu com mais ânimo que qualquer homem a bordo. Porque possuía o segredo de permanecer acordado quando os olhos de nenhum outro homem conseguiam ficar abertos, chegou o momento, nas primeiras horas da manhã, em que pode deslizar para terra num dos escaleres do navio e desaparecer, como um fantasma, Índia adentro. Muito antes de Benza-Deus Hawkins dar o alarme, ao descobrir lorde Hauksbank desse Nome, de lábios azulados no seu último catre de navio, liberto para sempre dos tormentos da sua voraz finocchiona, Uccello di Firenze havia desaparecido, deixando para trás apenas esse nome como a pele abandonada de uma cobra. Junto ao peito do viajante sem nome estava o tesouro dos tesouros, a carta de próprio punho de Elizabeth Tudor da Inglaterra para o Imperador da Índia, que seria o seu abre-te-sésamo, o seu passaporte para o mundo da corte mughal. Ele era o embaixador da Inglaterra agora.

Ao amanhecer, os assombrosos palácios de arenito
Ao amanhecer, os assombrosos palácios de arenito da nova cidade da vitória de Akbar, o Grande, pareciam feitos de fumaça vermelha. A maior parte das cidades começa dando a impressão de ser eternas quase desde que nascem, mas Sikri iria sempre parecer uma miragem. Quando o sol chegava ao zénite, a grande clava do calor diurno se abatia sobre as pedras das ruas, ensurdecendo os ouvidos humanos para qualquer som, fazendo o ar tremer como um antílope assustado, enfraquecendo a fronteira entre a sanidade e o delírio, entre o inventado e o real. Até mesmo o imperador sucumbia à fantasia. Rainhas flutuavam dentro de seus palácios como fantasmas, sultanas rajput e turcas brincando de pegador. Uma dessas personagens reais não existia de verdade. Era uma esposa imaginária, sonhada por Akbar do jeito que crianças solitárias sonham com amigos imaginários, e apesar da presença de muitas consortes vivas, embora flutuantes, o imperador acreditava que as esposas reais é que eram fantasmas e a amada não existente é que era real. Ele lhe deu um nome, Jodha, e nenhum homem ousava contradizer-lhe. Dentro da privacidade dos aposentos das mulheres, dentro dos corredores sedosos do seu palácio, a influência e o poder dela cresciam. Tansen escreveu canções para ela e no estúdio-escritório sua beleza era celebrada em pinturas e versos. O próprio mestre Abdus Samad, o persa, a retratou, pintando-a de memória de um sonho sem nunca ter olhado o seu rosto, e quando o imperador viu o trabalho bateu as mãos diante da beleza que brilhava na página.
Você captou tudo dela, a vida, gritou, e Abdus Samad relaxou e parou de achar que a sua cabeça estava um tanto frouxa no pescoço; e depois que essa obra visionária do mestre do atelier do imperador foi exposta, toda a corte sabia que Jodha era real, e os maiores cortesãos, os Navratna, ou Nove Estrelas, todos admitiram não apenas a sua existência, mas também a sua beleza, a sua sabedoria, a graça dos seus movimentos e a maciez de sua voz. Akbar e Jodhabai! Ah, ah! A história de amor daquela era. A cidade por fim foi terminada, a tempo do aniversário de quarenta anos do imperador». In Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença, Publicações dom Quixote, 2008, ISBN 978-972-203-692-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Monacato Feminino e Domínio Rural. O Património do Mosteiro de Santa Maria de Almoster no século XIV. José Manuel H Varandas. «A mancha de terras, arduamente domesticadas ao longo de todo o século XIII, vai sendo paulatinamente consumida pelos matos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) É do senso comum afirmarmos que os séculos finais da Idade Média se caracterizaram por uma profunda e generalizada crise. As sucessivas análises feitas sobre os documentos sugerem, embora não de forma pacífica, que o problema fundamental radica numa grave crise de crescimento, sujeita a constantes reajustamentos demográficos e reordenações do processo produtivo, que arrastam consigo modificações profundas nos vários grupos sociais, muitas vezes desenvolvidas de forma violenta e que desorganizam por completo o tradicional modelo político-económico dos séculos anteriores. O século XIV conhece fortes contracções demográficas que, aliadas à consolidação das estruturas urbanas directamente vocacionadas para um modelo de economia de mercado, condicionam, de forma definitiva, o velho mundo rural. É a aristocracia um dos grupos sociais mais afectados por estes tempos de crise. A constante atracção que os núcleos urbanos exercem sobre os trabalhadores rurais provoca um exaurir de forças no trabalho da terra. Os campos dos nobres vão-se despovoando, abandonando estes a constante luta pelo arroteamento, garantia do aumento da produção. Com toda a indiferença, como só a natureza é capaz, observa-se a vingança do saltus sobre o ager.
A mancha de terras, arduamente domesticadas ao longo de todo o século XIII, vai sendo paulatinamente consumida pelos matos daninhos, afastado que está agora o seu supremo predador: o Homem. Este abandono dos espaços aráveis precipita a queda dos rendimentos, debilitando os senhorios, especialmente os eclesiásticos que, não poucas vezes, procuram o subsídio régio. O que aliás Almoster faz amiúde encontrando quase sempre um apoio do monarca, gerador de desconforto nas duas comunidades vicinais mais próximas: Alenquer e Santarém. O desenvolvimento do senhorialismo e das estruturas municipais precipita, nestes finais do mundo medievo, uma rápida cristalização da organização social do espaço rural. Privilégios e formas de dependência são cada vez mais complexos, condicionando os homens e hierarquizando os espaços. Os homens dos núcleos urbanos, fossem do rei, da nobreza ou do clero, possuem cada vez mais o poder de intervir e condicionar a realidade campesina.
Em Portugal são as décadas de trinta e quarenta que tornam visíveis os sintomas da crise. A grande pestilência que começa em 1348 e se prolonga até aos primeiros meses do ano seguinte, teve o especial condão de acelerar a mortalidade por todo o nosso País. Não é, todavia, o único agente. Deve ser associada a frequentes surtos de peste surgidos regularmente até ao fim do século XIV. As guerras contra Castela e desequilíbrios climáticos e ecológicos, que afectaram de forma traumatizante toda a Europa cristã, são outras variáveis a ter em conta no diagnóstico da crise. O mosteiro de Almoster é um destes senhorios afectados pela crise que durante todo o século XIV se abate sobre Portugal procuram formas e processos de subsistência que lhe permitam lutar contra esta fase de retracção. Visando ser um estudo sobre a propriedade da casa monacal de Almoster, desde o período da sua formação até aos primeiros tempos do reinado de João I, este trabalho não pode, obviamente, ser encarado como uma monografia total sobre a importância daquele mosteiro medieval, nem sequer, como uma aproximação a tal objectivo. Tal facto, contudo, não impede que os resultados obtidos, sirvam como indicadores para um conhecimento, que apesar de relativo, nos pode permitir sondar os aspectos de uma realidade que se prevê mais complexa». In José Manuel H Varandas, Monacato Feminino e Domínio Rural, O Património do Mosteiro de Santa Maria de Almoster no século XIV, 1995, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, Wikipédia.

Cortesia de FLetras/ULisboa/JDACT

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Aprendendo a Seduzir. Patrícia Cabot. «Droga! Ela colocou o outro cotovelo, agora descansando o queixo nas duas mãos. O que ela iria fazer? A coisa correcta…»

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Londres. Inglaterra. Maio de 1870
«(…) Mas este pensamento deixou-a mais fraca fisicamente que nunca, e ela estava feliz por estar sentada. Ela não gostava de armas, e ela nunca poderia se imaginar atirando em alguém, nem mesmo lady Jacquelyn Seldon, que bem que merecia. Além disso, ela disse a si mesma, mesmo que eu pudesse atirar nela, o que eu positivamente não poderia, eu não iria. Qual seria o beneficio? Eu iria apenas ser presa. Caroline, encontrando um cristal perdido na sua saia, puxou-o distraída. E então eu iria que ir p’ra cadeia. Caroline sabia melhor que ela gostaria de saber sobre cadeia, porque a sua melhor amiga Emmy era membro da Sociedade Londrina pelo Voto da Mulher (London society for women’s suffrage} e havia sido presa várias vezes por entrar escondida nas carruagens de vários membros do parlamento. Caroline não queria ir p’ra prisão, que Emmy havia descrito p’ra ela em todos os detalhes, mas do que ela iria querer disparar uma bala contra qualquer pessoa.
E supondo ela pensou que eles me considerem culpada. Eu seria enforcada. E pelo quê? Por atirar em lady Jacquelyn? Não seria suficiente. Caroline não tinha nada em particular contra lady Jacquelyn. Lady Jacquelyn havia sempre sido perfeitamente sociável com Caroline. De verdade, Caroline decidiu, se ela fosse atirar em alguém, algo que ela não ia fazer, claro, seria Hurst. Porque, não somente uma hora atrás ele havia estado surrando na orelha de Caroline que não podia esperar para a noite do seu casamento, que estava há apenas um mês. Bem, evidentemente ele estava tão impaciente por isso que ele foi forçado a procurar outra pessoa p’ra poder ensaiar. Bastardo Traidor! Caroline tentou pensar noutros xingamentos que ela havia escutado seu irmão mais novo Thomas e seus amigos chamarem uns aos outros. Ah, sim, Whoremonger. Seria óptimo para aquele whoremongering bastardo traidor se eu atirasse nele! E então ela sentiu uma culpa por apenas pensar nisso. Porque era claro, ela sabia perfeitamente o quanto ela devia a Hurst. E não apenas por o que ele havia feito por Tommy, também, mas porque de todas as garotas de Londres, ele havia escolhido ela para casar, ela para ser a receptora daqueles, devagar, sedutores beijos. Ou pelo menos, era o que ela pensava até recentemente. Agora ela se dava conta, não era ela de longe a única receptora de tais beijos, mas que os que ela havia recebido eram bem diferentes do que os que lady Jacquelyn estava acostumada.
Droga! Ela colocou o outro cotovelo, agora descansando o queixo nas duas mãos. O que ela iria fazer? A coisa correcta, claro, seria pedir p’ra Hurst cancelar. O marquês era invariavelmente correcto em todas as suas actividades, bem, com excepção dessa, claro, e então Caroline pensou que não era racional esperar que ele acabasse o noivado, poupando-a do embaraço. Querida ela o imaginou dizendo eu sinto muito, mas você vê, parece que eu conheci uma garota que eu gosto bem mais do que de você...
Mas não. O marquês de Winchilsea não era nada educado. Ele provavelmente diria algo como, Caroline, meu docinho, não me peça pra explicar o porquê, mas eu não posso seguir com isso. Você entende, não entende, old sport? E Caroline iria dizer que ela entende. Porque Caroline era um old Sport. Lady Jacquelyn era uma mulher atraente, que cantava e tocava a harpa lindamente, tão talentosa quanto era amável. Ela iria ser uma esposa maravilhosa para qualquer homem, apesar dela não ter dinheiro, claro. Todos sabiam disso. Os Seldons. O pai de lady Jacquelyn havia sido o 14º duque de Childes, eram uma ancestral e bem respeitada família, mas ele não tinha um centavo em seu nome, apenas umas poucas casas e umas avenidas ou duas aqui e ali. Hurst, cuja família era tão nobre, mas também tão pobre, ter escolhido ele para se alinhar com os Seldons não foi surpreendente, mas Caroline não estava certa que era a coisa mais prudente que ele tinha feito. Do que ele e lady Jacquelyn imaginavam viver, afinal? Porque a menos que eles arrendassem todas aquelas magníficas propriedades para alguns americanos ricos, eles não tinham qualquer fonte de rendimento para falar. Mas o que é que importa o rendimento para duas pessoas apaixonadas? Não era problema de Caroline, afinal, como o par conseguiria. Seu problema era este: o que ela ia dizer p’ra sua mãe?» In Patrícia Cabot, Aprendendo a Seduzir, 2001, Editorial Planeta, 2010, Editorial Essência, 2012 / 2016, ISBN 978-854-220-677-7.

Cortesia de EPlaneta/EEssência/JDACT

D. Leonor. A Triste Rainha. João Silva Sousa. «Dona Leonor ou a triste Rainha encarregou-se de ajudar a curar a doença do marido, da educação dos filhos cuja missão acabou por lhe ser retirada, passando-se para Castela…»

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«Portugal teve esplêndidas rainhas que souberam ajudar os seus maridos na governação do reino, através de conselhos adequados e na educação dos filhos. Nunca é demais dizer-se que, por detrás de um bom rei, há sempre uma grande rainha. E exemplos disso bem nossos conhecidos estão Filipa de Lencastre, Leonor de Aragão, de quem vamos falar hoje, e uma Infanta que, por acaso, nunca chegou a rainha mas que valeu por dois ou três do seu marido: Beatriz, mãe de João, Diogo e do rei Manuel I. À morte do Infante Fernando, dona Beatriz foi tutora e curadora dos filhos e dos bens destes, e uma das mais exímias administradoras dos bens da Família, tendo-se preocupado, inclusivamente, com a gestão das ilhas dos Açores e da Madeira. Dona Leonor ou a triste Rainha encarregou-se de ajudar a curar a doença do marido, da educação dos filhos cuja missão acabou por lhe ser retirada, passando-se para Castela, por razões de Estado e rivalidades entre partidos políticos, encabeçados por importantes senhores feudais no reino, entre 1433 e 1445». In Reumo

«Não interessa aqui referir as conjunturas políticas e económicas que o Reino atravessava desde os finais do governo de Fernando I. São por demais sabidas, pois muitos autores têm-se referido a elas. Mas foi, em grande parte, neste ambiente de constante desequilíbrio que nasceu o infante Duarte, o terceiro filho do rei João I, o primeiro, entre os vivos, e lhe veio suceder no trono, em 1433.[João I teve de dona Filipa de Lencastre infanta Branca, nascida em Santarém, a 30 de Julho de 1388, vindo a falecer em Março de 1389; acha-se sepultada na capela-mor da Sé de Lisboa; ainda, antes de Duarte, infante Afonso, nascido igualmente em Santarém, a 30 de Julho de 1390 e falecido a 22 de Dezembro de 1400. Foi sepultado na Sé de Braga; o terceiro, primeiro entre os vivos e sucessor do rei, foi o infante Duarte, que herdou a Coroa]. Parece ter sido associado ao governo do pai por 1411-1412, teria, então, 20 ou 21 anos, o que, de facto, para certos casos, seria o tempo de atingir-se a Maioridade [acerca da maioridade, o nosso especialista Martim Albuquerque tem sérias dificuldades em obter um número que corresponda aquela: os catorze e os vinte e cinco anos constituem os dois marcos em que o problema da menoridade do rei se moveu; não conhecemos, de facto, quem defendesse um termo da menoridade inferior aos catorze anos ou superior aos vinte e cinco; entre os dois limites assinalados, todavia, oscilaram os factos e a doutrina].
Oliveira Martins, em Os Filhos de D. João I, traça o retrato do herdeiro, da maneira mais infeliz possível, comparando a sua fragilidade e depressão continuada com a fortaleza de ânimo e de espírito dos demais Príncipes seus irmãos. Com efeito, Duarte I mostrava aquela virtuosa abnegação e a passividade que o matou. O rei tinha na sua virtude o quer que é enfermiço e feminino, a quem faltava a energia e a audácia do pai, baseando-se na doença que o Infante contraiu e a que se refere no Leal Conselheiro. E nas compreensíveis indecisões, antes e após o desastre de Tânger, o biógrafo não hesita em qualificar o rei de homem sem vontade própria, sem energia, e demasiado escrupuloso. Uma depressão, uma forte crise de nervos, a ideia de suicídio… abateram sobre ele muito novo. Não era fácil carregar sobre os ombros uma missão que herdaria do progenitor, só porque fora o primeiro varão a sobreviver, no elenco dos oito legítimos e dos seis vivos. A situação europeia e as eminentes guerras com Castela travadas por convénios de pazes sucessivos devem ter contribuído para um sério estado de esgotamento [o Infante Pedro, de Bruges, escrevia-lhe, entre muitos outros conselhos que lhe dera que se porventura sentirdes vossa vontade cansada e enfraquecida com o peso dos grandes cargos e não ligeiros de remediar, oferecei-lhe, ao Conselho dos seus ministros, os muitos maiores que el-rei vosso pai e outros príncipes passaram e passam e esforçai-vos no muito siso e virtude que vos Deus deu com que sois abastante para sofrerdes tanto como o quer no mundo mais sofreu]. Podia, inclusive, nem reunir as condições necessárias para reinar dado que, à época, era tão-só necessário ser-se o filho mais velho para o fazer. O resultado de Tânger, em 1437, não lhe permitiu enfrentar a realidade e pô-lo num estado de acabamento rápido o que fez surpreender os seus mais ligados. Morreu em 1438». In João Silva Sousa, D. Leonor, A Triste Rainha, FCSH da UNdeLisboa, Wikipedia.

Cortesia da FCSH/UNL/JDACT

Palácio Sousa Calhariz. Palácio Sobral. Edifício da Caixa Geral de Depósitos. CGD do Calhariz. Inês Pais. «A fachada principal, voltada a S., divide-se em três panos. O pano central, enquadrado por pilastras, avança ligeiramente e corresponde ao eixo de ligação entre os dois palácios»

Cortesia de wikipedia, monumentos e jdact

Com a devida vénia à Direcção-Geral do Património Cultural, Ministério da Cultura

Palácio Sobral
«Arquitectura residencial, neoclássica. Palácio urbano de planta rectangular, de cobertura alteada em mansarda, com fachadas rebocadas e pintadas, rematada por cornija sobrepujada por beiral, primeiro piso revestido a placagem de cantaria e restantes três pisos divididos por friso de cantaria. O ritmo de vãos é regular, com molduras de cantaria essencialmente rectilínea. Animação da fachada posterior conseguida mediante introdução de pilastras. O esquema compositivo das fachadas segue moldes neoclássicos, de grande austeridade decorativa, cingindo-se os ornamentos aos portais principais, emoldurados por colunas dóricas, sobre as quais se sustenta o balcão de cantaria do piso superior. Esta atenção dada ao portal e o total despojamento ornamental dos panos de fachada é comum a muitos palácios lisboetas, correspondendo a uma linguagem que remonta ao século XVII.

Descrição
Planta rectangular, de massa paralelepipédica, resultante da junção de dois palácios através de passadiço ao nível dos pisos superiores da fachada principal, sobre arco atravessado pela rua. O edifício O. Ver Observação1, de planta rectangular organiza-se em torno de um pátio central, enquanto que o edifício E. Ver Observação2, de maiores dimensões, se organiza em torno de dois pátios rectangulares. Coberturas diferenciadas, de telhados de quatro águas, alteado em mansarda, onde se abrem, a ritmo regular, águas-furtadas. Fachadas divididas em quatro registos, com excepção da fachada posterior de três registos. Embasamento e primeiro piso revestido a cantaria de calcário e restantes rebocados e pintados de rosa claro. Apresenta marcação de registos através de friso ao nível do terceiro e quarto registos através de frisos de cantaria, e pilastras nos cunhais. Remate em cornija sobrepujada por beiral. A fenestração, correspondente entre andares, faz-se a ritmo regular, apresentando no primeiro piso janelas de peitoril á face, guarnecidas por gradeamento em ferro forjado; no segundo piso janelas de peitoril de moldura de cantaria recta com avental; no terceiro piso janelas de sacada, assente em pequenas mísulas, com gradeamento de ferro forjado e moldura de cantaria recta, rematada por cornija recta; o quarto piso corresponde a andar em sobreloja, com janelas de moldura recta de cantaria. A fachada principal, voltada a S., divide-se em três panos. O pano central, enquadrado por pilastras, avança ligeiramente e corresponde ao eixo de ligação entre os dois palácios. É composto por grande arco, que se prolonga até á altura do segundo piso, sobre o qual se rasga janela de sacada, de moldura recta, rematada por cornija e com balcão em cantaria. Ao nível do quarto piso abre-se sobreloja, sobrepujada por cornija e remate em empena triangular. O pano esquerdo estende-se á largura de sete vãos, com portal principal ao centro, de moldura rectilínea de cantaria, com figuras relevadas no topo, ladeado por colunas dóricas, sobrepujadas por plintos relevados, nos quais assenta o balcão de cantaria do vão correspondente no segundo piso. O pano direito, apresenta composição semelhante, mas estendendo-se á largura de 12 vãos, com pilastra adossada ao centro. O portal principal é análogo, mas ao nível do primeiro piso as janelas de peitoril alteram com portas e portão recortados á face. A fachada lateral esquerda do corpo O. apresenta uma sucessão de 12 vãos, com primeiro piso acompanhando o declive do terreno, com as janelas, guarnecidas por gradeamento em ferro forjado. A fachada lateral direita do corpo E., apresenta os mesmos 12 vãos sucessivos, com o primeiro piso a diminuir paralelamente á subida da cota do terreno, até se confundir com o embasamento e não dispor de janelas. A fachada posterior do corpo E. apresenta três andares, com embasamento em cantaria. No primeiro piso vãos de peitoril, com avental e gradeamento em ferro forjado. No segundo piso vãos de sacada, com guarda em ferro forjado. Sobre este sobreloja rasgada por vãos rectilíneos de moldura rectangular e piso amansardado, rasgado por águas-furtadas. É ritmado por pilastras que enquadram os conjuntos do 3º ao 5º e 8º ao 9º vãos, que dispõem de sacada corrida ao nível do segundo piso, e o último conjunto de porta ao centro, de moldura recta de cantaria, com acesso por três degraus de cantaria. A fachada posterior do corpo O. apresenta esquema análogo, adaptado á largura dos seus 7 vãos, estando os três centrais emoldurados por pilastras, sendo que no primeiro piso dispõe de portas e não janelas de peitoril. As fachadas lateral esquerda do corpo E. e a fachada lateral do corpo O. são semelhantes, dispondo cada uma de 9 vãos sucessivos, sendo que na primeira se abrem 5 vãos ao nível do primeiro piso e na segunda 8. As fachadas são unidas pelo passadiço sobre arco, em cujo intradorso se abrem 3 vãos correspondentes, no primeiro piso, revestido a cantaria, abrem-se 3 janelas cortadas á face. No segundo janelas de peitoril com avental, moldurada a cantaria simples. Na face posterior no passadiço, sobre pedra de fecho do arco abre-se janela geminada de três lumes, assentes e sobrepujada por almofadas de cantaria. O conjunto é rematado por cornija, sobre a qual se rasga novo conjunto de janelas geminadas de três lumes, de menores dimensões. No piso alteado em mansarda abre-se uma água-furtada em eixo.

Enquadramento
Urbano, isolado, formando lote, incluído no conjunto do Bairro Alto. Implantado em zona de declive moderado, estando a fachada principal e posterior em diferente cota do terreno. Todas as fachadas abrindo directamente para a via pública. Nas proximidades do Palácio Valada-Azambuja

Cronologia
Palácio Sousa-Calhariz/ Palmela: 1703 - O palácio foi fundado e mandado construir por D. Francisco de Sousa (1631 - 1711), Senhor do Morgado do Calhariz, em terrenos comprados a D. Inês Margarida de Lencastre, viúva do 9º Barão do Alvito e mantendo-se sempre na posse dos Duques de Palmela; 1803-1806 - entre estes anos esteve instalada no palácio a Academia Real de Fortificações; séc. 19 (finais da década de 20) - palácio esteve alugado á Câmara Eclesiástica de Lisboa; séc. 19 (inícios da década de 30) - está instalada no palácio a Contadoria Fiscal da Tesouraria Geral das Tropas; séc. 19 (década de 40) - D. Pedro da Sousa Holstein, 1º duque de Palmela, chamou o arquitecto Giuseppe Cinatti para dirigir as obras de modernização do palácio que herdara dos Sousa-Calhariz; 1842 / 1844 - remodelação ampliação e restauro de interiores (aplicação de estuques e pinturas decorativas) e exteriores realizados sob orientação de Cinatti e Rambois, construção de um anexo destinado a prolongar para nascente a fachada voltada á rua das Mercês, criação de um jardim (a Nascente) em terrenos adquiridos à Câmara Municipal de Lisboa entre a Travessa da Trombeta e a Rua da Atalaia; 1908 - desde esta data está instalado o estabelecimento de Luiz Vítor Rombert nos nº 30 a 32; 1914 - há referência á instalação da Liga Naval Portuguesa no palácio até 1929; 1914 - esteve instalado no nº 34 a firma A. Figueiredo e Compª; 1927 - esteve instalado até 1947 o estabelecimento de A. Lopes Maia no nº34; 1928 - desde este ano até 1945 esteve instalado nos nº 27 e 28 o estabelecimento de móveis da firma Paixão Carvalho Lda.; 1929 - entre esta data e 1931 há registo de estar instalada no nº29 o estabelecimento de Luiz Borges; 1930 - esteve instalada no nº30 a firma de Marques e Rodrigues; 1933 - esteve instalada até 1944, no nº33, a Barbearia Calharix Lda.; 1935 - a partir desta data e até 1947 há registo de a sede do Automóvel Clube de Portugal estar instalado no nº29; 1942 - Casimiro Braga tomou de trespasse o estabelecimento do Luiz Victor Rombert; 1945 - registo que H. Santos tinha estabelecimento nos nº 30 a 32; 1948, 10 Maio - H. Santos deu baixa do seu estabelecimento; 1948, Maio - as negociações da Casa Palmella com a Caixa Geral de Depósitos foram interrompidas por imposição camarária, uma vez que o imóvel se encontrava em zona em estudo; o negócio compreendia o grupo de prédios com os nº12 a 38 na R. da Rosa, os nº63 a 67 da Travessa dos Fieis de Deus, os nº3 a 11 da R. da Trombeta e os nº 4 a 10 da Tr. Das Mercês, constituindo um bloco independente a ser vendido por 3 mil contos; 1948, 10 Maio - a firma H. Santos deu baixa do seu estabelecimento sito nos nº 30 a 32; 1951, 19 Fevereiro - a administração da Caixa Geral de Depósitos afirma que as obras de grande remodelação no palácio se prevê começarem em Junho ou Julho de 1951, após ter recebido auto de contrafé da Câmara Municipal de Lisboa; 1951, 10 Março - auto de vistoria da Câmara Municipal de Lisboa declara o palácio como exteriormente mal conservado; 1952, Janeiro - encontra-se concluída a primeira fase da empreitada de remodelação e ampliação do edifício sede da Caixa Geral de Depósitos (Palácio Palmela); 1952, Maio - ante-projecto para remodelação e ampliação do palácio Palmela pela Caixa Geral de Depósitos, onde se propõe a substituição de pavimentos, divisórias escadas, a destruição da parede exterior da ala nascente e dos corpos laterais recolhidos, e alinhamento das fachadas, construção de caves para arquivo, da autoria de Cândido Palma Teixeira de Melo; 1955, 23 Junho - o projecto de remodelação pela Caixa Geral de Depósitos está completamente elaborado, aguardando apenas autorização do ministro das Obras Públicas; 1955, Julho - reconhecimento geológico do terreno; 1955, 24 Agosto - concurso público para a empreitada de remodelação e ampliação do palácio Palmela, com base de licitação em 15783461$00; 1956 - saída do último locatário, o Automóvel Clube de Portugal (em 44 já lá estava segundo foto); 1956-1959 - realização de obras no palácio pela Caixa Geral de Depósitos, resultando a anexação ao Palácio Sobral e destruindo as obras oitocentistas, prolongando o corpo principal do edifício até á rua da Atalaia 1959 - remodelação do projecto da Caixa Geral de Depósitos para obter maiores áreas de trabalho e serviços; 1961, Janeiro - está em construção o piso intermédio do e a adaptação do andar amansardado; 1961 - 1961 - Conclusão da construção, pela Comissão Administrativa das Obras da Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência; 1961, 15 Junho - terminada a empreitada de remodelação e ampliação; 1967, Abril - estudo para a ligação dos dois palácios por arco sobre a R. da Rosa; 1967, 28 Setembro - a Câmara Municipal de Lisboa autoriza a ligação por arco dos dois palácios; 1969 - está em curso a obra do arco de ligação entre os dois palácios; PALÁCIO SOBRAL: séc. 18, 2ª metade - reedificação do palácio por Joaquim Inácio da Cruz Sobral (1725 - 1781) sobre uma estrutura existente desde o séc. 17 e que pertencera a Lázaro Leitão Aranha; 1811 - é o Quartel-general do Duque de Wellington; 1812 / 1813 - serve de Quartel-general a Lord Beresford; 1879 - deixa de funcionar no imóvel o Hotel Mata; 1887, é vendido pelos Condes de Sobral ao Estado para instalação da Caixa Geral de Depósitos; de imediato, se iniciam obras de recuperação para instalação do Ministério da Justiça; um incêndio que destruiu os dois últimos pisos, levou ao abandono da ideia; 1894, o edifício estava a ser reconstruído, para a instalação do Ministério das Obras Públicas, projectando-se a existência de três pisos e uma mansarda, ficando, no primeiro, um vestíbulo, recepção e armazéns, surgindo no segudo, uma sala comum a todas as direcções do Ministério, e vários gabinetes; 1896, a obra achava-se bastante adiantada, faltando alguns elementos de estuque e pintura; 1957, 19 Novembro, contrato do arquitecto Cândido Paulo Teixeira de Melo para a remodelação do palácio, pela quantia de 242666$60; 1965, 30 Março, entrega defenitiva do projecto de remodelação do palácio; 1965, na memória descritiva para o projecto de remodelação do palácio estava prevista a ligação ao palácio Palmela por túnel ao nível das caves; 1965, Março, orçamento para o projecto de remodelação do palácio Sobral; 1965, 10 Maio, abertura do concurso público para a empreitada geral de ampliação e remodelação do palácio 1968, Setembro, no primeiro termo adicional ao projecto de remodelação verifica-se que as paredes exteriores não tinham a resistência necessária, optando-se pela sua reconstrução total, nivelamento ao nível do palácio Palmela, uniformização das fachadas e pensa-se a ligação por arco dos dois palácios.

Observações
1. Este edifício corresponde ao antigo palácio Sobral, cuja fachada principal é possível conhecer por fotografias; tratava-se de uma fachada dividida em cinco registos, correspondendo o último a um andar em ático e mansarda; era revestida a cantaria aparente ao nível do primeiro piso, e revestida em alvenaria rebocada e pintada nos seguintes, com divisão de andares através de cornijas, marcação dos ângulos por pilastras de cantaria e remate em platibanda; o pano central avançado, dispunha de galeria no primeiro piso, no segundo de 3 janelas de sacada, guarnecidas de varanda corrida em cantaria, e rematadas por cornija ondulada; ao nível do terceiro de 3 janelas de sacada de cantaria, rematadas por cornija ondulada; o quarto piso dispunha de 3 janelas de peitoril, rematadas por cornija recta;
2. Este edifício corresponde ao antigo palácio Calhariz-Palmela, cujo módulo compositivo se manteve sensivelmente; originalmente o palácio estendia-se á largura de sete vãos por andar, dividindo-se o actual primeiro piso em dois, dispondo no primeiro de uma sequência de portas e no segundo de janelas de peitoril. No andar em sobreloja os actuais vãos rectangulares correspondiam a óculos ovalados; o actual piso em mansarda é também um acrescento posterior; o portal principal manteve-se, mas o motivo nobilitante das armas interrompendo a cornija do vão axial superior perdeu-se; para E. o palácio dispunha de uma ala, com o mesmo número de pisos, rematada por frontão triangular, dispondo-se na fachada S. escadaria de aparato, aberta para jardim;
3. Parte do conjunto está implantado na freguesia de Santa Catarina».
In Inês Pais, Palácio Sousa Calhariz, Palácio Sobral, Edifício da Caixa Geral de Depósitos, CGD do Calhariz, 2001-2016, Direcção-Geral do Património Cultural, Ministério da Cultura, 2006, Nº IPA Antigo PT 031106150908, 2011.

Cortesia de DGPC/MC/MONUMENTOS/JDACT

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Lucrécia Borgia. Jean Plaidy. «Como ele fora descuidado naquela época, tão certo estava da sua capacidade de conseguir alcançar a sua meta. Decidira aproveitar o que havia de melhor nas duas vidas»

Cortesia de wikipedia e jdact

O nascimento de Lucrécia
«(…) Rodrigo enxugou a testa com um lenço perfumado. Tinha sido uma época de grande risco, e ele esperava nunca passar por coisa parecida novamente; no entanto, sempre que pensava nela, percebia a satisfação de um homem que descobriu que o momento perigoso não o encontrara com falta de recursos argutos. Pio vinha sendo, na verdade, um bom amigo, mas houve momentos em que Pio achara necessário repreendê-lo. Agora se recordava das palavras de uma carta que Pio lhe enviara, reclamando da conduta de Rodrigo numa certa casa onde cortesãs tinham sido reunidas para dar prazer aos clientes. E ele, o jovem e bonito cardeal Rodrigo, estava entre os clientes. Fomos informados, escrevera Pio, de que houve danças indecorosas, de que não faltaram atracções amorosas e de que você se conduziu de maneira inteiramente mundana. Rodrigo inclinou a cabeça para trás e sorriu, lembrando-se dos jardins perfumados de Giovanni de Bichis, da dança, dos quentes corpos perfumados de mulheres e dos seus olhares sedutores. Ele as achara irresistíveis e elas sentiam o mesmo por ele. E a reprimenda de Pio não tinha sido séria. Pio compreendia que um homem como Rodrigo devia ter as suas amantes. Apenas achava o seguinte: sim, sim, mas nada de danças em público com cortesãs, cardeal. O povo reclama, e isso dá má fama à Igreja.
Como ele fora descuidado naquela época, tão certo estava da sua capacidade de conseguir alcançar a sua meta. Decidira aproveitar o que havia de melhor nas duas vidas. A Igreja era a sua carreira, por meio da qual iria subir ao trono papal; mas era um libertino, um homem de irrefreáveis desejos carnais. Sempre haveria mulheres na sua vida. Não era uma fraqueza rara; praticamente não havia um padre que levasse a sério os seus votos de celibato, e uma das pessoas espirituosas de Roma dissera, que se toda criança chegasse ao mundo, vestindo as roupas do pai, todas elas estariam vestidas de padres ou cardeais. Todo mundo compreendia; mas Rodrigo talvez fosse mais abertamente promíscuo do que a maioria. Então, ele conhecera Vannozza e instalara-a numa bela casa onde agora eles tinham os filhos. Não que tivesse sido fiel a Vannozza; ninguém teria esperado isso; mas ela continuara sendo a favorita por muitos anos, e ele adorava os filhos. E agora haveria mais um.
Era enfadonho esperar. Ele, que estava com cinquenta anos, sentia-se como um jovem marido de vinte, e, se não fosse pelo medo de ouvir os gritos de dor de Vannozza, teria ido aos aposentos dela. Mas não seria preciso. Alguém estava vindo. A pequena ama de Vannozza, corada e bonita, ficou à frente dele. Mesmo numa ocasião como aquela, Rodrigo percebeu os encantos da jovem. Iria lembrar-se dela. Ela fez uma mesura. Eminência..., a criança nasceu. Com a graça e a agilidade de um homem muito mais jovem, ele se deslocou para o lado da jovem e colocou-lhe as belas mãos brancas nos ombros. Minha filha, você está ofegante. Como o seu coração bate! É, meu senhor. Mas..., a criança nasceu. Ele seguiu à frente. A pequena ama, indo atrás, percebeu de repente que se esquecera de dizer a ele o sexo da criança e que ele se esquecera de perguntar. A criança foi levada ao cardeal, que lhe tocou a testa e a abençoou. As mulheres recuaram; elas pareciam envergonhadas, como se fossem ser acusadas pelo sexo da criança.
Era uma criança linda; havia uma macia penugem de cabelos louros na cabecinha, e Rodrigo acreditou que Vannozza lhe dera mais uma beldade de ouro. Uma garotinha, disse Vannozza, observando-o da cama. Ele aproximou-se dela, tomou-lhe a mão e a beijou. Uma linda garotinha, disse ele. O meu senhor está desapontado, disse Vannozza, com a voz cansada. Ele esperava que fosse um menino. Rodrigo soltou uma gargalhada, aquela musical e grave risada que fazia com que a maioria das pessoas que a ouviam o adorasse. Desapontado!, disse ele. Eu? Olhou então à sua volta para as damas de companhia, que se tinham aproximado, os olhos pousando em cada uma, acariciantes, especulativos. Desapontado porque ela é do sexo feminino? Mas vocês sabem..., todas vocês..., que eu amo o sexo frágil de todo o meu coração, e tenho para com ele uma ternura que negaria ao meu próprio. As mulheres riram, e Vannozza riu com elas; mas os seus olhos aguçados tinham percebido a pequena ama que tinha no rosto uma expressão de expectativa quando o olhar de Rodrigo se demorou nela. Ela decidiu que, assim que voltassem para Roma, aquela jovem deveria ser demitida, e se Rodrigo procurasse por ela, iria procurar em vão. Então o meu senhor está contente com a nossa filha?, murmurou Vannozza, e fez um sinal para que as damas a deixassem a sós com o cardeal. Acredito sinceramente, disse Rodrigo, que vou encontrar no meu coração, para esta doce menina, um lugar mais terno do que o que tenho para aqueles alegres peraltas que agora habitam a nossa ala infantil. Vamos baptizá-la com o nome de Lucrécia; e quando você se recuperar, Vannozza, voltaremos para Roma. E assim, naquele dia de abril, no castelo dos Bórgia de Subiaco, nasceu a menina cujo nome seria notório no mundo inteiro: Lucrécia Bórgia». In Jean Plaidy, Lucrécia Borgia, Edição Record, 1996, ISBN 978-850-104-410-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

A política matrimonial de D. João I. Um instrumento de afirmação dinástica. Portugal, 1387-1430. Douglas Xavier M. Lima. «Os primeiros casórios ocorreram num período de busca de afirmação e legitimação dinástica, para a qual a aliança do rei com os Lancaster (1387)…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ascensão dinástica e alianças matrimoniais
Os casamentos da Ínclita Geração
«(…) Dentre os membros da Ínclita Geração, o primeiro a se casar foi o penúltimo filho, o infante João, em Novembro de 1424 (Sousa, 1949). Matrimónio endogâmico, uniu o infante, que desde finais de 1418 estava à frente da Ordem Militar de Santiago, à sua sobrinha, única filha do conde de Barcelos, dona Isabel. João recebeu de Nuno Álvares o castelo de Loulé e, após a morte deste, o cargo de Condestável, e do rei a vila de Serpa com seus direitos e rendas; Isabel recebeu do irmão, conde de Ourém, o reguengo e o lugar de Colares com todas as rendas, foros, direitos e jurisdições (Sousa, 1949). De acordo com Mafalda Cunha, o casamento alienou bens importantes do conde de Barcelos e de Nuno Álvares, permitindo tanto o fortalecimento régio quanto a ascensão hierárquica do pai da noiva (Cunha, 1990).
Tal matrimónio, somado ao do infanteAfonso com a filha do Condestável, representa uma tendência secundária das uniões estabelecidas pelos filhos de João I, visto que de seis filhos que casaram, quatro homens e duas mulheres quatro casaram fora de Portugal. A partir da escassez de fontes acerca das negociações matrimoniais de dom Afonso, dona Beatriz e do infante João, pode-se entrever que estas transacções não conheceram delongas, sendo o casamento da infanta com o conde de Arundel o que mais se protelou. A constatação reitera-se na observação das negociações que envolveram os matrimónios de Duarte, Pedro e Isabel, pois este segundo conjunto de casamentos reafirma a tendência de que a procura de um marido ou de uma esposa por um filho de rei era um processo longo, complexo, ao curso do qual intervinham diferentes agentes e projectos matrimoniais concorrentes.
O estabelecimento de dois conjuntos de casamentos, sendo o primeiro representado por Afonso, Beatriz e João, e o segundo por Duarte, Pedro e Isabel, permite ainda que se delimitem distinções entre as consequências de cada um dos grupos de matrimónios para a dinastia de Avis. Acredita-se que ambos reforçaram os laços avisinos dentro e fora de Portugal, contudo também reflectem momentos diferentes do reinado de João I. Os primeiros casórios ocorreram num período de busca de afirmação e legitimação dinástica, para a qual a aliança do rei com os Lancaster (1387) já tinha contribuído, com os problemas internos apresentando-se como difíceis obstáculos; já o segundo conjunto de consórcios se deu num contexto de consolidação e ampliação das alianças externas existentes até aquele momento.
Portanto, acreditamos que os casamentos dos anos 20 são reflexos de uma nova etapa da diplomacia portuguesa. A posição interna de Avis já estava estabilizada, e a aliança inglesa estruturada e reafirmada com o consórcio de Beatriz. Acrescenta-se que a conquista de Ceuta (1415) tinha permitido a construção de uma imagem do reino e da dinastia reinante articulada aos valores cristãos e à defesa da Cristandade, elementos que favoreciam a honra da família real avisina no cenário das casas principescas. Por fim, os casamentos a serem analisados demonstram o esforço do rei de Portugal em consolidar-se no cenário político ibérico, mormente através da aliança com Aragão, e, ultrapassando este quadro diplomático tradicional, enrijecer os laços com o mar do Norte, por meio do enlace com o ducado da Borgonha.
Os casamentos dos outros três infantes portugueses foram concretizados num período muito curto, entre Setembro de 1428 (Duarte I e dona Leonor de Aragão) e Janeiro de 1430 (dona Isabel e Filipe o Bom), o que oculta o facto de que pelo menos desde 1409 se discutisse possíveis matrimónios para o príncipe herdeiro e para o infante Pedro. Assim, reforçamos que a construção de um casamento levava em consideração diversos elementos, entre eles: os contactos estabelecidos com as demais casas reais e poderes estrangeiros; o confronto com projectos matrimoniais concorrentes; a existência de impedimentos de consanguinidade ou de outros impedimentos canónicos, os quais só poderiam ser resolvidos com dispensas papais; e a beleza e o dote da noiva. Dados dinâmicos que eram profundamente influenciados por mudanças dinásticas, mortes e novas alianças diplomáticas». In Douglas Xavier M. Lima, A política matrimonial de D. João I, Um instrumento de afirmação dinástica, Portugal, 1387-1430, Roda da Fortuna, Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo, 2014, Volume 3, Número 2, ISSN 2014-7430.

Cortesia de REsAeMedievo/Academia/JDACT

A política matrimonial de D. João I. Um instrumento de afirmação dinástica. Portugal, 1387-1430. Douglas Xavier M. Lima. «Antes de avançar com os consórcios matrimoniais dos filhos legítimos de João I e dona Filipa, cabe salientar que as negociações…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ascensão dinástica e alianças matrimoniais
«(…) Ao mencionar a geração de uma prole legítima, recupera-se que o rei João I, ainda na posição de Mestre de Avis, fora pai por duas vezes, primeiro de Afonso (c. 1380), e depois de Beatriz (c. 1382), sendo essa descendência ilegítima usada como base para o alargamento da política matrimonial de Avis. Observa-se que os bastardos régios também foram utilizados em negociações matrimoniais, e nesses anos de afirmação dinástica, ainda sem contar com filhos da rainha dona Filipa em idade nubente, os filhos ilegítimos aparecem como instrumento para o fortalecimento interno, casamento de Afonso, e para a ampliação das relações externas, consórcio de Beatriz. Do processo da ascensão do Mestre de Avis, formou-se uma nova nobreza, que teve em Nuno Álvares Pereira, um expoente. Filho do Prior do Hospital, Nuno Álvares foi feito condestável do reino e recebeu os condados de Ourém, Barcelos, Arraiolos e Neiva, uma acumulação de património extraordinária em Portugal.
Toda essa base territorial fez do condestável um alvo das medidas de João I visando reaver, ou comprar, parte das terras da coroa cedidas à nobreza até ao momento. Tal facto gerou um grande descontentamento, que teve como consequência o exílio de nobres portugueses em Castela. Nuno Álvares, segundo Baquero Moreno, foi um dos principais opositores da medida régia, manifestando também o interesse de abandonar Portugal (Moreno, 1990; Lopes, 1983). Frente a tais problemas internos que movimentaram o reino em finais da década de 90 e, consequentemente, dificultavam a relação entre o rei e o seu condestável, em 1401 estabeleceu-se uma via de acordo: o casamento da única filha de Nuno Álvares, dona Beatriz, e, portanto, meio exclusivo de assegurar a reprodução da casa senhorial recém formada, com o filho bastardo de dom João (Sousa, 1949). Esta união polarizava interesses, tanto de Nuno Álvares quanto do rei. Pelo contrato estabelecido, Afonso recebeu a totalidade dos bens que o condestável detinha no Entre Douro e Minho e em Trás-os-Montes, Montalegre e terra de Barroso, Montenegro e Chaves, também com todas as rendas, direitos, foros, padroados e jurisdições e mero e misto império.
Passa-se, assim, para o casamento de dona Beatriz. A movimentação em prol do enlace da infanta com Thomas Fitzalan, conde de Arundel e aparentado da família real inglesa, iniciou-se, segundo Manuela Santos Silva e Peter Russell, por volta de 1405 sob a condução da rainha dona Filipa (Silva, 2007; Russell, 2000). As negociações se estenderam e, em 26 de Novembro do mesmo ano, dona Beatriz casou-se com o conde de Arundel.
Acrescenta-se que antes da investida de Portugal contra Ceuta, a qual foi articulada sem que a finalidade do ataque fosse sabida pelos demais reinos da Cristandade, tinha-se o temor de que o conde de Arundel viesse em auxílio de João com as suas tropas, o que demonstra que a aliança conseguida pelo casamento de Beatriz ainda repercutia no cenário ibérico quase uma década depois. Por fim, sabe-se que após a morte do conde (1415), a infanta portuguesa casou-se com John Holland, duque de Exeter, permanecendo no reino inglês até falecer em 1439 (Russell, 2000).
Antes de avançar com os consórcios matrimoniais dos filhos legítimos de João I e dona Filipa, cabe salientar que as negociações até então apresentadas mostram que as correspondências entre as casas reais eram constantes, sendo conhecida a influência da rainha de Portugal na preparação do casamento de dona Beatriz, e a manutenção do contacto desta infanta com a corte portuguesa (Silva, 2007). Desta forma, percebe-se a importância dos vínculos de parentesco para além do acto da celebração da união, pois se criava um circuito de informações, de deslocamento sócio-político e cultural, que aproximava as cortes ligadas a cada participante do enlace matrimonial.

Os casamentos da Ínclita Geração
Dito isso, retoma-se o desenvolvimento da política matrimonial desenvolvida pelo rei de Portugal observando que em 1405, com os dois filhos naturais bem casados, João I e dona Filipa somavam oito filhos legítimos, dos quais apenas dois tinham falecido, a pequenina Branca, que nascera em 1388 e morreu sem completar o primeiro ano de vida, e o infante Afonso, que nascera em 30 de Julho de 1390, falecendo com dez anos. Seis foram os filhos que ultrapassaram as altas taxas de mortalidade que afectavam os recém-nascidos na Baixa Idade Média, destes apenas uma mulher restou, a infanta dona Isabel, nascida em 1397. Desses infantes, apenas dois não casaram, o infante Henrique e o infante Fernando, mesmo tendo existido oportunidades nesse sentido». In Douglas Xavier M. Lima, A política matrimonial de D. João I, Um instrumento de afirmação dinástica, Portugal, 1387-1430, Roda da Fortuna, Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo, 2014, Volume 3, Número 2, ISSN 2014-7430.

Cortesia de REsAeMedievo/Academia/JDACT

Sentenças Régias em tempo de Ordenações Afonsinas (1446-1512). Jorge André NBV Testos. «Verificamos, assim, que nomes de referência das escolas italiana, alemã e francesa de finais do séc. XIX e inícios do séc. XX não trataram os documentos judiciais com autonomia…»

Cortesia de wikipedia, academia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Jorge André NBV Testos

Um Estudo de Diplomacia Judicial
Diplomática Judicial e Documentos Judiciais
«(…) Se formámos o propósito de apresentar um estudo de diplomática judicial, importará, desde logo, delimitar esse conceito, que se interliga, por natureza, com o de documento judicial. Os manuais clássicos de Diplomática, todavia, não autonomizam o conceito de diplomática judicial, abordando apenas de forma lateral os documentos judiciais, enquadrando-os geralmente na diplomática régia. Deste modo, Cesare Paoli, alertando para a admissibilidade de vários critérios para a classificação dos documentos medievais, começa por distinguir duas grandes categorias de documentos: os documentos públicos (tutti i documenti emanati da autorità pubbliche in forma pubblica) e os documentos privados. Entre os exemplos de documentos públicos, faz referência a tipos de documentos judiciais (placiti e carte giudiziarie), mencionando ainda que o estudo das várias espécies documentais deve ser feito secondo le diverse autorità da cui emanano, conformemente al sistema politico sociale del medio evo. Distingue depois documentos régios, pontifícios e privados; dentro dos documentos régios, distingue os documentos legislativos, judiciais (dando como exemplos os placita, judicia e notitiae iudicatuum) e diplomáticos, ocupando-se apenas destes últimos.
Harry Bresslau, incidindo especialmente o seu estudo sobre a diplomática régia e pontifícia, ao dedicar-se à classificação de documentos régios, refere, de forma vaga, os documentos judiciais (Gerichtsurkunden), para assinalar que, a partir de determinado momento, estes deixam de ser produzidos por funcionários de chancelaria e passam para as mãos dos notários. No caso concreto das sentenças (Rechtsprüchen) do tribunal da corte (Hofgericht), com o estabelecimento de um tribunal fixo (Iustitiarius curiae imperialis), em 1235, deixam de pertencer à categoria dos documentos régios, dado que eram emitidos em nome do tribunal e redigidos na secretaria do tribunal (Gerichtsschreiberei) e não na chancelaria (Reichskanzlei). Só quando o Rei presidia ao tribunal da corte é que os documentos seriam preparados na chancelaria.
Por seu turno, Arthur Giry sustenta que a valorização das diplomáticas especiais, agrupando as fontes diplomáticas por categoria de iguais proveniência e natureza e submetendo-as a uma crítica racional e rigorosa, permite, por via de uma ordenação cronológica das mesmas, acompanhar as transformações dos documentos, distinguir as variantes, discernir as influências sofridas e encontrar as regras e usos que presidiam à sua elaboração. Assim agrupados, les actes de même origine s'éclairent mutuellement. No entanto, aprofunda apenas cinco categorias que enquadram os documentos pontifícios, régios, eclesiásticos, senhoriais e os documentos privados (actes privés). As referências a documentos judiciais (judicum ou placitum; jugements) surgem inseridas na caracterização dos documentos régios. A propósito dos reis carolíngios, o Autor realça que os acórdãos do tribunal do palácio (placitum palatii) formam uma categoria particular de documentos que, depois de Carlos, o Calvo, só excepcionalmente são redigidos em nome do Rei.
Verificamos, assim, que nomes de referência das escolas italiana, alemã e francesa de finais do séc. XIX e inícios do séc. XX não trataram os documentos judiciais com autonomia, referindo-os apenas por referência aos documentos régios. O facto de a produção documental do tribunal régio se separar da produção documental da chancelaria régia constituiu motivo para que o estudo de tal documentação não tenha sido contemplado. Vigorava, portanto, uma classificação clássica tripartida entre diplomática dos documentos régios, diplomática dos documentos pontifícios e diplomática dos documentos particulares (Privaturkunden, actes privés), sendo esta última uma categoria residual que se revelava insuficiente para abarcar sistemas documentais tão distintos como o senhorial, municipal, episcopal, notarial ou judicial. A partir da segunda metade do século XX, a Diplomática foi evoluindo no sentido do alargamento do seu objecto, em resposta ao apelo lançado por Robert-Henri Bautier para que a disciplina se abrisse aos documentos de arquivo e não negligenciasse os domínios não privilegiados da diplomática especial». In Jorge André NBV Testos, Sentenças Régias em tempo de Ordenações Afonsinas (1446-1512), Um Estudo de Diplomacia Judicial, Mestrado em Paleografia e Diplomática, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, Lisboa, 2011.

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