domingo, 14 de agosto de 2022

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Aquela feira extravagante era habitual nas missas, fosse em Braga, mesmo com a Sé destruída; em Guimarães, em Zamora ou até em Compostela. Na Páscoa, todos aproveitavam para pôr a conversa em dia…»

 

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Soure, Sábado de Aleluia, Abril de 1126

«(… ) O almocreve estava cada vez mais baralhado e suspirou, desolado: Não compreendo o que dizeis. Ela olhou para o céu, onde uma ténue luz clareava já o longínquo horizonte a leste, e resmungou: Um dia ireis compreender. Depois, como se estivesse a falar consigo mesma, murmurou: Eram três, o que já morreu e mais dois, mas outro morrerá em breve. O último não me pode ver, senão vai recordar-se. Calou-se, espevitou a fogueira e foi buscar um vaso de água, por onde bebeu. Só depois voltou a falar, olhando para Mem como se lhe confidenciasse um segredo. Se perguntarem por mim, dizei que sou louca. Mem estava espantado. Aquela mulher sabia muito sobre ele e, no entanto, pedia-lhe ajuda, mostrando-se vulnerável, quase assustada. Curioso, interrogou-a: O homem que degolou o meu pai quer matar-vos? A mulher suspirou, mas não respondeu à pergunta dele, como se não a tivesse escutado, pois disse: Por uma razão ou por outra, todos vão querer matar-me, cristãos e mouros. Mas só um rei saberá a minha verdade, se as mouras não partirem daqui antes desse dia. Decidida, olhou para a fogueira e exigiu-lhe: Quando o fogo me chegar, tereis de me salvar. Prometei-me!

O almocreve tinha uma dívida de gratidão antiga para com ela e, apesar de desconhecer o que a incomodava, concordou com um aceno de cabeça. Então, a mulher lançou a mão na direção do fogo, num gesto rápido, e uma enorme labareda cresceu. Depois, atirou um pó para a fogueira, que se apagou em instantes. Mem teve a certeza de que ela era uma bruxa, embora parecesse aterrada com o futuro. Ouviu-a anunciar: A partir de agora, terei de viver no escuro. Sem nunca lhe dizer como se chamava, ou o que ele deveria fazer para a ajudar, a mulher afastou-se, contornando a torre tombada de Soure. Mem não a voltou a ver até partir para Coimbra. Foi isto que ele disse, anos depois, durante a minha investigação, quando me relatou o seu reencontro com a bruxa. E eu acredito nele. Apesar de tudo o que aconteceu, acredito nele.

 

O prior Teotónio, atrás do altar, semicerrou os olhos. Estava num daqueles dias, como ele dizia, em que os dragões negros o visitavam e o deixavam furioso com o mundo. Ao contrário dele, que reduzia ao mínimo as vestes, usando apenas uma alva branca e comprida, os nobres, em Viseu, faziam da Páscoa uma ocasião para se pavonear. Pregava constantemente que Jesus não era aquela explosão colorida e brilhante de roupas e jóias, mas sim a pobreza e o arrependimento, o despojo pelos haveres, o recato simples de uma oração, o coração puro e vazio de instintos menores. Mas o desejo de impressionar os seus semelhantes toldava os fiéis, e apresentavam-se na igreja luzidios, com os seus tecidos macios e os seus olhares invejosos, por descobrirem que alguém parecia melhor do que eles, uns bancos à frente. Com tantos mendigos nas ruas de Viseu, à fome... A igreja estava apinhada, lá atrás os populares acotovelavam-se, meio tontos devido ao cheiro a incenso. Viseu inteira comparecera, era Domingo de Aleluia, todos queriam celebrar a ressurreição de Cristo, e todos eram incapazes de se calar. Havia quem desse gargalhadas, quem trocasse argumentos em voz alta e ninguém ligava aos ritos visigóticos ou aos cânticos em latim. Afonso Henriques também sorria e falava com os amigos, enquanto o Braganção circulava alegremente entre os bancos, dando beliscões nos rabos das senhoras, fazendo Sancha Henriques espumar de raiva, com o descaramento do seu destinado esposo.

Aquela feira extravagante era habitual nas missas, fosse em Braga, mesmo com a Sé destruída; em Guimarães, em Zamora ou até em Compostela. Na Páscoa, todos aproveitavam para pôr a conversa em dia, para namoriscar, para comerciar, para rir. O que não era habitual era o que se passava no banco da frente! Desde que a missa começara, dona Teresa e Fernão Peres Trava não cessavam as ternuras. Davam o braço, faziam festas no cabelo um do outro, como jovens enamorados, acabados de casar. O prior Teotónio, como nos garantiu à saída, conhecia bem o significado daqueles mimos: Dona Teresa devia estar nos seus dias frutuosos, apesar da idade ainda os tinha. Aqueles salamaleques carinhosos não lhe causavam apenas repugnância física, mas também uma aguda dor moral. Teotónio considerava aquele casal o pior exemplo da depravação, da luxúria, da recusa de cumprir os preceitos da Igreja». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,

sábado, 13 de agosto de 2022

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «A mulher esclareceu-o: Anda sempre vestido de branco, com um cinto vermelho. Mas os cristãos também se vestirão de branco»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Soure, Sábado de Aleluia, Abril de 1126

«(… ) Nunca vos agradeci por me terdes ajudado. Obrigado. A mulher nada disse e por isso ele perguntou: Como vos chamais? Ela levantou-se pela primeira vez e Mem reparou que não era tão alta como na sua memória. Ouviu-a afirmar, enquanto se aproximava, cautelosa, para evitar tropeçar nas pedras ou nas raízes: O meu nome não interessa. Quando chegou perto dele, Mem viu-lhe a cara. Estava mais velha, com mais rugas e verrugas e muito mais farripas de cabelo cinzento na testa, embora o pontiagudo nariz se mantivesse idêntico. Continuava feia e, se a tivesse visto pela primeira vez, Mem teria tido medo, mas agora ficara apenas intrigado com aquele reencontro. Viveis aqui?, perguntou. A mulher sentou-se em frente dele, e dela emanava um cheiro a âmbar, o mesmo que Mem sentira antes de adormecer.

Ninguém vive em Soure. Só há ursos e lobos. Foi um risco cá passardes, com o vosso jumento magoado e a carroça cheia de carnes. Explicou que eram a fogueira flamejante e os seus pós perfumados que afastavam os animais. Mas eles não têm medo de mim, ao contrário das pessoas. Mem suspeitou da saúde dela, sentindo um ligeiro desconforto. Sois leprosa?, perguntou. Ela negou que vivesse em gafarias e acrescentou: Não é disso que têm medo. Um novo tremor percorreu Mem. Sois uma bruxa? Pela primeira vez, a mulher sorriu, mas era um sorriso conformado, como se a pergunta dele fosse previsível. O povo chama bruxa a quem não entende. Depois, olhou em volta, para o destruído castelo, e murmurou: Em breve terei de abandonar Soure, pois virão os cristãos procurar uma relíquia.

Mem franziu a testa, a povoação estava deserta há tantos anos, não acreditava que alguém a viesse reconstruir. O nosso mundo está a mudar, continuou ela. Há um novo rei a norte e outro a nascer, e um dia virá onde o seu pai veio. Mem deduziu que ela se referia ao novo rei de Castela e Leão e disse: Afonso VII vai reinar longe daqui. A mulher olhou para ele, pensativa, e depois de uma pausa declarou: Também virão mouros, vai haver lutas, eles querem-nas de volta. Confundido, Mem questionou-a: De quem falais? A mulher de negro sorriu-lhe, com um ar brincalhão. Sei da vossa fama, sabeis lidar bem com as damas. As moçárabes, mas também certas donas cristãs. O rapaz não percebia como ela conhecia tanto sobre ele. Lembrou-se de que muitos anos antes sentira o mesmo, ela sabia que o pai era almocreve. Então, a mulher de negro murmurou: As raparigas de Córdova, sabeis quem são. Têm sangue real. Mem conhecia Fátima e Zaida, e a mãe delas, Zulmira. Em Coimbra, vendera-lhes vestidos e simpatizava com elas. Ouviu a mulher acrescentar uma profecia sombria: Preparai-vos, o vosso comércio vai sofrer. Por estas bandas ninguém vai descansar enquanto não encontrar o que procura. Mem ficou preocupado, mas só sentiu profundo terror quando ela acrescentou que o homem que matara o seu pai iria regressar. De repente, cresceu-lhe na alma um forte desejo de vingança. Conheceis o homem que degolou o meu pai?, perguntou. A mulher esclareceu-o: Anda sempre vestido de branco, com um cinto vermelho. Mas os cristãos também se vestirão de branco.

Mem queria saber mais. Por alguma razão treinara tanto com as flechas, calculava que um dia poderia ter de usá-las. Onde posso encontrar o demónio branco? A mulher abanou a cabeça. Não tenteis matá-lo. Não sois forte como ele. Nem eu o consigo, mesmo com as minhas artes. Mem duvidou dela e disse: Todos os homens podem ser mortos, mesmo os mais perigosos. A mulher abanou a cabeça outra vez, contrariando-o, e declarou: Este só pode ser morto pelo califa. Ou por um rei. Mem, espantado, perguntou: O califa vai voltar? A mulher confirmou que outro califa voltaria, mas só dali a muitos anos. E adiantou que, como não havia ainda rei naquelas terras, talvez fosse por enquanto impossível matar o homem que cortara a cabeça ao pai de Mem Ramires. Depois, acrescentou: Mas outros virão à minha procura, sou a única que conhece o segredo do homem velho das barbas». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

O Mistério das Catedrais. Interpretação Esotérica. Fulconelli. «Sabei, meu irmão, escreve Filalet, que a preparação exacta das Águias voadoras é o primeiro grau da perfeição e para conhecê-lo é necessário um génio industrioso…»

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«(…) Encontramos nessa imagem o hieróglifo da primeira conjunção, a qual só se opera a pouco e pouco, à medida que se desenrola este labor penoso e fastidioso que os Filósofos chamaram as suas águias. A série de operações cujo conjunto conduz à união íntima do enxofre e do mercúrio tem também o nome de Sublimação. É pela reiteração das Águias ou Sublimações filosóficas que o mercúrio exaltado se despoja das suas partes grosseiras e terrestres, da sua humidade supérflua e se apodera de uma porção do corpo fixo que dissolve, absorve e assimila. Fazer voar a águia, segundo a expressão hermética, é fazer sair à luz do túmulo e trazê-la à superfície, o que é próprio de toda a verdadeira sublimação. É o que nos ensina a fábula de Teseu e de Ariana. Neste caso, Teseu é a luz organizada, manifestada, que se separa de Ariana, a aranha que está no centro da sua teia, o calhau, a casca vazia, o casulo, os despojos da borboleta (Psique). Sabei, meu irmão, escreve Filalet, que a preparação exacta das Águias voadoras é o primeiro grau da perfeição e para conhecê-lo é necessário um génio industrioso e hábil... Para atingi-lo, muito suamos e trabalhamos; passamos até noites sem dormir. Assim, vós que começais agora, persuadi-vos de que não tereis sucesso na primeira operação sem um grande trabalho... Compreendei então, meu irmão, o que dizem os Sábios, ao sublinhar que conduzem as suas águias para devorarem o leão, e quanto menos se empregam as águias mais rude é o combate e mais dificuldades se encontram para alcançar a vitória. Mas para aperfeiçoarmos a nossa Obra necessitamos, pelo menos, de sete águias, e deveria mesmo empregar-se até nove. E o nosso Mercúrio filosófico é o pássaro de Hermes a quem se dá também o nome de Ganso ou de Cisne e

algumas vezes o de Faisão. São estas sublimações que Calímaco descreve no Hino a Delos quando diz, falando dos cisnes:

É uma variante da procissão que Josué fez andar sete vezes à volta de Jerico, cujas muralhas caíram antes da oitava volta. Para assinalar a violência do combate que precede a nossa conjunção, os Sábios simbolizaram as duas naturezas pela Águia e pelo Leão, de igual força mas de compleição contrária. O leão traduz a força terrestre e fixa, enquanto a águia exprime a força aérea e volátil. Postos em presença, os dois campeões atacam-se, repelem-se, despedaçam-se mutuamente com energia até que, por fim, tendo a águia perdido as suas asas, e o leão a juba, os adversários constituem apenas um só corpo, de qualidade média e de substância homogénea, o Mercúrio animado.

No tempo já longínquo em que estudando a sublime Ciência, nos debruçávamos sobre o mistério repleto de pesados enigmas, lembramo-nos de ter visto construir um belo edifício cuja decoração, reflectindo as nossas preocupações herméticas, não deixou de nos surpreender. Acima da porta de entrada, duas crianças, um rapaz e uma rapariga, enlaçados, afastam e levantam um véu que os cobre. Os seus bustos emergem de um emaranhado de flores, folhas e frutos. Um baixo-relevo domina o coroamento angular, mostrando o combate simbólico da águia e do leão de que acabamos de falar e adivinha-se facilmente que o arquitecto teve alguma dificuldade em situar o embaraçador emblema, imposto por uma vontade intransigente e superior...» In Fulconelli, 1926, Le Mystère des Cathédrales, 1964, O Mistério das Catedrais, Interpretação Esotérica dos Símbolos Herméticos, Edições 70, 1975, Lisboa, Colecção Esfinge.

Cortesia de E70/JDACT

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quinta-feira, 11 de agosto de 2022

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Isso é verdade. Como o sabes? Não fui eu que ditei a carta e a assinei para o rei da Pérsia? Consultai os vossos arquivos... Janeiro de quinhentos e setenta e dois, se a memória me não atraiçoa...»

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A Ponte dos Suspiros

«(…) Anda cá, meu lindo! Olhinho vivo, matizado. Sou eu que te conheço. Esta peitaça de senhor dos ares, este azulado metálico de penas, estas listas cinzentas. Espera. Talvez tu me possas salvar, levar recado... Talvez pudesses, mas onde tenho eu papel, tinta, pena? Eu sei, eu sei. De bom grado me emprestavas uma das tuas penas..., mas o resto? Nem qualquer sinal de mim trago no corpo a não ser o próprio corpo com as cicatrizes da vida e a alma com as cicatrizes da morte..., nem anel, nem medalha, nem chancela... o rei nu... Afago-o, beijo-o: Vai, amigo, vai à tua vida e lanço-o ao ar pelo janelo e fico a vê-lo elevar-se com três vigorosas batedelas de asas, fazer um largo giro no céu e tomar rumo de San Beneto ali para trás na outra curva do canal.

De novo sozinho, recosto-me a tentar adormecer, mas a porta abre-se e aparece o carcereiro com dois meirinhos. Levanto-me e sigo-os. Conheço o que me aguarda. Transposta a saída, está-se numa pequena quadra que dá para a sala dita das torturas, estreita e alta, escura, ao meio um pequeno estrado de três degraus a que chega, suspensa do tecto, uma corda de que costumam pendurar os pacientes pelos pulsos para lhes arrancar a confissão. De um varandim de madeira assistem os juízes. Não é aqui que paramos, pois me têm poupado, por enquanto, a essa infâmia. Mas não posso impedir que me acuda o pensamento acusador de que também eu presidi com regozijo a morticínios de autos-de-fé e chacinas de judeus e exortei reis e príncipes a que fizessem o mesmo em terras de protestantes.

Morsega-me a consciência ou não será puro egoísmo, instintivo medo que arrepanha a pele?... Na sala seguinte, a do conselho, esperam-me os juízes para mais um interrogatório. Preside Marco Quirini, que sem rodeios me diz: Mais uma vez te exortamos a que nos digas o teu verdadeiro nome. Sebastião. Sebastião quê? Rei não tem apelidos. Sebastião primeiro de Portugal. Os juízes olhavam-se, irritado um, desolado outro, o presidente calmo e paciente. Sabes que há quem pense que és louco, que entraste num jogo perigoso... Nem sou louco nem é jogo. ... que te pode levar à morte... Se me matardes, cometereis um grande erro. Nós não te queremos matar..., mas sim que nos proves a verdade do que dizes. O teu caso pode ter implicações imponderáveis nas relações entre a Senhoria e Espanha... Esqueceis-vos de que era amistoso o trato entre o reino de Portugal e a vossa República... Não nos esquecemos, mas... Recordo-me de que pessoalmente escrevi à Senhoria em assentimento ao pedido por ela feito, através do embaixador António Tiepolo, para que Portugal exortasse o rei da Pérsia a auxiliar a liga dos Cristãos contra o Turco...

Isso é verdade. Como o sabes? Não fui eu que ditei a carta e a assinei para o rei da Pérsia? Consultai os vossos arquivos... Janeiro de quinhentos e setenta e dois, se a memória me não atraiçoa... Mostravam-se perturbados. Apresentava-lhes factos concretos das relações dos dois estados, falava-lhes de minúcias do crédito de Portugal nos bancos de Génova e Veneza, do comércio das especiarias que da Índia vinha a Veneza, a Lisboa, a Antuérpia, à Hansa de Danzigue... Compreendia ser o receio que mostravam em todo este negócio desagradar à poderosa Espanha que dominava mais de metade da Itália...» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura,

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Há aqui qualquer coisa que me não parece curial. Quê? Afinal, porque o prendestes? De que o acusais? Ele é réu de que crime?»

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O Sósia

«(…) Parece que a Senhoria procedeu assim a instigação do embaixador de Espanha. E como poderia o embaixador de Espanha saber?, perguntou frei Estêvão. Nem quero pensar, disse frei Crisóstomo com ar grave, que entre nós haja um traidor. Pode lá ser!, exclamou Pimentel levando a mão ao punhal. Teria de se haver comigo. E comigo, disse Pessoa. Tens razão, Pimentel, secundou Nuno Costa. Não pode ser. Talvez, antes, tenha havido inconfidência saída de casa do arcebispo... E lançava aos companheiros um olhar sagaz. Vou à Senhoria, disse Frei Estêvão. Hei-de falar com alguém do Conselho. Quero saber o que se passa. No palácio o juiz Marco Quirini recebeu-o com solicitude, disse que o processo estava confiado a mais três juízes, além dele, e que seguia com todas as cautelas dada a gravidade e o melindre da situação. Queremos honestamente esclarecer a identidade do preso e apurar a verdade. Temos-lhe feito constantes interrogatórios... E ele?..., afirma e confirma o que vós bem sabeis. Não me conformo, disse frei Estêvão. Há aqui qualquer coisa que me não parece curial. Quê? Afinal, porque o prendestes? De que o acusais? Ele é réu de que crime?

Visivelmente embaraçado, Marco Quirini respondeu: Ele foi intimado pela Senhoria a, no prazo de oito dias, sair dos territórios da República. Não obedeceu. E que crime cometeu ele para ser expulso da República?... Não respondeis. Respondo eu: o crime de afrontar a Espanha. Examinamos o caso com isenção... Sob a pressão do embaixador castelhano. Não nos deixamos conduzir por qualquer influência. Se chegardes à conclusão de que ele é um embusteiro..., será condenado. Se finalmente acreditardes que ele é o rei de Portugal... Teremos de enfrentar a inimizade da Espanha. Da Espanha?, exclamou frei Estêvão levantando-se. E a França? E a Flandres? E a Inglaterra?... Marco Quirini acompanhou-o à porta: Poderei dar-vos um conselho? Agradeço-vo-lo. Ide a Portugal. Procurai obter dados, sinais, indícios, traços concretos da identidade de el-rei Sebastião... Estai certo de que assim farei. Não desistirei enquanto não libertardes o meu rei.

A Ponte dos Suspiros

Gaivotas e pombas são as minhas visitas, às vezes um ou outro pardal pousa a medo no beiral do meu janelo de grades. Dou-lhes migalhas do meu pão. Habituam-se ao ritual e acabam por também eles serem o meu relógio dos dias intermináveis. A única vantagem deste meu cárcere é não se situar nos caboucos do palácio, mas alcandorar-se cá em cima no balouçar dos nevoeiros, sobre a ponte dos Suspiros. Sinto a maresia subir até mim, mas não vejo o canal nem a laguna. Esta experiência me faltava, ser encarcerado e ter a fragilidade ameaçada com a prepotência de interrogatórios, a iminência de torturas e talvez até de morte ignominiosa. Que fazer? Luto por que tempo e lugar se não alonguem de mim e me não deixem abandonado à impotência da angústia, suspenso sem amarras que me amparem a queda no aniquilamento. Acuda-me este pombo que agora aí pousou e se está meneando em vénias e arrulhos. Parece saudar-me. Estendo-lhe a palma da mão cheia de migalhas, como costumava em San Beneto, em casa de Jerónimo Migliori, com os pombos a esvoaçarem-me em redor, a pousarem-me nos ombros, nas mãos. Este não me estranhou. Será um deles e conhecer-me-á?» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

 JDACT, Fernando Campos, História, Literatura,

segunda-feira, 18 de julho de 2022

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Como é que sabes isso?, contou-mo meu aio Diogo Soares..., bem conhecia, respondeu o rei, o grande amor que mestre Guedelha lhe tinha e não duvidava ser a astronomia ciência boa e entre outras permitida e aprovada…»

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O Rei de Marfim

«(…) Que me estás tu a cantar, mofino?, agastado que te mostravas! Vendo-te tão apaixonado, juntei duas folhas de papel, desenhei um tabuleiro e aproximei-me da mesa, o rei ralhava o moço chorava: Senhor, trago aqui tabuleiro e com um pouco de cera apeguei-o ao tampo da mesa. Logo te serenou a ira: Ora estais a ver? Exclamaste sorrindo a todos. Para que é trazer tabuleiro nem coisa nenhuma? Basta trazer Resende…, contar as tuas bondades, reconhecer como eras agradecido de qualquer coisa pequena que fosse..., e tentar compreender como é que um homem tão generoso podia dar criamento dentro de si àquela fera, bicho era a tua expressão, que te impelia a praticares actos tão temerosos e cruentos como os que levaste a cabo em tua vida. Como os que levaste a cabo em tua vida. Res dura et regni novítas me talia cogunt molirí, ouvi-te certa ocasião dizer. Res dura, era matéria grave, sim, essa que te coagiu a derramares tanto sangue pelo caminho. Como foi tudo isso possível? Aí vais tu, hirto, deitado na tumba, frio como a alma do gelo, à luz das tochas. Esperam-te diante três alcofas de cal virgem para te ajudarem a seres comido mais cedo. Tinhas tu sete meses morre-te a mãe lacerada de desgostos..., que vozes grita a ventania nos galhos das árvores? Parecem embuçados a arranhar ameaças nos refegos da noite..., paira sobre esta família o espectro da morte violenta e da bastardia..., joga o teu xadrez, rei, um trebelho, outro e outro e outro, cabeças coroadas, bispos, cavaleiros, peões humildes, as paredes cruas de castelos e de paços..., pretas ou brancas, meu irmão?, perguntava-te Joana. sentados à sombra de um carvalho, nos paços de Santo Elói. Sobre a mesa de pedra o tabuleiro. Vestida de dó, de costas à borda do tanque, alheada, a tia Filipa dava migalhas às pombas.

Tanto faz, escolhe tu, irmã. Prefiro  as brancas. É cor de bodas. dezasseis anos...  pretendes casar? É cor de outra coisa, ordena as tuas figuras, não queres começar o torneio? Não te praz a conversa, bem te entendo. o rei nosso pai deve ter sobre isso suas tenções. Andar, andar. Gosto do teu sorriso, apesar da tristeza dos olhos e de..., ora!  Estou pronto! Torneio e justas é comigo. Avança. Este é o rei Duarte..., nosso avô paterno? Então já sei que vou ganhar o jogo. Como assim? Após a morte do pai, nosso bisavô João..., primeiro deste nome. Tu serás um dia o segundo. Não quis o rei Duarte dilatar para depois do meio-dia a cerimónia do seu alevantamento nem sofreu aguardar melhor conjunção dos astros. Mestre Guedelha, seu físico e astrólogo, bem o avisava: Júpiter encontrava-se retrogradado, o Sol em caimento e havia no céu sinais de mau agouro...

Como é que sabes isso?,  contou-mo meu aio Diogo Soares..., bem conhecia, respondeu o rei, o grande amor que mestre Guedelha lhe tinha e não duvidava ser a astronomia ciência boa e entre outras permitida e aprovada, e estarem os corpos inferiores sujeitos aos sobrecelestes, porém sobre todos pairar a mão e a ordenança de Deus. Justa sentença é essa na verdade. O judeu profetizou então a el-rei um reinado curto e atribulado, o que veio a acontecer, como adiante se viu. Por isso te digo, irmã, que este jogo será breve..., e eu o ganharei. Como ganharás?, queres ver? Dizias manobrando com cuidado as pedras. Com o desastre de Tânger e o cativeiro do irmão Fernando... Joana tentava defender-se contrapondo os cavalos, as torres, os peões, que iam caindo uns atrás dos outros. Move os cavaleiros, os bispos, frecheiros, archeiros, besteiros o que quiseres, eu ganharei. olha! Aí está: o rei morreu..., e deslocaste o trebelho fatal.

 Oh! Pensam alguns que da amargura de lhe aparecer em insónias o corpo do irmão a apodrecer de maus tratos nas masmorras de Fez. Corriam boatos de que se lhe havia empeçonhentado uma ferida de um ombro ou havia aspirado veneno ao abrir de uma carta... Falas de outra luta? Tu, minha irmã, é que referiste esse rei de marfim como sendo o bom rei Duarte nosso avô. À roda dele giravam nobres senhores e esboçavam-se as lutas que ao depois se seguiram. Marfim, ébano..., eu sei. Encetaremos outra jogada, outras jogadas. Reveremos tudo, com a morte recente da nossa avó Isabel de Urgel fecha-se um círculo de tamanho ódio! Psiu! Falasse baixo! Tia Filipa podia ouvir pobre senhora de luto pela mãe... Tudo aí começou » voltou-se Filipa em lágrimas. “ não chores, minha tia! então? Levantava-se Joana a abraçá-la, a sentá-la ao pé de si, trinta e um anos secos e martirizados. Tudo aí começou... Abriu-se em soluços, e agora, de uma casa tão grande e tão feliz, só eu e a triste da minha irmã Catarina encerrada na clausura de Santa Clara...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos, 

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «E ele?..., afirma e confirma o que vós bem sabeis. Não me conformo, disse frei Estêvão. Há aqui qualquer coisa que me não parece curial. Quê? Afinal, porque o prendestes? De que o acusais? Ele é réu de que crime?»

 

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O Sósia

«(…) Parece que a Senhoria procedeu assim a instigação do embaixador de Espanha. E como poderia o embaixador de Espanha saber?, perguntou frei Estêvão. Nem quero pensar, disse frei Crisóstomo com ar grave, que entre nós haja um traidor. Pode lá ser!, exclamou Pimentel levando a mão ao punhal. Teria de se haver comigo. E comigo, disse Pessoa. Tens razão, Pimentel, secundou Nuno Costa. Não pode ser. Talvez, antes, tenha havido inconfidência saída de casa do arcebispo... E lançava aos companheiros um olhar sagaz. Vou à Senhoria, disse Frei Estêvão. Hei-de falar com alguém do Conselho. Quero saber o que se passa. No palácio o juiz Marco Quirini recebeu-o com solicitude, disse que o processo estava confiado a mais três juízes, além dele, e que seguia com todas as cautelas dada a gravidade e o melindre da situação. Queremos honestamente esclarecer a identidade do preso e apurar a verdade. Temos-lhe feito constantes interrogatórios... E ele?..., afirma e confirma o que vós bem sabeis. Não me conformo, disse frei Estêvão. Há aqui qualquer coisa que me não parece curial. Quê? Afinal, porque o prendestes? De que o acusais? Ele é réu de que crime?

Visivelmente embaraçado, Marco Quirini respondeu: Ele foi intimado pela Senhoria a, no prazo de oito dias, sair dos territórios da República. Não obedeceu. E que crime cometeu ele para ser expulso da República?... Não respondeis. Respondo eu: o crime de afrontar a Espanha. Examinamos o caso com isenção... Sob a pressão do embaixador castelhano. Não nos deixamos conduzir por qualquer influência. Se chegardes à conclusão de que ele é um embusteiro..., será condenado. Se finalmente acreditardes que ele é o rei de Portugal... Teremos de enfrentar a inimizade da Espanha. Da Espanha?, exclamou frei Estêvão levantando-se. E a França? E a Flandres? E a Inglaterra?... Marco Quirini acompanhou-o à porta: Poderei dar-vos um conselho? Agradeço-vo-lo. Ide a Portugal. Procurai obter dados, sinais, indícios, traços concretos da identidade de el-rei Sebastião... Estai certo de que assim farei. Não desistirei enquanto não libertardes o meu rei.

A Ponte dos Suspiros

Gaivotas e pombas são as minhas visitas, às vezes um ou outro pardal pousa a medo no beiral do meu janelo de grades. Dou-lhes migalhas do meu pão. Habituam-se ao ritual e acabam por também eles serem o meu relógio dos dias intermináveis. A única vantagem deste meu cárcere é não se situar nos caboucos do palácio, mas alcandorar-se cá em cima no balouçar dos nevoeiros, sobre a ponte dos Suspiros. Sinto a maresia subir até mim, mas não vejo o canal nem a laguna. Esta experiência me faltava, ser encarcerado e ter a fragilidade ameaçada com a prepotência de interrogatórios, a iminência de torturas e talvez até de morte ignominiosa. Que fazer? Luto por que tempo e lugar se não alonguem de mim e me não deixem abandonado à impotência da angústia, suspenso sem amarras que me amparem a queda no aniquilamento. Acuda-me este pombo que agora aí pousou e se está meneando em vénias e arrulhos. Parece saudar-me. Estendo-lhe a palma da mão cheia de migalhas, como costumava em San Beneto, em casa de Jerónimo Migliori, com os pombos a esvoaçarem-me em redor, a pousarem-me nos ombros, nas mãos. Este não me estranhou. Será um deles e conhecer-me-á?» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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domingo, 17 de julho de 2022

Infante dom Pedro. Isabel Machado. «Dona Filipa de Lencastre estendeu ao filho do marido uma mão quase hirta e o enteado depositou um beijo frio na peie de leite»

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Quarenta e quatro anos antes. Lisboa, Out0no de 1405

«(…) A infanta nascera dos amores ilícitos de dom João na mocidade, incapaz de segurar a carne e honrar os votos como mestre da ordem de Avis, perdido o tino por conta da paixão pela plebeia Inês Pires. Mas não renegara os filhos, Afonso e Beatriz, nem quando subiu ao trono. Assumiu-os honradamente, obteve a legitimação do papa, fazendo-se acompanhar por eles, mesmo após o matrimónio com dona Filipa de Lencastre. Fizera Afonso conde de Barcelos, um dos fidalgos mais poderosos do reino, e casara-o com a filha única e muito amada de Nuno Álvares Pereira, Beatriz Pereira de Alvim, já nascida na grandeza. Mas não houvera honrarias que extinguissem na alma de Afonso o estigma da origem ilegítima no ventre de uma mulher do povo, nem o ressentimento de se ver preterido desde que os meios-irmãos, infantes de Avis, haviam começado a vir ao mundo, nascidos do ilustre sangue de dona Filipa de Lencastre. O despeito e o ciúme cravaram-se-lhe no coração como uma adaga. Os modos refinados, mas sempre altivos, tapavam essa verdade aos olhos dos infantes, e o rei fazia-se cego às máculas daquele que fora o seu primeiro varão.

Mas dona Filipa crescera habituada à traição que grassava na sua família e reconhecia aquela peçonha em qualquer lugar. Desconfiava de Afonso e dos seus intentos, o que ditara um desafecto mútuo para a vida. Impunha alguma distância e diferenças no tratamento entre o conde de Barcelos e os legítimos, e o rei cedia, como lhe cedia em quase tudo, grato pelo prestígio e dignidade que rrouxera para a nova dinastia, com o mais elevado sangue da Casa real de Inglaterra. Ao contrário de Afonso, a infanta Beatriz ganhara a afeição da rainha e fora elevada ao Olimpo da melhor fidalguia inglesa com aquele casamento que a unia a sir Thomas FitzAlan, conde de Arundel, arranjado pela madrasta, ciosa das purezas de casta.

Já engalanado para o cortejo real que iria atravessar Lisboa e levar Beatriz ao cais, Pedro observava a postura distante da mãe com Afonso de Barcelos antes de montarem os faustosos corcéis. Dona Filipa de Lencastre estendeu ao filho do marido uma mão quase hirta e o enteado depositou um beijo frio na peie de leite. Os gestos, quase imperceptíveis, contrariavam as mesuras; o sorriso discreto e um aceno de cabeça da rainha, a vénia cortesã de Afonso. Mas, sobretudo, contrastavam com os modos que o infante vira no pai. Dpm João recebera o conde de Barcelos de rosto prazenteiro e um abraço mal ele se erguera do cumprimento ao monarca, de joelho em terra. A semanas de completar treze anos, Pedro ainda não desvendara todos os meandros subtis da mente dos homens, nem os muitos compartimentos que nela cabiam. Mas observava sinais que escapavam ao significado imediato das palavras e detinha-se neles, fosse um olhar mais fugidio ou, ao invés, um demasiado quieto e penetrante, para convencer e ocultar verdades, uma tremura das mãos, uma rigidez do corpo, os numerosos desenhos que podiam formar as linhas dos lábios. Escutava o tom, mais do que o som. Por isso, aquele gelo da mãe contava mais do que a perfeição dos modos que os olhos viam. Afonso de Barcelos vivia nos seus domínios do Norte e pouco vinha à corte, embora fosse conselheiro do rei. Era chamado para exprimir juízos ao soberano sobre assuntos de vulto e para celebrações. Talvez pelo trato pouco frequente e pela diferença de quinze anos, aquele meio-irmão não era alguém fácil de conhecer. Via-o polido, mas distante. Intrigou-se com aquele desacerto, como se tomasse consciência dele pela primeira vez.

Intrigou-se com aquele desacerto, como se tomasse consciência dele pela primeira vez. Existe alguma desavença entre a senhora nossa mãe e Afonso de Barcelos?, indagou ao irmão Duarte, a seu lado?» In Isabel Machado, Infante Dom Pedro, O Regente Visionário que o Poder quis Calar, 2021, Editorial Presença, Manuscrito, 2021, JSBN 978-989-897-590-4.

Cortesia de EPresença/Manuscrito/JDACT

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sábado, 16 de julho de 2022

Infante dom Pedro. Isabel Machado. «A nobreza, há que precaver dela! Ao invés da lealdade ao rei de Portugal, prostravam-se aos pés dos de Castela quando vêem ganhos na traição»

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Quarenta e quatro anos antes. Lisboa, Out0no de 1405

«(…) Mas John of Gaunt não fora apenas um homem de desmedida ambição e vida devassa. Profundamente culto e patrono das artes, promovera nos filhos o amor ao estudo e ao conhecimento. Ao contrário do pai, Filipa fizera-se severa nos costumes morais. Fervorosamente devota e de vasta, lisura, dominava o inglês, o francês e o latim e trouxera para a corte portuguesa hábitos de erudição. Sonhara com o marido dar a Portugal uma geração de infantes ilustres e, do seu ventre fértil, nasceram oito filhos, que haviam sobrevividos seis. Consolidar a dinastia que iniciara de forma tumultuosa e sem certezas de que se manteria no trono, confirmado em Cortes pela mestria da oratória de João das Regras, era o propósito da vida do rei português. Dignificar o nome de Avis impunha um esforço permanente. Perspicaz, dom João cedo intuíra que era preciso reinar pelo exemplo para manter os seus descendentes no trono de Portugal.

A autoridade moral e o conhecimento, tanto como a força das armas, garantiriam essa determinação, acredita o rei. Na inexperiência da mocidade, os filhos não haviam sentido como lhe fora difícil chegar ali, nascidos já em berço mais do que dourado. Dom João moldara-se como monarca, bem ciente da traição de parte da fidalguia do reino, uma cisma que nunca o largava. Martirizava a mente verde dos infantes com essa verdade. A nobreza, há que precaver dela! Ao invés da lealdade ao rei de Portugal, prostravam-se aos pés dos de Castela quando vêem ganhos na traição. Julgais que a ameaça se esfumou? Está sempre aqui, sempre aqui! De indicador esticado, batia com ele na testa.

O rei tinha na soberba memória um dos seus atributos. Não esquecia e não permitia que esquecessem, sabedor de que o passado era teimoso e regressava sem pudor, sempre que a memória se esvaía de um povo. Mas havia genuíno amor ao pai, não apenas temor, em todos os infantes de Avis. Idealizavam o rei como um dos heróis dos romances de cavalaria que a mãe lhes lia desde que se lembravam de existir Faziam tudo para agradar ao monarca, homem de génio à flor da pele, cioso do seu mando e obstinado como poucos. De coração generoso quando a vida lhe corria de feição, o rei comprazia-se na companhia da família. Por todos os motivos do passado e sempre com a vista no futuro, dom João voltara agora a reforçar a aliança inglesa, casando a sua filha Beatriz com um nobre do reino da rainha dona Filipa». In Isabel Machado, Infante Dom Pedro, O Regente Visionário que o Poder quis Calar, 2021, Editorial Presença, Manuscrito, 2021, JSBN 978-989-897-590-4.

Cortesia de EPresença/Manuscrito/JDACT

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quarta-feira, 13 de julho de 2022

Infante dom Pedro. Isabel Machado. «… lançara o reino num período de rivalidades fratricidas entre a nobreza, miséria e revolta popular. O reinado do irmão era uma fonte de ralações para a rainha de Portugal»

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Quarenta e quatro anos antes. Lisboa, Out0no de 1405

«(…) Pela força das armas e do génio militar de Nuno Álvares Pereira, os portugueses haviam esmagado os invasores de Castela, apoiados por muita fidalguia portuguesa, que preferia ver no trono um castelhano pelos ganhos que a união das coroas traria às suas linhagens. A vitória na mais épica das baralhas, em Aljubarrota, marcara a viragem do destino a favor de dom João. O exército português contara com a ajuda preciosa das hostes inglesas, comandadas por John of Gaunt, duque de Lencastre, o terceiro filho do rei Edward III. Uma coincidência do destino unira portugueses e ingleses contra os castelhanos.

O turbulento e ambicioso duque nunca se resignara com o papel secundário que a sua ordem de nascimento impunha, julgando-se merecedor de uma coroa. Por morte da primeira mulher, Blanche, mãe da rainha portuguesa, que lhe dera título, fortuna, terras, castelos e três filhos, casara em segundas núpcias com a infanta castelhana, Constança, filha do rei Pedro de Castela, assassinado pelo meio-irmão Henrique, que iniciara a nova dinastia dos Trastâmaras. Constança vivia exilada em Inglaterra, mas, por morte do pai, intitulara-se a legítima rainha castelhana. Sempre disposto a um novo golpe que expandisse o seu poder, John of Gaunt concebeu um estratagema audaz. Proclamou-se rei consorte de Castela e entregou-se apaixonadamente à nova ambição: invadir o reino de sua mulher, depor Henrique de Trastâmara, sentar Constança no trono e designar herdeira a filha de ambos, Catarina de Lencastre.

A conjugação de interesses contra os castelhanos unira, assim, John of Gaunt e dom João de Avis. Corria o ano de 1386 quando se forjou a aliança que trouxe o duque de Lencastre à Ibéria, para se juntar aos exércitos Portugueses. Se dom João garantira plena vitória sobre os castelhanos. o duque regressara a Inglaterra sem conseguir todos os seus intentos. Não ganhara o trono castelhano para a mulher, mas firmou a promessa de matrimónio da filha Catarina com o pequeno príncipe herdeiro de Castela, futuro Henrique III, unindo as duas dinastias desavindas.

Contudo, o maior trunfo conseguira-o John of Gaunt pelo casamento da filha mais velha, Filipa, com o rei de Portugal, um enlace de conveniência, que se transformaria numa união exemplar de afecto e respeito. O duque de Lencastre nunca conquistou o sonho de se ver coroado rei, mas conseguira que três filhos se sentassem em tronos. O irmão de Filipa, Henry, herdara a ambição sanguinária do pai e havia usurpado a coroa ao primo direito, Richard IL Proclamou-se rei de Inglaterra, como Henry, IV, e fundou a nova dinastia de Lencastre.

Envolvera-se numa guerra com França, onde Inglaterra detinha possessões desde o tempo de seu avô, e lançara o reino num período de rivalidades fratricidas entre a nobreza, miséria e revolta popular. O reinado do irmão era uma fonte de ralações para a rainha de Portugal». In Isabel Machado, Infante Dom Pedro, O Regente Visionário que o Poder quis Calar, 2021, Editorial Presença, Manuscrito, 2021, JSBN 978-989-897-590-4.

Cortesia de EPresença/Manuscrito/JDACT

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segunda-feira, 11 de julho de 2022

O Fogo e a Rosa, António Vieira. Seomara Veiga Ferreira, «Era cedo. No Terreiro do Trigo as tendas, abertas desde as oito horas, só fechavam tarde e à noite, lá para as quatro horas depois do meio-dia algumas, ou às sete, quando a difusa luz do Poente…»

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A Viagem Imóvel

«(…) Baruch, embora bastante velho e um tanto gasto, a idade não perdoa nem a um físico!, vinha a Lisboa com uma missão difícil, espinhosa, que duvidava ser capaz de cumprir, apesar da amizade que o ligava ao padre Vieira e de todo o seu sábio poder de persuasão. Tivera notícias do padre António Vieira havia pouco tempo, através de uma carta do filho do falecido Manuel Pádua, que fora um influente homem de Roma, e um dos amigos do velho jesuíta. E por ele soubera que o grande orador se desculpara de qualquer regresso à corte da Rainha, uns dias antes, numa carta dirigida ao Geral Oliva, exprimindo o desejo de regressar ao Brasil, depois de já ter refutado o convite da Rainha em 1679, invocando a sua falta de saúde, a velhice, a desilusão, e o conselho dos médicos a respeito dessas maleitas e dos rigores dos Invernos europeus. António Vieira arrastara-se por Xabregas, em Julho de 1679, nas Caldas e, depois no ano anterior, pelo menos desde o Verão, lá ficara na Quinta de Carcavelos que a Sociedade aí possuía, e onde já não se viam naus da Índia mas barcos de pescadores, como o bom padre frequentemente referia, traduzindo um desalento que entristecia a sua alma, essa alma enorme de velho português traído pelo destino e pelos homens. Como todos nós, como todos nós, murmurava o velho médico da filha do Rei Gustavo Adolfo da Suécia. Ela convencera-o a embarcar para Lisboa e entregar pessoalmente uma carta sua ao homem que ela escutara deslumbrada em Roma, esse velho padre português que aprendera a falar correctamente o italiano em poucos meses e, do púlpito, arrastava as multidões e a alma dos crentes presos ao seu verbo hipnotizador. Ele fizera parte da sua academia de génios onde ela presidia como Basilissa, como a Minerva dos tempos modernos, liderando essa Arcádia como Rainha, mentora, carismática mentora dos espíritos e deusa da cultura.

Bento sentia-se fatigado, embora sempre servido por uma força do espírito que lhe robustecia o corpo enxuto de carnes e que já fora atlético e firme. E a verdade é que tivera sempre uma saúde de ferro. Parou numa esquina quase atropelado por uma magnífica liteira carregada por dois moços muito sujos e um estribeiro de cara magra e olhar evasivo, todos envergando librés castanhas em mau estado, e de tecido fraco, apesar do frio. Lá dentro vislumbrava-se o vulto de uma dama jovem, bem vestida, por entre as cortinas entreabertas de carmesim. Já eram poucas as liteiras, sem dúvida. Os coches ultrapassavam, só ali, naquela rua, a meia centena. Rebentavam, aqui e ali, entre a criadagem, disputas, ameaças e impropérios. Como em todo o lado. Em Roma, a bela Roma dos antigos deuses, na pagã Roma dos Césares, não era melhor. Uma das coisas que espantava Bento Castro, que conhecia várias cidades europeias, era a reduzida existência de vidraças nas janelas. Em Londres, por exemplo, a indústria das vidraças transformara-se num êxito e os Ingleses exportavam-nas para todo o lado. Em Lisboa é evidente que algumas casas as apresentavam mas outras não, até na maior parte delas não se vislumbrava o vidro.

Bento passara a noite numa estalagem na Rua dos Cavaleiros e não dormira bem por causa do barulho, das arruaças, da gritaria das mulheres de má vida e seus clientes que - os estalajadeiros lhe explicaram, se distribuíam por aí, por trás dos Estaus, na Mancebia, no beco dos Açúcares, dos Fiéis de Deus... O sagrado e o profano misturam-se na vida das gentes como se o destino se divertisse a tentar emporcalhar o que é santo. Pela manhã descera ao Rossio, depois visitara as ruas adjacentes, caminhara até ao Terreiro, enorme, arejado, onde, à direita, o Paço Real ostentava a sua grandiosidade, após as obras de ampliação feitas por ordem de El Rei dom João, pai de dom Pedro, que habitou, após a destituição do irmão dom Afonso, que ainda vivia em Sintra, no palácio dos Cortes-Reais, próximo da Ribeira, aquele belo edifício com as suas torres nos ângulos, de altos pináculos como telhados, que pareciam setas a apontar ao céu, repleto de belas peças de mobiliário como em todas as grandes casas, importadas da Itália, do Brasil, da França, da Flandres, da Índia, da Ásia... A Rainha Cristina mandara vir, através de um mercador judeu de Florença, uma bela peça de pau-preto de Moçambique, um grande armário onde guardava a sua correspondência, e que fora transportado de Lisboa para Roma. Realmente como são estranhos os rebuscados caminhos da nossa memória! Recordo perfeitamente o dia da chegada do móvel ao palácio da Rainha! Foi no ano de 1675, no dia em que o músico Corelli foi recebido por ela e passou a estar ao seu serviço. Nesse dia ficou instalado nos aposentos do cardeal Ottoboni, o sobrinho do Papa.

Era cedo. No Terreiro do Trigo as tendas, abertas desde as oito horas, só fechavam tarde e à noite, lá para as quatro horas depois do meio-dia algumas, ou às sete, quando a difusa luz do Poente já não vestia o rio da púrpura do seu sangue. Era aí que se cantava, comia, se adquiriam as vitualhas que vinham de todo o mundo, a manteiga da Flandres, os queijos de França, os frutos doces do Brasil, as conservas das Canárias e da Madeira, o bom vinho das adegas da França, como se em Portugal não houvesse em fartura e qualidade esse néctar que Romanos e Gregos diziam ser dom dos deuses... A Ribeira e o Terreiro do Trigo que vende tudo, lá dizia o frei Nicolau, tudo quanto o mundo encerra. Bento, recém-chegado da nobre Roma, adorava ver todo aquele movimento, as cabanas e os alpendres dos vendilhões e regateiras cobertos com telhados de telha verde, e os dois depósitos de sal sem cobertura construídos em madeira. E a caça, os animais de pena para criação e para o tacho, os cabritos inteiros e esquartejados, os vitelos, os grandes cestos de vime repletos de ovos, e o peixe, cujos postos de venda eram cobertos por grandes chapéu-de-sol quadrangulares». In Seomara Veiga Ferreira, O Fogo e a Rosa, António Vieira, 2002, Grandes Narrativas, Editorial Presença, ISBN 978-972-232-873-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

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domingo, 10 de julho de 2022

O Fogo e a Rosa, António Vieira. Seomara Veiga Ferreira, «Podia aplicar-se o preceito de Plínio a essa trabalhadora incansável, Nulla dies sine linea que, apesar de se dirigir ao trabalho de um pintor…»

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A Viagem Imóvel

«A cidade acordou fria, coroada por um sol pálido, e o rio tacteava as suas praias como um longo e agitado cordão de estanho onde ondas minúsculas, debruadas a branco, estremeciam o seu corpo, afagadas pela brisa da manhã. Bento Castro, que nunca estivera em Lisboa, achou-a bela, colorida, ruidosa e feliz. Apesar do Inverno, do Janeiro que chegava quase ao fim, a multidão era imensa e variada, tal como os veículos e animais de carga que sulcavam as ruas. Coches, liteiras, seges, cavalgaduras juntavam-se nas esquinas e grupos de gente gritavam, gesticulavam e percorriam a Rua dos Ourives da Prata, que, dizia-se, sofrera, como outras artérias da urbe, obras de melhoramento havia pouco tempo. O visitante experimentava uma comoção sincera, quase sufocante. Se não fossem os azares do destino, teria visto pela primeira vez a luz em Portugal, que conhecia apenas das entusiásticas descrições dos viajantes rendidos à beleza da sua capital bem como das cartas geográficas que os geógrafos publicavam e que percorriam o mundo. Talvez nas livrarias estivessem à venda os seus livros, como as obras do seu pai, o insigne médico Rodrigo Castro, mas que tinham sido impressas em Hamburgo, onde Bento nascera, e em Amsterdão, onde em breve sairia da impressora a sua Apologia dos Médicos Portugueses.

Visualizou o rosto severo do pai, morto meio século antes, o pai que nascera em Lisboa, aí exercera o seu mester e até 1588 fora médico da armada espanhola, e enterrado na Alemanha. Enquanto recordava o Mercúrio Português, que lera em Roma, havia uns bons quinze anos, com a descrição dos grandes trabalhos de alargamento e restauro das ruas de Lisboa, tacteou os largos bolsos pregados de botões dourados da casaca e, depois, a bolsa de couro forrada a veludo, que trazia junto à pele, e onde se achava a carta da Rainha, de Sua Majestade a incomparável, inteligente e voluntariosa Rainha Cristina Alexandra por quem nutria uma afeição tão profunda que poderia sugerir nos incautos o fulgor ígneo de uma avassaladora labareda de amor. Conhecia-a melhor que ninguém porque era o seu físico havia muitos anos. Como qualquer Hipócrates talentoso e afeiçoado, conhecia-lhe o vigoroso corpo de mulher habituada aos exercícios físicos - andava a pé milhas e chegava a cavalgar horas seguidas por brenhas ou pelas vastas florestas da sua terra, da Alemanha e da França, e auscultava-lhe, melhor que qualquer outro dos seus colegas anteriores, a alma, aquela alma que continha um universo de sabedoria, emoções e filosofia da ciência política. Admirava-a, adorava-a. Teria, se lho pedissem, morrido por ela.

Já a Rainha habitava Roma havia precisamente dez anos quando o jornal português lá chegara. Aí arribavam muitos livros também provenientes de Portugal e Espanha, levados na bagagem dos mercadores, refugiados, emigrantes fugitivos dos rigores da justiça, da fé ou da intolerância. A Rainha possuía uma vasta e rica biblioteca com mais de sete mil obras e dois mil manuscritos. Tudo guardava, mandava catalogar e arrumar e passava horas a ler ou a escrever, desde dissertações filosóficas, às memórias, cartas, textos sobre alquimia e até óperas. Era uma grande e talentosa mulher, imensamente culta, arrojada, que não escondia a sua paixão por Maquiavel, cujo Príncipe anotara, estudava a Antiguidade, escrevia sobre Alexandre Magno, Ciro e César, enchia os seus trabalhos com frequentes alusões aos clássicos gregos e latinos, que conhecia de cor. Bento sorriu-se. Revia o rosto divertido de Cristina, agora com cinquenta e cinco anos, a referir-se ao grande escritor latino Cícero: Cícero foi o único cobarde capaz de criar grandes coisas. O que era uma profunda verdade. Mas ela também dizia os imbecis são mais perigosos que os maus. Também essa máxima constituía outra grande verdade já que a estupidez gera a ignorância e esta é a mãe de todos os vícios.

Podia aplicar-se o preceito de Plínio a essa trabalhadora incansável, Nulla dies sine linea que, apesar de se dirigir ao trabalho de um pintor, poderá ser a divisa de todos os escritores e pensadores que fazem da sua vida também uma obra de arte. Bento Castro. Bento. Era o seu nome português. Castro como o pai fugido à Inquisição (maldita) em 1594. Instalou-se em Hamburgo, mudara de nome, reconvertera-se ao judaísmo com o auxílio de outro grande físico marrano, também português, que lhe dera alojamento, dinheiro e amizade: Samuel Coen, conhecido nos ficheiros do Santo Ofício (maldito) como Henrique Rodrigues. Bento e o irmão André tinham seguido a carreira do pai. Baruch Nehemiah, como agora era conhecido, estava em Roma na corte de Cristina. Às vezes usara um pseudónimo para publicar as suas obras, Philoteus Castellus. O irmão era então médico do Rei da Dinamarca e passara a chamar-se Daniel. Não o via havia muitos anos. Talvez até já tivesse morrido. Portanto, tal como o pai o fora do Conde de Hesse e do Bispo de Bremen, eles também, após os estudos em Pádua, tinham ascendido a físicos-mores, mas da realeza». In Seomara Veiga Ferreira, O Fogo e a Rosa, António Vieira, 2002, Grandes Narrativas, Editorial Presença, ISBN 978-972-232-873-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

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Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Fui eu que cremei o vosso pai. Mem recordou-se: o pai a ser degolado pelo demónio de branco, o céu a ficar escuro e cheio de estrelas, uma mulher de negro colocando a cabeça junto do corpo do pai…»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Soure, Sábado de Aleluia, Abril de 1126

«(… ) Mem concluiu que um dos jumentos teria de descansar, pois estava magoado numa perna desde meio da tarde, e por mais que quisesse chegar aos arrabaldes de Coimbra nessa noite tal não seria possível. Ia pela antiga estrada, do tempo dos romanos, que ligava Santarém à cidade do Mondego, onde seu pai morrera, mas teria de parar a carroça um pouco afastada do caminho, pois nunca se sabia quem passava por ali durante a noite. Para o Domingo de Páscoa, um nobre coimbrão tinha-lhe encomendado lebres, gansos e perdizes, e Mem não estava habituado a falhar os seus compromissos. Fora assim que se tornara um almocreve tão fiável quanto o seu pai, por isso incomodava-o ter de parar, mas a perna do jumento necessitava de umas horas de descanso. Partiria de madrugada, estava a pouco mais de uma hora de Coimbra, e chegaria a tempo de entregar as carnes para o jantar, bem como uns salmonetes com que queria surpreender a esposa do cavaleiro, amante de peixes bem cozinhados e não só... Ao fundo, na penumbra da noite, descortinou os destroços da velha vila de Soure, que tinha sido arrasada aquando da primeira invasão do califa Ali Yusuf. Uma década depois, a destruição ainda se mantinha, agora debaixo de um manto de terra e de milhares de raízes de árvores, como sempre acontece aos locais de abandono.

Mem desatrelou os dois jumentos, amarrando-os a um carvalho. Examinou a perna do que coxeava: tinha um inchaço um pouco abaixo do joelho, provavelmente de uma pancada numa pedra. A estrada estava cheias delas, a carroça andava aos solavancos e os jumentos nem sempre as conseguiam evitar. Foi buscar um pó que lhe tinham vendido em Santarém e massajou o bicho no local da dor. Depois, procurou uma zona onde a erva estivesse baixa, para se deitar. Estava a estender uma manta no chão quando viu uma luz ténue, vinda das ruínas de Soure. Pensara em acender uma fogueira, para afastar os animais selvagens do carregamento e dos cansados jumentos, mas decidira não o fazer, pois tinha consigo um arco e umas flechas, e preferia atirar sobre um lobo ou um urso do que atrair a atenção dos salteadores. Agora, estava contente pela decisão que tomara. Aprendera a usar o arco em Coimbra, durante os anos que lá vivera depois da morte do pai, e tinha consigo flechas suficientes para derrubar quatro ou cinco homens.

Aproximou-se das ruínas, mas mesmo andando lentamente não conseguiu evitar pisar bosta de animal. Talvez andassem por ali ursos ou lobos, e aguçou os ouvidos. Como estava muito escuro, teve dificuldade em subir pelos destroços da muralha até encontrar um local para se agachar. A vinte metros dele, uma pequena fogueira ardia, iluminando o interior daquela desastrada alcáçova. Porém, não viu ninguém junto ao fogo, nem qualquer sinal de gente. De súbito, sentiu uma rabanada de vento sobrevoá-lo e estranhou. No céu, as nuvens que escondiam a Lua moviam-se lentamente. Notou um ligeiro cheiro a âmbar, mas não existia movimento de seres, humanos ou animais, atrás de si ou à sua frente, dentro ou fora do castelo. Começou a sentir-se ensonado e decidiu que era melhor regressar para junto dos jumentos, mas o seu corpo parecia estranhamente pesado e sem energia, e apoderou-se de Mem um receio agudo. Todavia, era tarde de mais, um paralisante cansaço venceu-o e tombou em cima das pedras. A meio da noite, acordou em frente à fogueira e não se lembrava de como ali viera parar. Fixou as labaredas, tentando recordar-se. Vira as nuvens, deitado em cima das pedras, e depois sentira o vento e o cheiro... Uma vaga de terror assaltou-o, talvez alguém tivesse roubado o seu ganha-pão. Libertou um palavrão e, para seu grande susto, ouviu nas suas costas uma voz: Descansai, os jumentos estão bem e a carroça também. Em esforço, rodou sobre si próprio no chão, tentando perceber quem lhe falava. A cerca de cinco metros, sentada num penedo, estava uma mulher totalmente vestida de negro, com um capuz sobre a cabeça, escondendo a cara.

Ela apontou para um local à sua esquerda e Mem viu os dois jumentos e a carroça, e ouviu outra vez a voz: Tive de vos adormecer, não gosto de surpresas. Mas depois reconheci-vos. O almocreve sentiu de novo um receio agudo a percorrer-lhe o corpo. Quem sois vós?, perguntou. De onde me conheceis? Então, a mulher falou pausadamente: Fui eu que cremei o vosso pai. Mem recordou-se: o pai a ser degolado pelo demónio de branco, o céu a ficar escuro e cheio de estrelas, uma mulher de negro colocando a cabeça junto do corpo do pai, e depois dizendo-lhe que se dirigisse a Coimbra, onde poderia recomeçar a sua vida, o que Mem fizera, com o coração rasgado de dor. Sentiu uma comoção interior». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «… quando se levantou, estava a chorar, com os violentos sentimentos feridos pela primeira rejeição que sofrera. Jumenta galega, pensou ela. O meu amado já não me quer. Sofro tanto. Vou dar cabo de vós»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu. Sábado de Aleluia. Abril de 1126

«(… ) Afonso Henriques semicerrou os olhos, irritado: os bobos espalhavam os planos do Trava, que queria oferecer Chamoa a Paio Soares, para comprar a sua submissão definitiva, e atacavam de caminho a honra da rapariga. Fruela lançou nova interrogação, como se ainda fosse Paio Soares quem falava: Será ela da minha confiança, roçará as tetas só nesta pança? Ordonho caiu de joelhos em frente ao irmão, colocando um ar inocente e bramindo em voz feminina: Marido Paio, parai de duvidar, à frente doutros não voltarei a ajoelhar! Afonso Henriques suspirou, desiludido. Um a um, os portucalenses eram apoucados pela insídia galega, que humilhava os ricos-homens de Entre Douro e Minho. Ao antigo alferes, seguiu-se meu pai, Egas Moniz, que Fruela ridicularizou, imitando um corcunda. Antes de conhecer a Celanova, estava com os pés para a cova! Ordonho encheu o peito de ar, rejuvenescendo. Mas agora, que ressuscitei, com a minha piça dura lhe darei! A multidão rejubilou, o que levou os bobos a insistirem no alvo. E se o rei Afonso de Castela volta a saltar para cima dela? Ordonho, para esclarecer o irmão, encurvou-se, imitando a posição anterior de Fruela, de velho corcunda. Regresso à minha Lamego, cornudo mas em sossego!

Vendo meu pai ser fustigado pelo impiedoso vernáculo dos bobos galegos, eu e meus irmãos perdemos a disposição para permanecer naquela festarola. Despedimo-nos de Gonçalo, que foi procurar soldadeiras, e acompanhados de Afonso Henriques regressámos a casa. No caminho, em silêncio ressentido, cruzámo-nos com Elvira, que voltava ao ofício. O meu amigo príncipe disse-lhe: Há pouco não queria ofender-vos. A rapariga normanda continuou a andar, mas uns metros à frente virou-se e olhou para Afonso Henriques: Não o haveis feito, belo príncipe. Continuámos a caminhar, e Soeiro, o mais novo dos meus irmãos, perguntou ao príncipe porque não ia ter com Elvira, mas ele não respondeu. Quando chegámos a casa, meu pai e meu tio conversavam à porta, e pediram a Afonso Henriques que ficasse ali, admitindo também a minha presença a seu lado.

Depois de meus irmãos Afonso e Soeiro se terem ido deitar, meu pai confessou a preocupação que sentia com a traição de Paio Soares, e meu tio adiantou a suspeita de que o Trava queria casar o novo mordomo com a sobrinha Chamoa. O meu amigo Afonso Henriques encolheu os ombros. Não vos preocupeis, isso não vai acontecer. A sua segurança residia numa curta e discreta conversa que tivera com a mãe ao final da tarde, mas que nós ainda desconhecíamos. Meu pai contou então que dona Teresa e Fernão Peres tentavam procriar um filho varão, mas Afonso Henriques também não viu risco algum nessa possibilidade. Um filho bastardo não herdará o Condado, Roma nunca o permitirá. Lembro-me de que meu pai e meu tio se espantaram com a forma serena e confiante como ele falava, pois não estavam tão seguros. Sancho, vosso tio, morreu em Uclés, com apenas treze anos, lembrou meu pai. Nem sempre os primeiros filhos sobrevivem. Convicto da sua boa estrela, Afonso Henriques afirmou: Não sou o meu pobre tio Sancho, não vou morrer tão cedo.

Depois, sorrindo pela primeira vez aos seus perceptores, acrescentou: Mas, se tendes receios, caso-me depressa e faço um filho! Meu pai e meu tio não esperavam aquela simplicidade tranquila com que o príncipe reagia, e mais tarde disseram-me que só ali se deram conta do quanto ele tinha amadurecido. Agora, era um homem sólido e forte, inteligente e atento, capaz de controlar o seu próprio destino e o do Condado. Orgulhosos e descansados, sorriram-lhe e deixaram-no ir deitar-se. Quando chegou à cama, Afonso Henriques sentia-se cansado mas também satisfeito, pelo que vivera à tarde com Chamoa. Pensou nela e adormeceu enamorado, e por isso não reparou quando Raimunda, já nua, veio deitar-se ao seu lado. Numa das nossas últimas conversas, ela contou-me que só uma hora depois, enervada, o acordou. Contudo, ele disse-lhe que tinha sono, que não queria nada naquela noite, e voltou a adormecer. E nem reparou que minha prima, quando se levantou, estava a chorar, com os violentos sentimentos feridos pela primeira rejeição que sofrera. Jumenta galega, pensou ela. O meu amado já não me quer. Sofro tanto. Vou dar cabo de vós». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Inês de Castro. Isabel Stilwell. «Para orgulho da minha mãe que deixaria de olhar para mim com aflição, desejando-me outro. Como gostava do Pedro que via refletido nos olhos verdes da minha Inês»

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Até ao Fim do Mundo…

«(…) Volto ao papel. Tenho de ser rápido, não posso perder tempo, já perdi tempo demais. Conto a história do meu santo protector?, mas quando retrato cada momento da vida de São Bartolomeu é de mim que falo. Com dois traços desenho o berço junto da cama da minha mãe, a cama de madeira rendilhada onde sempre dormiu, e lá está o diabo à espreita, pronto a raptar o recém-nascido, um príncipe perfeito, deixando em seu lugar o filho do diabo, uma criança raquítica e maldosa, que atormentará a infeliz que não deu pela troca. A mãe que o amará apesar das suas imperfeições, sem desistir de procurar nele o verdadeiro filho, o filho que vislumbrou quando lho puseram ao colo ainda o cordão que os unia palpitava.

Levanto o bico da pena, e inspiro fundo, procurando sossegar a respiração, e lanço-me para o segundo momento desta história que a minha avó, a Rainha Santa, tantas vezes me contou, procurando acalmar o meu desespero com esta maldita gaguez que ainda hoje me tolhe. Prometia-me que, por divina intercessão do discípulo de Jesus, seria um dia salvo destas obras que satanás faz em mim e que me tornam motivo de gozo e escárnio. Fraquezas que não são de rei. Não se enganava. Com Inês, as palavras saíam-me da boca sem entraves e, quando estava ao seu lado, evaporava-se a agitação e a impaciência, diluía-se a raiva e o impulso de me vingar de tudo e de todos, por ser uma criatura indigna da mãe e da avó que Deus me dera, frágil demais para enfrentar o meu pai, um rei todo-poderoso, que não vergava a nada nem a ninguém. Até que... assassinou aquela que me fazia viver, matando-me com ela. Esfolando-me vivo, como a São Bartolomeu, de quem conto a história.

Nos braços de Inês, ao som da sua voz, sentia-me o menino deixado num ninho de uma águia, protegido pela mais real de todas as aves, que um dia voltara por fim a casa dos pais, reconhecido como o filho perdido, já homem inteiro e corajoso. Para orgulho da minha mãe que deixaria de olhar para mim com aflição, desejando-me outro. Como gostava do Pedro que via refletido nos olhos verdes da minha Inês» In Isabel Stilwell, Inês de Castro, Espia, Amante, Rainha de Portugal, 2021, Planeta de Livros Portugal, 2021, ISBN 978-989-777-509-3.

Cortesia de PlanetaLPortugal/JDACT

JDACT, Isabel Stilwell, Inês de Castro, Cultura e Conhecimento,