sábado, 22 de fevereiro de 2020

A Relíquia. Eça de Queirós. «Porque agora, eu estava bem decidido a não deixar ir para Jesus, filho de Maria, a aprazível fortuna do Comendador G. Godinho. Pois quê! Não bastavam ao Senhor os seus tesouros incontáveis; as sombrias catedrais de mármore…»

Cortesia de wikipedia

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) Estugando o passo pela Rua Nova-da-Palma, eu sentia agora bem claramente, bem amargamente, o erro da minha vida... Sim, o erro! Porque até aí, essa minha devoção complicada, com que eu procurara agradar à Titi e ao seu ouro, fora sempre regular, mas nunca fora fervente. Que importava murmurar com correcção o terço diante de Nossa Senhora do Rosário? Diante de Nossa Senhora em todas as suas encarnações, e bem em evidência para comover a Titi, eu devia mostrar habilmente uma alma ardendo em labaredas de amor beato, e um corpo pisado, penitente, ferido pelos picos dos cilícios... Até ai a Titi podia dizer com aprovação: é exemplar. Era-me preciso, para herdar, que ela exclamasse um dia, babada, de mãos postas: e santo! Sim! Eu devia identificar-me tanto com as cousas eclesiásticas e submergir-me nelas de tal sorte, que a Titi, pouco a pouco, não pudesse distinguir-me claramente desse conjunto rançoso de cruzes, imagens, ripanços, opas, tochas, bentinhos, palmitos, andores, que era para ela a religião e o céu; e tomasse a minha voz pelo santo ciciar dos latins de missa; e a minha sobrecasaca preta lhe parecesse já salpicada de estrelas, e diáfana como a túnica de bem-aventurança. Então, evidentemente, ela testaria em meu favor, certa que testava em favor de Cristo e da sua doce Madre Igreja!
Porque agora, eu estava bem decidido a não deixar ir para Jesus, filho de Maria, a aprazível fortuna do Comendador G. Godinho. Pois quê! Não bastavam ao Senhor os seus tesouros incontáveis; as sombrias catedrais de mármore, que atulham a terra e a entristecem; as inscrições, os papéis de crédito que a piedade humana constantemente averba em seu nome; as pás de ouro que os Estados, reverentes, lhe depositam aos pés trespassados de pregos; as alfaias, os cálices, e os botões de punho de diamantes que ele usa na camisa, na sua Igreja da Graça? E ainda voltava, do alto do madeiro, os olhos vorazes para um bule de prata, e uns insípidos prédios da Baixa! Pois bem! disputaremos esses mesquinhos, fugitivos haveres, tu, ó filho do carpinteiro, mostrando à Titi a chaga que por ela recebeste, uma tarde, numa cidade bárbara da Ásia, e eu adorando essa chaga, com tanto ruído e tanto fausto, que a Titi não possa saber onde está o mérito, se em ti que morreste por nos amar de mais, se em mim que quero morrer por não te saber amar bastante!... Assim pensava, olhando de través o céu, no silêncio da Rua de São Lázaro. Quando cheguei à casa, senti que a Titi estava no oratório, sozinha, a rezar. Enfiei para o meu quarto, sorrateiramente; descalcei-me; despi a casaca; esguedelhei o cabelo; atirei-me de joelhos para o soalho, e fui assim, de rastos, pelo corredor, gemendo, carpindo, esmurrando o peito, clamando desoladamente por Jesus, meu Senhor... Ao ouvir, no silêncio da casa, estas lúgubres lamentações de arrastada penitência, a Titi veio à porta do oratório, espavorida.
Que é isso, Teodorico, filho, que tens tu?... Abati-me sobre o soalho, aos soluços, desfalecido de paixão divina. Desculpe, Titi... Estava no teatro com o doutor Margaride estivemos ambos a tomar chá, a conversar da Titi... E vai de repente, ao voltar para casa, ali na Rua Nova-da-Palma, começo a pensar que havia de morrer, e na salvação da minha alma, e em tudo o que Nosso Senhor padeceu por nós, e dá-me uma vontade de chorar... Enfim, a Titi faz favor, deixa me aqui um bocadinho só, no oratório, para aliviar... Muda, impressionada, ela acendeu reverentemente, uma a uma, todas as velas do altar. Chegou mais para a borda uma imagem de São José, favorito da sua alma, para que fosse ele o primeiro a receber a ardente rajada de preces que ia escapar-se, em tumulto, do meu coração cheio e ansioso. Deixou-me entrar, de rastos. Depois, em silêncio, desapareceu, cerrando o reposteiro com recato. E eu ali fiquei, sentado na almofada da Titi, coçando os joelhos, suspirando alto, e pensando na viscondessa de Souto Santos ou de Vilar-o-Velho, e nos beijos vorazes que lhe atiraria por aqueles ombros maduros e suculentos, se a pudesse ter só um instante, ali mesmo que fosse, no oratório, aos pés de ouro de Jesus, meu Salvador!
Corrigi então a minha devoção e tornei-a perfeita. Pensando que o bacalhau das sextas-feiras não fosse uma suficiente mortificação, nesses dias, diante da Titi, bebia asceticamente um copo de água e trincava uma côdea de pão; o bacalhau comia-o à noite, de cebolada, com bifes à inglesa, em casa da minha Adélia». In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

Cortesia de ELBrasil/JDACT

A Rainha Perfeitíssima. Paula Veiga. «Durante os anos seguintes, meu pai acumulou ilhas, proventos, rendimentos e, consequentemente, tornou-se o homem mais poderoso do reino»

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Beja, Paço Ducal, 2 de Junho de 1459
«(…) Neste dia desapareceu uma das figuras mais importantes do reino, o Infante Henrique, que partia assim para a sua última viagem. O infante Henrique, o quinto filho de D. João I e de dona Filipa de Lencastre, foi naquela época o nobre mais rico de Portugal. Deu início à campanha da conquista do Norte de África, nomeadamente à tomada de Ceuta, e depois fomentou a era dos Descobrimentos com a descoberta e povoamento de novas terras, como as Ilhas Atlânticas. Apesar de não ter privado com o Infante, uma vez que ainda era criança, testemunhei mais tarde que este homem personificava a coragem, o dinamismo e o espírito empreendedor do nosso povo e do nosso reino. É importante falar na morte do Infante, porque Henrique adoptara e nomeara seu herdeiro o sobrinho, meu pai. O meu progenitor, que após a morte do Navegador recebeu bens, cargos e títulos. Ao receber o título de Duque de Viseu, começou também a dirigir esse grande empreendimento que foi mais tarde denominado de Os Descobrimentos. Durante os anos seguintes, meu pai acumulou ilhas, proventos, rendimentos e, consequentemente, tornou-se o homem mais poderoso do reino. Por isso mesmo era desejável que eu, a sua filha mais velha, fosse prometida ao filho do Rei. Não me quero adiantar na história, mas de facto foi isso que veio a suceder seis anos mais tarde, quando eu ainda era uma criança de oito anos e o João de onze.
Também o casamento de Isabel começou a ser negociado desde cedo. Fora prometida a Fernando, conde de Guimarães e futuro herdeiro do ducado de Bragança. Meu procriador era um homem ambicioso e pretendia alargar o seu poder através de casamentos bem-sucedidos para as suas filhas, estabelecendo desde logo alianças políticas profícuas. Naquela época era assim, as infantas eram sempre um trunfo político a ser bem jogado. A nossa mãe apoiava vigorosamente a ideia, porque assim não teria de ver nenhuma das suas filhas partir para um reino distante, como acontecera tantas vezes com outras filhas da nobreza. Era inevitável que as mães fidalgas vissem sistematicamente partir os seus filhos para que estes cumprissem a sua obrigação, quer para com a família real quer para com o reino. À semelhança do que acontecera com Isabel de Avis, que casara com Afonso V, também eu, filha de duques e infanta portu­guesa, viria a ocupar o trono de Portugal. Não poderia ambicionar mais. Também o facto de a minha irmã Isabel poder vir a casar com um nobre de alta linhagem, e assim permanecer no reino, deixava-me contente, porque de facto ela era a minha companheira de brincadeiras e mais tarde, pela vida fora, foi a minha melhor amiga e confidente.
Durante vários anos brincámos em conjunto e corremos pelos jardins do paço. Aprendemos as primeiras letras juntas. Foi uma infância feliz apesar de termos enfrentado alguns períodos difíceis, nomeadamente o desaparecimento do meu irmão mais velho. Nestas alturas, o paço ficava invariavelmente silencioso e a nossa mãe refugiava-se na Igreja. Mas era desejável que a vida voltasse ao normal; depois de mui­tos dias sombrios, o Sol voltava a nascer e as brincadeiras e correrias faziam-se sentir outra vez nos corredores do palácio. Era uma vida despreocupada e cheia de felicidade». In Paula Veiga, A Rainha Perfeitíssima, 2017, Edições Saída de Emergência, 2016/2017, ISBN 978-989-773-014-6.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

A Rainha Perfeitíssima. Paula Veiga. «Descansai um pouco. Eu próprio vou ver como se estão a portar os rapazes e contar-lhes que têm uma bonita irmã»

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Beja, Paço Ducal, 2 de Junho de 1459
«(…) O infante Fernando e a sua comitiva entraram no paço apressadamente, porque a boa nova já se espalhara pelo ducado. Dona Beatriz o tinha dado novamente à luz uma bonita menina. O infante Fernando desmontou do cavalo e subiu a ampla escadaria a correr. Foi directamente para os aposentos da mulher. Dona Beatriz encontrava-se deitada e segurava nos braços a pequena Isabel. Leonor, que já completara um ano de idade, também ali permanecia acompanhada de sua aia. Beatriz, minha doce esposa, já soube que a nossa filha nasceu. Sim, marido, a Isabel nasceu saudável e fez-se logo anunciar a plenos pulmões. E vós, como vos encontrais? Muito cansada, naturalmente! Como é bela esta nossa filha, disse Fernando embevecido, olhando para a criança que durante os anos que se seguiram seria a sua filha predilecta.
Fernando, tenho de dormitar um pouco. Dai um pouco de atenção aos nossos filhos para que não fiquem apoquentados com o nascimento de uma nova irmã. Foi um dia longo e necessito de me restabelecer. Descansai um pouco. Eu próprio vou ver como se estão a portar os rapazes e contar-lhes que têm uma bonita irmã.

Lembro-me de que anos mais tarde ainda ouvi comentários sobre aquele dia, talvez porque se tratou de um parto difícil. Segundo uma das minhas aias, que assistiu aos acontecimentos, as mulheres andavam apressadas de um lado para o outro, transportavam toalhas, jarros com água fervida, panos brancos, alguidares; mas provavelmente é sempre uma azáfama quando está uma criança para nascer. Apesar de a taxa de mortalidade infantil ser elevada naquela época, Isabel superou bem a sua infância. Menos sorte tiveram os meus três irmãos Duarte, Dinis e Simão que morreram, precocemente, pouco depois de virem a este mundo. Como podem compreender, Isabel veio alegrar muito a minha vida, porque os meus dois irmãos mais velhos, o João e o Diogo, nunca tiveram paciência para lidar com os irmãos mais novos, em particular com as raparigas. Sempre achei que era natural dada a diferença de idades existente entre nós, mas enquanto João era carinhoso connosco, Diogo, sempre que podia, gostava de nos irritar tirando-nos um brinquedo ou puxando-nos as vestes. Sempre foi um rebelde e sempre tirou proveito do facto de ser o mais egoísta de todos nós e de nada partilhar com os irmãos.

Sagres, 13 de Novembro de 1460
A família encontrava-se no Paço de Beja, no dia 14 de Novembro do ano de 1460, já o Sol se escondia, quando chegou a triste notícia. Um cavaleiro entrou no pátio do paço em grande velocidade. O animal que o transportava estava exausto e o homem vinha com um aspecto sujo e cansado. Cavalgara durante todo o dia e toda a noite, desde Sagres, para chegar a tempo de relatar a triste notícia a meu pai. Senhor, trago-vos uma triste notícia, disse o homem depois de ter feito uma vénia. Do que falais, dom Augusto?  Senhor, vosso tio, o infante, faleceu ontem de madrugada. Mas o que aconteceu? Não sabia que o tio se encontrava tão doente! Ninguém sabia. O médico foi visto várias vezes no paço, nos últimos dias, mas, como sabeis, a sua presença era constante, uma vez que era amigo do Infante. Mas, dom Augusto, o que sucedeu de facto? — Não sei, senhor, foi uma apoplexia. Disse que não se sentia bem e morreu. Que Deus lhe dê descanso na eternidade. Augusto, mandai preparar o meu cavalo, pois parto para Sagres de imediato». In Paula Veiga, A Rainha Perfeitíssima, 2017, Edições Saída de Emergência, 2016/2017, ISBN 978-989-773-014-6.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. «Mal o conhecia, ignorava o seu nome, mas nutria por ele um sentimento de reconhecimento que pretendia recompensar, salvando-o da miséria»

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A pedra do exílio
Planalto de Crécy. 26 de Agosto de 1346
«(…) Temos de ir, disse Vermandois, espetando um pontapé num gato que se aproximara a ronronar. Maynard anuiu. Levantara-se de madrugada para carregar as peças da armadura na égua. Nessa noite dormira pouco. Aproveitava o ar matinal para despertar e afastar a preocupação. Desde que o rapaz lhe falara no indivíduo da capa preta, os seus pensamentos desviavam-se permanentemente para a figura escondida na penumbra da sacristia, fomentando em si o receio de uma emboscada. No entanto, havia outra razão pela qual não conseguia ficar parado. Embora continuasse a desconhecer o significado do enigma do Lapis exilii, lembrara-se finalmente do local onde ouvira as palavras contidas no primeiro verso do pergaminho. Ocorrera sob uma arcada de pedra, diante de um livro aberto numa estante de igreja... Em Reims, no convento onde se encontrava encerrada a sua irmã Eudeline. Estou quase pronto, disse ao companheiro, dando-lhe uma palmada no ombro.
Recuperastes rapidamente. O picardo analisou o seu aspecto, agradado. Ainda bem, meu amigo, visto que podemos pôr-nos a caminho com o séquito de sua majestade. Que honra, murmurou o cavaleiro, passando à verificação da sela do cavalo negro. Ainda coxeava, mas conseguia manter-se em equilíbrio sem o cajado. Vermandois emitiu um grunhido. A honra de quem foge com o rabo entre as pernas, e aproximou-se do cavalo preto, desgrenhando-lhe a crina. Também vos dirigis a Paris? Antes de responder, Maynard apertou as correias que fixavam os estribos. Seguirei com o séquito até ao condado de Beauvais e depois avançarei para levante. Para Reims, imagino. Os vossos feudos esperam-vos. Os feudos não, mas uma pessoa muito querida. Os olhos do picardo semicerraram-se. Uma longa viagem, e ainda agora acabais de recuperar. Não queirais fazer de minha ama, acrescentou Rocheblanche, aproveitando o ensejo. Já vos estou suficientemente grato. Robert Vermandois tentou esconder o embaraço.
Na verdade, meu amigo, aproveitarei a vossa companhia para desfrutar de um pouco de hospitalidade. Como sabeis, não possuo terra nem família para as quais regressar. Maynard observou a sua expressão sem se fazer notar, imaginando quanto lhe teria custado semelhante confissão. O barão descendia de uma linhagem muito antiga, de origens quase lendárias. No entanto, tendo ficado viúvo, vira os familiares da esposa dissipar os seus bens. Privado de feudos e de dinheiro, dizia-se que vivia recolhido num castelo à espera de aventuras guerreiras. Não tenho intenção de ficar na minha habitação, sorriu, conciliador. Assim sendo, ter-vos ao meu lado será um privilégio. Dito isto, terminou os preparativos fixando ao arção uma longa espada de corte, recuperada do acampamento para substituir a que perdera em batalha, e prendeu à cintura a espada de estoque, de lâmina mais curta e pesada. Combinou assim caminhar perto do rapaz. Mal o conhecia, ignorava o seu nome, mas nutria por ele um sentimento de reconhecimento que pretendia recompensar, salvando-o da miséria. Desejava mantê-lo na sua companhia para fazer dele um palafreneiro ou um escudeiro. Contudo, depois de procurar por todo o acampamento, teve de renunciar ao propósito. Parecia ter desapa­recido por completo.
Conformado a partir sem o rapaz, Maynard apressou os últimos preparativos. Entretanto, pensou na sua casa, nos escassos feudos herdados do pai e na irmã, a única sobrevivente da família. Não a via há mais de um ano, e o pensamento de voltar a abraçá-la fazia com que as suas preocupações abrandassem.
Como determinado, pôs-se a caminho com Vermandois no séquito do rei, com os nobres de elevado estatuto e com os religiosos: um privilégio a que teria voluntariamente renunciado, quanto mais não fosse pelo facto de uma companhia bem guarnecida gozar da vantagem de desencorajar as emboscadas dos mais ousados exploradores de Eduardo III. Na sua maior parte, os homens da comitiva deslocavam-se a cavalo, entregando a mulas e a outros animais de carga o peso das armas e das armaduras. Não faltavam carros, utilizados principalmente para transportar as figuras de maior estatuto». In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Musa de Camões. Maria Helena Ventura. «Dona Paula é filha do segundo casamento de mestre Gil Vicente, autor dos autos que tanto animaram os brilhantes serões de El Rei Manuel I. Pequenina…»

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Madrugada. Os Pássaros da Bonança
«(…) Chegam ao terraço sobre a galeria de arcos, depois de regularem o andamento. Descansam breves minutos, encostadas a uma coluna encoberta das janelas do palácio, onde as damas costumam parar e contar seus segredos. Avançam por cima da porta pública, chamada o Arco das Pazes, em direcção à escada interior para alcançar o piso que leva ao pontão, na direcção do rio, um comprido terraço na muralha ornada de ameias. As águas, em sucessivos arremessos à forte estrutura de pedra, rendem homenagem às armas reais expostas a meio da parede, ladeadas por duas esferas armilares. Para nascente, no ponto onde termina a escada, estende-se outro prolongamento de largura igual e em frente, do lado oeste deste prolongamento, fica a porta que conduz à ponte de embarque, a mesma por onde a família real acede ao cais privado quando tem que viajar nos bergantins adaptados para esse fim.
Sua Senhoria e sua dama respiram o ar saudável da manhã diante do azul cinza das águas. Não se dá pela brisa, a não ser no baloiço desgovernado dos barcos mais pequenos, nas velas triangulares desfraldadas de uma caravela a dominar a paisagem, mais longe. O rio conta todos os dias uma nova história, salpicado de diferentes embarcações de vocação próxima e distante, enredadas na sua prosa lânguida. Barcas de dois mastros largas, pouco fundas, barcaças de transporte atulhadas de mercadorias, bateiras pequenas como canoas de fundo chato, todas esperam cumprir um fado já conhecido. Apesar de cedo a faina vai adiantada.
O barulho das regateiras, dos carrejões, vindo do lado do casario, mistura-se com as ordens de fidalgos a brutos carregadores, em ondas de som diluídas na fluência da manhá. Sua Senhoria faz o sinal de regresso quando a curiosidade desponta nos barcos próximos. Admiram agora o desafio das gaivotas, em real pose no torreão do corpo mais alto do palácio, encimado pelo minarete, percorrendo mais apressadas o mesmo caminho, sem vontade de encontros com todo o paço acordado. Menos mal que na ausência de Suas Altezas só os pássaros madrugam... Começam por vigiar o turno dos guardas, já de papo cheio, empoleirados no ornato das cantarias, depois de seguirem a agilidade dos dedos providenciais que fazem chover grãos minúsculos espalhados pelo parapeito. As vezes um bago ou outro aventura-se mais além, no pátio aparentemente calmo, e lá ousam a incursão até soarem os passos dos guardas no pavimento de pedra.
Dona Paula é filha do segundo casamento de mestre Gil Vicente, autor dos autos que tanto animaram os brilhantes serões de El Rei Manuel I. Pequenina, tão viva como boa tangedora, deixou o paço da rainha onde era moça de câmara, pouco depois do pai morrer, mal a Infanta começou a morar sozinha. É hoje uma de suas damas de maior confiança, sempre a fazer-lhe presente o que deve ser feito, quando. Agora mesmo lembra que frei António Conceição, recém-chegado de Coimbra, deve aguardá-las para a confissão, para a missa em privado, enquanto a capela real não se abre do lado do Largo do Relógio para a celebração destinada a pedir pela boa viagem de Suas Altezas. O frade deve estar ansioso por ouvir ordens sobre o governo da igreja do futuro convento de Enxobregas, conforme lhe foi prometido, e dona Paula por lhe entregar a generosa dádiva para as obras dos mosteiros mais necessitados da sua cidade.
A Infanta tem o próprio confessor, agora ausente, com quem se sente melhor. Mas entende a excitação de sua dama...Sugere-lhe que vá à frente confessar-se, entregar o donativo, enquanto ajoelha no banco do costume para uns minutos de recolhimento. Quando dona Paula entra na sacristia surpreende frei António de costas, às voltas com as alfaias e os paramentos. Ainda pouco à vontade num espaço que não conhece muito bem, iluminam-se-lhe os olhos negros, céus nocturnos repletos de estrelas, quando dona Paula lhe entrega a bolsa com o dinheiro para as obras dos conventos. Toda a gratidão se lhe escreve no sorriso, e uma emoção embaraçosa se adivinha... Oferece a dona Paula, do mesmo modo emocionada, a única cadeira, e dispõem-se a uma boa prosa antes que Sua Senhoria dê sinal de precisar de algum deles.
O frade recolhe novidades da corte, das viagens de Suas Altezas. Escuta com agrado os progressos do herdeiro de quem já soam em Coimbra os fartos elogios dos mestres. Devolve com pitorescos segredos de frades, freiras, segredos que a sua alegre juventude a mais ninguém confiaria e muito fazem rir dona Paula. Traz ainda novas do Colégio das Artes, do andamento do processo que acaba de mover-lhe a Inquisição (maldita). Desabafa, como se fosse ele a confessar-se, o medo dos seus poderes, o alcance que detém. Implementada há uma dúzia de anos já é capaz de levar ao extremo zelo a vigilância a locais públicos responsáveis pela cultura, crivando o que é ensinado. Tarde se fizeram sentir em Portugal as reformas saudáveis ao sabor do Renascimento, porém mais cedo morrem às mãos deste controlo violento das ideias. Sussurram, mas nem assim deixam de olhar em todas as direcções, não haja um delator de serviço à escuta...» In Maria Helena Ventura, A Musa de Camões, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-940-6.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. « Aproveitava todos os momentos de solidão para o examinar, na esperança de alcançar o seu significado profundo, sobretudo depois do pôr-do-Sol, à chama de uma candeia…»



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A pedra do exílio
Planalto de Crécy. 26 de Agosto de 1346
«(…) Entretanto, as visitas de Vermandois tornaram-se assíduas. Antes de levantar as tendas, o barão picardo insistia em querer ver Maynard restabelecido. Com esse objectivo, enviou-lhe um cirurgião para o tratar, o qual lhe aplicava unguentos curativos e uma modesta quantidade de ópio, para atenuar a dor na perna. Além disso, procurou a sua companhia em especial para se entreter em longas partidas de xadrez, durante as quais os dois beberricavam aguardente e conversavam sobre tudo um pouco. Muito rapidamente, o cavaleiro convenceu-se de que as suas melhoras não se deviam apenas aos medicamentos, mas também à presença daquele homem rude e orgulhoso. Que o ajudara a curar-se sobretudo em espírito. Desde que saíra da sacristia, trazia dentro de si uma grande amargura. A indiferença de Filipe VI face ao destino de Calais apresentara-lhe algo de mais desagradável do que uma simples reacção humana. Com efeito, as palavras do rei encerravam uma triste verdade, que muitos não expressavam. Os tempos da cavalaria haviam chegado ao fim. Fora suplantado por um tipo de guerra mais evoluído, no qual a coragem dos homens não contava relativamente ao extermínio dos inimigos. Entre um movimento de peças e outro, o cavaleiro falava do assunto com Robert, lamentando-se por viver numa época privada de coragem e de dignidade. Por outro lado, não era ingénuo. Sabia bem que as nobres gestas viviam apenas nas chanson recitadas nos torneios e nas legendae dos santos guerreiros. No entanto, não era hipócrita. Considerava que as estratégias de Eduardo III eram tão ignóbeis como as prepotências perpetradas por muitos milites franceses. Mas dentro de si ainda havia fé. A fé nos ideais que alimentara desde criança. A fé que vira pisada primeiro pelo pai e agora pelo seu soberano.
No entanto, outra preocupação não lhe dava tréguas: o texto contido no pequeno pergaminho. Aproveitava todos os momentos de solidão para o examinar, na esperança de alcançar o seu significado profundo, sobretudo depois do pôr-do-Sol, à chama de uma candeia, quando os maus presságios não lhe permitiam ganhar o sono. Foi assim que uma noite, depois da enésima tentativa, se apercebeu de que o primeiro verso do enigma lhe infundia uma remota sensação de familiaridade. O anjo, a pedra, o mar... Já devia ter ouvido aquelas palavras, estava convencido disso, ainda que não se conse­guisse lembrar de onde ou de quando. Invadido pela frustração, pôs o pergaminho de lado para observar a insígnia do anel de ouro. Seria possível que Karel do Luxemburgo estivesse realmente envolvido naquele obscuro acontecimento?, perguntou-se. Está sempre rodeado de padres, dissera Robert de Vermandois. De padres..., e de cardeais. O que fazeis, senhor? Maynard ergueu a candeia e viu o rapaz surgir das sombras. Não tens nada com isso, exclamou, irritado consigo mesmo por se ter deixado apanhar de surpresa. E esse magnífico anel?, questionou o jovem, apontando para o objecto, que cintilava na escuridão. É vosso? Nunca vi nada de semelhante. Preocupa-te com os teus assuntos, repreendeu-o o cavaleiro, cada vez mais áspero. O rapaz dirigiu-se para a saída, fingindo-se ofendido. O que significa que não vos contarei sobre o homem de preto. Que homem?, perguntou Maynard, voltando a chamá-lo. Aquele que há pouco andava a rondar a vossa tenda. Logo que me viu, foi-se embora. Rocheblanche franziu as sobrancelhas. Serias capaz de o descrever? Estava muito escuro para lhe ver o rosto, respondeu o rapaz. Trazia uma capa preta com o capuz descido até ao queixo. Só reparei que era de estatura baixa e que devia ser bastante novo, porque não tinha barba». In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

O Despertar dos Traidores. Domingos Amaral. «Ermígio Moniz era o único que repudiava tanta vontade de destruição, pois, a observar o horizonte, Paio Guterres comentou: gosto deste local, parece-me bom para lutar!»

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Rio Lis, Junho de 1134
«(…) Paio Guterres deu uma gargalhada, mas o mordomo logo esclareceu que o autor da sugestão fora o próprio mestre dos templários de Soure, Jean Raymond. E, para surpresa do príncipe, acrescentou: o Ramiro abandonou a Ordem do Templo. Afonso Henriques franziu a testa: porquê? Ermígio Moniz suspirou, olhando para Peres Cativo e dando a entender que a malícia anterior do alferes fora certeira. Para não desonrar os templários, foi-se embora. Levemente inquieto, pois sabia dos antigos enamoramentos de Ramiro por Chamoa, o príncipe de Portugal perguntou de pronto: para o Norte? Meu tio Ermígio Moniz não conhecia o destino do bastardo de Paio Soares e encolheu os ombros, o que levou Peres Cativo a exclamar: que vá mas é para o Diabo!
Paio Guterres riu-se novamente, mas depois o mordomo do Condado Portucalense insistiu que mais alguns castelos se deviam construir, talvez em Penalva e Pombal, para solidificar as defesas da região. Afonso Henriques concordou, mas lembrou que a edificação das fortificações duraria mais de um ano. Enquanto isso, o fossado teria de continuar, para obterem mais vitórias e mais território. Temos de massacrar Zhakaria!, reforçou Peres Cativo.
Ermígio Moniz era o único que repudiava tanta vontade de destruição, pois, a observar o horizonte, Paio Guterres comentou: gosto deste local, parece-me bom para lutar! Nas últimas operações, aquele cavaleiro portucalense revelara o seu enorme talento como hábil guerreiro. Reconhecendo-o, o príncipe declarou que ele seria o futuro alcaide de Leiria, mal o castelo estivesse pronto. Sobre os seus ombros recairia a responsabilidade de defender o fortim mais a sul e, portanto, o mais perigoso, de todo o Condado Portucalense.
Abu Zhakaria vai ouvir falar de mim!, prometeu Paio Guterres. Os outros abraçaram-no, aplaudindo aquela nomeação e desejando-lhe sorte. Depois, regressaram ao acampamento, onde Ermígio Moniz avisou o príncipe de que, com fossados tão grotescos e sangrentos, jamais seria possível convencer Abu Zhakaria a trocar a relíquia por Zaida e Fátima. Desinteressado, Afonso Henriques resmungou: a bruxa nunca mais apareceu e ninguém sabe da relíquia! Meu tio ficou ligeiramente abalado, mas o meu melhor amigo nem deve ter notado, pois comentou: e durante o fossado é perigoso a Zaida ir para Córdova.
Dias antes, o príncipe de Portugal cruzara-se com a mais nova das princesas mouras e meu tio topara uma troca de olhares suspeita entre os dois. Por isso, perguntou: estais enamorado da Zaida? Afonso Henriques negou tal sentimento, retorquindo: vós é que gostais de mouras, mordomo! Meu tio emudeceu, magoado com aquela impertinente referência à falecida mãe de Raimunda, mas Peres Cativo decidiu provocá-lo, recordando que tinham feito prisioneiras várias raparigas em Pombal, algumas delas bem vistosas. Mordomo, quereis uma mourinha gostosa na vossa tenda? Ermígio Moniz encolheu os ombros, como se não tivesse paciência para aquela conversa de rapazolas, mas Paio Guterres revelou muita vontade de trocar carícias com as mouras, alegando que tinha direito a isso, pois combatera bem. Então, o príncipe deu autorização para que tanto ele como Peres Cativo se divertissem com as prisioneiras e os dois militares afastaram-se, muito bem-dispostos. Curioso, meu tio mirou o príncipe e perguntou: e vós? Não ides porquê?
Afonso Henriques fechou a dalmática vermelha, como se estivesse com frio. Em silêncio e em vez de se dirigir para a sua tenda, caminhou na direcção do local onde estavam os cavalos. Quando lá chegou, ficou a olhar para o seu animal asturiano, que Gonçalo Sousa lhe oferecera. Não presta..., murmurou, desalentado». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Vitória do Imperador, Casa das Letras, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-461.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

O Despertar dos Traidores. Domingos Amaral. «Surpreendidos, os outros examinaram o horizonte. Do alto daquela elevação podia ver-se a longa estrada romana nas duas direcções, acompanhando os vales para sul…»

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Rio Lis, Junho de 1134
«O fossado portucalense ultrapassara os limites cristãos das leis da guerra e a extrema violência dos estragos provocados nas aldeias mouras indignou meu tio Ermígio Moniz. Ele também fora um guerreiro no passado, mas o cargo de mordomo, a idade e sobretudo a experiência haviam-no convencido de que a brutalidade não era a melhor das políticas. Tanta destruição será vingada um dia, avisou. Afonso Henriques respeitava muito a opinião do mordomo, mas dentro da sua alma não havia ainda descanso. Frustrado com o fiasco de Tui e humilhado pela destruição do Castelo de Celmes, o príncipe de Portugal partira para o Sul numa ânsia descontrolada e na pequena povoação de Pombal, um pouco a norte do local onde estavam acampados agora, o fossado portucalense atingira o auge.
A aldeia mourisca fora saqueada e incendiada. Mas, pior do que isso, Afonso Henriques dera ordens a Peres Cativo, seu alferes, e a Paio Guterres para não pouparem os homens e cinco dezenas haviam sido degolados, sendo depois empalados em lanças, espetadas no chão empapado de sangue, coisa que meu tio não considerava aceitável. Poupei as mulheres e as crianças, alegou Afonso Henriques, como se essa decisão o absolvesse dos restantes exageros. Para conquistar os territórios, não podemos, nem devemos, dizimar as populações!, exclamou meu tio.
Peres Cativo e Paio Guterres, ambos valiosos combatentes, contestaram-no prontamente. Na guerra, o objectivo era matar os inimigos, destruir as suas forças, as suas gentes, as suas cidades!
Aqueles territórios haviam sido cristãos séculos antes, os usurpadores mouros tinham de ser afastados! Para que a vitória dure, temos de seduzir as populações a nosso favor e depois convertê-las!, insistiu Ermígio Moniz. Uma campanha bélica que se limitasse a exibições gratuitas de violência nada acrescentava. Para que aqueles territórios não voltassem a ser retomados pelos mouros, era necessário mais do que um fossado breve, eram necessários castelos. Uma linha inteira deles era a única forma de empurrar os mouros para o Sul e fixar as populações debaixo do domínio portucalense. Quereis construir castelos neste ermo?, interrogou-se Paio Guterres, espantado.
O acampamento portucalense fora erguido junto à antiga estrada romana que ligava Coimbra a Santarém, perto do rio Lis. Não se via vivalma por ali, nenhuma aldeia existia por perto. Contudo, Ermígio Moniz examinou os campos à sua volta e depois pediu: vinde comigo. O príncipe, o alferes e o cavaleiro-vilão de Coimbra acompanha­ram o mordomo. Estava um fim de tarde sereno e os quatro subiram um pequeno monte. Quando chegaram ao topo, Ermígio Moniz disse: olhai à vossa volta.
Surpreendidos, os outros examinaram o horizonte. Do alto daquela elevação podia ver-se a longa estrada romana nas duas direcções, acompanhando os vales para sul, mas também para norte. Estavam num ponto privilegiado de observação e Ermígio Moniz defendeu que ali se devia construir um castelo, chamado de Leiria. Do alto da sua torre de menagem, veremos os inimigos muito antes de cá chegarem. Ninguém podia negar aquela evidência. Curioso, o príncipe de Portugal perguntou ao seu mordomo: como haveis sabido deste local? Meu tio respondeu-lhe que os templários de Soure conheciam bem a região e haviam-lhe chamado a atenção para aquele sítio. Foi o Ramiro?, questionou Afonso Henriques. O príncipe talvez procurasse descobrir novos méritos no bastardo de Paio Soares, que tanto o desiludira, mas ao ouvi-lo Peres Cativo protestou de pronto, pois implicava com Ramiro. O uranista? Raios, este chão está amaldiçoado!» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Vitória do Imperador, Casa das Letras, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-461.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «… e para ser cumprida inteiramente mandei passar a presente por mim assinada e selada com o selo grande das armas do governador de sua majestade…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Retrato do Rei
«(…) Acabei de defender o bispo. Preciso de uma mercê vossa, dom Fernando. Amanhã vou partir para Minas Gerais. Quero passaporte. Perdestes o juízo? Viver entre os infiéis? Aquilo não é lugar para brancas. Mas preciso ir. Meu pai está doente. Eu soube, disse Fernando. Acabo de receber mais uma carta de dom Afonso. Anda metido com uma negra, como uma ovelha desgarrada. E o que tem isso? O que tem isso?, ele sorriu, mostrando os seus dentes envernizados de fidalgo. Sombras da morte, bastardos, fervedouros, e murmurando, testamento oral..., ou cerrado. Soubestes de alguma confusão por lá? Aquilo é um covil de barbarismo.
Ouvi falar que os paulistas estão matando os reinóis. Apenas a maldita fome do ouro e da carne. Não há conflitos sérios nas Minas. Se houvesse, eu saberia. Antes assim. O que achais dos paulistas? Fernando meditou por instantes. São como os galgos da caça, disse afinal, amestrados para farejar e perseguir a presa. Conhecem as manobras, as instâncias e as correrias, todavia não são eles quem comem as lebres, apesar de tê-las entre os dentes. Explicai-me melhor. Os paulistas são selváticos, prima. Bravos, donos de uma truculenta liberdade, consideram-se diferentes dos outros moradores do país, o que não deixa de ser verdade. São rudes por fora e gentis por dentro, o contrário do que costumamos ser. Vaidosos, matam-se por uma honra ou distinção. Descobriram o ouro nos sertões, mas não sabem retirá-lo das águas. Ir para as Minas, que insensatez!
E o passaporte? Não é mais preciso, o rei derrogou as ordens que permitiam a entrada apenas a principais e nobres, gente de qualidade. Agora todos podem entrar nos sertões. Então, adeus. Não quero que viajeis. Tomou-lhe a mão e beijou-a. Ficai aqui. Sabeis que a minha mulher vos aprecia muito. A decisão já está tomada. Fernando desistiu, com um suspiro. Conhecia o temperamento da prima. Quero que leveis uma carta para vossa proteção. É tudo perigoso nos caminhos e nas Minas. Além do mais, talvez preciseis de ajuda. Tenho um grande amigo lá, o Pedro Raposo. Procurai-o em meu nome. Raposo é o regente de Rio das Mortes, e logo vai ser nomeado superintendente, a maior autoridade nas Minas, que cuida de cobrar os quintos, toma conta aos guardas-mores e administra no cível e no criminal, prende os assassinos, os malfeitores. É um homem de grande suposição, sincero, respeitado, que ajuda todos sem esperar nada em troca. É acaso esse Raposo um anjo do céu?
Não chega a tanto. Fernando curvou-se e escreveu a carta; a pena rangia no papel. Espalhou areia finíssima cor de ouro com intuito de secar a tinta. Soprou a areia sobre as letras, que ficaram douradas. Leu em voz alta: e para ser cumprida inteiramente mandei passar a presente por mim assinada e selada com o selo grande das armas do governador de sua majestade dada na cidade do Rio de Janeiro aos sete dias de Julho do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1707. O governador. Selou a carta e dourou o selo. A areia brilhante pousava no seu casaco acamurçado». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ES/CdasLetras/JDACT

Às Portas do Inferno. Domingos Amaral. «Durante seis longos anos, forçara-se a uma castidade insuportável, para não levantar suspeitas na Ordem do Templo, mas estava na hora de colocar um ponto final naquela via sacra!»

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Soure. Julho de 1132
«(…) Também ele entrara naquele casão agrícola, onde vira a mulher já degolada, o assassin a vomitar golfadas de sangue, o almocreve no chão e as duas princesas chorando a morte da mãe. Fora o Rato quem tirara a lâmina da garganta do facínora, pousando-a num balde com água, para a lavar do sangue, mas depois a arma eclipsara-se misteriosamente, no meio daquela tremenda confusão. Nas horas seguintes à tragédia, Ramiro questionara todos os presentes no local, mas nada descobrira. O autor do roubo não se confessara. Teria sido Zaida, a mais nova das princesas de Córdova, que num movimento rápido pegara na arma? O Velho não sabia, mas, três anos depois, a verdade é que o punhal se encontrava na posse da princesa e mantinha-se deveras valioso. Que melhor presente podia ele levar ao Trava?
Certificando-se de que a casa das princesas estava vazia, o Velho entrou pelas traseiras e começou a vasculhar. O punhal tinha de estar por ali. Encontrou-o escondido numa arca, coberto por dezenas de alifafes, vestidos e túnicas. As suas mãos tremeram quando lhe pegou. Lá estava a pérola no topo, a lâmina afiada e a inscrição em latim, gravada no cabo. Sem se preocupar em ocultar o assalto, o Velho deixou a casa desarrumada e saiu pelo mesmo sítio por onde entrara, com o produto do roubo escondido nas vestes. Enquanto se dirigia a casa do ferreiro galego, com ar falsamente combalido, o Velho sorria, contente consigo próprio. O Trava ia ficar a saber onde estava a relíquia, aquela palavra em latim era a chave para a encontrar! Grato, o seu senhor talvez lhe oferecesse umas benesses, uma boa casa onde terminar os seus dias, uma rapariga que pudesse possuir, antes de se apagar.
Durante seis longos anos, forçara-se a uma castidade insuportável, para não levantar suspeitas na Ordem do Templo, mas estava na hora de colocar um ponto final naquela via sacra! Embalado por este excitante pensamento, bateu à porta do ferreiro, que lhe cedeu uma mula, montado na qual o Velho saiu de Coimbra. Já na estrada, deu-se conta de que transportava na alma apenas um único agravo. Não conseguira matar aquela velha senil, a bruxa a quem não perdoava a antiga desavença. A sua fúria contra Sohba não se desvanecera, pelo contrário. Cada vez odiava mais aquela mulher e cuspiu para o chão, irritado por não a ter eliminado da face da Terra.
Como é evidente, naquele dia o Velho não sabia que em breve regressaria ao Sul e teria nova oportunidade para tentar destruir a estranha e misteriosa Sohba. A bruxa ligou-nos a todos, era o que sempre me dizia a princesa Zaida.

Coimbra, Julho de 1132
Naquele final de manhã, estávamos reunidos com o bispo Bernardo na Sé, quando lá entrou o agitado Ramiro. Vendo-o avançar, Afonso Henriques ergueu as sobrancelhas, curioso: haveis finalmente encontrado a relíquia? Meu pai, meu tio Ermígio, Peres Cativo e eu próprio mirámos o bastardo de Paio Soares. Pai, eles odeiam-me... Embora bem mais entroncado do que no passado, Ramiro pareceu-me nervoso e baixou os olhos quando narrou o sucedido nas margens do Nabão, onde encontrara uma companhia de galegos empalados por Abu Zhakaria.
Que descaramento, rugiu o príncipe de Portugal. Enviar soldados para me roubarem a relíquia! A fúria do meu melhor amigo contra Fernão Peres Trava reacendeu-se. Uma expedição galega ao Nabão era um atrevimento inaceitável! Logo ali, o príncipe imaginou uma retaliação na Galiza, um qualquer gesto bélico que lhe extinguisse a cólera. O Castelo de Celmes não está pronto, lembrou, porém, meu pai. Gonçalo Sousa dirigia as obras na fortificação, mas só se previa a conclusão da muralha no Natal, o que significava que os portucalenses eram vulneráveis a um ataque surpresa do Trava». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Vitória do Imperador, Casa das Letras, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-461.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

O Último Judeu. Noah Gordon. «Depois tirou da sacola surrada uma pequena caixa de madeira. Quando ela foi aberta, o padre Sebastián viu um embrulho de seda cor de sangue, extremamente perfumado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Primeiro Filho.
Toledo. Castela. 23 de Agosto de 1489.
O Filho do Ourives. Dádiva de Deus
«(…) O ourives e Sebastián discutiram os detalhes da composição do relicário, barganharam um preço e fecharam o acordo. Chegou a ocorrer ao padre como seria bom se a alma daquele judeu pudesse ser ganha para Cristo como resultado da encomenda que o próprio Senhor fizera necessária. Os esboços que Helkias apresentou revelaram que ele não era apenas um artesão, mas também um artista. O interior da taça, a base quadrada e a tampa eram feitas tanto de folheado de prata quanto de prata maciça. Helkias propôs confeccionar as figuras das duas mulheres de filigranas rendilhadas de prata. Apenas as suas costas seriam vistas, graciosas e nitidamente femininas, a mãe à esquerda, a filha não inteiramente uma mulher adulta, mas identificada por uma aura em volta da cabeça. Por todo o cibório Helkias colocaria uma profusão das plantas que teriam sido familiares a Chana: parreiras e oliveiras, romãzeiras e tamareiras, figueiras e trigais, campos de cevada e espelta. Do outro lado da taça, indicativa das coisas a vir e afastada, como tempo futuro, das duas mulheres, Helkias moldaria uma cruz em prata maciça, um símbolo surgido bem após a vida de Chana. O menino seria gravado em ouro aos pés da cruz.
Padre Sebastián temera que os dois doadores retardassem a aprovação do projecto ao querer impor certas concepções próprias, mas para sua satisfação tanto Juan António quanto Garci Bórgia pareciam ter ficado muito bem impressionados pelos desenhos que Helkias lhes submetera. Poucas semanas depois, tornou-se claro para ele que o iminente êxito do mosteiro não era mais segredo. Alguém, Juan António, Garci Bórgia ou o judeu, teria se gabado da relíquia. Ou talvez fosse alguém em Roma, falando com pouca discrição; às vezes a Igreja era uma aldeia. Pessoas da comunidade religiosa de Toledo que nunca tinham lhe dado atenção, agora o olhavam de frente, embora ele pudesse observar que havia hostilidade naqueles olhares. O bispo-auxiliar, Guillermo Ramero, foi até ao mosteiro e inspecionou a capela, a cozinha e as celas dos frades. A eucaristia é o corpo de Cristo, disse ele a Sebastián. Que relíquia é mais poderosa que essa? Nenhuma, Excelência, Sebastián respondeu mansamente.
Se uma relíquia da Sagrada Família é concedida a Toledo, devia ser confiada à posse da Sé, disse o bispo, não de uma das instituições que lhe são subordinadas. Desta vez Sebastián não respondeu, mas enfrentou sem piscar o olhar de Ramero, toda mansidão esquecida. O bispo torceu a cara e retirou-se com a sua comitiva. Antes mesmo que o padre Sebastián conseguisse decidir-se a compartilhar a grave novidade com frei Júlio, o sacristão da capela ficou sabendo da coisa através de um primo padre, que era do escritório diocesano para o culto. Logo se tornou evidente para Sebastián que todos sabiam, incluindo os seus próprios frades e noviços. O primo de frei Júlio disse que as diferentes ordens estavam reagindo à notícia com preparativos para drásticas acções. Os franciscanos e os beneditinos já tinham enviado fortes mensagens de protesto a Roma. Os cistercienses, criados em torno do culto da Virgem, ficaram furiosos ao ver uma relíquia da mãe Dela ir para um mosteiro dos jeronimitas e arranjaram um advogado para defender os seus direitos em Roma.
Mesmo dentro da ordem jeronimita, foi sugerido que uma relíquia tão importante não devia ir para um mosteiro tão humilde. Ficou claro para o padre Sebastián e para frei Júlio que se algum acontecimento detivesse a entrega da relíquia, o mosteiro seria colocado numa situação extremamente precária, por isso o prior e o sacristão passaram muitas horas ajoelhados, rezando juntos. Finalmente, num dia quente de Verão, um homem corpulento e barbado, vestido à maneira pobre de um trabalhador rural, chegou ao Mosteiro da Assunção. Chegou na hora da sopa boba, que aceitou com a mesma avidez dos indigentes famintos. Quando engoliu a última gota do caldo ralo, chamou o padre Sebastián pelo nome e, quando ficaram sozinhos, identificou-se como o padre Tullio Brea, da Santa Sé de Roma, logo transmitindo as bênçãos de Sua Eminência, o cardeal Rodrigo Lancol.
Depois tirou da sacola surrada uma pequena caixa de madeira. Quando ela foi aberta, o padre Sebastián viu um embrulho de seda cor de sangue, extremamente perfumado, e no interior do embrulho o pedaço de osso que viera de tão longe. O padre italiano só passou a Véspera com eles, a mais exultante e agradecida Véspera já celebrada no Mosteiro da Assunção. O cântico mal terminara quando o padre Tullio, tão discretamente quanto havia chegado, fez a sua partida nocturna. Nas horas que se seguiram, o padre Sebastián pensou melancolicamente como era preciso ter a cabeça fresca para servir a Deus perambulando disfarçado pelo mundo. Admirou a lucidez de se enviar um bem tão precioso por um mensageiro humilde e solitário e, num recado ao judeu Helkias, sugeriu que o relicário, quando estivesse pronto, fosse entregue por um portador comum, depois da noite cair. Helkias concordara, despachando o seu filho como outrora Deus tinha feito, e com o mesmo resultado. Meir era um garoto judeu e, portanto, nunca poderia entrar no Paraíso, mas padre Sebastián rezou pela sua alma. A chacina e o roubo lhe revelaram até que ponto estavam sitiados os protectores da relíquia, e ele rezou, também, pelo sucesso do médico que pusera ao serviço de Deus». In Noah Gordon, O Último Judeu, 2000, Uma História de Terror na Inquisição, Editora Rocco, 2000, ISBN 978-853-251-171-6.

Cortesia de ERocco/JDACT

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Poesia. Fernando Namora. «Hoje o dia... (a pena caiu-me das mãos) Acabou-se o poema no papel. Cá por dentro continua...»

Cortesia de wikipedia e jdact

Poema da Utopia
«A noite caiu sem manchas e sem culpa.

Os homens tiraram as máscaras de bons actores.

Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.

No alto, a utópica lua, vela comigo
e sonha inutilmente com a verdade das coisas.

- Noite! Deixa-nos também dormir...»


Um Poema Que Se Perdeu
«Hoje o dia é um dia chuvoso e triste
amortalhado
Naquela monotonia doente dos grandes dias.

Hoje o dia...
(a pena caiu-me das mãos)

Acabou-se o poema no papel.
Cá por dentro
Continua...

Oh! Este marulhar das almas no silêncio!»

Poemas de Fernando Namora, in Relevos'

Cortesia de OCitador/JDACT

Às Portas do Inferno. Domingos Amaral. «Desde essa longínqua data que era um fiel soldado de Fernão Peres Trava, acompanhando as andanças do amo. Por isso, aceitara aquele repto, em Viseu, na Páscoa de há seis anos»

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Soure. Julho de 1132
«(…) A princesa forçou um sorriso e depois seguiu o seu caminho, enquanto o Velho permanecia parado, pois ainda não acreditava no que tinha visto debaixo da túnica da princesa. Ela bem tentara esconder um objecto, mas ele tinha bom olho e o que ela levava era de grande valor. Decidiu segui-la, talvez tivesse um momento de sorte... Agitada, Zaida foi à casa onde vivia, entrou, mas pouco depois voltou a sair e regressou à biblioteca da Sé, sem nada no regaço. Durante algum tempo, o Velho esperou, mas ela não reapareceu. Então, deu meia-volta e dirigiu-se à casa das princesas. Se conseguisse roubar aquele objeto, certamente que o Trava iria ficar muito contente… Fora por essas e por outras que Fernão Peres lhe destinara uma missão tão difícil. Ele era o homem necessário, o espião indicado. Conhecia Soure e a região ao sul da povoação, pois no passado já fizera parte da guarnição do castelo, na época dos cercos a Coimbra realizados pelo califa almorávida Ali Yusuf.
Desde essa longínqua data que era um fiel soldado de Fernão Peres Trava, acompanhando as andanças do amo. Por isso, aceitara aquele repto, em Viseu, na Páscoa de há seis anos, quando o nobre galego lhe explicou que uma nova ordem religiosa iria reconstruir o Castelo de Soure e procurar uma relíquia sagrada. Sereis os meus olhos e os meus ouvidos, dissera o Trava. Apresentando-se como um antigo combatente caído em desgraça, o Velho alistara-se no primeiro contingente de monges guerreiros da Ordem do Templo, onde já estavam o Rato e o Peida Gorda, e aos quais se somara, dias depois, o jovem Ramiro, bastardo de Paio Soares. O grupo havia iniciado a recuperação de Soure e, durante seis verões e seis invernos, o Velho permanecera por lá.
Apenas por uma vez vira a bruxa Sohba, por quem nutria um forte ódio, pois um dia ela atirara-lhe uma bola de fogo, quase o cegando. Desde essa data, jurara matá-la mal tivesse uma oportunidade, só que esta não surgira. A sinistra mulher de negro eclipsara-se e, portanto, o Velho limitara-se a fazer o seu trabalho secreto para o Trava, informando-o sobre o que se passava na região. Obviamente, soubera com antecedência da expedição galega às ruínas próximas do Nabão e, quando vira os corpos massacrados pela barbárie de Abu Zhakaria, sabia já como proceder. As suas ordens eram claras: se a companhia de soldados galegos não atingisse os seus propósitos, o Velho deveria abandonar a Ordem e subir à Galiza. Assim fizera, dissimulando aquela queda e despedindo-se dos colegas templários. Contudo, por diversas vezes no decorrer daqueles anos a sua longa mrissão parecera-lhe inútil, e só agora, já perto do fim, surgia uma oportunidade única!
Enquanto se aproximava de casa de Zaida, o Velho questionou-se mentalmente. No regaço da princesa, vira o punhal de Paio Soares, uma bela arma, com uma pérola no topo, com a qual Afonso Henriques matara o assassin no casão do almocreve Mem. Como se apoderara a princesa da célebre e desaparecida arma? Enquanto vigiava os movimentos dentro da casa dela, o Velho recordou-se do dia da morte de Zulmira». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Vitória do Imperador, Casa das Letras, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-461.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT