sábado, 18 de maio de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«Uma coisa é escrever umas palavras num computador e que a máquina procure o mesmo texto nas bases de dados, e outra é cotejar duas imagens de um objecto…»

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«Por que precisamente sete e não oito, ou cinco ou quinze, por exemplo? Por que todas diferentes? Por que todas envoltas por formas geométricas, como claraboias medievais? Por que todas encimadas por uma pequena coroa raiada...? Jamais poderíamos descobrir, me dizia compungida, era demasiado complexo e absurdo. Levantava o olhar das fotografias e dos croquis e a pousava na silhueta de papel, para ver se a distância das cruzes no corpo me dava a pista; mas não via nada, ou, ao menos nada que me ajudasse a resolver o hieroglífico, assim descia de novo os olhos até a mesa e me concentrava no estudo de cada uma das peculiares cicatrizes coroadas.

Glauser-Róist apenas pronunciou uma palavra durante aqueles dias; passava as horas mortas teclando no computador e eu sentia nascer em meu interior um rancor absurdo contra ele por perder o tempo tonteando daquela maneira enquanto minha cabeça ia se convertendo lentamente em pasta de papel.

A passos gigantescos se aproximava o domingo, 19 de Março, dia de São Giuseppe, e se impunha começar a preparar minha viagem a Palermo. Ia pouco a casa, apenas duas ou três vezes ao ano, mas, como boa família siciliana, os Salinas permaneciam indissoluvelmente unidos, para bem ou para mal, inclusive além da morte. Ser a penúltima de nove irmãos, daí meu nome, Otávia, a oitava, tem muitas vantagens quanto ao aprendizado e uso das técnicas de sobrevivência; sempre há algum irmão ou irmã mais velha disposta a torturar ou a humilhar debaixo do peso de sua autoridade, suas coisas são do primeiro que as apanha, seu espaço é invadido pelo primeiro que chegar, seus triunfos ou fracassos já foram os triunfos ou fracassos dos que vieram antes, etc...

Com certeza, a união entre os nove filhos de Filipa e Giuseppe Salina era indestrutível: apesar de minha ausência de vinte anos, da de Pierantónio, franciscano na Terra Santa, e da de Lúcia, dominicana residente na Inglaterra, contavam connosco para organizar qualquer festejo familiar, comprar qualquer presente para nossos pais ou adoptar qualquer decisão colegiada que afetasse à família.

Um dia antes da minha partida, o capitão Glauser-Róist voltou do almoço nos barracões da Guarda Suíça com um estranho brilho metálico em seus olhos cinzentos. Eu continuava totalmente enfrascada na leitura de um tedioso tratado sobre a arte cristã dos séculos VII e VIII, com a vã esperança de encontrar qualquer alusão ao desenho de alguma das cruzes.

Doutora Salina, murmurou após fechar a porta às suas costas. Tive uma ideia. Estou escutando, respondi, afastando de mim, com as duas mãos, o pesado compêndio. Precisamos de um programa de computador que coteje as imagens das cruzes do etíope com todos os ficheiros de imagens do arquivo e da biblioteca. Levantei as sobrancelhas em um gesto de estranheza. É possível fazer isso? Perguntei. O serviço de informática do arquivo pode fazê-lo. Fiquei pensando uns instantes. Não sei... Objectei pensativa. Deve ser muito complicado. Uma coisa é escrever umas palavras num computador e que a máquina procure o mesmo texto nas bases de dados, e outra é cotejar duas imagens de um objecto que podem estar arquivadas em tamanhos diferentes, em formatos incompatíveis, tomadas de ângulos distintos ou, inclusivé, com uma qualidade tão ruim que o programa não possa reconhecê-las como parecidas. Glauser-Róist me olhou com pena». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

 JDACT, Matilde Asensi, Literatura, Vaticano, Conhecimento,

quarta-feira, 8 de maio de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«… a tarefa se resumia na explicação dos signos, independentemente do que todos eles juntos queriam dizer, assim não havia outro remédio do que seguir adiante, sem sair do caminho assinalado, e esclarecer por fim o significado das sete cruzes»

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«Nas origens do cristianismo, e por surpreendente que possa parecer, a Cruz não foi objecto de adoração. Os primeiros cristãos ignoraram completamente o Instrumento do Martírio, preferindo outros elementos ornamentais mais alegres se de representar sinais e imagens. Além disso, durante as perseguições romanas, escassas, já que se reduziram à conhecida actuação de Nero após o incêndio de Roma no ano 64 e, segundo Eusébio (260-341, bispo de Cesárea), aos dois anos da mal chamada Grande Perseguição de Diocleciano (de 303 a 305), durante as perseguições romanas, como disse, a exibição e adoração pública da Cruz seria, indubitavelmente, muito perigosa, de modo que nas paredes das catacumbas e das casas, nas lápidas dos sepulcros, nos objectos pessoais e nos altares, apareciam símbolos tais como o cordeiro, o peixe, ou a pomba.

A representação mais importante, com certeza, era o Lábaro, o monograma formado pelas primeiras letras gregas do nome de Cristo, XP, ji e rho, que foi usado profusamente para decorar os lugares sagrados. Existiam múltiplas variações da imagem do Lábaro, em função da interpretação religiosa que se queria dar: por exemplo, sobre as tumbas dos mártires se representavam Lábaros com uma rama de palma em lugar da letra P, simbolizando a vitória de Cristo, e os monogramas com um triângulo no centro, expressavam o Mistério da Trindade.

No ano 312 de nossa era, o imperador Constantino o Grande, adorador do deus sol, na noite anterior à batalha decisiva contra Magêncio, seu principal rival pelo trono do Império, sonhou que Cristo aparecia e lhe dizia que gravasse essas duas letras, XP, na parte superior dos estandartes de seus regimentos. No dia seguinte, antes do combate, diz a lenda que viu aparecer o dito selo, adicionado de uma barra transversal formando a imagem de uma Cruz, sobre a esfera segadora do sol e, abaixo, as palavras gregas En-Toutoi-Nika, mais conhecidas em sua tradução latina de In hoc signo vinces, Com este signo vencerás. Como Constantino, inquestionavelmente, derrotou Magêncio na batalha da Ponte Milvio, seu estandarte com o Lábaro, chamado mais tarde Labarum, se converteu na bandeira do Império. Este símbolo, pois, adquiriu uma importância extraordinária no restante do Império Romano e, quando a parte ocidental do território, Europa, caiu em poder dos bárbaros, continuou sendo utilizada na parte oriental, Bizâncio, ao menos até ao século VI, momento em que, como já disse, desapareceu por completo da arte cristã.

Então, o Lábaro que nosso etíope exibia no torso era precisamente este que o imperador viu no céu antes da batalha; este com o travessão horizontal e não outra de suas variações, e não deixava de ser um dado curioso, e, mais que curioso, estranho, porque deixara de ser utilizada há catorze séculos, como bem testemunhava o Papa da Igreja São João Crisóstomo, que, em seus escritos, afirmava que, por fim, nos finais do século V, o dito símbolo fora substituído pela autêntica Cruz, exposta agora publicamente com orgulho e prodigalidade.

É certo que ao longo dos períodos românico e gótico os lábaros reapareceram como motivos ornamentais, mas com outras formas diferentes à simples e concreta do Monograma de Constantino. Bem, outro mistério aparentemente resolvido. Mas a palavra STAUROS repartida em letras pelo corpo continuava nos deixando na perplexidade mais absoluta. Cada dia que se passava o desejo de desenredar todo aquele embrulho, de compreender o que aquele estranho cadáver estava tentando nos indicar, ficava mais e mais angustiante. Com certeza, a tarefa se resumia na explicação dos signos, independentemente do que todos eles juntos queriam dizer, assim não havia outro remédio do que seguir adiante, sem sair do caminho assinalado, e esclarecer por fim o significado das sete cruzes». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

JDACT, Matilde Asensi, Literatura, Vaticano, Conhecimento, 

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Maria Velho da Costa. Cravo.«De ferros, de burel, estamenha e lã cardada, de patas e pés nus só enrolados, traça da mão e cuspo em tudo e tudo, eu vi o punho cheio a pôr-se em terra, a inteirar-se»

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Crónica dos idos

«E eu vi deles a primeira dinastia. Tinha-se muito recta pela madrugada e velava. Os céus estavam cerrados alto e os ginetes faziam outras pequenas nuvens pelas narinas, fora do horto da ermida, casqueando manso nos penedos seu sono de pé, enquanto eles lá dentro velavam seu sagrar-se à desmesura, a sempre nova guerra.

Virgens, o olho à escuta e raiado de sangue, os tão novos passavam a mão nos peitos luzidos de orvalho, ainda só disso, e esperavam, montariavam golpes lá no rosar das nuvens do clarear, estremeciam no dentro do dentro da sua novidão, Passavam a água em barros e pão ázimo, queriam suster e viam e ouviam, sua língua de argila, os sons de muco e chão. Vos digo claramente que não sabiam que nada, era só um mais ser, a princesia, ir descendo nas terras um coro de ser eu.

De ferros, de burel, estamenha e lã cardada, de patas e pés nus só enrolados, traça da mão e cuspo em tudo e tudo, eu vi o punho cheio a pôr-se em terra, a inteirar-se. Ninguém não era irmão e era cedo. Como do cru ao cru, todo o ar era tenro. Bestas e gente tinham cheiro, gemia um só vagido e era a língua, o rude afago dela. Cera silvestre neles, bosta quente, coalhado leite, dedos sem escrita, mãos de derramar. Todos eram primeiros, grossos, unos.

Mais vi: as casas, os caminhos e as fontes, o gado são, entrarem pelas barcas ao meio-dia. Vi os segundos como corvos e tudo tendo a medo, conservando. Tinham seus paços postos sobre estacas e em baixo eram o ouro fosco e a pimenta grumosa, restos de maresia, o agougar dos caranguejos. Vi-os de negro e chapelão maldizerem as águas e os ares, montados sobre as mais altas pontas de terra, espumando ao mar as suas próprias espumas. Vi as mulheres, a enegrecer de trapos o todo corpo delas, gementes e chorantes em nome de uns nomes ou de outros.

E vi-os engodar a própria morte, tecer vaidades dela. E' ouvi a antiga renegada faladando vozes de mando por cima desses brados altos. Até que se deitaram pelo chão, pelas terras todas e ficaram à escuta do seu ronco. Até que se deitaram para as águas cuspindo os dentes e mordendo as redes. Vi-os erguerem-se e só comerem estevas e roerem as mãos até aos punhos para de novo ter nome.

Mais vi as armas que empunhavam, os chuços e ancinhos para sempre. Vi-os ir de uma a outra casa, sempre sagradas santas, a demandar caminhos, sem ninguém que ficasse em nome deles. Puseram-se então a triturar o membro a todos os meninos, para que não fossem mais Por sobre a terra.» In Maria Velho da Costa, Cravo, 1976, Morais Editores, 2024, Porto Editora, Assírio & Alvim, ISBN 979-972-572-579-5.

Cortesia de A&Alvim/JDACT

JDACT, Maria Velho da Costa, Liberdade, 25 de Abril, Narrativa,

domingo, 28 de abril de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«… o monograma do Nome de Cristo que o etíope tatuara sobre o peito e o estômago, correspondia a uma variedade conhecida como Monograma de Constantino e que seu uso na arte cristã desaparecia a partir do século VI de nossa era»

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«Às nove da noite estávamos mortos de cansaço. Glauser-Róist localizara algumas pobres referências às cicatrizes. Explicou-me, que tentou uma pesquisa religiosa circunscrita a uma franja da África Central na que, por desgraça para nós, não ficava a Etiópia. Nessa área, pelo que entendi, as tribos primitivas se acostumaram a friccionar com certa mistura de ervas as incisões da pele, feitas geralmente com umas pequenas canas tão afiadas como facas. Os motivos ornamentais podiam chegar a ser muito complexos, mas, em essência, respondiam a formas geométricas de simbologia sagrada, muitas vezes com relação a algum rito religioso.

Isso é tudo...? Perguntei desenganada, ao vê-lo fechar a boca após o exíguo relatório. Bom, há algo mais, mas não é importante. Os queloides, ou seja, as cicatrizes mais grossas e avolumadas são um autêntico atractivo sexual para os varões quando as mulheres as exibem. Ah...! Respondi com um gesto de estranheza. Isso tem graça! Jamais me teria ocorrido.

De modo que... Prosseguiu indiferente. Que continuamos sem saber por que essas cicatrizes estão no corpo desse homem. Acho que foi então quando me fixei, pela primeira vez, que seus olhos eram cinza claro. Outro dado curioso, ainda que também irrelevante para nosso trabalho, é que ultimamente esta prática está em moda entre os jovens de muitos países. Chamam-na body art ou performance art, e um de seus defensores é o cantor e actor David Bowie.

Não posso crer... Suspirei, esboçando um sorriso. Quer dizer que deixam fazer esses cortes por gosto? Bem... Murmurou tão desconcertado como eu. Tem algo a ver com o erotismo e a sensualidade, mas não saberia explicar. Nem tente, obrigada dispensei, extenuada, me pondo de pé e dando por terminada aquela primeira e esgotadora jornada de trabalho. Vamos descansar capitão. Amanhã vai ser outro dia muito longo.

Permita-me que a leve a sua casa. Estas não são horas para que ande sozinha pelo burgo.

Estava demasiado cansada para negar, assim arrisquei de novo minha vida dentro daquele carro tão espectacular. Ao nos despedir, agradeci, com algo de má consciência por minha forma de tratá-lo, e rechacei educadamente sua oferta para vir me apanhar na manhã seguinte; estava há dois dias sem ouvir missa e não estava disposta a deixar passar nem um mais. Levantaria cedo e, antes de recomeçar o trabalho, iria à Igreja de Sant Michele e Magno. Ferma, Margherita e Valéria estavam vendo um velho filme na televisão quando entrei pela porta. Tiveram o detalhe de guardar o jantar quente no micro-ondas, de modo que tomei um pouco de sopa, sem muita vontade; vira demasiadas cicatrizes nesse dia, e pensava ficar um tempo na capela antes de ir dormir. Mas, naquela noite não pude me concentrar na oração, e não só porque estivesse demasiado cansada, e estava, mas, também porque três de meus oito irmãos resolveram telefonar da Sicília para me perguntar se eu iria à festa de São Giuseppe, que organizávamos todos os anos para o nosso pai. Disse aos três que sim e fui para a cama, desesperada.

O Capitão Glauser-Róist e eu vivemos umas semanas frenéticas a partir daquele primeiro dia. Fechados em meu escritório desde as oito da manhã até as oito ou nove da noite, de segunda a domingo, repassávamos os poucos dados que tínhamos à luz das escassas informações que íamos obtendo dos arquivos. Resolver os problemas das letras gregas e do Lábaro foi relativamente simples em comparação com o titânico esforço de resolver o enigma das sete cruzes.

No segundo dia de trabalho, ao chegar ao escritório, quando fechei a porta e vi a silhueta de papel colada na madeira, a solução das letras gregas me golpeou o rosto como a luva de um desafiode honra. Era tão evidente, que não podia crer que na noite anterior não o tivesse visto, ainda que me justificasse lembrando o muito cansado que estava: lendo da cabeça até as pernas, da direita para a esquerda, as sete letras formavam a palavra grega STAUROS, cujo significado era, obviamente, CRUZ. A essas alturas, era inquestionável que tudo o que havia naquele corpo estava relacionado com o mesmo tema.

Alguns dias mais tarde, após estudar várias vezes do direito e do revés, sem êxito; consultar a história da velha Abissínia (Etiópia); conferir a mais variada documentação sobre a influência grega na cultura e na religião no dito país; após ficarmos longas horas examinando cuidadosamente dezenas de livros de arte de todas as épocas e estilos, extensos relatórios sobre seitas remetidos pelos diferentes departamentos do Arquivo Secreto e exaustivos informes sobre lábaros que o capitão conseguiu através do  computador, nós fizemos outra descoberta significativa: o monograma do Nome de Cristo que o etíope tatuara sobre o peito e o estômago, correspondia a uma variedade conhecida como Monograma de Constantino e que seu uso na arte cristã desaparecia a partir do século VI de nossa era». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

JDACT, Matilde Asensi, Literatura, Vaticano, Conhecimento,                      

sexta-feira, 26 de abril de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«… todas tinham algo em comum: estavam encerradas, ou protegidas, por quadrados, círculos e retângulos, como pequenas janelas ou janelas medievais, com a mesma pequena coroa raiada na parte superior…»

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«Encontrei outras seis letras gregas espalhadas pelo corpo: no braço direito, sobre o bíceps, uma tau, no esquerdo, uma ípsilon, no centro do peito sobre o coração, uma alfa, no abdomen, uma rho, no músculo direito, sobre o quadríceps, uma omicrom e no esquerdo, em idêntico lugar, outra sigma. Justo debaixo da letra alfa e por cima da rho, na área dos pulmões e do estômago, se via um grande Lábaro, o conhecido monograma, tão habitual nos tímpanos e altares das igrejas medievais, formado pelas duas primeiras letras gregas do nome de Cristo, ji e rho, superpostas. Este Lábaro, com certeza, apresentava uma curiosa peculiaridade: haviam adicionado uma barra transversal que ajudava a compor a imagem de uma cruz. O restante do corpo, exceptuando as mãos, os pés, as nádegas, o pescoço e o rosto, estava cheio de outras cruzes da mais original feitura que tinha visto em minha vida.

O Capitão Glauser-Róist ficara longo tempo sentado frente ao computador, teclando sem descanso misteriosas instruções, mas, de vez em quando, aproximava sua cadeira da minha e olhava em silêncio a evolução de minhas análises. Por isso, quando, subitamente, me perguntou se seria de ajuda conseguir um desenho do corpo humano em tamanho natural para ir assinalando as cicatrizes, me sobressaltei. Antes de responder, fiz um par de exageradas afirmações e negativas com a cabeça para aliviar minhas doloridas cervicais.

É uma boa ideia. Por certo, capitão, até onde está autorizado a me informar sobre este pobre homem? Monsenhor Tournier comentou que fez estas fotografias. Glauser-Róist se levantou de sua cadeira e se dirigiu até ao computador.

Não posso dizer nada. Apertou várias teclas rapidamente e a impressora começou a crepitar e a expulsar papel. Preciso saber algo mais, protestei, esfregando a ponta do nariz por baixo dos óculos. Quem sabe conheça detalhes que poderiam me facilitar o trabalho.

A Rocha não se deixou comover por meus pedidos. Com pedaços de fita adesiva que cortava com os dentes, foi pregando na porta, o único espaço que ficara livre em meu pequeno escritório, as folhas que saíam da impressora até formar a silhueta completa de um ser humano. Posso ajudá-la em alguma outra coisa? Perguntou ao terminar, se voltando para mim. Olhei-o desdenhosamente.

Você pode consultar as bases de dados do Arquivo Secreto desse computador? Desse computador posso consultar qualquer base de dados do mundo. O que deseja saber? Tudo o que possa encontrar sobre cicatrizes. Pôs mãos à obra sem perder um segundo e eu, de minha parte, apanhei um punhado de rotuladores de cores de uma gaveta de minha mesa e me plantei com decisão em frente à silhueta de papel.

Ao cabo de meia hora, havia conseguido reconstruir com bastante fidelidade o doloroso mapa-múndi das feridas do cadáver. Perguntei-me por que um homem forte e são, de uns trinta e tantos anos, havia se deixado torturar daquela maneira. Era muito estranho. Além das letras gregas, encontrei um total de sete belíssimas cruzes, cada uma completamente diferente das demais: de forma latina, na parte interior do antebraço direito, e de feitura latina, com o travessão curto na metade da viga, no esquerdo; nas costas, uma cruz de troncos sobre as vértebras cervicais, outra, ansata egípcia, sobre os dorsais e uma última, sobre as lombares. As duas cruzes restantes, até completar as sete, eram das chamadas decussadas (em xis) gregas, e estavam situadas na parte posterior dos músculos. A variedade era admirável ainda que, com certeza, todas tinham algo em comum: estavam encerradas, ou protegidas, por quadrados, círculos e retângulos, como pequenas janelas ou janelas medievais, com a mesma pequena coroa raiada na parte superior, em forma de dentes de serra e sete pontas». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

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quinta-feira, 25 de abril de 2024

Manuel António Pina. Poesia. «É pelo hálito que te conheço no mesmo escultor modelou os teus ouvidos e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos…»

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OS TEMPOS NÃO

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.

Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).

As palavras esmagam-se entre o silêncio

que as cerca e o silêncio que transportam.

 

É pelo hálito que te conheço no

mesmo escultor modelou os teus ouvidos

e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos

fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

 

Falo contigo de mais assim me calo e porque

te pertence esta gramática assim te falta

e eis por que não temos nada a perder e por que é

 cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

In Manuel António Pina, Ainda não é o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas um Pouco Tarde,  Assírio & Alvim, 1974,  ISBN: 978-972-079-293-8.

Cortesia de Assírio&Alvim/JDACT

JDACT, Liberdade, Manuel António Pina, 25 de Abril, Democracia,

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Poesia. Nuno Júdice. «Deuses… vós sois animais destruidores… invoco a memória de um fruto amargo, a sabedoria corrompida nos labirintos da inteligência»

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Exílio

«As planícies áridas de uma inspiração antiga deram-me a conhecer

O seguinte, que eu era um poeta único, o Anunciado, o Iluminador das tardes

Violetas do Bósforo e Antineia… e que ninguém, durante os anos

Criadores de uma imaginação múltipla, regressaria às fórmulas arcaicas

Que os medíocres ousaram, furiosos de Resto…

E eles! Devoradores de impressão, que zelo sustenta ainda

Os seus corpos? Antes os influenciasse Saturno, o criador de Obscuridade

Divina… ou ouvissem os horóscopos pronunciados nas margens

Tempestuosas do sul… ou ainda voltassem a um lugar abrigado

A elucidar as profecias e comentários de um povo áugure… mas eles

Não ouviram, nunca, asmatemáticas polares do sonho!...»

[…]

In Nuno Júdice, 50 Anos de Poesia, Antologia Pessoal (1972-2022), Publicações Dom Quixote, 2022, ISBN 978-972-207-457-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, Nuno Júdice, Poesia, Cultura, 

A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «… durante a viagem de autocarro através da Turquia nem a verificou no trajecto de Ancara a Londres. E, no voo para os Estados Unidos, teria visto a fita se ela tivesse caído no chão da casa de banho do avião. Era a única que faltava... A cripta»

jdact e cortesia de wikipedia

A Fita

«O básico, retrucou Thornton. A maioria informações da ficha dele na comunicação social. Ele apoiou o lápis sobre a borracha da outra extremidade. É um industrial rico, novato na cena política e está conquistando um bom número de admiradores. A plataforma dele se baseia nos valores familiares e em um carácter moral elevado. Até agora, parece não ter defeitos..., o candidato perfeito. Thornton passou para a página seguinte do seu onipresente computador de mão. É um homem dedicado à família e generoso com a própria riqueza. Um dos seus projectos preferidos é uma organização nacional que patrocina acampamentos modelos para delinquentes juvenis urbanos. E não é só com jovens problemáticos que ele trabalha. Wingate tem sido da maior importância na manutenção de alguns capítulos da Ordem DeMolay em diversas regiões do país, especialmente na Flórida, o estado natal dele. Ele tem se pronunciado vivamente contra os maus-tratos infantis e...

Espere um pouco, interrompeu Casselman. O que é DeMolay? Thornton ergueu os olhos.

A versão da Maçonaria para jovens. É uma organização para garotos entre 12 e 21 anos. Mais alguma coisa?, indagou Casselman. Não consegui descobrir grande coisa sobre ele. Wingate apareceu de repente no cenário político, como se tivesse vindo do nada. Aparentemente, tem uma considerável máquina financeira que o apoia. Ted Casselman coçou o queixo.

Vamos descobrir o que torna Wingate tão perfeito. Separe um segmento sobre ele para o domingo à noite. Vou colocar o meu pessoal nisso, prometeu Thornton. Reuniu os seus apontamentos, levantou-se e deu a volta na mesa de reuniões até onde Cotten se encontrava. Se tiver um tempinho, dê uma passada na minha sala depois da sessão de edição. Vou ver, prometeu Cotten, levantando os olhos para ele. Como foram as filmagens?, quis saber Casselman depois que Thornton deixou a sala. Muito melhor do que eu esperava. Acredite em mim, Ted, as sanções e os embargos internacionais tiveram pesadas consequências sobre as crianças e os idosos iraquianos. Vai ser uma história emocionante. Mas não vou ganhar muitos pontos com o Departamento de Estado, agora que eles estão preparando uma outra guerra.

Bom, isso quase garante uma pontuação alta nas pesquisas de audiência. Ele se levantou. Vamos, vou acompanhá-la até a sua sessão de edição. Ele pôs o braço no ombro dela, conduzindo-a à porta. Você me deu muitas noites de insônia, mocinha. Mas também mostrou coragem. Uma ciscadora. Gosto disso. Agora, quero ver o que tenho em troca de mais alguns cabelos brancos. Não vai se arrepender, Ted. Cotten gostava de Casselman e o respeitava. Sentia muito por fazê-lo preocupar-se tanto com ela. E ele era alguém que podia ajudá-la a galgar rapidamente dois degraus de uma vez na escada hierárquica da carreira.

Entraram na sala B de edição. O ambiente estava às escuras, a não ser pelo brilho suave da parede de monitores e das luzes indicadoras nas bancadas dos controles eletrónicos. Fiz cópias do roteiro e dos meus apontamentos, informou ela, estendendo uma pasta para Casselman e outra para o editor. Por enquanto, podemos gravar uma fita de rascunho para editarmos e deixar para introduzir a locução mais tarde. Ela sorriu para o editor-assistente. Vamos precisar de algumas inserções da biblioteca de sonoplastia... temas dramáticos, sombrios. Ah, e algumas informações históricas sobre o povo. Médio Oriente. Em seguida, Cotten descarregou a sacola de filmes. Todos os vídeos estavam numerados e ela os empilhou em ordem.

Ah, droga!, exclamou. Desfez a pilha de filmes, verificando cada rótulo outra vez. O que foi?, Casselman desviou o olhar do roteiro. Eu... Ele deixou a pasta de lado. Cotten? Vocês terão de começar sem mim, disse ela.

Tyler

Cotten escancarou a porta do apartamento e correu para o quarto. Lembrava-se de ter ficado sentada na cama na noite anterior, esvaziando a sacola e tirando a caixa. Essa tinha sido a única ocasião em que o videocassete que faltava poderia ter caído. De gatinhas, ela levantou a colcha e examinou por baixo da cama. Nada ali.

Sentou-se e correu os dedos pelos cabelos, examinando o resto do tapete que cobria a maior parte do piso do dormitório. Ela não tinha aberto a sacola durante a viagem de autocarro através da Turquia nem a verificou no trajecto de Ancara a Londres. E, no voo para os Estados Unidos, teria visto a fita se ela tivesse caído no chão da casa de banho do avião. Era a única que faltava... A cripta». In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia do CdoAutor/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério, Médio Oriente, 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «Bem, você é uma moça de sorte, disse, levantando-se para beijá-la no rosto. Tente mais uma aventura arriscada dessas e vou providenciar para que o único trabalho que consiga seja o de garota do tempo…»

jdact e cortesia de wikipedia

A Fita

«Seguia-se uma entrevista com um arqueólogo da equipe do Museu de História Natural de Nova York. O homem sorria de modo condescendente, chamando Archer de um fanático pelas próprias teorias. Às vezes, afirmava, o entusiasmo leva a melhor sobre o doutor. Ele tem muitas ideias extravagantes. O arqueólogo deu crédito a Archer por muitas descobertas notáveis, incluindo uma obra sobre a busca da Arca de Noé, mas disse que as excentricidades dele diminuíam-lhe a credibilidade. Havia mais algumas entrevistas tratando de Archer. Uma, em especial, chamou a atenção de Cotten: o doutor John Tyler, um padre católico, historiador bíblico e arqueólogo, referia-se afavelmente a Archer. Tyler havia estudado com Gabriel Archer e dizia que o arqueólogo era dedicado ao trabalho, mencionando que muitas das descobertas dele haviam esclarecido muitos aspectos da história bíblica.

Tyler aparentava ter cerca de 35 anos, era alto, de cabelos escuros, e exibia o rosto enrugado de alguém acostumado a passar muito tempo ao ar livre. E que belos olhos, observou Cotten. Ela rebobinou a fita e repetiu a parte de Tyler. Ele falava macio, mas o seu tom era confiante, autoritário. Ele tem muitas aspirações, comentava Tyler sobre Archer. Gosto bastante dele. Cotten tomou nota do nome da faculdade onde Tyler leccionava. Como era em Nova York mesmo, poderia ser uma boa fonte de informações. Ela pensou sobre o que Archer lhe havia sussurrado na cripta e com que facilidade havia citado a Bíblia. Mateus 26, 27, 28. Ele devia estar se referindo a uma passagem da Bíblia. Consultou o relógio: faltavam quinze minutos para a reunião com Ted Casselman.

Concluindo as pesquisas nos arquivos, Cotten voltou para o saguão de entrada do andar, enfiando a cabeça em uma das salas de edição. Alguém tem uma Bíblia? Voltou religiosa do Médio Oriente, Cotten?, ironizou o editor de vídeo, fitando-a por sobre o ombro. Tente o criado-mudo de um quarto de hotel, acrescentou um assistente. Cotten sorriu com sarcasmo. Muito engraçadinhos. Vamos lá, gente. Verdade, alguém faz ideia de onde possa encontrar uma Bíblia?

Com o correspondente de Religião, informou o editor, e voltou aos seus monitores. Claro!, admitiu ela, imaginando por que não havia pensado nisso. Mas, então, religião não era algo em que passasse muito tempo pensando. Consultou o relógio de novo enquanto se encaminhava para a sala. Qual versão?, a secretária do correspondente perguntou. Não sei... não existe uma versão padrão? A secretária indicou a porta atrás de si e se levantou. Cotten a acompanhou. Em uma parede, erguia-se uma estante do chão ao tecto. A secretária retirou da prateleira a versão inglesa do rei Jaime. Por favor, guarde no mesmo lugar depois que consultar, declarou, antes de sair.

Obrigada, agradeceu Cotten, sem desviar o olhar. O que Archer dissera mesmo? Mateus? Mateus ficava no Novo Testamento, pelo menos isso ela sabia. Mateus, Marcos, Lucas e João. Até esse ponto chegara na escola de catecismo. Vinte e seis, vinte e sete, vinte e oito..., ela disse, enquanto folheava as páginas. Correndo o dedo em cada página, ela parou no Evangelho de Mateus, capítulo 26, e leu os versículos 27 e 28 em voz alta: A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele, todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.

Jesus, ela sussurrou, e então compreendeu a charada. Será que tudo aquilo tinha a ver com o cálice da Última Ceia? Será que era isso o que havia na caixa dentro do fogão dela? Archer disse que estava procurando pelo maior tesouro dos céus. Ela deu um suspiro ao pensar que poderia estar envolvida com uma história da maior importância. Tirando o pedaço de papel do bolso, pegou o telefone da mesa e ligou para o serviço de informações da lista telefónica. Depois de obter o número da faculdade onde o doutor Tyler leccionava, discou-o.

Sim, estou tentando localizar um reverendo doutor John Tyler. Sei que ele lecciona aí. Escutou por alguns instantes e a sua expressão foi de espanto. Bem, e a senhora sabe para onde ele foi designado? Outra pausa e ela acrescentou: Vou lhe deixar o meu número. Cotten desligou, pegou as suas coisas e correu para a sala de Ted Casselman, o chefe de reportagem da SNN. Bateu na porta. Entre.

Casselman estava sentado à cabeceira de uma mesa de reuniões, um punhado de pastas espalhadas à frente. Duas cadeiras ao lado do chefe de reportagem já se achava sentado Thornton Graham. Thornton sorriu calorosamente quando Cotten atravessou a sala. Ted Casselman levantou os olhos. Era um negro de 42 anos de idade, com estatura mediana, unhas perfeitamente bem-cuidadas, alguns cabelos brancos que atenuavam o tom escuro da pele.

Bem, você é uma moça de sorte, disse, levantando-se para beijá-la no rosto. Tente mais uma aventura arriscada dessas e vou providenciar para que o único trabalho que consiga seja o de garota do tempo em uma cidadezinha do interior. Ele relanceou para o relógio de parede. E está atrasada.

Desculpe-me, Ted, falou Cotten, forçando o seu melhor sorriso juvenil. — Precisei fazer uma pequena incursão nos arquivos. Ah, é? Imagino que tenha concluído a sua pesquisa. Só tenho umas pontas soltas. Sente-se e relaxe. Estamos quase acabando aqui. Casselman voltou à cadeira e abriu uma das pastas. Depois de ler algumas linhas no alto, dirigiu-se a Thornton: E o que você sabe sobre Robert Wingate?» In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia do CdoAutor/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério, Médio Oriente,

domingo, 31 de março de 2024

No 31. A Pintura de Paisagem na Poesia de Nuno Júdice. Para uma Leitura Gnóstica e Geopoética do Mundo. Egídia Souto.«Na esfera da história das artes plásticas portuguesas, a paisagem assume um carácter totalmente independente com o romantismo e posteriormente com a vigência da estética naturalista…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«É uma paisagem teatro do mundo, onde dialogam essencialmente filosofia, religião e pintura, que o poeta Nuno Júdice tenta alcançar. O sujeito poemático testemunha as metamorfoses pelas quais vai passando o cosmos. Estar no mundo, em harmonia com este, pressupõe uma nova filosofia onde a paisagem é mais filosófica e poética que geográfica - palimpsesto de todos os possíveis. O poeta, num eixo géo-poético e pluridisciplinar, cria uma paisagem que nasce de uma cosmologia criativa e de uma natureza inabitada e elegíaca, sublimada muitas vezes pelo quadro. Não será a pintura de paisagem um caminho para a perfeição? Ou talvez uma resposta para o lugar do ser no mundo, numa absoluta fusão do corpo com o poema? Ou será a pintura de paisagem uma contemplação do eu à espera da revelação?» In Resumo

«Nuno Júdice é uma das vozes poéticas mais significativas da literatura portuguesa desde os anos setenta. Na sua obra a paisagem e particularmente a pintura de paisagem são fundamentais como afirma o próprio: A minha relação com a natureza é determinante para o nascimento do poema, e isso tem a ver com a memória das estações, o clima. Mas o mais importante é o lado de transformações e variedade da paisagem

É uma paisagem teatro do mundo, onde dialogam filosofia, religião e pintura, que o poeta Nuno Júdice tenta alcançar desde a Noção de Poema (1972). A paisagem metamorfoseada que o poeta nos dá a ler, é um espelho da realidade. Como se pode ler em As Máscaras do Poema (1998) : Vemos então que a metáfora exige a presença de um contexto duplo: o de uma realidade, que se refere ao sujeito e transporta uma relação inconsciente desse sujeito como no seu todo ou em parte; e o de uma outra cena, em que uma peça destacada desse real vai sofrer uma outra designação, introduzindo um elemento de estranheza na percepção do real pelo sujeito. (AMP, 65)

Perante estas afirmações coloca-se a questão de compreender, na senda de Novalis, Heidegger, Kant e Edmund Burke, a transformação do sujeito através da paisagem. Mas de que forma é que o poeta transforma por seu turno a paisagem? Não será a pintura um caminho para o absoluto ? Ou será uma contemplação do eu à espera da revelação? Para responder a esta problemática, a minha leitura, à luz dos conceitos de ekphrasis, concederá uma grande importância ao mar lugar sagrado que atravessa toda esta obra. Tomarei como linha directiva a géo-poética defendida por Kenneth White. Trata-se não apenas de alcançar perspectivas geográficas, artistas ou filosóficas mas sim de caminhar, de traçar e calcorrear rotas que incluam o mundo, os homens e os lugares. Kenneth White refere que: La géopoétique, basée sur la trilogie éros, logos et cosmos, crée une cohérence générale – c’est cela que j’appelle « un monde.

Ora a paisagem que nós dá a ler e a ver Nuno Júdice aproxima-se de um certo panteísmo espinosiano no sentido em que esta surge como símbolo de reencontro com o sublime e o cosmos. E isto num ponto de vista que procura ascender às zonas de obscuridade do homem face si mesmo à procura de explicações da vida levando-nos a pensar no que Heidegger designava por dasein. Como se pode ler nestes versos de Estado dos Campos: O que corresponde ao reconhecimento do mundo, ou aquilo que, para uns, é uma explicação da vida, está contido nessa dimensão da natureza que nos é inacessível (…).

Antes de me debruçar em exemplos concretos de ecfrasis onde veremos inventariadas paisagens impressionistas e românticas começo por expor algumas noções de paisagem, a nível histórico. Michel Collot, um dos nomes mais significativos da geografia literária considera que le paysage est un carrefour où se rencontrent des éléments venus de la nature et la culture, de la géographie et de l’histoire, de l’intérieur et de l’extérieur, de l’individu et de la collectivité, du réel et du symbolique. Se, antes do século XIX, a noção de paisagem é pouco empregue e significa um país, e uma porção de espaço, hoje este conceito é interdisciplinar. Em Portugal, foi em 1567 que surgiu pela primeira vez com o nome de paugagem, numa referência na quarta parte de Crónica do Sereníssimo Senhor Rei D. Manuel de Damião de Góis.

No entanto é principalmente na época romântica que a paisagem se torna grande produtora de emoções e de experiências subjectivas como constata a historiadora Diana dos Santos. O gosto pela natureza e pelo sublime desenvolveu-se a partir do século XVIII em Inglaterra e Alemanha e é em torno desta estética que nos reunimos hoje. Pois para Nuno Júdice é primordial o retorno, quase metafísico, à natureza numa concepção de Schelling que implica um sistema que reúne Natureza e espírito com o intuito de atingir o absoluto» In Egídia Souto, A Pintura de Paisagem na Poesia de Nuno Júdice. Para uma Leitura Gnóstica e Geopoética do Mundo, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Via Panorâmica, Porto,  Instituto de Filosofia, Universidade do Porto, ifilosofia@letras.up.pt.

 Cortesia de FaculdadeLetrasUniversidadePorto/JDACT

Paisagem, poesia, pintura, JDACT, Conhecimento, Cultura,  

sábado, 30 de março de 2024

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «… o menino alçava-se em bicos dos pés a olhar maravilhado para o vaivém dos elefantes de trabalho que transportavam nas trombas os pesados troncos de madeira, cortados pelos lenhadores da casta dos revolons…»

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«Finalmente em Cochim, onde haviam desembarcado no primeiro dia de Novembro, a fortaleza de madeira, com a sua pequena povoação de casas de troncos e cobertura de folhas de palma, causara-lhe desilusão e temor. Enquanto António não era provido no seu cargo, ainda ocupado pelo oficial em funções, fora-lhe atribuída para moradia uma dessas cabanas, junto ao baluarte, onde ela vivera em contínuo sobressalto do fogo, dominando os medos para não enfadar o seu homem e acorrendo sempre ao toque do sino para combater as chamas.

Graças a Zobeida e Giauhare, não sentira solidão, apesar de ser a primeira portuguesa a pisar terra da Índia, uma proeza de que muito se orgulhava. Poucos dias após a sua chegada, apenas instalada na sua nova casa e com a ajuda das meninas e de uma parteira malabar, dera à luz o filho naquele mundo onde tudo lhe era estranho. Quase morrera de susto, quando a aparadeira gentia a lavara e ao filho, por três vezes, em água quente e fria e não enfaixara a criança, como era de uso em Portugal. Os homens fazem as leis, as mulheres os costumes!, pensara, decidida a aceitar os modos da terra que não fossem contra a sua religião e natureza e este do banho, sobretudo quando estava com as regras, o que era proibido pelos físicos portugueses como coisa prejudicial e muito perigosa, era afinal um preceito prazeiroso que adoçava os sentidos.

Não se queixara, nem se arrependera da sua vinda, porque, se era esse o preço a pagar para estar com o homem que amava, dava por bem empregue o sacrifício. No ano seguinte, Iria assistiria maravilhada à reconstrução da fortaleza em pedra e cal, ordenada por dom Francisco de Almeida, que lograra o grande feito de convencer el-rei a dar-lhe permissão para a fazer assim forte e cobrir de telha os seus edifícios e as casas da nova povoação. Como alcaide-mor de Cochim, António tivera direito a casa dentro da fortaleza, para onde Iria se mudara com o filho e as meninas.

Decorridos já oito anos sobre esses sucessos, Iria ainda gostava de passear ao longo das ameias e varandas das suas altas muralhas, levando Diogo pela mão e contando-lhe histórias. Era uma bela construção de forma quadrada, tendo nas duas esquinas do lado da praia cubelos de dois sobrados, cobertos com pasta de chumbo e guarnecidos de ameias; nas outras duas esquinas erguiam-se as torres quadradas também de dois sobrados, o de cima para as casas do capitão e do alcaide-mor com a sua gente, o de baixo para armazéns de mercadorias grossas.

Caminhando pelas varandas que ligavam as torres, mãe e filho podiam ver, no lado de dentro, o pátio com o grande poço no meio e a casa da tranqueira que fora reforçada, onde viviam o feitor e os restantes oficiais. A porta abria para o lado do mar e, no interior, tinham construído um vasto alpendre com bancos muito bem lavrados onde o vizo-rei vinha tomar o fresco com os seus fidalgos. Já não necessitava de levantar Diogo nos braços para ele ver a ribeira em que se varavam as naus, com os estaleiros para a sua reparação e também construção de navios tão bons como os de Portugal. Agora, o menino alçava-se em bicos dos pés a olhar maravilhado para o vaivém dos elefantes de trabalho que transportavam nas trombas os pesados troncos de madeira, cortados pelos lenhadores da casta dos revolons, para os locais indicados pelos cornacas seminus escarranchados nos seus cachaços». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Deana Barroqueiro, JDACT, Literatura, Fernão Mendes Pinto, Crónica,

sexta-feira, 29 de março de 2024

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «… os homens que andavam nas fainas traziam todos os seus fatos vestidos, em camadas sobrepostas de saios e gibões, bragas e calças, botas, borzeguins e sapatos, barretes, boinas e sombreiros, e até cabeleiras de vestir! Iria fizera outro tanto, mas quase perdera os dedos das mãos e dos pés»

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Quando falares, cuida que tuas palavras sejam melhores que o silêncio (hindu)

Carta de Afonso de Albuquerque a el-rei Manuel I

«Senhor: Vossa Alteza me culpa, me culpa, me culpa em algumas cousas de cá da Índia, e creio que será por má informação que vos de mim darão algumas pessoas, com inveja e dor de meus feitos e meus serviços. Os que vos estas cousas escrevem, não andam em minha companhia, nem me vêem o rosto, nem são companheiros em meus trabalhos, perigos e fadigas, nem vestem as armas, (…) mas querem ganhar autoridade em vos escreverem mil enganos e falsidades; prognosticam e profetizam, falam com feiticeiras que lhes digam o que está por vir, e ajuntam toda essa massa, de que fazem esse pastel que lá mandam a vossalteza cada ano (…) e não vos deixam tomar verdadeiro assento nas cousas de vosso serviço, nem determinar o caminho que quereis que leve o negócio da Índia. Digo-vos, senhor, isto, porque se bem olhardes vossos regimentos e determinações, cada ano vem um contrairo ao outro, e cada ano fazeis uma mudança e haveis novo conselho, e a Índia não é o castelo da Mina, para cada ano bulirdes com ela, porque há nela muito grandes reis e senhores (…) que s’esforçam a vos defender que não segureis vosso estado nela, nem vos façais forte na terra, nem lhe ganheis os lugares principais; e estão confiados que haveis de leixar a Índia (…) E vossalteza ajuda-os a seu propósito, porque uma hora pondes um emplastro para este feito vir a furo, outra hora lhe pondes defensivos que não crie matéria; e tanto pode vossalteza ir por este caminho, que dareis com todo feito no chão. (…)

De Cananor ao primeiro dia de Dezembro de 1513.

Passavam já três relógios do quarto da prima quando Bento Castanho recomeça a saga de Iria Pereira e Fernão Mendes semicerra os olhos e deixa-se ir, no sabor das palavras do narrador, ao encontro do passado e daquela valente mulher, para lhe imaginar a vida e a luta em Cochim, longe da família que a trouxera ao mundo e da terra onde deixara as suas raízes.

Iria Pereira tomara a longa navegação do reino para a Índia, sete anos antes, como castigo e expiação dos seus pecados, sofrendo sem um queixume um terrível martírio durante mais de sete negregados meses escondida na S. Jerónimo, a nau de Francisco de Almeida, o vizo-rei da Índia. Muitos homens fortes haviam sucumbido às agruras da infernal viagem e só por milagre da misericordiosa Santa Iria, sua protectora, é que ela não morrera nem tivera um desmancho, encafuada num buraco malcheiroso, para não denunciar a sua presença, contando apenas com a ajuda do primo, presa de terríveis vagados que ora a deixavam prostrada, como desacordada, ora a faziam botar a comida e o estômago pela boca, mareada de morte.

O último mês de viagem, Outubro de mil quinhentos e cinco, coincidira com o fim da sua prenhez e, apesar do incómodo peso e do calor, fora menos penoso do que os anteriores. Por terem partido de Lisboa em Novembro, sofrera o primeiro Inverno quase até Cabo Verde, logo seguido de um Verão de grandes calmas, ao passarem a linha equinocial; contudo, fora muito pior o segundo Inverno, cerca do cabo da Boa Esperança, quando nevou no dia de S. João e seguintes, com tanta força que os grumetes passavam horas a lançar a neve dos navios às pazadas. O vizo-rei e os demais fidalgos não saíam dos seus aposentos, assando-se aos braseiros, por ser menor o perigo do fogo, e os homens que andavam nas fainas traziam todos os seus fatos vestidos, em camadas sobrepostas de saios e gibões, bragas e calças, botas, borzeguins e sapatos, barretes, boinas e sombreiros, e até cabeleiras de vestir! Iria fizera outro tanto, mas quase perdera os dedos das mãos e dos pés.

Depois adviera medonha tempestade quando, para fugir do frio, se tinham acercado de terra: ondas altíssimas pareciam querer engolir as naus e, no seu esconderijo, sobrepondo-se ao bramido do mar e ao estrondear da trovoada, chegavam-lhe os gritos e rogos que os matalotes lançavam aos céus, encomendando a salvação da sua alma a Jesus Cristo ou a Nossa Senhora, e ela orara também em silêncio, à espera da morte. As suas vozes haviam chegado aos céus, porque o temporal amansara antes de os navios se desfazerem e serem engolidos pelos mares». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

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Iacobus. Aventura dos Templários no Caminho de Santiago. Matilde Asensi» … os pueri oblati acompanhavam a liturgia entre bocejos, mas não pude distinguir mais que um grupo de inquietas e minúsculas sombras; a nave estava mergulhada em trevas, iluminada apenas por algumas dezenas de círios»

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«Paramos, por fim, em frente à porta principal da abadia, onde fui recebido gentilmente pelo subprior, um monge jovem e sério, de nobre aspecto, e, sem dúvida, de sublime berço, pelo que pude deduzir de suas maneiras e andares; introduziu-me com presteza na muito bela casa do abade. Também este e o prior me receberam de maneira muito correcta, notava-se que eram pessoas importantes, acostumadas a receber visitantes ilustres; mas mostraram-se ainda muito mais acolhedores e gentis quando me viram sair de minha nova cela vestindo o mais parecido ao hábito mauriciano que puderam encontrar sem transgredir o respeito devido à sua Regra:túnica branca até os tornozelos com capa, sem escapulário nem cinto; e para os pés, sandálias de couro cru, muito diferentes das deles, fechadas e pretas.

Passeando pelo claustro, verifiquei que aquelas vestes eram apropriadas para o frio, muito mais quentes que meu gibão de mangas largas e minha túnica, de maneira que meu corpo endurecido, acostumado a grandes rigores, se acomodou rapidamente àquela roupa que, dali em diante, seria a minha.

Aproximava-se o Inverno, e, embora em Ponç de Riba a neve não seja coisa rara, aquele ano foi especialmente duro, não só para o campo e as colheitas, mas também para os homens. A véspera de Natal nos pegou, aos habitantes do mosteiro, sitiados por um interminável manto branco. Durante as semanas que se seguiram à minha chegada, procurei, dentro do que me foi possível, permanecer à margem da vida e das intrigas do mosteiro. Embora de índole diferente, também nas capitanias dos Cavaleiros hospitalários ocorriam situações de profunda tensão por motivos quase sempre triviais… Um bom abade, ou um bom prior, como também um bom mestre ou um bom senescal, distinguem-se exactamente pelo controle que exercem sobre sua comunidade, evitando esses problemas.

Meu distanciamento da vida do mosteiro, contudo, não podia ser total, visto que, como monge hospitalar, devia estar presente aos ofícios religiosos comunitários, e, como médico, passava algumas horas por dia no hospital, em contacto com os irmãos doentes.

Naturalmente, eu evitava os capítulos, que eram assunto privado, e em absoluto era obrigado a realizar tarefa alguma que não fosse de meu agrado. Laudes, Prima, Tertia, Sexta, Noa, Vésperas e Completas regulavam meu horário quotidiano de estudo, almoço, passeio, trabalho e sono, com precisão matemática. Às vezes, vítima da inquietude e da saudade de minha distante ilha, eu rondava incansavelmente pelo claustro contemplando seus singulares capitéis, ou subia à torre da igreja para fazer companhia ao noviço vigia, ou ainda caminhava sem destino entre a biblioteca e a sala capitular, entre o refeitório e os dormitórios, também entre os banheiros e a cozinha, em uma tentativa de serenar meu ânimo e aliviar a urgência que sentia, por fim, aquele a quem eu havia baptizado, no meu íntimo, como Jonas; não o Jonas que entrou assustado no ventre da baleia, mas o que saiu dele livre e renovado.

Certo dia, durante a prece, escutei entre os cantos uma tosse infantil e cavernosa que me sobressaltou: não fosse pelo facto de aquela tosse não ter saído de meu peito, eu poderia jurar que eu mesmo pigarreava e sufocava. Olhei activamente em direcção à parte onde, sob o atento olhar do muito paciente irmão ama-seca, os pueri oblati acompanhavam a liturgia entre bocejos, mas não pude distinguir mais que um grupo de inquietas e minúsculas sombras; a nave estava mergulhada em trevas, iluminada apenas por algumas dezenas de círios». In Matilde Asensi, Iacobus, Aventura dos Templários no Caminho de Santiago, 2000, Editorial Planeta, 2006, 2013, ISBN 978-854 220-274-8.

Cortesia de EditorialPlaneta/JDACT

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quarta-feira, 27 de março de 2024

Iacobus. Aventura dos Templários no Caminho de Santiago. Matilde Asensi» … abandonaria o gibão, a cota e o manto negro com a cruz alta branca, e substituiria o elmo, a espada e o escudo pelo cálamo, a tinta e o scrinium»

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«É evidente que um cavaleiro hospitalar como eu não tem lugar, ao menos aparentemente, em um recinto sagrado dedicado ao estudo e à oração, mas meu caso era singular, visto que, além da verdadeira e secreta razão que havia me levado até Ponç de Riba, minha Ordem estava especialmente interessada, pelo bem geral de nossos hospitais, no conhecimento das terríveis febres eruptivas, as varíolas, que tão magnificamente foram descritas pelos médicos árabes, assim como a preparação de xaropes, álcoois, pomadas e unguentos dos quais havíamos tido alguma notícia durante os anos que durou nossa presença no reino de Jerusalém.

Especificamente, eu sentia um particularíssimo afã de estudar o Atarrif, de Albucasis o Cordobês, obra conhecida também como Metodus medendi depois de sua tradução ao latim por Gerardo de Cremona. Na realidade, para mim, tanto fazia a língua em que estivesse escrita a cópia do mosteiro, pois domino várias delas com desenvoltura, assim como todos os cavaleiros que tiveram de lutar na Síria ou na Palestina. Esperava encontrar nesse livro os segredos das incisões sem dor em corpos vivos e dos cautérios, tão necessários em tempos de guerra, e aprender tudo acerca do maravilhoso instrumental médico dos persas, minuciosamente descrito pelo grande Albucasis, para poder mandar fabricá-lo com precisão assim que voltasse a Rodas.

Desse modo, nesse mesmo dia abandonaria o gibão, a cota e o manto negro com a cruz alta branca, e substituiria o elmo, a espada e o escudo pelo cálamo, a tinta e o scrinium. Não deixava de ser um projecto apaixonante, é evidente, mas, como disse, não era o verdadeiro motivo pelo qual eu estava entrando nas terras do mosteiro; a verdadeira razão que havia me levado até ali, uma razão exclusivamente pessoal, amparada desde o primeiro momento pelo grande senescal de Rodas, era que, naquele lugar, devia encontrar alguém muito importante de quem não sabia absolutamente nada: nem qual era seu nome, nem quem era, nem como era… nem sequer se continuava ali naquele momento.

Contudo, confiava em mim mesmo e na Providência para obter o triunfo em tão árdua missão. Não era à toa que me chamam Perquisitore. Atravessei o portão da muralha e desmontei sossegadamente de meu cavalo para não dar impressão de violência em um recinto de paz. Fui recebido pelo irmão despenseiro, prevenido de minha chegada, mais tarde soube que um noviço vigia sempre as imediações na torre da igreja, costume que guardam dos tempos não tão distantes das aceifas mouras, e com meu cavalo seguro pelas rédeas, acompanhado pelo pequeno despenseiro, dirigi-me ao interior do recinto observando a perfeita distribuição do mosteiro, cujas dependências e edifícios estavam muito bem organizados ao redor do claustro maior. Havia outro claustro, o menor, mais antigo, situado à esquerda de uma pequena construção que me pareceu o hospital». In Matilde Asensi, Iacobus, Aventura dos Templários no Caminho de Santiago, 2000, Editorial Planeta, 2006, 2013, ISBN 978-854 220-274-8.

Cortesia de EditorialPlaneta/JDACT

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