quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A Rainha Adúltera. Joana de Portugal. O Enigma da Excelente Senhora. Marsilio Cassotti. «Enrique escolhera como procurador para realizar este trâmite Diego Saldaña, o antigo escrivão de ração da rainha Leonor de Portugal…»

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Lições de matrimónio imperial
«(…) Palencia menciona na sua crónica a intervenção desta personagem e estabelece uma relação directa entre o rabino e o contador-mor de Enrique, contando que vivia em Segóvia e tinha trabalhado diligentemente com Diego Arias na administração das rendas do então príncipe Enrique; e por estas artes pôde conseguir tanta confiança que se atreveu a repreender a temeridade do mestre de Calatrava [Pedro Girón] (...). Com estas denúncias conseguiu despertar a indignação de Enrique contra os dois irmãos (...). Desde aquela época, vivia desterrado o judeu e fugitivo em Portugal. A Crónica anónima de Enrique IV afirma, a respeito deste casamento, que o príncipe o tinha muito procurado mediante um judeu, físico seu, de quem muito se fiava, que era de seu conselho, homem muito agudo e astuto, o qual de algum modo sobre este caso tinha encontrado maneira de os reis de Castela e de Portugal se verem num lugar que se chama Monsaraz, dilatando o negócio bastante tempo, o que ele fazia pelo grande interesse que recebia de ambas as partes durante o tempo de negociar, e como algumas coisas tratasse além disto, que não apraziam ao mestre dom Pedro Girón, morreu a ferro, alguns dizem por seu mandato.
Enquanto ocorriam estes insólitos casos para dar curso ao matrimónio de Joana com o seu primo, a 4 de Abril de 1453, em Burgos, ocorreu a detenção de Álvaro Luna. Dias mais tarde deu-se início ao julgamento por usurpação do poder real. Enquanto a incipiente opinião pública de Castela estava ocupada em seguir o processo, os eficientes e discretos criados do príncipe levavam a cabo, paralelamente, outro julgamento muito menos público, para estabelecer um final canónico ao matrimónio do seu senhor com Blanca de Navarra. A 11 de Maio de 1453, em audiência pública mas dentro de uma pequena igreja de uma perdida aldeia segoviana, Luis Acuña, futuro bispo de Segóvia, ditava a sentença de divórcio de Enrique e Blanca, perante um notário que era escrivão do rei e na presença de diversas testemunhas, todos seguros partidários do príncipe.
Como em trâmites anteriores e posteriores relacionados com a sua boda com dona Joana, Enrique contaria nesta ocasião com a estreita colaboração de homens de origens portuguesas. O primeiro, o bispo encarregado de pronunciar a decisiva sentença de divórcio, era primo afastado da infanta, pois era neto de outro membro da linhagem dos Cunha, pertencente a um ramo aparentado com a casa real de Portugal, que em Castela originara os condes de Valencia de D. Juan. Apesar de todas aquelas argúcias, o documento final que os juízes eclesiásticos entregaram ao procurador de Blanca, para que o assinasse ou rejeitasse, estabelecia critérios então aceites pela Igreja Católica para sentenciar a nulidade e separação de um casal por causa da impotência do cônjuge masculino. A sentença explicava que essa impotência não tinha uma causa física mas que era produto de uma ligadura, ou seja, um malefício. Algo que, segundo os juízes, só tinha acontecido com Blanca, uma vez que na sentença se afirmava que Enrique pudera ter relações com outras mulheres. Por estranho que possa parecer hoje, naquela altura a Igreja Católica não só acreditava nesse tipo de influências, como os canonistas consideravam a impotência por malefício, uma das causas mais claras para anular um matrimónio. Como estabeleceria o Malleus maleficarum, uma obra escrita por dois dominicanos e publicada trinta anos depois do divórcio de Enrique, a possibilidade da intervenção do demónio estabelecia-se como causa indiscutível de impotência. Um ponto sobre o qual também estavam de acordo tanto a Lei de Partidas como a ciência médica da época.
Onze dias depois de proferida a sentença de divórcio, o condestável Álvaro Luna tomava conhecimento da sua condenação à morte, pronunciada por uma junta de dez doutores convocada pelo rei, e que devia ser aplicada por mandato e não por sentença. Isto é, por vontade real e não por decisão judicial. Três dias mais tarde, a princesa Blanca aceitava a sentença de divórcio, emitida por Luis Acuña. Fá-lo-ia na cidade de Olmedo, onde residia, a 25 de Maio de 1453. Enrique escolhera como procurador para realizar este trâmite Diego Saldaña, o antigo escrivão de ração da rainha Leonor de Portugal e futuro secretário e conselheiro de Joana em Castela. A notícia da condenação à morte do valido concentrou tanta atenção que, inicialmente, o divórcio de Enrique, ainda que transcendental para o futuro do reino, passou quase despercebido. Parece não ter acontecido o mesmo com o estado de saúde mental da rainha consorte castelhana.
Terá sido por essa mesma altura que a mãe da rainha Isabel, Isabel de Barcelos, se estabeleceu definitivamente em Castela. É significativo que, na primeira vez que é mencionada nas crónicas, ocupe, a pedido do rei Juan II, um posto no seu conselho privado. Os cronistas contemporâneos, entre eles Diego Valera, reconhecem nela uma muito notável mulher e de grande conselho. O seu estabelecimento definitivo em Castela esteve possivelmente relacionado com a necessidade de ajudar a filha durante a sua segunda gravidez, depois de esta ter dado a primeira mostra de loucura, ao que se conta, encerrando num baú durante três dias a sua donzela Beatriz Silva, irmã do futuro frei Amadeu. Algo que, ao que parece, teria ocorrido depois de a rainha ter ouvido dizer que o rei exprimira admiração pela beleza dessa jovem. Só falta que lhe deem o meu ceptro, diz-se que comentou então Isabel». In Marsilio Cassotti, A Rainha Adúltera, Joana de Portugal e o Enigma da Excelente Senhora, Crónica de uma difamação anunciada, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-405-5.

Cortesia da EdosLivros/JDACT

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «A última importante colonização eslavónica foi a dos Sérvios e dos Croatas, que no reino de Heraclio ocuparam as terras, onde ainda chegaram a habitar. Depois, em 680. vieram os Búlgaros turcos…»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas
«(…) Outra observação poderá ser feita com base no nosso levantamento, nomeadamente, o facto de apesar da crescente insegurança em quase todas as partes do Império, muitos dos súbditos de Justiniano viviam ainda nas suas terras de origem tradicionais. A diáspora dos Gregos, dos Judeus e, a um menor grau, dos Sírios, acontecera alguns séculos antes. Do ponto de vista etnográfico, assim como em muitos outros aspectos, a era justiniana representa, portanto, o final da Antiguidade. Seria maçador descrever todas as mudanças etnográficas que o Império testemunhou depois do século VI, mas devemos mencionar e comentar aquela que representou a maior mutação de todas, que teve início algumas décadas depois da morte de Justiniano. O primeiro sinal fez-se sentir com a instalação em massa de Eslavos na península Balcânica. Com efeito, vieram várias vagas de Eslavos e, ao contrário de invasores anteriores, estes vieram para ficar. Num passo muito citado de João de Amida (também conhecido por João de Éfeso). regista-se que em 581:

um povo execrável, os chamados Eslavónios, invadiu toda a Grécia e o país dos Tessalonicenses, bem como toda a Trácia, tomando cidades e vários fortes, devastando e queimando o que lhes surgia pela frente, e escravizando as populações. Fizeram-se senhores do país inteiro que colonizaram à força, e ali passaram a habitar, vivendo em paz em territórios romanos, sem ansiedades ou receios, capturando prisioneiros, chacinando e destruindo tudo.

Outra fonte, a chamada Crónica de Monemvasia, refere que no ano de 587-588 os Turcos Ávaros (com os quais os Eslavos eram normalmente aliados):

capturaram toda a Tessália e toda a Grécia, o antigo Epiro, Árica e Eubeia. De facto, atacaram os Peloponenses e tomaram as suas terras pela força das armas. Depois de expulsarem e destruírem os povos helénicos autóctones, estabeleceram-se no 1ocal. Aqueles que conseguiram escapar às suas mãos assassinas dispersaram-se por várias zonas. Assim, os cidadãos de Patras mudaram-se para a região de Reggio, na Calábria, os Argivos para a ilha de Orobe, os Coríntios para a ilha de Egina [...] Apenas a parte oriental do Peloponeso, de Corinto ao cabo Maleas, não fora invadida pelos Eslavónios, devido à natureza inacessível e inóspita da região.

Existem algumas dúvidas em relação à data exacta destes acontecimentos, mas é inegável que no final do século VI e início do século VII, quando a fronteira danubiana entrou em completo colapso, praticamente toda a península Balcânica escapou ao controlo imperial. Apenas alguns postos avançados costeiros, tais como Mesêmbria no mar Negro, Tessalonica, Atenas e Corinto, se mantiveram. Em todos os outros locais, a população antiga procurou refúgio nas ilhas perto da costa, assim como em Monemvasia, ou emigrou para Itália. O domínio dos bárbaros estendia-se até às defesas exteriores de Constantinopla, as chamadas Longas Muralhas Anastasianas, que descreviam um largo arco desde o mar Negro a Selímbria (Silivri) no mar de Mármara, mas até estas iriam em breve ser abandonadas.
A última importante colonização eslavónica foi a dos Sérvios e dos Croatas, que no reino de Heraclio ocuparam as terras, onde ainda chegaram a habitar. Depois, em 680. vieram os Búlgaros turcos e conquistaram o país ao qual deram o seu nome, e onde viriam a ser assimilados pela população eslavónica. A barbarização dos Balcãs começou a inverter-se apenas no final do século VIII, mas por essa altura os efeitos já se haviam tornado irreversíveis». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «Comparada com o crescimento do latim na Gália e em Espanha, dever-se-á presumir que a língua grega terá tido uma evolução limitada entre o século III a.C. e o século VI d.C..»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas
«(…) Procópio não menciona aqui que algumas das invasões da península Balcânica ocorreram antes da época de Justiniano, nomeadamente, aquelas levadas a cabo pelos Godos em 378, pelos Hunos em 441-447, pelos Ostrogodos em 479-482 e pelos Búlgaros a partir de 493. Não existe grande dúvida no que diz respeito à imensa devastação causada por estas e outras incursões mais tarde, mas é difícil avaliar o efeito na etnografia das regiões em questão. As populações nativas eram os Ilírios a oeste, os Trácios e os Daco-Misianos a leste e, claro, os Gregos a sul, mas seria preciso um grande historiador para determinar, em meados do século VI, quem vivia onde e em que número. Os Eslavos já haviam começado a colonizar, especialmente na área entre Nis e Sófia, como se comprova pelos nomes dos locais listados por Procópio, e podemos imaginar que a presença prolongada das tropas góticas e outras tropas bárbaras terá deixado alguns rastos. Quanto às línguas, já comentámos a fronteira entre latim e grego. Do ilírio (cuja relação com o albanês moderno é contestada) pouco se sabe, mas o trácio, em particular o béssico, estava ainda muito vivo no século VI.
Em síntese, eram estes os povos e as línguas do Império de Justiniano; e se se deu mais ênfase aos elementos autóctones foi para poder corrigir a parcialidade das nossas fontes literárias e narrativas. Por exemplo, Libânio, o retórico do século IV, que nasceu em Antioquia e viveu a maior parte da sua vida nessa cidade, cujos escritos enchem onze volumes impressos e são uma mina de informação útil, menciona apenas uma vez a existência da língua siríaca. No entanto, é um facto incontestável que a Antioquia, onde se falava grego, era uma ilha num mar de siríaco. Autores eruditos simplesmente não repararam em tal fenómeno desconcertante. Nem as inscrições são muito mais elucidativas. Quem quer que tenha feito uma inscrição, mesmo numa lápide, usou naturalmente a língua de prestígio da zona. Além disso, muitos dialectos vernáculos não eram escritos. É em grande parte entre os monges que somos confrontados, ocasionalmente, com o povo iletrado, permitindo-nos ter uma vaga ideia de como falavam. Como seria de esperar, tinham a sua língua autóctone, o patois. Daí o hábito de implantar os mosteiros nacionais. No entanto, outros eram multilingues: aqueles Que não Dormem (Akoimetoi) estava dividido em quatro grupos por língua, latim, grego. siríaco e copta. No mosteiro fundado por São Teodósio, o Cenobiarca, na Palestina, reinava o grego, o béssico e o arménio. No monte Sinai, no século VI, ouvia-se falar latim, grego, siríaco, copta e béssico. Em 518 o abade de um mosteiro em Constantinopla não pôde assinar o seu nome numa petição porque não sabia grego. Exemplos semelhantes facilmente se multiplicaram.
O nosso levantamento teria sido muito mais informativo se tivéssemos sido capazes de exprimir em números a importância relativa dos vários povos. Infelizmente, não temos números certos à nossa disposição. Um escolástico de relevo aventurou-se, no entanto, a contrariar a ideia de que o Império de Justiniano, incluindo as províncias ocidentais reconquistadas, não teria mais de trinta milhões de habitantes. Não levando em conta as perdas causadas pela grande peste de 542, esta estimativa parece-nos demasiado baixa: podemos estar mais perto da verdade postulando trinta milhões na metade oriental do Império. Aproximadamente, a distribuição teria sido a seguinte: oito milhões no Egipto. nove milhões na Síria, Palestina e Mesopotâmia, conjuntamente, dez milhões na Ásia Menor, e três a quatro milhões nos Balcãs. Se estes números estiverem perto da realidade, os falantes autóctones do grego representariam menos de um terço da população total, digamos oito milhões, abrindo-se concessões para os povos não assimilados da Ásia Menor e para os falantes do latim e do trácio dos Balcãs. O grego, o copta e o aramaico teriam estado, assim, em pé de igualdade. Comparada com o crescimento do latim na Gália e em Espanha, dever-se-á presumir que a língua grega terá tido uma evolução limitada entre o século III a.C. e o século VI d.C.. Esta situação deveu-se, sem dúvida, ao facto de a helenização se ter centrado, em grande medida, nas cidades. Cerca de um século depois da conquista árabe, o grego foi praticamente extinto, tanto na Síria como no Egipto, o que só pode querer dizer que não teria criado fortes raízes». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «Quanto à composição da população, não pode haver grande dúvida de que os Italiôtai, como Procópio lhes chamava, eram basicamente latinos»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas
«(…) Com a Líbia chegamos ao limite das províncias de língua grega. Mais a oeste fica a Tripolitânia, urna faixa costeira estreita, e depois as regiões de Bizacena, Proconsularis e Numídia, e, finalmente, as duas Mauritânias, que se estendem até ao estreito de Gibraltar. Estas haviam sido todas extensivamente romanizadas e as terras mais ricas, correspondentes à actual Tunísia, terão feito parte das zonas mais prósperas e desenvolvidas do Império em melhores dias. Até que ponto a população autóctone foi assimilada permanecerá como algo incerto. Do mesmo modo, também não se sabe ao certo se a língua vernácula das cidades, à qual Santo Agostinho chama púnico, constituía um legado do antigo fenício (como nos parece ser mais provável), ou se era berbere. Em todo o caso, em 560, o nosso viajante teria encontrado uma situação algo diferente daquela que o bispo de Hipona terá conhecido, um século e meio antes, pois a África acabara de ser recuperada pelos Vândalos (em 533), os quais a haviam dominado durante um século como uma potência independente. Os Vândalos eram suficientemente numerosos a ponto de poderem causar um impacto significativo na etnografia da população, mas a sua intrusão levou à irrupção das várias tribos berberes, que agora ameaçavam seriamente as áreas colonizadas.
Não necessitamos de nos preocupar com Espanha, embora parte da sua costa a sul tenha sido recuperada por Justiniano aos Visigodos e permanecido nas mãos bizantinas durante cerca de setenta anos. E assim podemos levar o nosso viajante até Itália, onde o domínio de Justiniano fora estabelecido, assente numa base um pouco duvidosa, depois de um período sangrento. O país inteiro estava, então, numa situação terrível. O estado de guerra contínuo entre Bizâncio e os Ostrogodos, que durou de 535 até 562, resultou na destruição de Milão, com uma perda reputada em trezentos mil homens, o efectivo despovoamento de Roma, a qual sofrera três cercos, e a fome generalizada no campo. A Itália tornou-se, em toda a parte, ainda mais desprovida de homens do que a Líbia, escreveu Procópio, talvez sem estar a cometer um grande exagero.
Quanto à composição da população, não pode haver grande dúvida de que os Italiôtai, como Procópio lhes chamava, eram basicamente latinos. Até na capital imperial de Ravena, que mantinha relações próximas com o Oriente e numerosos colonos orientais, o latim era o meio de comunicação normal. Alguns pequenos focos de grego poderão ter sobrevivido na parte mais a sul da península, tendo certamente continuado a ser falado na costa leste da Sicília. Existiam outros grupos minoritários, tais como os Judeus e os recém-chegados Ostrogodos, mas os segundos dificilmente poderão ter ultrapassado os cem mil. Muitas mais vagas de invasores e colonos haviam de vir sem, contudo, alterar o carácter da população fundamentalmente latina.
Ao cruzar o Adriático, o nosso viajante poderá ter desembarcado em Dirráquio e percorrido toda a Via Egnatia até Constantinopla. As regiões que teria de atravessar eram, então, tão despovoadas como a Itália. Para citar Procópio novamente:

A Ilíria e toda a Trácia, isto é, toda a região desde o mar Jónio [o Adriático] até aos arredores de Bizâncio, incluindo a Grécia e Quersoneso, foi invadida quase todos os anos pelos Hunos, os Eslavos e os Anteus, desde que Justiniano se tornou imperador de Roma, causando imensos estragos entre os habitantes dessas zonas. Com efeito, acredito que em cada invasão mais de duzentos mil romanos terão sido mortos e capturados, para que um verdadeiro deserto cítico, pudesse existir em toda esta terra».

In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

História dos Judeus Portugueses. Carsten L. Wilke. «Os historiadores têm discutido se o renascimento do judaísmo português entre os cristãos-novos portugueses no exílio foi fruto de uma continuidade clandestina da tradição medieval»

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«(…)
Minha ajuda de com Adonay
Quem fez o céu e a terra.
Livra-nos de tanta guerra,
pois que somos a tua grei,
de adorar deuses alheios,
coisa em que tanto o homem erra,
confesso que em mim se encerra,
grão pecado que em mim hei».

A oração está no mais puro estilo da trova portuguesa, mas acumula as palavras fortes Israel e Adonay, marcadores da identidade judaica, como no credo judaico do Ouve Israel. Há referências a duas pessoas da história bíblica, Abraão e Daniel, enquanto as reminiscências da liturgia judaica tradicional se reduzem ao miúdo fragmento de um salmo muito popular, o salmo 121: elevo os meus olhos para os montes; de onde me vem o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra.
Não penso que os cristãos-novos tivessem uma ideia clara quanto à explicação desses montes. A erudição bíblica, tentando decifrar a referência, diz que o salmo foi escrito pelo rei Ezequias (ou por um poeta judeu em sua memória), no momento do cerco de Jerusalém pelos Assírios, no ano de 701 AC. O rei assírio Senaqueribe estava então a terminar a sua campanha de conquista; já havia tomado e saqueado ou destruído todas as cidades da região: Damasco, Samaria, Hebron, Gaza, todo o Médio Oriente. Só a pequena Jerusalém, que era uma colina correspondente ao actual bairro árabe de Silwán, ficou no território conquistado, como a famosa pequena aldeia de irredutíveis gauleses, com a diferença de que os cercados não sabiam produzir poções mágicas. Debalde olhavam para os cumes dos montes no horizonte, na esperança de um socorro: simplesmente, não havia quem os socorresse. E, contudo, no momento de os assírios se lançarem ao assalto, houve no exército um surto de epidemia, que os forçou a abandonar a cidade, sem a destruir, com o rei Ezequias, o seu profeta Isaías e todo o futuro de Israel lá dentro.
Não fica claro se de onde me vem o socorro é uma afirmação, e se dos montes, de algum modo, vem um socorro divino; ou se é uma pergunta retórica, carregando esse desencanto do mundo que Max Weber atribuiu à religião judaica. Um monte é só um monte e não pode dar socorro nas guerras; o socorro está só em poder de Deus. O anónimo poeta da Torre de Moncorvo não sabia a que faziam alusão estes misteriosos montes. Mas ele e quem recitava os seus versos vagamente o adivinhavam. Fica do mundo bíblico a mirada angustiada, o sentimento de desamparo, o desencanto do mundo e, finalmente, a consolação. Assim, a diáspora judaica trocou as colinas da Judeia pela Serra do Reboredo, no alto de Torre de Moncorvo; e levou os montes do silencioso diálogo adiante, lá pela serrania de Espanha e para os vulcões de México.
A guerra de Senaqueribe transfornou-se em guerra feita pela Inquisição (maldita). Os deuses alheios do Antigo Oriente transformaram-se nos santos cristãos; o invisível Senaqueribe da oração fez-se o cardeal-Infante, Inquisidor Geral do Reino de Portugal, ou outros colegas seus no mundo ibérico. Em Trancoso, houve uma Lucrécia Nunes, mulher do chefe espiritual da sinagoga clandestina deste lugar, que, ao chegar a Inquisição (maldita), teve imaginação para conceber a ideia fantasiosa de pedir uma entrevista com o nefasto cardeal, para em seguida se deitar com ele e, depois, lhe cortar a cabeça, imitando a façanha da heroína bíblica com o general babilónio. E uma vez cumprida esta missão, esperava que a Cristandade levantasse o seu cerco ao povo de Israel.
Os historiadores têm discutido se o renascimento do judaísmo português entre os cristãos-novos portugueses no exílio foi fruto de uma continuidade clandestina da tradição medieval, ou antes uma relativa novidade, em reacção à exclusão e à perseguição. É, uma alternativa falsa: não devemos imaginar a tradição como sendo um capital cultural de símbolos, ideias e práticas herdadas e repetidas em combate contra a mudança. A tradição nem é puramente conservadora, nem puramente reactiva: é um processo activo, um labor contínuo de apropriação e de adaptação.
Este trabalho pertence, mutatis mutandis, a todas as comunidades judaicas e, talvez, a todas as religiões. Mas a história dos judeus portugueses, judeus, depois cristãos-novos, depois outra vez judeus, dá uma expressão extrema a esse perpétuo esforço de adaptação que constitui a história judaica». In Carsten L. Wilke, História dos Judeus Portugueses, 2007, Edições 70, 2009, ISBN 978-972-441-578-9.

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História dos Judeus Portugueses. Carsten L. Wilke. «Tu, que nas grandes alturas te aposentas, Senhor, ouve a este pecador que te chama das baixuras…»

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«(…) E, agora, vejamos outra vez a bela tradução do Jorge Campos Costa. É por sugestão sua que o editor escolheu a portada do livro, um quadro, hoje em Nova Iorque, e que devemos a um pintor romântico, o judeu inglês Solomon Alexander Hart. Mostra uma festa religiosa na sinagoga (esnoga) portuguesa de Liorna (Livorno), em 1850. Alguns fragmentos arquitectónicos permitem reconhecer com exactidão o célebre monumento, que foi destruído por aviões ingleses num bombardeamento da Segunda Guerra Mundial. Em contrapartida, é muito manifesta a falta de fidelidade histórica no vestuário dos assistentes. Naturalmente, não oravam assim, os judeus aburguesados após a emancipação de 48. Hart tirou-lhes os seus chapéus e gravatas e vestiu-os com um estranho disfarce de roupa oriental, como sacerdotes da época bíblica. Hart pinta judeus ideais, imaginários, judeus potenciais, como o descreveu com a sua admirável fórmula o saudoso professor Révah. Um judeu que já não existe, ou que ainda não nasceu. Hart apresenta o judaísmo com disfarce, e o próprio judaísmo como um disfarce. Hart pinta a duplicidade religiosa que antecipa, na história dos judeus e cristãos-novos portugueses, o judaísmo moderno.
A duplicidade não significa que haja uma touca bíblica debaixo do chapéu. A tradição não é um último estrato arqueológico por debaixo da modernidade. Como um contacto imaginário com um fio de tradição perdido, criou uma nova tradição e uma nova fidelidade. Isso, precisamente, é o que ensina a história judaica portuguesa. É este trabalho da memória, que existe também nos que traziam a gravata no peito, ou a cruz. Para os cristãos-novos portugueses, que foram, depois da conversão de 1497, os últimos sobreviventes do judaísmo na Europa Atlântica, a tarefa não foi a de conservar tradições ancestrais, mas a de inventar, criar um judaísmo inspirado em outras fontes do saber e sentir: rumores do estrangeiro, leituras bíblicas, modelos cristãos ou profanos, e a própria criatividade poética.
Citarei um exemplo só: de uma oração clandestina, a mais popular dos criptojudeus portugueses, uma trova em vinte versos que chegava a ser uma espécie de hino do criptojudaísmo português. Foi dita já no século XVI e ainda no século XX, foi dita por almocreves com tricórnios, ou por automobilistas com casquetes, foi dita em Trás-os-Montes ou nas Colónias. Os primeiros exemplos surgem nos anos 1580, segundo os estudos eruditos da professora Elvira Azevedo Mea: são de confissões de nove prisioneiras da Inquisição (maldita), todas mulheres de Trás-os-Montes ou, mais precisamente, originárias do concelho de Torre de Moncorvo. Do século XVII, há testemunhos de prisioneiras originárias da vila de Carção, em Trás-os-Montes, de Lisboa, de Cuenca, em Espanha, de Sevilha e até da Cidade de México. No século XVIII, confessa-a um homem, até que enfim, um homem!, em Bragança. Ainda no século XX, recitam-na de memória testemunhas de Bragança, de Felgueiras e de Belmonte.
Leio-vos aqui as duas famosas oitavas:

«Alto Dio de Abraão,
Rei forte de Israel!
Tu, que ouviste a Daniel,
Ouve minha oração!

Tu, que nas grandes alturas
Te aposentas, Senhor,
Ouve a este pecador
Que te chama das baixuras,
Pois, Tu, a todas criaturas
Abres caminhos e fontes.
Alço meus olhos aos montes,
de onde virá minha ajuda?
(…)
In Carsten L. Wilke, História dos Judeus Portugueses, 2007, Edições 70, 2009, ISBN 978-972-441-578-9.

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História dos Judeus Portugueses. Carsten L. Wilke. «A economia dos judeus portugueses procurou uma colaboração e um equilíbrio: entre a empresa livre e as finanças públicas, eles foram os instrumentos da política fiscal…»

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«(…) A segunda ruptura foi o Massacre de Lisboa em 1506 e a fundação da Inquisição (maldita) em 1536, duplo início de um movimento de três séculos de emigração paulatina, que transformou os cristãos-novos portugueses em judeus, judeus-novos no exílio. Tentei seguir os tempos, e não tanto os lugares da emigração: ela foi uma coisa no século XVI, no mundo muçulmano e na Índia; outra, no século XVII, com a fundação de comunidades judaicas nos portos do Atlântico; outra ainda no século XVIII, com o estabelecimento e adaptação dos últimos emigrantes nos impérios inglês e francês, mantendo-se o criptojudaísmo no país em constante intercâmbio com a diáspora. Decidi-me a descrever essa diáspora na sua evolução no tempo, em vez de dar um quadro estático no espaço.
Quanto à terceira ruptura, o liberalismo do século XIX, sim, revolucionou, já antes da fim da monarquia e com estranha força, a mentalidade portuguesa face aos judeus. Intelectuais portugueses, como Eça de Queirós, foram muito mais críticos do antissemitismo do que os seus colegas alemães e franceses. Essas rupturas, essas révolutions du Portugal, escondem linhas de continuidade. A integração dos judeus na sociedade portuguesa medieval é, no fundo, o que explica a tentação de perfazer a integração pela cristianização forçada. A Inquisição (maldita) é a versão canalizada e institucionalizada do massacre popular: o reino reserva-se o monopólio da violência antijudaica. E, do mesmo modo, a revolução liberal não foi ruptura, mas lógica consequência, num país que viveu profundamente o traumatismo da tirania. Finalmente, os que se viriam a apelidar de judeus portugueses no exílio foram marcados por duas rupturas sucessivas. A história judaica portuguesa não corresponde à fórmula de baptismo ou emigração; a fórmula é antes: baptismo e emigração.
A um nível mais profundo, há linhas de continuidade na história dos judeus portugueses. A alienação das tradições religiosas não foi a única razão de ser do carácter inovador dos judeus portugueses. Já antes da crise de Manuel I traziam à vida económica a inovação industrial, comercial e financeira, com destaque para a civilização do consumo. Já na Idade Média, compravam os cristãos, nos seus rústicos castelos, aos judeus, os produtos de luxo fabricados pelos mouros. E na idade pré-moderna, os judeus e, mais tarde, os cristãos-novos participaram na invenção do consumismo cosmopolita, fazendo o comércio da pimenta e do açúcar, do chocolate e do tabaco, dos diamantes e do índigo e do pau-brasil, do almíscar, dos papagaios, dos canários. Encheram o Sul da Europa com panos, telas e sedas, e, o Norte, com vinhos, amêndoas e compotas. Ainda no século XX, desenvolveram as suas actividades nos intercâmbios internacionais, fazendo a técnica fotográfica ou calças jeans para o Continente, os Açores e a Madeira.
Na economia política, os conselheiros judaicos dos poderosos constituíram uma verdadeira tradição. Os reis do Portugal medieval tinham os seus almoxarifes judeus; os do Renascimento tinham ao seu serviço os cristãos-novos monopolistas das especiarias. Outros monarcas europeus tinham seus banqueiros portugueses. Joseph Nasci governou o império Otomano para o sultão Selim. Filipe de Castela tinha os seus Portugueses, que vendiam as lãs de Espanha e lhe compravam as suas armas. O rei britânico Guilherme III dispunha do jovem Francisco Lopes Suasso; a imperatriz austríaca Maria Teresa tinha o seu Diogo Aguilar. Napoleão III tinha os irmãos Péreire, e por último, Salazar, o seu Moses Bensabat Amzalak. A economia dos judeus portugueses procurou uma colaboração e um equilíbrio: entre a empresa livre e as finanças públicas, eles foram os instrumentos da política fiscal dos monarcas, das companhias coloniais e dos bancos do crédito popular.
Finalmente, a adaptação da existência e da religião judaicas à estética das elites parece continuar na história. Os judeus portugueses foram os inventores da tradução da cultura judaica para as literaturas europeias. Na Lisboa medieval, os judeus adoptaram a moda do gótico com lobas, capuzes finos e gibões de seda, espadas douradas, toucas em rebuço, jaezes e guarnimentos. Vemos os varões judeus do barroco com lobas negras e gargantilhas; os das Luzes com perucas, calções, meias de seda; e os do século burguês com chapéu alto, casaca, gravata e luvas. E das damas nem falarei... O judaísmo português pretendeu ser um judaísmo aristocrático, elegante, perfumado, e esta imagem tem o seu quê de realidade. Ser judeu português é não deixar-se prender pela religião no sentido institucional, nem pela nacionalidade, no sentido territorial. Ser judeu português é ser moderno, burguês, ocidental, elegante, cosmopolita, poderoso, político». In Carsten L. Wilke, História dos Judeus Portugueses, 2007, Edições 70, 2009, ISBN 978-972-441-578-9.

Cortesia de E70/JDACT

História dos Judeus Portugueses. Carsten L. Wilke. «A primeira ruptura foi o decreto de expulsão de 1496, transformada, pela força, em conversão geral no ano seguinte. Fez com que Portugal se transformasse…»

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«(…) Os livros históricos sobre judeus portugueses, na maior parte, não foram obra dos judeus portugueses, mas de historiadores de outras origens, juntando as suas problemáticas próprias a essa história fascinante. Em Portugal, invoca-se a presença judaica para se redescobrir a complexidade pluralista das comunidades em solo nacional. E no mundo clerical, feudal e colonial, que foi o da história portuguesa, os historiadores esquerdistas valorizaram o drama duma minoria, que foi o adversário e a vítima. Houve, com ela, um núcleo do mundo moderno numa sociedade cristã, que o ignorava, tolerava e, por fim, o perseguia e suprimia. Ainda assim, foi difícil aceitar o facto de que esses espíritos críticos pertenciam a uma religião, que o preconceito esquerdista tinha por pouco moderna.
Na historiografia judaica, os judeus portugueses constituem o vínculo que unifica duas narrativas: o século do ouro do judaísmo hispânico e a emancipação na modernidade. Um livro colectivo, editado por Richard Barnett há vinte/trinta anos, popularizou a noção dos sefarditas ocidentais. O Ocidente, neste contexto, não é realidade geográfica, mais simbólica: os sefarditas de Marraquexe são orientais, mas os de Veneza, ocidentais. Os judeus portugueses ou sefarditas ocidentais representam um aspecto da modernidade antes da época moderna, anunciadora da emancipação, com dois séculos de antecipação.
Esta noção não fala de judeus em Portugal, nem de sefarditas ocidentais; fala, sim, de judeus portugueses, e trata de conhecer a sua visão sobre a sua própria identidade histórica, que teceu, numa parte da diáspora judaica, a identificação com Portugal, no uso da língua, na memória das origens, no mito da expansão. O ser judeu português recebeu ainda outras propriedades: a mudança de religião, a mobilidade identitária. Na Espanha do século XVII, ser português é ser cristão-novo; na diáspora judaica, ser português significa ser judeu-novo, apóstata voltado à lei de Israel. Ser judeu português foi ser participante duma experiência cultural dolorosa e libertadora. Há que escrever a história dos judeus portugueses através dessas rupturas. O abade Vertot chamou, em 1758, ao seu livro de história portuguesa Histoire des révolutions du Portugal, História das revoluções de Portugal,: e, do mesmo modo, também a história judaica portuguesa só se entende como uma história de mudanças e de revoluções. Não nos servem muito os juízos gerais sobre a identidade judaica, nem portuguesa. O que faz falta é conhecer que revoluções foram essas, quando se fizeram, como, por quem, porquê, com que efeitos, a curto e a longo prazo, e como condicionaram a revolução seguinte.
A primeira ruptura foi o decreto de expulsão de 1496, transformada, pela força, em conversão geral no ano seguinte. Fez com que Portugal se transformasse, de um pais excepcionalmente tolerante, no contexto da Idade Média europeia, num país de uma única religião, exclusiva e repressiva, e, portanto, num país que, com poucas excepções, não aceitava judeus declarados no seu solo. A supressão brutal da presença judaica, até então reconhecida no país, foi, na verdade, o resultado dessa marcada presença. Sendo os judeus indispensáveis na administração e na economia portuguesa, teria sido economicamente desastroso expulsá-los; porém, exigindo a Espanha a sua expulsão, não expulsá-los teria causado uma crise diplomática. O monarca Manuel I, obrigando os judeus a baptizarem-se, conseguiu as duas condições para a expansão: um século de paz com Espanha, e uma classe financeira doméstica. Conseguiu a quadratura do círculo». In Carsten L. Wilke, História dos Judeus Portugueses, 2007, Edições 70, 2009, ISBN 978-972-441-578-9.

Cortesia de E70/JDACT

As Grandes Sociedades Secretas. David V. Barrett. «Tal como Pitágoras viajou pelo Médio Oriente, e possivelmente pelo Extremo Oriente, na sua busca pelo conhecimento, acabando por instalar a sua escola numa comunidade grega em Itália»

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Entre o Tigre e o Eufrates.
Neoplatonismo
«(…) Ao tentarem abordar este ponto, os oponentes cristãos evangélicos da Maçonaria, bem como autores antimaçónicos como Stephen Knight e Martin Short, passam-lhe completamente ao lado. Ao contrário do que Knight e outros afirmam, o Deus da Maçonaria não é uma deidade composta por três personalidades separadas fundidas numa só, uma amálgama de Javé, Baal e Osíris no nome sagrado Jahbulon. Deus pode ser tratado por este nome composto, ou através de qualquer das suas partes (supondo que se trata da derivação correcta), ou através de qualquer dos muitos nomes de Deus ao longo dos milénios. Afinal de contas, o homem é apenas humano; é útil dispor de um nome, de um rótulo, de um conjunto de atributos que nos ajude a nomear o inefável. Mas Deus não se limita a estes rótulos humanos. Esta crença num Deus Único Supremo também explica como os judeus, os cristãos e os muçulmanos místicos conseguiram partilhar os seus conhecimentos ao longo dos séculos.
A igreja Ortodoxa sempre teve mais capacidade para lidar com os aspectos místicos do Cristianismo, mesmo antes da separação formal de Roma. Bizâncio, ou Constantinopla, era um cadinho mais flexível de culturas e ideias do que Roma alguma vez seria. São Máximo de Bizâncio (580-662), por exemplo, ensinou algo que no Ocidente poderia ser visto como uma heresia profunda: que o objectivo último do crente é ser Deus. Esta posição une o desejo neoplatónico de comunhão extática com o ser puro e a crença cristã inicial de que a iniciação completa fez do crente um Cristo. Essas crenças estão no cerne do Cristianismo esotérico; não surpreende, assim, que a Igreja, detentora do monopólio da salvação, tenha sempre tentado eliminar tal afronta à sua autoridade.

Egipto
É relevante notar que a palavra alquimia, recorrente ao longo deste livro, deriva do árabe al kimiya, que vem, quase de certeza, do grego chemeia, do antigo nome do delta do Nilo no Egipto, khem, que significa terra negra: o solo profundamente fértil de onde vem a vida, o silte escuro do Nilo, no meio do deserto árido. As conotações alegóricas não serão, de todo, acidentais. Embora a verdadeira alquimia seja a transformação da alma, não esqueçamos que os primeiros (e os posteriores) alquimistas também eram químicos. (De igual forma, a distinção entre astrólogos e astrónomos é relativamente recente). Quem conhecia os efeitos, regra geral espectaculares, da mistura de quantidades diferentes de vários pós, aquecendo-os a temperaturas específicas, podia associar os misteres de cientista e de artista; para quem vê de fora, para as pessoas comuns, ambas são formas de magia.
Já em 2900 a. C., os egípcios haviam descoberto como refinar ouro, reservado à realeza, pois tratava-se de um metal precioso difícil de obter. Os sacerdotes que guardavam esse segredo não eram meros metalúrgicos, sendo, isso sim, para todos os efeitos, os primeiros químicos. Assim, religião, magia, secretismo, conhecimento científico e a produção física de ouro estão ligados desde há milénios. A mitologia egípcia é complexa. Tal como se passa com todas as mitologias, ela evoluiu ao longo dos séculos. No entanto, e ao contrário do Judaísmo, que se desenvolveu e tornou um monoteísmo universal, parece que o panteão familiar de Osíris, Ísis, Anúbis, etc., foi um desenvolvimento posterior, sendo a crença egípcia inicial num único Deus, o Deus Sol Ré ou Rá.
Numa das primeiras versões do mito da criação egípcio, o Deus Criador Aton-Ré, que se ergue sozinho do caos primevo, masturba-se para criar vida. Na religião antiga, o sexo era encarado como sendo uma força poderosa. Entre os humanos, tal como entre os animais, o sexo dá origem a vida nova; com os Deuses deveria ser o mesmo. A energia sexual, e os fluidos sexuais, dão vida, são poderosos, sagrados.
Tal como Pitágoras viajou pelo Médio Oriente, e possivelmente pelo Extremo Oriente, na sua busca pelo conhecimento, acabando por instalar a sua escola numa comunidade grega em Itália, outros filósofos passaram anos em países que não os seus, a aprender e a estudar, a comparar e a assimilar conhecimentos». In David V. Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.
                                          
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As Grandes Sociedades Secretas. David V. Barrett. «A distinção entre demónios e demons é importante. Alguns neoplatónicos ensinavam a teurgia, que pode ser chamada de convocação de espíritos, mas é, mais corretamente…»

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Entre o Tigre e o Eufrates.
Neoplatonismo
«(…) Todavia, mais importante para as nossas necessidades é a influência que o neoplatonismo teve sobre o lado esotérico do Cristianismo e de outras religiões maiores e, logo, sobre as sociedades secretas. As ideias neoplatónicas alteraram-se e desenvolveram-se ao longo dos séculos, à medida que os diferentes líderes aprimoravam ou rejeitavam os ensinamentos dos antecessores. Tal como acontece com o Gnosticismo, não existe um conjunto fixo de crenças neoplatónicas. Assim, Plotino (204/5-270), que se opunha à magia, defendia a virtude, a castidade e a contemplação mística de Deus. O seu aluno e sucessor, Porfírio (c. 232/ 4-c.305), que organizou os trabalhos de Plotino, procurava modos éticos práticos (boas acções) para que a alma chegasse a níveis mais elevados. O seu aluno Jâmblico (c. 250-c. 330), que, à semelhança de Porfírio, escreveu uma Vida de Pitágoras, acentuou muito mais o lado experiencial da filosofia mística: usando o ritual religioso e ritos mágicos para a teurgia, invocar o poder de Deus ou dos seres espirituais. Esta ênfase levaria a um conflito entre o Neoplatonismo e o Cristianismo emergente, além de dar aos imperadores romanos motivo para impedir, de tempos a tempos, as práticas religiosas não cristãs.
Até agora, no que diz respeito a este livro, os dois mais importantes legados, a longo prazo, do Neoplatonismo para a religião esotérica e as sociedades secretas foram a ênfase do experiencial (ou seja, o real poder do ritual) e o ensinamento quanto às hierarquias dos seres espirituais que, resumidamente, trouxe uma solução para a dicotomia entre politeísmo e monoteísrno. Acima de tudo havia um Deus infinito, universal e incompreensível; a filosofia (do grego, amor pela sabedoria) era o grande meio de aproximação a esse Deus, sendo as religiões tentativas menores de abordar deuses menores, na prática servos, ou daemons, do Deus Único.
O termo demónio, é a forma incorreta de daemon, que incluía seres bons e maus, bem como Deuses menores e os espíritos dos mortos. O seu uso pejorativo para referir, especificamente, espíritos malignos é uma alteração cristã posterior do seu significado. Na teologia cristã, o termo poderia ser substituído por autoridades e poderes, criados pelo Deus Único e que podem ser bons ou maus. Os anjos enquadram-se nessa mesma categoria.
A distinção entre demónios e demons é importante. Alguns neoplatónicos ensinavam a teurgia, que pode ser chamada de convocação de espíritos, mas é, mais corretamente, a invocação de demons bons. Na magia ritual tardia dos filósofos herméticos e dos alquimistas, e na Ordem Hermética da Aurora Dourada de finais do século XIX e início do século XX (banalizada e erroneamente representada como magia negra nos romances de Dennis Wheatley, por exemplo), a ideia não era, habitualmente, invocar o diabo e a hoste infernal, algo muito raro e reconhecido como sendo extremamente perigoso, mas sim os deamons, os deuses menores, os anjos, as autoridades e poderes, e os espíritos poderosos de quem fora espiritualmente poderoso em vida.
O conceito do Deus Único, acima e além de todos os deuses, está no centro das crenças espirituais das sociedades secretas. Isto explica por que razão a Maçonaria e o Rosacrucianismo, embora sejam cristãos na sua origem e expressão, estão abertos às crenças de outras fés, sobretudo das outras Religiões do Livro. O Grande Arquitecto do Universo não se limita ao Cristianismo». In David V. Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.
                                          
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Grandes Sociedades Secretas. David V. Barrett. «As ideias de Pitágoras influenciaram profundamente Platão (429-347 a. C.), um dos mais influentes filósofos gregos. Pode dizer As -se que sem Pitágoras não haveria Platão»

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Entre o Tigre e o Eufrates.
Pitágoras
«(…) Embora, hoje em dia, Pitágoras (581-497 a. C.) seja conhecido, sobretudo, pelo seu trabalho matemático, ele foi um dos mais destacados filósofos religiosos dos séculos anteriores a Cristo, detendo a sua influência sobre a religião esotérica e as sociedades secretas uma importância de monta. A Encyclopaedia of Dates and Events diz sobre ele, de forma lapidar, que foi um grande filósofo e matemático, mas a abordagem científica foi prejudicada pelo misticismo. Isto é o mesmo que dizer que William Blake foi um grande poeta e artista, cujo trabalho foi estragado pelo seu misticismo. Diz-se que Pitágoras terá vagueado durante muitos anos pelo Egipto e pela Mesopotâmia, chegando talvez à Índia, e terá estudado religião, filosofia e ciência numa tentativa de encontrar uma teoria do campo unificado que abrangesse todo o conhecimento. (Vários fundadores de movimentos esotéricos recentes, entre eles H. Blavatsky e Georgei Gurdjieff, seguiram o seu exemplo, quer na realidade, quer com um mito da sua própria criação.) Por volta de 530 a. C., Pitágoras instalou-se na comunidade grega de Crotona, no Sul de Itália, e fundou uma academia com critérios de acesso muito rígidos.
A matemática, a música e a astronomia faziam parte dos ensinamentos, não enquanto disciplinas individuais, mas sim como parte do sistema pitagórico de crenças, ao qual a famosa citação de E. Forster Apenas ligar!, se adequaria na perfeição. A matemática e a geometria, as propriedades ocultas dos números e a relação entre eles, estavam por trás do mundo e dos céus lá em cima. Julga-se que Pitágoras terá formulado a ideia da oitava musical e explicado a base matemática dos intervalos e das harmonias musicais. Todo o Universo está em vibração, a cantar a produzir a música das esferas. Diz-se que terá calculado a Proporção Áurea, o rácio matemático por trás de grande parte do significado esotérico da arquitectura (ligando-se assim ao simbolismo da Maçonaria).
Ensinou sobre a reencarnação, crença base da Tradição do Mistério Ocidental. Ensinou sobre a relação entre o homem e o cosmo, o microcosmo e o macrocosmo; isto está naturalmente ligado à astrologia, que na altura, e durante vários séculos depois disso, era o mesmo que astronomia. Os seus ensinamentos sobre o significado esotérico dos números continuam a estar por trás da numerologia moderna. À semelhança de muitos fundadores de sociedades ocultas, Pitágoras assumia características semidivinas para os seguidores: era referido como a deidade harmónica, a meio caminho entre os Deuses e os homens. Insistia num modo de vida asceta, com muitas proibições para os seguidores: tinham de seguir uma dieta vegetariana, por exemplo, mas não podiam comer feijões. A pureza de corpo e de comportamento, a par da completa dedicação mental, eram essenciais. Eram precisos três anos para passar a primeira fase de iniciação e cinco para a segunda; um seguidor pitagórico necessitava de grande empenho.
As ideias de Pitágoras influenciaram profundamente Platão (429-347 a. C.), um dos mais influentes filósofos gregos. Pode dizer-se que sem Pitágoras não haveria Platão, e sem este não haveria Neoplatonismo (onde se incluía o Neopitagorismo), de suma importância para o pensamento esotérico do início da era cristã e durante o Renascimento. Já foi sugerido que Pitágoras terá, a dada altura, sido ensinado pelos druidas do Noroeste da Europa, ou que ele e os seus seguidores os ensinaram.

Neoplatonismo
Neoplatonismo é um termo moderno para a última encarnação dos filósofos gregos nos primeiros cinco ou seis séculos da era cristã; encerrava em si ensinamentos de várias fontes e influenciou bastante o Cristianismo exotérico e esotérico. Muitos dos Pais da Igreja conheciam o pensamento neoplatónico, era impossível que homens formados, como S. Paulo, não conhecessem a filosofia grega nesses primeiros séculos, e algumas das batalhas teológicas que terminaram na criação do dogma cristão basearam-se nos desacordos entre os defensores e os críticos das ideias neoplatónicas». In David V. Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.
                                          
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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

As Naus. António Lobo Antunes. «A mulata arreou as malas e os sacos num baque de desmaio. Deviam ser oito horas mau grado o silêncio de poço dos relógios atendendo a que desdobravam os toldos dos cabarés de Santa Bárbara»

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«(…) Uma rapariga de sapatos de homem despejava um caixote numa cova repleta de cascas, de embalagens de insecticida, de bisnagas, de mostradores de bússola e de frascos de xarope vazios. O senhor Francisco Xavier, indiano gordo de sandálias, recebeu-o no camarote do vestíbulo cercado de uma dúzia de indianozinhos todos parecidos com ele, igualmente gordos e de sandálias, de tamanhos diversos como a escala de teclas de um xilofone. Cheirava a insónia e a pés, cheirava ao estrume de curral da miséria, e percebia-se o andamento de migração das nuvens pelos orifícios do reboco. Como se houvesse também guerra aqui, pensou Pedro Álvares Cabral, como se um morteiro destruísse os prédios.
Eu sou de Moçambique, elucidou o senhor Francisco Xavier num sotaque macerado de gentio a recolher-lhes as senhas de desembarque carimbadas pelas armas do escrivão. E ele imaginou o goês, de charuto apagado na saliva das mandíbulas, a adorar na floresta criaturas de oito pernas ou a impingir tafetás de praça em praça antecedido pelo volume persuasivo da barriga. Lá fora escutavam-se os vagabundos que discutiam aos guinchos e as rolas de papo que tornavam aos paus de fileira, e debruçando-me lobriguei o chibo a tiritar entre os calhaus e os edifícios desertos que anoiteciam devagarinho à minha volta.
Não os preveniram, espantou-se o senhor Francisco Xavier, que têm de entregar cinco contos de sinal? A rapariga do caixote regressou falar sozinha e sumiu-se na boca de uma escada: os sapatos deslaçados encalhavam no rebordo dos degraus. Cochichos e choros espalhavam-se na extensão de trevas da Residencial. Um pássaro qualquer assobiava, estrangulado, no buraco de caliça de uma esquina.
Na Beira comprei eu três cinemas e uma moradia com piscina, disse o senhor Francisco Xavier exibindo os braços vazios de déspota apeado. Três cinemas e uma moradia frente às caravelas do porto, sem contar os criados, é claro, e se me jurassem que havia de governar esta espelunca para ganhar a vida ria-me uma tarde inteira pelo menos. Só os calores que os hóspedes me pregam dão comigo em doido. Por falar em calotes, rapaz, os cinco contos vêm ou não vêm? Três cinemas, poça. E assine-me este recibozinho para lhe receber o subsídio, é uma norma do Apóstolo das Índias, entende? Honestidade de uma banda, honestidade da outra.
A mulata arreou as malas e os sacos num baque de desmaio. Deviam ser oito horas mau grado o silêncio de poço dos relógios atendendo a que desdobravam os toldos dos cabarés de Santa Bárbara, e sujeitos agaloados a oiro, vestidos de alferes de carnaval, controlavam um tráfego complicado de clientes e de pu… As rolas inquietavam-se nos peitoris desmantelados e ele pensou que Lixboa seln restaurantes chineses era a cidade mais feia sobre a terra. Pensou a olhar um ninho de vespas num taipal Onde vou arranjar agora cinco contos para acalmar o gordo, e nesse instante guincharam do escuro Ó Xavier, o indiano disse-nos Aguentem pianinho que eu já venho, e partiu a estalar as sandálias, seguido pelo xilofone dos filhos, para as despensas, patamares, saletas, caves e túneis da pensão.
De maneira que ficaram à espera no vestíbulo diante do alarido do tojo e dos ralos de agosto: a mulata e o garoto completamente mudos, arqueados e quietos na escuridão que crescia, medindo tudo, verificando tudo, espiolhando tudo, as centopeias sem rumo, os escaravelhos mortos, as lagartixas átonas nos relevos do tecto, a noite e a via láctea dos candeeiros do Martim Moniz que nenhum dedo desfia, e eu, branco de Coruche sem instintos nem mistério, demasiado afastado dos castanheiros da infância, a cismar no dinheiro do indiano e na forma de roubá-lo, ouvindo passos e cicios e arrastar de baús, lembrando-me do meu avô a tactear o sol das três da tarde com a bengala até que a voz do senhor Francisco Xavier proclamou, à medida que as sandálias bolorentas se avizinhavam de novo, Arranjei-lhes um quarto com mais oito famílias de Angola, reparem na vossa sorte, caneco, tudo conterrâneo, tudo solidário, tudo compincha, tudo no paleio, que é dos cinco contitos, ó sócio?» In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT

As Naus. António Lobo Antunes. «Abaixo, na Rua de Arroios com obras nos esgotos e um caterpillar a entupir o trânsito, ficavam capelistas decrépitas, bares de prostitutas e merceariazinhas manhosas…»

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«(…) Lançou fora a ponta do cigarro e a luzinha vagabundeou na noite e apagou-se no Tejo. A passagem de nível desatou a tocar na fúria estremunhada dos despertadores, e as janelas do rápido das dez sucederam-se por detrás dos arbustos em quadrados cintilantes levando consigo os operários dos Jerónimos aos bairros periféricos sem electricidade nem água, com bêbedos e cadelas a ferverem raivas nas esquinas. Um par de guardas, chamado pelo apito do cabo, transportou o féretro para o escritório de tijolo de secretárias desfeitas encostadas às paredes, antigos ficheiros metálicos e ordens de serviço e relações de naus desaparecidas afixadas a alfinete num painel de cortiça, à esquerda da fotografia emoldurada do presidente da república que mirava a eternidade na expressão de estupidez visionária dos heróis. Os guardas, de cócoras, aliviaram os parafusos, esboroaram a placa de estearina que cintava a urna, desfizeram a canivete as rendas do forro, um vento de amoníaco ascendeu do caixão e a boca do presidente do retrato torceu-se na careta de dor de dentes com que por muitos anos assistiu, por cima da ardósia, à tabuada das escolas.
Mal atraque o paquete com as minhas coisas, garanti eu, juro que lhe pago uma lápide como deve ser. Perto do candeeiro, mais nu sem o boné do que se estivesse despido, o cabo, a limpar as unhas com um fosforo, aparentava-se aos pescadores de limos da vazante, embora de polainas e cartucheira à cinta a fim de assassinar as enguias do rio. Ou os morcegos. Ou os comboios. Ou a Torre de combater os castelhanos. Ou o pai que engolira o seu chumbo em Loanda e se tornava devagarinho num lodaçal de tripas. Cara…, disse um dos guardas, enjoado, a tapar o nariz com a manga de cotim. Espreite-me só este radiozinho japonês, nosso cabo. Uma locomotiva atravessou de cambulhada o posto de socorros a náufragos, tombando ficheiros e cadeiras, e agora olhavam-me os três, escondidos por uma ponta do lençol, numa surpresa de virgens, de modo que cresci um passo num sorrisinho humilde de desculpa: se os senhores pregassem o caixão agradecia: é que não há nada para me sentar no cais enquanto o barco não chega.

A Residencial Apóstolo das Índias não se situava no Largo de Santa Bárbara consoante o escrivão da puridade lhes afiançara, mas no declive de um terreno perdido nas traseiras dos prédios entre a embaixada da Itáliae a Academia Militar. Era uma casa arruinada no meio de casas arruinadas diante das quais um grupo de vagabundos, instalado em lonas num baldio, conversava aos gritos à roda de um chibo enfermo. Perguntou o endereço a um mestiço de olhos sigilosos, a garotos que remexiam desperdícios com uma vara e a um sobrevivente alcoólico de mares remotos abraçado a uma âncora oxidada, e contornaram, a tropeçar, tábuas de andaime, paredes calcinadas, betões torcidos, restos de muro e escadas de apartamentos sem ninguém, por onde à noite deslizavam luzes de navegação nos intervalos das janelas. Um bando de rolas espantou-se num coto de telhado, ergueu-se em leque e afundou-se num céu de chaminés.
Abaixo, na Rua de Arroios com obras nos esgotos e um caterpillar a entupir o trânsito, ficavam capelistas decrépitas, bares de prostitutas e merceariazinhas manhosas enxameadas de operários de pavio de bagaço aceso no castiçal da mão. Um rato húmido de brilhantina escapou-se de um caneiro, correu ao longo de degraus assoreados e esgueirou-se num monte de cascalho. Os mendigos observavam-no de longe, em silêncio, debaixo de um pedaço de tenda, e nesse instante viu as letras Residencial Apóstolo Das Índias pintadas a amarelo ao lado de uma porta aberta ou do que havia sido uma porta e não era mais do que uma espécie de cancela esburacada». In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT

As Naus. António Lobo Antunes. «… anis, perfumes franceses, vermutes, uma dúzia de radiozinhos de pilhas japoneses? Você quer convencer-me que traz um cadáver aí?»

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«(…) Os morcegos que farejavam as lâmpadas, procurando as borboletas tropicais chegadas com os escravos da Guiné, submergiam-se por engano nos reflexos lilases das ondas de desmaio do Tejo. Automóveis de faróis nos mínimos, em que se revolviam namorados, apontavam ao chão as grelhas amuadas. O cheiro do esquife tornara-se a pouco e pouco tão insuportável quanto o do desertor no seu cepo, com pássaros poisados na crista da espinha e no que sobejava dos ombros e das nádegas, de modo que pensei Mal o frigorífico e o fogão arribem vendo-os a um cigano qualquer e compro ao velho um Jesus de metro e meio com embutidos e enfeites, já que a partir de certa idade vivemos a imaginar, a aperfeiçoar, a polir o teatro macabro das próprias exéquias, o sacristão, a família, as participações nas revistas, o interesse dos vizinhos, o número de ramos de flores e os litros das lágrimas. Pensei: nem que tenha de pagar para o chorarem. Pensei: nem que tenha de comprar óculos escuros e um lenço enorme de adeuses de emigrante para fingir que choro. Pensei: Nem que alugue cunhados nos mendigos que exageram a fome nos degraus das igrejas, e nisto o cabo, a seguir a tentar em vão um pontapé na seda instantânea de um gato, avançou em diagonal de lagosta a mudar a bandoleira da arma de uma omoplata para a outra:
O que é aquilo ali?, disse ele. Só então me dei conta de que para lá dos ralos e das cigarras das trevas cujo trino se aparenta ao zumbir das lantejoilas da insónia, para lá dos moluscos nas enxárcias e da harpa das cordas e da sua única nota sem cessar repetida, um grilo cantava: não dentro da noite, entenda-se; num barquito ancorado, uma dessas chatas de caçadores de limos e mariscos doentes, que navegam umas braças tripuladas por homens de calças enroladas munidos de camaroeiros e de baldes. De tempos a tempos uma barbatanazinha da água cintilava num pulo e evaporava-se de novo. As casas, duplicadas de pernas para o ar, subiam e desciam na direcção de Lisboa, enfeitadas de craveiros nos caixotes das varandas. O cabo tocou no féretro com a ponta da bota, a avaliar: esta porcaria pertence-lhe? De madrugada as locomotivas, quando chamam, mesmo distantes, dão a impressão de se encontrarem tão próximas que se podem apertar contra o peito. Os demais ruídos também. E o silêncio. E os odores. E as vozes que ciciam a quilómetros: tudo vizinho, nítido, transparente e frágil, de vidro.
Incluindo a ponte que atravessa o Tejo e os pirilampos dos camiões a vogar no tabuleiro. Ando à espera do paquete para a levar daqui, disse eu. Tenho lá o meu pai morto embrulhado num lençol. Em África, semeada de padrões, de destroços de caravela e de armaduras de conquistadores finados, os mochos plantavam-se no centro das picadas e deixavam que os carros os atropelassem, mochos de olhos amarelos como as barbatanas da água e os pirilampos dos camiões: viamo-los tarde demais, buzinávamos e um remoinho de penas cinzentas, mais cabelos do que penas, embatia no vidro e morria para trás de nós, a perder-se nas lavras de girassóis adormecidos por onde os burros do mato trotavam sem descanso. Em África, ao contrário daqui, o meu nariz palpava os odores e alegrava-se, as pernas conheciam os lugares de caminhar, as mãos aprendiam com facilidade os objectos, respirava-se um ar mais limpo do que panos de igreja, até a guerra civil dar um tiro no velho, me encafuar com o reformado e o maneta dos moinhos num porão de navio, e os perfumes e os rumores das trevas se me tornarem estrangeiros porque ignoro esta cidade, porque ignoro estas travessas e as suas sombras ilusórias, porque apenas soletro o porto e as traineiras, presentes de dia e ausentes de noite, sem contar os corvos e as gaivotas excitadas pelo relento do defunto, debicando o crucifixo à procura da carne podre oculta no túmulo de verniz. Um cadáver?, desconfiou o cabo. Um cadáver ou tabaco americano, nosso amigo? Gitanes, Marlboro, anis, perfumes franceses, vermutes, uma dúzia de radiozinhos de pilhas japoneses? Você quer convencer-me que traz um cadáver aí?» In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT