domingo, 16 de janeiro de 2022

O Cemitério de Praga. Umberto Eco. «… , o qual fez um gesto vago, acrescentando: Não sei bem, mas em todo o caso me mantenho à parte; judeu e alemão é uma mistura que não me agrada»

Cortesia de wikipedia


«(…) Acredito que, nessa condição, ela sente traumas que sofreu no decorrer da sua adolescência e tenta escapar a essas lembranças entrando, a intervalos, na sua condição segunda. Nessa, Diana aparece como uma criatura branda e cheia de candura, é uma boa cristã, pede sempre o seu livro de orações, quer sair para ir à missa. Mas o fenómeno singular, que também acontecia com Félida, é que na condição segunda, quando é a Diana virtuosa, ela se lembra muito bem de como era na condição normal, se atormenta, se pergunta como pode ter sido tão má, se castiga com um cilício a tal ponto que chama a condição segunda seu estado de razão, e evoca sua condição normal como um período no qual era vítima de alucinações. Na condição normal, ao contrário, Diana não se lembra de nada do que faz na condição segunda. Os dois estados se alternam a intervalos imprevisíveis, e às vezes ela permanece numa ou na outra condição por vários dias. Eu concordaria com o doutor Azam quando fala em sonambulismo perfeito. De facto, não apenas os sonâmbulos, mas também os que consomem drogas, haxixe, beladona, ópio ou abusam do álcool, fazem coisas das quais não se lembram ao despertar. Não sei porque a narrativa sobre a doença de Diana me deixou tão intrigado, mas recordo ter dito a Du Maurier: Falarei disso com um conhecido meu, que cuida de casos lastimáveis como esse e sabe onde hospedar uma jovem órfã. Enviarei o abade Dalla Piccola, um religioso muito poderoso no âmbito das instituições pias.

Portanto, quando falava com Du Maurier, eu conhecia no mínimo o nome de Dalla Piccola. Mas porque me preocupava tanto com aquela Diana?

Estou escrevendo ininterruptamente há horas, o polegar me dói, e me limitei a comer sempre à minha mesa de trabalho, espalhando patê e manteiga no pão, com uns copos de Château Latour, para estimular a memória. Gostaria de me premiar, não sei, quem sabe com uma visita ao Brébant-Vachette, mas, enquanto não compreender quem sou, não posso me mostrar por aí. Seja como for, mais cedo ou mais tarde deverei aventurar-me ainda pela place Maubert, afim de trazer para casa alguma comida. Por enquanto não pensemos nisso, e voltemos a escrever.

Naqueles anos creio ter sido em 1885 ou 1886 , conheci no Magny aquele que continuo a recordar como o doutor austríaco ou alemão . Agora volta-me à mente o nome, chamava-se Froide acho que se escreve assim, um médico com 30 anos, que certamente só ia ao Magny porque não podia se permitir algo melhor e que fazia um período de aprendizado com Charcot. Costumava se sentar à mesa vizinha e, no início, nos limitávamos a trocar um educado aceno de cabeça. Eu o tinha julgado de natureza melancólica, um pouco deslocado, timidamente desejoso de que alguém escutasse suas confidências para descarregar um pouco das suas ansiedades. Em duas ou três ocasiões, ele havia buscado pretextos para trocar umas palavras, mas eu sempre me mantivera reservado. Embora o nome Froide não me soasse como Steiner ou Rosen-berg, eu sabia que todos os judeus que vivem e enriquecem em Paris têm nomes alemães, e, desconfiado daquele nariz adunco, um dia perguntei a Du Maurier, o qual fez um gesto vago, acrescentando: Não sei bem, mas em todo o caso me mantenho à parte; judeu e alemão é uma mistura que não me agrada.

Ele não é austríaco?, perguntei. Dá no mesmo, não? Mesma língua, mesmo modo de pensar. Não esqueci os prussianos que desfilavam pelos Champs-Elysées. Disseram-me que a profissão médica está entre as mais praticadas pelos judeus, tanto quanto o empréstimo a juros. Sem dúvida, é melhor nunca precisar de dinheiro e jamais cair doente. Mas também existem os médicos cristãos, sorriu Du Maurier, gélido. Eu tinha cometido uma gafe. Entre os intelectuais parisienses, há quem admita, antes de exprimir a própria repugnância ante os judeus, que alguns dos seus melhores amigos o são. Hipocrisia. Não tenho amigos judeus Deus me livre; na minha vida sempre evitei essa gente. Talvez os tenha evitado por instinto, porque o judeu veja só, como o alemão sente-se pelo bodum disse-o inclusive Victor Hugo, fector judaica, que os ajuda a se reconhecerem, por esses e outros sinais, como acontece aos pederastas. Meu avô me recordava que o cheiro deles resulta do uso desmedido de alho e cebola e talvez das carnes de carneiro e de ganso, sobrecarregadas por açúcares viscosos que as tornam atrabiliárias». In Umberto Eco, O Cemitério de Praga, 2010, tradução de Joana Angélica Melo, ePUBr, Biblioteca Digital Brasileira, Editora Record, Rio de Janeiro, 2011, ISBN 978-850-109-284-7.

 

Cortesia de ERecord/JDACT

 

JDACT, Umberto Eco, Literatura, O Saber, 

sábado, 15 de janeiro de 2022

Espuma dos Dias. Boris Vian. «Faça um cordão de cogumelos em torno da crosta, ponha uma pitada de sêmen de carpa no meio. Regue com a parte do molho que ficou reservada»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O ponteiro do forno eléctrico, ajustado para peru assado, oscilava entre quase e ao ponto. Logo, logo estaria na hora de tirar. Nicolas apertou um botão verde, que accionava o medidor sensitivo. Este penetrou sem encontrar resistência, e nesse momento o ponteiro marcou ao ponto. Num gesto rápido, Nicolas desligou o forno e ligou o aquecedor de pratos. Será que está bom?, perguntou Colin. Não tenha a menor dúvida, senhor!, afirmou Nicolas. O peru estava perfeitamente calibrado. Que entrada o senhor preparou? Meu Deus, disse Nicolas, para variar, não inovei coisa nenhuma. Limitei-me a plagiar Gouffé. O senhor poderia ter escolhido um mestre pior!, observou Colin. E que parte da obra dele vai reproduzir? Está na página 638 de seu Livro de cozinha. Vou ler a passagem em questão. Colin sentou-se num tamborete com assento capitoné de borracha alveolada, sob uma seda que combinava com a cor das paredes, e Nicolas começou nos seguintes termos: Faça uma crosta de patê quente para a entrada. Prepare uma enguia das grandes e corte-a em pedaços de três centímetros. Leve uma panela, com vinho branco, sal e pimenta, cebolas fatiadas, ramos de salsa, endro e louro, com um dentinho de alho. Não consegui amolar o dente como gostaria, disse Nicolas. A pedra de afiar está gasta. Vou mandar comprar outra, disse Colin. Nicolas continuou: Ponha para cozinhar. Retire a enguia da panela e ponha numa frigideira. Passe o molho por uma peneira de tecido, acrescente molho espanhol e deixe reduzir até que fique aderente à colher. Filtre novamente, cubra a enguia com o molho e deixe ferver por dez minutos. Acomode a enguia na massa. Faça um cordão de cogumelos em torno da crosta, ponha uma pitada de sêmen de carpa no meio. Regue com a parte do molho que ficou reservada.

Certo, aprovou Colin. Acho que o Chick vai gostar. Não tenho a vantagem de conhecer o senhor Chick, concluiu Nicolas. Mas, caso ele não goste, farei outra coisa da próxima vez, o que vai me permitir situar-me, com quase certeza, na ordem espacial dos seus gostos e desgostos. Zim!…, disse Colin. Vou embora, Nicolas. Vou pôr a mesa. Ele foi pelo corredor no outro sentido e atravessou a copa para chegar à sala de jantar-estúdio, cujo tapete azul-pálido e as paredes bege-rosadas eram um repouso para olhos abertos. Daquela sala, de uns quatro metros por cinco, via-se a avenida Louis Armstrong por duas grandes janelas. Espelhos sem aço escorriam pelos dois lados e permitiam a introdução dos odores da Primavera quando eles estivessem disponíveis do lado de fora. Do outro lado, uma mesa de carvalho macio dominava um dos cantos do ambiente. Dois bancos em ângulo recto correspondiam a dois lados da mesa, e cadeiras estofadas com almofadas de marroquim azul ornavam os dois lados livres. A mobília incluía, além disso, um móvel comprido e baixo, transformado em discoteca, uma vitrola hipermodulada e um móvel, simétrico ao primeiro, contendo estilingues, pratos, copos e outros utensílios de que o homem civilizado se serve para comer». In Boris Vian, Espuma dos Dias, 1946-1947, Editora Relógio D’Água, ISBN 978-972-708-644-3.

Cortesia de ERelógio d’Água/JDACT

JDACT, Boris Vian, Literatura, A Arte,

Espuma dos Dias. Boris Vian. «Sua realização material propriamente dita consiste, no essencial, numa projecção da realidade, em atmosfera enviesada e aquecida…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Na vida, o essencial é manter, sobre todas as coisas, julgamentos a priori. Parece, com efeito, que as massas estão erradas, e que os indivíduos sempre têm razão. É necessário ter cautela para não extrair disso regras de conduta: elas não precisam ser formuladas para que as sigamos. Existem apenas duas coisas: o amor, de todas as maneiras, com garotas bonitas, e a música de Nova Orleans ou de Duke Ellington. O resto deveria desaparecer, pois o resto é feio, e as poucas páginas de demonstração que vêm a seguir extraem toda a sua força do facto de que a história é totalmente verdadeira, pois eu a imaginei do começo ao fim. Sua realização material propriamente dita consiste, no essencial, numa projecção da realidade, em atmosfera enviesada e aquecida, num plano de referência irregularmente ondulado e que apresenta distorção. Vemos que se trata de um procedimento perfeitamente confessável». In Prólogo

«Colin terminava sua higiene pessoal. Estava enrolado, ao sair do banho, numa ampla toalha felpuda que deixava ver apenas suas pernas e seu torso. Pegou na prateleira de vidro o spray e aspergiu o óleo fluido e aromático nos cabelos claros. O pente de âmbar cortou a massa sedosa em longos sulcos cor de laranja, parecidos com os talhos que o alegre camponês faz, com um garfo, na geleia de damasco. Colin largou o pente e, armando-se do cortador de unha, aparou obliquamente os cantos das pálpebras foscas, conferindo mistério a seu olhar. Volta e meia precisava repetir o gesto, pois elas cresciam rápido. Acendeu a luz do espelho ampliador e se aproximou para verificar o estado de sua pele. Alguns cravos sobressaíam em volta das aletas do nariz. Ao se verem tão feios no espelho ampliador, eles logo entraram de volta na pele, e, satisfeito, Colin apagou a luz. Soltou a toalha que lhe cingia o quadril e passou uma das pontas por entre os dedos do pé, para absorver os últimos vestígios de humidade. No espelho, dava para ver com quem ele se parecia, com o louro que faz o papel de Slim em Um sonho em Hollywood. Tinha a cabeça redonda, as orelhas pequenas, o nariz arrebitado, a pele dourada. Volta e meia sorria, um sorriso de bebé, e, por força do hábito, aquilo lhe rendera uma covinha no queixo. Era bem alto, magro, com as pernas compridas, e muito gentil. O nome Colin mal se encaixava nele. Falava suavemente com as garotas e alegremente com os rapazes. Estava quase sempre de bom humor e, no resto do tempo, dormia.

Esvaziou a banheira fazendo um buraco no fundo. O chão do banheiro, revestido de ladrilhos hidráulicos amarelo-claros, era inclinado e levava a água para um orifício bem em cima da secretária do locatário do apartamento de baixo. Fazia pouco tempo que ele, sem avisar Colin, mudara a secretária de lugar. Enfiou os pés em chinelas de couro de morcego e envergou um elegante fato. Sua calça era de veludo cotelê de um verde-água bem profundo, e o casaco era de uma rara lã cor de nozes. Pendurou a toalha no toalheiro, pendurou o tapetinho do banheiro na borda da banheira e o salpicou de sal grosso, para que expelisse toda a água. O tapete começou a babar, fazendo cachos de bolinhas de sabão. Saiu do banheiro e foi para a cozinha, para supervisionar os felementos da refeição. Tinha convidado para jantar, como toda segunda à noite, o seu amigo Chick, que morava ali pertinho. Ainda era sábado, mas Colin estava com vontade de ver Chick e fazê-lo degustar o menu elaborado com uma alegria serena por Nicolas, seu novo cozinheiro. Chick também era solteiro. Tinha a mesma idade de Colin, vinte e dois anos, e gostos literários como os dele, mas tinha menos dinheiro. A fortuna de Colin era suficiente para viver com conforto, sem trabalhar para os outros, e Chick precisava ir todos os dias ao ministério para ver o tio e pedir dinheiro emprestado, pois o ofício de engenheiro não rendia o necessário para se manter no mesmo nível dos operários sob seu comando, e é difícil comandar gente mais bem vestida e mais bem alimentada do que nós mesmos. Colin ajudava como podia, convidando-o para jantar sempre que possível, mas o orgulho de Chick o obrigava a ser prudente, e a não mostrar, por favores frequentes demais, que a sua intenção era ajudar.

O corredor da cozinha era claro, com vidraças dos dois lados, e um sol brilhava de cada um dos lados, pois Colin gostava de luz. Havia torneiras de latão cuidadosamente polidas por todos os cantos. As brincadeiras do sol nas torneiras produziam efeitos feéricos. Os camundongos da cozinha gostavam de dançar ao som dos choques dos raios de sol nas torneiras e corriam atrás das bolinhas que os raios formavam ao se pulverizar no solo, feito jactos de mercúrio amarelo. Colin acariciou um dos camundongos ao passar, ele tinha compridíssimos bigodes pretos, era cinzento e magro, e milagrosamente lustroso. O cozinheiro os alimentava muito bem, sem deixá-los engordar muito. Os camundongos não faziam barulho durante o dia e só brincavam no corredor. Colin empurrou a porta esmaltada da cozinha. O cozinheiro Nicolas vigiava o painel de bordo. Estava sentado diante de uma pequena mesa, igualmente esmaltada de amarelo-claro e que tinha mostradores correspondentes aos diversos utensílios culinários alinhados pelas paredes». In Boris Vian, Espuma dos Dias, 1946-1947, Editora Relógio D’Água, ISBN 978-972-708-644-3.

Cortesia de ERelógio d+Água/JDACT

JDACT, Boris Vian, Literatura, A Arte, 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Número Zero. Umberto Eco. «Mas ficaram só as ruínas: olhe ali na esquina da rua Morigi, aquela torre é do século XVII, nem as bombas a derrubaram. E por baixo, venha cá, ainda desde o começo do século XX existe aquela taverna…»

jdact

«(…) Veja só, disse Braggadocio, aquilo à esquerda ainda são ruínas romanas, quase ninguém lembra que Milão também foi capital do império. Por isso, nelas não se toca, mesmo que ninguém esteja dando bola para esse tipo de coisa. Mas aquelas atrás do estacionamento ainda são casas destroçadas pelos bombardeios da última guerra. As casas destroçadas não tinham a vetusta tranquilidade das ruínas antigas, já reconciliadas com a morte, mas despontavam sinistras entre seus vazios não assossegados, como se doentes de lúpus. Não sei bem por que ninguém tentou construir nesta área, dizia Braggadocio, talvez seja tombada, talvez o estacionamento renda mais para os proprietários do que construir casas para alugar. Mas porque deixar os vestígios dos bombardeios? Este largo me dá mais medo que a rua Bagnera, mas é bonito porque me diz como era Milão depois da guerra, nesta cidade sobraram poucos lugares que fazem lembrar como ela era quase cinquenta anos atrás. E é a Milão que procuro reencontrar, aquela onde vivi na infância e na adolescência, a guerra acabou quando eu tinha nove anos, e de vez em quando, de madrugada, ainda tenho a impressão de ouvir o barulho das bombas.

Mas ficaram só as ruínas: olhe ali na esquina da rua Morigi, aquela torre é do século XVII, nem as bombas a derrubaram. E por baixo, venha cá, ainda desde o começo do século XX existe aquela taverna, a taverna Moriggi, não me pergunte porque a taverna tem um g a mais que a rua, mas a prefeitura é que deve ter errado quando pôs as placas, a taverna é mais antiga, ela é que deve ter razão. Entrámos num ambiente de paredes vermelhas e tecto descascado, de onde pendia um velho lustre de ferro batido, com uma cabeça de veado no balcão, centenas de garrafas de vinho empoeiradas ao longo das paredes, mesinhas de madeira (ainda não era hora do jantar, disse Braggadocio, e estavam sem toalha, depois seriam colocadas aquelas de xadrezinho vermelho, e para comer era preciso consultar aquela lousinha escrita à mão, como nos restaurantes franceses). À mesa havia estudantes, algumas figuras da velha boémia, com cabelos compridos, mas não de sessenta e oito, e sim de poeta, daqueles que antigamente usavam chapéu de aba larga e gravata à Lavallière, além de uns velhos já meio embalados, que não se entendia se estavam lá desde o começo do século ou se eram contratados pelos novos donos como figurantes. Petiscamos de um prato de queijos, frios, lardo de Colonnata, e bebemos um merlot, bom de verdade. Bonito, né?, dizia Braggadocio. Parece atemporal.

Mas porque é atraído por essa Milão que já não deveria existir? Já lhe disse, quero poder ver aquilo que quase não lembro mais, a Milão do meu avô e do meu pai. Tinha começado a beber, seus olhos haviam ficado brilhantes, enxugara com um guardanapo de papel um círculo de vinho que se formara na mesa de madeira antiga. Minha família tem uma história triste. Meu avô era alto dirigente no infausto regime, como se costuma dizer. E no dia 25 de Abril foi reconhecido por um partisan enquanto tentava escapulir não longe daqui, na rua Cappuccio; foi apanhado e fuzilado, logo ali na esquina. Meu pai ficou sabendo disso com atraso porque, como era fiel às ideias do meu avô, em 1943 tinha se alistado na Décima Flotilha MAS, foi capturado em Salò e mandado para o campo de concentração de Coltano, onde ficou um ano. Escapou por pouco, não encontraram nenhum verdadeiro motivo de incriminação, além disso, já em 1946 Togliatti tinha dado o primeiro passo para a amnistia geral, contradições da história, os fascistas reabilitados pelos comunistas, mas Togliatti talvez tivesse razão, era preciso voltar à normalidade a qualquer custo. Mas a normalidade era que meu pai, com aquele passado e a sombra do pai, não achava trabalho e vivia sustentado pela minha mãe, que era costureira. Assim foi-se entregando aos poucos, bebia, e dele eu lembro só o rosto cheio de veiazinhas vermelhas e os olhos lacrimejantes, enquanto me contava suas as obsessões. Não procurava justificar o fascismo (nessa altura não tinha mais ideais), mas dizia que para condenarem o fascismo os antifascistas tinham contado muitas histórias horrendas. Não acreditava nos seis milhões de judeus mortos nas câmaras de gás. Quer dizer, não era daqueles que ainda hoje afirmam que não houve Holocausto, mas não confiava na narrativa construída pelos libertadores». In Umberto Eco, Número Zero, 2015, Gradiva Publicações, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-616-643-4.

Cortesia de GradivaP/JDACT

JDACT, A Arte, Ensaio, Literatura, Umberto Eco,

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Número Zero. Umberto Eco. «Naquele momento surgia da curva uma mulher com um carrinho de bebê. Irresponsável ou mal informada. Comentou Braggadocio. Se eu fosse mulher, não passaria por aqui…»

jdact

«(…) Confessei sem jeito que tinha olhado para ela só de relance, como disse, das mulheres quero distância. Ele sacudiu meu braço: Não fique dando uma de gentleman, Colonna. Eu bem que vi você olhando disfarçadamente para ela. Na minha opinião, é do tipo que topa. A verdade é que todas topam, é só saber pegar do jeito certo. Um pouco magra demais para o meu gosto, aliás, não tem peitos, mas, enfim, poderia dar pé. Tínhamos chegado à rua Torino e, à altura de uma igreja, ele me fez virar à direita para entrarmos numa ruazinha que tinha uma curva no cotovelo, mal iluminada, com algumas portas fechadas sabe-se lá desde quando, sem nenhum comércio, como se tivesse sido abandonada há tempos. Parecia pairar ali um cheiro de bolor, mas devia ser apenas sinestesia, por causa das paredes escalavradas e cobertas de grafites desbotados. No alto, um cano soltava fumaça, e não dava para entender de onde vinha porque até mesmo as janelas de cima estavam fechadas como se ali não morasse mais ninguém. Talvez o cano viesse de alguma casa que dava para outro lugar, e ninguém se incomodava por esfumaçar uma rua abandonada. É a rua Bagnera, a mais estreita de Milão, não tanto como a rue du Chat-qui-Pêche em Paris, onde quase não conseguem passar duas pessoas. Hoje se chama rua Bagnera, mas antigamente se chamava viela Bagnera, e antes ainda, viela Bagnaria, por causa de alguns banhos públicos da época romana.

Naquele momento surgia da curva uma mulher com um carrinho de bebê. Irresponsável ou mal informada. Comentou Braggadocio. Se eu fosse mulher, não passaria por aqui, principalmente no escuro. Você pode ser esfaqueado, assim sem mais nem menos. Seria uma pena porque a gatinha não é de se jogar fora, típica mãezinha disposta a dar para o encanador, olhe para trás, veja como ela rebola. Aqui aconteceram assassinatos. Por trás dessas portas agora trancadas ainda deve haver porões abandonados e talvez passagens secretas. Aqui, no século XIX, um tal Antonio Boggia, sujeito sem eira nem beira, atraiu um contador para um desses porões, com a desculpa de fazer a revisão das contas, e lhe deu uma machadada. A vítima consegue se salvar, Boggia é preso, julgado louco e internado no manicómio por dois anos. Mas, assim que fica livre, sai de novo à cata de pessoas ingénuas e endinheiradas, que ele atrai para o seu porão, rouba, mata e enterra no mesmo lugar. Um serial killer, como se diria hoje, mas um serial killer imprudente, porque deixa vestígios das suas relações comerciais com as vítimas e no fim acaba preso, a polícia escava o porão, encontra cinco ou seis cadáveres, e Boggia é enforcado lá pelos lados da Porta Ludovica. A cabeça dele foi entregue ao Departamento de Anatomia do Ospedale Maggiore (estávamos nos tempos de Lombroso, quando os sinais da delinquência hereditária eram procurados nos crânios e nos traços fisionómicos). Depois parece que essa cabeça foi enterrada em Musocco, mas vai saber, aqueles restos eram material cobiçado por ocultistas e satanistas de todas as tribos... Ainda hoje, aqui dá para sentir a presença de Boggia, parece que estamos em Londres, no tempo de Jack, o Estripador, eu não gostaria de passar a noite aqui, no entanto me sinto atraído. Volto sempre, às vezes marco alguns encontros aqui.

Saindo da rua Bagnera desembocamos numa praça, a Mentana, e Braggadocio me fez enveredar por certa rua Morigi, também bastante escura, mas com algum comércio pequeno e belos portais. Chegamos a um largo com uma ampla área de estacionamento circundada por ruínas». In Umberto Eco, Número Zero, 2015, Gradiva Publicações, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-616-643-4.

Cortesia de GradivaP/JDACT

JDACT, A Arte, Ensaio, Literatura, Umberto Eco, 

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A Misteriosa Chama da Rainha Loana. Umberto Eco. «Havia também duas mulheres e três crianças, nunca vistas antes, mas podia imaginar quem eram. Foi terrível, porque com a esposa, paciência, mas as filhas, Deus meu, são sangue do seu sangue e os netos mais ainda…»

Cortesia de wikipedia e jdct

«(…) Não se pode excluir, respondia Gratarolo, na origem desses incidentes sempre pode haver tensões imponderáveis. Mas a senhora viu as fichas clínicas, as lesões existem.

Abri os olhos e disse bom-dia. Havia também duas mulheres e três crianças, nunca vistas antes, mas podia imaginar quem eram. Foi terrível, porque com a esposa, paciência, mas as filhas, Deus meu, são sangue do seu sangue e os netos mais ainda, e os olhos daquelas duas brilhavam de felicidade, as crianças queriam subir na cama, pegavam minha mão e me diziam oi, avô, e eu nada. Não era nem névoa; era, como direi, apatia. Ou se diz ataraxia? Era como olhar animais no zoológico, podiam ser macaquinhos ou girafas. Claro que eu sorria e dizia palavras gentis, mas por dentro estava vazio. Ocorreu-me a palavra segurado, mas não sabia o que queria dizer. Perguntei a Paola: é um termo piemontês que designa aquela panela que lava bem e depois esfrega por dentro com aquela espécie de palha de aço para deixá-la como nova, brilhante e limpa como nunca. Pois eu me sentia completamente grato. Gratarolo, Paola, as meninas estavam enfiando-me na cabeça mil detalhes da minha vida, mas era como se fossem caroços de feijão, mexendo a panela eles deslizavam lá por dentro mas continuavam crus, não se diluíam em nenhum caldo, em nenhum creme, nada que fizesse o gosto palpitar, nada que eu quisesse experimentar de novo. Aprendia coisas acontecidas comigo como se tivessem acontecido com outra pessoa.

Acariciava as crianças e sentia o seu cheiro sem conseguir defini-lo, excepto que era muito suave. Vinha-me à mente que há perfumes frescos como carnes de bebé. E de facto minha cabeça não estava vazia, nela volteavam memórias não minhas, a marquesa saiu às cinco no meio do caminho desta vida, Ernesto Sábato e a donzelinha vêm dos campos, Abraão gerou Isaque, Isaque gerou Jacób, Jacób gerou Judas e Rocco e seus irmãos, o campanário bate à meia-noite santa e foi então que vi o pêndulo, no ramo do lago de Como dormem dois pássaros de longas asas, messieurs les anglaisje mesuis couché de bonne heure, aqui ou se faz a Itália ou se mata um homem morto, tu quo-que álea, soldado que escapa pára és belo, irmãos italianos ainda um esforço, o arado que traça o sulco é bom para outra volta, a Itália está batida mas não se rende, combateremos à sombra ed e súbito sera, três mulheres em torno ao coração e sem vento, a inconsciente azagaia bárbara à qual estendias a pequenina mão, não pedir a palavra enlouquecida de luz, dos Alpes às Pirâmides fez a guerra e usou o elmo, frescas as minhas palavras na tarde para aqueles quatro poemetos das dúzias, sempre libera sobre asas douradas, adeus montes nascidos das águas, mas meu nome é Lúcia, ou Valentino, Valentino tordilho, Guido eu gostaria que no céu descolorissem, conheci o tremular as armas os amores, de la musique ou marchent des colombes, fresca e clara é a noite e o capitão, ilumino-me pio boi, embora o falar seja inútil, eu os vi em Pontida, em Setembro iremos onde florescem os limões, aqui começa a aventura do Peleio Aquiles, tomo banho de lua diga-me o que fazes, no princípio a terra estava como imóvel, Licht mehr Licht über alies, condessa o que é então a vida? Três corujas no guarda-pó. Nomes, nomes, nomes, Angelo DairOca Bianca, lord Brummell, Píndaro, Flaubert, Disraeli, Remigio Zena, Jurássico, Fattori, Straparola e as noites agradáveis, a Pompadour, Smith & Wesson, Rosa Luxemburgo, Zeno Cosini, Palma o Velho, Arqueoptérix, Ciceruacchio, Mateus Marcos Lucas João, Pinóquio, Justine, Maria Goretti, Taide pu… das unhas merdosas, Osteoporose, Saint Honoré, Baeta Ecbatana Persépolis Susa Arbela, Alexandre e o nó górdio.

A enciclopédia me caía em cima em folhas destacadas, e me vinha de abanar as mãos como se estivesse no meio de um enxame de abelhas. Entretanto as crianças diziam avô, sabia que deveria amá-las mais que a mim mesmo e não sabia quem chamar de Giangio, quem de Alessandro e quem de Luca. Sabia tudo de Alexandre, o grande, e nada de Alessandro, o meu pequenino. Disse que me sentia fraco e precisava dormir. Saíram, eu chorava. As lágrimas são salgadas. Donde, eu ainda tinha sentimentos. Sim, mas fresquinhos da hora. Aqueles de antes já não eram mais meus. Quem sabe, perguntava-me, se alguma vez fui religioso: certamente, de qualquer jeito, perdera a alma. Na manhã seguinte, Paola também estava, Gratarolo me fez sentar numa mesinha e mostrou uma série de quadradinhos coloridos, muitíssimos. Estendia-me um e perguntava de que cor era. Dim, dim dim, sapatinho rosa, dim, dim, dim, de que cor que é? Cor so-nequim, cor de carmim, salta fora ó garibaldiml Reconheci com segurança as seis primeiras cores, vermelho, amarelo, verde e assim por diante. Disse naturalmente que A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu, voyelles, je ditais quelque jour vos naissances latentes, mas percebi que o poeta, ou quem falava em seu nome, mentia. O que quer dizer que A é preto? Aliás, era como descobrir as cores pela primeira vez: o vermelho era muito alegre, vermelho fogo, mas também muito forte, não, talvez o amarelo fosse mais forte, como uma luz que se acendesse de repente diante dos meus olhos. E o verde me dava uma sensação de paz. O problema chegou com os outros quadradinhos. O que é isso? Verde, dizia eu, mas Gratarolo insistia, que tipo de verde, em que sentido é diferente desse outro? Hum. Paola me explicava que um era verde-malva e outro verde-ervilha.

A malva é uma erva, respondia eu, e as ervilhas verduras que se comem, redondas dentto de uma vagem longa e inchada, mas nunca vira nem malva nem ervilhas. Não se preocupe, dizia Gratarolo, em inglês há mais de trinta mil termos para cores, mas em geral as pessoas sabem nomear no máximo oito, em média reconhecemos as cores do arco-íris, vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, índigo e roxo, mas já entre o índigo e o roxo as pessoas não sabem distinguir bem. É preciso muita experiência para saber discriminar e nomear as cores, e um pintor sabe fazer isso melhor que, sei lá, um taxista, que só precisa reconhecer as cores de um sinal de trânsito. Gratarolo me deu papel e caneta. Escreva, disse. E que diabos devo escrever?, escrevi, e parecia que nunca fizera outra coisa, a caneta era macia e deslizava bem sobre o papel. Escreva o que lhe vier à mente, disse Gratarolo». In Umberto Eco, A Misteriosa Chama da Rainha Loana, 2004, Editora Record, ISBN 978-850-107-143-9.

Cortesia de Difel/ERecord/JDACT

JDACT, A Escrita, Literatura, O Saber, Umberto Eco, 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Georges Bataille. O Erotismo. «… este aspecto tinha respondido simplesmente à preocupação de dar uma solução ao problema da repartição das mulheres disponíveis através da doação. Se continuarmos a procurar um sentido…»

jdact e wikipedia

A proibição do incesto

«(…) Nas sociedades arcaicas, a classificação das pessoas de acordo com a sua relação de parentesco e a determinação dos casamentos proibidos transformou-se, às vezes, numa verdadeira ciência. O grande mérito de Claude Lévi-Strauss é ter encontrado nos meandros infinitos de estruturas familiais arcaicas a origem de particularidades que não podem derivar unicamente dessa vaga interdição fundamental que levou geralmente os homens à observação de leis opostas à liberdade animal. As disposições referentes ao incesto responderam primeiramente à necessidade de desencadear nas regras existentes uma violência que, não sendo dominada, poderia ter perturbado a ordem à qual a colectividade desejava obedecer. Mas, independentemente dessa determinação fundamental, leis equitativas foram necessárias para distribuir as mulheres entre os homens; tais disposições, estranhas e precisas, se compreendem ao examinarmos o interesse de uma distribuição regular. O interdito actuava como uma regra qualquer, mas as regras foram estabelecidas para responder a preocupações secundárias, que nada tinham a ver com a violência sexual e com o perigo que ela apresentava para a ordem racional. Se Lévi-Strauss não tivesse mostrado qual a origem de um determinado aspecto da regra dos casamentos, não haveria nenhuma razão para não procurar aí o sentido da proibição do incesto. Segundo ele, este aspecto tinha respondido simplesmente à preocupação de dar uma solução ao problema da repartição das mulheres disponíveis através da doação. Se continuarmos a procurar um sentido para o movimento geral do incesto, que proíbe a união física entre parentes próximos, devemos pensar primeiramente no sentimento forte que persiste. Este sentimento não é fundamental, mas as comodidades que decidiram modalidades do interdito não eram assim tão simples. Parece natural, num primeiro momento, procurar uma causa a partir de formas aparentemente muito antigas. Uma vez aprofundada, a pesquisa revela o contrário. A causa revelada não pôde ordenar o princípio de uma limitação, mas sim utilizar o princípio para fins ocasionais. Devemos relacionar o caso particular à totalidade das interdições religiosas que conhecemos e não deixamos de sofrer. Existe em nós algo de mais firme que o horror ao incesto? (A ele acrescento o respeito aos mortos, mas só posteriormente mostrarei essa unidade primeira onde o conjunto dos interditos aparece relacionado). É inumano aos nossos olhos unir-se fisicamente ao pai, à mãe, e igualmente ao irmão ou à irmã. A definição dos que não devemos conhecer sexualmente é variável. Mas, sem que a regra tenha sido jamais definida, não devemos em princípio nos unir aos que viviam no ambiente familiar no momento em que nascemos; há, desse lado, uma limitação que seria mais clara, sem dúvida, se outros interditos variáveis, arbitrários aos olhos dos que não se submetem a ele, não estivessem aí confundidos. No centro, um núcleo bastante simples, bastante constante; em volta, uma mobilidade complexa, arbitrária, caracterizam esse interdito elementar: quase por toda parte se encontra o núcleo sólido, e ao mesmo tempo a mobilidade fluida que o cerca. Essa mobilidade dissimula o sentido do núcleo. O núcleo não é ele próprio intangível, mas, ao abordá-lo, percebemos melhor o horror primeiro, que se repercute ao acaso, algumas vezes de acordo com a comodidade. Trata-se sempre essencialmente de uma incompatibilidade da esfera onde domina a acção tranquila e moderada com a violência do impulso sexual. No decorrer dos séculos, as regras que daí decorrem podiam ser definidas sem um formalismo variável e arbitrário?» In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972-608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT

Erotismo, Filosofia, Georges Bataille, JDACT, Literatura,

O Erotismo. Georges Bataille. «A fórmula de Caillois me leva a dizer desde já (sem nela me deter) desse interdito informe e universal que ele é sempre o mesmo. Como sua forma, seu objecto muda…»

jdact e wikipedia

O interdito ligado à reprodução

«(…) Essas restrições variam grandemente de acordo com as épocas e os lugares. Todos os povos não sentem da mesma maneira a necessidade de esconder os órgãos da sexualidade; mas escondem geralmente da visão o órgão masculino em erecção; e, em princípio, o homem e a mulher procuram a solidão no momento da conjunção. A nudez, nas civilizações ocidentais, transformou-se no objecto de um interdito bastante pesado, bastante geral, mas o tempo presente questiona o que parecia ser um fundamento. A experiência que temos de mudanças possíveis não mostra, aliás, o sentido arbitrário dos interditos: ela prova, ao contrário, um sentido profundo que eles têm, apesar de mudanças superficiais que incidem sobre um ponto que em si mesmo não teve importância. Conhecemos hoje a fragilidade dos aspectos que demos ao interdito informe de onde decorre a necessidade de uma actividade sexual subordinada a restrições geralmente observadas. Mas adquirimos nessa ocasião a certeza de uma regra fundamental que exige nossa submissão a certas restrições em comum. O interdito que se opõe em nós à liberdade sexual é geral, universal; os interditos particulares são os seus aspectos variáveis. Espanta-me ser o primeiro a dizer isto tão claramente. É comum isolar um interdito particular, como a proibição do incesto, que é somente um seu aspecto, e só ir buscar explicação fora de seu fundamento universal que é a interdição informe e universal, cujo objecto é a sexualidade. Mas, excepcionalmente, Roger Caillois escreve: Problemas que fizeram correr muita tinta, como a proibição do incesto, só podem receber solução exacta se os considerarmos como casos particulares de um sistema que abranja a totalidade das interdições religiosas numa determinada sociedade. A meu ver, a fórmula de Caillois é perfeita no seu princípio, mas determinada sociedade é ainda um caso particular, um aspecto. O que deve ser abordado no momento é a totalidade das interdições religiosas de todos os tempos, em todos os lugares.

A fórmula de Caillois me leva a dizer desde já (sem nela me deter) desse interdito informe e universal que ele é sempre o mesmo. Como sua forma, seu objecto muda: mas, quer se trate da sexualidade ou da morte, o que é sempre visado é a violência, a violência que assusta e que fascina.

A proibição do incesto

O caso particular da proibição do incesto é o que mais chama a atenção, ao ponto de substituir numa representação geral o interdito sexual propriamente dito. Todos sabemos que existe um interdito sexual informe e indizível: a humanidade inteira o observa, mas de uma maneira bem diversificada, de acordo com os tempos e os lugares, de sorte que não foi possível se chegar a uma fórmula que permitisse falar dele de uma forma mais abrangente. A interdição do incesto, que não é menos universal, traduz-se em práticas precisas sempre rigorosamente bem formuladas, e uma só palavra, cujo sentido formal não é contestável, dá a sua definição geral. É esta a razão porque o incesto foi o objecto de numerosos estudos, enquanto o interdito do qual ele é apenas um caso particular, e de onde deriva um conjunto sem coerência, não ocupa um lugar no espírito dos que têm a oportunidade de estudar os comportamentos humanos. Tanto é verdade que a inteligência humana é levada a considerar o que é simples e definível e a negligenciar o que é vago, fugidio e variável. Assim, o interdito sexual escapou até agora à curiosidade dos estudiosos, enquanto as formas variadas do incesto, não menos claramente determinadas que as das espécies animais, propunham o que eles queriam: enigmas sobre os quais podiam exercer sua sagacidade». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972-608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT

Erotismo, Filosofia, Georges Bataille, JDACT, Literatura, 

Umberto Eco. Idade Média. «… frei Dolcino e os seus sequazes, e na origem de tais movimentos estão sempre as premissas fundamentais sobre o fim do mundo a breve prazo, o advento de uma era do Espírito Santo e a identificação do pontífice e dos príncipes da Igreja com o Anticristo»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Idade Média não foi apenas uma época de ortodoxia triunfante.

«(…) O que na Idade Média torna fascinante o Apocalipse é a ambiguidade substancial do seu capítulo XX. Interpretado à letra, este capítulo diz que, a certo ponto da história da humanidade, Satanás fica preso por mil anos. Durante todo o período em que está preso, realiza-se na Terra o Reino de Cristo. Depois, o Diabo é libertado por um certo tempo e, finalmente, de novo vencido. Nessa altura, Cristo dará início, no seu trono, ao Juízo Universal, a história terrena terminará (e já estamos no começo do capítulo XXI) e haverá um novo Céu e uma nova Terra, ou seja, o advento da Jerusalém Celeste. Numa primeira leitura, devemos esperar uma segunda vinda do Messias e mil anos de idade do ouro (prometida, por outro lado, por muitas religiões antigas) e um preocupante regresso do demónio e do seu falso profeta, o Anticristo (como a tradição tenderá gradualmente a chamar-lhe), e finalmente o Juízo e o fim dos tempos. Mas Agostinho sugere outra leitura: o milénio representa o período que vai da Encarnação ao fim da História e é, pois, o período que os cristãos já estão a viver. Neste caso, a espera pelo milénio é substituída por outra; a espera pelo regresso do demónio e, depois, pelo fim do mundo.

A história do Apocalipse na Idade Média move-se entre estas duas possíveis leituras, numa alternância de euforia e disforia e com um sentimento de perene expectativa e tensão. Porque ou Cristo chega para reinar durante mil anos na Terra ou vem para pôr termo aos actuais mil anos; mas, em qualquer caso, virá. O resto são discussões sobre os tempos do calendário místico. Todas as heresias medievais, especialmente as que nascem não só de um impulso religioso como também da impaciência acerca das injustiças da sociedade, têm uma raiz milenarista. Enquanto as inquietações anteriores ao ano 1000 eram suportadas passivamente por uma humanidade abandonada a si própria, no novo milénio a sociedade organiza-se e as cidades definem-se como comunas independentes; desenha-se toda uma gama de diferenças sociais: ricos, poderosos, guerreiros, clero, artífices, camponeses e massas sub-proletárias. Estas massas começam a ler o Apocalipse de um modo activo, como se ele dissesse respeito a um futuro melhor que elas obtivessem com um empenhamento directo. Não são movimentos sociais organizados para fins exclusivamente económicos, mas reacções anárquico-místicas, com cambiantes imprecisas em que rigorismo e devassidão, sede de justiça e banditismo vulgar se reúnem sob uma matriz visionária comum. Estes movimentos manifestam-se, principalmente, em áreas gravemente envolvidas num processo de rápida mutação económica e social. Camponeses sem terra, operários não qualificados, mendigos e vagabundos formam um elemento instável; qualquer estímulo perturbante e excitante, o chamamento para uma cruzada, uma peste, uma escassez, provocava reacções violentas e suscitava habitualmente a formação de um grupo que ficava à espera, com frequência não meramente passiva, de transformações radicais sob a chefia de um guia carismático.

Deste modo temos, século a século, grupos de homens irrequietos e violentos, de entusiastas dispostos ao extremo sacrifício, agitados por esperanças mirabolantes. O milenarismo, com a expectativa de uma idade de ouro, é a forma medieval da crença no advento de uma sociedade sem classes, em que não haja reis, príncipes nem senhores. E assim, por via dos ecos apocalípticos, se inserem tendências populisto-comunistas nos mais diversos movimentos do povo, de Cola di Rienzo a Savonarola. Seguindo a pregação milenarista de Gioacchino da Fiore, e em espírito apocalíptico, apoderam-se da palavra joaquimita os rigoristas franciscanos, os chamados irmãozinhos, e joaquimitas serão no século XIV frei Dolcino e os seus sequazes, e na origem de tais movimentos estão sempre as premissas fundamentais sobre o fim do mundo a breve prazo, o advento de uma era do Espírito Santo e a identificação do pontífice e dos príncipes da Igreja com o Anticristo». In Umberto Eco (organização), Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN  978-972-204-479-0.

Cortesia PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento,

domingo, 9 de janeiro de 2022

Umberto Eco. Idade Média. «Mas a leitura que a Idade Média faz deste texto é dúbia. De um lado, a interpretação ortodoxa, com A Cidade de Deus de Santo Agostinho como ponto de partida; do outro, a dos marginais, dos heréticos, que em todos os séculos…»

Cortesia de wikipedia

A Idade Média não foi a única época iluminada por fogueiras

«(…) Galileu não foi queimado, mas em 1619, em Toulouse, foi queimado Giulio Cesare Vanini, acusado de heresia, e em 1630, em Milão, como nos conta Manzoni, foi queimado Gian Giacomo Mora, acusado de propagar a peste com unguentos contaminados. O mais feroz manual da Inquisição [maldita (nevrótica fenomenologia da feitiçaria e cruel testemunho de misoginia e fanático obscurantismo)], o infame Malleus Maleficarum, de Kramer e Sprenger, é de 1486 (só seis anos antes do fim oficial da idade das trevas), e a mais implacável perseguição das bruxas decorre, com as suas fogueiras, do Renascimento em diante.

A Idade Média não foi apenas uma época de ortodoxia triunfante.

Outra ideia corrente sobre a Idade Média é a de ter sido uma época rigidamente vigiada por um aparelho piramidal do poder, temporal e espiritual, com uma rígida divisão de senhores e súbditos, sem que da base emanasse o mínimo sinal de impaciência e revolta. Mas isto é, quando muito, uma piedosa visão da Idade Média sonhada pelos reacionários de todos os séculos, avessos às polémicas, revoltas e contestações dos tempos modernos. Prescindindo de ter sido na Idade Média que são limitados os poderes dos soberanos, pois a Magna Carta data de 1215, e afirmadas as liberdades das comunas perante o Império Germânico, é na Idade Média que pela primeira vez se esboça uma espécie de luta de classes dos humildes contra os poderosos, mais ou menos apoiada em ideias religiosas de renovação do mundo, por isso julgadas heréticas. Tudo isto está relacionado com o milenarismo medieval; mas para compreender o milenarismo é preciso reconhecer à Idade Média, além do cristianismo das origens, aquilo a que poderíamos chamar a invenção da História, ou de uma sua direcção. A cultura pagã é uma cultura sem história. Júpiter existe desde sempre. Empenhado em pequenas aventuras com os humanos, modifica-lhes os destinos individuais, mas não se compromete com o andar do mundo. O mito é narrado na forma do já acontecido. Não é reversível. Os deuses intrometem-se, por vezes, com promessas e garantem um futuro resultado dos acontecimentos (Ulisses voltará a casa, palavra de deusa), mas o facto diz sempre respeito a indivíduos ou a pequenos grupos. O maior de todos os frescos históricos é a Eneida, a promessa de Vénus a Eneias que implica o destino de um povo inteiro; mas Virgílio garante apenas os acontecimentos desde Eneias até Augusto. A Eneida é a promessa de um destino histórico dos romanos que já está realizado no momento em que é narrado, e a Écloga IV diz respeito ao presente (competirá depois aos medievais lê-la como documento escatológico e acentuar os indícios de tensão para o futuro que aparecem em Virgílio).

Pelo contrário, o profetismo hebraico está nas origens da visão cristã da História; o profetismo hebraico respeita só ao destino de um povo e não ao destino do mundo, mas a promessa de um Messias implica frequentemente uma escatologia revolucionária, segundo a qual as coisas últimas se verificarão sob o impulso de uma força disruptiva e o poderio romano será destruído por um rei guerreiro dotado de poderes miraculosos. No cristianismo, a história da humanidade tem um início, a Criação, um incidente, o pecado original, um nodo central, a Encarnação e a Redenção, e uma perspetiva: o caminho para o regresso de Cristo Triunfante, a Parusia, o Juízo Universal e o fim dos tempos. O sentido da história nasce e toma forma, principalmente, com esse texto visionário e terrível que é o Apocalipse, atribuído a São João Evangelista, e continua com a reflexão patrística até culminar em Santo Agostinho. Os impérios da terra vivem e morrem, e ao longo dos séculos só se define a Cidade de Deus, oposta à cidade terrena, que é o seu epifenómeno ou a sua negação. Todo o contrário, como é óbvio, do sentido laico e liberal da história terrena, que ganhará forma entre o século XVIII e o seguinte com as doutrinas românticas e idealistas e, por fim, com o marxismo. Mas é indubitável que o sentido da História, como vivência móvel da humanidade entre um início e um fim, nasce com o Apocalipse, com vaticínios que respeitam a algo que ainda está para vir e que nos diz que a História é o lugar de um contínuo recontro de Deus com Satanás, o combate da Jerusalém Celeste contra a Babilónia.

Mas a leitura que a Idade Média faz deste texto é dúbia. De um lado, a interpretação ortodoxa, com A Cidade de Deus de Santo Agostinho como ponto de partida; do outro, a dos marginais, dos heréticos, que em todos os séculos se baseiam no Apocalipse para estabelecer programas de intransigência revolucionária ou ascética que identificam pouco a pouco os representantes da cidade terrena e da Babilónia com a Igreja, os corruptos ministros do culto ou o poder temporal. Ambos os filões serão agitados por uma esperança e um terror: esperança, porque o Apocalipse promete a salvação final, e até uma comunidade terrena reconhecível, a dos eleitos, quer vivam na Igreja oficial quer se lhe oponham para constituir uma fileira que a Igreja maltrata e combate, e terror, porque a via para a solução final da História está constelada de horrores inomináveis (e João não nos poupa a nenhum)». In Umberto Eco (organização), Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN  978-972-204-479-0.

Cortesia PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento, 

sábado, 8 de janeiro de 2022

As Areias do Tempo. Sidney Sheldon. «Quando a reverenda madre estava insatisfeita, unia os dedos mínimos três vezes, na frente do corpo, os outros dedos comprimidos contra as palmas. Quando Lúcia se mostrava lenta na execução de seu trabalho, a reverenda madre comprimia…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ávila

«(…) Recostou-se no catre pequeno e desconfortável, desesperada por um cigarro. Relutante, saiu da cama. O pesado hábito que usava até para dormir roçava contra sua pele sensível como lixa. Pensou em todas as lindas roupas de estilistas penduradas no seu apartamento em Roma e no Chalé em Gstaad. Irmã Lúcia podia ouvir o movimento suave e farfalhante das freiras, reunindo-se no corredor. Negligente, ela arrumou a cama e também saiu para o extenso corredor, onde freiras entravam em fila, olhos baixos. Lentamente, todas começavam a encaminhar-se para a capela. Parecem um bando de pinguins idiotas, pensou irmã Lúcia. Não conseguia entender porque aquelas mulheres haviam deliberadamente renunciado às suas vidas, desistindo de sexo, belas roupas e boa comida. Sem estas coisas, que motivo existe para continuar a viver? E as malditas regras! Quando irmã Lúcia entrara no convento, a reverenda madre avisara-lhe: Deve andar com a cabeça baixa. Mantenha as mãos cruzadas por dentro do hábito. Dê passos curtos. Ande devagar. Nunca deve fazer contacto visual com qualquer das outras irmãs ou sequer olhar para elas. Não pode falar. Seus ouvidos são para escutar as palavras de Deus. Está bem, reverenda madre. Durante o mês seguinte Lúcia recebera as instruções.

As que vieram para cá não tinham a intenção de se juntarem às outras, mas sim habitar a sós com Deus. A solidão do espírito é essencial para uma união com Deus. É salvaguardada pelas regras do silêncio. Está bem, reverenda madre. Deve sempre obedecer ao silêncio dos olhos. Fitar as outras nos olhos a distrairia com imagens inúteis. Está bem, reverenda madre. A primeira lição que aprenderá aqui será rectificar o passado, expulsar os velhos hábitos e inclinações seculares, apagar todas as imagens do passado. Fará penitência de purificação e mortificação para se despojar da vontade e amor próprios. Não basta se arrepender das ofensas passadas. Quando compensar não apenas seus pecados, mas também por todos os pecados que já foram cometidos. Está bem, reverenda madre. Deve lutar contra a sensualidade, o que João da Cruz chamou de a noite dos sentidos. Está bem, reverenda madre. Cada freira vive em silêncio e solidão, como se já estivesse no céu. Nesse silêncio puro e precioso, pelo qual tanto anseia, ela é capaz de escutar o silêncio infinito e possuir Deus. Ao final do primeiro mês, Lúcia recebera os votos iniciais.

Tivera que cortar os cabelos no dia da cerimónia. Fora uma experiência traumática. A reverenda madre cuidava disso pessoalmente. Convocara Lúcia à sua sala e fizera um sinal para que ela se sentasse. Prostrara-se às suas costas e, antes que Lúcia percebesse o que estava acontecendo, ouvira o barulho da tesoura e sentira alguma coisa puxando-lhe os cabelos. Começara a protestar, mas compreendera subitamente que aquilo só podia melhorar o seu disfarce. Poderei deixá-lo crescer de novo mais tarde, pensara. Enquanto isso, ficarei parecendo uma galinha depenada. Ao voltar para o cubículo lúgubre que lhe fora designado Lúcia pensara: Este lugar é um ninho de serpentes. O chão consistia de tábuas soltas. A enxerga e a cadeira de encosto recto ocupava a maior parte do espaço. Sentira-se ansiosa por ler um jornal. Não há a menor possibilidade, reflectia. Naquele lugar nunca tomava conhecimento dos jornais, muito menos escutavam rádio ou viam televisão. Não havia qualquer ligação com o mundo exterior. Contudo, o que mais afectava os nervos de Lúcia era o silêncio desolador. A única comunicação era feita através de sinais com as mãos, e aprendê-los a levara à loucura. Quando precisava de uma vassoura, devia deslocar a mão direita estendida da direita para a esquerda, como se estivesse varrendo.

Quando a reverenda madre estava insatisfeita, unia os dedos mínimos três vezes, na frente do corpo, os outros dedos comprimidos contra as palmas. Quando Lúcia se mostrava lenta na execução de seu trabalho, a reverenda madre comprimia a palma da mão direita contra o ombro esquerdo. Para censurar Lúcia, ela coçava a própria face, perto do ouvido direito, com todos os dedos da mão direita, num movimento para baixo. Pelo amor de Deus, pensava Lúcia, parece que ela está coçando uma mordida de pulga. Elas chegaram à capela. As freiras rezaram silenciosamente; contudo, os pensamentos de irmã Lúcia se concentravam em coisas mais importantes do que Deus. Mais um ou dois meses, quando a polícia parar de me procurar, sairei deste hospício. Depois das orações matutinas, irmã Lúcia marchou com as outras para o refeitório, violando furtivamente os regulamentos, como fazia todos os dias, ao estudar os rostos das companheiras. A sua única diversão. Ela achava incrível pensar que nenhumas das irmãs sabia como as outras pareciam. Sentia-se fascinada pelos rostos das freiras. Algumas eram jovens, algumas velhas, outras bonitas, e feias. Não podia compreender porque todas pareciam tão felizes. Havia três rostos que Lúcia achava particularmente interessantes. Um era o da irmã Teresa, que parecia ter cerca de sessenta anos. Estava longe de ser bonita, mas possuía uma espiritualidade que lhe proporcionava um encanto quase sublime. Parecia estar sempre sorrindo interiormente, como se estivesse por dentro de algum segredo maravilhoso». In Sidney Sheldon, As Areias do Tempo, 1989, Publicações Europa-América, 2003, ISBN 978-972-105-176-8.

Cortesia PEuropaAmérica/JDACT

 JDACT, Sidney Sheldon, Literatura, Espanha, Política,

As Areias do Tempo. Sidney Sheldon. «Havia uma serenidade indescritível dentro dos muros e nos corações das mulheres que ali viviam. Se o convento era uma prisão, tratava-se de uma prisão no Éden de Deus…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ávila

«(…) As velas nos castiçais antigos projectavam sombras evocativas nos tectos e paredes. Em quatrocentos anos, nada mudara dentro dos muros do convento, excepto os rostos. As irmãs não tinham pertences pessoais, pois desejavam ser pobres, emulando a pobreza de Cristo. A própria igreja era desprovida de ornamentos, salvo uma cruz de ouro maciço, de valor inestimável, antigo presente de uma rica postulante. Por estar tão em desacordo com a austeridade da ordem, era mantida num armário no refeitório. Uma cruz de madeira simples pendia no altar da igreja. As mulheres que partilhavam suas vidas com o Senhor viviam juntas, trabalhavam juntas, comiam juntas e rezavam juntas, mas nunca se tocavam e se falavam. As únicas excepções permitidas eram quando ouviam a missa ou quando a reverenda superiora Betina lhes falava na privacidade da sua sala. Mesmo então, uma antiga linguagem de sinais era usada ao máximo possível. A reverenda madre era uma religiosa com cerca de setenta anos, expressão inteligente, jovial e dinâmica, glorificada na paz e alegria de vida no convento, uma vida consagrada a Deus. Protectora irredutível das suas freiras, sentia muita angústia quando era necessário impor a disciplina, mais do que aquela que estava sendo punida. As freiras circulavam pelos claustros e corredores de olhos baixos, mãos cruzadas dentro das mangas, na altura do peito, passando e repassando pelas suas irmãs sem qualquer palavra ou sinal de reconhecimento. A única voz no convento era a dos sinos, os sinos que Vitor Hugo chamou de A ópera dos Campanários.

As irmãs vinham de antecedentes díspares e de muitos países diferentes. Pertenciam a famílias de aristocratas, camponeses, soldados... Chegaram ao convento como ricas e pobres, instruídas e ignorantes, miseráveis e exaltadas, mas ali eram todas iguais aos olhos de Deus, unidas no seu desejo de casamento eterno com Jesus. As condições de vida no convento eram espartanas. No Inverno o frio era cortante, e uma luz pálida filtrava-se pelas janelas gradeadas. As freiras dormiam plenamente vestidas em enxergas de palha, cobertas por mantas ásperas de lã, cada uma na sua pequena cela, mobilada apenas com uma cadeira de pau, de encosto recto. Não havia lavatório, um pequeno jarro de barro e uma bacia ficava no chão, no canto da cela. Nenhuma freira tinha permissão para entrar na cela da outra, à excepção da reverenda madre Betina. Não havia nenhum tipo de recreação, apenas trabalho e orações. Havia áreas de trabalho para tricotar, encadernar livros, fiar e fazer pão. Havia oito horas de oração diárias: matinas, laudes, primas, terças, sextas, nonas, vésperas e completas. Havia ainda outras devoções: bênçãos, hinos e litanias. Matinas era a oração que se fazia quando metade do mundo estava dormindo e a outra metade absorvida no pecado.

Laudes, o ofício do amanhecer, seguia-se às matinas, o nascer do sol aclamando como a figura de Cristo, triunfante e glorificado. Primas era a oração matutina da igreja, pedindo as bênçãos para as obras do dia. Terças, acontecia às nove horas da manhã, consagrada por Santo Agostinho ao Espírito Santo. Sextas, eram às onze e meia, evocada para extinguir o calor das paixões humanas. Nonas, era recitada em silêncio às três horas da tarde, a hora da morte de Cristo. Vésperas, era o serviço vespertino da igreja, como laudes fora a oração do amanhecer. Completas, eram às últimas horas canónicas dos ofícios divinos. Uma forma de orações nocturnas, um preparativo para a morte e também para o sono, encerrando o dia com uma declaração de submissão amorosa: Manus tuas, domine, comendo spiritum meum. Redemisti nos, domine, deus, veritatis.

Em algumas das outras ordens a flagelação fora abolida, mas sobrevivia nos conventos e mosteiros Cistercienses de clausura. Pelo menos uma vez por semana, e às vezes todos os dias, as freiras puniam seus corpos com a Disciplina, um açoite de trinta centímetros de comprimento, de corda fina, encerado, com seis pontas nodosas que provocavam uma dor angustiante; era usado para espancar as costas, pernas e nádegas. Bernard de Clairvaux, o ascético abade dos Cistercienses, advertira: O corpo de Cristo está aniquilado..., nossos corpos devem se conformar à semelhança do corpo ferido de Nosso Senhor. Era uma vida mais austera do que em qualquer prisão, mas as irmãs viviam em êxtase, como jamais ocorrera no mundo exterior. Haviam renunciado ao amor físico, bens pessoais e liberdade de opção, mas ao abrirem mão dessas coisas também renunciaram à ganância e competição, ódio e inveja, a todas as pressões e tentações que o mundo exterior impunha. No interior do convento reinava uma paz absoluta e o inefável sentimento de alegria pela união com Deus. Havia uma serenidade indescritível dentro dos muros e nos corações das mulheres que ali viviam. Se o convento era uma prisão, tratava-se de uma prisão no Éden de Deus, com o conhecimento de uma eternidade feliz para as que escolheram livremente ingressar e permanecer ali.

A irmã Lúcia foi despertada pelo repicar do sino do convento. Abriu os olhos, surpresa e desorientada por um momento. Na pequena cela em que dormia ainda estava escuro, uma escuridão desoladora. O som do sino avisava-lhe que eram três horas da madrugada, quando o ofício das vigílias começava. Droga! Esta rotina vai matar-me, pensou a irmã Lúcia». In Sidney Sheldon, As Areias do Tempo, 1989, Publicações Europa-América, 2003, ISBN 978-972-105-176-8.

Cortesia PEuropaAmérica/JDACT

JDACT, Sidney Sheldon, Literatura, Espanha, Política,

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

As Areias do Tempo. Sidney Sheldon. «Dentro dos muros do convento havia um sistema de escadas e passagens internas ligando o refeitório, sala comunitária, celas e capela, predominando por toda a parte um ambiente de amplitude fria e limpa»

Cortesia de wikipedia e jdact

Madrid

«(…) É como disse um dos nossos grandes escritores: Ninguém na Espanha se preocupa com o bem comum. Cada grupo se interessa apenas por si mesmo. A Igreja, os bascos, os catalães. Cada um diz que se fod… os outros. O bispo sabia que o coronel Acoca citara errado Ortega y Gasset. A citação inteira incluía o exército e o governo; mas, sabiamente, não disse nada. Tornou a se virar para o primeiro-ministro, à espera de uma discussão racional. Excelência, a Igreja Católica... O primeiro-ministro achou que Acoca já fora longe demais. Não nos interprete mal, bispo. Em princípio, é claro, este governo está dando total apoio à Igreja Católica. O coronel Acoca interveio outra vez. Mas não podemos permitir que suas igrejas, mosteiros e conventos sejam usados contra nós. Se continuarem a permitir que os bascos guardem armas e realizem reuniões neles, terão de arcar com as consequências. Tenho certeza de que as informações que recebeu estão equivocadas, declarou o bispo, suavemente. Mas pode estar certo de que ordenarei uma investigação imediata. O primeiro-ministro murmurou: Obrigado, bispo. Isso é tudo que pedimos. Martínez e Acoca ficaram observando o bispo se retirar. Depois o primeiro-ministro perguntou: O que acha? Ele sabe o que está acontecendo. O primeiro-ministro suspirou. Já tenho problemas suficientes neste momento sem criar uma crise com a Igreja. Se a Igreja é a favor dos bascos, então está contra nós. A voz do coronel Acoca era mais enérgica agora. Eu gostaria que me concedesse permissão para dar uma lição ao bispo. O primeiro-ministro foi contido pela expressão de fanatismo nos olhos do coronel. Tornou-se cauteloso. Tem mesmo informações de que as igrejas estão ajudando os rebeldes? Claro, Excelência.

Não havia como determinar se o homem dizia mesmo a verdade. O primeiro-ministro sabia o quanto Acoca odiava a Igreja. Mas talvez fosse bom deixar que a Igreja sentisse o gosto do açoite, desde que o coronel Acoca não fosse longe demais. O primeiro-ministro Martínez ficou imóvel por um instante, pensativo. Foi Acoca quem rompeu o silêncio: Se as igrejas estão abrigando terroristas, então elas devem ser punidas. Relutante, o primeiro-ministro anuiu com a cabeça. Por onde vai começar? Jaime Miró e seus homens foram vistos em Ávila ontem. Provavelmente estão escondidos no convento local. O primeiro-ministro decidiu-se. Reviste-o. Essa decisão desencadeou uma sucessão de acontecimentos que sacudiu toda a Espanha e abalou o mundo.

Ávila

O silêncio era como uma nevasca amena, suave e aconchegante, tão tranquilizante quanto o sussurro de um vento de Verão. O convento Cisterciense da Estrita Observância ficava nos arredores da cidade muralhada de Ávila, a mais alta cidade da Espanha, 112 quilómetros a noroeste de Madrid. O convento fora construído para o silêncio. As regras haviam sido adoptadas em 1601, e permaneceram inalteradas ao longo dos séculos: liturgia, exercício espiritual, reclusão rigorosa, permanência e silêncio. Sempre silêncio. O convento era um conjunto simples de prédios de pedra, em torno de um claustro, dominado pela igreja. Ao redor do prédio central as arcadas abertas permitiam que a claridade se espalhasse pelos largos blocos de pedra do chão, onde as freiras deslizam sem fazer barulho. Havia quarenta freiras no convento, rezando na igreja e vivendo no claustro.

O convento de Ávila era um dos sete que restaram na Espanha, um sobrevivente das centenas que haviam sido destruídos na Guerra Civil, num dos periódicos movimentos anti-Igreja que dominam o país ao longo dos séculos. O convento Cisterciense de Estrita Observância era devotado exclusivamente a uma vida de orações. Era um lugar sem estações ou tempo, e aquelas que ali ingressavam se tornavam para sempre isoladas do mundo exterior. A vida cisterciense era contemplativa e penitencial; o ofício divino era recitado todos os dias, e a clausura era completa e permanente. Todas as irmãs vestiam-se de forma idêntica, e os seus trajes, como tudo no convento, eram caracterizados pelo simbolismo de séculos. O capuche, o manto e capuz, simbolizava inocência e simplicidade, a túnica de linho representava a renúncia às coisas do mundo e mortificação; o escapulário, pequenos quadrados de lã usados sobre os ombros, indicava a disposição para o trabalho árduo. Uma touca, uma cobertura de linho disposta em dobras por cima da cabeça e em volta do queixo, lados do rosto e pescoço, completava o uniforme. Dentro dos muros do convento havia um sistema de escadas e passagens internas ligando o refeitório, sala comunitária, celas e capela, predominando por toda a parte um ambiente de amplitude fria e limpa. Janelas de treliça com vidro grosso davam para um jardim murado. Cada janela era guarnecida com barras de ferro e ficava acima da linha de visão, para que não houvesse distracções externas. O refeitório era amplo e austero, as janelas tinham persianas e cortinas». In Sidney Sheldon, As Areias do Tempo, 1989, Publicações Europa-América, 2003, ISBN 978-972-105-176-8.

Cortesia PEuropaAmérica/JDACT

JDACT, Sidney Sheldon, Literatura, Espanha, Política,  

Luís Miguel Rocha. A Mentira Sagrada. «A agenda mental normalmente assinalava sempre qualquer coisa, uma reunião, um telefonema, um almoço, comprar um presente, uma flor para Myriam…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Diz-se que a noite é sempre boa conselheira, mas é também a coberto dela que se perpetram crimes, que se contam segredos, que se perpetuam mistérios. Jantaram na mesa número 205 do deck 14. Myriam quis que fossem ver a peça que estava em cartaz. Na verdade era mais do que uma, pois chamava-se Musicais da Broadway, um resumo das principais cenas e músicas de Cats, West Side Story, O Fantasma da Ópera e outros clássicos renomados, da batuta de Andrew Lloyd Webber. Não era obra que ficasse na retina, mas foi agradável. Uma espécie de pastiche de digestão fácil porque afinal em férias não há porque se desgastar com dramas ou obras de profundidade dramática excessiva. Recolheram ao quarto já passava das onze da noite. Myriam estava feliz e era esse o objectivo. Estás bem, meu querido?, perguntou-lhe. Pareces muito desligado hoje. Andas bem? Estou bem, Myr. Não te preocupes. Falaste com o Ben esta noite? Falei, mentiu. Vou-lhe ligar novamente à meia-noite, se não te importas. Hoje foi um dia importante para ele. Tão tarde? E ainda mais em Jerusalém, censurou franzindo o cenho. É. Ele pediu. Está bem. Mas não fiques uma hora ao telefone. Já sabes que tenho frio de noite.

Está descansada, querida. Será rápido. A voz sumia-se cada vez mais. Não conseguira falar com o Ben Júnior. O telefone estivera sempre desligado. O assistente não conseguira localizá-lo em lado nenhum. Não estava na propriedade que os Isaac possuíam em Telavive, tão-pouco apareceu na sede da empresa . Temia que o bilhete que recebera ao pequeno-almoço estivesse relacionado com o desaparecimento do filho. Não fazia ideia de quem o enviara, nem quem poderia estar ao corrente do Statu Quo. Fosse como fosse em breve o saberia. Passou o dia a desconfiar de tudo e de todos. Dos empregados sorridentes, dos restantes turistas, independentemente do género; só Myriam escapava à suspeita. Perguntou-se centenas de vezes se o emissor da mensagem estaria no barco, se estaria a observá-lo, se, se, se. Isto num homem que sempre evitou os ses. No dia anterior aportaram em Livorno e visitaram Florença e poderia muito bem ter sido aí que o interlocutor entrara, muito a tempo de sair no dia seguinte, em Nápoles, aproveitando o corre-corre do navio, de porto em porto na costa ocidental italiana. Era uma agulha num palheiro no meio de três mil pessoas. Beijou Myriam carinhosamente na testa e saiu para a piscina.

Não demores, advertiu Myriam antes de ele bater gentilmente à porta. Não sabia que outra resposta dar se não um Será rápido, mas a verdade é que não sabia para o que ia. A agenda mental normalmente assinalava sempre qualquer coisa, uma reunião, um telefonema, um almoço, comprar um presente, uma flor para Myriam, mas, neste ponto, a nove minutos da meia-noite, estava em branco. Caminhou pelo corredor do deck 14 em direcção ao elevador. Subiria um lanço e dali à piscina não levaria mais de dois ou três minutos no seu passo lento e nervoso. As pernas tremiam-lhe como se pressentissem um abismo. Passou por alguns turistas que cambaleavam à procura do equilíbrio no regresso ao quarto que não lembravam onde ficava. Os empregados arrumavam a desordem do dia, o lixo que os impudicos lançavam ao chão sem culpa, beatas de cigarro, copos de plástico, pedaços de comida.

Perto da piscina o movimento era menor, estranhamente, ou talvez não. Bem Isaac deu por si ofegante. Não fora grande caminhada, nem havia subidas ou descidas íngremes. Não estava ninguém. A água ondulava ao sabor do gigantesco navio. Iluminação submersa pintalgava a água de um azul-vivo, cujo movimento ondeante a transformava num organismo com vida. Não viu vivalma. Estranho. Mas nada naquele dia fora normal. Consultou o relógio. Onze e cinquenta e sete. Os segundos matutavam na cabeça dele ou seria o coração a latejar nas veias que marcava o ritmo da inquietação. Os três minutos pareceram seis e depois doze, até que chegou a meia-noite e..., nada aconteceu. Verdade que era apenas a hora do seu relógio, talvez ainda não fosse meia-noite no relógio do outro interveniente, fosse ele ou ela quem fosse. Olhou ao seu redor e não sentiu qualquer movimento. A noite estava fria, desagradável. O navio deslizava lentamente para sul, abrindo caminho pelas águas do Tirreno. Dois minutos depois da hora, segundo o seu relógio, ouviu um disparo oco. Não saberia apontar a proveniência dele mas é certo que o que quer que fosse não passou nem perto de si. De qualquer forma sentia-se demasiado exposto. Momentos após o disparo e as dúvidas viu algo a descer no céu, lentamente. Estava a cerca de 50 metros de altura e descia em direcção à piscina. Ao princípio não conseguiu descortinar o que era. Um objecto voador não identificado. Aos trinta metros conseguiu dar um nome ao objecto. Chamava-se paraquedas. Imune à observação atenta de Ben Isaac, o paraquedas manteve a sua descida serena». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Luís Miguel Rocha, Roma, Conhecimentos, Literatura, Actualidade,