sexta-feira, 14 de maio de 2021

A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Emily ficou olhando a folha criptografada, completamente intrigada. Aquilo tudo tinha toda a aparência de um conjunto de… pistas. Sua confusão silenciosa diante da estranha página»

Cortesia de wikipedia e jdact

Minnesota

«(…) Talvez tenha escrito sobre esse assunto. Enquanto ele estava falando, a máquina de fax começou a funcionar com uma sequência abrupta de bipes e cliques. Emily se levantou da cadeira e caminhou até à mesinha onde ela estava. De uma coisa eu sei, observou Welsh. Ele descobria coisas em qualquer lugar aonde fosse. E, como você diz, passou um grande tempo no Egipto. Então, talvez haja alguma ligação, se tiver interesse em pesquisá-la. Mas quaisquer que fossem os interesses dele, eles agora estão acabados. Aquilo não era humor negro de primeira classe, mas pelo menos era preciso. No momento seguinte, uma folha de papel começou a aparecer na bandeja da máquina de fax. Quando uma segunda folha entrou no alimentador, Emily puxou a primeira de um rolo lento e a ergueu no nível dos olhos. Embora a qualidade fosse ruim e o fundo da carta estivesse ligeiramente cinzento em virtude do scaneamento em preto e branco do que Emily suspeitava ser a cor creme da carta original, o conteúdo era claramente legível. À medida que ela lia, seu corpo ia ficando cada vez mais tenso.

A força com que Emily segurava o papel era quase suficiente para rasgá-lo. Pegou a segunda folha que surgia na máquina de fax. Sua mente ficou intrigada diante do que se apresentava. Uma única linha de texto era seguida por um emblema desconhecido. Abaixo dele, três frases que não mostravam nenhuma relação óbvia entre si estavam listadas.

Duas para Oxford e uma para mais além.


Igreja da Universidade, a mais antiga de todas; Orar, entre duas Rainhas; Quinze, se for de manhã.

Emily ficou olhando a folha criptografada, completamente intrigada. Aquilo tudo tinha toda a aparência de um conjunto de…  pistas. Sua confusão silenciosa diante da estranha página só foi interrompida quando ouviu Welsh se aproximando. Ele tinha observado o olhar intenso de Emily enquanto as folhas saíam da máquina, e tinha decidido ver o que estava absorvendo tão completamente a atenção dela. Quando Emily o ouviu se aproximando, segurou os papéis contra o peito. Que foi? O que foi que desviou sua atenção tão de repente?, perguntou. O que você tem aí? Está tudo bem? Não é nada, não, repetiu Emily, não sei. Pelo menos o último comentário era totalmente verdadeiro. Com sua pulsação continuando a acelerar, Emily, de repente, sentiu-se desconfortável na presença dos seus colegas. Será que eles deveriam ver aquilo? Sem saber exactamente porquê, ela ansiava por privacidade. Sinto muito, preciso ir. Sem olhar nos olhos deles e sem esperar uma resposta, Emily dobrou as páginas que segurou na mão e saiu da sala; a porta bateu depois que ela saiu». In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

JDACT, AM Dean, Literatura, Mistério, 

AM Dean. A Biblioteca Perdida. «Como foi que conseguimos que ele viesse para cá?, perguntou Emily, interrompendo aquela temporária frivolidade. Ainda estava chocada demais para fazer brincadeiras…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Minnesota

«(…) Vocês se importam se eu me sentar convosco?, perguntou. Suponho que estejam falando sobre Arno. Simplesmente não posso acreditar. Nós também não, respondeu Preslin, mexendo a cabeça num gesto acolhedor. Mas eventos dramáticos não são exactamente estranhos para Arno Holmstrand. E o único académico que eu conheço que consta na lista de terroristas feitas por três países diferentes, por causa do tempo que passou no Oriente Médio. Os EUA, a Grã-Bretanha e a Arábia Saudita o consideram uma pessoa de interesse. E o gabinete do Reitor recebeu uma ligaçãozinha telefónica bacana do Departamento de Segurança Interna quando ele veio para cá, querendo saber se nós conhecíamos o passado interessante dele, acrescentou Welsh. Nós falamos para eles que sim, continuou Preslin, que tinha trabalhado por dois semestres num cargo burocrático da universidade antes de retomar a sua função predominantemente docente. Mas acrescentamos que o velho tinha recebido honras em cinco países, tinha sido condecorado pela rainha da Inglaterra com a Ordem do Império Britânico e possuía títulos honorários de sete universidades diferentes.

Emily listou na sua cabeça os nomes que conhecia devido à imensa publicidade que tinha sido gerada em torno da nomeação de Holmstrand. As condecorações penduradas nas paredes da sala dele vinham de Stanford, Notre Dame, Cambridge, Oxford, Edinburgh, Sorbonne e da Universidade do Egipto. E esses eram apenas os que Holmstrand mencionava quando lhe perguntavam. Provavelmente havia uma enorme lista de outras instituições. Mas parece que o governo não achou que isso tinha importância, continuou Preslin. E independentemente de quantas vezes nós lhes disséssemos que o trabalho no Oriente Médio era arqueológico, eles viviam voltando ao ponto. Dava p’ra pensar que escavação arqueológica era um código para acampamento terrorista no vocabulário do governo. Olha, talvez seja mesmo, acrescentou Welsh. Os dois homens deram uma gargalhada sombria.

Como foi que conseguimos que ele viesse para cá?, perguntou Emily, interrompendo aquela temporária frivolidade. Ainda estava chocada demais para fazer brincadeiras, mesmo que fosse numa espécie de homenagem amigável. Nós não conseguimos, respondeu Welsh. Nós podemos ser uma instituição de primeira linha, mas não chegamos nem aos pés das universidades onde Holmstrand costumava actuar. Ele veio porque quis vir. A proposta partiu dele. Ele disse que queria paz e tranquilidade depois de suas aventuras, e desejava voltar às suas raízes numa cidade pequena. Carleton o atraiu, e ele nos escreveu. Ele até se mostrou disposto a aceitar um salário de iniciante, já que não era pelo dinheiro que estava querendo vir para cá.

Não, eu não imaginaria que fosse, disse Emily. Ela deixou que se passasse um momento de silêncio. O conteúdo da carta de Arno não lhe saía da cabeça. Sabem se Holmstrand tinha alguma coisa a ver com a Biblioteca de Alexandria?, perguntou finalmente, não podendo conter a sua curiosidade. Os olhares que vieram dos dois colegas expressavam surpresa. Nenhum dos dois esperava que a conversa tomasse esse rumo. A biblioteca antiga? A biblioteca perdida? O que quer dizer? Não tenho a certeza. Sei que ele estava profundamente envolvido com assuntos egípcios. Mas será que ele pesquisava particularmente a Biblioteca de Alexandria? Será que a estudava? Escrevia sobre ela? Preslin coçou o queixo. Não que eu saiba, respondeu. Mas o homem publicou quase 30 livros. Quem sabe?» In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

JDACT, AM Dean, Literatura, Mistério,

A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Emily firmou a voz. A carta, Mike, trata da morte dele. Ele a escreveu antes de ser morto, sabendo que seria morto»

Cortesia de wikipedia e jdact

Minnesota

«(…) Assassinado? No gabinete dele. Levou três tiros. Ela fez uma pausa e, sem querer, deu um tom ainda mais dramático ao que estava contando. Meu Deus, Emily , sinto muito! As palavras consoladoras de Michael eram sinceras, mas havia alguma hesitação nelas. Algo além de uma preocupação protectora e masculina chamava a sua atenção. Na verdade eu não o conhecia de facto, comentou Emily. Havia alguma falsidade nas suas palavras. Ela não conhecia Arno, mas sabia dele, admirava-o, acompanhava-o de longe. E estava sentindo muito a sua perda, independentemente do que deixasse transparecer ao telefone. Isso não faz tanta diferença, prosseguiu Michael. Quem atirou nele? Ninguém sabe. As investigações estão em curso. Há polícias por todo o campus. Dizem que parece ter sido um serviço profissional. As indicações são de um assassinato. Emily respirou fundo e engoliu em seco. E a coisa toda fica mais esquisita. Ela fez uma pausa para que Michael a sondasse, fizesse perguntas, mas ele permaneceu calado e, então, ela continuou. Hoje pela manhã, encontrei uma carta no meu gabinete. Escrita à mão, entregue pessoalmente. De Arno Holmstrand.

Emily firmou a voz. A carta, Mike, trata da morte dele. Ele a escreveu antes de ser morto, sabendo que seria morto. O silêncio continuava do outro lado da linha. E esta é a parte em que você realmente não vai acreditar. A carta me deu instruções para ligar para um determinado número de telefone que ele havia escrito no verso, sem nenhum nome a acompanhar. E aqui estou eu, falando com você. Finalmente, Michael falou. Na verdade, Emmy, acredito em tudo o que você disse. Ela se assustou. Jura? Juro. Porque eu voltei da minha corrida matinal há uns 20 minutos, e debaixo de minha porta havia um envelope. De cor creme e com meu nome escrito nele com tinta marrom. Emily ficou paralisada, sem saber que sentido dar ao que ouvia. Não pode ser. Mas é, interpôs Michael. Dentro dele há uma carta de Arno Holmstrand. Emily não conseguia conter sua incredulidade. O que diz a carta? Pouca coisa, respondeu Michael. Ela pôde ouvi-lo desdobrando uma folha de papel, preparando-se para ler a carta. Prezado Michael. Emily vai ligar esta manhã. Espere ao lado do telefone. Abra o segundo envelope e leia para ela o que está dentro dele quando ela ligar.

Segundo envelope? A confusão aumentava a cada segundo. Dentro do primeiro, com essa cartinha, tem um segundo envelope. Com o seu nome escrito nele, confirmou Michael. Porque ele está escrevendo para você? E por meu intermédio? Como nós estamos envolvidos na vida dele? Não tenho a menor ideia, Mike. Estou tentando entender, fez uma pausa. Esse segundo envelope…, você o abriu?, indagou Emily, agora no auge da tensão. Claro que abri, respondeu ele. Você acha que eu ia cruzar os braços e ficar sentado esperando? Apesar da tensão do momento, Emily não pôde evitar um leve sorriso. O costumeiro entusiasmo de Michael não tinha sido sufocado por aqueles acontecimentos estranhos. E…? E talvez você não venha para Chicago, fez uma pausa e, dessa vez, o silêncio dramático era inteiramente proposital. Dentro do envelope tem um e-ticket. Holmstrand reservou para você um voo para Londres. Esta noite. Londres?

O raciocínio de Michael agora estava rápido demais. Ele ultrapassou a confusão dela. Qual é o número do fax da sua sala, Emmy. Ela piscou, tentando recuperar a lucidez e disse automaticamente o número que sabia de cor, da máquina de fax da secretaria do departamento. Porque quer esse número?, perguntou por fim. Porque nesse segundo envelope, além da passagem, há também duas folhas de papel. Meu scanner está quebrado, então não dá para lhe enviar uma cópia por e-mail. Mas com certeza vai querer ver o que ele deixou para si.

Dez minutos mais tarde, Emily aguardava ansiosa ao lado da máquina de fax da secretaria do Departamento de Religião, a algumas portas de distância de seu gabinete. A linha exclusiva para mensagens de fax não tinha um toque audível e, por isso, ela estava ao lado da máquina, esperando que ela despertasse e produzisse cópias digitais das duas páginas que Michael havia prometido enviar nos próximos minutos. Sentados em torno de uma mesa de trabalho estavam dois colegas professores de religião. Como se poderia esperar, estavam discutindo o caso Holmstrand. Não, foram três, insistiu Bill Preslin, um dos professores de hebraico, corrigindo o outro homem. Você esqueceu a Arábia Saudita. É mesmo? Eu não fazia ideia, o outro homem era David Welsh, especialista do departamento em religiões da América do Sul. Emily foi até a mesa e se sentou. Dali, podia ficar vigiando a máquina de fax». In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

JDACT, AM Dean, Literatura, Mistério,

quinta-feira, 13 de maio de 2021

D. Fernando I. 2º duque de Bragança. Maria Barreto D’Ávila. «A bastardia de Afonso garantia a Nuno Álvares Pereira a proximidade desejada com a casa real mas independência quanto bastasse»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Mestre Maria Barreto D’Ávila

Vida e Acção Política

«(…) O condestável casara, muito jovem, com dona Leonor de Alvim, viúva de Vasco Gonçalves Barroso. A sua condição de viúva parece justificar este matrimónio algo atípico, dado a precoce idade de dom Nuno (que tinha dezasseis anos quando casou) e o estatuto económico superior da noiva, já que as viúvas constituíam, no mercado matrimonial, uma segunda escolha, uma opção desvalorizada. Deste casamento, o condestável teve apenas uma filha, dona Beatriz.

Quando o condestável enviuvou em 1387, João I propôs-lhe novo matrimónio, desta feita com dona Beatriz Castro, filha de Álvaro Pires Castro que, curiosamente, fora o primeiro condestável do Reino, nomeado por dom Fernando, em 1382. Viúvo cobiçado, detentor de uma enorme fortuna, talvez a maior do Reino nessa altura, e com apenas uma filha, era natural que Nuno Álvares Pereira voltasse a casar. Contudo, o condestável recusou terminantemente a proposta do rei. Seria o início da sua vida casta e ascética. O seu marcante desempenho durante a crise dinástica, que lhe havia granjeado importantes doações de terras e títulos, sobretudo confiscados aos familiares e principais aliados de dona Leonor Teles, tornara-se algo perigoso para o novo rei, que se arrependera, em parte, das grandiosas doações que fizera. Nuno Álvares Pereira era o único nobre no Reino com uma hoste capaz de lhe fazer frente.

Dona Beatriz, herdeira da imensa fortuna do seu progenitor, era uma noiva muito almejada. O rei, arrependido, via na união de dona Beatriz com um dos seus filhos uma solução de compromisso e uma forma dos bens por ele doados regressarem à Coroa. Por seu lado, o condestável via na ligação à família real uma estratégia para potenciar, ainda mais, o seu poder. Todavia as negociações não foram fáceis. O monarca pretendia casar a herdeira do condestável com o sucessor do trono, o príncipe dom Duarte, significativamente mais novo do que dona Beatriz. Contudo, não era essa a pretensão do condestável, que dava primazia à construção de uma casa senhorial independente da casa real. Do ponto de vista de Nuno Álvares Pereira, o objectivo central a atingir com o casamento da filha seria o da constituição de uma casa senhorial que perpetuasse a sua linhagem e a sua memória. A solução foi encontrada em dom Afonso, filho natural de João I, significativamente mais velho do que os infantes seus irmãos e de idade muito similar a dona Beatriz. A bastardia de Afonso garantia a Nuno Álvares Pereira a proximidade desejada com a casa real mas independência quanto bastasse. É interessante notar que, apesar de Nuno Álvares Pereira ter conseguido a construção de uma casa que o veria sempre como o fundador, quer a nível patrimonial quer ao nível do capital simbólico, os seus descendentes nunca adoptaram o seu apelido, Pereira. Pelo contrário, estes, à semelhança da família real, de quem também descendiam (ainda que por via bastarda), não utilizavam apelido. Dom Afonso nasceu entre os anos de 1370 e 1377, filho de Inês Pires e de João I, na altura, mestre de Avis, no castelo de Veiros, em Estremoz. Foi ali criado por sua mãe e mais tarde em Leiria por Gomes Martins Lemos, conselheiro régio. Desta união, que nunca foi legitimada, nasceria também uma filha, dona Beatriz, futura condessa de Arundel.

A existência dos dois filhos naturais de dom João foi mantida em segredo durante o atribulado período da crise sucessória, tendo apenas sido dada a conhecer após a subida ao trono do pai. Quando, em 1387, João I casou com dona Filipa de Lencastre os bastardos régios foram admitidos na corte por iniciativa da rainha. Dona Filipa manteve sempre uma boa relação com os seus enteados: dom Beatriz casaria com um parente seu, o conde de Arundel, em Inglaterra, e dom Afonso estava presente em Odivelas, com o seu pai e irmãos, aquando da morte da rainha, vítima de peste, no ano de 1415. A sua mãe, Inês Pires, ingressou por altura do enlace de João I com dona Filipa de Lencastre, no Convento de Santos-o-Velho, tendo sido a sua 12ª Comendadeira. Os filhos tinham direito a visitá-la e pensa-se que dona Beatriz terá mesmo vivido no convento com a mãe até ter atingido a idade núbil». In Maria Barreto D’Ávila, D. Fernando I. 2º duque de Bragança, Vida e Acção Política, Dissertação de Mestrado, FCSHumanas, UNLisboa, 2009.

Cortesia de FCSH/UNL/JDACT

Casa de Bragança, Cultura e Conhecimento, História, JDACT, Maria Barreto D’Ávila, Política,

quarta-feira, 12 de maio de 2021

D. Fernando I. 2º duque de Bragança. Maria Barreto D’Ávila. «Apesar de ser usual, por uma questão de comodidade, referirmo-nos aos três condes de Barcelos, Ourém e Arraiolos como casa de Bragança…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Mestre Maria Barreto D’Ávila

Vida e Acção Política

«(…) Contudo, durante muito tempo a biografia foi considerada como um modelo historiográfico menor, mais ligado à apologia do que a uma análise isenta e rigorosa. Também em Portugal, a biografia foi até muito recentemente um género desconsiderado. A Colecção Reis de Portugal dirigida por Roberto Carneiro e com coordenação científica de Artur Teodoro Matos e João Paulo Oliveira Costa, veio mudar este panorama. Estas biografias régias trouxeram novas perspectivas à historiografia portuguesa, tornando-se obras fundamentais para a compreensão da história do nosso país. Brevemente será também publicada uma biografia do infante dom Henrique, intitulada Henrique, o infante, da autoria de João Paulo Oliveira Costa. Tendo em vista a elaboração de um estudo biográfico sobre dom Fernando, 2.º duque de Bragança e considerando que os estudos precedentes sobre a casa de Bragança deixaram algumas problemáticas em aberto, foi nosso objectivo proceder à recolha de dados prosopográficos de dom Fernando e à caracterização do seu pensamento político tentando destrinçar o seu comportamento diferenciado em relação ao seu pai e irmão, para além das outras principais figuras políticas suas contemporâneas, quanto à política do Reino. Outras linhas de análise foram trilhadas através do exame da sua participação nos projectos expansionistas no Norte de África, da evolução do seu património e da sua estratégia de perpetuação da linhagem da sua casa. Para tal foi indispensável caracterizar tanto o contexto sociopolítico em que dom Fernando viveu como o seu âmbito familiar.

As fontes utilizadas na elaboração desta tese compuseram-se, na sua grande maioria, de documentação da chancelaria régia, seguindo-se alguma documentação do Arquivo da Casa de Bragança. Contudo, as fontes mais interessantes para a caracterização do pensamento político de dom Fernando são os inúmeros conselhos por ele redigidos, assim como as Crónicas de João I, Duarte I e Afonso V. No entanto, há lacunas na documentação que não nos permitiram analisar certos aspectos biográficos de dom Fernando. Infelizmente, com excepção da Chancelaria de Afonso V, não existem mais documentos relativos ao período em que o conde de Arraiolos assumiu a capitania da praça de Ceuta, pelo que não possuímos relatos dos acontecimentos políticos e militares desse período, o que nos impede de identificar os nobres que o acompanharam durante a sua capitania. Também os anais dedicados a Ceuta são parcos em informações acerca do governo de dom Fernando, relatando apenas o episódio da sua vinda ao Reino durante o agudizar dos conflitos entre o duque de Bragança, seu pai, e o infante dom Pedro. As fontes utilizadas também não nos permitiram entrar na esfera privada de dom Fernando. Este estudo, tal como o nome indica, incidirá, portanto, maioritariamente na vertente política do indivíduo biografado.

Apesar de ser usual, por uma questão de comodidade, referirmo-nos aos três condes de Barcelos, Ourém e Arraiolos como casa de Bragança, nesta dissertação tentaremos evitar esta designação para o período anterior a 1442, data em que dom Afonso, conde de Barcelos, acedeu ao ducado brigantino. Aliás, apesar de por vezes agirem conjugadamente, numa óbvia solidariedade familiar, os três condes são titulares de casas que coabitam em simultâneo, mas que são independentes. É nosso entender que a maior dependência será sempre entre o conde de Ourém, filho primogénito, e o seu pai, o conde de Barcelos. A prová-lo temos o episódio ocorrido durante a regência do infante dom Pedro aquando da criação do ducado de Bragança. Pai e filho estavam interessados nas terras brigantinas e dom Pedro resolveu a querela entregando o ducado ao conde de Barcelos, tendo a justificação para a sua decisão recaído no facto de que, sendo o primogénito, o conde de Ourém herdaria, ainda que a médio prazo, as propriedades do pai.

Dom Fernando, secundogénito, ficava de fora desta equação. A sua casa, a de Arraiolos/Vila Viçosa, seria totalmente independente das outras duas até à morte do irmão e sua consequente nomeação como herdeiro da casa de Bragança. Esta dissertação terá, portanto, como objectivo analisar a actuação de dom Fernando enquanto chefe da casa de Arraiolos/Vila Viçosa e, posteriormente, enquanto segundo duque de Bragança.

O legado de Nuno Álvares Pereira

A consolidação da nova dinastia de Avis e a vitória dos seus partidários sobre a facção castelhana deu azo à emergência de uma nova nobreza composta, na sua grande maioria, por filhos segundos e membros de linhagens inferiores que se haviam destacado militarmente no apoio ao mestre de Avis. O maior beneficiado destes nobres foi, sem dúvida alguma, dom Nuno Álvares Pereira nascido em 1360, filho bastardo de Álvaro Gonçalves Pereira, prior do Hospital, e de Iria Gonçalves do Carvalhal». In Maria Barreto D’Ávila, D. Fernando I. 2º duque de Bragança, Vida e Acção Política, Dissertação de Mestrado, FCSHumanas, UNLisboa, 2009.

Cortesia de FCSH/UNL/JDACT

Casa de Bragança, Cultura e Conhecimento, História, JDACT, Maria Barreto D’Ávila, Política,

terça-feira, 11 de maio de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «O capitão do navio, que ouvira a conversa, sugeriu: se não encontrarmos uma galé entre aqui e a primeira terra avistada, vamos amarrá-lo na âncora e baixá-lo com ela»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) Mas eu não estava morto, embora, por muitos dias e muitas noites após deixar Las Conchas, tivesse desejado estar. Os soldados em pouco tempo dispersaram a multidão que se juntara do lado de fora da propriedade de dom Vicente Alonzo Carbazón. Então o tenente deu um puxão na ponta da corda e me arrastou para fora do portão e através da estrada. Seus soldados nos seguiram, dando-me chapadas e chutos o caminho todo na direcção da zona portuária até encontrarem o navio no qual compraram passagens. Gostaria de não ter de me preocupar em procurar uma galé para levá-lo como escravo, comentou o tenente, quando tropecei e caí ao subirmos a prancha. Não quero esse tipo de escória comigo quando nos juntarmos aos exércitos do rei e da rainha. Podemos jogá-lo ao mar com o lixo, quando deixarmos o porto, sugeriu um dos soldados. O tenente grunhiu.

Talvez o cadáver flutue até à praia e revele o que fiz. Não arriscarei enfurecer aquele magistrado, caso ele descubra que matei o rapaz após ele decidir que a sua vida seria poupada. O capitão do navio, que ouvira a conversa, sugeriu: se não encontrarmos uma galé entre aqui e a primeira terra avistada, vamos amarrá-lo na âncora e baixá-lo com ela. Deu uma piscadela. Podemos dizer que ele ficou preso na corda e foi arrastado por cima da murada. Ele me agarrou pelo cabelo, puxou-me pelo convés e me arremessou para o interior de um dos porões, onde caí violentamente, batendo braços, pernas e a cabeça contra fardos e caixas de carga, até parar sobre um chão de madeira maciça. Mal havia recuperado o fôlego quando a abertura foi trancada e a luz se extinguiu. Aquele era um novo terror para mim. Eu nunca estivera numa escuridão total; o sangue aumentou repentinamente atrás dos meus olhos enquanto tacteava loucamente com os braços estendidos para encontrar algo para me apoiar. O navio estremeceu quando os marinheiros se prepararam para partir. Subitamente o mundo se movimentou debaixo dos meus pés e o universo inteiro deslizou. Minha mente se agitou, pois eu nunca estivera num barco. As velas rangeram, e começamos a deixar o porto.

Quando o vento aumentou, as ondas nos arrebataram e a espinha do navio arqueou contra o mar. Aterrorizado pelo poder primitivo dos elementos, fui jogado de um lado a outro, gritando na escuridão, enquanto o navio subia e então caía, era erguido e baixado pela mão de uma criatura gigantesca. Vomitei, emborcando várias e várias vezes, até a ânsia vazia contrair meu estômago com dores excruciantes, e caí no chão, exausto, e permaneci ali, choramingando. Não havia como diferençar luz do dia da escuridão. Privado da visão, os ruídos que eu ouvia soavam altos na minha cabeça, a correria de ratos e os gemidos e rangidos do casco de madeira à medida que este forçava seu caminho pela água. Eu achava que as pranchas rachariam, se fariam em pedaços, e eu seria lançado nas profundezas, e gritava vergonhosamente pela minha mãe e pelo meu pai morto.

E, dentro do fermento de minha mente, eu os vi de novo: minha mãe deixada sozinha, doente e moribunda, e meu pai, o corpo balançando no fim de uma corda. O tempo piorou, o navio se arremessava e ondulava, e os enormes caixotes e fardos da carga começaram a se movimentar. Temia ser esmagado. Rastejei até encontrar um espaço entre as escoras, no qual me enfiei, ao longo das costelas do navio. Ali me segurei enquanto, lá fora, as ondas batiam fazendo estrondos, procurando uma maneira de me esmagar. Permaneci sem me mexer pelo que me pareceu dias, até ficar tão fraco que mal conseguia erguer a cabeça. Foi o soldado ruivo, aquele que mostrara piedade para com meu pai puxando-lhe as pernas para diminuir a sua derradeira agonia, quem, enfim, abriu a escotilha. Uma corda desceu tombando, e ele veio com ela para me dar uma olhada. Então berrou para alguém que estava na parte de cima à espera de informações: ele está vivo! Voltou minutos depois com uma moringa de água.

Por duas vezes, você enganou a morte, afirmou, enquanto abria a minha boca à força e despejava água pela minha garganta abaixo, pois o certo era ter morrido aqui por falta de água. Subiu novamente e voltou com um pedaço de pão e uma pele cheia de um azedo vinho tinto. Quebrando o pão em pedaços, molhava-o no vinho e observava enquanto eu tentava engolir. Grunhiu ao me ajudar a ficar de pé. Talvez você tenha nascido sob uma estrela especial. Uma pequena galé mercante espanhola fora avistada no horizonte. O tenente não se importava se eu estava vivo ou não: mesmo se estivesse semimorto, ele teria me jogado por cima do costado, mas agora via uma possibilidade de me trocar por alguma bebida alcoólica. Um barril de vinho barato foi o quanto eu valia. E, mesmo assim, com relutância. Foi mais com um espírito de apaziguamento que o capitão da galé concordou com a troca, pois os soldados mantiveram suas armas apontadas para o barco menor. Bem afundada na água, sem alojamentos cobertos para os ocupantes, a galé era dotada apenas parcialmente de convés, com um grosseiro pano de vela mastreado como toldo na popa, fechado de ambos os lados para protecção contra a fúria dos elementos.

Havia um canhão de pequeno porte montado na frente, e, embora poucos tripulantes carregassem facas nos cintos, eles seriam facilmente dominados por um navio maior equipado com canhões e homens armados. A negociação foi feita em minutos, e o destino decretou que eu me tornasse um rato de galé. O soldado ruivo foi-me buscar para me fazer subir ao convés. A escotilha se abriu novamente, e o sol brilhou no meu rosto. Olhei para cima com os olhos semicerrados enquanto a corda descia. Se não consegue subir sozinho pela corda, segure na ponta que eu puxo, sugeriu ele, mas não de um modo indelicado. Cambaleei adiante para agarrar a ponta oscilante da corda. Algo cintilou na luz. Presa entre as amarras de um fardo havia uma faca. Era comprida e de lâmina estreita: do tipo que uma mulher usaria para descascar legumes. Posteriormente, descobri que era do tipo usado por funcionários do governo para cortar os cordões durante o processo de afixar o selo da aduana em mercadorias tributáveis. A faca devia ter ficado presa enquanto a carga era inspecionada antes de ser levada para o navio. Alcancei-a, e, num instante, estava em minha mão. Mas onde escondê-la?» In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Eu vi você saindo da igreja no dia em que o mendigo supostamente a agrediu. Ele me tocou mesmo, falei em voz baixa, pois aquele era um dia que eu preferia esquecer»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) Não fiquei demasiadamente preocupada, porque Ramón sempre fora atraído por mim e somente por mim. Por mais de um ano ele me perseguiu e procurou minha companhia, de tal maneira que veio a ser como um membro da família. Eu acreditava que era apenas uma questão de semanas até ele falar com o pai e as nossas famílias chegarem a um acordo para noivarmos. Achava que o pai aprovaria o casamento. Ele queria que eu fosse feliz, mas também tinha aspirações à nobreza e Ramón Salazar tinha sangue nobre. Meu pai tinha consciência da sua posição na sociedade, e uma aliança com Ramón Salazar aumentaria ainda mais sua reputação. Na Primavera do ano seguinte, houve de facto um casamento. Mas não foi para o meu matrimónio com Ramón que tendas foram montadas no terreno da nossa fazenda, grinaldas de flores penduradas sobre as portas da casa, mesas compridas postas com toalhas de linho branco e copos cintilantes e um padre chamado para realizar a cerimónia. Foi para o meu pai. Meu pai e a sua nova esposa, a condessa Lorena de Braganza.

Antipatizei com ela desde o momento em que a vi; aquela condessa com seus olhos brilhantes e língua minúscula que dardejava entre dentinhos. Uma língua tão afiada quanto um alfinete, e olhos que incomodavam e espreitavam. Uma língua que nunca ficava parada por muito tempo e se ocupava com comentários maliciosos e sugestões dissimuladas. Olhos que perambulavam pelos nossos ornamentos e prataria, calculando seu valor e avaliando o preço de tudo o que viam. Os vestidos que usava tinham um decote baixo para expor o volume do seu colo, e ela se inclinava à frente e gargalhava quando homens que estavam na sua companhia falavam, mesmo que os seus comentários não fossem nem um pouco divertidos. De minha parte, ficava sentada, olhando-a, pois ela dizia as coisas mais tolas que eu já tinha ouvido.

Eu não queria que ela se casasse com meu pai. Eu não a queria em minha casa. Na noite em que seu noivado foi anunciado, ela veio ao meu quarto para falar comigo e percebi que usava o colar de coral de minha mãe. O colar que minha mãe prometera que eu teria no meu aniversário de 16 anos. Isto é meu! Arranquei-o do pescoço dela. O fecho se quebrou, e as contas saíram voando, caíram e rolaram pelo chão. Ela gritou, e sua criada e meu pai vieram correndo. Socorro, choramingou, segurando o pescoço. Zarita teve um ataque e me arranhou. Tirou as mãos para revelar um vergão vermelho brilhante no pescoço. Perdi o fôlego. Ela pressionara as próprias unhas no pescoço para fazer a marca! Eu não fiz isso, garanti a meu papa. Zarita, precisa se desculpar imediatamente, ordenou ele. Fiquei num silêncio mal-humorado. Imediatamente!, repetiu papa. Ou vou trancá-la no seu quarto até se desculpar. Murmurei uma desculpa, mas, quando meu pai saiu, disse a Lorena: você mesma fez essa marca. Para minha surpresa, ela não negou minha acusação. Gesticulou para a sua criada sair e disse: não deveria se queixar, pois emprega os mesmos métodos para ganhar atenção. Não sei do que está falando. Claro que sabe. Olhou-me atentamente. Eu vi você saindo da igreja no dia em que o mendigo supostamente a agrediu. Ele me tocou mesmo, falei em voz baixa, pois aquele era um dia que eu preferia esquecer.

Ah, eu sei disso. Ouviram você dizer. Lorena sorriu, e não foi um sorriso amistoso. Ele me tocou, imitou minha voz. Aquele homem realmente me tocou. Recuei diante dela. Como sabia o que eu dissera no interior da igreja de Nossa Senhora das Dores? Todos acreditam que o mendigo a atacou, prosseguiu Lorena, mas seu corpete não estava rasgado, nem seu vestido ficou danificado de modo algum. O que o pobre homem tentou fazer? Pegar um centavo da sua bolsa ou arrancar o dinheiro da sua mão antes que o colocasse na caixa para os padres? Boa sorte para ele, digo eu. Falei com o janota que supostamente devia ser seu protector, Ramón Salazar, e descobri o que aconteceu. Esperava que Ramón se contentasse em sustentar o fingimento da agressão..., ele pareceria mais homem por se ter lançado na sua defesa. Mas foi você, Lorena se aproximou e ciciou no meu rosto, você, com a sua petulância mimada, que causou o enforcamento de um homem porque ele encostou na sua mão. Caí para trás diante do seu ataque violento, a verdade das suas palavras despindo a minha alma e deixando-me nua. Portanto, não me venha com afectações, minha cara senhorita santinha. Tem de conviver com as suas próprias falsidades e as consequências dos seus actos. Lorena ergueu as saias para sair. Um homem inocente está morto. E seu filho também, muito provavelmente». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Estamos apenas na metade de Dezembro, aleguei. Ainda não se passaram nem seis meses desde a morte de minha mãe. A ideia não foi minha, respondeu»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) Caminhei rapidamente para a casa que ela indicou. Mas, quando chegámos perto da porta, Garci recuou. É a casa de um judeu, disse ele, e se benzeu. É a casa de um médico que pode nos ajudar, retruquei. Um homem abriu a porta da frente e permaneceu na entrada. Porque estão parados na rua olhando para a minha casa? Garci pôs a mão no meu braço para me afastar dali. O homem pareceu se divertir com isso e fez menção de voltar para dentro. Falei rapidamente: estou procurando uma mulher, uma mulher em particular, que está doente. Informei tudo o que sabia sobre a esposa do mendigo.

Talvez eu conheça essa pessoa, observou ele. Dias atrás, fui chamado por uma vizinha para cuidar de uma mulher que, segundo ela, estava gravemente doente. A vizinha me disse que o marido dessa mulher fora executado e que o filho dela havia desaparecido, não voltou para casa, e por isso não havia ninguém para cuidar dela. Peguei minha bolsa e a coloquei diante dele. Pode pegar o dinheiro necessário para comprar remédios para ela e pagar pelo tempo gasto para curá-la. Ele pendeu a cabeça para um lado e me inspecionou. Isso é um acto de misericórdia, ou de uma consciência pesada?, perguntou tranquilamente. Atrás do véu, meu rosto enrubesceu de vergonha e não consegui responder. Teria ele ouvido a história de como o mendigo havia morrido? Teria me reconhecido como a filha do magistrado? Não importa. Ele pareceu chegar a uma decisão. Eu a levarei até ela.

A mulher estava deitada num catre de palha num quarto do andar superior de uma casa a duas ruas de distância. Quando entramos, algo se moveu apressado no canto mais distante, fazendo a mulher se agitar e gritar. O médico se curvou sobre ela e lhe falou rapidamente numa língua desconhecida para mim. Perto da porta, Garci voltou a se benzer. O médico a ergueu e a ajudou a tomar um líquido de uma garrafa que havia levado. Então ela afundou novamente na cama improvisada, seu corpo nada mais do que uma trouxa de ossos. Ela a conhece?, indagou-me o médico. Sacudi a cabeça, negando. Não faria qualquer diferença, disse ele. Ela está distante demais da capacidade de reconhecer alguém. Ele puxou o cobertor sobre ela e nos conduziu para fora do quarto. Novamente ofereci-lhe minha bolsa. A mulher está morrendo, admitiu. Não posso curá-la. Ninguém pode. A boa vizinha lhe traz todos os dias uma sopa rala e um pouco de água, pois ela não consegue ingerir nada além disso, e eu venho diariamente lhe dar um opiato para amenizar a sua dor durante a noite. — Ergueu os olhos e encarou os meus atrás do véu. Guarde seu dinheiro e gaste-o onde for capaz de ajudar os vivos. Olhou a rua de cima a baixo. Sua insinuação foi óbvia. Depois que ele nos deixou, virei-me e falei para Garci: precisamos tirá-la daqui, para longe dos bichos que infestam essa casa. Se movimentá-la, ela morrerá, disse Garci. Ela morrerá de qualquer maneira. Vamos ajudá-la a morrer em melhores condições do que estas. Não podemos levá-la para sua casa! Garci ficou horrorizado. Eu sabia disso. Meu pai não admitiria tal intrusão. Não, falei, vamos levá-la para um lugar tranquilo onde ela será tratada com amor. Portanto, foi no convento-hospital da minha tia Beatriz que ajudei a cuidar da esposa do mendigo durante as últimas semanas de sua vida.

No passado talvez eu conseguisse persuadir, com adulações, meu pai a deixar a mulher moribunda ser trazida para nossa casa, ao menos para os aposentos dos criados acima dos estábulos, pois muitas vezes bajulava-o para que ele concordasse com algo que havia proibido inicialmente. Minha influência, porém, diminuía à medida que a condessa Lorena de Braganza se tornava uma presença quase constante na minha casa. Eu estava tão envolvida com as minhas visitas ao convento-hospital para cuidar da esposa do mendigo que se passou mais ou menos um mês antes de me dar conta da extensão do poder de Lorena sobre o pai. Certo dia, ao chegar em casa, vi que as nossas cortinas pretas de luto haviam sido retiradas das janelas. Fui falar com Serafina e a encontrei guardando-as em caixas. Seu rosto não mostrou qualquer emoção quando lhe perguntei por que fizera isso.

Estamos apenas na metade de Dezembro, aleguei. Ainda não se passaram nem seis meses desde a morte de minha mãe. A ideia não foi minha, respondeu. Seu pai me mandou fazer isso. Em seguida, acrescentou: acredito que a condessa Lorena de Braganza deve ter sugerido isso a ele. Ela acha que a casa precisa de alegria para a época de Natal. Então, para minha raiva, descobri que Lorena estivera aconselhando o pai sobre mim, dizendo que eu não era capaz de cuidar de um lar tão importante quanto o dele; que eu era uma garota insensata e que provara isso por ter saído sem uma dama de companhia; que o incidente na igreja havia maculado minha reputação; e que eu deveria rapidamente ser mandada para um convento ou me casar com alguém que me aceitasse. Notei também que ela se aproximara de Ramón Salazar, conversando longamente com ele, fingindo pedir sua opinião sobre os assuntos mais triviais». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Solar. Ian McEwan. «… uma mulher mais moça, em suma, se fazer de Sansão para derrubar o templo matrimonial. Em vez disso, estava paralisado pela vergonha, pela enormidade da sua humilhação»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Ele pertencia àquele género de homens, vagamente feiosos, quase sempre carecas, baixos, gordos e inteligentes, que exercem uma atracção inexplicável sobre certas mulheres bonitas. Ou achava que pertencia, o que parecia ser suficiente para transformar o desejo em realidade. No que era ajudado pelo facto de algumas mulheres o tomarem por um génio que precisava ser salvo. Entretanto, naquela altura da vida Michael Beard era um homem de funções mentais limitadas, desprovido de impulsos hedónicos, monotemático, ferido. Seu quinto casamento estava se desintegrando e ele deveria saber como se comportar, como enxergar as coisas numa perspectiva de longo prazo, como aceitar a culpa. E não era verdade que os casamentos, ou seus casamentos, se assemelhavam às marés, uma vazando pouco antes que outra subisse? Mas este era diferente. Ele não sabia o que fazer, a visão do futuro o machucava e, por uma vez, à seu juízo não lhe cabia nenhuma culpa. Sua mulher é que estava tendo um caso, e de forma ostensiva, para puni-lo, certamente sem sentir remorso algum. Em meio a outras emoções, ele se via exposto a momentos de intensa vergonha e desejo. Patrice estava se encontrando com o sujeito que fizera uma reforma na casa deles, aplicando argamassa entre os tijolos das paredes externas, instalando uma cozinha nova e substituindo os azulejos no banheiro, o mesmo indivíduo corpulento que, durante uma pausa para tomar chá, certo dia mostrara a Michael a fotografia da casa em falso estilo Tudor restaurada e tudorizada com suas próprias mãos, onde, no caminho cimentado para a garagem, se via uma lancha sobre um reboque debaixo de um lampião supostamente vitoriano e o espaço onde seria instalada uma desactivada cabine telefónica vermelha. Beard havia se surpreendido ao descobrir como era complicado ser um cor… O sofrimento não era simples. Prova de que, mesmo tão tarde na vida, ele não estava imune a novas experiências.

Tinha de acontecer. As quatro mulheres anteriores, Maisie, Ruth, Eleanor e Karen, que ainda mantinham um interesse longínquo pela sua vida, teriam ficado exultantes, e ele esperava que ninguém lhes contasse nada. Nenhum dos casamentos durara mais de seis anos, e já era notável o facto de ele nunca haver tido filhos. Bem cedo, compreendendo que Beard tinha tudo para ser um pai horrível, elas haviam se protegido e tratado de dar o fora. Ele gostava de pensar que, se houvesse causado alguma infelicidade, nunca fora por muito tempo, não sendo à toa que mantinha um relacionamento amigável com todas as quatro.

Não, porém, com a actual. Noutros tempos, poderia haver imaginado que assumiria uma atitude cinicamente machista, com acessos de fúria assassina, talvez uma sessão de gritos no jardim dos fundos, tarde ou noite após se embriagar, ou o cancelamento do registo do carro dela enquanto cortejava deliberadamente uma mulher mais moça, em suma, se fazer de Sansão para derrubar o templo matrimonial. Em vez disso, estava paralisado pela vergonha, pela enormidade da sua humilhação.

Pior ainda, surpreendia-se com o desejo inconveniente que sentia por ela. Naqueles dias, a vontade de possuir Patrice o acometia assim sem mais nem menos, como um ataque de cólicas. Era obrigado a sentar-se sozinho nalgum canto e esperar que passasse. Aparentemente, havia certo tipo de marido que se excitava com a ideia de que a sua mulher estava com outros homens. Eram capazes de conseguir que alguém os manietasse e amordaçasse, fechando-os à chave no armário do quarto enquanto, a poucos passos dali, a sua cara-metade estava em plena função. Será que, enfim, Beard havia percebido ter uma queda pelo masoquismo sexual? Nenhuma mulher jamais parecera ou soara tão desejável quanto a esposa que ele de repente não podia mais possuir. Deixando claras suas intenções, viajou para Lisboa a fim de se encontrar com uma velha amiga, porém foram três noites sem alegria. Precisava ter sua mulher de volta, não ousando afastá-la de vez com berros, ameaças ou momentos brilhantes de insanidade. Nem era da sua natureza suplicar. Estava congelado, desprezível, não podia pensar em mais nada. Na primeira vez em que ela lhe deixou um bilhete Vou passar a noite na casa do R. Patrice, Beard deveria ter ido à reles casa geminada em falso estilo Tudor, com a lancha coberta na entrada da garagem e uma banheira no quintal diminuto, para arrebentar a cabeça do sujeito com a sua própria chave-inglesa. Em vez disso, ficou vendo televisão durante cinco horas sem tirar o casacão, bebeu duas garrafas de vinho e tentou não pensar. Mas fracassou». In Ian McEwan, Solar, 2010, Edições Gradiva, 2010, ISBN 978-989-616-359-4.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, Ian McEwan, Literatura,

domingo, 9 de maio de 2021

Serena. Ian McEwan. «O meu caso com Tony Canning durou poucos meses. De início eu estava saindo também com Jeremy, mas no fim de Junho, depois das provas finais, ele mudou-se para Edimburgo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Talvez devesse ter sido óbvio para mim onde aquilo tudo ia acabar. Num mundinho minúsculo e fechado de jornalismo estudantil, eu tinha anunciado como soldado estagiário da Guerra Fria. Agora deve parecer óbvio. Afinal de contas, era Cambridge. Senão, por que eu estaria contando sobre essa reunião? Na época o encontro não teve significado algum para mim. Nós estávamos a caminho da livraria e acabamos tomando um chá com o orientador de Jeremy. Nada de muito estranho nisso. Os métodos de recrutamento naqueles dias estavam mudando, mas só um pouquinho. O mundo ocidental podia estar em constante transformação, os jovens podiam achar que tinham descoberto um jeito novo de conversar, as pessoas diziam que as velhas barreiras estavam desmoronando. Mas a famosa conversa ao pé do ouvido ainda era empregada, talvez com uma frequência menor, talvez com uma pressão menor. No contexto universitário certos catedráticos continuavam procurando material promissor e passando nomes para futuras entrevistas. Certos candidatos aprovados nos exames para o funcionalismo ainda eram chamados a um canto para dizerem se por acaso já tinham pensado em outro departamento. Em geral as pessoas recebiam uma proposta discreta depois de estarem há alguns anos na vida profissional. Ninguém precisava dizer com todas as letras, mas o passado continuava sendo importante, e ter o bispo no meu lado não era uma desvantagem. Já se comentou muitas vezes o quanto demorou para que os casos de Burgess, Maclean e Philby derrubassem a ideia de que certas classes de indivíduos tinham mais chance de serem leais ao seu país que as outras. Nos anos 1970 essas famosas traições ainda ecoavam, mas os velhos métodos de recrutamento estavam firmes.

Em geral, tanto a conversa quanto o ouvido eram de homens. Não era normal que uma mulher fosse abordada dessa maneira conhecidíssima e tradicionalíssima. E embora fosse absolutamente verdade que Tony Canning acabou me recrutando para o MI5, os motivos dele eram complicados e ele não tinha nenhuma sanção oficial. Se o facto de eu ser nova e atraente era importante para ele, demorou um pouco para que todo o páthos dessa situação se revelasse. (Agora que o espelho já conta uma história diferente, eu posso dizer de uma vez. Eu era bonita mesmo. Mais que isso. Como o Jeremy escreveu numa rara carta mais efusiva, eu era até bem linda. Na verdade, estupenda). Nem os figurões de barba grisalha no quinto andar, com quem eu nunca falei e a quem raramente vi no meu breve período na Inteligência, tinham ideia do motivo de eu ter sido enviada a eles. Eles tinham os seus palpites, mas nunca iriam imaginar que o professor Canning, ele mesmo um ex-membro do MI5, achava que estava lhes dando um presente, num espírito de expiação. O caso dele era mais complexo e mais triste do que qualquer um sabia. Ele ia mudar a minha vida e agir com generosa crueldade enquanto se preparava para embarcar numa jornada que não tinha esperança de volta. Se sei tão pouco ainda hoje sobre ele é porque o acompanhei apenas num trecho muito curto do caminho.

O meu caso com Tony Canning durou poucos meses. De início eu estava saindo também com Jeremy, mas no fim de Junho, depois das provas finais, ele se mudou para Edimburgo para começar um doutoramento. A minha vida ficou menos tensa, embora eu ainda me torturasse por não ter descoberto o seu segredo antes de ele ir embora e por não ter podido satisfazê-lo. Ele nunca tinha reclamado nem se lamentado. Algumas semanas depois ele escreveu uma carta carinhosa e cheia de arrependimento para dizer que, ao assistir a uma apresentação de um concerto para violino de Bruch no Usher Hall, tinha-se apaixonado por uma nova estrela de Düsseldorf, com um timbre magnífico, especialmente no movimento lento. Seu nome era Manfred. Claro. Se eu tivesse pensado de um jeito um pouquinho mais antiquado, teria adivinhado, pois houve um tempo em que todos os problemas sexuais dos homens tinham um único motivo.

Que coisa mais conveniente. O mistério estava resolvido e eu podia parar de me torturar com a felicidade do Jeremy. Ele estava preocupado, que amor, com os meus sentimentos, chegando até a se oferecer para vir me explicar tudo. Eu escrevi para lhe dar os parabéns, e me senti madura ao exagerar o meu deleite para deixá-lo feliz. Essas ligações só eram legais havia cinco anos e para mim eram uma novidade. Eu lhe disse que ele não tinha porque vir até Cambridge, que eu sempre lembraria dele com muito carinho, que ele era o mais doce dos homens, e que eu queria muito conhecer o Manfred um dia, por favor vamos manter-no em contacto, Tchau! Queria agradecer por ele ter-me apresentado o Tony, mas não vi porque levantar suspeitas. E também não contei ao Tony sobre o seu ex-aluno. Todos sabiam tudo o que precisava saber para ficar feliz». In Ian McEwan, Serena, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-121-2.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

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sábado, 8 de maio de 2021

Ian McEwan. Serena. «Os dois homens riram e eu fiquei pensando se a minha piada tinha insinuado mais do que eu tinha entendido»

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«(…) Canning tinha modos grandiosos algo contidos, talvez para combinar com os seus modestos papéis públicos. Eu percebi o cabelo ondulado, delicadamente repartido, e lábios carnudos húmidos e uma fendinha no meio do queixo, que eu achei bonitinha porque dava para ver, até com aquela luz ruim, que ele tinha dificuldade para fazer a barba direito. Uns pelos escuros ingovernáveis se projectavam do sulco vertical na pele. Era um homem bonito. Quando as apresentações acabaram, Canning me fez algumas perguntas, sobre mim. Eram coisas educadas e bem inocentes, sobre o meu curso, Newnham, o diretor, que era grande amigo dele, a minha cidade, a catedral. Jeremy entrou na conversa com umas amenidades e aí Canning também o interrompeu para agradecer por ele ter mostrado os meus últimos três artigos na ?Quis? Ele se voltou novamente para mim. Uns textinhos excelentes. Você tem talento, querida. Você quer entrar para a imprensa?

A ?Quis? era um pasquim de estudantes, que não pretendia ser lido por gente séria. Fiquei agradecida pelas palavras generosas, mas era novinha demais para saber aceitar um elogio. Resmunguei alguma coisa modesta, mas pareceu que eu não estava levando aquilo a sério, e aí eu tentei me corrigir de um jeito meio atabalhoado e fiquei toda afobada. O professor ficou com pena de mim e nos convidou para um chá e nós aceitamos, ou Jeremy aceitou. E assim nós fomos atrás de Canning, voltando pelo mercado, na direcção da faculdade em que ele trabalhava.

Os aposentos dele eram menores, mais encardidos e mais caóticos do que eu esperava, e fiquei surpresa ao ver ele fazer tudo errado com o chá, mal enxaguando as canecas lascadas e manchadas de marrom e derramando a água quente de uma chaleira eléctrica imunda em cima dos livros e dos papéis. Ele sentou-se atrás da escrivaninha, nós sentamos em poltronas e ele continuou a fazer perguntas. Parecia um encontro de orientação académica. Agora que eu estava roendo os seus biscoitinhos de chocolate Fortnum & Mason, me sentia obrigada a responder em mais detalhes. O Jeremy estava-me encorajando, balançando a cabeça que nem um bobo com tudo que eu dizia. O professor perguntou dos meus pais, e de como tinha sido crescer à sombra de uma catedral, eu disse, espirituosamente, eu achei, que não havia sombra porque a catedral ficava ao norte da nossa casa. Os dois homens riram e eu fiquei pensando se a minha piada tinha insinuado mais do que eu tinha entendido. Nós passámos às armas nucleares e às propostas do Partido Trabalhista, de um desarmamento unilateral. Fiquei repetindo uma frase que eu li em algum lugar, depois percebi que era um clichê. Depois de solto é impossível botar o génio de volta na garrafa. As armas nucleares teriam de ser gerenciadas, e não proibidas. Fim do idealismo da juventude. A bem da verdade, eu não tinha grandes opiniões a respeito. Noutro contexto, teria falado a favor do desarmamento nuclear. Teria negado, mas estava tentando agradar, dar as respostas certas, ser interessante. Gostava do jeito de Tony Canning se inclinar para a frente quando eu falava, o seu sorrisinho de aprovação me encorajava, esticando mas sem chegar a separar direito aqueles lábios carnudos, e aquele jeito de dizer Sei ou É isso mesmo... toda a vez que eu fazia uma pausa». In Ian McEwan, Serena, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-121-2.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

JDACT, Ian McEwan, Literatura, Narrativa,

Serena. Ian McEwan. «… com o braço do meu namorado em volta de mim como uma estola de pele de raposa e a minha felicidade vagamente comprometida por uma pontadinha nas costas e só um pouco mais comprometida pelo enigma dos desejos de Jeremy»

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«(…) Poucos dias depois da minha demissão eu comecei uma fase Colette, que me consumiu vários meses. E eu tinha outras preocupações urgentes. As provas finais aconteceriam dali a poucas semanas e eu estava de namorado novo, um historiador chamado Jeremy Mott. Ele era de um tipinho antiquado, esguio, nariz comprido, com um pomo de adão exagerado. Era descabelado, inteligente sem ser pretensioso, e extremamente educado. Eu tinha notado vários homens como ele por ali. Eles pareciam ser todos descendentes de uma mesma família e ter vindo de escolas de qualidade do norte da Inglaterra, onde recebiam as mesmas roupas. Eram os últimos homens da Terra que ainda usavam casacos de tweed Harris com couro nos cotovelos e debrum nos punhos. Fiquei sabendo, não pelo Jeremy, que achavam que ele ia se formar com louvor e distinção e que ele já tinha publicado um artigo numa revista académica de estudos do século XVI. Ele acabou se revelando um amante delicado e atento, apesar de ter um ossinho infeliz e pontudo no púbis que na primeira vez doeu demais. Ele pediu desculpas, como quem pede desculpas por um parente doido mas distante. Ou seja, não ficou particularmente constrangido. Nós resolvemos a questão fazendo amor com uma toalha dobrada entre nós, um paliativo que eu senti que ele já tinha usado antes. Ele era atencioso e competente de verdade, e eu podia ficar naquilo o quanto quisesse, e mais ainda, até não conseguir aguentar mais. Mas os orgasmos dele eram difíceis, apesar dos meus esforços, e eu comecei a suspeitar que havia alguma coisa que ele queria que eu dissesse ou fizesse. Ele não me dizia o que era. Ou melhor, ele insistia que não havia nada. Não acreditei nele. Queria que ele tivesse um desejo secreto e vergonhoso que só eu pudesse satisfazer. Queria fazer esse homem altivo e cortês ser todo meu. Será que ele queria me dar um tapa no traseiro, ou que eu desse uns tapas no dele? Será que ele queria vestir as minhas calcinhas? Esse mistério me obcecava quando eu estava longe dele, e tornava ainda mais difícil parar de pensar nele quando eu devia estar me concentrando na matemática. Colette era a minha fuga.

Uma tarde, no começo de Abril, depois de uma sessão com a toalhinha dobrada no quarto de Jeremy, nós estávamos atravessando a rua perto do Corn Exchange, eu numa nuvem de felicidade e com alguma dor derivada disso, por causa de um músculo distendido nas costas, e ele, bom, eu não sabia direito. Enquanto nós andávamos eu estava pensando se devia tocar naquele assunto de novo. Ele estava um amor, com o braço largado pesando nos meus ombros enquanto me falava do seu ensaio sobre a Câmara Estrelada. Eu estava convencida de que ele não estava plenamente realizado. Eu achava que dava para perceber isso na tensão da voz dele, naquele passo nervoso. Depois de dias fazendo amor ele não tinha recebido a bênção de um único orgasmo. Eu queria ajudar, e estava curiosa de verdade. Também estava torturada pela ideia de que podia estar deixando ele na mão. Ele se excitava comigo, até aí estava claro, mas talvez não me desejasse o bastante. Nós passamos pelo Corn Exchange no friozinho do crepúsculo de uma Primavera húmida, com o braço do meu namorado em volta de mim como uma estola de pele de raposa e a minha felicidade vagamente comprometida por uma pontadinha nas costas e só um pouco mais comprometida pelo enigma dos desejos de Jeremy.

De repente, de uma ruela lateral, apareceu na nossa frente sob a inadequada luz dos postes o orientador de Jeremy, Tony Canning. Quando nós fomos apresentados, ele apertou a minha mão e ficou segurando tempo demais, eu achei. Ele estava com cinquenta e poucos anos, mais ou menos a idade do meu pai, e eu sabia só o que o Jeremy tinha me contado. Ele era professor, era um antigo amigo do secretário do Interior, Reggie Maudling, que tinha vindo jantar na universidade. Os dois homens tinham rompido numa noite de bebedeira, por causa da política de detenções sem julgamento na Irlanda do Norte. O professor Canning tinha sido presidente de uma Comissão de Sítios Históricos, era membro de vários conselhos, inclusive do British Museum, e tinha escrito um livro muito elogiado sobre o Congresso de Viena.

Ele pertencia aos bons e grandes, um tipo que me era vagamente familiar. Homens como ele passavam pela nossa casa para fazer uma visita ao bispo de vez em quando. É claro que eram irritantes para qualquer um abaixo dos vinte e cinco anos naquele período pós-anos 1960, mas eu até que gostava deles. Eles podiam ser muito encantadores, e até espirituosos, e o rasto que deixavam, de charutos e brandy, fazia o mundo parecer organizado e rico. Eles se tinham em alta conta, mas não pareciam desonestos, e tinham, ou davam a impressão de ter, uma vigorosa noção de dever público. Levavam a sério os seus prazeres (vinho, comida, pesca, bridge etc.) e aparentemente alguns deles tinham participado de uma guerra interessante. Eu tinha lembranças de Natais da minha infância em que um ou dois deles deram uma nota de dez xelins para mim e para a minha irmã. Tudo bem que esses sujeitos controlassem o mundo. Tinha gente muito pior». ». In Ian McEwan, Serena, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-121-2.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

JDACT, Ian McEwan, Literatura, Narrativa,

Os Mistérios da Coroa. Nancy Bilyeau. «Segui o grupo até ao fim da rua e em seguida por outra via margeada por tabernas, que se abria para um imenso descampado plano apinhado de pessoas que já tinham chegado e aguardavam a execução do dia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Londres, 25 de Maio de 1537

«(…) Eu estava presa dentro do labirinto do jardim do meu tio. Ele havia acabado de construí-lo e não se cansava de repetir que os monges que tinha contratado para desenhá-lo eram melhores do que os que o cardeal Wolsey usara. O labirinto tinha sido inaugurado naquele dia, 4 de Setembro, data da celebração anual do segundo duque de Buckingham, meu avô falecido havia tempos. Nós, os primos, fomos vendados e conduzidos até ao centro. Então nossas vendas foram retiradas, e mandaram que saíssemos correndo para ver quem chegaria primeiro. Percorram o labirinto! Percorram o labirinto!, gritava meu tio do lado de fora das sebes sinuosas. Eu era uma das mais novas e logo fiquei para trás. Em pouco tempo me vi sozinha. Corria de um lado para outro esperando ver as paredes verdes se abrirem para o jardim, mas o meu instinto estava sempre errado e eu só me embrenhava ainda mais no labirinto.

O que há com você, Joanna? Pense, menina, pense! As vozes foram ficando mais altas, mais impacientes. Joanna, deixe de ser boba!, gritou um dos meninos. Alguém mais velho o mandou calar a boca. Eu virara o centro das atenções, coisa que sempre detestava. Será que havia dobrado à direita naquela curva ou à esquerda? O pânico me fazia esquecer os caminhos que já tinha percorrido. Como minha cabeça girava com o aroma das rosas. Dúzias de roseiras vermelhas muito bem podadas se espalhavam pelo labirinto. A temporada dessas flores estava quase no fim e as suas pétalas já tinham murchado e caído. Além disso, já havia passado a hora do dia em que o seu frescor estava no auge.

Mas eram muitas roseiras, e eu passara por elas várias vezes. Quase podia sentir na boca o sabor pungente daquelas rosas altivas e cheias de pólen. Fiz uma curva bem rápido e trombei com Margaret. Caímos as duas no chão, rindo, com as contas de nossas mangas bufantes emboladas umas nas outras. Depois de nos soltarmos, ela me ajudou a levantar. Margaret era um ano mais velha e cinco centímetros mais alta que eu e sempre muito mais inteligente e bonita. Minha prima-irmã, minha única amiga. Margaret, onde se meteu?, gritou o duque de Buckingham. É melhor não ter entrado no labirinto de novo para buscar Joanna. Ah, ele vai zangar-se consigo, falei. Não deveria ter vindo. Margaret piscou para mim. Limpou a sujeira das nossas roupas de festa e me conduziu para fora do labirinto sem largar a minha mão em momento nenhum.

Estavam todos nos esperando na entrada, no que parecia ser uma reunião completa do clã dos Stafford e de todos os nossos criados. Meu tio, o duque, mais importante nobre da Inglaterra, usava roupas bordadas em prata e uma longa pena de avestruz no chapéu. Ao lado dele estava seu irmão mais novo, sir Richard Stafford, meu pai. Por pouco não os alcançava uma sombra comprida que se estendia pelo jardim, lançada pela torre quadrada que se erguia acima de nós. O castelo de Bornbury (?), em Gloucestershire, fora construído para fazer frente aos ataques. Não de algum inimigo estrangeiro, mas de muitas gerações de reis Plantagenetas cobiçosos de poder. Destemida, Margaret foi directamente até ao duque. Viu, pai, encontrei Joanna, disse ela. Já podem ir jogar ténis. Ele nos examinou com as sobrancelhas arqueadas enquanto todos aguardavam, tensos. Mas o duque de Buckingham riu. Beijou a filha adorada, sua filha ilegítima, criada junto com os quatro rebentos de sua submissa duquesa. Eu bem sei que você é capaz de tudo, Margaret, falou. Meu pai também me deu um abraço apertado. Ele havia passado o dia inteiro caçando, e me lembro do seu cheiro de suor, terra e relva seca esmagada. Eu me senti muito aliviada e feliz.

A carroça londrina deu uma travagem e estremeceu, derrubando-me por cima da palha. Foi o fim do meu devaneio.  Tínhamos deixado para trás os muros da cidade e viramos para uma rua lateral. As rodas da carroça estavam atoladas na lama. O carroceiro praguejou quando os cavalos relincharam, e os homens barulhentos se moveram para a parte de trás da carroça. Não faz mal, disse-me a mulher. Já estamos quase em Smithfield.

Segui o grupo até ao fim da rua e em seguida por outra via margeada por tabernas, que se abria para um imenso descampado plano apinhado de pessoas que já tinham chegado e aguardavam a execução do dia. Eram centenas: homens, mulheres, marinheiros e costureiras, além de crianças. Uma família me empurrou para passar, a mãe carregando um cesto de pão, o pai com um menino encarapitado nos ombros. Sem qualquer aviso, um cheiro fétido dominou minhas narinas, minha garganta e meus pulmões. Meus olhos lacrimejaram. Era o pior cheiro que eu já tinha sentido em Londres. Dei um grito e levei as mãos à garganta, que ardia. É o matadouro, que fica a leste daqui, explicou a mulher com quem eu viajara na carroça. Quando o vento sopra de lá, o cheiro de sangue e vísceras pode ser bem ruim. Ela tocou meu cotovelo. Estou vendo que você não está acostumada com Smithfield. Venha comigo, não saia de perto». In Nancy Bilyeau, Os Mistérios da Coroa, Editora Arqueiro, 2012, ISBN 978-858-041-082-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Nancy Bilyeau, Literatura, Londres, 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Nancy Bilyeau. Os Mistérios da Coroa. «Todas as três, respondeu outro. Uma risada nervosa percorreu a carroça. Era crime zombar dos casamentos do rei, que se divorciara da primeira esposa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Londres, 25 de Maio de 1537

«(…) Um rapaz sentado à minha frente abriu um sorriso e disse, em voz alta, para a carroça inteira escutar: estamos gratos ao rei por queimar uma bela jovem em Smith eld. A última pessoa a morrer na fogueira foi um falsário velho e feio. Um bolo de pão mastigado me subiu pela garganta e cobri a boca com a mão. Mas ela é bonita mesmo?, perguntou alguém. Um homem já idoso, de olhos azuis leitosos, enrolava com o dedo um pelo comprido que brotava do meio de seu queixo. Eu conheço uma pessoa que já viu lady Bulmer em carne e osso, e ela é bonita, sim, disse ele devagar. Mais do que a rainha. Que rainha?, gritou um dos homens. Todas as três, respondeu outro. Uma risada nervosa percorreu a carroça. Era crime zombar dos casamentos do rei, que se divorciara da primeira esposa e executara a segunda para dar lugar à terceira. Muita gente já tinha perdido mãos e orelhas por causa disso. O velho torceu o pelo do queixo com mais força.

Lady Bulmer deve ter ofendido muito o rei para ele mandar queimá-la em praça pública diante dos plebeus, em vez de mandar decapitá-la perto da torre ou de enforcá-la em Tyburn. Eles trouxeram para Londres todos os nobres e dalgos, todos os seguidores de Robert Aske, disse o rapaz. Para receber a justiça do rei. Ela vai ser apenas a primeira a ser executada.

Minha respiração se acelerou. O que aqueles londrinos iriam dizer, o que iriam fazer comigo se soubessem quem eu era e de onde vinha? Uma coisa era certa: eu jamais chegaria a Smithfield. Busquei nas minhas preces algo para me fortalecer. Senhor meu Deus, ajudai-me a ser obediente sem reservas, pobre sem servilidade e casta sem excepção. Essa tal de Margaret Bulmer é uma rebelde imunda!, gritou a mulher que tinha dividido o pão comigo. Uma papista do norte que conspirou para derrubar nosso rei. Humilde, alegre sem esbórnia, séria sem afectação, activa sem frivolidade, submissa sem amargura, verdadeira sem duplicidade. Com voz branda, o velho disse: no norte, as pessoas deram a vida pelas tradições. Queriam proteger os mosteiros. Todos soltaram exclamações de desprezo. Aqueles monges gordos escondendo potes de ouro enquanto os pobres morrem de fome do lado de fora dos seus muros.

Ouvi falar numa freira que pariu o bastardo de um padre. As freiras são todas pu… Ou então aleijadas..., ou estúpidas, desprezadas pelas famílias. Ouvi um ruído rascante. Foi minha própria risada, uma risada amarga, sem alegria, e que ninguém escutou, pois nesse mesmo instante ouviu-se um grito do lado de fora da carroça. Uma criança de rua passou correndo, tão depressa que ultrapassou os nossos cavalos. Um olhar de pânico por cima do ombro revelou que não era um menino, mas sim uma menina de rosto encardido, com os cabelos cortados curtos.

Um punhado de terra voou pelo ar e atingiu seu ombro. Ai!, gritou ela. Seus cachorros! Dois meninos grandes apareceram junto à lateral da carroça e riram. Iriam alcançá-la dali a um minuto. Os homens em cima da carroça atiçaram a perseguição. A menina saiu correndo pela rua em direcção às lojas. Outra garota acenou do vão de uma porta. Por aqui!, gritou. A moça entrou, e a porta se fechou atrás das duas. Os meninos chegaram segundos depois e começaram a esmurrar a porta, mas estava trancada. Fechei os olhos. Era outra menina quem corria. Aos 8 anos, sem ar, com a barriga doendo, eu corria por um caminho cercado por altas sebes de teixo, em busca de uma saída. Podia ouvir pessoas chamando meu nome, mas não conseguia vê-las. Rápido, Joanna, rápido... nós vamos jogar ténis depois!, gritavam meus primos, tão fortes, tão duros.

Vamos, menina, você consegue!, bradava o meu tio Edward Stafford, terceiro duque de Buckingham e chefe da família. Tem que encontrar a sua própria saída. Não podemos mandar ninguém atrás de vós e correr o risco de perder mais uma criança». In Nancy Bilyeau, Os Mistérios da Coroa, Editora Arqueiro, 2012, ISBN 978-858-041-082-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Nancy Bilyeau, Literatura, Londres,