quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Manual para Mulheres de Limpeza. Lucia Berlin. «Fingi que não me importava e, além disso, gostava da cozinha, do riso brando e dos murmúrios das freiras, que usavam hábitos que pareciam camisas de noite artesanais quando ali estavam»

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Estrelas e santos
«(…) Mas depois ouvi guinchos e gritos e uma freira a dizer oh, não, não consigo, e percebi que não faria mal eu entrar porque aquilo que ela não conseguia fazer era tirar os ratos mortos das armadilhas. Eu faço isso, disse eu. E as freiras ficaram tão agradadas que não disseram nada sobre eu estar na cozinha, à excepção de uma delas, que sussurrou a outra: protestante. E foi assim que começou. Elas também me deram uma bolacha, quente e deliciosa, com manteiga. É claro que eu tinha tomado o pequeno-almoço, mas era tão boa que a engoli sofregamente, e elas deram-me outra. Todos os dias, então, em troca de esvaziar e voltar a preparar duas ou três armadilhas, não só recebia bolachas como uma medalha de S. Cristóvão, que usava mais tarde, como senha de almoço. Isto poupava-me à vergonha de, antes de as aulas começarem, me pôr na fila para trocar moedas pelas senhas que usávamos para o almoço.
Por causa das minhas costas, deixavam-me ficar na sala de aula durante a ginástica e o recreio. Só as manhãs é que eram difíceis, porque o autocarro chegava antes de abrirem as portas da escola. Forcei-me a tentar fazer amigas, a falar com raparigas da minha turma, mas em vão. Elas eram todas católicas e estavam juntas desde o jardim-de-infância. Na verdade, eram crianças simpáticas e normais. Eu entrara para a escola fora de tempo; pelo que era muito mais nova, e vivera em acampamentos de explorações mineiras longínquas antes da guerra. Não sabia dizer coisas como gostas de estudar o Congo Belga? ou quais são os teus passatempos? Eu cambaleava na sua direcção e exclamava: o meu tio tem um olho de vidro. Ou: encontrei um urso-de-kodiak morto com o focinho cheio de larvas., Elas ignoravam-me ou riam entre si ou diziam: mentirosa, vai-te crescer o nariz!
Assim, durante algum tempo, tive um sítio para onde ir antes das aulas. Sentia-me útil e valorizada. Mas, depois, ouvi as raparigas a sussurrarem pobrezinha de caridade, juntamente com protestante, e começaram a chamar-me caça-ratos e Minnie Mouse. Fingi que não me importava e, além disso, gostava da cozinha, do riso brando e dos murmúrios das freiras, que usavam hábitos que pareciam camisas de noite artesanais quando ali estavam. É claro que, por essa altura, já tinha decidido que me tornaria freira, porque elas nunca pareciam nervosas, mas, sobretudo, devido aos hábitos pretos e às toucas brancas, aquelas armações para a cabeça que pareciam gigantescas flores-de-lis engomadas. Aposto que a Igreja Católica perdeu muitas candidatas a freiras quando estas começaram a vestir-se de forma banal. Depois, a minha mãe foi à escola, saber como me estava a sair. Elas disseram que o meu desempenho nas aulas era excelente e que o meu comportamento era perfeito. A Irmã Cecília disse-lhe quanto apreciavam ter-me na cozinha e como se certificavam de que eu tomava um bom pequeno-almoço. A minha mãe, sempre snob, com o seu velho casaco carcomido e a sua gola de raposa carcomida e já sem olhos, ficou horrorizada, enojada com os ratos e absolutamente furiosa com a medalha de S. Cristóvão, porque eu continuara a receber as minhas moedas todas as manhãs e a gastá-las em rebuçados depois da escola. Ladrazinha delinquente! Trás. Trás. Horrorizada!.
As coisas acabaram assim, e foi tudo um grande mal-entendido. As freiras, ao que parece, pensaram que eu rondava a cozinha por ser uma pobre desamparada cheia de fome, e deram-me a missão das ratoeiras por caridade, não porque precisassem de mim. O problema é que, ainda hoje, não sei de que modo se poderia ter evitado aquela impressão errada. Talvez se eu tivesse recusado o biscoito?
Foi assim que acabei por passar tempo na igreja antes das aulas e por decidir tornar-me freira, ou santa. O primeiro mistério era que as filas de velas por baixo de cada uma das estátuas de Jesus, de Maria e de José se agitavam e tremeluziam, como se houvesse correntes de ar, embora a igreja estivesse bem fechada e nenhuma das portas pesadas estivesse aberta. Acreditava que o espírito e Deus nas estátuas era tão forte que levava as chamas a agitarem-se e silvarem, trémulas com o sofrimento. Cada pequeno rompante de luz iluminava o sangue acumulado nos pés brancos e ossudos de Jesus, fazendo-o parecer molhado». In Lucia Berlin, Manual para Mulheres de Limpeza, 1977, …, 1999, Penguin Random House, 2016, Alfaguara, 2018, ISBN 978-989-665-065-0.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

Manual para Mulheres de Limpeza. Lucia Berlin. «Desde que me lembro que causo uma péssima primeira impressão. Daquela vez, em Montana, quando tudo o que queria fazer era tirar as meias ao Kent Shreve, para podermos ir descalços…»

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«(…)
Estrelas e santos
Esperem. Deixem-me explicar… Toda a minha vida tropecei nestas situações, como aquela manhã com o psiquiatra. Ele estava a viver na moradia atrás da minha casa enquanto fazia obras na sua casa nova. Tinha muito bom aspecto, e também era bonito, e claro que eu queria causar uma boa impressão. Teria levado biscoitos, mas não quis que me achasse inconveniente. Uma manhã, mesmo ao nascer-do-sol, bebia café e contemplava o meu jardim da janela, que estava maravilhoso naquela altura, com as ervilhas-de-cheiro e os delphiniums e os cosmos. Sentia-me, bem, sentia-me cheia de alegria... Porque hesito em contar-lhe isto? Não quero que pense que sou lamechas, quero causar boa impressão. Seja como for, estava feliz, e atirei um punhado de alpista para o alpendre e deixei-me ficar sentada, a sorrir para mim mesma enquanto dúzias de rolas-carpideiras e pintassilgos afluíam para comer as sementes. De repente, dois grandes gatos saltaram para o alpendre e começaram a abocanhar as aves, com penas pelos ares, no preciso momento em que o psiquiatra saiu de casa. Ele olhou horrorizado para mim, disse que coisa terrível, e afastou-se rapidamente. Depois daquela manhã, evitou-me por completo, e não era da minha imaginação. Eu não tinha forma de lhe explicar que aquilo acontecera tão depressa que eu não estava a sorrir para os gatos a abocanharem os pássaros. A minha felicidade quanto às ervilhas-de-cheiro e aos pintassilgos é que não tivera tempo de se dissipar.
Desde que me lembro que causo uma péssima primeira impressão. Daquela vez, em Montana, quando tudo o que queria fazer era tirar as meias ao Kent Shreve, para podermos ir descalços, mas elas estavam presas à sua roupa interior. Porém, aquilo de que realmente quero falar é da St. Joseph’s School. Hoje em dia, os psiquiatras (não fique com a ideia errada, peço-lhe, não tenho nenhuma obsessão com psiquiatras, nada disso), parece-me que os psiquiatras se concentram demasiado na cena primária e na privação pré-edipiana e ignoram o trauma dos primeiros anos de escola e das outras crianças, cruéis, frias, implacáveis.
Nem sequer vou falar do que aconteceu na escola de Vilas, a primeira escola que frequentei em El Paso. Tudo aquilo um grande mal-entendido. Então, dois meses depois de começar o ano, na terceira classe, lá estava eu no recreio, fora do edifício da St. Joseph's. A minha nova escola. Absolutamente aterrorizada. Julguei que usar farda ajudaria. Mas tinha um suporte ortopédico pesado nas costas, para aquilo que se chamava a curvatura, que, sem rodeios, era uma corcunda, razão por que tivera de comprar a camisa branca e a saia de xadrez um tamanho acima, para que o tapassem, e claro que à minha mãe não lhe ocorreu fazer a bainha à saia. Outro grande mal-entendido. Meses mais tarde, a Irmã Mercedes era quem estava como monitora. Era a mais jovem e doce, a que devia ter tido uma história de amor trágica. Ele provavelmente morreu na guerra, piloto. Ao passarmos por ela, duas de cada vez, ela tocou-me na corcunda e sussurrou: minha filha, tens uma pesada cruz.
Ora, como é que ela havia de saber que, por essa altura, eu me havia tornado uma fanática religiosa, que aquelas suas palavras inocentes só me tinham convencido da minha ligação predestinada com Nosso Senhor?
(Oh, e mães. No outro dia, no autocarro, uma mãe entrou com o seu rapazinho. Via-se que era uma mãe que trabalhava fora de casa, que tinha ido buscá-lo ao infantário, que estava cansada mas contente por o ver, e perguntou-lhe como tinha sido o seu dia. Ele disse-lhe todas as coisas que tinha feito. És tão especial!, disse ela, e abraçou-o. Especial quer dizer que sou atrasado mental!, disse o miúdo. Tinha grandes lágrimas nos olhos, e ali ficou, assustado de morte, enquanto a sua mãe continuou a sorrir, como eu com os pássaros).
Naquele dia, no recreio, percebi que nunca na minha vida me iria integrar. Não apenas enquadrar, integrar. Num canto, duas raparigas rodavam uma corda pesada e, uma a uma, bonitas raparigas de bochechas rosadas saíam de uma fila para ir saltar à corda, saltar, saltar, e sair de novo, mesmo a tempo, voltando para o fim da fila. Zás, zás, ninguém se enganava. No meio do recreio havia um baloiço giratório, com um assento circular que dava alegremente voltas e voltas e nunca parava, com as crianças, rindo, a saltar para cima e para fora dele sem sequer... nem é sem cair, é sem haver uma mudança de ritmo. À minha volta, por todo o lado, havia simetria e sincronia. Duas freiras, as contas dos seus rosários a tilintarem em uníssono, os seus rostos macios a anuírem em harmonia com as crianças. Jachs. A bola a ressaltar com um estampido limpo no cimento, as doze peças do jogo a voar pelos ares e a serem todas apanhadas pelo girar de um pequeno pulso. Slap, slap, slap, outras raparigas a jogarem intrincados jogos de palmas. Deambulei por ali, não só incapaz de me integrar, mas aparentemente invisível, o que tinha as suas vantagens. Fugi para um canto do edifício onde podia ouvir ruído e risos vindos da cozinha da escola. Ali, estava escondida do recreio; os barulhos amistosos que vinham do interior reconfortavam-me. Porém, também não podia entrar». In Lucia Berlin, Manual para Mulheres de Limpeza, 1977, …, 1999, Penguin Random House, 2016, Alfaguara, 2018, ISBN 978-989-665-065-0.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

As Crianças de Cárquere. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «As moçárabes recolocaram os vestidos nas sacas e Zaida preparava-se para as acompanhar, mas o marido mandou-a ficar junto dele. Surpreendida, a princesa perguntou: que temeis? Vou só despedir-me»

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As Crianças de Cárquere. 1146
Lamego, Agosto de 1146
«(…) Uma semana mais tarde, os quatro carregaram um barco com tecidos e partiram de Montemor. Desceram a costa para sul e, após virarem o último cabo, rumaram ao rio Arade, que subiram até perto de Silves. Cuidado, avisou Ília, ao meter um pé em terra firme. Mem devia permanecer no cais fluvial, ou mesmo escondido no barco, pois os  soldados de Qasi podiam reconhecê-lo. Tendes razão..., rnurmurou o almocreve. Pouco depois, Ália, Élia e Ília entraram na cidade, decididas a dar nas vistas com a venda de tecidos. E o estratagema resultou. Tão alegres e coloridos eram os padrões exibidos que foram chamadas ao palácio, para mostrar à princesa os alifafes, as túnicas e os mantos. Tentai convencê-la a vir, pediu Mem. A meio da tarde, as três irmãs foram levadas à presença de Zaida. Teriam de ficar a sós com ela, durante as provas dos vestidos, pois só aí lhe poderiam revelar porque ali estavam.
E assim foi. Viram-na, cumprimentaram-na e despiram-na, para melhor a vestirem com alifafes transparentes. E só nesse momento de intimidade feminina a abordaram. Princesa, viemos com Mem, disse Ília. Espantada, Zaida franziu a testa. Com quem?, perguntou. Desconfiada, olhou-as demoradamente, enquanto apreciava as vestes. Eram belas, bom tecido, bom corte. Como as que Mem vendera, no passado, à sua mãe, Zulmira. Contudo, um passo em falso podia perdê-la, o marido vigiava-a
fortemente. Mem..., murmurou, como não se lembrasse. É filho de quem? Poucos conheciam a história, mas Ília recordava-se. O pai do almocreve fora degolado pelo mesmo assassin que matara a mãe de Zaida, um facínora enviado pelo antigo califa almorávida Ali Yusuf. Satisfeita com o esclarecimento, a princesa perguntou: ele está bem?
A tensão das moçárabes desanuviou-se e desataram a língua. Mem era agora cavaleiro portucalense, o rei de Portugal oferecera-lhe as ruínas de Almourol, que ele tentava restaurar. Mas só pensava nela, dizia sempre às amigas que um dia casaria com Zaida! Casar comigo?, espantou-se a princesa. Abanou a cabeça, afirmando que isso nunca iria acontecer. Ela era esposa de Ibn Qasi e ele almocreve, além de muito dado às mulheres. Isso é verdade!, riram-se as moçárabes. Franzindo o sobrolho, Zaida interrogou-as: Com as três? As moças gabaram Mem, um portento de homem. Aliás, adiantou Ília, não as filhava só a elas, mas também à barregã real, Chamoa, que recentemente partira para Tui, por ordem rainha Mafalda da Sabóia, depois de esta a apanhar a ser filhada pelo rei de Portugal.
Quanta anirnação..., murmurou Zaida. Comparada com aquele rebuliço, a sua vida em Silves era de uma penúria atroz. O marido mantinha o harém, mas ela sufocava com os véus, as regras e as rezas. Pensar noutro homem era o mesmo que condená-lo à morte. Nem sequer posso ir ao cais! Zaida só podia sair do palácio na companhia do marido. Os religiosos espreitavam em cada esquina e Silves era um ninho de denúncias. Se desejardes, Mem pode vir aqui, sugeriu Ília. A princesa recusou. Nem pensar, Mem jamais sairia vivo do palácio. Silves mudara e ela também. A opressão almóada roubara-lhe a jovialidade, o sorriso, a alegria e a liberdade. Nunca me deixarão usar estas roupas...
Pesarosa, Zaida devolveu às moçárabes os alifafes e as túnicas, no preciso momento em que a porta da sala se abriu e surgiu Ibn Qasi. Princesa!, exclamou ele. Disseram-me que três mulheres andavam por Silves a vender roupa indecente! Já estão de saída, tranquilizou-o Zaida. Não vou comprar nada. O marido exigiu que as moçárabes lhe mostrassem as vestes. Mal notou as transparências, explodiu: roupas destas são proibidas pelo Corão! Zaida ainda relembrou que Silves era uma cidade habituada a costumes mais tolerantes do que a religiosa Tinmel, o coração da fé almóada. Mas de nada lhe valeu. Isso acabou!, gritou Ibn Qasi. O Corão é só um! Furibundo, o sufi quis saber quem eram as desconhecidas e as três moçárabes obviamente mentiram-lhe. Negociavam em Lisboa e em Alcácer, mas não em Badajoz ou Beja, pois não confiavam em Ibn Wasir.
E vendeis roupa a cristãos7 - perguntou-lhes Ibn Qasi. Ainda arrependido do acordo que fizera anos antes com Afonso Henriques, o sufi vivia na ânsia de provar aos almóadas que não iria repetir tal enormidade. Odiamos essa canalhada!, garantiram em coro as três manas. Mesmo assim, Ibn Qasi proibiu-as de negociarem quaisquer vestidos em Silves ou Mértola, pois não admitia que as mulheres da sua taifa se apresentassem com indecências. As três raparigas deviam partir imediatamente para norte, antes de as leis dos almóadas serem impostas também em Lisboa, Santarém ou Álcacer. Já não falta muito para esse dia chegar!, profetizou Ibn Qasi.
As moçárabes recolocaram os vestidos nas sacas e Zaida preparava-se para as acompanhar, mas o marido mandou-a ficar junto dele. Surpreendida, a princesa perguntou: que temeis? Vou só despedir-me. Irritado, Ibn Qasi colocou-se à frente dela: fazei o que eu mando ou... De cabeça baixa, Ália, Élia, e Ília, abandonaram o local depressa, deixando para trás uma silenciosa e triste princesa. Chegadas ao cais, relataram a Mem o que se passara. Temos de partir já, defendeu Ília. Consciente de que nada mais podia fazer, o desiludido almocreve aceitou regressar a Coimbra.
Se o presente é escuro, põe a cabeça no futuro.
Quando o revi, em Dezembro, Mem continuava frustrado. Ibn Qasi é um monstro! Eu devia raptá-la!» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9
                                                 
Cortesia da CasadasLetras/JDACT

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

As Crianças de Cárquere. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Em Almourol, entretido com a recuperação das ruínas do castelo mouro que por lá existia, quando soube destes desenvolvimentos Mem decidiu que estava na hora de rumar ao Sul. Porque não nos levais?, perguntou-lhe Ália»

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As Crianças de Cárquere. 1146
Lamego, Agosto de 1146
«(…) Disse-1he que tal era pouco provável, pois Mem só pensava em Zaida. Depois relembrei-lhe que Chamoa desejava ir visitar o avô dele, Gomes Nunes, e depois Cárquere. Essa historieta não leva a lado nenhum, comentou o rapaz. Em sua opinião, coisa que ele tinha cada vez mais, desenterrar o passado era um erro tolo. Só encontraríamos ossadas velhas e malcheirosas. A intriga de Compostela, estava morta e Pêro Pais receava insistir na trapalhada, que podia prejudicar a sua ascensão ao posto de alferes. Ainda me tramam com isso... Ouvi-o atentamente, mas no final avisei-o: a rainha erigiu o afastamento de Chamoa de Coimbra. Julgo ser melhor vós também a acompanhardes.
O meu sobrinho era um rapaz esperto, sabia perfeitamente que a oposição de Mafalda da Sabóia era perigosa. Enquanto todos esperávamos pela renúncia de Gonçalo Sousa, não era avisado afrontar a francesa. Assim, e embora já saudoso das amigas que ia deixar, aceitou partir. Não vos preocupeis, elas esperam por vós, garanti-lhe. E no Minho também existem mulheres!
Na manhã seguinte, dona Justa, Fernando Afonso e Pedro Afonso subiram para uma carroça, enquanto os outros três filhos de Chamoa montaram cavalos, ao lado da mãe, de Pêro Pais e de Gualdim Pais, o amigo de sempre. Antes de a comitiva abalar, várias raparigas vieram despedir-se do meu sobrinho mais velho. Espantada com a dimensão da confraria, dona Justa perguntou se ele teria filhos. Nada disso, ensinei-o bem!, orgulhou-se Chamoa. Industriara o primogénito para não se deixar caçar por nenhuma fresca coimbrã, e Pêro Pais fora bom aluno, pois não se viam grávidas, nem sequer Ália, Élia e Ília, que foram as últimas a comparecer, decerto para não se humilharem na presença de tantas rivais.
Vou morrer sem vós, meu pêssego!, declarou Ília. E eu, que nem piar sei, sem o meu passarinho?, questionou-se Élia. Apenas Ália, a mais velha, se limitou a dizer: fazei boa viagem e cuidai de vossa mãe. Farta de tantos beijos ao filho, Chamoa deu ordens aos carroceiros para avançaram pela estrada que se dirigia ao Porto. Ao ver a comitiva afastar-se, recordei as últimas palavras que trocara com ela. Pedira-1he que fosse ao Mosteiro cie Cárquere, depois de visitar o pai, em Pombeiro. Contudo, Chamoa replicara-me: valerá a pena descobrir a intriga de Compostela, depois de ter sido banida pela rainha? Pior do que tudo, acrescentara a minha cunhada, era a ideia de que no Norte não teria ninguém que lhe aquecesse os pés à noite. Até o Mem me falhou...
Queridos filhos e netos, naquele dia, Mem já andava com a cabeça noutro lado. Embora ainda em Almourol, tinham-lhe chegado notícias de Silves. Ibn Qasi voltara de Áfricu " recuperara a cidade, onde se instalara com a esposa e a filha.
Naturalmente, Mem estava morto de saudades da princesa
que tanto amava...

Silves, Novembro de 1146
Num primeiro momento, Mem alegrou-se ao saber que, em inícios de Outubro, Ibn Qasi reconquistara Silves com a ajuda dos almóadas africanos. Al-Mumim, o líder da seita, destacara um chefe berbere chamado Bercaz Al-Masufi, que desembarcou no rio Arade e rapidamente tomou a povoação, oferecendo-a de volta ao sufi.
Emir renascido, mais enfurecido.
Controlada essa cidade, o marido de Zaida convenceu os africanos a avançarem até Mértola. Só que, do outro lado, continuava o manhoso Ibn Wasir. Sabedor da força dos almóadas, este recuou até Badajoz e, logo que o Outono trouxe as primeiras chuvas, propôs uma paz aceitável aos africanos: o sufi ficava com o reino de Silves e de Mértola, mas Ibn Wasir mantinha Beja, Évora e Badajoz.
A esperta serpente, engana toda a gente.
Avisado pelo líder de que devia poupar os exércitos, Berraz Al-Masufi aceitou o arranjo e regressou a Marrocos, o que deixou Ibn Qasi colérico, pois não conseguira vingar-se de Ibn Wasir. O marido da princesa atirou-se então à população de Silves, alimentando uma busca incessante de traidores, que muito amargurou Zaida, defensora da pacificação entre as gentes do Al-Gharb e o seu emir.
À mulher calma, dói-lhe mais a alma.
Em Almourol, entretido com a recuperação das ruínas do castelo mouro que por lá existia, quando soube destes desenvolvimentos Mem decidiu que estava na hora de rumar ao Sul. Porque não nos levais?, perguntou-lhe Ália. Dois meses depois de Pêro Pais ter deixado Coimbra, as três irmãs moçárabes tinham ido visitar o antigo almocreve a Almourol, onde o encontraram já em preparativos para a viagem. Ora, sabendo que Ibn Qasi odiava Mem, elas sugeriram ao amigo que as levasse, como disfarce útil. Podemos vencer tecidos, avançou, Élia. Alifafes!, exclamou, Ília. E falar com Zaida..., sugeriu, Ália. Mem concordou. O sanguinário Ibn Qasi certamente o mandaria matar, se o apanhasse perto da mulher». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9
                        
Cortesia da CasadasLetras/JDACT

As Crianças de Cárquere. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «O almocreve promovido a cavaleiro andava a recuperar as ruínas de Almourol. Talvez a sua ausência permitisse a Pêro Pais deixar Coimbra por uns tempos»

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As Crianças de Cárquere. 1146
Lamego, Agosto de 1146
«(…) Serei sempre vossa, aprovou Chamoa. Agradado, Afonso Henriques comparou-a com a rainha. A francesa é um peixe frio, mas vós sois um tição! A minha cunhada sentiu-se melhor do que a outra.
Pode ser rainha, mas não o mima como eu!
Emocionada, Chamoa imaginou um ano de encontros assim. Com a rainha fora de combate, era certo e seguro que Afonso Henriques viria à sua cama muitas vezes. De rabo levantado e cara enfiada nas almocelas, chegou a fantasiar engravidar de novo, dando-lhe mais um filho. Tal era a sua loucura que só tarde de mais ouviu o barulho de alguém a entrar. Afonsô, tu est la?, berrou Mafalda. Chamoa gelou, enquanto Afonso Henriques continuava a fustigá-la com fervor, só se apercebendo de que fora apanhado em flagrante quando a porta do quarto se abriu. Tu est avec la vache?, vociferou a princesa da Sabóia. O que se seguiu foi uma enorme confusão. Mafalda, totalmente transtornada, desatou às estaladas, acertando ora nas pernas nuas do rei de Portugal, ora nas de Chamoa. La pute, je vais la tuer!, gritava Mafalda. O meu amigo gigante obrigou-a a sair daquela casa, deixando sozinha Chamoa, confusa e abandonada.
Que vergonha, Virgem Santíssima!
Em lágrimas, a minha cunhada deu-se conta das implacáveis ironias do destino. Anos antes, descobrira Afonso Henriques na cama com Elvira Gualter. Agora, os papéis invertiam-se. De legítima enganada, passara a amante adúltera.
Que tola sou, não ganhei nada, só perdi.
As mulheres grávidas ficam diferentes..., resmungou Afonso Henriques, quando me mandou chamar. A rainha perturbara-se, por isso fizera uma cena. Mas o verdadeiro problema era o adultério real já ser público e julgado escandaloso. Tanto o arcebispo de Braga, João Peculiar, como o prior Teotónio, de Santa Cruz, consideravam inaceitável tanta pouca-vergonha, apontando o dedo à duvidosa Chamoa. E mesmo Peres Cativo, sempre tão tolerante com histórias de cama, avisou que, se cena assim se repetisse, Pêro Pais nunca chegaria a alferes.
Chamoa que vá para Tui por uns meses, comunicou-me Afonso Henriques. Que leve dona Justa e os filhos, incluindo o Pêro Pais! Como era costume, fui o encarregado de dar as más notícias. Sem surpresa, a minha cunhada aceitou o seu triste fadário, avisando-me apenas de que seria difícil Pêro Pais acompanhá-la, pois andava a divertir-se em Coimbra com as três moçárabes. Ide convencê-lo, dizei-lhe que Mem não está cá,
sugeriu ela.
O almocreve promovido a cavaleiro andava a recuperar as ruínas de Almourol. Talvez a sua ausência permitisse a Pêro Pais deixar Coimbra por uns tempos. Não está, mas pode voltar!, contestou este. O filho mais velho de Chamoa, prestes a cumprir vinte anos, atingira o apogeu do seu convencimento masculino. Galanteador e bem-parecido, conquistava corações femininos onde quer que fosse e tinha em Coimbra uma lista de amigas vasta, onde se incluíam filhas de lavradores, criaditas, meninas mais atrevidas de boas famílias e, está claro, as três moçárabes que Mem trouxera de Lisboa. Põem-se todas de gatas à minha frente, gabava-se o meu sobrinho.
Com um atrevimento invulgar e uma energia permanente, Pêro Pais saltitava de colo em colo, todas filhando com gosto. Ainda por cima, já era conhecida a sua futura nomeação como alferes, o que multiplicara o desejo das moças e mesmo o de mulheres mais velhas. Pelam-se por jovens guerreiros..., explicava ele. Naturalmente, não queria abrir mão de tanto benefício, nem criar um vazio que aproveitasse a Mem. Apesar dos seus quarenta anos, o antigo almocreve era agora mais apetecível, devido ao recuperado castelo e ao recente título de cavaleiro. Ainda leva as moçárabes para Almourol.., resmungou Pêro Pais». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

As Crianças de Cárquere. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Leopoldo, ligeiramente embaraçado, não a esclareceu directamente, mas contou que ricos-homens, cavaleiros-vilãos ou até nobres senhoras depositavam em Cárquere meninos e meninas»

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As Crianças de Cárquere. 1146
Lamego, Agosto de 1146
«(…) Porém, com quem podíamos falar?, questionou-se ela. Todos os presentes em Astorga, no dia da morte do conde Henrique, estavam mortos. Dona Teresa e dona Urraca, Egas Moniz e Paio Soares, bem como Martinho de Soure, nenhum nos podia esclarecer. É um beco sem saída..., murmurei. Contudo e após esta conversa, durante o funeral de meu pai vi o monge Leopoldo Cárquere, que me estimulou a curiosidade. No final da cerimónia, chamei Chamoa e Teresa Celanova e apresentámo-nos ao desconhecido. Chamoa... Sois filha de Gomes Nunes e Elvira Peres Trava. Conheci ambos em Cárquere..., disse o monge. Os meus pais foram ao mosteiro?, espantou-se Chamoa.
Leopoldo, ligeiramente embaraçado, não a esclareceu directamente, mas contou que ricos-homens, cavaleiros-vilãos ou até nobres senhoras depositavam em Cárquere meninos e meninas que não tinham quem cuidasse deles. Vosso pai fê-lo também, afirmou o monge, olhando para mim. De repente, uma dúvida assaltou-me. Teria Egas Moniz levado a Cárquere uma criança aleijadinha, trocando-a por outra saudável? Seria o verdadeiro Afonso Henriques um órfão do mosteiro? Com um inesperado desagrado a moer-me as entranhas, perguntei quando se dera essa ocorrência e o monge disse que fora logo após a primeira viuvez de meu pai. Egas Moniz foi lá deixar uma menina, contou ele. Ainda lhe perguntei se sabia de alguma troca de meninos, mas infelizmente o monge foi chamado pelo arcebispo João Peculiar e despediu-se de nós sem nos esclarecer. Um beco sem saída, repetiu Chamoa.
Fascinado com a possibilidade de existirem segredos desconhecidos no Mosteiro de Cárquere, comentei: órfáos, filhos ilegítimos e rejeitados. Crianças perdidas... Com educada subtileza, Leopoldo revelara a existência de uma filha bastarda de meu pai, insinuando igualmente que os pais de Chamoa tinham pecadilhos que haviam sido depositados em Cárquere sem alarido. Temos de visitar o mosteiro!, exclamei. Novamente entusiasmados, decidimos que, mal a comitiva real abandonasse Lamego, iríamos até Cárquere, que não ficava longe. Só que tal não foi possível, pois Afonso Henriques exigiu que voltássemos de imediato a Coimbra, onde queria proceder às nomeações de Peres Cativo e de Pêro Pais, como os novos mordomo e alferes do reino.
Preciso de vós, Lourenço Viegas, para acalmar Gonçalo Sousa!, exigiu o rei de Portugal, virando-se depois para Chamoa: e quero-vos junto ao vosso filho, quando o fizer alferes! A ida a Cárquere teve, pois, de ser adiada, mas felizmente por pouco tempo.

Coimbra, Setembro de 1146
A escolha de Peres Cativo para novo mordomo incomodou fortemente Gonçalo Sousa, mas, ao contrário do que esperávamos, este não se demitiu do posto de alferes das tropas portucalenses. Limitou-se a partir de Coimbra, deixando Afonso Henriques num limbo incómodo, impedindo-o de nomear Pêro Pais. Sacana do Sousão!, enxofrou-se Chamoa. Permanecera na corte para defender os interesses do filho, mas não via a ascensão deste consumar-se e a sua irritação cresceu ainda mais quando lhe chegou outra novidade: a rainha Mafalda da Sabóia estava de esperanças. Grávida?, balbuciou Chamoa, quando a informei. Um herdeiro real saltaria de imediato para o primeiro lugar da linha sucessória. Ali estava, em todo o seu esplendor, o azar que dona Justa dizia fustigar Chamoa: o seu Fernando Afonso ia ser ultrapassado.
O meu menino nunca será rei, Virgem Santíssima!
Dias depois, Afonso Henriques foi visitar Chamoa à casa desta. Mafalda da Sabóia estabelecera uma regra implacável: enquanto a gravidez durasse, não podia ser filhada, com receio de perder o rebento. O rei aceitara a dura provação, mas decidira regressar à cama da barregã». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «O casamento por rapto era um costume ancestral dos visigodos, mas tornara-se uma raridade no Condado Portucalense. Aquela inesperada cláusula visava impedir…»

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As Crianças de Cárquere. 1146
Lamego, Agosto de 1146
«(…) Meus pais haviam-se dedicado durante anos à saúde do menino que, por obra e graça de Nossa Senhora, se curara dos tormentos! Por isso, Dordia Viegas, minha mãe, falava num milagre, e por isso meu pai construíra uma capela em Cárquere, para celebrar com júbilo eterno as melhoras de Afonso Henriques. Que loucura..., murmurou Egas Moniz, desolado. Em silêncio, pedi perdão a Deus por continuar a duvidar, mas tinha de expulsar os demónios que me assolavam. Em Cluny, Bernardo de Claraval perguntou-vos se eu era o primeiro dos vossos filhos. Porquê? Egas Moniz estendeu a sua mão e tocou na minha, murmurando: Lourenço Viegas... A sua voz calou-se, mas, apesar da minha forte emoção, prossegui: sou eu o verdadeiro Afonso Henriques? O que nasceu aleijado? É ele o vosso filho saudável?
Uma lágrima desceu pelo canto do olho direito de meu pai, que soluçou antes de dizer: Lourenço Viegas, não acrediteis nessa patranha! Vós sois meu filho e Afonso Henriques é filho do conde Henrique e de dona Teresa! Num esforço titânico, insisti: Bernardo de Claraval afirmou que todos os homens tinham segredos, incluindo o conde Henrique! Cada vez mais triste, Egas Moniz jurou não saber a que se referia o abade de Cluny. Mas, como a minha inquietude não cessava, recordei que, após o massacre dos templários, em Soure, meu pai havia defendido um ataque imediato a Santarém.
Era vosso desejo que o pároco dos templários morresse? Pálido e infeliz, o meu progenitor ignorou a pergunta e declarou que, durante trinta e sete anos, protegera Afonso Henriques, contra tudo e contra todos. Por ele, enfrentara dona Teresa e os Trava, dona Urraca e o arcebispo Gelmires, os mouros e o imperador Afonso VII. Aquele príncipe era um predestinado, sempre o soubera, e por isso fora o seu escudo protector, o seu fiel conselheiro! Protegei-o também, Lourenço Viegas. São muitos os que lhe querem mal, terminou meu pai, antes de se calar, abatido pelo esforço violento que lhe exigira a nossa conversa. Nessa mesma noite, Egas Moniz entregou a alma a Deus, e, dois dias depois, já os convidados tinham chegado, mas ainda antes da missa, Teresa Celanova chamou-me à parte e revelou-me os seus receios de viúva. Vosso pai deixou este testamento. Era um pergaminho mais longo do que os habituais, que li lenta e atentamente. Nada me espantou, excepto um curto parágrafo, onde Egas Moniz determinava que, caso Teresa Celanova fosse raptada e obrigada a casar, nenhuma das propriedades da família lhe seriam atribuídas. Meu pai tinha medo de quem?, perguntei.
O casamento por rapto era um costume ancestral dos visigodos, mas tornara-se uma raridade no Condado Portucalense. Aquela inesperada cláusula visava impedir que um homem ficasse na posse dos territórios da família Moniz de Ribadouro depois de raptar Teresa Celanova. Egas Moniz temia o imperador, confessou esta. Em jovem, fui amiga de Afonso VII. Alarmado perguntei-1he de chofre: Ainda o amais! Ela mirou-me, chocada. Mas recuperou depressa: claro que não, Lourenço Viegas! Sempre amei vosso pai. Era ainda nova quando Afonso VII me galanteou, mas hoje sei o quanto deseja destruir Afonso Henriques! Além de bonita e dotada para as lides domésticas, Teresa Celanova possuía um carácter firme e um coração bondoso e não me deixou dúvidas sobre as suas intenções. Que fareis, se ele vos vier raptar?, perguntei.
Nossa Senhora, mato-me antes que o consiga!, exclamou ela. Obviamente, essa era uma possibilidade remota, mas Teresa avisou-me de que as artimanhas de Afonso VII não iriam parar. Ela ouvira a minha conversa com Egas Moniz. Acreditais no que meu pai disse?, perguntei. Teresa Celanova suspirou. Custava-lhe duvidar do defunto marido, mas também não dissipara as suspeitas. Não sei qual é o segredo, mas há um!» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.
      
Cortesia da CasadasLetras/JDACT

As Princesas de Córdova. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Cavalgou até lá, verificando que estava aberto. Como não viu ninguém, entrou a trote, só parando dentro do perímetro do palácio»

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As Princesas de Córdova. Silves, 1145
Córdova, Fevereiro de 1145
«(…)
Filha, ide para a esquerda.
As mais duras lutas decorriam próximo do portão principal do Azzahrat, mas Zaida recordou-se de que existia outro, mais pequeno, para onde a voz da mãe a mandava. Cavalgou até lá, verificando que estava aberto. Como não viu ninguém, entrou a trote, só parando dentro do perímetro do palácio.
Um vasto pomar de laranjeiras apresentava-se à sua frente e atravessou-o lentamente, enquanto Maryam se entusiasmava: mamã, naranjas! Dá uma! Zaida desceu do cavalo para apanhar um fruto. Era redondo, largo, uma bola de cor. Sorriu. Como gostava daquelas laranjas, quantas vezes viera ali com a irmã e a mãe, Zulmira, para as colher e saborear!
Filha, dói-me o peito de saudades.
Ofereceu um primeiro gomo à filha, que o comeu, pingos a escorrerem-lhe pelos cantos da boca, rindo satisfeita. Olhou à sua volta, mas dali não via nada, cercada pelas laranjeiras. O rumor das lutas persistia. Voltou a montar e atravessaram o pomar na diagonal, até chegarem a um espaço repleto de margaridas e mil outras flores. Eram o jardim da sua mãe, que esta plantara com dedicação. Continuam bonitas, as flores da avó!, disse à filha. Desmontou novamente, levando pela rédea o cavalo, onde Maryam permanecia, até chegar a um portal, para lá do qual se via um pátio.
Filha, tende cuidado!
Devagar, atrelou o cavalo a uma árvore e desceu Maryam. O local parecia deserto, mas permaneceu parada, enquanto escutava à sua direita o tilintar dos alfanges. Deduziu que talvez Ibn Qasi já tivesse entrado no Azzahrat, mas de repente alarmou-se, quando ouviu um súbito grito de mulher.
Filha, é a vossa irmã!
Impelida por forca maior do que a dela, atravessou o portal com Maryam, mas mal entrou no pátio percebeu que cometera um erro grave, quando viu surgir à sua frente um grupo de soldados de Ismar, armados até aos dentes; e à sua direita, praticamente no mesmo instante, Ibn Qasi e os seus homens. Mãe!, gemeu Maryam, assustada. Zaida escondeu-a atrás dela, enquanto notava que os soldados estavam fixados uns nos outros. Não a haviam visto, por isso tentou recuar para se esconder, só que nesse momento ouviu novo grito e viu gente a correr, ao fundo, à sua esquerda. Fátima, Abu Zhakaria, Mem e Chamoa fugiam do palácio, e uma voz, que não parecia dela, nasceu-lhe na garganta: Mem!, gritou. Aterrada, verificou que o almocreve não a ouvira, ia fugir sem saber que ela estava ali! Só que infelizmente todos os soldados a tinham finalmente visto. Tanto os de Ismar, à sua frente, como os de Ibn Qasi, do lado direito, pararam espantados com a visão de uma mulher com uma criança pela mão, a gritar um nome desconhecido. Houve um momento de suspensão geral, até que se ouviu uma voz, vinda do contingente dos defensores do palácio. Princesa Zaida!
Um homem avançou, à frente dos cordoveses. Era Ismar, de turbante à cabeça e alfange na mão. Bem-vinda ao Azzahrat! De súbito, outra voz levantou-se à sua direita. Zaida, fugi!
lbn Qasi deu-lhe uma ordem imperativa e alarmada. Contudo, ela não conseguiu mexer-se. Os pés não respondiam, a tensão bloqueava-a. Limitou-se a agarrar na filha, que ouvira o pai e, ao vê-lo de espada na mão, deixara cair no chão um último gomo de laranja. Fiz mal em casar com Raimunda!, gritou o príncipe Ismar. Sois muito mais bela e fértil! Zaida continuava petrificada, mas não era pavor o que sentia. O príncipe de Córdova estava demasiado calmo, aquilo era uma cilada. Quereis casar-vos comigo, bela Zaida?, provocou Ismar. Ides ficar viúva...
A reacção de Ibn Qasi foi a prevista. Avançou, enfurecido, seguido pelos seus soldados, mas Ismar nem se mexeu. E não o fez porque ouviu-se ao longe uma trombeta, cujo som inesperado provocou uma imediata palidez em Ibn Qasi, enquanto Ismar desatava a rir. Eis o som da traição de Ibn Wasir, o som do vosso fim, estúpido sufi! Um pesado silêncio invadiu o claustro, até que apareceu aos gritos um soldado de Ibn Qasi, anunciando que Ibn Wasir havia atacado a rectaguarda das tropas do sufi». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

As Princesas de Córdova. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Seria agora que regressaria a Córdova para nunca mais a deixar? Zaida vivera poucos anos na cidade, fora feita prisioneira dos cristãos em criança e nunca voltara»

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As Princesas de Córdova. Silves, 1145
Córdova, Janeiro de 1145
«(…) Não foi necessário. À frente da piscina de mercúrio, Abu Zhakaria espantou-se com a poça de sangue que viu no chão. Martinho de Soure estava morto. Tinha o corpo trespassado por inúmeros golpes e as veias do pescoço cortadas. Demorou, mas falou!, anunciou Ismar, com um sorriso alucinado. Já sei o segredo do rei de Portugal, mas só vos conto se ficardes. Em silêncio, Abu Zhakaria examinou o seu dilema. Se permanecesse ali, arriscava a vida de Fátima, de Chamoa, de Mem, bem como a sua, pois Ibn Qasi podia não os poupar, se tomasse o Azzahrat. Mas conhecer a verdade sobre o nascimento de Afonso Henriques era também uma poderosa arma para o futuro. A vida é feita de escolhas, provocou Ismar. Que preferis? Arriscar a vida para saber um segredo antigo, que pode destruir Ibn Henrik? Ou fugir na ignorância, mas salvando a pele?
Incapaz ainda de uma decisão, Abu Zhakaria recordou as palavras amargas da velha criada de Hisn Abi Cherif, proferidas antes de ser degolada pela diabólica Raimunda.
Sois a estupidez na terra e perdereis Córdova e Santarém! Ireis morrer em Lisboa!
De súbito, ouviu-se ao longe uma trombeta e Ismar exclamou: eis que chegam as tropas de Ibn Qasi! Foi o medo que fez com que Abu Zhakaria se decidisse. Não podia perder Fátima! Correu pelos corredores do magnífico Azzahrat, enquanto ouvia nas suas costas as cínicas gargalhadas daquele príncipe de Córdova que se tornara um facínora estúpido e desesperado.
Nesse dia, queridos filhos e netos, hoje posso dizê-lo com inabalável certeza, a intriga de Compostela, esteve muito perto da impossibilidade de um esclarecimento. Morto Martinho de Soure, o fiel depositário do antigo segredo do conde Henrique era agora unicamente Ismar, e bastava este ser aniquilado por Ibn Qasi para ninguém conhecer a verdade sobre o primeiro rei de Portugal. Longe dali, em Coimbra, eu não sabia o quão próximo desse sinistro abismo estivemos. É que, pior do que a existência de uma forte suspeita, é ela nunca ser dissipada, permanecendo uma maldição irresolúvel.

Córdova, Fevereiro de 1145
As tropas de Ibn Qasi caminhavam pela famosa circular de Córdova, construída pelos romanos, aproximando-se da antiga capital do califado, onde Zaida nascera e a família reinara durante séculos. Na gaziva, a rectaguarda do exército, a princesa, sentada numa carroça e abraçada à filha Maryam, perguntou ao marido: há notícias de Sevilha?
Ibn Qasi garantiu-lhe que os aliados de Ismar não tinham comparecido. O palácio do Azzahrat estava apenas guardado por algumas centenas de homens, além de que não apresentava muralhas, pois fora construído numa época em que um ataque à capital era impensável.
Filha, esses tempos vão longe.
Seria agora que regressaria a Córdova para nunca mais a deixar? Zaida vivera poucos anos na cidade, fora feita prisioneira dos cristãos em criança e nunca voltara. E não estava certa de que hoje seria esse dia.
Filha, Ibn Wasir é um verme.
O marido explicou-lhe a estratégia: seria ele a entrar no Azzahrat, enquanto Wasir e os seus cinco mil soldados cercariam a cidade, até que esta se rendesse. Não o deixeis separar os dois exércitos, é perigoso!, avisou ela.
Ibn Qasi encolheu os ombros e resmungou que o medo era coisa de mulheres. Depois, partiu disparado, seguido pelos fiéis ajudantes, deixando a princesa sozinha, apenas na companhia das escravas do harém e de Maryam. Alá nos proteja..., murmurou Zaida. Pouco depois, ela começou a ver os contornos do Azzahrat e agitou-se. Sentia imenso receio de que Ibn Wasir os traísse, mas, agora que via o palácio, tinha ainda mais pavor de que o marido matasse Mem!
Filha, ide ter com ele!
Mandou parar a carroça e desceu, com Maryam pela mão. As escravas ainda a tentaram demover, mas ignorou-as. Montou um cavalo, colocou Maryam à sua frente na sela e lançou-se a galope pela estrada, ultrapassando as outras carroças. Quando chegou perto do palácio, o barulho das armas fê-la parar. Para a direita dela, dezenas de homens de Ibn Qasi combatiam ferozmente os soldados de Ismar. Viu ao longe o marido, em cima do cavalo, gritando ordens de alfange ao alto. Pareceu-lhe que avançava». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

As Princesas de Córdova. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Cínico, o príncipe de Córdova afirmou que a tinha de manter viva, para impedir que Afonso Henriques atacasse Santarém. Mas não ao almocreve»

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As Princesas de Córdova. Silves, 1145
Córdova, Janeiro de 1145
«(…) Tal como vós..., replicou de imediato Ismar. Ofendido, o marido de Fátima protestou. Queria apenas esconder os prisioneiros, mas logo que pudesse regressaria a Santarém, onde se reorganizaria. Ismar poderia ir lá ter, se as coisas lhe corressem mal. Não vou perder a minha cidade!, garantiu este. Naturalmente, ficaram num impasse. Nem Ismar autorizava Abu Zhakaria a partir, nem este queria fazê-lo contra a vontade do príncipe, para não se expor à acusação de traição. Com um suspiro desalentado, cedeu mais um pouco: deixo-vos as minhas tropas. Só levo dez soldados. Ismar ignorou esta última sugestão e ordenou a Malik que fosse buscar a prisioneira Chamoa. Depois, barafustou: não se cala... Desde que chegara ao Azzahrat, e mesmo fechada numa cela, Chamoa lançava, vezes sem conta, as suas questões. O que sabia Martinho de Soure sobre o nascimento de Afonso Henriques? O que lhe contara o pai deste, o conde Henrique, quando o pároco o confessara pela última vez, antes de ele morrer, em Astorga? O padre já não a pode ouvir, comentou Ismar. Pouco depois, surgiu na sala Chamoa, que nem parecia em cativeiro, pois as suas vestimentas estavam limpas, a sua cara lavada, o seu cabelo bem penteado. Sois muito bela..., apreciou Ismar. Orgulhoso, gabou a forma superior como os árabes de Córdova tratavam os prisioneiros, mantendo-os asseados e bem alimentados. Depois, interrogou-a: o que sabe Martinho de Soure? Como a minha cunhada se manteve em silêncio, Ismar lançou a Zhakaria um inesperado desafio: se Martinho de Soure revelasse os seus segredos, o governador de Santarém poderia partir de Córdova, levando Chamoa e Mem! Irei questionar o padre!, entusiasmou-se Ismar.
Temendo o pior, Abu Zhakaria tentou pressionar Chamoa. Os exércitos de Ibn Qasi estavam próximos, iria acontecer uma batalha perigosa em Córdova e ele queria rumar a Hisn Abi Cherif antes disso, com ela e com Mem, pois temia a fúria vencedora do sufi. Zaida nunca nos fará mal!, garantiu Chamoa. Bruscamente irritado, num arremesso autoritário Ismar ordenou a Malik que trouxesse à sala o almocreve Mem. Que ides fazer-lhe?, perguntou Chamoa, alarmada. Cínico, o príncipe de Córdova afirmou que a tinha de manter viva, para impedir que Afonso Henriques atacasse Santarém. Mas não ao almocreve. Se ela não lhe explicasse o motivo das perguntas ao pároco de Soure, degolaria Mem. À vossa frente, rematou Ismar. Tensa mas ainda firme, Chamoa tentou manter-se silenciosa, mas quando o almocreve chegou e foi obrigado a genuflectir-se, e sobretudo quando o alfange de Malik se aproximou do pescoço dele, a minha cunhada rendeu-se.
Há dúvidas de que Afonso Henriques seja o verdadeiro filho do conde Henrique e de dona Teresa, explicou. Como o herdeiro destes nascera aleijado das pernas, suspeitava-se de que fora trocado por outro menino, talvez o filho mais velho de Egas Moniz. E só Martinho de Soure podia confirmar tal trama, pois o pai de Afonso Henriques confiara nele antes de morrer. Por isso, o questiono, confirmou Chamoa. Enquanto Malik recolocava o alfange na cintura, um estranho silêncio caiu sobre a sala, como se o destino geral do mundo se tivesse subitamente esclarecido. Agora entendo o pedido que Afonso VII me fez, a exigência do rapto de Martinho de Soure..., murmurou Ismar. Mais confiante, mandou Malik devolver às masmorras Chamoa e Mem. De seguida, repetiu o que já dissera a Abu Zhakaria: iria interrogar o padre dos templários e, se este revelasse a verdade, eles poderiam partir. Caso contrário, Chamoa permanecerá no Azzahrat! Entusiasmado, Ismar dirigiu-se a uma mesa, onde estavam pousados várias tesouras e punhais. A tortura era a melhor forma de fazer falar um homem, declarou ele, enquanto Zhakaria abanava a cabeça.
É um cobarde, vai esfrangalhar um indefeso.
Ao longo dessa noite, no Azzahrat ouviram-se os gritos lancinantes de Martinho de Soure, pároco da Ordem do Templo, que foi fustigado com violência na sala da piscina de mercúrio, onde os convidados se vinham espelhar, para melhor apreciarem o esplendor de Córdova. Só quando a madrugada raiou é que Zhakaria foi mandado chamar outra vez. Preocupada, Fátima abraçou-o à porta do quarto, pois temia a loucura do príncipe de Córdova, mas o marido acalmou-a. Ninguém é melhor do que eu com o alfange. Se Ismar me atacar, mato-o!, prometeu à esposa». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

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domingo, 20 de janeiro de 2019

O Massacre dos Templários. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «… o Rato não queria reviver o abismo onde caíra um dia, e foi o Peida Gorda quem o defendeu: o nosso monge já pagou pelos seus pecados. Para evitar um tema tão melindroso…»

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Guimarães e Coimbra, Agosto de 1144
«(…) Sempre fora amigo dela e queria continuar a sê-lo, sobretudo naquelas horas más, enquanto esperavam que os respectivos amados se convencessem do erro cometido. Não havia ninguém mais leal a Zaida do que Mem, nem ninguém mais leal a Afonso Henriques do que Chamoa. Se na fidelidade nenhum era de fiar, na lealdade não havia quem os ultrapassasse.
Ao cair da noite, encontraram os templários. O grupo, formado por cerca de cinquenta homens, tinha à cabeça o mestre Jean Raymond, que mandou parar a comitiva ao vê-los. Que desejais?, perguntou o francês, desconfiado. Enquanto Mem explicava ao que vinham, aproximaram-se da carroça um baixote e um gordo, que saudaram efusivamente o almocreve. Eram o Rato e o Peida Gorda, que recordaram lutas antigas, quando Soure estava em ruínas e Mem os ajudara a fugir de Abu Zhakaria. Foi quase há vinte anos!, exclamou o Rato, agora um cavaleiro templário, coberto por um manto branco, onde se via, cosida, a cruz encarnada da Ordem do Templo. Estamos velhos e acabados, resmungou o Peida Gorda, como quem sentia o contrário do que dizia. Quando Chamoa falou, o Rato empalideceu. Fora por saber que Ramiro se dera à minha cunhada que ele enlouquecera de ciúmes e atacara o colega templário. Vim ver o túmulo de Ramiro, informou ela.
Naturalmente, o Rato não queria reviver o abismo onde caíra um dia, e foi o Peida Gorda quem o defendeu: o nosso monge já pagou pelos seus pecados. Para evitar um tema tão melindroso, Jean Raymond perguntou porque desejava Chamoa falar com Martinho Soure, mas ela foi vaga. Era uma conversa confidencial, a mando de Afonso Henriques. Uma resposta que só aumentou as dúvidas do mestre. Segundo sei, haveis sido afastada da corte, disse este. A minha cunhada alegou que o seu estado era provisório, até que fossem esclarecidos uns detalhes, para os quais
era necessária a palavra de Martinho Soure. Então, o mestre dos templários mandou chamar o pároco, podiam ir conversando enquanto a comitiva prosseguia de regresso a Soure. E foi precisamente no momento em que o prior apareceu a cavalo, que algo de terrível aconteceu, quando o grupo atravessava um pequeno vale, de encostas escurecidas por muitas árvores e uma noite sem lua. Padre Martinho, haveis sido o último confessor do conde Henrique, começara Chamoa. Ele contou-vos algo sobre crianças trocadas... A pergunta da minha cunhada nunca terminou, pois uma flecha espetou-se na madeira da carroça. Mem gritou a Chamoa que se escondesse junto às pipas e às sacas, enquanto uma enorme confusão nascia no vale.
Quem são?, perguntou a minha cunhada, aflita. Talvez fossem os tais grupos de mouros que andavam pela região a levantar desacatos, disse Mem, mas rapidamente mudou de opinião, perante a violência do ataque.
Morte a sorrir, toca a fugir!
Agarrou as rédeas dos jumentos e gritou-lhes. A carroça começou a mover-se e Chamoa viu Martinho Soure dobrado, protegendo-se com o cavalo. Gritou ao pároco para saltar para a carroça, o que este fez. Baixai a cabeça!, berrou-lhes Mem. Perto deles e ainda a cavalo, mantinham-se o Rato e o Peida Gorda, bem como mestre Raymond. O Rato pediu a Mem que ripostasse, pois era muito bom com o arco, mas o almocreve não conseguia ver bem. Só dois ou três archotes, iluminavam mal a estrada.
Sem nenhuma luz, valha-me Jesus!
De súbito, Mem escutou um tropel na estrada, à sua frente. Alguém vinha na direcção deles em grande cavalgada e, por um instante, convenceu-se de que eram cristãos, vindos de Coimbra para destroçar o bando de canalhas mouros! Puro engano. Quando surgiram os primeiros soldados, traziam turbantes na cabeça, alfanges e lanças pequenas, e o coração de Mem parou quando, instantes depois, a cabeça do bondoso Peida Gorda saltou, decepada com mestria.
Golpe certeiro, bom cavaleiro...
Só conhecia um homem que cortava pescoços assim: Abu Zhakaria! O governador de Santarém apareceu à frente dele e, instantes depois, também o Rato tombou, degolado. O último a morrer foi mestre Jean Raymond, o que provocou forte algazarra entre os sarracenos, uma horda ululante, à qual Mem ouviu sobrepor-se uma voz imperativa. - Poupai o pároco, poupai o pároco! A dez passos, Mem viu surgir um outro vulto. Ismar, o príncipe de Córdova, o marido de Raimunda, apontava o dedo para a carroça deles!
Foi assim, queridos filhos e netos, que aqueles dois célebres muçulmanos, Ismar e Abu Zhakaria, se cruzaram em definitivo com a intriga de Compostela! Cumprindo o prometido ao imperador Afonso VII, o príncipe de Córdova atacou Soure e raptou o pároco Martinho, o último confessor do conde Henrique, o único que sabia os segredos deste. Uma estúpic1a e infantil zanga entre Chamoa e o meu melhor amigo, talvez a vigésima quezília de dois enamorados, tantas foram elas, fizera o nosso mundo saltar dos eixos e enrodilhar-se no vasto universo muçulmano». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

O Massacre dos Templários. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Chamoa suspirou e disse: a culpa foi minha. Nunca esqueceu os meus beijos. O almocreve contestou-a: não fora ela quem forjara o carácter do templário…»

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Guimarães e Coimbra, Agosto de 1144
«(…) Pêro Pais executou uma pequena vénia, agradecendo os elogios. Depois, apanhou um cesto do chão. Para onde vos sigo, bela Ília? As suas palavras lisonjeadoras provocaram um efeito imediato. Já fascinada, Ília corou e murmurou: sois muito gentil... Quereis acompanhar-me? Sorridente, Pêro Pais declarou-se honrado por auxiliar uma moça tão encantadora e avançou atrás dela, enquanto Gualdim Pais permanecia especado na praça, perto das outras irmãs, também elas surpreendidas pela folga inesperada de Ília. Terão ido ao rio?, questionou-se Ália. Os três decidiram procurar os enamorados e, perto da margem do Mondego, verificaram que o charme intenso de Pêro provocara estragos, pois viram uma manta estendida no chão, em cima da qual dois corpos se mexiam. Olha o malandro..., comentou Élia. Está a filhá-la! Com uma ponta de inveja, Ália declarou que a mana era uma sortuda. Abanando-se para sacudir os calores, rebolou os olhos na direcção de Gualdim Pais e lamentou-se: que pena serdes tão religloso...
Calados, os três esperaram pelo fim da refrega entre Pêro e Ília. Só depois regressaram todos a casa. Minha mãe já partiu?, questionou-se Pêro Pais, ao ver que a carroça de Mem desaparecera. Mas nós ainda cá estamos..., adiantou Ália. Encostando-se a ela, Élia riu-se e acrescentou: e só a Ília foi comida! Entusiasmado, Pêro Pais decidiu entrar, pois não ia deixar duas belas raparigas por saciar. A mãe decerto estaria segura na companhia de Mem. Em todas as frentes e em todas as costas!, declarou ele a Gualdim Pais, que não o seguiu e permaneceu na rua, já que não era dado àquelas brincadeiras.

Soure, Setembro de 1144
O Sol desaparecia por detrás das elevações a oeste, quando Mem e Chamoa se apresentaram às portas de Soure. A fortificação estava quase abandonada e um único soldado esclareceu-os. A guarnição da Ordem do Templo andava mais a sul, perseguindo um atrevido bando de mouros, que pilhara várias aldeias da região. Mestre Jean Raymond ordenara uma retaliação, forte e até o pároco Martinho tinha ido, bem como os dois templários que Mem conhecia, o Rato e o Peida Gorda pertencentes ao grupo inicial, que se instalara na povoação há quase 20 anos. Onde fica o túmulo de Ramiro?, perguntou Mem. O soldado empalideceu com a referência ao morto-vivo, que se dizia caminhar pela estrada em dias de lua cheia. Quereis lá ir? É um local assombrado.
Chamoa torceu-se, num arrepio de medo. Mas a curiosidade venceu o receio e ela e Mem decidiram prosseguir até ao local, onde um monte de pedras soltas à beira da estrada assinalava o que fora o túmulo do antigo templário. O almocreve atrelou os jumentos e, vendo que a amiga se benzia, assustada, garantiu-lhe que a lenda do morto-vivo  não passava de uma historieta para assustar os fracos de espírito. O mais certo era o cadáver ter sido levado pelos animais. Nunca se sabe, murmurou Chamoa. Apavorada, admirou o estranho lugar de repouso final de um traidor, mas também do seu primeiro enamorado. Conhecera Ramiro na feira de Ponte de Lima, tinha quinze anos e ele dezasseis. Haviam trocado mimos. Depois, ela fora obrigada a casar com o pai dele, Paio Soares, e Ramiro fizera-se templário para resistir ao desgosto. Era um homem mau, recordou Mem. Odiava mulheres.
Chamoa suspirou e disse: a culpa foi minha. Nunca esqueceu os meus beijos. O almocreve contestou-a: não fora ela quem forjara o carácter do templário, que abominara as princesas mouras, Zaida e Fátima, e se juntara à malfadada Raimunda, tal era o asco que ambos tinham a Afonso Henriques.
Mal amados, cães danados..,
Achais possível que Ramiro não tenha morrido? perguntou ela. Mem ouvira histórias de pessoas que pareciam mortas e depois acordavam, mas Ramiro fora cortado dezenas de vezes, na cara, no estômago, no peito e na garganta. Trinta golpes do Rato. Só por milagre... Mem concedeu que, se Ramiro tivesse sobrevivido, fora certamente ajudado, talvez por um curandeiro que deambulasse naquela estrada. Virgem Santíssima, virá matar-me, murmurou ela. Para a distrair de pensamentos tão sombrios, o almocreve incentivou-a a procurar Martinho Soure. Contudo, ela manteve-se junto às pedras tumulares, esmagada pela recordação macabra de ter dormido com um morto-vivo. Não me perdoo, dei-me a um uranista. Anos antes e para ajudar Afonso Henriques, dormira com Ramiro. Tentara virar-lhe os gostos e deixara-se ser filhada por um sodomita.
Menina oferecida, sempre arrependida…
Mem suspirou, com pena dela. Chamoa guiara-se por uma lealdade extrema a Afonso Henriques. Mas, após alguns anos felizes como mulher dele, acabara desprezada. No presente, restavam-lhe dois caminhos: ou se torturava em comiseração, ou desvendava um mistério antigo, que a reabilitasse aos olhos do rei de Portugal. Vamos, insistiu Mem». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

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