domingo, 21 de julho de 2019

Obra Poética Reunida (1950-1996). Hilda Hilst. «Extrema, toco-te o rosto. De ti me vem à ponta dos meus dedos o ouro da volúpia…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Amavisse
[…]
Há um incêndio de angústia e de sons
Sobre os instentos. E no corpo da tarde
Se fez uma ferida. A mulher emergiu
Descompassada no de dentro da outra:
Uma mulher de mim nos incêndios do Nada.
Tinha o dorso de uns rios: quebradiço
E terroso. O peito carregado de ametistas.
Uma mulher me viu no roxo das ciladas:
Esculpindo de novo teu rosto no vazio.

Os ponteiros de anil no esguio das águas.
Tua sombra azulada repensando os rios
E agudíssimas horas atravessando o leito
Das barcaças.
Tem sido noite extrema. Finos fios
Sulcando de sangue as esperanças.

Os ponteiros de anil. Nossas duas vidas
Devastadas, num lago de janeiros.

Se tivesse madeira e ilusões
Faria um barco e pensaria o arco-íris.
Se te pensasse, amigo, a Terra toda
Seria de saliva e de chegança.
Te moldaria numa carne de antes
Sem nome ou Paraíso.

Se me pensasses, Vida, que matéria
Que cores para minha possível sobrevida?

Extrema, toco-te o rosto. De ti me vem
À ponta dos meus dedos o ouro da volúpia
E o encantado glabro das avencas. De ti me vem
A noite tingida de matizes, flutuante
De mitos e de águas. Inaudita.
Extrema, toco-te a boca como quem precisa
Sustentar o fogo para a própria vida.
E húmido de cio, de inocência,
É à saudade de mim que me condenas.

Extrema, inomeada, toco-me a mim.
Antes, tão memória. E tão jovem agora».
[…]

Hilda Hilst, Obra Poética Reunida (1950-1996), 1998, organização Costa Duarte, Literatura brasileira século XX, Wikipédia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

A Catedral de Lamego. Séculos XII a XX. Anísio Sousa Saraiva. «Foi igualmente beneficiada com o apoio que dona Teresa não pode ter deixado de dar à tentativa de autonomização do bispado ocorrida por volta de 1119-1120»

Cortesia de wikipedia e jdact

Espaço. Poder. Memória
Construir e Organizar
A dependência face a Coimbra
«(…) Encontram-se documentados na diocese desde cerca de 1090; mas é difícil perceber se têm ou não alguma relação com o governo de Lamego e Viseu. Na verdade, a presença dos delegados de Coimbra na administração destas duas dioceses é muito difícil de captar. Assim nos mostra, claramente, o exemplo do mosteiro de Arouca, a instituição monástica do bispado de Lamego que maior número de documentos conservou: em 93 diplomas referentes ao período de subordinação a Coimbra, um só faz menção clara à existência de um arcediago à frente do governo de Lamego; precisamente o mesmo que, entre todos os documentos conhecidos outorgados pelos condes portucalenses e por Afonso Henriques, é o único a indicar expressamente os agentes da diocese de Coimbra naqueles dois bispados.
Observemos mais de perto as informações deste diploma, uma carta outorgada por dona Teresa a 31 de Março de 1128, que inclui na data a menção ao arcebispo de Braga, ao bispo do Porto e aos responsáveis pelas três outras dioceses do condado à época: in Colimbria arkidiacono Tello, in Uiseo Odorio priore, in sede Lameco arkidiacono Monino. No caso de Coimbra, o governante referido é o arcediago Telo, que viria a ser um dos fundadores do mosteiro de Santa Cruz; a Sé encontrava-se vaga após a morte do bispo, Gonçalo, ocorrida no ano anterior (faleceu a 17 de Abril de 1127, e o seu sucessor, Bernardo, só se encontra documentado com segurança a partir de 1 de Julho de 1128, de acordo com os dados indicados). Para Viseu, é indicado o prior Odório, que presidia ao cabido da catedral. À frente de Lamego, encontramos um arcediago, Mónio, a respeito do qual dispomos somente desta informação que nos dá a saber que, no final de Março de 1128, era sobre ele que recaía a autoridade eclesiástica na diocese. Odório estava directamente ligado à catedral cujo governo assegurava, na sua qualidade de membro e dirigente do cabido viseense. Porque há que ter em conta que a inexistência de um prelado próprio não era impeditiva do desenvolvimento da igreja local, no sentido de existir um templo principal na cidade, em torno do qual se agrupava um conjunto de cónegos, formando um cabido, como sucedia (e sucede ainda hoje) em todas as catedrais. Em Viseu, a realidade capitular deste século de dependência face a Coimbra começa a ser mais bem conhecida, graças às investigações levadas a cabo por Anísio Miguel Sousa Saraiva, que mostram a importância que o colégio canonical viseense tinha já por volta de 1110, período em que os condes portucalenses fizeram de Viseu a sua capital, que se manteve como sede política do condado até ao afastamento de dona Teresa, após a Batalha de S. Mamede. A Sé de Viseu foi beneficiada pelo conde Henrique e por sua mulher com a transferência da antiga catedral moçárabe, localizada na zona baixa da cidade, para o cimo da colina, onde ganhava não só um novo edifício, mas também uma renovada importância.
Foi igualmente beneficiada com o apoio que dona Teresa não pode ter deixado de dar à tentativa de autonomização do bispado ocorrida por volta de 1119-1120, quando o cabido elegeu o prior Odório como bispo. Foi uma tentativa gorada, pois logo Coimbra se lhe opôs, fazendo valer os seus direitos de episcopado administrante; mas mostra bem o grau de desenvolvimento que, por essa altura, já tinha atingido a canónica viseense e, por consequência, a igreja local. Em Lamego, a situação seria diversa, assim nos parece. Uma diferença fundamental, logo à partida, é que, aqui, a presença e o apoio condal não se fizeram sentir como em Viseu. Quanto ao cabido, é provável que, como diz a tradição, tenha tido origem num templo da invocação de S. Sebastião, situado fora do espaço muralhado, e na comunidade eclesiástica que aí se teria desenvolvido qual, a certa altura, aparece designada como colegiada». In Anísio Sousa Saraiva, Coordenação, Espaço, Poder, Memória, Faculdade de Teologia, Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2013, ISBN 978-972-836-157-0.

Cortesia de CEHR/UCP/FCT/JDACT

O Quarto da Rainha. Segredo de Estado. Juliette Benzoni. «Dar um último passeio, senhora, visto que dentro em breve regressaremos a Paris. E para que bandas? Seria para o lado de Sorel?»

Cortesia de wikipedia e jdact

A menina de pés descalços, o sinete de cera vermelha. 1626
«(…) Um belo sorriso esparso, que ele lhe devolveu como pôde, mas que não escapara a dele! A Mme. de Vendôme, de muito mau humor, nesse dia em que desempenhava o papel de chefe de família numa cerimónia que não lhe agradava. Efectivamente, o seu esposo, o duque César, encontrava-se retido no governo da Bretanha, onde se atarefava em criar dificuldades ao homem que mais detestava no mundo: o cardeal Richelieu, ministro do rei Luís XIII. Todavia, durante o regresso, ela nada disse. Quando, após uma noite agitada, François desceu às cavalariças nas primeiras horas da alvorada, teve, no entanto, a surpresa de encontrar o escudeiro de sua mãe, o cavaleiro de Raguenel, que não parava de andar de um lado para o outro no meio das idas e voltas dos moços de estrebaria e dos aguadeiros. François fez de conta que não o vira, mas o empregado veio ter com ele na altura em que chegava aos portões. Ora bem, meu senhor François, onde pretendeis dirigir-vos a estas horas tão matinais? Dar um último passeio. Perceval Raguenel era um homem cortês, amável; contudo, François achou-o francamente antipático quando ele lhe perguntou: e para onde contais ir, por favor? Acaso ignorais que temos de regressar a Paris daqui a pouco? O que vos deixa sem tempo disponível. A não ser que tenhais apenas a intenção de dar a volta ao parque... François ficou todo corado: quer dizer, eu... Já não conseguia encontrar as palavras. O escudeiro veio em seu auxílio: e se fôsseis falar à senhora duquesa? Ela espera-vos nos seus aposentos. A minha mãe? Mas, porquê? Penso que vos dirá. Despachai-vos! Dentro de dez minutos ela irá à capela ler o livro de orações.
Como não descortinava maneira de agir de outro modo, François desatou a correr e, alguns momentos mais tarde, uma camareira introduzia-o no quarto onde Françoise Vendôme acabava de se pentear. Era o antigo quarto de Diane Poitiers, uma divisão sumptuosa, mas não muito mais do que o eram as outras vinte e duas daquele castelo quase real. As paredes e o tecto estavam pintados de cores vivas, realçadas a ouro; vários tapetes cobriam o soalho precioso e tapeçarias magníficas aqueciam quase tanto a atmosfera quanto o fogo que ardia na grande chaminé de mármore multicolor. Nessa manhã de Março, o dia passava através das travessas da janela onde se encastoavam vitrais pintados em camafeu cinzento que, podendo dar a ilusão de um relevo e representando cenas do Antigo Testamento, não deixavam filtrar nenhuma luz; no entanto, o fogo e as altas velas de cera branca encarregavam-se disso.
Logo que transpôs a entrada, o jovem fez uma saudação, avançando, em seguida, para sua mãe, no meio do bailado das acompanhantes que o olhavam sorrindo. Quanto a Mme. Vendôme, ela não sorria. Ah! Eis-vos aqui! Julie, parece-me que isto está bem, acrescentou, dirigindo-se à sua cabeleireira. Agora deixem-me e ide-vos todas embora. Depois, quando a última aia transpôs a porta: pois bem, onde contáveis ir a estas horas da manhã? Dar um último passeio, senhora, visto que dentro em breve regressaremos a Paris. E para que bandas? Seria para o lado de Sorel? O pequeno príncipe corou sem ousar responder, considerando a mãe com certa apreensão. Na realidade, apesar do cuidadoso amor que lhes dispensava, sem o mostrar excessivamente, Françoise Lorraine-Mercceur, duquesa de Vendôme pelo seu casamento, possuía o dom de impressionar as suas três crianças bem mais que o pai delas, o duque César, cujo carácter jovial e inclinação pelas brincadeiras frequentemente jocosas e cuja despreocupação recordavam muitas vezes as suas origens da região de Béarn (é uma região que corresponde à parte oriental do departamento dos Pirenéus-Atlânticos Unida ao condado de Foix (1290), no século XV passa com este para a casa de Navarra. O futuro rei Henrique IV, rei de Navarra em 1572, foi o último conde de Béarn; Luís XIII anexá-la à Coroa em 1620), faziam dele um interlocutor menos imponente». In Juliette Benzoni, O Quarto da Rainha, Segredo de Estado, 1997, Bertrand Editora, 2000, 2009, ISBN 972-251-097-5, ISBN 978-972-251-821-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

O Delfim. José Cardoso Pires. «Estou-lhe a dizer. Cães, criado e dona Mercês, já nada disso existe. Caramba, não me diga que não sabia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Cada ofício com seu estilo, e este, guia, pregoeiro, arauto e actividades associadas, precisa de ter o seu. Por que diabo não há-de haver copyrights para os cauteleiros? Então o Infante?, aí está como ele me veio receber, não há muito tempo, quando me apeei no largo. E, enfim, não se pode dizer que seja uma maneira muito própria de saudar um conhecido, um hóspede, como é o caso, que regressa à aldeia ao cabo de uma ausência de 365 dias. É verdade, trezentos e sessenta e cinco dias, Velho. 31 de Outubro de 1966, 31 de Outubro de 1967. Datas de caçador. E este ano, que eu saiba, não foi bissexto. Mas, ainda que tivesse decorrido apenas um mês, ainda que fosse uma escassa quinzena, uma semana, a questão põe-se no mesmo pé. Um caçador desembarca naquele terreiro, corre os olhos em redor, muralha, casas mudas, a porta aberta da loja do Regedor, e salta-lhe uma voz não sabe donde. Vira-se. Dá com um homenzinho a fitá-lo: então o Infante? Palavra, parece uma acusação. Desconcerta encontrar assim uma cara que nos é conhecida e no meio dela um grande dente espetado a pedir-nos contas: o Infante? Depois os olhos, Velho. Essas frestas sem brilho também se estavam nas tintas para tudo, para mim, visitante de boa vontade, e para todos os outros caçadores que hoje e amanhã vêm à Gafeira em romagem às aves da lagoa. Queriam saber do Engenheiro (do Infante, peço desculpa). Quanto ao resto, os olhos nem bom-dia nem boa-tarde. Não o viu? Não se encontrou com ele lá por Lisboa? Perante isto um homem hesita. Percebe que houve coisa. Mas o quê? Crime, pronuncia o dente inquisidor; e sente-se que dentro do Velho se tinha levantado uma alegria mansa. A vitória do profissional de novidades que gosta de chegar primeiro, e no momento inesperado, com a revelação que deslumbra o visitante.
Estou-lhe a dizer. Cães, criado e dona Mercês, já nada disso existe. Caramba, não me diga que não sabia. Calcula-se como um dente como aquele, único, eremita, pode apanhar um forasteiro à hora do meio-dia numa aldeia em silêncio. É um osso eriçado no deserto, um estilete que se aproveita da desorientação de um estranho para penetrar nele a fundo, sempre mais fundo, de modo a destruir-lhe os últimos restos de dúvida e de serenidade. Homem..., tenta ainda o viajante. E o outro a cortar rápido, sem mais aquelas: assim mesmo. A dona Mercês matou o criado e o Infante matou-a a ela. Nem mais. A partir daqui o Velho não tem bandeira. Entrou num discurso tortuoso, carregado de meias palavras, no qual era possível vislumbrar Maria das Mercês, tresloucada de todo, a enfrentar o marido e o criado, essa estranha aliança que a torturava. Acabou-se. Comeram-se uns aos outros, tiveram o fim que mereciam... Agora quem quiser caçar na lagoa já não precisa da autorização do Infante para nada. E etc.
Assim, de cabeça baixa, gabardina no braço, deixei eu há coisa de três horas o meu carro, rumo à pensão. Levava em cima de mim a voz do pregoeiro da aldeia; ia envolvido numa tempestade de vinganças e delírios populares, as tiras de lotaria esvoaçavam à minha frente e o homem parecia louco, louco varrido. Ou fazia o seu número?, perguntava eu a todo o passo. Avalio deste miradouro as voltas e contravoltas que aquele dente não deu sobre o terreiro: picando-o todo em redor de mim, mordiscando-o em círculos enquanto estive parado junto do carro; singrando depois em ponto corrido a perseguir-me com lengalengas, e finalmente, já mais confiante, tecendo renda de palavras, enovelando-se-me nos passos, a tolher-me a marcha. A dada altura fui eu que me deixei levar por ele. Tocado pelo veneno da curiosidade, em vez de me dirigir logo para aqui, onde uma estalajadeira de caçadores aguardava a minha chegada desde manhã, acompanhei o Velho ao café. A pensão que esperasse, decidi. Primeiramente convinha tomar fôlego, beber um copo, e, já agora, conhecer as linhas com que se cose o caçador ignorante dos mistérios aldeões. Estes da Gafeira sobretudo tinham sido muitos e inacreditáveis. Se tinham. Eu não dizia?, anunciou o Velho, mal entrámos no café. O Infante também não está em Lisboa. Apontava-me a dois homens que estavam sentados a uma mesa, como se me tivesse ido buscar algures para vir ali confirmar o que há muito suspeitava. Diabo..., murmurou um deles, o dono do café, coçando a cabeça. Isso agora é que é o diabo... E o outro, um batedor de caça: teria ele abalado para a África? África?, gritou o Velho. Deixa-me rir. Em África nunca ele estaria em segurança. O Batedor então: de qualquer maneira fugiu. E quem foge é porque não quer ser apanhado. Essa é que é essa. Velho-dum-Só Dente: agora assobiem-lhe às botas. Matou, cometeu crime... E ainda dizem que há justiça». In José Cardoso Pires, O Delfim, 1.ª edição, Moraes Editores, Lisboa, 1968, 10.ª edição, Publicações Dom Quixote, 1988, 2003, ISBN 972-201-654-7.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

O Amor nos Tempos de Cólera. Gabriel García Márquez. «Disse: eu falo depois com o prefeito. Sabia que Jeremiah de Saint-Amour era de uma austeridade primitiva, e que ganhava com a sua arte…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Apesar disso, sua sapiência demasiado ostensiva e o modo nada ingénuo que tinha de manejar o poder do próprio nome acabaram por lhe valer menos afectos do que merecia. As instruções ao comissário e ao praticante foram precisas e rápidas. Não haveria autópsia. O cheiro da casa bastava para determinar que a causa da morte tinham sido as emanações do cianureto activado na vasilha por algum ácido de fotografia, e Jeremiah de Saint-Amour entendia muito do assunto para não fazê-lo por acidente. Diante de uma reticência do comissário, deteve-o com uma estocada típica do seu modo de ser: não se esqueça de que sou eu quem assina o atestado de óbito. O médico jovem ficou decepcionado: nunca tinha tido a sorte de estudar os efeitos do cianureto de ouro num cadáver. O doutor Juvenal Urbino tinha ficado espantado de não havê-lo visto na Escola de Medicina, mas compreendeu de pronto ao notar seu rubor fácil e o seu sotaque andino: era sem dúvida um recém-chegado à cidade. Disse: não faltará por aqui algum louco de amor que lhe dê a oportunidade um dia destes. E só ao dizê-lo percebeu que entre os incontáveis suicídios que lembrava, aquele era o primeiro com cianureto que não tinha sido causado por um infortúnio de amor. Algo se alterou então na sua maneira de falar. Quando encontrá-lo, preste bem atenção, disse ao praticante: costumam ter areia no coração.
Em seguida falou com o comissário como quem fala a um subalterno. Ordenou-lhe que desse um jeito em todas as instâncias para que o enterro se realizasse nessa mesma tarde e com o maior sigilo. Disse: eu falo depois com o prefeito. Sabia que Jeremiah de Saint-Amour era de uma austeridade primitiva, e que ganhava com a sua arte muito mais do que carecia para viver, de modo que em algumas das gavetas da casa devia haver dinheiro de sobra para os gastos do enterro. Mas se não o acharem, não importa, disse. Eu me encarrego de tudo. Mandou que se dissesse aos jornais que o fotógrafo tinha morrido de morte natural, embora achasse que a notícia não lhes interessava de nenhum modo. Disse: se for necessário, falo com o governador. O comissário, um empregado sério e humilde, sabia que o rigor cívico do mestre exasperava até os seus amigos mais chegados, e estranhava a facilidade com que saltava por cima dos trâmites legais para apressar o enterro. Só não acedeu em falar com o arcebispo para que Jeremiah de Saint-Amour fosse sepultado em terra consagrada. O comissário, mortificado com sua própria impertinência, tratou de se desculpar. A minha ideia é que este homem era um santo, disse. Era algo ainda mais raro, disse o doutor Urbino: um santo ateu. Mas esses assuntos a Deus pertencem.
Remotos, do outro lado da cidade colonial, se ouviram os sinos da catedral chamando à missa solene. O doutor Urbino repôs os óculos de meia-lua com armação de ouro e consultou o relógio da corrente, que era quadrado e fino, e a sua tampa se abria com uma mola: estava a ponto de perder a missa de Pentecostes. Na sala havia uma enorme máquina fotográfica sobre rodas como as dos jardins públicos, e o telão de um crepúsculo marinho pintado com tintas artesanais, e as paredes estavam forradas de retratos de crianças nas suas datas memoráveis: a primeira comunhão, a fantasia de coelho, o aniversário feliz. O doutor Urbino tinha visto o revestimento paulatino dos muros, ano após ano, durante as cavilações absortas das tardes de xadrez, e havia pensado muitas vezes com um latejar de desolação que nessa galeria de retratos casuais estava o germe da cidade futura, governada e pervertida por aqueles meninos incertos, e na qual já não restariam sequer as cinzas de sua glória». In Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos de Cólera, 1985, Publicações dom Quixote, 2002, ISBN 978-972-200-032-1.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «Não mexas em nada, diz-lhe, brusca. E avança pela alcatifa do corredor. Como se uma ideia caminhasse também pelo corredor, viesse na sua direcção…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A íris vai para começar a chorar, mas a minha mulher consegue contê-la. Diz-lhe: pronto, pronto. E enrola-lhe a mão pequena numa tira de ligadura que prende com fita adesiva. Depois, encontra um instante para lhe passar os dedos pelo cabelo: ternura: e, devagar, aproxima-lhe os lábios da testa. Sorri-lhe: já passou. A íris fica em bicos de pés, com o queixo erguido sobre o lavatório, enquanto a minha mulher lhe lava a cara ainda desordenada pelo choro. Sente-lhe o rosto. Sente-lhe o rosto através da toalha de pano turco e, só depois, pousando-lhe uma mão sobre o ombro, pergunta como é que o móvel caiu. Era a boneca, diz a íris. A minha mulher percebe que a nossa neta quis subir ao armário para tirar a boneca, vestida de nazarena, que a Maria tinha a enfeitar uma das estantes do armário. É uma boneca de plástico que a Maria comprou numa excursão. Tem as sete saias das mulheres dos pescadores da Nazaré e um chapéu preto sobre um lenço de flores. Tem pestanas pintadas sobre os olhos pintados. Está descalça sobre uma base redonda que diz: recordação da Nazaré. Apesar de todas as vezes que a avó lhe ralhou, a íris tem uma cegueira desmedida por aquela boneca. Quando a minha mulher começa a preparar-se para lhe ralhar, tocam à campainha. Mais uma vez, o seu coração. Já passa da hora em que o carteiro poderia tocar à campainha, é cedo para a hora de almoço da nossa filha e não é costume haver outras visitas durante todo o dia. A minha mulher deixa a íris a esperá-la na casa de banho.
Não mexas em nada, diz-lhe, brusca. E avança pela alcatifa do corredor. Como se uma ideia caminhasse também pelo corredor, viesse na sua direcção e se cruzasse com ela, passa-lhe pela cabeça que quem está a tocar à campainha pode ser a mesma pessoa que lhe telefonou há minutos. Pode ser alguém que precisa de avisá-la de uma notícia terrível que já aconteceu, que a deitará por terra: a morte: que a destruirá: a morte: que a condenará outra vez. Tenta afastar esse pensamento negro. Carrega no botão que abre a porta da rua lá em baixo e, nesse instante, escuta o eco eléctrico da porta a abrir-se na entrada do prédio. Espera. Tenta distinguir os passos que deveriam agora entrar no prédio, ou que deveriam agora subir os degraus de mármore, mas, em vez disso, ouve três batidas na porta de cima: a pouca distância de si: três batidas firmes na madeira. Com o susto, alarmada, pergunta: quem é? Mas ninguém responde. Volta a perguntar: quem é? Mas ninguém responde.
A pensão Flor de Benfica não era muito distante. Foi a vontade que tinha de chegar que fez com que, nesse dia o caminho me parecesse tão longo. As ruas de Benfica que conhecia desde sempre, eram novas porque não conseguia vê-las. Enquanto caminhava, não reparava nos cães abandonados e sarnosos que se encostavam às paredes, amedrontados, com as pálpebras pesadas sobre os olhos; nem nas casas em ruínas, com vidraças partidas à pedrada e com paredes pintadas de cinzento pelo tempo; nem nas crianças, sujas, de cabelo rapado por causa dos piolhos, que puxavam as mangas dos casacos das mulheres e que lhes estendiam a palma da mão. Era sábado e o início da tarde trazia movimento às ruas. Passavam mais automóveis do que era habitual: apitavam cornetas e assustavam as velhas, que davam saltos debaixo dos xailes e praguejavam. Grupos de miúdos descalços corriam atrás de arcos de ferro: o som da varinha a deslizar no interior do arco. Raparigas levavam alcofas de fazer mandados no ângulo do braço e desviavam o rosto corado quando passavam à porta dos cafés. Alheio a tudo isso, eu continuava a caminhar e prestava atenção às imagens que apenas existiam dentro de mim ou que seriam o mundo todo se, por acaso, tivesse fechado os olhos: o rosto do meu tio de manhã, o meu rosto quando chegava a casa ao início do serão e o rosto do italiano quando lhe comunicasse que o piano estava pronto. Nas duas manhãs anteriores, desde que o piano chegara à oficina, quando eu entrava no alto da rua, via logo o meu tio encostado ao portão, a esperar-me. Tinha um ar esperto e, ainda à distância, já lhe começava a distinguir o sorriso infantil. Quando eu me aproximava com a chave, ele dava-me uma palmada nas costas e, assim que abria o portão, passava-me à frente e caminhava directo para o piano. Ao fim do dia, nem por uma vez ficou na taberna. Antes de subir ao poial da minha casa, via-o descer a rua e afastar-se, fechado nas suas cismas, na direcção do quarto onde, nessa altura, morava. Era o início do serão quando eu, na casa onde jantava sozinho, enchia a bacia e, depois de lançar as duas mãos cheias de água sobre o rosto, parava-me a olhar para o espelho pequeno do lavatório. Dentro dos meus olhos, distinguia um sentimento que só então começava a conhecer e que me fazia inventar toda a espécie de sonhos». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, QuetzalEditora, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Livro. José Luís Peixoto. «Chegava de longe o cacarejar de uma galinha, chegava do quintal do vizinho, do outro lado do muro. Era um cacarejar permanente, quase a adormecer, quase a arrastar-se, mas a continuar sempre»

Cortesia de wikipedia e jdact

«No alto do cabeço, o barbeiro tirava o cigarro da boca, como se o desembaraçasse do bigode, chegava-o ao pavio e fazia cara feia enquanto segurava o foguete de braço esticado, a jorrar fagulhas, antes de o largar. Era um bicho ruim que queria ser solto. Mal podia, num ruído de lixa, esfregava-se no ar e estourava uma bola de fumo no céu, espécie de nuvem anã. De pescoço dobrado para trás, o Ilídio e o Cosme encostavam as mãos à testa para verem esse efeito. A cana, desarmada, indefesa, via-se sem pé e deixava-se cair sobre os campos, coitada». In José Luís Peixoto

«(1948)
A mãe pousou o livro nas mãos do filho. Que mistério. O rapaz não conseguia imaginar um propósito para o objecto que suportava. Pensou em cheirá-lo, mas a porta do quintal estava aberta, entrava luz, havia muita vida lá fora. O rapaz tinha seis anos, fugiu-lhe a atenção, distraiu-se, mas não se desinteressou pelo livro, apenas deixou de o interrogar enquanto objecto em si, começou a questioná-lo de maneira muito mais abstracta, enquanto intenção, enquanto sombra de um acto. A mãe disse o nome do filho: O rapaz, Ilídio, estava nesse momento a tentar imaginar a vontade da mãe e, o que pretendia ao entregar-lhe aquele livro, que era grande de mais para as suas mãos, mas que não era demasiado pesado. A mãe voltou a dizer o nome do filho, Ilídio. E as cores da mãe voltaram a definir-se diante dele. Escuta.
Esta palavra simples, de sílabas simples, foi entendida pelo Ilídio de modo completo, estava a ouvi-la antes de ser dita e continuou a ouvi-la no silêncio que se lhe seguiu. Aquela voz a dizer aquela palavra fazia parte do Ilídio. Podia ouvi-la na cabeça sempre que quisesse. Em certas noites quando se agarrava à mãe e, ao quente, sem ser capaz de dormir, ouvia pedaços da voz da mãe, rasgados, a passarem-lhe pela cabeça como serpentinas. Numa dessas noites, ou em várias, é bem possível que tenha distinguido essa maneira de paz com que a mãe sempre lhe dizia: escuta. Havia tons de voz que a mãe só utilizava para certas palavras ou expressões, como quando se saturava e dizia: por favor, a esculpir cada consoante, com um grande silêncio entre por e favor, a soprar no fim; ou como quando dizia: ora, é só lérias e mais lérias e dava uma gargalhada; ou como quando dizia: tu queres é remolgaria e parodim, e parecia que estava a cantar. Não faltariam exemplos de palavras que conseguia lembrar na voz da mãe. O Ilídio tinha fome.
Chegava de longe o cacarejar de uma galinha, chegava do quintal do vizinho, do outro lado do muro. Era um cacarejar permanente, quase a adormecer, quase a arrastar-se, mas a continuar sempre. Era um cacarejar que, assente sobre aquela hora da tarde, parecia distribuir uma misteriosa harmonia, como o milho moído que, muitas vezes, o vizinho lançava sobre a terra do quintal. O Ilídio sabia que, normalmente, a galinha comia pedras e, em momentos assinalados, lutava com minhocas, que vencia num duelo desigual. Do cimo da pilha de lenha, já a tinha visto. Em ocasiões, colocou a possibilidade de provar minhoca. Quando a galinha as esticava com o bico, as rebentava e exibia o seu interior, pareciam-lhe deliciosas. A mãe ia dizer alguma coisa importante. A mãe era uma mulher que falava muito e ria muito. O Ilídio chamava-a quando queria que ela visse alguma coisa, ela olhava, mas não parava de rir ou de falar. Ali, naquela hora, a mãe dizia as palavras uma a uma, como se só pudesse usar poucas e tivesse de escolhe-las muito bem. Havia demasiado silêncio. O Ilídio sentia isto, mas não era capaz de saber as palavras para dizê-lo a si próprio. Isto era qualquer coisa que sentia como a mudança da hora no Verão, no Inverno, como os dias de semana, o sábado, a quarta-feira e muitas outras coisas que sentia sem conhecer. O Ilídio esperava, tinha seis anos, estava tranquilo. A mãe disse: nunca esqueças». In José Luís Peixoto, Livro, Quetzal Editores, 2010, ISBN 978-972-564-899-5.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Em Torno do Pensar Poetizante de Agostinho da Silva. Lúcia Helena A. Sá. «Devido às ideias e posições sólidas quanto ao sentido da liberdade, incomodou os órgãos administrativos portugueses, sofrendo acirrada investida dos agentes…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Entre 1931 e 1933, foi bolseiro da Junta Nacional de Educação na Sorbonne e no Collège de France. Em Paris, conheceu exilados políticos portugueses como, por exemplo, o historiador Jaime Cortesão com quem firmou duradoura amizade e dele recebeu notícias históricas sobre a doutrina paraclética que tomou importância significativa nos seus estudos sobre a tradição mítico-religiosa da história de Portugal. Agostinho, também, admitiu que a matriz de Portugal é a Idade Média, pois foi neste período histórico que se adensou a dimensão mitológica ao heroísmo português no trabalho hercúleo das Grandes Navegações, ao universalismo da experiência antropológica dos navegadores. O professor Agostinho era homem de vida conversável (a expressão vida conversável é oriunda do depoimento de um viajante português do século XVI que fazia o levantamento do litoral brasileiro; escreveu o viajante que as viagens e a expansão marítimas portuguesas dariam ao mundo a chance de fazer da vida uma obra conversável; aproveitamos o ensejo para apontarmos que essa ideia de construção de uma vida conversável, no que tange ao sentido de comunhão entre os povos formando uma só comunidade, o mundo tornando-se Um porque se valerá do que é conversável, isto é, a união das gentes de todos os quadrantes, combina com os dizeres de Fernando Pessoa de que, no Universo, todos os contrários se harmonizam, pois a verdadeira compreensão é unitiva nos versos do poema O Infante, de O Mar Português, segunda parte da obra Mensagem: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce./ Deus quis que a terra fosse toda uma,/ Que o mar unisse, já não separasse./ Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, [...], isto é, mantinha-se arraigado e confiado a constantes conversações intelectuais que nunca o permitiram render-se a factos que não fossem verídicos, sabendo rejeitá-los quando em contradição com os seus próprios ideais. Recusou veementemente ter chefes e submeter-se a ordens, sendo, pois, firme em dizer que para se ser livre é necessário que se tenha, ao mesmo tempo, liberdade política e económica.
Devido às ideias e posições sólidas quanto ao sentido da liberdade, incomodou os órgãos administrativos portugueses, sofrendo acirrada investida dos agentes apoiadores de António Salazar devido, especialmente, a duas publicações. Uma, intitulada O Cristianismo (1942), na qual exibiu um julgamento panteísta de Deus que cremos estar próximo da filosofia de Baruch Espinosa no que respeita à compreensão de que Deus é uma substância aferida de atributos. A outra, nomeada por A Doutrina Cristã (1943), na qual, além de criticar todo e qualquer preceito que impede o homem de ser livre, discorre sobre a universalidade de Deus. Também julgamos que esta obra apresenta proximidade com a perspectiva espinosana de que cada ente é a aparência de um atributo de Deus, marcando a sua presença ou aparição indelével nas coisas do mundo. Nessas duas edições, Agostinho defendeu a figura de Cristo como sendo um revolucionário sem o vincular a entidade transcendente alguma, instigando, assim, controvérsias entre católicos e aguçando a atenção da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) que o acusou de ser subversivo.
As actividades culturais desenvolvidas pelo professor Agostinho foram condicionadas por um ambiente opressivo e conflituoso e, por isso, a partir de 1935, inicia uma diáspora intelectual, indo para a Espanha como bolsista do Ministério das Relações Exteriores daquele país. Lá estando, estudou, no Centro de Estudos Históricos de Madrid, a lírica religiosa do Renascimento (século XVI) nas obras dos místicos espanhóis Santa Tereza D’Ávila e São João da Cruz. Regressa a Portugal em 1936, dada a eminência da Guerra Civil espanhola, e cria a Escola Nova de São Domingos de Benfica e, no ano seguinte, funda o Núcleo Pedagógico Antero de Quental, para o qual estabeleceu actividades sócio-pedagógicas importantes para a renovação da educação portuguesa que se estenderam até 1943, e, também, começou a escrever, na revista Seara Nova, uma série de textos conhecidos por Biografias e Cadernos de Informação Cultural, publicações que se constituíram numa espécie de universidade popular por correspondência, pois as enviava para todo Portugal, cumprindo os objectivos da actividade pedagógica daquele núcleo que havia fundado». In Lúcia Helena Alves Sá, Em Torno do Pensar Poetizante de Agostinho da Silva, Tese apresentada ao Curso de Doutorado em Literatura do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília, como obtenção do título de Doutor em Literatura, Teoria do Texto Literário, Brasília, 2013, Wikipedia.

Cortesia da UBrasília/TLLiterário/Wikipedia/JDACT

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Em Torno do Pensar Poetizante de Agostinho da Silva. Lúcia Helena A. Sá. «Na Grécia, a Beleza e o Amor foram cultuados e nela encontram-se os germes do pensamento racional de nossa consciência religiosa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia a Lúcia Helena Alves Sá

«A alethopoíesis de Agostinho da Silva deixou-me ver as coisas diante das coisas, olhando-as. As coisas se admiram de um tanto de coisas. Delas concebi a expansão do que sou»

«Este estudo apresenta o professor Agostinho da Silva como uma das personalidades mais extraordinárias do século XX que compôs o cenário da cultura lusófona. Objectiva, sobretudo, interpretar alguns poemas e quadras e uma biografia com especial interesse no pensar poetizante acerca de Deus à luz da dialogicidade de textos agostinianos, de Espinosa, Heidegger, Bachelard e Teilhard de Chardin. Também, aborda a diáspora intelectual do filósofo, as suas realizações pedagógicas e as contribuições culturais para os povos de língua portuguesa. A pesquisa aponta as orientações político-sociais de Agostinho direccionadas para a instauração do Reino do Espírito Santo. Ademais, evidencia a cristalização do mito do monarca Sebastião no panorama literário e artístico brasileiro em um poema de Cecília Meireles e outro de Caetano Veloso para que se realizem analogias com o pensador luso-brasileiro».

Do Peregrino Venturoso
«Agostinho da Silva, apesar de não ter sido um historiador das religiões, foi estudioso do cristianismo, do taoísmo, do budismo-zen e da religiosidade afro-brasileira do candomblé. Incorporava os saberes histórico e antropológico, filosófico e mitológico da cultura ocidental. Analisava as obras de Joaquim Flora, Baruch Espinosa, Hegel entre outros, mas foi a cultura grega o que mais o interessava porque a civilização helénica deixou influências significativas para outras gerações seja na política ou na filosofia, na poesia ou no teatro, na história ou nas artes plásticas, na astronomia ou em estudos anatómicos, na arquitectura ou em registoos linguísticos.
Na Grécia, a Beleza e o Amor foram cultuados e nela encontram-se os germes do pensamento racional de nossa consciência religiosa a que os gregos associavam à Alegria. À maneira agostiniana, diz-se que a religião grega é singularmente próxima da filosofia por que os helenos pensavam a Beleza e a procuraram realizar sobre a terra. É esta religião uma prática efectiva da Beleza que não é senão o cuidado laborioso pela perfeição a qual se une a realização do Amor nas acções quotidianas dos homens: à vida profana reúne-se o sagrado. Podemos, aqui, traçar uma proximidade de Agostinho da Silva com Eudoro Sousa no que respeita à mesma matriz de um pensar filosófico-religioso oriundo da cultura grega.
Desse modo, o ideário agostiniano, especialmente em A Religião Grega (1930), era, regressando ao mundo helénico, fazer notório que a vida pública e a dinâmica da sociedade renovar-se-iam a partir da religião responsável pela estruturação espiritual dos homens, haja vista que tenha sido a religião grega a preconizadora das bases do Cristianismo no que tange à amorosidade. Agostinho detinha, também, conhecimento do grego, do latim e de quinze línguas. Publicou ensaios interpretativos como cronista de textos filosóficos e literários; traduziu obras clássicas como, por exemplo, as de Virgílio e Horário; escreveu textos pedagógicos, ensaios a respeito da cultura portuguesa, além de temas diversos, incluindo, na sua escrita, poesia e obras novelísticas.
Em 1924, ingressou na Faculdade de Letras do Porto e quadro anos depois concluiu a Licenciatura com tese sobre o poeta latino Catulo. No ano de 1929, doutorou-se com trabalho intitulado Sentido histórico das civilizações clássicas. Durante o ano de 1927, manteve colaboração na revista da Renascença Portuguesa A Águia e, por 10 anos, escreveu para a revista Seara Nova. Frequentou, na Lisboa do ano de 1930, a Escola Normal Superior para adquirir a habilitação para lecionar no ensino oficial e logo tornou-se professor no Liceu Alexandre Herculano. O entusiasmo e empenho do professor Agostinho para fundar centros de estudo e de cultura iniciou-se em 1932 quando organizou a abertura do Centro de Estudos Filológicos da Universidade Clássica de Lisboa». In Lúcia Helena Alves Sá, Em Torno do Pensar Poetizante de Agostinho da Silva, Tese apresentada ao Curso de Doutorado em Literatura do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília, como obtenção do título de Doutor em Literatura, Teoria do Texto Literário, Brasília, 2013, Wikipedia.

Cortesia da UBrasília/TLLiterário/Wikipedia/JDACT

terça-feira, 16 de julho de 2019

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «És tu a Primavera que eu esperava, a vida multiplicada e brilhante…»

jdact

«(…) Jardim verde e em flor, jardim de buxo
Onde o poente interminável arde
Enquanto bailam lentas as horas da tarde.
Os narcisos ondulam e o repuxo,
Voz onde o silêncio se embala,
Canta, murmura e fala
Dos paraísos desejados,
Cuja lembrança enche de bailados
A clara solidão das tuas ruas».

Promessa
«És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante».

In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

A Rainha Liberdade. A Guerra das Coroas. Christian Jacq. «O Afegão e o Bigodes treparam a colina com a vivacidade de combatentes habituados às expedições perigosas. Menos de meia hora depois, estavam de regresso»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ao crepúsculo, pareceu-lhe distinguir o seu mensageiro ao longe. O avanço era hesitante, o voo mais pesado do que o habitual. No entanto, era realmente ele! Larápio poisou no ombro de Ah-hotep. Com o flanco direito coberto de sangue, estendeu orgulhosamente a pata direita à qual estava preso um pequeno papiro selado. A Rainha felicitou-o acariciando-o docemente, retirou a missiva e confiou o corajoso mensageiro a Teti, a Pequena. Deve ter sido ferido por uma flecha. Trata dele com cuidado. É superficial considerou a Rainha-Mãe, depois de ter examinado a ferida. Daqui a alguns dias o Larápio estará de perfeita saúde. Segundo o curto texto de um resistente da região de Assiut, a cidade fora quase completamente destruída, com excepção dos túmulos antigos. Tinha apenas uma pequena guarnição hicsa, que recebia as mercadorias provenientes dos oásis de Khargeh e Dakhla. A caminho decidiu Ah-hotep.
De madrugada, o navio acostou ao porto de Assiut. Viajar de noite era perigoso, porque havia o risco de encalhar num banco de areia ou incomodar hipopótamos, cuja cólera era arrasadora. Mas, de dia, o Nilo não era seguro. Os hicsos rondavam por todos os lados. Outrora muito activo, aquele porto estava ao abandono. Velhos navios e uma barcaça esventrada apodreciam. Nem Risonho nem Vento do Norte detectaram qualquer presença inquietante. O molosso desembarcou primeiro, seguido pelo burro, a Rainha, o Afegão, o Bigodes e uma dezena de jovens archeiros bem alerta. Aliada de Ah-hotep, a Lua iluminava a paisagem. A cidade estendia-se ao abrigo de uma falésia na qual tinham sido escavados os túmulos, entre os quais o de um Sumo Sacerdote de Up-uaut, o Abridor dos caminhos, detentor da enxó indispensável para ressuscitar a múmia. Se eu fosse o comandante hicso considerou o Afegão seria exactamente neste lugar que colocaria as minhas sentinelas. Não há melhor ponto de observação. Vamos verificar isso declarou o Bigodes. Se tiveres razão, sempre serão alguns hicsos a menos. O Bigodes era um egípcio do Delta, arrastado quase involuntariamente para a resistência, que se tornara a sua razão de viver.
Espoliado pelos invasores, o Afegão apenas sonhava restabelecer o comércio de lápis-lazúli com um Egipto novamente respeitador das leis comerciais. Os dois homens tinham corrido juntos muitos perigos. Admiradores incondicionais da Rainha Ah-hotep, a mulher mais bela e mais inteligente que tinham conhecido, bater-se-iam ao lado dela até ao fim, fosse ele qual fosse. O Afegão e o Bigodes treparam a colina com a vivacidade de combatentes habituados às expedições perigosas. Menos de meia hora depois, estavam de regresso. Quatro sentinelas definitivamente adormecidas disse o Bigodes. O caminho está livre.
Como Ah-hotep seguia o mesmo treino dos soldados, não teve qualquer dificuldade em subir a encosta. Vários túmulos tinham sido profanados e o do Sumo Sacerdote Up-uaut fazia infelizmente parte deles. Os hicsos armazenavam nela armas e mantimentos. Com a raiva no coração, a Rainha explorou os destroços à luz de uma tocha. Atingiu a pequena sala situada próximo do fundo do túmulo, onde o ritualista tinha o costume de depositar os objectos mais preciosos. Jaziam no chão fragmentos de cofres e de estátuas. A Rainha revistou aquele caos. E, por baixo de um cesto contendo alimentos mumificados, encontrou a enxó de ferro celeste utilizada durante os rituais de ressurreição. A porta do túmulo de Seken fechou-se e foi o seu filho mais velho, auxiliado pelo intendente Qaris, que colocou o selo da necrópole. Depois de Ah-hotep ter aberto os olhos, a boca e as orelhas da múmia, a alma do Faraó deixou de estar presa à terra. Temos de falar da situação, Majestade sugeriu Qaris. Mais tarde. Deveis interromper o mais rapidamente possível a vossa estratégia». In Christian Jacq, A Rainha Liberdade, A Guerra das Coroas, ISBN 978-852-861-216-5, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-281-7.

Cortesia de BEditora/JDACT

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Alberto Caeiro. O Pastor Amoroso. «O pastor amoroso perdeu o cajado, e as ovelhas tresmalharam-se pela encosta, e, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar»

Cortesia de wikopedia e jdact

Quando eu não te tinha
«(…) Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrade por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as cousas,
E cada cousa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado do sol seca as lágrimas pequenas que não posso deixar de ter.
Como o campo é grande e o amor pequeno!
Olho, e esqueço, como o mundo enterra e as árvores se despem.
Eu não sei falar porque estou a sentir.
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz cousas que não há nas palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.

O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu... Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo:
Os grandes vales cheios dos mesmos vários verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem,
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito».
In Alberto Caeiro, O Pastor Amoroso, digitalizado por Eduardo Lopes O. Silva, Rio de Janeiro, 2006, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

O Pastor Amoroso. Alberto Caeiro. «Amar é pensar. E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela. Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela»

Cortesia de wikopedia e jdact

Quando eu não te tinha
«(…) Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações,
Não sei o que hei-de ser comigo.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.

Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém.

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Passei toda a noite, sem saber dormir, vendo sem espaço a figura dela
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la,
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
E prefiro pensar dela, porque dela como é tenho qualquer medo.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só pensar ela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar».
[…]
In Alberto Caeiro, O Pastor Amoroso, digitalizado por Eduardo Lopes O. Silva, Rio de Janeiro, 2006, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT