domingo, 2 de agosto de 2020

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent, Henry Lincoln e Richard Leigh. «Richard podia responder à maioria de minhas dúvidas. E ficara tão intrigado quanto eu com as anomalias evidentes que eu havia encontrado»

Cortesia de wikipedia e jdact

 «(…) Ficou claro que o nosso filme sobre um pequeno mistério local começava a assumir proporções inesperadas. Paul decidiu abandoná-lo e nos engajou numa longa-metragem. Agora haveria mais tempo para pesquisar e mais tempo de cena para explorar a história. A transmissão foi adiada para a primavera do ano seguinte. O Tesouro Perdido de Jerusalém saiu em Fevereiro de 1972 e provocou uma reacção muito forte. Eu sabia que havia encontrado um assunto interessante para o grande público. Uma pesquisa posterior não significaria, portanto, auto-indulgência. Em algum momento teria que haver um segundo filme. Em 1974 eu já possuía grande quantidade de material. Paul contratou Roy Davies para produzir o meu segundo filme Crónica, chamado O Padre, o Pintor e o Demónio. Mais uma vez, a reacção do público mostrou quão fortemente a história havia impressionado a imaginação popular. Mas então ela havia se tornado muito complexa, e muito extensa nas suas ramificações. A pesquisa detalhada estava rapidamente excedendo a capacidade de uma única pessoa. Havia muitos caminhos diferentes a percorrer.

Quanto mais eu prosseguia numa linha de investigação, mais consciente me tornava da quantidade de material que estava sendo negligenciado. Nesse ponto crucial, o destino, que de início havia colocado a história casualmente em minhas mãos, agora assegurou que o trabalho não estagnaria. Em 1975, tive a grande sorte de encontrar Richard Leigh, durante um Curso de Verão em que ambos dávamos aulas de literatura. Richard é um romancista e escritor de contos, com pós-graduação em literatura comparada e um conhecimento profundo em história, filosofia, psicologia e esoterismo. Havia trabalhado durante vários anos como professor universitário nos Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha. Durante os intervalos das nossas aulas, passamos muitas horas discutindo assuntos de interesse mútuo. Eu mencionei os templários, que desempenhavam um papel importante no pano de fundo do mistério de Rennes-Ie-Château. Para minha satisfação, vi que essa sombria ordem medieval de monges combatentes já havia despertado o interesse de Richard, que desenvolvera pesquisas consideráveis sobre sua história. Subitamente, meses de trabalho que eu via se prolongarem à minha frente se tornaram desnecessários. Richard podia responder à maioria de minhas dúvidas. E ficara tão intrigado quanto eu com as anomalias evidentes que eu havia encontrado. O mais importante é que meu projecto de pesquisa também o fascinava. Percebendo o significado do projecto, ele se ofereceu para ajudar-me nos aspectos que envolviam os templários. E trouxe Michael Baigent, um psicólogo que recém-abandonara uma bem-sucedida carreira em foto-jornalismo para se dedicar ao estudo dos templários, visando ao projecto de um filme. Se eu tivesse procurado, não teria encontrado dois parceiros mais bem qualificados e mais compatíveis para formar um time. Após anos de trabalho solitário, o ímpeto trazido ao projecto por dois cérebros novos foi muito estimulante. O primeiro resultado palpável de nossa colaboração foi o terceiro filme Crónica sobre Rennes-Ie-Château, A Sombra dos Templários, produzido por Roy Davies em 1979.

O trabalho realizado para aquele filme finalmente nos colocou face a face com as fundações sobre as quais todo o mistério de Rennes-Ie-Château havia sido construído. Mas, no filme, o que estávamos começando a discernir só podia ser insinuado. Sob a superfície havia algo mais chocante, mais importante e mais imediatamente relevante do que podíamos imaginar quando começamos o nosso trabalho sobre o pequeno e intrigante mistério que um padre francês provavelmente encontrara num vilarejo montanhoso. Em 1972, eu terminara o meu primeiro filme com as seguintes palavras: algo extraordinário está esperando ser encontrado..., e o será, num futuro não muito distante. Este livro explica o que é este algo, e quão extraordinária foi sua descoberta». In Michael Baigent, Henry Lincoln e Richard Leigh, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, 1982, Nova Fronteira, 1993, 2015, ISBN 978-852-090-474-9.

 Cortesia de NFronteira/JDACT

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent, Henry Lincoln e Richard Leigh. «Sentia-me atraído por esse quebra-cabeça mais intrigante do que os usuais e curioso pelo silêncio de De Sède…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 «Em 1969, quando estava de férias em Cévennes, comprei o livro de bolso Le Trésor maudit, de Gérard Sede. Era uma história de mistério, uma mistura leve e interessante de factos históricos, mistérios genuínos e conjecturas. Depois das férias ele teria sido esquecido, como todas as leituras desse tipo, se eu não tivesse tropeçado numa omissão evidente e curiosa em suas páginas. O tesouro amaldiçoado do título havia sido aparentemente encontrado nos idos de 1890 por um padre de vilarejo que decifrara alguns documentos enigmáticos desenterrados em sua igreja. Os supostos textos de dois desses documentos foram reproduzidos, mas não as mensagens secretas que estariam codificadas dentro dele. A inferência era que as mensagens decifradas haviam sido novamente perdidas. Entretanto, conforme descobri, um estudo superficial dos documentos reproduzidos no livro revelava pelo menos uma mensagem oculta. O autor certamente a percebera. Ao trabalhar no seu livro, dera aos documentos mais do que uma atenção passageira. Era claro que ele encontrara o que eu havia encontrado. Além disso, a mensagem era um excitante fragmento de prova, do tipo que ajuda a vender um livro popular. Por que o senhor de Sède não a publicara? A peculiaridade da história e a possibilidade de outras descobertas voltaram à minha mente de tempos em tempos nos meses seguintes.

Sentia-me atraído por esse quebra-cabeça mais intrigante do que os usuais e curioso pelo silêncio de De Sède. Na medida em que ia descobrindo novos e intrigantes lampejos de significados no texto dos documentos, comecei a querer dedicar mais do que momentos de folga ao mistério de Rennes-Ie-Château. No final do Outono de 1970, apresentei a história como um possível documentário para Paul Johnstone, então produtor executivo da série Crónica, sobre história e arqueologia, da BBC. Paul achou o projecto viável. Fui então enviado à França para falar com De Sède e explorar as perspectivas de um filme. Encontrei De Sède em Paris na semana do Natal de 1970. Naquela primeira reunião, fiz a pergunta que me intrigara por mais de um ano: por que você não publicou a mensagem oculta nos pergaminhos? Sua resposta surpreendeu-me. Qual mensagem? Parecia-me inconcebível que ele desconhecesse aquela mensagem elementar. Por que estaria duelando comigo? Subitamente eu me vi, relutante, a revelar o que havia encontrado. Continuamos um elíptico jogo de esgrima verbal durante alguns minutos. Então se tornou claro que ambos conhecíamos a mensagem. Repeti minha pergunta: Porque não a publicou? Desta vez a resposta de De Sède foi calculada: porque nós pensamos que alguém como você se interessaria em descobrir por si mesmo. Essa resposta, tão enigmática quanto os misteriosos documentos do padre, era o primeiro indício claro de que o mistério de Rennes-Ie-Chatêau deveria ser muito mais do que uma simples fábula de tesouro perdido.

Comecei a preparar, juntamente com meu director, Andrew Maxwell-Hyslop, um filme Crónica na Primavera de 1971. O projecto era realizar um bloco de vinte minutos para um programa. Mas, na medida em que íamos trabalhando, De Sède nos alimentava com outros fragmentos de informação. Primeiro surgiu o texto integral de uma importante mensagem cifrada, que falava dos pintores Poussin e Teniers. Era fascinante. O código era incrivelmente complexo. Fomos informados de que ele havia sido decifrado por especialistas do departamento de códigos do exército francês, através de computadores. Estudando as circunvoluções do código, convenci-me de que a explicação obtida era no mínimo suspeita. Investiguei junto a especialistas em códigos do serviço de inteligência da Grã-Bretanha e eles concordaram comigo: o código não configura um problema válido para um computador. Ou seja, era indecifrável. Mas alguém, em algum lugar, devia ter a chave. Então De Sède entregou sua segunda bomba. Urna tumba semelhante àquela do famoso quadro Les Bergers d'Arcadie, de Poussin, havia sido encontrada. Ele enviaria detalhes assim que os obtivesse. Alguns dias mais tarde chegaram fotografias». In Michael Baigent, Henry Lincoln e Richard Leigh, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, 1982, Nova Fronteira, 1993, 2015, ISBN 978-852-090-474-9.

 

Cortesia de NFronteira/JDACT

sábado, 1 de agosto de 2020

Ensaio Sobre a Cegueira José Saramago. «Não esperara pela resposta. Ostensivamente, pusera-se a recolher os restos da jarra e a enxugar o soalho, enquanto ia resmungando, com uma irritação que não procurava…»

jdact

«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara»

«(…) Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tornando-os, por essa maneira, duplamente invisíveis. Ao mover-se em direcção à sala de estar, e apesar da prudente lentidão com que avançava, deslizando a mão hesitante ao longo da parede, fez cair ao chão uma jarra de flores de que não estava à espera. Tinha-se esquecido dela, ou então fora a mulher que a deixara ali quando saiu para o emprego, com a intenção de colocá-la depois em lugar adequado. Baixou-se para avaliar a gravidade do desastre. A água espalhara-se pelo chão encerado. Quis recolher as flores, mas não pensou nos vidros partidos, uma lasca longa, finíssima, espetou-se-lhe num dedo, e ele tornou a lacrimejar de dor, de abandono, como uma criança, cego de brancura no meio duma casa que, com o declinar da tarde, já começava a escurecer. Sem largar as flores, sentindo o sangue a escorrer, torceu-se todo para tirar o lenço do bolso e, como pôde, envolveu o dedo. Depois, apalpando, tropeçando, contornando os móveis, pisando cautelosamente para não enfiar os pés nos tapetes, alcançou o sofá onde ele e a mulher viam a televisão. Sentou-se, pôs as flores em cima das pernas, e, com muito cuidado, desenrolou o lenço. O sangue, pegajoso ao tacto, perturbou-o, pensou que devia ser porque não podia vê-lo, o seu sangue tornara-se numa viscosidade sem cor, em algo de certo modo alheio que apesar disso lhe pertencia, mas como uma ameaça de si contra si mesmo. Devagarinho, apalpando levemente com a mão boa, procurou a delgada esquírola de vidro, aguda como uma espada minúscula, e, fazendo pinça com as unhas do polegar e do indicador, conseguiu extraí-la inteira. Tornou a envolver no lenço o dedo maltratado, com força para estancar o sangue e, rendido, exausto, reclinou-se no sofá. Um minuto mais tarde, por uma dessas não raras desistências do corpo, que escolhe, para renunciar, certos momentos de angústia ou de desespero, quando, se por a exclusiva lógica se governasse, todos os seus nervos deveriam estar despertos e tensos, entrou-lhe um espécie de quebranto, mais sonolência do que sono autêntico, mas tão pesada como ele. Imediatamente sonhou que estava a jogar o jogo do E se eu fosse cego, sonhava que fechava e abria os olhos muitas vezes, e que, de cada vez, como se estivesse a regressar de uma viagem, encontrava à sua espera, firmes e inalteradas, todas as formas e cores, o mundo como o conhecia. Por debaixo desta certeza tranquilizadora percebia, contudo, o remoer surdo de uma dúvida, talvez se tratasse de um sonho enganador, um sonho de que teria de acordar mais cedo ou mais tarde, sem saber, nesse momento, que realidade estaria à sua espera. Depois, se tal palavra tem algum sentido aplicada a um quebrantamento que não durou mais que uns instantes, e já naquele estado de meia vigília que vai preparando o despertar, considerou seriamente que não estava bem manter-se numa tal indecisão, acordo, não acordo, acordo, não acordo, sempre chega uma altura em que não há outro remédio que arriscar, Eu que faço aqui, com estas flores em cima das pernas e os olhos fechados, que parece que estou com medo de os abrir, Que fazes tu aí, a dormir, com essas flores em cima das pernas, perguntava-lhe a mulher.

 

Não esperara pela resposta. Ostensivamente, pusera-se a recolher os restos da jarra e a enxugar o soalho, enquanto ia resmungando, com uma irritação que não procurava dissimular, Bem o poderias ter feito tu, em lugar de te deitares para aí a dormir, como se não fosse nada contigo. Ele não falou, protegia os olhos por trás das pálpebras apertadas, subitamente agitado por um pensamento, E se eu abro os olhos e vejo, perguntava-se, tomado por uma ansiosa esperança. A mulher aproximou-se, reparou no lenço manchado de sangue, o seu agastamento apagou-se num instante, Pobrezinho, como foi que te aconteceu isto, perguntava compadecida, enquanto desfazia a improvisada atadura. Então ele, com todas as suas forças, desejou ver a mulher ajoelhada aos seus pés, ali, como sabia que estava, e depois, já certo de que a não veria, abriu os olhos, Até que enfim que acordaste, meu dorminhoco, disse ela, sorrindo. Fez-se um silêncio e ele disse, Estou cego, não te vejo. A mulher ralhou, Deixa-te de brincadeiras estúpidas, há coisas com que não devemos brincar, Quem me dera que fosse uma brincadeira, a verdade é que estou mesmo cego. Não vejo nada, Por favor, não me assustes, olha para mim, aqui, estou aqui, a luz está acesa, Sei que aí estás, ouço-te, toco-te, calculo que tenhas acendido a luz, mas eu estou cego. Ela começou a chorar, agarrou-se a ele, Não é verdade, dize-me que não é verdade. As flores tinham escorregado para o chão, sobre o lenço manchado, o sangue recomeçara a pingar do dedo ferido, e ele, como se por outras palavras quisesse dizer do mal o menos, murmurou, Vejo tudo branco, e logo deixou aparecer um sorriso triste. A mulher sentou-se ao lado dele, abraçou-o muito, beijou-o com cuidado na testa, na cara, suavemente nos olhos, Verás que isso passa, tu não estavas doente, ninguém fica cego assim, de um momento para outro, talvez, Conta-me como foi, o que sentiste, quando, onde, não, ainda não, espera, a primeira coisa que temos de fazer é falar com um médico dos olhos, conheces algum, Não conheço, nem tu nem eu usamos óculos, E se te levasse ao hospital, Para olhos que não vêem, não deve haver serviços de urgência, tens razão, o melhor é irmos directamente a um médico, vou procurar na lista dos telefones, um que tenha consultório perto daqui». In José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Editorial Caminho, 1995, ISBN 972-211-021-7.

 Cortesia de ECaminho/JDACT

Os Manuscritos de Jesus. Michael Baigent. «… no início do século XV, época em que havia três papas, uma trindade de pontífices unidos unicamente por um desprezo mútuo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 O Tesouro do Padre

«(…) Ao longo do século XIX, cada vez mais o Vaticano ia-se tornando anacrónico. Os Estados Papais se estendiam de Roma a Ancona e até Bolonha e Ferrara, e o papa governava qual um potentado medieval. A tortura constituía prática regular nas mãos dos anónimos guardas da Inquisição (maldita) nas suas prisões secretas. Os condenados nos tribunais pontifícios viravam remadores nos galeões ou eram exilados, presos ou executados. Um patíbulo aparentando bastante uso ocupava o centro da praça de todas as comunidades. Por todo o lado espreitavam espiões, e a repressão era a regra; a modernidade vinha sendo mantida ao largo, até mesmo as estradas de ferro foram proibidas pelo papa, que temia que as viagens, bem como a comunicação entre os indivíduos, causassem danos à religião. Tudo isso acontecia contra o pano de fundo de uma Europa onde a norma era pressionar por mudanças sociais sob a forma de movimentos libertários contra o poder despótico e de encorajamento do governo parlamentarista.

A despeito da ignorância proposital, o mundo exterior ia adentrando as fronteiras fragilizadas dos domínios papais. As mudanças começavam a parecer inevitáveis. A filosofia política democrática, uma crescente consciência social e a florescente crítica aos textos bíblicos e suas incoerências faziam as convicções religiosas baquearem sob a pressão. Além disso, para horror dos católicos conservadores, o poder político do papa também estava directamente ameaçado. Tratava-se de um problema real: em 1859, logo depois de uma guerra entre a Áustria e a França, na qual as forças católicas dos Habsburgos sofreram uma derrota, a grande maioria das terras papais foi anexada ao recém-criado reino da Itália. O papa Pio IX, sumariamente rebaixado pelos acontecimentos, governava agora apenas Roma e um fragmento do campo à sua volta. E as coisas pioraram: em 21 de Setembro de 1870, até mesmo esse pequeno património lhe foi tomado pelos soldados italianos. Ao papa restou tão-somente o enclave murado da Cidade do Vaticano, de onde até hoje seus sucessores continuam a governar.

Pouco antes da perda de Roma, o papa, num aparente gesto de desespero, convocara um Concilio Geral de Bispos para sustentar o seu poder. No entanto, ao reunir esse Concilio, o papa reconhecia implicitamente as limitações de tal poder. A questão de quem segurava as rédeas há muito constituía uma ferida aberta no Vaticano. A incómoda verdade era que a legitimidade do papa não derivava do apóstolo são Pedro, dois mil anos atrás, como ele afirmava, mas de uma fonte bem mais mundana e terrena: um Concilio de Bispos que se reunira em Constance no início do século XV, época em que havia três papas, uma trindade de pontífices unidos unicamente por um desprezo mútuo, todos afirmando simultaneamente possuir autoridade suprema sobre a Igreja. Essa situação ridícula fora resolvida pelos bispos, que declararam, declaração esta reconhecida, ser detentores de autoridade legítima. Dali em diante, os papas mantiveram a autoridade graças aos bispos. Consequentemente, os primeiros dependiam, sempre que desejassem empreender uma mudança significativa, da aprovação dos últimos.

O papa Pio IX foi, porém, o que pretendeu fazer a maior das mudanças: estava decidido a ser declarado infalível, atribuindo-se assim um poder inédito sobre todos os fiéis. Sabia, contudo, que seria obrigado a usar de astúcia para alcançar tal objectivo. Por esse motivo, o Concilio Vaticano I foi convocado no final de 1869. A sua verdadeira finalidade foi mantida em segredo por um pequeno grupo de homens poderosos que incluía três cardeais, todos eles membros da Inquisição (maldita). Não houve qualquer menção à infalibilidade papal em nenhum dos documentos que abordavam os objectivos e as directrizes do concílio. Enquanto isso, os bispos se reuniram e se viram sujeitos a tácticas coercitivas. As votações não eram secretas, e o preço da crítica logo ficou evidente: a perda dos estipêndios do Vaticano era o mínimo que um bispo dissidente podia esperar». In Michael Baigent, Os Manuscritos de Jesus, Editora Nova Fronteira, 2006, ISBN 978-852-091-898-2.

Cortesia de ENFronteira/JDACT

sexta-feira, 31 de julho de 2020

No 31. A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «O homem usava uma camisa escura com marcas pronunciadas de suor em baixo dos braços. O mau cheiro do corpo dele parecia mais intenso no ar frio»

jdact e cortesia de wikipedia

 «O príncipe das trevas é um cavalheiro». In Shakespeare

 Abandonada. Ninive, norte do Iraque

«(…) Ela fez uma panorâmica do local. Não se viam evidências de armas, nem de nada que lembrasse uma instalação militar. O lugar mais parecia um local de escavação arqueológica. Cestos, barracas provisórias, mesas, pilhas de dejetos. Seria uma escavação arqueológica? Cotten podia jurar que se encontrava em algum lugar próximo às ruínas de antigas edificações assírias espalhadas por toda a região. Diversos caminhões antigos agrupavam-se nas vizinhanças de uma estrutura de pedra parcialmente desmoronada. Um punhado de homens movimentava-se em actividade frenética.  Essa poderia ser a oportunidade de conseguir uma boleia segura para a fronteira, pensou. Mas então hesitou, imaginando se deveria aproveitar a oportunidade. Finalmente, guardou a câmera e se encaminhou na direção das luzes. Próximo ao local, viu homens andando de um lado para outro, carregando equipamentos e engradados nos caminhões. Os confrontos esporádicos entre os militares iraquianos e os cada vez mais ousados rebeldes curdos apoiados pelos americanos provavelmente haviam tornado a região perigosa demais para uma escavação arqueológica. Ela se esforçou para ouvir as vozes dos homens. Turcos! Não iraquianos. Aliviada, Cotten entrou no acampamento e se aproximou de um dos homens. Com licença!, chamou.

O homem usava uma camisa escura com marcas pronunciadas de suor em baixo dos braços. O mau cheiro do corpo dele parecia mais intenso no ar frio. Ele a contemplou com um olhar intenso, como se imaginasse de onde teria surgido. Não inglês, disse, pegando um engradado de uma esteira e atirando-o na caçamba do caminhão. Se ela não se curvasse para trás, teria sido atingida de raspão pela pesada carga. Cotten tentou parar outro homem, que se desviou dela e lançou-lhe um olhar irritado. Alguém a tocou no ombro e ela fez meia-volta. Um homem baixo e atarracado fitava-a de perto. Americana?, indagou ele. Sim. Turco, informou ele e sorriu, revelando uma boca cheia de dentes sujos sob um bigode que lhe recobria todo o lábio superior como uma tenda. Preciso de uma carona, declarou ela, apontando para o norte. Ele virou a cabeça em direção às ruínas. Vá falar com o doutor Archer. Gabriel Archer. Alguém gritou e o turco, inclinando a cabeça de maneira educada, afastou-se apressado. Um pequeno grupo lotava um dos caminhões. O motor foi accionado, tossiu e ganhou vida, e o caminhão se dirigiu para a estrada. Ainda restavam dois outros caminhões no acampamento, mas estavam sendo carregados com pressa. Não lhe restava muito tempo para encontrar aquele doutor Archer e implorar uma carona.

Sob a luz da Lua, ela localizou a entrada da estrutura de pedra. As paredes eram sustentadas por andaimes de madeira e, para entrar, ela precisou se encolher em baixo de uma arcada baixa. Logo à frente, estendia-se uma fieira de lâmpadas penduradas no alto da entrada e ao longo da passagem. Ela seguiu pela passagem até que terminasse num conjunto de degraus levando ao subterrâneo. Cestos de areia se empilhavam nas vizinhanças, esperando para ser alçados para fora e esvaziados em peneiras. Um gerador a gás trepidava, fornecendo energia para a fieira de lâmpadas que se estendia até dentro do buraco. Ela se inclinou sobre o alto dos degraus e chamou: alô... Archer? Não houve resposta e ela chamou mais alto. Doutor Archer? A distância, ouviu o ruído do motor a diesel de outro caminhão entrar em funcionamento. Só restava um caminhão agora. Cotten começou a descer os degraus. O ar gelado cheirava a coisa velha como num mausoléu. Ela havia estado uma única vez num deles, mas esse tipo de humidade diferente, com um cheiro impregnado de terra e rocha, era inconfundível. Muito embora fosse criança na época, lembrava-se do enterro do pai: o perfume dolorosamente doce das flores, o odor estranhamente ácido das substâncias químicas e o cheiro frio, petrificado, da escavação do túmulo. Os degraus terminavam num salão pequeno. Ela o atravessou e caminhou por um túnel estreito que levava a uma câmara maior. Lá, avistou dois homens. Um era ligeiramente curvo e grisalho, vestido com uma camisa caqui empoeirada e calça jeans desbotada. Ele devia ser Archer, pensou, porque o outro homem tinha pele morena e usava um traje característico de árabe». In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

No 31. O Projecto Hades. Lynn Sholes e Joe Moore. «Uma única alma compartilhava sua linhagem sanguínea, mas não a sua danação»

Cortesia de wikipedia e jdact 

«Depois de perder a grande Batalha do Céu, Lúcifer, o Filho do Amanhecer, e os seus anjos rebeldes foram expulsos do Paraíso, proscritos por toda a eternidade para o mundo das trevas. Obcecado pelo ódio e o desejo de vingança, Lúcifer, que passou a ser conhecido como Satã, maquinou o seu primeiro acto de vingança contra Deus, a tentação de Adão e Eva. Vendo que o Homem era vulnerável, e munido com o conhecimento de que todos os humanos podiam ser tentados, Satã deu início a uma guerra para impedir que as almas entrassem no Reino do Céu. A cada Era do Homem, ele inventava métodos cada vez mais elaborados para induzir a ingénua psique humana a repetir o pecado original de Adão. Para tanto, a Fraternidade dos Caídos de Satã e os seus descendentes, os Nephilim, varreram a Terra em busca de presas, aumentando a sua lista cada vez mais extensa de almas para sempre condenadas às mesmas trevas nas quais o Mal prosperava. Uma única alma compartilhava sua linhagem sanguínea, mas não a sua danação. Sozinha, ela impedia Satã de alcançar o seu derradeiro objectivo: arrebanhar todas as almas da Terra para o seu Império das Trevas. Ele tinha a capacidade de tentar o Homem, mas ela tinha a força de vontade para detê-lo.

Ela era Cotten Stone, a filha do único Anjo Caído perdoado. Deus fizera uma aliança com o pai dela, Furmiel, o Anjo da Décima Primeira Hora. Por ele ter-se arrependido, Deus concedeu a Furmiel a mortalidade e ele teve duas filhas, gémeas. Uma vez que Furmiel não poderia jamais retornar ao Paraíso, Deus levou uma das filhas recém-nascidas para ocupar o lugar do pai no Céu, mas a segunda filha teria de viver na Terra. Assim, ela foi convocada por Deus para lutar em Seu nome. Cotten Stone descobrira seu legado ao ficar frente a frente com o Filho do Amanhecer. O ódio que ele nutria por ela aumentava a cada confronto. Ela impedira o plano dele de realizar um Segundo Advento profano, e ao compreender que Deus dera o livre-arbítrio ao Homem, a capacidade de criar a sua própria realidade, ela frustrara a tentativa de Lúcifer de levar o Homem a cometer o pecado supremo contra Deus, o suicídio. Ao decifrar uma mensagem inscrita pela mão de Deus sobre uma antiga placa de cristal, ela conduziu os que escolheram viver uma vida pautada no bem para um novo mundo de paz e alegria. Num gesto de abnegação, Cotten Stone então retornou ao velho mundo para continuar a lutar contra o seu inimigo eterno, um mundo onde o bem e o mal estariam sempre em guerra. A cada nova batalha que travava, o Fim dos Tempos ficava cada vez mais próximo. Agora, formavam-se dois exércitos: o Rubi, liderado pelo Grande Impostor; e o Índigo, liderado pela filha de um anjo. Muito em breve, uma nova batalha contra as Forças do Mal seria deflagrada e Cotten Stone seria de novo posta à prova». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Projecto Hades, 2007, Publicações Europa-América, 2008, ISBN 978-972-105-888-0. 

Cortesia de PEAmérica/JDACT

quinta-feira, 30 de julho de 2020

O Último Segredo. Lynn Sholes e Joe Moore. «O rosto dela empalideceu quando se voltou para encarar os passageiros. O homem ajeitou os óculos na ponte do nariz e começou a se levantar. Por favor, fique sentado, ordenou ela»

Cortesia de wikipedia e jdact 

Abatido

«O passageiro da poltrona 2-K da classe executiva do airbus A-340 da Virgin Atlantic olhava para a porta da cabine de comando através das grossas lentes dos óculos. Dez segundos antes, depois de ouvir um estampido seco vindo da cabine de comando, ele havia interrompido a leitura da revista que segurava. Agora, juntamente com os que o rodeavam, ouvia perplexo do seu assento as informações dadas pelo comandante através do sistema de intercomunicação. Aqui fala o comandante Krull. Estamos com problemas técnicos. Permaneçam todos sentados. O comandante havia dado outras informações durante o vôo de Londres a Nova York. Mas, dessa vez, a voz dele parecia tensa, nervosa. Uma comissária de bordo avançou cautelosamente pelo corredor que separava a primeira classe da cabine de comando. Parou em silêncio diante do convés de vôo pesadamente reforçado, ainda segurando o pano de prato que havia usado para limpar uma mancha do avental. O passageiro da poltrona 2-K acompanhou o olhar dela até à placa no centro da porta da cabine de comando, onde se lia: área restrita. Proibida a entrada durante o vôo. Enquanto ele observava, a comissária de bordo puxou um comunicador da parede e pressionou um botão que, segundo ele presumiu, servia para conectá-la à cabine de comando. A comissária falou ao microfone e esperou pela resposta. O passageiro viu a expressão do rosto dela mudar enquanto ouvia. Então, vagarosamente, ela voltou a pendurar o comunicador na parede e cobriu a boca com a mão. O rosto dela empalideceu quando se voltou para encarar os passageiros. O homem ajeitou os óculos na ponte do nariz e começou a se levantar. Por favor, fique sentado, ordenou ela. O que está acontecendo?, perguntou uma mulher em tom elevado. Que diabos foi aquele barulho?, interveio outro passageiro. Apesar da ordem da comissária, o passageiro do 2-K se levantou. Tem alguma coisa errada com o avião?, ele quis saber. Não, a aeronave está em ordem, respondeu a comissária, aparentemente ainda tentando assimilar o que tinha acabado de ouvir. Estamos sendo sequestrados?, insistiu o homem. A comissária mordeu o lábio inferior. O comandante Krull disse que atirou no co-piloto e que está prestes a se matar. Ela deu um passo para trás no corredor. Não há como entrar na cabine de comando e impedir que ele faça isso.

Comandante Krull, aqui fala Thomas Wyatt. Alto e empertigado no seu jeans desbotado e camisa de brim, Wyatt estava na pequena varanda na frente do seu chalé com vista para as águas escuras do lago Alligator, na região remota e bravia do norte da Flórida. O senhor pode ouvir-me?, indagou ele no telefone via satélite. Nenhuma resposta. Comandante, estou aqui para ajudá-lo. Estática. Wyatt sabia que havia pelo menos uma centena de pessoas ouvindo a ligação, que tinha sido transferida directamente para o sistema de comunicação da aeronave. Ele visualizou grupos de militares e civis no Departamento de Segurança Interna, no Pentágono, e em outras incontáveis agências, todos inclinados sobre os alto-falantes dos seus aparelhos eletrónicos. E ele sabia que tinha pouco tempo antes que uma tragédia acontecesse. O vôo 45 da Virgin Atlantic emitia o código 7500 de sequestro e não teria permissão para pousar e nem mesmo se aproximar de Nova York com um piloto suicida no comando. Pressionando o fone contra o ouvido, Wyatt insistiu: comandante, não importa o que o tenha levado a isso, ainda há tempo para voltar atrás. Isso não diz respeito apenas ao senhor, comandante, mas também às 280 pessoas inocentes a bordo do seu avião. Elas não merecem morrer. Seja qual for o seu problema, elas não são responsáveis. Vamos deixar o assunto nas mãos dos especialistas que podem resolver o problema para o senhor. Wyatt olhou para o relógio. Sabia que dois Hornets F-18 tinham sido enviados em posição vectorial para interceptar o airbus. Eles obedeciam a regras explícitas de envolvimento com relação ao código 7500: forçar o avião a desviar para um local de pouso seguro ou, se necessário, atirar na aeronave e abatê-la. O airbus, grande e pesadão, não era nenhum desafio para os pilotos de caça.

Comandante, o senhor é um veterano com dezassete anos de experiência, continuou Wyatt, olhando para três páginas de fax que tinha na mão. Muitos pilotos hoje em dia gostariam de chegar à sua posição. O senhor tem família..., filhas gémeas de 10 anos de idade. Está disposto a deixá-las órfãs de pai? Tirar a vida dos passageiros inocentes a bordo afectará a vida de outras centenas, se não milhares de pessoas, com o luto de amigos e parentes. E se levar essa aeronave ao chão com o senhor, o que dizer das vidas em terra? Por que não me diz o que quer..., farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajudá-lo a conseguir. Ainda não é tarde demais. Wyatt sabia que, normalmente, eram três os motivos para alguém tomar reféns: tortura, assassinato ou suicídio. As informações que havia recebido indicavam claramente o número três. E o número três era a especialidade dele». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Último Segredo, 1995, Editora Pensamento, 2015, ISBN 978-853-151-778-5.

Cortesia de EPensamento/JDACT

quarta-feira, 29 de julho de 2020

A Demanda do Santo Graal. Manuscrito do Século XIII. «Grande foi a alegria e o prazer que os cavaleiros da távola redonda tiveram aquele dia, quando se viram todos reunidos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Tristão. A Graça do Santo Graal. A Demanda
Como o rei e os cavaleiros viram vir Tristão. Com certeza, amigo, disse Lancelote, ele veio à corte e acabou o assento perigoso e deu cabo da aventura de uma espada, em que nenhum cavaleiro da távola redonda ousou pôr a mão. Mas como soubestes que ele, no dia de hoje, aqui havia de estar? Isto vos direi eu, disse ele, mas em outra oportunidade, não agora. Enquanto isto, eis que o rei saiu em direcção a ele, porque muito estava alegre com sua vinda, e disse-lhe: dom Tristão, sede bem-vindo. E Tristão saudou-o muito educadamente. E o rei disse-lhe: dom Tristão, estou muito alegre com vossa vinda, porque não faltava nenhum dos companheiros da távola redonda, senão vós.

Como o rei falava com Tristão e da alegria dos cavaleiros. Quando os cavaleiros viram que aquele era Tristão com quem o rei falava, foram para lá muito alegres e com grande prazer da sua vinda, porque muito prezavam sua cavalaria e sua cortesia. E assim que viram o escudo, disseram entre si: enganados fomos noutro dia, porque este era o cavaleiro que levava a mulher, e o que derribou os cavaleiros daqui. Grande foi a alegria e o prazer que todos com Tristão tiveram. E ele rogou ao rei que lhe mostrasse Galaaz, o mui bom cavaleiro, e o rei lhe disse que havia ido para a cidade com alguns da linhagem de rei Bam.
Ai, senhor, disse Tristão, fazei que o veja, porque por outro motivo não vim aqui. De bom grado, disse o rei. Então se foram para o paço e desceram. E quando entraram no paço, acharam Galaaz com sua linhagem, que já se desarmaram. E o rei pegou Tristão e levou-o a ele e disse-lhe: amigo Tristão, vedes aqui o que buscais. Em nome de Deus, disse Tristão, bem seja ele vindo, porque com sua vinda estou muito alegre. Então ficou de joelhos diante dele e disse-lhe: Senhor, abençoado seja o dia em que nascestes, quando vos Deus deu tal graça. Galaaz não lhe quis permitir que ficasse assim a seus pés; e depois ergueu-o e beijou-o em significado de companheirismo e de fraternidade. E bem ouvira já dizer que aquele era o mais afamado e o melhor cavaleiro da távola redonda, com excepção de Lancelote apenas.

Como os da mesa redonda tiveram a graça do santo Graal. Grande foi a alegria e o prazer que os cavaleiros da távola redonda tiveram aquele dia, quando se viram todos reunidos. E sabei que, desde que a távola redonda começou, nunca todos assim foram reunidos, mas aquele dia, sem falha, aconteceu que estavam lá todos, mas depois, nunca de novo estiveram. Contra a noite, depois de vésperas, quando se assentaram às mesas, ouviram vir um trovão tão grande e tão espantoso, que lhes semelhou que todo o paço caía. E logo depois que o trovão deu, entrou uma tão grande claridade, que tornou o paço dois tantos mais claro que era antes. E quantos no paço estavam sentados, logo todos foram repletos da graça do Espírito Santo e começaram a olhar uns aos outros, e viram-se muito mais formosos, muito mais do que costumavam ser, e maravilharam-se muito do que aconteceu e não houve quem pudesse falar por muito grande tempo, antes estavam calados e olhavam-se uns aos outros. E eles assim estando sentados, entrou no paço o santo Graal, coberto de um veludo branco; mas não houve um que visse quem o trazia. E assim que entrou, foi o paço todo repleto de bom odor, como se todos os perfumes do mundo lá estivessem. E ele foi para o meio do paço, de uma parte e da outra, ao redor das mesas. E por onde passava, logo todas as mesas ficavam repletas de tal manjar, qual em seu coração desejava cada um. E depois que teve cada um o de que houve mister a seu prazer, saiu o santo Graal do paço que ninguém soube o que fora dele, nem por qual porta saíra. E os que antes não podiam falar, falaram então. E deram graças a Nosso Senhor, que lhes fazia tão grande honra e os confortara e abundara da graça do santo Vaso. Mas sobre todos aqueles que alegres estavam, mais o estava rei Artur, porque maior mercê lhe mostrara Nosso Senhor que a nenhum rei que antes reinasse em Logres. Disto foram maravilhados quantos lá estavam, porque bem lhes pareceu que se lembrara Deus deles, e falaram muito disso. E o rei disse aos que perto dele estavam: com certeza, amigos, muito devíamos estar alegres, que Deus nos mostrou tão grande sinal de amor, que em tão boa festa como hoje, de Pentecostes, nos deu a comer de seu santo celeiro.

Como Galvão começou a demanda do santo Graal. Galvão que sentava diante do rei, disse: Senhor, ainda há outra cousa que não imaginais. Sabei que não há cavaleiro no paço que não houvesse de comer o que pensou cada um em seu coração. E isto nunca houve em nenhuma corte, senão na casa do rei Peles. Mas tanto fomos enganados que o não vimos senão coberto. Quanto em mim é, prometo agora a Deus e a toda cavalaria que, de manhã, se me Deus quiser atender, entrarei na demanda do santo Graal, assim que a manterei um ano e um dia e, porventura mais; e ainda mais digo: jamais voltarei à corte, por cousa que aconteça, até que melhor e mais a meu prazer veja o que ora vi; mas se não puder ser, voltarei então.

Como os da mesa redonda começaram a demanda do santo Graal. Quando os cavaleiros da távola redonda ouviram que aquele era Galvão e viram o que disse, pararam até de comer; mas assim que as mesas foram tiradas, foram todos ante o rei e fizeram aquela promessa que fizera Galvão, e disseram que jamais deixariam de andar até que vissem a tal mesa e tão saborosos manjares e tão bem preparados, como eram aqueles que aquele dia comeram, se era cousa que lhes outorgada fosse por dificuldade e por esforço que sofrer pudessem». In Manuscrito do Século XII, Heitor Magale, A Demanda do Santo Graal, TA Queiroz, Editora da Universidade de S. Paulo, 1988, CDD 398 46, 1989, ISBN 858-500-874-1.

Cortesia de EUSPaulo/JDACT

A Demanda do Santo Graal. Manuscrito do Século XIII. «Este torneio desta justa durou até hora de vésperas. Então mandou o rei que parassem, porque se temia acontecer alguma desavença. E disse-lhes que se fossem desarmar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O assento perigoso. Galaaz acaba a aventura da pedra. Torneio em Camalote
«(…) Como a donzela disse as novas ao rei. Eles nisto falando, viram vir pela ribeira uma donzela sobre um palafrém branco; e quando chegou a eles, perguntou se estava aí Lancelote. Ele estava diante dela e disse-lhe: donzela, que vos apraz? Disse ela: eu te trago as mais maravilhosas novas que viste, tempo há, e não de teu prazer, mas de teu pesar; e sabe que tens teu nome desonrado desde hoje de manhã, porque quem ontem te chamava, porque eras, o melhor cavaleiro do mundo, te dizia a verdade; mas agora não é assim. E isto podes bem ver por prova desta espada, porque vês que melhor cavaleiro que tu a ganhou.
Donzela, disse ele, vós não me dizeis nada que eu por verdade não soubesse, tempo há, porque já outra vez vi esta espada e não ousei prová-la. E então tornou a donzela ao rei e disse-lhe assim: rei Artur, manda-te dizer o ermitão que, neste dia de hoje, te acontecerá a maior maravilha e honra que te nunca aconteceu. E não virá por ti, mas por outrem. E assim que isto disse, volveu a rédea ao palafrém e voltou. E muitos houve que quiseram mais saber dela, mas não quis ficar por rogo de ninguém, nem dizer mais de seus feitos.

Como rei Artur fez armar o torneio no campo de Camalote. Então disse o rei aos que estavam perto dele: amigos, assim é que a demanda do santo Graal é sinal verdadeiro de que ireis daqui logo; e porque sei verdadeiramente que jamais vos verei reunidos em minha casa, como agora vejo, quero que naquele campo de Camalote seja agora começado um torneio tal que, depois de minha morte, seja contado e no qual hajam que referir nossos heróis. E concordaram com isso todos. E voltaram à cidade e pediram as suas armas e armaram-se e voltaram ao campo. E o rei não fizera isto, senão para ver alguma coisa da cavalaria de Galaaz, porque bem sabia que não estaria muito em Camalote.

Como Galaaz justava, e como o rei partiu para aquele torneio. Aquele dia, rogou Lancelote a seu filho Galaaz que trouxesse armas naquele torneio com divisas da linhagem de rei Bam. E ele o fez de muito bom grado, porque não há nada que ele receasse, que lhe seu pai mandasse; mas não quis trazer escudo. Depois que foram reunidos no campo de Camalote, começaram a se ferir com lanças, de modo que muitos veríeis cair, e muitos havia que o faziam muito bem. E Galaaz, que entrou no campo, começou as lanças a quebrar e a derrubar cavaleiros, e a fazer tantas maravilhas, que todos diziam que nunca viram tão bom cavaleiro de justa. Porque, sem falha, nunca ele alcançava cavaleiro hábil, por mais valente que fosse, que o não metesse em terra; e fez disso tanto, que todos aqueles que o viram, disseram que nunca tão altamente começara cavaleiro a derribar cavaleiros. E bem aparecia no que naquele dia fizera, porque, de todos aqueles que eram companheiros da távola redonda, não ficaram senão poucos que ele não derribasse. Este torneio desta justa durou até hora de vésperas. Então mandou o rei que parassem, porque se temia acontecer alguma desavença. E disse-lhes que se fossem desarmar, e fez tirar o elmo a Galaaz e deu-o a Boorz de Gaunes, que o segurasse, porque aquele era em quem tinha confiança muito grande, que sempre fora em sua honra e em sua ajuda.

Tristão. A Graça do Santo Graal. A Demanda
Como o rei e os cavaleiros viram vir Tristão. Ainda o preito não estava acabado nem decidido, quando viram vir um cavaleiro pelo fundo da ribeira, sobre um cavalo tão bom, que poucos havia no campo melhores; e vinha tão depressa, como se todos os diabos do inferno viessem depós ele. E não trazia todas as armas, apenas a espada e o escudo. E o rei olhou o escudo e mostrou-o a Lancelote, que perto dele estava, e disse-lhe: agora estou alegre e tenho muito gosto, porque vejo aqui vir Tristão, o sobrinho de rei Mars de Cornualha, porque bem conheço aquele escudo que não vi desde que me fez muito pesar. E Lancelote começou a ferir o cavalo com as esporas e foi em direcção dele, e disse-lhe, de tão longe como pôde entender que o poderia ouvir: dom Tristão, sede bem-vindo. E Tristão; que o reconheceu, saudou-o e abraçou-o. E depois perguntou: amigo Lancelote, é verdade que veio Galaaz, o mui bom cavaleiro, à corte, aquele que há-de acabar o assento perigoso e há-de dar fim às aventuras do reino de Logres?» In Manuscrito do Século XII, Heitor Magale, A Demanda do Santo Graal, TA Queiroz, Editora da Universidade de S. Paulo, 1988, CDD 398 46, 1989, ISBN 858-500-874-1.

Cortesia de EUSPaulo/JDACT

Gritos do Passado. Camila Läkberg. «O bebé, com toda a sua gritaria, sua necessidade de carinho e sua demanda por algo que ela não lhe poderia dar. Era por causa do bebé…»

 Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quando Patrik chegou, a actividade já era frenética. A entrada da Passagem do Rei havia sido fechada com um cordão de isolamento, e ele contou três carros de polícia e uma ambulância. Os peritos criminais vindos de Uddevalla estavam atarefados, e ele sabia que não devia ir entrando directo na cena do crime. Esse era um erro de polícia novato, o que não impedia seu chefe, o delegado Mellberg, de ficar andando de um lado para outro da área. Os peritos olhavam desalentados para os sapatos e as roupas dele, que naquele momento acrescentavam milhares de fibras e partículas ao seu delicado local de trabalho. Enquanto Patrik se manteve do lado de fora da fita amarela, Mellberg passou por cima dela e saiu da área, para grande alívio da equipa. Olá, Hedström, saudou o delegado. Sua voz estava calorosa, quase efusiva, e Patrik ficou surpreso. Por um instante, achou que Mellberg fosse lhe dar um abraço, mas felizmente isso não aconteceu. Apesar disso, o chefe parecia-lhe totalmente mudado. Fazia apenas uma semana que Patrik saíra de férias, mas o homem diante de si não era o mesmo que ele deixara sentado cabisbaixo à sua mesa, resmungando que o mero conceito de férias deveria ser abolido. Mellberg apertou a mão de Patrik com entusiasmo e deu-lhe uma chapadinha nas costas. E aí, como está a galinha choca em casa? Algum sinal de que vai ser pai logo? Não pelo próximo mês e meio, dizem eles. Patrik ainda não fazia ideia do porquê de tanto bom humor da parte de Mellberg, mas pôs de lado a surpresa e tentou concentrar-se no motivo de ter sido chamado ao local. E então, o que descobriu? Mellberg fez um esforço para apagar o sorriso da face e apontou para o interior sombrio da fenda. Um garoto de seis anos saiu escondido de casa hoje de manhã enquanto os pais dormiam e veio para cá brincar de cavaleiro entre as rochas. Em vez disso, ele encontrou uma mulher morta. Recebemos o chamado às 6h15.
Quanto tempo, os peritos tiveram para examinar a cena do crime? Eles chegaram faz uma hora. A ambulância chegou primeiro, e os paramédicos atestaram de imediato que não seria necessário nenhuma ajuda médica. Desde então, os peritos puderam trabalhar à vontade. Eles são um pouco sensíveis… Eu só queria entrar e dar uma olhada, e a reacção deles foi bem grosseira, se quer saber. Bom, acho que passar o dia inteiro rastejando, procurando fibras com uma pinça, deixa qualquer um meio puto da vida. Agora, Patrik reconhecia o chefe. Esse era mais o tom de Mellberg. Mas Patrik sabia por experiência que não adiantava tentar mudar as opiniões dele. Era mais fácil deixar que seus comentários entrassem por um ouvido e saíssem pelo outro. O que sabemos sobre ela? Nada ainda. Achamos que tem por volta de vinte e cinco. A única peça de roupa que encontramos, se é que dá para considerar assim, foi uma bolsa. Fora isso, ela está nua em pelo. Belos peitos, aliás. Patrik fechou os olhos e repetiu para si mesmo, como um mantra mental: não falta muito para ele se aposentar, não falta muito para ele se aposentar… Mellberg prosseguiu desatento. A causa da morte não foi confirmada, mas ela foi espancada com violência. Contusões por todo o corpo e vários ferimentos que parecem facadas. E ainda há o facto de que ela está deitada sobre um cobertor cinza. O médico legista a está examinando agora, e esperamos um relatório preliminar para logo mais. Alguém mais ou menos dessa idade foi dado como desaparecido recentemente? Não, nem de perto. Um homem de idade foi dado como desaparecido faz mais ou menos uma semana, mas no fim ele só se tinha cansado de viver enjaulado com a mulher num trailer e fugiu com uma garota que conheceu no Galären Pub. Patrik viu que a equipa que rodeava o corpo se preparava agora para colocá-lo com cuidado dentro de um saco para cadáveres. As mãos e os pés haviam sido ensacados de acordo com as normas para preservar qualquer evidência.
Os peritos criminais de Uddevalla coordenaram os seus movimentos para colocar a mulher no saco da forma mais eficiente possível. Então o cobertor sobre o qual ela estivera também foi colocado num saco plástico para exame posterior. A expressão de choque nas suas faces e o modo como ficaram paralisados revelaram a Patrik, de imediato, que algo inesperado acontecera. O que foi?, perguntou ele. Não vão acreditar nisso, respondeu um dos polícias, mas encontramos ossos aqui. E dois crânios. Pela quantidade de ossos, eu diria que são suficientes para dois esqueletos.

Verão de 1979
Ela oscilava de um lado para outro enquanto pedalava de volta para casa, numa luminosa noite de Verão. A festa fora um pouco mais maluca do que ela imaginara, mas isso não tinha importância. Ela era adulta, afinal de contas, e podia fazer o que bem entendesse. O melhor tinha sido poder ficar longe da menina por algum tempo. O bebé, com toda a sua gritaria, sua necessidade de carinho e sua demanda por algo que ela não lhe poderia dar. Era por causa do bebé, enfim, que ela ainda tinha de morar com a mãe, aquela velha que mal a deixava afastar-se de casa alguns metros, embora ela já tivesse 19 anos. Havia sido um milagre a mãe ter permitido que saísse essa noite para comemorar o solstício de Verão. Se não fosse pela criança, ela agora já estaria morando sozinha; poderia tentar ganhar o seu próprio dinheiro. Poderia sair sozinha quando quisesse e voltar quando lhe desse na telha, e ninguém iria dizer nada. Mas com a menina era impossível. Ela preferia entregar a criança para a adopção, mas a velha não queria nem ouvir falar disso, e agora era ela quem pagava o preço. Se sua mãe queria a menina tanto assim, por que não cuidava dela sozinha? A velha ia ficar furiosa de verdade quando ela chegasse cambaleando daquele jeito no meio da madrugada. Seu hálito cheirava a álcool, e com certeza mais tarde teria que pagar por isso. Mas valera a pena. Ela não se divertia assim desde o nascimento da pestinha.
Passou recto pelo cruzamento onde ficava o posto de gasolina e seguiu mais um pouco pela estrada. Então virou à esquerda, na direçcão de Bräcke, mas perdeu o equilíbrio e quase caiu na vala ao lado da estrada. Endireitou-se e pedalou com mais força, conseguindo algum impulso para subir a primeira ladeira. O vento soprava no seu cabelo, e a noite clara de verão fora dominada por um silêncio completo. Por um instante, ela fechou os olhos e pensou naquela noite luminosa de verão em que o alemão a engravidou. Tinha sido uma noite maravilhosa e proibida, mas não valeu o preço que ela teve que pagar ao final. De repente, ela abriu os olhos quando a bicicleta chocou contra algo. A última coisa de que se lembrava era o chão vindo na sua direcção a grande velocidade». In Camila Läkberg, Gritos do Passado, 2004, Edições Dom Quixote, 2010/2011, ISBN 978-972-204-348-9».

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

Gritos do Passado. Camila Läkberg. «O suor fazia com que o lençol se colasse ao seu corpo. Erica se virava e se mexia na cama, mas era impossível encontrar uma posição confortável»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mas o esquisito era que a moça não se mexia. Também não estava usando nenhuma roupa, e por um momento ele ficou envergonhado por estar parado ali, olhando uma moça nua. O vermelho que tinha visto não era um pedaço de pano, mas uma bolsa que estava perto dela, e ele não via as roupas em lugar algum. Engraçado, ela ficar deitada ali, nua. Sobretudo quando fazia tanto frio. Então, uma ideia impossível lhe ocorreu. E se a moça estivesse morta? Ele não conseguia encontrar outra explicação para ela estar ali deitada tão quieta. A ideia o fez descer da rocha num pulo, e retroceder devagar em direcção à entrada da fenda. Depois de afastar-se alguns metros da moça morta, ele se virou e correu para casa o mais rápido que pôde. Já não se importava se iria levar uma tareia ou não.

O suor fazia com que o lençol se colasse ao seu corpo. Erica se virava e se mexia na cama, mas era impossível encontrar uma posição confortável. A noite clara de verão não facilitava em nada o sono, e pela milésima vez ela fez uma anotação mental para comprar cortinas de blackout e colocá-las na janela, ou melhor, convencer Patrik a fazer isso. Ela achava encantador o facto de ele conseguir dormir tão satisfeito ao lado dela. Como ele ousava ficar ali roncando quando ela passava acordada noite após noite? Cutucou-o de leve, na esperança de que acordasse. Ele nem se mexeu. Ela cutucou com mais força. Ele resmungou, puxou mais as cobertas e virou-se para o outro lado. Ela suspirou, ficou deitada de costas, com os braços cruzados sobre os seios, olhando o tecto. A barriga arqueava-se no ar como um grande balão, e ela tentou imaginar o bebé nadando no escuro, dentro dela. Talvez tivesse o polegar na boca. Ainda era irreal demais para conseguir visualizar aquilo. Estava no oitavo mês, mas ainda não conseguia compreender o facto de que tinha outra vida dentro de si. Bom, muito em breve tudo seria bem real. Erica estava dividida entre a ansiedade e o receio. Era difícil imaginar como seria depois do parto. Para ser sincera, nesse momento era difícil pensar para além do problema de não mais conseguir dormir de barriga para baixo. Ela olhou o mostrador luminoso do despertador: 4h42 da madrugada. Talvez devesse acender a luz e ler um pouco. Três horas e meia e um romance policial ruim depois, ela estava prestes a rolar para fora da cama quando o telefone soou estridente. Como sempre, ela passou o fone para Patrik. Alô, aqui fala Patrik, a voz pastosa de sono. Não, está tudo bem. Ah, droga, claro, posso estar aí em quinze minutos. Vejo você lá. Ele voltou-se para Erica. Temos uma emergência. Tenho de me apressar.
Mas você está de férias. Ninguém mais pode fazer isso? Ela percebia que estava choramingando, mas ficar acordada a noite toda não fizera muito bem ao seu humor. É um assassinato. Mellberg quer que eu o acompanhe. Ele mesmo está indo até lá. Um assassinato? Onde? Aqui em Fjällbacka. Um garotinho encontrou o corpo de uma mulher na Passagem do Rei, esta manhã. Patrik vestiu-se depressa. Não demorou muito, já estavam em meados de Julho e ele só precisaria de roupas leves de Verão. Antes de sair correndo, foi até à cama e beijou a barriga de Erica, mais ou menos onde ela se lembrava vagamente de haver existido um umbigo. Vejo você mais tarde, nené. Seja bonzinho com a mãe, e voltarei logo para casa. Ele a beijou apressado e saiu. Com um suspiro, Erica içou-se para fora da cama e colocou um daqueles vestidos modelo tenda que por ora eram as únicas coisas que lhe serviam. A contragosto, ela lia montes de livros sobre bebés, e, em sua opinião, todos que haviam escrito sobre a gloriosa experiência da gravidez deviam ser levados para a praça pública e ser açoitados. Insónia, dores nas juntas, estrias, hemorroidas, suores nocturnos e uma revolução hormonal generalizada. Isso estava bem mais perto da realidade. E ela tinha a certeza de não estar irradiando nenhum brilho interior. Resmungando para si mesma, Erica desceu as escadas devagar, rumo ao primeiro café do dia. Talvez aquilo dissipasse um pouco o nevoeiro». In Camila Läkberg, Gritos do Passado, 2004, Edições Dom Quixote, 2010/2011, ISBN 978-972-204-348-9».

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

terça-feira, 28 de julho de 2020

Ciência e Experiência nos Descobrimentos Portugueses. Luís Albuquerque. «Como consequência dele, os périplos da Antiguidade, já então chamados portulanos, passaram a acrescentar às distâncias que separavam dois portos o rumo (magnético) que o piloto…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Antecedentes da Náutica dos Descobrimentos
A Náutica Medieval
«Desde a Antiguidade que os homens do mar, responsáveis pelo êxito das navegações, criaram o hábito de registar por escrito as indicações consideradas importantes para assegurar o êxito da viagem, caso viessem a repeti-la. Fazendo uma navegação quanto possível costeira, esses primitivos apontamentos dos pilotos e navegadores, não obstante o seu grande interesse histórico, fornecem um pequeno número de dados. Lendo, por exemplo, o Périplo do Mar Eriteu, redigido em grego por autor desconhecido antes de iniciada a nossa era, verifica-se que esse texto aponta o nome dos principais portos do Mar Vermelho, indicando quase sempre a distância (em estádios) que separa entre si dois ancoradouros consecutivos, e ainda algumas breves informações sobre os habitantes (ictiofágios e agriofágios, por exemplo) que viviam nas terras circunvizinhas desses lugares marítimos. Mas os esclarecimentos prestados são, na maioria dos casos, sucintos e imprecisos; é certo que, excepcionalmente, podem descer a alguns pormenores de interesse, mas nunca apontam o rumo pelo qual o navio devia ser encaminhado, como na Idade Média se leria nos textos análogos; tal falta é apenas significativa de que a navegação não se fazia nesse tempo por rumos geográficos ou magnéticos; o piloto impunha à sua embarcação, como já ficou dito, uma derrota à vista de costa, e isso dispensava qualquer tipo de orientação geográfica, que se tornaria mais tarde indispensável, quando tais condições se alteraram. Há testemunhos suficientes, embora de diversas origens, de terem existido vários textos deste tipo; eles constituem os mais antigos livros de náutica de que temos conhecimento, sendo de salientar que não há naqueles que nos chegaram em fragmentos ou integralmente outros dados suplementares que pudessem auxiliar o piloto na sua tarefa. Para citar um exemplo, direi que nenhum desses textos alude a qualquer determinação de latitude, que aliás seria absolutamente inútil para a arte de navegar a que se recorria; é certo que se tem sustentado ter Pytheas de Marselha medido esta coordenada geográfica umas quatro vezes nas suas deambulações oceânicas, que o teriam levado até a ilha de Tule, às costas da Noruega e ao Báltico; Laguarda Trias estudou-as cuidadosamente, mas a verdade é que tais pretendidas observações foram todas feitas em terra e em lugares desconhecidos (apenas de uma delas se sabe que teve lugar em Marselha); o seu interesse para a náutica é, por conseguinte, nulo ou muito longínquo. As navegações mediterrânicas da Idade Média, seriam bastante mais exigentes à medida que se intensificaram, e sobretudo depois que os pilotos começaram a utilizar a agulha marear; este acontecimento de que se não sabe exactamente a história, verificou-se, o mais tardar, no decorrer do século XIII (embora existam em autores europeus referências às propriedades da agulha magnetizada anteriores a essa data). Como consequência dele, os périplos da Antiguidade, já então chamados portulanos, passaram a acrescentar às distâncias que separavam dois portos o rumo (magnético) que o piloto devia adoptar para se dirigir de um a outro.
Dois outros aperfeiçoamentos da náutica aparecem também antes do século XV: a carta de navegar (a que modernamente se deu o nome de carta-portulano, por estar intimamente relacionada com os textos náuticos designados por portulanos) e a toleta ou raxon de marteloio. Quanto à carta, e a despeito de muitas especulações que em torno do seu traçado têm sido feitas, continuo persuadido que ela de facto surgiu exclusivamente como desejo de dar expressão gráfica aos portulanos; quer dizer que, em minha opinião, não seguiu qualquer sistema de representação matemática, como muitos historiadores pretenderam, por vezes relacionando-a sobre o muito falado sistema de projecção de Marino de Tiro, de que não há notícias satisfatórias; um estudo atento das cartas deste tipo mostra, com efeito, que nelas se utilizaram os elementos que estavam escritos nos portulanos, e que foram transpostos para o desenho tal como hoje ainda se faz um levantamento topográfico expedito, para representação de áreas restritas; é claro que, dada a extensão das áreas representadas na carta portulano, ela apresentava-se geograficamente errada; mas cortada de linhas de rumos magnéticos (inicialmente em números de dezasseis, que foi dentro de pouco tempo duplicado), ou seja, exactamente os rumos seguidos pelos pilotos, adaptava-se perfeitamente à náutica, quer dizer, estava nauticamente correcta. Tanto assim é que os seus erros só vieram a ser notados pelos seus utilizadores quando a arte de navegar passou a recorrer a outros dados que entravam em conflito aberto com o traçado da carta.
Os dois dados até aqui referidos saíram da prática dos pilotos; os portulanos correspondiam ao mais elementar cuidado de preservar experiência vivida, e não envolviam, de início (na sua fase de périplos) mais do que o cálculo estimado das distâncias percorridas (com tendência para arredondar os números para as centenas, nos textos da Antiguidade) e a leitura, feita pela bússola, do rumo adoptado; o desenho da carta, embora exigisse já uma técnica (e ficaram célebres as escolas mediterrânicas de Génova, Veneza e Maiorca), não implicava mais do que alguns conhecimentos muito elementares de geometria». In Luís Albuquerque, Ciência e Experiência nos Descobrimentos Portugueses, Conselho da Europa, 1983, Biblioteca Breve 73, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Livraria Bertrand, Instituto Camões.

Cortesia BibliotecaBreve/JDACT

Quando Lisboa Tremeu. 1755. Domingos Amaral. «Só vários meses depois do terramoto, já de novo preso, é que tomei conhecimento do que acontecera naquelas horas em Belém, aonde o rei José I e a corte foram confrontados com o sismo»

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«(…) Encolhi os ombros, despi as roupas de prisioneiro e vesti umas calças e uma camisa que encontrara no armário. Contrariado, o árabe mudou também de roupa. Contudo, não encontrámos sapatos que nos servissem e tivemos de manter os que trazíamos da prisão, uma espécie de socas de pano, nada úteis para correr naquele solo escavacado. De repente, ouvi o árabe a falar sozinho, e vi-o perto de outro armário, onde descobrira dois casacos castanhos. Eram demasiado pomposos para nós, e disse-lhe: quem nos vir com eles vai desconfiar. Com pena, Muhammed atirou os casacos para o soalho. Estava na altura de ir embora, mas pediu-me que esperasse mais um pouco, e abriu mais gavetas, ao fundo da sala. O que fazes? Vamos, protestei. Esperar, haver sempre jóias... Esvaziou as cómodas, mas desistiu, desiludido. Gente sovina, murmurou. Se calhar, tiveram tempo para levar as jóias, afirmei. Saímos da casa, em direcção à fonte. Quando lá chegámos, vimos os soldados, e escondemo-nos. Foi aí que assistimos à cena que há pouco contei: a chegada do rapaz, os seus gritos, os soldados a correrem atrás do espanhol, o Cão Negro a aparecer e o rapaz a fugir. Esperava que o Cão Negro o perseguisse, mas, ao ver a fonte, o espanhol parou de correr, e a sua escolta também. Havia pessoas, feridas e combalidas, à espera da sua vez de beber, mas o Cão Negro passou à frente delas e, quando um homem o tentou parar, ele abateu-o com a barra de ferro. Assustadas, as outras pessoas afastaram-se imediatamente, e o Cão Negro e os dois espanhóis beberam e depois lavaram-se. Dois homens ganharam coragem e voltaram a aproximar-se da fonte, mas cometeram um erro. Os três bandidos desataram a bater-lhes, mataram-nos e roubaram-nos. Só depois beberam mais água e se foram embora, carregando às costas a roupa roubada. Muhammed e eu saímos do esconderijo dez minutos mais tarde, dirigimo-nos à fonte e bebemos água. Mais gente estava a aparecer e, mesmo que observassem os corpos dos caídos no chão, ninguém se importava com eles. As pessoas só queriam beber água, não queriam saber quem tinha morrido, nem como, nem porquê.

Só vários meses depois do terramoto, já de novo preso, é que tomei conhecimento do que acontecera naquelas horas em Belém, aonde o rei José I e a corte foram confrontados com o sismo. Nos dias que se seguiram, soube-se que o rei não morrera, ao contrário do que chegou a correr nas primeiras horas, e nem sequer ficara ferido. Também se soube que, em Belém, os estragos haviam sido menores do que no centro da cidade; não se sentiram os efeitos das ondas gigantes que inundaram o Terreiro do Paço; e os terríveis incêndios, que alastraram durante dias nas zonas por onde nós andávamos, nunca chegaram lá. Poupada a corte a males maiores, o monarca conseguiu, com a ajuda de Sebastião José Carvalho Melo, reorganizar a vida do reino. Tudo isto era do conhecimento geral, mas os detalhes, os pormenores do que se passara em Belém, só me foram revelados na visita que Bernardino, um ajudante de escrivão ao serviço do rei, meu conhecido do passado, e que por golpe do destino iria acabar como ajudante principal de Sebastião José Carvalho Melo, me fez à prisão. Naquela manhã do dia 1 de Novembro de 1755, Bernardino tinha acompanhado a corte desde o Terreiro do Paço até Belém, num passeio matinal que se iniciara muito cedo, pois o rei queria ir ouvir missa junto aos Jerónimos, e obrigara todos a madrugarem, para que a comitiva não se atrasasse. Sonolento e contrariado, Bernardino apresentara-se no pátio do Paço para acompanhar a família real naquela expedição. Na sua carruagem, viajavam também duas aias e um padre jesuíta, chamado Malagrida, um homem agreste e desagradável, que o rei tinha em grande estima e a quem se confessava. Tal como muitos outros, Bernardino considerava-o enervante e sinuoso, e não conseguia trocar com ele mais do que duas palavras, além de embirrar com a sua barbicha de bode, um triângulo pontiagudo que se prolongava até meio do peito.
Como as aias eram gordas e feias, e o padre rezava o terço em silêncio, apenas mexendo os lábios sem produzir qualquer som, à medida que avançava ave-marias no seu rosário, Bernardino adormeceu entre Remolares e a ponte de Alcântara. Só acordou na Junqueira, onde apreciou os estéticos palacetes dos muitos nobres que se haviam ali instalado. Sorumbático, o padre Malagrida produziu comentários pouco abonatórios sobre a luxúria dos proprietários, um exemplo mais da perdição geral que, segundo ele, contaminava a cidade. Sem lhe dar troco, Bernardino fingiu adormecer de novo, mas mais não fez do que passar mentalmente em revista os seus afazeres. Depois da missa, o rei certamente desejaria conhecer os assuntos pendentes, mas, tirando aquela invulgar petição, não havia nada de especial com que valesse a pena incomodar Sua Majestade num sábado.
Com o secretário do Reino cada vez mais velho e doente, os assuntos acumulavam-se, e muitos tinham de ser directamente levados ao rei, ou então dirigidos ao secretário dos Negócios Estrangeiros, a quem Sua Majestade recorria cada vez mais. Bernardino intimidava-se bastante na presença de Sebastião José Carvalho Melo. O homem era altíssimo e os seus modos ríspidos causavam apreensão. Não era boa ideia cair em desgraça junto dele. Além disso, Bernardino temia que Sebastião José de Carvalho e Melo o reconhecesse dos tempos da juventude, quando pertencera ao grupo de jovens arruaceiros liderados pelo actual secretário dos Negócios Estrangeiros. Era sabido que Sebastião José não gostava que lhe relembrassem esse passado desviante e de má reputação, quando era conhecido por o Carvalhão, e por isso Bernardino sempre evitara reavivar as memórias desses tempos, curtos, em que ambos tinham convivido. Contudo, aquela estranha petição tinha de obter uma resposta. Provinha de um prisioneiro do Limoeiro, conhecido pelo nome de Santamaria, um pirata árabe que tinha sido entregue às autoridades portuguesas pelos franceses, e que agora revelava ser português. Segundo dizia, nascera em Portugal, aqui se tornara marinheiro, e só depois fora preso pelos árabes». In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, O Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2010, ISBN 978-972-461-986-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT