terça-feira, 23 de abril de 2019

A Cidade Perdida. James Rollins. «Pela ausência de desenvolvimento adicional, Thomas soube quem trataria do assunto. Desenhou um símbolo grego na margem do jornal. O caminho será preparado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

The British Museum. Londres. 14 de Novembro
«(…) As mãos tremiam-lhe. Teve de agarrar uma com a outra para afastar um novo ataque. Só queria rastejar para dentro da cama e puxar a colcha sobre a cabeça. Billie fitava-a, os olhos a reflectir a luz do candeeiro. Eu fico bem. Está tudo bem, disse Safia em voz baixa, mais para si própria do que para o gato. Nenhum dos dois se convenceu.

02h13, GMT (21h13, EST)
Fort Meade, Maryland
Thomas Hardey detestava ser incomodado quando estava compenetrado na resolução das palavras cruzadas do New York Times. Era o seu ritual de domingo à noite, que incluía igualmente um agradável copo de scotch de quarenta anos e um bom charuto. O fogo crepitava na lareira. Recostou-se na sua poltrona de couro e fitou o puzzle meio preenchido, forçando a ponta da sua esferográfica Montblanc. Franziu uma sobrancelha face ao 19 vertical, uma palavra de cinco letras. Dezanove. A soma de todos os homens. Enquanto ponderava sobre a resposta, o telefone soou na sua secretária. Suspirou e subiu os óculos de leitura da ponta do nariz até a testa. Provavelmente era apenas um dos amigos da filha a contar como correra o encontro do fim-de-semana. Quando se inclinou para diante, viu que a linha número cinco estava a piscar, a sua linha pessoal. Apenas três pessoas tinham esse número: o presidente, o director da Joint Chiefs e o segundo-comandante na hierarquia da National Security Agency.
Pousou o jornal dobrado no colo e premiu o botão vermelho da linha. Com esse simples toque, um código algorítmico variável tornava ininteligível qualquer comunicação. Levantou o auscultador. Aqui, Hardey. Senhor director. Endireitou-se, cauteloso. Não reconhecia a voz do outro. E ele conhecia a voz das três pessoas que tinham o seu número privado tão bem como a sua própria família. Quem fala? Tony Rector. Peço desculpa por incomodá-lo a estas horas. Thomas percorreu a sua Rolodex mental. Vice-almirante Anthony Rector. Ele ligou o nome a cinco letras: DARPA (Defense Advanced Research Projets Agency). O departamento fiscalizava o braço de investigação e desenvolvimento do Departamento de Defesa. Tinha um lema: ser o primeiro. No que tocava aos avanços tecnológicos, os Estados Unidos não podiam chegar em segundo lugar. Nunca. Uma formigante sensação de temor começou a desenhar-se. Em que posso ajudá-lo, senhor almirante? Deu-se uma explosão no British Museum em Londres. E procedeu à explicação da situação em grande pormenor. Thomas verificou o relógio. Tinham-se passado menos de trinta minutos desde a explosão. Ele estava impressionado com a capacidade da organização de Rector em reunir tanta informação em tão pouco tempo.
Quando o almirante terminou, Thomas colocou-lhe a questão mais óbvia: e qual é o interesse da DARPA na explosão? Rector respondeu-lhe. Thomas sentiu a divisão arrefecer uns dez graus. Tem certeza? Já temos uma equipe organizada para aprofundar o assunto. Mas vou necessitar da cooperação do MI5 britânico..., ou melhor ainda... A alternativa ficou em suspenso, não proferida mesmo numa linha codificada. Thomas compreendia agora a chamada clandestina. O MI5 era o equivalente britânico da sua própria organização. Rector queria que ele lançasse uma cortina de fumo para que a equipe da DARPA pudesse entrar e sair rapidamente do local, antes que alguém suspeitasse da descoberta. E tal incluía a agência secreta britânica. Compreendo, disse finalmente Thomas. Ser o primeiro. Rezou para que estivessem à altura da missão. A equipe está pronta? Estará pronta pela manhã. Pela ausência de desenvolvimento adicional, Thomas soube quem trataria do assunto. Desenhou um símbolo grego na margem do jornal. O caminho será preparado, disse para o aparelho.
Muito bem. A comunicação morreu. Thomas pousou o auscultador no gancho, já a planear o que tinha de ser feito. Teria de actuar rapidamente. Fitou as palavras cruzadas por completar: 19 vertical. Uma palavra de cinco letras para a soma de todos os homens. Que apropriado. Pegou numa caneta e preencheu a resposta nas quadrículas. SIGMA». In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Cidade Perdida. James Rollins. «Sentiu os joelhos a fraquejarem. A ala norte..., a sua ala. Ela sabia que o buraco fumegante conduzia à galeria no final. Todo o seu trabalho, uma vida de pesquisa, a colecção…»

Cortesia de wikipedia e jdact

The British Museum. Londres. 14 de Novembro
«(…) Lá em baixo, a habitualmente calma e digna rua de candeeiros de ferro e amplos passeios tinha-se transformado num campo de batalha surrealista. Carros de bombeiros e da polícia entupiam a avenida. Fumo ondeava apesar da chuva, mas pelo menos a terrível tempestade abrandara para o habitual lacrimejar londrino. Com os candeeiros da rua apagados, a única iluminação vinha das luzes de sinalização no cimo dos veículos de emergência. Contudo, no fundo do quarteirão, um brilho carmesim mais intenso cintilava por entre o fumo e a escuridão.
Fogo.
O coração de Safia bateu com mais força, a respiração estrangulou-se, não por antigos terrores, mas por novos receios pelo presente. O museu! Deu um sacão aos cordões dos estores, esventrando-os, e atrapalhou-se com o fecho da janela. Abriu de rompante a vidraça e inclinou-se para fora de encontro à chuva. Mal notou os pingos gelados. O British Museum ficava a poucos metros do apartamento. Ficou assombrada com a visão. A parte nordeste do museu ficara reduzida a uma ruína a arder. Chamas tremulavam através das janelas superiores, enquanto o fumo se precipitava para fora em manchas espessas. Homens, cobertos com máscaras de oxigênio arrastavam mangueiras. Jactos de água atingiam grande altura. Escadas erguiam-se no ar a partir dos carros dos bombeiros. Mas, pior que tudo, um buraco escancarado fumegava no segundo piso da parte nordeste. Fragmentos e blocos enegrecidos de cimento jaziam espalhados pela rua. Ela não devia ter ouvido a explosão ou simplesmente atribuíra-a ao ribombar da trovoada. Mas não se tratava da queda de um raio. Mais provavelmente a explosão de uma bomba..., um ataque terrorista. Outra vez não...
Sentiu os joelhos a fraquejarem. A ala norte..., a sua ala. Ela sabia que o buraco fumegante conduzia à galeria no final. Todo o seu trabalho, uma vida de pesquisa, a colecção, uma infinidade de antiguidades da sua terra natal. Era impossível de imaginar. A descrença tornou a visão ainda mais irreal, um pesadelo do qual acordaria a qualquer momento. Recuou para a segurança e sanidade do seu quarto. Voltou as costas aos gritos e às luzes relampejantes. Na escuridão, libelinhas de vitral ganharam vida. Abriu os olhos, incapaz de compreender a visão por um instante, depois fez-se luz. A energia voltara. Nesse momento, o telefone tocou no seu suporte nocturno, assustando-a. Billie levantou a cabeça da colcha, as orelhas espetadas face ao chocalhar. Safia apressou-se para o telefone e levantou o auscultador. Estou? A voz era austera, profissional. Doutora al-Maaz? S-sim? Daqui fala o comandante Hogan. Houve um acidente no museu. Acidente? O que quer que tivesse acontecido era mais do que um simples acidente.
 Sim, o director do museu solicita a sua presença na reunião de avaliação da situação. Pode juntar-se a nós na próxima hora? Sim, comandante. Irei imediatamente. Óptimo. O seu nome será indicado ao comando de segurança. O telefone produziu um estalido enquanto o comandante desligava. Safia olhou em volta do quarto. Billie martelava a cauda em clara irritação felina pelas constantes interrupções nocturnas. Não vou demorar, murmurou ela, sem saber se era verdade. As sirenes continuavam a gemer do   outro lado da janela. O pânico que a despertara recusava-se a desaparecer por completo. A sua visão do mundo, a segurança da sua posição dentro das paredes serenas de um museu, tinham sido abaladas. Há quatro anos atrás, ela fugira de um mundo onde as mulheres atavam explosivos ao peito. Fugira para a segurança e normalidade da vida académica, abandonando o trabalho de campo pelo trabalho de gabinete, largando picaretas e pás por computadores e folhas de cálculo. Escavara um pequeno nicho para si no interior do museu, onde se sentia segura. Fizera ali o seu lar. Contudo, o desastre encontrara-a». In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

sábado, 20 de abril de 2019

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «É esta a hora das longas conversas das folhas com as folhas unicamente. É esta a hora em que o tempo é abolido…»

jdact

«(…)
É esta a hora…
«É esta a hora perfeita em que se cala
O confuso murmurar das gentes
E dentro de nós finalmente fala
A voz grave dos sonhos indolentes.

É esta a hora em que as rosas são as rosas
Que floriram nos jardins persas
Onde Saadi e Hafiz as viram e as amaram.
É esta a hora das vozes misteriosas
Que os meus desejos preferiram e chamaram.
É esta a hora das longas conversas
Das folhas com as folhas unicamente.
É esta a hora em que o tempo é abolido
E nem sequer conheço a minha face».
In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «Mergulhar as mãos nas ondas escuras até que elas fossem essas mãos solitárias e puras que eu sonhei ter»

jdact

«(…)
Espera
«Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.

Esgotei o meu mal, agora
Queria tudo esquecer, tudo abandonar,
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.

Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter».
In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

A Cidade Perdida. James Rollins. «Tudo culpa minha... Choro e gritos encheram de novo a sua mente, fundindo-se com as sirenes do presente»

Cortesia de wikipedia e jdact

The British Museum. Londres. 14 de Novembro
«(…) Um ribombar surdo passou pelo edifício do apartamento e afastou-se. As vozes das equipas de emergência trouxeram-na de volta à sua cama, de volta ao presente. Ela estava em Londres, não em Telavive. O ar longamente reprimido escapou-se. Lágrimas subiram-lhe aos olhos. Limpou-as com dedos trémulos. Ataque de pânico. Sentou-se enrolada na colcha da cama por mais algumas arfadas. Ainda sentia vontade de chorar. Era sempre assim, dizia a si própria, mas as palavras não ajudavam. Cingiu a colcha de lã em volta dos ombros, os olhos fechados, o coração a martelar nos ouvidos. Praticou os exercícios de respiração e tranquilização ensinados pela terapeuta. Inalar em dois tempos, exalar em quatro. Deixou que a tensão se esvaísse em cada movimento. A sua pele fria aqueceu gradualmente. Alguma coisa com peso aterrou na sua cama. Um som ténue acompanhou-a. Como uma dobradiça a chiar. Estendeu uma mão, acolhida por um ronronar de agrado. Anda cá, Billie, sussurrou ao persa negro anafado.
Billie encostou-se à palma da sua mão e roçou a base do focinho pelos dedos de Safia, depois desmoronou simplesmente sobre as coxas dela como se os fios invisíveis que sustentavam o gato tivessem sido cortados. As sirenes deviam tê-lo perturbado da habitual ronda nocturna pelo apartamento. O suave ronronar continuou no colo de Safia, um som de satisfação. Isso, mais do que os exercícios de respiração, relaxou-lhe os músculos dos ombros. Só então notou o arquear cauteloso das suas costas, como que receando um golpe que nunca chegara. Forçou-se a endireitar a postura, alongando o pescoço. As sirenes e a agitação continuavam a meio quarteirão do seu apartamento. Ela precisava de se pôr de pé, de descobrir o que estava a acontecer. Qualquer coisa, simplesmente para se mexer. O pânico transformara-se em energia nervosa. Moveu as pernas, com cuidado para fazer deslizar Billie para a colcha da cama. O ronronar interrompeu-se por um instante, depois recomeçou quando ficou claro que não estava a ser expulso. Billie nascera nas ruas de Londres, criatura dos becos, uma mistura selvagem de pêlo emaranhado e fúria. Safia encontrara o gatinho estatelado e ensanguentado à entrada do edifício de apartamentos, com uma perna partida, coberto de óleo, atingido por um carro. Apesar da sua ajuda, ele tinha-a mordido na parte carnuda do polegar. Os amigos disseram-lhe que levasse o gatinho para o abrigo de animais, mas Safia sabia que tal lugar não era melhor que um orfanato. Assim, recolheu-o numa fronha de almofada e transportou-o até a clínica veterinária local.
Teria sido fácil passar ao lado dele nessa noite, mas já estivera tão abandonada e só como o gatinho. Alguém também a recolhera nessa altura. E tal como Billie, ela fora domesticada, mas nenhum deles acabara completamente domado, preferindo os lugares selvagens e o esquadrinhar pelos cantos perdidos do mundo. Mas tudo isso terminara com uma explosão num resplandecente dia de Primavera. Tudo culpa minha... Choro e gritos encheram de novo a sua mente, fundindo-se com as sirenes do presente. Respirando com dificuldade, Safia procurou o candeeiro de cabeceira, uma pequena réplica Tiffany representando libelinhas em vitral. Premiu o interruptor do candeeiro mais algumas vezes, mas o candeeiro permaneceu apagado. Não havia electricidade. A trovoada devia ter deitado abaixo uma linha de distribuição. Talvez fosse essa a razão de toda a agitação. Que fosse tão simples quanto isso. Balançou para fora da cama, descalça, mas dentro de uma aconchegante camisa de dormir de flanela, que lhe chegava aos joelhos. Foi até a janela e desviou os estores para espreitar para a rua em baixo. O seu apartamento ficava no quarto andar». In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Cidade Perdida. James Rollins. «Safia al-Maaz acordou num pânico de morte. Sirenes soavam de todos os lados. Clarões de luzes rubras de emergência entrecortavam as paredes do quarto»

Cortesia de wikipedia e jdact

The British Museum. Londres. 14 de Novembro
«(…) Por fim, alcançou a sala mais distante, uma das maiores. Esta continha objectos de maior interesse para um naturalista, todos da região: pedras e jóias raras, restos fossilizados, ferramentas neolíticas. A fonte do brilho tornou-se clara. Perto do centro da sala abobadada, um globo de luz azulada com meio metro de diâmetro flutuava indolentemente cruzando o espaço. Tremulava e a sua superfície parecia envolta numa chama de óleo azul prismático. Enquanto Harry o observava, o globo atravessou um armário de vidro como se fosse feito de ar. Estacou aturdido. Um odor sulfúreo chegou-lhe às narinas, emanando da bola de luz cerúlea. O globo rolou por uma das lâmpadas de segurança carmesins, eliminando-a com um estoiro chiante. O ruído fez Harry recuar um passo, assustado. O mesmo destino devia ter calhado à câmara cinco na sala anterior. Lançou um olhar rápido à câmara da sala onde se encontrava. Uma luz vermelha cintilava sobre ela. Ainda estava a funcionar. Como que notando a sua atenção, Johnson voltou ao rádio. Por alguma razão, não havia perturbação estática. Harry, é melhor saíres daí! Permaneceu paralisado, em parte por medo, em parte por assombro. Além disso, o fenómeno flutuava para longe, em direcção ao recanto escurecido da sala.
O brilho do globo iluminou uma massa de metal dentro de um cubo de vidro. Era um pedaço de ferro avermelhado do tamanho de um vitelo, um vitelo ajoelhado. A ficha de exposição descrevia-o como um camelo. A semelhança era no melhor dos casos evasiva, mas Harry percebeu a representação pretendida. O objecto tinha sido descoberto no deserto. O brilho ficou suspenso sobre o camelo de ferro. Harry recuou com precaução e pegou no rádio. Céus! A tremeluzente bola de luz desceu através do vidro e pousou sobre o camelo. O seu brilho extinguiu-se tão rapidamente como uma vela soprada. A súbita escuridão cegou Harry por um instante. Ergueu a lanterna. O camelo de ferro permanecia no interior do cubo de vidro, imperturbado. Desapareceu... Estás bem? Sim. Que raio era aquilo? Johnson respondeu, o receio estampado na voz: uma estuporada bola de raios, acho eu! Ouvi histórias de tipos em aviões de guerra quando atravessavam tempestades de trovões. A trovoada deve tê-lo cuspido. Mas diabos me levem se não foi brilhante!
Já não é mais brilhante, pensou Harry com um suspiro e abanou a cabeça. O que quer que fosse, pelo menos tinha-o salvo da embaraçosa chacota dos colegas. Baixou a lanterna. Mas quando desviou a luz, o camelo de ferro continuou a brilhar na escuridão. Um brilho vermelho intenso. Que raio é agora?, resmungou Harry e agarrou no rádio. Um forte choque de eletricidade estática atingiu os seus dedos. Praguejando, sacudiu. Ergueu o rádio. Há algo de estranho. Acho que... O brilho do ferro inflamou-se. Harry recuou. O ferro fluía pela superfície do camelo, fundindo-se como se exposto a uma torrente de chuva ácida. Ele não foi o único a notar a mudança. O rádio ladrou na sua mão: Harry, sai daí! Não discutiu. Deu meia volta, mas era demasiado tarde. O receptáculo de vidro explodiu. Lanças penetrantes perfuraram-lhe o flanco esquerdo. Um fragmento denteado cortou-lhe a face. Mas ele mal sentiu os golpes, quando uma onda de calor abrasante o atingiu, cauterizando-o, consumindo todo o oxigênio. Um grito projectou-se nos seus lábios, para nunca ser expelido. A explosão seguinte arrancou Harry do chão e lançou o seu corpo até ao outro extremo da galeria. Mas apenas ossos em chamas atingiram o portão de segurança, fundindo-se no gradeado de aço.

01h53
Safia al-Maaz acordou num pânico de morte. Sirenes soavam de todos os lados. Clarões de luzes rubras de emergência entrecortavam as paredes do quarto. O terror apertou-a como num torno. Não conseguia respirar; um suor frio gotejou na sua testa, espremido pela pele comprimida. Os dedos em gancho agarraram os lençóis junto à garganta. Incapaz de pestanejar, ficou presa por instantes entre o passado e o presente. Sirenes a retinir, explosões a ecoar à distância..., mais perto ainda, os gemidos dos feridos, dos moribundos, a sua própria voz ajuntar-se ao coro de dor e de choque... Altifalantes rugiam desde as ruas abaixo do apartamento. Deixem passar os carros de combate! Abram caminho! Inglês..., não árabe, não hebreu...» In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A Herança de Judas. James Rollins. «O chão estava coberto de pássaros, caídos nas praças de pedra como se tivessem sido atingidos no céu em pleno voo. Nada fora poupado. Homens, mulheres e crianças»

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1293. Meia-noite. Ilha de Sumatra, Sueste Asiático
«(…) Nós jamais deveríamos ter entrado ali, Niccolò, ele censurou o irmão, mas as suas palavras acusatórias eram, na verdade, dirigidas a Marco. Fez-se silêncio entre os três, carregado de segredos comuns. O tio dele tinha razão. Marco imaginou o delta do rio quatro meses antes. O ribeirão negro desaguava no mar, ladeado por densa folhagem e trepadeiras. Eles procuravam apenas renovar os seus suprimentos de água doce enquanto dois navios eram consertados. Jamais deveriam ter-se arriscado a ir mais longe, porém Marco ouvira histórias de uma grande cidade além das montanhas baixas. E, como o conserto dos navios deveria demorar dez dias, ele se arriscara, com quarenta homens do Khan, a subir as montanhas e ver o que havia além. Do topo de uma delas, Marco avistara uma torre de pedra nas profundezas da floresta, estendendo-se alta, brilhante à luz da aurora. Como sempre fora curioso, ela o atraiu como um farol.
O silêncio enquanto eles caminhavam pela floresta na direcção da torre, no entanto, deveria tê-lo advertido. Não houvera nenhum som de tambores, como agora. Nenhum pio de aves, nenhum guincho de macacos. A cidade dos mortos simplesmente estivera à espera deles. Foi um terrível erro penetrar na floresta. E isso lhes custou mais do que apenas sangue. Os três olharam fixamente enquanto as galeras ardiam lentamente na linha d’água. Um dos mastros tombou como uma árvore cortada. Duas décadas atrás, pai, filho e tio haviam partido da Itália, sob a chancela do papa Gregório X, para se aventurar pelas terras dos mongóis, até aos palácios e os jardins do Khan em Shangdu, onde haviam permanecido por tempo demais, como perdizes engaioladas. Como favoritos da corte, os três Polo viram-se presos, não por correntes, mas pela imensa e sufocante amizade do Khan, incapazes de partir sem insultar o seu benfeitor. Assim, finalmente se julgaram afortunados por estarem regressando a Veneza, dispensados do serviço ao grande Kublai Khan para escoltarem a dama Kokejin até seu noivo persa. Oxalá a nossa frota nunca tivesse partido de Shangdu…
O sol vai nascer logo, disse o pai de Marco. Vamos embora. É hora de ir para casa. E se chegarmos àquelas praias abençoadas, o que diremos a Teobaldo?, perguntou Masseo, usando o nome original do homem, outrora amigo e defensor da família Polo, agora chamado papa Gregório X. Não sabemos se ele ainda está vivo, respondeu o pai. Nós nos ausentamos por muito tempo. Mas, e se ele ainda estiver vivo, Niccolò?, insistiu o tio. Nós lhe contaremos tudo o que sabemos sobre os mongóis, os seus costumes e suas forças, conforme fomos instruídos há tantos anos, de acordo com o édito dele. Mas sobre a praga aqui..., não resta nada sobre o que falar. Acabou.
Masseo suspirou, mas havia pouco alívio na sua exalação. Marco interpretou as palavras por trás de sua profunda carranca. A praga não havia ceifado a vida de todos aqueles que foram perdidos. O pai repetiu com mais firmeza, como se falar fizesse com que as coisas simplesmente fossem assim. Acabou. Marco ergueu o olhar para os dois homens mais velhos, seu pai e seu tio, emoldurados por cinza incandescente e fumaça contra o céu nocturno. Aquilo jamais terminaria, não enquanto eles se lembrassem. Marco olhou para os pés. Embora a marca tivesse sido removida da areia, ela ainda ardia intensamente por trás de seus olhos. Ele havia roubado um mapa pintado em cortiça laminada. Pintado com sangue. Templos e torres espalhados pela selva. Todos vazios. A não ser pelos mortos. O chão estava coberto de pássaros, caídos nas praças de pedra como se tivessem sido atingidos no céu em pleno voo. Nada fora poupado. Homens, mulheres e crianças. Bois e animais do campo. Até mesmo grandes serpentes pendiam frouxas dos galhos das árvores, com a carne cheia de furúnculos em baixo das escamas. Os únicos habitantes vivos eram as formigas. De todos os tamanhos e cores. Fervilhando em pedras e corpos, elas lentamente devoravam os mortos. Mas ele estava errado..., alguma coisa ainda aguardava o pôr-do-sol.
Marco repeliu aquelas lembranças. Ao descobrir o que Marco roubara de um dos templos, seu pai queimou o mapa e espalhou as cinzas no mar». In James Rollins, A Herança de Judas, 2007, Bertrand Editora, 2018, ISBN 978-972-252-977-8.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Herança de Judas. James Rollins. «Eu guardarei segredo, prometeu por fim. Até ao meu leito de morte e além. É o que eu juro, meu pai…»

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1293. Meia-noite. Ilha de Sumatra, Sueste Asiático
«(…) Os únicos sinais de sua intromissão eram os crânios, entrançados através das órbitas oculares com trepadeiras e pendurados dos galhos das árvores, protegendo contra uma invasão ou incursão mais profunda. A doença mantivera os selvagens à distância. Mas não por mais tempo. Com a fogueira cruel, a doença fora afinal vencida, deixando apenas aquele punhado de sobreviventes. Aqueles que não exibiam os vergões vermelhos. Sete noites atrás, os enfermos restantes haviam sido conduzidos acorrentados aos navios ancorados, abastecidos com água e comida. Os outros haviam ficado na praia, atentos a qualquer sinal de novos casos da doença entre eles. O tempo todo, os que haviam sido banidos para os navios gritaram através das águas, implorando, chorando, rezando, amaldiçoando e dando berros estridentes. Porém, o pior era a gargalhada ocasional, incitada pela loucura. Teria sido melhor ter cortado a garganta deles com um punhal misericordioso e rápido, mas todos receavam tocar o sangue dos enfermos. Por isso eles haviam sido enviados para os navios e aprisionados com os que já estavam mortos ali. Então, quando o sol se pôs naquela noite, um brilho estranho apareceu na água, acumulado em torno das quilhas de dois barcos, espalhando-se sobre as águas negras e paradas como leite derramado. Eles já tinham visto o brilho antes, nos tanques e canais sob as torres de pedra da cidade amaldiçoada da qual haviam fugido. A doença procurava escapar de sua prisão de madeira. Ela não lhes deixara escolha. Os navios, todas as galeras, excepto a que fora reservada para a partida deles, foram incendiados.
Masseo, o tio de Marco, andou por entre os homens que sobreviveram. Acenou para que eles voltassem a cobrir a sua nudez, mas um simples pano e lã tecida não podiam encobrir sua vergonha mais profunda. O que nós fizemos..., disse Marco. Nós não devemos falar sobre isso, respondeu o pai, e estendeu uma túnica na sua direcção. Diga uma palavra que seja sobre peste, e todos os países nos evitarão. Nenhum porto nos deixará entrar nas suas águas. Mas agora queimamos completamente o que restava da doença com um fogo que purificou a nossa frota e as águas. Temos apenas de voltar para casa. Enquanto Marco vestia a túnica, seu pai notou o que o filho havia desenhado antes na areia com uma vara. Contraindo os lábios, o pai rapidamente desfez o desenho com um dos calcanhares e encarou o filho. Città dei Morti. Um olhar suplicante fixou-se no seu rosto. Nunca, Marco... nunca...
Mas a lembrança não podia ser desfeita tão facilmente. Ele havia servido ao Grande Khan como erudito, emissário e até cartógrafo, mapeando os muitos reinos que este conquistara. Seu pai voltou a falar: ninguém jamais deve saber o que nós descobrimos..., é uma coisa amaldiçoada. Marco fez um aceno positivo de cabeça e não comentou sobre o que desenhara. Apenas sussurrou: Città dei Morti. A fisionomia de seu pai, já pálida, empalideceu ainda mais. Porém, Marco sabia que não era só a praga que amedrontava seu pai. Jure para mim, Marco, insistiu ele. Marco ergueu o olhar para o rosto enrugado do pai. Naqueles quatro últimos meses, ele havia envelhecido tanto quanto durante as décadas passadas com o Khan em Shangdu. Jura para mim, pelo abençoado espírito da tua mãe, que jamais voltarás a falar sobre o que nós descobrimos e fizemos. Marco hesitou. Uma mão segurou o seu ombro, apertando até ao osso. Jura para mim, meu filho, para o seu próprio bem. Ele reconheceu o terror reflectido nos olhos do pai, iluminados pelo fogo..., e a súplica. Marco não pôde recusar. Eu guardarei segredo, prometeu por fim. Até ao meu leito de morte e além. É o que eu juro, meu pai. O tio de Marco finalmente se juntou a eles, ouvindo por acaso o juramento do rapaz». In James Rollins, A Herança de Judas, 2007, Bertrand Editora, 2018, ISBN 978-972-252-977-8.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Herança de Judas. James Rollins. «Pelo menos os gritos dos torturados tinham terminado. Agora, apenas o crepitar e o rugido baixo das chamas chegavam à margem arenosa»

jdact

1293. Meia-noite. Ilha de Sumatra, Sueste Asiático
«Os gritos tinham cessado por fim. Doze fogueiras ardiam na baía à meia-noite. Il Dio, li perdona..., sussurrou o pai ao seu lado, mas Marco sabia que o Senhor não lhes perdoaria aquele pecado. Um punhado de homens esperava ao lado de dois escaleres puxados para a praia, as únicas testemunhas das piras funerárias sobre a lagoa escura. Quando a Lua nasceu, os doze navios, enormes galeras de madeira, foram incendiados com os tripulantes ainda a bordo, tanto os mortos como os poucos desgraçados que ainda viviam. Os mastros das embarcações apontavam flamejantes dedos acusadores ao céu. Flocos de cinza incandescente caíam como chuva sobre a praia e sobre aquelas poucas testemunhas. A noite recendia a carne carbonizada. Doze navios, murmurou o tio Masseo, apertando o crucifixo na mão fechada, o mesmo número dos apóstolos do Senhor.
Pelo menos os gritos dos torturados tinham terminado. Agora, apenas o crepitar e o rugido baixo das chamas chegavam à margem arenosa. Marco queria desviar o rosto daquela cena. Outros não eram tão corajosos e ajoelharam-se na areia, de costas voltadas para a água e rosto pálido como a cal. Estavam todos nus. Cada um revistara quem estava ao seu lado à procuta de qualquer sinal da mancha. Até a princesa do Grande Khan, que por recato se encontrava de pé atrás de um pedaço de pano de vela, usava apenas a tiara enfeitada com jóias. Marco reparou na sua figura graciosa através do pano, iluminado por trás pelas fogueiras. As aias da princesa, também nuas, tinham-na revistado. Chamava-se Kokejin, ou princesa Azul, uma virgem de dezassete anos, a mesma idade de Marco quando partiu de Veneza. Os Polos tinham sido incumbidos pelo Grande Kuan da missão de a entregar em segurança ao seu noivo, o Khan da Pérsia, neto do irmão de Kublai Khan. Tudo isso acontecera numa outra vida.
Tinham mesmo passado apenas quatro meses desde que a tripulação da primeira galera adoecera, exibindo vergões nas virilhas e nas axilas? A doença propagou-se como óleo a queimar, esvaziando as galeras de homens capazes e levando-os àquela ilha de canibais e feras estranhas. Nesse mesmo momento, ouviam-se tambores na selva escura. Mas os selvagens tinham bom senso suficiente para não se aproximarem do acampamento, como o lobo que se afasta das ovelhas doentes ao sentir o cheiro a putrefacção e decomposição». In James Rollins, A Herança de Judas, 2007, Bertrand Editora, 2018, ISBN 978-972-252-977-8.

Cortesia de BertrandE/JDACT

Covilhã Medieval. Séculos XII a XV. Maria Graça Vicente. «É sabido que a Beira Baixa foi uma região secularmente deficitária em recursos económicos e humanos, sujeita às investidas da vizinha Castela»

jdact
António Borges

Introdução
«O estudo das cidades e vilas de Portugal mereceu, no último quartel do século XX, um interesse especial, em parte devido aos trabalhos realizados por jovens historiadores. Mas o primeiro impulso foi dado, certamente, pelo professor Oliveira Marques, seguindo um movimento historiográfico iniciado além-fronteiras decénios antes. Assim surgiram trabalhos em moldes novos, mas que beberam muitos dos ensinamentos nos monografistas dos finais do século XIX, autores geralmente motivados pelo amor à terra, embora seguindo uma directiva do governo (portaria de 15 de Abril de 1854) que mandava fazer história das vilas e cidades de Portugal (Portaria de 15 de Abril de 1854, antecedida por uma outra de 1847, que ordenava que em cada concelho fosse nomeada uma comissão para escrever os anais dos respectivos municípios). No entanto, os estudos recentemente realizados, muitas vezes tema de dissertação de Mestrado ou Doutoramento, apresentam-se escorados num aparato conceptual e crítico baseado nas mais modernas correntes historiográficas, as quais obrigam a critérios de rigor, sendo os respectivos resultados suportados em sólida documentação, em muitos casos inédita. Estudos que revelam, para os diversos casos, muitas semelhanças e pontos de convergência, mas também algumas assimetrias para o nosso país, ao nível do crescimento, evolução e, em particular, no que respeita à implantação urbana. De facto e tendo esses trabalhos versado sobre agregados urbanos, desde Ponte de Lima a Silves, verifica-se que, no seu conjunto, há um certo bascular para ocidente, em direcção ao Atlântico, numa tendência iniciada muito antes da conquista do mar-oceano. Atracção pelo litoral bem notória no traçado dos itinerários régios, que os condicionalismos geo-políticos e naturais parecem não ter conseguido corrigir ao longo dos oito séculos da nossa História como país soberano. Dos cerca de duas dezenas de estudos de vilas e cidades de todo o Portugal, elaborados no último quartel do século XX, poucos abordaram o mundo beirão. Refira-se, no entanto, o estudo sobre a Guarda medieval, sede episcopal e, por esse facto, promovida a cidade desde longa data. Do mesmo modo poderemos destacar Proença-a-Velha, de Manuela Mendonça, e também Castelo Branco, capital de distrito, que mereceu um estudo de Ana Cristina Leite. Um pouco mais a sul, na zona centro do país, foram também estudadas as vilas de Tomar, sede da Ordem de Cristo e Abrantes, esta estrategicamente colocada na estrada do Tejo.
Para o nosso trabalho escolhemos uma vila do interior da Beira, bem longe do dinamismo do litoral. É sabido que a Beira Baixa foi uma região secularmente deficitária em recursos económicos e humanos, sujeita às investidas da vizinha Castela. Contudo, nem a criação do Bispado na Guarda impediu a instalação de mosteiro se outras instituições religiosas, que marcaram presença nesta região, logo que passou a estar senhoreada pela Cristandade. Porém, nunca essas instituições aqui atingiram a riqueza e esplendor dos mosteiros do litoral. Por isso, os acervos documentais oriundos destas comunidades são em número diminuto, dificultando a tarefa de quem pretenda conhecer o passado e organização da vida nestas paragens. A urbanização foi, também ela, pouco intensa, reduzindo assim a hipótese de centros produtores de documentos.
Apesar destas condicionantes e consciente das dificuldades, lançamo-nos na aventura de ir ao encontro da Covilhã, nos primitivos séculos do seu percurso histórico. Não esquecemos, todavia, que esta cidade já teve os seus historiadores, entre eles se destacando o padre Manuel Cabral Pina. Outros autores, numa visão mais ou menos de conjunto, ou em estudos de cariz temático, por exemplo sobre a comunidade judaica, abordaram a história da Covilhã. Pensamos, todavia, que faltava ainda uma investigação sobre o período crucial da formação da vila, que situamos entre a concessão do foral (1186) e a doação do senhorio da Covilhã ao infante Henrique (1415)». In Maria Graça Vicente, Covilhã Medieval, O Espaço e as Gentes, Séculos XII a XV, Edições Colibri, Academia Portuguesa da História, 2012, ISBN 978-989-689-226-5.

Cortesia de EColibri/JDACT

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «E no seu bailado levada pelo jardim deliro e divago, ora espreitando debruçada os jardins do fundo do lago…»

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«(…)
Mar Sonoro
«Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim».


O Jardim
«O jardim está brilhante e florido.
Sobre as ervas, entre as folhagens,
O vento passa, sonhador e distraído,
Peregrino de mil romagens.

E Maio ácido e multicolor,
Devorado pelo próprio ardor,
Que nesta clara tarde de cristal
Avança pelos caminhos
Até os fantásticos desalinhos
Do meu bem e do meu mal.

E no seu bailado levada
Pelo jardim deliro e divago,
Ora espreitando debruçada
Os jardins do fundo do lago,
Ora perdendo o meu olhar
Na indizível verdura
Das folhas novas e tenras
Onde eu queria saciar
A minha longa sede de frescura».
In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «Jardim onde o vento batalha e que a mão do mar esculpe e talha. Nu, áspero, devastado…»

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«As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim».


Jardim do Mar
«Vi um jardim que se desenrolava
Ao longo de uma encosta suspenso
Milagrosamente sobre o mar
Que do largo contra ele cavalgava
Desconhecido e imenso.

Jardim de flores selvagens e duras
E cactos torcidos em mil dobras,
Caminhos de areia branca e estreitos
Entre as rochas escuras
E, aqui e além, os pinheiros
Magros e direitos.

Jardim do mar, do sol e do vento,
Áspero e salgado,
Pelos duros elementos devastado
Como por um obscuro tormento:
E que não podendo como as ondas
Florescer em espuma,
Raivoso atira para o largo, uma a uma,
As pétalas redondas
Das suas raras flores.

Jardim que a água chama e devora
Exausto pelos mil esplendores
De que o mar se reveste em cada hora.

Jardim onde o vento batalha
E que a mão do mar esculpe e talha.
Nu, áspero, devastado,
Numa contínua exaltação,
Jardim quebrado
Da imensidão.
Estreita taça
A transbordar da anunciação
Que às vezes nas coisas passa».
In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Ambas as Mãos sobre o Corpo. Maria Teresa Horta. «O vulto move-se depressa, ouvem-se-lhe os passos leves sobre a terra seca, gretada. Ela, pensa, tem vontade de fugir. (Será ódio?) mas bem sabe, que se lhe apoiará ao ombro, que se deixará despir…»

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O Desespero
«(…) (Devia ajudá-la correr e ajudá-la mas deixo-me estar quieta vendo-a com prazer oscilar. Agora agarrada à árvore quase que não a distingo. Há quantos anos desejava eu isto, ou terei na verdade pena?) Levantou a cabeça, encostou a cara ao tronco rugoso. Por entre as folhas, o céu estava negro, sem um ponto de luz, apenas negro, noite. E uma sensação aguda de náusea acometeu-a bruscamente. Sentiu girar o mundo à sua roda e ela nesse mundo girando vezes consecutivas. Agarra-se desesperada ao tronco, depois pouco a pouco vai serenando e fica a sede, uma maldita sede que lhe cola a garganta, os olhos, que lhe engrossa a língua; uma maldita necessidade: uma sede monstruosa. Vómitos secos, fundos, fazem-na curvar, os cabelos tombando-lhe sobre o rosto contraído e branco. (Há quantos anos lhe conheço eu estes vómitos! Quando a levar para casa estará exausta e depois dormirá horas e horas.) O vulto move-se depressa, ouvem-se-lhe os passos leves sobre a terra seca, gretada. Ela, pensa, tem vontade de fugir. (Será ódio?) mas bem sabe, que se lhe apoiará ao ombro, que se deixará despir e que lhe pedirá, que lhe rogará o sono e o apaziguamento. Depois não se lembrará de nada. (Ponho-lhe o casaco nos ombros, passo-lhe o braço sob as axilas e arrasto-a em silêncio para casa, a casa que já se vê ao longe por entre as árvores do parque. Ela olha-me de vez em quando. Penso que chego a ter pena, já nada lhe resta. Está velha. Velha, exactamente como eu.)

A Memória
Não é porque tente desculpá-lo, agora morto, mas sim porque realmente está convencida de que ele a amava. A amava quando morreu. Aquele martírio de noites em branco, deitada, a cabeça escondida nos braços, a diluir-se-lhe na memória: e agora, deitada também, só, a camisa a tapar-lhe os pés, é como se o esperasse ainda do mesmo modo, ou fosse correr para a rua ao seu encontro. Raivosa. Não é porque tente desculpá-lo, agora morto, mas sim porque o recordar-lhe os gestos ou o tom de voz lhe toma toda a memória: somente isso. Não, somente isso. A camisa até aos pés, a cabeça na almofada dele. E não porque tente desculpá-lo, agora morto, mas sim porque existe a almofada. Tentem compreender, existe a almofada e o cachimbo na mesa pequena junto ao cadeirão de couro negro e os livros inclinados como ele os colocou na estante, aquele sobre a mesa-de-cabeceira e o ruído dos seus passos em toda a casa. Continua sem desviar os olhos da dobra do lençol inútil no vazio a seu lado, como se algo ali estivesse amputado e ela o soubesse quase calma, as mãos paralisadas sobre o ventre. Não é porque tente desculpá-lo, agora morto, mas sim porque se convenceu que ele a amara. Os olhos fecham-se-lhe como se tivesse sono e o que era dantes um esforço de vontade maior na espera é agora uma tentativa vã de segurar o sono e não examinar o silêncio. No fundo quem sabe se realmente a examinar o silêncio, como se ao longe conseguisse distinguir o abrir da porta da casa ou mesmo o elevador, o chiar contínuo do elevador e o seu brusco parar, o ruído brusco da máquina que estaca automaticamente. Não... tentem compreender, não é que queira desculpá-lo, agora morto, mas sim porque este silêncio, estas noites em branco sem esperança, são afinal bem piores do que as outras. As que ele lhe impusera tornaram-se brandas, diluídas, e se as lembra é com saudade; mesmo a cabeça entre os braços e até as lágrimas prefere a esta dor de olhos duros, fixos na dobra do lençol, olhos crispados, tão secos que os sente salientes, raiados.
E a camisa puxada abaixo dos pés, como se o esperasse ainda. Raivosa. Quase nua no fim da noite, quase nua à medida que a madrugada absorvia o calor ou intensificava o frio, a camisa a cobrir-lhe o corpo estendido, de bruços ou atenta, inclinada e só, já de manhã a camisa a cobrir-lhe os pés. Não é porque tente desculpá-lo, agora morto, acreditem, mas apenas porque está convencida que ele, a amava quando morreu, mesmo até durante a doença enquanto o acariciava a disfarçar a verdade, mesmo antes, o antes que agora não recorda com a memória repleta dos seus gestos, do tom da sua voz de sempre, nem de todos os seus gestos. Não, não é porque o desculpe, agora morto; reparem-lhe na expressão quase calma, as mãos sobre o ventre, os olhos na dobra bordada do lençol, metade inútil, os olhos raiados como se bebesse, ou então fechados como se dormisse. Inútil. A memória conduzida, inconscientemente conduzida. E não porque tente desculpá-lo, agora morto». In Maria Teresa Horta, Ambas as Mãos sobre o Corpo, Publicações Europa América, colecção Século XX, 1984, ISBN 978-972-100-090-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Ambas as Mãos sobre o Corpo. Maria Teresa Horta. «Passa as mãos pelos cabelos, alisa-os..., aquela figura lá ao fundo será uma mulher. Será uma mulher, imaginou indiferente, quieta, a apagar o cigarro de encontro à humidade da relva»

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A Morte
«(…) As lágrimas correm compassadas, precipitando-se algumas no vestido, outras no pescoço, outras ainda perdem-se, alastram-se na pele, nas têmporas, perto da raiz dos cabelos. Mas a própria dor é absorvida e apenas a tontura prevalece, e às vezes o medo. Olha. As pessoas movem-se nas batas brancas, pequenas ou grandes manchas que se aproximam parecem-lhe a ela que perplexas. O que dizem é-lhe indiferente. Afinal tudo lhe é indiferente, apenas uma imagem, depois outra e outra, como num pesadelo. Foge com a boca, move os braços. Forçam-na, geme guturalmente num enorme vómito que a trespassa. Debate-se: o calor desce-lhe pelo corpo em avalanche, inundando-a. O tubo desce-lhe agora pela garganta, contra sua vontade. Pára de se debater. Alguém que se debruça acaricia-lhe os ombros e fala-lhe. Sabe quem é, vê-lhe a blusa verde a escapar-se pela bata branca abotoada à pressa e uma terrível e infantil ternura toma conta dela. Sente o líquido correr dentro do tubo para dentro de si. Consegue entreabrir os dedos e aperta os braços da cadeira. As lágrimas tornam, mas convulsas, sobre a palidez cadavérica do rosto arrepanhado. Largam-na: primeiro é a agudez da loucura, depois uma total lassidão completa. Tem um sono desesperado.

O Desespero
Não sabia porque continuava ali torcendo as mãos, torcendo os braços, enterrando as mãos nos cabelos. Ao comprido na erva húmida, sentia nas ancas através da saia o frio áspero da terra. Ergueu as pernas dormentes da posição, da mesma posição há tantas horas, e rodou a cabeça até encontrar o tronco escuro da árvore mais perto, até lhe sentir o cheiro molhado, verde, das folhas por entre as quais se descobria o negro do céu. Noite. Sentou-se entontecida e às apalpadelas procurou a mala, encontrando-a à sua esquerda: uma mancha escura, pequena. Mergulhou nela a mão até ao pulso e o maço surgiu: uma mancha mais pequena seguida de outra ainda menor: o isqueiro. Depois do ruído seco da mola a chama crepitou levemente e quando a aproximou dos lábios iluminou-lhe o rosto, acentuando-lhe, endurecendo-lhe os traços: uma boca desbotada, uns olhos adormecidos, sem expressão, afundados nas órbitas. Aspirou o fumo, engoliu-o; a cabeça atirada para trás oscilava. Noite. (Há quanto tempo está ali! Quando cheguei era apenas uma sombra, ao comprido.) Acabou-se, pensou. (Apaga o cigarro no chão, passa as mãos pelos cabelos: olho-a.) Passa as mãos pelos cabelos, alisa-os..., aquela figura lá ao fundo será uma mulher. Será uma mulher, imaginou indiferente, quieta, a apagar o cigarro de encontro à humidade da relva. Não sabia porque continuava a olhar o vulto imóvel delineado ao fundo, de encontro ao desenho agudo do portão. Talvez. (Recuo sem coragem de continuar. De joelhos, ela tenta erguer-se.) Deviam ajudar-me, pensou. Tem frio. Junta os braços ao corpo mas o arrepio continua fazendo-a tremer; encolhe-se mais. (Sinto o peso quente do seu casaco. Deve ser frio. Mas não dou um passo. Nego-me a encará-la.) Estou velha, pensou. E o vulto imóvel espia-a ou age como tal, sem no entanto se esconder. De pé o frio é menor. Longe da humidade áspera da terra até o vento que se levantou a rolar silencioso pela noite lhe parece quente. (Nada do que possa dizer lhe fará bem. Em casa aguardam-na, esperam que a leve; apenas eu devo saber. Só eu sei. Mas eu olho-a e não me aproximo. O ódio?) De pé, voltou a tremer de frio, a mala que trouxe da rua, que nem tivera tempo de largar em casa, pendurada a bater-lhe nas ancas. Fecha-a mal, tenta caminhar em direcção ao vulto que reconhecera; desequilibra-se e agarra-se ao tronco escuro, escamoso, da árvore onde se encostara ao sentar-se momentos antes». In Maria Teresa Horta, Ambas as Mãos sobre o Corpo, Publicações Europa América, colecção Século XX, 1984, ISBN 978-972-100-090-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT