quinta-feira, 27 de abril de 2017

Meninas. Maria Teresa Horta. «Águas reptis de alma vivente, e aves que voem sobre a terra, debaixo do firmamento do céu»

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«O monstro morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era sozinha». In Clarice Lispector

Lilith
«(…) Nascidas de um oceano malva, as vagas entretanto formadas sobem e avizinham-se tomando altura, submergem o que encontram, misturam-se umas nas outras, enormes e definitivas, transportando-me consigo: retalhando o tempo, galgando e descendo num equívoco escorregar tropeçado; caudal feroz, implacável, que me cega, miserável, náufraga impelida contra-vontade a negar a nossa afeição, constrangida ou oferecida ao total negrume humedecido e fervente que me cerca. Perco-me de ti. Ou serás tu que me expulsas, farta da minha obstinada presença? Imediatamente arrependo-me das recriminações, do desagrado a que cheguei a entregar-me, das dúvidas que me ocorreram a teu respeito. Recuo de desprazer, apesar de as antigas suspeitas se confirmarem: expatrias-me, apartas-te, abres mão de mim. Assim, num último assomo de revolta, desobedeço ao teu corpo: agarro-me às roseiras das suas margens, aos goivos a tua placenta, aos rubis dos teus vasos sanguíneos, deixo de respirar…
Debruço-me, finco os calcanhares no teu limoso chão, e apercebendo que me afogo cuspo, vomito, arfante, os últimos sucos. Mas nem isso me demove: acocorada, agachada nas tuas fundações suponho-me ocultada pelo vulto uterino, pelo galope apressurado do teu coração, e sufocada encosto-me, colo-me aos teus muros, presa de uma teimosia que poderá ser o fim de ambas. De longe chegam vozes desconhecidas, assustosas, os sussurros distorcidos, as ininteligíveis ordens dadas em surdina. Aterrada, sou impelida para a frente na determinação de me arrancarem à linfa nacarada e opalina do teu interior, como se me quisessem salvar de ti, para quem afinal continuo a tentar correr. Não detectando o que me dói mais, se aquilo que entendo ser o teu rejeite, se o pavor do perigo que pressinto a espreitar-me na pressa, no torvelinho que me envolve, me arremessa e arrasta. Espaço revolto por onde atordoada me atiro num delíquio, sentimento do qual desconheço o nome.
E estilhaçadas as brumas e as névoas, atinjo a luz de uma brancura incandescente que toma conta de tudo à sua volta, distorcendo a avidez, deturpando as emoções, encrespando os sentidos. Precipício na borda do qual desemboco ofuscada, apavorada com aquilo que tomo como sendo a maior de todas as ameaças. Escancaro novamente a boca para inspirar e não consigo; aflita busco a tua ajuda, mas tal como te lembro deixaste de existir. Tudo o que conhecia, aliás, já terminou: os espaços distorceram-se, as cores mudaram, as pistas confundiram-se, os sinais alteraram-se.
O frio invadiu o lugar do fogo, a doçura foi trocada pela rudeza e o embalo pela dureza desabrida. Em contrapartida, à minha passagem despontam as silvas, a perversidade das urtigas, as ervas daninhas, as garras aceradas, as acutilâncias ríspidas e fragosas, nas quais, desprotegida, me firo e corto e queimo, me pico e arranho, garganta contraída e forçada por emudecidos soluços que a violentam em haustos e depois se entrançam, e quando o grito sai e rola finalmente liberto, logo retorna ao seu começo, repetindo-se nessa urgência, transportando consigo um muco grosso que me abafa, a descortinar no palato o resto do teu dolente gosto amendoado. E sem conseguir precisar o que me cerca, ergo os braços ensanguentados, pegajosos da seiva viscosa da tua placenta, e levo os punhos fechados ao queixo molhado pelos líquidos, os líquenes da tua intimidade. Resvalando, deslizando, apercebendo-me de estar a perder a memória; mas inconsciente ainda de estar a aproximar-me, cada vez mais e mais, do perfeito abandono a que leva o nascimento.

Daninha
Depois das palavras estão as palavras, caminho ou atalho ou trilho por onde escapa o pensamento, num desassossego, num avassalamento, numa invenção de outros universos e céus antigos, onde se misturam planetas, nebulosas, mundos inventados, habitados pela estranheza dos seres mínimos ou de monstruosos animais cruentos; universos destruídos por dilúvios, tempestades, rochas incandescentes e montes, serras, cimos de vomitarem fogo. Vulcões com o seu intenso cheiro a cinzas, a lava, a enxofre. Forja de lume. E as trevas cobriram a face do abismo. Iludindo a luz com o maior negror, por onde os mares corriam num rugido insustido. Até ao separar das águas.

Águas reptis de alma vivente, e aves que voem sobre a terra, debaixo do firmamento do céu.

E a menina entra para dentro de cada palavra e existe mesmo antes de nascer e sair do lugar de claridade coada, no interior do corpo materno. Deméter? No início ela chorara muito. Ainda na barriga da mãe, porque isso é dado acontecer a quem como ela comporta a diversidade, a diferença; voraz, desacertada no mundo que a pretenderá mudar, a sufocará e a acanhará tanto, que por vezes parece querer tirar-lhe o ar do peitinho liso, de tão justa que a vida lhe fica.
Modo de ela ser na teima e no cardo da alma, a tomar para si o tumulto das alvas, dos eclipses, dos equinócios, dos espinhos e das farpas, deslizando junto dos enigmas que desconhece, dotada de um outro entendimento, de uma outra visão impossível. Gosta de olhar as constelações, estrelas de navegação e nebulosas nos mapas astrais, por onde correm os linces e as panteras da escuridade. A encontrá-las no espaço, cintilando de estrelas, de asteróides, de cometas…
Cruzeiro do Sul, Cisne e Cassiopeia».
In Maria Teresa Horta, Meninas, Publicações dom Quixote, 2014, ISBN 978-972-205-611-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

Meninas. Maria Teresa Horta. «A guiares-me os jeitos, a radicalizares-me as fantasias e os medos, a influenciares-me os gostos, a instigares-me à ausência apagando-me o carácter…»

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«O monstro morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era sozinha». In Clarice Lispector

Lilith
«(…) Torno a alinhar-me a par contigo: as duas sobrepostas. Travo amargo colhido no universo perverso da inocência, terreno onde o sentimento cede, condenando a transfiguração do nosso relacionamento. Fica a sobejar somente um vaguíssimo espaço de fluidos difusos onde absurdamente lenta me distendo, como se boiasse, mas afinal nadando em ti. Antecipando a fragilidade e o calor uma da outra. Mexes-te na escuridade onde sonhas e eu te navego pelo dentro mais fundo, nele batendo com a planta vulnerável dos meus pés. Aí esbracejo, mergulho e torno à superfície pretendendo salvar-me, e só o leve pulsar das veias das tuas virilhas me mostram a direcção do teu olhar turquesa, através do qual destrinço o que não adivinho. Inconstante tu, e eu obsessiva.
A guiares-me os jeitos, a radicalizares-me as fantasias e os medos, a influenciares-me os gostos, a instigares-me à ausência apagando-me o carácter, tentando reduzires-me à tua imagem e semelhança: clone que recusarei ser pelos trilhos da vida, destino fora; cidades das quais nada recordarei, nem das matas sombrias, nem dos bosques frondosos, territórios das fadas, nem das florestas enfeitiçadas, com árvores por trás das quais se acoitam animais selvagens, idênticos aos que existem nos quadros de Henri Rousseau. Num deles descobrir-te-ei, mulher nua, reclinada num canapé, a dialogar com os tigres. Lilith de um paraíso artificial, impondo regras que tudo confundem, embora me fusionem contigo.
Experimento separar-me, ciente da contaminação da tua languidez, ausência e superficialidade. Vazio rugoso que aceito de bom grado, prevendo-te tão bela que escaparás a todo o entendimento, com uma vagarosa fatalidade feminina de opalas e jaspe, maligna e ameaçadora. Vistorio a clausura em que me encerras, arrisco seguir o rasto das tuas estéreis e fúteis decisões apressadas, desconhecendo que, impaciente, me virás a afastar mais duas vezes, ao longo da nossa vida futura. Com uma negligência insustentável. Por segundos imagino-me desgraçada, errando com os teus fantasmas e, rodando, tento conseguir reencontrar a rosa-dos-ventos, os remos, a bússola, o rumo certo para tornar a achar-te, indo num impulso incontrolável moldar-me às tuas costas, desejando retomar o odor do teu pescoço suado, onde curtas madeixas frisadas aderem humedecidas, adensando o seu ouro de camélia e de madressilva. Respirar-te é um hábito que me há-de ficar. Enquanto o teu inconsciente traça planos, desenha mapas de crimes perfeitos, inventa as melhores maneiras de me assassinares, ignorando que te escuto os pensamentos, enrodilhada no danoso veneno das tuas células, dimensão do nada a que permiti ser reduzida, copiando-te os genes. No lugar que habitas deixaste-te adormecer, e ao acordares, transbordante de um amor incondicional, não te recordarás do ódio que me tiveste, ansiando por me atares de novo às tuas horas. Ponto dobrado sobre ponto dobrado.
Pesponto de bainha aberta na dobra do lençol de linho onde rolaremos enoveladas uma na outra, numa espécie de luta matricial, condenada. Lá fora a lua coalhada num céu azul-cobalto acobertará as lobas que defendem as crias, enquanto, através da poesia, tentarei descobrir a melhor maneira de te enfrentar nos dias vindouros, num divã de psicanalista, dando conta, atónita, das tantas fórmulas que em menina utilizei para te preservar de ti mesma. Sem remédio. A minha consciência trocada pela tua. Encolhida quase consigo esquecer-te, mas ao detectares a minha imobilidade estendes inquieta as longuíssimas pernas, deixando-me prisioneira. E como é hábito, acabo por ceder: desencosto a face do cimo dos joelhos unidos de lado, e pela primeira vez apercebo-me da necessidade cruciante de ar que começa a ganhar-me, encurralada mas já levada de rojo, apanhada pela corrente num revolteio imprevisível e desconhecido.
Confusa, tento inutilmente parar, controlar as contracções e os espasmos que me convocam, a arrastarem-me consigo; e é nesse instante que lanças um lento e distorcido brado, estridente e incontido na modulação convulsa, como se simultaneamente te admirasses quando o ouves. Aturdida, cuido de reencontrar o ar que entretanto deixou de circular através da tua respiração, deslizando-te na língua, curvo-me sob a pressão aflita dos dedos crispados com os quais me primes as omoplatas num abraço imobilizador, sem a preguiça dos habituais movimentos pesados aos quais nunca te adaptaste, mas a que eu aprendera a ajustar-me». In Maria Teresa Horta, Meninas, Publicações dom Quixote, 2014, ISBN 978-972-205-611-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

Conheces Sancho? Maria Helena Ventura. «Sempre que Alvar partia, era em Sancho que pensava; de cada vez que me possuía, era Sancho que eu desejava»

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«(…) Andaria pelos vinte anos, de semblante fechado como se fosse cativo de um mundo subterrâneo. Mas quando os nossos olhos se cruzaram, foi como se um sol intenso rasgasse o negro véu que tapava a minha juventude. Senti logo por ele a mais serena explosão de afecto. Entendo, seria amor... mas para o sentirdes, nada vos ligaria a Alvar Pérez Castro, a não ser o contrato de casamento. Eu não diria melhor, padre Pelayo... habituava-me a um senhor que me impuseram, por quem chegara a sentir repugnância logo que me tomava. O clérigo ajeita o corpo ao banco, incomodado com o pormenor. Adiante, senhora... e depois?
Depois conversava com Sancho durante meia hora, ríamo-nos de coisas insignificantes, discutíamos o sentido da vida, os valores mais importantes. Coincidiam, quereis dizer? Dei comigo a pensar nos desencontros da vida, ou nos encontros tardios. Cada um para seu lado e no entanto compatíveis. Descansai um pouco, senhora, interrompe o clérigo de bochechas coradas, de novo perturbado com o rumo da conversa. Ainda não, padre Pelayo. Sempre que Alvar partia, era em Sancho que pensava; de cada vez que me possuía, era Sancho que eu desejava. Calai-vos um pouco, senhora dona Mencia, precisais de descansar. Rodrigo Gonçalves Girão, meu cunhado e privado de meu tio, era um grande aliado, ele e meu pai, que me trazia notícias da fronteira.
Mas vosso irmão Diego, que agora serve el-rei Afonso, não se hostilizou com Fernando pela protecção que ele dava a esse desconcerto? Que desconcerto, Pelayo? Consegue soerguer-se, movida pela indignação E cristão implodir um sentimento puro e recíproco, como se fosse o maior pecado, e ninguém condena a entrega de uma menina, mal desabrocha para a idade núbil, a um varão senil e libidinoso sem ouvir a vontade dela? Não foi isso que eu quis dizer, senhora... Meu irmão revoltou-se contra nosso tio por ele lhe quitar Rioja…, de minha correspondência inofensiva com Sancho, nunca chegou a saber. Depois ficastes viúva... Antes disso as searas verdejaram e amadureceram muitas estações, os pomares tomaram cor e deram fruto. Mas nunca esquecestes o rei de Portugal... Não, sempre pensei em Sancho com ternura, como ele pensava em mim. Faz um intervalo para encher o peito de ar e retoma com dificuldade dona Beatriz morreu antes da sogra, já Sancho mergulhava no Algarve. Ouvi dizer que era valente, na guerra... Já ninguém fala dos feitos, mas foi por sua vontade que alargaram metade do território, enquanto mostrava ser um digno cruzado das campanhas da Ibéria, afastava-se das violentas intrigas que dilaceravam o reino. Não tinha vida serena, vosso esposo.
Não…, procurava apaziguar descontentamentos antigos, fazia acordos instáveis com o bispo do Porto e o arcebispo de Braga, lidava com os excessos praticados em seu nome. Meu tio acreditava que eu lhe traria a paz de que tanto carecia e que ele me daria a estabilidade que até ali me faltara. E por que ninguém soube do vosso casamento, senhora? Só não soube dona Berenguela, a quem faltava saúde mas sobrava determinação: mal ouvia rumores do nosso entendimento, tratava de aconselhar Sancho a esquecer-me. E já lhe procurava esposa em França, com ajuda da irmã, dona Branca. Respira de novo com dificuldade. Tivemos a bênção de outra escolha da rainha-mãe de França para segunda esposa de meu tio, dona Joana d’Aumalle. Sabendo do temperamento da sogra, que procurou dominá-la mal ela chegava ao paço, tudo fez para a contrariar, apoiando a minha união com Sancho.
Mas aonde param as escrituras do enlace, era a isso que eu me referia... Os documentos..., até aqui em Palencia, cidade que meu pai ajudou a fundar, sofreram perseguição e vós sabeis..., levaram o mesmo caminho dos outros registos da cúria de Sancho. Inclina agora o rosto na direcção do padre, com a ponta do queixo a roçar o ombro esquerdo. É por isso que vos peço tanto cuidado com aquelas escrituras... Podeis descansar, senhora, já mandei chamar o destinatário, conforme me pedistes, mas disseram-me que andava por Aragão, onde teria casado...
Gostava tanto de vê-lo..., seria como ver Sancho, de novo. Ao menos fostes feliz com o vosso rei? Sancho era diferente de todos os varões que eu conhecera. Tinha uns olhos meigos, tristes como os de um orfão... Que o era, dona Mencia. Não..., digo de um órfão de família inteira. Hoje, com este último sopro de vida, posso dizer que fomos ditosos durante o tempo que nos foi concedido. E o que mandais que se faça, senhora?» In Maria Helena Ventura, Conheces Sancho? Edições Saída de Emergência, 2016, ISBN 978-989-637-951-3.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. «O que vos traz à minha presença, com essa perna tão magoada? Uma notícia funesta. Vejo, porém, que estais ocupado, e não desejo ser inoportuno»

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A pedra do exílio
Planalto de Crécy. 26 de Agosto de 1346
«(…) Dois homens conversavam na sacristia da igreja abandonada, sob a luz filtrada por uma janela geminada. O rei Filipe VI de Valois era o mais alto. Ainda trazia a armadura vestida e a sobreveste azul com as flores-de-lis douradas de França e gesticulava como que à beira de um acesso de raiva. O aristocrata que se encontrava consigo, de modos mais pacatos, estava por sua vez envolvido num elegante capote escuro que destacava a carnação clara e os cabelos ruivos. Maynard tentou lembrar-se de onde já o havia visto, embora a sua principal preocupação, naquele momento, consistisse em manter um porte digno na presença, do soberano. Para isso recusara apoiar-se no rapaz e procurara um cajado, de modo a caminhar erecto, sem forçar a perna esquerda. Empresa nada simples, sobretudo tendo de enfrentar as escadas no interior da igreja.
Ao ver o monarca envolvido numa conversa, pensou recuar e procurá-lo mais tarde. Depois lembrou-se de que a sua presença poderia ter sido notada. Vossa majestade, disse, com uma vénia embaraçada, peço audiência. Rocheblanche, o rei fez-lhe sinal para que avançasse, pensávamos que tivésseis caído em batalha. Estou vivo por milagre, majestade. O monarca examinou-o dos pés à cabeça. O que vos traz à minha presença, com essa perna tão magoada? Uma notícia funesta. Vejo, porém, que estais ocupado, e não desejo ser inoportuno.
Não façais cerimónia. Filipe VI apontou para o homem a seu lado. Este é o nobre Karel, conde do Luxemburgo. O filho do rei da Boémia. Podeis falar livremente na sua presença. Maynard observou com atenção o rosto do homem de cabelos ruivos e recuou um passo. Nem ao meu filho, intimara Jang de Blannen. Karel do Luxemburgo conservava os mesmos traços do pai, embora menos altivos e decerto não tão harmoniosos. Tinha um nariz demasiado grande, a testa descoberta pela calvície e as maçãs do rosto excessivamente pronunciadas. Contudo, foram os olhos azuis, arregalados e salientes, a deixá-lo de pré-aviso.
Então, Rocheblanche?, incitou-o o rei, contrariado pela sua hesitação. Que notícia nos trazeis? O cavaleiro manteve o olhar fixo no príncipe Karel, envolvido numa inesperada sensação de desconforto. João I da Boémia está morto, e baixou a cabeça em sinal de luto. Filipe VI cruzou os braços sobre o peito. Tendes a certeza, senhor? Nós pensamos que terá caído nas mãos dos ingleses. Infelizmente, mais do que a certeza, confirmou Maynard. Dei com o seu corpo martirizado enquanto tentava abandonar o campo de batalha. Karel interveio sem denunciar qualquer emoção. Era já cadáver? Antes de responder, o cavaleiro teve a impressão de que o príncipe se afastava lentamente do feixe de luz, como que para se esconder.
Ainda não, alteza. Falou-vos? Poucas palavras, mentiu Maynard, apenas para encomendar a alma a Deus. Algo na inflexão daquela pergunta deixara-o de sobreaviso. Sim? O rosto de Karel eclipsava-se na sombra. O meu nobre pai era um homem de muitos segredos. É estranho que não vos tenha confiado nenhum quando estava prestes a morrer. Rocheblanche encolheu os ombros. Embora ardesse de vontade de referir as palavras de Jang de Blannen, um pressentimento incitou-o a calar-se. E se se encontrasse precisamente diante do artífice da conspiração? O príncipe encostou um punho ao queixo, enrugando a testa.
Então dizeis que expirou rezando, continuou, pensativo. Como um homem comum. Como um valoroso guerreiro, precisou Maynard, dirigindo-se ao rei de França para interromper um discurso potencialmente insidioso. Um homem corajoso de quem devemos tirar o exemplo. É uma referência à nossa retirada?, replicou o rei, irritado. Salientava apenas a lição de coragem, majestade. A coragem não é sinónimo de inteligência estratégica, comentou o monarca. E creio que Karel do Luxemburgo está pronto a admitir que o seu nobre progenitor se sacrificou para concretizar uma proeza estúpida.
Não por uma proeza, inflamou-se Maynard, sentindo desprezar os valores com que crescera. Mas para incitar os homens ao ataque. Filipe VI abanou a cabeça. Conduziu-os ao massacre quando os dados já estavam lançados. Expôs a cavalaria aos arqueiros de Eduardo III. Sei-o perfeitamente, mas... E sabeis também quantos caíram, Rocheblanche?, gritou o rei, desdenhoso. Mais de quatro mil! Quatro mil cavaleiros vossos irmãos! Os ingleses dizimaram a nossa nobreza». In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

Conheces Sancho? Maria Helena Ventura. «Os mais novos ainda foram a tempo. Recebeu-os daí a um ano e meio em terras de Villafáfila, depois de casar com Ferrán Pérez, porteiro de dona Mecia»

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«(…) As aias partiam de Coimbra para Leão e Laredo, onde as famílias viriam, ela era encontrada em Ourém para servir a que fugazmente fora rainha de Portugal. Levada à sua presença não via rainha nenhuma, só uma mulher formosa desfeada pelo desgosto, com os olhos inchados de chorar. Daí a dias chegava Iñigo, futuro alcaide da vila, para fazer crer aos que resistiam ao infante usurpador que dona Mecia não estava cativa senão da sua vontade. Até escolhera um nobre da Vizcaya para governar o castelo da que era vila sua. O povo, escondido pelas furnas, temeroso dos vendavais da guerra, passava a acreditar no que se vinha repetindo à boca calada: a bruxa enfeitiçou el-rei e agora vira-lhe as costas. Mas o tempo em Ourém seria escasso. Em breve era obrigada a viajar sem que ninguém suspeitasse. Era a hora de assumir o curador do reino recomendado pelo papa, não havia tempo para dedicar ao sumiço da rainha. E lá partia uma manhã fria de Inverno, acompanhada pela nova aia que já muito bem lhe queria. Também, de que servia querer ficar na sua terra, junto dos seus? O pai baixara à gafaria mais próxima, a mãe e os irmãos, menores do que ela, catavam a bolota e os bagos da videira para não morrerem à fome. Partisse a filha, e haveria esperança de salvação para todos.
Os mais novos ainda foram a tempo. Recebeu-os daí a um ano e meio em terras de Villafáfila, depois de casar com Ferrán Pérez, porteiro de dona Mecia. Os pais acabaram os dias na gafaria de Coimbra, a melhor e mais humana do reino, onde criavam patos e vendiam ovos. Limpa as lágrimas rebeldes. A tristeza do passado pode ser pesado fardo se não for aliviada com uma vida ditosa. Levanta-se em direcção à parede, sob a janela do quarto. Apura o ouvido, distingue a voz miúda da ama a encadear a conversa. Só muito de longe-em-longe Pelayo se atreve a interromper, para controlar o caudal de um relato adormecido.

Memórias. Poalha de ouro do tempo
Era uma tarde na corte da rainha dona Beatriz da Suábia... De dona Berenguela, quereis dizer, não é, senhora? De dona Beatriz, sei o que digo. A rainha-mãe nunca me viu com bons olhos, ou não sabeis que minha avó, Inez lñiguez Mendoza, pariu minha mãe no ano em que dona Berenguela se casou com meu avô, rei de León? Padre Pelayo mastiga em seco. Talvez dona Mencia esteja mais lúcida do que Elvira lhe fizera crer. O melhor é deixá-la falar à vontade, diga o que disser. Haverá tempo, depois, para filtrar o sentido das palavras. Meu tio, el-rei Fernando III, propôs à mãe que eu e minhas irmãs ficássemos com as damas de dona Isabel, a sua Beatriz, que era sorridente e doce. Quando trouxe Sancho a Zamora, naquela Primavera em que firmaram o tratado do Sabugal, estava lá eu com a rainha e o infante Afonso. Nessa altura seríeis uma donzela...
Ia fazer dezasseis anos, estava casada com Alvar há mais de dois. Então vosso esposo também lá estava convosco. Não, partira essa manhã para Jérez de La Frontera com Diego Pérez Vargas, que então armou cavaleiro. E Sancho acabava de chegar, dizíeis vós... Sancho aparecia com meia dúzia de privados. Era rei e em nada o semelhava, tão tímido, tao modestamente vestido. Seria ainda novo, nessa altura.» In Maria Helena Ventura, Conheces Sancho? Edições Saída de Emergência, 2016, ISBN 978-989-637-951-3.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

terça-feira, 25 de abril de 2017

As Obras do Diabinho da Mão Furada. António José Silva. «… destes, por ser singular o mentir pelo seu prazer, podemos nós aprender a mentir e a enganar»

jdact e wikipedia

«(…) O castigo que se lhes dá é dobrarem-se-lhes os tormentos que padecem. E eu não sei que antipatia tem a fortuna com a poesia, que tão pouco favorece os poetas apesar de ser tão aplaudida por eles, e que simpatia tem a poesia com a miséria e a pobreza, que não houve professor seu, por mais talentoso que fosse, que não acabasse na maior miséria. E por isso, com muita razão, está naquele canto o pai de Ovídio a açoitá-lo, por este fazer versos, mas enquanto leva com o chicote, promete, em verso, emendar-se, porque é tal a doença da poesia, que, por mais que procurem os génios que a professam deixá-la, não se podem livrar dela.

Não tinha o Diabinho acabado de dizer as razões referidas, quando o Soldado viu muitos homens montados em mulas, vestes longas, com anéis de bispos e luvas fechadas nas mãos, vindo a fugir de uma grande multidão de gente que os seguia, dizendo-lhes: esperai, infames verdugos da morte, que vós pagareis aqui o que nos destes a beber com tantas sangrias e beberagens! E o pior foi que, quando estávamos a morrer, vocês diziam-nos que estávamos sãos, e por isso descuidávamos do arrependimento da nossa salvação. E, por nos chegar a morte de repente, não podemos tratar dele. São vocês, malditos, os responsáveis por termo vindo para aqui com este epigrama: e assim com razão pagais, com pena e rigor tão forte, serem na vida e na morte gadanhas universais.

Seguiam também este grupo, mais dois tumultos de gente, uns atirando-lhe com redomas, almofarizes e espátulas, e outros com violas e jogos de tábuas. Os primeiros diziam-lhes: falsos Galenos, vós haveis de pagar por terem sido o instrumento da nossa perdição com a porcaria das vossas receitas! Já os segundos diziam que eles tinham a culpa das inumeráveis execuções resultantes das suas sangrias. Não ignorou o soldado Peralta que os cavaleiros nas mulas eram médicos e os das redomas e guitarrinhas barbeiros e boticários, e por isso não perguntou nada ao Diabinho, mantendo-se a ver no que dava aquela revolta. Quando apanharam todos aos doutores, deitaram-nos das mulas abaixo e arrastaram-nos por uns metros; depois deram aos boticários asquerosas beberagens e aos barbeiros fizeram muitas sangrias com lancetas de fogo ardentíssimo.

Ocupado estava o Soldado a ver estas coisas, quando apareceu outra grande multidão de gente, uns com sovelas e outros com tesouras nas mãos, dando uns nos outros soveladas e tesouradas, fazendo uma barafunda de todos os diabos; e a causa da disputa era sobre quem tinham sido na vida mais mentirosos. E, como os das sovelas eram sapateiros e os das tesouras alfaiates, não se atreveram os demónios que os acompanhavam a resolver a questão, limitando-se a dizer-lhes este quarteto: destes, por ser singular o mentir pelo seu prazer, podemos nós aprender a mentir e a enganar.

E logo atrás desses demónios viu o Soldado que estavam outros maiores e traz desses ainda outros tantos, que traziam pessoas de rasto e lançavam-nas num lago de água suja, fedorenta e turva, para que bebessem nele a mesma porcaria que tinham posto nos vinhos que venderam por serem taberneiros. Os taberneiros gritavam para que não os lançassem dizendo que o vinho não merecia tão grande castigo pois ia assim baptizar-se e fazer-se cristão; e os demónios em paga de uma tão boa vontade, como eram missionários baptizantes de Baco, respondiam-lhes: bebei nessa eternidade, velhacos de infame ser, dessa água mais quantidade que a que fizestes beber aos homens contra a vontade!» In António José Silva (1705-1739), As Obras do Diabinho da Mão Furada, 1861, A Primeira Novela Sobrenatural Portuguesa, Luso Livros, Nova forma de Ler, ISBN 978-989-817-496-3.

Cortesia de LLivros/JDACT

No 1º Centenário de o Criacionismo. Pinharanda Gomes. «Assim o período de 1901 a 1911 foi calmo, a satisfação do Curso pela reforma tão intensa [...] e a criação da Faculdade de Letras»

Cortesia de wikipedia

Uma tese vencida, não refutada
«Leonardo Coimbra, após os estudos de Física e Matemática em Coimbra, depois das experiências na Escola Naval (1903-1905), e do curso de Matemática na Escola Politécnica do Porto (1906-1909), decidiu habilitar-se pelo Curso Superior de Letras (1909-1910), ano em que obteve a licenciatura para docente, sendo colocado no Liceu Central do Porto. Com residência na Rua do Monte Olivete, na encosta do antigo Sítio da Cotovia (Escola Politécnica) para S. Bento da Saúde, o percurso de casa para o edifício onde o Curso Superior de Letras estava instalado (antigo Convento de Jesus, actual Rua da Academia das Ciências) era de proximidade, o principal troço do percurso sendo o ocupado pelo Jardim do Príncipe Real. Os professores do Curso tinham-se envolvido em repetidas instâncias em vista de uma reforma dos estudos, os quais foram objecto de dois Decretos, em 1901 e 1902, que reorganizaram o currículo escolar. Assim o período de 1901 a 1911 foi calmo, a satisfação do Curso pela reforma tão intensa [...] e a criação da Faculdade de Letras, não preocuparam tanto os professores, que repousavam, depois duma luta tão árdua e persistente, só satisfeita pela República. Em frequentes lugares, Teófilo Braga aparece como Director do Curso nesta época. De facto, além de ter sido Secretário, só foi Director no biénio de 1877-1879, não mais sendo professor1. Em 5 de Outubro de 1910 assumiu as funções de Presidente da República, mas o Director do Curso era o seu apaniguado Consiglieri Pedroso, a quem logo sucedeu, no ano lectivo de 1910-1911, o erudito Queiroz Veloso, que, na nova Faculdade de Letras, foi Director até 1929, quase sempre eleito por unanimidade.
Num ambiente pelos vistos pacificado, Leonardo Coimbra, aluno da secção de Ciências, obteve notas brilhantes, tendo recebido elogios de pelo menos dois professores, Francisco Adolfo Coelho e Joaquim António Silva Cordeiro que, não obstante, veio a constituir-se como seu inimigo. Enquanto Leonardo exercia a docência liceal no Porto, o Governo da República prosseguiu a actividade legislativa de carácter reformista envolvendo o ensino, promulgando, pelo Decreto de 19.4.1911 as Universidades de Coimbra, Lisboa e Porto e, criando, pelo Decreto de 9.5.1911, as Faculdades de Letras de Coimbra e Lisboa. No Outono deste ano, melhor, a 27 de Outubro de 1911, tomou posse do cargo de Director do Colégio dos Órfãos de Braga, substituindo o padre Francisco Cruz, que viria a encontrar-se no itinerário religioso de Leonardo, quer presidindo ao seu matrimónio católico, quer sendo padrinho de baptismo do filho Leonardo Augusto, na época natalícia de 1935.Pouco mais de um mês Leonardo serviu o Colégio, pois em 15 de Dezembro já concedia uma entrevista ao jornalista Oldemiro César, dando conta das razões que o levaram a abandonar a Directoria. Livre, decidiu-se a concorrer ao Concurso para professor assistente do 6.º Grupo de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa.
Pela reforma de 24 de Dezembro de 1901, os estudos filosóficos abrangiam as cadeiras de Psicologia e Lógica (1.º ano) e História da Filosofia (2.º ano). Pelo Decreto com força de lei de 19 de Agosto de 1911, o 6.º Grupo do currículo facultativo é o de Filosofia, com as cadeiras de Filosofia (Psicologia, Lógica e Moral), História da Filosofia Antiga, Medieval e Moderna, Psicologia Experimental e Estética e História da Arte, distribuídas por 4 anos. O painel com as efigies magistrais decerto se representava na imaginação de alunos e de candidatos. O Director era José Maria Queiroz Veloso (falecidoem 1952), de Barcelos, médico pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto, adversário de uma educação eivada de puras e abstractas noções teóricas, professor de História da Civilização no C.S.L. desde 1901, que tinha como prioridade a formação de professores, bibliófilo sistemático, cujo lema foi sem documentos não há história. Era professor ordinário. Professores eram também: Francisco Adolfo Coelho (falecido 1919), desiludido do ensino oficial, seguiu uma carreira autodidáctica, aceitando influências de Comte, Spencer, e dos idealistas alemães. De carácter racionalista, preferiu as disciplinas de Filosofia, Etnografia e Educação, seguindo os modelos germânicos, sendo autor de obras eruditas e teorético-práticas, com teses que ordenou nos dois volumes de Questões Pedagógicas (Coimbra, 1911-1912). Por assimilação dos linguistas alemães, introduziu a filologia científica no país, sendo considerado personalidade menos dominada pelo dogmatismo positivista». In Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XX, nº 1120, 2º Semestre 2012, Leornardo Coimbra nos 100 anos do Criacionismo, Pinharanda Gomes.

Cortesia de RNÁguia/JDACT

domingo, 23 de abril de 2017

Terra Inquieta. Manuel Faria. «Subo a Avenida da Liberdade, devagarinho, cogitando na inconsciência e injustiça dos homens, e nesta verdade, biologicamente insofismável»

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De profundis…
«(…) Agora é o amplo terreiro da Senhora da Abadia que se me apresenta, imerso na densa bruma de um longínquo passado de piqueniques, sob o copado dossel das tílias perfumadas. Pantagruélicas merendas, com meia dúzia de comparsas, de que dois, saudosamente, já se encontram do outro lado da vida... Talvez os seus espíritos andem pairando por entre os ramos contorcidos destas árvores seculares, à espera de se evolarem para sempre, quando a serra mecânica de uma autarquia assassina as venha a abater. Espicaçado pela natural curiosidade, fui ver. O dia estava bonito. Algumas nuvens vogavam no ar, como lenços brancos, a anunciarem tréguas de bom tempo, após a caudalosa pluviosidade de ontem, teimando encher albufeiras vazias. Pisei charcos de água, saltariquei pequenos regatos, mas cheguei, finalmente, à desolação do Parque da Ponte, onde jazem, em desalinho de funeral selvagem, os melhores exemplares de tílias da cidade, toda vestida de crepes naquele órgão vital do seu corpo, já de si degradado pela incúria dos seus filhos espúrios.
Cada árvore derrubada, um monumental escombro; cada tronco, um epitáfio votivo encimado por uma cruz. E são oito esses epitáfios, oito gritos ecológicos no adro de morte da capelinha do Profeta, que anunciou a vinda do Redentor do Mundo d’Aquele que nos trouxe a Ressurreição e a Vida... Os epitáfios rezam: para que serve o dia da Árvore? De pé dou saúde, no chão dou dinheiro. É isto justiça? Que mal fiz eu? Venham ver a Natureza destruída! Vejam a maldade dos homens! Quem foi o autor do crime?
Depois de eu ter autopsiado, com minúcia cirúrgica, as características estradiváricas do seu líber, e a compacidade, firmeza e brandura do seu lenho, que torna a madeira das tílias óptima para o fabrico de instrumentos de música, vencilhos, esteiras, celhas, formas e obras de torno, depeço-me das tílias tombadas, com a alma torturada e os olhos rasos de água.
Fico-me a pensar no meu velho, professor de Botânica, Gonçalo Sampaio, cujo busto de bronze existia ali, ao lado, e no íntimo desgosto que lhe vai na alma. Subo a Avenida da Liberdade, devagarinho, cogitando na inconsciência e injustiça dos homens, e nesta verdade, biologicamente insofismável: O cemitério da árvore é a antecâmara da morte do Homem. Braga, 13 de Fevereiro de 1992.

Naquele meu saudoso tempo de Tolentino, em que ensinava do alto da minha cadeira de pinho bravo aos alunos irreverentes as provas da redondeza da Terra, contei-lhes muitas vezes a memorável viagem de Fernão de Magalhães. Ao serviço do rei de Espanha, partiu o sábio marinheiro de Sanlúcar de Barrameda em direcção ao Ocidente, encontrando, exactamente, as mesmas ilhas das especiarias que os portugueses haviam descoberto rumando em sentido contrário, ou seja, pelo Oriente. Viagem penosa foi essa, sulcando tempestuosos mares, padecendo sede e forne, sofrendo avitaminoses pestilentas comendo ratos e larvas, e até o próprio couro dos mastros... Desânimo, homicídio fratricida, nostalgia da pátria distante, choques de etnias diferentes, emboscadas, candentes distúrbios do sexo e outros tantos males que a oceanalidade arrasta consigo, quantas e quantas vítimas ocasionaram nessa longa e árdua viagem que Fernão de Magalhães levou a cabo até às Índias, embora aí ficasse, trespassado pelas setas envenenadas dos indígenas. Gloriosa peregrinação oceânica, sem regresso!» In Manuel O. Faria, Terra Inquieta, APPACDM, Braga, 1994, ISBN 972-8195-10-9.

Cortesia de APPACDM/JDACT

sábado, 22 de abril de 2017

Histórias Brejeiras. Artur Azevedo. «O último a sair foi o bacharel Pinheiro, proprietário e redator principal d’A “Opinião Pública”, órgão do partido conservador»

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Pobres Liberais
«(…) Foi no tempo do Império. O notável político Francelino Lopes, sendo presidente de uma província cujo nome não mencionarei para não ofender certas susceptibilidades, aliás mal entendidas, resolveu, aquiescendo ao desejo dos chefes mais importantes do partido conservador (era o que estava de cima), fazer uma grande excursão por todo o interior da província, visitando as principais localidades. A notícia dessa resolução abalou necessariamente a população inteira, e por toda a parte, não só as câmaras municipais como os cidadãos mais importantes, correligionários do governo, se prepararam para receber condignamente o ilustre delegado do gabinete imperial. Na primeira cidade visitada por Francelino, foi S. Exa. recebido na estação de caminho de ferro, que se achava ricamente adornada, ao som do hino nacional, executado por uma indisciplinada charanga, e das bombas dos foguetes estourando no ar e das aclamações do povo, cujo entusiasmo, se não era real, era, pelo menos, espalhafatoso e turbulento.
Estavam presentes todas as autoridades locais. Houve três discursos, cada qual mais longo, a que S. Exa. respondeu com poucas mas eloquentes palavras. Da estação de caminho de ferro, seguiu o presidente, a carro, acompanhado sempre pelas autoridades e grande massa de povo, para a câmara municipal, onde o esperava opíparo banquete, a que fez honra o estômago de S. Exa., o qual estava a dar horas como se fosse o estômago de um simples mortal. À mesa, defronte do presidente, sentou-se a baronesa de Santana, esposa do chefe do partido dominante, abastado fazendeiro, que se reservara a honra e o prazer de hospedar o grande homem.
Este, que era bem parecido, que não tinha ainda 40 anos, e gozava na capital do império de uma reputação um tanto donjuanesca, sentia-se devorado pelos olhares ardentes da baronesa, de idade digna de um príncipe. Eram 9 horas da noite quando terminou o banquete pelo brinde de honra, erguido por S. Exa. à sua majestade, o Imperador. Como a charanga estivesse presente e as moças manifestassem o desejo de dançar, improvisou-se um baile, e o Francelino Lopes dançou uma quadrilha com a baronesa, apertando-lhe os dedos de um modo que nada tinha de presidencial. A essa inócua manifestação muscular limitou-se, entretanto, o esboçado namoro, que não prosseguiu por falta absoluta de ocasião.
Como o presidente se queixasse da fadiga produzida pela viagem, a festa foi interrompida, e as autoridades conduziram S. Exa. aos aposentos que lhe estavam reservados em casa do barão, na mesma praça onde se achava o edifício da Câmara. Nessa casa que, apesar de baixa, era a melhor da cidade, haviam sido preparadas duas salas e uma alcova para o ilustre hóspede. Qualquer dos três compartimentos estava luxuosamente mobiliado e o leito era magnífico. Os donos da casa, o presidente da Câmara, o juiz de direito, o juiz municipal, o vigário, o delegado de polícia e outras pessoas gradas, mostraram a S. Exa. Os seus cómodos, pedindo-lhe mil desculpas por não ter sido possível arranjar coisa melhor, e todos se retiraram fazendo intermináveis mesuras.
O último a sair foi o bacharel Pinheiro, proprietário e redator principal d’A Opinião Pública, órgão do partido conservador. Peço permissão para oferecer a V. Exa. o número do meu jornal publicado hoje. Traz a biografia e o retrato de V. Exa.. V. Exa. me desculpará, se não achar essa modesta manifestação de apreço à altura dos merecimentos de V. Exa. O Francisco Lopes agradeceu, fechou a porta e soltou um longo suspiro de alívio.
Logo que se viu sozinho, o presidente lembrou-se do seu criado de quarto, que ali devia estar... Onde se meteria ele? Provavelmente adormecera noutro cómodo da casa. Felizmente o dorminhoco tivera o cuidado de desarrumar a mala de S. Exa. E pusera à mão a sua roupa de cama e os seus chinelos. O hóspede descalçou-se, despiu-se, envergou a camisola de dormir, deitou-se, e abriu A Opinião Pública, disposto a ler a sua biografia antes de apagar a vela. Apenas acabara de examinar o retrato, detestavelmente xilografado, sentiu S. Exa. uma dolorosa contracção no ventre, e logo em seguida a necessidade imperiosa de praticar certo acto fisiológico de que nenhum indivíduo se pode eximir, nem mesmo sendo presidente da província. Ele saltou do leito e começou a procurar o receptáculo sem o qual não poderia obedecer à natureza; mas nem no criado-mudo nem debaixo da cama encontrou coisa alguma. Farejou todos os cantos: nada!» In Artur Azevedo, Histórias Brejeiras, 1962, Projecto Livro Livre, nº 519, Iba Mendes, 2014.

Cortesia de IMendes/JDACT

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «Aquele monte é a Ambição de subir de que fala António Vieira. Atrás, pela riba acima, numa escalada vertiginosa, aparece uma maré cheia de cabeças»

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Carta III
«(…) Isto ainda não é tudo. Há tragédias misteriosas, mortes ignoradas, casos frustes, que, se forem-se desvendar, aterrorizariam um comissário de polícia. A mulher é o crime. É mentirosa, é cínica. Mente por vaidade, crucifica por prazer. São os seus encantos, a carne palpitante, os cabelos, os beijos, os gozos que amolecem a energia, a espinha, a cabeça, o orgulho e o dinheiro. É aquela chaga original, a vergonhosa ferida sempre aberta que sangra e que cheira mal... (d’Annunzio).
Há homens orgulhosos que pedem de joelhos perdão às mulheres. Mulheres orgulhosas que sofrem em silêncio as pancadas dos maridos, dos irmãos, dos amantes. E como o amor tudo transfigura, das rameiras faz santas, dos feios faz belos e arma em fortes os fracos; livra-te pois do Amor para que não sejas desgraçado. Lembra-te sempre de que ele é a pior e a mais enganosa das realidades, a mais disfarçada das ciladas.
Ai de ti se nele acreditares! Quem ama morre, quem ama avilta-se tão baixo que a própria lama tem ainda que descer muito para lá chegar.

Carta IV
Há uma tela de Rochegrosse intitulada Agoisse humaine. É um quadro que representa a vida. No primeiro plano muitas criaturas erguem o braço para chegar mais alto. Homens de casaca tão correctos como se fossem para um baile. Há mulheres decotadas vestidas em rigor. Homens condecorados e homens banais, velhos e moços, misturam-se e empurram-se, disputando-se numa agonia pavorosa, num combate sem nome.
Aquele monte é a Ambição de subir de que fala António Vieira. Atrás, pela riba acima, numa escalada vertiginosa, aparece uma maré cheia de cabeças ululantes, estranguladas pela ambição, correndo, empurrando-se, pisando os que ficam, agarrando-se de pés e mãos, como se após viessem também correndo numa perseguição fantástica, as ondas de um novo dilúvio.
Todos daquela multidão ávida querem ser os primeiros. O lugar é disputado a soco, a murro, a dente. O caminho que na vida leva ao triunfo é uma cena medonha que mais parece a fuga de uma derrota. Todas aquelas cabeças têm o ricto de um Tântalo supremo. São gastas, cansadas, lívidas. Os rostos são pálidos, suados, cor de terra, um não sei quê de loucura e de pesadelo; os olhos brilhantes, emoldurados no bistre das insónias e dos tormentos, as mãos crispadas, rapaces, em foice, os vultos rembrandtescos. São ferozes e são cruéis.
A tela é violenta e verdadeira. A vida é aquilo, assim enérgica, sinistra, brutal. Não há trégua, não há descanso. Cada um vigia sempre o seu vizinho, espreita se ele cai, e tripudia, espreita se ele sobe, e inveja-o. Há um homem de peitilho engomado e cabelo colado sobre as frontes que, sentado, morto, segura na mão inerte e suicida a coronha de um revólver.
Um grande homem brutal, de camisola, pulou, destruiu o último tapume, frágil afinal como uma convenção, e continua avançando sempre. Toda aquela populaça, todas aquelas criaturas cuidam só em subir. A certa altura a Morte fixa-se com suas pupilas de aço, hipnotizantes, e elas caem, rolam, afundam-se lá em baixo, onde as espera uma cova aberta, algumas sem terem chegado, outras que pararam finalmente, levando nos olhos um pavor incerto, qualquer coisa de espantoso e indescritível que faz parar o sangue nas artérias.
Para cada um que tomba avançam mil. Trava-se um combate em que o mais cruel, o mais forte, o mais canalha, é que triunfa. Nada de piedade nem de compaixão. Se não esmagares serás esmagado. Não há tempo de olhar, nem de pensar sequer. Avançar seja como for, custe o que custar». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

Poesia. Eróticas, Satíricas e Burlescas. Bocage. «… essa da Rússia imperatriz famosa, que ainda há pouco morreu (diz a Gazeta) entre mil pi… expirou vaidosa»

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Soneto de todas as …

«Não lamentes, ó Nize, o teu estado;

p… tem sido muita gente boa;

pu… fidalgas tem Lisboa,

milhões de vezes p… têm reinado;



Dido foi p…, e p… de um soldado;

Cleópatra por p… alcançou a coroa;

tu, Lucrécia, com toda a tua proa,

o teu co... não passa por honrado:




que ainda há pouco morreu (diz a Gazeta)

entre mil pi… expirou vaidosa;



Todas no mundo dão a sua gre…;

não fiques pois, ó Nize, duvidosa

que isso de virgem e honra é tudo peta».



Soneto de todos os cor…

«Não lamentes, Alcino, o teu estado,

Cor… tem sido muita gente boa;

Cor… fidalgos tem Lisboa,

milhões de vezes cor… têm reinado.



Siceu foi cor…, e cor… de um soldado;

Marco António por cor… perdeu coroa;

anfitrião com toda a sua proa

na fábula não passa por honrado;



Um rei Fernando foi cab… famoso

(segundo a antiga letra da gazeta)

e entre mil cor… expirou vaidoso;



tudo no mundo está sujeito à gre…;

não fiques mais, Alcino, duvidoso,

pois isto de ser cor… é tudo peta».



In Bocage, Poesia, Eróticas, Satíricas e Burlescas, Projecto Livro Livre, livro 270, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes, 2014.


Cortesia de IMendes/JDACT

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Quando Francisco, bêbado espantoso, que em copo, frasco, taça é eminente, se ajuntou…»

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[…]

Festas bacanais. Argumento

«(…) Fazem concílio os bêbados de porte,

opõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;

favorece-os o Catigela forte,

no Lamarosa tem seu lava-dente.

De inveja Lieo lhes busca a morte,

descendo a Monte-mor contra esta gente,

que vê em rio Mourinho a acção traidora,

e a Peramanca chega venceora.



XVII

De Castela se veem nessa morada

águas de duas cores deleitosas,

quando a nossa cidade está esgotada,

inda que o gesso as faz menos gostosas;

c’o licor novo espera ser tirada

a reima das entranhas sequiosas,

porque esse é o que aquenta a velha idade

desterrando a água-pé desta cidade.



XVIII

Mas em quanto com novo não me alento,

reparti com os pobres que o desejam;

ide largando dele, com intento

que seus poucos reales vossos sejam.

assim recolhereis o nosso argento,

e de todos aqueles que festejam

por tal ordem a Baco celebrado,

que costumam beber cada bocado.



XIX

Já de lá d’Alcochete caminhavam,

as formosas borrachas apertando,

e depois de vazias as largavam,

outras doutro licor melhor tomando,

de branca escuma os copos se mostravam

cobertos ao beber não lhe assoprando;

mas as águas nem doces, nem salgadas

delas vistas não foram nem provadas.



XX

Quando Francisco, bêbado espantoso,

que em copo, frasco, taça é eminente,

se ajuntou em conselho, desejoso

de dar favor a toda aquela gente.

Pisando esse caminho tão famoso

da rua das adegas prestemente,

convocados da parte do entornante

por um já n’outro tempo bom tocante».

[…]


In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.


Cortesia de IbaMendes/JDACT

Maria Adelaide. M Teixeira-Gomes. «Francisca, deixa-me brincar contigo. Se quiseres vai buscar pão... Corri a casa: mãe…»

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«(…) O mês que durou a nova instalação foi encantador. Maria Adelaide transformava-se e assumia uma individualidade que a extremava do resto da família. Mas o arranjo do quintal, onde ela dava largas à sua fantasia, delineando planos de jardinagem e arborização que mal caberiam num grande parque, esse, então foi um poema. Eu ouvia-a embevecido, achando graça em tudo quanto dizia e facilitando quanto podia a realização do seu sonho.
Tão contente andava que não recusou, como até ali fizera, as lições de ler e escrever que eu pretendia dar-lhe. Ela andara na escola mas nem as letras do alfabeto conhecia. Nessa fase é que lhe descobri o inexaurível fundo de superstição em que a sua alma assentava, e até nisso lhe achava chiste: sonhar com flores eram penas remediadas; excrementos, dinheiro certo; as mãos dentro de água, lágrimas, etc. Uma vez, antes de nos deitarmos, eu queria que se fosse pentear e repartisse o cabelo em bandós, mas ela recusou porque era de noite e não sabia se o pai andava no mar, o que seria de mau agoiro. Uma vizinha dos Fumeiros, andando o marido na lancha, fora da barra, pôs-se a pentear uma noite, e apenas atirava à rua o molhinho de cabelos caídos, vem uma refega de vento que por pouco não mete a porta dentro. Nesse mesmo instante o marido caía no mar e por pouco não se afoga...
Também se não devem despejar os cântaros da cantareira quando há em casa algum doente em perigo de vida. As almas, tão depressa largam os corpos, e antes de seguir ao seu destino, precisam de água pronta para se lavar, e preferem a água dos cântaros por serem fundos. Outra mulher, também dos Fumeiros, estando o marido agonizante, despejou, de propósito, a água que havia em casa, deixando apenas uma gota na bacia do lavatório. Morreu o marido e logo ouviu ruído no quarto do lavatório: foi ver e achou tudo em volta salpicado de água, sem que lá estivesse alguém...

Bairro dos pescadores
A respeito destas crendices Maria Adelaide não admitia dúvidas, e se eu delas zombava, a sua testa curta, de cinco pontas, enrugava-se, com uma expressão obstinada que a tornava sombria, opaca, e os recortes perdiam toda a graça como inestético desenho tosco. Mas eu não teimava. Uma grande ternura me invadia o coração à lembrança de que a pobrezinha sofrera frios e fome e andara descalça e levara, sem dó, pancadas da mãe, e mais da mestra naquela escola de torturas onde nada aprendera e onde as lunetas da professora, sábia e solerte, a espavoriam. Agora era ela que sustentava generosamente os seus, matando-lhes fomes e frios, e a ternura penetrava-me ainda mais fundo à lembrança dos seus primeiros arranjos, no seu primeiro quarto: a cómoda pobre mas vistosa; a cama fofa, larga e limpa, e o aroma especial que ali pairava e que era natural do seu próprio corpo, da sua própria carne...
E os pitorescos episódios da sua meninice. A miúdo referia-se a uma rapariga que fora sua vizinha, era muito má e gostava de morder nas companheiras. E contava: uma vez estava ela à porta de casa, a armar uma loja em cima de uma cadeira com muitas coisas já em ordem: conchas de coquinhas, latas velhas de sardinhas, dois fundos de copos, e um grande ramo de loiros, quando eu chego e digo: Francisca, deixa-me brincar contigo. Se quiseres vai buscar pão... Corri a casa: mãe, dê-me um pedacinho de pão para ir brincar com a filha da vizinha Antónia. Pão a estas horas, moça? O que tu precisas é uma boa data de açoites. Volto à Francisca: a mãe não me dá pão, mas tu deixas-me brincar, deixas? Mas ela, muito má, responde: não, não e não; se quiseres traz pão. E a mim deu-me logo uma grande raiva; emborco a cadeira com toda a loja e atiro o ramo de loiros para a lama da regueira. Então a moça atira-se a mim e prega-me uma mordedela que me fez ver as estrelas e de que ainda aqui tenho o sinal. Fujo para casa mas daí a nada já ela lá estava com a sua mãe a queixar-se à minha de mim. Tiveram as duas uma assanhada guerreia de língua, mas quando tudo serenou apanhei uma sova de sapato de que me hei-de lembrar toda a minha vida... O que estas historietas me entretinham!» In Manuel Teixeira-Gomes, Maria Adelaide, 1938, Romances Portugueses, Obras Primas do século XX, Coordenação de Davis Mourão-Ferreira, Círculo de Leitores, Cortesia da Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia de CLeitores/LBertrand/JDACT

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Macau Histórico CA Montalto Jesus. «O procurador era, ao mesmo tempo, tesoureiro colonial, superintendente das Alfândegas e director dos Serviços Públicos»

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«(…) A pseudo-embaixada foi recebida com grande pompa; e, conduzidos à sala dourada do palácio vice-real, os humildes estrangeiros depuseram os presentes ante o velho magnata que exultante de satisfação, aceitou os adornos e os cristais, na condição de os pagar no acto da entrega, ainda que depois, em privado, desse a entender que o dinheiro se destinava a mais presentes. Como se esperava, não havia necessidade de mais justificações. Que os portugueses permaneçam em Macau, bons e leais amigos, disse o vice-rei, que se governem o si mesmos como até aqui e obedeçam aos mandarins. O motivo por que os portugueses não reivindicaram os seus direitos é explicado em Oriente Conquistado a Jesu-Christo: tão dependente estava Macau dos mandarins que bastava estes cortarem as provisões e os portugueses não poderiam manter-se no local. O expediente, contudo, resultou satisfatório tanto para a colónia como para os jesuítas e, zeloso como era Macau pelo trabalho de evangelização, foi com grande alegria que o competente Ricci começou a fundar a missão que, científica ou religiosamente, resultou tão gloriosa para o prestígio ocidental na China. Para a precária colónia o sucesso dos jesuítas foi uma dádiva de Deus, de tal maneira dependia do seu tacto e da influência que eles, em breve, viriam a adquirir sobre os mandarins.
Entretanto, chegaram a Macau, em 1582, as tristes notícias de que, em consequência da morte do monarca Sebastião na desastrosa batalha de Alcácer Quibir, a coroa de Portugal havia sido usurpada, em 1580, por Filipe II de Espanha. Ao mesmo tempo, Gozalo Ronquillo, governador de Manila, enviou um emissário jesuíta, Alonso Sanchez, para promover a aclamação do novo monarca em Macau, onde chegou após um naufrágio e subsequente detenção na China. Deparando-se-lhe um ardente e inquebrantável patriotismo, o emissário usou de grande circunspecção ao relatar o cruciante desastre sob a suave aparência da união das coroas de Portugal e de Espanha. Primeiro, assegurou o assentimento do clero e das autoridades. Depois, dirigiu as suas eloquentes exortações aos fiéis patriotas. Por fim, a colónia, seguindo o exemplo da desgraçada pátria e das demais, tristemente jurou vassalagem ao rei castelhano.
Mas enquanto um jesuíta administrava suavemente o jugo, outro lutava patrioticamente para colocar a colónia fora do alcance dos governadores espanhóis. Por desejo do bispo Belchior Carneiro os colonos reuniram-se, em 1583, para deliberar sobre qual a forma de governo que melhor se adaptaria às novas circunstâncias. A assembleia, presidida pelo digno prelado, decidiu a favor de uma administração senatorial baseada nos privilégios municipais adquiridos, nos dias de antigamente, por concessão real a várias cidades de Portugal. Por isso, o Senado de Macau instituiu-se com a sanção de Francisco Mascarenhas, vice-rei da Índia.
A eleição do Senado era trienal. Todos os portugueses residentes em Macau tinham direito a voto. Convocados pelo ouvidor, os residentes reuniram-se e por votação escolheram seis eleitores. Depois de terem legalmente jurado os seus cargos, estes organizaram-se em três grupos, entre os quais não podia haver qualquer relação. Recolhidos na casa do Senado, cada grupo redigiu uma lista de vinte e um cidadãos elegíveis para as honras de senador. O ouvidor, promotor de justiça, compilou numa só os nomes das três listas eleitas e enviou-a ao vice-rei de Goa, que novamente organizou três listas e as devolveu a Macau, em sobrescritos selados, para que no final do último ano de cada triénio fosse aberto um deles. Cada lista continha a nomeação de dois juízes, três vereadores e um procurador, os senadores. A presidência cabia alternadamente aos vereadores. Os juízes exerciam a sua jurisdição em casos sumários sujeitos a apelo ante o ouvidor ou o Tribunal Supremo de Goa, presidido pelo vice-rei, cuja decisão era definitiva. O procurador era, ao mesmo tempo, tesoureiro colonial, superintendente das Alfândegas e director dos Serviços Públicos, assim como o representante do Senado em todos os assuntos relativos aos chineses. Em questões importantes os homens-bons, como eram chamados os ex-senadores, o capitão-de-terra, o bispo, o clero e os cidadãos em geral eram convocados a deliberar com os senadores sobre as medidas a adoptar, sendo tal assembleia chamada Conselho Geral». In CA Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, colecção História, 1ª edição em português, 1990, Livros do Oriente, Macau, Fundação do Oriente, ISBN 972-941-801-2.

Cortesia se LdoOriente/JDACT