sábado, 25 de maio de 2019

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Ide embora na santa paz de Deus Nosso Senhor, e num tom ainda mais alto, e orai pelos vossos pecados e a salvação do homem»

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«(…) E foi decerto pela sua irreprimível entrega à Igreja e às populações mais miseráveis de Roma que o Sumo Pontífice, reconhecendo ao homem razoáveis capacidades de esperteza e um teatral afecto na relação com os desgraçados, o designou para dirigir o grupo organizador da recepção à embaixada portuguesa. Nesse dia, o dia da nomeação papal, Francesco Petrini ficou radiante. E logo tomou a decisão de ir na mesma tarde ao anexo das traseiras do castelo de Sant’Angelo, onde, sabia-se, por costume se reuniam uns tantos profanos e alguns clérigos da cúria para discutir e proceder ao arranjo das festas de acolhimento às comitivas estrangeiras. No entanto, ao chegar ao anexo, não encontrou ninguém. Voltou no dia seguinte, e no outro, e no outro ainda, até que à quarta tentativa sem resultados foi ter com um subdiácono da Santa Sé, ordenando-lhe que mandasse convocar os elementos, já antes escolhidos pelo secretariado da chancelaria, para uma reunião de trabalho. Estava com pressa de mostrar serviço e de zelar pelo sucesso da obra. E para quando quereis que os convoque?, perguntou o padre. Quero-os amanhã lá, às três horas da tarde, respondeu o outro, sem hesitar. Todos: romanos e portugueses.
Raquel Aboab, a judia que em Dezembro partira de Lisboa por decisão e vontade de Diogo Pacheco, não fazia parte do grupo, mas, como se tornara amiga e protegida dos portugueses enviados a Roma pelo rei Manuel, com vista a ajudarem os romanos na preparação dos festejos, criou o hábito de os acompanhar para toda a parte. Por isso, foi sem cuidados nem reservas que a jovem compareceu ao encontro do dia seguinte, solicitado por Francesco Petrini. Quem vos convocou, mulher de Deus?, berrou o homem, estupefacto, quando viu a jovem a entrar na sala. Quem sois vós? Porque estais aqui? Apanhada de surpresa pela infeliz e agreste intervenção do eclesiasta, Raquel Aboab corou ligeiramente, e tentando a custo dominar a raiva e o medo, respondeu que era portuguesa, amiga dos portugueses enviados pela coroa de Lisboa para auxiliarem os romanos nos trabalhos de acolhimento à embaixada que dentro de poucas semanas haveria de chegar à Cidade Santa. E qual é a vossa graça?, perguntou ele, no mesmo tom boçal. Raquel. E que mais? Chamo-me apenas Raquel, mentiu. Tendes nome de judia...
Num completo estado de desassossego, já quase a chorar, a jovem negou a origem e propôs-se imediatamente sair do compartimento e regressar sozinha à casa que lhe dava abrigo desde a chegada a Roma. Esperai, esperai um pouco, ordenou D. Petrini, impositivo. E aproximando-se lentamente da mulher, quis saber onde ela morava e o que fazia. Moro perto daqui, num pobre casebre das Seculares Reparadoras da Virgem das Dores. E aí não fazeis trabalho de oração? Não devíeis estar lá numa atitude de constante penitência, de vigília consagrada a Deus e à Virgem? Estou de passagem por Roma, sou estrangeira, esclareceu a jovem, e só por isso as outras religiosas me concedem o favor de uma liberdade diferente da delas. Mas não deviam..., gritou o clérigo, reprovativo. Ide embora na santa paz de Deus Nosso Senhor, e num tom ainda mais alto, e orai pelos vossos pecados e a salvação do homem.
Uma chuva miudinha começava a cair sobre a cidade, a cidade de todos os vícios, como era conhecida na Europa cristã. Raquel Aboab assomou à porta, cobriu a cabeça com um véu oferecido por Diogo Pacheco e desatou a correr, chorando e soluçando em direcção à casa onde morava. A residência destinada à sua estada e segurança fora escolhida, a pedido de Diogo Pacheco, por João Faria, que, dizia-se em segredo, mantinha há vários meses uma relação íntima e secreta com a madre abadessa daquela Ordem religiosa. E era decerto por causa desta cumplicidade pecaminosa que Raquel, protegida de João Faria, dispunha de uma liberdade de movimentos jamais consentida a qualquer outra residente. A partir desse dia, o da expulsão da estrangeira, nunca mais as reuniões, mesmo as impontuais, decorreram como até aí. Os romanos já se haviam habituado a gostar da jovem e os portugueses adoravam-na. Além disso, pouco ou nada havia já para discutir ou organizar, e, no entanto, às três horas da cada tarde lá estava  Petrini a dar instruções e a tecer ideias mais do que gastas sobre a importância do acontecimento de alto relevo para a Igreja e Sua Santidade. Mas certo dia, tomado por um invulgar estado de boa disposição, ou talvez possuído por um retábulo de intenções poucos claras, o bispo quis saber pelos portugueses o que era feito da jovem das Seculares Reparadoras. E até se manifestou vagamente arrependido pelo tom agreste como a excluíra da assistência deles. Nunca mais a vi e julgo que nenhum de nós voltou a ter contacto com ela, respondeu o mais velho e responsável do grupo, tabelião de ofício e homem de extrema confiança da corte do rei português». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «O que eu quero e aprecio é ter um homem perto de mim, mesmo que esse homem me não pertença, conforme o caso, que me dê atenção e me trate como uma rainha»

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«(…) Não lhe saía da cabeça o olhar elangues cente do professor, o modo como sempre lhe falou e se lhe dirigiu num tom de respeito quase idêntico ao que o próprio manifestara por el-rei Fernando, quando ele e os comensais discutiam as qualidades e os defeitos do monarca. Sentia-se impressionada com o saber e os bons costumes do homem, cuja discrição o tornava diferente dos demais. A tamanho sentimento correspondia a felicidade de vir a tê-lo como hóspede a breve prazo, na suave suspeita de que entre ambos haveria de florescer, se Deus quisesse, uma relação harmoniosa e saudável. O único temor que ainda assim a perturbava naquela hora era a hipótese de o marido, ao despertar na manhã seguinte do estado de bebedeira em que se deixou adormecer, questioná-la acerca do significado que ela atribuíra à história da terra e da estaca na discussão ao jantar. Mas se porventura ele voltasse no assunto, pensou, haveria de lhe dizer então que reflectisse melhor sobre o episódio e que o tomasse como exemplo para a vida inteira, porque depois do acontecido jamais lhe admitiria novas faltas de respeito à honra própria e à da família donde provinha. De nada, porém, terá valido a Leonor tanta preocupação: por medo ou esquecimento, João Lourenço nunca mais se referiu ao caso.
Quem se referiu a ele, isso sim, foi ela mesma em conversa com Briolanja Mendes na manhã do dia seguinte. Contou tudo. Descreveu os convidados um por um, exceptuando naturalmente o tio e o irmão que a ama já conhecia; relatou o teor das conversas que ouviu, excluindo, porém, as de natureza política ou as que envolviam a apreciação de alguns convidados a certas atitudes do rei; confidenciou, enfim, que um professor de Coimbra, que dentro de alguns dias voltaria a Pombeiro para se instalar lá em casa, tinha passado o tempo a olhar para ela num doce e sedutor enlevo.
Não é perigosa a vinda do professor para aqui, senhora?, perguntou Briolanja, desconfiada com o entusiasmo da jovem. Por que é que há-de ser perigoso?, respondeu Leonor com outra interrogação, como se não tivesse compreendido a extensão das palavras da velha ama. Pode haver problemas... Não há problemas nenhuns. E não os há por duas razões: primeira, porque sou casada e porque a fidelidade que devo ao meu esposo vem do voto de princípio que fiz no dia do meu desgraçado matrimónio; segunda, porque estou a caminho de ser mãe e, embora ninguém o saiba nem se dê por isso ainda, não me sentiria em paz comigo mesma se me per desse nos braços de outro homem. Mas eu não disse que a senhora pode vir a correr o perigo de se ocupar do homem que aí vem; o homem é que pode vir a ficar encantado com a senhora, prosseguiu Briolanja, tentando disfarçar o sentido da sua primeira observação.
Leonor ficou pensativa por alguns instantes, passeou a mão pelo rosto, e acrescentou: isso seria problema dele. O que eu quero e aprecio é ter um homem perto de mim, mesmo que esse homem me não pertença, conforme o caso, que me dê atenção e me trate como uma rainha. Briolanja Mendes sorriu com afecto, aproximou-se da dama, acariciou-lhe os cabelos e, a propósito da última expressão, confidenciou: por acaso sonhei esta noite que a senhora ia ser rainha de um rico trono... A jovem, que até aí mantivera o acostumado ar entristecido, abriu-se de repente num largo sorriso e interrompeu. Ai sim? E como era o meu rei? Um belo homem, respondeu a aia, voltando a alisar-lhe as tranças com os dedos. Um rei de bom porte e de melhores costumes, generoso e destemido. Já falaste com as estrelas por causa disso? Não, senhora, apenas tive um sonho e sobre os sonhos as estrelas nada dizem. Elas só nos sabem dar conselhos». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «O próprio achacadiço, depois de ingerir dois vasos de chá quente de carqueja, levantou-se aliviado e, com os outros já prontos a partir, gracejou: ainda não foi desta que me fui!»

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«(…) E ainda que o conde de Barcelos e os amigos considerassem o jovem rei muito voluntarioso, nenhum, porém, deixou de fazer veladas críticas ao facto de ele nunca ouvir conselhos de quem quer que fosse, sendo até regra pessoal proceder ao contrário do que lhe era sugerido. Um exemplo desse péssimo hábito foi dado pelo alcaide de Castelo Branco, com o aval de todos, ao lembrar a simpatia com que o rei Fernando observava a entrada diária em Portugal de numerosos estrangeiros, rebeldes e tresloucados, mercadores e criminosos, sem atender ao protesto dos portugueses em geral, e à advertência dos conselheiros em particular, receando que a desajustada transmigração que se verificava viesse a constituir, mais cedo ou mais tarde, um sério perigo para a segurança de vilas e de cidades, de pessoas e de bens. Outro assunto igualmente discutido respeitou à ideia que todos tinham sobre a tentação mal disfarçada de o monarca se intrometer nos negócios políticos de Castela. Era um capricho antigo, um desejo obsessivo que o rei nunca escondeu desde que subira ao trono. Sobre este complexo problema, debatido com extraordinária paixão, a maioria considerava que, a materializar-se tal desígnio, Portugal e os portugueses poderiam vir um dia a pagar caro o preço da aventura. Opinião contrária foi no entanto defendida com fervor por João Afonso Telo e Gonçalo Teles. Até o lente Vicente Esteves, apesar de se mostrar mais interessado nos movimentos de Leonor do que nas discussões ali travadas, se manifestou de acordo com a tese de que o rei devia intervir nas lutas internas do país vizinho antes que alguém, designadamente o bastardo Henrique de Trastâmara, usurpasse o legítimo trono a Pedro de Castela. Só Leonor Teles, que passou o jantar a insinuar-se, a entrar e a sair da sala, passeando-se pela frente e por trás do professor, não participou na conversa. Nem o tio, de resto, lhe consentiria isso, porque o estatuto de uma mulher entre homens, mesmo que fosse nobre e bela, não chegava a tanto.

Ao queixar-se de que não dispunha em Coimbra de um espaço ideal de concentração para escrever um comentário jurídico aos nove primeiros livros do Corpus Juris Civilis e ao Digesto Velho, que lhe fora pedido pelo cónego Gonçalo Migueis, bacharel da Universidade, Vicente Esteves acabaria por ver realizado na mesma hora o desejo de ser convidado a regressar a Pombeiro e lá permanecer por tempo indeterminado. Foi o próprio João Lourenço Cunha que o desafiou a instalar-se em sua casa, considerando que o sossego e os ares da Beira o ajudariam no trabalho e na inspiração. A conversa sobre o assunto decorreu já ao fim do jantar na presença da mulher, que nada disse, e do conde, que de imediato apoiou a ideia sob o argumento de que melhor local do que aquele não havia para o fim pretendido pelo lente. Sensibilizado com o convite, Vicente Esteves curvou-se respeitosamente e, levando a mão ao peito, disse: se a minha presença não for desonrosa para o senhor João Lourenço e sua dilecta esposa, senhora Leonor Teles Menezes, aceitarei com todo o prazer o convite que me fazeis. Só terei de ir a Coimbra buscar o material de trabalho e regressar depois.
Para mim é que é uma honra a presença de tão ilustre lente de Coimbra em minha casa, respondeu o morgado numa linguagem desacertada, sem conseguir disfarçar o excesso de álcool que havia consumido. Leonor Teles, essa, lúcida e serena, apenas acrescentou: por quem sois, senhor.
Nesse momento, e quando já estavam todos prontos a regressar, João Afonso Telo foi vítima de um súbito achaque que só não o fez cair desamparado no lajedo da cozinha por que o sobrinho e o arcebispo de Viseu conseguiram segurar-lhe a tempo o pesado corpo. Arrastado para a sala e observado no mesmo instante pelo médico, concluiu-se que a indisposição terá sido causada pelos excessos do jantar. Nada de cuidados, portanto. O próprio achacadiço, depois de ingerir dois vasos de chá quente de carqueja, levantou-se aliviado e, com os outros já prontos a partir, gracejou: ainda não foi desta que me fui!
Nessa noite, na sua câmara solitária, Leonor Teles demorou a adormecer». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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sexta-feira, 24 de maio de 2019

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «Estou sendo mortificado por uma grande tempestade, afirmou para o outro. Sabemos que Deus ouve todas as preces à Sua maneira…»

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Conclave
26 de Agosto de 1978
«(…) Não se encare isso como uma competição, mas um meio para se chegar a um fim; o procedimento criado pelos homens para escolher o mais santo, o interlocutor de Cristo com os fiéis na Terra. Por mais que pareça um pacto político, trata-se de algo espiritual feito de forma política, desde Pedro, apóstolo de Cristo, sepultado algures debaixo desse país sacratíssimo. Os restantes dezanove votos foram dispersos, alguns para os italianos Bertoli e Felici, para o polaco Karol Wojtyla, para o argentino Pironio, o paquistanês Cordeiro e o austríaco Franz Koenig. A luta, se assim se pode dizer sem ferir susceptibilidades, entenda-se como o significado mais puro do termo, ocorreu entre Siri e Luciani, um com vontade de exercer, outro com vontade de fugir antes do término do Conclave. Este último, antes de entrar, dissera aos assistentes, familiares e amigos que, se fosse escolhido, probabilidade muito remota para ele e para todos: basta consultar os livros de apostas para ver que ninguém sabia da existência de um tal cardeal Albino Luciani, de Veneza, diria Peço desculpas, mas recuso. Tratava-se daquele a quem Paulo VI, de visita à Rainha do Adriático, ofertara uma estola e a colocara nos seus ombros, à frente de todos, coisa pouco usual em Sua Santidade, nessa especificamente, que fique bem claro, e que tinha interpretações mais profundas, como o reconhecimento da lealdade do cardeal veneziano, nomeadamente na sua defesa (mais por obrigação que por aprazimento) à Encíclica Humanae Vitae, uma das mais infelizes da história. Coisas antigas que não interessam aqui; ou interessam, já que Paulo VI é um dos principais responsáveis por Albino Luciani ter-se ajoelhado para rezar com medo de ser eleito pelos seus pares e pelo Espírito Santo. Uma coisa é falar quando algo é mera suposição; outra é quando se pode tomar realidade, como era o caso. Votem em Siri, pedia ele ao Criador. Tenho tanto para fazer em Veneza! Se não fosse por Paulo VI ele não estaria ali. Foi quem o fez cardeal. Mas, se pensasse assim, se João XXIII não o tivesse nomeado bispo, também não estaria ali; assim como não estaria se sua mãe, Bortola, não o tivesse dado à luz em Canale d'Agordo, no dia dezassete de Outubro de mil novecentos e doze. São pensamentos que mais valem se afastar, pois tudo é o que tem de ser. O talento estava dentro dele, porque de outra forma o cura da aldeia, Filippo Carli, não o teria incitado a entrar no seminário de Feltre.
A primeira votação fora o prenúncio de que as coisas não seriam tão fáceis como esperava. O despercebimento pelo qual estava habituado a passar malograra de forma incompreensível: como explicar que tivesse vinte e três votos logo de início, dois a menos que Siri e cinco a mais que Pignedoli? São os desígnios do Além que interferem cá e lá. No final, juntaram os votos dos dois escrutínios e colocaram-nos no incinerador. Paulo VI previra todo o Conclave, nada lhe escapara em termos de segurança externa e interna, pois era o papa anterior que ditava as regras para a escolha do seu sucessor; tudo porque, pela primeira vez, proibira os cardeais com mais de oitenta anos de participar do Conclave, e todo o cuidado era pouco; nenhum podia se infiltrar. Caso estranho, pois trata-se de homens espirituais, cristãos, crentes em Deus Pai Todo-Poderoso, mas, acima de tudo, homens, com as limitações físicas que isso acarreta. Contudo, não previra a possibilidade dos seus cardeais morrerem asfixiados; isso quase acontecia, pois ninguém se lembrara de limpar a chaminé. O resultado foi que pouca fumaça negra saiu para o exterior da Capela Sistina, e a maior parte inundou o interior. Se não fossem alguns valentes que se expuseram à excomunhão abrindo as janelas seladas, o Conclave teria terminado ali mesmo. Depois da suplicação, Luciani levantou-se e saiu da cela. Joseph Malula, cardeal do Zaire, cumprimentou-o efusivamente assim que o viu e deu-lhe os parabéns, mas Luciani abanou a cabeça entristecido enquanto se dirigiam para a capela, para proceder à terceira votação.
Estou sendo mortificado por uma grande tempestade, afirmou para o outro. Sabemos que Deus ouve todas as preces à Sua maneira, atende a tudo e a todos com o Seu amor irrestrito, que, como muitos dizem, prevalece sempre, seja qual for a nossa forma de agir, acreditemos ou não Nele; e assim, ao fim da terceira votação, Luciani desgrudou do seu rival, entre aspas; embora não as tenha, nem precise, sabemos bem a vontade que o outro tinha de vencer aquela corrida. Somou sessenta e oito votos contra quinze de Siri. Luciani estava a meros oito votos do Pontificado. Não, por favor, não... Alguns cardeais sentados ao seu lado ouviram o desabafo do amigo. Willebrands tentou acalmá-lo. Coragem. O Senhor dá o fardo, mas também concede a força para carregá-lo. Felici aproximou-se do nervoso Luciani e entregou-lhe um envelope. Uma mensagem para o novo papa, disse; uma frase curiosa para quem sempre havia votado em Siri». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

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O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «A verdade é que muitos faziam o mesmo, mas o que queriam dizer, na realidade, era: vejam como sou humilde; votem em mim!»

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Anno Domini MMVI
«(…) Tak, responde o garçom. Sim, em polaco. E está feito o pedido do almoço. Veio tudo muito depressa e eficientemente; entenda-se por tal: ele estava bem servido. O criado afasta-se com um smacznego franco, algo que todos dizem quando pousam as travessas de comida. Fica a mesa ornada com dois pratos, uma garrafa de água e outra de vinho tinto. Como está?, ouve-se uma voz dizer por trás do homem vestido de negro sentado à mesa, mas sem ainda ter comido ou sorvido o que quer que seja. Muito bem, senhor. Levanta-se servilmente o homem. Quem o tivesse visto havia pouco não diria que é a mesma pessoa; a segurança que inspirava se transformou em subserviência pelo sujeito que apareceu e se sentou à sua frente, traduzindo o segundo prato pedido pelo outro. Veste um fato Armani acetinado, negro também, pois esse tipo de gente tem sempre predilecção pelo negro, sabe-se lá por quê. Pela forma como o outro o olha, não há dúvida: é o chefe. Fez um bom trabalho. Obrigado. É uma honra servi-lo.
Falam em italiano, um melhor que o outro, tratando-se esse outro do polaco, que fique bem claro. O Mestre saberá recompensar, como sempre, o seu empenho. Em breve, ele o convocará para que se dirija à presença dele. Fico muito grato pelo privilégio. Deve ficar mesmo. Essa honra não é dada a muitos. Ainda mais quando se trata de ficarem vivos depois de o verem. Só os mais íntimos e que o servem condignamente, como você.
O polaco baixa a cabeça como forma de reconhecimento e tira um envelope do bolso do casaco, passando-o por cima da mesa. Foi isso que encontrei em Buenos Aires. O retrato dual de que lhe falei. Graças a ele chegamos ao tal Marius Ferris que o Mestre mandou investigar. O outro examina o retrato tirado de dentro do envelope. Curioso o que esses tipos inventam, diz, sem tirar os olhos dele. De facto, o Mestre mandou-o investigar e já temos alguns dados. É a vez de o chefe passar um envelope, sem disfarçar, por cima da mesa. Tem ordem para avançar. Tudo de que precisa está aí dentro. Aproveita para lhe passar o retrato novamente. Guarde-o com você. O Grande Plano está em marcha. Cuidado com os olhos cobiçosos. Muita gente anda atrás disso. Sem falhas e sem levantar suspeitas. Até à próxima.
Sai sem mais uma palavra e sem nem sequer tocar o prato, e o que fica também não olha para trás. Pega no envelope e guarda-o no bolso interno do casaco negro. Atira-se à especialidade da casa e, depois de bem satisfeito, paga e deixa uma gorjeta gorda ao empregado. O dia pede comemoração, e quem o serve será recompensado. Dzi'kuje, agradece o serviçal, contente pela nota verde americana que o homem bem-vestido lhe depositou na pequena bandeja de prata em que levou a conta. Do jutra, disse ainda ao tranquilo indivíduo, que é o mesmo que dizer até amanhã. Na razie, diz o outro, e sai para a rua.
Lá fora, junto ao Motlawa, abre o envelope e comprova o seu conteúdo. Uma identidade espanhola com a sua fotografia, uma passagem de avião com partida de Frankfurt e destino conhecido, alguns papéis e a fotografia que trouxera de Buenos Aires. Então, é você a seguir, atesta numa entonação paternal, mas não para a pessoa na fotografia; a entoação paternal é dirigida ao ofício que o espera e que será finalizado como todos os outros: exemplarmente. Decide ir à Feira Dominicana para uma última lembrança da cidade que não voltará a ver. Tira o casaco, deixando divisar no braço esquerdo a tatuagem de uma serpente que lhe desce até ao pulso. Volta a guardar as coisas no envelope, não sem antes olhar uma última vez para o retrato que obtivera em Buenos Aires, naquela que fora a residência paroquial de padre Pablo, que poucos dias antes adoptara uma outra, permanente, debaixo da terra. Tudo é o que tem de ser, no tempo certo, nem antes, nem depois. No retrato, o rosto de Bento XVI.

Conclave
«Fiquem tranquilos, fiquem tranquilos, porque não fiz absolutamente nada para chegar aqui». In Albino Luciani à família, quando foi eleito papa

26 de Agosto de 1978
Annuncio vobis gaudium magnum. Habemus papam, proclamou o cardeal Pericle Felici, da varanda da Basílica de São Pedro, no dia vinte e seis de Agosto de 1978. Mas, para chegar ao homem apurado pelo Espírito Santo e por mais cento e onze cardeais, muita água rolou, muitas reuniões disfarçadas de almoços, muita campanha eleitoral, no verdadeiro significado da expressão, disfarçada de desafectação; como a tarde em que o cardeal Pignedoli, rodeado de outros pares do colégio cardinalício, declarou não estar habilitado para assumir o cargo para o qual o incentivavam, e que o melhor era votarem no cardeal Gantin, um negro do Benin. A verdade é que muitos faziam o mesmo, mas o que queriam dizer, na realidade, era: vejam como sou humilde; votem em mim!
Tudo isso andou ao lado de Albino Luciani, que chegou a mandar consertar o Lancia 2000 que andava com problemas de motor. Informou ao padre Diego Lorenzi, seu assistente, que queria a viatura pronta o mais tardar no dia vinte e nove, para partirem de manhã cedo para Veneza, cidade de que era o cardeal Patriarca. Mas quis o Espírito Santo e mais os cento e onze cardeais que as coisas saíssem de outra maneira, de novo as tortuosas linhas de Deus denunciando a pouca influência dos homens e colocando o cardeal Albino Luciani a rezar ajoelhado na cela número sessenta, no final das votações da manhã. Não tinham sido concludentes, mas continham surpresas impensáveis, como os trinta votos que recebera no segundo escrutínio, que o faziam apelar ao Senhor para que o dispensasse daquele fardo enorme. Não fora o que recebera mais votos, o cardeal Siri é que havia recebido, mas a diferença era de cinco votos; contudo, o terceiro, o despretensioso cardeal Pignedoli, tivera apenas quinze, seguido do brasileiro Lorscheider, com doze». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

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O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «Já havia muito, sabia que uma obra de responsabilidade o esperava, e assim foi: um telefonema no meio da noite para a Rua Chmielna, seis anos atrás…»

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Anno Domini MMVI
«(…) Não me surpreende. Existem homens com percepções extra-sensoriais muito fortes. Espera mais alguma coisa? Pablo faz o sinal-da-cruz e se levanta, fitando sem temor os olhos negros do homem; ou assim parece. Meu futuro a Deus pertence, assim como o seu e o de todos. O que é meu está guardado, não se preocupe. Não me veio dar nada que não fosse meu por direito. Ou tirar. Isso depende do ponto de vista de cada um. Onde estão? Felipe não lhe disse onde estavam? Infelizmente, não o encontrei com vida. Teve o atrevimento de não esperar que eu a tirasse por ele. Bem, não se pode ganhar sempre... Vou perguntar uma segunda vez. Onde estão? Buenos Aires, Nova York, Paris, Madrid, Varsóvia, Genebra..., há tantos locais por esse mundo afora! Ouve-se um estampido, e o padre cai sobre os bancos, tirando alguns do lugar e fazendo tombar outros. O homem com sotaque do leste que víramos em Roma aproxima-se de Pablo, que tem o lado direito da barriga ensopado de sangue, como se nota pela mão vermelha do padre que aperta a ferida. Deus não está aqui para salvá-lo, caro señor. É melhor dizer onde estão. Deus já me salvou. Nunca os encontrará! O homem aninha-se sobre Pablo e começa a falar-lhe ao pé do ouvido, como um namorado fazendo confidências. Sabe, padre, os ajudantes servem exactamente para isso: para nos ajudar nos afazeres e a encontrar coisas. Especialmente os mais nervosos e sem experiência. O senhor nem imagina a quantidade de informação que eles guardam. Não os encontrei, e sei que não me dirá onde estão... Mas uma pista aqui, outra ali..., uma carta, um bilhete, um e-mail, um retrato...
Pablo está ferido pelo tiro e pelas palavras. Os dados estão lançados, ou as cartas do baralho, distribuídas, mas delas não fará parte este padre, que sai de jogo bem cedo, é pena; porém há sempre a esperança de que o homem com a serpente tatuada no pulso saiba bem menos do que diz, acabe-se com isso, e cada um que siga a sua vida, dependendo do ponto de vista. Estou certo de que Marius Ferris será mais cooperativo. Eu lhe darei cumprimentos seus, diz o homem, exibindo as costas de um retrato para o clérigo. E dispara um segundo tiro, desta vez na cabeça. Em seguida, caminha calmamente até ao centro da nave, faz o sinal-da-cruz e sai por uma porta lateral.

É sempre motivo de exultação voltar à terra natal nem que seja por 19 dias ou horas, aspirar o odor marítimo do Báltico que inunda a cidade onde Deus quis que nascesse, como uma predicção, uma mensagem nítida da missão que lhe fora confiada por um homem maior. Caminha pelas ruas familiares de Gdansk, o coração económico da Polónia, o berço da solidariedade para o mundo, a voz da luta pelos direitos dos trabalhadores e dos cidadãos. Já havia muito, sabia que uma obra de responsabilidade o esperava, e assim foi: um telefonema no meio da noite para a Rua Chmielna, seis anos atrás, mas poderia ter sido um telegrama, uma palavra ou onda telepática; a semente estava dentro do seu corpo, e a sentia. Agora, ao passar pelo pequeno apartamento onde passou a infância e o início da idade adulta, recorda a mãe e o pai que faleceram na juventude e o deixaram sozinho, por vontade divina, para completar o círculo de perfeição que ele via tão admiravelmente. O telefonema não acontece por acaso, como nada acontece, mas estava preparado para ele. É a primeira vez em seis anos que retoma a Gdansk, que revê o rio Motlawa. O Mestre ordenara que esperasse pela próxima fase do plano ali, e o Mestre sabe sempre o que faz. É um iluminado, um santo que protege na terra os interesses maiores da Trindade Divina. É quase meio-dia e percorre a rua Miesczanska em direcção à Chlebnicka, vira à direita e depois à esquerda para a Dlugie Pobrzeze. Na Ducha, vai almoçar no restaurante Gdanska. Nunca pisara naquele restaurante antes, mas era como se o conhecesse desde sempre. A suuptuosidade da decoração fazia lembrar mais a sala de jantar de um salão real do que a de um restaurante. Na zdrowie, cumprimenta o garçom, impecavelmente trajado. Dzierí dobry, responde ele educadamente. Havia muito não cumprimentava as pessoas na língua materna, como também não era cumprimentado, lembrava bem. Pede a especialidade da casa, para dois, e pergunta se tem vinho tinto». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

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A Ilha dos Jacintos Cortados. Cartas de amor com interpolações mágicas. Gonzalo Ballester. «O espaço é circular e giratório. Tal como não se abarca o fim, escapa-nos o princípio…»

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«(…) E como eu mostrasse, não sei se manifestada em gesto mais ou menos estupefacto (ou talvez estúpido), uma certa incompreensão ou pelo menos algum cepticismo, Cagliostro continuou:

V. deverá ter ouvido uma infinidade de vezes o tema do Livro da História. Sem querer, querendo talvez até indicar precisamente o contrário, a frase, esvaziada do seu conteúdo convencional, pode depois ser recheada de verdade. Repare que num livro coexistem o princípio, o fim e os meios, e só quando se submete a uma leitura a que chamamos regular, é que o seu conteúdo se mostra como um antes e um depois. Mas, quem é que duvida que se pode ler de outra maneira, o fim primeiro, a solução antes de se pôr o problema? E que se pode avançar e retroceder e parar, e andar de novo, e todas as combinações e experiências temporais que se desejarem? A coexistência de todos os acontecimentos humanos permite a quem está no segredo, a quem sabe contemplar a história no seu conjunto, um modo de leitura semelhante: desde o começo misterioso até ao presente, que é o que fazem os historiadores; desde o presente ao futuro, que é o que fazem os profetas, que foi o que eu fiz quando mostrei a uma rainha o tipo da sua morte, ou o que fez João em Patmos quando nos mostrou o modo do nosso fim, embora com tal excesso de metáforas, analogias e precauções, que se torna difícil averiguar qualquer coisa que não seja a de que a nossa morte, a de todos, nos chegará pelo fogo, se bem que ninguém, nem sequer eu próprio, saiba quando, porque nessa parte do futuro a História se vê um pouco oculta pela bruma. É o mesmo que acontece, ou parecido, quando se tenta averiguar a data da morte pessoal: fica sempre para poente, e é tão móvel, e quanto mais uma pessoa se torce para a ver mais ela se lhe escapa.

Então, interrompi-o, existe uma direita e uma esquerda nesse panorama? Será, talvez, como um quadro? Exactamente. A anulação do tempo beneficia o espaço. A história é uma espécie de paisagem com figuras, se bem que praticamente interminável. Aquilo a que continuamos a chamar o passado fica à esquerda; em frente, o presente, e o futuro à direita. O espaço é circular e giratório. Tal como não se abarca o fim, escapa-nos o princípio, embora eu, por algumas suspeitas, me incline a acreditar na nebulosa. O meu símio íntimo quase me batia na consciência com as gargalhadas do seu regozijo. Repetia Este gajo!, sem descanso, e chegou a distrair a minha atenção, e, o que é mais grave, convenceu-me ao ponto de receber a revelação de Cagliostro com ironia interior, com aparente respeito. E é preciso adormecer para ver isso?, perguntei-lhe. Hipnotismo e coisas dessas. Talvez aquele olhar que Cagliostro me devolveu me chegasse carregado de desdém. A Maria Antonieta não precisei de a adormecer. V. valeu-se de uma bola de cristal. Qualquer superfície reflectora serve: um vidro da janela, a superfície do mar quando está calmo. A vez em que aqui o nosso amigo (e indicou Ashverus com um gesto) precisou de umas certas comprovações, valemo-nos de um espelho. O espelho tem a vantagem, devido à moldura, de ser possível espreitar por ele e até atirar-se dele para a corrente, ou planar sem limitações. Possível, em que medida? Desatou a rir. V. acaba de me perguntar se lhe é possível a si. Pois claro que sim, homem! A visão do conjunto da história é acessível a todo aquele que for capaz de suportar realidades tão pouco toleráveis e, sobretudo, tão pouco inteligíveis como o infinito e o absurdo. Pensei que ia explicar-me porque é que tinha usado aquelas duas palavras, em aparência tão comprometedoras (embora, trazidas frivolamente, não queiram dizer nada), e fiquei suspenso, à espera; o que ele fez foi sair da sala e voltar ao fim de alguns momentos com um espelho, não muito grande, que colocou à minha frente, em cima de uma cadeira: parecia velado, o espelho, se bem que com um véu interior que lhe retirasse profundidade e impedisse qualquer reflexo; eu, ao olhar para mim, não me via; e, de repente, acendeu-se, como que por detrás do vidro, isto é, com uma luz distante e leitosa que se derramou por uma superfície inabarcável, pululante como um formigueiro ou uma vermineira gigantescos». In Gonzalo Torrente Ballester, L Isla de los Jacintos Cortados, Ediciones Destino, 1980, A Ilha dos Jacintos Cortados, Cartas de amor com interpolações mágicas, Relógio d’Água, 1994, ISBN-972-708-232-7.
                                                                                                                                
Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A Ilha dos Jacintos Cortados. Cartas de amor com interpolações mágicas. Gonzalo Ballester. «Hoje já não sou o Grande Oriente, mas sim o Grande Copta, e enquanto tal me obedecem…»

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«(…) Evoquei sobretudo aquele começo de um deles em que Cagliostro, ignorado como tal pelo leitor, viajante anónimo e nocturno, ascende pela ladeira de uma montanha numa noite de chuva e vento, ascende apesar das vozes que o aconselham a retroceder, que o ameaçam se continuar, até que por fim, nas ruínas de um castelo provavelmente gótico e depois de um rito iniciático interrompido e frustrado, o viajante e catecúmeno é nada menos que Cagliostro, o Grande Oriente da Maçonaria. Ah!, disse ele. Aquilo era um bom tempo, era um bom tempo, embora mais perigoso do que este. Mas eu nunca fui maçon, ou pelo menos não o fui da espécie racionalista, mas sim da mística, e por isso é que me passei para os rosa-cruz até conseguir fundar a minha própria seita, ou, se preferirem, a minha própria organização. Hoje já não sou o Grande Oriente, mas sim o Grande Copta, e enquanto tal me obedecem mais de cem mil cidadãos deste país; tenho pactos firmados com os Templários e relações financeiras com o Vaticano. A Casa Branca ignora a grandeza do meu poder. O presidente pode, é claro, declarar a guerra e enviar para outros céus marines e mísseis, coisa que a mim me está vedada; mas se eu maquinar uma revolução, levo o país à ruína em menos de uma semana. Claro que não me interessa fazê-lo e que, na realidade, sou uma potência conservadora; mas talvez um dia dê uma prova menos aparatosa do meu poder, se bem que prefira dar um sinal da minha ciência, experiência de séculos transmitida em segredo e com perigo, na qual se resumem os saberes que não convêm ao Poder, que se opõem à Ordem e que contradizem a Verdade. A minha ciência é a única, a verdadeira revolução.
Dizia isto como que a brincar, enquanto o meu símio interior me sussurrava:

Vejam-me só este gajo! Que bem que ele sabe o papel, e que papel escolheu! Gostava mesmo de saber quem ele é e donde é que vem. Pela cara parece bizantino.

De facto, apesar dos seus ares de homem moderno, no seu rosto alongado e oliváceo, que às vezes me faz lembrar o teu, ainda havia muito de santo helénico, de cara traçada segundo as normas e os princípios de uma arte que inscreve o corpo humano num sistema de círculos e quadrados em que só respeita o Áureo Número. Daquela vez em que me levaram de visita ao mosteiro russo instalado nas montanhas que ficam para oeste da Northway, e em que me deixaram bisbilhotar na oficina do monge que pintava ícones, numa tábua encostada a um canto e meio suja via-se o esboço de um rosto como o de Cagliostro. Certa noite, já não me lembro qual, disse-nos ter nascido em Mantinea. O que me revelou, não importa agora quando, foi exactamente isto, que é o que nos diz respeito e me aconselha trazê-lo aqui:

Nem o passado existe nem o futuro. Tudo é presente, como bem advertiram os teólogos quando afirmaram que toda a vida do homem e do Cosmos, isso a que chamamos história e da qual uma boa parte está ainda por acontecer, é pura actualidade na mente divina. Enganaram-se apenas quanto a Deus, que não existe (Ashverus sorriu e abanou a cabeça: tinha os seus motivos para o fazer); mas a história, mesmo sem Mente a que remeter-se, é pura actualidade, tudo está a acontecer agora mesmo, e se nós o percebemos como passado, como presente e como futuro, isso deve-se tanto a organizações mentais como também a estruturas verbais. Não foi essa suposta fluência a que chamamos tempo o que determinou os verbos, mas sim ao contrário: o tempo como experiência e como realidade é sustido pelas palavras enquanto expressão de um modo de a mente estar organizada». In Gonzalo Torrente Ballester, L Isla de los Jacintos Cortados, Ediciones Destino, 1980, A Ilha dos Jacintos Cortados, Cartas de amor com interpolações mágicas, Relógio d’Água, 1994, ISBN-972-708-232-7.
                                                                                                                                
Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

A Ilha dos Jacintos Cortados. Cartas de amor com interpolações mágicas. Gonzalo Ballester. «Muitas vezes, ao longo da vida, tentei desembaraçar-me de semelhante personagem, expulsá-lo de mim através dos mais incríveis exorcismos…»

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«(…) Não impedem ninguém de se aproximar, não se recatam de ninguém quando falam e, no entanto, ninguém os entende, e não por falarem numa língua arcaica, mas sim por se referirem a um mundo que não conseguimos imaginar. Certamente que ao livreiro não lhe foi encomendada qualquer missão, mas espera o pedido um dia destes. E já vão três imortais. Do quarto vou falar-te agora mesmo: não é dos milagrosos, mostra patente de que Deus tudo pode, mas sim dos técnicos, possuidor de um segredo químico que lhe permite conservar-se, o que o priva do halo transcendente e o confina aos limites da nossa humanidade. Conheci-o por intermédio de Ashverus e a meu pedido, numa noite de Inverno, num lugar estranho de Greenwich Village; estranho, não porque apresentasse ou fizesse pressentir circunstâncias ou caracteres extraordinários, mas sim, precisamente, pela sua vulgaridade, tão evidente, tão chamativa e tão tranquilizadora; descansava-se nela, protegia como o regaço de uma mãe, era uma casinha de dois andares, com dois buracos em cima e um no piso térreo, a cuja porta o meu amigo bateu de uma maneira combinada e no qual nos introduziu aquele que a seguir se apresentou como sendo o conde Cagliostro: sem surpresa de qualquer uma das partes, pois tinha sido avisado de quem eu era, de forma que foi uma apresentação convencional nas fórmulas, cerimónias e sorrisos. Agradou-me aquele a quem não sei se hei-de chamar farsante ou considerá-lo como a autêntica pessoa a que o seu nome remete, e devo dizer que outro tanto me aconteceu com os outros, me acontece ainda: Ashverus e os dois emissários do Céu, pois, por mais alto que seja o refinamento de uma inteligência, por mais rica que seja a sua experiência em acontecimentos invulgares, por mais dilatada que seja a sua tolerância intelectual, permanece sempre no interior consciência, encolhido, essa espécie de símio racional repleto de sensatez que desconfia de uns homens porque se declaram imortais, que os cataloga imediatamente como impostores. Muitas vezes, ao longo da vida, tentei desembaraçar-me de semelhante personagem, expulsá-lo de mim através dos mais incríveis exorcismos, sobretudo nas ocasiões em que, por ter seguido os seus conselhos, cometi uma meia dúzia de erros de que posso arrepender-me e que me foram formando; mas não foi possível, porque ele é eu mesmo, é uma parte indestrutível de mim e, sobretudo, incansável na sua charlatanice matemática e na sua maneira de avisar ou de insultar: mais por símbolos do que por conceitos. Durante todo o tempo que duraram as minhas relações com aqueles irrepreensíveis cavalheiros, Enoch, Elias, Ashverus e Cagliostro, não fez mais do que increpar-me e rir-se de mim, ao ponto de temer, naquela noite em Greenwich Village, que o anfitrião, tão amável, chegasse a ouvir as suas gargalhadas, que não são emocionais, como as de toda a gente, mas sim carregadas de lógica. Isso não deve ter acontecido, pois Cagliostro manteve até ao fim a sua cortesia, não mostrou desconfiança, nem sequer suspeita. Também não havia motivos aparentes, pois eu ouvia-o entre arrebatado e pasmado, ou, melhor dizendo, ouvia a conversa faiscante daqueles personagens que, ao longo dos dois últimos milénios, se tinham encontrado amiúde, umas vezes amigos, outras, em campos opostos, e que se referiam agora a grandes acontecimentos ou a figurinhas de que já não resta memória: de qualquer forma, pedaços inteiros do passado pareciam reviver naquela conversa, e foi precisamente essa palavra, passado, que pronunciei numa das minhas escassas intervenções, a que deu ensejo a Cagliostro para me impingir um discurso que mais parecia uma lição de cátedra, pois até comportava nada mais que uma interpretação desconhecida da história e uma nova metafísica do tempo. Mas, antes de repetir (sempre na medida que as minhas recordações o permitam) as suas palavras ou as suas ideias, quero deixar testemunho dos preliminares da nossa conversa, quando lhe contei até que ponto o seu nome e a sua figura me eram familiares e sempre admirados, bem como frequentemente relembrados, inclusivamente com emoção e terror, a partir dos tempos da minha infância em que José Bálsamo, um dos seus muitos nomes, ia e vinha e reclamava a minha atenção enquanto protagonista de uns romances sobejamente lidos». In Gonzalo Torrente Ballester, L Isla de los Jacintos Cortados, Ediciones Destino, 1980, A Ilha dos Jacintos Cortados, Cartas de amor com interpolações mágicas, Relógio d’Água, 1994, ISBN-972-708-232-7.
                                                                                                                                
Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

A Ilha dos Jacintos Cortados. Cartas de amor com interpolações mágicas. Gonzalo Ballester. «E quem ousa levar a sério alguém que se confesse imortal? Assim foi possível, assim ainda o é, que aquele que se chama a si mesmo Enoch»

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«(…) Não sei de ninguém que o tenha comentado, nem em privado nem em público, para achar estranho ou para se rir, e quase suspeito que pouca gente terá lido as páginas em que o conto, nas autobiográficas, precisamente, e não nas de amena invenção: pois se assim não fosse, se fossem relativamente conhecidas, como é que não ia existir um leitor suficientemente inteligente, suficientemente sensível para se deter no facto, para interrogar o protagonista, ou, se não o considerasse como tal, o narrador? Mas a verdade é que nunca me perguntaram por Ashverus, até ao ponto de me fazerem crer que a memória do seu nome se perdeu, pois não quero pensar que se interprete o meu relato como sendo fantástico, senão mesmo como invenção trocista, daquelas que não se podem receber com a desejada seriedade, mas sim com a irritação ou com a repulsa que a mentira exige. Vejo-me, pois, na necessidade de repetir, ainda que com menos palavras, que Ashverus e eu nos encontrámos num café de Nova lorque numa tarde de Estio, e que naquele momento se iniciou uma curiosa amizade que ainda mantemos, se bem que já não como outrora, convivência frequente de entrevistas e demorados colóquios, mas sim recados periódicos ou notícias indirectas que me chegam de qualquer parte do globo: Salisbúria ou Valparaíso, pois insiste no seu ofício de procurar a paz ali onde ela se altera. A sua última missiva rezava textualmente:

De Santiago tive de sair disparado, e o postal traz o carimbo de Callao.

Não esperava a menor relação de Ashverus com o livro de Claire nem com o tema de Napoleão. Ashverus não escreve história: tem vindo a fazê-la há, aproximadamente, dois mil anos; das maneiras mais peregrinas, nos lugares menos suspeitos e sempre com nomes sob os quais ninguém poderia imaginar esconder-se outra coisa. Se o menciono aqui, se me refiro a ele, é porque graças a ele conheci e lidei em Nova Iorque com pessoas, frequentei círculos, sobre os quais as polícias costumam estar mal informadas, mas que não é por isso que deixam de ter a sua importância, pelo menos para mim. É claro que Nova Iorque, conforme algumas vezes concordámos, é uma das cidades mais mal conhecidas do mundo, precisamente porque abundam as pessoas que pensam tê-la na cabeça como um mapa, e que com o resultado da sua experiência escrevem romances ou livros de sociologia. Acontece, por exemplo, que os homens verdadeiramente raros, esses que escapam a qualquer classificação, bem como às concepções racionais, excluídos pouco a pouco de outros lugares onde se vai tornando difícil dissimular-se e ir andando, têm vindo a convergir em Nova lorque, onde seriam procurados se praticassem a antropofagia ritual ou a poligamia, se negociassem descaradamente no tráfico de mulheres ou na droga; mas um inventor de religiões (suponhamos frequente), a quem inquieta? E quem ousa levar a sério alguém que se confesse imortal? Assim foi possível, assim ainda o é, que aquele que se chama a si mesmo Enoch, e assegure ser o da Bíblia, coloque diariamente a sua barraca e a sua bandeira estrelada num passeio da Rua Quarenta e Três, quase esquina com a Quinta, e depois de declarar que o Senhor o arrebatou aos Empíreos há uns quantos séculos e que lá em cima permaneceu vivo entre os santos e, a bem dizer, de reserva, revele que Vem agora à Terra para anunciar o fim do mundo, que chegará de um momento para o outro, que está, como quem diz, ao virar da esquina no século em que estamos, e a pregar, por conseguinte, o arrependimento e a penitência. Do mesmo modo, num lugar não distante do café em que nos conhecemos, Ashverus e eu, num rés-do-chão pequenito de um edifício enorme, aquele que diz chamar-se Elias, e vende livros antigos, por pouca confiança que se tenha com ele, conta a quem quiser ouvi-lo a história do carro de fogo que o levou pelos ares: pois alguém me garantiu que um e outro se encontram todos os dias numa tasca hebraica, e que falam sem fim da sua experiência no Paraíso». In Gonzalo Torrente Ballester, L Isla de los Jacintos Cortados, Ediciones Destino, 1980, A Ilha dos Jacintos Cortados, Cartas de amor com interpolações mágicas, Relógio d’Água, 1994, ISBN-972-708-232-7.
                                                                                                                                
Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

quarta-feira, 22 de maio de 2019

1Q84. Haruki Murakami. «Não é nada grave. É como uma vertigem. Se bem que um pouco mais intensa..., explicou Tengo. Sua voz não soava como sua, mas já estava bem-parecida»

Cortesia de wikipedia e jdact

Tengo. Uma ideia inusitada
«(…) Os sons no seu entorno também soavam distantes. E essa imagem que lhe era tão habitual projectava-se inúmeras vezes na sua tela mental. Seu corpo começava a transpirar. Sob a camisa, sentia o suor brotar nas axilas. O corpo dava leves tremeliques. Os batimentos cardíacos aceleravam, provocando intensa palpitação. Quando estava com alguém, Tengo fingia estar com vertigens. De facto, os sintomas eram semelhantes, e era só uma questão de tempo para o seu estado voltar ao normal. Nessas ocasiões, ele tirava o lenço do bolso e, levando-o à boca, mantinha-se quieto. Para tranquilizar quem o acompanhava, costumava levantar a mão sinalizando que estava tudo bem. Às vezes, passava em trinta segundos; em outras, levava pouco mais de um minuto. Durante esse tempo, a mesma imagem se repetia várias e várias vezes de modo automático, como se a tecla de repetição do vídeo-cassete estivesse accionada: sua mãe soltava a alça da camisola e um homem chupava os seus bicos empinados. Ela fechava os olhos e ofegava em longos suspiros. Um ténue cheiro nostálgico de leite materno pairava no ar. O olfacto é o órgão mais desenvolvido do bebé. Ensinava-lhe muita coisa. Em certas ocasiões o olfacto é que lhe ensinava tudo. Não se ouvia nenhum som. O ar se transformava num líquido pastoso. A única coisa que parecia audível eram as suaves batidas do seu coração. Veja isso, os dois lhe diziam. Veja somente isso, eles lhe diziam. V. está aqui e não tem para onde ir, diziam eles. Mensagem que se repetia várias e várias vezes.

Desta vez, o ataque demorou a passar. Tengo mantinha os olhos fechados e, como de costume, segurava o lenço sobre a boca mordendo-o com força. Ele não saberia dizer quanto tempo durou. O único jeito de sabê-lo era por meio da exaustão física que sentia após o ataque. Seu corpo estava muito fatigado. Era a primeira vez que sentia tamanha exaustão. Levou tempo até poder abrir novamente os olhos. Os sentidos queriam despertar o quanto antes, mas seus músculos e órgãos ofereciam resistência. Ele se sentia como um animal em hibernação que, confundindo a estação, despertara antes do previsto. Ei... Tengo!, alguém o chamava havia algum tempo. Era uma voz que parecia vir das profundezas de uma caverna. Foi quando se lembrou de que esse era o seu nome. O que aconteceu? É aquilo de novo? Está tudo bem?, perguntava a voz. Desta vez, ela parecia mais próxima. Tengo finalmente abriu os olhos e os fixou na sua mão direita, agarrada à borda da mesa. Certificou-se de que o mundo não se havia desintegrado e que ele continuava a ser ele mesmo. Ainda sentia uma certa dormência, mas, com certeza, aquilo que via era realmente a sua mão direita. Também sentiu cheiro de suor. Era um odor estranhamente selvagem, como aquele que sentimos em frente à jaula dos animais no zoológico. No entanto, não havia nenhuma dúvida de que o odor era seu.
Sentiu sede. Esticou o braço, pegou o copo sobre a mesa e tomou metade da água, cuidando para não derramá-la. Descansou um pouco para retomar a respiração e, em seguida, bebeu o restante da água. Foi recobrando a consciência e, gradativamente, reanimando os sentidos. Colocou o copo de volta na mesa e enxugou a boca com o lenço. Desculpe-me. Já estou melhor, disse Tengo. Em seguida, assegurou-se de que Komatsu era quem se sentava à sua frente. Os dois estavam conversando numa cafeteria na proximidade da estação Shinjuku. As vozes ao redor voltaram a soar como de costume. Um casal sentado na mesa ao lado olhava-o, indagando entre eles o que teria acontecido. A garçonete estava em pé, ao lado da mesa, parecendo apreensiva. Possivelmente temerosa de que ele vomitasse no assento. Tengo ergueu o rosto e sorriu para ela, na tentativa de acalmá-la. Por acaso isso é algum tipo de ataque?, perguntou Komatsu.
Não é nada grave. É como uma vertigem. Se bem que um pouco mais intensa..., explicou Tengo. Sua voz não soava como sua, mas já estava bem-parecida. Se isso acontecer quando estiver dirigindo, é um perigo, disse Komatsu, olhando para Tengo. Eu não dirijo. É melhor. Um amigo meu, que é alérgico a pólen de cedros, começou a espirrar enquanto dirigia e acabou batendo no poste. Mas, no seu caso, não se trata de espirros. Na primeira vez que te vi assim, confesso que fiquei assustado, mas, como é a segunda vez, a gente já não se assusta tanto. Sinto muito. Tengo pegou a xícara de café e tomou um gole. Não sentiu gosto de nada. Era como engolir um líquido morno. Quer que eu peça mais água?, perguntou Komatsu. Tengo recusou: não, não precisa. Já estou melhor. Komatsu tirou do bolso do blazer um maço de Marlboro e acendeu um cigarro com os fósforos da cafeteria. Depois, lançou um rápido olhar ao seu relógio de pulso». In Haruki Murakami, 1Q84, 2009, Casa das Letras, 2011, ISBN 978-972-462-053-4.

Cortesia de CasadasLetras/JDACT

Caçando Carneiros. Haruki Murakami. «Até chegar ao meu destino, eu já tinha perdido a conta dos maços de cigarro comprados em troca de informações»

Cortesia de wikipedia e jdact

O piquenique das tardes de quarta-feira
«Soube da sua morte por um amigo. Ele viu a notícia quando passava os olhos pelas páginas de um matutino, e a leu lentamente para mim ao telefone. Texto simples. Tipo de artigo em geral delegado a repórteres recém-formados à guisa de treino. No dia tanto do mês tal, um caminhão dirigido por alguém, atropelou outro alguém, em certa esquina. Alguém estava sendo investigado por homicídio involuntário. Parecia um poema curto, desses de primeira página de revista. Onde vai ser o enterro?, perguntei. Não faço ideia, respondeu. Para começo de conversa, ela tinha casa e família? Tinha, é claro. Liguei no mesmo dia para a esquadra de polícia e obtive o seu endereço e o número do telefone. Liguei para o número e informei-me a respeito dos detalhes do enterro. Quase tudo se consegue com um pequeno esforço, já disse alguém.
A sua casa ficava na parte baixa da cidade. Abri um mapa regional de Tóquio e marquei a área com esferográfica vermelha. Típico bairro de cidade baixa. Linhas férreas, de metropolitano e de autocarro entrecruzavam-se como fios de uma teia tecida por aranha desnorteada. Incontáveis ruas e canais atulhavam a área e agarravam-se à crosta terrestre como rugas em casca de melão. No dia do enterro tomei um carro eléctrico em Waseda. Saltei perto do fim da linha e consultei o mapa, que, naquelas condições, me foi quase tão útil quanto o mapa-múndi. Até chegar ao meu destino, eu já tinha perdido a conta dos maços de cigarro comprados em troca de informações.
Era uma casa velha de madeira circundada por uma cerca de tabuinhas marrom. À esquerda do portão havia um jardim minúsculo, de utilidade discutível, e a um canto, abandonado, um velho fogareiro portátil de cerâmica com quase quinze centímetros de água de chuva estagnada. A terra do jardim era preta e húmida. Ela tinha saído de casa aos dezasseis anos. Isso podia explicar o clima melancólico do funeral. Estavam presentes apenas os familiares, gente idosa na sua maioria. A cerimónia foi presidida pelo irmão mais velho, ou quem sabe cunhado, um homem aparentando pouco mais de trinta anos. O pai devia andar pela casa dos cinquenta. Era miúdo e usava faixa de luto na manga do casaco preto. Em pé, ao lado do portão, manteve-se quase imóvel durante todo o tempo. O seu aspecto lembrava asfalto depois que a água da enchente escoa.

Conheci-a no Outono de 1969. Eu tinha vinte anos na época, e ela, dezassete. Havia uma pequena cafeteria perto da faculdade onde eu costumava reunir-me com colegas. Não era grande coisa de estabelecimento, mas ali V. podia sempre tomar um café horroroso ao som de hard rock. Ela se sentava sempre no mesmo lugar, cotovelos fincados na mesa, absorta na leitura de um livro qualquer. Usava óculos que lembravam aparelho ortodóntico e tinha mãos esqueléticas, mas conseguia ser de algum modo atraente. O seu café estava sempre frio, e o cinzeiro, sempre cheio de pontas de cigarro. As únicas variantes eram os livros. Ora Mickey Spillane, ora Kenzaburo Oe, ora Allen Ginsberg. Não lhe importavam autores ou temas, bastava-lhe apenas que fossem livros, quase sempre emprestados de estudantes que frequentavam o local. Ela os lia vorazmente de cabo-a-rabo, como se roesse uma espiga de milho. Naquela época as pessoas emprestavam com prazer, de modo que nunca lhe faltou material para leitura. Eram tempos também do The Doors, dos Stones, dos Byrds, do Deep Purple e dos Moody Blues. Havia certa dose de tensão e instabilidade no ar, dando a impressão de que um bom pontapé seria capaz de deitar abaixo quase tudo. Passávamos os dias bebendo uísque barato, praticando um sexo chocho, discutindo sem chegar a conclusão alguma ou emprestando livros uns aos outros. Enquanto isso, a cortina caía rangendo sobre a década de sessenta, de incómoda memória.

Esqueci o nome dela. Posso procurar o recorte do jornal e verificar, mas nome é o que menos importa agora. Eu o esqueci. Só isso. Uma vez ou outra acontece de me reunir com velhos amigos e de, por acaso, ser ela o assunto da conversa. Ninguém se lembra do nome dela. Dizem, naqueles velhos tempos tinha uma garota que dormia com qualquer um, lembra, como era mesmo o nome dela?, esqueci completamente, eu mesmo dormi com ela algumas vezes, por onde andará agora, ia ser engraçado topar com ela de repente no meio da rua. Era uma vez uma garota que dormia com qualquer um. Eis o seu nome». In Haruki Murakami, Caçando Carneiros, 1982, Alfaguara, 978-857-962-308-0, Casa das Letras, 2007, ISBN 978-972-461-715-2.

Cortesia de Alfaguara/CasadasLetras/JDACT

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «Dois dominicanos e dois franciscanos tinham-se posto a discutir sobre os pecados do Rei, à luz das informações chegadas, a uns e a outros, por vias populares»

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«(…) Não é esse o nosso caso, respondeu o padre Villaescusa. O Rei não foi às put… porque a Rainha o tenha repelido. Investiguei tudo: o Rei há várias semanas que não acorre aos aposentos da Rainha. Não houve, pois, rejeição que explique, sem a justificar, uma infidelidade. Foi neste momento que o inquisidor-mor interrompeu a discussão com um bocejo: tão grande que quase se lhe desencaixa a mandíbula; tão sonoro que cobriu a resposta do padre Almeida. Reverências, disse, não vos parece que o primeiro ponto da discussão está suficientemente debatido? Consta-nos que o Rei foi às put…, mas o padre Almeida, com o seu enorme senso comum, semeou a dúvida de que os Reis nossos senhores estejam efectivamente casados. Eu disse a dúvida, não a certeza. Nomear-se-á uma comissão que estude o caso e emita o seu parecer. Fica de pé um pecado, no ar outro, mas aquele é da incumbência do confessor, não deste alto Tribunal. Observo que Vossas Mercês estão encaloradas. Eu também. Proponho um descanso, enquanto nos refrescamos com umas bebidas frias que mandei preparar. Suspende-se, pois, a sessão por meia hora. Os presentes que tinham estado sentados puseram-se de pé, com rebuliço de hábitos de diversos cortes e cores. Os contendores daquela batalha dialéctica esperaram que o inquisidor-mor saísse, depois de ter recolhido (o inquisidor-mor) as longas caudas da sua vestimenta. À saída respeitaram uma rigorosa ordem de hierarquias, de modo que, sem se olharem, o padre Villaescusa e o de Almeida saíram a par. No claustro esperavam-nos os refrescos.

Distribuíram-se por afinidades teológicas e pela preferência por determinadas bebidas: uns pela água de cevada, outros pela salsaparrilha, outros ainda pela popular orchata, salvo o inquisidor-mor, que preferiu um copo de frio clarete bebido na sua taça etrusca, uma jóia que trouxera de Itália, adquirida após misteriosos e arriscados tratos em que tinham participado um cardeal da Santa Cúria e uma prostituta de clara linhagem, muito afecta aos interesses da Santa Sé, da qual tinha recebido um título de princesa que arrastava por leitos ilustres, ou pelo menos ricos: Sua Excelência acariciava o requintado cristal enquanto saboreava o vinho, e tanto os seus dedos como a sua língua estremeciam de recordações gloriosas. Olhava, da sua altura, para os seus colegas, e, salvo o padre Enríquez, que era irmão de um grande de Espanha, metido a frade devido a um fracasso amoroso, e o padre Almeida, evidentemente distinguido com a sua preferência, considerava os restantes como labregos empanturrados de textos em latim, malcheirosos alguns, toscos de maneiras os demais, vindos da gleba, fugitivos do arado. Algum deles não tardaria a ser bispo. Meu Deus, oxalá que o fosse de terras longínquas, onde restavam tantos índios por converter, ainda que fosse à chicotada! Tudo menos recebê-los em audiência mês após mês, àqueles frades, para lhe exporem questões de heresias rurais, listas de suspeitos judaizantes e mouriscos, ou de gentes ignaras de estranhas práticas sexuais. Quem não será judeu neste país? E recordou a sua trisavó, conversa de Saragoça, que em tempos do rei Fernando tinha escorado com os seus dobrões uma antiquíssima casa de godos que se desmoronava. Tinha tirado a luva da mão esquerda, luva roxa de arcebispo in partibus, para apreciar melhor a frescura do clarete e o delicado talhe do cristal.
Dois dominicanos e dois franciscanos tinham-se posto a discutir sobre os pecados do Rei, à luz das informações chegadas, a uns e a outros, por vias populares. As possibilidades eram três, segundo as ditas informações: quatro cópulas e um fracasso à quinta, as quatro cópulas sem fracasso, e o fracasso como única realidade pecaminosa. O que se discutia não deixava de ser complicado: se as quatro cópulas deviam considerar-se como um único delito, ou como quatro; se o fracasso, isolado ou em conjunto unitário, deveria considerar-se também como pecado mortal em matéria de intenção ou se, dadas certas circunstâncias bastante incertas e difíceis de deslindar, tais como se a intenção tinha sido provocada pela cúmplice ou se tinha obedecido a um impulso real podia entender-se como meramente venial; finalmente, se a cúmplice, sem dúvida alguma sabedora de com quem partilhava o leito e a quem oferecia a sua colaboração para o pecado, devia ou não ser considerada ré de um delito contra o Estado, e não só como habitual pecadora contra Deus, e, portanto, transferida para a jurisdição ordinária para que a julgassem segundo as leis civis. Armavam tal confusão, em latim e em romance, que a maior parte dos presentes tinham acabado por formar uma roda e os escutavam com mostras de aprovação ou de repulsa, salvo o padre Rivadesella, que se ria deles francamente. O padre Almeida não figurava entre os vociferantes: tinha-se encostado a uma pilastra e observava como a luz dourava os ramos das árvores, e como mais abaixo ia morrendo nas flores. O inquisidor-mor aproximou-se dele, sorridente». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT

terça-feira, 21 de maio de 2019

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «O padre Villaescusa pareceu hesitar um momento. Depois, respondeu: não entendo a pergunta. O padre Almeida é bastante subtil. Não parece jesuíta»

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«(…) Quando o padre Almeida pediu que lhe permitissem tirar a sotaina, porque fazia muito calor, mais do que com hostilidade, a maior parte dos membros do Supremo fitaram-no atentamente, já não irados, mas estupefactos, e embora quase todos pensassem que conviria examinar aquele desconhecido em matéria de ortodoxia, a maior parte deles tinha admitido, sem graves dificuldades mentais, que não seria necessário o tormento, e que um hábil interrogatório bastaria. E entre eles figuravam bastantes com reputação de hábeis interrogadores. O padre Almeida dobrou cuidadosamente a sotaina e pô-la sobre o seu assento, com o chapéu. Reverendos senhores, não vou citar os santos padres nem os textos sagrados. Apenas me permitirei recordar-vos a unanimidade de todos os moralistas e de todos os teólogos em exigirem, como condição básica do casamento, a liberdade dos cônjuges. Ora bem, seriam os nossos amados Reis livres ao casarem-se? Passeou os olhos à sua volta. Ouviam-no, mas não pareciam dispostos a responder-lhe, salvo o padre Villaescusa. Quem duvida? Foram interrogados de acordo com as formalidades do cerimonial, e ambos disseram que sim. E poderiam dizer que não? Rogo a Vossa Paternidade que medite a resposta.
O padre Villaescusa pareceu hesitar um momento. Depois, respondeu: não entendo a pergunta. O padre Almeida é bastante subtil. Não parece jesuíta. Subtil, diz Vossa Reverência? Pois eu vejo o caso bem claro: trata-se de dois príncipes imbuídos desta condição; trata-se de dois adolescentes, que foram educados na obediência a seus pais, que, além disso, são Reis. Como poderiam dizer que não? No entanto, os seus sins estavam condicionados pelo duplo carácter de príncipes e de adolescentes. Não foram afirmações livres. De entre a massa dos peritos saiu uma voz de cana rachada. Talvez o padre Almeida não se aperceba de que está a pôr em causa o mais antigo dos nossos costumes, o de que os pais concertem o casamento dos filhos, bem como o de solicitar a anuência da Igreja. O padre Almeida voltou-se para o falante, que era um frade velho de uma ordem secundária. Eu não ponho nada em causa. Eu nem sequer julgo. Limito-me a apresentar a Vossas Paternidades factos indiscutíveis, dos quais, para este caso, e só para este caso, me permito tirar ilações. O resto é da incumbência deste Santo Tribunal (maldito), não da minha.
Mesmo supondo que o padre Almeida tivesse razão, a ulterior consumação do casamento legaliza-o e santifica-o. O padre Almeida não precisou de mudar de posição, nem sequer de mexer a cabeça: o seu interlocutor encontrava-se diante dele, bem visível na sua cólera contida, mas evidente. Rogo ao reverendo padre Villaescusa que imagine por um momento que dizem a um adolescente: logo à noite tens que entrar no quarto da Rainha, e fazer isto e aquilo. E que dizem à Rainha: logo à noite, o Rei entrará no teu quarto: não lhe oponhas resistência, porque é a tua obrigação. De facto, padre: era essa a sua obrigação. Quem se atreve a duvidar? A obrigação da esposa é receber o seu esposo no leito e, como Vossa Paternidade diz, não lhe opor resistência. Admito que também fosse a obrigação do Rei; mas quem vai obrigado não vai livre. Se seguíssemos a sua doutrina, a maior parte dos casamentos seriam ilegais. Isso, reverendo padre, não sou eu que tenho que o concluir. Limito-me a mostrar a vossas reverências que os sucessivos acessos do Rei ao corpo da Rainha foram fruto do dever, não da liberdade. Esquece Vossa Mercê a obrigatoriedade do dever conjugal? Do ponto de vista do Rei ou da Rainha?, arguiu rapidamente o jesuíta. Eu entendo-o como recíproco, interveio da sua altura um dominicano do Supremo; ainda que, naturalmente, na maior parte dos casos seja uma obrigação da esposa, que nem sempre está disposta e, no entanto, deve aceder, para evitar males maiores». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

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Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «Mas naquela tarde o presidente não pôde dormitar, porque os frades menores gritavam, talvez para que o tom elevado das vozes enchesse de razão as suas ideias»

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«(…) Depois de instalados na sala de reuniões, de acordo com as categorias e seguindo um critério piramidal, ainda se rezaram mais latinórios, estes sem música, e a coisa ficou como num cenário de teatro: o inquisidor-mor no topo, embora a cauda do seu hábito descesse até aos níveis inferiores e estendesse sobre as lajes o triplo triângulo do seu remate; depois vinham os juízes proprietários, o padre Pérez, o padre Gómez, o padre Fernández y Enríquez Hinestrosa, assim até seis, com hábitos brancos, hábitos pretos e hábitos combinados; uns gordos, outros magros, rechonchudos de cara ou chupados, reservados ou expansivos: tudo o que no mundo se sabia de Deus e de tudo o que lhe diz respeito estava armazenado nas cachimónias daqueles seis, que votavam as decisões, e, em caso de empate, desempatava o inquisidor-mor; o qual, além disso, tinha o privilégio de vetar os acordos colegiais e de os substituir pela sua opinião própria, caso que se verificava poucas vezes, sobretudo por causa das más-línguas. Mais abaixo sentavam-se os diferentes peritos: daquela vez, um por cada ordem, incluindo os premonstratenses e algumas ordens novas, como a Societate Iesu, a que pertencia o padre Almeida. Entravam e saíam com discrição, bufos, esbirros e demais gentalha, a que se vedou a entrada um pouco antes do juramento. A partir deste, a grande sala do conselho ficou encerrada para o exterior: ampla e sombria, iluminada por candelabros, era dominada por um Cristo entre duas luzes: pouco Cristo e muitas velas para local tão amplo, onde o que avultava era o presidente. Tão refinado, tão aborrecido, lá em cima, no seu cadeirão, quase nimbado, quase divino sob o barrete de quatro pontas agudas! Costumava ferrar uma soneca depois de receber o juramento dos presentes e fazer o resumo dos temas, ou dos factos que se iam discutir; desta vez acrescentou a notícia de que a suspeita Marfisa, que o Santo Tribunal (maldito) tinha convocado e mandado prender, não tinha sido encontrada. Certamente, alguém a preveniu, e fugiu. E muitos lamentaram-no, sobretudo o padre Villaescusa, capelão do palácio, que suava no nível dos peritos consultores.
Mas naquela tarde o presidente não pôde dormitar, porque os frades menores gritavam, talvez para que o tom elevado das vozes enchesse de razão as suas ideias. Para começar, o padre Villaescusa manifestou o seu desacordo com a exposição que se fizera dos factos, de tal modo redigida que dava a impressão de que se tinham reunido por causa de uns pecados veniais do monarca. Não é que tivessem mentido, ele não dizia isso!, mas tinham-se contado sem intercalar censuras, comentários ou condenações. Nada de pecadilhos! Um verdadeiro adultério e uma verdadeira profanação do santo sacramento do matrimónio! E foi aqui que o padre Almeida, o jesuíta transeunte e destinado ao martírio, se levantou e pediu a palavra. É para manifestar as minhas dúvidas de que se tenha cometido adultério. Vossa Paternidade nega que o Rei passou a última noite nos braços de uma prostituta?, perguntou-lhe o padre Villaescusa, admirado e ao mesmo tempo irritado, e com um tom de voz como se o padre Almeida viesse de outro planeta e se tivesse expressado numa língua desconhecida. Ou será que Vossa Mercê nega a verdade do que acaba de nos ser lido? Diz-se claramente que o Rei passou a noite nos braços dessa tal Marfisa.
Deus me livre de semelhante atrevimento! Então? Qual é a opinião do padre Almeida? Simplesmente, duvido de que Suas Majestades estejam casados, pelo menos perante o Senhor. Todos voltaram os olhos para o jesuíta português, e qualquer coisa como uma rajada de incompreensão colectiva sacudiu aqueles espíritos esclarecidos. Até que o inquisidor-mor, da sua altura indiferente, se dignou examiná-lo com curiosidade, e foi precisamente ele que perguntou: que diz o senhor, padre Almeida? O jesuíta continuava de pé, e aquela convergência de olhares reprovadores não parecia afectá-lo. À pergunta do inquisidor-mor seguiram-se várias vozes. Explique-se, explique-se. E o padre Villaescusa acrescentou: o que acaba de dizer incorre numa dupla sanção, da Igreja e do Estado, porque está a atribuir aos Reis nada menos do que um concubinato. É verdade, ainda que eles o ignorem; mas a Igreja não pode ignorá-lo. Insisto, padre Almeida, que seja mais explícito, rogou, com voz apaziguadora, o do assento eminente». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT