segunda-feira, 27 de março de 2017

Poesia. Eróticas, Satíricas e Burlescas. Bocage. «Devoto incensador de mil deidades, (digo de moças mil) num só momento. Inimigo de hipócritas, e frades»

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Auto-retrato
«Magro, de olhos azuis, carão moreno,

bem servido de pés, médio na altura,

triste de cara, o mesmo de figura,

nariz alto no meio, e não pequeno.


Incapaz de assistir num só terreno,

mais propenso ao furor do que à ternura,

bebendo em níveas mãos por taça escura

de zelos infernais letal veneno.



(digo de moças mil) num só momento.

Inimigo de hipócritas, e frades.


Eis Bocage, em quem luz algum talento;

saíram dele mesmo estas verdades

num dia, em que se achou cagando ao vento».


Soneto do membro monstruoso
«Esse disforme, e rígido porás

do rosto me faz perder a cor;

e assombrado de espanto, e de terror

dar mais de cinco passos para trás;


A espada do membrudo Ferrabrás

decerto não metia mais horror;

esse membro é capaz até de pôr

a amotinada Europa toda em paz.


Creio que nas f… recreações

não te hão de a rija máquina sofrer

os mais corridos, sórdidos cações;


de Vénus não desfrutas o prazer;

que esse monstro, que alojas nos calções,

é pi… de mostrar, não de f…»


Soneto (des)pejado
«Num capote embrulhado, ao pé de Armia,

que tinha perto a mãe o chá fazendo,

na linda mão lhe foi (oh céus) metendo

O meu …, que de amor fervia;


entre o susto, entre o pudor, a moça ardia;

e eu solapado os beijos remordendo,

pela fisga da saia a mão crescendo

a cha… saca… lhe fazia;


começa a … a menina... Ah! Que vergonha!

Que tens?, diz-lhe a mãe sobressaltada;

Não pôde ela encobrir na mão ...;


sufocada ficou, a mãe corada;

Finda a partida, e mais do que medonha

A noite começou à bofetada».
[…]


In Bocage, Poesia, Eróticas, Satíricas e Burlescas, Projecto Livro Livre, livro 270, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes, 2014.

Cortesia de IMendes/JDACT

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Começarão a fugir d'água do poço os que em vê-la somente tem espanto, que em pagodes, merendas e jantares empinar querem só de Baco os mares»

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Festas bacanais. Argumento 
«(…) Fazem concílio os bêbados de porte,

opõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;

favorece-os o Catigela forte,

no Lamarosa tem seu lava-dente.

De inveja Lieo lhes busca a morte,

descendo a Monte-mor contra esta gente,

que vê em rio Mourinho a acção traidora,

e a Peramanca chega venceora.


XI

Ouvi, que não vereis com vãs façanhas

fantásticas, fingidas, mentirosas,

louvar os vossos, como nas estranhas

musas, de engrandecer-se desejosas:

bebedices dos vossos são tamanhas,

que excedem as sonhadas fabulosas,

que excedem ao primeiro vinhateiro,

e a Baco inda que fora verdadeiro.


XII

Por estes vos darei um Claudio fero,

que fez a Peramanca tal serviço,

um fulano Coutinho, que de mero

b borracha para ele só cobiço.

Pois pelos doze Pares dar-vos quero

uns doze que sobre um pobre chouriço

entornaram tão rijo que de cama

um monte lhes serviu de esterco e lama.


XIII

E se a troco de Nun'alvres e Barbança

ou do Luna quereis igual memória,

vede primeiro a Pedro, cuja lança

no beber escurece qualquer glória;

e aquele que do enxame a segurança

no copo só quis ter, por ter vitória;

aquele Diogo, invicto cavaleiro,

que em quatro não é quarto, mas primeiro.


XIV

Nem deixarão meus versos esquecidos

aqueles que na sede gastadora

se fizeram no copo tão subidos,

de Lieo a bandeira vencedora:

um Daniel fortíssimo e os temidos

lacaios, por quem sei que sempre chora

da Chamusca e Louredo o vinho forte,

e outros a quem Tétis causa a morte.


XV

Em quanto a estes canto, e a vós não posso,

bom Fernando, que não me atrevo a tanto,

essa mão alargai ao vinho vosso,

dareis matéria a nunca ouvido canto.


os que em vê-la somente tem espanto,

que em pagodes, merendas e jantares

empinar querem só de Baco os mares.


XVI

Em vós os olhos tem o Mouro frio,

frio, que usar de vós lhe não é dado;

pelo contrário o bárbaro gentio

com desejo de ver-vos 'stá squentado;

Peramanca o vermelho senhorio

vos tem s'enviuvais aparelhado;

que pois em dar seus bens sois brando e tenro,

deseja de comprar-vos para genro».

[…]



In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.

Cortesia de IbaMendes/JDACT

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Não, padre. Nada disso. Esse homem, seja quem for, pede-nos ajuda, e já não lha podemos negar por mais tempo»

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O Áugure
«(…) Subimos até ao meu pequeno estúdio, um recinto escuro lotado de caixas e manuscritos, de onde se dominava Roma inteira, e, mal a porta se fechou, o padre Torriani confirmou os meus temores: claro que vim por causa dessas benditas cartas!, protestou arqueando as suas sobrancelhas brancas. E se me pergunta quem penso que é o seu autor? Justo você, padre Leyre? Torriani respirou fundo. A sua natureza doentia lutava para se aquecer enquanto o vinho o ia ruborizando aos poucos. Do lado de fora, a neve recrudescia sobre o vale. A minha impressão, prosseguiu, é que o nosso homem tem de ser alguém do séquito do duque, ou algum irmão do novo convento de Santa Maria delle Grazie. Trata-se de uma pessoa que conhece bem os nossos costumes e que sabe a quem está encaminhando as suas cartas. Contudo… Contudo? Veja, padre Leyre: desde que li a carta que lhe dei a conhecer ontem, mal tenho dormido. Ali fora há alguém que nos avisa de uma grave traição contra a Igreja. O assunto é muito sério, especialmente se, como receio, o nosso informante proceder da comunidade de Santa Maria. Acredita que o Áugure é um dominicano, padre? Tenho quase a certeza disso. Alguém de dentro, uma testemunha do avanço do Mouro, que não se atreve a denunciá-lo por medo de represálias. E suponho que já tenha pesquisado a vida desses frades em busca do seu candidato, estou enganado? Torriani sorriu satisfeito: todos. Sem excepção. E a maioria procede de boas famílias lombardas. São religiosos leais ao Mouro e à Igreja, homens pouco afeitos a fantasias ou conspirações. Bons dominicanos, em suma. Não posso imaginar quem deles pode ser o Áugure. Se é que seja algum deles. Evidente. Permita que lhe recorde, mestre Torriani, que a Lombardia sempre foi terra de hereges.
O prior geral da ordem, friorento, sufocou um espirro antes de responder: isso foi há muito tempo, padre. Muito. Há mais de duzentos anos que não resta nenhum rasto da heresia cátara na região. É verdade que aqueles malditos que inspiraram o nosso amado São Domingos a criar a Santa Inquisição (maldita) se refugiaram ali depois da cruzada albigense, mas todos morreram sem poder contagiar ninguém com as suas ideias. Contudo, não se pode descartar que a sua blasfémia tenha penetrado a mentalidade dos milaneses. Senão, por que estes são tão abertos a ideias heterodoxas? Porque haveria o duque de aceitar crenças pagãs se ele mesmo não houvesse crescido num ambiente predisposto a isso? E porque razão, prossegui, um dominicano fiel a Roma haveria de se esconder por detrás de mensagens anónimas, não fosse porque ele mesmo participa da heresia que agora denuncia? Aldrabice, padre Leyre! O Áugure não é um cátaro. Ao contrário: preocupa-se em manter a ortodoxia com mais zelo que o próprio inquisidor geral de Carcassonne. Esta manhã, antes de o senhor chegar, li outra vez todas as cartas desse indivíduo anónimo. E o Áugure tem clareza de seu objectivo desde a primeira que nos mandou: deseja que enviemos alguém para deter os planos do Mouro em Santa Maria delle Grazie. É como se o que o duque fez no restante Milão, as praças, os canais para a navegação interna, as eclusas, não tivesse importância… E isso abona a sua hipótese. Torriani assentiu satisfeito.
Mas, mestre, eu o contradisse, antes de agir, deveríamos avaliar se o seu pedido encerra alguma armadilha. Como? Ainda pretende deixar o Áugure desamparado, apesar das provas que nos ofereceu? Mas se você mesmo, há tempos, vem denunciando os desvios doutrinais da falecida esposa do Mouro! Justamente. Essa família é astuta. Não será fácil encontrar argumentos contra eles. O que digo, é que devemos extremar a prudência antes de dar um passo em falso. Não, padre. Nada disso. Esse homem, seja quem for, pede-nos ajuda, e já não lha podemos negar por mais tempo. Além disso, sabe que, por meio do cardeal Ascânio, irmão do duque, comprovei até os mínimos detalhes que aparecem em seus informes. E acredite: todos são exactos. Exactos, repeti, enquanto tentava pôr em ordem as minhas ideias. Sabe de uma coisa? Creio que o que mais me surpreende neste assunto é a sua mudança de atitude, mestre Torriani. Não há mudança, protestou. Arquivei as cartas do Áugure enquanto não tinha provas sólidas que as respaldassem. Se não tivesse acreditado nelas, eu as teria destruído, não lhe parece?
Então, mestre, se ao nosso informante lhe assiste a verdade, se é um dominicano preocupado com o futuro do seu novo convento, porque o senhor acredita que ele esconde a sua identidade quando lhe escreve? Frei Gioacchino encolheu os ombros, devolvendo-me uma careta de perplexidade: quem dera eu soubesse, padre Leyre. E isso me preocupa. Quanto mais tempo passo sem respostas, mais me incomoda este assunto. São muitas as frentes que a nossa ordem mantém abertas nestes dias, e abrir mais uma ferida no seio da Igreja equivale a fazê-la esvair em sangue irremediavelmente. Por isso, chegou a hora de agir. Não podemos permitir que se repita em Milão o que já ocorre em Florença. Seria um desastre! Mais uma ferida. Hesitei quanto a trazer o assunto à baila, mas o silêncio de Torriani não me deixou alternativa: suponho que se esteja a referir ao padre Savonarola. E a quem mais? O ancião inspirou antes de prosseguir. A paciência do Santo Padre já acabou e já pensa em excomungá-lo. Os seus sermões contra a opulência do papa crescem em acritude; ainda por cima, as suas profecias sobre o fim da casa dos Medicis se cumpriram, e agora, seguido por uma multidão, anuncia grandes castigos do Senhor contra os Estados Pontifícios. Diz que Roma deve sofrer para purgar os seus pecados, e o maldito se alegra por isso. O pior, sabe o que é? É que a cada dia tem mais seguidores. Se por um acaso o duque de Milão aderisse a essa ideia de desastre, ninguém poderia deter o descrédito da nossa instituição». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «O vaticínio tão preciso do Áugure sugeria a existência de algum sinistro plano ocultista, talvez idealizado pelo duque Ludovico»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Frei Giovanni cumpriu sem hesitar a segunda parte da missão que lhe atribuiu o prior geral. Depois de nossa conversa e de me mostrar a última carta do Áugure, voltou à sede da ordem e deixou Betânia antes do anoitecer. Torriani havia-lhe ordenado que voltasse para informá-lo da minha reacção. Queria, principalmente, saber qual a minha opinião sobre os rumores a respeito de graves anomalias nas obras de reforma da Santa Maria delle Grazie. O meu assistente devia-lhe transmitir a minha mensagem, clara e simples: se, finalmente, levassem em consideração os meus velhos temores, e se somassem a eles, como prováveis, as revelações do Áugure, havia de localizar esse sujeito em Milão e saber dele, directamente, o alcance dos projectos secretos que o duque tinha para aquele convento. Haveremos de examinar, especialmente, os trabalhos de Leonardo da Vinci, insisti com frei Giovanni. Em Betânia, já temos conhecimento da sua afeição por mascarar ideias heterodoxas em obras de aparência piedosa. Leonardo trabalhou muitos anos em Florença, manteve contacto com os descendentes de Cosme, o Velho, e, entre todos os artistas que trabalham em Santa Maria, é o mais inclinado a partilhar das ideias do Mouro.
Gozzoli somou a minha outra grande preocupação ao seu relatório para o mestre Torriani: insisti na necessidade de abrir uma investigação sobre a morte de donna Beatrice. O vaticínio tão preciso do Áugure sugeria a existência de algum sinistro plano ocultista, talvez idealizado pelo duque Ludovico ou pelos seus pérfidos assessores, para implantar uma república pagã no coração da Itália. Embora não fizesse muito sentido que o duque mandasse assassinar a sua esposa e seu filho nonato, a mente dos adeptos das ciências ocultas discorria muitas vezes por caminhos imprevisíveis. Não era a primeira vez que ouvia falar da necessidade de sacrificar uma vítima renomada antes de empreender uma grande obra. Os antigos, esses bárbaros da Idade do Ouro, faziam isso com frequência. Suponho que a minha determinação animou Torriani.
O prior geral avisou o irmão Gozzoli das suas intenções, e na manhã seguinte, com a geada ainda em Roma, abandonou as suas dependências no convento de Santa Maria, disposto a acabar definitivamente com aquele problema. Desafiando os acessos nevados à Cidade Eterna, Torriani subiu de mula até ao quartel de Betânia e solicitou que eu o recebesse com a maior brevidade. Ainda ignoro que termos empregou o irmão Gozzoli para informá-lo sobre as minhas ideias, mas era evidente que o havia impressionado. Eu jamais vira o nosso superior assim: duas bolsas roxas pendiam verticalmente sob o seu olhar cinza, apagando-o; as suas costas pareciam se vergar sob o peso de uma responsabilidade soturna, devorando pouco a pouco seu carácter alegre e afundando
uns ombros que também languesciam cada vez mais. Torriani, mentor, guia e velho amigo, consumia o que lhe restava de vida com as marcas da decepção gravadas no rosto. Contudo, por trás do brilho de seus olhos se denotava uma sensação de urgência: pode receber um pobre servo de Deus molhado e doente?, disse assim que me viu no átrio de Betânia. Eu mentiria se jurasse que não me surpreendi ao encontrá-lo ali tão cedo. Havia subido até ao nosso posto sozinho, sem séquito, com uma manta sobre o hábito e as sandálias cobertas por peles de coelho. Se o superior da Ordem de São Domingos abandonava assim a nossa sede e a sua paróquia e atravessava a cidade em pleno temporal para se encontrar com o responsável por seu serviço de informação, o assunto devia ser gravíssimo. E, embora o seu rosto sombrio convidasse a iniciar a conversa o quanto antes, não me atrevi a lhe perguntar nada. Aguardei até que tirasse os seus andrajos e terminasse a taça de vinho quente que lhe ofereci». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

Um Gato de Rua Chamado Bob. James Bowen. «Havia nele uma confiança calma e imperturbável. Parecia estar muito bem acomodado ali nas sombras e, a julgar pela forma como me fitava com um olhar firme»

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«Há uma citação famosa que li em algum lugar. Ela diz que recebemos segundas chances a cada dia de nossas vidas. Elas estão ali para serem agarradas, só que não costumamos agarrá-las. Passei grande parte da vida provando essa citação. Deram-me um monte de oportunidades, às vezes a cada dia. Por um longo tempo, falhei em não agarrar nenhuma delas, mas depois, no início da Primavera de 2007, isso finalmente começou a mudar. Foi quando fiz amizade com Bob. Olhando para trás, algo me diz que aquela pode ter sido a segunda chance dele também. A primeira vez que o encontrei foi numa sombria noite de quinta-feira, em Março. Londres ainda não havia se livrado do Inverno e ainda havia um frio cortante nas ruas, especialmente quando os ventos sopravam do Tamisa. Havia até mesmo um indício de geada no ar naquela noite, razão pela qual retornei para minha nova moradia subvencionada em Tottenham, no norte de Londres, um pouco mais cedo do que o habitual, depois de um dia fazendo apresentações de rua na região de Covent Garden. Como sempre, trazia o meu estojo de guitarra preto e a mochila pendurados nos ombros, mas naquela noite também tinha comigo a minha amiga mais próxima, Belle.
Nós havíamos saído juntos anos atrás, mas, agora, éramos apenas colegas. Pretendíamos comer alguma comida pronta e barata com curry e assistir a um filme na pequena televisão a preto e branco que eu conseguira encontrar numa loja de caridade virando a esquina. Como de costume, o elevador do prédio não estava a funcionar. Por isso, dirigimo-nos para o primeiro lance de escadas, resignados em encarar a longa subida até ao quinto andar. A lâmpada fluorescente no corredor estava queimada e parte do térreo estava imersa na escuridão, mas, enquanto caminhávamos para a escada, não pude deixar de notar um par de olhos brilhantes nas sombras. Quando ouvi um miado suave e ligeiramente melancólico, percebi o que era. Chegando mais perto, à meia-luz, vi um gato laranja enrolado sobre o capacho de um dos apartamentos do andar térreo, no acesso que partia do corredor principal. Cresci no meio de gatos e sempre tive certa queda por eles. Ao me mover até ele para olhá-lo melhor, constatei que se tratava de um macho. Eu não o havia visto antes perto dos apartamentos, mas, mesmo na escuridão, pude notar que havia algo de especial nele. Eu já era capaz de afirmar que ele tinha certa personalidade. Ele não estava nem um pouco nervoso; na verdade, era exactamente o oposto. Havia nele uma confiança calma e imperturbável. Parecia estar muito bem acomodado ali nas sombras e, a julgar pela forma como me fitava com um olhar firme, curioso e inteligente, era eu quem estava entrando no seu território. Era como se ele estivesse dizendo-me: então, quem és tu e o que e o fazes aqui?.
Não pude resistir a me ajoelhar e me apresentar. Olá, companheiro. Eu nunca te vi antes, moras aqui?, disse. Ele apenas olhou para mim com a mesma expressão compenetrada e um pouco distante, como se ainda me estivesse a avaliar. Decidi acariciar o seu pescoço, em parte para ser amigável, mas também, em parte, para ver se ele usava uma coleira ou qualquer forma de identificação. Era difícil ter a certeza no escuro, mas percebi que não havia nada, o que imediatamente me sugeriu que ele fosse um gato de rua. Londres tinha mais do que a sua justa cota deles. Ele pareceu estar a gostar do carinho e começou a se esfregar levemente contra mim. Enquanto eu o acariciava um pouco mais, pude perceber que sua pelagem estava em mau estado, com trechos irregulares sem pelos aqui e ali. Claramente, estava a necessitar de uma boa refeição. E, pela maneira como se esfregava contra mim, também precisava de uma boa dose de amor. Pobrezinho, acho que é um vira-lata. Ele não tem coleira e está muito magro, disse, olhando para Belle, que me esperava pacientemente ao pé da escada. Ela sabia que eu tinha um fraco por gatos. Não, James, tu não pode ficar com ele, disse ela, apontando para a porta do apartamento em frente à qual o gato estava sentado. Ele não pode ter simplesmente aparecido aqui e acomodado nesse local. Deve pertencer a quem vive aí. Provavelmente está esperando que a pessoa volte para casa e o deixe entrar. Relutantemente, concordei com ela. Eu não podia simplesmente pegar o gato e levá-lo para casa comigo, mesmo que todos os sinais indicassem que ele realmente não tinha um lar». In James Bowen, Um Gato de Rua Chamado Bob, 2012, Editora Novo Conceito, cdd 636-70929, 2013, ISBN 978-858-163-152-3 ou ISBN 978-858-163-291-9.

Cortesia de ENConceito/JDACT

Número Zero. Umberto Eco. «Mas o que espera o Comendador desta experiência? O Comendador pretende entrar no salão reservado da finança, dos bancos»

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«(…) Compreendi. Mas, se quiser que eu colabore lealmente, talvez seja bom me dizer quem paga, porque existe o projecto Amanhã, porque ele talvez não dê certo e o que é que vai dizer no livro que, modéstia à parte, será escrito por mim. Pois bem, quem paga é o comendador Vimercate. Deve ter ouvido falar dele... Sei quem é Vimercate, de vez em quando aparece nos jornais: controla dezenas de hotéis na costa Adriática, muitas casas de repouso para aposentados e inválidos, uma série de negócios variados sobre os quais correm imensos rumores, algumas televisões locais que começam a transmitir às onze da noite só leilões, televendas e alguns shows licencioso… E umas vinte publicações. Revistazecas, parece-me, fofocas sobre celebridades como Loro, Peeping Tom, e semanários sobre inquéritos judiciais como O Crime Ilustrado, O Que Se Esconde, porcarias, trash. Não, também revistas especializadas, jardinagem, viagens, automóveis, veleiros, O Médico em Casa. Um império. É bonito este escritório, não é? Até temos um ficus, uma figueira-da borracha, como os manda-chuvas da RAI. E temos à disposição um open space, como se diz na América, para os redactores; um pequeno estúdio para si, pequeno mas digno, e uma sala para o arquivo. Tudo grátis, neste prédio que reúne todas as empresas do Comendador. Quanto ao resto, a produção e a impressão dos números zero far-se-ão com o aparelho das outras revistas; assim o custo da experiência reduz-se de forma aceitável. E estamos praticamente no centro, não como os grandes diários que, hoje em dia, é preciso apanhar dois metros e um autocarro para lá chegar.
Mas o que espera o Comendador desta experiência? O Comendador pretende entrar no salão reservado da finança, dos bancos, e mesmo dos grandes jornais. O meio é a promessa de um novo jornal disposto a dizer a verdade sobre tudo. Doze números zero, digamos 0/1, 0/2, e por aí fora, publicados em pouquíssimos exemplares reservados que o Comendador avaliará e depois fará com que sejam vistos por pessoas que ele lá sabe. Quando o Comendador demonstrar que pode pôr em dificuldades aquilo que se chama de clube de elite das finanças e da política, é provável que o clube de elite lhe peça para parar com essa ideia, então ele desiste do Amanhã e consegue licença para entrar no clube de elite. Imagine, só para dar um exemplo, que apenas uns dois por cento de acções de um grande diário, de um banco, de um canal de televisão importante. Eu assobiara: dois por cento é muito! Ele tem dinheiro para um empreendimento desse tipo? Não seja ingénuo. Estamos falando de finanças, não de comércio. Primeiro compras, depois tratarás de que o dinheiro para pagar te chegue.
Compreendi. E também compreendo que a experiência só vai funcionar se o Comendador não disser que no fim o jornal não vai sair. Todos deverão acreditar que as suas rotativas estão a patear, por assim dizer... Naturalmente. Que o jornal não sairá, o Comendador não o disse nem a mim, simplesmente suspeito, ou seja, tenho certeza. E os nossos colaboradores não vão poder saber disso; vamos vê-los amanhã: eles precisarão trabalhar achando que estão a construir o seu futuro. Só eu e você é que estamos a par desta história. Mas o que ganha você com isso, se depois escreve tudo o que fizeram durante um ano para favorecer a chantagem do Comendador? Não use a palavra chantagem. Nós publicaremos, como diz o New York Times, all the news that’s fit to print... e talvez mais alguma… » In Umberto Eco, Número Zero, 2015, tradução de José Vaz Carvalho, Gradiva Publicações, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-616-643-4.

Cortesia de Gradiva/JDACT

O Tesouro do Templo. Eliette Abécassis. «Havia ali mil e cem túmulos profanados, com ossadas alinhadas num eixo de norte para sul, em que os esqueletos se achavam estendidos sobre as costas»

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«(…) A sul, Sodoma, destruída pelo fogo celestial, testemunha do cataclismo que, um dia, castigara a região. O cheiro a enxofre e as formas tenebrosas, esculpidas na areia e na rocha, revelam o império da destruição, o princípio do fim. Fora por isso que, dois mil anos antes, os essénios se haviam refugiado neste deserto, que se estende, a leste de Jerusalém, até à grande depressão do Ghor, onde o rio Jordão desagua no mar Morto, um deserto calmo e silencioso no qual se pode crer no fim dos tempos. A sul do nosso deserto, estende-se um outro, e a sul desse um outro ainda, onde Moisés recebeu as Tábuas da Lei. Em cada um desses desertos existem pastores imemoriais, testemunhas dos tempos, e os homens retiram-se do mundo para ir habitar o nosso deserto e deixar-se habitar por ele. Ao meio-dia, cheguei ao local do crime. O calor era sufocante. Passara em frente das grutas onde foram descobertos os restos de cerca de mil manuscritos, alguns remontando ao século III a.C., que tinham pertencido à nossa seita. Fora em 1947 que havia sido encontrado o primeiro jarro e assim começara a estranha história dos manuscritos do mar Morto, a descoberta arqueológica mais extraordinária de sempre. Desde os tempos em que aquele local era visitado em peregrinação, acreditava-se que nada de novo existia sob o solo da Judeia. Ao longo de dois milénios, os homens passavam ao lado daquele tesouro, ignorando que aqueles rolos de manuscritos, milagrosamente conservados em jarros, datavam da época de Jesus e se encontravam escondidos nas grutas de Qumran, em pleno deserto da Judeia, perto do mar Morto, a trinta quilómetros de Jerusalém.
Quando, em 1999, o grande sacerdote Osée, que participara na descoberta, fora encontrado crucificado na igreja ortodoxa de Jerusalém, a minha história pessoal cruzara-se com a dos manuscritos do mar Morto. Fora-lhe roubado um dos rolos e Shimon Delam, comandante do exército israelita, procurara meu pai, para lhe pedir que o ajudasse nas investigações. E eu, Ary, seu filho, havia-o acompanhado. Naquelas mesmas grutas, eu descobrira que, ao longo de inúmeras gerações, homens tinham vivido ali, sem que ninguém o soubesse, guardando e copiando os rolos de pergaminhos que constituíam os seus textos sagrados. Após mais meia hora de caminhada, alcancei a margem do mar Morto, e dirigi-me ao penhasco onde se achavam as ruínas de Khirbet Qumran. O local, selado pela polícia, estava deserto, aquela hora em que o Sol atingia o zénite. Passando por baixo do cordão que cercava o local do crime, avancei até ao cemitério contíguo às ruínas. Meu Deus! Como desejaria não me aventurar naquele vale de lágrimas, como gostaria de poder afirmar: não, não estive aqui, nada sei nem quero saber, nada vi, para não ser forçado a contemplar a terrível visão que se me deparou. Havia ali mil e cem túmulos profanados, com ossadas alinhadas num eixo de norte para sul, em que os esqueletos se achavam estendidos sobre as costas, com as cabeças viradas para sul. Existia ali um vale de ossadas expostas e eu ignorava porquê. Não soprava a menor brisa e, no entanto, parecia-me escutar como que um murmúrio: eram vozes, as vozes dos mortos, que se erguiam, na minha direcção, como se saíssem dos túmulos. As vozes de antepassados, atraídas pela santidade, pela pureza do acto e da intenção, que habitavam o último refúgio das suas aspirações, onde os homens zelavam ardentemente pelo cumprimento da lei de Moisés, onde aqueles essénios, os últimos dos últimos, cuja derradeira morada fora o deserto árido, tentavam, para lá dos seus túmulos, inspirar a Judeia, para que nunca se rendesse. A imensa progenitura de Judá e de Benjamin, tudo fazia por espalhar a mensagem e preservar a história de um povo. Foi então que reparei numa pequena cruz, perto de um aglomerado de pedregulhos e, quando ergui a cabeça, avistei o altar de pedra, erigido no meio do cemitério profanado, onde se procedera ao sacrifício. Uma faixa de plástico vermelho contornava-o e fora traçada, com giz branco, a silhueta de um homem. Tinham-lhe atado os pés e as mãos, antes de o matar, e degolado, como se fosse um cordeiro, em cima do altar, e sacrificado pelo fogo, que lançara o odor infame daquele homem em direcção ao Senhor. Havia sido necessário amarrá-lo firmemente, de modo a que ficasse completamente imobilizado e com o corpo retorcido, antes de lhe segurarem, com força, o pescoço e de lhe abrirem com um punhal de lâmina afiada. Fora preciso deixar que o seu sangue escorresse, a sua carne ardesse, até o fumo se elevar no ar. Por baixo, viam-se vestígios do lume, cinzas a toda a volta e, no altar, sete marcas de sangue». In Eliette Abécassis, O Tesouro do Templo, 2001, tradução de Catarina Lima, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CL/ELBrasil/JDACT

domingo, 26 de março de 2017

A Rosa de Sebastopol. Katharine Mc Mahon. «O meu querido, querido menino. Nunca te esqueças da tua Mamã, do muito que ela te amou»

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«(…) Ele apontou para uma minúscula moldura de madeira lisa, talvez com dez centímetros por sete e meio, que enquadrava um retrato de Eppie aparentemente nos seus tempos áureos, antes da penúria. Anéis de cabelo brilhante enfeitavam-lhe o rosto miúdo e do colo nu emergia o pescoço alongado. Envergava um vestido com a cintura subida que se lhe colava ao peito, apesar do amplo decote em V que terminava nos ombros. Posava quase de perfil, de tal modo que olhava algures para a direita do artista e ostentava um sorriso tímido, como se preferisse não ser o alvo das atenções. As outras relíquias da tia Eppie eram um par de luvas brancas de pelica com botões de pérola, um pouco encardidas na ponta dos dedos. Cheirei-as porque sabia que o perfume permanecia nas luvas, e lembrei-me imediatamente do aroma a água de rosas e do odor a transpiração que sempre a tinham caracterizado. Havia um pequeno guarda-jóias com flores bordadas na parte de cima, forro de seda e um espelho no interior da tampa. O anel de noivado de Eppie com uma fiada de três pequenos diamantes, que eu conhecia tão bem dos tempos da costura, estava embrulhado num pedaço de tecido amarrotado, junto de uma folha de papel dobrada de modo a caber exactamente na caixa. Nela, Eppie escrevera com uma mão pouco firme: para o Harry. O meu querido, querido menino. Nunca te esqueças da tua Mamã, do muito que ela te amou. Era muito meiga, a tua mãe, disse eu em surdina. Deixou-me a sua caixa de costura. Sabias?
Henry não respondeu. Agarrei-me ao seu pescoço e tentei abraçá-lo, mas ele não reagiu; continuava esquivo como no dia em que chegara. Pouco depois, desisti e afastei-me, mas, ao chegar à porta, ouvi um som roufenho e terrível que lhe saía da garganta e, quase sem dar por isso, encontrei-me sentada na cama, com a cabeça dele enterrada no meu regaço. Os meus dedos acariciaram-lhe o cabelo e a saia do meu vestido de algodão ficou quente e húmida com as suas lágrimas. Os seus soluços vinham das profundezas do corpo, e ele agarrou-se ao meu braço e às minhas costas. Por fim, recompôs-se e fitou-me, com o rosto molhado. Agora, terás de ser tudo para mim, Mariella.
A tia de Derbyshire não conseguiu operar um milagre no pai de Henry (o infeliz e incapaz Richard Thewell), que foi a enterrar passados dois verões. Entretanto, Henry desapareceu no longo túnel que era a aprendizagem da medicina, absorvido por uma série interminável de palestras e exames de disciplinas tão inatingíveis como a Química e a Fisiologia. Ambicionava ser cirurgião, e desconfio de que o meu pai lhe pagou muitas contas. De vez em quando, ao domingo à tarde, aparecia para beber uma chávena de chá à pressa, despejar informações fragmentadas sobre gessos, assistentes de cirurgia e turnos de trinta e seis horas sem sono, e partia uma hora depois, carregado de carnes frias e bolos preparados com esmero pela nossa cozinheira.
Os negócios do Pai prosperaram e, passado pouco tempo, já ele administrava vários projectos ao mesmo tempo e fora convidado a integrar diversos conselhos de administração e comissões ligados ao planeamento e às obras públicas. A Mãe andava mais atarefada do que nunca a dar aulas de catequese, a angariar dinheiro para a Female Aid Society e a visitar doentes em hospitais. Eu frequentava uma escola diurna, onde aprendi a tocar pianoforte, Francês, Aritmética e regras de conduta. Graças à tia Eppie, destacava-me na arte da costura». In Katharine Mc Mahon, A Rosa de Sebastopol, 2007, tradução de Filomena Duarte, Casa das Letras, 2010, ISBN 978-972-461-938-5.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças. Afonso Cruz. «A senhora Sors agradeceu. Havel Kopecky, o sobrinho do meu amigo, é um jovem muito atento ao que se passa no mundo»

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«(…) O dono da casa, o coronel Moller, era um homem sensível, capaz de admirar flores, e não raras vezes colhia algumas e punha-as no cabelo, ou atrás da orelha. Era imponente, sem ser alto, com um bigode que lhe chegava ao pescoço e com uma grande quantidade de pelos no nariz. Sabia ser autoritário, e nem outra coisa se poderia esperar de um oficial do exército, mas também sabia ser misericordioso, que era, aliás, o seu estado natural. No dia seguinte ao nascimento de Jozef Sors, o coronel entrou, com o seu filho ao colo, no quarto da engomadeira. Wilhelm, que tinha pouco menos de um ano, agarrava os bigodes do pai. O coronel felicitou a senhora Sors. Os nossos filhos estudarão juntos, disse o coronel. Já falei com o meu amigo Fischmann, cujo sobrinho, um jovem literato que começou agora a sua carreira de gramático, aceitou ser preceptor de ambos os rapazes.
A senhora Sors agradeceu. Havel Kopecky, o sobrinho do meu amigo, é um jovem muito atento ao que se passa no mundo. Ainda hoje me contou que um físico alemão chamado Röntgen descobriu uns raios que permitem ver o interior das coisas. Imagine, senhora Sors, qualquer dia, graças aos raios de Röntgen poderemos ver o interior do homem. A alma?, perguntou a senhora Sors. Completamente nua. Um dia poderemos imprimir a alma numa chapa de chumbo. Mas acho que, por enquanto, vamos apenas poder ver imagens dos nossos ossos. Parece-me horrível, haverá quem queira ver isso? Ha, ha, há, riu o coronel. Tem toda a razão, senhora Sors. Que imagem mais sinistra esta, de ver o aspecto que teremos depois de sete anos dentro de um caixão. Mas é importante, é assim que a medicina evolui e é por isso que pensamos na vida: porque se contempla a morte. Ver coisas que vulgarmente não vemos tem gradações de repulsa ou fascínio. Há um certo pudor quando se vê o que está debaixo das roupas, e, quando vemos ainda mais fundo, sentimos a vertigem do enjoo, do nojo. Desmaiamos quando vemos sangue. Não há visão mais terrível que a do interior do homem, seja anatomicamente seja moralmente. Então é bom? É terrível, mas é útil. Enfim, isto servia apenas para dizer como tenho em grande estima o futuro preceptor dos nossos filhos. Tenho andado na biblioteca a escolher alguns livros que considero imprescindíveis para a educação de uma criança. As crianças precisam é de comer, disse o mordomo, que acabara de entrar. Para crescerem fortes. Wilhelm agitou-se ao colo do pai. O coronel, fê-lo encostar a cabeça ao ombro. Wilhelm ficava sempre ligeiramente agitado quando via o mordomo. Há muitos tipos de comida, disse o coronel Möller enquanto abanava o filho. Um homem possui três estômagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabeça. O da barriga, toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respiração, que é a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem água e pão. E por fim há o estômago da cabeça, que se alimenta de palavras e de letras. Os primeiros dois estômagos do homem alimentam-se através da boca e do nariz, ao passo que o terceiro estômago se alimenta principalmente através dos olhos e dos ouvidos, apesar de usar tudo o resto de um modo mais subtil. Para mim, disse o mordomo, as palavras são uma grande palermice.

O Ponto. A Recta e a Circunferência
Quando Jozef fez quatro anos, Havel Kopecky começou a educar os dois rapazes. Lia-lhes textos clássicos sem se preocupar com a idade deles. Quem é que não entende Séneca?, interrogava-se Kopecky. Wilhelm, apesar de ser um ano mais velho do que Jozef Sors, demorou mais tempo a aprender a ler. Mas, em compensação, era capaz de cumprimentar o pai em esperanto, em francês e em latim. O coronel Möller ficava comovido e respondia: mi amas vin, que queria dizer isso mesmo, que estava comovido, mas dito na língua de Zamenhof. Porque a senhora Sors era uma mulher muito pequena, ao contrário do mordomo, que era muito alto, Jozef escreveu a história de amor dos seus pais, uma história que cativou Kopecky, acima de tudo pela expressão dos desenhos: a minha mãe é tão pequena que, vista de longe, parece um pontinho e o meu pai é tão alto que, visto de longe, parece uma linha, um risco de lápis. Mas vistos de perto são como toda a gente, têm braços, pernas, nariz e chapéu». In Afonso Cruz, O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, Editorial Caminho, colecção Romance Adulto, 2011, ISBN 978-972-212-615-1.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «No Amor, como na Vida, de quem é o triunfo? Dos fortes, dos que mentem, dos que batem, dos que falseiam»

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Carta III
«(…) É o Desejo que irmana a concubina da mulher honesta, o pobre do rico, o bom do mau. Acaso a alcova de uma honesta não tem visto bastantes prostituições? Há rameiras que são mais sóbrias e mais recatadas ao entregar-se do que a mais honesta das mulheres. Cada criatura tem latente em si uma Sodoma. Todos nós somos iguais. Filhos da Luxúria, escravos do Gozo, servos do Interesse. Iguais no nascimento e iguais na morte. Um fidalgo nasceu tão desastradamente como um moço de restaurant. Ninguém diferenciará na morte um cardeal do seu criado, um cabeleireiro de um palhaço, uma florista de uma arquiduquesa. Não somos acaso todos irmãos, ó meu irmão canalha? Da mulher do salão à mulher do esgoto há uma só diferença: a cama. A da primeira terá uma coroa bordada no travesseiro. A da segunda será a cama de uma hospedaria onde todos passaram, dormiram, que de todos foi usada. A primeira terá meias da Escócia, mitenes de Suède, perfumes de Circássia. A segunda nem às vezes terá meias, terá as mãos calejadas e grosseiras e cheirará a arrotos e suores. O amor da primeira é uma coisa leve como um Watteau, delicado como uma porcelana cara, magnífico como uma renda antiga. O amor da segunda é uma mancha, brutal como um soco ou um borrão. Não é verdade que uma rameira se entrega a um ladrão e uma açafata a um príncipe? Mas há marquesas que prostituem os cocheiros, condessas que levam murros do criado, servilhetas que são as baronesas dos barões. Pensa bem. Não há crime nenhum que não tenha saído de um ventre de mulher, nem que uma cova não contenha. Uma mulher? Mas o que é uma mulher? A mulher é o gozo. Tira-lhe a formosura e o que te fica? Nada.
Mulheres honradas? Nem a tua mãe! (?) Tu sabes quantos adultérios praticou a tua mãe para com teu pai! Nenhum. O que nunca, nunca tu me poderás dizer é quantos ela pensaria em praticar. Para seres feliz no Amor precisas de ser como na Vida: egoísta, seco e mau. Se não fores infame serás imbecil. Se fores romântico, sonhador e amoroso, elas inventarão para crucificar a tua paixão mil laços traiçoeiros, mil enganos, mil atrocidades. Se estimares a tua mulher serás atraiçoado por ela, como se estimares a tua mãe ela te difamará. Sê orgulhoso? Uma mulher? Há tantas mulheres por esse mundo! Um amor? Tantos amores virão substituir este. As mulheres ou se castigam ou se desprezam. E se desprezares a tua amante, ela inventará carícias mil para te apaixonar, te agradar, te satisfazer. A sua boca ardente carregada de beijos como uma árvore carregadinha de flor, tatuará no teu corpo uma legenda extraordinária de dedicações e de carícias. Sê pois canalha com as mulheres (??), que elas gostam dos infinitamente canalhas. Eis o dilema: beijava os pés à minha mulher e ela atraiçoava-me, bato-lhe e ela adora-me.
No Amor, como na Vida, de quem é o triunfo? Dos fortes, dos que mentem, dos que batem, dos que falseiam. Se queres ser feliz sê, como eu, brutal na posse, canibal na ambição, sem uma aresta de apego a uma alma, pisando sempre, avançando sempre, crânio de sílex na energia, coração de sílex nas dedicações e nas torpezas. O Amor faz tantos crimes como a guerra. Foi por amor que a minha vizinha fronteira despedaçou do quarto andar o corpo na calçada. Que este homem se deitou nos rails à passagem do comboio. Que aquela costureira tomou fósforos e está no hospital. Que estoutra se meteu a freira. Que esta afivelou à rival uma máscara de vitríolo que o tempo não apagará. Foi por amor que este homem roubou a casa onde estava empregado e se matou quando lhe bateu à porta a polícia; que este outro, que tu não conheces, vem ter comigo pedindo-me dinheiro para mandar um ramo à sua actriz, que o despreza, oferecendo-se-me em troca para matar um homem se preciso for; que este mancebo que passava todos os dias na minha rua, pensativo e tristonho, apareceu um belo dia enforcado no seu quarto; que aquele delirou de amor e acabou morto de frio numa rua. Que este homem se arruinou ao jogo para dar à amante; que este matou e foi degredado; que este roubou, entisicou, está na cadeia ou no hospital». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

Emma. Jane Austen. «Não gostaríamos tanto dela como gostamos se isso fosse possível, senhor. Mas ela sabe quanto o casamento é vantajoso para miss Taylor»

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«(…) De modo algum, senhor. Está uma bonita noite de luar, e tão amena que é preferível me afastar da sua lareira. Mas deve estar muito húmido e enlameado. Espero que não apanhe um resfriado. Enlameado, senhor? Olhe os meus sapatos, não têm nenhuma mancha. Bem, isso é surpreendente, pois choveu muito por aqui. Caiu uma chuvada terrível durante meia hora, quando tomávamos o café da manhã. Queria até que eles adiassem o casamento. A propósito, não lhes desejei felicidades. Sei bastante bem o quanto vocês dois estão felizes, por isso não me apressei em congratulá-los; mas espero que tudo tenha corrido razoavelmente bem. Como todos se comportaram? Quem chorou mais? Ah! Pobre miss Taylor! Isso é muito triste. Pobre mr. e miss Woodhouse, talvez, mas não posso dizer pobre miss Taylor. Tenho grande estima pelo senhor e por Emma, mas quando é uma questão de dependência ou independência... De qualquer forma, é melhor ter apenas uma pessoa para agradar do que duas. Especialmente quando uma delas é uma criatura caprichosa e impertinente!, disse Emma, brincando. Isso é o que o senhor quis dizer, eu sei... E o que certamente diria se meu pai não estivesse aqui. Acho que é bem verdade, minha querida, de facto..., disse mr. Woodhouse com um suspiro. Temo que às vezes eu seja bastante caprichoso e impertinente. Meu querido pai! Não pode acreditar que eu estivesse me referindo ao senhor, ou imaginar que mr. Knightley se referisse ao senhor. Que ideia horrível! Não! Eu me referia a mim mesma. Mr. Knightley adora encontrar defeitos em mim, o senhor sabe... De brincadeira. É tudo brincadeira. Sempre dizemos o que pensamos um ao outro. Mr. Knightley, de facto, era uma das poucas pessoas que podia encontrar defeitos em Emma Woodhouse, e a única que sempre os apontava para ela. Embora isso não fosse particularmente agradável para Emma, seria muito pior para seu pai; ele jamais imaginaria que ela não fosse perfeita para todos. Emma sabe que nunca a lisonjeio, disse mr. Knightley, mas não estendo isso aos outros. Miss Taylor estava acostumada a ter duas pessoas para agradar, agora só terá uma. As chances são de que ela saia ganhando. Bem, disse Emma, desejando mudar de assunto, o senhor queria ouvir sobre o casamento e ficarei feliz de lhe contar, pois todos nos comportamos de forma encantadora. Todas as pessoas foram pontuais, todas vestindo os seus melhores trajes, nem uma lágrima, e apenas uma ou outra cara triste. Ah, não! Todos sabemos que estamos a apenas oitocentos metros de distância, e certos de que vamos-nos ver todos os dias. A minha querida Emma suporta tudo tão bem, disse o pai. Mas saiba, mr. Knightley, que ela está de facto muito pesarosa de perder a pobre miss Taylor, e tenho certeza que vai sentir a falta dela mais do que imagina. Emma virou o rosto, dividida entre lágrimas e sorrisos. É impossível que Emma não sinta a falta de tal companheira, disse Mr. Knightley.
Não gostaríamos tanto dela como gostamos se isso fosse possível, senhor. Mas ela sabe quanto o casamento é vantajoso para miss Taylor, sabe que é perfeitamente aceitável que, a esta altura da vida, miss Taylor tenha a sua própria casa, e o quanto é importante a garantia de uma vida confortável com o marido. Portanto, só pode permitir-se sentir alegria por ela e não tristeza. Todos os amigos de miss Taylor devem estar felizes de vê-la tão bem casada. E o senhor esqueceu-se de outro motivo de alegria para mim, disse Emma, e muito importante: eu mesma planeei o casamento. Comecei a planeá-lo, o senhor sabe, há quatro anos. E conseguir que essa união acontecesse, provando que eu estava certa, quando todos diziam que mr. Weston jamais se casaria de novo, me consola de qualquer coisa. Mr. Knightley sacudiu a cabeça. O seu pai replicou afectuosamente: bem, minha querida, gostaria que não fizesse mais casamentos nem prognósticos, pois tudo que a menina diz sempre acaba por acontecer. Por favor, não faça mais casamento algum. Prometo não fazer nenhum para mim mesma, pai, mas devo fazer para os outros, de verdade. É a coisa mais divertida do mundo. E depois deste sucesso, então! Todos diziam que mr. Weston nunca mais se casaria. Ah, não! Estava viúvo há tanto tempo e parecia perfeitamente bem sem uma esposa, sempre ocupado com os seus negócios na cidade, ou aqui entre seus amigos, sempre benquisto em todos os lugares, sempre alegre... Mr. Weston não precisaria passar mais uma noite sequer sozinho se não gostasse disso. Ah, não! Mr. Weston com certeza jamais voltaria a se casar». In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

Gravidade. Tess Gerritsen. «Seis mil metros. Temperatura da água a 82 graus. No meio da chaminé, a temperatura devia passar de 260 graus»

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O Mar. Fenda de Galápagos. 0,30º S, 90,30º W
«(…) Meu Deus! Situação?, perguntou Helen. Steve, qual é a sua situação? Ele estava hiperventilando, coração disparado, em pânico. O casco. Terei danificado o casco? Junto ao ruído áspero de sua própria respiração, esperou pelo som do metal cedendo, pela explosão fatal. Ele estava a mais de mil metros abaixo da superfície, e mais de cem atmosferas de pressão o comprimiam como um punho fechado. Uma fenda no casco, uma explosão de água, e ele seria esmagado. Steve, fale comigo! Suando frio, ele finalmente conseguiu responder. Eu assustei-me..., colidi com a parede do desfiladeiro... Algum dano? Ele olhou para fora da cúpula. Não dá para ver. Acho que bati com o sonar de proa. Ainda consegue manobrar? Ele experimentou os controles, virando o aparelho para bombordo. Sim. Sim. Ele suspirou aliviado. Acho que estou bem. Algo passou bem perto da cúpula. Fiquei assustado. Algo? Passou com muita rapidez, como uma cobra. Um animal com cabeça de peixe e corpo de enguia? Sim. Sim, foi isso o que vi.
Então é um zoarcídeo. Thermarces cerberus. Cérbero, pensou Ahearn. E sentiu um calafrio. O cão de três cabeças que guarda os portões do Inferno. Ele é atraído pelo calor e pelo enxofre, disse Helen. Vai ver mais deles ao se aproximar da chaminé. Se está dizendo… Ahearn não sabia quase nada de biologia marinha. As criaturas que agora passavam diante da cúpula de acrílico eram meras curiosidades para ele, placas vivas indicando o caminho. Usando ambas as mãos, ele manobrou o Deep Flight IV para descer mais profundamente no abismo. Dois mil metros. Três mil. E se ele tivesse danificado o casco? Quatro mil metros. A pressão sufocante da água aumentava linearmente à medida que ele descia. A água tornava-se ainda mais escura, colorida pela fumaça sulfurosa que emanava da chaminé mais abaixo. As luzes das asas mal penetravam aquela densa suspensão de partículas minerais. Cego pelos sedimentos, saiu daquelas águas tintas de enxofre, o que melhorou um pouco a visibilidade. Descia um dos lados da chaminé hidrotermal, afastando-se das águas aquecidas pelo magma, embora a temperatura externa continuasse a subir. Quarenta e nove graus centígrados. Outro vulto passou diante de seu campo de visão. Desta vez, conseguiu manter o controle. Viu mais zoarcídeos que pareciam cobras gordas penduradas de cabeça para baixo, como se suspensas no espaço. A água que saía da chaminé lá em baixo era rica em sulfato de hidrogénio aquecido, uma substância tóxica e insalubre. Mas, mesmo naquelas águas escuras e venenosas, a vida conseguia florescer em belas e fantásticas formas. Grudados às paredes do desfiladeiro, estavam vermes cilíndricos gigantes com quase 2 metros de comprimento, oscilando os seus adornos de plumas escarlate. Viu aglomerados de mexilhões gigantes com cascas brancas e línguas vermelhas e aveludadas esticadas para fora. Também viu caranguejos, assustadoramente pálidos e fantasmagóricos, vagando entre as fendas. Mesmo com o ar-condicionado a funcionar, ele começava a sentir o calor.
Seis mil metros. Temperatura da água a 82 graus. No meio da chaminé, a temperatura devia passar de 260 graus. O facto de haver vida em plena escuridão e em águas venenosas e superaquecidas como aquelas parecia um milagre. Estou a 6.060, disse ele. Não vejo o que procuramos. No auscultador de ouvido, a voz de Helen soava fraca, repleta de interferências. Há uma saliência na parede. Vê-la-á por volta dos 6.080 metros. Estou procurando». In Tess Gerritsen, Gravidade, 1999, tradução de Alexandre Raposo, Editora Record, 2009 / 2012, ISBN 978-850-108-343-2.

Cortesia de ERecord/JDACT

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Vós só tendes o ramo florescente da árvore de Cibele mais amada, que nenhuma nascida em Benavente ou pelo rio abaixo até Almada»

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Festas bacanais. Argumento
«(…) Fazem concílio os bêbados de porte,
opõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;

favorece-os o Catigela forte,

no Lamarosa tem seu lava-dente.

De inveja Lieo lhes busca a morte,

descendo a Monte-mor contra esta gente,

que vê em rio Mourinho a acção traidora,

e a Peramanca chega venceora.



I

Borrachas, borrachões assinalados,

que de Alcochete junto a Vila Franca,

por mares nunca dantes navegados

passaram inda além de Peramanca:

em pagodes, e ceias esforçados,

mais do que se permite a gente branca,

em Évora cidade se alojaram,

onde pipas e quartos despejaram:



II

também as bebedices mui famosas

daqueles que andaram esgotando

o império de Baco, e as saborosas

águas do bom Louredo devastando;

e os que por bebedices valerosas

se vão das leis do reino libertando;

cantando espalharei por toda a parte,

se a tanto me ajudar Baco, e não Marte.



III

Cessem do Novelão, do gran Barbança

as grandes bebedices que fizeram;

cale-se do Rangel e do Carrança

a multidão dos vinhos que beberam,

que eu canto d'outra gente e doutra lança,

a quem frascos de vinho obedeceram:

cesse tudo o que a musa antiga canta,

que outro beber mais alto se alevanta.



IV

E vós, bacanais ninfas, pois criado

em mim tendes a sede tão ardente,

se sempre em largo copo espraiado

festejei vosso vinho alegremente,

dai-me agora um bom papo despejado

para beber à perda co'esta gente,

porque de vossas águas Baco ordene

um rio para bêbados perene.



V

Dai-me uma vasilha mui cheirosa,

seja de bom licor, não saiba a arruda,

de Peramanca seja que é gostosa,

o peito esforça, a cor ao gesto muda;

dai-me igual nome às taças da famosa

gente vossa que Baco tanto ajuda;

que se espalhe, e se cante no universo,

se tanta bebedice cabe em verso.



VI

E vós, Fernan Gonçalves, segurança

das festas de Lieo em esta idade,

podeis atravessar com confiança

quantas adegas há nesta cidade:

vós, mano, nosso amor, nossa esperança,

a quem só prometemos lealdade,

pois Baco a nós vos deu por cousa grande,

seja a medida assim de quem a mande.



VII


da árvore de Cibele mais amada,

que nenhuma nascida em Benavente

ou pelo rio abaixo até Almada.

Vede-o nas toalhas, que presente

vos mostra a bebedice já passada,

nas quais vivas lembranças vos deixou

o que de vinho mais se carregou.



VIII

Vós, alto taverneiro, cujo império

o bêbado em se erguendo vê primeiro,

ou beba neste nosso hemisfério,

ou beba lá nesse outro derradeiro:

e nem por isso sente vitupério

o fidalgo, o estudante, o cavaleiro,

antes o Turco, o Mouro, e o Gentio

lhes pesa não beber do vosso rio:



IX

inclinai por um pouco a majestade,

que no azamboado rosto vos contemplo,

quando fordes c'os mais desta cidade

ofertar-vos a Baco no seu templo:

os olhos da real bebecidade

ponde no borrachão, vereis exemplo

de amor de vossos vinhos saborosos

por bêbados louvados espantosos.



X

Então vereis se sois bem conhecido

de todos os amigos de Falerno;

que não é pouco ser obedecido

no estio, primavera, outono, inverno:

ouvi, vereis o nome engrandecido

daqueles de quem sois senhor superno;

e julgareis qual é mais excelente

se ser do mundo rei, se de tal gente».

[…]



In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.

Cortesia de IbaMendes/JDACT