quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. « Temos de desviar tudo isto, pois o meu pai escondeu a entrada até poder assentar lajes de pedra novas. Quando acabámos de afastar tudo, o suor escorria-me em bica pela cara»

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Castelo de Montmerle. Região da Borgonha. 25 de Julho de 1094
«(…) Já nas imediações do mosteiro, tentámos ocultar a nossa presença contornando a zona de maior densidade do bosque para chegarmos à igreja de S. Tiago, cerca de meia légua afastada das obras. Os homens trabalhavam no claustro e havia grande azáfama de pedreiros, serventes, canteiros, carpinteiros e gente dos restantes ofícios. Ouvia-se, como ruído de fundo, o barulho próprio da construção, mas os trabalhadores estavam demasiado longe para conseguirem ver-nos. Além disso, a maior parte deles estava concentrada nas suas tarefas ou encontrava-se na parte de dentro dos muros do claustro. O pai de Ernaud trabalhava nas colunas que sustentavam o tecto abobadado da sala do capítulo, pelo que não corríamos o risco de que nos visse. Não deixaria as suas tarefas antes do entardecer, altura em que iria trabalhar para a capela à qual nos dirigíamos, o que nos deixava tempo suficiente para a nossa aventura particular. Vimos o oratório de pedra encimado por uma cobertura de madeira e tinha seis janelas, três em cada parede, por onde entrava apenas uma nesga de luz. A portada era o que estava em pior estado de conservação e Gerverto Aurillac tinha colocado umas tábuas para que ninguém entrasse.
Depois de nos assegurarmos de que não estava ninguém por perto, corremos para a entrada da capela, retirámos uma das pranchas e entrámos. Deixámo-nos ficar calados por alguns instantes, ofegantes por causa da corrida e da preocupação que nos descobrissem. Aquilo era tão emocionante como perigoso e eu sabia que o castigo poderia ser exemplar! Dei graças a Deus pelo ar fresco que se conservava no interior devido às paredes de pedra e à escuridão. Pelas janelas passava apenas um pouco de luz sob a forma de feixes fugazes que trespassavam o duro alabastro, desaparecendo em seguida, engolidos pela escuridão. A igreja tinha três naves estreitas, com colunas recuperadas de construções anteriores. O pequeno presbitério, de forma semicircular, ficava à parte, separado por três arcos em que se colocavam cortinados para ocultar o oficiante dos olhos dos fiéis durante as liturgias, embora ninguém celebrasse missa naquele altar havia muito tempo. Ernaud encaminhou-se para a direita. Junto à entrada encontrava-se todo o arsenal de pedras meio aparelhadas, pranchas, ferramentas de trabalho e areia.
Temos de desviar tudo isto, pois o meu pai escondeu a entrada até poder assentar lajes de pedra novas. Quando acabámos de afastar tudo, o suor escorria-me em bica pela cara. Tratava-se de um alçapão estreito, feito de três pranchas presas umas às outras com apoios de ferro, com duas argolas a servirem de maçanetas. Ernaud rodou a da direita e, naquele momento, ouviu-se o ruído áspero de um ferrolho a abrir-se. Depois, agarrou as duas argolas e puxou com força, mas o alçapão não se moveu nem um milímetro! Preciso da tua ajuda. Não consigo levantar isto sozinho; é demasiado pesado.
Fu pouca força tinha, mas esforcei-me ao máximo e puxei juntamente com ele. Demorámos um bom bocado a conseguir que o alçapão se erguesse. Porém conseguimo-lo, ainda que muito lentamente, e encostámo-lo ao muro, libertando assim a entrada. Fitámos ambos o buraco escuro que se abria aos nossos pés. Apenas se viam uns degraus toscos, que se perdiam nas entranhas da terra. Ernaud abriu a bolsa de pano que levava a tiracolo e retirou de lá uma pedra, um pouco de palha e uma grossa vela de sebo. Em seguida, bateu com a pedra até as faíscas acenderem o pavio da vela. Por fim, olhou-me e sorriu, nervoso. Vou à frente. Tem cuidado, não escorregues». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

Cortesia SEmergência/JDACT

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Santa Teresa de Jesus. Poesia. «Mas se pelas minhas obras não esperas, porque esperas, clementíssimo Senhor meu? Porque tardas? Porque, se, enfim…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Oração da alma enamorada
«Senhor Deus, amado meu!
Se ainda Te recordas dos meus pecados,
para não fazeres o que ando pedindo,
faz neles, Deus meu, a tua vontade,
pois é o que mais quero,
e exerce neles a tua bondade e misericórdia
e serás neles conhecido.
E, se esperas por obras minhas,
para, por meio delas, me concederes o que te rogo,
dá-as Tu, e opera-as Tu por mim,
assim como as penas que quiseres aceitar
e faça-se.
Mas se pelas minhas obras não esperas,
porque esperas, clementíssimo Senhor meu?
Porque tardas?
Porque, se, enfim,
há-de ser graça e misericórdia
o que em teu Filho te peço,
toma a minha insignificância,
pois a queres,
e dá-me este bem,
pois que Tu também o queres.
Quem se poderá libertar dos modos
e termos baixos
se não o levantas Tu a Ti em pureza de amor,
Deus meu?
Como se levantará a Ti o homem
gerado e criado em baixezas,
se não o levantas Tu, Senhor,
com a mão com que o fizeste?
Não me tirarás, Deus meu,
o que uma vez me deste
em teu único Filho Jesus Cristo,
em quem me deste tudo quanto quero.
Por isso folgarei pois não tardarás,
se eu espero.
Com que dilações esperas,
pois, se desde já podes amar a Deus
em teu coração?
Meus são os céus e minha é a terra;
minhas são as gentes,
os justos são meus, e meus os pecadores;
os anjos são meus
e a Mãe de Deus
e todas as coisas são minhas;
e o mesmo Deus é meu e para mim,
porque Cristo é meu e todo para mim.
Que pedes pois e buscas, alma minha?
Tudo isto é teu e tudo para ti.
Não te rebaixes
nem repares nas migalhas
que caem da mesa de teu Pai.
Sai para fora de ti e gloria-te da tua glória,
esconde-te nela e goza,
e alcançarás as petições do teu coração».
In Santa Teresa de Jesus (Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada)
S. João da Cruz. As mais belas páginas de S. João da Cruz. Ditos de Luz I, 25-27

Feliz o que ama a deus
«Ditoso o coração enamorado
Que só em Deus coloca o pensamento;
Por Ele renuncia a todo o criado,
Nele acha glória, paz, contentamento.
Vive até de si mesmo descuidado,
Pois no seu Deus traz todo o seu intento.
E assim transpõe sereno e jubiloso
As ondas deste mar tempestuoso».
In Obras Completas Santa Teresa de Jesus (Edições Loyola, 2002).

Cortesia de Carmelo São José. Cruz Alta.

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Santa Teresa de Jesus. Poesia. «Que me escolheu para Si; quando o coração Lhe dei com terno amor lhe gravei: que morro porque não morro»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nada te turbe
«Nada te turbe. Nada te espante. Tudo passa. Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta!»
In Santa Teresa de Jesus

Morro por que não morro
«Vivo sem viver em mim,
E tão alta vida espero,
Que morro porque não morro.
Vivo já fora de mim,
Desde que morro d’Amor
Porque vivo no Senhor
Que me escolheu para Si;
Quando o coração Lhe dei
Com terno amor lhe gravei:
Que morro porque não morro.
Esta divina prisão
Do grande amor em que vivo,
Fez a Deus ser meu cativo,
E livre o meu coração;
E causa em mim tal paixão
Ser eu de Deus a prisão,
Que morro porque não morro.
Ai que longa é esta vida!
Que duros estes desterros!
Este cárcere, estes ferros
Onde a alma está metida.
Só de esperar a saída
Me causa dor tão sentida,
Que morro porque não morro.
Ai, que vida tão amarga
Por não gozar o Senhor!
Pois sendo doce o amor,
Não o é, a espera larga;
Tira-me, ó Deus, este fardo
Tão pesado e tão amargo,
Que morro porque não morro.
Só com esta confiança
Vivo porque hei-de morrer.
Porque morrendo, o viver
Me assegura a esperança;
Morte do viver s’alcança;
Vem depressa em meu socorro,
Que morro porque não morro.
Olha que o amor é forte;
Vida, não sejas molesta,
Olha que apenas te resta
Para ganhar-te o perder-te;
Vem depressa doce morte
Acolhe-me em teu socorro
Que morro porque não morro.
Do alto, aquela vida
Que é a vida prometida,
Até que seja perdida
Não se tem, estando viva;
Morte não sejas esquiva;
Vem depressa em meu socorro,
Que morro porque não morro.
Vida, que possa eu dar
A meu Deus que vive em mim,
Se não é perder-te enfim,
Para melhor O gozar?
Morrendo O quero alcançar,
Pois nele está meu socorro
Que morro porque não morro».
In Santa Teresa de Jesus (Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada)

Cortesia de Carmelo São José. Cruz Alta.

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A Intriga de Compostela. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «De seguida, chamou Pêro Pais e pediu-lhe que lutasse ferozmente nas próximas batalhas. Fazei-o por mim, meu filho. Se Afonso Henriques vencesse, o futuro de Portugal passaria pelos seus rebentos…»

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A intriga de Compostela 1140-1142
Guimarães. Outubro de 1140
«(…) Ele desaprovava a união da minha cunhada a Afonso Henriques. Um devaneio pecaminoso, dizia-me, além de me relembrar a existência de conversas com a casa da Sabóia. Contudo, sempre que lhe falavam no tema e mesmo na ausência de Chamoa, Afonso Henriques enxofrava-se. Para casar com alguém de fora, mais valia tê-lo feito com a Zaida!. Pelo menos, essa entregava-me a Andaluzia! Que me pode dar uma princesa da Sabóia? São terras longínquas, de nada me servem! Meu pai não o contestou, mas o sibilino arcebispo de Braga, também presente, notou mais uma vez que as preferências femininas do príncipe não se recomendavam. Uma normanda, uma moura e Chamoa? Nenhuma delas pode ser rainha!, resmungou João Peculiar. Embora estes argumentos fossem compreensíveis, meu pai e o arcebispo subestimavam o sentimento geral dos portucalenses, em cujos corações se mantinha vivo o ódio aos Trava. Naquela sala, havia poucos que não tivessem um motivo de rancor à notável família galega. Os ajustes de contas encontravam-se por fazer.
João Peculiar e Egas Moniz estavam, pois, isolados, não porque os restantes portucalenses não quisessem combater os mouros, mas porque julgavam prioritário regressar à Galiza. E foi isso que ficou decidido naquele Outono. Unidos à volta de Afonso Henriques, juntaríamos tropas e faríamos a guerra a norte do rio Minho, mostrando ao Trava e ao imperador que não iríamos parar antes de ver reconhecidos os direitos antigos do nosso príncipe.
Quando reportei a Maria e a Chamoa as decisões tomadas naquela reunião magna, a minha cunhada mostrou-se agradada, sobretudo porque seu pai seria finalmente colocado sob a protecção de Afonso Henriques. Porém, notei nela um obscuro, mas silencioso, tormento, que só tempos depois identifiquei. A pérfida intriga que Afonso VII lançara em Tui punha em causa Egas Moniz, que era também um dos principais opositores à união de Chamoa com o príncipe de Portugal. Havia, portanto, uma luta escrita nas estrelas, o meu pai contra Chamoa. Mas, se esta falasse na intriga de Compostela, a sua união com Afonso Henriques poderia não resistir ao embate com os conselheiros do rei.
Egas e Peculiar querem-me fora da corte…
Ou Afonso Henriques derrotava em definitivo Fernão Peres Trava e Afonso VII, tornando-se o rei de Portugal e da Baixa Galiza e obrigando os portucalenses a aceitarem Chamoa como rainha, ou ela sofreria uma perda dolorosa, talvez irreparável. Preocupada, retirou-se para o quarto e embalou o recém-nascido Fernando Afonso.
Sereis rei, meu menino?
De seguida, chamou Pêro Pais e pediu-lhe que lutasse ferozmente nas próximas batalhas. Fazei-o por mim, meu filho. Se Afonso Henriques vencesse, o futuro de Portugal passaria pelos seus rebentos, foi a conclusão da bela Chamoa, que desde criança sonhava ser rainha! E se perdermos?, perguntou-lhe Pêro Pais. A minha cunhada engoliu em seco. Não queria expandir a terrível intriga de Compostela, por isso rezou com fervor.
Apóstolo Santiago, dai-me uma grande vitória!
Queridos filhos e netos, que pena tenho de que também Chamoa não tenha confiado em mim, confessando-me as suas angústias desagradáveis, as noites sem dormir provocadas por aquela historieta velhaca! Eu estimava-a e teria sido um empenhado aliado em proteger a reputação do nosso amado Afonso Henriques, mesmo sabendo que isso implicaria um provável conflito com Egas Moniz. Um rei está acima do nosso pai. É duro, mas é assim». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

A Intriga de Compostela. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «A melhor estratégia era avançar no Sul, lutando contra os mouros, ajudando assim a investida paralela do imperador na Andaluzia e caindo nas boas graças do papa»

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A intriga de Compostela 1140-1142
Guimarães. Outubro de 1140
«(…) Perto do altar estavam também os restantes quatro rapazes da minha cunhada, com Pêro Pais à cabeça, bem como os dois rebentos com que Maria me brindara; e ainda a filha e os filhos de Teresa de Celanova e meu pai, Egas Moniz. No final da longa celebração, o barulho que o bando de crianças fazia à porta da capela era intenso e, por isso, Afonso Henriques as convocou, para distribuir guloseimas e bolos, afastando-as dos adultos. Cercado de meninos e meninas, já com três descendentes, apaixonado por Chamoa, orgulhoso dos seus novos castelos no Sul, como Penela ou Pombal, Afonso Henriques parecia feliz, mas eu sabia que ainda lhe faltava o reconhecimento final a que aspirava. Por mais que o arcebispo de Braga, João Peculiar, escrevesse ao papa Inocêncio II propagandeando a estrondosa vitória obtida em Ourique sobre os muçulmanos, o pontífice não aceitara reconhecer o príncipe como rei, tal como acontecia com Afonso VII.
Seja como for, os últimos tempos haviam sido pacíficos e só quando Gomes Nunes chegou atrasado para o baptizado de mais um neto pressenti o fim do remanso. O meu sogro vinha afogueado, mas solitário, pois Elvira Peres Trava recusara-se a comparecer, alegando que a família Trava jamais iria pacificar as suas querelas com o Condado Portucalense. Contudo, bem mais preocupantes do que os amuos de minha sogra eram as notícias que o seu marido nos trazia: Virgem Santíssima, o Trava quer a guerra!, contou Gomes Nunes. E Afonso VII quer banir-me e tirar-me Toronho! Ao ouvir tais palavras, Afonso Henriques exclamou: esses territórios são meus, não de meu primo! O velho sonho de dominar a Baixa Galiza, que nascera com o conde Henrique e com sua mãe, voltava a contagiá-lo e, surpreendentemente, também à sua amada. Agora que já dera um menino ao príncipe de Portugal, Chamoa Gomes aspirava a mais. Sendo também uma Trava, tinha um pé na Galiza e outro em Portugal e podia reinar em ambos os territórios, ajudando de caminho o seu pai, Gomes Nunes, a permanecer na posse de Toronho. O imperador não nos pode tirar Tui!, protestou ela.
A seu lado, o embevecido príncipe de Portugal concordou, declarando que assim se fundiam dois desejos antigos: o dele, de reinar na Baixa Galiza, e o dela, de ser rainha desde Compostela até Leiria. Agradada, Chamoa saiu, pacificada, da sala do castelo, acompanhada pela minha Maria, por Teresa Celanova e pelo grupo de crianças. Porém, mal estas se deixaram de ouvir levantou-se uma voz opositora de tantos devaneios. Era Egas Moniz. Tendes ambição a mais! Meu pai assistira à longa guerra que consumia a Galiza, trespassada por conflitos sangrentos entre o arcebispo Gelmires, os Trava, dona Teresa e sua irmã, a louca rainha Urraca, mãe de Afonso VII. Reeditar tais desgraças afigurava-se intolerável para um pacificador nato, que abominava lutas entre cristãos e sempre defendera que o Sul era o nosso sublime desígnio. Conquistai antes Santarém e Lisboa, pois só assim o papa e o imperador vos farão rei!, afirmou Egas Moniz.
O atribulado dilema que atravessara a nossa última década persistia. Qual a prioridade portucalense? O Sul, a luta contra os mouros? Ou o Norte, a união com a Galiza? O pacto de Tui fora cristalino, a faixa galega a norte do rio Minho não pertencia a Afonso Henriques, mas o príncipe de Portugal moía cada vez mais a irritação de ter assinado tal compromisso num momento de fragilidade. Já meu pai, embora defendesse que Afonso Henriques tinha direito a reinar no Condado Portucalense e na Baixa Galiza, considerou que ele devia apresentar essas justas pretensões de forma pacífica, procurando a aprovação do primo. A melhor estratégia era avançar no Sul, lutando contra os mouros, ajudando assim a investida paralela do imperador na Andaluzia e caindo nas boas graças do papa. Além disso..., murmurou Egas Moniz, olhando para a porta por onde há pouco saíra Chamoa. Tendes de pensar numa esposa real!» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Assim Nasceu Portugal. A Intriga de Compostela. Domingos Amaral. «… a normanda Elvira Gualter, a antiga amante de Afonso Henriques, cuja presença em Guimarães incomodava deveras Chamoa, uma mulher sempre muito ciumenta»

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A intriga de Compostela 1140-1142
Tui. Maio de 1140
«(…) Depois, para exibir o seu poder imperial, e com o mesmo tom agradável, Afonso VII terminou proferindo uma ameaça séria. Um imperador tudo pode. Se Chamoa não agisse e Gomes Nunes persistisse naquela recusa desonrosa, a punição imperial seria drástica: o conde de Toronho seria banido do Castelo de Tui e destituído do seu título! O quê?, exclamou Pêro Pais, enfurecido. O visado angustiou-se em silêncio e até Elvira não teve alma para reagir. O primeiro a falar foi o Trava, que subitamente animado e já cavalgando aquela horrível fantasia, olhou com desdém para o jovem Pêro Pais e o ofendeu: pior do que vosso pai ter sido morto por Afonso Henriques era tê-lo sido por um embusteiro! Para evitar que o impetuoso rapaz puxasse do punhal, o seu amigo Gualdim pousou-lhe a mão no braço, sentindo-o enrijecer de raiva. Pêro Pais há muito que sabia que seu pai, Paio Soares, fora morto por Afonso Henriques. Ciúme fatal, por causa do amor que ambos tinham a Chamoa. Mas uma coisa era perdoar ao pai, ao príncipe e à mãe essa distante tragédia amorosa; outra, bem diferente, era ouvir gozações insultuosas na boca do principal responsável por Paio Soares e Afonso Henriques se terem tornado inimigos. Havereis de engolir essas palavras!, rosnou Pêro. O Trava riu-se, bem como a avó Elvira, que perorou: ameaças de um petiz, nem chegam ao nariz. Quem não se riu foi Gomes Nunes, porque a partir daquela data tinha a cabeça a prémio. Coçou o pescoço com a mão, já lhe doía. Ou esclarecia com Chamoa aquela antiga trama, ou perdia Toronho para sempre...
Queridos filhos e netos: hoje, quando vos conto isto, no meu coração encontro ainda um lamento magoado, por meu sogro não me ter descrito este desagradável encontro em Tui. Gomes Nunes era um bom homem. Dávamo-nos bem, conversávamos muito quando eu e Maria Gomes o íamos visitar a Tui ou ele vinha a Guimarães, havia entre nós respeito mútuo suficiente para ele ter confiado em mim, revelando-me a desagradável malícia que Afonso VII e o Trava espalhavam. Se o tivesse feito, muita confusão se evitaria, mas a verdade é que se calou, impossibilitando-me de investigar a intriga de Compostela à nascença. A trombeta do Diabo começara a soar.

Guimarães. Outubro de 1140
Nesse Verão, Gomes Nunes deve ter contado à filha a intriga de Compostela, mas esta não a partilhou com ninguém, por razões mais do que óbvias. Chamoa estava grávida de Afonso Henriques, teria a criança no Outono, era impensável a mãe lançar dúvidas sobre a identidade do pai do rebento antes de este nascer.
Sou tola, mas não sou estúpida.
Além disso, depois da promessa que o príncipe lhe havia feito, de que não casaria com outra mulher, Chamoa convencera-se de que um dia seria rainha de Portugal, sonho que alimentava desde criança. A vil intriga do imperador foi, pois, provisoriamente enterrada e a minha cunhada deu à luz o primeiro filho de Afonso Henriques.
Este é dele, não há dúvidas.
O menino recebeu o nome de Fernando Afonso e quem levou as velas à pia baptismal foram as filhas de dona Teresa e Fernão Peres, Sanchinha e Teresa Trava, logo seguidas pelas primeiras filhas do meu melhor amigo, Urraca e Teresa, tremendamente loiras como sua mãe, a normanda Elvira Gualter, a antiga amante de Afonso Henriques, cuja presença em Guimarães incomodava deveras Chamoa, uma mulher sempre muito ciumenta.
Porque a convidou o Afonso? Quer filhá-la?» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «Entretanto, o Verão de 1096 estava em pleno vigor, e nos reinos flamengos e ducados franceses, incluindo a Borgonha, reuniam-se exércitos, colocando as selas…»

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140 A. C., numa terra do oeste da Ibéria chamada Lusitânia...
«(…) As instruções de Afonso aos cavaleiros Henrique e Raimundo eram simples: reconquistar as partes da Galiza e de Portucale roubadas pelos mouros. O que fariam admiravelmente, com os dois borgonheses a granjear grande reputação pelos serviços prestados durante oito anos, reconquistando território a sul até ao rio Tejo, incluindo a cidade de Lisboa. Como prova do seu apreço por Raimundo, Afonso, o Bravo, ofereceu-lhe a mão da sua filha Urraca em casamento e concedeu-lhe o governo da Galiza como feudo pessoal. O igualmente corajoso Henrique, descendente dos reis francos pela linha masculina, bisneto do rei Roberto I, filho do duque Henrique de Borgonha e sobrinho da segunda mulher de Afonso, recebeu em casamento a mão da filha ilegítima de Afonso, dona Tareja, juntamente com um dote de terras em Castela. Em qualquer outra era, isto teria parecido um acordo simples, mas sendo o século XI, nem na própria família se podia confiar, e mal Raimundo se juntara a Urraca em matrimónio, o sogro descobriu a sua ambição de expandir o seu recém-adquirido território galego. Assim Afonso, o Bravo, concebeu um plano astuto para o impedir, atribuindo a Henrique e Tareja uma fatia do território contíguo,  o condado de Portucale, que, naquele momento, estava sob a suserania de Raimundo. Essencialmente, Afonso enfraqueceria as pretensões do genro mais ambicioso fazendo de Raimundo um vizinho imediato do seu primo Henrique, ao mesmo tempo que estabelecia os territórios de ambos como dependências do seu reino de Castela e Leão. E, finalmente, algum sentido de ordem tem efeito sobre a região. Pelo menos por agora.
Entretanto, o Verão de 1096 estava em pleno vigor, e nos reinos flamengos e ducados franceses, incluindo a Borgonha, reuniam-se exércitos, colocando as selas e partindo para leste na árdua Cruzada à Terra Santa. Quando a notícia deste mais nobre empreendimento chegou a Afonso VI, o rei espanhol jurou incondicionalmente dar um contributo pessoal, mas com os mouros a fazer constantes incursões no seu reino, retomando até Lisboa, Afonso estava demasiado ocupado com as próprias campanhas em casa para se aventurar no estrangeiro. Em vez disso, enviaria ajuda à Primeira Cruzada através do seu confiável genro Henrique, que agiria em seu nome. Aqui, as relações familiares funcionaram a favor de Henrique (a segunda esposa de Afonso também era borgonhesa), para não falar da sua educação na iluminada Casa de Borgonha. Nesta época, o ducado da Borgonha era o epicentro de um renascimento, a encruzilhada comercial e intelectual da Europa, e dado que Henrique e Afonso eram antigos alunos deste círculo liberal, ambos partilhavam, sem dúvida, laços intelectuais, bem como uma visão comum do mundo. Em troca do seu compromisso de navegar os quatro mil quilómetros até Jerusalém, e em parte para manter o primo Raimundo sob controlo, o recém-sogro de Henrique concedeu-lhe ainda o governo da cidade portuária de Porto Cale e do território circundante.
Para um homem que nascera o filho mais novo, e portanto esperava alcançar pouca riqueza ou herança por título, Henrique de Borgonha saiu-se bem. Após receber a antiga terra dos lusitanos, foi-lhe atribuído o título de conde e retirou-se, entusiasmado, para a sua nova propriedade de montanhas, charneca, costa e florestas, adoptando os costumes locais, aprendendo a língua portuguesa, mudando o seu nome para conde dom Henrique, em sinal de respeito. Em vez de ficar na cidade de Porto Cale, optou pelas colinas verdejantes e pela interior cidade de Guimarães, já venerada no seu tempo como local de peregrinação, após o que concedeu um foral à cidade e estabeleceu ali a capital do condado de Portucale.
Com os assuntos do Estado em ordem, dom Henrique parou brevemente para desfrutar da sua nova e maravilhosa vida, antes dos preparativos para embarcar na longa viagem até à Palestina, com o objectivo de libertar a Igreja do Santo Sepulcro. Mal sabia ele que a sua decisão marcaria um momento crucial na história de Portucale, pois as pessoas que conheceria em Jerusalém moldariam o destino deste território. Henrique partiu de Porto Cale rumo a Génova, na costa norte de Itália, e juntou forças com um dos exércitos cruzados, provavelmente o liderado pelo filho do rei francês, depois prosseguiu com a frota até ao antigo porto de Jafa, desembarcando cinquenta e três quilómetros a oeste dos portões de Jerusalém. O seu sentido de oportunidade não podia ter sido melhor, coincidindo com a chegada dos cruzados que desciam sobre a cidade vindos do Norte, empoeirados pelos meses de marcha laboriosa pelo Levante». In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de AlmadosLivros/JDACT

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «Os dois cavaleiros nobres, Henrique e o seu distante, mas muito mais ambicioso, primo Raimundo, filho de Guilherme, o Grande, conde da Borgonha, partiram para o Norte da Ibéria a pedido de Afonso VI…»

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140 A. C., numa terra do oeste da Ibéria chamada Lusitânia...
«(…) A sua influência ainda se reflecte na origem dos nomes de locais de toda a Europa, como o rio Danúbio, ou as Paps of Anu, as lendárias colinas sagradas da Irlanda, em tempos veneradas por outra lendária raça celta, os tuadhe d’anu, o povo de Anu. Como tantas raças antigas, diz-se que os tuadhe implementaram a matemática, a agricultura, as artes e a música; possuíam o belo dom do temperamento e do conhecimento que lhes dava controlo sobre as forças da natureza, e esses atributos fizeram com que fossem comparados a deuses. O chefe dos lusitanos, Viriato, era celebrado como um líder celtibérico possuidor das mais nobres das antigas virtudes. Era honesto, justo e fiel à sua palavra, e as suas estratégias brilhantes venceram muitas guerras contra poderosas forças romanas, ao ponto de o recrutamento nas legiões ter baixado significativamente. Só através da traição é que os romanos se tornaram senhores deste pedaço de terra ferozmente independente no vértice da Europa e do Atlântico. Basta dizer que um ressentimento profundo, quase ódio, por todas as coisas romanas persiste até hoje no ADN dos seus habitantes.
Os lusitanos eram também um povo incrivelmente espiritual. Acreditavam na sobrevivência da alma, no Outro Mundo, e que em certas zonas da Terra há uma força especial que pode ser mobilizada para fazer a ligação a domínios que existem para lá dos cinco sentidos. Tais crenças encontrariam continuidade no mais celta dos sacerdócios, o dos druidas, que também encontrou um lar na Lusitânia, bem como na Galiza, a norte; e numa tribo celta na região da Dinamarca chamada burgundii, que um dia daria nome à província francesa da Borgonha. Os druidas tinham outra coisa em comum com os lusitanos: eram odiados e temidos na mesma medida por Júlio César, e ele fez questão de os obliterar a ambos durante a sua vida.
Depois de os romanos virem, verem, conquistarem e inevitavelmente perderem, a Lusitânia mudou de nome e lealdade inúmeras vezes, dependendo do vento político do mês. As regiões montanhosas são assim: de mente independente, espírito autónomo, teimosas até ao âmago. Porém, no século IX, a paisagem política começou a estabilizar, ou relativamente, pelo menos, dado que esta era a turbulenta Idade das Trevas, e fê-lo em torno de uma aldeia apropriadamente chamada Cale. Cale situava-se na foz do rio Douro (rio de Ouro), que corre para o oceano Atlântico no Norte do que é hoje Portugal. Os troianos foram talvez um dos primeiros grupos a instalar-se em Cale, pois o nome deriva da palavra grega kallis (belo), referindo-se à sinuosa beleza do fértil vale do Douro. Dada a forma como os troianos passaram por esta região na sua viagem rumo à Grã-Bretanha, a hipótese é consistente. Cale é também um etnónimo derivado da tribo celta que se instalou na região, os callaici, cujo nome provém da fonte da sua veneração, a deusa Cailleach, presente até hoje na tradição irlandesa. Assim, os callaici ou gallaeci associaram o seu nome ao respectivo lar no estuário, que se expandiu para Porto Cale (belo porto). O seu nome também se encontra em regiões importantes localizadas ali perto: Gaia, Galiza, e mais tarde o gal em Portugal. Mas estamos a adiantar-nos.
Com a evaporação dos lusitanos e dos romanos, a história local torna-se tão fácil de explicar como o padrão de tráfego dentro de um monte de térmitas. Em resumo, o Noroeste da Ibéria era geralmente conhecido como Galiza. Algures por volta do ano 848, entre as muitas conquistas e reconquistas que caracterizam a fluida estabilidade desta região, Porto Cale expande-se de simples porto para a região de Portucale, uma faixa costeira entre os rios Douro e Minho. O território de Portucale leva então uns duzentos anos a libertar-se do jugo da Galiza; primeiro, passa a governo único no ano de 950, depois é governado como feudo até 1050, mas vinte anos decorridos é reincorporado no reino da Galiza. Por volta de 1083, só para acrescentar mais ingredientes a esta complexa caldeirada, dois primos da Casa de Borgonha chegam de Dijon a cavalo.
Os dois cavaleiros nobres, Henrique e o seu distante, mas muito mais ambicioso, primo Raimundo, filho de Guilherme, o Grande, conde da Borgonha, partiram para o Norte da Ibéria a pedido de Afonso VI, rei de Castela e Leão, Galiza e Portucale. Cognominado o Bravo, Afonso VI atribuíra a si mesmo a ingrata tarefa de integrar todos os diferentes reinos espanhóis, metade dos quais sob domínio muçulmano, tal como partes das suas províncias. Mas, embora isto exigisse combater os sarracenos, mouros e outros árabes, Afonso VI parece ter sido um governante algo iluminado, pois não fez julgamentos generalizados sobre os inimigos. Continuou a oferecer protecção aos muçulmanos no seu território, cunhou moedas em árabe e admitiu na sua cama a princesa refugiada muçulmana Zaida de Sevilha». In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de AlmadosLivros/JDACT

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «Durante a convalescença, Pedro contou, com todos os pormenores, como as pessoas, que os tinham precedido sob a sua orientação, se haviam mostrado destituídas de inteligência…»

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1096. Agosto. Com o exército do Norte, preparando-se para partir…
«(…) Foi assim que, na Primavera de 1097, os cruzados chegaram, por fim, à Anatólia com a ajuda dos navios do imperador. Contudo, quando o exército de Godofredo se preparava para sitiar Niceia, descobriram que Comneno estabelecera um tratado secreto com os turcos, no qual a rendição da cidade era garantida ao imperador, fazendo assim com que parecesse que fora o seu exército bizantino, e não os cruzados, a ganhar o conflito. Após a traição, Godofredo e os irmãos, juntamente com os respectivos exércitos de cruzados, viraram para sul, em direcção a Jerusalém, e retomaram o seu intento original.

1098. Na Estrada Deserta perto de Antioquia...
À distância, pareciam fósforos escurecidos brilhando ao calor que se erguia das planícies áridas do Levante. Quando os cavaleiros cruzados os alcançaram na Síria, a Cruzada do Povo somava menos de dez por cento das almas desesperadas que haviam ousado sair dos reinos francos. As histórias eram horrendas. Padres que viajavam entre eles provocavam os peregrinos, sugerindo que os turcos engoliam os seus valores de modo a escondê-los dos assaltantes. Por isso, sempre que capturavam um, os peregrinos abriam--lhe a barriga, e dedos ávidos sondavam os intestinos ensanguentados, procurando tesouros escondidos. Os peregrinos eram por sua vez chacinados pelos igualmente bárbaros turcos. Os que capturavam vivos eram expostos nas praças das cidades e usados para tiro ao alvo pelos arqueiros. Os sobreviventes eram devolvidos ao deserto, onde tinham, por vezes, de beber a própria urina. Ou morriam à fome. Quanto a Pedro, o Eremita, o seu zelo fora finalmente encurtado pelos turcos, que o torturaram. Godofredo Bulhão ficou satisfeito só por o encontrar ainda vivo. O cavaleiro desmontou do seu cavalo, abraçou o emaciado evangelista como um amigo há muito perdido e fez com que cuidassem dele até recuperar alguma saúde.
Durante a convalescença, Pedro contou, com todos os pormenores, como as pessoas, que os tinham precedido sob a sua orientação, se haviam mostrado destituídas de inteligência, imprevidentes e intratáveis ao mesmo tempo, e por isso era muito mais por sua culpa do que pelos feitos de qualquer outro que haviam sucumbido ao peso das suas calamidades. Renovado o seu vigor, o monge prosseguiu a viagem com o exército de Godofredo nos restantes quilómetros de pó, areia e rocha ainda entre eles e Jerusalém. Que Godofredo parece ter marchado para a Terra Santa com um objectivo próprio desde o início tornou-se evidente no seu envolvimento com os turcos. Embora o seu papel no exército fosse importante, o seu envolvimento nas batalhas e escaramuças no Levante mostrou-se insignificante. E batalhas não faltaram. Escrevendo à esposa em França, o cavaleiro Étienne Henri Blois tinha esperança de que os restantes quatro mil e oitocentos quilómetros até Jerusalém levassem apenas cinco semanas a percorrer. Na verdade, demorou dois anos até os cruzados terem um vislumbre da cidade que tanto haviam perseverado para alcançar.

140 A. C., numa terra do oeste da Ibéria chamada Lusitânia...
Um anteriormente imparável Júlio César estava enfadado: há uma civilização nos confins nórdicos da Ibéria que não se governa e não se deixa governar. A tribo que lhe daria e às subsequentes legiões romanas duzentos anos de irritações eram os lusitanos, uma tribo celta cujo nome se traduz como povo da luz de Ani. Ani é uma das divindades principais do mundo celta, uma variante da deusa suméria Inanna. Em encarnações posteriores, volta a surgir como Santa Ana, avó de Jesus. Independentemente dos seus muitos derivados, Ana, Anu, Annan, Danu, Dana, era considerada a mãe dos deuses». In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de AlmadosLivros/JDACT

A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. «Quando saímos do castelo, o silêncio letárgico era quebrado apenas pelo zunido contínuo e estridente das cigarras, que parecia advertir-nos para a canícula insuportável»

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Castelo de Montmerle. Região da Borgonha. 25 de Julho de 1094
«(…) Ernaud era dois anos mais velho do que eu e tinha uma cabeleira farta, de cor alaranjada, que lhe dava um certo ar de inocência. A sua pele era coberta de sardas e tinha uns olhos grandes e castanhos. Era filho de Gerverto Aurillac, um canteiro que trabalhava nas obras do mosteiro de São Pedro. O conde de Montmerle, meu pai, desenvolvera um afecto especial por ele porque, três anos antes, me tinha salvado a vida ao retirar-me, exausta, do rio em que eu tinha caído acidentalmente e no qual me teria afogado se não fosse o arrojo daquele rapaz. Desde então, o meu pai passou a tratá-lo como a um filho, e, o que era mais importante para mim, a deixar-me participar nas suas brincadeiras de miúdo e a permanecer na sua companhia, acabando assim com o tédio terrível que me invadia durante os longos dias em que não tinha mais o que fazer senão bordar, ler textos em latim em livros aborrecidos e impossíveis de compreender e desenhar letras em pedaços de pele gordurosa que me eram dados por Munia que, desde o casamento com o meu pai, se tornara a minha mestra. No entanto, passado o tempo da infância, tenho de reconhecer que foi graças ao esforço daquela mulher e à sua paciência infinita que aprendi a ler e a escrever correntemente em latim, a bordar os tecidos mais delicados com arte e a fazer cálculos mentais com os jogos de números que também ensinava a Ernaud.
Quando saímos do castelo, o silêncio letárgico era quebrado apenas pelo zunido contínuo e estridente das cigarras, que parecia advertir-nos para a canícula insuportável. Percorremos as duas léguas que nos separavam do mosteiro de São Pedro, um cenóbio que se encontrava sob a protecção do condado de Montmerle desde a sua origem. Passámos dias a planear a forma de entrarmos sem sermos vistos na igreja de S. Tiago um pequeno oratório que, aquando das obras de ampliação, tinha ficado fora do recinto do grande claustro, já na fase dos acabamentos e no qual se tinha erguido um grande templo, digno da comunidade que já vivia no cenóbio, para além das restantes dependências monacais, de acordo com as estritas regras de construção beneditinas. A igreja de S. Tiago fora a origem do mosteiro. Mandada construir havia mais de trezentos anos por um dos primeiros condes de Montmerle, encontrava-se num estado de conservação lamentável e Gerverto Aurillac dedicara os três meses anteriores a trabalhos de restauro para a manter de pé. É que o pai de Ernaud gostava daquela capela, que já não era utilizada para nenhuma liturgia. Fizera aqueles trabalhos por sua conta, já que nem o abade, nem muito menos o meu pai, estavam dispostos a pagar uma moeda que fosse para salvá-la da ruína em que se encontrava. Gerverto tinha chegado a um acordo com o abade Edgardo: todos os dias poderia dedicar o final da jornada a remodelar e escorar os periclitantes muros da capela sem cobrar nada. Quem o ajudava nessas tarefas era Ernaud, o único disposto a trabalhar sem receber. O pai estava a ensinar-lhe o ofício, mas o sonho dele era tornar-se cavaleiro, pois o meu pai tinha-lhe metido na cabeça que o faria seu escudeiro quando completasse quinze anos de idade e, se visse que tinha valor, armá-lo-ia cavaleiro. A perspectiva de vir a ter espada e cavalo parecia-lhe mais emocionante do que passar a vida a aparelhar pedra e a erguer muros, apesar da paixão que o seu pai lhe transmitia quando lhe falava do oficio de canteiro.
Alguns dias antes, ao levantarem o chão de uma das naves laterais, tinham descoberto um alçapão de madeira escondido sob as lajes de pedra. Custara-lhes muito levantá-lo mas, quando o conseguiram, depararam-se com uma pequena cripta escavada na rocha. O pai decidiu manter em segredo a descoberta daquele túmulo subterrâneo e obrigou-o a prometer que não falaria daquilo a ninguém. Ernaud não pôde aceder ao interior porque o pai lho proibiu, pelo que teve de ficar à espera, de vigia, circunstância que lhe despertou uma curiosidade quase obsessiva pelo subterrâneo. Quando me propôs a estranha visita, aquilo pareceu-me uma aventura fascinante. Porém, obrigou-me a dar-lhe a minha palavra em como não falaria dela a ninguém. Será o nosso segredo, Mabilia. Ninguém deve ficar a saber da existência desse lugar. Promete-me que não dizes a ninguém! Será o nosso segredo, confirmei. Promete!, insistiu. Prometo-te que não falarei disto com ninguém. Nem com Orengarda ou com Munia... Com ninguém! - atalhei, com um gesto irritado e completamente segura do que lhe dizia.
Ernaud era meu amigo e eu jamais o trairia! O meu pai ensinara-me pouca coisa ao longo da minha vida, mas eu aprendera com ele que um homem sem palavra não era verdadeiramente um homem, e, apesar de ser menina, assumi o dever de fidelidade para com aqueles que gostavam de mim e Ernaud era uma dessas pessoas. Portanto, tinha a certeza de que jamais desvendaria o nosso segredo. Confio em ti..., murmurou». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

Cortesia SEmergência/JDACT

A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. «Era o momento ideal para que ninguém nos impedisse de sair e a oportunidade de nos movimentarmos com a liberdade de que necessitávamos sem levantarmos qualquer suspeita»

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Ano da Era do Senhor de 824. A origem de tudo
«(…) Muito bem... Pedirei audiência ao rei Afonso para lhe comunicar esta descoberta tão surpreendente. Decidirei, com ele, o que fazer em relação a este lugar e, sobretudo, a esta inventio, declarou, alçando a vista e fixando a todos com o olhar. Guardareis segredo até ao meu regresso, disse, concentrando-se na figura do eremita. Ouviste-me bem, Paio?! Será como desejais, Eminência, exactamente como desejais! Não quero alimentar esta questão enquanto não souber exactamente como a vou conduzir. Nada receeis, Eminência, respondeu o eremita. Asseguro-vos que serei como um túmulo. Limitar-me-ei a dar graças a Deus por esta descoberta milagrosa. A história recordar-vos-á como o descobridor de tão excelsas relíquias. O bispo olhou-o enquanto assentia com um ligeiro movimento da cabeça, mas o seu gesto transmitia a sombra de uma dúvida amarga. Martín sentiu pena dele, mas teria tempo de o convencer de que aquele prodígio, como lhe chamava Paio, poderia vir a ser altamente benéfico para todos. Seria uma questão de tempo. Intimamente, sentia-se muito satisfeito com o que tinham decidido. Era uma boa solução.
A visita ao rei Afonso, a quem chamavam O Casto por causa da sua manifesta recusa em ter contacto com mulheres, foi tão frutífera quanto o bispo podia esperar de um assunto tão falho de argumentos. Pôs o monarca ao corrente da descoberta milagrosa e deu por certo que o apóstolo S. Tiago tinha pregado por aquelas terras. Como justificação para o esquecimento terrível a que tinham sido votadas as sagradas relíquias, Teodomiro argumentou com o facto de os discípulos do apóstolo que guardavam o seu túmulo se terem visto obrigados a manter um silêncio prudente sobre a existência e o paradeiro do mesmo devido ao perigo evidente de este ser profanado e os restos do santo destruídos, para que não pudessem ser venerados. Graças a esta ignorância, a este esquecimento das consciências, o corpo ficara resguardado, durante séculos, de possíveis afrontas. Os rumores sobre o paradeiro dos restos mortais ter-se-ão transformado numa vaga lenda, que foi passando quase inadvertida de geração em geração até que, com o tempo, Beato, o monge de Liébana, acabou por a retomar nos seus escritos. Disse ainda que, para se chegar a estas conclusões, foram necessárias as sugestões de Martín de Bilibio, que se mostrava entusiasmado com a descoberta milagrosa do locus Sancti Iacobi, descoberta essa que ia sendo aceite pelos fiéis com o mesmo entusiasmo que lhe embargava a voz à medida que se ia tornando conhecida.
O rei Afonso entendeu os argumentos de Teodomiro, apesar de ter feito alguns reparos, pois ele próprio tentava transformar Oviedo num lugar de peregrinação, com relíquias importantes. Não obstante, também compreendeu a súplica do bispo iriense, que sentia a necessidade imperiosa de proporcionar um chamariz aos seus fiéis. Além do mais, com isto esperava apaziguar as revoltas que, de vez em quando, eclodiam na Galiza e o obrigavam a desviar homens e esforços que eram melhor empregues em assuntos de maior importância. Uma vez convencido, o rei aceitou acompanhar o bispo ao lugar a que já chamavam de locus Sancti Iacobi, na clareira do bosque de Libredón. Aí, ordenou a construção de uma igreja de madeira, pedra e argamassa para albergar e amparar o túmulo em que jaziam os supostos restos mortais do santo, construção essa que, no parecer do próprio Teodomiro, não se assemelhava, nem de longe, aos admiráveis edifícios que se erguiam em Oviedo. Limpou-se toda a zona em redor, aplanou-se o terreno cortaram-se árvores e, com o passar dos anos, acabou por se erguer, nas proximidades, um mosteiro, onde foram instalados os monges encarregues de cuidar da sepultura e de organizar os crentes, que logo começaram a afluir para se prostrarem diante das relíquias do Santo Apóstolo.

Castelo de Montmerle. Região da Borgonha. 25 de Julho de 1094
Trago presente o dia em que entrámos naquela cripta com tal clareza como se o tivesse gravado com um cinzel na minha memória. Tinha ficado na companhia de Ernaud depois do almoço, altura em que a maior parte dos habitantes do castelo dormitava à fresca sombra interior dos muros por causa da terrível canícula que se fez sentir naquele 25 de Julho. Era o momento ideal para que ninguém nos impedisse de sair e a oportunidade de nos movimentarmos com a liberdade de que necessitávamos sem levantarmos qualquer suspeita. Saí do quarto em segredo numa altura em que Munia, a mulher do meu pai, se concentrava num livro que pareceu prender toda a sua atenção durante horas a fio, como se tudo em seu redor tivesse deixado de existir e ela só encontrasse interesse no que as letras lhe contavam. Estava completamente segura de que não se distrairia da sua leitura quando eu saísse, nem sequer quando ouvisse os gritos abafados de Orengarda que, ao ver-me descer as escadas íngremes, protestaria pela minha atitude descarada em vez de me revelar uma menina bem comportada e comedida. Tinha acabado de completar dez anos de idade e continuava a não aceitar a condição que me obrigava a pentear as minhas grandes tranças diariamente ou a envergar um incómodo vestido até aos pés, com o qual asfixiava de calor em vez de umas calças e uma camisa solta, como usavam os rapazes e que me permitiam movimentar-me com facilidade, tal como eles». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

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A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. «Os olhares que Teodomiro e Paio trocaram entre si chegaram a provocar arrepios em Martín, sem que este compreendesse muito bem porquê. Em seguida, o bispo ordenou aos soldados…»

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Ano da Era do Senhor de 824. A origem de tudo
«(…) Há lugares em que as relíquias dos santos aumentam a importância das igrejas que as guardam, interveio Paio, dirigindo-se ao bispo. Porque não ter na nossa diocese relíquias que resgatem os fiéis ao ostracismo em que vivem? Não negará Vossa Eminência que necessitamos de um estímulo que sacuda as consciências dos crentes, que há algum tempo lho reclamam. As gentes sentem-se atemorizadas pelo perigo muçulmano e a sua fé quebra-se quando assistem, indefesas, à destruição dos seus lares ou à morte dos seus entes queridos sob as espadas dos infiéis sem que ninguém lhes valha e perante a passividade geral. Teodomiro fez uma pausa para digerir este discurso. Ninguém acreditaria em nós..., murmurou o bispo, cabisbaixo e pensativo enquanto passava a mão pelo altar. O que pensas de tudo isto, Martín?, perguntou, cruzando o olhar com o do escriba. Martín ficou pensativo e com o olhar perdido durante alguns instantes. Apesar da sua desconfiança, não deixava de reconhecer que não lhe parecia má ideia a possibilidade de recorrer à existência de relíquias tão importantes como as do apóstolo S. Tiago. A proposta milagrosa era tentadora. Eminência, começou, comedido e prudente, como bem sabeis, fui vítima desta violência quando era criança e asseguro-vos que, se não fosse a firmeza e profundidade da minha fé, teria duvidado até do próprio Deus! Temos de pensar em proporcionar uma âncora aos fiéis indefesos, abandonados e perdidos, que facilmente se entregam às práticas pagãs enraizadas nestas terras, às quais se sentem demasiado apegados para as fazerem desaparecer. Talvez..., hesitou, olhando para Paio por momentos, talvez estejamos perante alguma grande inventio, Eminência; talvez esta seja a descoberta milagrosa de relíquias num lugar em que se desconhecia a sua existência. Devemos dar graças a Deus por isto.
Teodomiro olhou para ele, abatido. Sabia que o seu escriba tinha razão, pois, para seu desespero, o desânimo disseminara-se demasiado. A propagação de rituais pagãos baseados em tradições ancestrais e dedicados a divindades da natureza trazia-o assaz preocupado. As pessoas não encontravam motivos para apegar-se à fé num Deus que parecia abandoná-los a cada razia. O desânimo geral era evidente e o bispo sentia-se incapaz de encontrar uma forma de convencer os espíritos atribulados de tantos inocentes. Nem sequer sabemos o que há debaixo deste altar! Mas podemos descobrir, retorquiu Martín. Não será melhor deixarmos os mortos dormirem em paz o seu sono eterno?, perguntou Paio, pela primeira vez inquieto perante a possibilidade de se abrir a sepultura. Já que nos preparamos para venerar estes restos mortais como os do Santo Apóstolo, respondeu o bispo, determinado, pelo menos quero saber o que está dentro deste túmulo! Chamai os soldados e ordenai-lhes que removam o altar.
Tiveram de afastar-se para permitir que os homens tornassem a fazer força para erguer a pedra. Em menos de nada, o ar tornou-se tão irrespirável que estiveram a ponto de sair, mas o altar foi deslocado sem grande dificuldade, deixando a descoberto um buraco revestido de pedra com dois palmos de profundidade, quatro de largura e mais de seis de comprimento, em cujo fundo se via um monte de ossos desordenados. Contaram três corpos, visto que havia três caveiras. Teodomiro olhou pensativo para o interior da sepultura. O que vos apoquenta?, perguntou Martín. O bispo olhou-o demoradamente, com os olhos brilhantes e um ar grave. Eis aqui a minha condenação, Martín. Não será assim, pois o fazeis para maior glória de Deus. A descoberta destas relíquias atrairá a atenção da cristandade para esta terra. É um milagre!, acrescentou Paio. Um milagre..., murmurou Teodomiro, com um gesto abatido, um milagre que me condena para sempre ao Inferno!
Os olhares que Teodomiro e Paio trocaram entre si chegaram a provocar arrepios em Martín, sem que este compreendesse muito bem porquê. Em seguida, o bispo ordenou aos soldados que tornassem a colocar a pedra que servia de altar no sítio. Quando saíram para o exterior, já quase amanhecia. O bispo manteve-se em silêncio por um bocado, concentrado nos seus próprios pensamentos. Os soldados, esgotados pelo tempo passado sem dormir e pelo esforço realizado, afastaram-se um pouco, resmungando entre dentes. Paio e Martín continuaram à espera, até que o bispo acabou por falar, em tom firme. Tinha tomado uma decisão». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

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