quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Faraó Negro. Christian Jacq. «Os trabalhos estavam a chegar ao fim e tinham sido içados os últimos cestos de pedras e argamassa destinados a modelar a montanha para lhe dar o aspecto pretendido»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Piankhi apreciava a coragem de Puarma. E este último estava convencido que aquele encontro nada tinha a ver com o acaso. Majestade... Devemos preparar-nos para um conflito? Não... Ou, pelo menos, não sob a forma que imaginas. O inimigo nem sempre ataca onde esperamos. Na minha própria capital, há quem deseje que eu me ocupe menos dos deuses e mais dos seus privilégios. Reúne os teus homens, Puarma, e coloca-os em estado de alerta. O capitão dos archeiros curvou-se perante o seu rei e partiu a correr para Napata, enquanto Piankhi continuava a contemplar a paisagem atormentada da catarata. Da fúria das águas e da eternidade implacável da rocha, o faraó negro absorvia a energia indispensável para cumprir a sua missão. A felicidade... Sim, Piankhi tinha a sorte inestimável de saborear a felicidade. Uma família feliz, um povo que comia o que queria e se alimentava também dos dias tranquilos que se escoavam ao ritmo das festas e dos rituais. E ele, o faraó negro, tinha o dever de preservar essa serenidade.
A pureza do ar tornava perceptível o menor ruído. E Piankhi conhecia bem aquele: o choque regular dos cascos de um burro no carreiro. Um burro que transportava Cabeça-fria, escriba de elite e conselheiro de Piankhi. Um burro que se alegrava por ter um dono leve, dado que Cabeça-fria era um anão de rosto severo e busto admiravelmente proporcionado. O escriba habitualmente não se afastava do seu gabinete, o centro administrativo da capital. Se tinha empreendido aquela viagem, a razão devia ser séria. Até que enfim que vos encontro, Majestade! O que se passa? Um acidente no estaleiro, Majestade. Um acidente grave.
Dominando Napata, a capital do faraó negro, os mil metros da montanha pura, o Gebel Barkal, abrigavam o poder invisível do deus Amon, o Oculto, que estava na origem de toda a criação. Situada quinze quilómetros para jusante da quarta catarata e rodeada de desertos, Napata encontrava-se no entanto no meio de uma planície fértil à qual iam dar diversas pistas de caravanas. Desta forma, os súbditos de Piankhi não tinham falta nem de produtos de primeira necessidade, nem de iguarias requintadas, nem mesmo de artigos de luxo. Mas os caravaneiros não estavam autorizados a instalar-se em Napata, a não ser que mudassem de profissão. Apenas eram admitidos para uma breve estada, o tempo de vender as suas mercadorias e repousar um pouco. Todos sabiam que Piankhi dispunha de imensas riquezas, mas eram reservadas para o embelezamento dos templos e manutenção do bem-estar da população. Os raros casos de corrupção tinham sofrido pesadas penas, indo até à condenação à morte. O faraó negro não tolerava as faltas graves à regra de Maât e muito poucos imprudentes se arriscavam a sofrer a sua cólera.
Montanha isolada em pleno deserto, o Gebel Barkal fascinava Piankhi desde a infância. Quantas horas tinha passado junto das falésias abruptas que dominavam a margem direita do Nilo! Com o correr dos anos, formara-se no seu coração um projecto insensato: fazer falar a montanha pura, talhar o pico isolado, num dos seus ângulos, para fazer dele o símbolo da monarquia faraónica. O empreendimento apresentava-se como perigoso, mas Piankhi entregava-se a ele há dois anos com a colaboração de voluntários. Como o pico estava separado da massa da montanha por uma ravina com a largura de doze metros e a profundidade de sessenta, fora necessário escavar buracos na rocha para enfiar traves e montar um gigantesco andaime com o auxílio de aparelhos de elevação rudimentares mas eficazes.
Seguindo as indicações do faraó mestre-de-obra, os escultores, sentados em estreitas plataformas, tinham talhado o pico do Gebel Barkal De leste, as pessoas julgavam ver um enorme uraeus, a cobra fêmea erguida e adornada com a coroa branca; de oeste, a coroa vermelha e o disco solar. No extremo do cume tinha sido gravada uma inscrição hieroglífica em honra de Amon. Um ourives fixara também um painel coberto de folhas de ouro para reflectir a luz da madrugada e evidenciar de forma deslumbrante, todas as manhãs, o triunfo da luz sobre as trevas. Por baixo do painel, um nicho guardava uma serpente uraeus em ouro. Os trabalhos estavam a chegar ao fim e tinham sido içados os últimos cestos de pedras e argamassa destinados a modelar a montanha para lhe dar o aspecto pretendido. Conta-me o que se passou pediu Piankhi a Cabeça-fria. Um escultor quis contemplar a sua obra de perto e não respeitou as regras de segurança. A meia altura, escorregou numa viga. Queres dizer...? Morreu, Majestade. E o seu assistente não é melhor do que ele: lançando-se de forma estúpida em socorro do patrão, foi dominado pelas vertigens e não pôde fazer um gesto». In Christian Jacq, O Faraó Negro, 1997, Bertrand Editora, 1998, ISBN 978-972-251-049-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

O Faraó Negro. Christian Jacq. «Embora tivesse o título de rei do Alto e do Baixo Egipto, Piankhi não saía da sua capital, Napata. Coroado aos vinte e cinco anos, o faraó negro reinava há vinte anos…»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Musculoso, excelente nadador, o rapaz tinha a intenção de conquistar todas três. Visto que não tinham fugido, isso não equivalia a dar o seu consentimento de forma implícita? No entanto, a rude região da quarta catarata do Nilo não fazia sonhar com o amor. Correndo surpreendentemente de nordeste para sudoeste, o rio exibia a sua força selvagem, abrindo com dificuldade passagem por entre os blocos de granito ou de basalto e as ilhotas inóspitas que tentavam travar o seu curso. Nas margens hostis, a areia e as pedras concediam apenas um pequeno espaço para as fracas culturas; e os ueds (cursos de água temporários das regiões desérticas) que penetravam no deserto ficavam secos durante quase todo o ano. Vigorosas palmeiras-tamareiras agarravam-se a encostas abruptas que, aqui e além, se transformavam em falésias escuras. Para os viajantes que passavam na região da quarta catarata, esta revelava-se como uma antecâmara do inferno. Mas Puarma vivera naquela solidão uma infância maravilhosa e conhecia o menor recanto daquele labirinto rochoso. Com perfeito controlo, atraiu os búfalos para uma espécie de canal onde poderiam refrescar-se em perfeita segurança. Vinde, disse ele às três beldades. Já não há perigo nenhum! Elas consultaram-se com o olhar, trocaram algumas frases risonhas e depois saltaram com agilidade de rocha em rocha para se irem juntar ao rapaz.
A mais audaciosa saltou para o dorso de um búfalo e estendeu os braços em direcção de Puarma. Quando ele tentou agarrá-la, recuou e deixou-se cair para trás. Nadando por baixo de água, as duas companheiras agarraram o rapaz pelas pernas e puxaram-no para si antes de voltarem à superfície. Encantado por tornar-se seu prisioneiro, Puarma acariciou um seio admirável e beijou uns lábios ardentes. Nunca agradeceria suficientemente aos búfalos do seu primo por terem tido a ideia de fugir. Entregar-se aos jogos do amor com uma jovem núbia flexível como uma liana era um momento de graça, mas tornar-se o brinquedo de três amantes ávidas e inventivas assemelhava-se a um impossível paraíso... Na água, Puarma fingiu lutar para conservar uma relativa autonomia mas, quando elas o arrastaram para a margem, cessou qualquer resistência e abandonou-se aos seus mais audaciosos beijos. De repente, a que se tinha estendido em cima dele soltou um grito de susto e levantou-se. As duas companheiras imitaram-na e todas três debandaram como gazelas. Mas o que é que vos deu?... Voltem! Despeitado, Puarma levantou-se por sua vez e voltou-se.
Em pé sobre um rochedo que dominava o ninho de amor estava um colosso de um metro e noventa, com a pele de um negro de ébano que brilhava sob o sol ardente. Com os braços cruzados, usando um saiote de linho branco imaculado, o pescoço adornado por um fino colar de ouro, o homem tinha um olhar de rara intensidade. Puarma ajoelhou e tocou com a testa no solo. Vossa Majestade... Ignorava que estáveis de regresso. Veste-te, capitão dos archeiros. Puarma era um valente que não hesitava em bater-se a um contra dez, mas suportar o olhar do faraó negro ultrapassava as suas forças. Tal como os outros súbditos de Piankhi, sabia que uma força sobrenatural animava o soberano e que só ela lhe permitia reinar. Majestade... Estará prestes a rebentar algum conflito? Não, sossega. A caça foi excelente e decidi regressar mais cedo do que estava previsto. Piankhi tinha o costume de meditar naquele caos rochoso de onde contemplava o seu isolado país que tanto amava. Rude, hostil, secreta, aparentemente pobre, a Núbia profunda, tão distante do Egipto, formava almas fortes e corpos vigorosos. Aqui se celebravam todos os dias as núpcias do sol e da água, aqui soprava um vento violento, ora glacial ora ardente, que modelava a vontade e tornava os seres capazes de enfrentar as provações quotidianas.
Embora tivesse o título de rei do Alto e do Baixo Egipto, Piankhi não saía da sua capital, Napata. Coroado aos vinte e cinco anos, o faraó negro reinava há vinte anos, consciente das fracturas políticas e sociais que tornavam o Egipto fraco como uma criança. No Norte, os ocupantes, os guerreiros líbios, digladiavam-se constantemente para conseguirem mais poder; no Sul, a cidade santa de Tebas, onde estavam instaladas as tropas núbias, encarregadas de proteger o domínio do deus Amon contra qualquer agressão. Entre o Norte e o Sul, o Médio Egipto, com dois fiéis aliados do faraó negro, os príncipes de Heracleopólis e de Hermopólis. Bastava a sua presença para dissuadir os nortistas de saírem da sua zona de influência. É verdade que esta situação não agradava a Piankhi. Mas contentava-se com o bem-estar de Tebas e com o embelezamento da sua própria capital onde mandara construir um soberbo templo em glória de Amon, verdadeira réplica do seu santuário de Karnak. Ser um construtor, seguindo o exemplo dos grandes monarcas do passado, era a única ambição de Piankhi. E os deuses tinham-lhe oferecido uma terra mágica onde a voz de Maât, a deusa da justiça e da verdade, continuava a fazer-se ouvir. Bater-se-ia até ao limite das suas forças para preservar esse tesouro. Tens treinado os teus homens ultimamente? Com certeza, Majestade! Os meus archeiros estão sempre em pé de guerra. Caso contrário, amolecem. Ordena e combateremos!» In Christian Jacq, O Faraó Negro, 1997, Bertrand Editora, 1998, ISBN 978-972-251-049-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

terça-feira, 17 de julho de 2018

O Erotismo. Georges Bataille. «As imagens eróticas, ou religiosas, suscitam essencialmente nuns os comportamentos do interdito, em ou mis, comportamentos contrários»

jdact e wikipedia

«(…) Assim, a minha pesquisa, que é fundada essencialmente pela experiência interior, difere na sua origem do trabalho do historiador das religiões, do etnógrafo ou do sociólogo. Sem dúvida, colocou-se a questão de saber se era possível para estes últimos se dirigir através dos dados que eles elaboravam, independentemente de uma experiência interior que eles tinham, de um lado, em comum com os seus contemporâneos, e que, de outro, era também até certo ponto a sua experiência pessoal modificada por um combate com o mundo que fazia o objecto de seus estudos. Mas, no caso deles, podemos quase adiantar em princípio que: quanto menor o papel da experiência (quanto mais ela é discreta), maior é a autenticidade de seu trabalho. Não estou dizendo que quanto menor sua experiência, menor o seu papel. Estou, com efeito, convencido da vantagem, para um historiador, de ter uma experiência profunda, e se ele a tem, visto que ele a tem, o melhor é que ele se esforce para esquecê-la, e aborde os factos de fora. Ele não pode esquecê-la completamente, não pode reduzir inteiramente o conhecimento dos factos ao que lhe é dado de fora, e isto é melhor, mas o ideal é que essa experiência haja apesar dele, na medida em que essa fonte do conhecimento é irredutível, na medida em que falar de religião sem referência interior à nossa experiência levaria a trabalhos sem vida, acumulando a matéria inerte, dada numa desordem ininteligível. Em contrapartida, se eu encaro pessoalmente os factos à luz da minha experiência, sei o que abandono, abandonando a objectividade da ciência. Primeiramente, eu o disse, não posso me proibir arbitrariamente o conhecimento que me dá o método impessoal: a minha experiência supõe sempre o conhecimento dos objectos que ela põe em jogo (são, no erotismo, pelo menos, os corpos; na religião, as formas estabilizadas, sem as quais a prática religiosa comum não saberia ser). Esses corpos não nos são dados senão na perspectiva em que historicamente adquiriram o seu sentido (seu valor erótico). Não podemos separar a nossa experiência dessas formas objectivas e de seus aspectos vistos de fora, nem do seu aparecimento histórico. No plano do erotismo, as modificações do próprio corpo, que respondem aos movimentos vivos que nos sublevam interiormente, estão elas próprias ligadas aos aspectos sedutores e surpreendentes dos corpos sexuados.
Esses dados precisos, que nos vêm de todos os lados, podem não só se opor à experiência interior que lhes responde, mas também a ajudam a sair do fortuito que é típico do indivíduo. Mesmo estando associada à objectividade do mundo real, a experiência introduz fatalmente o arbitrário e, se não tivesse o carácter universal do objecto para o qual está voltada, não poderíamos falar dela. Da mesma forma, sem experiência, não poderíamos falar nem de erotismo, nem de religião.

As condições de uma experiência interior impessoal: a experiência contraditória do interdito e da transgressão
Seja como for, é necessário opor claramente o estudo que se estende o menos possível no sentido da experiência ao que aí avança resolutamente. É preciso que se diga ainda que este ficaria condenado à gratuidade que nos é familiar, se aquele não tivesse sido feito em primeiro lugar. Essa condição que hoje nos parece imprescindível é de data bem recente. Em se tratando de erotismo (ou geralmente de religião), a sua experiência interior lúcida era impossível num tempo em que não aparecia às claras o jogo de balança do interdito e da transgressão que ordena a possibilidade de um e de outro. Não basta saber que existe esse jogo. O conhecimento do erotismo, ou da religião, exige uma experiência pessoal, igual e contraditória, do interdito e da transgressão. Essa dupla experiência é rara. As imagens eróticas, ou religiosas, suscitam essencialmente nuns os comportamentos do interdito, em ou mis, comportamentos contrários. Os primeiros são tradicionais. Os segundos são comuns, pelo menos sob a forma de uma pretensa volta à natureza, à qual se opunha o interdito. Mas a transgressão difere da volta à natureza: ela suspende o interdito sem suprimi-lo. Aí esconde-se o suporte do erotismo e se encontra, ao mesmo tempo , o suporte das religiões. Eu anteciparia o desenvolvimento do meu estudo se me estendesse inicialmente sobre a profunda cumplicidade da lei e da sua violação. Mas se é verdade que a desconfiança (o movimento incessante da dúvida) é necessária a quem se esforça por descrever a experiência de que estou falando, ela deve particularmente satisfazer às exigências que posso desde já formular». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972 608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT

segunda-feira, 16 de julho de 2018

O Erotismo. Georges Bataille. «Jamais a humanidade pôde procurar o que a religião procura há muito tempo, a não ser num mundo em que a sua busca dependia de causas duvidosas, subordinadas…»

jdact e wikipedia

«(…) Transformam assim aquele que os acolhe naquilo que seria, entre os seus, um homem que soubesse da existência do cálculo, mas se recusasse a corrigir os seus erros de adição, ciência não me cega (uma vez cego, eu não poderia senão responder mal às suas exigências) e, igualmente, a matemática não me incomoda. Admito que me digam dois e dois são cinco?, mas se alguém, visando um fim preciso, faz contas comigo, esqueço a identidade pretendida de cinco e de dois e dois. Ninguém saberia diante de mim colocar o problema religião a partir de soluções gratuitas que o atual espírito de rigor recusa. Não sou um homem de ciência enquanto falo de experiência interior, não de objectos, mas no momento em que falo de objectos, eu o faço como os homens de ciência, com o inevitável rigor.
Direi mesmo que, com frequência, na atitude religiosa, no meio de uma tão grande avidez de respostas precipitadas, religião adquiriu o sentido de facilidade de espírito, e que as minhas palavras iniciais levam leitores desprevenidos a pensar que se trata de aventura intelectual e não da incessante actividade que desloca o espírito para mais adiante, se foi preciso, mas pela via da filosofia e das ciências, em busca de todo o possível que ele pode abrir.
Todo o mundo, seja quem for, reconhecerá que nem a filosofia, nem as ciências podem abordar o problema que a aspiração religiosa colocou. Mas todo o mundo também reconhecerá que, nas condições em vigor, esta aspiração até aqui não pôde traduzir-se não ser por formas adulteradas. Jamais a humanidade pôde procurar o que a religião procura há muito tempo, a não ser num mundo em que a sua busca dependia de causas duvidosas, subordinadas, quando não ao movimento dos desejos materiais, a paixões de circunstâncias: ela podia combater esses desejos e essas paixões, podia também servi-las, não podia ser-lhes indiferente. A busca que a religião começou, e que prosseguiu, não deve menos que a da ciência ser libertada das vicissitudes históricas. Não que o homem não tenha inteiramente dependido dessas vicissitudes. Mas isto é válido para o passado. Chega o instante, precário sem dúvida, em que, a sorte ajudando, não devemos mais esperar a decisão dos outros (em forma de dogma) antes de ter a experiência desejada. Até agora, podemos comunicar livremente o resultado dessa experiência. Posso, nesse sentido, preocupar-me com a religião, não como o professor que dela relata a história, que fala entre outras pessoas do brâmane, mas como o próprio brâmane.
Mas eu não sou nem brâmane nem nada, devo continuar uma experiência solitária, sem tradição, sem rito, e sem nada que me guie, sem nada também que me atrapalhe. Expresso no meu livro uma experiência sem recorrer ao que quer que seja de particular, tendo essencialmente o cuidado de comunicar a experiência interior, isto é, aos meus olhos, a experiência religiosa, fora das religiões definidas». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972 608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. «Porém, observando com mais atenção, percebeu que ele não estava dormindo, mas profundamente concentrado em alguma coisa, alguma coisa interior»

jdact

A Mulher que Amou Jesus
«(…) Depois da refeição, na tranquilidade do entardecer e enquanto esperava que o vinagre aliviasse as dores de Rute, a família começou a recitar as escrituras. Tinha de ser feito de memória, pois era proibido ler. Mas quando terminaram de recitar, Rute ainda estava incomodada. Talvez eu devesse falar com o rabino, disse José. Talvez ele me permita desatar os nós ou usar um remédio, só desta vez. E balançou a cabeça. Um dos meninos foi chamar o rabino e, após o que pareceu uma eternidade, ele surgiu da escuridão próxima à barraca. Deixe-me ver a criança, disse. Dirigiu-se a Rute e pediu-lhe que abrisse a boca, espiando para dentro. Em seguida, fechou-a. Não vejo nada demais, murmurou. Mas dói, disse Rute. Será que não podemos desatar a sacola onde tem o pó?, perguntou José. Desata com uma mão só?, retrucou o rabino. Não, é um nó forte, para aguentar durante a viagem. O rabino balançou a cabeça. Então, conhece as normas, disse. E voltou-se para Rute. Tente ser forte, menina. Já é bem tarde da noite e não irá demorar tanto até o pôr do sol, amanhã. Olhou para todos eles. Sinto muito, disse, voltando-se para a saída. E, de qualquer maneira, mesmo que o remédio estivesse ao alcance, não pode ser usado durante o Sabá. Parecia triste e sem jeito. Sabe disso, José.
Depois que o rabino saiu, José veio sentar-se junto à sua filha e segurou a sua mão. Ela fazia uma careta de dor. Ele olhou para seus olhos e, decidido, levantou-se. Dirigiu-se à sacola e, calmamente, deliberadamente, desatou os nós. Vou fazer uma oferenda dos meus pecados para compensar isto, disse. Mas não aguento ficar aqui quieto, esperando por amanhã. Pegou o remédio e deu-o à Rute. Pouco depois, foram todos dormir, acomodando-se nas cobertas que tinham sido preparadas. Maria, as suas primas e Quezia ficaram num dos cantos da barraca e não demorou para que adormecessem. Com todo o cuidado, ela desamarrara seu cinto, colocando-o junto ao capote. Tocou-o, como se o protegesse, e dormiu com ele junto à cabeça.
Sorria quando adormeceu. Era gostoso ter um segredo. E o dia também tinha sido maravilhoso, conhecendo essas pessoas de Nazaré. Tinha que reconhecer que era divertido ficar por um tempo longe da família, ser outra pessoa. Ou, quem sabe, talvez não ser outra pessoa, mas aquela que é. Dormiu profundamente e, quando acordou, os outros já se tinham levantado. Estavam todos lá fora e ela ainda esfregava os olhos. Rapidamente, sentou-se, vestiu-se e juntou-se aos outros.
O céu estava limpo e azul; o clarão da madrugada já tinha desaparecido. Compartilharam de uma refeição leve, de pão e queijo, sentados em círculo. O brilho do céu e o cheiro doce da manhã prometiam um dia magnífico. Não é de estranhar que, se o primeiro Sabá foi tão bonito quanto este, Deus tenha achado que fizera um bom trabalho e tenha ido descansar, disse Jesus. Mastigava, devagar, um pedaço de pão, e olhava para o alto, profundamente feliz. Todos concordaram. Parecia respirar-se paz no ar. É verdade, disse a mãe de Jesus, na sua voz melodiosa. E passou uma cesta de figos com o gesto gracioso de uma bailarina.
Ela é linda, pensou Maria, mas só agora é que o percebi. É muito mais bonita que a minha própria mãe. Mas, na mesma hora, sentiu-se desleal, e mesmo culpada, por tê-lo pensado. O restante do dia, que tanto pareceu longo quanto curto, passou-se nos prazeres do lazer e da devoção. Era permitido ficar sentado, conversando; assim como cantar, dar pequenas caminhadas, alimentar os animais, comer a comida já preparada e gozar da tranquilidade e sonhar. E havia as orações, a sós ou em grupo, entre as quais a mais antiga e fundamental era a Shemá: Shemá, ouvi-me! Israel, o Senhor nosso Deus, o Senhor é Um.
Maria reparou que Jesus estava sentado debaixo de uma arvorezinha e parecia dormitar. Porém, observando com mais atenção, percebeu que ele não estava dormindo, mas profundamente concentrado em alguma coisa, alguma coisa interior. Quando tentava afastar-se, ele a viu. Já era tarde, ela tinha-o perturbado. Ele acenou para que ela se aproximasse. Desculpe-me, disse ela. Por quê? Ele não parecia aborrecido com a sua presença, e sim confuso, sem compreender o motivo para as suas desculpas. Por me ter intrometido, disse ela. ele sorriu. Estou sentado aqui, ao ar livre. É impossível alguém se intrometer num lugar público. Mas estava sozinho, insistiu Maria. Talvez quisesse ficar sozinho. Não, nada disso. Talvez só estivesse esperando que alguma coisa de interessante acontecesse. Como o quê, por exemplo? Qualquer coisa. Tudo o que acontece é interessante, se olhar com atenção. Repare naquele lagarto, e inclinou a cabeça, devagar, para não o assustar, que está tentando decidir se sai ou não daquela fenda na árvore». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. « Mas..., lembrou Maria, o vinagre pode ser usado como tempero, e se ajudar na dor de dentes, é permitido»

jdact

A Mulher que Amou Jesus
«(…) Bem-vindas sejam nossas convidadas, disse José, acenando com a cabeça para Maria, suas primas e Quezia. Embora não moremos assim tão longe, há muitos vizinhos nas cidades próximas que nunca encontramos. É uma felicidade que tenham vindo até nós. Sim, disse Jesus. Obrigado por virem até nós. E sorriu. Agora vamos comer e agradecer por este lindo Sabá. José partiu um pão e foi passando em redor. Sentados, com as pernas cruzadas, foram pegando o pão que recebiam. Depois, havia o feijão, as fatias finas de cebola, os figos, as amêndoas, o queijo e o peixe em conserva, de Magdala. Jesus olhou, surpreendido, e disse: devíamos ter sabido que teríamos visitas de Magdala. Pegou um pouco de peixe e passou-o em volta. Maria vibrou, orgulhosa. Talvez aqueles peixes viessem do armazém de seu pai! Escolheu um, colocando-o, cuidadosamente, sobre o pão. O peixe de Magdala viaja para bem longe, disse José, levando à boca, despreocupadamente, um pedaço de pão com peixe. Vocês divulgaram o nosso nome até Roma, e mesmo mais longe. E engoliu o seu pedaço. É, nós, galileus, somos respeitados no exterior, mas bem pouco em Jerusalém, disse Jesus. Ele também colocou um pedaço de peixe com pão na boca e sorriu de satisfação. O que quer dizer?, perguntou Tiago, curioso. Sabe o que quero dizer, respondeu Jesus. Como chamam a Galileia? O círculo dos hereges. Isso porque foram tantas as vezes que estivemos dentro e fora das divisas de Israel, quando regiões do país iam sendo conquistadas... Tomou um gole de vinho. Há uma pergunta interessante: quem são e o que são os verdadeiros filhos de Israel? Riu e inclinou a cabeça na direcção das mulheres. E as filhas, naturalmente. Quem são os judeus?, perguntou Tiago, de repente, com a cara bem séria. Talvez só..., o céu..., possa responder. Fez uma pausa. Existem meio judeus, com antepassados suspeitos; existem falsos judeus, como Herodes Antipas; e existem gentios que são atraídos pelos nossos conhecimentos, e quem não seria?, com aquelas religiões repugnantes à sua volta. Mas não aceitam até o fim, pois não fazem a circuncisão. Será que todos esses tipos de judeus nos ajudam ou atrapalham? Depende de Deus. Não sabemos se lhe agrada que as pessoas se aproximem de si, ainda que a uma certa distância, ou se se sente insultado por isso.
Eu não sei, reconheceu Jesus. Nem eu, disse José pondo fim à discussão. Além do mais, estamos profanando o Sabá com essa conversa vazia. E somos os responsáveis por essa conversa vazia. Devemos explicar-nos para com Deus. O que é conversa vazia?, perguntou Quezia. Maria espantou-se que ela falasse assim com José. Alguma coisa que não é sagrada? Mas eu acho que há uma porção de coisas de que se pode falar que não parecem sagradas. Fez uma pausa. Por exemplo..., decidir que roupa vestir. Mas existem normas com relação a tudo isso, disse Tiago. Moisés criou essas normas, e depois, quando os rabinos... Mas eu me refiro a usar roupas agradáveis ou roupas velhas, mofadas, roupas coloridas ou sóbrias e escuras, roupas caras ou baratas! Olhou em volta, triunfante. Está vendo? Não há normas com relação a isso... Bom, nesse caso deve ser usado um critério genérico, disse José. E será que irá agradar a Deus? Será que ele se sentirá glorificado? Compreende? Não é assim tão simples como uma norma. Será que Deus se importa com a aparência externa das pessoas? Ou será que só os homens, que não podem enxergar o que está no coração, é que dão importância a isso?
É muito complicado, queixou-se Quezia. Como é que se pode saber o que passa na cabeça de Deus? Nessa hora, Rute deu uma dentada numa tâmara seca e fez uma careta. Meu dente, disse, mais pelo susto que pela dor. A raiz de alfavaca, disse sua mãe. Está no saco de couro... E a sua voz foi-se sumindo. Que está dentro daquela saca grande... Todos haviam compreendido. A sacola grande estava amarrada com nós e era proibido desatá-los até o pôr do sol do dia seguinte. E, mesmo que fosse mais fácil, era proibido usar remédios durante o Sabá. Mas..., lembrou Maria, o vinagre pode ser usado como tempero, e se ajudar na dor de dentes, é permitido. Por sorte, o frasquinho de vinagre estava do lado de fora. Foi passado de mão em mão e todos temperaram a comida. Rute tomou uma dose grande». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

Poesia e Drama. Ensaio sobre a Poesia de Bernardim Ribeiro. António José Saraiva. «Cristóvão Falcão foi, na verdade, um herói da aventura que lhe atribui o primeiro editor da Menina e Moça; e toda a corte se interessou pela triste sorte do fidalguinho infeliz»

jdact

«(…) E, quanto a datas. algarismos, etc., haverá alguma coisa que impeça Bernardim Ribeiro de ser o autor do Crisfal? Carolina, fiada no famoso documento judicial de 1642, sustentava a impossibilidade cronológica. Mas já vimos, no primeiro parágrafo desta Introdução, o que devemos pensar da valia desse e de outros documentos. É impossível, portanto, argumentar com algarismos; e as razões que tenho estado a expor são bastante poderosas para os dispensar. Que resultado final se obtém de tudo isto? Vou apresentar ao Leitor urna hipótese que enfiará num colar as contas dispersas e desarticuladas que lhe venho apresentando. Cristóvão Falcão foi, na verdade, um herói da aventura que lhe atribui o primeiro editor da Menina e Moça; e toda a corte se interessou pela triste sorte do fidalguinho infeliz, namorado e preso. Bernardim Ribeiro, conhecedor da carta em verso que ele dirigira a Maria e que, possivelmente, correra de mão em mão, escreveu a Écloga pondo em cena o próprio Cristóvão Falcão sob o disfarce transparente do nome de Crisfal, formado das sílabas iniciais do nome dele. A Écloga correu anónima porque Bernardim Ribeiro, por qualquer razão, se não quis assinar como autor dela; e, por um processo naturalíssimo, pois Cristóvão Falcão era o herói da aventura e o autor da Carta, foi atribuída a este pela bisbilhotice palaciana. Daqui facilmente o boato chegaria aos ouvidos dos Usques, que o reproduziram com todas as cautelas, e, por intermédio deles, até nós. Bem sei que é esta uma hipótese como qualquer outra; mas tem sobre a hipótese de Delfim Guimarães e a hipótese tradicional a superioridade, pelo menos, de não ser inverosímil.
E passemos a outra meada.
A novela que conhecemos pelo nome de Menina e Moça aparece separada, na edição de Évora (1557), em duas partes muito diferentes entre si, tanto pelo carácter literário como pelo desenvolvimento do enredo: ao passo que a Primeira Parte é idílica e se desenvolve a partir de um ponto, num movimento contínuo, sem quebras, a Segunda Parte é uma série de histórias de cavalaria, sem unidade de desenvolvimento, contíguas, que se interrompem para dar passagem umas às outras.
Esta diversidade deu origem a uma hipótese segundo a qual a segunda parte da Menina e Moça seria escrita por um continuador com o fito de declarar, isto é, dar acabamento à história começada e evidentemente incompleta. Não seria caso desusado; e a hipótese era fortalecida pelas enormes contradições existentes entre as duas partes. Mas a edição de Ferrara (1554) vem destruir esta hipótese porque dá Bernardim Ribeiro como autor de dezassete capítulos da Segunda Parte; e aceite a autenticidade destes dezassete capítulos, ficamos autorizados a aceitar a de todos os restantes, porque os editores de Ferrara utilizaram um traslado evidentemente incompleto ou truncado. António Salgado Júnior acaba de propor a autenticidade dos sete capítulos que se seguem ao capítulo final da edição de Ferrara, com argumentos que não é fácil rebater». In António José Saraiva, Poesia e Drama, Estudos sobre Bernardim Ribeiro, Gradiva Publicações, Lisboa, 1996, ISBN 972-662-477-0.

Cortesia de Gradiva/JDACT

domingo, 15 de julho de 2018

As Egípcias. Christian Jacq. «Pépi II viveu centenário e teve três esposas sucessivas: Neit, Ipuit e Udjebten. Cada uma das três rainhas foi a encarnação da deusa Hator»

Cortesia de wikipedia e jdact

A rainha Quenet-Kaus, um faraó esquecido?
Quem era Quenet-Kaus?
«(…) Chepseskaf, o último rei da quarta dinastia, e Quenet-Kaus, considerada a mãe dos dois primeiros faraós da quinta dinastia, mandaram construir o mesmo e excepcional tipo de túmulo. Chepseskaf abandonou o símbolo da pirâmide que podia ser avistada de longe, e o mesmo fez Quenet-Kaus; os primeiros monarcas da quinta dinastia voltarão a mandar edificar pirâmides na estação de Abusir, próxima de Sacara. Uma suposição ousada: a existência deste túmulo-sarcófago, de um templo funerário, a sua posição de fundadora de uma nova dinastia, o culto que lhe será prestado depois da sua morte, não levam a crer que Quenet-Kaus ocupou a função suprema no início da quinta dinastia, entre o desaparecimento de Chepseskaf e a subida ao trono de Kserkal (cerca de 2500-2491 a.C.)? Os poderes criadores sobre os quais esta mulher reinava eram talvez os seus sucessores, que ela havia preparado para reinarem, quer tenha sido a sua mãe espiritual ou carnal, ou ambas. Infelizmente é impossível saber mais, mas reconhece-se hoje unanimemente que Quenet-Kaus, grande dama do Antigo Egipto, foi uma das duas figuras marcantes.

As Mulheres de Pépi II
Uma outra rainha faraó?
O faraó Pépi II (cerca de 2278-2184 a.C.) é a figura central da sexta dinastia: noventa e quatro anos à frente do Egipto, ou seja, o mais longo reinado da História! É certo que não edificou uma pirâmide tão colossal como a de Quéops, mas o país manteve-se próspero e feliz. Quando Pépi II foi escolhido para reinar, tinha apenas cinco anos. Era, evidentemente, incapaz de governar. Esta função foi conferida a uma mulher, Meryré-Anquenes, a amada da Luz divina, que a vida lhe seja concedida, viúva do faraó Pépi I. Que fosse simplesmente considerada como regente não altera os factos, assumiu os assuntos de Estado até ao momento em que Pépi II foi capaz de assumir o seu cargo.
Uma estátua em alabastro, conservada no Brooklyn Museum, mostra-a sentada com uma grande peruca, tendo sobre os joelhos o Faraó menino e enfeitiçando-o com a mão esquerda. A estatura de Pépi II revela que é certamente uma criança, mas tem um rosto de adulto. De facto, na concepção egípcia, o senhor das Duas Terras é faraó desde o ovo; o papel da mãe do rei consiste em fazê-lo crescer magicamente, em alargar o seu coração e torná-lo plenamente ciente dos seus deveres.

Três rainhas para um faraó e pirâmides falantes
Pépi II viveu centenário e teve três esposas sucessivas: Neit, Ipuit e Udjebten. Cada uma das três rainhas foi a encarnação da deusa Hator, cujo nome significa templo de Hórus, ou seja, o próprio faraó; na sua qualidade de senhora das estrelas, ela gerava o Hórus de ouro, a obra-prima da Criação, o rei capaz de exercer na Terra a missão de natureza cósmica que ela lhe confiava. A rainha chama-se aquela que vê Hórus e Set no mesmo ser (o faraó) e que consegue conciliar o inconciliável restabelecendo a paz entre os dois irmãos inimigos. É também aquela que reúne os dois senhores, os mesmos Hóros e Set que reinam sobre o Norte e o Sul do país, cuja aliança é indispensável.
Nesta época, é certo que o título de Amiga (semeret) de Hórus já não está reservado às esposas reais, podendo ser concedido a uma filha de rei ou mesmo a uma dignitária. E não foi a única inovação do longo reinado de Pépi II. Havia muito que se construíam pirâmides para as mães de rei e as grandes esposas reais, que assim partilhavam o destino estelar do faraó; quanto aos príncipes, não tinham sepulturas tão monumentais». In Christian Jacq, As Egípcias, Edições ASA, 2002, ISBN-978-972-413-062-0.

Cortesia de EASA/JDACT

As Egípcias. Christian Jacq. «E uma grande hesitação: será que a inscrição nos permite pensar que esta mãe de um rei não designado era também faraó?»

Cortesia de wikipedia e jdact

A enigmática Meresanq
Meresanq, guardiã das escrituras sagradas
(…) Entre os personagens presentes no túmulo figuram escribas. Ora, Meresanq possui um título notável: sacerdotisa do deus Tot, criador da linguagem sagrada e senhor das palavras de deus, os hieróglifos. Está, pois, directamente relacionada com o deus do conhecimento. É, aliás, o caso de várias rainhas egípcias, como Bentanta, que vemos ser conduzida por Tot para o outro mundo numa cena da sua sepultura do Vale das Rainhas. O pormenor é importante, pois prova que Meresanq tinha acesso à ciência sagrada e aos arquivos dos templos, denominados a manifestação da Luz divina (baú Ra). É também uma deusa, Sechat, que rege a Casa da Vida onde se compunham os rituais e onde os faraós eram iniciados nos segredos da sua função. Guardiã das bibliotecas e dos textos fundamentais, ela maneja perfeitamente o pincel, que utiliza tanto para escrever as palavras da vida como para praticar a requintada arte da maquilhagem. Vestida com uma pele de pantera, a cabeça coroada por uma estrela de sete pontas (por vezes cinco ou nove), é Sechat quem redige os Anais Régios e inscreve os nomes do faraó nas folhas da árvore sagrada de Heliópolis. Desta deusa detentora dos segredos de construção do templo, que partilha com o rei, depende o secretariado do palácio. No templo de Séti I em Abidos, Sechat, encarregada dos arquivos aos rolos divinos, escreve o destino do faraó e diz: a minha mão escreve o seu longo tempo de vida, a saber, do que sai da boca da Luz divina (Ra), o meu pincel traça a eternidade; a minha tinta, o tempo; o meu tinteiro, as inúmeras festas de regeneração. Meresanq, iniciada nos mistérios de Tot e no conhecimento das escrituras rituais, foi instruída em toda a ciência sagrada do Antigo Egipto; mais de três mil anos após o seu desaparecimento, podemos encontrá-la na companhia da sua mãe e das suas irmãs, numa das mais surpreendentes sepulturas de Gize. Esta misteriosa e fascinante Meresanq permitiu-nos descobrir que o universo do conhecimento estava inteiramente aberto à mulher egípcia.

A rainha Quenet-Kaus, um faraó esquecido?
Um gigantesco sarcófago
No Inverno de 1931-1932, o egiptólogo egípcio Selim Hassan explorou uma parte da imensa estação de Gize, a cerca de 400 m a sueste da pirâmide de Quéfren. Neste planalto criado pelo homem havia um impressionante número de obras-primas: as três pirâmides, por certo, mas também numerosas sepulturas decoradas. São necessárias longas jornadas para percorrer estas ruas de sepulturas que nada têm de fúnebre; pelo contrário, esta cidade de eternidade, de tranquilizadoras pedras, é um lugar de paz e serenidade. Selim Hassan descobriu um extraordinário monumento, um imenso sarcófago cuja base tinha 40 m de lado. Espantado, teve de render-se à evidência: tratava-se de um sarcófago rectangular de tecto abobadado, assente sobre uma base quadrada, cujo interior maciço era em parte constituído pela rocha. Desconcertado e deslumbrado, o egiptólogo pensou num monumento comparável: o túmulo do rei Chepseskaf (cerca de 2504-2500 a.C.), sucessor de Miquerinos e último rei da quarta dinastia. A sua morada eterna, em forma de gigantesco sarcófago, foi edificada a sul de Sacara, longe da actual zona turística. Infelizmente, nada sabemos acerca deste faraó cujo reinado foi breve.

Quem era Quenet-Kaus?
No ângulo sueste do túmulo-sarcófago de Gize, nos alizares em granito de uma capela exterior e de uma falsa porta que estabelece a comunicação entre o visível e o invisível, Selim Hassan decifrou o nome e os títulos da proprietária: Quenet-Kaus, Aquela que preside aos seus poderes criadores, mãe do rei do Alto e Baixo Egipto, filha do deus. para o qual se realizam todas as boas coisas que ela formula. E uma grande hesitação: será que a inscrição nos permite pensar que esta mãe de um rei não designado era também faraó?
Desde a descoberta do seu túmulo, poucas informações conseguimos acerca desta rainha, mas podemos concluir que teve um papel importante. Filha, por certo, de Miquerinos, o construtor da mais pequena das três pirâmides de Gize, foi criada e instruída na escola do palácio. A sua mãe seria a sublime Qamerer-Nebti, a esposa de Miquerinos, cujo rosto admirável conhecemos graças a uma estátua conservada no Museu de Boston? Esta obra magnífica, colocada no templo do vale no conjunto funerário de Miquerinos, mostra-nos a sua esposa caminhando a seu lado, passando o braço direito pela cintura do monarca e pousando a mão esquerda no braço esquerdo do esposo, numa atitude protectora». In Christian Jacq, As Egípcias, Edições ASA, 2002, ISBN-978-972-413-062-0.

Cortesia de EASA/JDACT

sábado, 14 de julho de 2018

O Faraó Negro. Christian Jacq. «Tendo conseguido o resultado esperado, não deveremos contentar-nos com ele? Tefnakhte ordenou ao seu escanção que servisse cerveja forte aos príncipes líbios»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Tefnakhte sentiu desejos de estrangular o cobarde, mas conseguiu conter a sua fúria. Ainda não dispunha de forças armadas suficientes para agir sozinho e tinha que transigir com aquele bando de bárbaros de vistas curtas. Compreendo a tua prudência, Akanosh. Até hoje, mantínhamo-nos no norte do país e deixávamos o Sul para Piankhi, considerando o Médio Egipto como uma zona neutra. Para gozar de felicidade e prosperidade, o Egipto deve estar unido e governado por um autêntico faraó. Pensar que possamos continuar a viver divididos é um erro fatal. Perderemos o que possuímos! Não existe outra solução a não ser a conquista do Sul e a eliminação das tropas do faraó negro. É essa a tua opinião e respeito-a, Tefnakhte. mas tens perante ti diversos soberanos independentes que dirigem os seus principados como muito bem entendem. Por que hão-de contestar a minha a autoridade, quando estamos no caminho de uma grande vitória? Uniste-nos numa federação admitiu Akanosh mas não te foi concedido o poder supremo. Queríamos tentar uma experiência, sair do Delta, apoderarmo-nos de Mênfis que caiu nas nossas mãos como um fruto maduro e conquistar algumas províncias do Médio Egipto.
Tendo conseguido o resultado esperado, não deveremos contentar-nos com ele? Tefnakhte ordenou ao seu escanção que servisse cerveja forte aos príncipes líbios. A maior parte deles apreciaram essa diversão, mas Akanosh recusou-se a beber. Vencemos sem combater lembrou. As aldeias que atravessámos não podiam opor-nos a menor resistência. Heracleopólis é uma cidade fortificada que será defendida por uma guarnição formada por soldados experientes. A quantos homens se elevarão as nossas perdas e estaremos todos de acordo para consentir em semelhante sacrifício? É esse o preço de uma conquista declarou Tefnakhte. Negá-lo seria mentir, mas recuar seria uma derrota. Desejamos reflectir e discutir o assunto. Tefnakhte ocultou a sua decepção. As reuniões dos chefes líbios perdiam-se sempre em palavreados intermináveis que não conduziam a nenhuma decisão concreta. Nesse caso, respondam claramente à minha pergunta: concedeis-me ou não plenos poderes para empreender a conquista de todo o Egipto? Akanosh ergueu-se e retirou-se para a sua tenda, seguido pelos outros chefes líbios. Iniciava-se para Tefnakhte uma longa espera. Enraivecido, quebrou o ramo baixo de uma tamargueira cujos pedaços atirou para longe. Depois, seguiu em passo apressado até à sua própria tenda onde o esperavam os seus dois inseparáveis conselheiros, Yegeb e Nartreb, dois semitas que formavam um estranho par. Yegeb era grande, tinha braços intermináveis, um rosto todo em comprimento e tornozelos inchados; Nartreb era pequeno, gorducho, tinha os dedos das mãos e dos pés gordinhos como os de um bebé, um rosto redondo e pescoço forte.
Astuto e calculista, mais velho do que Nartreb, Yegeb dava-lhe os conselhos de que necessitava para agir, visto que o seu cúmplice dispunha de uma energia inesgotável e não hesitava em utilizar fosse que meio fosse para enriquecer. Embora tão corrupto como Nartreb, Yegeb afirmava constantemente a sua perfeita honestidade; vestia-se com roupas velhas, comia pouco e pretendia ser muito desligado das coisas materiais. Uma única paixão o dominava: o gosto pela manipulação e pelo poder oculto. Com o apoio de Nartreb, incitava Tefnakhte a tornar-se o soberano incontestado das Duas Terras, convencido que os recompensaria se tal acontecesse. Corre tudo bem?, perguntou Nartreb, ocupado a mastigar uma haste de papiro. Aqueles imbecis decidiram discutir revelou Tefnakhte. Não podia acontecer nada pior reconheceu Yegeb, coçando o nariz. O resultado das deliberações não oferece qualquer dúvida: a ofensiva será interrompida e regressaremos ao norte. Qual é a vossa proposta? Há muitos anos que aprendemos a conhecer esses medíocres déspotas líbios e não nos faltam meios de acção. Utilizem-nos ordenou Tefnakhte.
O jovem núbio mergulhou no Nilo em perseguição dos búfalos que brincavam na corrente e corriam o perigo de se afogar. Era pelo menos o que Puarma tinha declarado, com convicção, para as deslumbrar, a três lindíssimas raparigas, de pele acobreada. Nuas, preparavam-se para se deliciarem numa bacia natural, entre dois rochedos, quando os búfalos cheios de calor galoparam para o rio. Pertenciam a um primo de Puarma, decidido a apanhar os fugitivos sob o olhar das raparigas fascinadas». In Christian Jacq, O Faraó Negro, 1997, Bertrand Editora, 1998, ISBN 978-972-251-049-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

O Labirinto da Saudade. Eduardo Lourenço. «Aparentemente desqualificado pelo seu esoterismo ou pelo seu misticismo abrupto, a imagem de um Portugal-Super-Man, portador secreto de uma mensagem ou possuidor virtual»

jdact

«(…) Marginal por definição, era uma tal pressão capaz de alterar a fundo a imagem interior do que éramos e podíamos ser? Não é mera hipnose de intelectual imaginar-lhe poderes de subversão que uma vez mais não traduziam senão o eco atrasado de uma revolução já acabada algures e sem impacte visível sobre a inamovível boa consciência nacional, aliás em fase de apopléctico e delirante narcisismo? Apesar do condicionalismo tão particular da época, com a sua censura mais ou menos ubuesca, apesar do fenómeno sociologicamente minoritário das suas expressões oficiais, a sensibilidade quenas atitudes e gestos surrealistas se encarnou trouxe às uperfície um Portugal outro, anómalo, eficaz justamente até por não propor desta vez reforma ideológica, cultural ou ética de nacional recorte ou aplicação, mas apenas por tornar inactual, arcaico, fóssil, um mundo de formas que era a forma mesma do inteiro viver nacional. Mas só o triunfo da sociedadede consumo dos anos 60 lhe dará um dia emprego histórico.Talvez não por acaso, a mesma época ou imediatamente contígua conheceu a apoteose cultural mais nacionalista de que há memória nos nossos anais. Confundida com uma expressão da ideologia oficial mais exorbitada, em pleno reino não só de uma genérica hegemonia cultural da esquerda, mas sobretudo do império sempre omnipresente do nacionalismo ou do mero bom senso, o fenómeno da chamada filosofia portuguesa não mereceu a atenção devida. Ou mereceu-a, quer dos seus profetas e seguidores quer dos seus irónicos impugnadores, em termos que não corresponderam à importância sociológica e mesmo mítica de tão singular aventura. Sem expressão literária eminente (no plano do romance ou da poesia) o movimento da filosofia portuguesa, apesar das suas conotações ideológicas, do estilo provocatório e intimidativo que por vezes assumiu (Jornal; ficou demasiado confinado aos limites de uma seita, à apologia sem nuances de um guru (Álvaro Ribeiro) e passou aos olhos de muitos como a ideologia cultural de um fascismo lusitano que em Portugal até aos anos 50 não fora capaz de ter os seus Gentil e ou os seus Rosenberg. Na realidade e pese ao estilo peremptório de muitos dos seus iluminados seguidores (a começar pelo iniciador Álvaro Ribeiro), o movimento da filosofia portuguesa interessa precisamente por representar talvez a primeira tentativa de uma contra-imagem cultural da realidade portuguesa para inverter toda a mitologia cultural de tradição liberal e iluminista e em particular aquela que, confessada ou inconfessadamente, tentou refazer nessa linha a imagem nacional, quer dizer, a da Geração de 70. Amalgamando, por vezes em termos de duvidosa exegese, contribuições anticonformistas de variada ordem e alcance (Sampaio Bruno, Cunha Seixas, Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa no plano nacional e Aristóteles e Hegel no plano universal) a filosofia portuguesa oferece de nós mesmos a mais articulada contra imagem cultural de tipo místico-nacionalistaque se conhece. Essa contra-imagem só oferece uma organicidade potente sob a pluma exotérica e brumosa de Álvaro Ribeiro. Noutros representantes do movimento como Orlando Vitorino e António Quadros (sobretudo neste último, sensível aos movimentos do século) essa imagem é mais fluida, mas não tanto que não tenha de comum com a do mestre esse apologetismo intrínseco da excelência ímpar do ser português, não apenas na sua configuração ético-ontológica, mas cultural. Jamais o velho (mas histórico e situável) complexo cultural lusitano foi impugnado com mais veemência e mais cópia de argumentação que sob as plumas dos representantes desse movimento. Aparentemente desqualificado pelo seu esoterismo ou pelo seu misticismo abrupto, a imagem de um Portugal-Super-Man, portador secreto de uma mensagem ou possuidor virtual de um Graal futuro, encontra em cada um de nós ecos por de mais equívocos, para poder ser considerado e atirado para o simples rol das aberrações projectivas da nossa esquizofrénica vida nacional». In Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Psicanálise Mítica do Destino Português, Gradiva, Lisboa, 2000, ISBN 978-972-662-765-4.
                                                                                                                           
Cortesia Gradiva/JDACT

O Labirinto da Saudade. Eduardo Lourenço. «A imagem de Portugal não é subvertida pelo neo-realismo mas readaptada à sua função reestruturante e futuramente harmoniosa de um país que um dia se libertará de males e taras passageiros»

jdact

«(…) Ideologia da fracção militante da classe operária, mas mais ainda ideologia dominante de uma fracção cada vez mais vasta da pequena e média burguesia intelectual, o marxismo, na sua aparência imediata, no seu vocabulário, nos seus mitos mais actuantes, não deixava grande margem para uma identificação sentimental com o nacionalismo sob nenhuma das suas formas. O triunfo nacionalista, de Franco, o lusitanismo agressivo dos ideólogos mais activos do regime de Salazar, soubera mutilizar com inegável habilidade o recurso à mitologia patriótico-clerical mais estafada mas não de todo exausta ,opondo ao internacionalismo marxista uma resistência de todos os instantes. Mas, pouco a pouco, esse internacionalismo marxista que era na prática militante cultural sobretudo um reflexo quase automático de alinhamento ou exaltação das conquistas da revolução soviética na sua versão mais apologética, nacionaliza-se por seu turno, transforma-se em populismo graças a obras (romances ou poemas) em que uma imagem mais convincente do povo português cumpre uma assimilação discutida mas inegável dos poderes desse patriotismo vigente apenas sob a máscara e mitos de uma visão burguesa particularmente vulnerável e já em causa desde o tempo de Eça de Queirós. Tal foi o papel histórico considerável do movimento neo-realista, cuja história cultural e ideológica, na sua complexidade, está por fazer, mas sem o qual a nossa futura e actual relação de portugueses com Portugal é simplesmente incompreensível. É sob o seu império ou na sua movência que se cria em relação à clássica imagem de Portugal como país cristão, harmonioso, paternal e salazarista, suave, guarda-avançada da civilização ocidental antimarxista, uma outra-imagem que não é exactamente uma contra-imagem, mas uma complexa distorção desse protótipo que nalguns aspectos se apresenta como o pólo oposto dela (sobretudo pela ocultação do carácter repressivo de índole cristã). Na realidade, a oposição ideológico-cultural ao antigo regime não se apresentou nunca (salvo no estilo plano de uma luta de expressão clandestina) como obviamente marxista nem assim apareceu aos olhos públicos, salvo aos de algum argus mais vigilante no campo dos diversos meios de comunicação de massa. É o carácter obscurantista, a prepotência de classe ou a glosa romanesca da multiforme miséria do povo português que servem de alvo ou justificam uma lenta mas implacável erosão do espírito burguês provincial do salazarismo, sem aliás lhe alterar nem a boa consciência cultural nem política. Pode mesmo dizer-se que à medida que triunfa, a visão neo-realista se integra no horizonte global da existência portuguesa e os seus representantes nem são reconhecidos pelo regime, sem que (ao menos os mais consequentes) o reconheçam ou integrem, mesmo objectivamente. Paradoxalmente, esta erosão inegável de um certo conformismo ideológico e político operado graças a essa espécie de hegemonia espiritual que foi a do neo-realismo durante quase trinta anos, não subverteu tanto como se podia imaginar a imagem idealizante de Portugal. De algum modo até contribuiu para a reforçar, não só como necessária para através dela reinventar no futuro um outro Portugal, livre, igualitário, fraternal, mas até no próprio presente (e no passado), reformulando no sujeito povo praticamente todos os clichés que até então haviam funcionado em relação ao português em geral e a Portugal. Claro, não com a candura e o patriotismo incandescentes do antigo republicanismo mas por uma idealização evidentedos humilhados e ofendidos a quem não foi difícil atribuir um suplemento de consciencialização ideológica ou um heroísmo militante que relevam mais da tradição romântica que de um implacável e justo olhar sobre a nossa realidade humana. Na reformulação ou metamorfose da imagem íntima de Portugal e dos portugueses, o neo-realismo foi, em geral, bem pouco revollucionário. Mas se o tivesse sido mais nãoteria conhecido o inegável sucesso sociológico que conheceu. O neo-realismo não teve, nem podia ter, o sentido do trágico histórico, mesmo naqueles autores que por íntima disposição mais predispostos estariam para o transcrever. O sentimento da tragédia é relativo e relativizado, excepto num Vergílio Ferreira que escapará das suas malhas e fará dele, talvez por obsessiva auto punição do optimismo inicial,o núcleo de toda a sua obra. A imagem de Portugal não é subvertida pelo neo-realismo mas readaptada à sua função reestruturante e futuramente harmoniosa de um país que um dia se libertará de males e taras passageiros.
É à margem, mas paralelamente, ao vasto movimentoneo-realista e consciente ou inconscientemente em reacção contra ele que se forjam as autênticas contra-imagens de Portugal, umas de máxima positividade, outras de total e dinamitadora subversão, tanto quanto em nós cabe. Continuamos a referir-nos às imagens culturais, à nossa (da maioria letrada e ledora do país) e não à subversão, da sua própria realidade que a esta só o movimento concreto da história que no cultural se investe (ou inverte) a realizará (se realizar), não apenas as que se opõem àquelas que do século XIX continuavam a escoar-se e a ecoar no subconsciente racional,mas às clericais-fascistas, aos arquétipos líricos do eterno Portugal meu berço (de) inocente que a pedagogia do regime destilava como mel obrigatório desde o banco da escola primária à Universidade. O surrealismo, com os caracteres bem próprios que foram os seus entre nós, redimensionava a imagemda nossa relação com a realidade portuguesa segundo cânones, modelos, inspirações que procediam de uma das mais radicais metamorfoses da cultura do século XX e retomava, agora sob um modo burlesco, a lógico, provocador, a tentativa ganha e perdida pela aventura sem herdeiro do primeiro Álvaro de Campos. Ideologicamente, o surrealismo, apesar de uma aparente indiferença às clivagens maniqueístas próprias do mundo político, batia-se sobre duas frentes: uma, a do conformismo secular reformulado pelo fascismo em termos de pesadelo azul, quer dizer, contra a ordem moral de salazarístico perfil; outra, a do conformismo marxista, não só ideológico, como cultural, totalmente alheio às potencialidades subversivas da linguagem em prise directa com as pulsões do inconsciente ou da simples vocação humanística à Lewis Carrol ou Edward Lear. O que o surrealismo, mesmo tendo em conta o seu carácter de fenómeno citadino e de seita,contribuiu para extirpar foi a omnipotência da percepção realista, nas letras e na cultura, abrindo assim a larga estrada por onde passará em seguida a pé enxuto a grande enxurrada de um imaginário lusíada submerso e que encontrará em obras não directamente ligadas ao surrealismo, como as de Agustina Bessa-Luís e Ruben A., a sua expressão pública mais torrencial. Ao mesmo tempo, o impacte surrealizante trabalha e metamorfose ia do interior o próprio projecto neo-realista (em particular no campo poético), metamorfose de que os começosdos anos 50 e as seguintes décadas acentuarão cada vez com mais revulsiva eficácia até dissolver nela o impulso original,e a figura mesmo do neo-realismo. Foi a esta vaga de fundo que em tempos aplicámos o epíteto de  literatura desenvolta mas ao qual mais conviria o de cultura desenvolta, pois a pressão libertária que o surrealismo exprimiu ou canalizou em primeiro lugar (a par de outras expressões que sem serem surrealistas modularam ao mesmo tempo uma exigência de libertação cultural paralela) não se ficou apenas no campo clássico da literatura, mas irradiou e reestruturou toda a experiência formal dos seus contemporâneos». In Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Psicanálise Mítica do Destino Português, Gradiva, Lisboa, 2000, ISBN 978-972-662-765-4.
                                                                                                                           
Cortesia Gradiva/JDACT

sexta-feira, 13 de julho de 2018

O Faraó Negro. Christian Jacq. «Consideras-me um pobre de espírito, meu amigo? É evidente que, mais cedo ou mais tarde, receberão ordem para atacar. Mas não estamos preparados para as enfrentar?»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) A camponesa gritou, mas as miúdas não a ouviram, porque o galope dos cavalos e o chiar das rodas dos carros cobriram a sua voz. Intrigadas por fim, as crianças voltaram a cabeça na direcção dos invasores sem verem o chefe da aldeia e a esposa correrem para elas gritando-lhes que se refugiassem no palmar. Fascinadas por aquela vaga furiosa, irreal, apertaram as bonecas ao peito. E a vaga passou, esmagando crianças e adultos apanhados pelas rodas dos carros e as patas dos cavalos, primeiras vítimas de Tefnakhte, chefe da coligação líbia do Norte cujos soldados de infantaria massacraram o resto dos habitantes da Colina dos Pássaros e queimaram as pequenas casas brancas. O que importavam alguns cadáveres, quando se preparava para se tornar senhor das Duas Terras, o Baixo e o Alto Egipto? Para o general Tefnakhte, chegara a hora de esmagar o faraó negro. Tefnakht e, reconhecido como o grande chefe dos líbios, soberano do oeste do Delta, administrador dos domínios do Baixo Egipto, estendeu o mapa do Médio Egipto desenhado num papiro de primeira qualidade.
Mênfis é nossa, declarou perante a assembleia dos confederados do Norte. Conquistámos el-Lisht e aproximamo-nos da cidade de Heracleopólis. Meus amigos, o nosso avanço foi fulminante! Não vos tinha predito esta série de vitórias? Para ir mais longe, temos de reforçar a nossa aliança. É por isso que vos peço que me nomeiem chefe de todo o país. Originário de Saís, no Delta, Tefnakhte era um homem robusto, de olhos negros muito vivos, profundamente enterrados nas órbitas. Pouco atraente e ossudo, o seu rosto traduzia uma vontade orgulhosa; uma profunda cicatriz, recordação de um combate feroz corpo a corpo, marcava-lhe a testa. Tefnakhte infundia medo desde a adolescência. Habituado a comandar, não suportava nem os indecisos nem os medrosos, mas fora obrigado a aprender a ser menos inflexível com os que pretendiam ser seus aliados. No entanto, disfarçava mal a sua impaciência e tivera que mostrar-se ameaçador para arrastar os príncipes do Norte a uma guerra de reconquista do Sul.
Akanosh enfrentou Tefnakhte como porta-voz dos chefes das tribos líbias que reinavam nas províncias do Delta depois de as terem invadido. Tal como os seus compatriotas, tinha os cabelos de comprimento médio entrançados, com uma pluma de avestruz espetada, e o queixo era adornado por uma fina barba pontiaguda. Pulseiras nos punhos, tatuagens guerreiras representando arcos e punhais nos braços e no peito. Akanosh envergava um longo manto vermelho preso no ombro esquerdo e adornado com motivos florais e cuidava da sua elegância. Com sessenta anos, ter-se-ia contentado de boa vontade com o poder que exercia sobre o seu território de Sebennytos, mas deixara-se convencer a participar na aventura militar defendida por Tefnakhte. Felicitamos-te por nos teres conduzido até aqui disse Akanosh num tom calmo mas a cidade de Heracleopólis é fiel ao nosso inimigo, o núbio Piankhi, que se considera o verdadeiro soberano do Egipto. Até agora não reagiu porque o nosso ataque o apanhou de surpresa. O faraó negro vegeta no seu longínquo Sudão, a centenas de quilómetros daqui! É verdade, mas as suas tropas estacionadas em Tebas não tardarão a intervir. Tefnakhte sorriu.
Consideras-me um pobre de espírito, meu amigo? É evidente que, mais cedo ou mais tarde, receberão ordem para atacar. Mas não estamos preparados para as enfrentar? Akanosh fez má cara. Alguns de nós consideram que a nossa aliança é frágil... És um verdadeiro chefe de guerra, Tefnakhte, mas somos vários a exercer uma forma de soberania que desejamos manter. Ir mais longe poderia conduzir-nos à ruína. Será o imobilismo que nos arruinará e privará de todo o poder! Tornar-se-á necessário descrever o caos em que nos encontrávamos antes de eu encabeçar esta coligação? Quatro pseudo-faraós no Delta e uma boa dezena de pretendentes ao trono! O mais insignificante chefe de tribo considerava-se um monarca absoluto e todos se sentiam satisfeitos com essa anarquia entrecortada por confrontos sangrentos. É verdade reconheceu Akanosh e tu devolveste-nos a noção da honra... Mas é preciso saber manter a razão. Visto que presentemente possuímos metade do país, não será conveniente que repartamos os territórios conquistados em vez de corrermos riscos insensatos?» In Christian Jacq, O Faraó Negro, 1997, Bertrand Editora, 1998, ISBN 978-972-251-049-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

O Faraó Negro. Christian Jacq. «Se for má, estamos condenados. Não desesperes, rezemos dia e noite à deusa das colheitas. O homem olhou ao longe»

jdact e cortesia de wikipedia

«Quando viu o marido regressar do templo, a esposa do chefe da aldeia forçou-se a acreditar que trazia ao ombro um saco de trigo. Na véspera, o casal de camponeses tinha festejado o aniversário da filhinha, que estava encantada com o presente que recebera: uma boneca de pano que o pai lhe fizera. Com as amigas da sua idade, brincava no meio da estrada que atravessava a Colina dos Pássaros, uma aldeia da província de Heracleopólis, no Médio Egipto. O homem atirou o saco vazio ao chão. Não há mais nada. Os próprios sacerdotes se arriscam a morrer de fome e os deuses não tardarão a regressar ao céu, pois ninguém pensa em respeitar as leis dos nossos antepassados. Mentira, corrupção, egoísmo: eis os nossos novos senhores. Dirige-te ao vizir e depois ao faraó, se for preciso!
Já não há faraó, apenas chefes de clã que se batem entre si e pretendem exercer o poder supremo. O norte do país está sob o jugo dos príncipes líbios que se comprazem na anarquia e nas suas querelas internas. E o faraó negro? Ora, esse! Deixou um exército em Tebas para proteger a cidade santa do deus Amon, onde reina a irmã, a Divina Adoradora, e encerrou-se na sua capital, Napata, nos confins da Núbia, tão longe do Egipto que já o esqueceu há muito tempo! (Os acontecimentos desenrolam-se cerca de 730 a C.) Tenho a certeza que nos ajudará! Desengana-te, é incapaz disso. Embora se afirme rei do Alto e do Baixo Egipto, apenas controla a sua província lá dos confins e o sul do vale do Nilo. Abandona o resto do país à desordem e à confusão. Era necessário preveni-lo que estamos a mergulhar na miséria, que... É inútil afirmou o chefe da aldeia. O faraó negro contenta-se com o seu falso reino. Para ele, nós não existimos. Ainda tenho peixe seco, mas apenas para alguns dias... Vão considerar-me responsável pela fome. Se não encontrar uma solução, morreremos todos. Não me resta mais do que suplicar ao príncipe de Heracleopólis que nos socorra. Mas ele é fiel ao faraó negro! Se também ele me falhar, irei até mais a norte. A mulher agarrou-se ao marido. Os caminhos não são seguros, as milícias líbias prender-te-iam e cortar-te-iam o pescoço! Não, não deves partir. Aqui, na Colina dos Pássaros, estamos em segurança. Os nortistas nunca ousariam aventurar-se tão longe. Então, morramos de fome... Não, pára de receber os impostos, racionemo-nos e partilhemos o que nos resta com as outras aldeias! Assim, aguentar-nos-emos até à cheia.
Se for má, estamos condenados. Não desesperes, rezemos dia e noite à deusa das colheitas. O homem olhou ao longe. Que futuro nos resta? Os tempos felizes desapareceram para sempre e viver tornou-se um fardo. Como podemos acreditar nas promessas dos homens de poder? Só têm como objectivo o enriquecimento pessoal e as suas belas palavras só a eles próprios seduzem. As garotas brincavam com as bonecas, num universo maravilhoso de que só elas possuíam a chave. Ralhavam e tornavam a ralhar, porque as marotas das bonecas desobedeciam constantemente. A camponesa sorriu. Sim, a esperança existia. Existia nos risos das crianças e na sua instintiva recusa da tristeza. O vento do norte levantou-se, arrastando uma nuvem de pó que cobriu o limiar das casas. Com o olhar triste, o chefe da aldeia sentou-se num banco de pedra colocado em frente da parede da sua casa. No instante em que a mulher agarrou numa vassoura, o solo tremeu.
Um ruído surdo, ainda distante, vinha da estrada de Mênfis, a cidade mais populosa do país e o seu principal centro económico. Mênfis ignorava o medíocre reinado do faraó negro e adaptava-se cada dia mais à ocupação líbia. Formando uma roda, as garotinhas explicavam às bonecas que tinham que ser muito obedientes para crescerem e usarem lindos vestidos. Uma nova nuvem de pó subiu até ao céu e o ruído surdo transformou-se num estrépito semelhante ao que seria provocado pela carga de uma manada de touros enfurecidos. A camponesa avançou, olhando para norte, mas ficou encandeada. Os raios do sol reflectiam-se em superfícies metálicas que os transformava numa luz branca que cegava. Carros constatou o chefe da aldeia, saindo do seu torpor. Carros, soldados com capacetes e couraças, escudos, lanças... Vindo do Delta, o exército nortista abatia-se sobre a Colina dos Pássaros». In Christian Jacq, O Faraó Negro, 1997, Bertrand Editora, 1998, ISBN 978-972-251-049-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

O Labirinto da Saudade. Eduardo Lourenço. «Não vivíamos num país real, mas numa Disneylandia qualquer, sem escândalos, nem suicídios, nem verdadeiros problemas»

jdact

«(…) O nacionalismo orgânico do antigo regime favoreceu a objectiva desnacionalização de milhares de portugueses. Em compensação, teria contribuído para colmatar, melhor que a ideologia patriótica do liberalismo, o abismo persistente entre a nossa autêntica realidade e a imagem hipertrofiada com que sempre temos vivido a nossa vida imaginária? Houve no salazarismo concreto (e na sua ideologia expressa nos Discursos do universitário assaz racionalista que foi Salazar, uma tentativa para adaptar o país à sua natural e evidente modéstia. Todavia a glosa do relativo sucesso dessa tentativa é que não foi nada modesta e breve redundou na fabricação sistemática e cara de uma lusitanidade exemplar,cobrindo o presente e o passado escolhido em função da sua mitologia arcaica e reaccionária que aos poucos substituiu a imagem mais ou menos adaptada ao País real dos começos do Estado Novo por uma ficção ideológica, sociológica e cultural mais irrealista ainda que a proposta pela ideologia republicana, por ser ficção oficial, imagem sem controlo nemcontradição possível de um país sem problemas, oásis da paz, exemplo das nações, arquétipo da solução ideal que conciliava o capital e o trabalho, a ordem e a autoridade com um desenvolvimento harmonioso da sociedade. Esse optimismo de encomenda teve nas famigeradas notas do dia o seu evangelho radiofónico. Não vivíamos num país real, mas numa Disneylandia qualquer, sem escândalos, nem suicídios, nem verdadeiros problemas. O sistema chegou a uma tal perfeição na matéria que não parecia possível contrapor uma outra imagem de nós mesmos àquela que o regime tão impune mas tão habilmente propunha semque essa imagem-curta (não apenas ideológica, mas cultural) aparecesse como uma sacrílega contestação da verdade portuguesa por ele restituída à sua essência e esplendor. Não se percebeu nada do espírito do antigo regime e do seu êxito histórico quando não se vê até que ponto ele foi a mais grandiosa e sistemática exploração do fervor nacionalista de um povo que precisa dele como de pão para a boca em virtude da distância objectiva que separa a sua mitologia da antiga nação gloriosa da sua diminuida realidade presente. O Estado Novo voltou contra o sistema democrático um patriotismo que nãos oubera traduzir nos factos nenhuma das promessas que o haviam justificado nos finais do século XIX. Sob tão sólida peanha o Estado Novo, mesmo cada dia mais envelhecido, podia durar indefinidamente. A mentira orgânica que a sua impossível consubstanciação orgânica com a Nação, por mais formal que realmente orgânica, representava junto da parte mais politizada do povo português, poder-se-ia ter prolongado, menos pela sua própria capacidade do que pelo vazio quase absoluto da ideologia liberal sobrevivente. E na verdade em face desse obstáculo, balizado com o nome ainda mágico da Democracia, o antigo regime foi capaz durante mais de trinta anos de resistir vitoriosamente. Essa resistência foi-lhe tanto mais fácil quanto era certo que o ferro de lança da Democracia, que na sombra, ou de quatro em quatro anos à luz de um arremedo de dia eleitoral a defendia, era um partido que não possuía desse ideal nem da prática democráticas tradicionais, nenhuma lembrança fervorosa ou projecto digno de crédito. Os fins dos anos 30, começos dos anos 40, veriam em Portugal uma mutação que por confinado ou claro destino deslocou, como até então ideologia alguma o conseguira, o eixo sobre o qual repousaram até aí todas as figuras da relação entre os portugueses e Portugal. Pela primeira vez o sentimento patriótico característico da política moderna sob o signo português era desmascarado, na teoria e na prática, e subordinado a uma concepção revolucionária da História que transfere para a luta de classes o segredo do seu dinamismo, fiando da sua abolição o ajustamento efectivo do indivíduo ao povo a que pertence enquanto sociedade revolucionária pela supressão vitoriosa da classe dominante que até então confundira como seus os interesses colectivos». In Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Psicanálise Mítica do Destino Português, Gradiva, Lisboa, 2000, ISBN 978-972-662-765-4.
                                                                                                                           
Cortesia Gradiva/JDACT