quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Poesia. Alberto Caeiro. «Se soubesse que amanhã morria e a Primavera era depois de amanhã, morreria contente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Quando Vier a Primavera

«Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Poema de Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos. Heterónimo de Fernando Pessoa

Agora que Sinto Amor

«Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver».
Poema de Alberto Caeiro, in O Pastor Amoroso.

A Espantosa Realidade das Cousas

«A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade».
Poema de Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos. Heterónimo de Fernando Pessoa

Cortesia de OCitador/JDACT

Poesia, A Arte, Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, 

A Cidade Perdida. James Rollins. «A ansiedade impediu-a de voltar a subir ao quarto andar para o recuperar. Ela tinha de saber o que acontecera no museu»

Cortesia de wikipedia e jdact

The British Museum. Londres. 14 de Novembro

«(…)

02h22, GMT Londres, Inglaterra

Safia postava-se diante da barricada, uma vedação em A preta e amarela. Mantinha os braços cruzados, ansiosa, gelada. O fumo impregnava o ar. O que acontecera? Atrás da barricada, um polícia segurava a sua carteira na mão e comparava a fotografia com a mulher à sua frente. Ela sabia que ele tinha dificuldade em fazer corresponder às duas. Na sua mão, o cartão de identificação do museu retratava uma mulher cuidada de trinta anos de idade de tez cor de café com leite, cabelo de ébano apanhado atrás numa eficiente trança e olhos verdes escondidos por trás de uns óculos de leitura escurecidos. Em contraste, diante do jovem guarda apresentava-se uma mulher ensopada e enlameada, com o cabelo desregradamente colado em longas faixas ao rosto. Os olhos dela pareciam perdidos e confusos, centrados para lá das barreiras, para lá do frenesim do pessoal e equipamento de emergência. Equipas noticiosas ponteavam a paisagem, aureoladas pelos focos das suas câmeras. Alguns camiões de reportagem televisiva estavam estacionados em cima dos passeios. Reconheceu igualmente dois veículos militares entre as equipas de emergência além de efectivos empunhando armas.

A possibilidade de um ataque terrorista não podia ser descartada. Ela ouvira tais rumores entre a multidão e de um repórter que tivera de evitar para chegar à barricada. E não poucos lançaram olhares suspeitosos na sua direcção, a árabe solitária na rua. Ela tivera uma experiência em primeira-mão com o terrorismo, mas não da maneira que eles suspeitavam. E talvez ela interpretasse mesmo erradamente as reacções à sua volta. Uma forma de paranóia, designada como hiper-ansiedade, era uma sequela frequente de um ataque de pânico. Safia prosseguiu por entre a multidão, respirando pesadamente, centrando-se no seu propósito ali. Lamentou ter esquecido o guarda-chuva. Ela deixara o apartamento imediatamente após a chamada, demorando-se apenas o suficiente para vestir umas calças de caqui e uma blusa branca floreada. Pusera um casaco Burberry pelo joelho, mas na pressa, o guarda-chuva a condizer fora deixado no seu posto junto à porta. Só quando chegou ao primeiro andar do edifício e se precipitou para a chuva, percebeu o erro. A ansiedade impediu-a de voltar a subir ao quarto andar para o recuperar. Ela tinha de saber o que acontecera no museu. Passara a última década a construir a colecção e os últimos quatro anos a dirigir os seus projectos de investigação fora do museu. Quanto fora arruinado? O que poderia ser salvo?

Lá fora, a chuva crescera de novo para uma bátega persistente, mas pelo menos os céus nocturnos estavam menos coléricos. Quando alcançou o posto de controlo de emergência que coordenava o acesso, estava ensopada até aos ossos. Estremeceu quando o guarda se mostrou satisfeito com a identificação. Pode seguir. O inspector Samuelson está à sua espera. Um outro polícia escoltou-a até a entrada sul do museu. Ela olhou para cima para a sua fachada de colunata. Mostrava a solidez de uma caixa-forte, uma permanência que não podia ser questionada. Até essa noite... Foi conduzida pela entrada e por uma série de escadas abaixo. Passaram por portas assinaladas: Reservado ao Pessoal do Museu. Ela sabia para onde estava a ser levada. Para a base de segurança subterrânea. Um guarda armado postava-se de sentinela à porta. Assentiu à sua aproximação, claramente à espera deles. Abriu a porta. A sua escolta passou-a a um novo elemento: um homem de tez negra envergando traje civil, um indistinto fato azul. Era alguns centímetros mais alto que Safia, o cabelo completamente cinza. O rosto parecia de couro gasto. Ela reparou numa mancha prateada de restolho nas suas faces, por barbear, muito provavelmente arrancado da cama. Ele estendeu uma mão vigorosa. Inspetor Geoffrey Samuelson, disse com a mesma firmeza do seu aperto de mão. Obrigado por ter acorrido tão prontamente. Ela assentiu, demasiado nervosa para falar. Se quiser fazer o favor de me acompanhar, doutora al-Maaz, necessitamos da sua ajuda na investigação da causa da explosão. Minha?, conseguiu pronunciar. Passou por uma sala de descanso, atulhada de pessoal de segurança. Parecia que todo o pessoal, de todos os turnos, tinha sido convocado. Ela reconheceu vários dos homens e mulheres, mas fitavam-na agora como se fosse uma estranha. O murmúrio do seu arrazoar silenciou-se enquanto ela passava. Eles deviam saber que ela fora chamada, mas tal como ela não pareciam conhecer a razão. Contudo, era clara a suspeição por detrás do silêncio. Endireitou mais as costas, a irritação a faiscar por entre a ansiedade». In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, James Rollins, Literatura, A Arte, 

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina. José Presas. «Depois de feitos os primeiros cumprimentos, ofereceu-me uns periódicos para que me entretivesse com sua leitura enquanto voltava para despedir-se do núncio…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O bergantim atingira, na sua rota, o ponto em que me era forçoso abandoná-lo para continuar a viagem, e, aproveitando um cúter inglês, única embarcação que havia no porto, segui caminho até ao Rio de Janeiro. Previa o risco iminente que corria de ser considerado prisioneiro de guerra. Por outro lado, porém, não podia por mais tempo permanecer estacionado na vila de Santos, onde podia passar-se um ano sem que arribasse navio nacional ou estrangeiro. Com três dias de navegação fundeamos na baía do Rio, e logo tivemos a visita regulamentar. Informado o seu chefe, da minha procedência, voltou imediatamente a participar ao Governo a minha chegada. Pelas providências que este tomou, vim saber que se dava à minha pessoa grande importância, pois que no mesmo momento fui mandado chamar pela própria falua da visita, e conduzido por um ajudante-de-ordens perante o general comandante da praça, o qual, depois de amplo interrogatório, me despediu com a única ressalva de não sair da cidade sem expressa permissão sua. Com semelhante disposição, confirmaram-se meus receios e previsões, e vi-me reduzido, na minha opinião, à triste sorte de prisioneiro. Assim permaneci coisa de um mês, até que se apresentou, com dois navios de linha e outras embarcações menores, o contra-almirante Smith, que tendo recomendado a seu imediato, o comodoro Moor, que escoltasse a Família Real de Portugal até ao Rio de Janeiro, ficara cruzando diante da barra do porto de Lisboa, a fim de observar e tomar conhecimento das operações do general Junot e compenetrar-se dos objectivos e planos que este formava acerca de Portugal.

Dois dias depois da chegada do contra-almirante Smith, este me mandou, por intermédio do seu ajudante-de-ordens, Carol, solicitar instantaneamente tivesse a bondade de ir a bordo do seu navio, sem nada adiantar-me quanto ao objecto da entrevista que desejava. Mais a necessidade que a curiosidade decidiu-me a comparecer perante sir Sidney Smith, que me recebeu, na antecâmara de seu navio, com uma amabilidade e cortesia pouco comum em pessoas de sua carreira e categoria, ainda mais quando estão dominando, de suas fortalezas marítimas, a todos que encontram no seu caminho, ou nos lugares em que têm arvorado seu pavilhão, atitude que, geralmente, deixa de ser ameaçadora, para converter-se em fulminante. Depois de feitos os primeiros cumprimentos, ofereceu-me uns periódicos para que me entretivesse com sua leitura enquanto voltava para despedir-se do núncio de Sua Santidade, monsenhor Caleppi, que em companhia de dois portugueses tinha ido felicitá-lo por sua feliz chegada. Livre já das visitas de cerimónia, fez-me entrar no camarote, e iniciou a conversa perguntando-me acerca da situação do Rio da Prata, a saber: a respeito da opinião pública, número de tropas, meios e recursos com que podia contar o general Liniers para sua defesa, e se, quando saí de Buenos Aires, ali se temia que voltassem pela terceira vez os ingleses a conquistá-la. Minha resposta a todos esses quesitos foi um tanto exagerada a favor do general Liniers, de quem disse ter à sua disposição uns vinte mil homens, porque, após a última derrota experimentada pelos ingleses, se engrossaria o exército espanhol com tropas mandadas vir de todas as províncias, e que o aumentariam ainda reforços que se esperavam do vice-rei de Lima. Vi, pela fisionomia de Smith, que essa notícia lhe era pouco agradável; não obstante, continuou seu interrogatório apresentando-me um plano de toda a costa do vice-reinado de Buenos Aires, para que lhe indicasse qual o ponto que, na minha opinião, era o mais qualificado e favorável a um desembarque de tropas. Respondi-lhe ser essa matéria bastante estranha a meus conhecimentos, e que, mesmo quando possuísse alguns, sempre seriam muito inferiores, por uma razão natural, ao de um chefe de primeira ordem da Marinha Real Inglesa.

Sorriu com a resposta; e disse-me, então, francamente, que o objectivo de sua vinda era o de tentar, pela terceira vez, a conquista de Buenos Aires, para a qual se estava preparando uma grande divisão nos portos da Inglaterra. Já se passara algum tempo nessa conversação, e julgando ter satisfeito seus desejos, quis despedir-me, mas instou muito comigo para que o acompanhasse no jantar. Os ingleses costumam servir-se da mesa para arrancar dos convivas o que convém a seus interesses. Nessa ocasião, tinha de agir com a maior circunspecção, para ficar sempre senhor de mim mesmo e medir bem as palavras». In José Presas, Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina, Edição do Senado Federal, volume 130, Brasília, 2013, ISBN 978-857-018-271-5.

Cortesia de ESenadoFederal/JDACT

JDACT, José Presas, Literatura, Carlota Joaquina, Brasil, 

Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina. José Presas. «Em começos do ano de 1808, precisando voltar da América do Sul para Espanha, embarquei-me num bergantim português que partia de Buenos Aires para a costa do Brasil…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Qual o intuito de José Presas escrevendo as Memórias secretas de Dona Carlota Joaquina? Na verdade, o aventureiro catalão só teve em mira cobrar-se dos seus serviços como secretário particular e fomentador da intriga do Prata. Escreveu esta obra com o intuito premeditado de fazer revelações indiscretas e dar a entender à então rainha viúva de Portugal que poderia ir mais longe ainda, relatando por miúdos factos a que faz alusões veladas e remotas. Em suma: tentava uma chantagem em grande estilo contra a antiga senhora e ama, cujas veleidades políticas animara, a fim de melhor fazer valer os seus serviços e justificar a permanência a seu lado. Época pitoresca era essa, em que os reis e rainhas colocavam acima do seu poder pessoal o seu confessor, temerosos de uma omissão, punível pela justiça divina, a ponto de escreverem suas confissões completas que, imprudentemente, deixavam ao alcance dos seus áulicos, capazes de comerciar com esses segredos, exigindo dinheiro em troca de silêncio! A parte final do livro de Presas, a conclusão, o arremate dessa obra que seria um simples pano de amostra, uma indicação do muito que ele sabia e do quanto seria perigoso deixar a rainha de atendê-lo, insinua com tanta arte e habilidade quando era possível em tão escuso negócio a premeditada chantagem: Medite também sobre as fatais consequências que lhe poderia ter acarretado, pondo em mãos do próprio príncipe (João) a confissão geral que, involuntariamente, e por esquecimento, me entregou..., e que devolvi, como devia, com os demais papéis, sem dar-me por entendido de que a havia visto e lido, etc. Finório como era, se naquela época já estivessem em uso as cópias fotostáticas, Presas teria, sem dúvida, muito inocentemente, tirado fac-símile das confissões de dona Carlota, como por certo havia tirado cópia manuscrita dos trechos mais comprometedores...

Em começos do ano de 1808, precisando voltar da América do Sul para Espanha, embarquei-me num bergantim português que partia de Buenos Aires para a costa do Brasil com destino ao porto da vila de Santos. Foi ali que tive a primeira notícia de que os exércitos francês e espanhol tinham invadido Portugal, e de que o general Junot, comandante do primeiro, se havia apoderado de Lisboa, sem ter conseguido impedir a fuga da Família Real, que, sob a protecção e guarda da esquadra inglesa, capitaneada pelo contra-almirante sir Sidney Smith, se refugiara nos seus Estados do Brasil. Ao mesmo tempo que os franceses se assenhoreavam de Lisboa, os espanhóis, às ordens do general Tarauco, ditavam leis na opulenta e importante cidade do Porto, e, operando ambos os exércitos com estreita aliança, tinham subjugado toda a Lusitânia, oprimindo extraordinariamente a todos os habitantes com o peso insuportável de uma guerra injusta e assoladora. O auxílio, que o governo da Espanha prestava com tanta generosidade aos projectos do imperador Napoleão nesta empresa, comprometeu a segurança pessoal de todos os espanhóis, que na ocasião se achavam nos domínios sujeitos ao príncipe regente de Portugal, o qual, pelas consequências de uma justa represália, não podia deixar de considerar como inimigos os súbditos espanhóis. Essa a sorte que me era lícito esperar desde que pusesse o pé em terra no porto de Santos. Não obstante, nenhum estorvo ali sofri, quer de parte do governo, quer da polícia». In José Presas, Memórias Secretas de Dona Carlota Joaquina, Edição do Senado Federal, volume 130, Brasília, 2013, ISBN 978-857-018-271-5.

Cortesia de ESenadoFederal/JDACT

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domingo, 24 de outubro de 2021

A Bailarina de Auschwitz. Edith Eva Eger. «Fome de aprovação, de atenção, de afeição. Temos fome de liberdade para aceitar a vida e para realmente nos conhecermos e sermos nós mesmos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Logo eu descobriria a origem do trauma de Jason e ele descobriria que, apesar de nossas óbvias diferenças, tínhamos muita coisa em comum. Ambos conhecíamos a violência. E ambos sabíamos como era ficar paralisado. Eu também carregava uma ferida dentro de mim, uma tristeza tão profunda que por muitos anos não fora capaz de falar a respeito com ninguém. O passado ainda me assombrava: uma sensação de atordoamento e ansiedade sempre surgia quando eu ouvia sirenes, passos pesados ou homens gritando. Isso, eu aprendera, é o trauma. A sensação quase permanente no estômago de que alguma coisa está errada, ou de que algo terrível está para acontecer, faz as respostas automáticas do medo em meu corpo me dizerem para fugir, me proteger, me esconder do perigo que está em toda parte. Meu trauma pode ainda aparecer em situações prosaicas. Uma visão súbita ou um cheiro específico têm o poder de me transportar de volta para o passado. No dia em que conheci o capitão Fuller, fazia mais de trinta anos que eu tinha sido libertada dos campos de concentração do Holocausto. Hoje, mais de setenta anos se passaram. O que aconteceu não pode ser esquecido, muito menos mudado. Porém, ao longo do tempo, aprendi que posso escolher como reagir ao passado. Posso sentir-me triste ou esperançosa, posso ficar deprimida ou feliz. Sempre temos essa escolha, essa oportunidade de controle. Estou aqui, isso é agora, aprendi a repetir para mim mesma, sem parar, até o pânico começar a diminuir. O senso comum diz que se uma coisa incomoda ou provoca ansiedade, simplesmente não deve olhar para ela. Não deve encará-la. Portanto, temos o hábito de fugir dos traumas do passado, das dificuldades, dos conflitos e dos desconfortos. Durante grande parte da minha vida adulta eu achei que minha sobrevivência no presente dependia de manter afastados o passado e o sofrimento que ele provocava. Nos meus primeiros anos como imigrante em Baltimore, nos Estados Unidos nos anos 1950, eu nem sequer sabia como pronunciar Auschwitz em inglês. Não que eu quisesse contar que estive lá. Eu não queria que ninguém sentisse pena de mim. Não queria que ninguém soubesse. Eu queria falar inglês sem sotaque e me esconder do passado. Na ânsia de me integrar e com medo de ser engolida pelos meus traumas, me esforcei bastante para manter minha dor em segredo. Eu ainda não tinha percebido que meu silêncio e meu desejo de aceitação, ambos baseados no medo, eram maneiras de fugir de mim mesma. Nem que ao escolher não enfrentar directamente a mim ou ao passado, eu ainda escolhia não ser livre, mesmo décadas depois de meu encarceramento. Eu tinha um segredo que me aprisionava. O capitão do Exército catatónico, sentado imóvel no meu sofá, me lembrou de algo que eu descobrira com o tempo: que quando obrigamos nossas verdades e histórias a se esconderem, os segredos podem se tornar o próprio trauma, a própria prisão. Longe de diminuir a dor, o que nos recusamos a aceitar se torna tão intransponível quanto as paredes de tijolos e barras de aço. Quando não nos permitimos sofrer por nossas perdas, feridas e decepções, estamos condenados a revivê-las. A liberdade está em aprender a aceitar o que aconteceu. Liberdade significa reunir coragem para desmantelar a prisão, tijolo por tijolo.

Coisas ruins acontecem em todo o universo. Não podemos mudar isso. Se olharmos para a nossa certidão de nascimento, por acaso lá está escrito que a vida será fácil? Não, mas muitas pessoas permanecem presas num trauma ou dor, incapazes de viver de maneira plena. Isso, no entanto, é possível mudar. Recentemente, no Aeroporto de Nova York, enquanto esperava meu voo de volta para casa em San Diego, fiquei sentada analisando os rostos de cada estranho que passava. O que vi me emocionou profundamente. Vi tédio, fúria, tensão, preocupação, confusão, desânimo, decepção, tristeza e, o mais preocupante, vazio. Fiquei muito triste ao notar tão pouca alegria naqueles rostos. Mesmo os momentos mais maçantes da vida são oportunidades para sentir esperança, leveza, felicidade. A rotina faz parte da vida, assim como o sofrimento e o stress. Por que algumas vezes nos esforçamos para nos sentirmos vivos e outras nos distanciamos da sensação de viver plenamente? Porque é tão desafiador trazer vida para a vida? Se me perguntasse qual é o diagnóstico mais comum entre as pessoas que atendo, eu não diria depressão ou transtorno de stress pós-traumático, embora essas doenças sejam bastante recorrentes entre aqueles que conheço, amo e oriento para a liberdade. Eu diria que é a fome. Temos fome. Fome de aprovação, de atenção, de afeição. Temos fome de liberdade para aceitar a vida e para realmente nos conhecermos e sermos nós mesmos». In Edith Eva Eger, A Bailarina de Auschwitz, 2017, Editora Desassossego, 2018, ISBN 978-989-889-218-8.

 Cortesia de EDesassossego/JDACT

JDACT, Edith Eva Eger, Guerra, Literatura, Conhecimento,

A Bailarina de Auschwitz. Edith Eva Eger. «Conte-me porque está aqui, tentei novamente. Ele continuou mudo. Senti meu corpo ficar tenso e ser tomado por uma onda de incerteza…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ele não respondeu. Nem sequer piscou. Ele me lembrava um personagem que havia sido transformado em pedra. Que feitiço poderia libertá-lo? Porquê agora?, perguntei. Essa era a minha arma secreta. A pergunta que sempre faço a meus pacientes na primeira visita. Preciso saber por que eles estão motivados a mudar. Porque hoje, entre todos os dias, eles querem começar a trabalhar comigo? Porque hoje é diferente de ontem, da semana passada ou do ano passado? Porque é diferente de amanhã? Às vezes, a dor nos empurra e às vezes, a esperança nos puxa. Perguntar Porquê agora? não é apenas fazer uma pergunta, é perguntar tudo. Um dos olhos dele se fechou momentaneamente, mas ele não disse nada. Conte-me porque está aqui, tentei novamente. Ele continuou mudo. Senti meu corpo ficar tenso e ser tomado por uma onda de incerteza e pela consciência das ténues e decisivas encruzilhadas onde nos encontrávamos: dois seres humanos cara a cara, ambos vulneráveis, ambos correndo riscos enquanto nos esforçávamos para dar nome à angústia e descobrir sua cura. Jason não havia chegado com uma indicação oficial. Aparentemente viera ao meu consultório por conta própria. Mas eu sabia, por experiência pessoal e clínica, que mesmo quando a pessoa decide se curar, pode permanecer travada durante anos.

Considerando a gravidade dos sintomas que ele exibia, se eu não fosse capaz de fazê-lo falar, minha única alternativa seria recomendá-lo a meu colega, o psiquiatra chefe do Centro Médico do Exército William Beaumont, onde fiz o meu doutoramento. O Dr. Harold Kolmer diagnosticaria a catatonia de Jason, o internaria e provavelmente receitaria um medicamento antipsicótico, como o Haldol. Imaginei Jason numa camisola de hospital, os olhos ainda vidrados e o corpo, naquele momento tão tenso, retorcendo-se em convulsões devido aos espasmos musculares muitas vezes provocados pelos remédios prescritos para controlar a psicose. Confio totalmente no conhecimento de meus colegas psiquiatras e sou grata aos medicamentos que salvam vidas, mas não gosto de pular directo para o internamento se houver qualquer chance de sucesso com uma intervenção terapêutica. Eu temia que, se recomendasse internamento e medicação para Jason sem primeiro explorar outras opções, ele trocaria um tipo de entorpecimento por outro. Os membros paralisados ganhariam movimentos involuntários da discinesia, uma espécie de dança descoordenada de tiques e movimentos repetitivos que acontece quando o sistema nervoso envia o sinal para o corpo se mover sem a permissão da mente. O sofrimento dele, não importava a causa, poderia ser silenciado, mas não resolvido, pelas drogas. Talvez ele viesse a sentir-se melhor, ou sentir menos, o que muitas vezes confundimos com a sensação de melhorar, mas não ficaria curado.

E agora? Eu pensava enquanto os minutos se arrastavam pesados e Jason continuava sentado estático em meu sofá. Ele estava ali porque queria, mas ainda assim permanecia aprisionado. Eu tinha apenas uma hora. Uma oportunidade. Conseguiria fazê-lo se abrir? Conseguiria ajudá-lo a anular o potencial violento que eu sentia tão vividamente como o vento do ar condicionado na minha pele? Conseguiria mostrar para ele que, quaisquer que fossem seu problema e sua dor, ele já possuía a chave para a própria liberdade? Na época, eu não tinha como saber que, se fracassasse em fazer Jason falar naquele dia, um destino bem pior do que um quarto de hospital o aguardava: uma vida numa prisão de verdade, provavelmente no corredor da morte. Na época, eu só sabia que precisava tentar. Enquanto analisava Jason, entendi que para alcançá-lo não poderia apelar para os sentimentos. Devia usar uma linguagem mais confortável e familiar para alguém das Forças Armadas. Eu devia dar ordens. Minha única esperança de destravá-lo era fazer com que o sangue circulasse pelo seu corpo. Vamos dar uma caminhada, falei. Não perguntei. Dei a ordem. Capitão, vamos levar Tess ao parque. Agora. Jason pareceu entrar em pânico por um momento. Lá estava uma mulher, uma estranha, falando com um pesado sotaque húngaro e dizendo a ele o que fazer. Vi que ele olhou ao redor, como se estivesse pensando Como faço para sair daqui?. Mas ele era um bom soldado. Ficou de pé. Sim, senhora, respondeu. Sim, senhora». In Edith Eva Eger, A Bailarina de Auschwitz, 2017, Editora Desassossego, 2018, ISBN 978-989-889-218-8.

Cortesia de EDesassossego/JDACT

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Sedução da Seda. Loretta Chase. «Todos os dias, um menino de roupas imundas levava para elas o jornal que trazia os mais recentes escândalos tão logo era impresso…»

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«(…) Como nenhuma das irmãs Noirot fez nada tão óbvio quanto gritar ou tropeçar, ou mesmo erguer uma sobrancelha, ninguém que estivesse observando poderia ter imaginado que elas consideravam aquela notícia de extrema importância. Elas continuaram com suas tarefas, servindo às duas damas e a outras pessoas que adentrassem seu estabelecimento. Naquela noite, mandaram a costureira para casa e fecharam a loja. Subiram as escadas para seus humildes aposentos e fizeram uma leve refeição, como de costume. Marcelline contou uma história para a filha de 6 anos, Lucie Cordelia, antes de colocá-la na cama. Lucie dormia o sono dos inocentes, ou o mais inocente possível para uma criança nascida numa família em ruínas, quando as três irmãs desceram as escadas que levavam até o atelier da loja. Todos os dias, um menino de roupas imundas levava para elas o jornal que trazia os mais recentes escândalos tão logo era impresso, em geral, antes que a tinta estivesse seca, e o entregava na porta dos fundos da loja. Leonie pegou o lote do dia e espalhou as folhas pela mesa de trabalho. As irmãs começaram a vasculhar as colunas. Está aqui, disse Marcelline depois de alguns instantes. O conde de L. voltou de Paris ontem à noite… Fomos informados de que certo duque, que actualmente reside na capital francesa, foi avisado, em termos inequívocos, que lady C. estava cansada de esperar pelo prazer… Sua Graça deve voltar a Londres antes das celebrações do aniversário do rei… Noivado a ser anunciado durante um baile na Residência Warford, no fim da estação… Casamento antes do fim do verão. Ela passou a página para Leonie, que prosseguiu a leitura: Se o tal cavalheiro não cumprir seu compromisso, a dama considerará o entendimento como um mal-entendido. Ela riu. Seguem algumas conjecturas interessantes sobre qual cavalheiro será favorecido em seu lugar. Empurrou o jornal na direcção de Sophia, que balançava a cabeça.

Ela seria uma tola em abrir mão dele. Um ducado, pelo amor de Deus. E um duque solteiro, jovem, bonito e saudável? Posso contar, num único dedo, quantos desses há por aí. Ela enfiou o dedo indicador na coluna do jornal. Ele. Fico-me perguntando qual o motivo da pressa, disse Marcelline. Ela só tem 21 anos. E o que ela tem para fazer, além de ir a festas, óperas, bailes, jantares, passeios etc.?, comentou Leonie. Uma moça da aristocracia que tem beleza, nível e um dote respeitável não devia se preocupar em atrair candidatos. Essa moça… Nem precisou completar a frase. Elas já tinham visto lady Clara Fairfax em várias ocasiões. Sua beleza era impressionante: cabelos louros, olhos azuis, pele clara. Suas numerosas qualidades incluíam alta classe, uma linhagem impecável e um dote esplêndido; os homens se jogavam a seus pés por onde quer que ela passasse. Nunca mais na vida aquela moça será capaz de exercer tanto poder sobre os homens como agora, comentou Marcelline. Ela devia esperar chegar mais perto dos 30 anos para se casar. Imagino que lorde Warford jamais pudesse esperar que o duque ficasse longe por tanto tempo, afirmou Sophia. Dizem que ele sempre obedeceu ao marquês, respondeu Leonie. Desde que o pai dele morreu de tanto beber. Não se pode culpar Sua Graça por fugir.

Talvez lady Clara tenha ficado ansiosa, argumentou Sophia. Ninguém parecia preocupado com a ausência de Clevedon, mesmo quando lorde Longmore voltou para casa sem ele. Porque se preocupariam?, perguntou Marcelline. Todos os consideram noivos. Quebrar o compromisso com lady Clara seria o mesmo que romper com toda a família. Talvez exista outro pretendente… Um que lorde Longmore não aprovaria, arriscou Leonie. Lady Warford não deixaria um ducado lhe escapar, disse Sophia. Que ameaça lorde Longmore teria usado?, indagou Sophia. Ambos têm fama de serem desvairados e violentos. Ele não poderia tê-lo ameaçado com um duelo. Matar o duque iria contra todos os seus objectivos. Talvez tenha ameaçado apenas espancá-lo até ele perder os sentidos. Isso eu gostaria de ver, disse Marcelline. Eu também, concordou Sophia. E eu, acrescentou Leonie. Dois homens aristocráticos e bonitos lutando, disse Marcelline, com um sorriso nos lábios. Como Clevedon havia partido de Londres várias semanas antes de ela e as irmãs voltarem de Paris, até aquele momento elas ainda não o haviam conhecido». In Loretta Chase, Sedução da Seda, 2011, Edições Chá das Cinco, 2016, ISBN 978-989-710-184-7.

Cortesia de ECdasCinco/JDACT

JDACT, Loretta Chase, Literatura,

sábado, 23 de outubro de 2021

Sedução da Seda Loretta Chase. «Infelizmente, Noirot havia sido ludibriado pela sua futura esposa, que, da maneira mais encantadora possível, era tão dedicada a mentir e a enganar quanto ele»

Cortesia de wikipedia e jdact

«No Verão de 1810, Edward Noirot fugiu para a vila de Gretna Green, no sul da Escócia, famosa por permitir o casamento de jovens sem o consentimento dos pais, levando consigo Catherine DeLucey. O Noirot estava convencido de que sua companheira era uma legítima herdeira inglesa, cuja fortuna, como resultado desse acto impetuoso, acabaria caindo exclusivamente em suas mãos. Uma fuga eliminaria toda a burocracia cansativa, sob a forma de contratos de casamento elaborados por pais e advogados. Ao se evadir com uma jovem rica, de sangue nobre, Edward Noirot dava seguimento a uma antiga tradição familiar: sua mãe e avó eram inglesas.

Infelizmente, Noirot havia sido ludibriado pela sua futura esposa, que, da maneira mais encantadora possível, era tão dedicada a mentir e a enganar quanto ele. Sim, existiu uma fortuna. Pertencera à mãe da jovem, que John DeLucey seduziu e levou para a Escócia, seguindo a sua venerável tradição familiar. A essa altura, a suposta fortuna desaparecera e DeLucey tentava melhorar sua situação financeira da mesma maneira que todas as mulheres de sua família: casando-se com um ingénuo cavalheiro de sangue azul, com bolsos cheios e um coração ardente. Mas ela também havia sido enganada, pois Edward Noirot não detinha nenhuma fortuna. Ele era, de facto, descendente de um conde francês. Mas a riqueza de seus antepassados se extinguira havia anos, durante a Revolução, junto com as cabeças de vários membros de sua família. Graças a essa comédia de erros, o braço mais infame de uma das mais nobres famílias da França uniu-se à sua contraparte inglesa, mais conhecida, e odiada, nas Ilhas Britânicas como os Terríveis DeLuceys. O leitor deve estar imaginando o desgosto do casal quando a verdade veio à tona, logo após a cerimónia do casamento. Sem dúvida, imagina que houve gritos, berros e recriminações. Engana-se. Sendo tão patifes, e realmente apaixonados, eles riram até não poder mais. Em seguida, juntaram suas forças. E decidiram seduzir e enganar todo e qualquer incauto que cruzasse seu caminho. Foi um percurso longo e cheio de curvas que os levou de um canto a outro da Europa, mudando-se sempre que um desses locais se tornava desconfortável para o casal. Nessas idas e vindas, Catherine e Edward Noirot geraram três filhas.

 

Londres, Março de 1835

Marcelline, Sophia e Leonie Noirot, irmãs e proprietárias da Maison Noirot, na rua Fleet, em West Chancery Lane, estavam presentes quando lady Renfrew, esposa de sir Joseph Renfrew, lançou a bomba. Marcelline, com seus cabelos negros, moldava um laço em forma de borboleta, com o objectivo de seduzir a senhora para que comprasse a sua mais recente criação. A loura Sophia recolocava em ordem uma gaveta, que havia sido desarrumada mais cedo para uma das suas clientes mais exigentes. Leonie, a ruiva, começava a ajustar a bainha da roupa de Sharp, amiga íntima de lady Renfrew. Embora fosse apenas um mexerico que surgiu casualmente na conversa, Sharp deu um grito estridente, quase como se uma bomba realmente tivesse explodido, tropeçou e pisou na mão de Leonie. Leonie não rogou pragas em voz alta, mas Marcelline viu os lábios da irmã formarem uma palavra que ela duvidava que suas clientes estivessem acostumadas a ouvir. Sem demonstrar nenhuma emoção pela dor causada à insignificante costureira, Sharp perguntou: O duque de Clevedon está voltando? Sim, respondeu lady Renfrew, demonstrando uma boa dose de presunção. Soube de fontes seguras. O que aconteceu? Lorde Longmore ameaçou-lhe dar um tiro? Qualquer modista que tivesse a ambição de vestir as mulheres da classe alta mantinha-se sempre actualizada sobre os últimos acontecimentos. Assim sendo, Marcelline e as irmãs já estavam familiarizadas com todos os detalhes daquela história. Sabiam que Gervaise Angier, o sétimo duque de Clevedon, estivera sob a guarda do marquês de Warford, o pai do conde de Longmore. Estavam cientes de que Longmore e Clevedon eram grandes amigos e que Clevedon e lady Clara Fairfax, a mais velha entre as três irmãs de Longmore, estavam prometidos um para o outro. Clevedon era apaixonado por ela desde a infância e jamais demonstrara nenhuma inclinação para fazer a corte a quem quer que fosse, embora por certo mantivesse vários relacionamentos de outra natureza, em especial durante os três anos que passara no exterior.

Apesar de o casal jamais ter noivado oficialmente, o facto era considerado mera formalidade. Todos sabiam que o duque se casaria com ela tão logo retornasse com Longmore de sua tradicional viagem pela Europa. Toda a sociedade ficou chocada quando, cerca de um ano antes, Longmore voltou e Clevedon continuou levando uma vida de devassidão. Aparentemente alguém da família perdera a paciência, pois, de acordo com os boatos, lorde Longmore viajara para Paris havia duas semanas e confrontara o amigo sobre as tão aguardadas núpcias. Acho que ele ameaçou chicoteá-lo, mas não há como saber, comentou lady Renfrew. Tudo o que me disseram foi que lorde Longmore foi a Paris e fez uma ameaça, o que resultou numa promessa do amigo de que voltaria a Londres antes do aniversário do rei. Embora Sua Majestade tivesse nascido em Agosto, seu aniversário seria comemorado no dia 28 de Maio daquele ano». In Loretta Chase, Sedução da Seda, 2011, Edições Chá das Cinco, 2016, ISBN 978-989-710-184-7.

 Cortesia de ECdasCinco/JDACT

 JDACT, Loretta Chase, Literatura, 

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

El Baile de Las Locas. Victoria Mas. «O dr. Charcot mantém a Cidade Luz fascinada com suas exibições de hipnose em mulheres consideradas loucas, histéricas e alienadas…»

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«Um romance poderoso e emocionante, O baile das loucas desnuda a condição feminina no século XIX. Obra que inspirou o filme do Prime Video. Hospital de la Salpêtrière, Paris, 1885. O dr. Charcot mantém a Cidade Luz fascinada com suas exibições de hipnose em mulheres consideradas loucas, histéricas e alienadas…»

3 de marzo de 1885

«Es la hora, Louise. Geneviève levanta con una mano la manta que tapa el cuerpo dormido de la adolescente, ovillada en el estrecho colchón. Su espesa cabellera negra cubre toda la superficie de la almohada y parte de su rostro. Louise ronca suavemente con la boca entreabierta. No oye a las otras mujeres, que ya están de pie a su alrededor en el dormitorio. Entre las hileras de camas de hierro, las figuras femeninas se desperezan, se recogen el pelo en un moño, se abotonan los vestidos negros encima de los camisones claros y, con paso cansino, se dirigen al comedor bajo la atenta mirada de las enfermeras. Unos tímidos rayos de sol atraviesan las ventanas empañadas. Louise es la última en levantarse. Todas las mañanas va a despertarla una enfermera u outra paciente. La muchacha recibe el crepúsculo con alivio y se deja caer en unas noches tan profundas que no sueña. Dormir le permite no preocuparse por lo que pasó y no angustiarse por lo que ha de venir. Dormir es su único respiro desde los sucesos que hace tres años la llevaron allí. En pie, Louise, te están esperando. Geneviève le sacude un brazo, y la chica termina por abrir un ojo. Al principio, se sorprende al ver a la mujer a quien las locas llaman la Veterana esperando al pie de la cama. Luego, grita: Tengo lección! Arréglate, ya has dormido bastante. Sí! La chica salta con los dos pies fuera de la cama y coge el vestido de lana negra de la silla. Geneviève da un paso a un lado y la observa. Su mirada sigue los movimientos apresurados de la adolescente, los gestos inseguros de su cabeza, su respiración agitada. Ayer sufrió un ataque; sólo faltaría que tuviera otro hoy antes de la clase. Louise se abotona el cuello del vestido a toda prisa y se vuelve hacia Geneviève. La supervisora, con el pelo rubio recogido en un moño y el cuerpo permanentemente erguido bajo la bata blanca del uniforme, la intimida. Con los años, Louise ha aprendido a sobrellevar su rigidez. No se puede decir que la Veterana sea injusta o mala; simplemente, no inspira afecto. Así está bien, señora Geneviève? Suéltate el pelo. El doctor lo prefiere. Louise alza los torneados brazos hacia el moño que se ha hecho a toda prisa y lo desanuda. Mal que le pese, es una adolescente. Tiene dieciséis años, pero su entusiasmo es infantil. Su cuerpo se ha desarrollado demasiado deprisa. El pecho y las caderas, manifestados ya a los doce años, no consiguieron advertirle de las consecuencias de su repentina sensualidad. La inocencia há desaparecido un poco de sus ojos, pero no del todo. Eso es lo que hace que aún se pueda esperar lo mejor para ella. Estoy nerviosa. Haz lo que te digan, y todo irá bien. Sí.

Las dos mujeres avanzan por un pasillo del hospital. La luz de esa mañana de marzo penetra por las ventanas y se refleja en el suelo de baldosas; es una luz suave, que anuncia la primavera y el baile de Media Cuaresma, una luz que te da ganas de sonreír y confiar en que pronto saldrás de allí. Geneviève nota que Louise está nerviosa. La adolescente respira agitadamente y camina con la cabeza gacha y los brazos rígidos junto al cuerpo. A las mujeres de la unidad siempre les produce ansiedad encontrarse cara a cara con Charcot, y más aún si han sido elegidas para participar en una sesión. Es una responsabilidad que las supera, un protagonismo que las angustia, una muestra de interés tan poco habitual para ellas, a quienes la vida nunca ha puesto en primer plano, que casi las desestabiliza, una vez más. Varios pasillos y puertas de vaivén más tarde, entran en la sala contigua al anfiteatro. Un puñado de médicos e internos varones la están esperando. Con el cuaderno y la pluma en la mano, los bigotes cosquilleándoles el labio superior y el cuerpo erguido bajo el traje negro y la bata blanca, se vuelven todos como un solo hombre hacia el caso de estudio del día. Sus ojos clínicos atraviesan a la muchacha: parecen ver a través de su ropa. Esas miradas voyeristas acaban obligándola a bajar los párpados. Louise sólo reconoce un rostro: el de Babinski, el ayudante del doctor, que se acerca a Geneviève. La sala se ha llenado rápido. Empezaremos de aquí a diez minutos. Necesitan algo en particular para Louise? Babinski mira a la paciente de arriba abajo. Así está bien. Geneviève asiente y se dispone a abandonar la sala. Louise da un paso angustiado tras ella. Vendrá a buscarme, verdad, señora Geneviève? Como siempre, Louise». In Victoria Mas, El Baile de Las Locas, Narrativa, Salamandra, 2021, O Baile das Loucas, Verus, 2021, ISBN 978-655-924-024-1.

Cortesia de Narrativa/Salamandra/Verus/JDACT

JDACT, Victoria Mas, Literatura, Século XIX, 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O Tombo de Diu. 1592. Artur Teodoro Matos. «Dando cumprimento a uma determinação régia de 19 de Março de 1591, que mandava fazer hum liuro de todas as rendas, foros e propriedades que pertencerem a sua fazenda […]»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Em 1914 Jerónimo Quadros iniciava em O Oriente Portuguez a edição do Tombo da fortaleza de Dia, elaborado em 1592 pelo provedor-mor dos Contos de Goa Francisco Pais, com a colaboração do contador da mesma repartição Diogo Vieira. Interrompida a publicação em 1914, retomá-la-ia em 1932 para a terminar cinco anos depois. Mas, apesar desta divulgação, não surgiu, até ao presente, qualquer estudo respeitante à história económico-financeira de Diu que se valesse da riqueza informativa de tal fonte.

Verdade se diga também que, embora se deva relevar o esforço de Jerónimo Quadros, que à história de Diu consagrou a maior parte do seu labor historiográfico, a transcrição editada é, infelizmente, inaproveitável, não só pelas gralhas que contém mas, muito especialmente, pelas omissões e muitos lapsos de transcriçã.

Daí a obrigatoriedade de ter de recorrer-se ao original até que uma nova edição, assente numa transcrição correcta e minimamente anotada, pudesse ser divulgada, o que agora acontece. Dando cumprimento a uma determinação régia de 19 de Março de 1591, que mandava fazer hum liuro de todas as rendas, foros e propriedades que pertencerem a sua fazenda […] nas fortalezas de Chaul, Baçaim, Damão e Dio, o vice-rei Matias de Albuquerque encarregaria dessa missão Francisco Pais, a quem conferiu alçada de vedor da Fazenda.

É que havia chegado ao conhecimento da Coroa algumas situações irregulares, tanto na cobrança dos foros como na posse indevida de terras. O exagerado número de aldeas forras e outras propriedades pertencentes à Fazenda Real, o diminuto quantitativo de foros cobrados, acrescido do facto de haver terras cujos rendeiros as trazem portanto suas, que nem os foros dellas querem pagar de que se pode seguir sonegaremsse e perpetuaremsse na posse dellas de maneira que haja depois difficuldade em se requerer contra elles justiça, induziram a Coroa a ordenar que se fizesse sem dillaçam alguma um tombo.

Nele, segundo o monarca, seriam lançadas todas as aldeias, terras e propriedades que pertencerem a minha fazenda e forem foreiras a ella, com a indicação das pessoas que as trazem e foros que dellas pagão e quando e como lhe forão dadas e por quem. As confrontações também deveriam ser registadas para se não poderem desencaminhar em tempo algum, indagando-se se andão algumas sonegadas» In Artur Teodoro Matos, O Tombo de Diu, 1592, Centro de Estudos Damião de Góis, 1999, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, ISBN 972-832-592-4.

Cortesia de CNCDP/CEDGóis/JDACT

JDACT, Artur Teodoro Matos, História, Diu, Conhecimento, 

José Rodrigues dos Santos. O Último Segredo. « voz da mãe lhe soou no aparelho no habitual queixume inquieto. Filho, quando volta para casa? Já faz tanto tempo... Mãe, já lhe disse que estou fora do país, explicou Tomás…»

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«(…) Levantou a cabeça e apreciou a lua cheia lá no alto, irradiando um halo prateado sobre a majestosa Coluna de Trajano. A noite era sem dúvida o momento que mais apreciava para trabalhar ali no centro de Roma; de dia o trânsito tornava tudo caótico. O clamor das buzinas e o ronco furioso das britadeiras revelavam-se absolutamente infernais. Consultou o relógio. Já era uma da manhã, mas estava determinado a aproveitar a pausa que o sono dos motoristas romanos lhe havia concedido durante a noite para adiantar o máximo de trabalho. Só sairia dali às seis da manhã, quando os carros começassem a atrapalhar o movimento das ruas e o concerto das buzinas e das britadeiras recomeçasse. Nessa altura iria dormir no seu pequeno hotel na Via del Corso. O telefone móvel  tocou  no bolso das calças, arrancando-lhe uma expressão inquisitiva. Àquela hora? Quem diabo lhe ligaria à uma da manhã? Verificou o visor do telemóvel  e, depois de identificar o autor da chamada, apertou o botão verde.

O que houve?

A voz da mãe lhe soou no aparelho no habitual queixume inquieto. Filho, quando volta para casa? Já faz tanto tempo... Mãe, já lhe disse que estou fora do país, explicou Tomás, enchendo-se de paciência; era a terceira vez que lhe dizia a mesma coisa nas últimas vinte e quatro horas. Mas volto na próxima semana, está bem? Vou visitá-la aí em Coimbra. Onde está, rapaz? Em Roma. Teve vontade de acrescentar que era a milésima vez que o repetia, mas conteve a irritação. Fique tranquila, logo que voltar a Portugal vou vê-la. Mas o que está fazendo em Roma? Limpando pedras, quis responder. E não estaria mentindo, considerou, lançando um olhar ressentido ao pincel. Vim ao serviço da Gulbenkian, acabou por esclarecer. A fundação está envolvida na restauração das ruínas do fórum e dos mercados de Trajano, aqui em Roma, e vim acompanhar os trabalhos. Mas desde quando é arqueólogo? Era uma boa pergunta! Apesar do Alzheimer que por vezes lhe nublava o discernimento, a mãe fizera uma pergunta bem certeira. Não sou. Acontece que o fórum  tem duas grandes bibliotecas e, sabe como é, quando se fala em livros antigos…

A conversa não durou  muito e, no instante em que desligou, Tomás sentiu-se incomodado por um sentimento de culpa por quase ter se irritado durante o telefonema. A mãe não tinha responsabilidade nenhuma pelos acessos de amnésia provocados pela doença. Umas vezes melhorava e outras piorava; ultimamente andava pior e fazia mil vezes as mesmas perguntas. Os seus lapsos de memória tornavam-se enervantes, mas teria de ter mais paciência. Pegou de novo o pincel, aproximou-o da pedra e voltou a escovar. Quando viu a nuvem libertar-se daquele pedaço de ruína pensou que, como um minerador, já deveria estar com os pulmões carregados do miserável pó marrom que se

entranhara por toda a parte. Da próxima vez traria uma máscara, como as dos cirurgiões. Ou talvez o melhor fosse escapar daquele trabalho e se dedicar aos relevos que decoravam a Coluna de Trajano. Levantou os olhos para o monumento. Sempre tivera curiosidade de observar as cenas da campanha na Dácia, gravadas na coluna e que apenas conhecia dos livros. Já que estava ali, porque não as estudar ao vivo e de perto? Escutou um burburinho atrás de si e virou a cabeça. Viu o responsável pelas obras de restauração, o professor Pontiverdi, falando alto com um homem engravatado e, com gestos espalhafactosos e uma voz estridente, mandá-lo ficar quieto. Depois aproximou-se de Tomás e esboçou um sorriso obsequioso. Professore Norona… Noronha, corrigiu Tomás, divertindo-se por ninguém conseguir acertar a pronúncia correcta do seu nome. Diz-se nhe, como em bagno. Ah, certo! Noronha! Isso!» In José Rodrigues dos Santos, O Último Segredo, 2011, Edições Gradiva, 2011, ISBN 978-989-616-446-1.

 Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Vaticano, Literatura,

domingo, 17 de outubro de 2021

O Último Segredo. José Rodrigues dos Santos. «Onde diabo se metera o empregado? Quem estaria fazendo os ruídos que ela escutara? Se era o empregado, porque não respondia? Signore!»

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«(…) O silêncio era absoluto. Patricia ainda considerou a possibilidade de permanecer sentada e prosseguir com a consulta do manuscrito, rodeada pelo ambiente denso daquele lugar opressor, mas a verdade é que os sons inesperados e o silêncio pesado que os envolvia a enervaram. Onde diabo se metera o empregado? Quem estaria fazendo os ruídos que ela escutara? Se era o empregado, porque não respondia? Signore! Mais uma vez, ninguém respondeu. Tomada por uma inquietude que não conseguia explicar, a historiadora ergueu-se com um movimento repentino, como se esperasse que a brusquidão afugentasse o próprio medo. Tinha de tirar aquilo a limpo. Além do mais, acrescentou para si mesma, era a última vez que aceitaria se trancar sozinha numa biblioteca à noite. Sob os contornos da penumbra, tudo lhe parecia sinistro e ameaçador. Ainda se tivesse o seu Manolo ao lado!... Deu uns passos e cruzou a porta, decidida a esclarecer o mistério do desaparecimento do empregado. Entrou na Sala Inventario Manoscritti, que se encontrava mergulhada na escuridão, e notou uma mancha branca a seus pés. Baixou o olhar para ver o que era. Tratava-se de uma simples folha de papel pousada no chão. Intrigada, ajoelhou-se e, sem pegar nela, inclinando-se como se a quisesse cheirar, estudou-a com uma expressão intrigada.

O que diabo é isso?, interrogou-se. Nesse instante percebeu um vulto sair da sombra e cair sobre ela. O coração disparou com o susto e Patricia quis gritar, mas uma enorme mão tapou-lhe a boca com força e tudo o que conseguiu fazer foi emitir um gemido de horror, rouco e abafado. Tentou fugir. Contudo, o desconhecido era pesado e impediu-lhe os movimentos. Virou a cabeça para tentar identificar o agressor. Não conseguiu encará-lo, mas notou confusamente algo cintilando no ar. No derradeiro instante compreendeu que se tratava de uma lâmina. Porém, não teve tempo de raciocinar sobre o que estava acontecendo porque sentiu uma dor lancinante rasgar-lhe o pescoço e o ar lhe faltou de imediato. Tentou gritar, mas não tinha ar. Agarrou o objecto frio que lhe furava o pescoço, num esforço desesperado para impedi-lo, mas ele era manejado com demasiada força e a energia começava a se esvair do seu corpo. Um líquido quente jorrou-lhe sobre o peito em golfadas e, no estertor da aflição, tomou consciência de que era o seu próprio sangue. Foi a última coisa em que pensou, porque de imediato a visão se encheu de luzes e depois de escuridão, como se um interruptor a tivesse desligado para sempre.

 


O pincel escovou a terra que ao longo dos séculos se acumulara sobre a pedra, entranhando-se nos poros mais minúsculos. Quando a nuvem de pó acastanhado se desvaneceu, Tomás Noronha aproximou os olhos verdes da pedra, como um míope, e inspeccionou o trabalho. Porra! Ainda havia terra para retirar. Suspirou fundo e passou as costas da mão pela testa, ganhando embalo para mais umas escovadelas. Aquele decididamente não era o tipo de tarefa que mais apreciava, mas resignou-se; sabia que na vida não se faz sempre aquilo de que se gosta. Antes de recomeçar, todavia, ofereceu a si mesmo um momento de repouso». In José Rodrigues dos Santos, O Último Segredo, 2011, Edições Gradiva, 2011, ISBN 978-989-616-446-1.

 Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Vaticano, Literatura, 

sábado, 16 de outubro de 2021

O Último Segredo. José Rodrigues dos Santos. «Ah, aqui está!, exclamou. Phanerón. Era extraordinário. Já tinham lhe falado naquele vocábulo, mas uma coisa era conversar sobre o assunto à mesa da cantina da faculdade…»

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«O som abafado atraiu a atenção de Patricia. Quem está aí? Pareceu-lhe que o barulho tinha vindo da Sala Inventario Manoscritti, bem ao lado da Sala Consultazioni Manoscritti, onde ela se encontrava, mas não viu nada de anormal. Os livros permaneciam em silêncio nas prateleiras ricamente trabalhadas daquela ala da Biblioteca Apostólica Vaticana, como adormecidos pela sombra que a noite projectava sobre as lombadas poeirentas. Aquela podia ser a mais antiga biblioteca da Europa, e talvez também a mais bela, mas à noite o local respirava uma atmosfera soturna, quase intimidante, como se uma ameaça oculta pairasse por ali. Ay, madre mia!, murmurou, estremecendo para debelar o medo irracional que se apossara dela por alguns momentos. Estou vendo filmes demais!... Deve ter sido o empregado passando, pensou. Espiou o relógio; os ponteiros marcavam quase onze e meia da noite. Não eram as horas normais de expediente na biblioteca, mas Patricia Escalona tornara-se amiga pessoal do prefetto, monsenhor Luigi Viterbo, que recebera em Santiago de Compostela durante o Xacobeo de 2010. Acometido por uma crise mística, monsenhor Viterbo decidira então percorrer a pé o Caminho de Santiago e, graças a um amigo comum, fora bater à porta da historiadora. Em boa hora o fez, porque ela cobriu-o de atenções quando o recebeu em casa, um belo apartamento convenientemente localizado numa ruela logo atrás da catedral. Por tudo isso, quando chegou a Roma para consultar aquele manuscrito, Patricia não hesitou em cobrar o favor. O facto é que o prefetto da Biblioteca Apostólica Vaticana se mostrara à altura do pedido e, retribuindo as honras que o haviam rodeado em Compostela, mandou abrir à noite a Sala Consultazioni Manoscritti especialmente para que sua amiga galega fizesse com absoluta tranquilidade o trabalho que pretendia. Mas fez mais do que isso. O prefetto mandou buscar o próprio original para ela consultar. Caramba, não era preciso tanto!, respondera então Patricia, quase embaraçada. Os microfilmes teriam servido perfeitamente. Mas não, monsenhor Viterbo fizera questão de mimá-la. Para uma historiadora do seu gabarito, insistira ele, apenas o original seria o suficiente! E que original.

A pesquisadora galega passou as mãos enluvadas pelos caracteres castanhos desenhados à mão com meticulosidade de copista piedoso, sobre folhas de pergaminho bastante envelhecido e manchado por nódoas do tempo que os arquivistas haviam guardado em placas de material transparente. O manuscrito era composto de uma maneira que lhe fazia lembrar o Codex Marchalianus ou o Codex Rossanensis. A diferença é que era muito mais valioso. Respirou fundo e sentiu-lhe o cheiro adocicado. Ah, que maravilha! Como adorava o perfume quente que o papel antigo exalava!... Passeou os olhos enamorados pelos caracteres pequenos e muito bem-arrumados, sem ornamentos nem maiúsculas, o grego corrido numa linha contínua, as letras arredondadas e equidistantes, as palavras sem nada as separando, como se cada linha fosse na verdade um único verbo, interminável e misterioso, um código arcano soprado por Deus na génese do tempo. A pontuação era rara, havendo aqui e ali espaços em branco, diéreses e abreviaturas dos nomina sacra e aspas invertidas para as citações do Antigo Testamento, a exemplo do que ela já vira no Codex Alexandrinus. Mas o manuscrito que tinha à frente era o mais precioso de todos que já manuseara. Só o título, aliás, impunha respeito: Bibliorum Sacrorum Graecorum Codex Vaticanus B.

O Codex Vaticanus.

Custou a acreditar, mas a verdade é que o funcionário da Biblioteca Apostólica Vaticana, agindo sob ordens do prefetto, lhe pusera na mesa o célebre Codex Vaticanus. Aquela relíquia de meados do século IV era o mais antigo manuscrito sobrevivente da Bíblia praticamente completa em grego, o que fazia dela o maior tesouro da Biblioteca Apostólica Vaticana. E, vejam só, havia-lhe sido confiada. Que coisa incrível. Alguém na universidade iria acreditar?

Virou a página com extremo cuidado, quase como se receasse danificar o pergaminho, apesar de ele estar protegido pela placa de material transparente, e mergulhou quase instantaneamente no texto. Percorreu o primeiro capítulo da Carta aos Hebreus; o que procurava estava por ali, perto do início. Passou os olhos pelas linhas, os lábios murmurando as frases em grego como se entoasse uma ladainha, até por fim chegar à palavra que buscava. Ah, aqui está!, exclamou. Phanerón. Era extraordinário. Já tinham lhe falado naquele vocábulo, mas uma coisa era conversar sobre o assunto à mesa da cantina da faculdade e outra vê-lo diante dos olhos em plena Biblioteca Apostólica Vaticana, desenhado por um copista do século IV mais ou menos na época em que Constantino adoptou o cristianismo e em que se realizou o Concílio de Niceia, onde o essencial da teologia cristológica ficou enfim definido. Sentia-se em êxtase. Ah, que sensação! Só de pensar que… Mais um barulho.

Com um salto de susto, Patricia voltou ao presente e fixou a atenção de novo na Sala Inventario Manoscritti, à direita, de onde mais uma vez lhe pareceu ter vindo o som. Tem alguém aí?, perguntou, com voz trémula. Ninguém respondeu. A sala parecia deserta, embora fosse difícil ter a certeza, considerando todas aquelas sombras e a penumbra. Será que o barulho tinha vindo da Leonina? O grande salão da biblioteca encontrava-se para lá do seu campo de visão, por isso não tinha como se certificar. Sob o manto da noite aquele lugar lhe dava calafrios. Signore!, chamou ela no seu italiano espanholado, em voz alta, buscando o empregado que o prefetto havia designado só para atendê-la. Per favore, signore!» In José Rodrigues dos Santos, O Último Segredo, 2011, Edições Gradiva, 2011, ISBN 978-989-616-446-1.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Vaticano, Literatura,

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

A Rosa. Luísa Sobral, Rancho De Cantadores De Aldeia Nova De São Bento. «Quando vires um mal me quer que só sabe o que é bem querer, sabe que tem coração de rosa, que tem coração de rosa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Rosa

«A rosa não quer ser mais rosa
Vestiu se de mal me quer
Porque uma rosa sem amor
Não tem perfume de flor
E morre ao nascer
Porque uma rosa sem amor
Não tem perfume de flor
E morre ao nascer

Quando vires um mal me quer
Que só sabe o que é bem querer
Sabe que tem coração de rosa
Que tem coração de rosa
Que não deixa de bater
Sabe que tem coração de rosa
Que tem coração de rosa
Quer amar ate morrer

Oh rosa, se queres ser rosa
Deixa te estar em botão
Aberta caem te as folhas
Aberta caem te as folhas
E assim fechadinha não
Aberta caem te as folhas
Aberta caem te as folhas
E assim fechadinha não

A rosa não quer ser mais rosa
Vestiu se de mal me quer
Porque uma rosa sem amor
Não tem perfume de flor
E morre ao nascer

Quando vires um mal me quer
Que só sabe o que é bem querer
Sabe que tem coração de rosa
Que tem coração de rosa
Que nao deixa de bater
Sabe que tem coração de rosa
Que tem coração de rosa
Quer amar ate morrer»

Poema de Luísa Sobral, Rancho De Cantadores De Aldeia Nova De São Bento.2016

Cortesia de wikipedia/JDACT

JDACT, Luísa Sobral, Rancho De Cantadores De Aldeia Nova De São Bento, Poesia,