terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Meia-noite ou O Princípio do Mundo. Richard Zimler. «Depois falou-me do pai pescador, que estava na Terra Nova. O rapaz ia juntar-se-lhe dali a dois anos, quando fizesse catorze anos»

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«(…) Por vezes, penso que a esperança não pertence unicamente a cada um, que existe como um éter que se infiltra dentro de nós no momento do nascimento. Ultimamente, cheguei mesmo à conclusão improvável de que a natureza nos concede mãos e pés, olhos e ouvidos, para que possamos trabalhar como servos leais desta ilimitada neblina de esperança, realizando, quando somos capazes, a alquimia delicada de a transformar em realidade tangível - dando-lhe forma e importância, por assim dizer. Por isso, quando me vi livre do aperto de mestre Tiago, servi a esperança tão bem quanto o meu jovem coração sabia e disparei pela rua acima, cheio de uma alegria selvagem, sem prestar atenção às ordens gritadas atrás de mim, desejando apenas tornar-me amigo do rapaz rebelde que me ajudara. Apanhei Daniel fora das portas da cidade. Para que é que me estás a seguir, carago?, gritou-me. Sem saber o que dizer, arrastei-me tristemente atrás dele. Finalmente, num tom estridente, disse que queria agradecer-lhe por me ter libertado de Tiago, o construtor de telhados. És uma toupeirinha esquisita, disse ele. Não, não sou, repliquei eu, magoado, porque ainda não sabia que ele tinha razão. Num tom de voz monótono, cantarolou: Esquisito e pequenito, corajoso e faladoso... Era uma rima para me descrever, tinha a certeza, e a última palavra, faladoso, era claramente uma invenção dele.
Naquele momento, comecei a acreditar que ele era capaz de ser esperto. Dirigiu-me um sorriso matreiro e deitou-me a língua de fora. Faltava-lhe um dos caninos, o que lhe dava um ar um bocado cómico. Naquela altura, eu não conhecia nada de Shakespeare, mas agora posso facilmente imaginar que Puck foi escrito a pensar num actor com o temperamento de Daniel. Depois falou-me do pai pescador, que estava na Terra Nova. O rapaz ia juntar-se-lhe dali a dois anos, quando fizesse catorze anos. Disse-me que a mãe era costureira numa modista na Rua dos Ingleses, uma das nossas ruas mais elegantes. Ela faz coisas para todas as esposas dos comerciantes mais ricos, vangloriou-se ele. Apercebendo-se da minha suspeita de que isto era um exagero, dado o estado da sua roupa, acrescentou com grande confiança: uma vez, a minha mãe fez um vestido para a rainha dona Maria. Comprido e cor de púrpura, com rendas por toda a parte. Nunca se viu tanto tecido. Mer…, até se  podiam vestir duas ou três vacas com ele. Eu teria gostado de saber mais sobre as semelhanças entre vestir a rainha dona Maria e uma pequena manada de gado, mas ele adiou as minhas perguntas ao apontar para a sua casa logo ali à frente, uma choça coberta de musgo, numa rua estreita e escura ao pé do rio. Um emaranhado de madressilva serpenteava pela fachada acima e amontoava-se no cimo do telhado e as abelhas zumbiam pelo meio das flores perfumadas. Daniel tirou uma chave da algibeira. Entrámos numa divisão minúscula, que não era maior do que cinco passos de um homem de um lado ao outro. O tecto vergava ao meio e estava coberto de um bolor preto e penugento que deitava um cheiro rançoso. Tive medo de ser soterrado vivo, mas ele empurrou-me para dentro. Um tapete com motivos florais desbotados estendia-se em cima do chão de tijolos rachados até à chaminé na parede do fundo. Na água de uma escudela de madeira colocada à frente dela, flutuavam umas folhas de couve castanhas e desfeitas. Um crucifixo de granito por cima da lareira despertou-me a atenção. O rosto do Salvador tinha sido pintado por cima com uma variedade de cores horríveis. Nunca perguntei a Daniel quem tinha feito aquilo, mas, agora, creio que ele era o culpado mais provável.
Nós não tínhamos nem cruz nem rosário em nossa casa, pois o meu pai rejeitava todo e qualquer objecto do Cristianismo por os considerar símbolos de superstição. Levantando as sobrancelhas maldosamente, Daniel levou-me para uma divisão ligeiramente maior, onde uma janela aberta na parede do fundo deixava passar uma luz sombria. Havia dois colchões grosseiros colocados um em cada um dos cantos exteriores. Daniel saltitou, com pequenos saltos hábeis pelo meio da porcaria espalhada pelo chão, e conseguiu chegar a uma arca feita de tábuas. Abrindo-a, tirou para fora uma máscara de madeira, toscamente esculpida, com um focinho bulboso e buracos no lugar dos olhos». In Richard Zimler, Meia-noite ou O Princípio do Mundo, 2003, Porto Editora, 2017, ISBN 978-972-004-727-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

Meia-noite ou O Princípio do Mundo. Richard Zimler. «Ela estava ferida, gritei eu, e tinha o olho quase fechado. Estava grande e inchado. Não viram? Foi uma maldade fazer-lhe isso»

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«(…) Tinha-lhe arrancado os olhos!, declarou outro. Os homens alardearam a sua coragem dizendo o que teriam feito ao brutamontes se eles tivessem chegado a tempo. As mulheres escarneceram da pouca utilidade de qualquer um deles em alturas em que eram realmente precisos. Ai de mim! Nada disto servia para ajudar quer a tia Beatriz quer Daniel, que olhavam um para o outro como se fossem as duas únicas pessoas na rua. Ela estava a ser levada a coxear para casa, claramente mais preocupada com o rapaz do que consigo mesma. Isto impressionou-me e interroguei-me há quanto tempo eles se conheceriam. Os homens começaram a exigir que Daniel saísse do bairro. Vais acabar por ser chicoteado se não te puseres a andar daqui para fora antes de eu contar até cinco!, gritou Tiago, o pedreiro. Não pertences aqui, rapaz! Isto pareceu-me muito injusto. Com nove anos de idade, eu não sabia que Daniel podia estar a correr um perigo sério. Naqueles tempos, até um rapazinho podia ficar com a cabeça empalada num poste de madeira de carvalho se o maldito cocheiro morresse e se o testemunho da tia Beatriz não fosse suficiente para justificar o acto dele. Eu também não sabia que um conde, cujos calções de damasco azul não tinham sido lavados, esfregados, engomados e perfumados a tempo, cujo gibão de brocado manchado de vinho ainda estava pendurado como um morcego encharcado pela chuva numa corda no quintal das traseiras da tia Beatriz, tinha o direito de mandar o cocheiro bater na lavadeira faltosa até a deixar quase sem sentidos. Qualquer pessoa que não estivesse satisfeita com este tipo de justiça podia enviar o seu protesto escrito ao bispo, à nossa louca rainha Maria ou até mesmo ao papa Pio VII, que, ainda que se compadecesse, estaria demasiado ocupado a evitar ser capturado por Napoleão para abrir quaisquer communiqués do estrangeiro. Em resumo, uma pessoa podia mandar uma carta a quem muito bem entendesse, porque não teria o menor efeito.
Não, eu não sabia estas coisas e, por isso, quando vi o pedreiro Tiago confrontar Daniel, fiquei indignado. O garoto olhava para os pés, confuso. Tal como eu, tinha estado à espera de elogios. Meu Deus, eu só queria ajudar, acabou por dizer. Tive de o fazer. Caso contrário, ela estaria mais morta que um tambor. O Daniel tapou os olhos com a mão, não querendo chorar à frente dos homens, depois esfregou as têmporas com os polegares, como se quisesse banir pensamentos indesejados, era um gesto de angústia que eu viria a conhecer muito bem nos anos seguintes. Com uma maturidade que achei extraordinária, disse então: acho que me vou embora. Bom dia a todos. Antes de se afastar, foi buscar a pedra. Deixa ficar isso, rapaz, aconselhou Tiago, esticando o dedo num aviso. Já causaste estragos suficientes por um dia. Mesmo assim, Daniel agarrou na pedra, dando origem a mais censuras da parte de Tiago e dos outros. O que deu mais força à minha solidariedade para com ele naquele momento foi o couro cabeludo rapado, numa clara tentativa de lhe libertar a cabeça de piolhos. O corte de cabelo era infeliz, pois fazia-o parecer doente e pobre, levando estes homens a agirem mais duramente do que seria justificado. Se ele tivesse canudos louros a caírem-lhe na gola vermelha de um casaco de seda caro, o caso podia ter acabado com palmadinhas nas costas. Corri para eles. Mestre Tiago, gritei. Mestre Tiago, a tia Beatriz estava a ser espancada. O malvado estava a dar-lhe pontapés! John, vai já para casa, disse ele, franzindo as sobrancelhas, desagradado.
Ela estava ferida, gritei eu, e tinha o olho quase fechado. Estava grande e inchado. Não viram? Foi uma maldade fazer-lhe isso. O homem, era..., era um bloody poltroon. Disse as últimas palavras em inglês; era o termo do meu pai para um miserável cobarde e não consegui lembrar-me de nada em português que se lhe comparasse. Sentindo pelo olhar de mestre Tiago que ele não me compreendera, tentei freneticamente encontrar uma tradução correcta. Mas ele tinha outros planos e agarrou-me pelo braço. Anda, filho, vou levar-te à tua mãe, disse ele, os olhos a cintilarem de rectidão. Se não me largar...!, gritei-lhe. O que é que acontece?, perguntou ele, rindo. Pensei em dar-lhe um pontapé no sítio em que o tecido das calças puídas se espetava sugestivamente para a frente, mas percebi que isso ainda me meteria em mais sarilhos. Faça troça de mim, se lhe apetecer, declarei, a tremer, tentando imitar a voz do meu pai, mas se não deixar este rapaz em paz...
Pequeno como era, não conseguia encontrar uma conclusão apropriada para aquele prometedor começo de ameaça. E ainda não tinha conseguido libertar o braço da mão peluda de mestre Tiago. Contudo, Daniel tornou desnecessário o remate à minha frase ameaçadora. Tomando balanço, atirou a pedra à cara tirânica de mestre Tiago, mas a meia velocidade, por assim dizer, o que lhe deu tempo para se desviar. O pedreiro atirou-se ao chão, desistindo de me manter agarrado. Mexe-te!, gritou-me Daniel, abanando furiosamente os braços. Mexe o rabo e corre, estás livre!» In Richard Zimler, Meia-noite ou O Princípio do Mundo, 2003, Porto Editora, 2017, ISBN 978-972-004-727-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

Meia-noite ou O Princípio do Mundo. Richard Zimler. «Daniel, ouve o que te digo, replicou a tia Beatriz, respirando com dificuldade. Tens de sair da cidade. Daqui a dois dias, encontramo-nos em tua casa»

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«(…) Teria certamente dado voz a este grito de gelar o sangue se, vinda de nenhures, uma pedra não tivesse atingido o bruto na cara. Tinha sido atirada com tanta pontaria e com uma força tão certeira que o malfeitor cambaleou para trás com o choque. Caído sobre um joelho, pareceu desorientado com o que acontecera até dar com a pedra culpada caída inocentemente junto dos seus pés. Olhando em volta à procura do voluntarioso David que se atrevera a desafiá-lo, depressa fixou em mim um olhar ultrajado. Com a minha camisa branca de folhos, calções pretos com riscas vermelhas e botas de fivelas, eu era um inimigo muito improvável. Naquele tempo, eu tinha mesmo canudos angelicais e aquilo a que o meu pai chamava olhos de corça cinzento-azulados. Mesmo assim, recuei vários passos e comecei aos soluços, uma reacção provocada pelos nervos que já tivera muitas vezes. Tencionava fugir se ele me ameaçasse, mas, em vez disso, desviou o olhar para um rapazito no outro lado da rua. Este parecia ser mais velho do que eu uns bons três anos e vestia uma camisa rota e calções muito sujos. Os pés descalços estavam tão porcos que pareciam raízes arrancadas do solo. Tinha a cabeça rapada.
Estávamos no princípio do Verão de 1800 e, apesar da alvorada de um novo século, ainda era uma época em que as crianças nunca falavam aos adultos sem primeiro terem sido convidadas a fazê-lo. Uma pedra atirada por um enjeitado miseravelmente vestido a um cocheiro de libré ao serviço de um homem rico equivalia a uma heresia. O ferido levantou-se com dificuldade, apalpando a cara com as pontas dos dedos. Olhando sem querer acreditar para o sangue que ficara na mão, atirou-se para a frente. Seu filho-da-mãe!, balbuciou. Reunindo a sua força enfraquecida, atirou a pedra com um grunhido. O projéctil voou por cima e para lá do seu alvo, fazendo ricochete na fachada da casa que pertencia ao tio Aurélio, o sapateiro. Aquele foi o último acto que o nosso malfeitor ia tentar nesse dia. Os olhos reviraram-se-lhe nas órbitas e ele caiu desamparado, a cabeça batendo no chão com um ruído surdo que não augurava nada de bom. Eu tremia de medo e excitação. Nunca me tinha sentido tão vivo. Imaginem, uma pedra atirada por um gaiato sujo derrubar um brutamontes horrendo a menos de duzentos passos da minha casa!
A tia Beatriz estava a levantar-se, os braços apertados à volta da barriga como se estivessem a proteger uma criança por nascer. Sacudia a cabeça, muito confusa, claramente a tentar perceber o que tinha acontecido. O sangue escorria-lhe do lábio superior até ao queixo; um dos olhos estava inchado e fechado e, mais tarde, iria infectar. Tornou-se um berlinde leitoso com um centro cinzento enevoado até ao resto dos seus dias. Daniel correu para ela, mas ela abanou uma mão trémula para o fazer parar. Vai para casa, disse ela, limpando a boca. Falamos mais tarde. Vai-te embora daqui antes que haja mais sarilhos. Por favor. Ele abanou a cabeça. Não vou. Pelo menos, enquanto aquele pedaço de mer… não for varrido para um monte de estrume, disse ele apontando o vilão. A pronúncia de Daniel identificava-o como um morador da zona ribeirinha. Senti inveja da forma como ele parecia feito para o Porto, uma cidade que tinha a sua quota-parte de clubes de cavalheiros e jardins formais, mas que tinha, no seu coração, um labirinto de vielas escuras frequentadas por bufarinheiros, catraios e ladrões de pouca monta.
Daniel, ouve o que te digo, replicou a tia Beatriz, respirando com dificuldade. Tens de sair da cidade. Daqui a dois dias, encontramo-nos em tua casa. Por favor, antes que haja sarilho... A mulher teria continuado a suplicar, mas os vizinhos começavam a juntar-se. Pouco depois, um grupo de homens, uns ainda com as roupas de dormir, outros com o peito nu, tinham formado um círculo em redor do cocheiro caído. Está morto?, perguntou o mestre Tomás, o carpinteiro, ao cunhado Tiago, o pedreiro, que tinha colocado as costas da mão em cima do nariz do homem para ver se sentia alguma respiração. Várias vizinhas corriam agora a ajudar a tia Beatriz, levantando-a e fazendo perguntas sobre o homem e o que o fizera ficar tão furioso. Aproximei-me do grupo dos homens. Não, ainda está vivo, respondeu Tiago desapontado. Um começo perfeito para um dia de coscuvilhice teria exigido um assassinato, evidentemente. A tia Maria Mendes, que tinha a compleição física de um touro, abriu caminho por entre os homens e cuspiu na cara do vilão sem sentidos. Porco!, gritou ela. E tu aí, filho!, gritou Tiago, o pedreiro, para Daniel. Por amor de Deus, o que é que pensas que estás a fazer a atirar pedras às pessoas? Espera aí!, interveio o tio Paulo, o latoeiro, em defesa do rapaz. Ele só estava a ajudar a Tia Beatriz. Mas com uma pedra do tamanho de uma laranja!, exclamou o tio Alberto. Se eu tivesse uma faca, tinha cortado a garganta do cocheiro!, exclamou um homem que eu não conseguia ver». In Richard Zimler, Meia-noite ou O Princípio do Mundo, 2003, Porto Editora, 2017, ISBN 978-972-004-727-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

Os Caçadores de Livros. Raphael Jerusalmy. «Os meus comanditários sentem-se honrados pelo interesse que neles pondes. E um pouco intimidados...»

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«(…) Pouco interessado pela exposição de Fust, François deixa que o seu olhar erre pelas fileiras de volumes que cobrem as paredes. Num recanto escuro, a luz vacilante de uma vela faz cintilar a lombada de uma encadernação armoriada. O brasão, impresso a ouro fino, é facilmente reconhecível. Trata-se de um dos mais célebres da cristandade: o emblema dos Médicis de Florença. Curiosamente, as armas fulgurantes aparecem privadas da sua divisa. Em seu lugar, rodeia o escudo um entrelaçado de motivos de um dourado mais mate, que nada têm de italiano nem de heráldico. François estuda com uma atenção intensa os contornos sinuosos dos motivos entrelaçados, e pensa de súbito descobrir neles caracteres semitas. É frequente que se utilizam temas hebraicos e arabescos a fim de conferir uma conotação bíblica ou oriental aos livros sagrados. Nas cenas da vida de Cristo esparzem-se, aqui e ali, letras judaicas, e o mesmo se passa com os retratos de Satanás. Mas, aqui, a amálgama de signos de nobreza e de entrelaçamentos à maneira israelita parece documentar uma singular união, uma espécie de pacto. Os dois símbolos, o italiano e o judeu, entrecruzam-se firmemente, até formarem um só. Dando-se conta do assombro de Villon, Petrus Schoeffer levanta-se bruscamente. Planta-se de pé diante de François, e depois, virando-lhe as costas, aplica-se na execução de uma tarefa demorada. Quando torna a sentar-se, o livro desapareceu, escondido no meio dos outros. Os volumes que se repartiam ao acaso, por aqui e ali, mostram-se agora alinhados em fileiras cerradas. E a pequena vela está apagada.
O bispo impacienta-se. Um vulgar processo de fabrico não basta. A coroa espera de Fust muito mais do que a gerência de uma oficina de impressão. O alemão não foi escolhido pela sua destreza no manejo dos tinteiros, mas porque, ao contrário dos seus confrades, tem em primeira mão textos inéditos que poderiam dar a Paris uma cabeça de avanço sobre as outras capitais. É pela qualidade das obras aqui publicadas, na rua Saint-Jacques, que Luís XI entende assegurar o esplendor de França. O patrocínio das artes é o índice mais seguro da prosperidade de um monarca. E a expressão manifesta do seu poderio. Tal é pelo menos o que dá a crer Chartier, evitando de facto revelar o propósito verdadeiro de toda esta iniciativa. Nem uma palavra disse a esse respeito a Villon, que se surpreende com este súbito fascínio do rei pelas coisas do espírito. Os motivos reais do soberano são bem mais terra-a-terra. Trata-se de uma simples questão de finanças. Presentemente, tudo o que chega de Bizâncio, de Alexandria ou do Levante passa pelo vale do Ródano. A suserania papal sobre Avinhão e o condado venaissino frustram, por conseguinte, o rei dos enormes proventos resultantes dos direitos de passagem e da taxação dos géneros alimentares. É o legado pontifício que os cobra, fazendo assim com que encham os cofres de Roma, em vez dos de Luís XI. O rei quer forçar o Vaticano a ceder-lhe essa fonte de receitas. Acontece que os escritos editados por Fust indispõem ao extremo Roma. Minam a hegemonia da Igreja sobre as almas.
O plano do jovem soberano é simples. Depois de permitir que Fust inunde o país de textos que pervertem os crentes, Luís XI, erigindo-se em protector da fé, comprometer-se-á a afastar o perigo. Mas para conter tão funesta vaga de publicações, ser-lhe-á indispensável obter o controlo dos postos de guarda provençais. Trata-se de uma chantagem que só poderá ser bem-sucedida na condição de a Santa Sé se sentir seriamente ameaçada, por obras cujo alcance inegável sejam capazes de tomar de assalto os fundamentos do dogma. E cabe a Fust fornecer as munições necessárias. Ora, o impressor limita-se a gabar os méritos das suas máquinas. E nada mais. Fechando o punho sobre o cabo do báculo, Chartier franze o sobrolho. Fustiga François com o olhar. Villon sente simultaneamente um aperto na garganta, precisamente nessa região do pescoço que a corda laça. Embora espie o alemão desde há vários meses, Colin ainda não logrou descobrir onde obtém Fust as obras das quais a coroa tem tanta necessidade para alcançar os seus fins. Chartier está no seu direito de pedir contas. O acordo celebrado com Fust estipula claramente que a atribuição das patentes e privilégios à sua oficina de impressão tem por contrapartida a publicação dos escritos raros, e de monta, aos quais ele tão misteriosamente tem acesso.
Pesa agora na atmosfera da sala um silêncio frágil. Fust sabe muito bem o que o bispo dele espera, mas tem de seguir as suas instruções à letra. Os seus superiores não o autorizaram a levar as negociações mais longe. Embora uma possível aliança com o rei de França constitua uma ocasião afortunada e imprevista, mostram-se reticentes. Não querem deitar a perder anos de preparativos. O velho impressor faz nervosamente girar no dedo o seu anel. O dragão dourado mergulha por baixo do dedo, dando caça ao rubi não facetado, a seguir ressurge, com as garras cravadas no fulgor vermelho da pedra, como se lhe sugassem o sangue. Dei parte das vossas exigências a quem de direito. Os meus comanditários sentem-se honrados pelo interesse que neles pondes. E um pouco intimidados...» In Raphael Jerusalmy, Os Caçadores de Livros, 2013, tradução de Miguel Serras Pereira, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-237-3.

Cortesia de CAutor/JDACT

El rei João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «… as cousas da Guiné, não prevê que lhe põe nas mãos esguias e hábeis a fundação e organização do Império Português. Ou pensou-o?»

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O Homem de Alexandria e a Pedra Filosofal
«(…) Percebeu que perdera, e essa é que era a verdade, a guerra. Mas não desistiria. Outras oportunidades se apresentariam... Chamou o bispo Garcia Menezes. Nada feito. A Princesa persistia, no seu tom brando, a defender a sua causa, escutando-os com um ar calmo e respeitoso. João agarrou a irmã, suplicou, ameaçou, fez tudo o que lhe foi possível. Em vão. Depois, procurando-se outra estratégia, lá se acertou que dona Joana não professasse nem vestisse definitivamente o hábito que envergara com tanto gosto. Ficaria, de momento, como irmã honorária. Deixais-me só. Estou só e abandonado! Não me amais! Estou completamente só! João chorava de raiva. Não sabia que esse era o seu destino, o dos homens grandes, o dos seres de talento, o dos que Deus escolheu para uma qualquer missão, desde a política à arte, a completa e definitiva solidão. Era muito jovem para saber. Ele que estava casado, ao afirmar à irmã a solidão que lhe invadia a alma, traduzia quase inconscientemente a verdade sobre a sua união com a mulher à qual estaria ligado toda a vida, mas que nunca seria a companheira ideal, a de caminho, a amante, aquela que preenche a nossa vida no leito e ao longo de todas as etapas que percorremos até a morte nos juntar no pó e no esquecimento. Hoje sei que aconteceu isso. No pó não sei se estarão um dia juntos porque ela ainda vive e todos nós já estamos mortos ou quase. O destino, às vezes, entretém-se a estabelecer estes laços e estes nós que em vez de ligarem as nossas vidas, pelo contrário, as desligam, partem, destroem.
O Príncipe, com o seu séquito de trinta cavaleiros, cinquenta escudeiros, quinze pajens, todos nobres, e doze não nobres, lá foi para Beja ter com a mulher ao palácio onde ela estava com a mãe, dona Beatriz, viúva do infante Fernando, e os irmãos. Depois seguiriam para Évora. Claro que o Príncipe sabia também o que significava a outra parte da sua solidão na corte do pai: ele e a nobreza dependente das benesses de Afonso constituíam dois mundos e muitos dos grandes fidalgos começavam a sentir naquele jovem de expressivos e terríveis olhos negros um mau estar que não conseguiam ainda definir, mas os importunava. Sobretudo os Braganças, que eram adorados pelo rei, e a quem João tratava com polida, talvez demasiado sóbria, delicadeza. Uma verdadeira frieza, porque os pressentia demasiado fortes para as suas concepções de poder. O jovem Príncipe lia muito, estudava Direito Romano e possuía uma concepção da realeza que hoje se espalhou por toda a Europa e que aos Braganças nem sequer aflorava a sua mente. A João sabia mal o jovem duque de Bragança, que era neto do velho assassino de seu avô, e que manifestava um orgulho principesco, deslocando-se com um séquito de servidores que emparelhava com o real e, às vezes, o ultrapassava... Era cunhado do jovem Príncipe e tinha a mania de lhe dar conselhos com um ar paternal, negligente que, sob os olhares do rei benevolente, João engolia ou fingia engolir, com dificuldade. Depois havia os outros: os Vila Real, os Valença, os Odemira, os Almeidas, os Ataídes, os Pereiras, os Abrantes..., os Albuquerques, os Noronhas. Entre os eclesiásticos, Jorge da Costa. O da era apócrifo, mas sabia-lhe bem. Ilustre homem, cultíssimo, mais tarde um verdadeiro Príncipe da Igreja, fino político mas mau, invejoso, ressabiado das suas humildes origens e o grande, um deles, inimigo do futuro Rei. Foi confessor do Rei Afonso e tudo conseguiu. Como qualquer plebeu sem grandeza de espírito suficiente era de uma ambição desmedida, cega, opressiva e o Rei tudo lhe concedeu.
O Rei entregou nas mãos do Príncipe, a patrir de Maio de 1474,os negócios da Guiné. Quando o Rei doa ao filho, e este apenas tem dezanove anos, as cousas da Guiné, não prevê que lhe põe nas mãos esguias e hábeis a fundação e organização do Império Português. Ou pensou-o?» In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.

Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

El rei João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «O rei lá respondeu como conseguiu, já ciente da vontade indomável da filha e da sua própria fraqueza, mas o Príncipe continuava a barafustar»

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O Homem de Alexandria e a Pedra Filosofal
«(…) Desde a mais tenra idade que a filha de Afonso V vivia subjugada por um rigor monástico que deve já ter nascido com ela e, com o andar dos anos, o exemplo daquela tia Filipa adorada, e as próprias tendências de uma Corte religiosa, devem tê-lo intensificado. Quando o pai regressou da viagem a Arzila, um regresso triunfal, de resto, dona Joana descobriu, ela que herdara a casa da mãe com alfaias, dinheiro, jóias, tudo, que, Princesa e filha de Rei!, não possuía um vestido decente para envergar na recepção ao pai! Não havia nem brocados nem sedas à venda, de momento, nada de encomendas feitas e, daí, que apenas tenha conseguido um bocado de veludo, e verde como os seus olhos, e foi o que a salvou de aparecer de escuro, como uma monja, o que seria destoante, numa festa onde os que esperavam os triunfadores se vestiam de azul, carmesim, verde, amarelo-torrado, brocados e sedas coloridas. Aproveitou-se da chegada e da alegria geral para solicitar ao fraco pai, que era incapaz de recusar fosse o que fosse a alguém e muito menos aos filhos, a permanência em Odivelas. E ele, Afonso, tão temente a Deus, cavaleiro como Amadis, sempre pela sua dama, em busca do Graal, iria recusar a vontade do Senhor? Não recusou. O irmão, esse, ficou danado. Casado, por vontade do pai, com a primita muito bonita e tão religiosa como a cunhada, prima que respeitava desde bebé, mas à qual se unia mais por razões de utilidade pública, amizade, e não por amor, porque ele iria brotar mais tarde na sua vida jovem, não desejava afastar-se da irmã que muito amava e lhe servia de subtil amparo e discretíssima confidente. O rei preferiu reunir o Conselho. Estava bem, a filha poderia acolher-se por uns tempos em Odivelas, apenas como salutar experiência espiritual…
Os povos tremeram. Ela estava em idade casadoira, o príncipe e a mulher não tinham ainda filhos, ela representava, se se matrimoniasse, o garante da independência do Reino. O virtuoso e viturioso rey, foi delicadamente informado pelos seus súbditos do facto. O rei lá respondeu como conseguiu, já ciente da vontade indomável da filha e da sua própria fraqueza, mas o Príncipe continuava a barafustar. Só que dona Joana tencionava ficar não em Odivelas, mas mais longe. Em Aveiro, no Convento de Jesus, e já discutira o facto com dona Leonor Menezes, sua amiga e também alma dada à devoção e o corpo, à dureza dos cilícios. A Corte, em Julho de 1472, dirigiu-se para norte. O príncipe avançava, sobre o soberbo cavalo negro, triste e enraivecido, porque sabia que a irmã conseguira ir para Aveiro e o pai não tivera forças para a dissuadir. Mais tarde aprenderia à sua custa que o Rei até actuara em toda a questão com alguma sabedoria, pois aceitara o veredicto do destino com menos rebeldia. Dona Joana convencera o pai a ficar apenas uns dias em Aveiro, no mosteiro que ele ajudara na fundação, etc., e o pusilânime monarca que poderia ter feito senão consentir? Todos a acompanharam. João protestou, fez barulho. Nada demoveu a Princesa. João ia-se acostumando, ou ter-se-ia da acostumar, à sua solidão. O casamento não preenchera esse buraco medonho que se abre na nossa alma ao longo da vida ou a partir de certo momento dela. Dona Joana era tão teimosa como ele e o resto da família. Só que dona Joana, depois, avançou uma etapa: queria tomar votos. O pai cedeu, desalentado, mais morto que vivo. O irmão entrou em fúria e, num ímpeto de raiva que, com o tempo, depois, aprendeu a dominar, e penso que desta forma sincera e leal só os teve com relação à irmã que tanto amava, partiu para Aveiro. A Corte entreolhava-se perante a força, a violência, a persistência desse jovem tão diferente do fraco e manso progenitor. O que se passou entre os irmãos, com as restantes monjas tremendo de medo, foi um choque titânico de duas vontades idênticas. Nem um nem outro conseguiu vencer a batalha mas dona Joana ficou e, em certa medida, o irmão viu mais que uma batalha inconclusiva». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 21 de janeiro de 2018

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Duas silhuetas surgiram no horizonte tremeluzente. Era a hora mais clara e mais quente do dia, quando céu e terra se encontravam numa névoa prateada»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Enquanto esperava o tempo de Rebecca receber a imagem, fiz-lhe um pequeno resumo da situação, sem deixar de fora a desconfiança de James Moselane de que eu tinha sido vítima de um trote ou talvez até corresse perigo. É claro que eu não vou, mas estou morrendo de curiosidade para saber onde essa foto foi tirada, falei. Como pode ver, parece que a inscrição faz parte de uma parede maior, onde o texto se organiza em colunas verticais. Quanto ao alfabeto em si... Cheguei mais perto e tentei posicionar melhor a luminária da escrivaninha. Estou com uma sensação estranha...,mas, por mais que eu tente, não consigo... Um ruído sugeriu que Rebecca mastigava um punhado de castanhas, sinal de que estava intrigada. E o que quer que eu faça?, perguntou ela. Posso garantir que essa foto não foi tirada na minha escavação. Se alguém tivesse deparado com algo assim aqui, em Creta, eu saberia, pode acreditar. Quero que faça o seguinte: dê uma boa olhadela na inscrição e diga-me onde viu esses símbolos antes. Eu sabia que era um tiro no escuro, mas precisava tentar. Rebecca sempre tivera talento para enxergar além do óbvio. Fora ela quem havia descoberto o esconderijo de barras de chocolate do meu pai quando éramos crianças, dentro de uma velha caixa de apetrechos de pesca na garagem. Mesmo nessa ocasião, apesar de adorar doces, não tinha sugerido que comêssemos uma das barras: para ela, o simples triunfo da descoberta e de poder contar-me uma coisa sobre o meu pai que eu não soubesse já era um prémio.
Vou dar-lhe mais um minuto..., falei. Que tal me dar uns dias para perguntar por aí?, retrucou Rebecca. Posso mandar a foto para o sr. Telemakhos... Não! Não mostre essa foto a ninguém. Porquê?
Hesitei, consciente de que estava sendo irracional. Porque tem alguma coisa nessa escrita que me é muito familiar..., de um jeito meio esquisito. É como se eu enxergasse uma inscrição invisível... A verdade nos ocorreu ao mesmo tempo. O caderno da sua avó!, exclamou Rebecca com um arquejo, movimentando-se freneticamente do outro lado. Aquele que lhe deu pelo Natal... Estremeci, alarmada. Não, é impossível. Loucura. Porquê? Rebecca conhecia bem o meu calcanhar de Aquiles, mas estava agitada demais para pisar com delicadeza nele. Ela sempre disse que lhe deixaria instruções, não foi? E que as receberia quando menos esperasse. Bom, talvez seja isso. A grande chamada da avó. Quem sabe... A voz de Rebecca ergueu-se num tom desafiador quando ela com certeza se deu conta do absurdo da sugestão. Quem sabe se ela estará esperando em Amsterdão?
Duas silhuetas surgiram no horizonte tremeluzente. Era a hora mais clara e mais quente do dia, quando céu e terra se encontravam numa névoa prateada e não se conseguia distinguir um do outro. No entanto, bem devagar, à medida que avançavam pela salina plana, as duas formas tremeluzentes se materializaram em duas mulheres, uma adulta; a outra, nem tanto. Mirina e Lilli tinham passado muitos dias fora, só as duas. O objectivo da viagem era óbvio, pois todo o tipo de caça e arma se balançava nos seus ombros preso em correias de couro, e os seus passos ficavam mais velozes conforme elas se aproximavam do povoado à frente. Como a mãe vai ficar orgulhosa!, exclamou Lilli. Espero que conte a ela como eu peguei aquele coelho na arapuca. Não vou omitir nenhum detalhe, prometeu Mirina, afagando os cabelos embaraçados da irmã caçula. Talvez só aquela parte em que quase quebrou o pescoço. É..., Lilli encolheu os ombros e deu aquela danadinha lenta e engraçada que sempre dava quando ficava constrangida. É melhor não falar nisso, senão nunca mais vou poder sair convosco. Seria uma pena, não é?, indagou ela, erguendo os olhos para Mirina com um sorriso esperançoso.
Mirina aquiesceu com firmeza. Uma pena enorme. Você tem potencial para ser uma grande caçadora. Além do mais... Ela não conseguiu conter uma risadinha. É uma fonte inesgotável de diversão. Lilli fechou a cara, mas Mirina sabia que no fundo estava contente. Pequena para uma menina de 12 anos, sua irmã passara a viagem inteira tentando desesperadamente provar o próprio valor, e Mirina tivera uma grata surpresa com a sua capacidade de lidar com as dificuldades. Mesmo com fome ou cansada, Lilli nunca se recusara a cumprir nenhuma tarefa e nunca derramara uma só lágrima. Pelo menos não na sua frente. Com seis anos a mais do que Lilli e tão hábil quanto qualquer homem da mesma idade, Mirina havia considerado o seu dever ensinar à irmãzinha a arte da caça». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Desculpe interromper a sua orgia da meia-noite, falei, quando ela finalmente atendeu o telefone móvel. Fazia mais de um mês que não nos falávamos e, quando ela deu um muxoxo bem-humorado do outro lado da linha…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Segundo a maioria dos estudiosos, as amazonas jamais tinham existido em lugar algum a não ser na mitologia grega. Quem afirmasse o contrário, no melhor dos casos, era um romântico incurável. Sim, de facto, era totalmente concebível que o mundo pré-histórico tivesse sido povoado em parte por guerreiras do sexo feminino, mas os mitos sobre amazonas sitiando Atenas ou participando da Guerra de Tróia sem dúvida eram invenções de contadores de histórias na tentativa de fascinar os seus ouvintes com relatos fantásticos. Eu sempre explicava aos meus alunos que as amazonas da literatura clássica deviam ser vistas como predecessoras dos vampiros e zumbis que povoam as estantes de hoje em dia: criaturas imaginárias, terríveis e sobrenaturais, que tinham por hábito treinar as filhas nas artes da guerra e acasalar com machos aleatórios uma vez por ano. Ao mesmo tempo, contudo, essas mulheres selvagens tinham características humanas atraentes o bastante para despertar as nossas paixões secretas, nem que fosse aos olhos dos antigos escultores e pintores de vasos. Eu sempre tomava cuidado para não deixar transparecer os meus próprios sentimentos em relação ao tema; interessar-se pelo folclore das amazonas já era ruim, mas revelar que acreditava na existência delas seria pura e simplesmente um suicídio académico.
Assim que o meu chá ficou pronto, sentei-me para estudar a foto do sr. Ludwig com o auxílio de uma lupa. Tinha quase certeza de que conseguiria identificar os caracteres inscritos na parede como pertencentes a algum dos alfabetos antigos mais comuns; quando isso não aconteceu, permiti-me sentir um leve frisson de animação. Após mais alguns minutos de investigação atenta e incompreensão crescente, as possibilidades tornaram-se um arrepio a correr pela minha espinha com a mesma urgência de mensageiros num campo de batalha. O que mais me intrigou foi a universalidade dos símbolos; tinham características que tornavam quase impossível vinculá-los a algum lugar ou período específicos. Eles poderiam ser uma fraude feita naquela parede de gesso rachado logo antes de a foto ser tirada ou poderiam ter milhares de anos. Ainda assim..., quanto mais eu os olhava, mais percebia em mim uma estranha sensação de familiaridade. Era como se em algum lugar, num canto remoto do meu subconsciente, uma fera adormecida estivesse despertando. Será que eu já tinha visto aqueles símbolos antes? Caso sim, não conseguia contextualizá-los, o que me causava grande frustração. Por coincidência, uma amiga de infância, Rebecca, trabalhava havia três anos num sítio arqueológico em Creta, e eu tinha quase a certeza de que ela sabia quais organizações estavam escavando onde e em busca de quê. Com certeza, se alguém tivesse deparado com aquele tipo de inscrição em algum lugar da região mediterrânea e houvesse estabelecido qualquer vínculo com as amazonas, a dra. Rebecca Wharton teria sido a primeira a saber.
Desculpe interromper a sua orgia da meia-noite, falei, quando ela finalmente atendeu o telefone móvel. Fazia mais de um mês que não nos falávamos e, quando ela deu um muxoxo bem-humorado do outro lado da linha, percebi quanto sentia saudades dela. Eu reconheceria aquele riso em qualquer lugar: soava como alguém com ressaca de uísque, mas, no caso da curiosa Rebecca, era a consequência um tanto prosaica de ter passado o dia inteiro com a cabeça enfiada em algum buraco cheio de poeira. Estava pensando em você agorinha mesmo!, exclamou ela. Estou aqui com um coro de gregos gatos servindo-me uvas e me besuntando de azeite. A imagem fez-me rir. A probabilidade de a linda Rebecca ter intimidades com qualquer outra coisa que não fossem fragmentos de cerâmica antiga, infelizmente, era quase nula. Ela era do estilo rebelde, de viseira e short jeans cortado, ficava o dia todo de quatro no meio de um formigueiro de arqueólogos..., mas não tinha olhos para nada além do passado. Embora fosse do tipo que se vangloriava, eu sabia que, por baixo das sardas, continuava sendo a filha do pároco. Foi por isso que não teve tempo para me ligar e contar a grande novidade? Um breve farfalhar sugeriu que Rebecca estava tentando segurar o telefone entre a orelha e o ombro. Que grande novidade? É isso que me vai dizer. Quem está escavando amazonas aí na sua área? Ela soltou um de seus gritinhos estridentes de ave selvagem. O quê? Dê uma olhadela. Inclinei-me para a frente e conferi a imagem na tela do meu computador. Acabei de lhe mandar uma foto por e-mail». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «No rosto de um amigo verdadeiro um homem vê, por assim dizer, um segundo eu. Acho que deve passar alguns dias sem sair da faculdade»

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«(…) Ansiosa para recuperar nosso tom descontraído, ri e falei: eu não ficaria nada espantada se fosse um dos meus alunos preguiçosos... James encarou-me, sério. Não estou vendo graça nenhuma nessa situação. Foi escolhida como alvo, e não estou falando de um trote universitário qualquer. Não se esqueça de trancar a porta hoje à noite.
Ainda chovia quando James me acompanhou até aos meus aposentos do outro lado do pátio, ambos nos esquivando com cuidado das poças escuras na calçada. Era a primeira vez que ele me levava a casa; pelo menos esse agradável desdobramento eu teria que agradecer ao sr. Ludwig. Então, Morg... Ele ergueu um braço para me proteger da chuva quando parei para apanhar a chave. Acho que deve passar alguns dias sem sair da faculdade. Pelo menos não sozinha. Nunca se sabe... Encarei-o, sem conseguir acreditar na sua sinceridade. Deixe de ser ridículo. Se quiser sair, ligue-me que eu vou convosco, completou ele, com a chuva a pingar dos seus cabelos e a escorrer pelo seu nobre rosto. Não foram só as palavras: o tom grave da sua voz penetrou fundo nos meus ouvidos e reverberou nas cavernas de minhas esperanças hibernadas. Ávida por mais, cravei os olhos nos dele..., mas a chuva e a escuridão nublaram o momento. Após uma pausa constrangida, por fim consegui responder, tensa: é muita gentileza sua. Que parvoíce, retrucou James, no tom casual de sempre. Temos que tomar conta de você, não é? E ele afastou-se com as mãos nos bolsos, assobiando uma melodia alegre, enquanto eu me recolhia aos meus aposentos. Ou, melhor dizendo, ao apartamento luxuoso e mobiliado com bom gosto que tecnicamente não era meu, mas do distinto professor Larkin, que, para minha sorte, fora convidado a passar o ano em Yale. Eu não fora a única candidata à vaga de um ano que surgira com a sua ausência, mas eu era mulher, e o corpo docente da faculdade carecia havia muito dessa variedade específica de pessoa. Ou pelo menos fora esse o argumento usado por Katherine Kent para convencê-los a contratarem-me.
Eu não recebia o mesmo salário do professor Larkin, mas, ao assumir o seu cargo, pude abandonar o meu apartamento húmido e mudar-me para o interior da faculdade. O único, porém, era a carga de trabalho. Os meus dias eram tão abarrotados de orientações que quase não sobrava tempo para as minhas próprias pesquisas. Além disso, a menos que eu publicasse uma lista quilométrica de artigos novos e interessantes, com certeza não haveria um cargo permanente à minha espera no final do ano e eu teria de voltar ao meu porão na sinistra Cowley Road para distribuir o meu currículo sem o menor ânimo e espantar camundongos do meu café da manhã. Enquanto enchia a chaleira para fazer um chá antes de ir dormir, fiquei pensando nos acontecimentos do dia e acabei, como era de esperar, com a cabeça no sr. Ludwig. Em poucos minutos, aquele estranho homem havia-me apresentado um ofuscante rol de tentações: glória académica, aventura e dinheiro suficiente para comprar seis meses de liberdade e me dedicar apenas à minha pesquisa. Quem sabe até conseguisse encaixar uma ida a Istambul para procurar Grigor Reznik pessoalmente e convencê-lo a deixar-me ler o Historia Amazonum, único documento original sobre as amazonas ao qual eu não tivera acesso. A minha cabeça fervilhava diante das possibilidades.
Em troca, porém, o sr. Ludwig tinha pedido uma semana do meu precioso tempo e, mesmo que eu tivesse sido doida o suficiente para considerar a sua proposta, não havia como justificar essa ausência, estando apenas um mês no cargo novo. Teria sido outra história se ele me tivesse mostrado algum documento oficial carimbado e assinado, dizendo com precisão o que a sua fundação estava pedindo para fazer e como aquilo ficaria incrível no meu currículo..., mas, do jeito que o convite fora feito, era tudo vago e arriscado demais. De facto, como tanto Katherine Kent quanto James tinham deixado bem claro durante o jantar, seria preciso ser louca da cabeça para apanhar um avião, rumo ao desconhecido. Se ao menos o sr. Ludwig não tivesse dito a palavra mágica. Amazonas. Era óbvio que ele sabia da minha obsessão académica por esse tema, do contrário sequer teria falado comigo. Mas como interpretar a sua afirmação de que eu estava ansiosa por uma prova de que as amazonas tinham mesmo existido? Ele não podia saber quanto eu estava certa nisso. Ou podia?» In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

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Poemas de Alcipe. Marquesa de Alorna. «Não tardes, hora! Evita que este dia funeste, recordando antigas penas, costume inveterado de agonia»

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«(…)
Enquanto Plério Tocava Flauta
Do teimoso desgosto a mão nefanda,
Que o coração me estava comprimindo,
Com susto se desvia, e vai fugindo
Ao Báratro, após Mégera execranda.

Nascei, versos, ao som da flauta branda,
Recreai as Deidades lá do Pindo,
Vá-se o canto sublime, vá-se abrindo,
Que Délio, o mesmo sacro Délio o manda.

A Camena altas músicas descante,
Com a cítara aspergida de ambrosia,
Em honra de Piério hinos levante.

Ó Paz, filha de Apolo e de Harmonia,
Descansa no meu peito um doce instante,
Roubemo-lo ao domínio da agonia!»

Quando assentaram praça o marquês de Fronteira, e seu irmão Carlos Mascarenhas, netos da autora
«Junto às aras de Numes fabulosos
Os mancebos de Atenas se juntavam,
E pela Pátria e Fé ali juravam
Dar a vida em combates sanguinosos.

Fiéis aos juramentos, animosos,
As mais tremendas lides arrostavam,
E ou de louros eternos se coroavam,
Ou seguiam os Manes tenebrosos.

Juraste. Vê perante quem juraste!
Vê com que acções os teus te precederam,
E o que impõe a carreira que abraçaste!

Os teus e os meus, que o Reino defenderam,
Querem de ti que proves quanto baste,
Que desta raça só heróis nasceram».

Por ocasião de partirem dois moços para a guerra
«Para mim nasce o Sol sem claridade;
Envolve-me em tal susto o meu cuidado,
Que nele o pensamento concentrado
Me encobre quanto é menos que saudade.

Embora a Pátria, a honra, a heroicidade
Exija o que poupou meu triste Fado,
Não vacilo: duas vítimas ao Estado
Oferta, voluntária, a lealdade.

Mas que dor, que tormentos e agonia
Mas arranca do peito com um suspiro,
Que desculpe a materna simpatia!

Neste aperto aflitivo, se respiro,
Não vivo já; pois morro cada dia,
De morrer acabando, quando expiro».

Achando-se a autora doente, em perigo de vida
«Este ser, que me deu a Natureza,
Vai desorganizando a enfermidade;
Sinto apagar da vida a claridade,
Doma as corpóreas forças a fraqueza.

Vai crescendo em minha alma a fortaleza,
Quanto cresce do mal a intensidade;
As portas áureas me abre a Eternidade,
E lá cessam cuidados e tristeza.

Vou amar quem somente é sempre amável,
Em oxigéneas luzes abrasar-me,
Nunca errar, nem temer gente implacável.

Vou nos jardins celestes recrear-me,
E no seio de um Deus justo, adorável,
A tudo o que me falta associar-me».

No dia 24 de Julho de 1834, estando muito doente
«Adeus, Sol, de outro Sol imagem bela!
Para mim vão teus raios apagar-se;
Vai minha alma ansiosa colocar-se
Onde não há receios, nem cautela.

Em doce paz, sem susto de perdê-la,
Há de enfim ao Supremo Bem ligar-se;
E da maior delícia irá fartar-se,
Transmigrando feliz de estrela a estrela.

Não tardes, hora! Evita que este dia
Funeste, recordando antigas penas,
Costume inveterado de agonia.

Não me apresentes mais glórias terrenas,
Sem que as possa gozar; é tirania,
Pois de Tântalo à sede me condenas».

Em resposta a Jónio
«Tempera noutro som essa áurea lira;
Não crê Alcipe que te causa espanto.
O seu plectro, banhado há muito em pranto,
Destoa, geme, queixa-se, delira.

Ela assusta-se quando alguém a admira;
Com a luz da Razão destrói o encanto,
Pois do Fado o rigor tem sido tanto,
Que, se canta, conhece que suspira.

O fogo com que Délio resplandece
Só é dado a quem tem contentamento;
Cercado de pesares, esmorece.

A Ventura é quem dá ao verso alento;
Sem ela o génio pasma, desfalece,
Cala-se a Musa, encurta o pensamento.


Lusitânia querida! Se não choro
Vendo assim lacerado o teu terreno,
Não é de ingrata filha o dó pequeno;
Rebeldes julgo os ais, se te deploro.

Admiro dos teus danos o decoro.
Bebeu Sócrates firme o seu veneno;
E em qualquer parte do perigo o aceno
Encontra e cresce o teu valor, que adoro.

Mais que a vitória vale um sofrer belo;
E assaz te vingas de opressões fatais,
Se arrasada te vês, sem percebê-lo.

Povos! A independência que abraçais
Aplaude, alegre, o estrago, e grita ao vê-lo:
Ruína sim, mas servidão jamais!»
Sonetos de Leonor Almeida Portugal Lorena Lencastre
1750 – 1839), in ‘Poemas de Alcipe’


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sábado, 20 de janeiro de 2018

Poemas de Alcipe. Marquesa de Alorna. «Rompa o espírito em paz liberto os ares, e completem as Parcas agressoras ruínas que fizeram os meus pesares».

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«(…)
Numa Doença
Àquele espaço que a alma compreende
Os meus passos dirijo temerosa;
Abre-se a Eternidade, que, horrorosa,
Por multidões de séculos se estende.

Mas neste ponto em que Átropos desprende
O fio de uma vida tão penosa,
A mãe, a cara mãe, triste, saudosa,
O pai, a terna irmã, tudo me prende!

Ideias do descanso roubadoras,
Deixai-me junto aos cândidos altares
Pôr fim tranquilo às minhas tristes horas!

Rompa o espírito em paz liberto os ares,
E completem as Parcas agressoras
Ruínas que fizeram os meus pesares».

Sobre a Égloga dos Pomareiros
«Morra a memória da famosa Alcina,
Esqueça-se o poder do mago Ismeno,
Que ao melífluo som do verso ameno,
Surgem bosques, comove-se a campina.

Apenas de Filinto a voz divina
Fere, alegre, o selvático terreno,
Calam-se as Musas, até se cala Alfeno,
Que o grande Vate todo o Pindo ensina.

Brilha suspenso o Délfico luzeiro;
Doce aroma, que os ares embalsema,
Gira em torno do sábio Pomareiro;

E Alcipe absorta, bem que o assunto tema,
Faz ressoar no monte sobranceiro
De rouco Cisne a voz talvez extrema.

Se me aparto de ti, Deus de bondade,
Que ausência tão cruel! Como é possível
Que me leve a um abismo tão terrível
O pendor infeliz da humanidade!

Conforta-me, Senhor, que esta saudade
Me despedaça o coração sensível;
Se a teus olhos na cruz sou desprezível,
Não olhes para a minha iniquidade!

À suave esperança me entregaste,
E o preço do teu sangue precioso
Me afiança que não me abandonaste.

Se, justo, castigar-me te é forçoso,
Lembra-te que te amei, e me criaste
Para habitar contigo o Céu lustroso!»

De Três
Fílis
O Zéfiro em silêncio lisonjeia
Destes vales os álamos frondosos,
Doce frescura espalham amorosos
Os regatos brincando pela areia.

Lília
Que pouco um peito aflito se recreia
Pelos templos de Flora deleitosos!
Que objeto vêm com gosto olhos chorosos,
Se a torrente das lágrimas medeia?...

Márcia
Não vejo ser que o peito não soçobre,
Nem tu, Mudança, escutas meus clamores,
Por mais que os sons variados neles dobre.

Entre teu leve manto furta-cores
A ventura diviso, que se encobre,
Deixando-me tragar dos dissabores.

Fílis
Escassamente o sol já se mostrava
Entre a sombra que as luzes lhe encobria;
Dos pássaros o canto que se ouvia
A ternura e saudades inspirava.

Márcia
Já o mocho noturno se escutava,
Que o retorno das trevas prevenia;
O terror que no peito meu descia
Triste lágrima dos olhos me arrancava.

Lília
Larguei a voz então aos surdos ventos,
Que nas cavernas ásperas, com brados,
Convocavam os sustos macilentos;

Aos soltos ais, nos montes espalhados,
Não respondem os seres sonolentos,
Que não há quem responda aos desgraçados»
Sonetos de Leonor Almeida Portugal Lorena Lencastre
(1750 – 1839), in ‘Poemas de Alcipe’

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