quarta-feira, 21 de junho de 2017

O Sebastianismo. José Van Den Besselaar. «Em nenhum cartapácio encontramos profecias bíblicas, apesar de serem as mais fundamentais de todas»

jdact

«(…) Deixo de transcrever o título completo do Jardim Ameno, por ser muito longo. A transcrição chegaria a ocupar quase meia página. O cartapácio, tal como chegou até nós, deve ter por base uma compilação de profecias, organizada por um certo Pedreanes de Alvelos e dedicada por ele ao monarca Sebastião I no dia 20 de Abril de 1636. Mas o copista ampliou a colecção, enriquecendo-a de algumas alusões à aclamação de João IV. Como se lê na folha 126 do códice, concluiu-se o traslado no dia 1 de Janeiro de 1650, em Goa, o que não impediu o compilador de lhe acrescentar ainda alguns textos, entre eles, o do Juramento de D. Afonso Henriques. O livro que, muito provavelmente, já desde o início estava em poder dos jesuítas chegou às mãos de Henrique Carvalho, confessor do rei João V, que em 1741 o deu de presente ao colégio da Companhia de Gouveia. Aí foi sequestrado na época de Pombal como livro malicioso e pernicioso. Felizmente, escapou ao holocausto que Pombal mandou fazer de tantos livros sebásticos. O cartapácio transmite quase todas as profecias básicas da seita, se não sem defeitos, ao menos, de maneira satisfatória.
O Catálogo das Profecias tem uma história menos complicada. Foi organizado em 1809 por pessoa que nos é desconhecida. É uma colecção riquíssima, que abrange mais de 475 páginas; mas, infelizmente, a qualidade dos textos transcritos é muito desigual, e também encontramos nela algumas repetições. Este códice é para nós de grande importância, porque, além de transmitir quase todas as profecias básicas do sebastianismo, também conserva muito material que data da época de Napoleão.

As profecias bíblicas
Em nenhum cartapácio encontramos profecias bíblicas, apesar de serem as mais fundamentais de todas. Citam-nas com grande regularidade os tratadistas, mas os organizadores de compilações passam-nas em silêncio, sem dúvida porque elas se subentendem tacitamente e são consideradas de conhecimento geral. Os tratadistas alegam frequentemente alguns textos dos profetas Isaías e Ezequiel, que se referem à paz e harmonia universal do reino messiânico, tema por eles, geralmente, combinado com a restauração de Israel. Mais importante, porém, são os textos apocalípticos da Bíblia. O género apocalíptico, que floresceu entre 200 a. C. e 200 d. C., descreve em sonhos ou visões o combate decisivo entre Israel e os seus inimigos nos tempos derradeiros, e o triunfo final do povo de Deus. A descrição faz-se por meio de figuras simbólicas (Leão, Águia, Dragão, etc.), cujo significado vem a ser explicado, ou pelo próprio profeta, ou por um Anjo, ou por Deus. Entre esses sonhos cumpre salientarmos os do profeta Daniel (cap. 2 e 7), referentes aos quatro grandes Impérios que no Próximo Oriente se sucederam e que a exegese tradicional identificava, respectivamente, com o dos Assírios, o dos Persas e Medos, o dos Gregos (Alexandre Magno) e o dos Romanos. O primeiro sonho representava os quatro Impérios sucessivos na figura de uma estátua enorme, cuja cabeça era de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de cobre, e as pernas de ferro, sendo de ferro também uma parte dos pés, mas de barro outra parte.
Desprendendo-se, de repente, duma montanha, uma pedra feriu e despedaçou a estátua, crescendo até se transformar numa grande montanha, que acabou por encher a terra inteira. Esta pedra deu, em Portugal, origem ao Quinto Império, e à Fifth Monarchy entre os metodistas da Inglaterra. Eis o comentário de Vieira: aquela pedra […], que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza de seus metais, significa um novo e Quino Império, que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos tempos dos outros quatro. Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos, e ele só há-de permanecer para sempre, sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho, sem haver de conquistado ou destruído, como sucedeu […] aos demais.
Comentando o segundo sonho de Daniel, o jesuíta interpreta-o no mesmo sentido. Merece também atenção especial o chamado Livro IV de Esdras, opúsculo apócrifo, redigido no fim do século I d. C. por um judeu piedoso e falsamente atribuído a Esdras, o organizador da comunidade religiosa dos judeus depois do cativeiro de Babilónia (século V a. C.). Este livro, apesar de não canónico, gozava também entre os cristãos de grande prestígio, a ponto de ficar incluído na edição da Vulgata Latina, à guisa de apêndice. Nele se encontram algumas visões apocalípticas (cap. 11-13). Uma delas fala de um Leão (o Messias), que porá termo ao reino injusto de uma Águia monstruosa (o Império Romano) e estabelecerá um império de justiça até ao Juízo Final. Escusado será dizermos que os sebastianistas viam no Leão e figura do Encoberto». In José Van den Besselaar, O Sebastianismo História Sumária, Instituto Camões, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Biblioteca Breve /Volume 110, Livraria Bertrand, 1987.

Cortesia de CV Camões/JDACT

terça-feira, 20 de junho de 2017

O Sebastianismo. José Van Den Besselaar. «Os sebastianistas que se prezavam de certo grau de cultura e erudição empenhavam-se em coleccionar profecias»

jdact

«(…) Na sociedade moderna, científica e tecnológica, a profecia já não funciona, faltando-lhe para tal as condições indispensáveis. Vem a ser substituída por análises científicas e processos técnicos, que invadem quase todos os terrenos da cultura hodierna e, dentro dos seus limites, funcionam com grande perfeição. Mas a ciência e a técnica têm os seus limites fatais: ambas são incapazes de dar sentido à vida dos indivíduos e das colectividades. Examinando de perto as ideologias modernas, que a muitos parecem objectivas e definitivas, descobrimos nelas também elementos míticos. Estes mostram muitas vezes ter mais força existencial e maior poder conquistador do que os componentes meramente racionais. Intellectus supponens fidem. Desde os primeiros séculos da era cristã se forjaram profecias sobre o rumo do processo histórico, mas que elas nunca pulularam tanto entre os cristãos como no fim da Idade Média.
Em Portugal, o profetismo teve o seu apogeu mais tarde, nos séculos XVI, XVII e XVIII. Os forjadores de profecias costumavam pô-las na boca de uma pessoa ilustre, já há muito tempo defunta. Este método tinha duas vantagens. Em primeiro lugar, a antiguidade do vaticínio conferia-lhe certa dignidade. Em segundo lugar, este método possibilitava aos autores iniciar os seus oráculos com o prenúncio de acontecimentos já sucedidos na época da redacção. E a verdade das profecias já cumpridas devia garantir a das profecias ainda por cumprir. A profecia propriamente dita continha geralmente, além de admoestação e imprecações, material de propaganda a favor de uma corrente religiosa, combinado com qualquer movimento político ou social. Aos modernos causa espanto o facto de que esses produtos fantasistas brotavam sem escrúpulos da mente de pessoas que decerto se consideravam a si mesmas como honradas e honestas e como tais eram consideradas por outros. Hoje, estamos espontaneamente inclinados a condenar tais falsificações. Mas não sejamos demasiadamente severos com aquela gente.
Diz um crítico francês: pour des esprits peu formés à l’observation, attribuant à ce qui est une importance bien moindre qu’à ce qui doit être, introduire dans les archives le document qui y manque malheuresement, n’est pas mentir, c’est au contraire rétabilir une vérité supérieures. Fosse isso como fosse, quase todas as profecias eram redigidas numa linguagem obscura e enigmática, prestando-se a mais de uma interpretação. E, assim como os documentos históricos dão lugar a uma constante discussão entre os estudiosos do passado sobre a sua correcta interpretação, assim as profecias criavam uma classe de exegetas que disputavam entre si o seu verdadeiro significado. Havia inúmeras disputas entre pessoas unidas na sua fé nas profecias, mas muito desunidas na sua interpretação. Os combatentes mostravam, por vezes, algum talento em discernir o ponto fraco da argumentação dos seus adversários, mas falhavam redondamente em provar, de maneira convincente, a sua própria opinião. Essas discussões fazem-nos pensar nos debates parlamentares entre conservadores e progressistas, que não convencem ninguém, a não ser quem já esteja convencido. Assim a luta continuava indecisa, sem vencedores finais nem derrotados definitivos.
Os combatentes gostavam de assumir ares de eruditos, mas a erudição que exibiam mal resiste a um exame crítico, porque toda ela estava baseada em premissas ilusórias. Acontece, porém, que também as ilusões fazem parte da História, chegando a ser, por vezes, motrizes mais pujantes do que as lucubrações de ordem puramente intelectual. Por mais eruditos e, em alguns casos, inteligentes que fossem os polemistas, quase nenhum deles levantava o problema que ao homem moderno parece fundamental: a autenticidade das profecias alegadas. Faltava-lhes a menor noção da crítica histórica, que na época do Renascimento nascera na Itália e, nos séculos XVI e XVII, estava a ser aperfeiçoada nas Universidades da Holanda e nas abadias e academias da França. O facto ilustra bem o isolamento cultural em que Portugal se encontrava.

Os cartapácios
Os sebastianistas que se prezavam de certo grau de cultura e erudição empenhavam-se em coleccionar profecias. Estas colecções, geralmente feitas sem nenhum critério científico, eram para eles o arsenal donde tiravam as armas para defender e propagar as suas opiniões e para combater as dos incrédulos e dissidentes. Muitos desses cartapácios chegaram aos nossos dias, alguns feitos por copistas ignorantes e cheios dos erros mais crassos, outros organizados com certo esmero e método. Dois deles merecem uma menção especial: o Jardim Ameno e o Catálogo das Profecias. Ambos primam por uma grande variedade de matéria profética, e, comparados com outros cartapácios, dão a impressão de transmitir um texto coerente e, dentro dos seus limites, fidedigno. Deles me servirei amplamente na transcrição dos textos sebásticos que pretendo reproduzir no presente trabalho». In José Van den Besselaar, O Sebastianismo História Sumária, Instituto Camões, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Biblioteca Breve /Volume 110, Livraria Bertrand, 1987.

Cortesia de CV Camões/JDACT

domingo, 18 de junho de 2017

O Fardo da Nobreza. Donna Leon. «Litfin acompanhou o movimento dos seus lábios enquanto ele olhava para o osso. Sem dar tempo para que respondesse, Bortot passou o osso para ele»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Então os homens saíram das sombras e o doutor teve um momento alucinatório ao perceber o contraste dos uniformes pretos contra o inocente pano de fundo rosa da macieira em flor. As botas lustradas marchavam sobre um carpete de pétalas recém-caídas enquanto se aproximavam dele. O que o senhor faz por aqui?, indagou o primeiro. Quem é o senhor?, perguntou o outro, mantendo o mesmo tom raivoso. Num italiano desajeitado em virtude do medo, ele começou: sou o doutor Litfin. Sou o..., e fez uma pausa em busca do termo mais adequado. Sou o padrone daqui. Os carabinieri tinham sido informados de que o novo proprietário era um alemão, e o sotaque parecia real o bastante, de modo que eles abaixaram as armas, mas mantiveram o dedo perto do gatilho. Litfin tomou o gesto como uma permissão para abaixar as mãos, o que fez bem devagar. Por ser alemão, sabia que as armas seriam sempre superiores a qualquer apelo a direitos civis, daí ter esperado que se aproximassem dele, o que não o impediu de voltar momentaneamente sua atenção para os três homens que permaneciam no terreno recém-arado, agora tão imóveis quanto ele, atentos aos carabinieri que se aproximavam e a ele próprio. Os dois policiais, de repente inseguros frente à pessoa capaz de arcar com as reformas da casa e do terreno, à vista de todos, aproximaram-se do dr. Litfin e à medida que o faziam o equilíbrio do poder alterava-se. Consciente disso, Litfin aproveitou a oportunidade.
O que significa tudo isso?, perguntou, apontando para o terreno e deixando que os policiais concluíssem por si sós se ele estava referindo-se ao relvado arruinado ou aos três homens que permaneciam do outro lado. Tem um cadáver no seu terreno, respondeu o primeiro polícia. Sim, eu sei disso, mas o que é toda essa..., ele buscou o termo apropriado, mas só conseguiu emitir um distruzione. As marcas do trilho dos pneus pareciam aprofundar-se enquanto os três homens as avaliavam, até que finalmente um dos polícias disse: fomos obrigados a atravessar o terreno. Embora fosse uma mentira descarada, Litfin optou por ignorá-la. Voltou as costas aos polícias e começou a caminhar em direcção aos outros três homens tão rápido que ninguém tentou detê-lo. Chegando ao final da primeira vala, bastante profunda, perguntou ao homem que parecia estar no comando: o que é isso? O senhor é o doutor Litfin?, perguntou o outro médico, que já tinha sido informado sobre o alemão, sobre quanto havia pago pela casa e quanto havia gasto até então com as reformas. Litfin confirmou e, como o outro demorava a responder, perguntou de novo: o que é isso?
Um homem de uns vinte anos, acho, respondeu o dr. Bortot, voltando-se em seguida para seus assistentes a fim de fazê-los continuar com o trabalho. Demorou um pouquinho para que Litfin se recuperasse da resposta grosseira, mas, quando o fez, passou sobre a terra revolvida e se posicionou ao lado do outro médico. Ficaram ali por um bom tempo sem dizer nenhuma palavra, lado a lado, observando os dois assistentes revolvendo a terra com vagar. Passados alguns minutos, um dos homens entregou outro osso ao dr. Bortot, que, com um rápido olhar, identificou-o e posicionou-o ao final do outro pulso. O mesmo posicionamento rápido se deu com os dois ossos seguintes. Ali, à sua esquerda, Pizetti, disse Bortot, apontando para um minúsculo artelho exposto no extremo oposto da vala. O homem a quem ele se dirigiu visualizou o objecto, agachou-se, apanhou-o e entregou-o ao médico. Bortot o estudou por um instante, mantendo-o delicadamente entre o polegar e o indicador, e depois se voltou para o alemão. Cuneiforme lateral?, perguntou.
Litfin acompanhou o movimento dos seus lábios enquanto ele olhava para o osso. Sem dar tempo para que respondesse, Bortot passou o osso para ele. Litfin pegou-o nas mãos por um momento, depois olhou para os ossos espalhados sobre o plástico a seus pés. Ou intermediário, Litfin respondeu, mais à vontade com o latim que com o italiano. Sim, sim, talvez, Bortot replicou. Fez um aceno em direcção ao plástico e Litfin curvou-se para colocá-lo no fim do osso comprido que se unia ao pé. Ergueu-se e os dois olharam para ver o resultado. Ja, ja murmurou Litfin, e Bortot assentiu com a cabeça. Por mais uma hora os dois permaneceram juntos ao lado do sulco feito pelo tractor, revezando-se para apanhar os ossos dados pelos assistentes, que continuavam a passar o rico solo pela peneira. De quando em quando divergiam sobre um fragmento ou uma lasca, mas em geral concordavam na classificação do que lhes era passado pelos dois cavadores. O sol primaveril caía sobre eles. Ao longe, um cuco passou a emitir o seu canto de acasalamento, repetindo-o até que os quatro homens não lhe dessem mais bola. À medida que o calor aumentava, eles começaram a tirar os seus casacos, que acabaram todos pendurados nos galhos mais baixos das árvores alinhadas a um dos lados do terreno que delimitavam a propriedade». In Donna Leon, O Fardo da Nobreza, 1997, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-056-7.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

O Fardo da Nobreza Donna Leon. «Olhou em volta, mas não viu nada além das três velhas árvores que tinham crescido em redor do poço em ruínas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) As notícias nunca se propagam de forma tão rápida numa cidade pequena quando dizem respeito a mortes ou acidentes, de modo que a história de que ossos humanos tinham sido encontrados no jardim da velha casa dos Orsez já se havia espalhado pelo vilarejo de Col di Cugnan antes da hora do almoço. Somente a notícia da morte do filho do prefeito num acidente de automóvel perto da fábrica de cimento, havia sete anos, tinha-se espalhado tão rapidamente; mesmo a história sobre Graziella Rovere e o mecânico só se tornara do conhecimento de todos após dois dias. Naquela noite, porém, os habitantes do vilarejo, todos os setenta e quatro, desligaram os seus televisores durante o jantar ou conversaram sem ligar para o que neles passava, tentando especular sobre o que teria acontecido e, o que era mais interessante, sobre quem poderia ser.
A apresentadora de casaquinho de pele da RAI 3, a loira que a cada noite usava óculos diferentes, foi ignorada enquanto informava sobre as últimas atrocidades na antiga Jugoslávia, e ninguém deu a mínima para a prisão do ex-ministro do Interior sob acusações de corrupção. Notícias assim já faziam parte da rotina; mas um crânio numa vala nos fundos da residência de um estrangeiro, isso sim era notícia. Até a hora de dormir, já se dizia que o crânio tinha sido esmigalhado pelo golpe de um machado ou de uma bala e que apresentava sinais de terem tentado dissolvê-lo em ácido. A polícia havia identificado, disso os habitantes tinham certeza, os ossos como sendo de uma mulher grávida, de um rapazinho e do marido de Luigina Menegaz, que havia partido para Roma doze anos antes e do qual nunca mais se ouvira falar desde então. Nessa noite, os moradores de Col di Cugnan trancaram as suas portas, e os que tinham perdido as suas chaves anos antes e nunca se haviam dado ao trabalho de procurá-las tiveram um sono mais agitado que os outros.
Na manhã seguinte, às oito horas, duas viaturas dos carabinieri chegaram à casa do dr. Litfin, passando por cima da relva recém-plantada para estacionar uma em cada lado dos dois longos sulcos arados no dia anterior. Somente depois de uma hora chegou o carro do centro da província de Belluno que trazia o medico legal daquela cidade. Ele não ouvira nenhum dos rumores sobre a identidade ou a causa da morte da pessoa cujos ossos jaziam sobre o terreno, dando início assim aos procedimentos que pareciam prioritários: colocar os seus dois assistentes para revolver a terra e descobrir o resto. Enquanto esse longo processo avançava, as duas viaturas dos carabinieri revezavam-se atravessando o agora destruído relvado e dirigindo-se até ao vilarejo, onde os seis policiais tomaram o seu café num café e começaram a perguntar aos habitantes se alguém tinha desaparecido. O facto de os ossos aparentemente terem ficado enterrados por muitos anos não os demoveu de sua decisão de indagar sobre eventos recentes, de modo que as suas investigações não levaram a nada.
No terreno, os dois assistentes do dr. Bortot tinham montado uma peneira bem afunilada e lentamente iam despejando baldes de terra através dela, abaixando-se de quando em quando para apanhar um osso pequeno ou qualquer coisa que parecesse ser um. À medida que os iam recolhendo, mostravam os ossos ao seu superior, que se tinha instalado na borda da vala, com as mãos para trás. Um grande plástico preto se estendia a seus pés, e à medida que os ossos iam sendo apresentados a ele, orientava os seus assistentes sobre como dispô-los; assim, juntos, iam lentamente montando o macabro quebra-cabeça. Uma vez ou outra, pedia a um dos homens que lhe passasse um osso, que avaliava por um momento antes de se inclinar para posicioná-lo em algum lugar do plástico. Em duas ocasiões mudou de ideia; numa delas ajoelhou-se para mover um osso da direita para a esquerda, noutra, com um suspiro abafado, deslocou outro osso da base do metatarso para a extremidade do que antes fora um pulso.
O dr. Litfin chegou às dez, tendo sido informado na noite anterior sobre a descoberta no seu jardim e então conduziu toda a noite vindo de Munique. Estacionou na frente da casa e saiu com dificuldade do carro. Entre ele e a casa viu as numerosas e profundas trilhas de pneus feitas sobre o novo relvado que ele havia cultivado com puro deleite três semanas antes. E logo viu os três homens no terreno mais adiante, quase tão distantes quanto os canteiros de mudas de framboeseiras que ele trouxera da Alemanha e plantara de imediato. Começou a cruzar o relvadodo destruído, mas de repente parou sob uma ordem gritada de algum ponto à sua direita. Olhou em volta, mas não viu nada além das três velhas árvores que tinham crescido em redor do poço em ruínas. Não tendo visto ninguém, retomou o andar em direcção aos três homens no terreno. Não deu mais que alguns passos antes que dois homens trajando os ameaçadores uniformes negros dos carabinieri saíssem debaixo da macieira mais próxima apontando metralhadoras na sua direcção. O dr. Litfin sobrevivera à ocupação de Berlim pelos russos e, embora isso tivesse sido mais de cinquenta anos antes, o seu corpo não esquecera a visão de homens armados em uniforme. Instintivamente, ergueu as duas mãos sobre a cabeça e ficou imóvel como uma pedra». In Donna Leon, O Fardo da Nobreza, 1997, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-056-7.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

sábado, 17 de junho de 2017

Terra Sonâmbula. Mia Couto. «Chorando assim você vai chamar os espíritos. Ou se cala ou lhe rebento a tristeza à pancada»

jdact

«(…) Muidinga vai avançando, pisando com mil cautelas. Aquele recinto está contaminado pela morte. Seriam precisas mil cerimónias para purificar o autocarro. Não faça essa cara, miúdo. Os falecidos ofendem- se lhes mostramos nojo. Muidinga arruma o saco num banco. Senta-se e observa o recanto conservado. Há tecto, assentos, encostos. O velho, impávido, já se deitou a repousar. De olhos fechados, espreguiça a voz: sabe bem uma sombrinha assim. Não descanso desde que fugimos do campo. Não quer apanhar sombra? Tuahir, vamos tirar esses corpos daqui. E porquê? Cheiram-lhe mal? O miúdo não responde logo. Está virado para a janela quebrada. O velho insiste que descanse. Desde que saíram do campo de deslocados eles não tinham tido pausa. Muidinga permanece de costas viradas. Escuta-se apenas o seu respirar, quase resvalando em soluço. Então, ele repete a sussurrante súplica: que se limpe aquele refúgio. Peço-lhe, tio Tuahir. É que estou farto de viver entre mortos. O velho apressa-se a emendar: não sou seu tio! E ameaça: o moço que não abuse das familiaridades. Mas aquele tratamento é só a maneira da tradição, argumenta Muidinga. 
Em você não gosto. Não lhe chamo nunca mais. E me diga: quer encontrar os seus pais porquê? Já expliquei tantas vezes. Não consigo entender. Vou-lhe contar uma coisa: os seus pais não lhe vão querer ver nem vivo. Porquê? Em tempos de guerra, filhos são um peso que atrapalha. Saem a enterrar os cadáveres. Não vão longe. Abrem uma única campa para poupar esforço. No caminho do regresso encontram mais um corpo. Jazia junto à berma, virado de costas. Não estava queimado. Tinha sido morto a tiro. A camisa estava empapada em sangue, nem se notava a cor original. Junto dele estava uma mala, fechada, intacta. Tuahir sacode o morto com o pé. Revista-lhe os bolsos, em vão: alguém já os tinha vazado. Eh pá, este gajo não cheira. Atacaram o machimbombo há pouco tempo. O miúdo estremece. A tragédia, afinal, é mais recente do que ele pensava. Os espíritos dos falecidos ainda por ali pairavam. Mas Tuahir parece alheio à vizinhança. Enterram o último cadáver. O rosto dele nunca chega a ser visto: arrastaram-no assim mesmo, os dentes charruaram a terra. Depois de fecharem o buraco, o velho puxa a mala para dentro do autocarro. Tuahir tenta abrir o achado, não é capaz. Convoca a ajuda de Muidinga: abre, vamos ver o que está dentro. Forçam o fecho, apressados. No interior da mala estão roupas, uma caixa com comidas. Por cima de tudo estão espalhados cadernos escolares, gatafunhados com letras incertas. O velho carrega a caixa com mantimentos. Muidinga inspecciona os papéis. Veja, Tuahir. São cartas. Quero saber é das comidas. O miúdo remexe no resto. As mãos curiosas viajam pelos cantos da mala. O velho chama a atenção: ele que deixasse tudo como estava, fechasse a tampa. Tira só essa papelada. Serve para acendermos a fogueira. O jovem retira os caderninhos. Guarda-os por baixo do seu banco. Não parece pretender sacrificar aqueles papéis para iniciar o fogo. Fica sentado, alheio. No enquanto, lá fora, tudo vai ficando noite. Reina um negro silvestre, cego. Muidinga olha o escuro e estremece. É um desses negros que nem os corvos comem. Parece todas as sombras desceram à terra. O medo passeia os seus chifres no peito do menino que se deita, enroscado como um congolote. O machimbombo rende-se à quietude, tudo é silêncio taciturno. Mais tarde, começa-se a escutar um pranto, num fio quase inaudível. É Muidinga que chora. O velho levanta-se e ralha: pára de chorar! É que me dói uma tristeza... Chorando assim você vai chamar os espíritos. Ou se cala ou lhe rebento a tristeza à pancada. Nós nunca mais vamos sair daqui. Vamos, com certeza. Qualquer coisa vai acontecer qualquer dia. E essa guerra vai acabar. A estrada já se vai encher de gente, camiões. Como no tempo de antigamente. Mais sereno, o velho passa um braço sobre os ombros trementes do rapaz e lhe pergunta: tens medo da noite? Muidinga acena afirmativamente. Então vai acender uma fogueira lá fora. O miúdo levanta-se e escolhe entre os papéis, receando rasgar uma folha escrita. Acaba por arrancar a capa de um dos cadernos. Para fazer fogo usa esse papel. Depois senta-se ao lado da fogueira, ajeita os cadernos e começa a ler. Balbucia letra a letra, percorrendo o lento desenho de cada uma. Sorri com a satisfação de uma conquista. Vai-se habituando, ganhando despacho. Que estás a fazer, rapaz? Estou a ler. É verdade, já me esquecia, você é capaz de ler. Então leia em voz alta que é para me adormecer». In Mia Couto, Terra Sonâmbula, Editorial Caminho, Lisboa, 1992, ISBN 972-21-0790-9.

Cortesia de Caminho/JDACT

sexta-feira, 16 de junho de 2017

E se Obama fosse Africano. Mia Couto. «O episódio da estação hidrométrica passou a ser um dos alimentos do meu sentimento de esperança»

jdact

O guardador de rios
«Depois da Independência, um programa de controlo dos caudais dos rios foi instalado em Moçambique. Formulários foram distribuídos pelas estações hidrológicas espalhadas pelo país e um programa de registo foi iniciado para os mais importantes cursos fluviais. A guerra de desestabilização eclodiu e esse projecto, como tantos outros, foi interrompido por mais de uma dúzia de anos. Quando a Paz se reinstalou, em 1992, as autoridades relançaram o projecto acreditando que, em todo o lado, era necessário recomeçar do zero. Contudo, uma surpresa esperava a brigada que visitou uma isolada estação hidrométrica no interior da Zambézia. O velho guarda tinha-se mantido activo e cumprira, com zelo diário, a sua missão durante todos aqueles anos. Esgotados os formulários, ele passou a usar as paredes da estação para grafar, a carvão, os dados hidrológicos que era necessário registar. No interior e exterior, as paredes estavam cobertas de anotações e a velha casa parecia um imenso livro de pedra. Orgulhoso, o guarda recebeu os visitantes à entrada e apontou para a madeira da porta: começa-se a ler por aqui, para ir habituando os olhos ao escuro. A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassínio espectacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder crença no futuro.
O episódio da estação hidrométrica passou a ser um dos alimentos do meu sentimento de esperança. Como se me lembrasse que devo dialogar com invisíveis rios e tudo em meu redor podem ser paredes onde eu nego a tentação do desalento.
Tal como o anterior Pensatempos, este não é um livro de ficção. Os textos que aqui se reúnem cumprem a missão de intervenção social que a mim mesmo me incumbo como cidadão e como escritor. Com a excepção do artigo sobre a eleição de Obama, todos os restantes textos foram concebidos para alocuções a serem proferidas em encontros e colóquios dentro e fora de Moçambique. Conservei o mais possível a forma coloquial e deixei intencionalmente escapar, aqui e ali, pequenas repetições e improvisações.
Alguns destes textos foram concebidos para o contexto de Moçambique e, eventualmente, pecarão por essa especificidade para o leitor não moçambicano. Acredito, porém, que os rios que percorrem o imaginário do meu país cruzam territórios universais e desembocam na alma do mundo. E nas margens de todos esses rios há gente teimosamente inscrevendo na pedra os minúsculos sinais da esperança. In Mia Couto.

Mia Couto, E se Obama fosse Africano, Edições Caminho, colecção Outras Margens, 2009, ISBN 978-972-212-023-4.

Cortesia ECaminho/JDACT

Melancia. Marian Keyes. «Ambos concordámos que nos havíamos apaixonado um pelo outro cerca de quinze minutos depois de nos conhecermos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Desculpe, deve achar que sou muito grosseira. Mal fomos apresentados e aqui estou eu contando-lhe as coisas terríveis que me aconteceram. Vou apresentar-lhe rapidamente o meu perfil e deixarei os detalhes para depois; por exemplo, se tivermos tempo para isso, vou contar como foi o meu primeiro dia na escola. Vejamos então. O que devo contar-lhe? Bem, o meu nome é Claire, tenho 29 anos e, como disse, tive o meu primeiro filho há dois dias (uma menina, com quase três quilos, lindíssima) e o meu marido (contei que o nome dele é James?) me comunicou, há cerca de vinte e quatro horas, que vem tendo um caso, já há seis meses, guarde essa, não é nem a sua secretária ou outra mulher charmosa do seu trabalho, mas com uma mulher casada que mora no apartamento dois andares abaixo do nosso. Incrível como isso soa mal! E não apenas tem um caso, mas quer divorciar-se de mim. Desculpe se estou sendo desnecessariamente frívola quanto a isso. Estou muito confusa. Dentro de um instante estarei chorando novamente. Ainda me encontro em estado de choque, assim acho eu. O nome dela é Denise, e eu conheço-a muito bem. Não tão bem quanto a conhece James, é óbvio. O terrível é que ela sempre pareceu tão boazinha.
Tem 35 anos (não me pergunte como sei disso), simplesmente sei. E, correndo o risco de parecer que falo por pura inveja e de perder a simpatia de quem me lê, a aparência dela é de quem tem mesmo trinta e cinco, é mãe de dois filhos e tem um bom marido (ou seja, bem diferente do meu). E, pelo que parece, saiu do seu apartamento e ele do dele (do nosso, melhor dizendo) e ambos se mudaram para um novo, em endereço secreto. Não é incrível?! Como se pode chegar a um drama desses? Sei que o marido dela é italiano, mas realmente não vejo nenhuma probabilidade de que ele mate o casal. É garçom, não é um mafioso; então, o que vai fazer? Envenená-los com pimenta do reino? Fazer com que entrem em coma, após tantos boa noite, senhores? Ou atropelá-los com o carrinho das sobremesas? Novamente pareço frívola. Mas não sou. Estou é com o coração partido.
Um desastre completo. Nem sei como devo dar o nome à minha filhinha. James e eu tínhamos discutido alguns nomes, ou, pensando retrospectivamente, eu os discutira e ele fingira ouvir, mas não decidimos nada. E agora pareço ter perdido a capacidade de tomar decisões. Patético, eu sei, mas o casamento é isso. Acaba com o nosso senso de autonomia pessoal! Mas nem sempre fui assim. Antigamente, eu tinha força de vontade, era independente. Agora tudo isso parece que foi há muito, muitíssimo tempo. Fiquei com James por cinco anos e estávamos casados há três. E, meu Deus, como eu amo aquele homem. Embora houvéssemos tido um início não muito auspicioso, a magia tomou conta de nós muito rapidamente. Ambos concordámos que nos havíamos apaixonado um pelo outro cerca de quinze minutos depois de nos conhecermos, e assim permanecemos. Ou, pelo menos, eu permaneci.
Durante muito tempo, nunca pensei que encontraria um homem que quisesse se casar comigo. Bem, talvez eu devesse amenizar isso. Nunca pensei que conheceria um bom homem que quisesse casar-se comigo. Muitos malucos, sem dúvida. Mas um bom homem, um pouquinho mais velho do que eu, com um emprego decente, boa aparência, engraçado, gentil. Sabe como é, alguém que não me olhasse de esguelha quando eu mencionasse o programa da tarde, nem alguém que prometesse sair comigo para uma noite no McDonald's logo após seu curso nocturno, nem alguém que se desculpasse por não poder dar-me um presente de Natal porque sua ex-esposa havia conseguido ganhar todo o seu salário num processo de pensão alimentícia, nem alguém que me fizesse sentir antiquada e intimidada porque me zangara quando ele disse que tinha namorado com a sua ex-namorada na noite seguinte àquela em que se deitara comigo (meu Deus, vocês, garotas de convento, são tão antiquadas), nem alguém que me fizesse sentir constrangida por não saber a diferença entre Piat d'Or e Zinfandel (seja lá o que for isso!).
James não me tratava de nenhuma dessas maneiras desagradáveis. Até parecia bom demais para ser verdade. Ele gostava de mim. Ele gostava de quase tudo em mim. Quando nos conhecemos, estávamos ambos morando em Londres. Eu era garçonete, e ele, contador. Entre todas as espeluncas ao estilo texano-mexicano ao redor do mundo, ele entrou justamente na minha. Eu não era uma garçonete de verdade, era formada em Inglês, só que passara por minha fase rebelde bem mais tarde do que a maioria das mulheres, lá pelos 23 anos. Que foi quando pensei que seria bem divertido deixar o meu emprego permanente em Dublin, com direito a aposentadoria e até bem pago, e partir para a pecaminosa cidade de Londres, para viver como uma estudante irresponsável. Algo que deveria ter feito quando era mesmo uma estudante irresponsável. Mas, aquele tempo, estava ocupada demais obtendo experiência de trabalho em minhas férias de verão, e então minha irresponsabilidade teve de esperar até eu estar inteiramente preparada para ela». In Marian Keyes, Melancia, 1995, Edição Bertrand Brasil, 2003, ISBN 978-852-860-916-5.

Cortesia de EBBrasil/JDACT

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Meia-noite ou O Princípio do Mundo. Richard Zimler. «Agora, o malvado cocheiro terminava a sua diatribe rosnando: vou vender-te para fazer cola, sua meretriz preguiçosa!»

jdact

«(…) Embora fosse uma criança de roupas esfarrapadas e sem maneiras, Daniel sempre ocupou um lugar especial no meu coração. Se a nossa vida em conjunto tivesse sido um livro de aventuras, ele teria continuado a praticar horas a fio, à luz da candeia, para na última página se tornar um escultor célebre. Mas a vida, já o meu pai dizia, é, na melhor das hipóteses, um Jogo da Papisa Joana numa mesa viciada, com o jogador que dá as cartas a esconder as melhores nos folhos da manga. E, por isso, o meu amigo foi impedido de realizar essas maravilhas. Se a sorte lhe tivesse sorrido, ou, mais importante ainda, se eu, John Zarco Stewart, tivesse tido mais força de braços, também a minha vida teria lucrado com isso. Afinal, muitas vezes só compreendemos o papel que tivemos nas pessoas que amamos volvidos muitos anos.
Conheci Daniel em Junho de 1800, quando tinha nove anos. Por essa altura, já eu descobrira Ás Fábulas da Raposa nas Ilhas Britânicas. Nesse dia, saíra cedo, tendo devorado, para desagrado da minha mãe, uma côdea de pão de trigo que barrara com mel e emborcado uma chávena de chá. O meu destino era um laguinho, ou tarn termo escocês), como o pai lhe chamava,  muito para lá das muralhas da cidade, na zona interior coberta de árvores ao longo da estrada para Vila do Conde. Era um sítio magnífico para observar todos os tipos de aves, especialmente logo depois do nascer do Sol. Naquele tempo, e ainda hoje, eu era um grande amante das lindas criaturas de penas, ar e luz, bem como um grande apreciador e imitador do canto das aves. Nessa altura, tivesse eu podido suplicar a Deus um bico e asas, e certamente me teria transformado numa dessas criaturas.
Já me estava a aproximar dos degraus de granito ao fundo da rua que conduzem à zona ribeirinha, quando me chegaram uns gritos roucos vindos de um beco ali perto. Correndo para lá a toda a velocidade, fui dar com a dona Beatriz, uma lavadeira viúva a quem entregávamos os lençóis todas as quartas-feiras, estendida nas pedras da calçada diante de casa. Ganindo como um cão espancado, tinha os joelhos ossudos puxados para a barriga para se proteger. Um bruto de peruca e libré de cocheiro agigantava-se ameaçadoramente sobre ela, a cara contorcida de raiva. Sua cadela desleixada!, gritava o homem, cuspindo as palavras. Sua marrana mentirosa e ladra! Marrana era uma palavra nova para mim. Mais tarde, o meu professor explicou-me que tinha dois significados, porca e judia convertida, um epíteto que me confundira, já que nunca ouvira ninguém referir-se à dona Beatriz senão como uma boa alma cristã. De facto, fazia apenas uma ideia muitíssimo vaga do que poderia ser um judeu, pois, embora a minha avó me tivesse falado deles em duas ou três ocasiões, retivera apenas algumas lendas em que feiticeiros judeus pareciam estar sempre a frustrar as acções de reis execráveis com as suas rezas mágicas.
Agora, o malvado cocheiro terminava a sua diatribe rosnando: vou vender-te para fazer cola, sua meretriz preguiçosa! A seguir, depois de ter dado vários pontapés na dona Beatriz, agarrou-lhe os cabelos ralos, preparando-se para lhe atirar a cabeça contra as pedras da calçada. O coração batia-me violentamente no peito e comecei a sentir-me tonto. Perguntei-me se deveria soltar um grito e se este conseguiria sobrevoar os telhados que me separavam do meu pai e acordá-lo. Naquele tempo, estava convencido de que, com o seu metro e oitenta, ele conseguia restabelecer a ordem no mundo». In Richard Zimler, Meia-noite ou O Princípio do Mundo, 2003, Porto Editora, 2017, ISBN 978-972-004-727-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

Deslumbrante. Madeline Hunter. «Tentou fingir uma indiferença espontânea, mas não pôde evitar reparar que, se uma mulher tinha de ver um homem meio nu pela primeira vez na vida, lord Sebastian não era um mau começo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Vozes transmitiram a notícia de que uma mulher tinha tentado matar o amante. Não foi isso que aconteceu. Lord Sebastian arrancou o que restava da manga e usou o retalho para comprimir a abertura grande e escura que tinha no braço. Alguém entrou. Um ladrão. Tentei defender-me e ele atacou-me. Na luta, a pistola disparou. É uma história improvável, disse o estalajadeiro, entredentes. Questiona a minha palavra de cavalheiro?, perguntou lord Sebastian, ameaçador. Não questionarei nada, senhor. Vou deixar isso ao magistrado, se não se importar. Pode contar do ladrão audaz que entrou num quarto ocupado, simplesmente para atirar e fugir sem dinheiro. O estalajadeiro dirigiu a Audrianna um olhar de desdém. Quer que mande alguém a Brighton buscar um cirurgião, senhor? Ou esta mulher consegue cuidar do ferimento enquanto espera pelo juiz de paz? Fico com a sua palavra do cavalheiro que realmente é de que vai ficar e não fugir. Lord Sebastian tirou o farrapo e olhou para o braço.
Tem a minha palavra. Conseguimos tratar da ferida. Mande trazer água fresca e um trapo limpo. Além do mais, a senhora vai precisar de um quarto para ela, para passar a noite, por isso trate de providenciá-lo. Os outros quartos estão ocupados, e não vou mandar ninguém sair para alojá-la. Nem quero essa mulher perambulando pela minha propriedade depois do que ela fez. Não tenho tempo para ficar de carcereiro, por isso deixo também isso a seu cargo. Ficarei com a sua palavra também a respeito disso, de que a manterá por perto e se certificará de que ela permaneça aqui até o juiz de paz chegar. Que assim seja, então, já que insiste. Agora pode ir embora. Foi uma ordem calma, mas com uma autoridade tal que o estalajadeiro se voltou imediatamente para a porta. Na saída, as pessoas começaram a dispersar, abrindo caminho. Você também, Hawkeswell, indicou lord Sebastian. Preciso de privacidade. Peço também a sua discrição, não que espere que seja de grande ajuda. Deve compreender. Concedo ambas de bom grado. Também tenho uma camisa a mais na minha bagagem. Vou mandar para você. Fez uma pequena mesura a Audrianna e saiu do quarto seguindo o estalajadeiro.
Lord Sebastian fechou a porta para afastar os retardatários que persistiam em espiar perto da ombreira da porta. Em seguida aproximou-se do fogo e examinou mais atentamente o ferimento. Por que ficou tão preta?, perguntou Audrianna. Pólvora quente. A bala só me tocou de raspão, mas fiquei bem chamuscado. Voltou-se para ela. O seu nome. Preciso dele agora, e não pense em mentir. O juiz de paz o arrancará de você com certeza, e nem pense que vou continuar sem saber o que se passa aqui. Ela estava assustada e consternada demais para mentir. Sou Audrianna Kelmsleigh, filha de Horatio Kelmsleigh. Ele ficou perplexo. Vi uma mensagem no jornal de alguém que se autointitulava Dominó e parecia ser para o meu pai, explicou ela. Eu vim, para ver se o homem tinha informação que pudesse limpar o seu nome. Tudo aquilo havia parecido tão certo, tão necessário, no dia anterior. Porque está aqui?
Também vi o anúncio, e também tive esperança de falar com o tal Dominó. Porquê? Meu pai está morto. O mundo seguiu em frente. Acho que há algo mais nessa história. Não vejo como poderia obter informações do Dominó fingindo ser o próprio Dominó. A minha intenção era fingir ser o Kelmsleigh. Quando presumiu que eu era Dominó, decidi entrar no jogo e descobrir quem era aquela mulher inesperada, e que papel desempenharia no esquema geral. Esquema geral? Então alguém abriu a porta. Uma criada trouxe uma bacia e um balde de água. Colocou alguns panos limpos sobre a cama. Um cavalheiro pediu-me que trouxesse também esta camisa, explicou, colocando-a de lado. Deu uma boa olhadela a Audrianna e saiu apressada. Lord Sebastian pôs o balde perto do fogo. Sentou-se na cama, despiu o colete e depois tirou a camisa rasgada. Fez uma careta de dor quando o tecido roçou na ferida. Audrianna piscou os olhos repetidamente, espantada mais um vez. Aquele homem não tinha nada que o cobrisse. Estava ali sentado, preocupado com o ferimento, sem roupa, meio nu na verdade. Não parecia achar nada estranho que ela estivesse sentada ali mesmo ao lado dele.
Nunca vira um homem sem camisa. Tentou fingir uma indiferença espontânea, mas não pôde evitar reparar que, se uma mulher tinha de ver um homem meio nu pela primeira vez na vida, lord Sebastian não era um mau começo. Já não era rapaz, mas ainda possuía a firmeza ágil da juventude, que não interferia nos músculos que definiam o peitoral. Vou precisar dessa cadeira, miss Kelmsleigh. Se não se importar. Ela soltou-a num salto. Ele agarrou o móvel pelo encosto, posicionou-o à frente da lareira e sentou-se. Com a água quente e sabão, começou a limpar o corte que tinha no braço. Supunha que aquilo devia doer, mas ele não mostrava reacção alguma. Talvez não estivesse tão indiferente à sua presença como parecia». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

domingo, 11 de junho de 2017

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «Quando Afonso I sofre o seu infortúnio, de Badajoz, e Sancho, na flor dos seus 14 anos, e apenas acabado de aceder à maioridade, é chamado a assumir maiores responsabilidades»

jdact

«(…) Foi este o ambiente em que se passaram os catorze primeiros anos da vida de Sancho, entre convulsões e mudanças a nível da cristandade e uma plêiade de guerras ao seu redor, guerras de conquista aos mouros, guerras contra os Leoneses, querelas eclesiásticas entre Braga e Toledo e entre Braga e Compostela, múltiplas alianças matrimoniais e acordos de paz entre os reis cristãos peninsulares, tão frequentes quanto ineficientes, ultrapassados e desrespeitados ainda mal a tinta secara no pergaminho, tudo isto junto com a sempre continuada e também sempre frustrada tentativa de fazer reconhecer o reino pela Santa Sé.
Quando Afonso I sofre o seu infortúnio, de Badajoz, e Sancho, na flor dos seus 14 anos, e apenas acabado de aceder à maioridade, é chamado a assumir maiores responsabilidades, é para este mundo que ele é chamado. É no contexto deste panorama político, instável e inseguro, que os seus instintos e a sua decerto incipiente maturidade política serão chamados a intervir, mesmo se nessa missão ele viesse a ser guiado pelos seus conselheiros e por um pai que, embora inutilizado para a guerra no rescaldo de Badajoz, continuaria muito activo e interveniente até à sua morte.

Infância e criação
Na verdade, conforme já mencionámos, Sancho I não nascera para ser rei. Sancho foi o segundo filho varão de Afonso Henriques, mas era sete anos mais novo que o primogénito. Tanto quanto podemos saber, foi o quinto filho a nascer da união legítima do primeiro rei de Portugal com Mafalda de Sabóia.
O primeiro filho, que fora logo um varão, nascera em 1147, pouco mais de um ano depois do casamento dos pais e chamou-se Henrique, de acordo com a tradição e decerto em honra do avô. Era sobre ele que, em princípio, devia ter recaído a obrigação de suceder a Afonso Henriques, ainda que nestes anos a ordem de sucessão ao trono ainda não estivesse tão interiorizada pela linha de primogenitura masculina como mais tarde viria a estar. Nos anos seguintes, a rainha Mafalda daria à luz, consecutivamente, três meninas, Urraca (que nasceu provavelmente ainda em 1148), Teresa (que parece ter nascido em 1151) e Mafalda (nascida em 1153), às quais foram dados nomes que invocavam a mãe, a avó paterna e a tia-avó leonesa das meninas.
De acordo com o testemunho dos Anais de D. Afonso Henriques, fonte de finais do século XII, Sancho I nasceu numa quinta-feira, na noite da festa de São Martinho de Tours, que cai precisamente a 11 de Novembro, e por essa razão fora baptizado como Martinho, em honra do patrono do dia em que nascera. Não é decerto por acaso que se descreve um assunto geralmente deixado no vago com tanto detalhe. Como o primogénito do rei tinha atingido o limiar dos 7 anos de idade ainda vivo e de saúde, talvez se tivesse considerado ultrapassada uma das etapas de maior perigo de morte na primeira infância e se tivesse por isso cedido a orientações de ordem devocional ou espiritual e dado a este segundo filho varão o nome de um santo. São Martinho não era um santo menor, pelo contrário, era muito importante e muito venerado, quer em Franca, onde exercera a parte mais importante do seu apostolado e onde era mesmo um dos santos patronos do reino, quer na Península Ibérica, onde o seu culto também estava muito disseminado, e onde o sincretismo com um outro São Martinho, o de Braga/Dume, contribuía, e muito, para a popularidade do culto martiniano, com especial incidência no Noroeste da Península». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

Esplendor de Honra Julie Garwood. «Que engano tão terrível tinha cometido o seu cativo ao deixar arrastar-se pela temeridade! Sim, Duncan, o poderoso barão dos feudos do Wexton, tinha entrado na fortaleza do seu inimigo»

Cortesia de wikipedia e jdact

Inglaterra. 1099
«Pretendiam matá-lo. O guerreiro estava de pé no centro do pátio deserto, com as mãos atadas à costas e sujeita por uma corda a um poste que tinha sido colocado no chão detrás das suas costas. A sua expressão achava-se desprovida de toda a emoção enquanto olhava para diante, sem fazer aparentemente caso dos seus inimigos. O cativo não tinha oferecido nenhuma classe de resistência, permitindo que os seus captores o despissem até a cintura sem nem sequer levantar um punho ou pronunciar uma palavra de protesto. A sua magnífica capa para o inverno, forrada de pele, a sua grossa cota, a sua camisa de algodão, as suas meias e as suas botas de couro tinham-lhe sido arrancadas e jogadas no chão gelado, diante dele. A intenção que guiava a seus inimigos não podia ser mais clara. O guerreiro morreria, mas sem que a sua morte chegasse a trazer consigo nenhuma nova marca para acrescentá-la ao seu corpo, já famoso pelas cicatrizes da batalha. Enquanto a sua ávida audiência olhava, o cativo podia dedicar-se a contemplar os seus objectos enquanto ia congelando pouco a pouco até morrer.
Doze homens rodeavam-no. Com as facas desembainhadas para dar-se valor, aqueles homens andavam em círculos ao redor do cativo, zombando dele e gritando insultos e obscenidades enquanto os seus pés calçados com botas chutavam o chão num esforço por manter algum calor na gélida temperatura. Mesmo assim, todos e cada um deles se mantinham a uma prudente distancia dele, se por acaso chegasse a dar o caso de que o seu no momento dócil cativo trocasse subitamente de parecer e decidisse liberar-se das suas ataduras e atacá-los. Não lhes cabia nenhuma dúvida de que era perfeitamente capaz de tal façanha, porque todos tinham escutado as histórias que se contavam da sua hercúlea fortaleza. Alguns inclusive tinham podido presenciar numa ou duas ocasiões as tremendas proezas que era capaz de levar acabo no curso da batalha. E se o cativo se libertasse das cordas que o sujeitavam ao poste, os homens ver-se-iam obrigados a utilizar as suas facas, mas não antes de que o guerreiro tivesse enviado a três, possivelmente inclusive a quatro deles, à morte, que mandava aquele grupo de doze homens não podia acreditar na sua boa fortuna. Tinham capturado o Lobo e não demorariam para presenciar a sua morte.
Que engano tão terrível tinha cometido o seu cativo ao deixar arrastar-se pela temeridade! Sim, Duncan, o poderoso barão dos feudos do Wexton, tinha entrado na fortaleza do seu inimigo cavalgando completamente só, e sem levar consigo nenhuma arma com a qual pudesse chegar a defender-se. Tinha cometido a insensatez de acreditar que Louddon, um barão que era igual a ele no título, faria honra à trégua temporária que havia entre eles. Tem que estar muito pago de sua própria reputação, pensou o homem que os mandava. Realmente deve ter-se por tão invencível como asseguravam que era aquelas histórias de grandes batalha que tanto tinham chegado a exagerar a sua figura. Sem dúvida essa era a razão de que o barão do Wexton parecesse sentir-se tão pouco preocupado pelas terríveis circunstâncias nas que se encontrava agora.
Uma vaga sensação de inquietação foi infiltrando-se pouco a pouco na mente de quem mandava naqueles homens enquanto contemplava a seu cativo. Tinham-no despojado de toda sua valia, fazendo em farrapos o emblema que proclamava o seu título e a sua dignidade, e assegurando-se de que não ficasse nem um só vestígio do nobre civilizado. O barão Louddon queria que o seu cativo morresse sem nenhuma dignidade ou honra. E entretanto, o guerreiro quase nu que tão orgulhosamente se elevava ante eles não estava respondendo no mais mínimo aos desejos do Louddon. O barão do Wexton não se estava comportando como teria podido esperar-se de um homem que vai morrer. Não, o cativo não suplicava pela sua vida ou choramingava pedindo um rápido final. Tampouco tinha o aspecto de um agonizante. Não lhe tinha colocado a carne de galinha e a sua pele não tinha empalidecido, mas sim seguia estando bronzeada pelo sol e curtida pela exposição à intempérie. Maldição, mas se nem sequer tremia! Sim, eles tinham despido o nobre, e entretanto debaixo de todas as capas de refinamento seguia achando-se presente o orgulhoso senhor da guerra, mostrando-se tão primitivo e carente de medo como arejavam todas aquelas histórias que corriam a respeito dele». In Julie Garwood, 1987, Esplendor de Honra, Editora Universo dos Livros, 2017, ISBN978-855-030-137-2.

Cortesia de EUdosLivros/JDACT

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Breve História de Quase Tudo. Bill Bryson. «Em três minutos, 98% de toda a matéria existente ou que virá a existir foi produzida. Temos um universo»

Cortesia de wikipedia e jdact

Como construir um universo
«Por mais que se esforce, jamais conseguirá captar o quão minúsculo, quão espacialmente modesto é um prótão. Um prótão é uma parte infinitesimal de um átomo, que por sua vez é uma coisa insubstancial. Os prótões são tão pequenos que um tiquinho de tinta, como o pingo neste i, pode conter algo em torno de 500 bilhões deles, mais do que o número de segundos contidos em meio bilhão de anos. Portanto, os prótões são exageradamente microscópicos, para dizer o mínimo. Agora imagine que você possa (claro que isto é pura imaginação) encolher um desses protões até um bilionésimo do seu tamanho normal, num espaço tão pequeno que, em comparação, um prótão pareceria enorme. Agora compacte nesse espaço minúsculo uns trinta gramas de matéria. Óptimo. Está pronto para iniciar um universo. Estou pressupondo eu e vós que deseja um universo inflacionário. Se preferir construir um universo mais convencional, do tipo big-bang comum, precisará de materiais adicionais. Na verdade terá que reunir tudo o que existe, cada partícula de matéria daqui até ao limite do universo, e comprimir num ponto tão infinitesimalmente compacto que não terá nenhuma dimensão. Trata-se de uma singularidade.
Em ambos os casos, prepara-se para um verdadeiro big-bang. Naturalmente, vai querer retirar-se para um local seguro a fim de contemplar o espectáculo. Infelizmente, não há local para onde se retirar, porque fora da singularidade não existe local. Quando o universo começar a expandir-se, não estará espalhando-se para preencher um vazio maior. O único espaço que existe é o espaço que ele cria ao expandir-se. É natural, mas errado, visualizar a singularidade como uma espécie de ponto grávido solto num vácuo escuro e ilimitado. Não há espaço, nem escuridão. A singularidade não tem nada ao seu redor. Não há espaço para ela ocupar, nem lugar para ela estar. Nem sequer podemos perguntar há quanto tempo ela está ali, se acabou de surgir, como uma boa ideia, ou se estava ali eternamente, aguardando com calma o momento certo. O tempo não existe. Não há passado do qual ela possa emergir. E assim, do nada, o nosso universo começa.
Numa única pulsação ofuscante, um momento de glória por demais rápido e expansivo para ser descrito em palavras, a singularidade assume dimensões celestiais, um espaço inconcebível. No primeiro segundo dinâmico (um segundo ao qual muitos cosmologistas dedicarão as suas carreiras tentando descrevê-los em detalhes crescentes) são produzidas a gravidade e outras forças que governam a física. Em menos de um minuto, o universo possui 1,6 milhão de bilhões de quilómetros de diâmetro e cresce a grande velocidade. Existe muito calor agora, 10 bilhões de graus, o suficiente para iniciar as reacções nucleares que criam os elementos mais leves, principalmente hidrogénio de hélio, com uma pitada (cerca de um átomo em 100 milhões) de lítio.
Em três minutos, 98% de toda a matéria existente ou que virá a existir foi produzida. Temos um universo. É um lugar da mais espantosa e gratificante possibilidade, e bonito também. E foi tudo produzido mais ou menos no tempo que se leva para preparar uma sandes. Quando ocorreu esse momento é objecto de discussão. Os cosmologistas há bastante tempo vêm discutindo se o momento da criação foi há 10 bilhões de anos, duas vezes essa cifra, ou um valor intermediário. O consenso parece estar-se formando em torno de uns 13,7 bilhões de anos, mas essas coisas são notoriamente difíceis de medir. Tudo o que se pode realmente dizer é que, em certo ponto indeterminado num passado bem remoto, por razões desconhecidas, surgiu o momento conhecido na ciência como t = 0.4 Estávamos a caminho. Claro que existe muita coisa que não sabemos, e muito do que julgamos saber são descobertas recentes, inclusive a noção do big-bang. A ideia vinha pipocando desde a década de 1920, quando foi originalmente proposta por Georges Lemître, um sacerdote e sábio belga, mas só se tornou uma noção activa na cosmologia em meados da década de 1960, quando dois jovens radio-astrónomos fizeram uma descoberta extraordinária e involuntária. Seus nomes eram Arno Penzias e Robert Wilson. Em 1965, eles estavam tentando usar uma grande antena de comunicações de propriedade da Bell Laboratories, em Holmdel, Nova Jersey, mas foram incomodados por um ruído de fundo persistente, um zumbido constante e agitado que impossibilitava qualquer trabalho experimental. O ruído era incessante e disperso. Vinha de todos os pontos do céu, dia e noite, em todas as estações do ano. Durante um ano, os jovens astrónomos fizeram tudo que lhes ocorreu para localizar e eliminá-lo. Testaram todos os sistemas eléctricos.
Remontaram instrumentos, verificaram circuitos, sacudiram fios, removeram a poeira de plugues. Subiram até à antena e colocaram fita adesiva em cada junção e rebite. Voltaram a subir à antena, com vassouras e escovilhões, e removeram cuidadosamente o que descreveram num artigo posterior como material dieléctrico branco, ou o que se conhece mais comumente como cocó de pássaro. Nada funcionou. Sem que eles soubessem, a menos de cinquenta quilómetros de distância, na Universidade de Princenton, uma equipa de cientistas, liderada por Robert Dicke, vinha tentando descobrir exactamente aquilo que eles, com diligência procuravam livrar-se. Os cientistas de Princenton perseguiam uma ideia que havia sido sugerida, na década de 1940, pelo astrofísico nascido na Rússia, George Gamow. Segundo Gamow, se alguém perscrutasse o espaço a uma profundidade suficiente, encontraria alguma radiação cósmica de fundo remanescente do big-bang. Gamow calculou que, depois de atravessar a vastidão do cosmo, a radiação alcançaria a Terra em forma de microondas. Num artigo mais recente, ele chegou a sugerir um instrumento capaz de detectá-las: a antena de Bell em Holmdel. Infelizmente, nem Penzias, nem Wilson, nem ninguém da equipa de Princenton havia lido o artigo de Gamow». In Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo, 2003, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-920-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

O Cerco de Campo Maior em 1801. António Ventura. «Cumpria também acautelar outro inconveniente da mesma natureza, ainda que menos prejudicial, existente no fosso da tenalha, que formam os baluartes do Cavaleiro e Santa Cruz»

jdact

Memória sobre a praça de Campo Maior com o jornal do sítio que principiou em 20de Maio de 1801 e terminou em 6 de Junho do mesmo ano (escrita por um oficial da guarnição)
«(…) Da mesma sorte se havia adoptado, sobre uma das cortinas fronteiras à porta de Santa Maria, o Forte denominado do Cachimbo, de que já se não descobriam alguns vestígios, existiam tão-somente duas pequenas lunetas, a primeira na estrada coberta em frente ao baluarte do curral dos Coelhos, que ainda conservava a denominação de Forte de Schomberg, destinada a defender a encosta de um monte, em cuja raiz se via situada uma pequena quinta, e a segunda no fosso do revelim da sobredita porta, a que davam o nome de Barrete de Mr. Parquer, a qual servia de cobrir aquela entrada, porém ao mesmo tempo mascarava o fogo do flanco que deveria lavar a face do dito revelim. Seria prolixa a numeração de outras muitas desvantagens que por toda a parte se descobriam assim no exterior como no recinto magistral desta Fortificação; pode dizer-se com imparcialidade, que os defeitos da sua primeira edificação, e os de algumas obras que depois se lhe adicionaram pareciam projectos daqueles mesmos que pelo tempo adiante a poderiam vir sitiar.
Tal era o estado de uma Praça que, pela sua posição relativa, deveria ter merecido mais algum cuidado no seu entretenimento; pois quando pela natureza do seu local, se não julgasse digna de uma completa instauração ainda os socorros da Arte lhe poderiam remediar muitos inconvenientes e aumentar consideravelmente a sua resistência: este foi o objecto que se pretendeu desempenhar na sua reparação. Como a urgência das nossas circunstâncias não permitia grandes meios para este fim era bastante difícil, entre tantas correcções que se propunham fazer, determinar o começo daqueles trabalhos: contudo alguns objectos que diziam respeito à saúde da guarnição não deixavam duvidosa a sua preferência, portanto se principiou por evacuar um grande charco, que existia no fosso da cortina entre os baluartes de S. Francisco e Santa Rosa, procedido da destruição de um cano antigo, por onde escorriam para a campanha as águas inúteis do interior da Vila, e se construiu oportunamente um novo aqueduto, a fim de evitar para o futuro a renovação deste depósito de vapores pútridos.
Cumpria também acautelar outro inconveniente da mesma natureza, ainda que menos prejudicial, existente no fosso da tenalha, que formam os baluartes do Cavaleiro e Santa Cruz (estes traveses quando principiaram as obras foram provisionalmente construídos de terra, e faxinas; depois se lhe fez um revestimento de alvenaria, para assegurar a sua duração; o qual na ocasião do sítio, deveria ser novamente revestido das mesmas faxinas, para amortecer a reflexão das balas, e não produzir estilhaços; porém o tempo, e os meios não deixaram praticar esta cautela: os estragos que sofreram, assaz comprovam a sua necessidade, pois visivelmente se conheceu que eles tinham evitado maiores danos em todas as obras em que foram colocados). Tal era o denominado lago, tão celebrado sem motivo pelos habitantes do lugar que de Inverno recebia as águas de dois pequenos ribeiros, cujas sobras trasbordavam por cima de um dique, que atravessava o fosso na direcção da Capital do segundo baluarte; e no Verão amortecendo a corrente, e diminuindo consideravelmente a sua profundidade, restava por muito tempo em perfeita estagnação. Esta porção de fosso aquático, havendo tão-somente alguma vantagem defronte de uma das faces do referido baluarte, conservava entre todos os defeitos que lhe são inerentes, o de ser bastante nocivo aos moradores daquele distrito: a sua evacuação extinguiu a causa deste prejuízo, como ainda hoje o pode atestar o Médico daquela Vila. Entretanto se cuidou em dar as convenientes dimensões ao parapeito das cortinas, pondo a coberto esta necessária comunicação dos baluartes; rebaixou-se o terrapleno em muitas tenalhas, alteou-se em outras, revestiram-se de alvenaria as golas dos baluartes de Santa Cruz, Cavaleiro, e Fonte do Conselho, e as cortinas do Príncipe, S. Sebastião, e porta de Santa Maria; foram completamente instaurados os baluartes da Boa Vista (este baluarte se chamou primitivamente de S. João Baptista; os moradores da Vila lhe davam o nome de baluarte do Cavaleiro ainda que dentro dele se não descobria algum vestígio de uma semelhante obra, porém julgamos, que por estar mais elevado, ou a cavaleiro da Cortina imediata, se lhe deu esta denominação; a qual presentemente lhe compete, pela obra incompleta levantada no seu interior), e Curral dos Coelhos, cujo âmbito se tornou muito mais amplo e menos condenado, formaram-se assim no interior de alguns baluartes como no reparo das cortinas traveses permanentes, (para evitar o inconveniente dos revestimentos de alvenaria nas arestas dos parapeitos, que sendo batidos pela artilharia inimiga produzem prejuízo dos estilhaços; se terminou por toda a parte a sua altura por uma grossa fiada de formigão. Esta matéria muito própria para se adoptar nas obras de fortificações, porque nela não entra a pedra, se forma pela combinação da cal e saibro, ou areia, na razão de um para três, cujos géneros depois de misturados e humedecidos, se batem a maço entre taipais, colocados no lugar em que se pretende levantar o muro: de que resulta um massame tão compacto, que depois de enxuto custa muito a destruir a bico de picareta), para desenfiar estas obras, e se construiu com o mesmo fim um cavaleiro no baluarte desta denominação; cujo revestimento ficou levantado até ao seu cordão e enquanto não ministrava uma segunda ordem de fogo se podia reputar por uma antecipada cortadura: foi necessário elevar por toda a parte o antigo parapeito da linha magistral adicionando-lhe as correspondentes banquetas, e rectificar os muros que interior e exteriormente o revestiam: sem a presença destes trabalhos, não pode fazer-se ideia da grande massa de terra removida, a fim de preencher os novos merloens, banquetas e traveses e tornar cheios os baluartes vazios, quais eram o da Fonte do Conselho e Santa Cruz». In António Ventura, O Cerco de Campo Maior em 1801, Edições Colibri, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, 2001, ISBN 972-772-270-9.

Cortesia de EColibri/JDACT