segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Há nas nossas vidas momentos aparentemente banais que determinam um destino ou parte dele. Foi num momento assim que conheci mestre João Paz»

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A morte de Lancelot
«(…) Em Toro ficara a cuidar da rainha dona Joana que depositara nele a sua defesa se a guerra se perdesse para Portugal. Tinha um incomensurável poder, a sua Casa aqui, em Castela, em Navarra e Aragão. Afonso compensou o filho com rendas, doações de terras, fortalezas, como Penamacor e o seu castelo, a alfândega de Setúbal, Mourão, Portalegre e Alegrete. Depois, a dízima das rendas de além-mar e o tributo dos mouros do Algarve e Marrocos. O pai, extasiado, perante a boa vontade do filho que lhe entregara nas mãos, de novo, o seu Reino bem-amado! Foi no ano em que morreu o Rei de Aragão e o marido de Isabel de Castela herdou o trono de seu pacífico pai, que foi o grande protector dos Judeus no seu tempo, e ainda os direitos sobre a Sardenha e as pretensões dinásticas sobre Nápoles e a Sicília. E João pensava: é preciso agir. E assim fez porque o Rei, de repente, após ter recebido uma embaixada de Castela, de fidalgos opositores a Isabel, começara novamente, cheio de sonhos miríficos, a pensar, como se nada anteriormente se tivesse passado nova aventura bélica para apoiar as frágeis pretensões da sobrinha Joana, que passara a ser conhecida como Excelente Senhora, no Reino de Portugal. Mas João estava alerta e Afonso, que se refugiava cada vez mais no seu retiro do Varatojo, não conseguiu o apoio do filho. Foi mais uma chaga que teve de sarar à sua custa, se é que a sarou ou ela seria para sarar, pois perdera toda a força perante a inteligente e arguta serenidade daquele jovem que o olhava com ternura, mas passara a manobra-lo à sua vontade.

Há nas nossas vidas momentos aparentemente banais que determinam um destino ou parte dele. Foi num momento assim que conheci mestre João Paz. Foi bom porque me tornei seu secretário, o cirurgião a seu serviço, com o apoio da família, pois descobrimos, o nosso parentesco. Ele baptizou-se com a mulher e o irmão, Ambrosius de nome como eu, que passara a residir no Porto. Tinha filhos que mais tarde mestre João adoptou. João Paz recebeu o apelido que o Príncipe lhe conferiu dada a sua devoção a Nossa Senhora da Paz. A mulher também aceitou o baptismo e recebeu o nome da mãe do Príncipe, Isabel. Foi por essa altura que Afonso o deu como médico ao filho e à nora, e foi por esse tempo também que a princesa dona Leonor o indicou para físico do seu jovem irmão Diogo. Sabia que João Paz nunca vivera na judiaria e, como homem conceituado e protegido da casa Real, teve sempre direito a habitação própria na cidade, perto da de Abravanel, morando parte do tempo com os Príncipes que servia, e na casa dos Bragança. Chegou a deslocar-se a Beja, onde cuidava de dona Beatriz e dos filhos, e a Vila Viçosa. As suas relações com a casa de Bragança nunca esmoreceram. Foi já pouco antes de Setembro de 1478, recordo-me perfeitamente, que, numa tarde muito quente, no intervalo de meus afazeres, na cera do tio Gil, conheci também outro dos mais puros homens que o destino fez cruzar com o meu e do qual me separei com desgosto, verdadeira consternação.
Trabalhava com afinco no meu livro. A cópia que meu tio Gil encontrara era um pedaço de um trecho de Plutarco sobre Alexandre. Um monge tinha raspado o pergaminho na oficina de um qualquer mosteiro e outro escrevera, por cima, a história dos mártires de Lyon. Mestre Tadeu retirou o que pôde da pele e começou a limpá-la com o auxílio de um líquido que ele guardava numa ampola de vidro azulado. Agora copia-se o que puderes e depressa, cabritinho! Porquê? Extasiado olhava-o a trabalhar. Terei de pedir a alguém. Não sei Grego. Não faz mal. Eu sei. De resto este texto parece uma cópia grega com poucos séculos. Como conseguiu? Com um ácido que eu retirei de uma espécie de noz. Mas não podes demorar muito tempo pois isto vai ficar tudo negro. De repente, ante meu olhar deslumbrado, começava a aparecer a cor avermelhada dos caracteres antigos. É um milagre, proferi, em êxtase. Não, Ambrosius, o seu rosto, muito sério, voltou-se para mim. Não é um milagre. É muito simples. Desde a antiguidade romana e grega que isto se faz. Só parece milagre o que o nosso espírito não pode ainda explicar. Mas isso é uma heresia! E é. É heresia para os néscios, os mal-intencionados, os fanáticos. A verdade é sempre simples e o tempo irá conceder-te também, se o quiseres, claro, esse dom da sabedoria. A simplicidade das grandes verdades, das grandes descobertas». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 16 de fevereiro de 2020

A Maldição de Afonso II. Maria Antonieta Costa. «A um sinal, uma serviçal meteu sob o banco outra caldeira. A parteira comprimiu o ventre de dona Dulce de modo a retirar a bolsa»

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«(…) A parteira havia mergulhado o futuro rei de Portugal na água tépida de uma caldeira de cobre temperada com vinho, sal e mel, esfregando-o e purgando-lhe o estômago, as orelhas e as narinas. Depois de o enxugar no colo, foi depositá-lo no tampo plano de uma mesa. Primeiro, envolveu-lhe as partes genitais com um cueiro. Em seguida, colocou-o sobre um quadrado de linho posto na diagonal e dobrou os cantos sobre o frágil corpinho, comprimindo-lhe a tripa e metendo nas dobras um amuleto de jade. Coberto dos ombros aos pés, foi cingido com as ataduras do pano, enroladas num aperto consistente à sua volta. Bem enfaixado, depositou-o no berço. A criança ainda não parara de chorar, o que era um bom presságio. A parteira voltou-se então para a rainha: agora vós, senhora.
A um sinal, uma serviçal meteu sob o banco outra caldeira. A parteira comprimiu o ventre de dona Dulce de modo a retirar a bolsa. Dirigiu-se à lareira, onde ardia um fogo que, naquele cinzento 23 de Abril, aquecia a alcova, atirando para lá, miudezas, enquanto proferia palavras mágicas. O cheiro de carne assada inundou a atmosfera. Não se podia correr o risco de aquelas partes internas serem comidas por algum animal faminto ou irem parar às mãos de um qualquer ministro do Mal. Condessa, podeis mostrar o infante ao pai, condescendeu a parteira. Dona Toda curvou-se sobre o berço e retirou o recém-nascido. Depois, rodeada de outras damas presentes no acto, assomou à entrada da câmara com o novo príncipe nos braços. Quando a porta se abriu, Sancho I, conselheiros e demais cortesãos acercaram-se dela, curiosos, emitindo exclamações de alegria. Havia olhares satisfeitos e outros circunspectos, de quem temia um varão ou de quem temia outra filha. O do rei estava entre estes últimos. Mas logo a expressão da sua face resplandeceu de felicidade quando ouviu da boca da condessa: Senhor! Eis o vosso primeiro filho homem!
Godinho, o arcebispo bracarense, que a braços com o interminável conflito sobre a legitimidade de poderes eclesiásticos entre Braga e Compostela, procurava apoio régio e viera à corte para relembrar ao monarca que o seu pai, o fundador Afonso Henriques, se tornara independente com o inestimável beneplácito do poder da sua diocese, levantou-se, preparando-se para benzer o novo infante. Por entre vivas e cumprimentos, o soberano pegou na criança, elevou-a um pouco e proferiu, à laia de apresentação: sou um bem-aventurado! Finalmente, um herdeiro para o reino. E será um digno sucessor de seu pai e de seu avô, já que veio ao mundo no dia de São Jorge, o heróico vencedor do dragão, o protector dos cavaleiros no campo de batalha. Nasceu no dia do padroeiro da guerra. Melhor augúrio não poderia haver, exaltou o prelado de Braga. O rei era, verdadeiramente, o espelho da felicidade. A sua união com Dulce, princesa de Aragão, que já durava há cerca de uma dúzia de anos, frutificara em três infantas, levando as bocas da maledicência a conspirar contra a capacidade reprodutora da rainha, tanto mais que a última filha, nascida cerca de quatro anos atrás, não fora suficientemente robusta para superar uma infecção que a matara. Agora, poderia respirar de alívio, pois o nascimento de uma criança saudável do sexo masculino era o garante da continuidade do poder dinástico.
Enquanto a real esposa, enfraquecida, descansava, o rei afastou-se para os seus aposentos levando o fiel chanceler da Cúria Régia. Preocupava-se já com a educação do herdeiro. A tradição aconselhava que os varões nascidos no seio da alta nobreza e da família real fossem criados e nutridos na casa de um vassalo capaz de o formar para a guerra e para a liderança. Esse era também um processo que permitia estabelecer alianças fiéis e duradouras entre as famílias mais poderosas, fortalecendo a sua influência ao disponibilizarem esse apoio à monarquia, que assim as recompensava e as tornava leais. Dizei-me, Julião Pais..., qual dos meus vassalos vos parece ter qualidades para criar o meu sucessor? Um esgar de reflexão surgiu no rosto de Julião Pais. Se me permitis, senhor, creio que talvez não se trate de aptidão, mas de estratégia. Em que pensais? Penso que não se oferece a criação do herdeiro do trono sem contrapartidas. Há que escolher de entre as principais casas senhoriais aquela que vos pode vir a ser mais útil, a que fortalecerá o vosso poder. Poderíamos pensar em Soeiro Viegas, dos de Riba Douro, que descendem de Egas Moniz, aio que foi de vosso pai. Aquele Soeiro que na luta contra os mouros minou por baixo do chão como um coelho?, zombou Sancho, como se o atributo de abrir passagens subterrâneas não fosse suficiente para o recomendar. Olhai que não há animal que tão bem se esconda como o coelho!, ripostou o nobre. Mas se não vos agrada..., podeis pensar nos de Soverosa». In Maria Antonieta Costa, A Maldição de Afonso II, 2019, Clube do Autor, 2019, ISBN 978-989-724-483-4.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Pelo início do ano seguinte o duque de Bragança, o filho do rancoroso e velho Barcelos, adoeceu gravemente. Não era antipático. Até boa pessoa, pois não herdara o feitio cruel e conflituoso do pai…»

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A morte de Lancelot
«(…) Todas as qualidades que não servem em política. Acusaram-no, os Braganças, de desejar a morte do pai, até de o ter envenenado, como em Castela anunciou bem alto, depois do drama de Évora, o Montemor. Não creio. Que ele amava o pai é indiscutível. Eu sei. Todos o sabem e Antão Faria, Pina, Resende, a irmã, a tia Filipa que ele visitava amiúde para ouvir falar da mãe e do avô, confirmaram-no sempre. Mas queria o poder. É justo. É normal. Desejava ardentemente testar as suas capacidades e reformar as estruturas judicial, administrativa, económica, política do seu país. Com o pai vivo, isso seria impossível. A extensão do império colonial exigia uma gigantesca tarefa, uma nova concepção do poder real, a centralização das forças vivas da nação nas mãos do Monarca. Com Afonso isso seria completamente inviável, fora de questão. Nem mesmo reria compreendido. A força colocada nas mãos do Rei torná-lo-ia forte para a defesa da nação e das classes populares. João compreendeu cedo que por inimigos, como o avô, tinha apenas a alta nobreza, o que sucedia, aliás, em todo o lado e a França, com a labiríntica acção política daquele Rei Luís, que comera as papas na cabeça do seu pai, era bem um exemplo típico... Com João passou-se o que acontece no choque inevitável entre os filhos e os pais, por muito que estes sejam amados. Geralmente na doença, numa prolongada doença. Por mais amor que exista, a velhice é cansativa e cruel e, por muito que os filhos amem os progenitores, um dia, embora receiem esse terrível momento, também anseiam por ficar livres. A liberdade ganha-se sempre à custa de qualquer coisa. João sabia-o, como compreendia que a fraqueza do pai era a grande doença mortal daquele homem de quarenta e cinco anos, prematuramente envelhecido. Castela e Aragão continuavam a fazer escoar o que restava do erário público numa guerra sem fim. As Coroas de Portugal e Castela seriam unidas sob a égide de Portugal, mas isso levaria tempo e, no meio da questão, além disso tudo, estava aquele pai Rei, inconsciente de seus deveres, cavaleiro de eras devolutas, num mundo em mudança, inexorável e cruel. Ora a missão do Rei é divina e consiste na defesa intransigente do seu povo, da pátria, da nação. Não iria afastar-se nunca dessa missão. Sei tudo o que ele pensou. Só lamento que nesse jogo terrível estivesse, a partir de determinada altura, comprometida a minha alma pelo amor e o desespero.
Logo em Janeiro de 1471, nas Cortes de Montemor, o Príncipe explanara a necessidade da geral reformação do Estado. A carta do pai punha-o num dilema. Enviou o seu querido Antão Faria a França, em sigilo. A decepção do Rei e os seus desgostos convenceram o fiel camareiro do Príncipe... O duque de Bragança opunha-se à abdicação e, com ele, toda a nobreza, mas o Rei decidira e tinha-se de lhe obedecer, pois assim era a realidade de momento.
João é aclamado em Santarém, no Paço de São Francisco, em Novembro. O Rei não voltaria. A nobreza amava Afonso e o povo também, por motivos diferentes, mas o Rei era generoso e a todos custava o desfecho. Â 14 de Novembro Afonso escreve ao filho de França. Volto para Portugal, regresso ao Reino. Mais uma vez a nobreza, em terra estrangeira, aconselhara-o ao volta-face. O filho, como sempre, nada disse. Não acredito que se tenha aconselhado com ninguém. O que correu por aí (lá no Reino) foi que ele perguntara ao Bragança como o deveria receber, ao pai, e ele lhe respondera rispidamente: como quereis que o seja? Como pai e como Rei! João não perguntou, até porque não valia a pena. Conhecia as respostas e sabia melhor que ninguém que não poderia jamais impor o seu programa político com o pai vivo a custodiar a nobreza. Afonso abraçou-o comovido, à chegada, em Oeiras, e ficou encantado quando o filho, ajoelhado, recusou a coroa e até a divisão, pois Afonso propôs ficar Rei dos Algarves apenas. Tudo voltava à mesma com a diferença de que era necessário fazer a paz com Castela.
Pelo início do ano seguinte o duque de Bragança, o filho do rancoroso e velho Barcelos, adoeceu gravemente. Não era antipático. Até boa pessoa, pois não herdara o feitio cruel e conflituoso do pai, mas adoeceu e perderam-se as esperanças de o salvar. Sangraram-no até ficar exangue, discutiram, fizeram-no emborcar mezinhas... Nada feito. Sobreveio-lhe uma apoplexia que o deixara desfeito mentalmente. As sangrias já de nada lhe valiam. Tinha setenta e cinco anos de idade e por lá se finou, em Vila Viçosa, no primeiro dia de Abril. Foi pintado também, então homem mais novo, dos seus sessenta anos, nuns painéis que estavam na Catedral ou no Convento de S. Vicente, já não recordo bem, que estiveram alguns meses a ser pintados no armazém do município por ordem de El Rei Afonso e onde quis que ficassem gravados seus familiares e figuras gradas do Reino. Recordo-me do velho Duque. Com o seu rosto queimado pelo sol do Alentejo, o bigodão ainda preto e um certo ar de bonomia, apesar do olhar pesado e escuro. O filho, cunhado do Príncipe, tinha então quarenta e oito anos. Estivera com Afonso em todos os grandes momentos do Reino». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT

sábado, 15 de fevereiro de 2020

A Casa do Pó. Fernando Campos. «Joãozinho, cara de anjo, caixinha dos meus anéis, se tu queres casar comigo vamos tratar dos papéis. Ambos rimos»

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A Letra Pitagórica
«(…) Estás a mangar comigo. Mãos assim não são de um filho das ortigas. És para ai filho de algo. Os senhores nobres fazem filhos a torto é a direito e depois mandam-nos para os conventos para serem bispos. No meu íntimo pensava eu se ela não teria uma boa dose de razão... Outras vezes encontrava-me a ler algum livro. Sentava-se muito de manso na beira da cama, em silêncio, as mãos ocupadas numa camisola de lã, cujas medidas tirara no meu corpo. Que estava a ler? Eu explicava-lhe com muito pormenor. Margarida suspirava: não era chinela para o meu pé!... A noite, antes de se recolherem, as duas mulheres vinham fazer-me um pouco de companhia, à luz da candeia de azeite, enquanto eu tomava uma canja de galinha cheia de olhos de gordura e os ovinhos amarelos a boiarem, rescendente. Boa canja, sim senhora! É para se comer toda. Está quente! É ir soprando e comendo devagar...
E a canja vai desaparecendo, com elas regaladas a contemplarem-me, como se eu fosse um santo no altar. Menino bonito!, diz Elsa tirando-me a tigela da mão. A mãe de Margarida é uma bela mulher dos seus trinta e cinco anos. Quando se inclina sobre mim para me aconchegar a roupa, sinto-lhe os seios a roçarem-me e o perfume forte que dela emana. Todo o meu corpo desperta. Ponho-lhe a mão na cintura e ela, com o rosto quase chegado ao meu, olha-me fundo nos olhos, sorri com doçura e diz, dando-me um beijo na testa: dormi sossegado, para amanhã estardes bom. Mas eu sentia que também a sua carne tinha frémitos. Nessa noite custava-me a adormecer, a tratos com os meus sentimentos contraditórios, desavindo comigo próprio, acusando-me a consciência de não estar a proceder bem, quando senti que alguém entrava de mansinho no quarto, levantava os cobertores e o lençol e metia-se na cama junto a mim. Chiu! Não façais barulho! Era Elsa. Margarida tratava-me por tu. Senti-lhe o corpo nu, fremente, ansioso. Não me fiz rogado. De manhã acordei tarde, com Margarida a insistir que eram mais que horas do julepo que o físico receitara e do leite quente com sopas de pão. Seu preguiçoso! Isto são horas de acordar? Enquanto eu faço as honras às sopas, que não ao julepo, vou dizendo à moça que me sinto com forças para me levantar e ir apanhar um pouco de sol, depois de tomar um banho, se ela quiser ter a canseira de me arranjar água quente. Põe-se logo ao trabalho e eu, embrulhado num cobertor, vou até à cozinha vê-la proceder. Já estás bom, vejo.
Sinto as pernas ainda um pouco fracas, digo-lhe eu, pensando com os meus botões que essa fraqueza tem uma causa bem próxima e não provém apenas da longa doença..., e sentando-me num mocho. Enquanto na lareira a água aquece nos panelões negros colocados nas tripeças, Margarida põe-se a cantar: Joãozinho, cara de anjo serpão da minha varanda, caixinha dos meus segredos, onde o meu sentido anda.
Joãozinho, cara de anjo, caixinha dos meus anéis, se tu queres casar comigo vamos tratar dos papéis.
Ambos rimos. Ponho-me também a cantar No meio daqueles matos... Conheces esta moda? Ela conhece a modinha e secunda-me: no meio daqueles matos andam dois coelhos bravos. é tempo de se unirem aqueles dois namorados. Ai amor, ai amor, ai amor! Ai amor do me’coração quí tollis, qui tollis, qui tollis agnus Dei miserere nobis Miserere nobis! A cantiga termina numa grande risota e ela sentada nos meus joelhos, abraçada a mim, aos beijos. Foi, a principio, uma posse rápida, frenética, mútua, e em seguida, por largo tempo, serenamente saboreada e consolada. Comemos depois um almoço reforçado, acompanhado de um bom vinho que ela foi desencantar a um esconso. A tarde, quando a mãe chegou, arrumava ela a cozinha enquanto eu refazia as forças numa longa e bendita sesta. Nos dias que se seguiram eu convalescia a olhos vistos, amava a filha de dia e a mãe de noite, comia com apetite e o bom vinho restaurava-me as energias, aquecia-me o sangue e restituía-me a costumada boa disposição». In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

Bonus Rex ou Rex Inutilis. José Varandas. «E, sob o ponto de vista militar, é António Brandão que, pela primeira vez na historiografia portuguesa, introduz a problemática da conquista de Elvas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sancho II de Portugal. Um Conspecto Historiográfico

Com a devida vénia ao Doutor José Varandas

Fr. António Brandão (1632). Quarta parte da Monarchia Lusitana que conthem a Historia do reyno de Portugal, desde o tempo delRey D. Sancho I, até o reynado delRey D. Affonso III. Lisboa, ed. por Pedro Crasbeek, 1632
«(…) O cognome do rei parece ser outra preocupação de fr. António Brandão, que defendia a utilização daquela peça de vestuário por parte do rei como uma espécie de pagamento de promessa por causa de enfermidades que teria tido enquanto criança. Corroborava esta afirmação com a idade adulta do rei, os 20 anos, altura em que o monarca poderia vestir o hábito dos monges de S. Francisco, já que na sua infância esta ordem menorita ainda não se tinha implantado na terra portuguesa.
A concórdia com Estêvão Soares Silva e com as suas três tias são também futuros clássicos tratados pela pena do cisterciense. As causas e as disposições de ambas as concordatas, bem como a sua existência, não são postas em causa por Brandão, embora desconfie que os textos chegados até ele, e que perduraram, muito dificilmente corresponderiam, cláusula por cláusula, ao espírito dos dois textos assinados naquele ano de 1223. Outra dimensão aberta pela obra de António Brandão sobre as incertezas em torno de Sancho II é a da participação do monarca nas empresas militares contra o Islão. Alicerçado por bulas de cruzada e de incentivo despachadas pelos papas para terra portuguesa e destinadas a dinamizar no rei o espírito da investida contra as tropas de Mafoma, além de citar outros autores que reafirmam essas existências, Brandão valoriza a participação do rei português que, segundo ele, estaria já em 1225 em plena campanha contra aquelas forças inimigas. A crítica a Brandão não aceita alguma documentação por aquele citada, como verdadeira. Muitos consideram que documentos referidos como existentes na Torre do Tombo, mas nunca lidos pelo cisterciense, seriam de reinados anteriores e teriam sido confundidos com apelos à guerra e com descrições sobre a participação de outros reis portugueses na guerra contra os Sarracenos, como Afonso Henriques ou Sancho I.
E, sob o ponto de vista militar, é António Brandão que, pela primeira vez na historiografia portuguesa, introduz a problemática da conquista de Elvas, directamente pelo rei de Portugal e da conquista de outras praças-fortes bem no interior do limes islâmico do Gharb. Achava Brandão que a conquista se reportava ao ano de 1226, embora mais tarde as fontes viessem a confirmar antes a data de 1230, quase na mesma altura em que a fortaleza de Mérida cai nas mãos dos cristãos. Foi, Alexandre Herculano, quem mais tarde deu algum sentido à disparidade de informação entre as crónicas portuguesas e as estrangeiras acerca das datas em que Elvas caiu nas mãos dos guerreiros portugueses. A cidade teria sido tomada em 1226 numa primeira investida mas o contingente que a conquistou não a conseguiu manter, ou então, optou por destruir os seus muros e infraestruturas mais importantes e depois abandonou-a. A ameaça cristã de novo assalto fez com que os seus habitantes e respectiva guarnição fossem forçados a abandoná-la definitivamente. É desta forma que as forças de Sancho II ocupam esta praça em 1230.
Inevitável, incontornável, e sem qualquer espécie de dúvida, encarado como um problema importante está o polémico casamento de Sancho II com dona Mécia Lopes Haro. Citando A. Magalhães Basto no comentário crítico que faz àquele episódio, os principais argumentos de Brandão resumir-se-iam da seguinte forma:

1- Conhecendo ele, Brandão, escrituras de doação de quasi todos os anos do reinado de Sancho, em nenhuma aparece nomeada dona Mécia, ou qualquer outra, como mulher do rei; mas a este respeito adverte; poderá haver alguma (escritura) que eu não visse em que se lhe dê este título, mas é dificultoso, porque vi muitas.
2- As bulas que há para el-rei não tocam cousa alguma em seu casamento.
3- Não fala do casamento o arcebispo Rodrigo Ximenes, tendo, aliás, acabado a sua História em 1243.
4- Nem tampouco de tal casamento faz cargo a Sancho II o papa Inocêncio IV na bula de deposição, de 24 de Julho de 1245, na qual, no entanto, este pontífice aponta todos os defeitos e acções indecentes do rei.
5- Não prova o casamento a escritura publicada por Gudiel, celebrada em Castela, no ano de 1257, e na qual dona Mécia se nomeia rainha, porque uma cousa é ter-se ela por rainha, e nomear-se por tal (…) outra é sê-lo de feito.

Neste contexto, de que não teria havido casamento, Brandão coloca a hipótese de dona Mécia ter sido chamada a Portugal com esse engodo, ou eventual vontade do rei. Não sendo esposa de Sancho II a tradição do seu rapto e prisão no castelo de Ourém não colocava grandes problemas a fr. António Brandão. Não estando casada o ser arrancada à força ao rei de Portugal não parecia tão dramático, como se o fosse». In José Varandas, Bonus Rex ou Rex Inutilis, As Periferias e o Centro. Redes de poder no reinado de Sancho II (1223-1248),Ude Lisboa, FdeLetras, DdeHistória, Tese de Doutoramento em História, História Medieval, 2003, Wikipedia.

Cortesia de Ude Lisboa/ FdeLetras/ DdeHistória/JDACT

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Frida. Biografia. Hayden Herrera. «Fui amamentada por uma ama indígena, cujos peitos eram lavados todas as vezes que me dava de mamar, contou, orgulhosa, a uma amiga»

Cortesia de wikipedia e jdact

Infância em Coyoacán
«(…) Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, terceira filha de Guillermo e Matilde Kahlo, nasceu em 6 de Julho de 1907, às oito e meia da manhã, em plena estação das chuvas de Verão, quando o alto planalto da Cidade do México fica abafado e húmido. Os primeiros dois nomes foram dados a Frida para que ela pudesse ser baptizada com um nome cristão. O seu terceiro nome, o que a família usava, significa paz em alemão (embora na sua certidão de nascimento conste a grafia Frida, o nome da pintora foi escrito com um e Frieda à moda alemã, até ao final da década de 1930, quando ela abandonou a letra por causa da ascensão do nazismo na Alemanha). Pouco depois do nascimento de Frida, sua mãe caiu doente e durante certo período a menina foi amamentada por uma ama-de-leite indígena. Fui amamentada por uma ama indígena, cujos peitos eram lavados todas as vezes que me dava de mamar, contou, orgulhosa, a uma amiga. Anos depois, quando o facto de ter sido alimentada pelo leite de uma nativa passou a ser crucial para ela, Frida pintou uma tela em que a ama-de-leite aparece como a personificação da sua herança mexicana, a artista, com as feições de adulta e corpo de recém-nascida, aparece no colo da nutriz, mamando no seu seio.
Talvez em virtude da saúde de Matilde Kahlo, ao aproximar-se da meia-idade, ela começou a sofrer desmaios ou ataques, parecidos aos do marido, ou talvez por causa do seu temperamento, Frida e a irmã mais nova, Cristina, eram entregues aos cuidados das irmãs mais velhas, Matilde e Adriana, e, sempre que estavam em casa, das suas meias-irmãs María Luisa e Margarita, que tinham sido mandadas para um convento quando seu pai Guillermo se casou de novo.
Três anos após o nascimento de Frida, eclodiu a Revolução Mexicana, movimento armado que começou com motins em várias partes do país e com a formação de exércitos de guerrilheiros em Chihuahua (sob a liderança de Pascual Orozco e Pancho Villa) e em Morelos (sob o comando de Emiliano Zapata); os conflitos e focos de revolta se estenderiam por dez anos. Em Maio de 1911, caiu o antigo ditador, Porfirio Díaz, que partiu para o exílio. O líder revolucionário Francisco Madero foi eleito presidente do país em Outubro de 1912, mas em Fevereiro de 1913, depois da Dezena Trágica, etapa de dez dias de combates em que tropas antagónicas no Palácio Nacional e na Ciudadela bombardearam-se mutuamente, causando tremenda destruição e mortandade, Madero foi traído pelo general Victoriano Huerta e assassinado. No norte, Venustiano Carranza insurgiu-se para vingar a morte de Madero. Adoptando o título de Primeiro Chefe do Exército Constitucionalista e contando com um pequeno contingente à sua disposição, lutou para derrubar Huerta. A cruel disputa de poder e o inevitável derramamento de sangue só cessariam com a posse do presidente Álvaro Obregón, um dos generais de Carranza, em Novembro de 1920.
No seu diário, escrito na sua última década de vida e hoje em exibição no museu que leva seu nome, Frida lembra, com orgulho, e, segundo muitos suspeitam, com considerável dose de licença poética, ter testemunhado batalhas entre exércitos revolucionários na Cidade do México.

Lembro que eu tinha quatro anos [na verdade, ela tinha cinco], quando se deu a dezena trágica. Testemunhei com meus próprios olhos a batalha dos camponeses de Zapata contra os carrancistas. Minha situação era muito clara. Minha mãe abria as janelas na rua Allende. Ela dava acesso aos zapatistas, de modo que os feridos e famintos entrassem pelas janelas na minha casa, na sala de estar. Ela cuidava dos ferimentos e os alimentava com grossas tortillas, a única comida que se conseguia arranjar em Coyoacán naqueles dias [...] Éramos quatro irmãs: Matita, Adri, eu (Frida) e Cristi, a gordinha. [...] Em 1914, as balas passavam zunindo. Ainda hoje ouço aquele som sibilante extraordinário. No tianguis [mercado] de Coyoacán, a propaganda a favor de Zapata era feita com corridos [baladas revolucionárias] editados pelo [gravurista e desenhista José Guadalupe] Posada. Na sexta-feira, essas baladas custavam um centavo cada; escondidas dentro de um enorme guarda-roupa que cheirava a nogueira, Cristi e eu as cantávamos, enquanto meu pai e minha mãe ficavam atentos para que não caíssemos nas mãos dos guerrilheiros. Lembro de um carrancista ferido correndo para o seu baluarte perto do rio de Coyoacán. Da janela espiei também um zapatista com um ferimento de bala no joelho, agachado e calçando as sandálias [aqui Frida faz esboços do carrancista e do zapatista]». In Hayden Herrera, Frida, A Biografia, 1983, tradução de Renato Marques, Editora Globo, 2011, ISBN 978-852-505-353-4.

Cortesia de EGlobo/JDACT

A Bibliotecária. Dita Dorachova. Auschwitz. Antonio Iturbe. «Os SS que o acompanham repetem a sua ordem e a amplificam, até transformarem-na num grito que penetra os tímpanos dos prisioneiros»


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Auschwitz-Birkenau, Janeiro de 1944
«(…) Ela se dá conta de que já ouviu antes essa maneira tão peculiar de assobiar as sinfonias, com tal precisão de melómano. Foi depois de viajarem amontoados durante três dias num vagão de carga fechado, sem comida nem água, vindos do gueto de Terezín, para onde foram deportados ao serem expulsos de Praga e onde viveram durante um ano. Era noite quando chegaram a Auschwitz-Birkenau. Impossível esquecer o barulho de sucata do portão metálico se abrindo. Impossível esquecer a primeira baforada de um ar gelado que cheirava a carne queimada. Impossível esquecer os clarões de luz, intensos na noite: a plataforma estava iluminada como uma sala de cirurgia. E depois, as ordens, os golpes de culatras contra as paredes do vagão, os disparos, os apitos, os gritos. E, no meio da confusão, essa sinfonia de Beethoven impecavelmente assobiada com a mais absoluta calma por um capitão, um Hauptsturmführer, para o qual os próprios SS olhavam com pavor. Naquele dia, o oficial passou perto de Dita, e ela viu o seu uniforme impecável, as luvas brancas imaculadas e a cruz de ferro sobre o peitilho da jaqueta; uma medalha que só se ganha em combate. Ele parou diante de um grupo de mães e filhos e deu uma amistosa palmadinha com a mão enluvada num dos pequenos. Até sorriu. Apontou para dois gémeos de 14 anos, Zdenek e Jirka, e um cabo se apressou a tirá-los da fila. A mãe agarrou o guarda pela aba da jaqueta e se pôs de joelhos, implorando que não os levasse. O capitão interveio com absoluta calma: num lugar algum eles serão tratados como tio Josef os tratará. E, de certo modo, assim seria. Ninguém em Auschwitz tocava num fio de cabelo dos gémeos que o doutor Josef Mengele coleccionava para as suas experiências. Ninguém os trataria como ele nos seus macabros genéticos para averiguar como fazer para que as alemãs dessem à luz gémeos e assim multiplicassem os nascimentos arianos. A menina se lembra de Mengele se afastando de mãos dadas com os garotos sem deixar de assobiar placidamente. A mesma sinfonia que agora se ouve no bloco 31.
Mengele...
A porta do quarto do responsável pelo bloco se abre com um ligeiro chiado, e o Blockältester Hirsch sai de seu minúsculo cubículo fingindo ter uma agradável surpresa com a visita dos SS. Bate sonoramente os calcanhares para saudar o oficial. É uma forma respeitosa de reconhecer a patente do militar, mas também uma maneira de mostrar uma postura marcial, nem submissa, nem acobardada. Mengele mal olha para Hirsch, está distraído e continua assobiando com as mãos para trás, como se nada daquilo fosse por sua causa. O sargento, o Padre, como todos o chamam, esquadrinha o barracão com seus olhos quase transparentes sem tirar, todavia, as mãos de dentro das mangas da jaqueta, caídas sobre o colo, não muito distantes da capa da pistola. Jakopek não se enganou. Inspeção, sussurra o Obersharführer.
Os SS que o acompanham repetem a sua ordem e a amplificam, até transformarem-na num grito que penetra os tímpanos dos prisioneiros. Dita, no grupo das garotinhas, sente um calafrio, aperta os braços contra o corpo e ouve os livros roçando nas suas costelas. Se a pegarem com eles, será o fim de tudo. Não seria justo..., murmura. Tem 14 anos e a vida por estrear, tudo por fazer. Nada pôde sequer começar. A Dita lhe vêm à cabeça estas palavras que sua mãe repete há anos, de maneira maçadora, quando ela lamenta a própria sorte: é a guerra, Edita... É a guerra. Era tão pequena que quase já não lembra como era o mundo quando não existia a guerra. Tal como esconde os livros sob o vestido nesse lugar onde arrebataram tudo, também guarda na cabeça um álbum de fotografias feito de lembranças. Fecha os olhos e trata de evocar como era o mundo quando não existia o medo. Ela se vê com nove anos de idade, parada em frente ao relógio astronómico da praça da Cidade Velha, em Praga, no início de 1939. Olhava meio de soslaio para o velho esqueleto a vigiar os telhados da cidade com as suas órbitas vazias, enormes como punhos negros». In Antonio G. Iturbe, 2012, A Bibliotecária de Auschwitz, Dita Dorachova, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-657-432-1.

Cortesia de PManuscrito/JDACT

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «Sabes muito bem porquê, querida. Sorriu. Não temos propriamente sido castos nos últimos tempos. Sarah nem sequer queria pensar nisso. Uma gravidez…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005
«(…) No quarto do Grand Hotel Palatino, Sarah sentiu-se indisposta. Por várias vezes as náuseas subiram à boca, ocas, sem conteúdo. Puxava o vómito sentada no chão do quarto de banho com a cabeça no rebordo da sanita. Nada. Francesco assistia impotente. Queres que chame um médico?, perguntou preocupado. Não. Isto já passa, respondeu ela preparando-se para puxar novamente. Não lhe dissera que isto já não era de agora. Os sintomas já se vinham fazendo sentir desde Londres. Vou pedir um chá quente. Vai-te fazer bem. Pegou no auscultador do telefone que tinha no interior do quarto de banho. Sim. Faz isso. Obrigada. E puxou pelo vómito que não trazia nada. Uma aflição oca, um mal-estar vazio. Ai. Que raio, lamentou-se. Francesco fez o pedido e pousou o auscultador. Depois aninhou-se e abraçou Sarah. Queres ir para a cama?, inquiriu carinhosamente. Deixa só ver se isto já acalmou. Sarah sabia que acalmava sempre. Durava alguns minutos e depois era como se nada tivesse acontecido. Francesco fitou a namorada, debruçada sobre a sanita como alguém que se embriagava todas as noites. Não deixava de sentir um enternecimento, uma necessidade de a fazer sentir-se bem. Fitou-a seriamente. Sarah, disse a medo. Sei que não é o momento propício, mas talvez fosse melhor irmos a uma farmácia, contemplou a reacção dela. Porquê? O enjoo acalmara.
Sabes muito bem porquê, querida. Sorriu. Não temos propriamente sido castos nos últimos tempos. Sarah nem sequer queria pensar nisso. Uma gravidez não estava nos seus planos neste momento. Não que tivesse alguma coisa contra Francesco, nada disso, ele seria um pai exemplar, mas...
Vou ao médico quando regressarmos, propôs ela. Tens a certeza?, Francesco mirava-a com ar condescendente. Sim, tenho. Depois de amanhã resolvemos isso. Ajuda-me a levantar, por favor. Francesco elevou-se puxando-a consigo e abraçou-a com força. Estou contigo para o que der e vier. Não te deixarei ir para comprar cigarros, pronunciou a sorrir. Sarah comprimiu-se de encontro ao peito dele e fechou os olhos. Uma lágrima derramou-se na camisa de Francesco. Sentia-se perdida, e apesar do italiano lindo que lhe afiançava o amor, sentia-se sozinha, sem ninguém que a amparasse... Excepto Francesco, o deus italiano, de Ascoli que oferecera o seu coração à luso-britânica. Nesse momento ouviu-se uma pancada leve na porta. Deve ser o serviço de quartos, disse Francesco. Estás bem, querida?
Olhou para o rosto e limpou-lhe os olhos marejados. Beijou-a na testa. Sarah olhou-se ao espelho, libertou-se do abraço de Francesco e colocou as duas mãos sobre o lavatório, fitando-se, as imperfeições, os olho vermelhos, a lividez do rosto. Estou bem, Francesco. Atendes por favor? Vou só lavar o rosto, pediu continuando a avaliar-se ao espelho. Claro. O deus italiano anuiu e foi abrir a porta onde alguém tornara a bater com um pouco mais de força. Já vai, gritou em italiano antes de sair do quarto de banho. Sarah massajou os olhos com os dedos na esperança que quando os abrisse novamente visse outra mulher à sua frente. Outra cor. Nova disposição. Vontade de seguir em frente. Aquela vontade férrea que a acompanhava quando deixou Rafael no bar há seis meses e passou assim que a fúria e a raiva se esfumaram. Ele deixara-a seguir o seu caminho. Não tornara a ligar, nem a procurá-la. A protecção que Rafael lhe conferia dissolveu-se. Tinha saudades dele, mesmo dos silêncios prolongados. Quando olhava pela janela e não o via, mas sabia que ele andava por ali, como um anjo-da-guarda. Tudo isso terminara há seis meses, depois daquela conversa de um só sentido no Walker's Wine and Ale Bar. Estaria em Roma ou em alguma missão perigosa por esse mundo? Às vezes dava por si a pensar nisso. Apetecia-lhe ligar para ele. Saber como estava. Se estava tudo bem na paróquia dele, como corriam as aulas na universidade. E depois caía em si... E no ridículo da situação. Olá Rafael Queria saber se estás bem. E os meninos na tua paróquia? Os teus alunos? Olha, ainda te amo. Toda essa diarreia mental parou com a voz de Francesco que vinha do quarto. Ah! Acho melhor vires aqui, Sarah. Sarah passou água pelo rosto e enxugou-o com uma toalha. Foi ao quarto e viu Francesco à porta. O que foi? Acercou-se da porta e viu um prelado jovem, batina negra, tez negra, expressão circunspecta. É para ti, explicou Francesco. Boa noite, cumprimentou Sarah. Boa noite, menina Sarah. Pediram-me que viesse buscá-la. Pediram-lhe? Quem pediu? Que coisa mais estranha. Não estou autorizado a revelar. Lamento, desculpou-se o jovem padre.
A curiosidade jornalística sobrepôs-se ao temor. Calçou-se e pegou no casaco. Já venho. Queres que vá contigo?, voluntariou-se o deus italiano. Sarah fitou o jovem clérigo e analisou-o durante uns instantes. Não. Está tudo bem. Desceram no elevador até ao piso da recepção. Já era noite. Olhou em redor e não viu ninguém. Nem na recepção, que costumava ter sempre alguém atrás do balcão pronto para atender ao hóspede mais incauto ou curioso, estava alguém. Parecia um hotel despido de vida. Como se o mundo tivesse parado durante alguns instantes e fosse desprovido de gente». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A Filha do Papa. Luís Miguel Rocha. «Niklas desorientou-se um pouco, mas Luka colocou-lhe uma mão possante no ombro e indicou-lhe o caminho. Por aqui. Atravessamos ali à frente»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Alguns filamentos brancos emprestavam ao cabelo um ar grisalho que lhe assentava bem. Era o encanto dos 45 anos que para ele lhe era indiferente, mas fazia as mulheres olharem uma segunda vez para se desiludirem com aquele friso branco no colarinho, o cabeção, sinal de relação, pretensamente exclusiva, com Deus Pai Todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra. Caminhava a passos firmes, senhores de si, que faziam os cabelos loiros do pupilo, com metade da idade, arrepiarem-se de reverência e temor. Lembra-te, Niklas, avisou Luka com uma sedutora voz tonitruante, não lhe dirijas a palavra a não ser que ele ta dirija a ti. Certamente, professor, respondeu, sumido, o jovem. As vielas ao entardecer perdiam as pessoas. Restavam turistas, a maioria de mochila às costas, roupas descomprometidas com casacos por cima, máquina fotográfica pronta a disparar e olhos de estupefacção. A luz alaranjada do sol moribundo que se dignara aparecer naquele dia sem aquecer os corpos tingia as fachadas dos edifícios de um tom encantador, carregado de impressões, que hipnotizava os estrangeiros que passavam. Apesar de estrangeiros, Luka e Niklas não eram turistas, e passavam indiferentes. Prosseguiam a caminhada tenaz com passos gigantes, mais o primeiro, que obrigava o mais novo a esticar bem as pernas para o acompanhar. Viraram à esquerda na Via dei Santi Apostoli e percorreram os poucos metros da rua para depois virarem à direita na Via Cesare Battisti. Seguiram em frente, passando a Piazza Venezia, entraram na Via del Plebiscito, ignorando o colégio da Companhia de Jesus, que ficava do lado esquerdo, e a Igreja de Jesus, na piazza com o mesmo nome, que se erguia ao fundo, e desembocaram no concorrido Corso Vittorio Emanuele II, onde ainda havia bastante trânsito. Faltavam vinte minutos para as sete da tarde. Seriam precisas mais algumas horas para esvaziar as principais artérias da cidade dos milhares de veículos que as entupiam durante o dia.
Niklas desorientou-se um pouco, mas Luka colocou-lhe uma mão possante no ombro e indicou-lhe o caminho. Por aqui. Atravessamos ali à frente. Referia-se a uma passagem para peões a cerca de cem metros. Os homens de Deus seguiam, prudentemente, as regras dos homens…, quase sempre ou sempre que podiam, assim Deus o permitisse. A mão no ombro guiava Niklas, como uma orientação divina, mostrando-lhe o trilho do Senhor, que muito precisaria assim que soubesse para onde se dirigiam. Apesar do temor reverencial sentia-se bem com ele, ou não fosse Luka o seu tutor. Atravessaram a movimentada rua na passagem para peões que Luka indicara e prosseguiram no mesmo sentido, o do Largo di Torre Argentina. Uma vez lá, meteram pela Via del Sudario, junto ao terminal do eléctrico, uma viela estreita que findava na Piazza Vidoni. Depois voltaram à direita, retornando ao Corso Vittorio Emanuele II.
Cravada como se sempre ali tivesse estado erguia-se imponente a Basílica de Sant’Andrea della Valle, com a fachada barroca a apontar para o céu. E a verdade é que pernoitava naquele exacto local, na Corso Vittorio Emanuelle II, defronte para a piazza com o mesmo nome da basílica, há cerca de 350 anos e vira aquela rua ter outros nomes antes deste, enquanto a sua estrutura permanecia imutável, apenas consumida pelo tempo, como hoje. Luka e Niklas subiram os seis degraus até à porta verde. Niklas tentou abri-la. Estava trancada. Está fechada. Não para nós, murmurou Luka enquanto olhava em redor para o movimento da rua. Em seguida, cerrou o punho e bateu duas vezes com vigor. Uma. Duas. Luka voltou a desviar a sua atenção para a rua, ignorando a porta da basílica. E agora, professor?, perguntou Niklas, a medo. Agora esperamos, respondeu o padre alemão sem fitar o jovem.
Duas mulheres, na casa dos 30 anos, passaram e lançaram um sorriso a Luka que lhes retribuiu. O fruto proibido…, sibilou, entre dentes, em alemão. Buon pomerigio, senhor padre. Niklas evitou olhar para as mulheres. Um ressentimento antigo. Provavelmente alguma delas, não estas, terá sido a responsável pelo seu apego à batina e pela oferta do seu coração a Deus Nosso Senhor, ou então não queria simplesmente cair em tentação. Ainda era muito novo para quebrar o voto de castidade que todos vinculava a esta provação celibatária. Terão ouvido, professor? Niklas referia-se à porta da basílica e às pancadas que Luka havia dado na madeira. Nesse preciso momento, ouviu-se a tranca rabujar com a ferrugem. Um homem de idade, descabelado e mal-encarado, surgiu do interior». In Luís Miguel Rocha, A Filha do Papa, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-004-411-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

A Filha do Papa. Luís Miguel Rocha. «Não havia rasto de nenhum teatino, os membros da ordem que se encarregava de zelar pelo local. Olhou em redor e aproveitou o momento»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) No primeiro dia, milagrosamente para os padrões romanos, encontrou lugar para estacionar a poucos metros do edifício. Se o Francês fosse um homem de fé poderia pensar que seria um bom augúrio mas nem ele o era nem se passou nada de especial além da habitual espera. No segundo dia optou por não levar o Mazda. Andou a pé, vigiou as imediações, fingindo, outra vez, ser mais um dos muitos turistas que por ali passavam. Tirou fotografias, atentou na porta de entrada mas não entrou e depois foi, efectivamente, passear. Neste terceiro dia jogara pelo seguro. Substituíra o Mazda por um Alfa Romeo e deixou o hotel a meio da tarde. Às seis e meia já estava estacionado a cerca de cem metros do edifício. A cidade fervilhava com o movimento turístico característico. Inúmeras carrinhas e alguns camiões enchiam as artérias romanas para os provimentos vespertinos. Nada podia faltar às lojas que se esvaziavam a todas as horas do dia. Roma era uma cidade buliçosa e queria estar sempre composta para agradar a todos os seus visitantes. Alheio a tudo isto, o Francês observou a entrada do edifício, como nos dias anteriores. Os turistas ainda eram muitos. Deambulavam a espaços, admirando as fachadas e evitando os condutores mais impacientes que poluíam o ar da cidade, indiferentes aos afazeres dos outros, muito menos importantes que os seus.
Os minutos foram lentos a tornar-se em horas. O Francês comeu uma sanduíche que comprara na noite anterior e bebeu água. A alimentação era totalmente descurada quando estava a cumprir um contrato. Ossos do ofício. Em breve, poderia tornar a dar largas à sua paixão. Até lá, tinha de tolerar o frio e a fome. O combinado era entrar na igreja ao fim da tarde e assim fez. O cliente corrigi-lo-ia se o ouvisse ou perscrutasse os seus pensamentos. Não era uma igreja mas uma basílica. E discorreria sobre as diferenças entre uma e outra, mais as de permeio, como uma igreja ser um templo com mais de um altar, ao contrário de uma capela que só tem um, e muito diferente de uma basílica que é um edifício grande, como este, com uma nave larga, com naves laterais, fileiras de colunas, uma abside semicircular. Não esqueceria de mencionar as catedrais, abadias e santuários. Repetiria as vezes que fossem necessárias até que a informação lhe assentasse no cocuruto, até que a soubesse repetir de cor. Errar era morrer, literalmente, e libertar um homem do erro era dar e não tirar, pois o erro fazia mal e prejudicaria o homem que o abrigasse, mais cedo ou mais tarde. Entrou na basílica como combinado. Desta vez trazia uma mochila comprida às costas, em vez da máquina fotográfica, com as alças enfiadas nos ombros, como se fosse um estudante a caminho da escola.
Os últimos turistas admiravam a fachada barroca, fruto da voluntariedade da duquesa de Amalfi, cujo patrono familiar era o mesmo Andrea que dava nome à basílica. Caminhou até ao altar e observou a imensa nave central, um espaço tão amplo onde caberiam milhares de pessoas. O cliente fora claro. Do lado direito, de quem olha para a nave central a partir do altar. Para que não restassem dúvidas, relembrou as palavras exactas que lhe havia dito, com a habitual voz pausada, no último telefonema. Na sua profissão não havia lugar a mal-entendidos; eram fatais. Os últimos turistas encaminhavam-se, lentamente, para a saída. Não havia rasto de nenhum teatino, os membros da ordem que se encarregava de zelar pelo local. Olhou em redor e aproveitou o momento. Abriu a pequena porta e entrou. Por fora, o confessionário parecia muito mais pequeno. Dentro havia espaço para se sentar e ficar à vontade. Fechou a porta com cuidado para não levantar suspeitas e abriu a mochila em silêncio. Montou o mecanismo em poucos segundos e testou-o. Fora feito por si, manualmente, peça por peça, para poder ser usado em todas as situações. Entreabriu a porta. Uma menina de 10 anos atravessou a nave a correr, fazendo dela o seu imenso parque infantil. Da sua posição tinha um ângulo de visão de quinze metros para cada lado. Era mais que suficiente. A mãe veio buscá-la e deu-lhe a mão para se irem embora. A criança fez birra, tentando uma chantagem emocional que não resultou. O Francês agradeceu. Era melhor ela não andar por ali. A inocência, uma vez perdida, não podia ser recuperada e, pelo contrário, as trevas, uma vez contempladas nunca seriam esquecidas. O Francês era um censor, não um monstro. A birra continuava enquanto a mãe a puxava pelo braço em direcção à porta. O Francês assistiu a tudo isto pela mira telescópica. Ajustou o anel da objectiva e focou os alvos, a mãe e a filha, ensaiando o destino de uma e de outra de dentro do confessionário. Os ângulos estavam ajustados. O resto já não dependia dele. Agora só lhe restava esperar. O pior de tudo era a espera». In Luís Miguel Rocha, A Filha do Papa, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-004-411-2.

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O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «… de vida dos habitantes de Escariz, na região trasmontana de Chaves. Casas de pedra mal isoladas, escuras, sem electricidade, sem água…»

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Conclave
26 de Agosto de 1978
«(…) Não posso lhe dizer o que fazer. Apenas que, aconteça o que acontecer, não abra essa porta. Mantenha os papéis sempre consigo. Lembra-se do que a avó costumava dizer-lhe quando não queria sair pela porta dos animais? Pela porta da casa, que por acaso também era a dos animais, você quer dizer. Recorde o que ela costumava lhe dizer. Volte a ligar-me mais tarde. Use outros meios. A chamada se interrompe sem um adeus ou um até logo.
Três pancadas fortes na porta despertam-na para as palavras do pai: o que a avó dizia quando ela chorava por não querer passar pelas enormes vacas que barravam a entrada comum. A mãe, inglesa legítima, nada habituada àquelas andanças, achava graça no modo de vida dos habitantes de Escariz, na região trasmontana de Chaves. Casas de pedra mal isoladas, escuras, sem electricidade, sem água encanada, sem gás encanado - sem gás de nenhuma espécie, a bem da verdade. As origens do pai, às quais ele tanto gostava de regressar todos os anos. Talvez já não conseguisse passar mais do que uma semana naquele lugar perdido no tempo, mas, em cinquenta e duas semanas, uma tinha de ser em Escariz para visitar a família e os amigos de outrora. Lembra-se de como odiava passar por aqueles animais enormes, com o rabo balançando no ar rente aos seus cabelos e com os enormes focinhos ruminantes que davam a impressão de terem sempre alguma coisa na boca. A avó tinha de afastá-los para a menina passar. Às vezes era o pai, quando a avó estava ocupada fazendo pão ou bolos de carne, ou fora, no campo, cultivando ou colhendo os legumes da época. Ou colhendo uvas, quando era tempo disso. O pai também os afastava com jeito. Não demonstrava nenhum medo deles. A partir de certa idade, a avó deixou de afastar os animais. Afaste-os você mesma, dizia. Já é hora de deixar de ter medo deles, completava. Se não fazem mal a mim que sou velha, também não farão a você. E franzia as sobrancelhas para a menina, como para mostrar o óbvio. Mas tenho medo que me pisem. Bem, faça como quiser. Mas acredite: por mais medo que tenha, elas têm bem mais. E levantava-se do banco de madeira em que acabara de tirar leite puro num balde de lata. Dirigia-se à porta e, antes de fechá-la, fitava a menina. Vou buscar capim para os animais. Se quiser ir comigo, basta fazer como faço. Passe e ande. Faça de conta que não vê animal nenhum, menina. E fechava a porta, deixando Sarah entregue à imensidão animalesca. Seis vacas que aqueciam a casa durante todo o Inverno. No início, Sarah ficava imóvel, sem coragem para enfrentar o espaço que a separava da porta comum. Naqueles dias a avó voltava a abrir a porta, como o anjo zelador do bem-estar da menina.
Ou você pode sair pela janela lá de cima. Há sempre solução para tudo. Só não há para a morte. E a menina corria, subia os degraus em pedra grosseira e saía pela janela de um dos quartos. Mais tarde, começou a arriscar e percorria o chão de terra entre o final das escadas e a porta comum, olhando para o lado oposto ao dos animais. Ignorando-os, como dizia a avó. E acabou conseguindo fazê-la mais vezes, até se tomar um acto sem importância. Graças à avó que... Há sempre solução para tudo. Foram essas as palavras da avó. E era isso que o pai lhe tentou transmitir numa espécie de mensagem cifrada. Não pode sair pela porta; arranje outra saída. Larga o telefone móvel no sofá e pega os papéis enviados pelo tal Valdemar Firenzi. Da bolsa, colocada ao lado do computador, retira a carteira e, desta, os cartões de crédito, mulher prevenida vale por duas, e põe tudo no chão. Avança para as escadas, olhando para trás, na direcção da porta. Quem quer que esteja do lado de fora mexe agora na maçaneta. O seu coração dispara. Tira apressadamente os ténis que havia calçado depois do banho. Ainda bem que optara por vestir roupa fresca, leve e prática, calça de ginástica e um blusão com capuz, muito melhor do que se tivesse optado pelo roupão. Trajes desportivos básicos em detrimento do consolo prazeroso do roupão. Com os ténis na mão, sobe ao primeiro andar. A madeira dos degraus range e a denuncia, mas o facto de serem meias e não solas a pisarem as escadas acarpetadas faz toda a diferença. Esforça-se também por controlar o peso que emprega em cada perna, a cada passo, de modo que dê a ideia de um ranger natural de madeira velha, uma espécie de estalo que se ouve a toda hora nesse tipo de casa». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia SEmergência/JDACT

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «Sarah, lembre-se: a partir de agora, não diz mais nomes nem a sua localização. A ninguém, entendeu?»

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Conclave
26 de Agosto de 1978
«(…) O toque do telefone móvel assusta-a de tal maneira que num momento está junto à janela e no outro está sentada no sofá, quase sem saber como. O choque de adrenalina a fizera esbarrar nas costas do sofá e, por sorte, ao tropeçar, caíra sentada no lado almofadado. Noutro dia, com menos sorte, poderia ter batido com a cara no chão. É melhor não ter deliberadamente esse tipo de pensamentos torturantes. Assim sendo, tem apenas de atender o telefone, que, afortunadamente, permanece na sua mão. Yes? Olá, Sarah. Pai! Até que enfim... Onde estava?  Finalmente o progenitor responde à mensagem. O alívio de ouvir a voz serena do capitão Raul Brandão Monteiro, seu pai antes de qualquer filiação militar ou profissional, age nela como uma chamada de regresso à Terra. Nesse instante, tudo já passou e se tornou irrisório. Tudo por uma carta com o nome do pai nela escrito. Levanta-se e dirige-se novamente à janela. Espiões, agentes secretos, sua vida vigiada e em perigo, o gari recolhendo os sacos de lixo que já não se vê lá fora. A cortina fechada do segundo andar do Hollyday Express, onde a hóspede falava ao telefone sem tirar os olhos da rua. Tudo passou. Apenas o carro permanece. Mas nem ele a alvoroça mais. É o carro de alguém normal, conhecido como civil, que teve a sorte de encontrar aquele lugar para estacionar. O facto de ser escuro e ter os vidros negros, é uma opção pessoal do comprador; gosto não se discute, e mau gosto também não. Tudo passou, e a calma volta a tomar posse do seu lugar destacado na vida de Sarah. Fui levar a sua mãe... Aonde? Foi levar a mãe aonde? Sarah... Mau. A voz do pai não está tão serena assim. Na verdade, nunca havia notado tanta agitação na sua voz. O súbito alívio que sentira havia segundos volta a dar lugar ao peso da dúvida, ao nervosismo deflagrado pela voz gutural, normalmente acolhedora e melodiosa; mas hoje não é um dia normal. O pai não está bem, o que faz com que ela siga os passos dele nessa matéria de humores e receios. Recebi um envelope de um tal... Eu sei. Não precisa dizer nomes. Sarah, lembre-se: a partir de agora, não diz mais nomes nem a sua localização. A ninguém, entendeu? A não ser que eu diga que é de confiança. Pai, está-me assustando. Sabe da carta?
Silêncio é a primeira resposta. Mas não é hora de mais omissões. Se houvesse segredos, se houvesse mentiras ocultas, agora era tempo de lhes dar vida, de lhes mostrar a luz novamente. E de corrigi-las. Pai, não me esconda nada, por favor. O seu nome vem numa lista… Droga, Sarah! Já lhe disse para não falar mais sobre isso. Sei o que recebeu... A voz elevada contém o rancor de algo mantido na penumbra, fechado a sete chaves, bem no fundo do local para onde vão as coisas que não queremos voltar a relembrar. É isso que reflecte o tom de Raul: o de alguém que perdeu o controle de algo que, mal ou bem, estava domado. Sei o que recebeu, afiança, de um modo esforçadamente mais calmo, mas eles não sabem, e estão com certeza nos ouvindo.
Eles quem, pai? Um pequeno indício de pânico assoma as palavras dela, provocando um tremor inconsciente, quase lacrimejante. Agora não é hora de falar. É hora de agir, filha. Lembra-se da casa da avó? O quê? O que interessa isso agora? Lembra-se ou não? Da casa? Claro que sim! Como posso esquecer? Óptimo. Um vulto. O pequeno sintoma de pânico transformara-se num ataque sério. Sorte de Sarah que tal não se exprima verbalmente na forma de grito, mas antes num arrepio frio, que desvela os elos da espinha e os comprime de maneira que as costas se endireitam qual soldado em sentido numa formatura qualquer de quartel. Sarah, chama a voz do pai no outro lado da linha imaginária. Mas Sarah continua na sua letargia temerosa, erecta como um soldado a olhar a janela e o vulto que nela acabou de passar sem se dar conta de que alguém a espreitava. Alguém que rodeia a casa e se dirige para a porta.
Sarah? A voz do pai pede a atenção urgente da filha. Ela ouve os passos do lado de fora da casa. Seguros, firmes, pesados, cadenciados, sem pressa, o tempo a favor deles. Parece hipnotizada pelo seu som enquanto percorrem o resto do espaço entre a janela e a porta. Um monstro, um gigante de homem, pois nenhuma mulher seria capaz daquele efeito tenebroso, na opinião de Sarah. Um assassino profissional? Um torturador qualificado? Sarah!, soou a voz do pai, a puxá-la para a Terra. Estou ouvindo. Lembra-se do medo que sentia quando dormíamos e os animais ficavam muito perto da casa? Sim. Lembro-me perfeitamente. Ela ficava furiosa por eu ter medo deles. E com razão... Ding. Dong. A campainha. A campainha está tocando. Tenho de ir... Nem pense em abrir essa porta!, interrompe o pai, num rompante. Uma ordem, não um pedido. Pai, não sou mais um dos seus soldados. Eu sei. Desculpe, Sarah. Tenho muito a lhe contar. Coisas que devia ter falado há muito tempo, mas..., isso vai ter de esperar até que esteja sã e salva. Ding. Dong». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia SEmergência/JDACT

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A Roda do Tempo. O Olho do Mundo. Robert Jordan. «O sol fraco pairava acima da vegetação a leste, mas a sua luz era fria e apagada, como se misturada à sombra»

Cortesia de wikipedia e jdact

Uma Estrada Deserta
«A Roda do Tempo gira, e Eras vêm e vão, deixando memórias que se transformam em lendas. As lendas desvanecem em mitos, e até o mito já está há muito esquecido quando a Era que o viu nascer retorna. Em uma Era, chamada por alguns de a Terceira Era, uma Era ainda por vir, uma Era há muito passada, um vento se ergueu nas Montanhas da Névoa. O vento não era o início. O girar da Roda do Tempo não tem inícios nem fins. Mas era um início. Nascido abaixo dos picos eternamente cobertos por nuvens que davam à montanha o seu nome, o vento soprava para leste, atravessando as Colinas de Areia, outrora as margens de um grande oceano, antes da Ruptura do Mundo. Ele desceu e fustigou os Dois Rios, penetrando na mata densa chamada de Floresta do Oeste, e flagelou dois homens que seguiam com uma carroça e um cavalo por uma via estreita e pedregosa chamada de Estrada da Pedreira. Ainda que a Primavera devesse ter chegado um bom mês antes, o vento trazia consigo um arrepio gelado, como se preferisse trazer a neve. Rajadas colavam o manto de Rand al’Thor às suas costas, chicoteavam a lã cor de terra ao redor das suas pernas e depois a faziam tremular atrás dele. Rand desejou que o seu casaco fosse mais pesado ou que tivesse vestido uma camisa extra. Metade das vezes em que tentava puxar o manto, trazendo-o de volta à frente do corpo, ele se prendia na aljava que balançava nos seus quadris. Tentar segurar o manto com uma das mãos não ajudava muito; na outra mão ele segurava o arco, a flecha encaixada, pronta para disparar. Quando uma rajada particularmente forte arrancou o manto da sua mão, ele olhou de relance para o pai por cima do dorso da égua castanha peluda. Sentia-se um tanto tolo por querer assegurar-se de que Tam ainda estava ali, mas era um daqueles dias. O vento uivava, mas, tirando isso, o silêncio na terra era pesado. Comparado a ele, o suave rangido do eixo da carroça soava alto. Nenhum pássaro cantava na floresta, nenhum esquilo se agitava nos galhos das árvores. Não que ele esperasse ouvi-los, de facto; não naquela Primavera. Somente as árvores que não perdiam as suas folhas ou agulhas durante o Inverno tinham algum vestígio de verde. Restos dos espinheiros do ano anterior espalhavam teias castanhas sobre as pedras por baixo das copas. As urtigas eram maioria entre as poucas ervas; o resto era do tipo que tinha carrapichos afiados, espinhos ou trombeteiras, que deixavam um cheiro rançoso na bota descuidada que as esmagasse. Trechos brancos e dispersos de neve ainda pontilhavam o chão onde as árvores se adensavam e conservavam uma sombra mais sólida. O sol fraco pairava acima da vegetação a leste, mas a sua luz era fria e apagada, como se misturada à sombra. Era uma manhã estranha, própria para se ter pensamentos desagradáveis.
Sem pensar, ele tocou a rabeira da flecha; estava pronta para ser puxada até ao seu rosto num único e suave movimento, do jeito que Tam lhe ensinara. O Inverno havia sido bastante ruim nas fazendas, o pior de que até mesmo as pessoas mais velhas se lembravam, mas devia ter sido ainda mais duro nas montanhas, se o número de lobos levados a descer para os Dois Rios servia de indicativo. Eles atacavam os redis de ovelhas e invadiam os celeiros atrás do gado e dos cavalos. Os ursos também haviam atacado ovelhas, mesmo onde um urso não era visto havia anos. Já não era seguro andar por aí após o anoitecer. Homens se tornavam presas com a mesma frequência das ovelhas, e nem sempre era preciso que o sol se tivesse posto. Tam caminhava a passo firme do outro lado de Bela, usando a lança como cajado, ignorando o vento que fazia o seu manto castanho drapejar como um estandarte. De vez em quando tocava levemente o flanco da égua, para lembrá-la de seguir em frente. Com o peito forte e o rosto largo, ele era um pilar de realidade naquela manhã, como uma pedra no meio de um sonho flutuante. A face marcada pelo sol podia ter as suas rugas, e os cabelos, apenas uns poucos fios pretos, mas havia nele uma solidez, como se uma enchente pudesse passar por ele sem tirar seus pés do lugar. Agora seguia pela estrada, impassível. Lobos e ursos não eram um problema, dizia a sua postura, criaturas a que qualquer pastor de ovelhas devia estar atento, mas era melhor que não tentassem impedir Tam al’Thor de chegar a Campo de Emond. Começando a sentir-se culpado, Rand voltou a vigiar seu lado da estrada, a atitude simples e directa de Tam fazendo-o lembrar-se de sua tarefa. Ele era uma cabeça mais alto que o pai, mais alto que qualquer pessoa no distrito, e tinha pouco de Tam fisicamente, excepto talvez os ombros largos. Os olhos cinzentos e o tom avermelhado dos cabelos vinham da mãe, assim dizia Tam. Era estrangeira, e, além de um rosto sorridente, Rand pouco se recordava dela embora pusesse flores em seu túmulo todos os anos, no Bel Tine, na Primavera, e aos domingos, no Verão». In Robert Jordan, A Roda do Tempo, O Olho do Mundo, 1990, Editora Intrínseca, 2013, ISBN 978-858-057-362-6.

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