sexta-feira, 24 de junho de 2022

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Três léguas bem puxadas de Alvor a Silves, todo o teu destino infeliz no meu pensamento. Morreres abandonado, um tal rei! Ires aí às costas de mula, metido em quatro tábuas disfarçadas à pressa de estofos reais…»

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O Rei de Marfim

«(…) Terminado o casario, pelo adiantado da hora alguma gente vai-se deixando ficar para trás arrimada às paredes, os braços cruzados cingindo o próprio corpo transido da friagem que sopra das dunas e se escoa a zinir pelas ruelas estreitas. um pequeno grupo de mulheres chorosas ainda acena um pobre adeus, mas, com o decorrer da caminhada por trilhos rudes que sobem de leve a ladear a ribeira do Arade, aos gritos e carpidos sucede o silêncio de almas cansadas. Ouve-se apenas o som continuado do patear das cavalgaduras e do andar dos peões neste fúnebre seguir à luz das tochas. É como se eu aqui vá sozinho contigo pela última vez. Gosto das sendas solitárias abeiradas de pinheiros mansos e palmeiras africanas, das breves encostas de amendoeiras e alfarrobeiras, das figueiras que vergam até ao solo os ramos carregados de frutos roxos que pingam mel. Passam canaviais inclinados pelo suão. Amarelejam agora aqui ao lado, no lampejo dos brandões, como olhos de fogo a espiarem-nos no negrume, os pomos de um laranjal. Três léguas bem puxadas de Alvor a Silves, todo o teu destino infeliz no meu pensamento. Morreres abandonado, um tal rei! Ires aí às costas de mula, metido em quatro tábuas disfarçadas à pressa de estofos reais, aos solavancos por carreiros pedragulhentos no segredo da noite!... Ninguém se atreveu a clamar, embora a todos espantasse, que é uma vergonha o duque Manuel não estar presente ao teu saimento. Ninguém ousou gritar que foi uma infâmia a rainha Leonor não ter assistido ao esposo moribundo. Cada um de nós, no foro íntimo, busca encontrar explicação para zanga mais teimosa que a morte..., e os nobres senhores onde estão eles? Os poucos que te acompanham, teus próximos servidores, já nem avanço dizer teus fiéis servidores, sabe-se lá quem é que..., quando o caminho alarga achegam as montadas e cochicham apreensões ou..., assim que as veredas apertam, seguem em fila, calados, focinhudos, escoltados pelas caras vermelhas e suadas dos servos que se afadigam de facho em punho por igualar o andamento dos animais. Os outros, lá longe em seus castelos e palácios, aprestam o ouvido se nos ruídos do vento distinguem galopear de cavalo que, por paradas nas estradas do reino, tragam recado de esculcas de que tu já morreste. De manhã, sinos a dobrar a finado..., sinos algures a repicar regozijos..., em cada coração o amor ou o ódio..., no teu, Deus me perdoe e perdoa-me tu também, ambas as coisas. De onde te veio esse raiarem-se-te os olhos de sangue? Essa comissura descaída e raivosa dos lábios? Como a de tua irmã Joana. Que parecença! Que gana e força de alma num e noutro!... E no entanto que sorriso bondoso e aberto tantas vezes te surpreendi..., até para mim!... Caminhamos agora por um trecho de velha calçada romana com suas grandes lajes sulcadas pelo rodado de carroças de outros séculos. É mais vivo o patear dos cascos ferrados da cavalgada. Para lá do clarão dos archotes apenas se enxergam trevas, mas eu, que conheço esta paisagem, adivinho para além da planície a colina em que se ergue o castelo de Silves, de pedra rosada, o corpo esbranquiçado da sé catedral, as casas caiadas de fresco e, lá bem ao fundo, os contrafortes da serrania. Nunca me tinha acontecido olhar perfurando a escuridão com os olhos da memória. Vem a calhar, que todo o espírito se me vaza atrás a buscar as coisas passadas. Ainda há poucos dias descias tu, com toda a tua comitiva, a serra do Algarve, a pedir saúde às águas das caldas. sol a pino, vibravam alfarrobeiras e aloendros a zunideira das cigarras. Paraste para jantar junto de um ribeiro, à sombra de umas sovereiras.

Chegai-me o xadrez para eu espantar o sono, pediste depois de comer, estes médicos! prescrevem-me que beba algum vinho... É o mais aconselhável no caso presente, meu senhor, dizia o físico-mor. Dá-me sonolência e vindes-me com essa de que me faz mal dormir a sesta… Chegou o moço da guarda-roupa muito aflito: Senhor, a bolsa com os trebelhos... e então? Está aqui..., mas, põe aí. Senhor, o tabuleiro,.., o tabuleiro ... Já lá vai adiante com a cama..., por esquecimento...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,

quinta-feira, 23 de junho de 2022

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Senhores, el-rei foi preso. Que dizeis? Estávamos em casa do arcebispo quando chegaram os guardas, de mando do Conselho dos Dez, e o levaram preso. Meu Deus!, disse Nuno Costa. E agora?»

 

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O Sósia

«(…) O doge cofiou a barba com ar preocupado: Se ele é mesmo o rei de Portugal... Não pode ser! ... o rei Filipe de Espanha terá de... Senhor!, abespinhou-se o embaixador. Quereis arranjar conflito entre Veneza e Madrid? Não vejo em que possa a verdade provocar conflito entre dois estados soberanos e católicos. Pareceu-me ver nas vossas palavras um tom de ameaça... Não, mas... Mas?, levantou-se o doge, como a dar por finda a audiência. O que Espanha deseja é que a Senhoria de Veneza mande prender esse indivíduo que se diz rei de Portugal e... Senhor embaixador, considerarei o assunto com o meu Conselho dos Dez e verei o que há que fazer.

Marco Túlio correu esbaforido para o cais e embarcou numa gôndola: Depressa, depressa, San Beneto! A gôndola afasta-se a toda a pressa. Em San Beneto, em casa de Jerónimo Migliori, Pantaleão Pessoa, frei Crisóstomo, António Brito Pimentel e Nuno Costa conversavam com frei Estêvão Sampaio recém-chegado de Paris. Era frei Estêvão um dominicano de grande prestígio. As obras que eu escrevi?, encolhia os ombros aos que o elogiavam pelas inúmeras vidas de santos e varões ilustres da sua ordem, que publicara em Paris e incorporara no seu Thesaurus. Também se não envaidecia do talento e saber que todos lhe reconheciam, do renome de grande latinista... Os meus pergaminhos são outros, o ter tido o meu berço em Guimarães, ser afeiçoado à casa de Vimioso e, por ter sido partidário do senhor Dom António, terem-me encarcerado os Castelhanos. E a vossa fuga, frei Estêvão? Sabeis o que é descer uma muralha altíssima pendurado de um lençol que a todo o momento ameaça romper-se e precipitar um desgraçado no abismo? E recordava o exílio em França, em Tolosa, a universidade, o doutoramento em teologia, a amizade com Carlos IX e Henrique III, reis de França, e com o seu capelão, o bispo de Angers, a quem dedicara o Thesaurus... Mas agora... Mal soube da novidade, meti-me a caminho. Dom João Castro, neto do grande vice-rei da Índia, dom Jerónimo  Portugal e o padre José Teixeira pediram-me muito empenhados lhes escrevesse logo que veja esse rei ressuscitado. Onde está ele? De visita ao arcebispo de Espálato, que muito o tem ajudado junto do papa. Chegará em breve. Estou ansioso, ficai sabendo, por beijar a mão ao meu rei.

No estreito rio a gôndola atraca à soleira de uma porta. Marco Túlio salta da embarcação para o degrau de pedra e entra estugado na casa e na sala onde estão os portugueses: Senhores, el-rei foi preso. Que dizeis? Estávamos em casa do arcebispo quando chegaram os guardas, de mando do Conselho dos Dez, e o levaram preso. Meu Deus!, disse Nuno Costa. E agora?» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

 JDACT, Fernando Campos, História, Literatura, 

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Pode lá ser! O rei morreu naquela batalha... Exactamente. E vós dais importância a mais um impostor? Não fostes vós que me contastes terem aparecido já uns três outros e... e, uma vez desmascarados..., enforcados, eu sei»

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O Sósia

«(…) Procura-se o vulto do príncipe e logo se topa, nas pregas da noite, no esconderijo dos segredos, com o veneno, o punhal do assassino, o egoísmo do adulador, a hipocrisia do traidor... É verdade, Senhor. Lia aquela parte em que se diz que, para se conservar um reino conquistado, é preciso extinguir a família do príncipe... E eu fui traidor do meu próprio reino. Com levá-lo à ruína e a ser ocupado por estranhos, matei-me a mim próprio e, não prevenindo descendência, extingui a família do príncipe... Não, meu Senhor, não, acudia vivamente frei Crisóstomo. Vós ressuscitastes. Estais aqui. O que esse texto quer dizer, isso sim, é que todo o cuidado é pouco, aqui e agora, mesmo entre nós, com o embaixador espanhol don Inigo Mendoça. Sim, ajudou Pimentel. É de recear o que fará quando souber da vossa presença, Senhor, aqui em Veneza.

E quem de nós lho iria dizer?, perguntava Nuno Costa. Daqui não sairá qualquer inconfidência, confirmou com rispidez Pantaleão Pessoa. Todavia, de nada valeu a firmeza de Pessoa, que a traição já se havia instalado entre nós. Uma noite... Na noite húmida, embrulhado em capa negra, a aba larga do chapéu derrubada sobre a cara, caminha estugado um vulto, cosido cauteloso com as paredes das casas. Junto do palácio do embaixador de Espanha, passa a monumental frontaria, rodeia o edifício por uma viela e, depois de vigiar a todos os lados, estaca em frente de uma pequena porta das traseiras, a que bate três pancadas espaçadas. A portinhola abriu-se e ele sumiu-se no interior da casa. Caminhou por um corredor até um pequeno vestíbulo que dava para a copa e as escadas de serviço. Um mordomo, acompanhado de um criado com uma candeia na mão, indicou-lhe o caminho, depois de lhe ter pegado no chapéu, no capote e nas luvas. Por aqui, senhor, disse e, subidas as escadas e passada uma comprida galeria, abriu uma porta e introduziu a visita no salão do embaixador. Ah! Sois vós, Nuno Costa, saudou don Inigo Mendoça. Que novidades me trazeis? Estrondosas, senhor embaixador, completamente estrondosas!, disse o português sentando-se.

E, por mais de uma hora, estiveram conversando a meia voz. Acompanhado do seu secretário, o embaixador de Espanha, apesar da idade avançada, atravessou rapidamente a piazzetta e dirigiu-se ao portal do palácio do Doge. Entrou, passou o arco Foscari sem olhar para as estátuas de Adão e Eva, cópias de Rizzo, galgou a grande escadaria, entre o Marte e o Neptuno de Sansovino, e subiu ao salão do Conselho, em que foi recebido pelo doge, Já sabeis decerto, senhor, disse, após as saudações, que temos em Espanha novo rei? Quê! O rei Filipe morreu? ... e agora subiu ao trono seu filho Filipe terceiro. Deus tenha em sua glória o pai e cubra de bênçãos o filho. Amém. Mas, além desta notícia, que creio ter-vos trazido em primeira mão, venho comunicar-vos assunto que se me afigura grave e solicitar a vossa pronta intervenção. Credo, don Inigo! De que se trata? Apareceu em Veneza, vai para seis meses, um desconhecido que pretende ser o rei Sebastião de Portugal. Pode lá ser! O rei morreu naquela batalha... Exactamente. E vós dais importância a mais um impostor? Não fostes vós que me contastes terem aparecido já uns três outros e... e, uma vez desmascarados..., enforcados, eu sei. E então? Então..., o caso não teria importância, se não tivesse assumido proporções alarmantes. Como assim? Um grupo de portugueses aqui residentes reconheceu-o. Falaram com o núncio apostólico, foram ao papa..., e o papa...?, reconheceu-o... Que me dizeis?, ... e parece que vai emitir uma bula... Estais bem informado. A ambição, senhor, e o dinheiro..., sabeis como é..., sempre corromperam os fracos. Um traidor entre eles?  Traidor! Que nome tão feio! Um servidor de Sua Majestade o rei Filipe». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

 Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura, 

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Diz-me, Ordonho de Compostela, vou mesmo ser mordomo dela? O outro gargalhou-se, com ar de quem o estava a enganar: Cala-te, ó reles pigmeu, nem sequer mandarás no que é teu!»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu. Sábado de Aleluia. Abril de 1126

«(… ) Afonso Henriques, depois de se ter ausentado para falar com sua mãe, reapareceu junto de nós bem-disposto e decidiu seguir a minha sugestão de que fôssemos cear à festa dos populares, que decorria fora das muralhas do castelo. E o Braganção?, perguntou Gonçalo. Alguém garantiu que andava de roda de Sancha Henriques, e partimos mais uma vez sem ele, enrolados nos nossos mantos, para tentarmos passar despercebidos entre o povo, que comia, bebia, cantava e dançava à volta das fogueiras. Lavradores e almocreves, jograis e trovadores, soldadeiras e prostitutas, cavaleiros-vilões e peões, escudeiros e criadas do castelo, padeiras e talhantes, todos aproveitavam aquela noite para se alegrarem, enquanto os muitos mendigos de rua pousavam como moscas nos restos de comida da festarola.

A dado momento, cruzámo-nos com o homem que, no dia antes, interpretara Jesus durante a missa, e Gonçalo comentou: Lá vai o Cristo, ressuscitou um dia mais cedo, à conta da pinga! O indivíduo cambaleava e rasou um grupo de mal-encarados, sentados no chão sem beber ou dançar, um dos quais tinha a cara deformada, avermelhada e inchada, mal se vendo o olho esquerdo. Afonso Henriques murmurou: São os homens do Gondomar, vão para Soure amanhã. Gonçalo fez uma careta arrepiada e disse: E queriam que eu fosse com eles! Morria de susto, com aquele camafeu a meu lado todas as noites!

Talvez fosse aquela horripilante enfermidade que distinguia o grupo e o afastava da festa geral. Conversavam de cabeça baixa, como se suspeitassem de alguém ou estivessem fugidos à justiça régia. Deixámo-los para trás e dirigimo-nos a uma pequena tenda dentro da qual se servia o vinho, onde demos com a rapariga normanda, perante quem Afonso Henriques decidiu ridicularizar Gonçalo. O Sousinha diz que passou a noite de ontem convosco. Elvira parou de servir o vinho, irritada. Era mesmo alta e o seu cabelo estava agarrado com um carrapito, mas o brilho nos seus olhos, que crepitara ao ver o príncipe, extinguiu-se num ápice. Não falais verdade, não sois de confiança, disse a Gonçalo. Este, habituado mais a escarnecer do que a ser escarnecido, murmurou que estava bêbado, mas Elvira manteve o ar zangado. Pois ficai sabendo que nem em sonhos me daria a vós. Ofendida na sua reputação, virou-nos as costas e saiu da tenda, abandonando o serviço, apesar dos protestos de quem esperava por vinho. Afonso Henriques ergueu as sobrancelhas e murmurou: É no que dão as vossas trapaças...

Gonçalo encolheu os ombros e logo sugeriu que nos acercássemos das fogueiras, onde havia risada geral, originada por dois rapazes gémeos. Eram roliços bobos da Galiza, pagos pelo Trava para soltarem larachas e divertirem a populaça, chamando-se um Fruela e o outro Ordonho, como os antigos reis godos das Astúrias. O seu evidente talento enchera um círculo de gozo à sua volta, obrigando-nos a espreitar por cima das cabeças. De rabo para a plateia, Fruela perguntava: Ó Fernão Peres, é disto que queres? Depois da gargalhada geral, logo o irmão Ordonho, empertigando-se em imitação de um homem alto e forte, lhe retorquiu: Prepara-te bem, minha campeã, vais fazer tenda toda a manhã!

A malícia atingia Dona Teresa e o seu amante, embora de forma enviesada, glorificando o Trava como macho viril, o que não era de estranhar, pois era ele quem pagava aos bobos. Porém, depressa estes desviaram o alvo e apontaram a Paio Soares. O gorducho Fruela virou-se para o redondo Ordonho e perguntou, de mão na anca: Diz-me, Ordonho de Compostela, vou mesmo ser mordomo dela? O outro gargalhou-se, com ar de quem o estava a enganar: Cala-te, ó reles pigmeu, nem sequer mandarás no que é teu! O humor cínico dos galegos reduzia Paio Soares a uma frágil marioneta nas mãos do Trava. Afagando o baixo-ventre, como se estivesse com desejo de fornicar, Fruela questionou o irmão: Arranjam-me uma bela noiva para casar, onde minha velha piça possa enfiar? A multidão soltou uma risada e Ordonho piscou o olho ao mano. Já amanhã voltarás a filhar, minha bela sobrinha irás montar!» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,


terça-feira, 21 de junho de 2022

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Minha prima olhou-o fixamente e acrescentou: É isso que tendes de contar a vosso pai. O rapaz deu o seu mudo acordo ao estratagema. Quando, já na tenda, Paio Soares lhe perguntou o que se passara entre Afonso Henriques e Chamoa…»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu. Sábado de Aleluia. Abril de 1126

«(… ) No dia seguinte, Maria Gomes disse-me que, naquele momento, Chamoa sentiu uma emoção muito forte. Era o seu sonho de criança, casar com um príncipe, e agora ali estava ela nas mãos de um, o príncipe de Portugal! Deus meu, que alegria! Mas, o que dirão meus pais, minha irmã?, pensou. Segundo contou, Afonso Henriques terá insistido: É a minha vontade e vosso pai aprova de certeza, a defesa de Toronho fica garantida! Será a união da Galiza, o príncipe do Condado casado com uma Trava! Dizei que me amais, que vos casais comigo!

Chamoa estava já enamorada dele e acenou com a cabeça. Acreditou que ia ser princesa, ou rainha. Inebriada com aquele pensamento intoxicante, esteve quase a deixar-se levar pela loucura do momento, mas conteve-se e alegou que, mesmo assim, era melhor ele não se meter dentro dela. Contudo, para o compensar da momentânea desilusão, Chamoa abriu-lhe a dalmática, puxou-lhe o saiote para cima e, entusiasmada com o que via, exclamou: Afinal, o milagre não foi só nas pernas! Quando terminou de o beijar, deitaram-se lado a lado, enamorados, e renovaram as promessas de casamento, antes de se comporem e regressarem pela estrada por onde tinham vindo. No seu lugar e embora destroçada, minha prima Raimunda mantivera-se imóvel, e quando observou Ramiro verificou, espantada, que ele havia desmaiado. Em passo rápido, aproximou-se dele, ajoelhou ao seu lado e abanou-o. O jovem acordou, atarantado, e Raimunda disse-lhe que os outros já tinham retornado à festa de Sábado de Aleluia. Confuso, Ramiro quis saber o que se passara, mas ela disse-lhe apenas: Nada, só conversaram.

Minha prima olhou-o fixamente e acrescentou: É isso que tendes de contar a vosso pai. O rapaz deu o seu mudo acordo ao estratagema. Quando, já na tenda, Paio Soares lhe perguntou o que se passara entre Afonso Henriques e Chamoa, o filho limitou-se a repetir as palavras de Raimunda: Nada, só conversaram. Tanto Raimunda como Ramiro mentiam muito bem, mas só dois grandes mentirosos, na sua ilusão, acreditam que as mentiras são seres mortos e bem sepultados e não seres vivos, que um dia reaparecem. Quando a verdade surge, o sonho dos mentirosos torna-se pesadelo. Ao final dessa tarde, enquanto muitos de nós jogávamos à malha, ou nos torneávamos em combates de espada que eu sempre vencia, correu a notícia de que o vaidoso Paio Soares se fechara, amuado, na casa onde pernoitava, e se recusava a comparecer à ceia. Alguns diziam que estava enraivecido com o desaparecimento súbito do seu belíssimo punhal, outros que se enciumara com a corte que Afonso Henriques fizera a Chamoa, mas, fosse qual fosse a razão, o certo é que dona Teresa cancelou o repasto público». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

 JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura, 

O Segundo Sexo. Simone Beauvoir. «Mas a fêmea fecundada tem um triste destino: afunda solitariamente no solo e não raro perece de esgotamento, pondo os primeiros ovos»

Cortesia de wikiedia e jdact

Factos e Mitos. Destino

«(…) Um dos traços mais notáveis, quando percorremos os diversos graus da escala animal, é o facto de que de baixo para cima a vida se individualiza; em baixo, ela emprega-se unicamente na manutenção da espécie, em cima ela gasta-se através de indivíduos singulares. Nas espécies rudimentares, o organismo como que se deixa reduzir ao aparelho reprodutor; nesse caso, há primazia do óvulo, e portanto da fêmea, posto que o óvulo está principalmente votado à pura repetição da vida; mas ela não passa de um abdómen e a sua existência é por inteira devorada pelo trabalho de uma monstruosa ovulação. Atinge, em relação ao macho, dimensões gigantescas; muitas vezes seus membros são apenas cotos, seu corpo um saco informe, todos os órgãos degeneram em proveito dos ovos. Em verdade, embora constituindo dois organismos distintos, machos e fêmeas mal podem então ser encarados como indivíduos, formam um só todo com elementos indissoluvelmente ligados: são casos intermediários entre o hermafroditismo e o gonocorismo. Assim, entre os entoniscíneos que vivem como parasitas no carangueijo, a fêmea é uma espécie de chouriço esbranquiçado, envolvido em lâminas incubadoras que encerram milhares de ovos; no meio destes encontram-se minúsculos machos e larvas destinadas a fornecer machos de substituição.

A escravização do macho não é ainda mais total entre os edriolidíneos: acha-se ele fixado sob o opérculo da fêmea, não possui tubo digestivo pessoal e seu papel é unicamente reprodutor. Mas em todos esses casos não é a fêmea menos escravizada do que ele; ela está escravizada à espécie. Se o macho se encontra preso à fêmea, esta também se encontra presa ou a um organismo vivo de que se nutre como parasita ou a um substracto mineral; consome-se na produção dos ovos que o minúsculo macho fecunda. Quando a vida assume formas mais complexas, esboça-se uma autonomia individual e o laço que une sexos se afrouxa. Mas entre os insectos os dois sexos permanecem estreitamente subordinados aos ovos. Amiúde, como entre os efemerópteros, macho e fêmea morrem imediatamente depois do coito e da postura; por vezes, como entre os rotíferos e os mosquitos, o macho, desprovido de aparelho digestivo, sucumbe após a fecundação, enquanto a fêmea, que pode alimentar-se, sobrevive; é que a formação dos ovos e a postura exigem algum tempo. A mãe expira logo que o destino da geração seguinte se acha assegurado. O privilégio da fêmea, entre grande número de insectos, provém de ser a fecundação um processo geralmente muito rápido, ao passo que a ovulação e a incubação dos ovos exigem um trabalho demorado. Entre as térmitas, a enorme rainha, empanturrada de papa, que põe um ovo por segundo até que, afinal estéril, é exterminada impiedosamente, não é menos escrava do que o macho anão, grudado ao abdómen dela e que fecunda os ovos à proporção que vão sendo expelidos. Nos matriarcados dos formigueiros e das colmeias, os machos são uns importunos exterminados em cada estação: no momento do voo nupcial, todos os machos saem do formigueiro e alçam voo em busca das fêmeas; se as atingem e fecundam, morrem logo após, esgotados; se retornam, as operárias impedem-nos de entrar, matam-nos ou deixam-nos morrer de fome. Mas a fêmea fecundada tem um triste destino: afunda solitariamente no solo e não raro perece de esgotamento, pondo os primeiros ovos». In Simone Beauvoir, O Segundo Sexo, volume 1, 1949, Quetzal Editores, colecção Serpente Emplomada, 2015, ISBN 978-989-722-193-4.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, Simone Beauvoir, Sexo, A Arte, Literatura,

segunda-feira, 20 de junho de 2022

O Segundo Sexo. Simone Beauvoir. «É muito difícil dar uma descrição geralmente válida da noção de fêmea; defini-la como condutora de óvulos e o macho como condutor de espermatozoides é muito insuficiente…»

 

Cortesia de wikiedia e jdact

Factos e Mitos. Destino

«(…) Demonstrou-se, mediante várias experiências, que fazendo variar o meio endocrínico podia-se agir sobre a determinação do sexo; outras experiências, de enxertia e de castração, realizadas em animais adultos, conduziram à teoria moderna da sexualidade. Nos machos e fêmeas dos vertebrados o soma é idêntico, podendo-se considerá-lo um elemento neutro; é a acção da gonádica que lhe dá as características sexuais. Certos hormónios secretados operam como estimulantes e outros como inibidores; o próprio tractus genital é de natureza somática e a embriologia mostra que ele se determina sob a influência dos hormónios, partindo de esboços bissexuais. Há intersexualidade quando o equilíbrio hormonal não foi satisfeito e nenhuma das duas potencialidades sexuais se realizou nitidamente.

Igualmente distribuídos na espécie, evoluídos de maneira análoga a partir de raízes idênticas, os organismos masculinos e femininos, uma vez terminada sua formação, parecem profundamente simétricos. Ambos se caracterizam pela presença de glândulas produtoras de gametas, ovários ou testículos, sendo os processos de espermatogénese e ovogénese, já o vimos, análogos; essas glândulas depositam sua secreção num canal mais ou menos complexo segundo a hierarquia das espécies. A fêmea deixa sair o ovo directamente pelo oviduto ou o retém na cloaca ou em um útero diferençado antes de expulsá-lo; o macho lança o sêmen para fora, ou é munido de um órgão copulador que lhe permite introduzi-lo na fêmea. Estaticamente, macho e fêmea, aparecem, portanto, como dois tipos complementares. É preciso considera-los de um ponto de vista funcional para apreender-lhes a singularidade.

É muito difícil dar uma descrição geralmente válida da noção de fêmea; defini-la como condutora de óvulos e o macho como condutor de espermatozoides é muito insuficiente, porquanto a relação do organismo com as gonádica é extremamente variável. Inversamente, a diferenciação dos gametas não afecta directamente o conjunto do organismo. Pretendeu-se, por vezes, que o óvulo, sendo maior, consumia mais força viva do que o espermatozoide, mas este é secretado em quantidade infinitamente mais considerável, de modo que, nos dois sexos, o desgaste se equilibra. Quiseram ver na espermatogénese um exemplo de prodigalidade e na ovulação um modelo de economia, mas há também neste fenómeno uma absurda profusão: a imensa maioria dos óvulos nunca é fecundada. Como quer que seja, as gonádicas e os gametas não nos oferecem um microcosmo de todo o organismo. É este que se faz necessário estudar directamente». In Simone Beauvoir, O Segundo Sexo, volume 1, 1949, Quetzal Editores, colecção Serpente Emplomada, 2015, ISBN 978-989-722-193-4.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, Simone Beauvoir, Sexo, A Arte, Literatura,

domingo, 19 de junho de 2022

Os Conquistadores de Lisboa. Domingos Amaral 3. «Aquela era a senha de felicidade, o convite para Mem tomá-la, a palavra que abria as portas do seu corpo. Mas não era possível»

 

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Silves, Junho de 1141

«(…) Futuro poderoso, bem mais gostoso.

Já no palácio, Mem encontrou Zaida nos jardins. Há meses que não dormiam juntos, mas ela abraçou-o com um carinho demasiado intenso, apertando-o contra o peito de forma nada inocente. Tenho saudades de vós..., murmurou a princesa. Mantinha viva a ternura do passado, desejava continuar a vê-lo, podiam encontrar-se em segredo. Aliás, recordou a princesa, as mulheres de Córdova nunca haviam amado só um homem, essa tradição durava há séculos, queria honrá-la. Por isso, pegou na mão do almocreve e murmurou: Mem querido...

Aquela era a senha de felicidade, o convite para Mem tomá-la, a palavra que abria as portas do seu corpo. Mas não era possível. Zaida não podia ter o melhor dos dois mundos, um emir no palácio e um almocreve atrás de uma laranjeira no jardim. A guerra vai começar..., alertou Mem, dando um passo atrás, para melhor combater o feitiço que ela um dia lhe lançara. Logo após a derrota dos muçulmanos na batalha de Ourique, a princesa Zaida zangara-se violentamente com a irmã Fátima, com a prima Raimunda e com os respectivos maridos, Abu Zhakaria, governador de Santarém, e Ismar, príncipe de Córdova. As acusações mútuas de traição, a distribuição de culpas pela derrota perante os portucalenses, o acinte das duas mulheres contra ela, recipitaram a ruptura, e Zaida, acompanhada por Mem, fugira dos outros para se juntar a Ibn Qasi. Ismar, Raimunda, Fátima e Zhakaria vão guerrear-vos!, previu Mem, sugerindo uma nova estratégia. Seria inteligente propor um pacto ao rei de Portugal. Ibn Qasi precisa de aliados. O almocreve, apesar de a amar, também queria a glória dela. Contudo, naquele momento, ela não pensava em guerras e insistiu: Mem querido...

Roçou-se, dengosa, enquanto ele reparava nos criados que cirandavam pelo jardim ou espreitavam à varanda. Não podemos..., disse Mem. Falai com Ibn Qasi. E não vos esqueçais de denunciar-lhe o alcaide de Mértola, esse estafermo!

Terminada a batalha de Ourique, Mem e Zaida tinham rumado a Mértola, onde haviam passado mais de um ano à espera de Ibn Qasi, entretanto ausente em Marrocos.

Pretendente distante, diverte-se o amante.

Nesses dias, Mem dormira sempre com a princesa, mas enquanto esperavam pelo regresso do sufi deram-se conta de que o indivíduo a quem Ibn Qasi confiara o governo da cidade de Mértola era um falso. Uma víbora..., ajuizara certo dia Zaida. Ibn Wasir nascera árabe e descendia de sírios, mas era a sua propensão para a traição que os preocupava. As primeiras vezes que conviveram com aquele ser curto de perna e magro de carnes, que falava depressa de mais, cuspia saliva e parecia sempre nervoso, Mem e Zaida notaram que Ibn Wasir tanto proclamava como essencial a falência estrondosa do califado almorávida de Marraquexe, liderado por Ali Yusuf, como se alvoroçava contra o perigo do avanço dos almóadas, os novos aliados de Ibn Qasi. Talvez o meu mestre se tenha equivocado, murmurara o desleal.

Mais desagradável ainda fora a suspeita que ele lançara sobre as lealdades religiosas de Zaida. Haveis vivido muito tempo entre cristãos?, perguntara Wasir, com óbvia malícia. Disseram-me que haveis pensado em converter-vos, para poderdes desposar Afonso Henriques... Incomodada, nas semanas seguintes a princesa evitou o alcaide e limitou-se a conviver com Mem, mas depressa a beleza e a afabilidade serena do amigo começaram a causar-lhe sarilhos». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Os Conquistadores de Lisboa, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 

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sexta-feira, 17 de junho de 2022

Os Conquistadores de Lisboa. Domingos Amaral 3. «Órfã de pai e mãe, Zaida era uma desconhecida em Córdova, pois estivera prisioneira dos cristãos mais de duas décadas. O sangue real que lhe corria nas veias…»

jdact

A Intriga de Compostela 1140-1142. Arcos de Valdevez, Março de 1141

«(…) Apesar deste alvoroço em Arcos de Valdevez, não chegara o momento certo de a intriga de Compostela tomar conta de Chamoa. A lealdade apaixonada de uma mulher só se quebra se ela se sentir traída, o que ainda não era o caso. Pouco depois, para evitar mencionar o que conversara com o imperador de Leão, Chamoa proclamou que devíamos saber por onde andavam a princesa Zaida e o almocreve Mem, pois Afonso VII iria atacar Córdova em breve e certamente que a vida dos seus queridos amigos poderia correr perigo. Mais uma vez, meus queridos filhos e netos, em Arcos de Valdevez, a minha cunhada adiou a desconfortável revelação da intriga de Compostela e nada me disse, preferindo desviar-nos a atenção para o Sul, para o mundo muçulmano, que andava, também ele, em violento turbilhão.

Silves, Junho de 1141

Naquela tarde de Junho, o almocreve Mem pediu para ser recebido pela princesa Zaida, que agora vivia no palácio de Silves e ia desposar Ibn Qasi, o sufi que reinava no Al-Gharb.

Amiga a casar, tempo de abalar.

Desde que a Primavera nascera e milhares de flores tinham transformado Silves num caleidoscópio maravilhoso de cores, tornara-se evidente para Mem que aquele príncipe sufi cuja barba era apenas uma fina linha junto ao queixo e que usava sempre sandálias para se sentir leve, estava possuído por uma fortíssima paixão por Zaida. Lisonjeada, a princesa entregara-se, sentindo que finalmente tinha a seu lado um amável e poderoso chefe.

Princesa sem dono, procura um trono.

Enquanto existira uma ínfima hipótese de convencer Afonso Henriques a casar-se com ela, Zaida tudo tentara para o seduzir, admitindo mesmo converter-se ao cristianismo. Mas, depois de rejeitada e mal se vira longe, forçara o coração a substituir o príncipe de Portugal por Ibn Qasi, o candidato alternativo disponível.

Mulher com talento, engrandece com o casamento.

Órfã de pai e mãe, Zaida era uma desconhecida em Córdova, pois estivera prisioneira dos cristãos mais de duas décadas. O sangue real que lhe corria nas veias, era neta do último califa cordovês, Hixam III, de nada servia no presente à bonita e voluptuosa princesa, se ela não tivesse a protecção de um marido, a riqueza de uma família nobre da Andaluzia onde se amparar. O generoso corpo, os longos cabelos negros, a fina inteligência e a sua imensa cultura nada obteriam sem o poder de alguém que os potenciasse.

Esposa de emir, poderá progredir.

Contudo e para Mem, a união amorosa entre Zaida e Ibn Qasi representava o fim de uma amizade que incluíra as brincadeiras tórridas na cama. O bonito e loiro almocreve sempre soubera que, no dia em que ela encontrasse um marido à altura das suas vastas ambições, ele teria de se afastar. Zaida era uma Benu Ummeya, uma das derradeiras descendentes da família dos antigos califas de Córdova, e aspirava ao regresso ao trono andaluz. E agora Ibn Qasi podia carregá-la até lá». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Os Conquistadores de Lisboa, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 

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terça-feira, 14 de junho de 2022

Os Conquistadores de Lisboa. Domingos Amaral 3. «Que quereis que faça?, angustiou-se Chamoa. O imperador baixou a voz e falou na morte do conde Henrique, em Astorga, muitos anos antes. Nesse triste dia…»

jdact

A Intriga de Compostela 1140-1142. Arcos de Valdevez, Março de 1141

«(…) A minha cunhada bateu as pestanas, baralhada, mas foi obrigada a novo volteio naquelas mãos masculinas fortes, antes de ouvir da boca de Afonso VII a intriga que escutara já de seu pai. Afonso Henriques podia não ser o verdadeiro filho do conde Henrique e de dona Teresa, pois esse tinha nascido aleijado! Foi um milagre!, contestou Chamoa, fiel à história oficial. Os milagres são sempre tão oportunos..., comentou Afonso VII. Sempre a sorrir, este recordou que já sua mãe, a rainha Urraca, contava que Egas Moniz decerto trocara os bebés, colocando o seu filho mais velho no lugar do verdadeiro príncipe. O Lourenço Viegas?, espantou-se Chamoa. O imperador ignorou a pergunta e, com a frieza de um mestre das estocadas, atirou-lhe de súbito: Vosso marido, Paio Soares, nunca vos falou disso?

Confrontada com tão inesperada interrogação, Chamoa tropeçou e o duo parou de dançar. Atrapalhada, ela sentiu a cabeça andar à roda e foi o monarca leonês, qual gentil cavalheiro, a ampará-la.

Meu marido sabia e nunca me contou?

Eu estava demasiado longe para os ouvir e apenas me apercebi da clara angústia estampada no rosto de minha cunhada. A referência ao primeiro esposo abanara-lhe as mais sólidas convicções e balbuciou: Paio Soares só me contou o segredo da relíquia... Como se apenas quisesse o bem dela, Afonso VII recordou-lhe que Paio Soares fora alferes do conde Henrique e homem de confiança deste. Se conhecia o esconderijo da relíquia sagrada, certamente também saberia o segredo das crianças trocadas. Com um franzir de testa inquisitivo, o imperador questionou-a: Não foi Afonso Henriques quem o matou, a mando dos nobres portucalenses, de Egas Moniz e de outros? Aterrada, Chamoa suspeitou pela primeira vez de que a morte de Paio Soares podia não se justificar apenas pelos ciúmes que Afonso Henriques lhe tinha, mas por algo mais sinistro, uma conspiração contra um dos poucos que conheciam a verdade sobre o nascimento do príncipe.

Bela Chamoa, porque desejam Egas e Peculiar afastar-vos da corte?, interrogou-se o imperador, respondendo de imediato à questão que lançara. Temem que façais revelações incómodas! As pestanas de minha cunhada batiam cada vez mais velozes, mas o monarca leonês não se comoveu e aplicou-lhe um golpe final afiado, declarando que o esclarecimento daquela questão seria essencial para decidir o futuro do pai dela. Ou Chamoa conseguia desvendar o mistério das crianças trocadas, caso em que Gomes Nunes se mantinha como conde de Toronho, ou o seu adorado pai sofreria um exílio doloroso.

Nossa Senhora, Virgem Santíssima!

Aterrada, Chamoa perguntou como poderia desatar tal nó sem afrontar Afonso Henriques? Se pusesse em causa a identidade do príncipe, não só perderia o amor dele, como seria expulsa do Condado Portucalense! Era um beco sem saída, por isso exclamou: Faça o que fizer, meu pai está perdido! Nesse momento, vi pelo canto do olho que finalmente Afonso Henriques se aproximava, irritado com seu primo por este monopolizar as atenções de Chamoa. Suspirei fundo, o pior passara, o meu melhor amigo não os vira enlaçados. Que quereis que faça?, angustiou-se Chamoa. O imperador baixou a voz e falou na morte do conde Henrique, em Astorga, muitos anos antes. Nesse triste dia, além de Paio Soares e de meu pai, Egas Moniz, também havia estado presente um confessor, que perdoara os últimos pecados do pai de Afonso Henriques. Talvez esse padre saiba a verdade, tentai descobrir quem é, terminou Afonso VII, virando-se depois para trás a sorrir, enfrentando Afonso Henriques». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Os Conquistadores de Lisboa, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 

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segunda-feira, 13 de junho de 2022

O Segredo Mortal dos Templários. Robert Ambelain. «… quem viu retirar de suas Histórias e Anais todos os capítulos que tratavam sobre os acontecimentos da Palestina daquela mesma época»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) É perfeitamente evidente que os autores antigos que viveram antes de Jesus, e por conseguinte que o ignoraram, ou que simplesmente compuseram peças de teatro, não tinham necessidade alguma de ser censurados ou interpolados. Não acontecia o mesmo no caso de historiadores como Flavio Josefo, Tácito ou Suetónio, e, sob este critério, nem sequer um cronista satírico como era Petrónio escapou ao zelo dos monges copistas. Em efeito, seu célebre Satiricen não contém, nas cópias manuscritas que chegaram até nós, mais que 250 páginas, das 3.000 que compunham, como sabemos por outras fontes, as cópias primitivas do manuscrito original. É, portanto, seguro que esse inventário da dolce vita sob o império de Nero não era tão somente isso, e que Petrónio foi censurado sem piedade, tal qual Tácito, quem viu retirar de suas Histórias e Anais todos os capítulos que tratavam sobre os acontecimentos da Palestina daquela mesma época.

Quanto à autenticidade absoluta dos Evangelhos canónicos, nos limitaremos a citar as palavras do abade Bergier no seu Dictionnaire de Théologie. Os homens verdadeiramente sábios em matéria de exegese, e sobretudo sinceros, reconhecem que o texto do Novo Testamento não se remonta a antes do sexto século.

Os Manuscritos dos Evangelhos Canónicos

Codex Sinaiticus: Data: século IV. Contém quase todo o Antigo Testamento, o Novo Testamento, a Carta de Barnabé, o Pastor do Hermas (parcialmente). Descoberto em 1844 pelo Tischendorf, no mosteiro da Santa Catalina, no monte Sinai. Encontra-se actualmente no Museu Britânico de Londres. Codex Vaticanos: Data: século IV. Contém o Antigo Testamento (salvo umas cinquenta páginas, perdidas), e o Novo Testamento até à Epístola aos Hebreus. Muito má ortografia. Entrou no Vaticano entre 1475 e 1481. Codex Alexandrinus: Data: século V. Contém o Antigo Testamento, e o Novo Testamento a partir de Mateus. Texto menos bom que o precedente, especialmente nos Evangelhos. Encontra-se no Museu Britânico de Londres.

Codex Ephraemi Rescriptas: Data: século V. Palimpsesto. O texto bíblico foi recoberto, no século XII, por uma versão grega de tratados de são Efrén. É de origem egípcia, e foi levado à Paris por Catarina de Médicis. Conserva-se ali na Biblioteca Nacional. Codex Bezae, ou Codex Cantabrigiensis: Data: séculos V ou VI. Compreende, com algumas lacunas, os quatro Evangelhos e os Actos. Manuscrito bilíngue, greco-latino. Encontrava-se do século IX em Lyon. Teodoro de Béze o cedeu em 1581 à Universidade de Cambridge, onde se encontra actualmente. Codex Freer: Data: século V. Contém os quatro Evangelhos, com algumas lacunas. Compreende um acréscimo depois de Marcos. Foi comprado em 1906 pelo Freer a um mercador árabe. Encontra-se actualmente em Washington». In Robert Ambelain, O Segredo Mortal dos Templários, Jesus ou le mortel secret des Templiers, 1970, Éditions Robert Laffont, Paris, Ediciones Martinez Roca, 1982, Barcelona, ISBN 842-700-727-2.

Cortesia de Roca/JDACT

Templários, Conhecimento, Europa, JDACT, Robert Ambelain, Literatura, 

O Segredo Mortal dos Templários. Robert Ambelain. «É habitual cantar os louvores dos monges copistas, esses bons e excelentes padres que, nos mosteiros da Idade Média, recolheram e copiaram os manuscritos…»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Sem dúvida tratava-se de um baptismo de água recebido no seio da Igreja católica, mas não recebia nenhum outro em substituição daquele. Partindo de todas estas constatações, parece-nos muito difícil seguir sustentando que o catarismo era apenas uma forma primitiva do cristianismo. Mas bem ao contrário, tratava-se em realidade de uma religião de forma absolutamente maniqueia, que não dissimulava seu rechaço do Jesus clássico da História e sua incredulidade total quanto a sua Encarnação, sua Paixão, sua Ressurreição e sua Ascensão se refere. O que ficava então do cristianismo? Nada, evidentemente. Este foi o caminho que seguiram, por sua vez, os Templários; menos de setenta anos separam a fogueira de Montségur de La Citè, e foi a mesma manopla de ferro que amordaçou a Verdade. Porque: As armas foram, em todo o tempo, os instrumentos da barbárie. Asseguraram o triunfo da matéria, e da mais pesada, sobre o espírito. Removeram, no fundo dos corações, o lado dos piores instintos.

As narrações escritas sobre pergaminhos são destruídas por aqueles que querem manter a ignorância, mas as palavras caem nas almas como pombas vindas de longe que, apenas pousam, partem de novo. E esta é uma forma de justiça... In Maurice Magre, Le Sang de Toulouse

Vamos dar a seguir os dados sucintos dos manuscritos mais antigos de uma biblioteca básica do cristianismo. A sua leitura, o leitor poderá convencer-se daquilo que afirmamos ao longo desta obra, ou seja, que os documentos reais (e não aqueles citados como desaparecidos!) não são jamais anteriores ao século IV. Mencionamos os Evangelhos apócrifos a seguir os Evangelhos canónicos, dado que seu maior interesse radica no facto de nos dar um reflexo do cristianismo popular das origens [...]. Constituem o complemento dessas crónicas dos primeiros tempos que são as grandes Epístolas paulinas e os Actos dos Apóstolos. [...] De um ponto de vista mais estrito, os apócrifos contribuem alguns detalhes históricos que podem não ser nada desprezíveis.

Os Manuscritos dos Autores Pagãos

É habitual cantar os louvores dos monges copistas, esses bons e excelentes padres que, nos mosteiros da Idade Média, recolheram e copiaram os manuscritos dos autores gregos e latinos. O que se omite é o que se fez dos originais. De facto, essa tarefa respondia a uma necessidade urgente: tratava-se de fazer desaparecer todo o rasto de um Jesus chefe de uma facção política, facção que frequentemente, por necessidade vital, tinha derivado ao banditismo, e cujos actos, durante mais de trinta anos, não tiveram nada de evangélicos. E também de fazer desaparecer a opinião dos autores latinos sobre o tal Jesus, assim como a dos judeus aprazíveis, opiniões que também tinham algo a dizer a respeito.

De modo que nos encontramos frente a um balanço bastante decepcionante quanto aos manuscritos dos autores antigos se refere. Os manuscritos mais antigos de Flavio Josefo são dos séculos IX e XII, e unicamente o segundo possui a famosa passagem sobre Jesus, passagem que todos os exegetas católicos sérios reconhecem como uma áspera interpolação. Sobre sua Guerra judia, às vezes intitulada Tomada de Jerusalém ou Guerras da Judeia, o texto eslavo é diferente do texto grego, e as interpolações também são diferentes. Quanto a Tácito, os manuscritos de suas Histórias e Anais são dos séculos IX e XI. E falta, precisamente, tudo aquilo que se refere aos anos cruciais do nascente cristianismo, todo o período dos 28 aos 34. Aí, uma vez mais, abundam as censuras e interpolações, às vezes de forma tão torpe que o leitor perspicaz, sem nenhuma preparação prévia, pode jogar ao exegeta e as descobrir por si mesmo. Daniel-Rops, sem querer, e ingenuamente, proporciona-nos a chave desses mistérios. Em Jesus no seu tempo nos diz o seguinte: Tome-se nota desta data: século IV. Os textos do Novo Testamento datam, em geral, do período 50-100, portanto se intercalam três séculos entre sua redação e os primeiros manuscritos completos que possuímos. Isto pode parecer exagerado, mas não é nada, devemos sublinhá-lo, ao lado do espaço de tempo que existe, em todos os clássicos da antiguidade, entre o autógrafo desconhecido e a mais antiga cópia conhecida: mil e quatrocentos anos no caso das tragédias do Sófocles, assim como nas obras de Ésquilo, Aristófanes e Tucídides; mil e seiscentos anos nas de Eurípides e Catulo, mil e trezentos anos nas de Platão, mil e duzentos nas de Demóstenes. Terêncio e Virgílio resultaram favorecidos, já que neles a demora não foi, no primeiro, mas sim de sete séculos, e de quatro no segundo». In Robert Ambelain, O Segredo Mortal dos Templários, Jesus ou le mortel secret des Templiers, 1970, Éditions Robert Laffont, Paris, Ediciones Martinez Roca, 1982, Barcelona, ISBN 842-700-727-2.

Cortesia de Roca/JDACT

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sábado, 11 de junho de 2022

Construindo uma Imagem imperial em Bizâncio. Narrativa sobre a basílica de Santa Sofia em Das Construções, de Procópio de Cesareia, século VI. Ana Maria Oliveira. «… procuramos observar a função que Santa Sofia já exercia anteriormente nesta relação, de demonstrar a junção destes dois poderes»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O presente trabalho lança um olhar sobre os relatos da reconstrução da basílica de Santa Sofia, contidos no Livro I da obra Das Construções, que foram escritos por Procópio de Cesareia, no século VI, a pedido do Imperador Justiniano. Nos dispomos, assim, a compreender como as narrativas são usadas a favor do poder imperial, à medida que a descrição criou uma imagem historiográfica de Justiniano, a qual, por conseguinte, consolidou e fortaleceu seu governo. Para tanto, no primeiro capítulo buscamos compreender o autor e seu trabalho, apresentando alguns caminhos que levam a reflexões sobre Procópio de Cesareia e seu livro, Das Construções. No segundo capítulo, pensamos como ocorreu a construção da união entre Império e Igreja, que chegou ao século VI consolidada, e então serviu como base para a representação política criada para Justiniano. Desta forma, observamos como Procópio apropriou-se ainda dessa representação para compor suas narrativas. Também neste capítulo, procuramos observar a função que Santa Sofia já exercia anteriormente nesta relação, de demonstrar a junção destes dois poderes. Isso possibilita observar a relevância histórica de uma reconstrução no século VI e, de deixar um legado escrito sobre estes acontecimentos. Assim, no terceiro capítulo, analisamos o papel histórico dos relatos sobre a basílica, ao construir uma imagem historiográfica do poder imperial, diante da forma como foi elaborado por Procópio. Foi possível, então, perceber que Justiniano e Procópio se utilizaram de heranças tradicionais a Bizâncio, sendo elas a relação com a cristandade e o espaço de religiosidade e memória presente na basílica, para consolidar o poder do governante diante não só da reconstrução de Santa Sofia, mas também através da criação de uma imagem historiográfica numa narrativa, a qual se apropriou de todos esses aspectos». In Resumo.

Procópio de Cesareia e Das Construções: Reflexões sobre o autor e a fonte

Consideramos que observar primeiramente aspectos específicos do autor e da obra é primordial para compreensão da escrita sobre a reconstrução da basílica de Santa Sofia. Para tanto, inicialmente são levantadas algumas discussões a respeito de quem foi Procópio, tendo como base uma bibliografia recente, que analisa a produção clássica, através de trabalhos de especialistas na área de História Bizantina. Desta forma, inserimos a pesquisa em discussões atuais, as quais, por sua vez, não deixam os clássicos de lado, mas sim, procuram lançar uma análise criteriosa sobre eles. Em um segundo momento, abordaremos os debates historiográficos que tem permeado nossa fonte, a obra Das Construções. Por fim, há o cuidado de observar ainda os próprios diálogos que Procópio estabelece ao início do Livro I, os quais serão o principal foco de análise ao longo da pesquisa por nele constarem as narrativas sobre a basílica.

Para compreendermos Procópio de Cesareia, há que se destacar trabalhos como os de Averil Cameron, que trazem aspectos interessantes sobre a sua vida, pois a autora articula os três escritos do historiador a alguns acontecimentos pessoais retirados especialmente da obra História Secreta. Isto se deve em grande medida pelas evidências ou fontes para compreensão da história e da carreira de escritor de Procópio serem escassas, estando na sua maioria presentes nas próprias narrativas do século VI deixadas por ele. O estudo sobre o autor também é dificultado quando tange à obtenção de informações detalhadas sobre sua cidade natal, que era a Cesareia Palestina. Cameron conta que há poucos testemunhos do século VI sobre este local, mas sabe-se que até ao século IV era um renomado centro educacional. Assim, em períodos anteriores a região era marcada pela grande circulação e diversificação de saberes, que fazem deste um espaço tradicional de educação helénica. Durante o governo de Constantino, o Grande (306-337), saíram de lá nomes como o de Eusébio, um bispo de Cesareia amplamente reconhecido pelos seus escritos sobre a História da Igreja e da Vita Constantini». In Ana Maria Oliveira, Construindo uma Imagem imperial em Bizâncio. Narrativa sobre a basílica de Santa Sofia em Das Construções, de Procópio de Cesareia, século VI, Tese de Licenciatura em História, Universidade da Fronteira Sul, Campos Chapecó, 2017, Chapecó, Wikipédia.

 Cortesia de UFFSul/Chapecó/JDACT

 JDACT, Ana Maria Oliveira, Cultura e Conhecimento, Bizâncio, Caso de Estudo, Constantinopla, O Saber,

quinta-feira, 9 de junho de 2022

O Segredo da Bastarda. Cristina Norton. «O primeiro baralho possuía tantas cartas quantas letras tem o alfabeto, escritas em minúscula, e a senhorita Felícia começou a mostrar as vogais a Eugénia enquanto pronunciava o som…»

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A Curiosidade de Eugénia

«(…) Dois meses depois, precedida por cartas de recomendação fiáveis, chegou uma mestra disposta a experimentar o original sistema com uma criança de apenas cinco anos. A senhorita Felícia Macedo apresentou-se vestida com uma saia rodada de cor cinzenta e uma blusa pérola de gola rente ao pescoço, que deixou Maria José logo encantada porque não conseguia habituar-se à moda licenciosa de camisas tão largas e decotadas que, na maioria das vezes, ao mínimo gesto deixavam a descoberto os ombros ou a curva de um seio, como se não fosse uma parte do corpo que um pudor natural levasse qualquer mulher a ocultar.

Apresentaram a mestra à filha para que recebesse a primeira aula, e Eugénia, mesmo sem mexer um único músculo da cara, demonstrou claramente não ter ficado entusiasmada com a recém-chegada. Mas, quando esta mandou a pupila sentar-se à mesa da salinha e tirou da sacola de pano que trazia pendurada no cinto quatro baralhos de cartas, e todos os membros da família Meneses que assistiam a prudente distância soltaram um Ah!, de espanto e não resistiram a pôr-se em círculo à volta delas, Eugénia pareceu conquistada.

A Bastarda

Assim que voltou ao quarto da filha, depois de acompanhar o médico à porta, Eugénia Maria não conseguiu reprimir o seu desagrado pelo modo pouco amável como Isabel Maria o tratava em cada visita que este lhe fazia. Minha filha, nem sempre a primeira impressão que temos de alguém é a melhor. Não simpatizas com o médico, nem fazes o menor esforço para o dissimular. Desde que te auscultou pela primeira vez que desconfias dele, mas, acredites ou não, é o melhor especialista em doenças de pulmões que temos, não é em vão que as pessoas com tísica vêm à Madeira tratar-se com ele, além do clima, que é muito bom, precisas da sua ajuda. Não me ralhe. Se não confio nele é porque cada dia estou pior. Ninguém sabe o que se passa dentro do meu corpo nem se apercebe das pequenas mudanças que só eu sinto. As forças deixam-me aos poucos. Tenho medo de morrer. Isabel Maria... Com pensamentos tão pessimistas não podes lutar contra a doença. Tem fé em Deus, minha querida. Olha, a propósito de não gostares do médico, lembrei-me de uma coisa. Sabes que, no dia em que a minha mãe conheceu a senhorita Felícia, ela não lhe caiu nada bem? Achou-a demasiado alta e magra, quase seca, no seu olhar pareceu-lhe descobrir uma rigidez espartana e ficou aterrorizada só de pensar que se pudesse desvanecer como um sonho a sua tão prezada liberdade. Com o tempo percebeu que era igualmente exigente com ela como consigo própria e que os olhos que lhe tinham parecido de um brilho de lâmina eram, afinal, penetrantes para melhor lerem nas almas. Foi no momento em que a senhorita Felícia pegou no molho de cartas e começou a mexer nelas com gestos precisos de ilusionista que a tua avó se sentiu atraída por essa mulher, que acabou por ser a sua melhor amiga.

A Senhorita Felícia

O primeiro baralho possuía tantas cartas quantas letras tem o alfabeto, escritas em minúscula, e a senhorita Felícia começou a mostrar as vogais a Eugénia enquanto pronunciava o som que correspondia a cada uma delas, até a pequena aluna conseguir decorá-las. Depois tirou da bolsinha as cartas dos algarismos, desenhados com pena grossa, do 0 ao 9, fazendo o que fizera com o das letras e incitando Eugénia a colocá-las por ordem em cima da mesa. Nos dias seguintes, apresentou-lhe as consoantes em pequenos grupos para não a confundir e, quando conseguiu que as reconhecesse a todas, ensinou-a a brincar com as cartas dos dois baralhos, alinhando-as de maneira a poder ler o nome do pai, da mãe e dos irmãos todos, completando o jogo com as idades de cada um ao lado. Com o tempo, aumentou o grau de dificuldade e saíram do bolso da senhorita Felícia os últimos baralhos, o das letras maiúsculas e, no fim, o das letras de imprensa. Só quando Eugénia as soube ler sem soletrar teve direito a uma folha de papel, uma pena, um canivete e um tinteiro, que a mãe lhe ofereceu com a solenidade de quem outorgava um privilégio real porque, ainda que algumas mulheres soubessem ler, poucas eram as que aprendiam a escrever por se acreditar ser uma coisa inútil e até perigosa para o sexo feminino». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-231-047-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, Cristina Norton, Literatura, 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

O Segredo da Bastarda. Cristina Norton. «Sempre me serviu o dom da ubiquidade, essa arte de me tornar leve ao ponto de me deixar conduzir por uma brisa suave, que me vinha buscar à hora marcada com uma pontualidade de andorinha…»

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Brasil

«(…) Enquanto os irmãos tinham aulas com o preceptor, Eugénia passeava-se com a escrava Miló, que tentava entretê-la com as canções que sabia, misturando modinhas conhecidas com outras, africanas, que cantava, acompanhando-as com o ritmo das suas mãos batendo uma na outra num movimento largo e lento dos braços. Também lhe contava histórias de panteras, bandidos e piratas, intercalando-as com algumas mais tristes, que falavam da caça aos pretos no mato africano, de viagens infindáveis atafulhados em barcos onde faltava água e comida, mas nunca as chicotadas ou os ferros com que eram acorrentados. A filha do governador ouvia atentamente, porque um tremor na voz da sua escrevinha lhe revelava que eram histórias verdadeiras, e não lendas para distrair crianças. Mesmo assim, achava as manhãs demasiado longas e, no fim de cada relato, perguntava quanto tempo faltava para que o preceptor dos irmãos se fosse embora. Ao meio-dia em ponto, já não continha a impaciência e corria, arrastando Miló atrás de si, para se juntar aos rapazes num recreio de três horas que sempre lhe parecia demasiado curto, comparado com as manhãs inteiras dos meses anteriores.

A Madrinha

Sempre me serviu o dom da ubiquidade, essa arte de me tornar leve ao ponto de me deixar conduzir por uma brisa suave, que me vinha buscar à hora marcada com uma pontualidade de andorinha; e não como os ventos fortes, que abomino, porque só sabem andar com a pressa de uma má notícia. Quase sem dar por isso, cheguei ao Brasil, onde tinha várias afilhadas a quem fui dar uma olhadela rápida, pois nesse momento devia intervir na vida de Eugénia, por não me parecer bem que passasse os dias a vaguear pelos jardins, enquanto os irmãos estudavam. Porque não havia ela de ser letrada, se recebera a bênção de uma inteligência igual ou até superior à dos rapazes? Eram tantas as vidas que vira no mapa dos destinos que as tinha um pouco baralhadas, ou não fosse eu mulher do meu tempo, pouco dada a geografias, e já não me lembrava bem se era Eugénia ou Albertina quem iria ter um grande desgosto por causa do pai de um filho seu. Preferi, então, apostar no celibato, que era a única maneira de impedir desavenças conjugais. Por isso, juntei à família Meneses uma outra afilhada minha, uma rapariga órfã que precisava de dar um rumo diferente à sua vida e endireitar as finanças. Com uma Eugénia culta, sabedora de letras, números e outras tantas matérias, somadas ao gosto pela liberdade e a uma ponta de rebeldia, tinha a certeza de que nenhum homem quereria casar-se com ela.

A Curiosidade de Eugénia

Rodrigo Meneses, ainda que os deveres da governação o mantivessem sempre ocupado, não deixava de reparar no aborrecimento da filha quando se aproximava da janela, procurando inspiração para ditar uma carta ao seu secretário. Via-a atravessar continuamente o jardim seguida da sua escrava, à procura de alguma coisa com que se entreter durante as horas em que os irmãos estavam nas aulas. Tinha ouvido falar, já nem sabia bem ao certo onde e a quem, de um método de ensino imaginado pelo bispo do Pernambuco, José Azeredo Coutinho. Deu ordens para que averiguassem se não havia ninguém que pudesse pô-lo em prática com Eugénia, em quem via uma tendência, rara nas mulheres, para se interessar pelo estudo dos irmãos e nunca esquecer o que estes lhe explicavam». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-231-047-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

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