sábado, 16 de novembro de 2019

Alexandre VI. Volker Reinhardt. «Afonso V não via com bons olhos suspender o apoio a Bento XIII, que ignorou soberanamente a deposição pelo concilio, bem como seu sucessor Clemente VIII»

Cortesia de wikipedia e jdact

De Xátiva a Roma. 1378-1458. As Origens dos Bórgia
«(…) Afonso V reinava não apenas sobre a metade setentrional da Península Ibérica, mas também sobre as Ilhas Baleares, a Córsega e a Sardenha. Mas o jovem monarca não estava ainda nem um pouco satisfeito com isso. Seus olhos estavam voltados com cobiça para a Itália. Para os seus planos ambiciosos, precisava de advogados competentes como Alonso Borja. Havia quase quatro décadas, Borja tinha colocado os seus notáveis conhecimentos jurídicos inteiramente ao serviço do rei. Era uma ferramenta perfeita nas mãos do monarca e chegou a actuar também nas difíceis disputas entre a Coroa de Aragão e o papado. Afonso V não via com bons olhos suspender o apoio a Bento XIII, que ignorou soberanamente a deposição pelo concilio, bem como seu sucessor Clemente VIII, sem obter amplas concessões de Roma. Nas negociações mantidas com os embaixadores enviados por Martinho V, Alonso Borja, por meio da sua experiência, ganhou o reconhecimento também pelo lado romano. De qualquer forma, por parte do rei, o reconhecimento era inconteste. No entanto, o amplo apoio que o homem de Xátiva passou a receber, a partir desse momento, não tinha nada de desinteressado. O facto de ter colocado o seu vice-chanceler em posições de liderança dentro da Igreja assegurava ao monarca acesso a uma grande parte dos seus recursos financeiros. Essa divisão de tarefas deu excelentes resultados ainda durante a administração da diocese de Maiorca por Alonso. E essa disponibilidade de dar ao rei aquilo que ele exigia qualificou-o a posições ainda mais altas. Em 1429, Alonso passou a ser bispo de Valência, ofuscando, dessa maneira, todo o sucesso que fora anteriormente alcançado pelas mais nobres ramificações da sua linhagem. Naturalmente, foi fundamental para isso a recomendação do seu senhor. Apesar dos doze anos de dedicados serviços, a sua nomeação, que fora aprovada por Martinho V, teve o seu preço. Favor significa o privilégio de poder comprar, por toda parte, as regras invioláveis da clientela. Alexandre VI, posteriormente, dominará essa arte com maestria absoluta. Seu tio, no entanto, teve de pagar uma fortuna ao seu rei pelo bispado de Valência. O facto de Martinho V ter dado sua aprovação reflecte uma mudança na política da Igreja. Do ponto de vista do rei, o antipapa, que se encontrava entrincheirado na península rochosa Peníscola, tinha cumprido a sua missão. E quando Alonso Borja comunicou-lhe a suspensão do apoio da casa real, Clemente VIII agiu da forma mais razoável possível: desistiu. Anos mais tarde, tornou-se lenda que a arte de persuasão do enviado teria contribuído para que o teimoso antipapa tomasse essa decisão. Fora de questão, no entanto, é o facto de que Alonso, como portador de uma mensagem sem margem a negociações, contribuiu, com a sua competência jurídica, para que esse acto transcorresse de forma rápida e indolor. E isso também agradou a Roma.
Os comprovados interesses da união mantiveram-se, mesmo depois de 1429. Como pastor de uma das mais ricas dioceses da Espanha, Alonso Borja não recusou os pedidos de subsídios da câmara de finanças real. O seu papel como conselheiro real também prevaleceu sobre as suas novas funções como bispo; o grande jurista era indispensável no tribunal e aumentou o número já grande de não residentes, ou seja, clérigos que não estavam em exercício das suas funções na sua diocese. Como prelado político por excelência, Alonso Borja imbuiu rigor exemplar ao seu estilo de vida. Repudiava os pecados capitais da gula e da luxúria, nisso estiveram de acordo até mesmo os seus inimigos. Afonso de Aragão também abriu as portas que levariam o seu favorecido à Itália. Nas intrincadas contendas pela coroa de Nápoles (à qual pertencia também a Sicília), que gozava de extremo prestígio, após muitos contratempos e prestes a atingir os seus objectivos, o rei promoveu a sucessão do seu conselheiro quase sexagenário em 1437. E com boas razões. Após longos conflitos, Afonso tinha conseguido prevalecer sobre seus rivais da Casa de Anjou, porém havia ainda uma última e difícil batalha pela frente. Essa seria com o papa, que ocupou a suserania sobre o reino fundado brilhantemente pelos normandos em 1130». In Volker Reinhardt, Alexandre VI, Bórgia, o Papa Sinistro, 2011, Editora Europa, 2012, ISBN 978-857-960-127-9

Cortesia EEuropa/JDACT

O Segredo de Versálio. Jordi LLobregat. «Pai..., o que içámos para a barca? Tão certo como Cristo ser Deus, não faço a mais pequena ideia. De repente, o corpo da criatura foi iluminado…»

jdact

1888. Barcelona. Port Vell. Perto do cais de Lazareto
«(…) O rapaz correu pela coberta e puxou o pano que tapava a lanterna. A luz mostrou uma criatura que flutuava junto à caixa, agarrada às cordas para se manter à superfície. O rosto, onde dois buracos negros ocupavam o lugar dos olhos, contorceu-se numa careta grotesca quando tentou falar mas, em vez de palavras, da boca saiu um balbucio ininteligível, seguido por um gemido. Não parecia capaz de aguentar muito mais tempo o embate das ondas. Ao cabo de um instante de hesitação, o velho ordenou ao filho: mantém a caixa quieta. O rapaz não se mexeu. Lívido, não conseguia desviar os olhos do monstro. Nesse instante, uma nova onda voltou a afastá-los. Raios, filho! Pai, tem..., tem a certeza? A caixa começava a afundar-se. Vinga!
O rapaz tornou a pegar no croque e, cravando o gancho na madeira da caixa, segurou-a contra o costado da barca. Entretanto o pai, firmando as pernas debaixo do banco, agarrou com ambas as mãos o braço que a criatura lhe estendia. O contacto era frio e escorregadio. O velho fechou os olhos, encheu o peito de ar e puxou com força. A criatura rolou pela coberta até ficar deitada de costas. Em vez de uma cauda de peixe, como o velho esperava, tinha pernas. Estava nua, não tinha pêlos e a pele era tão branca que parecia transparente. No ventre destacavam-se os bordos enegrecidos de uma ferida terrível. Fez lembrar ao rapaz os peixes escamados no mercado. O velho aproximou-se com cuidado, inclinou-se e tacteou aquele torso, a tentar encontrar algum sinal de vida. Estremeceu ao reparar nas outras feridas que se cruzavam no peito. Pressionou ao de leve e a sua mão enterrou-se na carne como em manteiga. Um cheiro nauseabundo emanou do interior. O velho afastou-se aos tropeções até cair contra as caixas de tabaco, mal conseguindo controlar o horror. O filho apressou-se a ajudá-lo e, agarrados um ao outro, observaram a maltratada figura imóvel.
Pai..., o que içámos para a barca? Tão certo como Cristo ser Deus, não faço a mais pequena ideia. De repente, o corpo da criatura foi iluminado por um clarão que traçou por baixo da pele um desenho semelhante aos ramos de uma árvore. Depois de piscar por um instante, a luz desapareceu tal como tinha aparecido. Pai e filho benzeram-se ao mesmo tempo.

Regresso
É tudo, meus senhores.
O barulho dos bancos arrastados quebrou o silêncio da sala. Na tribuna, o jovem professor juntou os seus papéis e guardou-os na pasta enquanto observava o desfile dos estudantes a caminho da porta. Bem queria manter a seriedade, mas o sorriso traía-o. Acabava de concluir a sua segunda semana de aulas na universidade, a mesma onde se formara poucos meses antes. Aproximou-se de uma das grandes janelas. Lá fora, nuvens escuras cobriam o céu mas, ao contrário de outros dias, aquele manto cinzento não diminuiu a felicidade que sentia. Percorrera um longo e tortuoso caminho para chegar àquele púlpito e, por todos os deuses, merecera-o! Passou o olhar pelos edifícios do campus. Preparava-se para deixar escapar um suspiro de satisfação quando ouviu uma voz chamá-lo: professor Amat! Voltou-se. Um estudante esperava, à porta da sala. Sim? Desculpe, professor, sir Edward mandou-me chamá-lo. Vou já. Que bem soava. Professor. Professor e membro do Magdalene College, um dos mais prestigiados colégios da Universidade de Oxford.
A substituir o doutor Brown, infelizmente achacado pela gota, mas isso em nada diminuía a importância do facto. Não tardaria a conseguir o seu lugar. A oportunidade já se apresentara e não tencionava deixá-la escapar. Recolheu as suas coisas e saiu da sala onde passaria o trimestre a dar aulas de grego. No corredor, notou os olhares que o seguiam. Os alunos ainda o olhavam com curiosidade. Quando saiu do edifício ajustou a toga. A chuva, acompanhada por um vento gelado, varria o campus. Apesar de Abril chegar ao fim, os dias continuavam frios. Seguiu o caminho de terra com passos rápidos, consciente do rumor que vinha do interior das salas de aula e se espalhava por todo o college. O ano lectivo estava no seu apogeu. Deixou à direita a capela onde o coro ensaiava e passou pelo pórtico que dava acesso a um pátio rodeado por edifícios cobertos de hera. Sem hesitar virou para o caminho de saibro que atravessava o canteiro em diagonal. Estava a ficar encharcado, mas não se importou. Sentia-se tão bem que só tinha vontade de saltar.
Walter abriu-lhe a porta ao vê-lo aproximar-se. O velho era uma autêntica instituição no colégio. Os estudantes diziam que desempenhava as funções de porteiro desde a fundação da universidade, o que era muito improvável tendo em conta que isso acontecera quatrocentos anos antes. No entanto, aquele corpo engelhado como uma passa e o rosto deformado por inúmeras e fundas rugas faziam-no por vezes perguntar-se se o rumor não teria um fundo de verdade. O velho era bem conhecido pelas suas traficâncias; conseguia arranjar tabaco, bebidas ou fosse o que fosse, pelo preço adequado. Claro que o colégio proibia estas transacções, pelo que o negócio de Walter prosperava. Senhor Amat... Oh, perdão. O seu meio sorriso traiu-o. Profesor Amat... Daniel inclinou a cabeça e cumprimentou-o por sua vez. Sabia que apesar de o considerar um maldito estrangeiro, como lhe chamara da primeira vez que o vira, o velho gostava dele. Senhor Walter, como está esta manhã?» In Jordi LLobregat, O Segredo de Versálio, 2014/2015, Planeta Manuscrito, 2016, ISBN 978-989-657-874-9.

Cortesia de PlanetaManuscrito/JDACT

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

O Segredo de Versálio. Jordi LLobregat. «Deixaram Montjuic a bombordo e a cidade, até então invisível, foi surgindo pouco a pouco de entre a neblina. O velho conduziu a embarcação para perto do cais do Lazareto»

jdact

1888. Barcelona. Port Vell. Perto do cais de Lazareto
«Depois de esquadrinhar as sombras pela terceira vez, o velho praguejou entredentes. O silêncio rodeava-o, um silêncio que só era perturbado pelo chapinhar da água contra o casco. A chuva, açoitada pelo vento, caía em grandes bátegas sobre a barca e encharcava a tolda e as caixas de tabaco armazenadas por baixo. Aquela hora, quando a manhã começava a insinuar-se, a bruma envolvia Port Vell e o cais, e as embarcações fundeadas e os edifícios dos arsenais eram apenas borrões; mal se distinguia a linha da costa e cabotar tão perto dos paredões do porto era muito arriscado. Mas ele já o fizera centenas de vezes, e voltaria sem dúvida a fazê-lo outras tantas. Não era isso que o preocupava. O que o fazia sentir-se como se tivesse lastro no estômago era a certeza de que naquela noite alguma coisa ia correr muito mal. Levantou-se vento e o mar encrespou. Os olhos do velho, rodeados por uma infinidade de rugas, perscrutaram a embarcação desde a proa, onde o filho dormia, até à vela de algodão, bem presa ao mastro, que começou a drapejar. O velho puxou o cabo com a perícia que a experiência dava e depois de verificar, satisfeito, que o pano voltava a enfunar, amarrou-o à abita de madeira. Cerrou as mãos e os dedos protegidos por luvas de lã protestaram como cordas velhas. A humidade entranhava-se-lhe nos ossos, tornando inúteis as pesadas roupas que vestia. Suspirou. Aquele trabalho tornava-se-lhe cada vez mais pesado, em breve deixaria de poder manobrar a barca. Na verdade, adivinhava que não chegaria a ver o fim do século, nem as maravilhas que todos anunciavam, ainda que, quem queria saber daquelas malditas máquinas? Que louco podia acreditar que aqueles artefactos barulhentos eram melhores do que os braços de um homem? Cuspiu para a água e virou o leme uma quarta.
Deixaram Montjuic a bombordo e a cidade, até então invisível, foi surgindo pouco a pouco de entre a neblina. O velho conduziu a embarcação para perto do cais do Lazareto, onde o esperavam para descarregar, escondidos das vistas do castelo e dos vapores que àquela hora começavam a cruzar o porto. A corrente empurrou-os para as rochas. Agarrava a cana do leme para corrigir o rumo quando um movimento à superfície lhe captou a atenção. Perto da doca a névoa era menos densa e conseguiu distinguir o quebra-mar, salpicado de espuma A poucos metros, entre madeiras e restos de aparelhos, flutuava um volume de grandes dimensões. No instante seguinte, o mar cobriu-o e não voltou a emergir. O velho deu um estalo com a língua e esperou. Não seria a primeira vez que um navio mercante perdia parte da carga. Um golpe de sorte para os que a encontravam. O tempo passou e, de má vontade, o velho começou a pensar que a imaginação lhe pregara uma partida. Preparava-se para tirar a barca da corrente quando ouviu um chapinhar. O volume reapareceu, dessa vez várias braças mais perto, a balouçar na ondulação. O velho rasgou mais o sorriso, a mostrar os dentes enegrecidos, e rodou o leme. Ao aproximar-se, verificou que se tratava de uma caixa de carvalho do tamanho de uma barrica de vinho. Pelos selos gravados na madeira, deduziu que era francês. As grossas cordas que a amarravam continuavam bem atadas, o que significava que se mantinha estanque, um ponto muito importante: a mercadoria que continha não estaria estragada pela água. Os franciús costumavam transportar porcelanas, tecidos de qualidade e bebidas. Qualquer destas mercadorias proporcionaria um bom lucro. Fixou o leme e olhou para o filho. Apa, levanta-te e pega no croque.
O rapaz olhou para ele sem compreender até que avistou a grande caixa a boiar ao lado da barca. Levantou-se aos tombos e procurou debaixo do banco. Depois de afastar a rede de pesca e algumas cordas, pegou numa comprida vara que terminava numa ponta de ferro com gancho. Seguindo as instruções do pai, estendeu o croque até conseguir apanhar uma das cordas que amarravam a caixa. O velho, munido de um croque mais pequeno, ajudava do outro lado. Pouco a pouco, arrimaram a caixa ao costado e prepararam-se para içá-la para bordo. Vá. Com cuidado... Santo Deus! Uma garra antropomórfica de dedos afilados agarrou o braço do velho, que ficou a olhar, paralisado pela incredulidade, enquanto aquilo o puxava para a água escura. Antes que pudesse reagir, uma onda fez balouçar a barca e a fantasmagórica aparição desvaneceu-se diante dos seus olhos como se nunca tivesse existido». In Jordi LLobregat, O Segredo de Versálio, 2014/2015, Planeta Manuscrito, 2016, ISBN 978-989-657-874-9.

Cortesia de PlanetaManuscrito/JDACT

Antologia da Poesia Erótica Brasileira. Roberto Zular. «Contudo, um dos efeitos mais fascinantes dessa antologia é nos fazer imaginar outras antologias, mas eis a novidade que não sabíamos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Organização de Eliane Robert Moraes
«(…) Os exemplos seriam muitos, mas talvez esses bastem para vermos como o erótico produz uma espécie de posição vicária que traz o corpo à tona em variadas dicções (e, portanto, posições!), redesenhando esse mesmo corpo. Ainda assim, é uma permanência do erótico e do poema que esses movimentos dão a ver, como acontece no fluxo prosó­dico já por si libidinal do verso liberado modernista, colocando num mesmo plano o mundo das letras e as experimentações do corpo e que alcança momentos sublimes mesmo em autores inesperados como João Cabral Melo Neto. Veja-se como nesse contexto ganham um súbito alcance versos como os de As frutas de Pernambuco, que:
São ninfomaníacas, quase,
No dissolver-se, no entregar-se,

Sem nada guardar-se, de pu...
Mesmo nas ácidas, o açúcar,

é tão carnal, grosso, de corpo,
de corpo para o corpo, o coito,

que mais na cama que na mesa
seria cómodo querê-las.

Muito haveria o que falar, como muito haveria a acrescentar, além dessas pequenas torções que apontamos da perspectiva retórica de Gregório Mattos refractando o corpo como murmuração ou o corpo romântico como latência de normatividades em conflito que vêm para o mesmo plano no modernismo. Contudo, um dos efeitos mais fascinantes dessa antologia é nos fazer imaginar outras antologias, mas eis a novidade que não sabíamos, eróticas! A sua contemporaneidade diz respeito não à sua novidade, ao seu anacronismo, a uma revelação ou à sua transgressão, como levemente nos fazem crer as rasuras em forma de soneto da capa, mas sim ao modo como trabalha os limites (mesmo da própria escolha antológica). Como tentei mostrar, a questão crucial dessa reunião de poemas não diz respeito à antologia, mas sim à ontologia, isto é, à variação contínua de corpos e poemas em dupla torção. E veja-se como a complexa noção de torção ganha outra dinâmica nesse contexto.
A beleza desses poemas, sobretudo num país com larga tradição patriarcal como o Brasil, é desconstituir constantemente o lugar soberano de enunciação para colocar o eu lírico numa posição que torna impossível a totalização da experiência. Resta sempre a latência de outro corpo que o interpela e às vezes no limite da violência que essa dependência gera como necessidade de controle. Ainda assim, vê-se ao longo do livro a construção de um espaço particular de alteridade, de diferença, de demanda por formas outras de afectos e de afecções, que nos obrigaria a falar, por força de sua alteridade, em um outro lírico, isto é, o espaço em que o eu é um outro (não será o outro do eu o próprio corpo que diz eu?) e que transforma o corpo na relação com outros corpos. Erotizado, o corpo se assume como relação, transformando o eu em uma posição vicária (sujeita a muitas posições) e que pode ser ocupada por outros corpos, para deleite da imaginação do leitor.
O alcance dessa Antologia da poesia erótica brasileira em pleno século XXI talvez não seja questionar o lugar do corpo nos poemas, mas sim perguntar quanto à necessidade e aos modos de se construir esse corpo no campo simbólico: afinal, por que escrever, por que colocar em palavras essa experiência? Em tempos de facebook, selfies, instagram, sites pornos e de encontros marcados, o erotismo talvez esteja se reencontrando com as palavras, não como um campo simbólico que totaliza, sublima e representa a experiência sexual, mas como um conjunto de conexões parciais que tornam o poema um não todo sempre dependente de um outro corpo que o leia erotizando-se e erotizando também a relação com outros corpos. Num tempo em que o mundo das letras também se profissionaliza (na imprensa, no mercado, na universidade), essa antologia vem liberar certo ressentimento do corpo do qual o simbólico não pode dar conta, senão permitindo a emergência de outros corpos na cena dúbia dos muitos mundos que se cruzam na leitura desses poemas eróticos». In Roberto Zular, Resenha de Antologia da Poesia Erótica Brasileira, Organização de Eliane Robert Moraes, Revista Teresa de Literatura Brasileira, 2016, Wikipédia.

Cortesia de TeresaRBLBrasileira/JDACT

Antologia da Poesia Erótica Brasileira. Roberto Zular. «O corpo dos poemas atribuídos ao nome de Gregório Matos que abrem o livro, por exemplo, opera por um rebaixamento satírico que se dá entre um ideal retórico-teológico-político-poético…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Organização de Eliane Robert Moraes
«(…) Sabemos que corpos não são apenas corpos, uma substância natural sobre a qual projectamos a nossa cultura; corpos são produzidos, performatizados, imaginados nas práticas sociais em que se constituem. O corpo que fala pelo c…, goza peid…, chupa os dedos dos pés, escolhe e acolhe diferentes parceiros em diferentes posições e contextos é um corpo em transformação, em variação contínua, que os poemas não representam, mas constituem, realocando a relação com o simbólico e o imaginário.
Interessante notar que é esse movimento fluido, de conexões distantes da cartilha sexual, que dá força aos desenhos de Arthur Luiz Piza. Eles ilustram todo o livro, dando-lhe unidade gráfica. Vemos ali corpos soltos, quase só o traço de um movimento (a insinuação de um gesto, de um ritmo como nos poemas) cuja pouca determinação permite que uma parte toque a outra, atravesse a outra, cubra-a, crie conexões inespera­das, ambíguas, dando uma plasticidade extremamente erótica embora não exactamente sexual na relação entre os corpos.
Mas se isso talvez pareça um tanto relacionado apenas ao sujeito, como se o erótico dissesse respeito tão somente aos modos de subjectivação, vale notar uma incrível subtileza na construção da historicidade da antologia. Isso porque, longe de identificar um lastro corporal imutável e as suas várias interpretações históricas, a organizadora permite um fluxo de transformação contínua do erótico, algo foucaultiano, sim, mas talvez um pouco além, pois vai identificando uma dupla torção entre corpos que são produzidos pelos textos e textos reinventados pelos corpos, algo que lembra o movimento proposto por Meschonnic ao falar de um cruzamento simultâneo de uma forma de vida numa forma de linguagem e de uma forma de linguagem numa forma de vida. O corpo dos poemas atribuídos ao nome de Gregório Matos que abrem o livro, por exemplo, opera por um rebaixamento satírico que se dá entre um ideal retórico-teológico-político-poético e as murmurações de uma voz mundana, arrojadamente escritos dentro de uma tradição e atravessados por musas que caga…, tes… pelo cheiro da mulher suja ou pelas qualidades do […].
Vê-se, já pelos nomes, que não se trata de uma representação do corpo natural mas de um jogo de perspectivas que cruza duas normatividades, a cena retórica e a obscena entrada, ainda que retórica, do corpo singular.
Ao longo do livro, veremos que isso que responde pelo erótico vai criando relações diferentes entre corpo e linguagem (produzindo corpos e linguagens!), como se dá, em seguida, no fluxo sóbrio das Cartas chilenas de Gonzaga, endossando o sexo lascivo como parte do jogo de poder ou o chamado ao coito pela fruição do tempo (o carpe diem) em Marília de Dirceu. Se dermos um salto, ao romantismo, isso fica ainda mais evidente, pois o erótico envolto em medo e angústia instaura uma outra temporalidade e um outro modo de afecção, fazendo do corpo o encontro impossível de normatividades antagónicas como a urgência e a espera, o desejo e as determinações sociais. Aqui, uma bela surpresa, ao lado de Fagundes Varella ou Álvares Azevedo, é Laurindo Rabelo, como na construção que faz em torno do mote: pode apalpar, pode ver/ das coxinhas pode usar/ por fora quanto quiser/ dentro não, que hei-de gritar. Além de o lugar de fala ser transposto para a mulher, o que excita não é o que se dá a ver, mas o espaço tenso entre o possível e o proibido, o visível e o invisível e o campo fértil para o gozo imaginário. Não fales muito. Uma palavra basta/ murmurada ao pé do ouvido […]. Fala-me só com o revólver dos olhos. Espaço tenso e fatal, como todo o gozo, à beira da morte (o que ainda mais excita): escondamo-nos um no seio do outro/ não há assim de nos avistar a morte/ ou morreremos juntos, como em Junqueira Freire». In Roberto Zular, Resenha de Antologia da Poesia Erótica Brasileira, Organização de Eliane Robert Moraes, Revista Teresa de Literatura Brasileira, 2016, Wikipédia.

Cortesia de TeresaRBLBrasileira/JDACT

Antologia da Poesia Erótica Brasileira. Roberto Zular. «Garimpando e selecionando o erótico na poesia brasileira, e um capítulo à parte são os incríveis anónimos ao longo dessa história, entre tantos outros achados, a antologia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Organização de Eliane Robert Moraes
«Algo se insinua vermelho aos olhos e se alonga pelos dedos até que um volume encha as nossas mãos. E esse gesto que nos leva até ele, colocando o corpo em movimento, ganha mais força quando se vê que o volume é a Antologia da poesia erótica brasileira, editada pela Atelié e organizada por Eliane Robert Moraes. O erótico aqui começa com outro modo de ler, o corpo afundando na cama, as folhas rolando entre as mãos, as mãos… Eróticos não são só os temas dos poemas ou as experiências das quais eles partem, mas também os afectos que engendram e as implicações entre corpo e linguagem que trazem à tona. Trata-se, sim, de uma antologia de poesia erótica, mas que, mais do que isso, mostra um furo no nosso modo contemporâneo de ler poesia (uma leitura do poema como objecto a ser visto, entendido, interpretado, decodificado) e aponta para outros modos de habitar o poema com seu ritmo, a sua corporeidade, os orifícios que ele abre, sua variação de posições, enfim, seu erotismo (sem o qual, como já disse Octavio Paz, não há poesia).
Garimpando e selecionando o erótico na poesia brasileira, e um capítulo à parte são os incríveis anónimos ao longo dessa história, entre tantos outros achados, a antologia explora a sua penetração e alcance com força para reconfigurar o modo como líamos alguns poemas que sequer considerávamos eróticos. Desde os mais explícitos aos mais subtis, do cómico ao amoroso, do obsceno ao paródico, como aponta a introdução, o erótico se dá por cruzamentos inesperados e relâmpagos perceptivos que dão um novo significado ao mesmo tempo a experiência sexual e a experiência poética, sem perder de vista as tensas relações de classe, de género e de espécie que as atravessam. A temática erótica, portanto, erotiza todos os planos dos poemas. Menos do que descrever uma cena erótica, esses poemas colocam-se como lugar de partilha entre a experiência que encenam e a excitação do próprio acto de leitura. À flor da pele, com o coração na boca, tocando com o ouvido, roçando o gosto das palavras, cedemos nossos corpos aos poemas e somos sugados pelo seu ritmo, pela dança de sua prosódia, pelas suas imagens.
Ao mesmo tempo, o tema obriga, projectamos nossas próprias experiências e ampliamos os limites do nosso corpo. No corpo a corpo com o poema, esses poemas eróticos nos fazem mudar constantemente de posição, somos sujeitos e objectos (assim como o poema é objecto e sujeito), somos leitores e somos lidos, vestimos o poema que nos despe numa variação de posições que faz sonhar com uma potência infinita de relações. Explico-me melhor, quer dizer, implico-me. No nível do enunciado, daquilo que é dito, os poemas accionam experiências corporais ligadas às relações afectivas, ao sexo, à sedução, à excitação, ao escatológico; mas, além dessa linha temática, eles se dobram sobre a sua enunciação, isto é, sobre o dizer por trás do dito, criando uma cenografia enunciativa que, para além da moldura poema erótico, produz uma nova gramática de afectos e acoplagens entre as palavras e os corpos, em que o sexo (para além da diferença sexual) penetra o poema, a sedução se alonga, a excitação ganha contornos, a escatologia abre orifícios no campo simbólico.
Do ponto de vista psicanalítico, o que se dá ao longo da antologia é uma abertura ao campo das pulsões, isto é, aos lugares do corpo onde o somático e o psíquico se tocam (como propõe Freud). Trata-se de um jogo com os orifícios, as bordas, as zonas limiares (olho, ouvido, boca, ânus) que são atravessados pela linguagem (eco no corpo do facto que há um dizer, como quer Lacan). Diria até que esses poemas vão implicando novos lugares e inventando novas acoplagens (além do olhar, da escuta, do oral, do anal) que ampliam e transformam esse campo pulsional, como na linda imagem de uma lira abdominal que dá nome ao ensaio de abertura do livro, inspirado em poema de Manuel Bandeira.
Ao accionar esses orifícios e seus muitos órgãos de excitação (mão, gesto, língua, boca, pau, para ficar nos mais comuns e orgânicos), o campo pulsional é activado, os órgãos ficam eriçados, e os movimentos esboçados no poema, especialmente o ritmo, cruzam a pulsão (ligada a esses orifícios) com a pulsação, a organização do movimento, seus modos sempre abertos de produzir sentido. Entre a pulsão e a pulsação, o erótico produz experiências singulares dos temas tratados, mas atravessando-os por novos modos de relacionar corpo e linguagem». In Roberto Zular, Resenha de Antologia da Poesia Erótica Brasileira, Organização de Eliane Robert Moraes, Revista Teresa de Literatura Brasileira, 2016, Wikipédia.

Cortesia de TeresaRBLBrasileira/JDACT

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Claraboia. José Saramago. «Não façam barulho. Bem sabem que não gosto de perturbar o sono da vizinhança, murmurou Anselmo. Subia a escada, levando atrás de si a mulher e a filha, e iluminava o caminho acendendo fósforos»

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«(…) Agora sim. Fechava como devia, com uma esperança, com uma pequena alegria. Fazia questão de não ser completamente sincera no seu diário, quando os acontecimentos do dia a levassem ao desânimo e à tristeza. Releu o que escrevera e fechou o caderno. Trouxera do quarto a camisa de dormir, uma camisa branca, afogada, sem decote, com as mangas compridas, porque as noites ainda estavam frescas. Despiu-se rapidamente. O seu corpo deselegante, liberto do constrangimento do vestuário, soltou-se e ficou mais pesado e irregular. O soutien-gorge vincava-lhe as costas. Quando o tirou, um vergão vermelho ficou a rodear-lhe o corpo como a marca de uma chicotada. Enfiou a camisa e, depois de completar o arranjo nocturno, foi para o quarto. Isaura não largava o livro. Tinha o braço livre curvado sobre a cabeça, e a posição deixava-lhe visível a axila enegrecida e o começo dos seios. Absorta na leitura, nem se mexeu quando a irmã se deitou. Já é tarde, Isaura. Deixa isso, murmurou Adriana. Já vai!, respondeu, impaciente. Não tenho culpa de que não gostes de ler. Adriana encolheu os ombros, num movimento que lhe era peculiar. Voltou as costas à irmã, puxou a roupa para cima de modo a evitar que a luz lhe batesse nos olhos e daí a pouco adormecia. Isaura continuou a ler. Tinha que acabar o livro nessa noite porque o prazo do aluguer acabava no dia seguinte. Era perto da uma hora quando chegou ao fim. Ardiam-lhe os olhos e tinha o cérebro excitado. Pôs o livro na mesa de cabeceira e apagou a luz. A irmã dormia. Ouvia-lhe a respiração ritmada e regular, e teve um movimento de mau humor. No seu entender, Adriana era de gelo, e aquele diário uma criancice para fazer acreditar que tinha mistérios na sua vida. No quarto havia uma ténue luminosidade proveniente de um candeeiro da rua. Ouvia-se no escuro o roer de um inseto da madeira. Do quarto ao lado vieram vozes abafadas: tia Amélia sonhava alto. Todo o prédio dormia. De olhos abertos para a noite, as mãos cruzadas atrás da cabeça, Isaura pensava.

Não façam barulho. Bem sabem que não gosto de perturbar o sono da vizinhança, murmurou Anselmo. Subia a escada, levando atrás de si a mulher e a filha, e iluminava o caminho acendendo fósforos. Distraído com as recomendações, deixou-se queimar. Soltou uma interjeição involuntária e riscou novo fósforo. Maria Cláudia sufocava de riso. A mãe ralhou em voz baixa: então, menina, que propósitos são esses? Chegavam a casa. Entraram com cautela, como gatunos. Mal chegaram à cozinha, Rosália sentou-se num banco: ai, que cansada! Descalçou os sapatos e as meias e mostrou os pés inchados: olhem para isto!... Tens albumina, é o que é, declarou o marido. Credo!, sorriu Maria Cláudia. O pai não faz a coisa por menos. Se o teu pai diz que tenho albumina, é porque é verdade, replicou a mãe. Anselmo acenou a cabeça com gravidade. Fixava atentamente os pés da mulher e da observação tirava novas razões para o diagnóstico: é o que eu digo...
O pequeno rosto de Maria Cláudia franziu-se de desgosto. Aquele espectáculo dos pés da mãe, a possível doença aborreciam-na. Tudo que fosse feio a aborrecia. Mais para se furtar à conversa do que por amor do trabalho, tirou três chávenas do armário e encheu-as de chá. Deixavam sempre o termo cheio, para o regresso. Aqueles cinco minutos dedicados à pequena refeição davam-lhes uma sensação toda particular, como se de repente tivessem deixado a mediocridade da sua vida para subir uns furos na escala do bem-estar económico». In José Saramago, Claraboia, 1953, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-441-6.
                                                                                                                             
Cortesia ECaminho/JDACT

Claraboia. José Saramago. «Também pensava... Até me lembrei da máscara de Beethoven e no meu desejo de a ter... Mas também pensava nele. Estou contente hoje»

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«(…) É sempre a mesma história. Para uns, muito; para outros, pouco; e para outros, nada! Quando é que essa gente aprende a pagar aquilo de que precisamos para viver? Adriana suspirou. Tia Amélia era intratável em assuntos de dinheiro, de patrões e empregados. Não que fosse invejosa, mas indignava-a o desperdício que vai por esse mundo, quando milhões de pessoas sofrem fome e miséria. Ali, em casa, não havia miséria, e a mesa tinha comida a todas as refeições, mas havia a rigidez do orçamento apertado, donde fora excluído todo o supérfluo, até aquele supérfluo necessário sem o qual a vida do homem se processa quase ao nível da dos animais. Tia Amélia insistiu: é preciso falar, Adriana. Há dois anos que estás na casa e o ordenado mal chega para os eléctricos. Oh, tia, mas que hei de eu fazer? Que hás-de fazer? Põe-te a olhar para mim, assim, com esses olhos espantados! A frase doeu a Adriana como uma pancada. Isaura olhou a tia com severidade: tia! Amélia virou-se para ela. Olhou depois Adriana e disse: desculpem. Levantou-se e deixou a sala. Adriana levantou-se também. A mãe fê-la sentar-se: não faças caso, filha. Tu sabes que é ela que faz as compras. Mata a cabeça para o dinheiro chegar e o dinheiro não chega. Vocês ganham, trabalham, mas ela, coitada, é que se rala. Só eu é que sei. Tia Amélia apareceu à porta. Parecia comovida, mas nem por isso a voz foi menos brusca, ou talvez por isso mesmo não o pudesse deixar de ser: querem uma chávena de café? (Como nos antigos tempos... Uma chávena de café! Venha, pois, a chávena de café, tia Amélia! Sente-se aqui, ao pé de nós, assim, com esse rosto de pedra e esse coração de cera. Beba uma chávena de café e amanhã refaça as suas contas, invente receitas, suprima despesas, suprima mesmo esta chávena de café, esta inútil chávena de café!). O serão recomeçou, agora mais arrastado e silencioso. Duas mulheres velhas e duas que já voltavam costas à mocidade. O passado para recordar, o presente para viver, o futuro para recear. Perto da meia-noite o sono introduziu-se na sala. Alguns bocejos. Cândida alvitrou (era sempre dela que vinha este alvitre): e se nos fôssemos deitar? Levantaram-se, com um rumor de cadeiras arrastadas. Como de costume, só Adriana se deixou ficar para dar tempo a que as outras se deitassem. Depois, arrumou a costura e entrou no quarto. A irmã lia o romance. Tirou da mala um molho de chaves e abriu uma gaveta da cómoda. Com outra chave mais pequena abriu uma caixa e retirou de dentro um caderno grosso. Isaura olhou por cima do livro e sorriu: lá vai o diário! Um dia hei-de ver o que escreves nesse caderno. Não tens esse direito!, respondeu a irmã, de mau modo.
Pronto! Não te assanhes... Às vezes, dá-me vontade de to mostrar, só para não estares sempre a falar na mesma coisa! Aborreço-te? Não, mas podias calar-te. Acho que é muito feio estares sempre com esses ditos. Ou não terei o direito de guardar o que me pertence? Os olhos de Adriana, por detrás das lentes espessas, rebrilhavam irritados. Com o caderno apertado contra o peito, enfrentava o sorriso irónico da irmã. Pois sim, disse Isaura. Vai lá escrevendo. Há-de chegar o dia em que tu própria hás de mostrar o caderno para eu ler. Vai esperando, respondeu Adriana. E saiu do quarto. Isaura acomodou-se melhor debaixo da roupa, colocou o livro em ângulo propício para a leitura e esqueceu a irmã. Esta, depois de passar pelo quarto, já às escuras, onde dormiam a mãe e a tia, fechou-se na casa de banho. Só ali, protegida pelo local contra a curiosidade da família, se sentia bastante segura para escrever no caderno as suas impressões do dia. Começara a escrever o seu diário pouco tempo depois de se empregar. Escrevera já dezenas de páginas. Sacudiu a caneta e começou:

«Quarta-feira, 19/3/52, à meia-noite menos cinco. Tia Amélia está hoje mais rabugenta. Detesto que me falem no pouco que ganho. Ofendem-me. Estive quase para responder-lhe que ganho mais que ela. Arrependi-me antes de ter falado e ainda bem. Tia Amélia, coitada... Diz a mãe que se mata a fazer contas. Acredito. É o que se passa comigo. Esta noite ouvimos a 3.ª Sinfonia de Beethoven. A mãe disse que era bonito, eu disse que era belo e tia Amélia concordou comigo. Gosto da tia. Gosto da mãe. Gosto da Isaura. Mas o que elas não sabem é que eu não estava a pensar na sinfonia ou no Beethoven, quer dizer, não estava a pensar nisto só... Também pensava... Até me lembrei da máscara de Beethoven e no meu desejo de a ter... Mas também pensava nele. Estou contente, hoje. Falou-me muito bem. Quando me deu as facturas para eu conferir, tocou com a mão direita no meu ombro. Gostei tanto! Fiquei toda a tremer por dentro e senti-me corar até às orelhas. Tive que baixar a cabeça para ninguém ver. O pior foi depois. Julgou que eu não ouvia e começou a falar com o Sarmento a respeito de uma rapariga loira. Não chorei porque parecia mal e porque não quero comprometer-me. Ele brincou com a rapariga durante uns meses e depois deixou-a. Meu Deus, será o mesmo comigo? Ainda bem que ele não sabe que gosto dele. Era capaz de fazer pouco de mim. Se assim fosse, matava-me!»

Aqui interrompeu-se, mordiscando a ponta da caneta. Tinha escrito que estava contente e agora já falava em matar-se. Achou que não estava bem. Pensou um pouco e fechou com esta frase: gostei tanto que ele me tivesse tocado no ombro!» In José Saramago, Claraboia, 1953, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-441-6.
                                                                                                                             
Cortesia ECaminho/JDACT

A Maldição de Afonso II. Maria Antonieta Costa. «Em seguida, Petronila pegou no cinto que a condessa Toda lhe estendia, colocou a pedra num encaixe próprio e cingiu-o à volta da dilatada barriga da parturiente. Uma serviçal fez a rainha beber vinagre com açúcar»

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«(…) Dom Paio acenou, compreensivo, e iniciou a Sacram Unctionem Infirmorum (Sacra Unção dos Enfermos). O latim entaramelava-se-lhe enquanto recitava o ritual, ungindo-a sobre os olhos: per istam sanctam unctionem et suam piissimam misericordiam indulgeat tibi Dominus quidquid per auditum deliquisti. Amen. (Por esta santa unção e pela sua piíssima misericórdia, o senhor vos perdoe todos os pecados cometidos pelo que vistes. Amém)
Dona Dulce retorcia-se, evidenciando que as contracções eram agora quase consecutivas. Não obstante, o clérigo repetiu a fórmula por mais cinco vezes ungindo os ouvidos, o nariz, a boca, as mãos e os pés, partes do corpo através das quais se poderia tomar contacto com o pecado. Deixai-a, por favor, pediu dona Toda. Está na hora! O monge benzeu a rainha mais uma vez e apressou-se a sair. De imediato, Petronila descobriu-a, levantou-lhe a camisa e começou a esfregar-lhe as virilhas com uma pedra de ónix vermelha, enquanto sabiamente proferia: tal como esta pedra, por ordem de Deus, brilhou no primeiro anjo, também esta criança se tornará num rei resplandecente. Depois, abriu-lhe mais as pernas, retirou o cataplasma herbáceo de sobre a vulva e, segurando a pedra frente à vagina real, continuou: abram-se as estradas e as portas naquela epifania em que Cristo se tornou humano e Deus. Que se abram todas as portas do Bem e se fechem as do inferno! E assim esta criança saia para o mundo viva e sem morte para a sua mãe. Em seguida, Petronila pegou no cinto que a condessa Toda lhe estendia, colocou a pedra num encaixe próprio e cingiu-o à volta da dilatada barriga da parturiente. Uma serviçal fez a rainha beber vinagre com açúcar. É agora! Ajudem-me, ordenou a parteira. Enquanto duas mulheres traziam o banquinho de parto para os pés da cama, a condessa e a parteira arrastavam dona Dulce para se sentar nele. Valha-me Nossa Senhora do Ó!, exclamou a soberana, quase num grito.
Com a mão pequena, humedecida numa decocção de linhaça e grão-de-bico, Petronila ajudava a dilatação uterina por entre os rangidos dolorosos da parturiente. Amiga, coragem! Muita força!, incitava dona Toda. A parteira continuava o exercício manual emitindo sons estranhos, como se simulasse um animal a parir. A rainha fixava o olhar no dela, numa aflição cada vez maior, acompanhando com os gemidos os grunhidos da parteira, qual rito de sortilégio. De súbito, a mulher exclamou: vem aí! Vem aí!
Ouviu-se um som abafado, algo como uma pedra que cai sobre uma almofada. E Petronila retirou as mãos de sob a abertura do banco, mostrando a cabeça do recém-nascido. Um silêncio profundo reinou na alcova, como se estivessem num túmulo. É homem?, esganiçou-se a rainha, numa precipitação que ultrapassava a vontade de saber se estava vivo. Petronila estendeu o cordão umbilical, calculou que ficasse com uns bons quatro dedos para assegurar uma virilidade robusta, cortou-o e deu-lhe um nó. Levantou a criança de cabeça virada para baixo, presa pelas canelas, e bateu-lhe nas nádegas. Ouviram-se os primeiros vagidos. Depois, rodou-a de frente para a mãe e proferiu, radiante: sim. É homem e está vivo!
Desamparada, Dulce caiu para trás, batendo com as costas na trave da cama. O alívio e a felicidade suplantavam qualquer dor. A aia segurou-a, abraçando-a, esfuziante. Ambas choravam de júbilo. Avisem dom Sancho, recompôs-se a soberana. Por favor, vão avisar o rei.
Afortunadamente, o monarca encontrava-se no Paço Real de Coimbra para gozar aquela bênção. Regressara de uma incursão pelas terras do Sul, onde Abu Yusuf Ya'Qub Al-Mansur ameaçava apoderar-se dos importantes castelos de Almada, Alcácer e Palmela. Esperando assegurar uma defesa mais eficaz daquelas possessões, o soberano decidira atribuir essas fortificações e os seus domínios à Ordem Militar de Santiago, pelo que se reunira com os seus juristas, preparando a redacção dos documentos de doação.
Calma! O rei não foge!, disse a condessa. Esperai pelo que Petronila tem a dizer». In Maria Antonieta Costa, A Maldição de Afonso II, 2019, Clube do Autor, 2019, ISBN 978-989-724-483-4.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «Resta saber o que se entende por desgoverno, disse o padre Villaescusa. Queimar judeus, bruxas e mouriscos; queimar hereges; atentar contra a liberdade dos povos»


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«(…) Pois eu mantenho que o Rei não pode ver a Rainha nua sem pecado; e insisto também em que os pecados dos Reis os paga o povo inocente. Observo, pelas caras e pelos murmúrios, que há dissidentes da sua opinião tão respeitável, padre Villaescusa, de modo que se nomearão outras duas comissões para examinar a complexidade do caso. Uma, que determine se o Rei pode ou não contemplar a Rainha sem vestidos que ocultem, ou pelo menos velem, a sua nudez; outra, que examine à luz das Escrituras e dos Padres se o povo paga ou não paga os pecados do Rei, embora tendo em conta que não se trata dos seus erros de governante, mas sim dos seus pecados pessoais, não é assim? Porque, que do desgoverno resultem danos para as monarquias, não é necessário discuti-lo.
Resta saber o que se entende por desgoverno, disse o padre Villaescusa. Queimar judeus, bruxas e mouriscos; queimar hereges; atentar contra a liberdade dos povos; fazer os homens escravos; explorar o seu trabalho com impostos que não podem pagar; pensar que os homens são diferentes quando Deus os fez iguais... Querem Vossas Paternidades que prossiga na enumeração? Tinham ouvido estupefactos o padre Almeida: todos, incluindo o Inquisidor-mor. E, como um sussurro, corria de boca em boca: Este jesuíta tem que ser posto na ordem. E ia-se levantar a primeira voz de protesto, quando entrou o fâmulo conhecido e falou ao ouvido do presidente. Um momento, senhores. Temos uma visita inesperada. E disse ao fâmulo: que entre esse cavalheiro. Saiu desfazendo-se em salamaleques, cortesia para aqui, cortesia para ali, em todas as direcções; e, pouco depois de sair, tornou a abrir-se a porta e no seu vão apareceu o conde da Peña Andrada. Ficou parado na soleira, descobriu-se e dedicou aos presentes uma inclinação de cabeça do mais ortodoxo.  Adiante, conde.
Não o fez o conde sem antes repetir a saudação, desta vez tripla, como se os presentes fossem reis: roçando a alfombra escarlate com a pluma do chapéu; e, ao avançar e passar diante do Cristo iluminado, repetiu-a com gesto mais acentuado. Ergueu-se e encarou o Inquisidor-mor: com o fragor das disputas, certamente que Vossência não se deu conta de que estes pavios cresceram demasiado, e de que tremem as luzes dos círios. Ao recair o seu tremelicar sobre a cara do Senhor, esta parece que escurece mais. Se Vossência mo permite, gostaria de os espevitar. Mal lhe respondeu o prelado, com voz um tanto surpreendida, faça-o, se lhe apraz, o conde puxou da espada e, com uma espadeirada como um relâmpago, espevitou o círio da direita. Os presentes não tinham tido tempo de manifestar o seu estupor, mas ouviu-se uma voz que sussurrava: atreveu-se a desembainhar diante do Crucificado!, e já o conde, de outra espadeirada, igual, tinha espevitado o círio da esquerda: ficou simétrico com o da direita, ambos da mesma altura, e com luzes de brilho idêntico, sem mais tremor que o necessário.
A seguir, depositou a espada aos pés do crucifixo. Estou à vossa disposição, senhores. E permaneceu postado diante da assembleia, no sítio exacto em que se colocavam as testemunhas quando vinham depor. O Inquisidor-mor perguntou-lhe: por que veio Vossa Excelência? Fala-se em toda a cidade do que se trata aqui, e julguei cortês oferecer-vos o meu testemunho, e fá-lo-ei de boamente, mas antes gostaria de cumprimentar um velho amigo aqui presente. E, sem esperar anuência, aproximou-se da fila dos consultores e estendeu a mão ao padre Almeida. Há muito tempo que não nos vemos, padre. Sim, efectivamente, muito tempo. Enquanto apertavam as mãos, o padre Rivadesella observou-os, e pareceu-lhe que em algo se assemelhavam, embora em algo muito maior diferissem». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, 1989, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «… na sua versão do Cântico dos Cânticos, traduz claramente: anossa irmã é pequena e mamas não tem. Que será da nossa irmã quando se começar a falar dela?»

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«(…) O padre Villaescusa, que falava do seu assento, levantou-se solenemente. Esta reunião em que nos encontramos é mais do que um indício. O diabo provocou-a, o Diabo mantém-na, o Diabo suscita muitas das palavras que aqui se pronunciaram e se pronunciarão. E o padre Rivadesella, quase sem se mexer, mas em tom claramente irónico, interveio. Pela razão que todos sabemos, a noite passada Lúcifer voou pelos nossos céus na figura de um belíssimo mancebo cujo voo deixava nos ares um sulco de prata. Há testemunhas. Se assim é, falou o padre Villaescusa, sem perder a solenidade, proponho que se exorcize esta sala imediatamente. Refere-se Vossa Paternidade ao espaço em que nos encontramos, ou aos que compõem a reunião? Aquela inesperada e a todos os títulos impertinente pergunta do Inquisidor-mor surpreendeu quase todos os presentes, e, mais do que ninguém, o padre Villaescusa. Não me referia a ninguém em concreto, Excelência. Nesse caso, é de pensar que a presença do Diabo não constitui nenhuma novidade. O Senhor está em toda a parte, mas o Diabo anda sempre atrás dele... Mas, às vezes, o Senhor distrai-se. O que vem a ser mais ou menos o que eu disse antes. Que o Senhor se inibe, mas a mim custa-me muito acreditar nisso. Tornou a ouvir-se a voz eminente do Inquisidor-mor.
Permito-me recordar a Vossas Paternidades que estamos a afastar-nos do assunto que aqui nos trouxe. Tínhamos ficado em se o Rei tem ou não o direito de ver a Rainha nua, e se isto é ou não pecado. Rogo a Vossas Paternidades que se pronunciem claramente sobre este ponto. Afirmo que tem esse direito e que não é pecado, respondeu com voz segura o padre Almeida, afirmo não só isso, mas a conveniência de que isso aconteça para que no casamento dos Reis, não como tais mas sim como cristãos, se realize a Graça do Senhor. O padre Villaescusa saltou como picado por uma vespa. Diz Vossa Mercê a Graça do Senhor? Acha que a Graça do Senhor se manifesta no coito? Ou na contemplação desses horríveis penduricalhos das fêmeas que se chamam peitos? Ou prefere que a contemplação se verifique pelas costas, evidentemente contra natura? Refiro-me, como é óbvio, à contemplação das nádegas. O padre Enríquez, O S D., tinha adormecido uma ou duas vezes; outras, tinha arrebitado a orelha, e, muitas, sorrido. Nesta altura levantou a mão cortesmente. Visto que este debate se desenrola em língua romance, permito-me rogar ao sábio e virtuoso padre Villaescusa que chame as coisas pelos seus nomes. Quero dizer, mamas em vez de peitos, cu em lugar de nádegas. Se bem me lembro, o ilustre poeta padre Léon, na sua versão do Cântico dos Cânticos, traduz claramente: anossa irmã é pequena e mamas não tem. Que será da nossa irmã quando se começar a falar dela?
Recitara-o com evidente complacência, e todos pareciam tê-lo escutado com prazer, menos o padre Villaescusa, que troou: e Vossa Paternidade atreve-se a fazer essa citação, sendo dominicano como é? Embora convenha recordar que em mãos de dominicanos esteve a vida e a morte desse repugnante marrano, e que foram dominicanos os que furtaram ao Senhor o cheiro da sua carne chamuscada. Pois nós, os agostinhos, estamos muito orgulhosos dele [(o frade agostinho Luis León (1527-1591) foi um importante escritor renascentista espanhol, poeta notável. Provavelmente judeu converso, viu-se acusado de heresia pelos dominicanos, o que, juntamente com a sua tradução do Cântico dos Cânticos, o levou a trocar a sua cela pelas da Inquisição (maldita) durante cinco anos], respondeu-lhe, com voz segura, o representante da mais antiga das ordens presentes. Coisa que não me espanta, acrescentou o padre Villaescusa, porque todos vós sois suspeitos. Produziu-se uma série de murmúrios nos diversos escalões do Supremo, ante a ousadia daquele capuchinho febril e colérico. O Inquisidor-mor cortou a barafunda que se avizinhava. Deixemos em paz os mortos. Insisto em que o debate não se afaste do seu tema» In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, 1989, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «… pressagiam alterações e prodígios, são como os rumores da terra que precedem o terramoto, segundo dizem, eu nunca os vi nem os ouvi»

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«(…) O que vos quero dizer, porque o descobri, é que o mundo dos vossos mortos está alterado, estão inquietos e celebram assembleias e todo o tipo de reuniões, mas ignoro ainda por que motivos e com que fim. Há dois meses que venho escutando as tumbas dos vossos antepassados, tanto os sepulcros novos das catedrais como os velhos e vazios do destruído Mosteiro de Santo Mauro e posso assegurar-vos que, na sua inquietação de mortos sérios, se remexem que, através do silêncio e da distância, se falam, há vozes que se ouvem como colóquios remotos e não se pode entender o que dizem, de tão distantes, de tão fundo. As vozes dos mortos pressagiam alterações e prodígios, são como os rumores da terra que precedem o terramoto, segundo dizem, eu nunca os vi nem os ouvi.
Sereníssima Alteza, sonhei que a Torre de Menagem caía e recobrava em seguida o seu aprumo e sonhei que um barco se afundava e emergia meia milha mais adiante, sem que parecesse ter-se afogado ninguém da tripulação, sem que os guardas da Torre tenham sofrido qualquer dano. São avisos, senhor, estes sonhos, não sei se do Inferno, isso não está esclarecido. Sereníssima Alteza, isto não é tudo, é só o princípio. O mundo da Verdade dormia. Agora, de repente, desperta e estes são alguns sintomas. Porque será, senhor? Os avisos que meu avô revelou ao vosso precederam a chegada de Napoleão. Que anunciam agora as vozes, as sacudidelas, os alvoroços dos mortos? Espero que, daqui a algum tempo, ambos cheguemos a sabê-lo. Vesti a horrorosa sobrecasaca cor de tabaco para assistir no domingo aos ofícios: de bom grado lhe teria acrescentado um cartaz nas costas no qual, com letras bem visíveis, teria escrito:

Para mim não é segredo, meu amigo.
O que vai acontecer é que o meu primo me vai derrubar do trono, nem mais, nem menos.

Não seria decoroso, ainda que conveniente. Quanto à sobrecasaca, vesti-a, contudo, porque, assim, o misterioso informador ia-me mantendo a par de todos os prodígios que via por sua conta e deixava-me tempo livre para as minhas vulgaridades. Admirável servidor, espelho de súbditos leais e de videntes! Foi pena a sua insistência no anonimato. Foi assim que fiquei a saber, quando ainda era grão-duque, das cavalgadas nocturnas dos meus mortos. Agora que estou destronado, vejo os que regressam do mar. E falarei deles.

Será conveniente que apresente, também, ao comandante dos meus exércitos, o meu amigo Fritz, barão de Cronstadt por concessão do czar Pedro I a um antepassado seu. Não sei qual dos meus avós autorizou a família dele a usar o título no meu país. Em sociedade, chamavam-lhe Cronstadt; no quartel, comandante; no meu palácio, simplesmente, Fritz». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

terça-feira, 12 de novembro de 2019

O Prisioneiro da Torre Velha. Quare? Fernando Campos. «Ficava-nos também na amada terra. O coração, que as mágoas lá deixavam…»

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O Naufrágio
«(…) Finalmente, uma quarta-feira pela manhã, vinte e quatro de Setembro, faz-se à vela a armada. Tanta mocidade, força de ânimo, confiança de longa vida se embarcam nestes seis poderosos navios! Comanda-os dom Manuel. Este, em que sigo, é a capitana. Aquele é a almiranta, seu chefe Antonio Moniz. Além, o galeão São Joseph, que tocou a António Meneses. Mais além, o galeão Santiago, capitaneado por Gonçalo Sousa. A seguir o galeão São Felipe, Que tem por cabo a Manuel Dias Andrade. Por último, a urca Santa Isabel, que governa Cristóvão Cabral. À procura de que rosto, de que gesto, de que adeus ou até-à-vista prescrutam os meus olhos a multidão que acena lenços chorosos? Não quis eu que minha mãe nem minha irmã viessem à despedida? Saímos a barra e fazemo-nos ao largo. Da amurada, olho longamente a embocadura do Tejo a desaparecer. Àquela hora, talvez…, o sim na igreja, a boda alegre e, logo à noite..., meu salgueiro em flor, murmúrio do chafariz, andorinhas a aquietar-se nos ninhos... Mar e céu, solidão, por confidente o papel, buscar o esquecimento na acção perigosa...

A costa já mal se distingue, a serra de Sintra e cinza anilada a esfumar-se...

Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam…

Ouviu-me o general? Um braço forte pousa-me no ombro: magoado como ele?
Sorrio, engolindo as lágrimas na garganta, soldado não chora, em silêncio alongando a vista o mais que posso à terra. Manuel afasta-se respeitando a minha despedida. Depois acordo ao sentir-lhe as palavras junto de capelão-mor: desaparecido el-rei Sebastião I, por alguns anos ainda se manteve o costume. Os nossos jovens fidalgos, para poderem cingir a espada, passavam a Africa…, ...provavam a valentia..., ...e eram arnados cavaleiros. Transferiram depois os reis estranhos estas cerimónias para as armadas da costa… ...comutados os três anos de Africa em cinco de embarcados. Franciscano alegre frei Paulo Estrela, dos seus trinta anos, olhos vivos, cabelos e barbas aloirados, as mãos muito brancas e magras, a voz macia mas estranhamente grave em corpo tão franzino. Durante a viagem, tive ocasião de com ele estreitar amizade. Afastava-se agora com o general pelo convés adiante. Grande é a faina a bordo, mestre Joaquim grita ordens, correm os moços esforçados. Segundo a ordenança, procura-se conservar a navegação cinquenta léguas apartada da costa e bordejar até vinte de Outubro. Se as naus da Índia não aparecerem até esse tempo, o governo de Portugal disporá o que for mister.
Terça-feira, trinta de Setembro, rezava o diário de bordo. Navegávamos les-sueste, por todo o quarto de alva, ou modorra como lhe chama a gente rude, que é a terceira vigia da noite. Ao romper da manhã. Um escudeiro fidalgo vem postar-se a meu lado na amurada: é a tua primeira vez? É, olho-o como a interrogar-me quem seja. Pedro de Góis, para te servir. Francisco Manuel. Muita honra. Nos Aventureiros? Sim. E tu?» In Fernando Campos, O Prisioneiro da Torre Velha, Quare?, 2003, Difel SA, 2003, ISBN 972-290-669-0.

Cortesia de Difel/JDACT

A Obra Poética. Dom Francisco Manuel de Melo. Pedro Serra. «Até um livro me dizem que saiu agora que chamam Hora de Todos, que, com galantaria digna de seu autor, se esmera muito em provar, com discursos e exemplos, esta verdade»

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Apólogos Dialogais e diálogos alegóricos
«(…) Os Apólogos Dialogais, de que conservamos quatro completos, Os Relógios Falantes, O Escritório Avarento, A Visita das Fontes e O Hospital das Letras, o esboço de um outro, A Feira dos Anexins, e o indício de que um sexto terá ficado por realizar, O Cabido dos Coches, não foram editados em vida de dom Francisco Manuel Melo. A editio princeps dos quatro diálogos imaginários data da centúria de setecentos e só nos finais do século passado se deu a conhecer A Feira dos Anexins. Não são excepções, a este respeito, no conjunto da vastíssima obra do autor da farsa O Fidalgo Aprendiz. Seja como for, isso não significa que os diferentes textos, em conjunto e em separado, não tivessem circulado com feliz fortuna. Quando Francisco Manuel Melo escreve os Apólogos tinha já atrás de si obras sobremaneira importantes no âmbito do barroco peninsular. Em castelhano, escrevera a Historia de los movimientos y separación de Catalunya, obra dada à estampa em Lisboa em 1645, com o pseudónimo de Clemente Libertino. É, sem dúvida, o livro que lhe granjeou mais fama em Espanha. Juan Luis Alborg, no capítulo referente ao Barroco da sua conhecida Historia de la literatura española, recorda as palavras encomiásticas de Cayetano Rosell, para quem o texto historiográfico de Francisco Manuel é la joya de más precio que brilla en todo nuestro tesoro histórico e, ainda, el modelo más perfecto de aquel siglo.
O próprio Alborg se pronuncia em termos elogiosos:

Melo, evidentemente, maneja un perfecto castellano y posee extraordinarias dotes para narrar y describir; sus imágenes son tan poderosas como certeras, y lo mismo los personajes que los hechos son definidos con una robusta y gráfica energía que nos parece lo más sobresaliente de la obra.

Em 1650 redige a Carta de Guia de Casados, a sua primeira obra em prosa escrita em português, texto que se destaca da tradição moralística peninsular sobre o casamento, publicando-o por primeira vez em 1651. E, claro está, há que mencionar obrigatoriamente O Fidalgo Aprendiz, escrito à volta de 1646, caso singular no panorama depauperado do teatro português coevo. Três textos que, por si sós, reservam a Francisco Manuel um lugar cimeiro na República das Letras de seiscentos. Contudo, e esta é matéria de consenso, os Apólogos superariam esses conseguimentos, já de si notáveis. Do Hospital das Letras, por exemplo, dirá um Alexandre Herculano que é certamente por todos os títulos o melhor e mais claro testemunho da vasta lição de Francisco Manoel, bem como da clareza do seu juízo em matérias literárias. O Prof. Rodrigues Lapa refere-se à constância do consenso crítico em relação aos Apólogos quando, na apresentação da sua edição de Os Relógios Falantes, afirma serem na opinião da maioria, a sua melhor obra, a que resume na verdade as prendas do seu espírito: a prontidão do chiste, a rica fantasia e a observação moral da vida e dos homens. Para Giacinto Manuppella, um dos mais documentados estudiosos destes textos, são quatro obras-primas, repassadas de imperecível vitalidade artística.
Com Os Apólogos Dialogais, Francisco Manuel insere-se numa tradição de textos cujo modelo português das primeiras décadas do século XVII é a Corte na Aldeia, de Rodrigues Lobo. Por outro lado, é o próprio Francisco a estimular a aproximação comparativa com outros textos peninsulares afins. O nome que imediatamente se nos afigura comparável é o de Francisco Quevedo, de resto amigo e correspondente de Francisco. Em Os Relógios Falantes, a Fonte Velha faz referência a La hora de todos e fortuna con seso do autor espanhol:

Até um livro me dizem que saiu agora que chamam Hora de Todos, que, com galantaria digna de seu autor, se esmera muito em provar, com discursos e exemplos, esta verdade.

Mais ainda, na Dedicatória de A Visita das Fontes, a Cristóvão Soares Abreu, Francisco recordaria uma vez mais o poeta espanhol: neste estado me acolheu esta leve ilusão que agora vos comunico. Não foi sonho, pois não é de juro e herdade que hajam de sonhar todos os dons Franciscos. Sonhou o de Quevedo, porque tinha ou Fama ou Sorte sobre que podia dormir seguro. Mas eu, que há tantos anos que não repouso, mais depressa, de muito desvelado, escreverei, antes que sonhos, dilírios!» In José Pina Martins, A Obra Poética, Dom Francisco Manuel de Melo, Excerto, História e Antologia da Literatura Portuguesa, Século XVII, nº 31, FCG, HALP, 2004, ISSN 1645-5169.

Cortesia da FCG/JDACT