domingo, 17 de janeiro de 2021

Dan Brown. O Símbolo Perdido. «Centenas de anos atrás, há quem diga que em 1703, foi fundado um braço feminino chamado Estrela do Oriente»

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«(…) Pelo contrário. Um dos pré-requisitos para se tornar maçom é que precisa acreditar numa força superior. A diferença entre a espiritualidade Maçónica e uma religião organizada é que os maçons não impõem a esse poder nenhuma definição específica ou nomenclatura. Em vez de identidades teológicas definitivas como Deus, Alá, Buda ou Jesus, os maçons usam termos mais genéricos como Ser Supremo ou Grande Arquitecto do Universo. Isso possibilita a união de maçons de crenças diferentes. Parece meio esquisito, comentou alguém. Ou, quem sabe, estimulante e libertador? – sugeriu Langdon. Nesta época em que culturas diferentes se matam para saber qual é a melhor definição de Deus, poderíamos afirmar que a tradição maçónica de tolerância e liberdade é louvável. Langdon caminhou pelo tablado. Além do mais, a Maçonaria está aberta a homens de todas as raças, cores e credos, e proporciona uma fraternidade espiritual que não faz qualquer tipo de discriminação.

Não faz discriminação? Uma integrante da Associação de Alunas da universidade se levantou. Quantas mulheres têm permissão para serem maçons, professor Langdon? Langdon ergueu as mãos, rendendo-se. Bem colocado. As raízes tradicionais da Franco-maçonaria são as guildas de pedreiros da Europa, o que a tornava, portanto, uma organização masculina. Centenas de anos atrás, há quem diga que em 1703, foi fundado um braço feminino chamado Estrela do Oriente. Essa organização possui mais de um milhão de integrantes. Mesmo assim, disse a mulher, a Maçonaria é uma organização poderosa da qual as mulheres estão excluídas. Langdon não sabia ao certo quão poderosos os maçons ainda eram e não estava disposto a enveredar por essa seara. As opiniões sobre os maçons modernos iam de um bando de velhotes inofensivos que gostavam de se fantasiar..., até um conluio secreto de figurões que controlava o mundo. A verdade estava sem dúvida em algum lugar entre essas duas concepções.

Professor Langdon, disse um rapaz de cabelos encaracolados na última fileira, se a Maçonaria não é uma sociedade secreta, nem uma empresa, nem uma religião, então o que é? Bem, se perguntasse isso a um maçom, ele daria a seguinte definição: a Franco-maçonaria é um sistema de moralidade envolto em alegoria e ilustrado por símbolos. Isso me parece um eufemismo para seita de malucos. Malucos, disse? É isso!, disse o aluno, levantando-se. Sei muito bem o que eles fazem dentro desses prédios secretos! Rituais esquisitos à luz de velas, com caixões, forcas e crânios cheios de vinho para beber. Isso, sim, é maluquice! Langdon correu os olhos pela sala. Alguém mais acha que isso é maluquice? Sim!, entoaram os alunos em coro. Langdon deu suspiro fingido de tristeza. Que pena. Se isso é maluco demais para vós, então sei que nunca vão querer entrar para a minha seita. Um silêncio recaiu sobre a sala. A integrante da Associação de Alunas pareceu incomodada.

O senhor faz parte de uma seita? Langdon assentiu com a cabeça e baixou a voz até um sussurro conspiratório. Não contem para ninguém, mas, no dia em que o deus-sol Rá é venerado pelos pagãos, eu me ajoelho aos pés de um antigo instrumento de tortura e consumo símbolos ritualísticos de sangue e carne. A turma toda fez uma cara horrorizada. Langdon deu de ombros. E, se algum de vós quiser se juntar a mim, vá à capela de Harvard no domingo, ajoelhe-se diante da cruz e faça a santa comunhão. A sala continuou em silêncio. Langdon deu uma piscadela. Abram a mente, meus amigos. Todos nós tememos aquilo que foge à nossa compreensão». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Dan Brown, Washington D.C., Literatura, Maçonaria,

sábado, 16 de janeiro de 2021

O Símbolo Perdido. Dan Brown. «Os maçons são uma sociedade supersecreta! Supersecreta? É mesmo? Langdon se lembrou do grande anel maçónico que seu amigo Peter Solomon ostentava…»

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«(…) A pedra angular foi assente nessa data e hora simplesmente porque, entre outras coisas, a auspiciosa Caput Draconis estava em Virgem. Todos trocaram olhares intrigados. Espere aí, disse alguém. O senhor está falando de..., astrologia? Exacto. Embora seja uma astrologia diferente da que conhecemos hoje em dia. Alguém levantou a mão. Está querendo dizer que os nossos pais fundadores acreditavam em astrologia? Langdon deu um sorriso. E muito. O que diria se eu lhe contasse que a cidade de Washington tem mais signos astrológicos na sua arquitectura do que qualquer outra cidade do mundo..., zodíacos, mapas de estrelas, pedras angulares assentes em datas e horários astrológicos precisos? Mais da metade dos homens que elaboraram a nossa Constituição eram maçons, estavam convencidos de que as estrelas e o destino eram interligados e prestavam muita atenção à posição dos astros no céu enquanto estruturavam seu novo mundo. Mas essa história toda de a pedra angular do Capitólio ter sido assente quando Caput Draconis estava em Virgem... Que diferença faz? Não pode ser só coincidência? Uma coincidência impressionante, considerando-se que as pedras angulares das três estruturas que formam o Triângulo Federal, ou seja, o Capitólio, a Casa Branca e o Monumento a Washington, foram todas assentes em anos diferentes, mas tudo foi cuidadosamente programado para que isso ocorresse exactamente nessas mesmas condições astrológicas.

Langdon se deparou com uma sala cheia de olhos arregalados. Algumas cabeças se abaixaram à medida que os alunos começavam a tomar notas. Alguém levantou a mão no fundo da sala. Porque eles fizeram isso? Langdon deu uma risadinha. A resposta para essa pergunta é material para um semestre inteiro. Se estiver curioso, deve fazer o meu curso sobre misticismo. Para ser franco, não acho que estejam emocionalmente preparados para ouvir a resposta. Como assim?, gritou o aluno. Experimente! Langdon fez uma pausa exagerada, como se estivesse pensando no assunto, e em seguida balançou a cabeça, brincando com os alunos. Desculpe, não posso. Alguns de vós são calouros. Tenho medo de impressioná-los. Conte para nós!, gritaram todos. Langdon deu de ombros. Talvez devessem virar maçons ou membros da Ordem da Estrela do Oriente e descobrir a resposta na origem. Nós não pode entrar, argumentou um rapaz. Os maçons são uma sociedade supersecreta!

Supersecreta? É mesmo? Langdon se lembrou do grande anel maçónico que seu amigo Peter Solomon ostentava com orgulho na mão direita. Então porque os maçons usam anéis, prendedores de gravatas ou broches maçónicos à vista de todos? Porque os prédios maçónicos possuem indicações claras? Porque os horários das suas reuniões são publicados no jornal? Langdon sorriu ao ver todas as expressões intrigadas. Meus amigos, os maçons não são uma sociedade secreta..., eles são uma sociedade com segredos. Dá na mesma, murmurou alguém. É?, desafiou Langdon. Diria que a Coca-Cola é uma sociedade secreta? É claro que não, respondeu o aluno. Bom, e se batesse na sede da corporação e pedisse a receita da Coca-Cola original? Eles nunca iriam me dar. Exactamente. Para conhecer o maior segredo da Coca-Cola, precisaria entrar para a empresa, trabalhar por muitos anos, provar que é de confiança e, depois de muito tempo, alcançar os mais altos escalões, nos quais essa informação poderia ser compartilhada. E então assinaria um termo de confidencialidade. Então o senhor está dizendo que a Franco-maçonaria é como uma grande empresa?

Só na medida em que tem uma hierarquia rígida e leva a confidencialidade muito a sério. Meu tio é maçom, entoou a voz aguda de uma moça. E a minha tia detesta, porque ele não conversa sobre isso com ela. Ela diz que a Maçonaria é tipo uma religião estranha. Um equívoco muito comum. Mas então não é uma religião? Façam a prova dos nove, disse Langdon. Quem aqui assistiu ao curso do professor Whiterspoon sobre religião comparada? Várias mãos se levantaram. Muito bem. Então me digam, quais são os três pré-requisitos para uma ideologia ser considerada religião? Garantir, acreditar, converter, respondeu uma jovem. Correcto, disse Langdon. As religiões garantem a salvação; as religiões acreditam numa teologia específica; e as religiões convertem os não fiéis. Ele fez uma pausa. Mas a Maçonaria não se enquadra em nenhum desses três critérios. Os maçons não fazem promessas de salvação, não têm uma teologia específica, nem tentam converter ninguém. Na verdade, nas lojas maçónicas, conversas sobre religião são proibidas. Então..., a Maçonaria é antireligiosa?» In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Dan Brown, Washington D.C., Literatura, Maçonaria,

A Catedral do Mar. Ildefonso Falcones. «Depois de cinco anos de duro trabalho como aprendiz, Grau conseguiu a categoria de oficial. Seguiu as ordens do mestre que, satisfeito com as suas qualidades, começou a pagar-lhe um soldo»

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Servos da terra. Ano de 1320. Quinta de Bernat Estanyol Navarcles. Principado da Catalunha

«(…) Bernat tentou em vão assimilar todos aqueles nomes, mas quando ia voltar a perguntar, o homem já tinha desaparecido. Segue por esta mesma rua até à Praça de Sant Jaume, repetiu para Arnau. Disso lembro-me. E uma vez chegados à praça, voltamos a virar à direita, disso também nos lembramos, não é verdade, meu filho? Arnau parava de chorar sempre que ouvia a voz do pai. E agora?, disse em voz alta. Encontrava-se numa nova praça, a de Sant Miquel. Aquele homem só falou de uma praça, mas não nos podemos ter enganado. Bernat tentou perguntar a um par de pessoas, mas nenhuma se deteve. Todos têm pressa, comentou para Arnau, precisamente quando viu um homem parado em frente à entrada de..., um castelo? Aquele ali não parece ter pressa; talvez... Bom homem..., chamou, por detrás do homem, tocando-lhe na capa negra. Até Arnau, fortemente agarrado ao seu peito, se sobressaltou quando o homem se virou, tal foi o susto de Bernat. O ancião judeu abanou cansadamente a cabeça. Era aquilo que as acesas prédicas dos sacerdotes cristãos conseguiam. Diz-me, respondeu-lhe. Bernat não conseguia afastar o olhar da rodela vermelha e amarela que cobria o peito do ancião. Depois, olhou para o interior daquilo que lhe parecera um castelo amuralhado. Todos os que entravam e saíam eram judeus! Todos traziam aquele sinal. Seria permitido falar com eles? Querias alguma coisa?, insistiu o ancião. Co..., como se chega ao bairro dos oleiros? Segue sempre a direito por esta rua, indicou-lhe o ancião com um gesto da mão, e chegarás ao portal da Boquería. Continua pela muralha até ao mar, e na porta seguinte fica o bairro que procuras.

Afinal de contas, os curas só tinham avisado que não se podia ter relações carnais com eles; por isso a Igreja os obrigava a usar aquelas rodelas, para que ninguém pudesse alegar ignorância sobre a condição de qualquer judeu. Os curas falavam sempre deles com grande exaltação e, no entanto, aquele velho... Obrigado, bom homem, respondeu Bernat esboçando um sorriso. Eu é que te agradeço, respondeu-lhe o velho. Mas daqui para a frente procura que não te vejam a falar com um de nós..., e muito menos a sorrir-nos. O velho cerrou os lábios num esgar de tristeza.

No portão da Boquería, Bernat deu com um grande grupo de mulheres que compravam carne: tripas e cabra. Durante uns instantes, observou como elas avaliavam a mercadoria e discutiam com os vendedores. Esta é a carne que tantos problemas ocasiona ao nosso senhor, disse para o filho. Depois, riu-se ao pensar em Llorenç de Bellera. Quantas vezes o vira a tentar amedrontar os pastores e ganadeiros que abasteciam de carne a cidade condal! Mas só se atrevia a isso, a amedrontá-los com os seus cavalos e com os seus soldados; quem levasse gado para Barcelona, onde só podiam entrar animais vivos, tinha direito de pasto em todo o principado. Bernat contornou o mercado e desceu para Trentaclaus. As ruas eram mais largas e, à medida que se aproximava do portão, observou que, diante das casas, dezenas de objectos de cerâmica secavam ao sol: pratos, malgas, panelas, jarros ou ladrilhos. Procuro a casa de Grau Puig, disse a um dos soldados que vigiavam o portão.

Os Puig tinham sido vizinhos dos Estany ol. Bernat recordava-se de Grau, o quarto de oito famélicos irmãos que não conseguiam encontrar nas suas escassas terras comida suficiente para todos. A mãe de Bernat gostava muito deles, porque a mãe dos Puig a ajudara a parir o próprio Bernat e a irmã. Grau era o mais desenvolto e mais trabalhador dos oito; por isso, quando Josep Puig conseguiu que um parente admitisse um dos seus filhos como aprendiz de oleiro em Barcelona, ele, com dez anos, fora o escolhido. Mas se Josep Puig não podia alimentar a família, dificilmente ia poder pagar as duas quartas de trigo branco e os dez soldos que o parente lhe pedia para tomar a seu cargo Grau durante os cinco anos de aprendizagem. A isso seria preciso somar os dois soldos que Llorenç de Bellera exigira por libertar um dos seus servos, e a roupa que Grau teria de levar para os dois primeiros anos de aprendizagem, porque o mestre só se comprometia a vesti-lo durante os três últimos anos. Por isso, o pai Puig acorreu à casa dos Estany ol, acompanhado do seu filho Grau, pouco mais velho que Bernat e a irmã. O louco Estany ol escutou a proposta de Josep Puig com atenção: se dotasse a sua filha com aquelas quantidades e as adiantasse a Grau, o seu filho casaria com Guiamona aos dezoito anos, quando já fosse oficial oleiro. O louco Estany ol olhou para Grau; em algumas ocasiões, quando a família do rapaz já não dispunha de outro recurso, tinha ido ajudá-los nos campos. Nunca pedira nada, mas regressara sempre a casa com alguma verdura ou algum cereal. Tinha confiança nele. O louco Estany ol aceitou.

Depois de cinco anos de duro trabalho como aprendiz, Grau conseguiu a categoria de oficial. Seguiu as ordens do mestre que, satisfeito com as suas qualidades, começou a pagar-lhe um soldo. Aos dezoito anos cumpriu a sua promessa e casou com Guiamona. Filho, disse Estany ol a Bernat, decidi dotar de novo Guiamona. Nós somos apenas três e temos as melhores terras da região, as mais extensas e as mais férteis. Eles podem precisar desse dinheiro. Pai, interrompeu-o Bernat, porque me estás a dar explicações? Porque a tua irmã já teve o seu dote, e tu és o meu herdeiro. Esse dinheiro pertence-te. Faça o que lhe parecer adequado.

Quatro anos depois, aos vinte e dois, Grau apresentou-se ao exame público que se realizava na presença de quatro cônsules da confraria. Realizou as suas primeiras obras: um jarro, dois pratos e uma escudela, sob o olhar atento daqueles homens, que lhe outorgaram a categoria de mestre, o que lhe permitia abrir a sua própria oficina em Barcelona e, claro, usar o selo distintivo dos mestres, que devia ser estampado, prevenindo possíveis reclamações, em todas as peças de cerâmica que saíssem da sua oficina. Grau, em honra do seu apelido, escolheu o desenho de uma montanha». In Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, 2006, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-511-5.

 Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Barcelona, Escrita, Ildefonso Falcones,

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

O Mágico de Auschwitz. José Rodrigues dos Santos. «Tudo o que se passa no mundo onde vivemos é em nós que se passa. Tudo o que cessa no que vemos é em nós que cessa»

jdact e cortesia de wikipedia

«O Mágico de Auschwitz revela-nos a Shoah como nunca foi mostrada. Baseando-se em acontecimentos verídicos e em personagens reais, José Rodrigues dos Santos transporta-nos ao coração do maior dos campos da morte nazis e revela-nos episódios desconhecidos do Holocausto, incluindo o papel que o misticismo e o esoterismo desempenharam na Solução Final. Uma das mais importantes obras da literatura portuguesa contemporânea». In Resumo

«Tudo o que se passa no mundo onde vivemos é em nós que se passa. Tudo o que cessa no que vemos é em nós que cessa». Fernando Pessoa.

Prólogo

«O som cadenciado das botas no alcatrão dava a impressão de que o mar chegara a Praga. E que mar! As passadas pareciam ondas, tão insistentes e furiosas que se diria fustigarem rochas. Herbert Levin decidira não ver. Recusava-se a dar importância ao que acontecia lá fora; não aceitava aquele rumo da história. Queria acreditar que se nada visse o mundo se manteria como sempre fora e não aquilo em que se estava a transformar. Mas a realidade não se inclinava aos seus desejos. Abeirou-se da janela a contragosto e do segundo andar espreitou a rua com o despeito de um espectador contrariado. Lá em baixo, ignorando os flocos de neve que salpicavam o ar de branco, os soldados marchavam em formação. Um rectângulo perfeito, sete homens de um lado ao outro da rua, vinte de frente para trás, um espaço, outro rectângulo de soldados, outro espaço, outro rectângulo de soldados. Pernas estendidas como se não tivessem joelhos, para cima e para baixo, a marcha compassada como um relógio, para cima e para baixo, os movimentos sincronizados, botas para cima, botas para baixo, a neve a cair, o branco a amontoar-se. Neve branca e corações negros. Capacetes de aço, baionetas nas espingardas, reflexos no metal, as espingardas fixas nas costas. Apenas as pernas e as botas se moviam, para cima e para baixo, para cima e para baixo; não eram homens mas máquinas, rectângulos atrás de rectângulos, uma marcha de autómatos. Não queriam saber da elegância, o que importava era a eficácia, a imponência, a ordem. A força. Aí estava então a famosa Wehrmacht. Eram aqueles os soldados que no ano anterior haviam ocupado a Áustria e os Sudetas. Nesse momento marchavam sobre o que restava da terra dos checos. O exército que aterrorizava a Europa e pusera a Inglaterra em sentido aparecera enfim, as ameaças feitas actos, para esmagar o único estado democrático da região. O que a Levin pareceu assustador naqueles soldados que se anunciavam como o futuro da humanidade é que não eram homens; diziam-se a raça superior mas pareciam-lhe os robôs de Karel Čapek, o escritor checo que morrera a tempo de ser poupado ao funeral da sua pátria. Bertie!, chamou Gerda, que se fechara na sala da costura para não ver. Tem cuidado. Não respondeu. Observava os soldados, hipnotizado; dir-se-ia que se recusava a acreditar. As formações lá em baixo não tinham fim; atrás de um rectângulo vinha sempre outro e depois outro. Era assim, havia uma hora. A Alemanha inteira parecia marchar diante do apartamento só para lhe mostrar, a si e à sua família, o imenso poder às ordens do senhor Hitler. Que’o o papá! Bertie, ajuda-me aqui com o Peter! Papá! O Pete que b inca à boua! Um lençol vermelho, com um círculo branco e a suástica no meio, foi hasteado no prédio em frente e os soldados, como um só, estenderam os braços direitos em saudação mas sem nunca pararem de marchar. Marchavam de braço estendido, as pernas alongadas como os braços, botas para cima e botas para baixo, os tacões a embaterem no asfalto sempre ao mesmo ritmo. Troavam em uníssono como se fossem os tacões a decidir a cadência, os tacões e não os soldados. Sentiu algo agarrar-se à sua perna esquerda e, como se despertasse de um transe, estremeceu e olhou para baixo. Era Peter, com o ar bonacheirão das crianças de quatro anos, que lhe puxava as calças. Papá, vamos joga à boua... Afagou-lhe distraidamente os caracóis do cabelo. Agora não, Peter. O papá está ocupado, não pode jogar à bola. Eu que o joga à boua! Lançou um olhar à porta da cozinha, à procura de ajuda. Ivanka! A empregada checa veio à porta, o avental vestido, numa mão uma faca e na outra um recipiente cheio de batatas, algumas já descascadas. Sim, senhor Levin? Será que pode contar uma história ao Peter? Uh..., está bem, senhor Levin. Ó Bertie, a Ivanka não pode tratar do menino, atirou Gerda da salinha da costura. Ela está a cozinhar! O avental, a faca e o recipiente com as batatas confirmavam o que a dona da casa acabara de dizer. Voltou-se para o filho. Queres um biscoito? Peter arregalou os olhos. Que’o! Ó Ivanka, leve o menino para a cozinha e dê-lhe um biscoito. A empregada pegou na criança ao colo e levou-a. De novo à vontade, Levin regressou à janela. A multidão agitava-se nos passeios e enchia as varandas. Havia cada vez mais gente e viam-se mais bandeiras alemãs. Muitas pessoas reagiam aos braços estendidos dos soldados com saudações: H… […] Dir-se-ia um exército de libertadores. Seria possível que os checos estivessem contentes? Não podia ser. Desde que a crise com a Alemanha rebentara, no ano anterior, a ansiedade e a consternação eram gerais. Aquela multidão só podia ser de alemães da Checo-Eslováquia, eles que tanto suspiravam por integrar o Reich. De olhar fixo no exército que entrava na cidade, Levin sentia-se estupefacto com a rapidez com que tantas mudanças radicais se haviam processado. Em 1933 ainda vivia na Alemanha. Com a subida de Hitler ao poder, fora despedido da Bolsa de Berlim e viera para Praga. Mas a Alemanha não parara. No  ano anterior os Acordos de Munique tinham começado a desmembrar o país dos checos e dos eslovacos e nesse momento os alemães completavam o trabalho. Haviam cruzado a fronteira na véspera e a rádio de Praga passara o dia a emitir de meia em meia hora apelos à população para que mantivesse a calma. Os checos tinham mantido a calma; tinham-na mantido a tal ponto que viam nesse momento os soldados alemães entrar triunfantes em Praga. Tanta calma para dar naquilo. Áustria, Sudetas, Boémia e Morávia conquistadas em menos de um ano sem que este exército disparasse um único tiro. Era obra» In José Rodrigues dos Santos, O Mágico de Auschwitz, 2020, Edições Gradiva, 2020, ISBN 978-989-616-884-1.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, Guerra, Nazismo, Literatura,

O Idiota. Fiodor Dostoiévski. «Pelos modos esse era de facto o caso, e o jovem logo confirmou tal suposição, imediatamente, com a sua presteza peculiar»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«Oh! Tempo é que não me falta; é inteiramente propriedade minha...»

«(…) O homem trigueiro à medida que escutava não perdia ensejo de rir à grande; e riu muito mais ainda quando o outro em resposta à sua pergunta Bem, mas afinal de contas o curaram?, respondeu: qual o quê! Mas então o senhor deve ter gasto muito dinheiro com isso! E nós aqui a acreditarmos nessa gente de lá, observou o homem de preto, criticando. É isso mesmo!, aparteou um indivíduo mal-ajambrado e corpulento, de uns quarenta anos, com um narigão vermelho e a cara cheia de espinhas, que estava sentado perto deles. Pelo jeito devia ser algum funcionário subalterno, com os defeitos típicos da sua classe. Pois é! Absorvem todos os recursos da Rússia para acabarem não fazendo coisíssima nenhuma! Oh! No meu caso o senhor está completamente equivocado, redarguiu o paciente chegado da Suíça, num tom amável e conciliatório. Naturalmente não posso contradizer a sua opinião, porque não estou a par de tudo isso; mas no meu caso o médico me conservou lá aproximadamente durante dois anos, à própria custa, e ainda gastou o resto do seu pouco dinheiro com esta minha viagem para cá. Como assim?! Então o senhor não dispunha de gente sua que pagasse?, indagou o homem moreno. Não; o rr. Pavlíchtchev, que costumava pagar por mim, morreu há dois anos. Escrevi, à vista disso, para Petersburgo, à sra. Epantchiná, uma parenta minha distante, mas não obtive resposta. Então tive de vir... E para onde vai agora? O senhor quer se referir.., onde vou ficar?... A bem dizer, não sei... Por aí...

Ainda não pensou nisso, não é? E os dois ouvintes riram, outra vez. E não me admiraria nada se esse embrulho aí fosse tudo que o senhor possui de seu neste mundo!, aventou o homem do sobretudo preto. Nem vale a pena apostar!, retrucou o funcionário de nariz vermelho, com ar jocoso. Eu cá não me abalançaria a isso quanto mais a aventar que aqui o amigo tenha alguma coisa no carro de bagagem. Aliás, convenhamos, a pobreza está longe de ser um vício. Pelos modos esse era de facto o caso, e o jovem logo confirmou tal suposição, imediatamente, com a sua presteza peculiar. Seja lá como for, o seu embrulho merece consideração, prosseguiu o funcionário depois que todos se riram à larga (sim, todos, pois por mais estranho que pareça, o dono do embrulho também se pusera a rir, encarando-os, o que aumentou de muito a alegria), embora se possa apostar na certa que dentro dele não haja luíses nem fredericos, e muito menos florins brunidos. Sim, pois se não bastassem as polainas que o senhor usa sobre as botinas compradas no estrangeiro, suficiente seria acrescentar a esse embrulho o tal parentesco com uma pessoa como a sra. Epantchiná, a mulher do general! Sim, convenhamos que esse embrulho aí se reveste de um valor todo especial, se é que realmente a sra. Epantchiná é sua parenta. Não vá o senhor estar laborando num equívoco, em um desses enganos que soem muitas vezes acontecer..., por via de um excesso de imaginação.

Outra conjectura certa, essa do senhor, concordou e esclareceu o jovem louro. Trata-se realmente, por assim dizer, de uma afirmação muito relativa, pois ela quase não chega a ser parenta minha; tanto que nem me surpreendi por não haver recebido resposta. Eu já contava com isso. Botou fora então o dinheiro dos selos! Hum!... Em todo o caso o senhor é franco, não tem empáfia, o que já é a seu favor! Há, há!.. Conheço o general Epantchín; aliás todas as pessoas o conhecem; basta ele ser como é; e em tempos conheci o sr. Pavlíchtchev também que pagou as suas despesas na Suíça, se é que se trata de Nikolai Andréievitch Pavlíchtchev, pois houve dois com esse nome: eram primos. O outro vive na Crimeia. O falecido Nikolái Andréievitch era um homem de valor e muito bem relacionado; chegou a possuir quatro mil servos…» In Fiodor Dostoiévski, O Idiota, 1869, 1943, Livraria Latina, Relógio d’Água, 2014, ISBN 978-989-641-401-6.

Cortesia de LLatina/Rd’Água/JDACT

JDACT, Fiodor Dostoiévski, Literatura, O Saber, 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Passado um curto período de silêncio, a mulher levantou-se, sacudiu a cinza acumulada sobre a roupa e recolheu aos aposentos, deixando o marido na mesma posição, silente e apreensivo…»

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«(…) O homem comoveu-se: obrigado, senhora. Nessa tarde, Vicente Esteves partia para Coimbra tranquilo, saudoso e aliviado. Tranquilo por levar como companhia para defesa pessoal um grupo de cinco homens que a senhora do morgado de Pombeiro lhe arranjara; saudoso da mais bela mulher que alguma vez frequentou e que horas antes o havia levado aos céus no único momento afortunado da sua precária existência; aliviado, enfim, não só por se não ter cruzado com o execrável João Lourenço Cunha, mas também pela certeza conferida pela magia das alfaias domésticas de que a comida do excelente e farto jantar não estava envenenada. Se estivesse, ele sabia-o, os chifres de unicórnio e as pedras raras que Leonor lançou na sua presença para a bacia dos cozinhados teriam mudado de cor.

Ao contrário porém do que era esperado, João Lourenço Cunha não haveria de chegar nesse dia a casa. Chegou, sim, uma semana mais tarde, exausto e com novidades de Lisboa. Soubera em Coimbra, por onde passara de regresso a Pombeiro, que el-rei Fernando I pretendia desposar a meia-irmã, dona Beatriz, e que o caso estava já a ser discutido e alvo de fortes censuras por parte de muitos nobres e clérigos, com maiores ou menores ligações à corte. Sentado à lareira, de cotovelos apoiados na dobra dos joelhos, com os braços estendidos e as mãos abertas para colherem o calor do lume, João Lourenço confidenciou à mulher: sabes, disseram-me que sua alteza real é muito dado aos afectos da infanta, e que é seu desesperado anseio desposá-la. E, ao que parece, o casamento nem será difícil de levar por diante se a Igreja lhes conceder entretanto uma dispensa canónica. Se isso vier a acontecer, se for verdade o que todos juram, a situação em Portugal terá tendência a complicar-se, porque não pode haver duas cabeças tão próximas uma da outra, do mesmo tronco e do mesmo sangue numa só corte.

Leonor Teles, também ela abancada à lareira mas a uma considerável distância do marido, de olhos pregados nas chamas, discreta e silenciosa, ia ouvindo com pouco entusiasmo a narração de João Lourenço, não sabendo porém se verdadeira ou fantasiosa. Se eles casarem, prosseguiu, meneando a cabeça em sinal de receio, o país pode vir a sofrer com o caso. E porquê, estimado esposo? Olha porquê!, exclamou ele, encolhendo os ombros, num tom alterado. Porque o trono ficaria de rastos, e se ficasse de rastos o reino de Castela via-se logo tentado a disputar a nossa coroa. E se disputasse, com o país então enfraquecido, o povo viraria na mesma hora costas ao rei para se ligar a Castela. E todos perderíamos. Como vês, é muito simples. Se assim for, se tudo acontecer como o meu estimado esposo diz, é realmente perigoso, comentou, sarcástica.

Passado um curto período de silêncio, a mulher levantou-se, sacudiu a cinza acumulada sobre a roupa e recolheu aos aposentos, deixando o marido na mesma posição, silente e apreensivo, não tanto por uma qualquer análise pessoal aos factos descritos, dado que não tinha talento ou imaginação para isso, mas pelo que terá ouvido em Coimbra a pessoas com outros dados e conhecimentos. Lá se dizia e se comentava que o jovem rei dava mais espaço à preguiça do que ao trabalho, que atribuía mais reparo aos segredos de alcova do que aos assuntos da governação, que gostava mais de soltar dois tiros numa caçada do que fazer ou assinar uma lei. E, também, que por causa da sua feição galanteadora, afável, namorisqueira, se perdia com facilidade nos encantos das donzelas que enxameavam a corte, retirando ao tempo que estava em Lisboa a disponibilidade para outros afazeres deveras importantes. Havia até quem afiançasse, embora com a prudência exigida à falta de provas, que sua alteza mantinha um caso de amor e de incesto com a irmã, passando horas aos abraços e beijos nela, pelo que no entendimento do morgado e de quem lhe terá passado a notícia não era desajustada a secreta intenção de o rei a desposar». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, José Manuel Saraiva, Literatura, Cultura e Conhecimento, 

José Varandas. Bonus Rex ou Rex Inutilis. «… a entrega de avultadas somas do tesouro real nos cofres da arquidiocese representaria o pagamento pelos danos causados pela perturbação que as medidas de Afonso II tinham causado sobre aqueles direitos da Igreja»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sancho II de Portugal. Um Conspecto Historiográfico

Com a devida vénia ao Doutor José Varandas

Fr. António Brandão (1632). Quarta parte da Monarchia Lusitana que conthem a Historia do reyno de Portugal, desde o tempo delRey D. Sancho I, até o reynado delRey D. Affonso III. Lisboa, ed. por Pedro Crasbeek, 1632

«(…) Necessariamente, era o momento para a composição entre as facções opostas. A eterna questão sobre os direitos das infantas tinha-se agravado com a intervenção de Afonso IX de Leão, fragilizando a posição dos tutores do rei. A insustentabilidade de um estado incapaz de agir e de impor a sua autoridade obrigava a que se iniciassem conversações. Herculano põe em evidência as dificuldades em que se encontravam os antigos conselheiros de Afonso II, e agora tutores do pequeno rei e a necessidade de sair do impasse político em que o reino se encontrava. Segundo Alexandre Herculano, o clero português colocou sérios entraves ao modelo centralizador de Afonso II. A sua oposição, motivada pela aplicação violenta das determinações da coroa, acabou por provocar danos insuportáveis ao aparelho do estado e à autoridade dos validos do rei. A concórdia com o clero português era vital para a manutenção do estado e da sua auctoritas. A concordata com o clero assinada em 1223 é considerada como um feliz aproveitamento por parte da Igreja das infelizes circunstâncias em que o reino se encontrava. Sendo verdadeiras as disposições contidas naquele documento, estas abrangiam muito mais do que uma mera indemnização pecuniária, com efeito o que o arcebispo pretendia era garantir condições vantajosas nos capítulos da jurisdição e das imunidades eclesiásticas; a entrega de avultadas somas do tesouro real nos cofres da arquidiocese representaria o pagamento pelos danos causados pela perturbação que as medidas de Afonso II tinham causado sobre aqueles direitos da Igreja.

De seguida, comenta criticamente a ausência de informações sobre os três primeiros anos do reinado de Sancho II nos historiadores que o antecederam. Parece, afirma, que não viram neles mais do que o movimento ordinário de um reino pacífico e, contudo, nos documentos desse período está, bem visível, a existência de uma grande agitação política. Sinónimo desta agitação é a constante mudança de grandes senhores da aristocracia portuguesa nos principais cargos da cúria. Essa acelerada sucessão de validos do rei naqueles cargos contrariava, para Herculano, o quadro tradicional observável em reinados anteriores, onde os ministros do rei se mantinham nos cargos durante muito tempo. A que se deve esta mudança na ocupação dos cargos públicos?

Herculano atribui-a aos factos ocorridos durante a menoridade do rei, onde o estado pueril do príncipe era causa dessa vertiginosa alternância de nobres em cargos públicos. Além do problema levantado pelo estado pueril de Sancho, o autor refere a existência de tensões e ódios entre a nobreza do reino e os antigos validos de Afonso II, agora tutores do pequeno rei. A ausência de um poder forte, como tinha sido o de Afonso II, levava a que os senhores lançassem mão dos mais variados processos para alcançarem os seus objectivos, atirando o reino para um estado de desordem. As referências à turbulência social daqueles primeiros tempos do reinado e às causas que as precipitaram estão dificultadas pela escassez de documentação para aquele período, mas essa ausência, pode também ser demonstrativa de um estado fraco e desorganizado, onde os normais procedimentos da chancelaria são uma das principais vítimas. Para ele cabe ao clero, em especial aos seus notáveis, o principal papel na perturbação da ordem pública. É nesta estrutura eclesiástica que os tutores de Sancho e o próprio rei encontram as maiores resistências. As tentativas de pacificação que definem os inícios do reinado de Sancho II são alcançadas à custa de grandes concessões por parte da estrutura régia à Igreja e aos seus prelados e que acabam, num prazo mais longo, por abrir novas frentes de colisão». In José Varandas, Bonus Rex ou Rex Inutilis, As Periferias e o Centro. Redes de poder no reinado de Sancho II (1223-1248),Ude Lisboa, FdeLetras, DdeHistória, Tese de Doutoramento em História, História Medieval, 2003, Wikipedia.

 Cortesia de Ude Lisboa/ FdeLetras/ DdeHistória/JDACT

JDACT, José Varandas, História, Cultura e Conhecimento, Universidade, 

Meninas. Maria Teresa Horta. «E mesmo prestes a cair, tenta imaginar como seria se pudesse voar até ela e poisar-lhe ao de leve num dos ombros macios, como faria uma pomba»

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Abismo

«(…) Estás a olhar para onde?, ouve-a perguntar-lhe num tom de voz surda e arrastada, que ultimamente tomara como sua, perdido sem remédio o antigo tom de mel. E nem estremece quando em seguida a mãe lhe pega por baixo dos braços e a ergue, leve como um pássaro de ossos miudinhos, sentindo-se tão espantada que nem dá conta de ser levada até à janela de onde jorra a luz intensa, as duas alumbradas, cegas desse extremo luzimento, tropeçando no que desconhecem uma da outra: a loucura e o afecto. Mais inimiga do que mãe, quando sem compaixão pendura a filha do lado de fora do parapeito de mármore, escaldante àquela hora da tarde, enquanto a casa se entorpece de silêncio. Ao olhar para baixo Beatriz admira-se com o abismo que de súbito se abre a seus pés, incapaz de perceber como é possível haver uma tão grande distância entre os seus sapatinhos de verniz e o chão empedrado. E decidida a aceitar, mesmo sem entender, a decisão da mãe em pendurá-la naquele imenso espaço ameaçador e solitário, limita-se a fechar os olhos, sem de nenhum modo tentar salvar-se, corpo magrinho que não se defende, balouçar fraco de criança frágil num tempo sem tempo determinável, onde nada existe mais, como se a vida se tivesse imobilizado num lugar já inexistente.

Então, entreabre as pálpebras de hóstia fina, e consumida de amor, ergue os olhos para fitar a mãe, que de braços estendidos a pendura, beleza rutilante iluminada pela chama do ódio que por ser tanto poderá consumi-la, consumindo-se a si própria, veneno de negrume álgido e monstruoso, que num disfarce de beleza torna a mãe mais deslumbrante do que nunca, olhar de ametista, enlouquecido e implacável, que o excesso de aurora parece mudar em alvura da madrepérola. Meio desfalecida a menina aquieta-se. Conivente? Dependente daqueles longos dedos afuselados, unhas amendoadas pintadas de um vermelho sanguíneo a cravarem-se debaixo dos seus braços, fininhos como galhos quebradiços, que as mangas de balão do vestido não tapam, saia enfunada pela aragem que de súbito se levanta para os lados do rio que passa na mata ao fundo, muito para lá do moinho de vento de fiar a água do poço branco, que Beatriz distingue num esvaimento sem esperança, pois em nenhum momento pensa que a mãe vá puxá-la até si, fazendo-a regressar ao resguardo ensombrecido da sala.

E mesmo prestes a cair, tenta imaginar como seria se pudesse voar até ela e poisar-lhe ao de leve num dos ombros macios, como faria uma pomba. Ressurreição? Mas inesperadamente é a mãe que a sobe, com uma pressa súbita, fria e hirta, determinada. Movida por uma qualquer razão obscura, que para sempre lhe escapará. E mal é poisada no chão da sala que lhe parece mergulhada no breu absoluto, oscila sem amparo nem orientação, presa de uma vertigem que lhe rasga o coração descompassado no peitinho transido de medo. Então, implacável, a mãe volta a aproximar-se, e ela instintivamente recua apavorada, passo curto para trás, a embater na mesa onde uma jarra de cristal oscila, enquanto uma chuva de pétalas de rosas-chá se espalha no soalho, formando um trilho acre de odores macerados que sem querer pisa, recusando-se a reparar no cruel sorriso irónico da mãe, mordido pelos seus dentes brancos e acerados de loba jovem, auréola de anjo em torno da sua cabeça delineada pela reverberação do ouro das ondas do seu cabelo solto, mão perfumada a indicar-lhe o caminho da porta, enquanto lhe grita: sai da minha vida!

Espécie de rugido rouco de fera selvagem que a atravessa como o gume afiado de uma espada, e é então que Beatriz se volta e corre e demora e escorrega e desliza até à porta fechada diante da qual pára, sem conseguir chegar à maçaneta de porcelana branca com um fio dourado, a fazê-la sentir-se mínima assim em bicos de pés, braço erguido e trémulo, e quando finalmente a consegue rodar e a porta se abre, à sua frente está o longo corredor que reconhece, mergulhado num perfeito negrume, para onde de um salto se atira em direcção ao esquecimento». In Maria Teresa Horta, Meninas, Publicações dom Quixote, 2014, ISBN 978-972-205-611-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

 JDACT, Maria Teresa Horta, Literatura, Saber, 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Eurico o Presbítero. Alexandre Herculano. «Foi então que o célebre Roderico se apossou da coroa. Os filhos do seu predecessor Vitiza, os jovens Sisebuto e Ebas, disputaram-lha largo tempo; mas, segundo parece dos escassos monumentos…»

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Os Visigodos

«A raça dos Visigodos conquistadora das terras de Hispânia subjugara toda a Península havia mais de um século. Nenhuma das tribos germânicas que, dividindo entre si as províncias do império dos césares, tinham tentado vestir sua bárbara nudez com os trajos despedaçados, mas esplêndidos, da civilização romana soubera como os Godos juntar esses fragmentos de púrpura e ouro para se compor a exemplo de povo civilizado. Leovigildo expulsara da Hispânia quase que os derradeiros soldados dos imperadores gregos, reprimira a audácia dos Francos, que nas suas correrias assolavam as províncias visigóticas de além dos Pirenéus, acabara com a espécie de monarquia que os Suevos tinham instituído na Galécia e expirara em Toletum, depois de ter estabelecido leis políticas e civis e a paz e ordem públicas nos seus vastos domínios, que se estendiam de mar a mar e, ainda, transpondo as montanhas da Vascónia, abrangiam grande porção da antiga Gália Narbonense.

Desde essa época, a distinção das duas raças, a conquistadora ou goda e a romana ou conquistada, quase desaparecera, e os homens do Norte tinham-se confundido juridicamente com os do Meio-Dia numa só nação, para cuja grandeza contribuíra aquela com as virtudes ásperas da Germânia, esta com as tradições da cultura e polícia romanas. As leis dos césares, pelas quais se regiam os vencidos, misturaram-se com as singelas e rudes instituições visigóticas, e já um código único, escrito na língua latina, regulava os direitos e deveres comuns quando o arianismo, que os Godos tinham abraçado o Evangelho, se declarou vencido pelo catolicismo, a que pertencia a raça romana. Esta conversão dos vencedores à crença dos subjugados foi o complemento da fusão social dos dois povos. A civilização, porém, que suavizou a rudeza dos bárbaros era uma civilização velha e corrupta. Por alguns bens que produziu para aqueles homens primitivos, trouxe-lhes o pior dos males, a perversão moral. A monarquia visigótica procurou imitar o luxo do império que morrera e que ela substituíra. Toletum quis ser a imagem de Roma ou de Constantinopla. Esta causa principal, ajudada por muitas outras, nascidas em grande parte da mesma origem, gerou a dissolução política por via da dissolução moral. Debalde muitos homens de génio revestidos da autoridade suprema, tentaram evitar a ruína que viam no futuro: debalde o clero espanhol, incomparavelmente o mais iluminado da Europa naquelas eras tenebrosas e cuja influência nos negócios públicos era maior que a de todas as outras classes juntas, procurou nas severas leis dos concílios, que eram ao mesmo tempo verdadeiros parlamentos políticos, reter a nação que se despenhava. A podridão tinha chegado ao âmago da árvore, e ela devia secar. O próprio clero se corrompeu por fim. O vício e a degeneração corriam soltamente, rota a última barreira.

Foi então que o célebre Roderico se apossou da coroa. Os filhos do seu predecessor Vitiza, os jovens Sisebuto e Ebas, disputaram-lha largo tempo; mas, segundo parece dos escassos monumentos históricos dessa escura época, cederam por fim, não à usurpação, porque o trono gótico não era legalmente hereditário, mas à fortuna e ousadia do ambicioso soldado, que os deixou viver em paz na própria corte e os revestiu de dignidades militares. Daí, se dermos crédito a antigos historiadores, lhe veio a última ruína na batalha do rio Chrysus ou Guadalete, em que o império gótico foi aniquilado. No meio, porém, da decadência dos Godos, algumas almas conservaram ainda a têmpera robusta dos antigos homens da Germânia. Da civilização romana elas não tinham aceitado senão a cultura intelectual e as sublimes teorias morais do cristianismo. As virtudes civis e, sobretudo, o amor da pátria tinham nascido para os Godos logo que, assentando o seu domínio nas terras de Hispânia, possuíram de pais a filhos o campo agricultado, o lar doméstico, o templo da oração e o cemitério do repouso e da saudade. Nestes corações, onde reinavam afectos ao mesmo tempo ardentes e profundos, porque neles a índole meridional se misturava com o carácter tenaz dos povos do Norte, a moral evangélica revestia esses afectos de uma poesia divina, e a civilização ornava-os de uma expressão suave, que lhes realçava a poesia. Mas no fim do século sétimo eram já bem raros aqueles em quem as tradições da cultura romana não tinham subjugado os instintos generosos da barbaria germânica e a quem o cristianismo fazia ainda escutar o seu verbo íntimo, esquecido no meio do luxo profano do clero e da pompa insensata do culto exterior. Uma longa paz com as outras nações tinha convertido a antiga energia dos Godos em alimento das dissensões intestinas, e a guerra civil, gastando essa energia, havia posto em lugar dela o hábito das traições covardes, das vinganças mesquinhas, dos enredos infames e das abjecções ambiciosas. O povo, esmagado debaixo do peso dos tributos, dilacerado pelas lutas dos bandos civis, prostituído às paixões dos poderosos, esquecera completamente as virtudes guerreiras dos seus avós. As leis de Vamba e as expressões de Ervígio no duodécimo concílio de Toletum revelam quão fundo ia nesta parte o cancro da degeneração moral das terras de Hispânia. No meio de tantos e tão cruéis vexames e padecimentos, o mais custoso e aborrecido de todos eles para os afeminados descendentes dos soldados de Teodorico, de Torismundo, de Teudes e de Leovigildo era o vestir as armas em defensa daquela mesma pátria que os heróis visigodos tinham conquistado para a legarem aos seus filhos, e a maioria do povo preferia a infâmia que a lei impunha aos que recusavam defender a terra natal aos riscos gloriosos dos combates e à vida fadigosa da guerra». In Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero, 1844, Bertrand Editora, 2011, ISBN 978-972-252-299-1

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Alexandre Herculano, História, Visigodos, Século VIII, Literatura,

Poesia. Florbela Espanca. «E nesta febre ansiosa que me invade, dispo a minha mortalha, o meu burel, e, já não sou, Amor, Sóror Saudade...»

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Charneca em flor

«Enche o meu peito, num encanto mago,

O frémito das coisas dolorosas...

Sob as urzes queimadas nascem rosas...

Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago

Em mim? Eu oiço bocas silenciosas

Murmurar-me as palavras misteriosas

Que perturbam meu ser como um afago!

E nesta febre ansiosa que me invade,

Dispo a minha mortalha, o meu burel,

E, já não sou, Amor, Sóror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,

Boca a saber a sol, a fruto, a mel:

Sou a charneca rude a abrir em flor!»

Versos de orgulho

«O mundo quer-me mal porque ninguém

Tem asas como eu tenho! Porque Deus

Me fez nascer Princesa entre plebeus

Numa torre de orgulho e de desdém!

Porque o meu Reino fica para Além!

Porque trago no olhar os vastos céus,

E os oiros e os clarões são todos meus!

Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu amor?!

O jardim dos meus versos todo em flor,

A seara dos teus beijos, pão bendito,

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...

São os teus braços dentro dos meus braços:

Via Láctea fechando o Infinito!...»

Rústica

«Ser a moça mais linda do povoado.

Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,

Ver descer sobre o ninho aconchegado

A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,

Cheirando a alfazema e a tomilho...

Com o luar matar a sede ao gado,

Dar às pombas o sol num grão de milho...

Ser pura como a água da cisterna,

Ter confiança numa vida eterna

Quando descer à terra da verdade...

Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!

Dou por elas meu trono de Princesa,

E todos os meus Reinos de Ansiedade».

Sonetos de Florbela Espanca, in Charneca em Flor

In Florbela Espanca, Charneca em Flor, 1931, Editorial Estampa, 2013, ISBN 978-972-332-716-8.

Cortesia de EEstampa/JDACT

JDACT, Florbela Espanca, Poesia, Alentejo,

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

José Varandas. Bonus Rex ou Rex Inutilis. «… os historiadores desprezaram ou controverteram um facto bem simples e que, todavia, é como o elo e origem da cadeia de acontecimentos que prepararam a queda do infeliz príncipe»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sancho II de Portugal. Um Conspecto Historiográfico

Com a devida vénia ao Doutor José Varandas

Fr. António Brandão (1632). Quarta parte da Monarchia Lusitana que conthem a Historia do reyno de Portugal, desde o tempo delRey D. Sancho I, até o reynado delRey D. Affonso III. Lisboa, ed. por Pedro Crasbeek, 1632

«(…) Torna-se numa questão fundamental e incontornável na abordagem ao estudo deste reinado pela historiografia portuguesa posterior a este autor. Quer seguindo-lhe linearmente as interpretações, quer intervindo criticamente sobre as suas afirmações menos consistentes, ninguém mais se eximiu, ao falar deste reinado, a colocar a questão da menoridade de dom Sancho. A maioria dos autores que precederam Alexandre Herculano mostram-se incertos quanto à idade com que Sancho II herda a coroa, embora na generalidade atribuam ao novo monarca a idade de vinte e três anos. Herculano reconsidera a data precisa do nascimento do príncipe, afirmando que nunca poderia ter antecedido os meses finais do ano de 1209 e que certamente as datas dos documentos teriam sido mal lidas, pois considera erradas as leituras de fr. António Brandão, em especial a contida no instrumento de doacção de dona Estevaínha Soares ao mosteiro de Tarouca, onde teria sido lida a data de 1241, em vez da era de 1251 (1213), lida por Viterbo.

Alexandre Herculano considera verosímil este casamento para o final de 1208 ou princípio de 1209, indicando que o nome da rainha dona Urraca passa a figurar ao lado do marido e do sogro, pelo menos a partir de Fevereiro de 1209. Recorda, na sua nota XIV, uma passagem de Flores, onde se refere que uma das causas directas que provocaram o conflito entre Sancho I e o bispo do Porto, Martinho Rodrigues, teria sido a maneira como o prelado portuense teria tratado os noivos ao entrarem naquela cidade. A utilização crítica de diversos documentos permite precisar melhor a idade do rei. Considera determinante o facto de na famosa composição com as tias se dizer que o príncipe ainda não tinha atingido os catorze anos de idade; ou as expressões papais contidas na bula Grandi non immerito que se referem ao infante como tendo herdado a coroa paterna na idade da puerícia.

Posteriormente, a publicação sistemática da documentação de Sancho I vem balizar com precisão a data daquele casamento, confirmando a opinião de Herculano. O primeiro documento onde dona Urraca figura como mulher de Afonso II é de Fevereiro de 1209. Como o último instrumento régio, sem aparecer referência à rainha é de Novembro de 1228, o casamento terá ocorrido entre aquelas duas datas. A menoridade de Sancho serve de pretexto a Alexandre Herculano para acrescentar uma nova dimensão às tensões existentes entre os partidários do modelo centralizador e os seus opositores. A clarividência de Afonso II ao prever o seu desaparecimento precoce, já que era provável que tivesse consciência de que a morte se aproximava, também admitia que todo o seu labor em prol do fortalecimento do poder régio poderia ser posto em causa pela transmissão do poder para as mãos de uma criança.

Os testamentos do rei definem claramente que o príncipe herdeiro, caso seja menor, deve ser aconselhado pelos seus validos, homens de confiança e a regência confiada a dona Urraca. No último testamento, posterior à morte da rainha, determina que essa regência passe aos ricos-homens que exerciam os mais altos cargos do estado que passarão a reger os destinos do reino em nome do príncipe. Diz Herculano sobre a menoridade do rei que: os historiadores desprezaram ou controverteram um facto bem simples e que, todavia, é como o elo e origem da cadeia de acontecimentos que prepararam a queda do infeliz príncipe.

Os defeitos de leitura sobre a data de nascimento do herdeiro do trono terão levado a um fatal erro de interpretação sobre as capacidades do novo rei, pois era considerado adulto e responsável pelos seus actos. Mas não o era. Para Herculano, Sancho II, não era ainda adulto quando herda o trono, e esse facto será impossível de dissociar da imagem de mau governante que a história lhe dará. À imagem de um rei infantil, ainda impreparado para a governação liga-se o estado em que Portugal se encontra. O rei morrera excomungado e os seus antigos privados assumiam-se plenos de autoridade como regentes do reino, mantendo a pressão sobre sectores do clero e da nobreza terra-tenente que durante todo o reinado anterior se tinham oposto ao crescimento da autoridade régia. A maioria das questões estava por resolver. O reino estava interdito, o rei por sepultar em campo santo, as justiças do reino impedidas de funcionar». In José Varandas, Bonus Rex ou Rex Inutilis, As Periferias e o Centro. Redes de poder no reinado de Sancho II (1223-1248),Ude Lisboa, FdeLetras, DdeHistória, Tese de Doutoramento em História, História Medieval, 2003, Wikipedia.

Cortesia de Ude Lisboa/ FdeLetras/ DdeHistória/JDACT

JDACT, José Varandas, História, Cultura e Conhecimento, Universidade,

Bonus Rex ou Rex Inutilis. José Varandas. «O resto é a guerra. Sancho II tenta por todos os meios impedir que seu irmão ocupe o governo do reino. Afonso, desembarca em Lisboa em 1245…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sancho II de Portugal. Um Conspecto Historiográfico

Com a devida vénia ao Doutor José Varandas

Fr. António Brandão (1632). Quarta parte da Monarchia Lusitana que conthem a Historia do reyno de Portugal, desde o tempo delRey D. Sancho I, até o reynado delRey D. Affonso III. Lisboa, ed. por Pedro Crasbeek, 1632

«(…) cavaleiros e aos povos, aos religiosos e clero do dito reino todos os bons costumes e foros escritos e não escritos que tiveram em tempo de meu avô e de meu bisavô; e farei que se tirem todos os maus costumes e abusos introduzidos por qualquer ocasião ou por qualquer pessoa, em tempo de meu pai e irmão, e particularmente, quando se cometer homicídio, que se não leve dinheiro aos vizinhos do morto, mormente quando é manifesto quem foi o matador…

O resto é a guerra. Sancho II tenta por todos os meios impedir que seu irmão ocupe o governo do reino. Afonso, desembarca em Lisboa em 1245, nomeado curador do reino e pouco tempo depois, a pedido do rei de Portugal, uma hoste de cavaleiros castelhanos, às ordens do futuro Afonso X, atravessa as fronteiras do Côa e juntam-se às forças de Sancho.

Enquanto o conde de Bolonha andava em Portugal, vencendo na guerra as dificuldades que ocorriam e tratando de dar satisfação na paz às esperanças que dele se tinham, el-rei Sancho, em Toledo, livre já dos encargos do reino e bem desenganado do pouco caso que se pode fazer das cousas da vida, passava o tempo com quietação e repouso….

O rei preparava-se para morrer naquela cidade e à sua morte, António Brandão, escreve sobre o último enigma daquele reinado, os dois testamentos e sobre o que eles contêm, e mais uma vez, o seu espírito arguto detecta inconsistências e incoerências, que hão-de acompanhar a historiografia portuguesa. Às vezes cronista, armado com a pena do patriotismo, faz descrições perturbantes das qualidades de um rei que foi deposto; outras vezes, sereno, frio, isento, abandona com desprezo as antigas crónicas, monumentos incompletos e mergulha nos pergaminhos dos mosteiros, das igrejas, das chancelarias régias e, neles descobre, outras verdades sobre aquele rei, sobre Sancho II que morreu em Toledo no princípio do ano de 1248. Do que leu e depois escreveu, não mais a história portuguesa se esqueceu, e da vida, feitos e desventuras daquele rei, nenhuma história se pode fazer sem parar nestas páginas que, na primeira metade do século XVII um monge de Cister, mandou imprimir. Ainda hoje a História de Portugal de Alexandre Herculano pode ser considerada como o grande monumento historiográfico português do século XIX. Profundamente influenciado por uma exigente e moderna historiografia europeia estava convicto de que a história só podia ser feita a partir de documentos autênticos. A necessidade de uma grande exigência crítica ao nível das fontes, requisito fundamental para uma verdadeira reconstrução dos acontecimentos, levava-o a demarcar-se dos modelos historiográficos que o precederam e que não contemplavam a necessidade da crítica histórica, ou daqueles que se limitavam a produzir histórias genealógicas, biográficas ou narrativas de feitos heróicos onde os objectivos eram bem claros e pouco tinham a ver com a verdade histórica.

Nesta obra valoriza os aspectos político-militares dos reinados de Sancho I, Afonso II e Sancho II onde o modelo de análise político-institucional predomina e é muitas vezes acrescentado com outras perspectivas. Os fenómenos económicos, culturais e mentais, transparecem em muitos dos seus parágrafos e a observação sistemática dos acontecimentos passados durante a governação de Sancho II é prenhe desta conexão entre o modelo institucional e os outros contextos. Vale a pena recordar a observação de Vitorino Magalhães Godinho de que em Herculano: coexistem dois historiadores: o da parte social da história de Portugal, da história dos bens da Coroa [...] e o da parte narrativa, dos acontecimentos da História de Portugal...

Lutava Herculano pela neutralidade do historiador em relação à época passada que queria estudar, mas ele próprio não ficou imune aos condicionalismos e tentações do seu tempo. Era inevitável que a história passasse a ser cada vez mais entendida (e produzida) como uma ciência aplicável, que explicava o presente de forma pedagógica a partir da reconstituição do passado. Historiador liberal, acreditava na observação objectiva do passado como modelo explicativo do presente e antecipador do futuro. O seu projecto historiográfico assentava na crítica das fontes disponíveis, aproveitando os esforços que nesse sentido os monges beneditinos do século XVIII tinham desenvolvido, e desvalorizava os modelos tradicionais que punham em evidência as vidas singulares dos monarcas e das suas famílias, em detrimento da reconstituição das mudanças sociais e políticas, como por exemplo, a evolução dos sistemas jurídicos, económicos e culturais. Lançava, desta forma o anátema contra a história dos reis e das genealogias. O seu projecto almejava a reconstituição da sociedade e não a história dos indivíduos, embora lhe fosse difícil negar a importância do indivíduo na história. É o que se passa com os dois filhos de Afonso II, que entre 1245 e 1248 disputam o trono de Portugal.

Carregada e melancólica rompia a aurora do reinado de Sancho II.

A chegada ao poder do novo rei acontece num clima de grande perturbação em torno da coroa e do sistema político vigente. Com a morte de Afonso II, Herculano introduz uma questão no seio das preocupações da historiografia portuguesa: a menoridade de Sancho II. Este tema já tinha sido apontado por António Brandão, embora com incorrecções no que diz respeito a datas. Herculano retoma-o, de forma crítica, construindo sobre a idade insuficiente do rei a ideia de que aí estava o início de alguns dos problemas que diminuiram a governação de Sancho, em especial aqueles que foram condicionados pela personalidade, vista como inconstante, do monarca. Com efeito, é com Alexandre Herculano, que esta questão ganha substância e assume personalidade própria na historiografia portuguesa». In José Varandas, Bonus Rex ou Rex Inutilis, As Periferias e o Centro. Redes de poder no reinado de Sancho II (1223-1248),Ude Lisboa, FdeLetras, DdeHistória, Tese de Doutoramento em História, História Medieval, 2003, Wikipedia.

Cortesia de Ude Lisboa/ FdeLetras/ DdeHistória/JDACT

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